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:VinÒWNOM
BAJT$ Bp B i p t r ô O M OBSpdBjS^ O p B J
CAPA: sobre ilustração da esfera armilar,
símbolo do poder majestático

O Autor

O significado da esfera é, no léxico sim-
Este é um livro delimitador de fronteiras. Ao leitor
bólico, em geral, o de um poder universal.
que não tenha interesse em se definir perante uma si-
D. João II, em 1483, deu ao futuro D.
tuação do máximo interesse nacional, aconselhamos que
Manuel I (1495 — 1521), por divisa, essa
não o leia. Monarquia: verdades e mentiras não é um
figura, como representada pelos astróno-
mero ensaio literário-histórico. Repetimos: as suas pá-
mos, vendo o cronista Damião de Goes
ginas são argumentos que obrigam a uma tomada de
nessa concessão um possível "mistério
posição, naquela certeza estabelecida por Herbert Pa-
profético". A divisa pessoal do Rei Ven-
rentes Fortes, de que "não é possível ser político em
turoso, com efeito, vai permanecer na
vão: ou o seremos para o bem de um povo, ou o seremos
imagem régia, a esfera armilar simboli-
para seu mal".
zando o poder majestático. Aparece a
Nesta compreensão se situa o autor da presente obra, princípio sem estilização, mas depois dos
tanto quanto o seu editor: o Brasil só retomará o seu meados do século XVIII é figurada ape-
destino histórico quando enfrentar, com honestidade e nas pelas armilas. Assim a coloca D. João
destemor, o retomo da Monarquia ao Poder, para a con- VI nas armas do Reino do Brasil, em
dução de seus passos junto aos países que têm cons- 1816, e a insere D. Pedro 1, em 1822,
ciência de seu papel na evolução político-social da hu- nas do Império. Signo da mais pura tra-
manidade, pois a verdade é que, com o golpe de 15 de dição monárquica, encarnada na dinastia
novembro de 1889, o Brasil perdeu essa consciência. de Bragança, é motivo de bela obra de
Nesse momento, o Brasil afastou-se do núcleo que abri- ourivesaria de Carlos Marin, de 27 cen-
gava as nações do mundo civilizado. tímetros de altura, e esteve presente nas
Prometida a consulta popular, somente cem anos de- principais cerimónias durante o reinado
pois a República realizou um plebiscito. Mas as forças de Dom Pedro II. A Redentora sempre a
que aí disputaram a vitória eram forças díspares: uma, teve junto a si, consciente de seu valor
poderosa, dona de todos os recursos políticos, financeiros simbólico e como lembrança constante da
e tecnológicos, que dominam o Brasil a seu talante, dele herança secular que lhe tocava, compos-
extorquindo todas as energias em benefício próprio, in- ta muito mais de deveres do que de di-
capacitados, porém, de exauri-lo completamente. Fal- reitos. A esfera assenta em um pé, tendo,
tou-lhe, entretanto, a essa poderosa soma de interesses, por baixo, o selo imperial. D. Isabel dei-
um lastro moral indiscutível que subscrevesse todos os xou o emblema majestático a seu primo-
seus atos. A outra, dotada de infinitamente menores re- génito, o Príncipe do Grão-Pará, que, com
cursos, além de politicamente desestruturada, estava en- a mesma reverência, o tinha ininterrup-
tretanto revestida de inesgotável energia, haurida nas tamente em sua mesa de trabalho. Seu
páginas de nossa história — e sobretudo no exemplo filho mais velho, o Príncipe D. Pedro,
de vultos cuja eminência o tempo acentua ao passar dos herdou o símbolo augusto e o conserva
dias, demonstrando uma superioridade sem igual. do mesmo modo e com iguais sentimen-
tos no Palácio do Grão-Pará.
Ganho o plebiscito pela República, como que cha-
mando a atenção para o erro cometido, viu-se o cenário
(texto impresso em reprodução da esfera,
brasileiro entulhado — como jamais o fora em tempo
publicado pelo Palácio do Grão-Pará)
MONARQUIA:
VERDADES E MENTIRAS
T R A B A L H O S DO A U T O R

Autoritarismo e impunidade — Um per/il do democratismo brasileiro. Editora Alfa-Ômega. São
Paulo. 1988.

Democracia e realidade brasileira. Editora Alfa-Ômega. São Paulo. 1988.

A evolução do controle da constitucionalidade e a competência do Senado Federal. Editora
Revista dos Tribunais. São Paulo. 1992.

NO PRELO
A Chefia do Estado. Editora Revista dos Tribunais, São Paulo.

Direitos subjetivos e proteção possessória. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo.

ARTIGOS EM REVISTAS ESPECIALIZADAS
"Da inconstitucionalidade do art. 175, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal", in
Revista de Informação Legislativa. Subsecretaria de Edições Técnicas do Senado Federal, Brasília,
Volume 87, Julho-Seteinbro de 1985.

"Defeitos dos negócios jurídicos", in Revista das Faculdades Franciscanas. Bragança Paulista,
Volume 3. 1985.

"A Constituinte e o ensino", in Revista das Faculdades Franciscanas. Bragança Paulista, volume
3, 1985.

"Estudos sobre a ação rescisória", in Revista da Universidade São Francisco. São Paulo, Volume
4, 1986

"República/Monarquia", in Digesto Económico (publicação da Associação Comercial de São
Paulo), Ano X L V I . n" 342. Maio-Junho/1990.

"Comparando objetivamente dois regimes", in Digesto Económico (publicação da Associação
Comercial de São Paulo), Ano XLV1I1. n° 355/356, Julho a outubro/1992.

ARTIGOS EM JORNAIS
"A inspiração de 1891", in D. O. Leitura (suplemento literário mensal da Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo), n" 82, Março/1982.

"Terceiro reinado?." in D. O. Leitura (suplemento literário mensal da Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo), n° 92. Janeiro/1990.
Paulo Napoleão Nogueira da Silva
Do Instituto dos Advogados de São Paulo
Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

MONARQUIA
VERDADES E MENTIRAS

NOVOS ENSAIOS BRASILEIROS
— Figuras, idéias e fatos —
Edições GRD
São Paulo
1994'
NOVOS ENSAIOS BRASILEIROS
— Figuras, idéias e fatos —

I
PRINCESA ISABEL
Uma vida de luzes e sombras
Hermes Vieira

II
EUCLIDES, O ESTILIZA DOR DE NOSSA HISTÓRIA
Hebert Parentes Fortes

CAPA:

Silva. Paulo Napoleão Nogueira da
Monarquia: verdades e mentiras / Paulo Napoleão Nogueira da Silva. — São
Paulo: GRD. 1994. — (Novos ensaios brasileiros : figuras, idéias e fatos : v. 3)
Bibliografia.

1. Brasil — História — I c II Império — República. Século 20 : plebiscito.
I. Título. II. Série.

CDD - 923.181
- 326.0981
- 981.043

índice para catálogo sistemático:

1. Brasil : Império / República : Ciência política
2. Brasil : Família imperial
3. Primeiro c Segundo Império / República : História

Reservados os direitos de reprodução, tradução e adaptação. Copyright
by Paulo Napoleão Nelson Basile Nogueira da Silva. Direitos da presente
edição reservados por Gumercindo Rocha Dorea F lnd„ rua 13 de Maio, 363,
CEP 01327-020, São Paulo, SP.
"EXISTEM PESSOAS QUE SONHAM
DE OLHOS ABERTOS E OUTRAS QUE V I -
V E M DE OLHOS FECHADOS"
(da canção "Le Cabaret de la Dernière
Chance", de Pierre Barouth)

ir

À minha mulher, Cleonice, sem
cuja paciente colaboração este livro não
poderia ter sido escrito.
ÍNDICE
I — Ao leitor 13
II — Introdução 15

1. O programa de condicionamento ideológico republicano 21
1.1.0 "caminho natural" 25
1.2. As eleições diretas 27
1.3. O voto obrigatório 29
1.3.1. Ainda sobre eleições diretas 31
1.4. Liberdade e anti-liberdade 34
1.5. A "modernidade" 35
1.6. Os títulos de nobreza 37
1.7. Conclusões sobre os mitos 38

2. A imprensa e o patrulhamento 41
2.1. O papel da imprensa 42
2.2. Antolhos culturais 47
2.3. Outros cacoetes 53
2.3.1. O nativismo 54
2.3.2. O indianismo e a "negritude" 55

3. O Império 57
3.1. A primeira fase 22
3.2. A segunda fase 24
3.3. A terceira fase 27
3.3.1. A unidade nacional 27
3.3.2. As distorções de formação 81
3.3.3. O escravagismo 86
3.3.4. Sobre economia 92
3.3.5. Os poderes do Imperador 93
3.3.6. O Poder Moderador 95
3.3.7. A moralidade pública 99

9
lu
8.2. Hungria e Áustria 191
3.3.8. A ordem jurídica -> 8.3. Bulgaria 192
3.3.9. A representação eleitoral '03 8.4. Portugal 192
3.3.10. O aspecto social 104 8.5. Italia 192
3.3.11. O progresso 1°5 8.6. Grécia 194
3.3.12. A educação e o ensino 105 8.7. Rússia 195
3.3.13. A posição internacional 106 8.8. França 195
4. Antecedentes da instauração da República 109 8.9. Alemanha 196
8.10. Sérvia/Iugoslávia 196
4.1. O caudilhismo 11°
4.2. O "troco" dos escravocratas 111 9. As Famílias Reais 197
4.3. O jacobinismo 112 9.1. O casamento entre príncipes 202
4.4. O machismo "3 9.2. A preparação para a Chefia de Estado 204
4.5. A concupiscencia 115 9.3. A sucessão, a legitimidade e o "serviço" 204
4.6. Os interesses norte-americanos 117
10. Os Orleans e Bragança 213
5. A "proclamação" da República 121
10.1. O bom rei João 213
5.1. Uma oportunidade perdida 126 10.2. Dom Pedro I 222
10.3. A Família Imperial 227
6. Resultados da República 129
10.4. A "questão dinástica" 228
6.1. O poder "moderador" militar 130 10.5. Os dois "ramos" 235
6.2. O descrédito 132 10.5.1. O "ramo" de Petrópolis 235
6.3. O descrédito e a classe política 133 10.5.2. O "ramo" de Vassouras 238
6.4. A perda da identidade 135 10.6. A "questão" 244
6.5. As idéias de separação 138 10.6.1. Conclusões 251
6.6. A inviabilidade institucional 142 10.7. A questão patrimonial 252
6.6.1. Ainda sobre a inviabilidade 144 10.8. A famosa enfiteuse de Petrópolis 256
10.8.1. Esclarecimentos 256
7. Monarquia na atualidade 147
10.8.2. Sobre o instituto da enfiteuse 257
7.1. A monarquia moderna 150
7.2. A Chefia de Estado 154 11. O movimento monárquico 261
7.3. Chefia de Estado e presidencialismo 157
7.4. Funções da Chefia de Estado 160 12. A campanha do plebiscito 265
7.4.1. Parênteses sobre o aconselhamento 161 12.1. Sobre o plebiscito 269
7.5. Chefia de Estado, Monarquia e República 162 12.2. Sobre a antecipação 272
7.6. Monarquia e magistratura '73 12.2.1. Aspectos jurídico-constitucionais da antecipação 273
7.7. Monarquia e representatividade 174 12.2.2. Historiografia e iconografia republicanas 279
7.8. Monarquia e responsabilização • • • 174 12.2.3. Parênteses sobre Tiradentes 279
7.9. O custo da monarquia 176 12.2.4. "Cautelas" da classe política 285
7.10. Sobre a "modernidade" 181
13. Brasil pós-plebiscito 287
7.11. O bem comum 182
13.1. O Parlamento e o Poder Executivo 288
8. Perspectivas de reintrodução da Monarquia no ex- 13.2. Monarquia pós-plebiscito 290
terior 189 13.3. Presidencialismo e Monarquia 292
13.4. A Monarquia e a estrutura do Estado 294
8.1. Roménia 191
11
10
13.4.1. A questão da moralidade pública 294
13.4.2. A questão tributária 296
13.4.3. A questão da autonomia política 296
13.4.4. Supremacia do interesse público 298
13.4.5. A Constituição 299
13.4.6. Parlamento bicameral 299
13.4.7. Assembléias Legislativas 299
13.4.8. Coincidência de eleições e de mandatos 300
13.4.9. Ordem jurídica 300
13.4.10. Responsabilização dos agentes públicos 301
13.4.11. A divisão territorial 301
13.4.12. Os municípios 302
13.4.13. O funcionalismo público 302
13.4.14. As Forças Armadas 303
13.4.15. O autoritarismo 304
13.4.16. Imunidades parlamentares 305 Ao leitor
13.4.17. Elegibilidade 306
13.4.18. Voto facultativo 306
13.4.19. Aposentadorias 306 A extraordinária crise de ética destes tempos que correm tornou quase
13.4.20. Família Imperial 307 natural a prática das "versões" engendradas sobre fatos, pessoas ou temas,
13.4.21. Títulos honoríficos 308 para servir aos interesses de quem as cria ou divulga. Em consequência,
impera uma até certo ponto disfarçada, mas palpável, nova espécie de sec-
14. Regime político e sinceridade 309
tarismo, a grife cultural e informativa. Essa prática é o vestíbulo do homem-
14.1. O espírito da Monarquia 312 coisa, grande astro do Admirável Mundo Novo, de Huxley; um embuste,
14.2. A lógica das conclusões 321 segundo o qual só é válida a versão estereotipada que atende àqueles interesses.
14.3. As raízes brotaram 322
Neste livro, como em anteriores, o autor tem por parâmetro manter-se
15. Bibliografia 325 fiel à figura do narrador e apreciador sincero da História e dos fatos, traçada
15.1. Periódicos referidos 329 por Taine:
15.2. Arquivos consultados 330 "... ele se irrita contra as meias-verdades que são as meias-fal-
15.3. Outros documentos 330 sidades, contra os autores que não alteram nem uma data, nem uma
15.3.1. Decreto n° 5 (19-11-89) 330 genealogia, mas desnaturam os sentimentos e os costumes; que guardam
15.3.2. Decreto n° 85 A (23-12-89) 331 os contornos dos acontecimentos, mas mudam o seu significado, que
15.3.3. Correspondência da Princesa Isabel 332 copiam os fatos, mas desfiguram-lhes a essência... "
15.3.4. Manifesto do Alte Saldanha da Gama 333
Assim, se nas páginas que seguem o leitor espera encontrar a confir-
16. Parecer sobre a renúncia do príncipe D o m Pedro
mação de radicalismos ideológicos ou versões falaciosas, ficará decepcionado:
de Alcântara 337 não nos comovem tais bloqueios e condicionamentos culturais.
Para a verdade dos fatos, do passado recente ou de um passado que
se projeta para o presente e está vivo hoje, ou do presente que se projeta
para o amanhã, não temos qualquer limitação ou inibição em reconhecer,
como monumentos da nossa História, Dom João V I , Pedro I e José Bonifacio,
de um lado, e Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcellos, de
outro; Zacharias de Góis e Vasconcellos e o visconde do Uruguai, ou o

13
12
marquês de São Vicente; Getúlio Vargas, Plínio Salgado e Eduardo Gomes;
Plínio Corrêa de Oliveira e Afonso Arinos de Mello Franco; Dom Pedro
Gastão de Orleans e Bragança e Dom Bertrand de Orleans e Bragança. Pois,
todos eles, em maior ou menor medida, têm sua parcela de autenticidade e
verdade; da mesma forma como jamais houve teoria perfeita sobre qualquer
assunto, ou teoria completamente imprestável.
Só não nos condoemos com o vazio das grifes de fachada, que, infe-
lizmente, pontificam em muitos palanques pseudo-culturais.

O autor

Introdução

Ao julgar uma contenda, o juiz é neutro. Nem por isso sua sentença
dá por empatada uma causa. Ele pesa com imparcialidade os elementos pro-
bantes; e, apesar de neutro e imparcial, diz onde estão a razão, o direito, a
justiça. A essa tarefa, deve informar uma atividade exclusivamente intelectiva,
infensa a abastardamentos ideológicos; caso contrário, seria difícil escapar à
pura e simples erronia. A questão monarquia x república identifica-se em
tudo com essa atividade intelectiva.
O Império não foi perfeito. Nenhum regime o é, porque em todos está
presente o elemento "erro", a falibilidade que é própria dos seres humanos.
Mas, as possibilidades desse elemento influir negativamente no destino de
uma sociedade, no seu avanço, estagnação ou retrocesso, dependem direta-
mente dos valores políticos que determinam a estrutura do respectivo Estado.
Isto é, da correspondência entre sua estrutura e a realidade antropológica,
sociológica, cultural e histórica dessa sociedade.
Precisamente, foi essa correspondência natural entre os valores políticos
e a realidade antropológica, sociológica, cultural e histórica que fez da mo-
narquia o melhor período de nossa vida nacional, e a mantém viva no in-
consciente coletivo brasileiro. E, é a falta dessa correspondência que faz com
que a República nos mantenha permanentemente marcando passo, ficando
para trás em relação a países menos dotados; sobretudo, ficando distanciados
das nossas naturais perspectivas nacionais.
A constatação histórica também mostra que nas monarquias pós-mo-
dernas a incidência da falibilidade é nitidamente inferior à das repúblicas;
isto, porque naquelas existe a aludida correspondência entre a estrutura do
Estado e a realidade nacional.

15
14
Em matéria publicada na edição de 21.12.92 do jornal O Estado de S.
da República (30.12.1889) a inflação já estava em 11% ao ano; e no primeiro
Paulo, o prof. Otávio Velho, antropólogo da Universidade Federal do Rio
aniversário (15.11.1890), já estava a 40% ao ano. Nesses 103 anos, já atingiu
de Janeiro, ventilou diversos tópicos sobre essa questão. Coincidentemente,
índices de mais de 80% ao mês. e de muitos milhares por cento ao ano; seu
alguns também haviam sido objeto de considerações em artigos que publi-
acúmulo está em torno de dez trilhões por cento)
cáramos em outros periódicos. De uns e outros, destacamos: a racionalidade
que permeia a opção pelo parlamentarismo monárquico, e, em contra-partida, É da Gazeta Mercantil a informação: no Império tínhamos a segunda
a paixão que pode determinar essa opção; a real possibilidade de vitória da maior frota mercante do mundo. Com a República, caímos para o 28° lugar
monarquia no plebiscito que iria se realizar em abril de 1993, se essa consulta no "ranking" mundial em tonelagem, e para 32° lugar em unidades. Na ver-
fosse instruída com um mínimo de ética e de seriedade por parte do Poder dade, hoje, a estatística está abaixo disso: o Lloyd Brasileiro tem 5 navios
Público, dos partidos políticos e da mídia: a naturalidade com que o povo (!) em condições de navegabilidade.
aceita a monarquia, em contraste com os pruridos republicano-academicistas E do Ministério dos Transportes a informação: no Império, construímos
dos denominados "intelectuais"; o sucesso do retorno à monarquia pela Es- 10.000 quilómetros de estradas de feno. A República desativou quase todas
panha e pela Holanda, esta última depois de 200 anos de república; o fato as ferrovias. Ocorre que uma composição ferroviária transporta em média a
de não ser possível afirmar que somos mais modernos, nem mais inteligentes carga correspondente a até 150 (cento e cinqiienta) caminhões, consumindo
do que os espanhóis, os holandeses, os suecos, os ingleses, os canadenses, o óleo diesel correspondente a somente cinco deles: cada composição ferro-
os japoneses e tantos outros povos: a ''importância do imaginário" e dos viária que trafega significa prejuízo para a "comunidade" do petróleo e de-
"símbolos que permitam o reencontro da Nação consigo mesma"; a certeza rivados...
de que não há sistema político que funcione sem adesão afetiva do povo; o Há mais, porém. E do Ministério da Marinha a informação: no Império,
fato de na monarquia essa afeição do povo não contrapor a pessoa ao Estado: tínhamos a segunda maior esquadra naval do mundo; hoje, com menos de
sobretudo, o fato de a monarquia barrar o caminho aos aventureiros; e, f i - quinze navios utilizáveis, nossa esquadra não tem condições de patrulhar o
nalmente, a possibilidade de revivificação da solidariedade, isto é, da grande nosso litoral contra os pesqueiros internacionais.
família nacional, de que a monarquia é referencial permanente.
Isso tudo. com relação à economia. Do ponto de vista político, no
» As consequências do desencontro e da artificialidade da república no Império não tivemos um só dia sob ditadura, estado de sítio, fechamento do
Brasil são fáceis de constatar. E ainda do jornal O Estado de S. Paulo, edição Congresso ou censura à imprensa; e nenhuma cassação de direitos. Na Re-
de 24.9.91, a informação de que nos 101 anos até então decorridos desde a pública já tivemos 55 (cinqiienta e cinco) anos de ditadura e estado de sítio;
sua instauração, os preços mundiais elevaram-se em 23 (vinte e três) vezes, o Congresso foi fechado 6 (seis) vezes (Deodoro, Vargas-1930. Vargas-1937,
mas, no Brasil, por inacreditável que possa parecer, elevaram-se em Castelo Branco, Costa e Silva e Geisel); e já vivemos 60 (sessenta) anos de
32.000.000.000.000 (trinta e dois trilhões) de vezes. , censura à imprensa. Além disso, mais de 10.000 pessoas tiveram os direitos
É da revista Finanças Públicas, editada pelo Ministério da Fazenda políticos suspensos ou cassados, e existe um número inapreciável de "desa-
(vol. 213, maio/junho de 1960): no Império, de 1840 a 1889, o menor salário parecidos" desde a instauração do regime, e não somente durante o ciclo
do país (salário braçal, sem qualificação) era de 25.000 réis, equivalente a de 1964.
22,5 gramas de ouro (cerca de dezoito milhões de cruzeiros, no início de Não é possível deixar de lembrar, também, que durante o reinado de
agosto de 1993). Com a República, só 103 anos depois os trabalhadores Pedro I I (1840-1899), 36 gabinetes de governo se sucederam pacífica e ci-
conseguiram um mínimo de CR$ 5.600,00 (julho de 1993), o que corresponde vilizadamente, segundo a alternância dos partidos no poder, determinada pelas
a menos de 6 (seis) gramas de ouro. É da mesma fonte a informação de que regras constitucionais. Sem um único movimento revolucionário, ou tentativa
o maior salário do Império, o de senador, foi de 300.000 réis; ou seja, apenas de golpe militar. O todo-poderoso prnneiro-ministro William Gladstone, da
12 (doze) vezes mais do que o menor salário. Isso, desde 1840 até i889. Inglaterra, chegou a escrever sobre a excelência do sistema parlamentar bra-
Hoje, o salário de senador corresponde a mais de 240 (duzentas e quarenta) sileiro; e o primeiro-ministro Thiers fez diversos discursos na Assembléia
vezes o salário mínimo. A conclusão é a de que no Império havia propor- Nacional Francesa, no mesmo sentido.
cionalidade entre os salários, quebrada pela República, capitaneando a dis-
Na República, o quadro é inteiramente outro: tivemos três presidentes
paridade que já se tornou crónica na distribuição de renda.
que renunciaram (Deodoro, Jânio e Collor); um que se suicidou (Vargas);
Da mesma fonte: no período 1840/1889 tivemos inflação anual de cinco que foram depostos (Washington Luis-1930, Vargas-1945, Café Filho-
1,58%. Nessa época, a Fiança, a Inglaterra, os Estados Unidos e a Alemanha
1955, Carlos Luz-1955 e João Goulart-1964); um eleito, e impedido de tomar
oscilavam entre 1,6% e 4%. Mas. quarenta e cinco dias depois da imposição
posse (Júlio Prestes, 1930); e um vice impedido de suceder (Pedro Aleixo,
16
17
1969). Além disso, tivemos três grandes movimentos armados (1893. 1930
e 1964), e dezoito revoluções menores. vivido num tempo, talvez melhor, mas que passou. Menos ainda, à luz do
Não será demais lembrar que durante os 67 anos do Império tivemos oportunismo dos que pretenderem se valer da Monarquia como bandeira,
uma única Constituição, e igualmente uma única emenda constitucional. Nos para a eventual criação de legendas partidárias de aluguel.
103 anos de República, já tivemos 7 (sete) Constituições, mais de 100 (cem) A questão é de conveniência institucional. A reflexão só pode ser feita
emendas constitucionais, mais de 20 (vinte) "leis constitucionais", e diversos à luz de postulados institucionais, próprios da Ciência Política, da Sociologia
"atos institucionais". Pessoas desinformadas, alheias à cultura em geral e à Política e do Direito Constitucional. A alternativa monárquica só pode ser
História em particular, e consequentemente sem memória, pensarão, candi- afastada "a priori", sem reflexões serenas, por aqueles desprovidos de um
damente, que isso nada mais significa hoje. Porque, em virtude do seu ra- mínimo de informação. Ou. então, por aqueles outros, dotados somente da
ciocínio limitado, concluirão que ditadura e restrição à liberdade é algo im- cultura produzida a partir do denominado "acordo MEC-USAID", que se
pensável no Brasil de hoje, já que faz 8 (oito) anos não temos um golpe de orienta para impedir a capacidade intelectiva.
Estado; são incapazes de discernir até que ponto o arbítrio está ontologica-
mente associado ao regime republicano, e a sua capacidade de ressurgir das "A verdade, quer c) luz de nossa experiência, quer tendo-se em
aparentes cinzas. vista a experiência humana em amplitude histórica maior, é que a
Reitere-se: se /f<r7<7 tivemos um único dia sob ditadura ou censura à república presidencialista, comparada à monarquia constitucional, é
imprensa no Império, na República, como visto, os períodos de ditadura uma forma de constituição politica inferior, uma involução e não um
declarada e ostensiva, e de amordaçamento da imprensa já somam, respec- progresso institucional. Tanto no caso brasileiro como no da maioria
das nações modernas, as repúblicas se originaram de acidentes histó-
tivamente, 55 (cinquenta e cinco) e 60 (sessenta) anos. Ou seja. mais da
ricos fortuitos, que interromperam brusca e violentamente uma evolução
metade de sua vigência!
e um aperfeiçoamento do Estado e do governo que há séculos se vinham
Diante desse quadro, obviamente, não há necessidade de outras provas: processando. " (Cf. Benedito Ferri de Barros, in O Estado de S. Paulo,
tudo indica não seja este um bom resultado para um regime, ao longo de edição de 3.6.87).
cem anos. E. se um regime não consegue funcionar satisfatoriamente num
país, depois de mais de um século de sua implantação, a conclusão parece
óbvia: esse regime não serve para esse país. E, se um regime não serve para
um país, o caso também não é o de pensar-se em trocar de país, porque isso
é impossível; logo. a solução é mudar o regime.
Caso contrário, tudo indica que daqui a outros cem anos. nossos tetra-
netos ainda estarão discutindo os então últimos "pacotes" económicos e as
trocas de ministros no Brasil, se é que ainda haverá Brasil, e não uma colcha
de retalhos, aquela que a unidade do Império evitou. E de todo provável que
isso ocorra, se a mudança do regime não for feita; porque, simplesmente,
não existe a aludida correspondência entre a formação antropológica, socio-
lógica, cultural e histórica dos brasileiros, e o regime republicano: nunca
existiu da parte da Nação a adesão afetiva para com a República. E, sem
essa adesão, não há regime que tenha possibilidade de conduzir um povo a
resultado algum.
Tudo isso considerado, e mais o nível de progresso e estabilidade que
tínhamos à época da instauração da República, e também a artificialidade, a
falta de motivos e a forma segundo as quais ela foi implantada, é impossível
afastar a certeza de que a monarquia era o nosso caminho natural, do qual
teremos sido arrancados por um espantoso e crasso erro histórico.
Em consequência, o tema "Monarquia/República" não pode ser exami-
nado à luz de posições estereotipadas ou engajadas, ou do riso produzido
pela desinformação. Nem do saudosismo estéril de quantos gostariam de haver
18
1o
1 . O programa de condicionamento
ideológico republicano

A primeira Constituição republicana instituiu a "cláusula pétrea", proi-
bição a que o Congresso considerasse propostas tendentes a abolir a República;
fora precedida pelo famoso "decreto-rolha", o dec. n° 85-A, de 23 de dezembro
de 1889, criando uma comissão militar para julgar os monarquistas e os que
fizessem proselitismo da Monarquia. Em última analise, era a proibição a
qualquer tentativa de restauração monárquica por vias legais: tornava-se ilegal
qualquer proselitismo político em favor do Império. Tal como viria a ocorrer
mais tarde em relação ao comunismo, de 1946 a 1979, ou ao integralismo,
de 1938 a 1946.
Em 1922, como parte das comemorações do centenário da Inde-
pendência, foi levantado o banimento da Família Imperial, que pôde regressar
ao País. Um dos seus ramos foi residir em Petrópolis, o outro terminou por
fixar residência em Vassouras, ambas no estado do Rio de Janeiro.
Nos trabalhos da Constituinte de 1987/88, um deputado paulista (Cunha
Bueno) apresentou a proposta de reinstauração da Monarquia, na sua forma
parlamentar. Obteve a adesão de outros 22 deputados e senadores, e desde
logo despertou manifestações favoráveis em inúmeros pontos do País. Enti-
dades extrapartidárias de estudos políticos, outras especificamente de estudos
do regime monárquico, recolheram o número de assinaturas suficiente para
a apresentação, também, de uma emenda popular. Por larga margem de votos,
a Constituinte terminou por aprovar um plebiscito a ser realizado em 1993,
sobre a Monarquia e a República, o presidencialismo e o parlamentarismo.
A "cláusula pétrea" deixava os textos constitucionais, depois de cem anos.

21
Naturalmente, a proposta de reinstauração do regime monárquico des- zada, viviam sem outra alternativa senão o sorriso cético, ou de incredulidade,
pertou sorrisos de mofa em um grande número de pessoas. Em outras, pro- quando ouviam falar em Monarquia.
vocou somente um ar de incredulidade, ou de ceticismo. Essas reações têm Entretanto, um ponderável número daqueles que se dedicam a pensar
explicação conhecida. conscientemente os temas institucionais, de há muito gostaria que a monarquia
Nos cem anos durante os quais vigorou a proibição de sequer falar-se passasse a ser objeto de análise, mas de uma análise sincera e isenta; e, não
em monarquia, o País foi programáticamente induzido a esquecê-la. Diretrizes simplesmente de uma massificante campanha de "marketing", como ocorreu
governamentais de todos os tipos, explícitas ou dissimuladas, foram adotadas nos 90 dias que precederam ao plebiscito de 1993.
nesse sentido. Substituíram Pedro I por José Bonifácio, na iconografia oficial E fácil perceber como as imagens e mitos incutidos na consciência
da Independência; mas a figura do Patriarca não calou fundo; além do que coletiva, através de programas ideológicos direcionados, podem distorcer a
ele próprio era um defensor da Monarquia. Então, o papel de Tiradentes — verdade histórica. Na França, que produziu a Revolução de 1789, também
relevante no processo de formação e conscientização da nacionalidade — foi foi assim: para as suas gerações de hoje, era como se a Revolução tivesse
enfatizado e realçado a um grau nem sempre compatível com a realidade sido feita para varrer a Monarquia da face do país. Foi necessária a farta
histórica. Ainda e sempre, para esconder ou minimizar o papel de Pedro I literatura produzida durante as comemorações do bicentenário dessa mesma
— um monarca — no processo da Independência. Revolução para que os franceses redescobrissem verdades que pareciam se-
Desde os primeiros dias da República, os autores de livros didáticos pultadas. Descobriram, por exemplo, que a nobreza e o clero não eram aliados
para os cursos primário e secundário, obedecendo a critérios oficiosos do do rei, mas concorrentes ao poder da Monarquia. Ou que a Revolução não
Ministério da Educação, passaram a só estampar o retrato de Pedro I I com foi feita contra o regime, mas antes para propiciar a ascensão da burguesia
as longas barbas e o aspecto cansado dos seus últimos anos de vida, para — que enriquecera demasiadamente — e do anticristianismo ao poder. Des-
associar à Monarquia a imagem de velhice, decrepitude e coisa antiga. Esses cobriram que não foi a Revolução, mas o Terror em que ela desaguou, que
mesmos livros tratavam, e ainda hoje tratam de evidenciar as glórias da pro- aboliu o regime, em 1792. Relembraram que. passado o Terror, Napoleão
clamação da República, o heroísmo de Deodoro e o idealismo dos seus com- sentiu a necessidade de restaurar a Monarquia, como forma natural para reor-
panheiros, como se tivessem participado de uma feroz batalha em prol da ganizar o país, mas tentou fazê-lo em proveito próprio. Relembraram, ainda,
liberdade. Paralelamente, os livros de contos infantis invariavelmente traziam que, passado Napoleão, a Monarquia fora o leito natural para o qual o país
voltara, e com os mesmos Bourbons dos tempos da Revolução. E quando
estorinhas de reis e rainhas cobertos de jóias e de rendas, cuja única preo-
em 1830 Carlos X se insurgiu contra as idéias revolucionárias, a França
cupação, nos intervalos de bailes suntuosos e banquetes pantagruélicos, era
trocara os Bourbons pelos seus primos Orleans, mas mantivera o regime.
a de mandar cortar cabeças de súditos famintos e miseráveis.
A literatura do bicentenário trouxe à luz que, em 1871, a Assembléia
Esse típico programa oficial de natureza ideológica, implementado du-
Nacional Francesa deixou de restabelecer o regime monárquico pela maioria
rante algumas décadas, surtiu efeito. Os brasileiros esqueceram a monarquia,
de um único voto, e que essa maioria se devera somente à recusa do presumível
pelo menos aparentemente. Os únicos reis que passaram a contar foram os rei, Henrique V, em manter a bandeira tricolor da Revolução.
das cartas de baralho, com coroa, jóias, golas de renda e seda, e tudo o mais
Após reverem todos esses fatos, que pareciam nunca haver existido,
que a propaganda oficial sutilmente transformara em motivo caricatural. A
os franceses chegaram mais perto dos dias atuais: relembraram que em plena
lembrança do regime imperial ficou quase tão distante como o Descobrimento,
Segunda Guerra mundial, com o país ocupado pelos nazistas, foi ao repre-
ao mesmo passo em que se tornava quase de bom tom fazê-lo objeto de
sentante dos Orleans, o conde de Paris, que o general de Gaulle apelou para
mofa. Sem que se soubesse, mesmo, porque fazê-lo. conseguir a união de todos aqueles que lutavam subterraneamente contra o
Até o início da campanha do plebiscito, boa parte dos brasileiros ainda inimigo. E verificaram que a Monarquia se recusou a voltar como fórmula
ignorava que a Monarquia é um regime constitucional tão merecedor de re- ou expediente de momento, mas emprestou o seu prestígio àquela união: foi
flexões quanto a República. Pareciam ignorar, até, que a monarquia existisse com a Cruz de Lorena, símbolo do regime monárquico, que a Resistência
no mundo; ou que o País ainda tivesse uma Família Imperial, que, aliás, reuniu todas as facções em luta contra o invasor.
quase nunca teve acesso à mídia. Ignoravam dados e fatos que lhes permitiriam Não foi por outros motivos, aliás, que o próprio presidente da República
reflexões, através da comparação serena e imparcial dos prós e contras dos encabeçou e coordenou as comemorações oficiais do milénio da dinastia ca-
dois regimes, ou entre o que éramos ao tempo desse Império, motivo de petíngea, que se prolongaram durante todo o ano de 1987.
chacota, e a realidade do que somos agora. Sequer lhe ocorria, aliás, a uti- Acima de tudo, a literatura do bicentenário mostrou pormenores em-
lidade dessa comparação. E por essa desinformação programada e generali- baraçantes para os mitos criados pt?la historiografia oficial da República. As

22 23
perucas e bordados usados por Luiz X V I e Maria Antonieta, eram idênticos além de institucionalizar a hegemonia e a interferência castrenses na política,
aos usados por Danton, Robespierre, St. Just e os demais líderes da Revolução instituiu, sob o rótulo republicano, o sistema de domínio político e económico
e do Terror; ou seja, não eram um luxo da realeza, mas simplesmente a moda através de oligarquias.
corrente, tal como o paletó e a gravata são hoje o traje oficial dos altos Não terá sido por acaso que Silva Jardim, o principal ideólogo do
cargos públicos. E, a célebre frase atribuída à rainha ("O povo não tem pão? republicanismo entre nós, jogou-se às lavas do vulcão Vesúvio, poucos anos
Então, por que não come brioches?") já constava das Confissões de Jean depois da proclamação da República. Ou que Aristides Lobo testemunhou,
Jacques Rousseau, como um dito popular desde 1740, isto é, desde 15 anos insuspeitamente, que o país acordou "bestificado" no dia 16 de novembro
antes dela nascer! No entanto, essa frase foi a tal ponto repetida — inten- de 1889. Ou, ainda, que Deodoro dissera "república, entre nós, é sinónimo
cionalmente — como sendo da rainha, na literatura revolucionária e pós. que, de desgraça". Efetivamente, também não era por acaso que os presidentes
até recentemente, lhe era atribuída*. Descobriu-se, até, que por duas vezes argentinos Saens Peña e Bartolomeu Mitre chamavam o Brasil de "democracia
Luiz X V I decretara o congelamento do preço do pão, medidas que foram coroada".
eficientemente boicotadas pelos produtores de trigo, donos de moinhos e
A atitude de mofa e de incredulidade que se criou no país em torno
padeiros. Por fim. verificou-se que fora o mesmo Luiz X V I quem, pela pri-
do regime monárquico, decorre das imagens e da desinformação criadas pelo
meira vez em duzentos anos, voltara a convocar os Estados Gerais (**); e
programa ideológico implementado pelo regime republicano durante suas pri-
mais, providenciara para que o Terceiro Estado — o povo -— tivesse dobrado
meiras décadas; depois, pelas oligarquias surgidas sob o seu pálio, como
o número dos seus representantes, de modo a ter o mesmo poder decisório
meio de autopreservação.
que o clero e a nobreza.
A massificação daqueles conceitos falsos, mas estereotipados, foi tão
Estas e outras constatações fizeram com que não só a Monarquia, como
intensa que sequer ocorre às pessoas refietirem sobre fatos notórios. Pergun-
regime, mas Luiz X V I como rei. fossem invariavelmente absolvidos em todos tarem-se, por exemplo, por quais razões as monarquias estão entre as melhores
os julgamentos simulados e pesquisas de opinião realizados durante as co- e mais avançadas democracias do mundo, e também se incluem entre os
memorações do bicentenário da Revolução, em 1989. vinte países mais desenvolvidos, isto, às portas do ano 2000? E. sobretudo,
O processo de esquecimento de fatos históricos, substituindo-os na me- perguntarem-se por qual razão essas democracias desenvolvidas fazem ques-
mória coletiva por imagens e mitos intencionalmente criados e incutidos a tão dos seus monarcas e das suas Famílias Reais?
poder de repetição, só produz resultados enquanto a verdade desses fatos não
puder ser cotejada com a versão oficialmente imposta; mas, de qualquer modo, L I . O "CAMINHO NATURAL"
produz um grande estrago na cultura das gerações a ele expostas.
No Brasil, também, os efeitos desse processo, de suas imagens explícita Por força daquele programa ideológico oficial, ainda hoje um grande
ou dissimuladamente incutidas na mente coletiva. surtiram os mesmos resul- número de pessoas acredita, sem questionar, que a república tenha sido um
tados. Qualquer analise séria e desengajada revela, porém, exatamente o oposto "caminho natural", ao qual o país tivesse que chegar, mais cedo ou mais
do que foi oficialmente estabelecido sobre a República e a Monarquia, e tarde, pelo fato de estar cercado de repúblicas. Entretanto, todas as analises
assim ensinado às gerações durante todo um século. isentas, e imbuídas de verdade histórica, apontam taxativamente em sentido
A historiografia oficial dos últimos cem anos difundiu o mito de que contrário. Vale lembrar a precisa síntese de um historiador e ensaísta das
a República era uma imposição histórica inevitável, quase uma destinação. últimas décadas, que buscou em fontes provadas o conteúdo da nossa história
Nada permite afirmar isto. A formação histórica do país, e o grau de desen- política, apesar de ter escrito sua obra sob a ótica do marxismo, que pro-
volvimento que ele já havia alcançado, autorizam a hipótese contrária. Ade- fessava:
mais, é impossível deixar de considerar que, se a República tivesse inevita-
velmente de acontecer, se fosse efetivamente uma destinação histórica, teria "Há, ainda, os que alegam como causa da queda do Império a
vindo pela via política e democrática da votação pela Assembléia Geral, com falta de tradição monárquica na América, e, como exemplo, citase o
respaldo na população. E, não, mediante um inusitado golpe militar, que, Império fracassado de Maximiliano, no México. Como dizia o Manifesto
(republicano de Itu) de 70, a América era republicana e os brasileiros
desejavam ser americanos.
* Não foi essa mesma a pratica utilizada pela propaganda republicana na T V . durante a A realidade entretanto é que, pelo menos no Brasil, a tradição
campanha do plebiscito, falando em volta da escravidão, rei absoluto, e outros temas esdrúxulos? monárquica era maior e mais integrada na alma popular que a Repú-
** Um misto de Congresso e Assembleia Constituinte. blica. Essa tradição monárquica tinha pelo menos quatrocentos anos.

24 25
Ao contrario, a República não era um anseio popular geral, como política, ditaduras, autoritarismo, corrupção, dependência económica e atraso
vimos, nem mesmo no passado histórico. A República era aspiração cultural? Os 103 anos decorridos desde 1889 mostram que aqueles governantes
de uma parte intelectualizada das classes médias, nada mais. estrangeiros estavam certos, não só quanto à qualidade da nossa democracia
Ao fim do Império, havia apenas 2 deputados republicanos e imperial, como quanto ao erro que cometêramos no 15 de novembro. Co-
nenhum senador. Esses números já dão uma idéia da popularidade do metêramos, aliás? Não, cometeram. Tínhamos muito, ou quase tudo; mas,
ideal republicano. por espírito de imitação — causado pela estreiteza de vista dos mentores do
Aliás, a República nem mesmo poderia ser indicada como forma golpe — conseguimos passar a não ter muito. E, a sermos muito menos do
de governo ideal para nosso país. " (Leôncio Basbaum, História Sincera que até então tínhamos sido: ficamos efetivamente igualados aos nossos "ir-
da República, vol. 1, 4 a edição, São Paulo, 1982). mãos" de continente; que, diga-se, só para nós são irmãos, porque, para eles,
até hoje somos inimigos: "macaquitos", etc. Essa aberração — comparável
A respeito do "caminho natural", aliás, algumas perguntas simples po- a chamar portugueses e russos, suecos ou poloneses de irmãos, só porque
deriam ser formuladas à reflexão, sobre outras questões que não o drama de estão no mesmo continente geográfico — é um produto claro da simploriedade
Silva Jardim, o testemunho de Aristides Lobo, ou a afirmação do próprio e da falta de visão histórica que acabou criando a expressão "Latinoameri-
Deodoro: canidad", e pretende nos incluir nela.
a) Se fosse mesmo um caminho natural, qual a razão de apenas dois repre- Na verdade, todo o retrocesso pelo qual vimos passando deve-se à ação
sentantes, numa Assembléia com mais de 160 membros, depois de quase daqueles que Monteiro Lobato classificou como "patriotas ininteligentes";
cinquenta anos de propaganda republicana'! O autor ultimamente citado, aos quais preferimos classificar como patriotas incultos, e assim incapazes
aliás, deu a resposta óbvia. de reconhecer suas próprias limitações e estreiteza de vistas. Como é comum,
b) Se a Constituição não o proibia, não continha clausulas pétreas, por qual aliás. A falta do descortínio cultural que permite raciocinar longe, a estreiteza
razão nenhuma proposta de mudança do regime foi sequer apresentada de vista dos denominados "progressistas", de todos os tempos — nas mais
ao parlamento, durante todo o Império! E, por que foi preciso um golpe das vezes movidos por carências pessoais ou interesses frustrados — tem
militar para impor a República? causado aos povos longos períodos de provações e de atrasos. Rui Barbosa
c) Se a República fosse mesmo um anseio geral, por qual razão os autores é somente um, dentre os inumeráveis exemplos dos que, depois, vieram a
do golpe não realizaram o plebiscito prometido no Decreto n° 1, de 15 penitenciar-se dos prejuízos que haviam causado à Nação brasileira.
de novembro de 1889? E por qual razão criaram — um mês depois — o
tribunal militar para julgar todos que pretendessem o restabelecimento da Se o nosso Império não foi perfeito, tudo indica que era extraordina-
monarquia? riamente menos imperfeito e mais autêntico do que o que se lhe seguiu.
Parece claro que fomos violentados na nossa destinação histórica, ao sermos
d) Por qual razão colocaram em vigor, desde logo, uma cláusula pétrea,
proibindo qualquer discussão sobre a Monarquia? abruptamente afastados do nosso caminho natural verdadeiro.
Tudo isso é para ser pesado, no seu verdadeiro sentido. E será útil
1.2. AS ELEIÇÕES DIRETAS
pensar na "democracia coroada" a que se referiam os presidentes argentinos;
nos citados discursos de Thiers, perante a Assembléia Nacional Francesa, ou
nas apreciações de Gladstone, uns e outros sobre a excelência do nosso regime. O tema das eleições diretas é outra "peça de resistência" com que a
República tem se mantido, e na qual investiu fundo na campanha do plebiscito
No dia seguinte à implantação da República, ao receber o embaixador
("Diretas sempre!"). É a expressão prática da confusão entre soberania popular
brasileiro que ia comunicar oficialmente o fato, o presidente Rojas Paul, da
e voto direto. Foi criada para fazer com que a Nação esquecesse a figura
Venezuela, foi enfático: "Acabou-se a única democracia da América!" Quase
referencial do Imperador: as eleições diretas foram erigidas em supra-sumo
ao mesmo tempo, o presidente equatoriano recebia o embaixador brasileiro
e sinónimo da cidadania.
em Quito, dizendo: "Permita que lhe ofereça os meus pêsames: o Brasil
acabou de cometer o erro mais fatal de sua história!" A respeito desse mito, basta que se faça uma indagação simples: será
Afinal, que caminho natural era esse? Por estarmos cercados de repú- que os brasileiros gozam de mais direitos de cidadania do que os suecos,
blicas? Repúblicas surgidas pelas mãos de caudilhos, em territórios cuja for- noruegueses, dinamarqueses, holandeses, belgas, luxemburgueses, espanhóis,
mação social as características — da colonização espanhola — foram intei- ingleses, italianos, canadenses, australianos, neozelandeses, japoneses, dentre
ramente diferentes das nossas? Deveria o Brasil igualar-se a essas repúblicas, outros povos? Temos mais direitos sociais do que eles? Mais direitos políticos?
até hoje marcadas por golpes de Estado, revoluções, carnificinas, violência A resposta negativa se apresenta como óbvia. No entanto, em todos esses

26 27
países, nem o chefe do Estado, nem o chefe do Governo são escolhidos em
ao proclamar o princípio da soberania popular, no seu artigo I o , § 1°. Só que
eleições diretas...
conduziria a algum controle da classe política pelo eleitorado, e não deste
Além disso, é de perguntar-se: algum brasileiro de hoje escolhe quem por aquela, como é propósito do sistema; pois permitiria aos eleitores livra-
quer para presidente da República? Também não; as oligarquias partidárias rem-se da "camisa de força", rejeitando a ambos os candidatos. E, eventual-
determinam ao eleitorado os seus candidatos, em "prato pronto". Ninguém mente, provocando a realização de repetidas eleições, até que das convenções
tem o direito de contestá-lo. nem se admite candidatura independente: o "elei- partidárias resultassem candidatos realmente representativos, e não candida-
torado" tem apenas o direito de coonestar; coonestar um dentre os que inte- turas de conveniência dos conchavos da classe política e dos grupos de in-
ressam às oligarquias políticas e económicas. teresses económicos.
Ainda mais, é realmente majoritário o candidato eleito? Veja-se o caso
Deve-se lembrar que a falta daquela previsão constitucional não é o
do presidente Collor: no primeiro turno, teve 25% dos votos. Mas Lula teve único mecanismo a integrar o sistema que eleva quase ao sarcasmo o mito
15%; Brizola, 14,5%; Covas, 1.1.5%; Maluf, 9%; Afif, 3,5%; Ulisses, 2,3%; das eleições diretas, o qual, reitere-se, parece existir precisamente para impedir
Aureliano. 1%; Freire. 1%. Então, ele foi eleito com 25% contra 57,8% que o desenvolvimento da cidadania. A obrigatoriedade do voto é outro mecanismo
não o queriam. Dirão alguns que os eleitores que não votaram em Collor assegurador do controle da sociedade por uma intangível e comprometida
dispersaram os seus votos entre os demais candidatos, e isso esta certo; mas, classe política, que se sucede ao longo de gerações através do sistema de
houve uma manifestação de vontade política na qual esses 57,8% foram unâ- confraria.
nimes: não queriam Collor, e por isso votaram em outros candidatos. Mas,
Esse é o sistema de "representação" política, no qual o que predomina
com os seus 25% de eleitores que por presunção legal o queriam, ele "venceu"
são os interesses de grupos escudados no poder económico e também nos
o primeiro turno contra os 57,8% que manifestamente não o queriam.
meios de comunicação, capazes de "criar" lideranças políticas artificiais em
Qual o significado disso? Simples: o sistema de eleições diretas é fa- poucos meses. Como, por exemplo, na eleição presidencial de 1989. Esta é
lacioso. Por imposição matemática, o "eleito" é obrigatoriamente o menos a natureza perversa e falaz do sistema de representação baseado no voto
desejado, exceto no sistema bipartidário, que, no entanto, divide a Nação. universal que, já em 1874, o Papa Pio IX denunciava, por considerá-lo "uma
É realmente legítimo um mandato conseguido nessas condições? Até praga destruidora da ordem social, que merece com justo título ser chamado
onde vai o grau de sua representatividade? Tudo indica cuidar-se de uma de mentira universal".
representatividade e de uma legitimidade apenas formalmente presumidas,
No contexto dessa falácia, um outro mecanismo ainda pior existe, para
através de uma ficção jurídica; isto é. de uma estrutura legal que, a partir
assegurar o controle da sociedade por aquela sempre estratificada classe po-
de instrumentos de representação absolutamente enganosos e inoperantes, es-
lítica, comprometida com interesses que jamais serão os do povo que ela
conde a consagração de um sistema que permite à classe política encastelada
formalmente representa. Esse mecanismo, ao qual se fez ligeira referência
no poder ignorar ou contornar a verdadeira vontade de um eleitorado.
linhas acima, é a obrigatoriedade do voto.
Observe-se ainda que, nos sistemas de dois turnos — mormente com
a admissão de somente dois candidatos à segunda votação — o eleitor fica 1.3. O VOTO OBRIGATÓRIO
diante de uma verdadeira "camisa de força", sendo obrigado a votar não no
que considera melhor, no sentido positivo, mas naquele que considerar o O voto, muito mais do que uma obrigação, ou mesmo do que um dever,
menos pior entre os concorrentes, ainda que igualmente não o deseje espon- é um direito. Trata-se de um ato cívico, sem dúvida, mas sobretudo de um
taneamente. Quantos milhões de eleitores votaram em Collor, sem opção, ato de vontade política; consequentemente, não se pode exigir de alguém a
somente por não desejarem votar em Lula? E quantos anularam deliberada- participação num processo de vontade: as pessoas são livres para terem ou
mente seu voto, ou deixaram-no em branco, para não serem obrigados a um não a vontade de exercer um direito. Isso é diferente de querer ou não alguém
ato que não constitui escolha espontânea! A falta de espontaneidade também pagar impostos, ou de querer ou não prestar o serviço militar, porque então
desvirtua o conteúdo de soberania popular, que a república pretende estar o de que se trata é de uma prestação e não de um direito. Consequentemente,
presente ao voto. Assim como desvirtua o princípio democrático, que é a não se pode incluir entre os mandamentos constitucionais a.obrigação de
sua essência. votar, sob pena de não se estar tratando da Constituição de um Estado de-
Por qual razão, além disso, não há um dispositivo constitucional que mocrático de direito.
declare inexistente a eleição, se o número de votos em branco e o dos deli-
No início da República, a explicação da obrigatoriedade do voto foi
beradamente anulados superar a soma dos que foram dados aos dois candidatos
tentada através de uma contrariedade ao sistema do Império, pois este reco-
no segundo turno? Tal dispositivo traduziria a sinceridade da Constituição
nhecia o voto como um direito, para cujo exercício o cidadão devia provar
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determinados requisitos. Mas. se fosse somente para instituir a universalidade formal da questão: se todos votaram, a democracia vigora, e as autoridades
do voto, terminando com a discriminação — extremamente discutível como são legítimas. Pois, que continue obrigatório o voto: a obrigatoriedade fornece
tal, registre-se — do sistema censitário, a solução também seria torná-lo fa- a aparência formal, silenciando qualquer crítica; e protela indefinidamente a
cultativo a quem o desejasse. De modo que, nem mesmo por meio da con- chegada da época em que, interessados em exercer um direito, ao invés de
tradição ao sistema anterior, seria possível aquela explicação. Na verdade, a obrigados a cumprir uma obrigação, os desinteressados votantes de hoje se
razão da obrigatoriedade encontrava, nas primeiras décadas da República, transformem em aborrecidos eleitores, fazendo valer outros tantos direitos,
uma motivação louvável: disseminar a prática do voto, a que não estava fiscalizando tudo, cobrando tudo, devorando os privilégios qual cardumes de
acostumada a maioria da população, até então impossibilitada de exercê-la piranhas, e poluindo o ambiente tranquilo do stablishment com os gases ma-
lévolos da cidadania. Afinal, essa cidadania é o maior perigo que o "clube"
em razão dos requisitos exigidos durante quase todo o Império. Pois, em que
pode temer: nos Estados Unidos fizeram renunciar um presidente (Nixon) e
pesassem as exortações de Pedro I I durante vários anos, só em 1881 a chamada
quase fizeram o mesmo com um segundo (Reagan), tudo dentro do efetivo
Lei Saraiva conseguiu aprovação da Assembléia Geral. Entretanto, quase cem
respeito à lei, sem o mais remoto pensamento à força militar, ou a casuísmos
anos depois, a obrigatoriedade só pode ter uma explicação, e dotada de uma
de momento; e por deslizes que, entre nós, fariam rir ao cavalo de São Jorge
sutilíssima dose de sagacidade política e de psicologia social; aplicadas, ambas,
na Lua! Na França, essa cidadania, exclusivamente por uma questão de prin-
no entanto, contra a emancipação política da sociedade.
cípios, fez com que o grande De Gaulle, que era enérgico mas não era ditador,
Ocorre que ninguém faz de boa vontade aquilo a que é obrigado; povo se curvasse a ela e preferisse renunciar. Tudo isso está muito longe do "im-
algum, menos ainda povo latino, se interessará em fazê-lo bem feito. Logo, peachment" e da renúncia de Collor, que, no nosso entender — não fosse a
se votar é obrigatório, o eleitor o fará de qualquer maneira, somente para Rede Globo de TV — sequer poderia ter aparecido no palco da nossa história
cumprir a lei a que está obrigado; pouco importando o resultado de como contemporânea: mas também não poderia ter sido deposto mediante as aber-
isso é feito, o que conta é o poder provar que votou, para ter acesso a concursos, rações jurídicas com as quais foram conduzidos esses processos.
empregos, e tudo o mais que, sem o título eleitoral "em dia", lhe é vedado. A obrigatoriedade do voto é apenas um dos entraves, embora não o
Consequentemente, somente nas eleições executivas o eleitor se digna menos importante, ao nosso desenvolvimento político.
a dispensar alguma atenção à disputa, por se tratar dos cargos considerados Acrescente-se a tudo isso o "perfil do eleitor brasileiro", publicado pelo
máximos pelo regime presidencialista. As eleições parlamentares não desper- Tribunal Superior Eleitoral às vésperas das eleições municipais de 1988, cujo
tam maior interesse do que o voltado para o recebimento de brindes, ou para dado mais impressionante foi o que revelou a esmagadora maioria como
a possibilidade de ganhar algum dinheiro ' trabalhando" para este ou aquele incapaz de interpretar um texto superior a 8 (oito) linhas.
candidato. Assim, a obrigatoriedade tem como primeiro resultado reforçar a
A partir da compreensão desses elementos, parece fácil entender porque
figura do Executivo e aviltar a do Legislativo. o mito das eleições diretas foi erigido em símbolo da cidadania; e também
É certo que a nossa chamada "classe política", no fundo constituindo por qual razão o voto é obrigatório.
uma espécie de clube privado, independentemente de sigla partidária, nada
tem contra a obrigatoriedade do voto. Ao contrário, esta garante uma das 1.3.1. Ainda sobre eleições diretas
matérias-primas necessárias à sua manutenção e reprodução, que é a ficção
legal de autenticidade e de legitimidade; pois é mais fácil manter o stablish- O "dogma" das "diretas sempre" é algo que só existe na cabeça das
ment trocando camisetas e bonés, ou mesmo comprando votos, e com isso massas, propositadamente mantidas nesse condicionamento pela classe polí-
mantendo o alheamento das pessoas à política, perpetuando o sistema, do tica. Aliás, o passado republicano prova isso: a primeira eleição direta só
que deixar o voto facultativo aos que se interessam pelo seu exercício, como ocorreu em 1945, isto é, 56 anos depois da instauração da República; e, na
ocorre em todos os países nos quais a sociedade participa ativamente da verdade, até agora só houve cinco presidentes eleitos pelo voto direto (Dutra,
gestão pública. Pois, então, terminariam os anos dourados dos privilégios e 1945; Vargas, 1950; Juscelino. 1955; Jânio. 1960, e Collor, 1989). Destes,
da impunidade. É mais fácil deixar os "eleitores" como estão, usando camisetas dois renunciaram e um se suicidou, ou seja, 60% dessas eleições diretas
e ganhando um dinheirinho — que vem deles mesmos — à época das eleições; frustraram-se: só dois chegaram ao final de seus mandatos.
infinitamente mais "súditos", na acepção da palavra, hoje, do que ao tempo Para incidirmos na ingénua crença de que o encerramento da Revolução
da Colónia. De resto, o sistema é numericamente mais rentável aos cofres de 1964 e o surgimento da nati-morta "Nova República" de Tancredo Neves
públicos, mesmo, do que era a servidão da Idade Média européia. Por outro marcaram o fim da anterior, e o início de uma nova "História" da política
lado, o que é de suma importância, fica atendido o falaciosíssimo aspecto brasileira, e concluíssemos que nunca mais haveria eleições indiretas, teríamos

II
caso de os cargos de presidente e vice vagarem nos dois últimos anos de
de abrir mão de qualquer conhecimento de sociologia política, dentre os de
mandato!
outras ciências. A classe política republicana jamais se insurgiu contra as
eleições declaradamente indiretas, nem contra as eleições "diretas" através Qual a razão disso, pergunta-se? Uma razão de bom senso, como se
das famosas "listas" e "atas" eleitorais — sistema bem mais indireto e aca- referiu antes. Como realizar uma eleição direta. se a vacância ocorre a quatro
brestado do que o anterior — que vigoraram de 1889 até 1930. ou cinco meses do término dos mandatos? Far-se-ia uma eleição direta para
alguém ocupar o cargo por um ou dois meses, e em seguida nova eleição
A grande ênfase dada durante o regime de 1964, depois dele e nos para novo mandato? Que país suportaria isso? Logo, a afirmação de que a
dias atuais à eleição direta — inculcada a limites inimagináveis pelo slogan soberania popular será exercida pelo voto direto. só pode ser entendida com
"Diretas sempre", durante a campanha do plebiscito — não se deve à forma as restrições impostas pelo bom senso. Mas, então, não tem cabimento o
de eleição, mas à atual associação entre o regime militar e as eleições indiretas. slogan das "diretas sempre".
E, também não diz respeito ao maior ou menor grau de participação popular,
ou de liberdade e desenvolvimento político da sociedade: pois, a classe política Verifique-se mais, porém. O Estado é expressão da soberania popular,
é capaz de conviver com qualquer coisa. E, nem está muito interessada nesse nem pode haver dúvida: se um povo não tem soberania, não pode constituir
desenvolvimento. um Estado. No entanto, o Estado exerce três funções, a legislativa, a executiva
e a judiciária, através dos três ramos em que se divide a sua soberania, os
O verdadeiro problema causado pela associação entre eleições indiretas
Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Se esses três Poderes não são
e o regime militar, reside em que durante aquele período os políticos, sim-
mais do que parcelas do Estado, e este é a expressão da soberania popular,
plesmente, foram privados de toda disposição sobre a coisa pública. Isto
e a Constituição diz que a soberania popular será exercida através do voto
explica o porque da sua necessidade de enfatizar "diretas sempre": foi um
direto, isto significa que os agentes públicos ocupantes desses três ramos
meio psicológico de, por tabela, condenar "a priori" qualquer possibilidade
teriam que ser escolhidos através do voto direto. Os do Legislativo e do
de retorno de um regime que lhes retire o poder, hoje praticamente incomen-
Executivo, o são; mas, os do Judiciário, não: são escolhidos através de con-
surável.
curso seletivo de capacidade (provas e títulos), ou por nomeação (Supremo
Ocorre que a monarquia, sem ter o autoritarismo ou o eventual arbítrio Tribunal Federal, Tribunais Superiores). Por que é assim? Ainda e sempre,
que caracterizaram o regime de 1964, é também um regime no qual os políticos por uma questão de bom senso: se os magistrados têm por função a impar-
não desfrutam das facilidades e da impunidade que hoje ostentam. Isto, porque cialidade na aplicação da lei, como escolhê-los por eleição? Como esperar
ela utiliza um chefe de Estado que não disputa eleições, não tem partido imparcialidade de quem concorre a um pleito político? Se os magistrados
político, nem correligionários; portanto, age como magistrado, imparcialmen- fossem eleitos, não haveria paz social: suas sentenças seriam um amontoado
te, premiando o que está certo, e reprovando o que está errado. Por essa de injustiças, para favorecer os correligionários. Logo, mais uma vez, a afir-
razão, aliás, a Monarquia se apresenta como a única alternativa possível, mação de que a soberania popular será exercida pelo voto direto, só pode
entre a ditadura — civil ou militar — e o estado caótico do meio-ambiente ser entendida com as restrições do bom senso; então, reitere-se, não tinha
político em que vivemos. qualquer cabimento o slogan das "diretas sempre".
Diante dessa realidade, que não desconhecem, nada melhor para os
Na verdade, dependendo da medida com que é utilizada, uma mesma
políticos do que, na oportunidade do plebiscito, matarem com uma só cajadada
substância pode ser remédio ou veneno, como o arsénico, e até mesmo o
dois coelhos igualmente ameaçadores da sua permissividade, a possibilidade
alimento. Pretender-se que para haver soberania popular tenha que haver
de novo regime militar, e a monarquia. Esta, a razão pela qual as eleições
eleições — e. diretas — para tudo, já mostrou ser um veneno para a própria
diretas foram tão reafirmadas durante o horário eleitoral do plebiscito. Não
soberania popular. E, isto não tem a ver necessariamente com a máxima de
fosse essa preocupação com a manutenção dos seus privilégios, a questão de
que povo pouco instruído e pouco desenvolvido não pode ou não sabe votar:
eleições diretas ou indiretas, ou a inexistência de eleições para a Chefia do
são exatamente os povos mais desenvolvidos os que dispensam eleições diretas
Estado no regime monárquico, seriam para eles questão de secundária im-
para a maioria dos cargos, sobretudo para a Chefia do Estado.
portância, até por motivos de bom senso e praticidade. Como se verificará
a seguir. Neste ponto, aliás, a monarquia está em preciso acordo com o bom
senso: se nem os magistrados comuns podem ser eleitos, para poderem manter
A Constituição estabelece que todo poder emana do povo (art. 1°, §
a imparcialidade, como pretender prover a Chefia do Estado — a mais alta
1°). No artigo 14, é mais explícita, dizendo que a soberania popular será
magistratura do Estado — através de eleições diretas?
exercida através do voto direto. E, no art. 60, § 4°, chega ao ponto de trans-
Observe-se que nem mesmo a classe política, que tanto uso faz do mito
formar o voto direto em princípio imodificável. No entanto, no art. 81, § 2°,
das eleições diretas, utiliza concretamente a sua prática: nos partidos políticos.
estabelece que as eleições presidenciais serão indiretas, pelo Congresso, no
33
de onde saem todos os candidatos aos cargos eletivos, as eleições são sempre "Se esse Joaquim Nabuco agitador, temido pelos conservadores
indiretas: os filiados elegem um Diretório, este elege a Executiva, e esta é e rotineiros de sua terra e do seu tempo, não chegou a ser perseguido
responsável pela apresentação e viabilização das "chapas" dos que vão con- por algum presidente de província ou chefe de polícia mais afoito, é
correr aos cargos públicos. que viveu numa época — a de Pedro II — diferente das outras. Viveu
Na verdade, pode-se dizer que a idéia de eleições diretas para a suprema numa época em que era mais fácil, no Brasil, desaparecer um chefe
magistratura do Estado é uma dessas muitas teorias, cerebrinas e utópicas, de polícia... do que sofrer um brasileiro ilustre a mais leve agressão
perfeitas como tese académica, mas inviáveis pelos resultados de sua apli- arbitraria da polícia ou do governo" (aut. cit.. Joaquim Nabuco, Rio
cação. Idéia que tem causado grandes prejuízos e dificuldades ao desenvol- de Janeiro, 1948).
vimento das sociedades pós-modernas. Tais teorias, abundantes no campo da b) entretanto, nos cento e três anos de República, já tivemos mais de
Ciência Política, fascinam pelo seu brilho idealisticamente lógico; mas, cedo sessenta anos em regime declarado de exceção, ou sob mecanismos excep-
ou tarde mostram sua inviabilidade prática. E, principalmente, quando apli- cionais, como o estado de sítio e outros (de 1889 até 1930, apenas um pre-
cadas a sociedades cujos fundamentos e padrões civilizatórios não corres- sidente deixou de recorrer a instrumentos de exceção; depois, vieram os pe-
pondem àqueles fundamentos teóricos. "Deixando a mancebos inexpertos e ríodos Vargas — 1930/1934 — 1937/1945, José Linhares — 3 meses, Dutra
teoristas crus quimeras sonoras e inexequíveis, que, depois de custarem caro — 8 meses em 1946, os governos militares de 1964 a 1985); pelos mesmos
à humanidade, desejarão eles mesmos, se forem dotados de sensibilidade, 60 anos, sofremos censura à imprensa; inúmeras invasões de universidades,
expiar com lagrimas de sangue'?, diria Antônio Carlos de Andrada e Silva inclusive a de Brasília e a PUC de São Paulo; mais de dez mil cassações de
a Evaristo da Veiga, a propósito dessas belas e inaplicáveis teses políticas mandatos e direitos políticos; torturados, banidos e "desaparecidos", em nú-
(Joaquim Nabuco, Um estadista do Império, Ipe-Instituto de Progresso Edi- mero imprecisável; por seis vezes foi fechado o Congresso Nacional (Deodoro,
torial, São Paulo, edição de 1949). "A utopia de Rousseau iria fazer tanto Floriano, Vargas, Castelo Branco, Costa e Silva, Geisel); atentados políticos
mal à civilização e à cultura dos povos, que ainda não se lhe recenseou a aos montes (barão de Batovi, o barão de Cerro Azul, o coronel Gentil de
extensão. Rousseau não teve a originalidade dos criadores, mas foi um pre- Castro, o marechal Bittencourt, Pinheiro Machado, João pessoa. Olavo Pires
cursor; condensando no seu pensamento os desvios do caminho reto da ver- e Edmundo Pinto, dentre tantos outros, morreram por assassinato político;
dade, a verdade que se fundava no consenso medieval, impingiu-os aos seus Tenório Cavalcante e Carlos Lacerda escaparam com vida); e cláusula pétrea
pósteros", dirá João de Scantimburgo sobre o "Contrato Social" e as Con- durante noventa e nove anos (1889/1988).
fissões (O Poder Moderador, São Paulo, 1980).
A luz desses elementos de comparação, parecem desnecessárias outras
considerações sobre qual dos regimes proporcionou, e qual cerceou as liber-
1.4. LIBERDADE E ANTI-LIBERDADE dades políticas no Brasil. Mas, não será demais relembrar Bartolomeu Mitre,
Rojas Paul. e mais o presidente equatoriano, o primeíro-ministro Gladstone,
• Outra questão que merece reflexão, consiste no mito sobre a liberdade o primeiro-ministro Thiers, sobre a "democracia coroada".
política republicana e a figura do monarca absoluto, inteiramente — e, de *
longo tempo — superada nos conceitos da monarquia pós-moderna. 1.5. A "MODERNIDADE"
Para não se alongar o assunto, basta relembrar que, no Brasil, ele re-
sume-se aos seguintes dados objetivos: O mito sobre a "modernidade" é outro assunto cuja reflexão se faz
a) durante os sessenta e cinco anos de vigência da Constituição imperial necessária. Segundo ele. a república é um regime moderno, sempre atualizado,
(1824/1889), o País não conheceu um único dia sob estado de sítio, defesa, enquanto que a monarquia é um regime superado pelo ranço do passado. A
emergência, ou qualquer outra forma de suspensão das garantias constitucio- primeira, aberta às conquistas do conhecimento e ao avanço tecnológico; a
nais; igualmente, nem por um dia houve censura à imprensa; nenhuma uni- segunda, retrógrada, fechada às conquistas científicas e sociais.
versidade ou escola foi jamais invadida; não houve cassação de direitos po- E de indagar-se: em que assunto o Brasil está na vanguarda, no mundo
líticos de quem quer que fosse, tortura, nem "desaparecidos"; não havia cláu- de hoje? Infelizmente, estamos na vanguarda em inflação; em corrupção; em
sulas pétreas no Texto Magno; nem por um dia o Parlamento foi fechado; a acidentes de trânsito; em acidentes do trabalho: na mortalidade infantil; na
liberdade de manifestação política era algo tão óbvio, que a polícia garantia esquistossomose, malária e outras doenças; na falta de moradias; no baixo
os "meetings" dos republicanos, como ocorria com os comícios do partido nível de ensino (o quarto mais baixo, segundo a ONU); na falta de sinceridade
nazista na Inglaterra. Vale registrar, a esse propósito, as palavras de Gilberto e seriedade governamentais; no número de menores abandonados nas ruas,
Freyre, sobre o centenário de Joaquim Nabuco: na criminalidade e no número de assassinatos desses menores; na baixa efi-

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ciência dos nossos serviços públicos; na pouca qualidade dos veículos que 1.6. OS TÍTULOS DE NOBREZA
fabricamos; na baixa renda "per capita"; no inverossímel aumento de preços
internos; na falta de identidade nacional (há quanto tempo não se vê a palavra Afirma-se que teria havido e voltaria a haver, com a monarquia, uma
"patriotismo" num jornal?); no índice de analfabetismo; na dependência cien- divisão de classes sociais, em virtude dos títulos de nobreza. Trata-se de
tífica; nas oligarquias, "cartórios", e outros fenómenos do género; e, enfim, afirmação de conteúdo primário, totalmente destituída de conteúdo racional
ou cultural. O que faz a divisão de classes sociais — perfeitamente identi-
num sem-número de outros tópicos de igual jaez. Será isso o que se pretende
ficável no Brasil de hoje, aliás — são outras determinantes, ligadas à condição
por "modernidade", depois de cento e três anos de República?
económica, nível cultural, e a certos conceitos e preconceitos presentes à
E, com a Monarquia, como era? Já se viu antes: segundo país do mundo sociedade brasileira, independentemente de regime político.
a adotar correio oficial, selo postal, e a instalar linhas telefónicas; segundo Os títulos de nobreza dados pelo Império, nada tinham em comum —
das Américas a adotar telégrafo e instalar cabo submarino para a Europa; exceto as denominações — com os títulos surgidos na Europa feudal. Não
segunda maior frota de navios mercantes do mundo, e segunda maior esquadra importavam em doação de terras, concessão de rendas, pensões, isenções
naval; rede de fornecimento público de energia elétrica, antes de Washington fiscais ou qualquer outro privilégio. Não causavam um vintém de despesa
e Nova York (1871); dez mil quilómetros de estradas de ferro, numa época para o Erário Público, salvo a expedição do diploma. E não eram hereditários,
em que os outros países sequer estavam convencidos desse meio de transporte extinguiam-se com os titulares: os sucessores de Caxias não foram duques,
(onde estão nossas ferrovias, agora?). E mais: tínhamos um número de escolas nem foram marqueses os sucessores de Tamandaré. ou barões os sucessores
públicas proporcionalmente superior ao de hoje. Além disso, levamos menos de Barroso. Os agraciamentos se constituíam, na verdade, numa espécie de
vinte anos do que os Estados Unidos, contados cada qual a partir da respectiva super-condecoração aos que se destacavam por relevantes serviços prestados
independência, para extinguir nossa escravatura; e, como se demonstrará opor- ao País, em todos os campos de atividade; algo acima do que hoje representam
tunamente, levamos menos tempo do que qualquer outro país, a contar das as comendas do Mérito ou do Cruzeiro do Sul.
respectivas interdições ao tráfico, para concretizar essa extinção. Tudo isso, Em grande parte, os títulos foram concedidos na época da Inde-
acaso, não foi prova de modernidade? pendência, das guerras do Prata, e da guerra do Paraguai; dentre eles os do
É inquestionável que, desde há muito tempo, em nenhuma monarquia (Brigadeiro) barão de Tramandaí. do (almirante) barão de Jaceguay, do (ma-
de modelo ocidental assumem características de problema nacional os ele- rechal) marquês de Barbacena, do (marechal) barão de Batovi, do (marechal
de Campo) barão de Itapevi (Emílio Mallet, o Patrono da Artilharia), do
mentos corrupção e inflação; e, não existem em qualquer proporção os ele-
(almirante) barão de Ladario, do (general) marquês do Herval, Osório, além
mentos fome, miséria, violência, criminalidade, instabilidade política, atraso
dos já citados Caxias, Tamandaré e Barroso. Mas, também foram concedidos
social, subdesenvolvimento cultural, nem descrédito internacional. Nas repú-
a senadores, deputados gerais e provinciais, e vereadores, por sua profícua
blicas, ao contrário, quer se trate de repúblicas americanas, como africanas
participação na política, ou a ministros, presidentes de províncias e diretores
ou asiáticas, esses elementos sempre foram, e continuam sendo, as respectivas
de repartições públicas, por sua participação na administração, e ainda a
marcas registradas: quando não estão presentes todos eles, concomitantemente, diplomatas; dentre outros, os dois marqueses cie Paranaguá, o barão de Lopes
alternam-se num interminável ciclo de recuos, e de avanços para recuperar Neto, o barão de Penedo, o marquês de São Vicente, o marquês de Itanhaém,
esses recuos; o insucesso de ontem é momentaneamente esquecido e com- o visconde e o barão do Rio Branco, os viscondes de Ouro Preto, de Sinimbu,
pensado por um sucesso de hoje, mas este é logo anulado por um novo e do Uruguai. Cerca de dezesseis professores da Faculdade de Medicina do
insucesso, amanhã. Não há continuidade, não há projetos nacionais de longo Rio de Janeiro, e um da Faculdade da Bahia (o barão de Itapoã), além de
alcance: é como se a vida do país se circunscrevesse ao efémero período de juristas, como o barão de Ramalho, e diretores ou professores de escolas
um governante, tendo que ser refeita e recomeçada a cada novo período secundarias, como os barões de Pacheco, e de Macaúbas. Das atividades da
governamental. Nada é perene, tudo é precário, improvisado por e para cada indústria, agricultura, pecuária e comércio, devem ser lembrados os viscondes
novo governo. A consequência é que essas sociedades vão ficando cada vez de Mauá, de Meriti, de Cairu, o conde de Itamarati, os barões de Guaraciaba
mais defasadas na relação desenvolvimento/época; cada vez, mais distanciadas (negro retinto, a propósito), e de Cocais. Médicos, como os barões da Saúde,
dos índices de progressão natural dos povos. de Catumbi, do Rio do Ouro, e de Jacutinga. Por atividades filantrópicas (fundação
e provimento de Santas Casas de Misericórdia) a condessa da Piedade (viúva
Essas poucas referências, e dados comparativos — todos notórios, mas
de José Clemente Pereira), ou a viscondessa de Castro Lima.
nem sempre utilizados na reflexão — parecem suficientes para demonstrar
como a questão da "modernidade" entre a monarquia e a república, tal como Como ilustração, cabe registrar que o primeiro título brasileiro foi con-
colocada pelo "marketing" republicano, é uma assertiva sem base na realidade. cedido por Dom Pedro 1, em I o de dezembro de 1822: o de barão da Torre

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de Garcia d'Avila, a Antonio Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, qualquer raciocínio que ofereça uma resposta diversa daquela por ele condi-
descendente direto de Diogo Alvares "Caramuru" e de sua esposa, a índia cionada. Funciona como um computador que dá resposta programada a uma
Catarina Paraguassu. Com esse ato, no dia de sua coroação, o Imperador pergunta, sem que seja possível conferir o acerto do que foi digitado. Assim,
quis homenagear o mais antigo casal brasileiro, lembrando o povoamento do quem está submetido a esse processo de condicionamento cultural só tem a
país. resposta estereotipada; não tem como raciocinar livremente sobre a veracidade
ou falsidade dos dados com os quais a resposta foi programada. Em suma,
Caso também digno de nota foi — dentre outros, semelhantes — o do
não tem como tirar conclusões próprias sobre o assunto: o seu raciocínio é
barão de Goicana, que recebeu de Dom Pedro I I esse título, exclusivamente,
substituído por uma orientação pré-implantada. Esse processo, aliás, não poupa
por haver espontaneamente libertado todos os escravos que possuía.
nem mesmo as melhores inteligências.
Ao todo, foram 1.209 títulos; mas, quando da instauração da República,
Como instrumentos dessa obra de massificação, criaram-se mitos em
havia somente 387 titulares vivos.
torno de expressões, e de conceitos correspondentes; umas e outros repre-
Observe-se que a concessão de títulos nem sempre se fazia só com o
sentam, para os massificados, verdadeiras balizas, que demarcam rigorosa-
intuito de distinguir serviços prestados, mas também com o de atitude polí-
mente suas conclusões, indicam até onde pode ir o seu pensamento. Expressões
tico-didática. Foi o caso de Francisco de Salles Torres Homem, que sob o
como "moderno", "atual". "comunitário", "comunidade", "lazer", "esquerda",
pseudónimo de "Timandro" fazia política calcada em cáusticos e impiedosos
e outras, são tidas como sinónimo do que é bom, sem discussões possíveis.
ataques à Monarquia e à Família Imperial: para mostrar sua impessoalidade
Assim como a existência de um Congresso é tida como indicador de demo-
e isenção, e reconhecendo-lhe méritos suficientes, Dom Pedro I I agraciou-o
cracia pretendível, sem que seja permitido refletir que no caso brasileiro
com o título de visconde de Inhomirim. Essa atitude do monarca calou fundo
atual, o Congresso significa sinónimo de autocracia da classe política sobre
em Torres Homem, que acabou mais tarde sendo um dos mais sinceros e
a Nação; do mesmo modo como isso ocorreu — a autocracia — em relação
denodados defensores do regime, como senador e como ministro.
ao Poder Executivo, durante largos períodos da nossa vida republicana.
Entretanto, deve ser registrado que, se os títulos eram em regra con-
cedidos por serviços prestados ao país, essas concessões eram matéria de Nessa situação, o único remédio é informar-se. Mas, informar-se deci-
secundária importância para Dom Pedro II. No seu "Diário de 1862", vê-se dida e efeti vãmente. Com dados de repertório autorizado, e não dos repertórios
a seguinte passagem, elucidativa, a respeito de um pedido de uso de brasão existentes, precisamente, para criar e difundir o mito. Depois disso, é neces-
de armas: "Eu deixei a decisão ao Olinda (o marquês de Olinda) pois que sária uma firme determinação, para impedir que o mito continue atuando no
sentido de barrar a comparação entre a verdade constatada pelo processo de
para mim tal graça como disse não tem nenhuma importância e tem se feito,
informação, e a resposta por ele programada.
a todos os que a têm pedido" (D. Pedro I I , "Diário de 1862", in Anuário do
Museu Imperial, vol. X V I I , Petrópolis, 1956). O assunto "Monarquia" é exemplo claro de como atua esse processo
Registre-se, ainda, que só em casos raríssimos a concessão de títulos de bloqueio mental e cultural. O mais famoso — e, ridículo — de todos os
ou de uso de armas envolveu uma iniciativa pessoal do Imperador: a regra mitos que envolvem o tema é o que obriga os desinformados a repetirem
era a proposta do governo, que Dom Pedro I I em geral atendia. que "Monarquia é coisa do passado". Sem sequer lhes permitir indagarem-se
Durante a campanha do plebiscito foi perguntado, mais de uma vez: o algo que já se mencionou nestas paginas: às portas do ano 2000, dentre as
que sai mais barato para o país? Premiar com um título, ou com a diretoria 15 melhores democracias do mundo, 12 são monarquias; ou, porque, dentre
de uma estatal, um tabelionato, ou um cargo público em geral? as 18 nações líderes da economia mundial, 13 são monarquias; ou. sobretudo,
por qual razão esses países não abrem mão das suas monarquias. E. além
1.7. CONCLUSÕES SOBRE OS MITOS disso, por qual razão as boas experiências do passado — base do presente,
e do futuro — não serviriam.
A verdade é que repetir chavões e "palavras de ordem" não traduz Assim, o mito transforma-se em dogma para os condicionados: nem
conhecimento, nem sinceridade, mas só engajamento. Repisar meras asserti- sonham em conferir o acerto dó que ele afirma. Repetem-no incessantemente,
vas, cuja origem se desconhece, e cuja exatidão não se quis ou não se pôde defendem sua permanência. Porque ele passa a ser tão essencial para as es-
constatar, também só revela desinformação. Mas, pior do que desconhecer a truturas culturais e psicológicas quanto a droga é essencial para a estrutura
verdade sobre um assunto, é não querer conhecê-la, e aceitar a versão que física e emocional do dependente. Nem é por outra razão, registre-se. que
for apresentada por slogans e mitos culturalmente condicionantes: essa acei- os professores de História do primeiro e segundo graus são os mais acirrados
tação passiva traduz inexistência de atividade intelectiva. inimigos da monarquia, hoje: a ressurreição da nossa verdadeira História
Como num círculo vicioso, quem acolhe o mito é por ele impedido de significa, para eles, a desconfirmação de tudo quanto aprenderam na sua
refletir sobre a sua veracidade: o mito ocupa o espaço intelectivo, barrando própria formação e ensinam aos seus alunos; isto é, significa deixá-los in-

38 39
teiramente desprovidos de bagagem cultural verdadeira, e da própria condição
de professores! Vivêssemos no Brasil uma época de verdade, e eles mesmos
cuidariam de se rebelar contra essa fraude cultural; mas, como a época é a
"da versão" e dos cargos, não vêem alternativa senão a de hostilizar a verdade
— e, com esta, a monarquia — para terem como se agarrarem a esses seus
cargos, mesmo que com prejuízo do país, e de si próprios, em última análise.
Até para a dependência física, porém, existe cura. A custa de muito
esforço dos quantos quiseram se informar, um número cada vez maior de
brasileiros está procurando também informar-se, e romper o bloqueio cultural
que os mitos republicanos lhes impuseram: como consequência, continua
crescendo a idéia monárquica, sobretudo após o plebiscito.
Tal como nesta República, a metodologia do condicionamento foi uti-
lizada pelo Estado soviético. Lá. durante setenta anos, desde as primeiras
letras, as crianças foram ensinadas a ser exclusivamente comunistas, e a r i -
dicularizar quaisquer outras concepções económicas e políticas; quiseram
"reescrever" a História, apagando o passado e o resto do mundo, como meio
de solidificar e manter o regime. Aqui, também, durante cem anos. as pessoas 2 . A imprensa e o patrulhamento
foram ensinadas a aceitar sem discussões a república e a ridicularizar a mo-
narquia; exatamente como se a nossa formação histórica e o resto do mundo
não existissem. Mas, no Estado soviético, chegou a época em que os mitos
O grande Jean François Revel, no seu inigualável A outra censura,
e as palavras de ordem não resistiram à explosão da verdade, e o Estado
mostra como as chamadas "esquerdas" se apoderaram das redações dos veí-
soviético entrou em desagregação.
culos de comunicação escrita, falada e televisada. e impuseram o mais cerrado
Agora, também aqui. a luz começa a surgir no fim do túnel. Assim
patrulhamento ideológico-cultural de que há notícia na história desta civili-
como a Rússia hasteou novamente sua tradicional bandeira tricolor, a nossa
zação. Os seus traços característicos são o sectarismo e a felonia. Esses homens
consciência cívica começa a despertar; mesmo anestesiada por décadas de
"de esquerda" — muitos deles sem saber, sequer, a origem das expressões
embustes, e mesmo não tendo podido acordar a tempo do 21 de abril de
"esquerda" e "direita", nem os fundamentos, se efetivamente existentes, dessas
1993, dá sinais de querer sair da '1'amisa de força" e abrir os braços para a
posições no mundo contemporâneo — esses homens que formaram uma tra-
verdade. Se a desinformação e os chavões ainda iludem o raciocínio de muitos,
dição verdadeira de luta contra a censura das mais variadas espécies ou sub-
um número cada vez maior de brasileiros está percebendo que o "caso" não
produtos do fascismo ao redor do mundo e ao longo de décadas, não tiveram
é como lhes foi ensinado. Querem livrar-se da resignação a continuar sendo
outra atitude senão a de impor o mais rigoroso e abastardado patrulhamento
explorados por um regime insincero, característico de um sistema no qual o
ideológico a quantos não sejam das suas mesmas confrarias ideológicas. Re-
que é do público não tem dono. Enfim, os que se vão livrando do condicio-
petindo nas veiculações os "chavões" e as "palavras de ordem" dos seus
namento querem encarar a realidade e agir conforme ela.
dogmas políticos, e vedando o acesso à divulgação das ideias e lições de
quantos não lhes sejam irmãos de ideologia, transfiguram a cultura e a ver-
dade.
No Brasil o panorama não tem sido diferente: os mesmos homens que
sofreram os rigores do regime de 1964, e ao longo da duração deste clamavam
por liberdade e democracia, são os que, passada a repressão militar, estabe-
leceram sua própria repressão, tão ideológica, e tão ou mais eficiente e obs-
curantista quanto aquela.
Essa situação não é de agora: vem desde o período Kubitschek, quando
as esquerdas brasileiras resolveram "pagar para ver". Entendendo, acertada-
mente, que no Brasil só havia três forças sensíveis — o estabelecimento
militar, a imprensa e a Igreja — e reconhecendo a impossibilidade de a curto
prazo assenhorearem-se do primeiro, resolveram atacar de rijo as duas últimas.

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a partir, mesmo, de sua estrutura interna: trataram de infiltrar elementos seus avanço continua lento; correspondente, aliás, ao panorama ético e cultural
na foreja, desde os seminarios, ao mesmo tempo que cuidaram de cooptar da sociedade brasileira.
padres ordenados; e fizeram o mesmo nas redações da imprensa escrita e O primeiro ponto negativo de relevância é a falta de informação, de
televisada, assim como nas cátedras universitárias, sobretudo nos cursos de cultura geral, e o consequente despreparo para a função jornalística; isso
Historia, Geografia, Sociologia e Economia. Conseguiram o seu intento. aflora dos textos, principalmente nas seções de notícias internacionais e gerais.
Aqui, só nos interessam os aspectos ligados à comunicação e à cultura. Afirmativas aberrantes sobre assuntos simples — do tipo "o Canadá tem
Em poucos anos, agindo persistentemente, as esquerdas tomaram conta das presidente da República" — colocadas como ponto de partida do raciocínio
redações, ao ponto de ser comum proprietários e diretores de jornais e demais em meio a um texto, e a penosa repetição cotidiana dessas provas da falta
veículos de informação dizerem que são "donos" dos veículos, mas não de de cultura geral, dão uma clara demonstração do quanto os principais diários
suas redações... A partir de então, tudo foi submetido àquele patrulhamento do país ainda contribuem para a desinformação dos leitores. É bom lembrar
ideológico. que as redações das emissoras de televisão também cometem erros parecidos.
Vale lembrar, no entanto, que esse processo e sua conformação final Por esses motivos, tornou-se quase um hábito a advertência dos pro-
não podem ser descritos com a simplificação destas breves linhas. O que fessores universitários a seus alunos, no sentido de que quem quiser ficar
ocorreu, objetivamente, foi uma espécie de ocupação e acomodação de es- informado deve ler livros, quem quiser ficar mal-informado pode ler jornais,
paços; e de reconhecimento dos limites de disposição e influência por cada e quem quiser ficar completamente desinformado, pode ver a televisão.
uma das partes, redatores e diretores. Observe-se que, nas reportagens, a qualidade demonstrada pela imprensa
escrita é superior á da televisão. Basta que se lembre o chocante espetáculo
2.1. O PAPEL DA IMPRENSA de despreparo cultural causado pela impertinência e irrelevância das perguntas
que as simpáticas repórteres de tevê fazem aos entrevistados, muitas vezes
A imprensa exerce dois papéis preponderantes no processo de desen- irritando-os, e quase sempre causando frustração nos telespectadores.
volvimento de qualquer sociedade civilizada: ela tem o compromisso com a É claro que, assim como a falta de cultura humanística importa neces-
verdade dos fatos que noticia, para a preservação de sua imparcialidade como sariamente em despreparo para a atividade jornalística, todo esse contexto
elemento da ética profissional, jornalística e editorial; e estimula o aprimo- faz resultar a parcialidade e a duvidosa credibilidade da atuação da imprensa,
ramento cultural. Esses dois papéis se conjugam para constituir um terceiro prejudicando sua principal função que é a de ajudar na formação de uma
que, na verdade, é sua marca principal: a formação de uma opinião pública opinião pública consciente.
consciente, tanto mais autêntica à medida que pluralista e, acima de tudo, A parcialidade pode ser vista todos os dias nos noticiários e outros
participante. programas em que as entrevistas são truncadas, com o intuito claro de levar
Em nenhum país o estabelecimento jornalístico é modelar, perfeito, o leitor ou o telespectador a receber uma informação falsa, condicionada
infenso às paixões e interesses pessoais de seus agentes, assim como aos àquilo que deseja o redutor ou editor do programa.
interesses dele próprio enquanto estabelecimento. É significativa, neste sen- E mais do que certo que um diretor de jornal, ou um redator, terá sua
tido, a participação da imprensa americana no escândalo de Watergate, vin- preferência política assim como um posicionamento específico em relação a
gando-se de uma reação anterior do presidente Nixon contra jornalistas que qualquer questão, ou a determinadas pessoas. É salutar que essa visão pessoal
haviam tornado público segredos de segurança nacional. Além disso, como esteja refletida nos editoriais, que, aliás, definem a linha de atuação de um
para ser livre é necessário que seja desvinculada do Estado e consequentemente órgão de imprensa.
impulsionada por particulares, que visam lucro, ela fica sujeita à vontade Mas, em relação ao noticiário, ou à programação geral de uma TV,
pessoal dos que direta ou indiretamente controlam seus veículos. esse engajamento não poderia prevalecer. Patrulhar, minimizar determinados
Apesar de tudo, em um grande número de países é possível perceber fatos ou aspectos de uma questão, ressaltar apenas seu lado positivo ou seu
na imprensa uma sensível dose de ética profissional, o que a faz razoavelmente lado negativo, omitir, insinuar descréditos ou aumentar o mérito em relação
imparcial. A preocupação com a ética, por seus profissionais — desde reda- ao procedimento desta ou daquela pessoa, é uma atitude que desmoraliza
tores e repórteres até os responsáveis pela composição e diagramação — antes de tudo a própria imprensa, além de privar o público de conceber uma
decorre do próprio grau de desenvolvimento cultural desses países. opinião verdadeira.
Em termos de recursos científicos e tecnológicos, a imprensa brasileira Infelizmente, esta ainda é nos dias de hoje uma prática habitual na
vem acusando um nítido avanço; o aspecto mais visível é o da diagramação imprensa brasileira, cujos profissionais aparentam não ter exata noção do
dos jornais e revistas. Com respeito ao problema cultural e ético, porém, esse papel fundamental que lhes cumpre desempenhar no processo de desenvol-

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vimento político, económico e social do país. Os noticiários omitem, ressaltam aos noticiários de televisão. Ao contrário, um número imenso de iniciativas
ou minimizam segundo o engajamento de quem os faz, demonstrando o mais louváveis permanece ignorado pela mídia.
completo desprezo pela ética profissional que deveria nortear todas as ativi- Seria necessário dar espaço, também, às notícias que revelam a dedi-
dades jornalísticas, como pelo direito do público à correta informação.
cação, os esforços e a produção legislativa: e, igualmente, noticiar a prepo-
Outro aspecto negativo de extrema importância é a elevada dose de tência do Executivo contra os parlamentares, quando quer fazê-los mudar
mercantilismo que instrui a atividade jornalística. Dificilmente alguém, ou suas consciências. Generalizando os políticos, a imprensa acaba por formar
alguma entidade de qualquer natureza, consegue uma entrevista num jornal falsos mitos, pois ninguém ignora o poder dos meios de comunicação para
sobre um evento, ou a veiculação de notícia sobre suas atividades — mesmo influir nas consciências das pessoas. A mais este desserviço à causa pública,
que de interesse para o grande público — sem "investir" paralelamente, de
a imprensa brasileira acrescenta o maior de todos: o risco de que a opinião
alguma maneira. Em razão desse mercantilismo, proliferam veiculações de
pública venha a confundir o mau desempenho de um certo número de par-
jornalismo "cativo", como os programas do tipo "Conversa ao pé do radio"
lamentares com o desempenho da instituição de representação popular, o
e "Bom dia, governador". A imprensa está trocando sua liberdade de infor-
Legislativo. Nesse caso, pode-se criar o mito de que ela é desnecessária —
mação, seu papel fundamental no desenvolvimento político, económico e
ou até atrapalha — ao governo "democrático", sendo dispensável; ou ainda
social do país, pelas gigantescas verbas que o Executivo — nos três níveis
— destina à deturpação de fatos e ao engajamento das consciências. pior, o de que o próprio sistema democrático é inadequado às condições
brasileiras.
Por isso, varias matérias que são publicadas não interessam às grandes
Reitere-se que a tendência à generalização é característica do despreparo
massas, mas só aos próprios veiculadores; e nem sempre é verídica a idéia
que o público forma a respeito dos fatos veiculados. Faltam transparência e cultural e da consequente falta de compreensão da função jornalística. Essa
sinceridade aos veículos de comunicação, o que impede a formação de con- tendência a conceitos estereotipados é um produto do ensino por meio de
sensos e traz como consequências a indiferença e a alienação do público. definições, que veda às mentes o acesso à reflexão sobre seu conteúdo, afas-
tando qualquer possibilidade de analise em profundidade. Essa forma de en-
Não é somente na "imprensa marrom", também presente à televisão,
sino, praticada no Brasil nos últimos 40 anos, é a responsável pelo abandono
que se nota a carência apontada: os grandes jornais e os melhores programas
da prática do raciocínio, e dos valores éticos.
também a exibem. Nem, tampouco, é possível atribuí-la ao compromisso
com o que "é notícia", ou seja, com aquilo que desperta o interesse dos A crise brasileira, sobretudo a de valores, seria menor se o país contasse
leitores ou telespectadores. com uma imprensa consciente de seu papel. A maior parte das mazelas po-
O que acontece, na verdade, é um engajamento que, sem respeitar o líticas, económicas e sociais, que impedem o desenvolvimento e a liberação
leitor ou telespectador, desvirtua o papel da imprensa na medida em que da sociedade no rumo de sua plena realização, não seria possível diante de
transforma seus veículos em macropalanques a serviço de interesses espe- Uma opinião pública atuante e consolidada. Para essa consolidação, o país
cíficos, na maioria das vezes em desconformidade com o interesse público necessitaria de uma imprensa ética e desengajada, comprometida com a ver-
autêntico. Boicota a informação geral e descompromissada, como se a infor- dade sem distorções, nem mistificações, e sem se engajar nos interesses do
mação pudesse ser vendida da mesma forma como um produto qualquer, no poder político; mas, isso é concretamente impensável sob o regime republi-
balcão de um comerciante que é livre para escolher o que quer vender. cano.
Foi bastante sugestivo um comercial de televisão do Banco do Estado A edição histórica comemorativa do centenário do Jornal do Brasil,
de São Paulo, em que o figurante central dizia: "Eu não sou repórter, não. em 1992, estampou fato elucidativo do que se acabou de dizer. Logo após
Sou apenas um cidadão normal, dizendo a verdade." Esse comercial retrata o golpe militar que implantou a República, um conhecido republicano, Joa-
a imagem de nossa imprensa nos dias atuais, à medida que confirma a idéia quim Nabuco, foi convidado a ocupar um cargo na redação do jornal, e
de que os repórteres só dizem inverdades. aceitou entusiasticamente. Dois meses depois pediu demissão, dizendo que
Outro ponto a destacar na atuação da imprensa é sua obra de criação não havia na República a liberdade de manifestação que havia no Império!
de falsos mitos e de incorretas generalizações. Exemplo típico é sua contri- Na República, acrescentou, há sempre necessidade de patrulhamento para a
buição à imagem do Legislativo: os parlamentares habitualmente omissos, sustentação do poder: porque ela é feita de acordos entre políticos, visando
ou exclusivamente fisiológicos, não são a regra, são exceção. No entanto, é os seus próprios interesses; não nasce do livre jogo das opiniões populares,
a eles que a imprensa tradicionalmente se dedica, à procura de escândalos, garantidas pela atuação de um árbitro independente dos partidos e livre de
desleixos no cumprimento do mandato, descaso pela coisa pública, e atitudes eleições. E a vinculação política, precisamente, que determina o patrulhamento
ou iniciativas folclóricas. Porque essas notícias vendem jornais e dão audiência da imprensa.

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partidária e em especial ao PT (Partido dos Trabalhadores)? Isso, acaso, é
Certa ocasião perguntaram a Dom Pedro I I a razão de sua extrema
imprensa?
tolerância diante dos ataques que sofria dos seus opositores pela imprensa.
Respondeu, com estoicismo e sagacidade, dizendo que na oposição encontrava
2.2. ANTOLHOS CULTURAIS
colaboradores. Não procurava bajuladores, porque o poder não aliciava cons-
ciências.
No que diz respeito ao debate entre Monarquia e República, que como
O quadro, hoje, é bastante diferente. A questão não é de livre mani-
magnificamente sintetizado pelo jornalista Fernando Mesquita, é "a grande
festação, nem de oposição; mas, simplesmente, de interesses pessoais, de batalha política do Brasil pós-moderno" (in "Momento Legislativo", São Pau-
cifrão, e em geral de desinstruçâo. Acima de tudo, de ética. Dificilmente lo, edição de agosto/92), os corpos redatoriais de nossa imprensa, simples-
ocorrerá a um profissional de imprensa a compreensão de que existe um mente, não conseguiram cumprir o seu papel de informar o eleitorado, de
ponto de equilíbrio imprescindível entre o dever de informar e o de não maneira ampla e irrestrita.
assassinar, e nem mesmo macular leviana ou conscientemente a imagem pú-
blica das pessoas; e de que esse ponto de equilíbrio não está à disposição Esse papel teria necessariamente que ser o de veicular sobre todas as
correntes que disputavam o plebiscito. Igualmente. Sem preferências, sem
do jornalista ou do veículo de informação, ao talante de qualquer deles, uma
patrulhamento ideológico. Só assim estaria cumprindo sua inigualável missão
vez que o direito à imagem pública é constitucionalmente assegurado, e na
de propiciar a livre formação da opinião pública, e de permitir escolha cons-
sociedade contemporânea integra a gama do que se convencionou denominar
ciente por parte dos eleitores. Mas, não: os corpos redacionais não conseguiram
"direitos humanos".
se livrar dos seus três cacoetes: a deprimente repetição de mitos e chavões,
De nada adianta o argumento dos que, por interesse pessoal, sustentam o obscurantista patrulhamento ideológico, e a lamentável falta de noção da
o sofisma segundo o qual o interessado, "se não for culpado", ou "se for ética jornalística.
inocente", sempre poderá prová-lo. Em primeiro lugar, porque a imprensa
Em virtude desses três cacoetes, raramente a mídia deu acesso aos que
não é órgão de acusação, e a ser aplicado tal sofisma situar-se-ia acima da
defendiam a monarquia, ou até mesmo aos que procuravam debater a questão
lei; não só por exercer função que não lhe compete, como por acusar impu-
sem preconcebimentos; além disso, os redatores dos "clipps" sentiam-se im-
nemente. E, em segundo lugar, porque qualquer um sabe que, veiculada a
pelidos a utilizar o deboche, o famoso e ultrapassado risinho de mofa, sempre
acusação, e mesmo que apenas levantada a dúvida, não há mais como retirar
que noticiavam sobre a monarquia (afinal, o programa ideológico da República
de sobre o acusado a mácula, ao menos a mácula da dúvida sobre sua honradez.
transformou em coisa de bom tom debochar da Monarquia...).
Tudo isso, aliás, é velho. Não se pode esquecer que, em 1837, Armitage
A imprensa teria crescido em conceito se houvesse atuado com um
já escrevera que as calúnias e inverdades assacadas levianamente pela im-
pouco mais de critério, no permitir isentamente o acesso aos defensores das
prensa contra D. Pedro l eram acolhidas nas províncias com toda a cega
três correntes que concorriam ao plebiscito. Igualmente, se adotasse um mí-
credulidade de um povo pouco instruído: e reiterava que as calúnias dos nimo de senso crítico quanto às matérias originadas nos seus corpos reda-
jornais exaltados, por mais absurdas que fossem, eram acreditadas nas pro- cionais.
víncias. "Os atos mais insignificantes do Imperador eram torcidos em seu
desabono" (J. Armitage, História do Brazil, edição de 1914, Typographia Já que veiculava matérias oriundas dos corpos redacionais, de fundo
Brazil de Rothschild & Cia., São Paulo). ou de meras colunas ou seções, seria necessário que os redatores cuidassem
de se proteger — e, sobretudo, de proteger os leitores — antes de veicular
Nada mudou, portanto, desde o surgimento da nossa imprensa livre: os certas matérias.
jornalistas continuam não tendo ética, engajando-se nas suas preferências
Por outro lado, já que vedava o acesso aos monarquistas mas abria
políticas e interesses pessoais; os leitores, e sobretudo, hoje, os telespectadores,
espaço para os republicanos — apesar de vivermos num regime formalmente
continuam crédulos e pouco instruídos na sua imensa maioria. E a imprensa
pluralista — o mínimo que dela se poderia exigir seria o compromisso com
continua sendo uma arma de destruição, enquanto nas mãos de agentes pouco
a veracidade das afirmações. Mas, nem a esse cuidado ela se deu. Alguns
ou nada capacitados para utilizá-la. exemplos são suficientemente elucidativos.
Enfim, além de tudo quanto já se mostrou, ainda cabe perguntar, para
No segundo semestre de 1992, o O Estado de S. Paulo publicou matéria
em definitivo liquidar com a questão do péssimo papel representado pela
de página inteira sobre o famoso baile da Ilha Fiscal, que se realizou às
imprensa no contexto do desenvolvimento político e social brasileiro: é ético
vésperas do golpe militar — a marca original do pau que nasceu torto —
e lícito a um jornalista fazer "merchandising" a pretexto de matéria jorna-
que instaurou a República. A matéria falou em milhares de garrafas de vinho,
lística de informação? £, será correio que entidades sindicais do jornalismo
pompa e luxo; procurando, evidentemente, reviver o cansado mito republicano
sejam fdiadas à CUT (Central Única dos Trabalhadores), ligada à política
que associa a monarquia moderna à monarquia de mais de dois séculos atrás.
Não levou em conta que, sobre a Ilha Fiscal, sequer caberiam 2.000 pessoas, DataFolha, que apontavam 23% de preferências para a monarquia, o articulista
quanto mais as 5.000 mencionadas no texto; ou, que mesmo 5.000 pessoas concluía que a maior parte desses 23% era de eleitores revoltados contra o
não poderiam consumir um total de quase 20.000 garrafas de vinho e cham- presidencialismo: eles queriam, mesmo, era o parlamentarismo republicano.
pagne, salvo se fosse para ficarem em coma alcoólico. É óbvio que, se a Isto. apesar de a pesquisa haver divulgado, também, o índice de preferências
matéria mostrava uma despesa efetuada por uni dos regimes concorrentes a do parlamentarismo. Mas, além dessa "pérola" de interpretação, o cientista
um plebiscito que se avizinhava, o mínimo que o jornal deveria ter feito, em político da UNICAMP avançou mais, e já então espumejando: segundo o
respeito ao direito de informação dos seus leitores e à imparcialidade que seu entendimento, a proposta de realização do plebiscito era folclórica, por-
permeia o princípio da igualdade, seria indicar despesas similares realizadas que... não tinha apoio popular. Convenha-se, uma tal afirmação demonstra a
pelo regime concorrente. Teria bastante o que veicular, falando da festa de falta de espírito democrático e pluralista, assim como a configuração sectária
posse do presidente Collor, por exemplo. Ou, mesmo, das suas festas "par- das nossas denominadas — e, nem sempre com acerto, registre-se — "elites
ticulares", porque no sistema republicano as despesas dos governantes aca- culturais". Não se lembrou de considerar, o festejado articulista, que houvera
bam sempre saindo do bolso dos contribuintes; o que jamais ocorreu na uma proposta de emenda popular à Constituinte, com número de assinaturas
Monarquia brasileira, nem ocorre em qualquer das monarquias atuais. Deveria muito maior do que o exigido, propondo a volta do regime monárquico; e,
o jornal, ainda, ter feito remissão às viagens de Sarney, com os DC-10 fretados também, não considerou que isso ocorreu depois de quase cem anos de silêncio
à Varig, e as centenas de acompanhantes, com diárias pagas pelos cofres imposto pelo regime republicano aos monarquistas — a mais longa cassação
públicos. Ou, às próprias viagens de Collor, que pouco ficavam devendo às de direitos que a História conheceu até hoje.
de Sarney. Ainda, na edição de 24.12.91, a prestigiosa Gazeta Mercantil publicara
Nada disso foi feito pelo prestigioso órgão da grande imprensa, no artigo intitulado "A sedução monárquica...", tão repleto de imprecações e de
entanto. A julgar por aquela matéria, o raciocínio do leitor desavisado terá desinformação, que se constituiu numa agressão à inteligência de quem o
sido automático: "Como gastava a Monarquia, e como é económico o regime leu. O articulista punha em dúvida a participação da princesa Isabel na Abo-
republicano, que não dá festas na Ilha Fiscal!" lição, sem ao menos lembrar-se da frase do barão de Cotegipe ("Vossa Alteza
redimiu uma raça, mas perdeu o trono!"), lembrança que, certamente, ter-lhe-ia
Já se faz tempo de pararmos de aceitar a confusão entre liberdade de
ppupado dissabores. Afirmou que D. Maria I era avó dos atuais Bragança,
imprensa — oxigénio da democracia — e permissividade da imprensa, que
O que é um erro de somenos, mas nem sempre desculpável a quem pretende
é veneno para a democracia. De nada adianta os jornais dizerem que não se falar de fatos históricos: na verdade, a avó e bisavó dos atuais Bragança foi
responsabilizam pelos artigos e matérias assinadas: eles são, sim, responsáveis á princesa Isabel, ela, sim, bisneta de D. Maria I . Além disso, o articulista
por tudo o que veiculam nas suas páginas, porque a imprensa tem compro- provou não saber que D. Maria I dera carta branca aos magistrados, no Rio
misso com a verdade e a imparcialidade. Um jornal não é uma fábrica, na de Janeiro, para anistiarem todos os participantes da Inconfidência, segundo
qual o diretor e os empregados fabricam o produto que quiserem, para vender os critérios de julgamento que adorassem. Mas. não se contentou só com
ao público que vá ao seu balcão de comércio: a notícia é e só pode ser de isso: também fez insinuações grosseiras sobre a honestidade de Dom Pedro
um fato, e o fato tem a caracterizá-lo a verdade de sua ocorrência, e do I I ! O que, sequer, merece a honra de uma retiíicaçao, embora elementos
seu conteúdo. E, em sentido amplo, tudo o que um jornal veicula é notícia, saneadores da desinformação sejam suficientemente — acreditamos — en-
quer sob a forma de notícia propriamente dita, como de artigos, reportagens contráveis ao longo deste livro. Retlita-se, aliás: é aceitável não poder uma
ou editoriais. mentalidade, condicionada pelo regime republicano, entender como Dom Pe-
Ainda a propósito daquela matéria, vale lembrar que, também, o jornal dro I I foi capaz de recusar 5.000 contos de réis (4,5 toneladas de ouro) no
momento em que. velho e doente, partia para o exílio e sem um vintém. Não
não se preocupou em esclarecer aos leitores que, durante os quase cinquenta
será jamais possível aos espíritos assim formados aceitarem que alguém, chefe
anos do seu reinado. Dom Pedro I I fez realizar quatro grandes bailes oficiais:
de Estado durante quase cinquenta anos. fosse forçado a aceitar que um
quando de sua ascensão ao trono, no casamento da princesa Isabel, no final
semidesconhecido pagasse os funerais da imperatriz Teresa Cristina, em Lis-
da guerra do Paraguai, e esse da Ilha Fiscal, em homenagem à esquadra
boa... De qualquer modo, em que pese a reflexão sobre as apontadas impos-
chilena que visitava o Rio, e ficou célebre por ter sido realizado às vésperas sibilidades de entendimento, é mais do que certo que isso não justifica o
do golpe que impôs a República. Um gastador, esse Dom Pedro I I . . . desserviço prestado pelo veículo jornalístico, com a publicação de uma tal
Um outro órgão da grande imprensa, a Folha de São Paulo, na mesma matéria.
semana em que foi veiculada a matéria do "Estadão", publicou artigo de
quase uma pagina sobre as pesquisas plebiscitárias. Assustado com os índices No mesmo ano de 1991, O Estado de S. Paulo publicou artigo (2 a
Pagina) de outro especialista em Ciência Política da UNICAMP. A matéria
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pretendia demonstrar que, ao contrario do que já se incorporou ao conheci- de verdade, por mínimo que fosse, isso não poderia ser alegado como im-
mento comum, a monarquia não assegura estabilidade. Para fundamentar suas pedimento à monarquia: a Holanda, secularmente uma monarquia, também
assertivas, disparou uma "pérola" de conhecimento histórico: as monarquias passou pelo dissabor de ter uma república; isso durou 200 anos. e não somente
búlgara, romena e húngara teriam "se aliado a Hitler na Segunda Guerra 103, como é o nosso caso. No entanto, após esses duzentos anos de desen-
Mundial"! Ora, é de conhecimento universal que o rei Bóris, da Bulgária, contros republicanos, chamou de volta a sua dinastia de Orange, que não
foi assassinado por simpatizantes búlgaros do nazismo, precisamente porque teve qualquer dificuldade em desempenhar suas funções. Com sua monarquia
recusou-se a nomear um Primeiro Ministro nazista. Ou, que o rei Carol, da restabelecida, faz cento e sessenta anos, a Holanda reencontrou sua identidade,
Roménia, foi feito prisioneiro pelos nazistas — que visavam o petróleo do e a estabilidade política e social. O mesmo se diga da Família Real espanhola,
Mar Negro — exatamente porque se recusava a uma aliança com a Alemanha. depois de 45 anos de afastamento.
E que a Hungria, desde 1918 e até o fim da Segunda Guerra Mundial, foi Há mais, porém, a lembrar. Na edição de 3.2.93. a revista Veja publicou
um reino sem rei, porque as potências vencedoras da Primeira Guerra se matéria de várias paginas sobre a Família Imperial brasileira. Essa veiculação
recusavam a permitir que Carlos I e a Família Real voltassem ao país. foi um outro atentado à cultura, à informação e ao compromisso com a verdade,
Um outro artigo, assinado ainda por lentes da Ciência Política na UNI- investindo até mesmo contra o direito à imagem pública das pessoas; e. como
CAMP, e publicado no "Momento Legislativo" (agosto de 1992), afirmava sempre, nesse assunto, fazendo-o através de inverdades, distorções proposi-
que a Família Imperial brasileira não tivera qualquer participação na vida tadas, e outros expedientes notoriamente típicos de baixo jornalismo. Nem
pública "ha mais de um século", e por isso não podia desempenhar funções seria o caso de analisá-la, ou de retificar suas afirmações.
de Estado, afirmação que parece conter acentuada dose de superficialidade Um outro exemplo deve ser mencionado: consta de notícia sobre os
cultural. Em primeiro lugar, ainda mesmo enquanto exilada, a Família Imperial funerais do rei Balduíno, da Bélgica, na edição de 9.8.93 do O Estado de S.
nunca deixou de manter, e permanentemente revivificar todos os laços polí- Paulo. Tal matéria, da correspondente do jornal em Bruxelas, afirmou que
ticos e sociais com o nosso povo. A correspondência da princesa Isabel com esse monarca fora "escolhido pelo povo num plebiscito, cuja legitimidade
os brasileiros, por exemplo, era intensíssima; suas intervenções pessoais junto não vem de nenhum direito divino, mas da decisão livre e soberana do povo".
às autoridades brasileiras, e junto às autoridades estrangeiras, para resolver Bem mostra essa afirmação a que medida podem chegar o trabalho de de-
problemas de brasileiros aqui e no exterior, são conhecidas. (Seria conveniente sinformar e a falta de compromisso com a verdade na informação.
compulsar, pelo menos, a biografia da princesa Isabel, autoria de Hermes
Ocorre, simplesmente, que o rei Balduíno não foi escolhido por plebis-
Vieira, e lançada em sua nova edição há pouco tempo, pelas edições GRD,
cito algum; porque Monarquia não é República, sistema no qual se "elege"
São Paulo). Seu filho Dom Luiz a secundava, e chegou a vir ao Brasil; foi
— não, "escolhe" — um chefe de Estado. Balduíno subira ao trono em 1950,
impedido de desembarcar, mas concedeu audiências por dias a fio, a bordo
por sucessão hereditária legítima de seu pai, Leopoldo III, exatamente como
do navio atracado no Rio de Janeiro e em Santos. O marido da princesa, o
ocorreu com todos os seus antecessores, desde a primeira sucessão após a
conde d'Eu, veio ao Brasil tão logo foi levantado o banimento da família e
criação do Estado belga, sem que haja nisso qualquer conotação de "direito
foi homenageado em todos os estabelecimentos militares do Rio de Janeiro.
divino". O "gancho" para distorcimento da verdade foi o plebiscito realizado
Dom Pedro Henrique, neto da princesa Isabel, trouxe para o Brasil e ofereceu
em 1991, para aprovação da nova Constituição, que transformou o país numa
à Catedral do Rio de Janeiro a rosa de ouro com que o Papa Leão XIII
federação entre valões e flamengos; ou seja, nada teve como motivo o cargo
homenageara a princesa; esse mesmo príncipe, desde que chegou ao Brasil
real, embora esta nova Carta, cujo motivo principal foi a federação, refletiu
e até falecer em 1981, jamais deixou de fazer presente a Monarquia brasileira
as disposições da anterior sobre a sucessão hereditária do trono, e todo o seu
em eventos cívicos e sociais, o mesmo ocorrendo com seu primo Dom Pedro
texto foi levado a plebiscito. Foi o suficiente para que o jornalista, engajado
Gastão, que é membro de quase todos os Institutos Históricos e Geográficos
à grife republicana, não tivesse qualquer melindre em desinformar os leitores
do país. Aliás, em que pese o desconhecimento de muitos, o próprio governo
incautos, afirmando que o rei Balduíno fora "escolhido" pelos belgas em
brasileiro, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, sempre convida os repre-
plebiscito, depois de 42 anos de reinado! É claro que uma tal atitude tanto
sentantes da Família Imperial — e dando-lhes tratamento adequado à sua
pode ter sido causada pelo condicionamento ideológico do jornalista, pois o
condição histórica — para todas as solenidades e eventos condizentes com
condicionamento impede as pessoas de raciocinarem livremente, obrigando-as
a presença da família.
a distorcer os fatos para adequá-los à sua ática. Ou, ao contrário, a autora
Assim, não têm qualquer consistência simples assertivas, produzidas da matéria pode ter perfeito conhecimento da realidade, mas não tem escrú-
pela desinformação, sobre ausência da Família Imperial do contexto social pulos em desinformar os leitores, já que a informação correta desserveria à
e político brasileiro. Entretanto, ainda que nelas houvesse algum conteúdo grife republicana. Em suma, os condicionados pelo mito republicanista não
Tung os ensinavam, e mesmo antes da revolução russa eles já eram empre-
conseguem se conformar com a realidade de um monarca que, depois de gados. Precisamente por empregar os mesmos métodos repetitivos e opressores
quarenta e dois anos, é sempre e igualmente venerado pelo seu povo! Então, de consciências é que o outro extremo radical, o da "direita", é respeitado
necessitam "adequá-lo" às suas concepções, transformando-o num produto e combatido pelas esquerdas, o nazismo de Hitler e Goebbels, o fascismo de
de eleição. Sem que os comova qualquer preocupação com o papel da im- Mussolini e o getulismo no Brasil, e todas as outras sub-espécies do fascismo.
prensa, a verdade na notícia, ou o direito do público à informação autêntica, Os radicais vivem sempre sob antolhos culturais e intelectivos. Isso os
continuam argumentando com um dado dos séculos X V / X V I : o direito di- impede de captar o sentido natural das coisas: é como se tivessem conven-
vino!... cionado acreditar e repetir que o dia nasce porque o galo canta, e não o
De tudo quanto aqui se viu a propósito desses artigos e matérias "jor- contrário.
nalísticas", resta uma conclusão óbvia: já é tempo de haver algum remédio Em virtude desses antolhos, as nossas esquerdas não conseguem se
eficaz — mas, não autoritário — contra a veiculação de inverdades, quer aperceber do supremo erro estratégico que cometem, ao combater a monarquia
quando praticada por incultura, como quando por má fé. Um veículo de no Brasil. Esses antolhos as impedem de ter uma visão crítica, que lhes daria
informação, reitere-se, politicamente é uma arma mortífera; logo, não pode a certeza de que com a república, provavelmente, nunca chegarão ao poder,
ser utilizado irresponsavelmente, nem ficar à disposição de quantos não te- dado ao caráter do povo brasileiro, e enquanto persistir a tricotomía "esquer-
nham capacitação efetiva para dele fazer uso. da-direita-centro". Não foram capazes de compreender que milhões votaram
em Fernando Collor para não votar em Luiz Inácio "Lula" da Silva, em
E certo que vivemos numa época em que o saber foi substituído por
1989; ou que Roberto Freire, reconhecido como um dos melhores dentre os
uma falaz presunção legal, representada por tristes canudos de papelão. E
candidatos naquela eleição, conseguiu apenas 800.000 votos, precisamente,
igualmente certo que, em virtude disso, esse hoje pobre país. levado à situação
porque tinha atrás de si o velho "Partidão". São incapazes de perceber, as
de extrema alienação e rebaixamento moral e ético, nem sempre pode contar
nossas "esquerdas", que muito provavelmente nem mesmo primeiro-ministro
com mais do que pobres pseudo-culturas. na sua linha de frente cultural;
no parlamentarismo republicano Lula poderia ser, no Brasil. Mas, na Mo-
inclusive, na sua imprensa. Além disso, não há dúvida de que as matérias
narquia espanhola, Felipe Gonzales é primeiro-ministro faz oito anos; na
das quais acabamos de nos ocupar, foram elaboradas sob condicionantes ideo-
sueca, os socialistas governaram durante vinte e dois anos; assim como go-
lógicas. Tudo isso. porém, não exonera os veículos de informação do seu
vernam na Holanda e na Bélgica. Isto, porque a monarquia é sempre nacional,
compromisso com a verdade, com o direito à imagem, o direito à preservação
situa-se acima das lutas entre facções ou correntes de pensamento, enquanto
da História, o dever de preservar a cultura, e outros; que, se representam um que a república é segmentária e particularizável.
patrimônio da coletividade nacional, são, também, direitos de cada cidadão
em particular. A imprensa tem o dever de zelar por tudo isso, e não somente
2.3. OUTROS CACOETES
o de zelar pela sua liberdade, nas mais das vezes confundida com irrespon-
sabilidade e irresponsabilização; ela. já foi dito. não está acima da lei e do
As deformações de que se cuidou nos tópicos anteriores deste capítulo,
Direito, e muito menos acima do Bem e do Mal. Aliás, debalde continuará
constituem-se numa espécie de arsenal utilizado pelas "esquerdas" na sua
proclamando sua liberdade como elemento essencial à democracia, enquanto
batalha geral, cujos objetivos são a demolição e o sepultamento dos valores
remédios não forem consciente e eficazmente adotados contra o baixo jorna-
culturais e cívicos da Nação brasileira. Pois, enquanto a nossa verdadeira
lismo: sua liberdade, e a própria existência da democracia sempre estarão
História persistir e resistir, e com ela esses valores, sempre haverá obstáculos
à disposição dos inimigos de uma e de outra, enquanto estes souberem que ao "nivelamento por baixo", a massificação total que é imprescindível às
poderão contar, para os seus desígnios, com um jornalismo baixo, que se "esquerdas".
põe a serviço de qualquer coisa, e não necessariamente a serviço do com-
E mais do que óbvio, em qualquer parte do mundo, e inclusive no
promisso com a verdade.
Brasil: o intelectualoidismo esquerdizante não irá entregar os pontos, sim-
Quando se fez referência às denominadas "esquerdas", no começo deste plesmente porque a antiga União Soviética sofreu o abalo conhecido; seus
capítulo, e à forma como ocuparam os meios de comunicação e as cátedras, pontífices e arautos necessitam continuar repisando as suas cantilenas. Pri-
como método de luta política, tivemos em mente o fato de que vem das meiro, a fim de preservarem seus espaços e sua importância pessoal na mídia,
esquerdas a mais maciça dose de obscurantismo em torno da questão — nos sindicatos e nas universidades; depois, porque acreditam e apostam no
entre outras questões — Monarquia e República; assim como vêm delas o advento de uma nova União Soviética, no que não se lhes pode negar razão:
mais cerrado patrulhamento ideológico no acesso à mídia, e a repetição dos todas as repúblicas antes integrantes da URSS. e hoje independentes, assim
mitos, chavões e palavras de ordem são quase que um apanágio seu, e fazem como o próprio parlamento da Rússia, continuam controlados pela "linha
parte do seu treinamento e militância, como é notório. Lenin e Mao Tse
53
dura" comunista. Depois, o império dos czares é uma realidade histórica, e A insegurança causada pela ausência de Portugal, como a da criança
sua substituição pela URSS não mudou essa realidade política, económica e que sai pelo mundo sem a proteção do pai, paradoxalmente, gerava uma
militar. Logo, tudo indica que essas nações que sempre viveram aglomeradas outra: o medo do retorno dessa autoridade — paterna; e, daí ao radicalismo
em torno de um centro único, não possam sobreviver isoladamente; e, para contra tudo o que fosse português, era e foi um passo. O radicalismo deu
reaglomerá-las, só há duas alternativas: uma nova URSS, ou um novo império surgimento a um outro fenómeno psicológico, uma espécie de "transferência":
russo. gostariam que o país não tivesse tido origem, como se houvesse surgido do
Para manterem os seus espaços, os "monstros sagrados" da descultu- nada, não existissem o passado e a genealogia; o espírito "adámico", enfim,
ralização alimentam alguns outros cacoetes, que se tornaram grifes obrigatórias a que se referiu João Camilo de Oliveira Torres (interpretação da realidade
na mídia e nas universidades. De alguns deles, cuidar-se-á a seguir. brasileira, Rio, 1973). Como isso não era possível, gostariam de expulsar
todos os portugueses que houvesse aqui, para impedir lembranças anteriores
2.3.1. O nativismo a 1822. Como fazê-lo, porém, se eram seus próprios pais, avós, sogros, genros
e noras, cunhados? Na verdade, não havia e nem era possível haver nativismo
Assemelha-se em alguns pontos ao xenofobismo; em outros, procura algum; mas, como reconhecer o passado equivalia a reconhecer que o Brasil
ser identificado com o "progressismo". É produzido e alimentado por mentes era uma continuação de Portugal — e, "a Portugal, nada!" — tomaram uma
menos capazes, para consumo de mentes absolutamente incapazes, ou de providência... académica: trocaram os nomes portugueses de origem, por no-
"culturas" historicamente vazias. mes indígenas! Como se não fossem portugueses de origem, filhos, netos,
No caso brasileiro, o nativismo teve aspectos curiosos, e até certo ponto, bisnetos, trinetos, tetranetos dos colonizadores; e enfim, como se os seus
risíveis; a geração da Independência nos fornece alguns exemplos desses antepassados fossem invasores de sua terra. Como se eles mesmos, os que
aspectos. trocavam os nomes, fossem índios oprimidos e esbulhados, indignados contra
os portugueses! Alguns, como Gomes Brandão, que passou a se assinar "Gê
Havia aqueles que, pelo grau de conhecimentos e pelo descortínio, e
Acayaba de Montezuma" (mais tarde, visconde de Jequitinhonha) até que
enfim pela sua estatura de homens públicos, tinham plena e equilibrada con-
tinham sangue índio, sem dúvida; mas, obviamente, proveniente de casamento
vicção de que o País estava apto à autodeterminação, e a exercê-la sem que
de português com índia. Em muitos outros casos, entrando nessa mistura
para isso fosse necessário continuar associado a Portugal através do Reino
sangue africano.
Unido; embora, convenha-se, isso pudesse ter sido bastante vantajoso para
o Brasil. José Bonifacio não foi o único desses vultos acima da média, embora Assim, o nativismo nada mais foi senão um absurdo racional, e uma
tenha sido o maior deles, como se constatará oportunamente. De qualquer quimera romântica do academicismo, tão a gosto das nossas classes intelec-
modo, para esses homens acima da média a independência plena, o desliga- tuais, desde sempre! Com tão pouco de realidade quanto hoje continua sendo.
mento total de quaisquer laços com Portugal, o fato de o Brasil passar a Entretanto, se não era real, mas também não era virulento, chegou até os
conduzir sozinho o seu destino, já era algo natural no seu íntimo, numa nossos dias sob a forma do famigerado e virulento nacionalismo; este, sem
espécie de força que vinha de dentro para fora de cada um deles: um sentimento os toques originais do academicismo e do romantismo, tem sido o responsável
autêntico, com a segurança serena de quem está cônscio das suas possibili- por grande parte do nosso subdesenvolvimento económico e cultural: as "es-
dades, e do que deve fazer para concretizá-las. querdas" usam-no, ainda agora, como bandeira do seu estatismo, causador
Esses, porém, eram apenas os "acima da média". A maioria não era de atrasos em todos os campos.
dotada daquela força íntima nas suas convicções. Seguiam a moda dos na-
tivismos, alimentada pelas independências de outras ex-colônias, espanholas 2.3.2. O indianismo e a "negritude"
ou inglesas. Eram simples imitadores, papagaios de repetição, sem atinar com
o que estavam repetindo. O inarredável atrativo da "moda", enfim, nem sempre Esses dois elementos integram o falso contexto do nativismo, isto é,
benfazejo, e em regra prejudicial... um contexto meramente romântico, e pouco racional. A questão, reitere-se,
Dir-se-ia que aquelas maiorias não acreditavam no que diziam, embora prende-se a algo já ventilado: a civilização que temos não é de modo algum
o dissessem; faltava-lhes a convicção em suas próprias palavras, a crença a dos índios; e, nem chega a ser a dos africanos, em que pese a imensa e
nas suas possibilidades ou qualidades para serem cidadãos de um novo País, preciosíssima contribuição destes.
com nova vida política. Afinal, não estavam acostumados a aconchegarem-se A respeito desse cacoete cultural, lembre-se preciso trabalho de João
no "pai" — o rei, ou a Coroa — embora reclamassem do pai, como ocorre Ubaldo Ribeiro, sobre a absurda idéia de "termos sido" oprimidos pelos por-
em qualquer família? tugueses, e do qual vale refletir sobre o seguinte trecho:

54 55
y

"Em outros países da América latina, onde a população nativa
é muito grande ou majoritária, o raciocínio pode estar correio, mas
aqui não. Eu não posso — nem o leitor, a não ser que se chame
Popokantan ou porte um cinzeiro no lábio inferior — sentir-me invadido.
Portugal não só descobriu, como inventou o Brasil. Os silvícolas que,
com suas vergonhas à mostra, receberam Cabral, não sabiam geografia,
não conheciam o conceito de Estado ou Nação e, na verdade, não
faziam a mais vaga idéia de onde estavam — estavam 'aqui' ou 'ali'.
O expansionismo europeu ocupou isto aqui, tomou conta e fez o que
somos hoje. A terceira 'raça triste' tem muito pouco a ver com a nossa
história como Nação. Portanto, especular sobre como estaríamos, na
hipótese absurda de não havermos sido descobertos, é uma perfeita
palermice. Eu provavelmente estaria em Portugal, Antonio Pitanga na
Africa e Oscar, do basquete, na Alemanha. Aqui estariam, besuntan-
do-se de jenipapo e ainda com as vergonhas à mostra, os descendentes
dos que cá se encontravam em 1500" (cf. "índio quer apito", in O
Estado de S. Paulo, edição de 4.7.93).
3 . O Império
Na verdade, os índios atuais devem ser tratados com a proteção especial
a que têm direito, face não só u legislação brasileira, como aos postulados 1
' Aqueles que se dedicam ao estudo da formação e evolução das socie-
humanitários e culturais universais. Mas, isto só e enquanto conservarem sua dades — estudiosos da filosofia e da política, sociólogos, historiadores e
cultura original, e recusarem-se a ser absorvidos pelos brancos; não, quando j , (nitros — conhecem os mecanismos através dos quais surgem e se desenvol-
já estiverem aculturados à civilização que temos, e usando dos instrumentos ' vem o consciente e o inconsciente coletivos, com o concurso de valores
ditos civilizados. Pois, a partir de quando integrados à nossa civilização, não 1
assimilados em função de experiências vividas; valores esses euja noção é
podem mais gozar daqueles benefícios especiais, mas somente serem tratados '/transmitida de geração a geração, cada uma destas acrescentando ao patri-
com a proteção dispensada pela lei às minorias em geral. ,( itiônio herdado novos dados que se lhe somam, ou que modificam algo da-
Quanto às pessoas de raça negra, nem haveria o que dizer: cristalina- I queles anteriores, embora sem lhes alterar a essência. Os fatos que integram
mente, esses nossos patrícios e concidadãos não podem ser tratados como / ©dia a dia numa coletividade, a prática de atos pelas pessoas, geram efeitos
quaisquer das minorias, simplesmente, porque não o são; na verdade, cons- ' ,que se cristalizam através do tempo e das gerações; criando costumes, praxes
tituem cerca de um quarto da nossa população. Logo. o que urge a fazer é |Je comportamento e de valoração, cuja interaçâo constitui, precisamente, o
integrá-los à sociedade brasileira, plenamente, o que a República não fez (Conjunto consciente/inconsciente coletivo.
neste mais de um século. E isto é um problema de educação e conscientizaçâo, ;) Os primeiros vagidos de uma consciência nacional brasileira foram ou-
que precisam, um e outro, ser ministrados aos de raça branca; de modo que vidos dentro do contexto da Monarquia portuguesa, que a eles não se opôs.
os brasileiros chamados "de cor" tenham verdadeiramente — e não só for- Ao contrário, quando mais tarde esses vagidos se transformaram em brados,
malmente — todas as oportunidades de acesso profissional e social, de acordo ela os encampou sabiamente: não foi outro senão o seu representante máximo
com os atributos pessoais de cada um. quem, chamando o seu filho primogénito, previu lucidamente que em breve
O certo é que a República estabeleceu um verdadeiro e disfarçado "apart- o Brasil se separaria de Portugal; e, com idêntica lucidez, recomendou-lhe
heid". Não declarado, mas efetivo. Sua extirpação é uma das propostas da alçasse a Coroa desse Brasil Independente.
Monarquia, como condição "sine qua non" para a viabilidade estrutural do A previsão se concretizou, e a recomendação foi seguida.
Brasil. Sem os cacoetes do intelectualoidismo vazio, e da mídia alienada.
Após a proclamação da Independência, que fez em relação a Portugal
o que juridicamente já existia face às demais potências, e isso desde sua
elevação à categoria de Reino Unido, o país viu-se a braços com sucessivas
ameaças à sua unidade, forjada pacientemente desde o Descobrimento. Já se
incorporaram ao conhecimento histórico comum os movimentos separatistas,

57
as providências do Império, e as maiores ou menores dificuldades enfrentadas
para debelá-los.
Além disso, a nova soberania ainda teve que diligenciar a conciliação
entre os interesses nacionais e os da grande colónia portuguesa aqui fixada;
responsável, esta, por imensa parcela da riqueza e do crescimento da Nação,
e nem sempre concorde com a própria existência do novo Império.
Se ainda não bastasse, teve o país que sustentar campanhas militares
motivadas por querelas da política externa nas suas fronteiras: as denominadas
guerras do Prata. E, sobretudo, mais tarde, teve que sustentar, e sustentou
com firmeza a agressão dos soldados de Solano Lopez, que cuidava de anexar
ao seu sonhado "Império do Prata" uma boa parcela da nossa província de
Mato Grosso, e partes do que hoje são o Rio Grande e o Paraná.
Embora na época atual movimentos de opinião — que mais uma vez
será correto localizar no "intelectualoidismo" — espalhem uma nova e frau-
datória versão sobre a pretendida "agressão brasileira ao país vizinho", qual-
quer pesquisa serena dos registros históricos mostra claramente o desejo do
caudilho guarani de fundar um império sob sua coroa; para o que transformara
seu país no mais bem armado do continente. Basta que se reflita sobre o
fato de que foram necessários seis anos de guerra, e três exércitos, o bra-
sileiro, o argentino e o uruguaio para derrotá-lo.
Apesar de todas essas dificuldades, pôde a Monarquia assegurar a uni-
dade nacional, ao mesmo tempo em que assim a implementava.
Entretanto, é outro o aspecto que se pretende abordar. Nesse período
crucial que medeou entre a partida de Dom João V I e a abdicação de Dom
Pedro I (IV, em Portugal) à Coroa portuguesa, brilhou aqui uma constelação
de homens do quilate de José Bonifácio e Bernardo Pereira de Vasconcellos,
dentre inúmeros outros pilares da nacionalidade; mas, sem dúvida, o centro
catalizador e irradiador dessa constelação era o Príncipe Regente e depois
Imperador Dom Pedro. Não só por trazer em si o próprio prestígio da mo-
narquia, mas por expressá-lo através da mescla de altaneria, de inteligência
viva, de perspicácia, assim como dos mais humildes e comezinhos defeitos
do homem luso-brasileiro, que compunham o seu caráter e o seu tempera-
mento.
A conjugação das qualidades dessa constelação de homens com têmpera
de fundadores de nacionalidade, seus defeitos e suas virtudes, deram a con-
figuração dessa notável, inesquecível e curta época da nossa história, pouco
mais de uma década desde a partida de Dom João V I .
O grande Andrada concebera a organização da nova estrutura nacional
sob a forma inquestionável de uma Monarquia; até porque era da própria
Monarquia que vinham a força, o prestígio e o estímulo para o processo de
independência. Mas, talvez julgando pelos seus próprios anseios, concebera
essa Monarquia sob a forma "limitada"; tão próxima quanto possível — face
aos elementos antropológicos, sociológicos, culturais e, enfim, históricos da
sociedade brasileira — do modelo monárquico inglês. Percebera que só esses

JOSÉ BONIFACIO D E ANDRADA E S I L V A 59
idealizador da Monanjuia como único mcio seguro para preservar a unidade nae.onal.
(Tela de Benedito Calixto, Museu Paulista, São Paulo, SP)
dois elementos, a presença da Monarquia, estribada na legitimidade das tra-
dições dinásticas a que os brasileiros estavam acostumados, e a limitação de
seus poderes, seriam capazes de garantir um equilíbrio político ao mesmo
tempo flexível e forte, que fosse capaz de assegurar a unidade nacional num
país que já nascia gigantesco, mas cercado pela vizinhança instável, violenta,
cobiçosa e desordenada de "repúblicas" caudilhescas. Enxergou longe, o gran-
de Andrada, e enxergou corretamente: sua concepção concretizou-se integral-
mente, em poucos anos; e nos deu o melhor período da história nacional,
até hoje.
A propósito de José Bonifácio, assim se expressou Afonso Arinos: "Sua
extraordinária visão política nos deixa maravilhados. Homem de tempera-
mento radical, era um político de ação moderada, porque sabia que só a
Monarquia limitada e moderada manteria a nossa unidade nacional. Sabia
e disse. Hoje éfácil repetirmos isto, depois de verificarmos os acontecimentos.
O extraordinário é que ele o haja dito antes do processo sequer se achar
consolidado" (in Problemas Políticos Brasileiros, Livraria José Olympio Edi-
tora, Rio de Janeiro, 1975).
Era profunda a admiração que se votavam reciprocamente, o experiente
e sereno ministro e o jovem e impulsivo imperador. Aliás, em 14 de maio
de 1821 o então Príncipe Regente Dom Pedro expedira decreto concedendo
a José Bonifacio uma pensão equivalente à metade do que este percebera
em Portugal, "tendo em consideração os bons serviços com muita inteligência
ali por ele prestados" (cf. "Coleção das Leis do Brasil", de 1821, Parte I ,
Rio de Janeiro, 1889).
Dessa admiração, por parte do príncipe, dá conta a carta datada de 18
de fevereiro de 1822:

"Meu amigo —
Recebi a sua carta, e nela judiciosas reflexões, as quais eu aprovo
muito, e agradeço; e digo que, se todos os Príncipes que quisessem
obrar precipitadamente (assim como pelo Diabo eu ia fazendo), tivessem
um amigo como eu me prezo de ter, eles nunca se deslustrariam, e a
sua glória seria multiplicada todos os dias: graças a Deus que tal me
concedeu. Logo, quando passar por sua casa, entrarei para agradecer
a franqueza, que tem com
Este seu amo, que cada dia é mais seu amigo,
Pedro
"(cf. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 260, julho-setembro
1963, com remissão ao Arquivo da Família Imperial, doado ao Museu Imperial, Pe-
trópolis).

Quando se desavieram no episódio da dissolução da Constituinte, a
partida de José Bonifácio para a Europa foi uma espécie de "exílio por mútuo
consentimento": ambos preferiram essa solução. E o Imperador destinou ao

60 DOM PEDRO I
Proclamador da Independência, Primeiro Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do
Brasil - 28 Rei de Portugal (Dom Pedro IV) - Duque de Bragança, que. como um
relâmpago, na sua fulgurante vida de 35 anos, liberalizou a vida política de dois povos.
(Teia de G. Grevedon. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro)
Andrada uma pensão anual de 1.200 contos de réis; quantia muito mais do A resposta do grande Andrada, aceitando a tutoria, é suficiente para
que régia, se considerarmos que, de 1840 a 1889 — ainda com encargos de insinuar o desvendamento da variada gama dos sentimentos que ligavam
manter a Família Imperial, os dois palácios e os respectivos serviçais — esses dois super-homens:
Dom Pedro I I teve vencimentos anuais de 800 contos de réis.
Pouco depois de regressar da Europa, na qualidade de "amigo do so- "Senhor
berano e da sua pátria", o grande Andrada foi dar as boas-vindas à nova A carta de Vossa Majestade veio servir de pequeno lenitivo ao
Imperatriz; e apesar do quanto fora amigo de D a Leopoldina, desde logo o meu aflito coração: pois vejo que apesar de tudo V.M. ainda confia
foi igualmente de D a Amélia. Ao ponto de, nessa visita, em conversa reservada na minha honra e pequenos talentos para cuidar na tutoria e educação
e assistida só pelo Imperador, colocá-la a par das dificuldades que este en- de seu Augusto filho o Senhor D. Pedro II. Se eu não puder obter a
frentava; e quando a certa altura Dom Pedro quis apartá-lo, serenamente confirmação da Regência e Câmaras, ao menos como Cidadão parti-
disse-lhe o velho ministro: "Deixai-me dizer a verdade, porque isto é do cular não deixarei um só momento de vigiar sobre a sua futura felicidade
interesse de Vossa Majestade, dos seus filhos e de todos nós" (cf. Lygia e aproveitamento, por todos os meios que me forem possíveis, enquanto
Lemos Torres, A imperatriz Dona Amélia, São Paulo, 1947). durar este sopro de vida que me anima. Confie V.M. em mim, que
Em 1830, além disso. Dom Pedro I quisera trazê-!o de volta ao minis- nunca enganei a ninguém, e nunca soube desamar a quem uma vez
amei. -
tério, junto com seus irmãos Antonio Carlos e Martin Francisco; conforme
registra Joaquim Nabuco, ao transcrever a resposta deste último, mais tarde, Rogo a V.M. me ponha aos pés das Augustíssimas Senhoras im-
a quantos os chamavam de ambiciosos: peratriz e Rainha de Portugal, por quem rogo ao Deus do universo,
do fundo da minha alma, se digne felicitá-las em todo o tempo e cir-
cunstâncias desta nossa miserável vida. Iguais votos encaminho aos
"E como poderíamos ser ambiciosos, eu que ainda preso na Ilha
Céus o meu sincero coração pelo soberano, que foi da minha escolha,
das Cobras, recusei pastas? Que em 1830 não quisemos organizar um
e pelo meu amigo.
ministério e colocarmo-nos à testa dele?"
Beija as mãos de Vossa Majestade

Em maio de 1832, era completa a reconciliação dos Andradas com José Bonifácio de Andrada e Silva".
Dom Pedro, então duque de Bragança, e em sua campanha européia. "O que (Cf. Revista cit., vol. 260).
sentia um dos irmãos era o que sentiam os outros; melhor ainda o que
sentisse José Bonifacio", mentor dessa irmandade ilustre; "Sofri-lhe ofensas, Na véspera da partida do ex-Imperador, a propósito de prevenir pre-
mas por estas não era ele o responsável aos olhos da lei e, sobre este crime juízos, escreveu o Andrada a D. Pedro:
dos seus agentes responsáveis, muito tempo há que havemos lançado um
espesso véu" (cf. Joaquim Nabuco, ob. cit.). "Senhor
Abdicante e partindo para o exterior em 1831, não foi a nenhum aliado
Folgarei infinito que Vossa Majestade e toda a sua Augusta Fa-
fácil, mas ao cáustico e discordante Andrada que o Imperador quis para tutor mília passassem bem a noite.
dos seus filhos, particularmente do infante Dom Pedro I I . E impressionante Senhor, Samuel Phillips me mostrou a Procuração que V.M. lhe
a carta então dirigida por Dom Pedro a José Bonifácio: passou, que achei muito em regra; mas deu-me uma notícia que me
aflige e é que o célebre Buschenthal entre também nesse negócio como
"Amicus certus in re incerta cernitur. E chegada a ocasião de Pilatos no Credo. Como? E quer fiar-se V.M. em um maroto, como
dar mais uma prova de amizade, tomando conta da educação do meu tal reconhecido, e amigo do seu maior inimigo (Dom Miguel)? Pense
muito amado filho, seu Imperador. Eu desejo em tão patriótico cidadão V.M. no que faz, e não vá entregar nas mãos de um traste os seus
a tutoria do meu querido filho e espero que. educando-o naqueles sen- interesses pecuniários.
timentos de honra e de patriotismo com que devem ser educados todos
os soberanos para serem dignos de reinar; ele venha um dia fazer a Beija as mãos de Vossa Majestade
fortuna do Brasil, de que me retiro saudoso. Eu espero que me faça José Bonifácio de Andrada e Silva
este obséquio, que, a não me fazer, eu viverei sempre atormentado. 11 de abril, 2 a feira."
Seu amigo constante, (Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. cit.. com remissão aos arquivos
Pedro " onde se acha depositada).
absoluto, ao chegar à idade do discernimento aderira francamente à doutrina
Mais tarde, em meio às atribulações de sua campanha militar contra constitucionalista, e às lições de Benjamin Constant de Rebeque sobre a atua-
D. Miguel, o então duque de Bragança, que nunca descurou do destino do ção da prerrogativa moderadora do poder real. Seus atos foram uma sucessão
Brasil e dos filhos que aqui deixara, escreveu ao amigo José Bonifácio: "... de absolutismo e de liberalismo democrático. Numa só frase, é possível dizer
Não se esqueça de que me disse a bordo da nau: quanto a Assembleia não que todos os seus atos foram a expressão de "conceder", "outorgar", própria
aprove a nomeação \para a tutoria], esteja certo que como brasileiro lhe de quem tem poder absoluto; mas foram todos, sempre, no sentido de libe-
hei de defender seus filhos e que se quiserem atentar contra eles lá lhos ralizar. Ou seja, com poder absoluto que não admitia confrontações, libera-
levarei." lizava e democratizava. Pedro dissolveu a Constituinte em 12 de novembro
Os fatos e sentimentos revelados em todo esse contexto, e nessa troca de 1823.
de correspondência, dão uma exata medida da grandeza moral e viril desses
dois homens, cada qual cônscio do seu papel na História.
"A paixão dos debates e a febre revolucionária empolgavam a Assem-
Entretanto, nada melhor do que a carta de pêsames escrita por José
bléia. E destruíram-na..."; O imperador deu-se conta da intolerância
Bonifácio ao Imperador-menino Dom Pedro I I (9 anos) em 15 de dezembro
dos oradores", relata Pedro Calmon (História do Brasil, vol. 5, Rio de
de 1835, para mostrar o perfil de Pedro 1. e desses dois gigantes acima da
média: Janeiro, 1961). Mais tarde, o Padre Diogo Antônio Feijó diria que
"as províncias vizinhas [da Capital] felicitaram ao Imperador por este
"Senhor, ato violento, mas necessário, e, apesar de alguns males que trouxe a
dissolução, tivemos e gozamos de tranquilidade por dez ou doze anos"
Depois do fatal 15 de dezembro do ano passado (*), deixei por (cf. Melo Morais, A Independência). Francisco Adolfo de Varnhagen
necessidade de escrever a Vossa Majestade e às suas Augustas Irmãs, (Visconde de Porto Seguro), dá conta de que
a quem um só momento não tenho cessado de fazer ardentes votos
"de acordo com a opinião do próprio José Bonifacio, manifestada
pela sua prosperidade: hoje, porém, não há razão, por mais poderosa
antes e depois do acontecimento, documentada, hoje, por várias refe-
que seja, que possa vedar ao meu coração ir à presença de Vossa
rências contemporjaneas, tendo sido a Constituinte convocada por D.
Majestade e Altezas. Carregado de pesares e de profunda amargura,
eu vou dar os pêsames pela irreparável perda de seu Augusto Pai, o Pedro, quando ainda Príncipe-Regente, tinha ele inteiro direito de dis-
meu amigo. Não disse bem. D. Pedro não morreu — só morrem os solvê-la quando o julgasse oportuno. O mesmo Patriarca da Inde-
homens vulgares, e não os Heróis. Eles sempre vivem na memória ao pendência mais de uma vez tê-lo-ia aconselhado nesse sentido, inclusive
menos dos homens de bem, presentes e vindouros; e sua alma imortal a fim de que pudesse outorgar uma Constituição, sem esperar pela
vive no Céu, para fazer a felicidade futura do Brasil e servir de modelo conclusão dos trabalhos da Assembleia". (História da Independência
de magnanimidade e virtudes a Vossa Majestade Imperial, que o há do Brasil, Edições Melhoramentos, 5 a edição, São Paulo).
de imitar, e a suas Augustas Irmãs, que nunca o perderão de saudade.
Deus guarde a preciosa vida de Vossa Majestade Imperial, como O estopim da crise foi a intenção da Assembléia de reduzir o exército
de coração lhe deseja este. que sempre foi e será a um quinto do seu efetivo, e "desmobilizá-lo". Dom Pedro o tinha organizado
a duríssimas penas, tendo em vista prevenir nossa integridade territorial, per-
Senhor,
manentemente ameaçada pela efervescência político-militar dos países do Pra-
De Vossa majestade
ta. Desmobilizá-lo, ou mesmo reduzi-lo, significaria expor nossas fronteiras
súdito-amante fiel.
e populações do Sul e Sudoeste aos caudilhos hispânicos. Como refere Pedro
José Bonifácio de Andrada e Silva"
(In Revista do Instituto Histórico, cit.. vol. 260).
Calmon, "seria a dissolução da força armada... Preferiu o imperador a da
Assembléia" (ob. cit.).
De qualquer modo. no entanto, aquela monarquia limitada que José No próprio decreto de dissolução, Dom Pedro I prometeu uma Cons-
Bonifácio concebeu não poderia ser assimilada por Dom Pedro I . Este de-
tituição "duplicadamente liberal", em comparação ao projeto que se discutia
batera-se a vida inteira numa impressionante dicotomia: educado para ser rei
na Assembléia. Cumpriu a palavra. Nomeou dez Conselheiros de Estado,
alguns deles notáveis juristas, para elaborar o novo projeto; um mês depois,
deu-o a lume: resultou a mais autêntica, liberal, e consequentemente a mais
* Em 15 de dezembro de 1834 José Bonifácio fora destituído da tutoria, à força, pela duradoura Constituição que o Brasil já teve.
Regência.
65
A 11 de dezembro — vinte e nove dias depois da dissolução — o Registre-se, entretanto, que nem mesmo nessa questão da sucessão ao
projeto foi remetido a todas as Câmaras Municipais do Império, para receber trono português o Imperador deixou de raciocinar, em primeiro lugar, com
sugestões e emendas, como desejava o Imperador. Em 9 de janeiro seguinte, os interesses do Brasil; o que, aliás, confirma os fundamentos morais, éticos
a Câmara do Rio de Janeiro resolveu aprová-lo, e oficiou às demais pedindo e institucionais da Família Imperial fundada por ele ao proclamar a Inde-
que fizessem o mesmo. Como registra Pedro Calmon, foi "quase um ple- pendência em sua qualidade de brasileiro. O arquivo e a Revista do Instituto
biscito" (ob. cit.), e a aprovação pelas municipalidades foi geral. "Atendendo Histórico (tomo 38, parte 2 a ) conservaram para a posteridade um bilhete
a esse voto dos legítimos representantes da vontade popular", como disse achado entre os papéis deixados pelo visconde de São Leopoldo, escrito pelo
Hélio Vianna (História do Brasil, vol. I I I , 4 a edição, São Paulo), "só então "Chalaça" (Francisco Gomes da Silva) e entregue pessoalmente por Dom'
o Imperador outorgou-a solenemente, em 25 de março de 1824"* Pedro aos Conselheiros de Estado, com a seguinte questão: "Opõe-se à in-
Entretanto, dinâmico ao ponto de ser atrabiliário, altivo e temperamental, dependência do Império que o Imperador seja Rei de Portugal, governando-o
mas além disso perfeitamente cônscio da sua sinceridade interior, do papel do Brasil? No caso de não convir, como deve ser feita a abdicação, e em
que desempenhava na formação de um grande Império no Novo Mundo, e quem?" (Joaquim Nabuco, ob. cit.).
de tudo quanto pessoalmente abrira mão para isso, nem sempre Dom Pedro Um outro documento consta do arquivo do barão Homem de Mello,
mostrava-se disposto a, sem mágoas, aceitar o jacobinismo da classe política. posteriormente na posse do dr. David Carneiro, de Curitiba, no qual o Im-
Esta, na verdade, na sua maioria em quase nada contribuía para a obra de perador consultou o ministro Clemente Ferreira França sobre a possibilidade
sedimentação do país: poucos dentre seus integrantes tinham visão panorâmica de continuar rei de Portugal, governando-o do Brasil. A pergunta é a seguinte:
e histórica do momento e do futuro, mais preocupados com querelas ideo- "Se é útil, ou poderá vir a ser, que do Brasil seja governada uma nação
lógico-partidárias em torno de quimeras académicas. européia e sendo esta a portuguesa?" A resposta do ministro foi afirmativa
Acoimado de "brasileiro" e de excessivamente liberal pela colónia por- (Pedro Calmon, ob. cit.).
tuguesa, e de "português" excessivamente absolutista pelos brasileiros, Dom
Mesmo sem o Reino Unido, cuja dissolução Dom João V I previra ao
Pedro acabou perdendo-se de uns e de outros. Ao herdar em 1826 o trono
pressentir e estimular a separação institucional entre o Brasil e Portugal, teria
português, nem os brasileiros e nem mesmo os portugueses daqui e de lá
sido, ainda assim, a monarquia dual. Igualmente prevista por ele como uma
tinham condições culturais e psicológicas para atender à sua dupla situação
imposição natural da sua sucessão: seu primogénito ao mesmo tempo impe-
de imperador do Brasil e rei de Portugal. A monarquia dual, vislumbrada
rador do Brasil e rei de Portugal, embora cada país com o seu próprio estatuto
pelo seu previdente e defunto pai, que nos permitiria desde logo — se pre-
de soberania, mas assistindo-se reciprocamente nos interesses face a terceiros,
servada — estarmos na Africa (Angola, Guiné, Moçambique, Cabo Verde,
por circunstância também natural. Nem fora por outra razão que, no tratado
São João Baptista de Judá), na índia (Gôa, Damão e Diu), na China (Cantão
de reconhecimento da Independência, reservara para si a condição de Impe-
e Macau), e na Oceania (Timor), estava além da compreensão e do descortínio
rador Titular do Brasil: quando sua sucessão chegasse, seu filho, o Imperador
de sua geração, tanto no Brasil como em Portugal. Prova disso foram os
do Brasil, j á investido nessa condição de fato e de direito por aclamação da
arreganhos das Cortes (Parlamento) de Lisboa, e a abdicação ao trono por-
soberania brasileira, receberia uma confirmação dessa condição também pela
tuguês por Dom Pedro, na sua maior medida atendendo às instâncias da
sucessão dinástica; ou seja, as próprias circunstâncias históricas passariam
política brasileira.
uma esponja sobre as querelas e reclamações recíprocas dos dois países,
querelas da emancipação brasileira e da época colonial, e mantê-los-iam jun-
* Vale refletir, a propósito, sobre um outro mito criado pelo "marketing" republicano, o tos, embora separados, e muito mais juntos de fato, do que se institucional-
da "Carta outorgada" por Dom Pedro I, utilizada a expressão no sentido de imposição contrária mente unidos.
ao povo. Na verdade, nenhuma outra Constituição brasileira teve sua aprovação vinda de tão
próximo das fontes da soberania popular, ou seja, das Câmaras Municipais, que são os órgãos Seria, reitere-se, a monarquia dual: para brasileiros, com a vantagem
legislativos mais estreitamente ligados ao dia a dia das populações. O fato de o projeto haver de aqui estar a chefia comum, e do acesso à Europa e ao império português
sido elaborado por uma comissão nomeada pelo Imperador, só lhe aumentou a adequação e a espalhado pelo mundo; para portugueses, com a vantagem do correspondente
qualidade técnica, tanto que é considerada a melhor que tivemos, e por isso vigorou durante 65 acesso ao subcontinente brasileiro, e deste para toda a América. Para o Novo
anos, com uma única emenda, propiciando a maior fase de desenvolvimento que o país ja conheceu. Mundo, com a vantagem psicológica do desaparecimento do jacobinismo,
Lembre-se, ainda, que a primeira Constituição republicana foi cópia quase integral do texto
causado pela anterior concepção de hegemonia das metrópoles européias
imposto pelo Poder Executivo, através do Dec. n" 510, de 22.6.1890; e o mesmo ocorreu com
a de 1967. Em ambos os casos, os Congressos que confirmaram com limitadíssimas modificações sobre povos nas Américas.
os respectivos textos, não tinham tanta legitimidade em termos de soberania popular quanto as Se Dom João o idealizara sagazmente, e se Dom Pedro o entendera,
Câmaras Municipais, e mormente as de 1824. era demais para a compreensão dos brasileiros recém-independentes, ainda

66 67
com natural dificuldade de discernir entre patriotismo e xenofobismo; e era festado ele o demonstrou sobretudo nessa passagem, na qual abriu mão daquilo
demais, também, para os portugueses, ainda despeitados com a dissolução em prol do que abrira mão de tantas outras coisas, antes.
do Reino Unido, forçada por imposição brasileira de separação, consubstan- Na verdade, Dom Pedro uniu o Brasil ao fazer a Independência, e
ciada na Independência. tornou a uni-lo quando partiu. Qualidade outra, diga-se de passagem, carac-
Em razão dessas dificuldades, precisamente, ao receber a dupla sucessão terística da realeza: unir. Não fora por isso, ter-lhe-ia sido possível resistir
de Dom João V I em 1826 — a efetiva em Portugal, e a exclusivamente militarmente ao movimento sedicioso dos liberais, e com as mais amplas
nominal, no Brasil — Dom Pedro I manteve extremos escrúpulos no trato possibilidades de sucesso: "Sc o Imperador pretendesse resistir, teria, além
da questão, sempre dando precedência à sua condição no Brasil, com o qual da marinha, a artilharia montada, a guarda militar da polícia, e talvez os
já assumira de fato e de direito obrigações como Imperador, ao passo que três batalhões de caçadores, o que se deduz da atitude cautelosa dessas
com Portugal ainda não o fizera. unidades na noite de 6 para 7 de abril. Quanto ao Batalhão do Imperador,
Sobre o nosso primeiro Imperador, aliás, cumpre registrar que a crónica o seu segundo comandante, o major Luis Alves de Lima (o futuro Caxias),
lhe tem sido, em geral, desarrazoadamente injusta. E assim tem sido, de um chegou a propor a D. Pedro I que se retirasse para Santa Cruz e ele chefiaria
os milicianos" (Cónego Pinto de Campos. Vida do grande cidadão brasileiro
lado, em virtude das óbvias simpatias do ambiente político republicano a
Luis Alves de Lima e Silva — Barão, Conde, Marquês, Duque de Caxias,
esse proceder; de outro lado pelo j á citado e irracional jacobinismo ainda
Rio, 1939).
não extirpado da nossa cultura. Trata-se — como tudo, em relação à Monarquia
— de um trabalho premeditado de demolição da nossa realidade histórica. A revolta de 1831 foi uma espécie de "troco" dos liberais, privados
Na verdade, Dom Pedro I , que para aqui veio aos nove anos de idade, aqui de influência no governo desde a dissolução da Constituinte em 1823. Aliada
cresceu e se formou homem, e aqui passou a maior parte de sua vida, sempre à sua conhecida sede de poder, e ao seu inconformismo diante da eventual
teve para com o Brasil um desprendimento pessoal sem limites, e sem paralelo distância do poder, os políticos liberais tinham a seu favor o tradicional instinto
na História; sobretudo, nem poderia passar pela cabeça de alguém se ade- de imitação brasileiro; e, no ano anterior — fazia pouco tempo que aqui
quadamente informado, comparar esse desprendimento com o comportamento chegara a notícia — ocorrera na França a revolução de julho de 1830, contra
de qualquer dos líderes republicanos brasileiros em qualquer tempo. Em 1826, a monarquia tradicional, açulando o instinto de imitação. Esse instinto dos
cheio de mágoas e aborrecimentos com a política brasileira, poderia simples- brasileiros, provavelmente, terá sua raiz nos tempos do povoamento e da
mente tê-los deixado para trás, indo ocupar o trono português; mas permaneceu colónia, quando se considerava que tudo de bom quanto aqui houvesse viera
no Brasil e abdicou da coroa de Portugal em sua filha Maria da Glória (D. do exterior; em consequência, era sempre uma prova de "status" imitar as
Maria II). Para aqui ficar, recusou também a coroa da Grécia, oferecida em metrópoles estrangeiras. Esteve presente, também, em 1889, na imposição
da República.
1830, e a da própria Península Ibérica, que se cogitava criar com a fusão de
Portugal e Espanha. Embora o estopim da crise de 6/7 de abril pudesse ter sido apagado
De qualquer modo, é certo que a monarquia limitada, concebida por Com a simples anuência de Dom Pedro em reintegrar um ministério dispen-
José Bonifácio, não funcionou assim durante o reinado de Dom Pedro I , mas sado, parece certo, hoje, que essa atitude seria aos olhos dos sediciosos um
só com a regência de Araújo Lima e a posterior maioridade de Dom Pedro sinal de fraqueza, estimulando-os a encontrar novo motivo para continuarem
I I . Até a abdicação daquele ao trono português — em 1826, o ponto final em suas exigências. O Imperador já dera provas de sua boa vontade, exata-
do processo de nossa Independência — os ministros e o governo em geral mente, ao nomear para o lugar do ministério demitido um outro, integrado
foram largamente influenciados pelo Imperador, e a Constituição foi até certo por elementos simpáticos aos políticos liberais: mas nem isso serviria para
ponto "semântica", segundo a moderna classificação de Loewenstein; para aplacar a estes. Depois, a Dom Pedro não passava pela cabeça abrir mão de
isso contribuíram não só a sua índole pessoal e o seu prestígio de fundador suas competências constitucionais, no caso, a de nomear ou demitir livremente
do Império, mas a necessidade de uma vida "institucional de fato", caracte- o ministério; a solução visível só poderia ser o confronto. Se o monarca tinha
rísticas dos Estados em estruturação. Nos cinco últimos anos, no entanto, de como vencê-lo, e embora fazendo-o dentro dos limites constitucionais, isso
1826 a abril de 1831, o poder pessoal do Imperador foi mais aparente do significaria um ato de força a mais: já tivera que praticá-los em épocas an-
que verdadeiro; diminuindo sempre, até o desenlace da abdicação. teriores, sempre legalmente e sempre para atalhar ou consertar infantilidades
de políticos desinstruídos em Pernambuco, na Bahia, em São Paulo, no Sul.
Deve-se notar, no entanto, que em nenhum momento Dom Pedro mos-
* principalmente no episódio de dissolução da Constituinte. E essa cansativa
trou mais evidentes as características da realeza do que no episódio da ab-
repetição da necessidade de praticar atos legais de força, sempre criada ora
dicação: porque uma das mais marcantes dentre essas qualidades é, precisa-
pela estreiteza de vistas, ora pela falta de grandeza, ora pela falta de verdadeiro
mente, o desprendimento pessoal; e esse desprendimento tantas vezes mani-
AO
patriotismo, ora pela avidez ou pela desconsideração e pelos insultos dos Estendendo o papel ao major, disse-lhe Dom Pedro I : "Aqui tem a
políticos, dava ao seu reinado uma aparência — inverídica, é certo, mas dava abdicação; estimo que sejam felizes; eu me retiro para a Europa e deixo
de despotismo. E, "o despotismo era repugnante ao temperamento liberal • u m país que tanto amei e ainda amo."
do Imperador e ao seu papel histórico de herói dos dois mundos " (Joaquim Aos amigos deixou uma carta, publicada em fac-simile pela Litografia
Nabuco, ob. cit.). Steinmam (Rua do Carmo, 85, Rio de Janeiro), na qual disse:
De há muito Dom Pedro I estava cansado de tudo aquilo. Já por volta
de 1827 minutara um "plano, que Eu entendo ser necessário e do qual não j. "Eu me retiro para a Europa, saudoso da Pátria, dos filhos, e
posso despersuadir-me": o ponto central desse plano era a busca de um , de todos os meus verdadeiros amigos. Deixar objetos tão caros é su-
pretexto para abdicar, e dele constava o pedido de licença à Assembléia mamente sensível, ainda ao coração mais duro; mas deixá-los para
sustentar a honra, não pode haver maior glória. Adeus Pátria, adeus
Geral, para uma viagem à Europa: "não ma concedendo. Abdico infalivel-
||í amigos e adeus para sempre. Bordo da nau inglesa "Warspite". 12 de
mente". Pouco antes de 7 de abril, também dissera ao ministro Pontois: "Não
f. abril de ¡831. D. Pedro de Alcântara de Bragança e Bourbon."
querem mais saber de mim porque sou português. De há muito esperava
isso, e anunciei-o após a minha viagem a Minas. Meu fdho tem sobre mim
,f> Pedro Calmon nos dá conta, ainda, da mensagem comovida que dirigiu
a vantagem de ser brasileiro". Como registra a Revista do Instituto Histórico a Dom Pedro I I , começando pelas seguintes palavras: "Meu querido filho e
( X X X V I I I , parte 2 a ), o visconde de São Leopoldo ouviu do marquês de Ca- \tneu Imperador". Indubitavelmente, muito mais brasileiro do que a maioria
ravelas que, pouco antes do 7 de abril, insinuara a Dom Pedro I as queixas l
«los adversários que, no entanto, haviam nascido no Brasil... Aliás, não foi
que havia contra ele; "então o imperador prorrompeu em uma oposição „ dos portugueses, nem dos gregos que lhe haviam oferecido a sua coroa em
enérgica e tocante dos sacrifícios que fizera pelo Brasil, concluindo que B ^ O , e nem de qualquer outra gente que Dom Pedro I se lembraria, na hora
estava decidido a retirarse e fazia votos para que fossem felizes e se regessem fmesma de sua morte, na madrugada de 24 de setembro de 1834: seus últimos
em paz". ' alentos em meio às crises de hemoptise foram para a duros esforços ditar à
O auge da desconsideração dos políticos e da mágoa do Imperador iártulher D. Amélia e ao secretario a citada, longa e inesquecível "Carta aos
ocorreu em 25 de março de 1831, quando deixaram de convidá-lo para a pfasileiros" (in Manchete, RJ, n° 1.046).
cerimónia religiosa comemorativa do aniversário da Constituição, na Igreja Os historiadores da época, e aqueles que poucas ou muitas décadas
de São Francisco de Paula. Resolveu comparecer espontaneamente; e portando |.depois s e louvaram nos documentos e registros oficiais e particulares, assim
na lapela uma folha verde e amarela permaneceu no meio do povo, dentro K ^ m o na imprensa de então, são unânimes em concluir que as preocupações
da igreja, sendo afetivamente saudado pelos que o cercavam. No entanto, à mo Imperador com a coroa portuguesa — cuja sucessão ele solucionara com
saída, ouvindo gritos de "Viva D. Pedro I , enquanto constitucional", voltou-se ipase no atendimento das preferências e interesses dos brasileiros, pondo de
e disparou: "Sempre o fui e hei de dar provas de o ser, e tanto que, sem l P ? r t e a genial concepção paterna da monarquia dual, mas que ficara preju-
me convidarem para a sua função, aqui estou!" |klicadapela usurpação de seu irmão Dom Miguel — tenham sido o permanente
Por tudo isso, quando na madrugada de 7 de abril, os magistrados, ¡¡¡¡'pretexto de que se valeram os que, ávidos de poder político, não conheciam
primeiro, e depois o major Miguel de Frias e Vasconcellos foram mandados /.limites aos seus métodos de atuação. Ajudava-os o ambiente festivo que para
os portugueses aqui residentes, e para os emigrados depois do golpe de D.
ao palácio para dizer que o povo açulado pelos liberais exigia a volta do
Miguel em Portugal, causava a presença da jovem D. Maria I I no Rio de
ministério do senador Nicolau de Campos Vergueiro — note-se a incoerência
Maneiro; além, evidentemente, da grande popularidade do Imperador entre
do "nativismo" liberal: Vergueiro era igualmente nascido em Portugal, e vindo
/esses portugueses, por dele esperarem apoio à restauração do reinado liberal
para o Brasil com muito mais idade, já, do que o Imperador — Dom Pedro I
da sua filha em Lisboa. Tudo isso fazia um quadro "do qual a susceptibilidade
preferiu abdicar. O texto lacónico que então redigiu bem mostra sua desilusão
nacional injustamente se ressentia", segundo Joaquim Nabuco.
com os políticos, e a conseqiiente falta de interesse em dar maiores explica-
ções: Em 1834, ano de sua morte, seu grande opositor e grande panfletário,
Evaristo da Veiga, teve a ombridade de fazer a defesa do antigo monarca:

"Usando do direito que a Constituição me concede, declaro que "Se existimos como corpo de nação livre, se a nossa terra não
Hei mui voluntariamente abdicado na pessoa do meu muito amado e foi retalhada em pequenas repúblicas inimigas, onde só dominasse a
prezado filho, o Sr. D. Pedro de Alcântara. Boa Vista, 7 de abril de anarquia e o espírito militar, devemo-lo muito à resolução que ele
1831. 10° da Independência e do império". tomou de ficar entre nós..." (Otávio Tarquinio de Souza, Evaristo da
Veiga, Rio de Janeiro, 1957). Aliás, é ainda de Nabuco a conclusão
de que: "Visto de hoje o 7 de abril figurase uma dessas revoluções
que podiam ser economizadas com imensa vantagem, se, em certos
temperamentos, as loucuras da mocidade não fossem necessárias para
a mais elevada direção da vida."
Com pequenas modificações quanto à idade dos partícipes, essa con-
sideração adequa-se com exação ao golpe de 15 de novembro de 1889...
O "day after", o período imediato à abdicação, foi de um imenso e
frustrante vazio. Dom Pedro, tendo encontrado a gota d'água que lhe faltava
para livrar-se das desgastantes questiúnculas pessoais dos políticos, dos es-
crúpulos mal-direcionados dos patriotas — alguns sinceros, mas em geral
ininteligentes e sem perspectiva histórica — respondera com uma reação
muito superior ao que dele esperavam: tinham querido somente uma brinca-
deira a mais, uma baderna a mais, um achincalhe a mais, só uma mudança
de ministros; o Imperador respondera-lhes com a manutenção de suas funções
constitucionais, e com a honra da Monarquia!
A verdade é que os brasileiros, liberais e conservadores, moderados e
exaltados, toda a nação, ninguém podia ignorar, e muito menos esquecer o
que devíamos a Dom Pedro I . Em que pesassem os seus erros, a verdade
era que durante seu reinado o Brasil fizera "certamente mais progressos em
inteligência do que nos três séculos decorridos do seu descobrimento à Cons-
tituição portuguesa de 1820 (cf. Armitage, J., História do Brasil, São Paulo,
1914). A Nação podia ter queixas do monarca, mas sua ausência fê-la perder
o ânimo e a força, lançou-a em estado de abatimento moral. As dificuldades
do país decuplicaram imediatamente, os homens de Estado sentiram-se de-
sanimados, uma apatia geral tomou conta de tudo e de todos, como registram
todos os repertórios históricos.
"Para os pequenos inales que sofríamos não deverá buscar-se remédio
tão violento, cujos efeitos pesam mais, sem proporção, que esses mesmos
males" (José Thomaz Nabuco de Araújo, in "O velho de 1917", Recife, apud
Joaquim Nabuco, ob. cit.).

3.1. A PRIMEIRA EASE

A primeira fase do Império, portanto, que pode ser compreendida no
período entre 1821 e 1826, foi de implantação do Estado brasileiro. O poder
se exerceu mais ou menos "in natura", consensualmente. Não um poder cau-
dilhesco; mas nem sempre, também, atuante através dos canais rígidos e
delimitados das instituições. Pois estas, precisamente, estavam sendo então
criadas, ou sua utilização ainda estava em aprendizado.
Embora Pedro I fosse a mais fulgurante das estrelas que implantaram
o novo Império, é certo que sua vontade não foi sempre manifestada "ex
cátedra", não só porque havia outros astros na constelação, cuja vontade e

72 & DOM PEDRO II
gundo Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, no dia de sua coroação,
aos 15 anos de idade.
( T e l a d e Felix-Emile Taunay, Museu Imperial, Petrópolis, RJ)
opinião importava respeitar e ouvir, como também porque ele próprio, se O que mais ressalta no período regencial é o extraordinário senso de
absolutista pelo berço e pela tradição, era liberal por convicção. unidade nacional e de lealdade à monarquia, demonstrado pelos políticos de
todos os matizes. Havendo forçado à abdicação um imperador, sentiram-se
3.2. A SEGUNDA FASE todos responsáveis pela integridade de outro, que então era somente um sím-
bolo; pois, precisamente por sê-lo, precisava ser preservado, para evitar a
A fase seguinte foi de prova das instituições. Começou precisamente possibilidade de fracionamento que a ninguém interessava. Efetivamente, se
com a abdicação de Dom Pedro ao trono português: momentaneamente livre chega a causar espanto a resistência demonstrada pelas instituições nessa
dessa questão, o Imperador passara a dedicar-se exclusivamente ao Brasil. fase, esse espanto não pode deixar de se transformar em admiração por alguns
Foi então que descortinou o fosso que o separava da poderosa e influente homens públicos, verdadeira safra de estadistas, já no dia seguinte à abdicação,
colónia portuguesa, aos olhos da qual, como visto, era excessivamente bra- os grandes açuladores revolucionários do 7 de abril — Evaristo da Veiga,
sileiro e liberal; só nos últimos meses de seu reinado, como já referido, senador Vergueiro, Odorico Mendes, Brigadeiro Lima e Silva (Francisco) —
recuperou popularidade entre os portugueses. Na classe política brasileira, "passaram, sem transição, de agitadores a contra-revolucionários: exigiram
ordem", como relata Pedro Calmon, representando para a conservação da
para a qual ainda era um monarca "português", e excessivamente absolutista,
Monarquia o mesmo papel desempenhado em 1822 por José Bonifacio, para
também só encontrava restrições.
fundá-la. "Tiveram medo do abalo; recearam uma comoção social de efeitos
Note-se que a reação da colónia portuguesa era perfeitamente com- imprevisíveis; voltaram atrás, na hora em que deles dependia a coroa". "D.
preensível: afinal, sendo todos cidadãos portugueses, não se pode deixar de Pedro II, sendo apenas uma promessa, era um símbolo: menos do que o
levar em conta que Portugal perdera a maior parte do território do seu império, poder, a continuidade." (ob. cit.). "O reinado em perspectiva de uma criança
e depois desfizera-se o Reino Unido; esse território, sozinho, era algumas de seis anos provou ser uma salvaguarda admirável para a democracia"
vezes maior do que tudo que ainda lhe restara ao redor do mundo. Além (Joaquim Nabuco, ob. cit.).
disso, o fato de o rei português (Dom Pedro I V ) abdicar do trono lusitano
A verdade é que, já na manhã do próprio 7 de abril, Evaristo da Veiga
para ser exclusivamente Imperador do Brasil — da ex-colônia, ou mesmo
fora engolfado no grande vazio que assaltara a Nação inteira, e "morria de
do ex-parceiro do Reino Unido — era um agravo sem limites. Essa hostilidade,
desgosto": desde o próprio dia da abdicação, "advogou a preservação do
aliás, mais do que dirigida à pessoa de Dom Pedro, tinha como endereço
trono" (Otávio Tarquinio de Souza, cit., relembrando o jornal de Evaristo,
certo a nova situação do Brasil; tanto que, logo após sua abdicação ao trono
"Aurora Fluminense", n" 987). O próprio Feijó, "deles o mais enérgico"
brasileiro, a colónia portuguesa criou o "Partido da Restauração", objetivando
(Joaquim Nabuco, cit.), ainda em 1835, na "8 a condição" para sua aceitação
trazê-lo de volta, e quiçá restabelecer o Reino Unido.
da Regência, estipulava orientação para o caso de separação das províncias
Entretanto, se era justificável a hostilidade dos portugueses, a da classe do norte ("segurar as do Sul"), tal era a insegurança reinante após a partida
política brasileira era imperdoável, tanto moralmente como historicamente. de Dom Pedro I , insegurança com a qual nem o fato consumado de sua
Moveu-a, exclusivamente, o jacobinismo cego, irracional, sem qualquer fun- morte, em 1834, fora capaz de acabar.
damento face às sucessivas demonstrações de desprendimento pessoal de um
As disputas políticas entre conservadores e liberais, e dentre as diversas
homem, que tudo ao seu alcance fizera em prol do Brasil, e para permanecer
correntes destes últimos, prosseguiram acirradas. Houve momentos de hege-
no Brasil.
monia de um e de outro partido, e inclusive alguns "golpes de mão": a
Esse mesmo jacobinismo, aliás, voltando-se mais tarde contra o marido aprovação do Ato Adicional de 1834, pelos liberais, e sua reforma pelos
da princesa Isabel, foi um dos responsáveis pelo golpe de novembro de 1889, conservadores em 1840, assim como o restabelecimento do Conselho de Es-
como se verá adiante. E continua facilmente detectável nos dias de hoje: tado, e o próprio episódio da Maioridade, podem ser vistos como exemplo
basta ver a reação — quase como um dever — dos nossos "âncoras" de disso. Mas a preservação da Monarquia e da unidade nacional foram consenso
noticiários da televisão, todas as vezes que no exterior são feitas criticas ao do qual as correntes políticas não se afastaram.
Brasil. O jacobinismo, registre-se, é uma das mais lídimas expressões de A partir de 1837 começou a ser institucionalizado um incipiente sistema
subdesenvolvimento, e demonstra certa estreiteza cultural. parlamentar, cujo ato de implantação definitiva pode ser visto na criação do
Com a abdicação de Pedro I , em 1831, deixando Pedro I I com 5 anos cargo de presidente do Conselho de Ministros, em 1847, encerrando a segunda
de idade, inaugurou-se no âmbito dessa segunda fase do Império a era das fase do Império.
regências.

74 75
3.3. A TERCEIRA FASE

Quando foi criado o cargo de presidente do Conselho de Ministros,
Dom Pedro I I contava 21 anos. Consideradas a sua notória precocidade, a
educação que recebera, e a solidão de sua infância — sem pais, avós, tios
nem primos — essa idade já era mais do que suficiente, do ponto de vista
concreto, para o exercício das funções imperiais. Nas quais, diga-se, por essa
época ele já se investira efetivamente: não havia mais conselheiro ou ministro
capaz de influenciá-lo, como conseguira fazer Aureliano Coutinho (visconde
de Sepetiba) logo após a Maioridade.
Esses dois fatos, a investidura efetiva do Imperador em suas funções,
e a institucionalização do sistema parlamentar, com a criação do cargo de
chefe do Gabinete de Governo, caracterizam o início da terceira fase do
Império. Pouco depois, foi assimilado o último foco separatista que ainda
restara, da série dos que eclodiram a partir da Independência, como sempre
ocorre no processo de formação de Estados com grande extensão territorial.
O Império mantivera e consolidara a unidade nacional, que havia sido forjada
a duras penas desde as jornadas do povoamento do território.

3.3.1. A unidade nacional

A questão da participação da Monarquia na sedimentação da unidade
nacional, no entanto, merece um parênteses a mais.
Com efeito, assim como o fizera a Coroa portuguesa, também a Coroa
espanhola empreendera um vasto trabalho de colonização nos seus territórios
sul-americanos. Apesar disso, ao tornarem-se independentes esses territórios,
sequer foi possível manter a unidade dos diversos Vice-Reinados e Capita-
nias-Gerais que os continham administrativamente. Assim, dos Vice-Reinados
do Peru (depois Nova Granada) e do Prata (depois Buenos Aires), e das
Capitanias-Gerais do Chile e da Venezuela, resultaram nada menos que dez
repúblicas.
Qual a razão desse fenómeno e dessa diferença em relação ao que se
passou na emancipação política do Brasil? Por qual motivo, nos territórios
da América espanhola, a estratégia política e a atuação militar voltaram-se
para propósitos finais particularizados e menores, e, no Brasil, essa estratégia
e atuação voltaram-se para um objetivo maior e geral?
Tudo sinaliza para duas razões, uma mediata e outra imediata.
A razão mediata residiu na circunstância de a independência do Brasil
não haver sido conseguida através do poder de fato, que traduz a atuação de
caudilhos, como ocorreu na América espanhola. E a razão imediata residiu
em haver sido levada a efeito dentro do contexto da Monarquia, e especifi-
camente sob o prestígio da Monarquia. É até possível avançar, dizendo que,
de outra parte, a estrutura política e social cunhada pela Coroa portuguesa
na sua gigantesca obra de colonização, e bem assim o prestígio do regime.

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impediram o surgimento e a "institucionalização" da figura dos caudilhos. nas providências que se lhe seguiram, e sobretudo quando foram debelados
Observe-se que, nos territórios espanhóis da América do Sul, foram diversos os movimentos separatistas posteriores, todos esses esforços se desenvolveram
os chefes de fato que encabeçaram e terminaram por vencer as inúmeras no sentido de apertar os laços da unidade nacional. Por qual razão atuaram
campanhas que os separaram da Espanha. Enquanto que, no Brasil, uma só as forças políticas e militares num mesmo sentido, em que pesasse a nacio-
plêiade de homens, encabeçados pelo então Príncipe Regente D. Pedro, di- nalidade ainda tão recente e até certo ponto com detalhes ainda por definir,
ligenciou a preparação e a concretização das providências que resultaram no se seria tão simples atirarem-se essas forças sobre o território nacional, como
surgimento de um novo e único Império. quem se atira a despojos, assegurando cada qual para si a soberania de uma
Mas, qual a razão dessas duas razões, a causa que lhes deu efeito? parcela desse território? Ainda mais, tendo exemplos, tão próximos, do que
ocorrera à nossa volta, simplesmente do lado de lá de nossas fronteiras? A
A partir do século XIV, portugueses e espanhóis enveredaram por ca-
resposta plausível direciona para a presença da Monarquia, para a natureza
minhos distintos, "Portugal criando o seu espírito nacional, modelando a
e as características do poder por ela exercido.
sua consciência coletiva, o seu sentimento português — à força de estímulos
externos — das guerras contra Castello, das guerras contra os mouros — Efetivamente, sob a égide da Coroa portuguesa desenvolveram-se, ao
e a Espanha conservando o sentimento localista da cidade, a sua alma de longo de dois séculos, os esforços para a ocupação do território nacional,
'fuero', a sua heterogeneidade política" (Marechal Ignácio José Veríssimo, para a fixação e a manutenção das fronteiras; criando, esses esforços, também
"Antecedentes históricos e diplomáticos da guerra do Paraguai", in Revista aqui, o senso geral de destino comum na unidade do país e de união em
Militar Brasileira, Ano L I I , n" 4, Rio de Janeiro, 1966). torno da Coroa. Esses dois sentimentos parecem ter agido reciprocamente
A confirmá-lo: no ano de 1400 Portugal já tinha um rei português: como causa e efeito, sedimentando o papel catalizador da Coroa, como se
mas, nesse mesmo ano, a unificação espanhola decorria, exclusivamente, de fosse um pálio, sob o qual aglutinavam-se e a partir do qual irradiavam-se
ajustes dinásticos localizados em dois dos diversos reinos em que se dividia as iniciativas impulsionadoras do crescimento.
a Espanha, e não em interesses nacionais globais. Ern consequência, quando Por esses motivos, não houve lugar para o surgimento dos caudilhos
chegou a era das navegações, os portugueses as fizeram por obra coletiva e no nosso contexto político e social; consequentemente, jamais houve o pleito
institucional, nacional; os espanhóis por obra individual e aventureira. No de cada um por poder particularizado e de fato. Exatamente o contrário ocorreu
território americano, o espanhol é herói isolado, o português é o representante nos territórios espanhóis: a permanente divisão político-administrativa, e as
de um sistema político completamente montado, "com hierarquia preesta- sucessivas redivisões inviabilizaram qualquer sentimento de unidade entre
belecida, com uma tradição nacional" (Marechal Ignácio José Veríssimo, essas regiões. Em consequência, surgiram os apetites políticos locais, lide-
ob. cit.). As navegações portuguesas foram as de uma Nação consolidada, ranças em geral autoproclamadas, sem embasamento numa ordem jurídica
os seus filhos aglutinados e identificados; não foram obra de aventureiros. definitivamente posta, e obviamente, sem qualquer elo de ligação sensível
Foram-no, no entanto, as navegações espanholas — Colombo, Cortez, Pizarro entre cada uma delas. Foi a atuação desses inúmeros poderes localizados que
e Balboa são seus exemplos clássicos — porque o Estado espanhol, para resultou no surgimento de um sem-número de soberanias concorrentes.
manter unidas a si as conquistas dos seus filhos, precisa abandonar as prer-
No Brasil, preparou-se um movimento de emancipação nacional. Mas
rogativas de Estado, resignar-se a conceder privilégios políticos. Nas portu-
esse movimento não se dirigiu contra a Monarquia, e sim contra os que, em
guesas, reitera-se, não: sempre esteve presente a elas a autoridade do Estado.
Portugal, pretendiam acabar com ela. O próprio centro vital desse movimento,
Por isso, para não perdê-las, a Espanha repartiu desde o início suas colónias
americanas, que foram vice-reinados formais; verdadeiramente foram autori- aqui, foi a presença viva da Monarquia, o príncipe Dom Pedro, inspirado na
dades locais, dotados de autonomia e administração locais. Portugal, não: lucidez da orientação que lhe dera seu pai ao partir; os territórios espanhóis
sua colónia americana teve sempre a centralização a ligá-la ao Estado por- da América também não contaram com essa circunstância.
tuguês. O povo português existia unido, e unido ao dirigente, porque desde E de indagar, aliás, do sentido político e jurídico do ato de Dom João
os seus primórdios compreendeu que na luta contra os espanhóis e os mouros, V I — que era o rei dos dois países, e reinante — ao designar Dom Pedro
não havia somente o interesse do rei, mas o seu próprio. Por isso, integrali- como Regente do Brasil. Que outro sentido poderia ter esse ato, senão o de
zou-se no povoamento e na colonização do território jimericano: pelo que de aplainar o caminho da Independência, e de fazer dela uma obra da própria
idêntico havia entre o interesse do rei, como qualquer português, e os interesses Monarquia, dentro de suas estruturas?
dinásticos de Portugal. Assim, o movimento pela independência se fez em virtude do sentimento
A reforçar esse entendimento, caberia indagar qual a razão pela qual, de unidade nacional, e sua concretização ocorreu por impulso mesmo da
tanto nos episódios que envolveram a Independência em si mesma, quanto Monarquia, que manteve íntegro o sentimento dessa unidade.

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Se os movimentos separatistas sempre foram uma constante histórica eido, além disso, que faz menos de cinco anos o país sofreu pressões de
no momento de formação dos países de grande extensão territorial*, e também todos os matizes, inclusive internas, para colocar a Amazónia sob a fiscali-
aqui se manifestaram, deve-se refletir sobre o fato de, mesmo após a partida zação internacional, o que é uma porta aberta à internacionalização, isto é,
de Dom Pedro I , não haverem mudado a ótica da unidade na atuação das à perda da soberania.
sucessivas Regências face a esses movimentos separatistas. E, isto, numa Infelizmente, são do conhecimento de muito poucos as paginas do Diá-
fase em que a presença da Monarquia permanecia apenas latente e nominal. rio de Dom Pedro I I — que precisaria ser reeditado — nas quais o Imperador
De igual modo, mais tarde, a atuação dos sucessivos governos — tanto liberais manifestava seguidamente sua preocupação com a cobiça externa em relação
como conservadores — no reinado de D. Pedro I I , culminando com a assi- ao rio Amazonas e às regiões por ele banhadas.*
milação definitiva dos últimos focos separatistas à unidade nacional. Há que Mais do que nunca, é chegado o momento de trazer de volta a identidade
se ressaltar a extraordinária contribuição de Luis Alves de Lima e Silva, mais nacional, latente na consciência coletiva, mas abafada pelos mitos e chavões
tarde duque de Caxias, cognominado "O Pacificador", na debelação dos di- republicanos; para, assim, e só assim, assegurar a unidade nacional. Convém
versos movimentos de secessão que eclodiram nas décadas de 30 e 40 do não esquecer, por exemplo, que a Venezuela reivindica, faz cem anos, uma
século passado; agindo com habilidade política, aliada à presença militar, parcela do nosso território, na chamada "cabeça de leão", no noroeste do
algumas vezes levou a bom termo essa tarefa, sem precisar recorrer às armas. estado do Amazonas; e foi lá, precisamente, que durante o governo Collor
Agora, passados cem anos de República, a falta de um poder legítimo forças militares venezuelanas cometeram sucessivas violações da nossa fron-
e baseado no inconsciente coletivo, provido da adesão afetiva do povo e de teira.
base em sua formação histórica, está ocasionando as primeiras rachaduras Tudo demonstra ser tempo de os brasileiros envidarem os esforços ne-
no sentimento de unidade nacional; porque esta é, antes de tudo, um estado cessários — tal como os daqueles que fixaram, e dos que depois mantiveram
de espírito, é dele que decorre o fato físico e jurídico da unidade positivada. as nossas fronteiras — para restabelecer o compromisso com a nacionalidade
Só a determinação solidária na união permite a sua concretização ou a sua e a unidade nacional, que só a monarquia compreende.
manutenção.
Essas "rachaduras" já estão visíveis. Podem ser detectadas no próprio 3.3.2. As distorções de formação
comportamento dos brasileiros, porque, repita-se, é do íntimo de cada um
que nascem a união ou a desunião: é preciso que os brasileitos sintam-se A terceira fase do Império constituiu uma séria e decidida tentativa de
brasileiros, tenham crença em serem brasileiros, e isto não é meramente ra- superar distorções de formação.
cional, mas sobretudo emotivo e afetivo; e não é possível haver esse quadro Não é segredo para ninguém que o método utilizado para o povoamento
enquanto a forma de Estado for desprovida de adesão afetiva do povo. inicial do território brasileiro, com a implantação das capitanias hereditárias,
Num momento em que as pessoas renegam os seus valores nacionais, deixou consequências que em nada ajudaram à sedimentação de princípios
a ponto de darem ouvidos aos que pretendem reescrever a História, se auto- e comportamentos salutares entre nós.
atribuindo o papel de violadores e de agressores do Paraguai, quando em- Como a Coroa portuguesa não dispunha de meios para, por si só, levar
preendemos uma guerra defensiva contra uma nação super-armada, é tempo a cabo a tarefa de ocupar o novo território, e nem poderia cogitar de vir a
de pensar até quais consequências poderá ir o autofagismo gerado pela tran- perdê-lo para outra potência, a solução encontrada foi a que estava mais à
sitoriedade e pela interinidade orgânico-institucionais, deixando a todos per- mão: o território foi dividido, cada uma das partes doada a um empreendedor
didos face à necessidade de identificação num centro catalizador e irradiador. — em geral saído da nobreza — sob a condição de administrá-la e explorá-la
Essas consequências, de certo modo, já estão nas ruas: movimentos às suas próprias expensas e por seu próprio risco, pagando à Coroa um tributo
separatistas, e não apenas um movimento, se esboçam em alguns Estados, e sobre os resultados auferidos. Estava criado um contrato de risco. Essas partes
com possibilidade de virem a crescer, em poucos anos. Nem deve ser esque-

* É das páginas desse Diário a seguinte passagem sobre a abertura da navegação do rio
* A Rússia levou cerca de 500 anos para consolidar o seu atual território; a Argentina Amazonas aos demais países: "Quanto ao Amazonas, sempre tive receio dos Estados Unidos,
ainda tem preocupações com suas províncias de Corrientes e Entrerios; a própria França levou cujas relações suplantariam às de outras potências...". Em 1918, na Conferência de Paz de
600 anos para tornar indiscutível o seu território (ainda na Segunda Guerra Mundial houve Versailles, o presidente Wilson, do Estados Unidos, propôs a internacionalização da "Hilea Ama-
reivindicações alemãs sobre o Sarre e a Alsácia-Lorena); e até hoje não se resolveram as questões, zônica", o que só não vingou graças à violenta e pronta oposição do primeiro-ministro inglês,
em geral, de territórios alemães em países limítrofes. Lloyd George...

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do territorio, denominadas "capitanias", eram hereditárias: a propriedade da sassem os possíveis esforços da administração colonial, durante os quase três
terra passava para os herdeiros ou sucessores dos donatários; quando mais séculos seguintes.
tarde a Coroa abandonou esse sistema de povoamento e colonização, o direito O problema de superar distorções de origem — corrupção da autoridade
de propriedade e de sucessão dos donatários remanesceu, nos moldes do pública pelo desejo de riqueza dos que a exercem, e autoritarismo para garantir
Direito Civil, embora outros tributos passassem a incidir sobre a propriedade que esse desejo seja conseguido — não é só brasileiro. Exemplos inúmeros
e os direitos à respectiva sucessão. existem pelo mundo afora, e sobretudo aqui mesmo, no continente americano.
Mas o problema que ficou originou-se, precisamente, no contrato de Essas distorções se transmitem, parecem ampliar-se de geração a geração, à
risco que criará cada uma das capitanias, e dera início à colonização. medida que cresce demograficamente uma sociedade, impedindo-a de crescer
O que esperar dos donatários? Eles iriam aplicar dinheiro num em- em outros sentidos, exceto, precisamente, no demográfico.
preendimento; logo, teriam que objetivar lucro. Para consegui-lo, teriam que Não custa lembrar que o povoamento e colonização do território nor-
explorar as riquezas do território. E a auferição de lucro e de riqueza não te-americano só começou, efetivamente, algum tempo depois que o do ter-
tem limites. ritório brasileiro. Mas, o perfil e os propósitos dos que para lá foram eram
Além disso, não havia aqui povo de que lançar mão para o empreen- inteiramente diversos: dentre os "peregrinos" do "Mayflower", assim como
dimento. Havia apenas os naturais, os índios, mas estes só poderiam ser das centenas de navios que o seguiram depois, não havia egressos das prisões;
considerados como algo próximo a semoventes; no máximo como gentio a seu nível social, económico e cultural na Inglaterra era, em geral, o que hoje
denominamos "classe média" e "classe média alta". E, seu intento foi o de
escravizar, por direito de conquista. Esse direito, aliás, era então corrente; e
fixar vida num lugar onde pudessem exercer plenamente as liberdades indi-
os escravos, um bem económico como outro qualquer. Para consegui-los, era
viduais asseguradas na Magna Carta, sobretudo as religiosas, que estavam
necessário ter homens armados, companhias de soldados. E, se havia um
sendo violadas pelo rei Jaime. A consequência da diferença entre os elementos
contrato de risco, então fazia-se necessário conseguir esses homens pelo menor
que atuaram na formação da sociedade norte-americana e os que atuaram na
custo possível. Como obtê-los? Em grande parte, no fundo das galés e mas-
formação da nossa sociedade foi, exatamente, a diferença no desenvolvimento
morras, dentre condenados a longas penas ou à prisão perpétua; portanto, de de uma e outra.
antecedentes não muito recomendáveis. Homens que pouco tinham a perder,
Uma tentativa sincera de reverter a influência das origens, embora curta
e viriam para o novo território por soldos bastante acessíveis : o que lhes
no tempo, foi empreendida por Dom João V I . Sendo a França o centro cultural
fosse oferecido, ou até mesmo só pela liberdade.
do mundo de então, e sendo ele mesmo um amigo e protetor financeiro de
Um outro dado, ainda, deve ser considerado: além da propriedade da Luiz X V I I I , mandou vir para o Brasil sucessivas levas de professores franceses
terra, os donatários eram investidos em todas as funções da autoridade pública, de todas as áreas: literatura, artes plásticas, música, política, administração
delegadas — não, concedidas — pela Coroa. Então, o verbo "explorar" tinha pública. A esse rei, absoluto mas pacífico e bonachão, e sobretudo previdente,
para os donatários o significado de provocar, conhecer, desbravar, administrar, que dava-se ao trabalho de despachar para a Ásia navios que voltavam repletos
em virtude da delegação de autoridade da Coroa; mas, tinha também o de com mudas de arvores frutíferas aqui inexistentes — a mangueira, entre outras
lucrar, em virtude do contrato de risco. — o país ficou devendo, também, insistentes iniciativas para criar uma nova
Em suma, três elementos se conjugaram na empreitada: povoadores, classe de profissionais da administração pública. Os resultados dessa curta
na sua maior parte, de duvidosa ou baixa qualidade moral; confusão entre o tentativa puderam ser sentidos na lucidez e firmeza dos nossos homens pú-
exercício da autoridade pública e o desejo de lucrar; e a preocupação em blicos já à época das regências, tal como antes assinalado.
explorar ao máximo, em proveito próprio, as riquezas do território (inclusive Entretanto, a principal e primeira tentativa institucionalizada de reversão
os índios escravizados). Por essa razão, sem dúvida, mais tarde as palavras da influência das origens foi levada a cabo na terceira fase do Império, com
"explorar" e "explorador" adquiriram, entre nós, o mau significado de auferir, o reinado de Dom Pedro I I . Nenhum testemunho melhor do que o de Monteiro
ou de quem aufere lucro desmedido ou ilícito, reprovável. Lobato, ao dizer que o Imperador agia "pela presença":
As consequências dessa origem, naturalmente, não poderiam ser favo-
ráveis à sociedade que então se iniciava. É certo que, após algumas décadas, "O fato de existir na cúspide da sociedade um símbolo vivo e
o governo da metrópole abandonou o sistema das capitanias; isso ocorreu ativo da Honestidade, do Equilíbrio, da Moderação, da Honra e do
porque diversas delas restaram abandonadas pelos respectivos donatários — Dever, bastava para inocular no país em formação o vírus das melhores
alguns jamais puseram os pés aqui — frustrando por essa forma os intentos virtudes cívicas.
da metrópole de garantir a ocupação e receber tributos. De qualquer maneira, O juiz era honesto, se não por injunções da própria consciência,
o "modus faciendi" da exploração, a semente, estava plantada; em que pe- pela presença da Honestidade no trono. O político visava o bem público,

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se não por determinismo de virtudes pessoais, pela influencia catalítica
da virtude imperial. As minorias respiravam, a oposição possibilitava-
se: o chefe permanente das oposições estava no trono. A justiça era
umfato: havia no trono um juiz supremo e incorruptível. O peculatário,
o defraudador, o político negocista, o juiz venal, o soldado covarde,
o funcionário relapso, o mau cidadão enfim, e mau por força de pen-
dores congeniáis, passava, muitas vezes, a vida inteira sem incidir num
só deslize. A natureza o propelia ao crime, ao abuso, à extorsão, à
violência, à iniquidade — mas sofreava as rédeas aos maus instintos,
à simples presença da Equidade e da Justiça no trono." (in Revista do
Brasil, n° 36, vol. IX, ano I I I , pags. 387/391, dezembro de 1918).

Por influência de Pedro I I , um verdadeiro "surto de honestidade", de
retidão e de elevação acometeu o país, com apelos de progresso intelectual
e de postura mental superior.
Evidentemente, nem todos os representantes da nação, com assento na
Assembléia Geral, foram sumidades ou modelos: os arquivos, tanto oficiais,
como jornalísticos e literários em geral, mencionam os casos notórios de
aventureirismo político, ou de falta de requisitos. Mas, felizmente, a maioria
não era assim: também revelam esses arquivos e registros a grande enver-
gadura moral e cultural da maior parte dos representantes de então. Os debates
no Parlamento eram verdadeiras aulas de brasilidade, de decoro pessoal, de
cultura, e, o que é mais importante, suas decisões eram verdadeiras lições
de praticidade, de bom senso e de exequibilidade. De sua parte, Pedro I I era
um homem voltado à cultura; e mais, com um senso muito lúcido dos seus
deveres como chefe de Estado, senso que o orientava no sentido de servir
de exemplo, para uma sociedade em tentativa de formação. Significativo
disso era também o fato de o Imperador fazer questão de estar presente não
só aos exames vestibulares, mas também aos das classes do "Colégio Dom
Pedro I I " , assim como aos dos cursos superiores; como ele, alguns dos mais
veneráveis próceres do sistema parlamentar. Foi bem por conseqiiência dessa
orientação, durante o seu longo reinado de quarenta e nove anos. que o
Império pôde se servir de tantas inteligências brilhantes, que formaram a
verdadeira plêiade de homens públicos do Segundo Reinado. Nem podem
pairar dúvidas de que a essa geração de estadistas vindos do parlamentarismo,
aos quais recorreram, e cujo senso patriótico não lhes recusou os préstimos,
deveram a República e o presidencialismo a imagem de honradez e capacidade
das suas primeiras duas décadas. Prudente, Rui, Campos Salles, Rio Branco
e Rodrigues Alves são alguns desses exemplos; tanto que, quando o tempo
se encarregou de nos privar dessas presenças, a República assumiu suas reais
proporções, que tanto nos aproximaram dos vizinhos latino-americanos, para
a grande satisfação destes.*

* "El belo ejemplo del Brasil no debe alucinarnos...", escrevia despeitadamente Alberti,
em "Las Bases", ao tempo do Segundo Reinado em nosso país.

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Houve, portanto, uma efetiva tentativa da renovação no Segundo Rei- como sanção criminal. Por mais que hoje repugne à nossa consciência social,
nado, com o determinado e sereno concurso de um chefe de Estado cônscio e à nossa moral — como já repugnava a D. Pedro I , Pedro I I , e tantos —
de seus deveres num país que, se galgava rapidamente culminâncias no con- o fato é que quase todas as sociedades conviviam com a escravatura, em
certo das nações, na verdade tinha pouco mais idade do que ele próprio. maior ou menor grau, e dela tiravam proveito.
Tentativa de superação dos ónus trazidos das nossas origens, procurando se No século X I V , antes das grandes navegações e conquistas portuguesas,
espraiar a todos os quadrantes da vida nacional, e chegando às raias do exem- mercadores de Veneza, Génova, Florença e Pisa importavam escravos oriun-
plo de tolerância e pluralismo ideológico, quando se determinava à polícia dos da Africa, nos entrepostos muçulmanos do Mediterrâneo: esse consórcio
garantir a propaganda republicana. Essa tentativa já produzira frutos ponde- ítalo-muçulmano trocava os africanos pelos produtos finais da lã inglesa e
ráveis, quando quedou incompleta em virtude da quartelada de 1889. Como do trabalho dos teares de Flandres (cf. Mário Maestri Filho, "O descobrimento
ainda acrescentou Monteiro Lobato, do Brasil no contexto das grandes navegações", in D.O. Leitura, São Paulo,
"mais um século de luz acesa, mais um século de catálise imperial, 14.10.92, com as fontes que cita).
e o processo cristalizatório se operaria por completo. O animal, do- Relembre-se, a propósito, que na célebre questão em torno do tráfico,
mesticado de vez, dispensaria açamo. Consolidar-se-iam os costumes; a Inglaterra não se indispôs com o Brasil por questões humanitárias, mas em
enfibrar-se-ia o caráter. E do mau material humano com que nos for- virtude da concorrência que os nossos navios faziam aos seus próprios tra-
mamos sairia, pela criação duma segunda natureza, um povo capaz ficantes negreiros; além disso, como observa Perdigão Malheiros, "a política
de ombrear-se com os mais apurados em cultura." ... "Para esta obra inglesa habitualmente se aproveitou dessa cruzada humanitária para melhor
moderadora, organizadora, cristalizadora, ninguém mais capaz do que ir firmando o seu domínio dos mares, principalmente se conseguisse a polícia
Pedro II; nenhuma forma de governo melhor do que sua monarquia." deles. O governo inglês, à sua sombra (da questão abolicionista) ia minando
e tirando partido para a política, para o engrandecimento do domínio ma-
Que monarquia era essa? Ver-se-á quando, adiante, cuidarmos da mo- rítimo da Grã-Bretanha; ..." (A escravidão no Brasil, São Paulo, 1944). E,
narquia que se quer para o Brasil, nesta virada de século e de milénio. A também não se pode perder de vista que o motivo imediato da Guerra de
mesma Monarquia de Dom Pedro I I , autenticamente brasileira, porque cor- Secessão norte-americana foi o crescimento económico dos estados do Sul,
respondente às nossas necessidades, e de acordo com os elementos antropo- que aspiravam separar-se da União; só mediatamente essa guerra teve como
lógicos, sociológicos, culturais e históricos da sociedade brasileira. Com ela, motivo a escravatura. Tanto que o presidente Lincoln só procedeu à libertação
poderemos empreender a nova tentativa de construção de uma Nação autêntica. dos escravos, no Norte, quando a guerra já estava em meio. E, frise-se, os
Pois agora, como enfatizou esse inquestionável e insuspeito patriota, libertos foram engrossar as fileiras do exército nortista...
"o Brasil é uma nação a fazer. Ou refazer, já que destruíram os alicerces
Qualquer pesquisa séria e desengajada mostra que não foi nosso Império,
da primeira tentativa séria".
após a Independência, quem instituiu ou estimulou a escravatura: ele já recebeu
Note-se que, até 1889, não houve qualquer diferença entre o desenvol- a economia do país profundamente envolvida com o trabalho escravo, semi-
vimento do Brasil e dos Estados Unidos, quer em termos económicos e mo- dependente dele. Essa estrutura vinha desde os tempos da colonização; não
netários, como em termos culturais, políticos, sociais, e inclusive militares. poderia ser desfeita de um momento para o outro, sem que desmoronasse
O distanciamento — os Estados Unidos caminhando para a frente, e o Brasil todo o sistema produtivo.
caminhando para trás — começou, precisamente, com a instauração da Re-
Cumpre verificar, então, quais foram as providências concretas a respeito
pública entre nós; e, mais precisamente, quando os homens públicos oriundos
da extinção da escravatura. As primeiras vieram, ainda, antes da Inde-
do Império desapareceram da cena...
pendência.
Desde 1810, o então príncipe regente Dom João firmara com a Inglaterra
3.3.3. O escravagismo
um Tratado de Amizade e Aliança. Como lembra Roberto Macedo, entre o
Um outro aspecto da tentativa de reversão das consequências daquela artigo X desse tratado e a Lei Euzébio de Queiroz (1850), que extinguiu
conjugação de elementos, que influíram negativamente no processo de for- definitivamente o tráfico de escravos no Brasil, "existe uma vinculação es-
mação da nossa sociedade, foi o relativo à escravidão. Registre-se que o mal treita e digna de estudo" (Aut. cit., História Administrativa do Brasil, vol.
da escravidão não foi somente brasileiro, nem português, e muito menos da V I , parte V I I I , Rio, 1964). Pouco mais tarde, aliás, quando já elevado a Rei,
monarquia. A escravatura era um instituto jurídico como qualquer outro: de- ainda em virtude do citado artigo X, Dom João V I recebeu uma elogiosa e
corria do direito de conquista, ou da perda do direito à condição de liberdade, agradecida carta do imperador da Áustria; essa carta, da qual existe uma

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cópia no Arquivo Nacional ("Coleções de Documentos Históricos em Re- Depois da Independência, a lei de 7 de novembro de 1831 dera aplicação
produções Fotográficas"), tem o seguinte resumo: à nova convenção anglo-brasileira de 1826, firmada por Dom Pedro I , e já
declarara livres os escravos vindos de fora do Império, cominando severas
penas para o tráfico. Mas, tal lei, que considerava contrabandistas os que
"Carta (por cópia não autenticada) do Imperador da Áustria a
nela incidissem, tornando punível e clandestino o comércio humano, não
Dom João VI, declarando-o ter feito jus à gratidão das Nações por
encontrou correspondência na mente social, e só conseguiu tornar mais cruel
haver proclamado o princípio da abolição do comércio de escravos,
o tráfico, "em porões fechados, os navios construídos de maneira a escapar
aderindo, assim, às idéias expostas e defendidas nas conferências in- à vigilância..." (cf. Henrique Jorge Rabelo, in Revista do Instituto Histórico,
ternacionais de Aix-La-Chapelle, onde se consumou a pacificação da X X X , p. 33).
Europa e se assegurou a sua prosperidade, mas onde se deixou de
Em 1835, na "Carta aos Brasileiros", ditada na madrugada de sua morte,
realizar uma aspiração geral: — a extinção total desse tráfico."
o ex-Imperador Dom Pedro I fez uma condenação enfática à escravidão,
exortando pela sua extinção.
Observe-se que, desde muitas décadas, em Portugal haviam sido tomadas Depois, vieram outras providências. Dom Pedro I I , desde cedo — aos
providências para extinguir a escravidão no seu território metropolitano: por 24 anos — começou a se postar na vanguarda das idéias abolicionistas; e,
Alvará de 1761, Dom José I declarara livres todos os africanos levados ao se não promoveu de pronto a Abolição, duas foram as razões. Primeiro, a
reino; e, por outro Alvará de 1773, esse rei aboliu a escravatura em Portugal, Constituição não lhe dava poderes individuais para tanto; nossa Monarquia
nos Açores e na Madeira. Mas essas providências não puderam ser estendidas sempre foi constitucional: a Coroa podia propor, mas dependia da aprovação
aos territórios coloniais, em virtude das resistências opostas pelas respectivas do Parlamento, a Assembléia Geral. E, segundo motivo, a Assembléia Geral,
estruturas económicas. Exatamente como ocorreu depois com a França, que no seu conjunto, sempre entendera que para não destruir a economia, a eman-
libertou os seus escravos através da Declaração Universal dos Direitos do cipação dos escravos devia fazer-se gradativamente. Apesar disso, foi Dom
Homem e do Cidadão (1789), mas por pressão da economia açucareira das (Pedro I I quem influiu para a aprovação da "Lei Euzébio de Souza", de 1850,
Antilhas Francesas, nesse mesmo ano a Assembléia Nacional Constituinte c, depois, para a aprovação da "Lei Nabuco de Araújo", de 1854, que puseram
teve que excluir das colónias a aplicação da Declaração Universal, e de outros fim à entrada de novos escravos no Brasil. Foi ele, ainda, quem inspirou
direitos assegurados na Constituição. Quase o mesmo, também, veio a ocorrer /todas as posteriores leis destinadas à supressão da "condição servil"; muitas
em relação à Espanha e suas colónias do Caribe. vezes "enfrentando renhidos confrontos com os políticos", que defendiam a
Assim, ao estender aos territórios coloniais — o Brasil ainda era um «Continuação do estatuto escravagista.
deles, em 1810 — o princípio da abolição da escravatura, iniciando através ,; Em 1866, o Imperador encarregou o ministro Pimenta Bueno de elaborar
do artigo X daquele tratado o seu curso gradual, Dom João inovou, e rompeu projetos de leis emancipadoras; tais projetos encontraram "ferrenha oposição
com o passado. É ainda Roberto Macedo quem observa que, se tivesse querido da classe política", e foram rejeitados. Diante disso, na "Fala do Trono" de
resistir à idéia abolicionista, bastaria ao então Príncipe Regente "invocar ¡T867, Pedro I I voltou ao tema — que já era nele, a essa altura, uma quase
argumentos de inércia: a força da tradição portuguesa e européia" [em /Obsessão — dizendo que "o elemento servil no Império não pode deixar de
relação às economias coloniais] (ob. cit.). E, de fato, tanto não o quis, que, tnerecer oportunidades à vossa consideração, provendo-se de modo que, res-
à assinatura do tratado mencionado seguiram-se diversas providências da po- peitada a propriedade atual, e sem abalo profundo em nossa primeira in-
lítica joanina em relação ao tráfico e à escravidão: a Carta de Lei de 8 de dústria — a agricultura — sejam atendidos os altos interesses que se ligam
junho de 1815; a Circular de 17 de fevereiro de 1817; a Carta de Lei de 8 P emancipação".
de novembro de 1817; a Carta de Lei de 9 de dezembro seguinte; o Decreto Novamente, na "Fala do Trono" de 1868, o Imperador insistiu no tema,
de 9 de outubro de 1819; e o Decreto de 13 de janeiro de 1820, dentre muitas 0 que causou grande hostilidade por parte dos deputados e senadores, os
outras das assinaladas providências. (quais, inclusive, acusaram o presidente do Conselho de Ministros (o liberal
Registre-se, porém, que boa parte desses esforços ficou baldada — Zacarias de Góes e Vasconcellos) de estar se curvando "às pretensões imperiais
como sempre acontece, quando são contrariados interesses económicos — (Sobre a emancipação". Como se vê, sempre a Monarquia propugnando a
pela atividade clandestina dos negreiros, e não só portugueses ou brasileiros. extinção da escravatura, e encontrando resistência na classe político-econô-
Aliás, o curto espaço de tempo entre esses diplomas legais, demonstra como mica dominante, encastelada no parlamento.
se procurava novos mecanismos, que coibissem os novos expedientes engen- Na "Fala do Trono" de 1871, Dom Pedro I I recomendava "a reforma
drados pelos traficantes. do elemento servil". Nesse ano, encarregou Silva Paranhos (visconde do Rio

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Branco) de encaminhar o projeto da "Lei do Ventre Livre"; depois de vencida gração à sociedade brasileira, a culpa deve ser creditada ao regime repu-
uma longa e acirrada oposição, essa lei foi finalmente aprovada — com blicano que, em mais de cem anos, nenhuma providência tomou para que
interferência direta da Princesa Isabel, que estava na Regência — e sancionada. tal marginalização cessasse.
Conforme atestou Joaquim Nabuco, tudo que se tinha conseguido até Não se pode perder de vista que a extinção total da escravatura, além
ali — a extinção do tráfico e a liberdade dos nascituros — "fora o resultado de ter se iniciado antes de 1888 (com a Lei de Proibição ao Tráfico, 1850),
da ação perseverante e paciente do Imperador, vencendo resistências sociais e de ter por isso diminuído o número de escravos, levou menos tempo para
e políticas". se consumar, aqui, do que nos Estados Unidos: no Brasil, entre a Inde-
Mas, o que fizeram pela Abolição os republicanos? Exatamente nada. pendência e a Lei Áurea, transcorreram sessenta e seis anos; lá, entre a
Em nenhum momento da sua propaganda, nem no jornal A República, nem Independência (1776) e a extinção, transcorreram oitenta e seis anos, vinte
no "manifesto" de 1870, fizeram qualquer referência à causa. E deixaram de a mais. Além disso, também não se pode esquecer que, contado o espaço de
fazê-lo, preconcebidamente, visando aliciar os grandes fazendeiros. Isto é, tempo entre a extinção do tráfico e a extinção total da escravidão, os Estados
deixaram de lado a causa humanitária, em benefício de suas pretensões de Unidos levaram 57 anos (1808/1865), a Espanha levou 50 anos (1820/1870),
poder. a Holanda levou 49 anos (1814/1863), enquanto o Brasil levou 38 anos
Na "Fala do Trono" de 1883, voltava Dom Pedro I I à carga: "Fazendo (1850/1888).
justiça a vossos sentimentos, espero que não vos esqueçais da gradual extinção Um outro aspecto que precisa ser ventilado é o relativo ao papel da
do elemento servil, adotando medidas que determinem sua localização, assim raça negra, e dos índios, face à escravidão no Brasil. Para fazê-lo, basta
como outras que auxiliem a iniciativa pessoal" (de alforria). lembrar que a grande maioria dos lentes da Escola de Medicina da Bahia,
Em 8 de março de 1885, voltou a insistir que era "imperioso resolver-se durante o Segundo Reinado, era composta de mulatos, dos quais dezesseis
a questão do elemento servil". Mas, os parlamentares, para protelar a questão, receberam títulos de barão, pelos seus méritos. Relembre-se, também, que o
declararam que não a discutiriam sem cláusula prévia de indenização aos barão de Guaraciaba, grande fazendeiro e protetor da Santa Casa de Valença,
proprietários de escravos. No entanto, tais foram os esforços do monarca, estado do Rio de Janeiro — em cujo "hall" até hoje está o seu retrato em
que em 28 de setembro desse mesmo ano conseguiu a aprovação da "Lei lugar de honra — era negro retinto. O visconde de Jequitinhonha, notável
dos Sexagenários", que alforriava todos os que atingissem 60 anos: com ela, político e ministro do Império durante o Segundo Reinado, era uma mistura
completava-se a contagem regressiva. de mameluco e cafuso: cruzamento de branco com índio e de negro com
Além disso, na "Fala do Trono" de 1886, o Imperador conclamava o índio. Neto de negros, era o famoso barão de Cotegipe o primeiro-ministro...
parlamento a incrementar uma corrente de trabalhadores livres (imigrantes), escravocrata, despedido do Ministério por ser contrário à Abolição.
para substituir o trabalho escravo residual. A propósito, não custa lembrar o episódio relatado por Nuno de Andrade
Em 1888, na crista do clamor popular em favor da extinção final do (apud Leopoldo Bibiano Xavier, Revivendo o Brasil-Império):
escravagismo, a princesa Isabel, novamente na Regência, inspirou o projeto
da "Lei Áurea", ao qual, dessa vez, não puderam se opor os escravocratas.
"As cinco horas em ponto desci do tilburi, junto à portinhola
Nem seria preciso mais do que a já citada frase vingativa do barão de '•:{ baixa onde uma sentinela cochilava. Não se pedia licença para entrar.
Cotegipe, ex-presidente do Conselho afastado pela Regente por ser contrário Tomei a escada da direita, e fui ter a um longo salão retangular, quase
ao projeto de extinção: "Vossa Alteza redimiu uma raça, mas perdeu o trono!". sem móveis, com grandes quadros nas paredes. O Freire, criado da
Muitos anos mais tarde, no exílio e já idosa, a Princesa Imperial confessou casa, meu conhecido, disse-me: 'O Imperador não tarda'. Cerca de
que, mesmo pressentindo que a desforra escravocrata iria ser uma das causas quinze pessoas esperavam D. Pedro II, e entre elas um preto vestido
da queda do Império, não hesitara em inspirar o projeto, e em sancionar a de brim pardo, sem gravata, com uns grandes sapatos muito bem en-
lei. graxados. Depreendia-se do lustro do calçado que o preto cuidara de
Estas, as providências da Monarquia brasileira, quanto à escravidão, parecer asseado; e, como era idoso, a intenção traduzia certa altivez
no contexto da primeira tentativa séria de livrar nossa sociedade de ónus nativa. Tinha ido a pé e sentia-se cansado, por isso sentara-se no chão
ancestrais, e de construir uma Nação, levada a efeito durante o reinado de da galeria. O Pederneiras, com sua barba branca, chegou-se a mim,
Dom Pedro I I . indicou o preto e disse filosoficamente: 'Ainda querem mais liberdade
No entanto, algo mais deve ser dito a respeito: a Monarquia fez o que nesta terra...'. Instintivamente olhamos para as portas, constantemente
lhe competia, extinguindo pacificamente a escravidão; mas, foi derrubada no abertas a todos os brasileiros. O Imperador apareceu no extremo da
ano seguinte. Logo, se até hoje a raça negra não conseguiu sua plena inte- galeria, e o preto levantou-se. Seria o primeiro a falar ao Soberano,

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e ninguém se lembrou de lhe disputar a precedencia. O Imperador lhe i Observe-se, ainda: ao ser imposta pelas armas a República, a dívida
perguntou: 'Então, como está? Que é que temos?' ... 'Estou bom, sim externa do Brasil Império era de 5 milhões de libras esterlinas, nisto incluído
senhor. E vosmecê? Eu venho dizer a vosmecê que fui voluntário na o milhão exigido por Portugal, com o aval da Inglaterra e outras potências
guerra do Paraguai. Na batalha, fiquei com um braço ferido por bala. da época para reconhecer a nossa Independência. Pois bem: 5 milhões de
Curei-me, e continuei até o fim de tudo. Depois, voltei e caí no meu libras significam, hoje, cerca de 15 milhões de dólares: ao longo desses 103
ofício de empalhador. Há um ano adoeci do fígado, e o Dr. Miranda, anos, a República elevou essa dívida para 150 bilhões de dólares!
na Santa Casa, me fez uma operação. Nunca mais tive saúde. Agora,
não posso trabalhar mais no ofício, e não tenho vintém para comprar 3.3.5. Os poderes do Imperador
farinha. Na secretaria do Império há falta de servente, e eu fui falar
com o ministro. Mas o ministro não fala com toda a gente. Estão lá Outro aspecto de extraordinária importância na terceira fase do Império
uns mulatinhos pernósticos, que me dizem sempre: 'Você espere'. Eu foi o sucesso na construção de um governo democrático e parlamentar. Essa
espero, sim senhor; e depois os mulatinhos me mandam embora, porque construção política só é possível no contexto de um meio ambiente social
o ministro não recebe mais ninguém. Já três vezes isso me aconteceu. no qual, além daquela já referida "adesão afetiva" do povo para com o regime,
Então, fiquei zangado e pensei assim: vou falar ao Imperador, que é as pessoas estejam contentadas, isto é, satisfeitas e felizes com sua condição
nosso pai; ele não manda a gente embora. Ora, pois, eu queria que de vida.
vosmecê me desse um bilhetinho para o ministro...' O Imperador cha-
'éfl Esses sentimentos e elementos, a partir dos quais se constrói pacifica-
mou o general Miranda Reis, que então o acompanhava, e disse-lhe
mente uma estrutura de comportamento cívico e político, nada têm em comum
algumas palavras. Voltando ao preto, exprimiu-se assim: 'Vá com Deus.
com o arrebatamento de massas que aderem ou são conduzidas a aderir oca-
Fico sendo seu procurador e tratarei do seu negócio'. 'Mas, eu tinha
sional e fugazmente a um movimento revolucionário, impelidas por impulsos
vontade de mostrar àqueles mulatinhos pacholas...', disse o preto. 'Não
jj|fassageiros, após os quais sentem-se tão frustradas ou desamparadas quanto
tem nada a mostrar. Vá para sua casa e espere', disse o Imperador.
estavam antes. Observe-se, ainda, que por sistema de governo essencialmente
Alguns dias depois, contou-me o general Miranda Reis que o Imperador
democrático, deve-se entender somente aqueles produzidos pela espontânea
mandara alojar o antigo voluntário numa casinha da Quinta, e ordenara
ê serena aceitação das pessoas, sem induzimento nem condução.
ao comendador João Batista que lhe suprisse a mensalidade de 40 mil
réis, pedindo desculpas de não poder dar mais." !>. Os dados de natureza política, brevemente referidos na Introdução deste
livro, não constituem meros apontamentos numéricos: traduzem, precisamente,
Éí estado de espírito e o meio ambiente social e político da terceira fase do
3.3.4. Sobre economia |ítnpério. Traduzem o sucesso do Império na construção de um sistema político
de estrutura parlamentar; essa construção teria sido impossível sem a presença
Sobre o aspecto económico do Império, particularmente durante o Se- (daqueles elementos — adesão afetiva, satisfação com a vida, e orgulho cívico,
gundo Reinado, já referimos alguns dados, que nos parecem fundamentais, por parte do povo — proporcionados pela Monarquia, não só em virtude de
quando da Introdução a este livro: sobre inflação, câmbio, padrão salarial, e sua correspondência com os aspectos antropológico, social, cultural e político
outros. Não custa lembrar, porém, que o barão de Rothschild, um dos maiores i; da sociedade, como em virtude de sua cuidadosa atuação no sentido de man-
banqueiros ingleses e internacionais, comprou títulos da dívida pública bra- ' tê-la e alimentá-la.
sileira para dar como dote de casamento às suas filhas, por serem os mais À primeira vista, poderia parecer que a Constituição de 1824 aproximava
sólidos e rentáveis do mercado internacional; o que dá uma perfeita medida o nosso sistema de poderes do presidencialismo norte-americano. Isto porque:
da diferença entre a solidez e a credibilidade do País ao tempo da Monarquia, a) conforme seu artigo 98, o Poder Moderador era "a chave de toda a orga-
e nos dias de hoje — assim como, cronicamente, durante todo o período nização política", e seu exercício era delegado exclusivamente ao Imperador;
republicano. b) conforme seu artigo 101, 6°, o Imperador nomeava e demitia "livremente"
Observe-se, além disso, que o peso em prata que as moedas brasileiras os ministros de Estado; e c) conforme o artigo 102, "caput", o Imperador
tinham em 1840 foi o mesmo peso que tiveram durante os quarenta e nove era o chefe do Poder Executivo.
anos do Segundo Reinado, até 1889. Esse dado dispensa comentários em Aparentemente, portanto, configurava-se a hipótese do chefe de Estado
relação à notória falta de valor das ligas com que têm sido cunhadas as governante, típica do presidencialismo. Entretanto, a segunda parte do supra-
nossas moedas nos últimos 50 anos; tornando difícil, aliás, saber qual o menor citado artigo 102 dizia que o Imperador exerceria o Poder Executivo "pelos
valor, se o intrínseco ou o extrínseco. seus ministros de Estado".
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Dirão alguns que tanto faria dizer que o Imperador exercia pessoalmente ^Xtra-oficial, de o Imperador haver demitido um Ministério por não ter feito
o Poder Executivo como dizer que o exercia "pelos seus ministros", uma o que ele quisesse. A propósito, vale lembrar outra página do seu Diário:
vez que dispunha da prerrogativa de nomear e demitir "livremente" a estes
("ad nutum") como ocupantes de cargo de confiança. Ou seja, os ministros I/; "... Contudo, a abertura do Amazonas a todas as nações sob
apenas "estavam ministros" enquanto fizessem o que o Imperador quisesse. certas regras há muito tempo que ocupa minha atenção, tendo eu sempre
Isso. no entanto, é somente aparência. ',.- • chamado a atenção dos ministros para o Pará, cujas imensas riquezas
,. -v è dever aproveitar; mas tudo custa a fazer em nossa terra, e a insta-
Constituição alguma — mormente quando elaborada por juristas, como
;.j" bilidade dos ministérios não dá tempo aos ministros para iniciarem,
foi a de 1824 — contém palavras desnecessárias. Com a segunda parte do
/ depois do necessário estudo, as medidas mais urgentes. É preciso tra-
artigo 102, ficava afastada qualquer similitude, ainda que apenas aparente, balho, e vejo que não se fala senão em política, que é as mais das
com o presidencialismo; porque no sistema presidencialista o governante não (V vezes guerra entre interesses individuais."
exercia, como não exerce hoje, o Poder Executivo "pelos seus ministros",
mas "auxiliado" pelos ministros de Estado. A diferença é marcante e decisiva, 3.3.6. O Poder Moderador
como permite verificar a comparação com sistemas atuais (Brasil, Estados
Unidos, dentre outras repúblicas presidencialistas; e Noruega e Dinamarca, Vista a forma com a qual D. Pedro I I trabalhou no sentido de deixar
dentre monarquias parlamentares cujas atuais Constituições são oriundas de o livre exercício do Poder Executivo aos políticos oriundos da representação
textos do século passado, sem alterações quanto a essa matéria). pppular, no intuito bem sucedido de criar um sistema de governo parlamentar,
E certo que, como já se viu anteriormente, circunstâncias fático-políticas parece oportuno dedicarmos algumas linhas ao outro Poder a ele atribuído,
podem tornar "semântica" qualquer constituição. E igualmente certo que tais o Moderador, cujo exercício se mostrou ainda mais importante para a criação
circunstâncias — poder exercido "in natura", numa fase de criação das ins- P manutenção da democracia parlamentar brasileira.
tituições — existiram durante a primeira fase do Império, como também já O Poder Moderador, como é sabido, foi teorizado por Benjamin Cons-
foi visto. Além disso, não se pode esquecer que essas circunstâncias, aliadas ||knt, à época da restauração da monarquia francesa, com os mesmos Bourbon
ao prestígio pessoal de Dom Pedro I , por ter ficado no Brasil e proclamado " antes da Revolução, sob Luiz X V I I I . Concebeu-o o filósofo do Direito,
a Independência, pelo seu espírito arrebatado, e mais por ser o primeiro Im- «Orno um poder neutro entre os poderes políticos, ao qual denominou "poder
perador, e sobretudo por aparecer aos olhos da nova Nação como garantidor al". Já se incorporou ao conhecimento jurídico-histórico que, nessa con-
e fiador dessa independência, tudo isso somado fez com que Pedro I exercesse cepção, Benjamin Constant foi sensivelmente inspirado por Clermont-Tonerre,
pessoalmente o governo, inclusive após o início da segunda fase do Império, Reputado aos Estados Gerais da França.*
depois de sua abdicação ao trono português (cf. Bertita Harding, O trono do Sobre a utilidade do Poder Moderador na estrutura do sistema demo-
Amazonas, Livraria José Olympio Editora, 1944). E possível, até, afirmar crático parlamentar, dão eloqiiente testemunho os melhores constitucionalistas
que no período de Pedro I o sistema uma ou outra vez lembrava o presiden- a atualidade. Marcelo Caetano, por exemplo, fazendo uma síntese da teoria
cialismo. Mas, essas circunstâncias fático-políticas já não existiam, nem per- ádesse Poder, disse que
sistiram após sua partida. Prova disso foi que os regentes tiveram que exercer
o Poder Executivo efetivamente, pelos ministros de Estado. "sendo os três poderes referidos por Montesquieu independentes,
a ação deles não pode, todavia, deixar de caracterizarse pela coope-
Dom Pedro I I também o fez, permanentemente. Primeiro, por falta de ração e pela harmonia. Ora, isso só poderá conseguirse desde que
alternativa, quando ainda não dispunha de idade suficiente para optar de exista uma força que previna e resolva os conflitos entre eles, harmo-
outro modo; depois, por determinação própria. Aliás, a criação do cargo de nizando-os quando desavindos. Essa força não pode ser a de nenhum
presidente do Conselho de Ministros (1847) colocou uma "pá de cal" sobre
quaisquer dúvidas acerca da qualidade do Imperador como chefe formal do
Poder Executivo, e do exercício desse Poder pelo ministério. Aqui, precisa-
mente, vem uma observação sobre a forma didática com que a monarquia * A teoria de Benjamin Constant foi apresentada, como há farta notícia na literatura
jurídica, na sua obra Esquisse d'une Constitution, publicada em 1814, e republicada em 1815.
atuou permanentemente, para criar um sistema de governo essencialmente
com o título Príncipes de Politique Conslitutionelle. Em 1818, foi incorporada ao primeiro volume
democrático e parlamentar: competindo-lhe nomear o Ministério, Dom Pedro do Cours de Politique Conslitutionelle, do qual há notícia de uma edição de 1872, por Guillaume.
I I o fazia; mas, a partir disso, competia ao presidente do Conselho e aos Paris. Neste trabalho, valemo-nos somente da edição espanhola de 1968, tradução de F. L . de
demais ministros o exercício do governo. Não há registro histórico, mesmo Yturbide (Curso de Política Constitucional), Editorial Taurus, Madrid.

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dos três poderes porque, nesse caso, o que a tivesse destruiria os outros; da criação de uma verdadeira Nação, enquanto que agora o que se tem é a
logo, há que admitir um quarto poder, neutro, com autoridade para "déblacle", inoperância, "faz-de-conta", ou desmoralização de toda a estrutura
intervir oportunamente, mediante uma ação preservadora e reguladora das instituições nacionais.
despida de qualquer hostilidade" (Direito Constitucional, vol. I I , Rio, 1982). Hoje, destruídos todos os fundamentos daquela tentativa, e após um
Celso Bastos, por sua vez, afirma que "o seu exercício por longo século de recaída profunda e até estimulada dos vícios da formação — a
tempo por um monarca culto, moderado, cônscio do seu poder e também recaída é sempre pior que a doença — a deterioração do tecido moral da
das suas responsabilidades fez com que nosso sistema político ascen- sociedade brasileira atingiu um estágio muitíssimo pior do que aquele a partir
desse a um cdto nível de organização constitucional" (Curso de Direito do qual o Império empreendeu com tanto êxito o trabalho de recuperação.
Constitucional, São Paulo, 1989).
Deve-se ter em mente que unanimidade é algo que só existe onde não
De considerar, ainda, a autorizada lição de Pedro Calmon, ao dizer que há raciocínio nem livre manifestação de idéias; é a paz dos cemitérios. O
que importa, porém, não é a discussão académica de teses, mas o resultado
"o segredo da harmonia que então se estabeleceu consistiu no objetivo oferecido por uma tese, quando levada ao campo concreto de sua
controle do poder moderador. D. Pedro II usou com um alto critério aplicação prática. Durante o Segundo Reinado houve discussões doutrinárias
público a sua faculdade suprema de árbitro político, que nomeava os memoráveis, em torno de saber se o exercício do Poder Moderador deveria
ministros e dissolvia a Câmara. Devido a essa intervenção dosada, ficar vinculado ao referendo ministerial, ou se esses poderes arbitrais deveriam
oportuna e irresistível, o parlamentarismo funcionou com a possível ficar concentrados nas mãos do Imperador, independentemente do referendo.
regularidade, com seu ritmo característico, com a sua aparência bri- Nessas discussões envolveram-se juristas e políticos de primeira linha, como
tânica, num ambiente democrático de imprensa livre, de comícios po- Zacharias de Góes e Vasconcellos, defendendo a necessidade do referendo
pulares, de crescente participação do eleitorado nos assuntos do Es- ministerial. Pimenta Bueno e o visconde do Uruguai, defendendo a livre
tado" (Curso de Direito Público, Rio de Janeiro, 1942). prática da moderação pelo Imperador.
Juridicamente, parece-nos que, se dependesse do referendo de um mi-
O Poder Moderador não foi adotado somente no sistema brasileiro:
nistro — membro de um outro Poder — o Moderador perderia sua qualidade
aqui, teve a inspirá-lo os irmãos Andrada; mas Pedro I inspirou sua adoção,
de árbitro entre os poderes políticos. Daí concluirmos pelo acerto do mestre
também, pela Constituição Portuguesa de 1826; e, as Constituições espanholas Afonso Arinos, quando observou que
do século passado também o adotaram. Em todos esses casos, o seu êxito
foi sempre à altura, para provar a adequação de sua existência face à realidade
da política. "toda a argumentação liberal em torno do Poder Moderador era, no
As funções desse quarto Poder estavam previstas no art. 101: a) nomear fundo, incompatível com a própria instituição, com a sua declarada
os senadores (na forma do art. 43: os senadores eram eleitos da mesma forma razão de ser" (Direito Constitucional, Rio de Janeiro, 1981).
que os deputados, mas em lista tríplice, da qual o Imperador nomeava um
dos nomes); b) convocar as sessões extraordinárias do Parlamento (Assembléia Deve-se observar, no entanto, que existia o Conselho de Estado, órgão
Geral); c) sancionar (ou não) os decretos e resoluções do Parlamento, para de consulta e aconselhamento do Imperador, mormente nas hipóteses de exer-
que tivessem força de lei; d) aprovar, ou suspender provisoriamente, as re- cício do Poder Moderador (Lei n° 234, de 1841). E, embora o monarca não
soluções dos Conselhos das províncias; e) prorrogar a duração da legislatura, estivesse obrigado a seguir o que lhe sugerisse o Conselho, é certo que jamais
ou adiar o início dos trabalhos da Assembléia Geral; f) dissolver a Câmara deixou de levar em conta esse aconselhamento.
dos Deputados, convocando imediatamente novas eleições; nomear e demitir O fato é que o uso equilibrado e sereno desse Poder por alguém que
livremente os ministros de Estado; g) suspender os magistrados (nos casos não necessitava ampliar o seu próprio poder pessoal, nem manter pendores
do artigo 154: por queixas feitas contra eles pelos jurisdicionados assegurada por este ou aquele partido político, e muito menos fazer fortuna pessoal,
a defesa, e ouvido o Conselho de Estado); h) perdoar ou comutar penas; e deu os frutos que deu, sobre alguns dos quais já se falou. É exatamente do
i) conceder anistia. que o País necessita, hoje; pois, relembre-se, como lucidamente apontado
É claro que na época atual, à primeira vista, pode aparentar discutível por Monteiro Lobato,
a oportunidade da extensão de alguns desses poderes. Tudo indica, no entanto,
à luz de reflexão serena, que hoje mais do que nunca eles seriam e são "o Brasil é uma nação a fazer. Ou a refazer, já que destruíram os
necessários; porque então estava-se empreendendo a primeira grande tentativa alicerces da primeira tentativa séria".

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Diga-se, por justiça, que Dom Pedro II jamais extrapolou os limites de '> "Sabedoria intuitiva através da qual se conciliou a poderosa força
atribuições que a Constituição lhe fixava. Se era um capacitado e devotado inconsciente ao elos de um povo. com anseios de racionalidade que o
vigilante do funcionamento das instituições e da diligência dos ministros, cartesianismo imprimiu na consciência da civilização ocidental.
nem por isso a mais remota tentação de poder pessoal o comovia. Vale re-
lembrar, sobre este tema. as lembranças do conselheiro João Alfredo Corrêa O Poder Moderador conseguiu equilibrar os dois impulsos do-
de Oliveira, antigo presidente do Conselho de Ministros: minantes no País a partir de 1822. O Imperador, com os poderes es-
tabelecidos nos artigos 98 e seguintes da Constituição de 1824. ungia
o governo com a legitimidade institucional, enquanto a estrutura geral
"A capacidade do soberano, a sua dedicação ao serviço público, dessa mesma Constituição a impregnava da legitimidade contratual
eram geralmente celebradas no centro conservador; de 'despotismo que os princípios do liberalismo faziam ver nas instituições políticas
constitucional' ninguém o arguia... O rei constitucional, doutrina racionalmente concebidas. Tradição e racionalidade estabeleceram,
Gladstone, pontífice do liberalismo inglês, tem o direito de estudar e pois, o equilíbrio Constitucional compatível com a realidade brasileira.
discutir a política, a administração, os negócios da competência e res-
ponsabilidade dos ministros e se a estes convence pela razão e expe- A abolição da monarquia no Brasil pôs a nu a terrível deficiência
riência, a opinião passa a ser ministerial, o regime mantém-se intacto de uma legitimidade meramente contratual que não lotemiza princípios
e puro. imutáveis. Pretendeu-se "liberar" este povo despreparado. suposta-
mente racional, para organizar-se contratualmente, sem nenhum tabu,
"Era esse o execrado poder pessoal de Pedro 11. O seu trabalho nenhuma força totêmica, capaz de atribuir às Constituições republica-
perseverante, maior que o do mais laborioso ministro, as impertinências nas a intangibilidade necessária para que se torne estável um Estado,
e minúcias do seu lápis fatídico, a atenção por toda a parte e a tudo capaz de ungir seus governantes com a dignidade da legitimação.
constituíam a sua patriótica cooperação para o bom governo, para
uma política sã e moral, para uma administração operosa e digna... No Brasil o etos patriarcal do povo estava personalizado no ca-
risma dinástico do cargo imperial, mas, ao mesmo tempo, esse povo.
"Em suas relações com o ministério, em discussões muitas vezes em suas camadas superiores, se deixava atrair pela sedução do racio-
calorosas, era ele quem cedia, salvo caso de grande razão de Estado, nalismo liberal.
que determinasse mudança de gabinete ou de situação política, e cedia
francamente de bom ânimo, sem melindres de amor próprio. 'Bem',
era o seu modo de exprimirse, 'dei o meu parecer, a responsabilidade Consolidou-se. assim, na Constituição, com o Poder Moderador,
é dos senhores, façam o que entendam'" ("O Imperador — Poder Pes- a legitimidade institucional e contratual do Império. Abolido aquele
soal", in Minha meninice & outros ensaios, Recife, edição de 1988). Poder, as Constituições republicanas de caráter puramente racional
funcionaram nu consciência do País como meros cactos espirituais
que, destituídos de raízes emocionais profundas, tombam sucessiva-
Assim exercia os seus poderes, o titular efetivo do Poder Moderador mente às primeiras lufadas de agitação política". (Aut. cit.. Prefácio,
e nominalmente do Poder Executivo. in João De Scaiitimburgo. O Poder Moderador, São Paulo. 1989).
Face à magnífica análise de Marcelo Caetano seria, a rigor, desneces-
sário acrescentar mais alguma coisa sobre o Poder Moderador, no seu aspecto 3.3.7. A moralidade pública
de exercício orgânico. Mas, não se pode deixar de enfrentar o seu outro
aspecto, tão fundamental quanto o orgânico: esse aspecto reside, precisamente, É outro ponto exponencial da tentativa de construção feita durante a
no citado exercício orgânico, mas aliado à singularidade da pessoa do monarca, SljíSteira fase do Império, no reinado de Pedro I I .
da posição do ofício real no seio das instituições, consubstanciando o que 'J É claro que corrupção sempre existirá, onde quer que esteja o elemento
Clcrmont-Tonerre e Benjamin Constant denominavam "poder real" (da rea- ¡Jlumano. Mas. o maior ou menor grau de sua incidência, e sobretudo a na-
leza). A nosso ver, nenhuma forma de colocá-lo com maior acuidade do que turalidade ou o rigor punitivo com que se a encare e trate, dão a medida
como feito por Paulo Edmur de Souza Queiroz, da Universidade de São ^insofismável da saúde ou do letal comprometimento de uma sociedade.
Paulo: > Nada melhor do que as palavras de um insuspeito republicano — Rui
/Barbosa — para refletir sobre a Monarquia e a República no Brasil. Antigo

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Conselheiro do Império, seduzido pelo canto de sereia republicano, mais tarde por sofrimentos que equivalem a moléstias pertinazes, vergonhosas e
ele diria: chronicas!" (O Imperador e a proclamação da República, in RIHGB,
vol. 152).
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a
desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se Na Monarquia também houve casos de corrupção; mas, esses casos
os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, ín exceções, não a regra. A tal ponto era assim, que o caso de um capitão
a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. se apoderara de uniformes dos praças, no Maranhão, para vendê-los, foi
ifeo de discussões na Câmara dos Deputados...!
Esta foi a obra da República nos últimos anos. ) A insinceridade do regime republicano não é fenómeno perceptível ape-
Í$ho governo central, na União: está presente nos estados e nos municípios,
No outro regime, o homem que tinha certa nódoa em sua vida fel" todos os círculos da política brasileira. Parece ser a cartilha, o livro de
era um homem perdido para todo o sempre — as carreiras políticas fcfcceira da política, a máxima das máximas: o dinheiro do público não tem
lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, cuja severidade §0110, é de quem puser as mãos nele!
todos temiam, e que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um Faz falta o lápis azul de Dom Pedro I I , com o qual ele sublinhava os
farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da mora- es dos que, sugeria, não deviam ser nomeados para administrar o dinheiro
lidade. Era o Imperador Dom Pedro II." (Discurso ao Senado Federal, jlico... Aliás, é notório que o Imperador anotava criteriosamente todos os
em dezembro de 1914) íregões de probidade dos funcionários públicos, quando o fato chegava
fonte segura ao seu conhecimento; e levantava objeções aos ministros,
Nos dias de hoje, um sem-número de empreendimentos — teoricamente jindo chegava à sua assinatura uma lista de promoções que incluísse algum
louváveis, mas imorais na sua prática — recebem incentivos oficiais; assim, faltosos. Isso, além de repreendê-lo, ou de demonstrar o seu desconforto,
os j á legendários planos de reflorestamento, dentre tantos outros. No Brasil ffeçqrresse encontrá-lo em qualquer ocasião. Dessa forma, como nos lembra
do Segundo Reinado, com mais razão, determinadas atividades seriam, ne- gro Calmon, sem arrogar-se atribuições que não tinha na Administração
cessariamente, classificadas como de interesse nacional; assim, por exemplo, fica, nem ferir a Constituição, o Imperador exercia uma função morali-
os empreendimentos de Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Sua prá que foi fundamental para o êxito da obra de construção nacional
ferrovia, e tudo o mais em que se envolvia, eram empreendimentos de interesse preendida na terceira fase do Império, e interrompida pela República.
nacional. No entanto, quando Mauá faliu, sequer se cogitou de o governo Mas, não só a atuação de Dom Pedro I I contribuía para a moralidade
lhe dar qualquer ajuda, apesar de amigo pessoal do Imperador: o barão teve jiica: a própria ordem jurídica o fazia. A severíssima lei de 15.10.1827,
que entregar todos os seus bens aos credores, inclusive os seus óculos com tnulgada por Dom Pedro I , era aplicada à risca. Seu artigo I o dispunha
aro de ouro! os ministros e secretários de Estado eram responsáveis por "traição, aten-
Eis porque, com felicidade ímpar, no seu magistral artigo antes citado, i por tratados, convenções e ajustes, dentro ou fora do Império, ou por
Monteiro Lobato interpretou o sentimento geral de "arrancar de máscaras", isquer outros atos do seu ofício, ou prevalecendo-se dele com dolo ma-
quando o "Alagoas" levantou âncora, levando para o exílio D. Pedro I I e a ftsto, inclusive contra a integridade da Nação". A pena mínima para esses
Família Imperial: "Enfim, sós! Depois, a turba de hienas acomodou-se paci- foes era a "perda da confiança da Nação, inabilidade perpétua restrita ao
ficamente à volta da presa a ser devorada (a Pátria)!" prego em que fosse julgado, e suspensão dos direitos políticos por cinco
POs; acima desta, havia a pena de "perda da confiança da Nação, de todas
Seria enfadonho enumerar os deslizes, alcances, favorecimentos, locu-
honras, inabilidade perpétua para ocupar empregos públicos, além de cinco
pletamento e outras modalidades de corrupção que a vida brasileira registra
os de prisão"; e a pena máxima era a "morte natural". Nos três parágrafos
nestes 104 anos de República; aliás, na verdade seria tarefa praticamente
seu artigo 2°, essa lei tipificava a "peita", o "suborno" e a "concussão",
impossível de ser realizada, tal extensão do rol a ser elaborado: quase j á se
ijforn penas que incluíam inabilidade perpétua para o cargo de ministro ou
torna uma redundância, ou a afirmação do óbvio dizer que a deterioração
JP&retário de Estado, inabilitação por dez anos para outros empregos públicos,
atingiu todas as fibras do tecido nacional. Basta, por isso, refletir sobre as
p i l h a igual ou no dobro ou triplo do proveito ilícito, mesmo que não pro-
palavras de Braz do Amaral, que nos dão um completo perfil do que significa
ffiiZissem efeitos a peita, o suborno ou a concussão. Além disso, todos os
o sistema republicano:
SUlpados por esses atos eram obrigados a reparar os danos das partes preju-
Jficadas, e a mudarem-se para fora da sede do Governo!
"E, à semelhança dos organismos que já vêm ao mundo victimas ||f Na ordem constitucional do Império brasileiro, o Imperador não era
de qffeccções congénitas, tem sido a existência da República flagellada íplministrador público. Mas, os seus poderes permitiam-lhe ser um vigilante
100 ini
atento da moralidade administrativa. E ele próprio era exemplo — didático a necessitados e enfermos, viúvas e óifãos. para muitos dos quais esse
— da moralidade pública. Vale lembrar, a respeito, que chegava ao exagero subsídio se tornara o único meio de subsistência e educação", etc..
de pagar do seu próprio bolso suas viagens internacionais, ao contrário dos
presidentes. Todas as vezes em que Dom Pedro I I viajou ao exterior, fez Observe-se que esse decreto, na verdade criando a primeira carteira de
questão de arcar com as despesas de viagem e estadia. Na primeira vez ore vidência do País, não foi um ato de alcance social da República que se
(1871), trinta anos depois de ter subido ao trono, ao conceder a Assembléia instalava, mas algo ditado pela falta de alternativa: o Imperador subvencionava
Geral a necessária licença — conforme nos dá conta Armando Alexandre jfo seu bolso particular a 409 órfãos, viúvas e doentes!
dos Santos, — o deputado Teixeira Júnior propôs que a Assembléia liberasse
uma verba de 2 mil contos de réis para a viagem do Imperador; o deputado
• j ; 3.8. A ordem jurídica
Melo Morais, discordando, propôs 4 mil contos de réis, e um aumento de
dotação da Princesa Isabel por assumir a Regência. Bilhete de Dom Pedro m; No aspecto da ordem jurídica, bastaria lembrar a citada — e efetiva
I I ao ministro do Império. João Alfredo Corrêa de Oliveira: ( i i - lei de combate à corrupção administrativa ( 1827), o decreto que determinou
«.criação dos cursos jurídicos, o Código Criminal do Império ( 1832), o Código
"Espero que o Ministério se apresse em fazer desaprovar quanto
Comercial Brasileiro (1850, ainda em vigor), a Consolidação das Leis Civis
antes semelhantes favores, que eu e minha filha rejeitamos. Respeito
jjdp Brasil (trabalho de Teixeira de Freitas), assim como a doutrina de Pimenta
a intenção de todos; mas respeitem também o desinteresse com que
Rueno (marquês de São Vicente), do visconde do Uruguai, de Zacharias de
tenho servido à Nação. "
ÍB<Sçs e Vasconcellos, Paula Baptista (Tratado Teórico e Prático do Processo
Note-se que a Assembléia Geral também se dispôs a fornecer um navio jCh'iï Comparado com o Comercial), Lafayette Rodrigues Pereira, Galdino
de guerra, com escolta de outros três, para a primeira viagem do Imperador. Squeira, barão de Ramalho, e tantos outros luminares que elevaram o nome
Dom Pedro I I recusou: seguiu em navio de carreira. do País na construção do Direito, e no acatamento geral não só na América
Sul.
Em cinco anos de gestão, o presidente José Sarney fez 34 viagens
internacionais; e passou 124 dias fora do país. Levou pelo menos 2020 con- Além disso, não se pode deixar de incluir nesse rol as leis que extin-
vidados nessas viagens, todos eles com diárias pagas pelos contribuintes bra- «iram o tráfico de escravos; as leis dos Sexagenários e do Ventre Livre; a
¡¡ï Saraiva que, depois de sucessivas exortações de Pedro I I à Assembléia
sileiros, sendo certo que havia diárias de até 350 dólares por pessoa. Só na
ral, no sentido de acabar com o voto censitário, terminou sendo aprovada
viagem a Paris, para o bicentenário da Revolução Francesa. Sarney utilizou
1888; a lei de reforma monetária, e a lei Áurea.
dois Boeings para os seus convidados, além de um DC-I0(!) para o seu
conforto pessoal.
•3.9. A representação eleitoral
Observe-se ainda que, de 1841 a 1889, a dotação da Casa Imperial
(que incluía não só Dom Pedro I I , mas todos os seus membros), permaneceu I, Na primeira reforma do sistema eleitoral do Império (1846) foram cria-
inalterada: 800 contos de réis por ano. Isso, apesar de o orçamento geral do L
i as eleições por "círculos" (distritos eleitorais), e reintroduzidas as incom-
Império haver se elevado, nesse período, de 15 mil contos de réis (1840) patibilidades eleitorais com o exercício de grande número de cargos públicos;
para 150.000 contos de réis (1889). Ou seja. a "lista civil" do Imperador além disso, foi devolvida ao Senado a competência para a verificação dos
caiu de 5,33% (1840) para 0,51% (1889)! 'poderes de seus membros; e finalmente, foram criados recursos de qualificação
Entretanto, relembre-se que um dos primeiros atos da República foi o j f c » elegíveis perante os Tribunais de Relação (origem da Justiça Eleitoral).

de fixar para o Marechal Deodoro vencimentos de 1.400 contos de réis, ou A segunda reforma eleitoral (1855) criou a eleição de apenas um de-
seja, quase o dobro da "lista civil" de toda a Casa Imperial) putado por distrito, assim como dos seus suplentes. Os presidentes das pro-
Apesar de todo esse desapego pessoal, e de toda a defasagem no que fvíncias, seus secretários, os comandantes de armas, generais em chefe, ins-
recebiam o Imperador e a Casa Imperial, qual era o destino dessa verba? Em /petores gerais da fazenda pública, autoridades policiais, juízes de paz, juízes
grande parte, nos esclarece o preâmbulo do Dec. n° 5, de 19 de novembro *de Direito e juízes municipais, passavam a ser inelegíveis dentro do âmbito
de 1889: de suas respectivas circunscrições.
j!j A última reforma eleitoral (1881) estabeleceu a eleição direta para de-
"O Governo Provisório da República dos Estados Unidos do . pulados (antes escolhidos por um colégio eleitoral censitário), regulamentou
Brasil; Considerando que o Sr. D. Pedro II pensionava, do seu bolso, | « s imunidades parlamentares, restabeleceu penas rigorosas contra as fraudes

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eleitorais, estendeu o voto aos naturalizados, extinguiu a religião oficial do Pedro I I , e o regime republicano, representavam o término das possibilidades
Estado em matéria eleitoral (os não-católicos passaram a ter todos os direitos de alguém da sua raça poder ser "alguém" no Brasil.
políticos), e estendeu esses direitos aos escravos libertos.
3.3.11. O progresso
3.3.10. O aspecto social
Neste tema, há pouco que falar, agora; porque quase tudo já foi dito
Evidentemente, não é possível nas breves páginas deste livro analisar em páginas anteriores: 10.000 (dez mil) quilómetros de estradas de ferro
o aspecto social da tentativa de construção nacional empreendida na terceira construídas em regiões antes indevassadas, quando o resto do mundo ainda
fase do Império. Mas, por amostragem fidedigna, é possível formular um tinha dúvidas sobre esse meio de transporte: segunda maior frota mercante
juízo preciso a respeito. do mundo; segundo país do mundo a instalar linhas telefónicas, correio oficial,
O primeiro objeto dessa amostragem é o famoso conselheiro Crispiniano. selo postal; sistema de fornecimento de energia elétrica no Rio de Janeiro,
Filho de uma senhora que era lavadeira em Guarulhos, de lá foi para São em 1871, quase um ano antes de Nova York e Washington disporem desse
Paulo, empregando-se como servente na Assembléia Legislativa Provincial. melhoramento. Sistema de governo pacífico e regular, de acordo com as
Dali, passou a servente no Palácio do Governo. Nesse emprego, estudava à regras constitucionais; abolição da escravatura, sem um tiro. Onde, mais,
noite sob a luz dos lampiões da iluminação pública, porque não tinha dinheiro faltava ao Brasil estar na vanguarda?
para comprar velas. Fez exame para a Faculdade de Direito, ingressou. For- Não se deve esquecer, apesar de tudo isso, que, pouco antes de se
mou-se. Depois, fez concurso para professor, e tornou-se um dos nossos gran- perpetrar o 15 de novembro, o chefe de Governo (visconde de Ouro Preto,
des civilistas. Doutorou-se, defendendo teses. Foi nomeado, pelo Governo presidente do Conselho de Ministros) chegara de Paris, onde fora empunhando
Imperial, sucessivamente, presidente de quatro províncias. Quando, finalmen- um alentado e ambicioso projeto de modernização das estruturas económicas
te, assumiu a presidência da província de São Paulo, subiu, como presidente, do País. Projeto, aliás, que recebera a mais ampla aceitação na comunidade
as mesmas escadas que limpara de vassoura em punho, vinte e cinco anos internacional; e, sobretudo hoje, é elogiado pelos estudiosos de administração
antes! pública e economia. Então, note-se: o Brasil, que já era um país que ocupava
O engenheiro André Rebouças é outro exemplo. Negro, galgou os mais primeiras posições nos mais variados setores, munia-se de um projeto ímpar
elevados postos, e recebeu os mais altos galardões na sua área, e no reco- de modernização e ampliação das suas estruturas económicas, com os olhos
nhecimento público e oficial pelas suas obras. Nas restritas recepções do postos no século XX, que se avizinhava!
palácio de São Cristóvão, nunca abertas a mais de cinquenta convidados, era
Além disso, merece destaque o notável projeto de assentamento agrário
figura obrigatória. A pacata princesa Isabel fazia questão de com ele bailar
de todos os ex-escravos. Esse trabalho, de autoria do engenheiro André Re-
na presença de todos.
bouças, mereceu entusiástico apoio de Dom Pedro I I , e foi encampado pelo
Mas, além de reconhecer os méritos desse e de tantos outros, a Família gabinete do visconde de Ouro Preto. Com a instauração da República, no
Imperial fazia questão de incentivar o progresso nacional em todos os campos.
entanto, foi arquivado.
O supracitado Teixeira de Freitas, jurista cujo magistério ainda hoje é invo-
cado, não só no Brasil, mas na Argentina, Chile, México, França e Itália,
sempre teve suas obras "subsidiadas" pelo bolso particular do Imperador. 3.3.12. A educação e o ensino
Sobre Carlos Gomes, Pedro Américo, Victor Meirelles e outros grandes ar-
tistas, nem haveria necessidade de lembrar. O próprio Deodoro da Fonseca, Quatro anos (1844) depois da ascensão de Dom Pedro I I ao trono,
aliás, também teve os seus estudos secundários pagos pelo "bolsinho" de havia na cidade do Rio de Janeiro 16 (dezesseis) escolas públicas e 34 (trinta
Dom Pedro I I . Tudo isso é notório. Os incentivos pessoais do Imperador e quatro) colégios particulares. Em 1860, dezesseis anos após, esse número
para a instalação de linhas telefónicas, e para diversos outros eventos de se elevara para 3.516 (três mil, quinhentas e dezesseis) escolas públicas, e
interesse para o País, estão nos registros históricos; e dão uma clara demons- quando da imposição da República, o número era de 7.500 (sete mil e qui-
tração de como a Monarquia encarava o seu papel no contexto nacional. nhentas)! Proporcionalmente à menor população, esses números estavam pre-
sentes às demais cidades e vilas do País. Vale a pena, aliás, ver no seu Diário
Não se pode deixar de lembrar que o já citado engenheiro André Re-
da viagem ao Norte, ou no Presença de Dom Pedro II na Paraíba (Maurílio
bouças, um dos muitos amigos dedicados que acompanharam Dom Pedro I I
ao exílio, recusou-se a voltar ao Brasil depois do falecimento do Imperador. Augusto de Almeida, João Pessoa, 1982) a quase obsessiva preocupação do
Motivo: segundo ele — e não se enganou — o desaparecimento de Dom Imperador, em verificar pessoalmente o número de alunos matriculados em

iru
cada cidade por onde passou nessas viagens, e as providências que tomava Eliot. Dom Pedro I I . no entanto, não deu o caso por satisfeito: chamou para
para que tossem abertas novas escolas. resolvê-lo um árbitro imparcial — o rei Leopoldo I . da Bélgica, que era tio
da rainha da Inglaterra — e exigiu desculpas à altura; como essas desculpas
3.3.13. A posição internacional não viessem logo. o Brasil rompeu relações diplomáticas: o embaixador bra-
sileiro em Londres retirou-se, com toda a legação, o mesmo ocorrendo com
Tudo indica não ser hoje possível fazer uma exata idéia do prestígio o embaixador Eliot. do Rio de Janeiro.
internacional do Brasil durante o Segundo Reinado: só o papa — cuja posição Um mês depois o rei Leopoldo proferiu sentença favorável ao Brasil.
era bastante diversa da atual. no contexto universal — era mais requisitado Ainda assim, a Inglaterra delongou em reconhecer que o seu embaixador
do que Dom Pedro I I , como árbitro de questões entre estados. agira mal: tentou estabelecer relações diplomáticas, sem apresentar desculpas
Conforme registra Armando Alexandre dos Santos (Ser ou não ser e sem arcar com as consequências. Diante, porém, da inflexibilidade de Dom
monarquista? Eis a questão.'. São Paulo. 1990), em 1871 os Estados Unidos Pedro II. terminou por mandar um plenipotenciário especial, Edward Thornton,
e a Inglaterra submeteram ao julgamento do Imperador a rumorosa questão para manifestar o quanto a rainha Vitória lamentava o incidente, apresentar
do navio "Alabama", que se processou perante um tribunal de Genebra. Pouco desculpas e arcar com todas as consequências. Foi na sua tenda de campanha,
tempo depois, as duas maiores repúblicas do mundo. Estados Unidos e França, em Uruguaiana, recém-retomada aos paraguaios, que Dom Pedro II — rodeado
chamaram-no a proferir sentença no processo em que litigavam, perante um por seus aliados uruguaios e argentinos — aceitou as desculpas do embaixador
tribunal especial reunido em Washington, sobre indenizações por danos so- britânico.
fridos durante a Guerra de Secessão por cidadãos franceses. Em 1884, a Basta, aliás, relembrar as impressionantes homenagens que foram pres-
Alemanha, a Itália, a França, os Estados Unidos e a Inglaterra invocaram o tadas pela República francesa a Dom Pedro I I . quando do seu falecimento,
julgamento de Dom Pedro I I sobre indenizações decorrentes de guerras no cm 1891, para que se tenha a exata dimensão do prestígio internacional do
Pacífico. Brasil sob a Monarquia.
Acrescente-se que, ao ser deflagrada a Guerra da Secessão norte-ame-
ricana, Napoleão I I I ofereceu-se como mediador entre nortistas e sulistas. O
presidente Abraham Lincoln recusou essa mediação, mas, pelo secretário de
Estado Will iam H. Seward, em reunião conjunta com o pretendente ao trono
da França, o conde de Paris, com o embaixador brasileiro em Washington,
Miguel Maria Lisboa, e com o príncipe de Joinville (cunhado de Dom Pedro
II), mandou comunicar que a mediação doJmperador do Brasil seria aceita
sem vacilação. Infelizmente quando os acertos diplomáticos chegaram ao
ponto de se concretizar, a guerra já se tornara um fato materialmente con-
sumado, impossível de ser solucionado pacificamente.
Acima de tudo, o desfecho da famosa "questão Christie" dá uma exata
medida do prestígio internacional do Brasil com a Monarquia. O embaixador
inglês no Rio de Janeiro. William Douglas Christie, não se conformou com
o fato de não terem sido punidos os policiais brasileiros que haviam prendido
oficiais ingleses em trajes civis; estes, embriagados, estavam provocando ar-
ruaças nas ruas do Rio. O ministro apresentou "ultimátum" ao governo bra-
sileiro, exigindo a prisão dos policiais; e como não fosse atendido, ordenou
aos navios ingleses que aprisionassem cinco navios mercantes brasileiros.
A atitude de Dom Pedro I I foi inflexível: declarou que preferia perder
a coroa do que mantê-la sem honra para o Brasil. Recusou ter qualquer
contato diplomático com a Inglaterra, sem que antes fossem devolvidos os
nossos navios, e se retirasse a esquadra inglesa. O embaixador Christie recuou,
e devolveu os navios brasileiros e a esquadra inglesa tbi embora. Logo. foi
chamado de volta à Inglaterra, e substituído por outro diplomata, Cornwallis

106 107
4. Antecedentes da instauração
da República

O movimento republicano sempre fora um fiasco. Na Capital, Dom
Pedro I I lembrava constantemente ao chefe de Polícia a necessidade de pro-
teção aos "meetings" e comícios republicanos, com receio de hostilizações
que acabassem sendo creditadas ao governo, ou até mesmo ao regime. Como
observou Leôncio Basbaum, "o Partido Republicano jamais foi um partido
popular, não conseguira empolgar a massa do povo, nem sequer conseguira
derrubar gabinetes, quanto mais o Império" (ob. cit.). Já se viu, aliás, que
jamais tivera senão um deputado, exceto na última legislatura, na qual logrou
ter dois.
Apesar disso, a idéia republicana era moda nos salões, na imprensa e
nos saraus intelectuais, com a atração própria do novo e do desconhecido.
Da mesma forma como foram moda o comunismo e outros "ismos", em São
Paulo, nos anos 80. De tal forma, aliás, que o deputado Martinho Campos
chegou a dizer, no plenário da Câmara, que era monarquista, mas sentia
vergonha disso! Era a "onda", o "barato" ou o "legal!" dos dias de hoje. A
grife, enfim.
Por todas essas razões, e mais as que foram vistas quando se cuidou
do mito republicano — de hoje — do "caminho natural", não havia qualquer
pensamento sério em torno de república. Os antecedentes que se conjugaram
para tornar possível sua imposição pelos militares foram outros, como se
verá a seguir.

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4.1. O CAUDILHISMO tivessem primado por manter a disciplina, através de Avisos ministeriais, o
que, no entanto, significava preservar a própria coluna mestra da carreira
O primeiro dos elementos que se conjugaram para inspirar e deflagrar militar.
a quartelada que impôs a República foi o caudilhismo; esse estado de espírito, Esses elementos, reitere-se, foram potencializados e acionados pelo cau-
antes inexistente nas nossas forças militares, permitiu a transformação de dilhismo. Se até então os nossos militares haviam sido estritamente legalistas,
"uma série de incidentes de importância mínima, de caráter mais disciplinar após a guerra do Paraguai retornaram instilados desse veneno e do seu irmão
que político" (Leôncio Basbaum, ob. cit.), num pretexto para desestabilizar siamês, o autoritarismo: de um e outro haviam sido contagiados pelos seus
a estrutura do País. irmãos de armas na campanha, os platinos e os orientais, e até mesmo pelo
Antes de 1865, o exército tinha existência institucional, mas não uma que haviam observado nos próprios inimigos vencidos, os guaranis. Conju-
existência orgânica. Relembre-se que Pedro 1 dissolveu a Constituinte porque g á n d o l e aqueles elementos, aderiram os militares, não à república acidental
esta queria reduzir a um quinto os quadros do exército, e desmobilizá-lo; e, e não desejada, mas à experimentação de um golpe, a primeira experiência
logo depois da abdicação do primeiro Imperador, isso se concretizou em de uma quartelada; que. porém, por falta de projeto político, acabou trazendo
grande parte. Nem foi por outro motivo que o Brasil demorou tanto tempo essa mesma república nunca seriamente pensada. Fizeram-na. na esteira dos
para reagir a altura à agressão de Lopez em 1865: não havia exército orga- maus conselhos de um insignificante número de políticos desejosos de maior
nizado, foi preciso fazê-lo; e foi só com a guerra do Paraguai que ele assumiu projeção pessoal; sem qualquer movimento popular a respaldá-la. Depois de
uma estrutura orgânica e unitária. Ainda assim, nessa guerra a Guarda Na- perpetrada a violência, poucos teriam a ombridade de reconhecer o erro, e
cional, que era uma organização civil, teve participação expressiva, o que de voltar atrás, embora muitos o reconhecessem. Trataram, então, de apoiá-la
impedia a consolidação de um espírito estritamente militar no seio da tropa. e mantê-la, com o escopo claramente hegemónico de suas corporações re-
A par disso, o Imperador não era um militarista, raramente envergava cém-caudilhizadas. A respeito desse escopo, aliás, não deixa qualquer dúvida
uniforme — quando o fazia, preferia o de Almirante — e não cultivava o Decreto n° 510, de 22 de junho de 1890. cujo preâmbulo dizia: "O Governo
grandes amigos no seio militar, exceto Caxias e o próprio Deodoro. Essa Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, constituído pelo Exér-
vocação civilista, todavia, não impedia Dom Pedro I I de cumprir zelosamente cito e Armada, em nome e com o assenso da Nação...".
e à exaçâo constitucional os seus deveres: "O exército e a armada, que ele O escopo de se tornar classe hegemónica supralegal. de acordo com o
estimava deveras, ocupavam somente lugares mais remotos em suas cogita- figurino assimilado na guerra do Paraguai, impunha a tutela política do Estado;
ções. Durante a guerra, ao contrário, a eles havia dedicado todos os seus isto, porém, era impossível com a presença institucional de um Imperador,
esforços e pensamentos; cessada a guerra, porém, voltara ao seu feitio mental cujo poder moderador a Constituição fazia equidistante e imparcial. Torna-
anterior" (Pandiá Calógeras, Formação Histórica do Brasil). Assim, o espírito va-se necessário mudar a estrutura do Estado, eliminar a figura do Imperador
de filósofo, e francamente civilista de Dom Pedro I I , que via — sem grandes e passar a exercer o Poder Moderador. Foi como o fizeram, através de um
entusiasmos — nas forças militares uma espécie de mal necessário, fazia golpe "seu", diante de um "país bestificado". segundo o testemunho insuspeito
com que a questão de organização de um exército verdadeiro e permanente de Aristides Lobo.
ficasse em segundo plano. E isso gerava ciúmes e descontentamento entre
A simpatia e os estímulos norte-americanos ao golpe tornavam implícita
os militares, que, após a guerra e a vitória, estavam cada vez mais preocupados
a importação do seu modelo político; este, porém, não comportava um Poder
com o que chamavam "brio. honra e dignidade" da classe. Enfim, o espírito
Moderador institucionalizado. Passaram a exercê-lo de fato, então, deixando
de casta, que surgia em meio a uma "crise existencial". Ou seja. tudo o que
que a sua simpls presença atuasse como uma ameaça latente e implícita,
envolvia o descontentamento, cujo contexto geral se denominou como "ques-
lembrando a todos o seu poder armado, capaz de derrubar e de fazer insti-
tão militar", a rigor, "nada tinha a ver com assuntos propriamente militares"
tuições e leis. Imporiam assim as suas prioridades, sempre que o quisessem,
(cf. Leôncio Basbaum, ob. cit.). mas somente com aspectos de prestígio.
"showing the flag".
Nesse contexto aflorou, ainda, "uma deselegante disputa de vantagens ma-
teriais que ligou e confundiu todas as opiniões do exército contra os governos
do império, fossem eles indiferentemente liberais ou conservadores" (cf. José 4.2. O "TROCO" DOS ESCRAVOCRATAS
Maria Dos Santos. A Política Geral do Brasil).
O segundo elemento que contribuiu decisivamente para o golpe que
Tudo isso é mais ou menos evidente, na medida em que jamais houve impôs a República foi a vingança dos escravocratas; aliás, prevista pela Prin-
da parte do Imperador, ou de qualquer dos gabinetes, uma só atitude que cesa Isabel, como já referido, e por muitas outras cabeças pensantes. Muito
resultasse em humilhação ao exército; muito embora estes últimos sempre mais do que o prejuízo causado pela Lei Áurea — já então prejuízo meramente

110 111
residual, depois das leis dos Sexagenários, do Ventre Livre, e da extinção com a expressão "patriotismo ", e não procura preservar interesses da Nação,
do tráfico — impunha-se-Ihes a vingança de cunho ideológico; pois a con- mas só interesses políticos particularizados — é uma das marcas de íím
cepção que instruía a Lei Áurea desconfirmava todos os seus postulados de estágio intermediário no desenvolvimento político de qualquer sociedade.
vida e de fortuna. Além disso, os republicanos fingiam ser sensíveis às pre- A obra de construção da nacionalidade estava a meio-caminho, quando
tensões indenizatórias dos fazendeiros, manifestadas em virtude daquele pre- o País foi atropelado pelo lamentável acidente que foi, e cada vez mais se
juízo.* caracteriza como continuando a ser a República. O jacobinismo existia, então,
e bastante, tanto que contribuiu para a quartelada do 15 de novembro de
4.3. O JACOBINISMO 1889. Mas, sem dúvida, era muito menor do que à época, por exemplo, da
Independência; tendia a desaparecer, na medida em que o País chegasse ao
A essa conjugação do caudilhismo e da vingança escravocrata, outro patamar do desenvolvimento pleno — do qual estava próximo — que era a
elemento se juntou: foi o jacobinismo, cujo alvo obrigatório era o marido da meta do projeto de construção nacional do Império, cujo coroamento, tudo
Princesa Isabel, o conde d'Eu. Rui Barbosa, certo de que a inteligência do leva a crer, seria conseguido com a implantação do projeto de remodernização
Imperador Dom Pedro I I estava em declínio — causado pela precoce e des- do Visconde de Ouro Preto, arquivado pelos "heróis" de 1889.
proporcional carga de estudos durante sua infância e juventude, e mais, pela Durante estes 103 anos o jacobinismo tem sido alimentado ideologi-
febre amarela e pela diabete — afirmava que a Princesa Isabel já "governava" camente pelos sucessivos governos republicanos. Alimentam o atraso cultural,
o país, juntamente com o marido, num "inadmissível consórcio bragantino- e como consequência inarredável, o atraso em qualquer outro setor. Porque
orleanista"! Quando o conde d'Eu resolveu empreender uma viagem de es- só há e só houve uma fonte do que se chama "desenvolvimento" no mundo,
clarecimentos — ele jamais se imiscuía nos negócios públicos — ao norte em qualquer tempo: o conhecimento. Puro, desvinculado de preconcebimen-
do país, Silva Jardim o "perseguiu" em todas as cidades, fazendo propaganda tos. Só ele é fonte de poder industrial, comercial, tecnológico, económico,
contra o casal imperial. militar e político.
E de se notar que no mundo atual as rainhas da Holanda, da Dinamarca Já se mencionou que ainda são comuns as reações espumejantes, quando
e da Inglaterra são casadas com estrangeiros. Assim também foram as rainhas qualquer crítica nos vem do estrangeiro. E, note-se: as reações não decorrem
Guilhermina e Juliana (da Holanda), Saiote (de Tonga), e a grã-duquesa Car- do conteúdo da crítica, do seu mérito, mas de virem do estrangeiro.
lota (de Luxemburgo). Isso jamais foi questionado, nem impediu os seus Até mesmo entre os monarquistas brasileiros, em plena campanha para
reinos de serem prósperos e felizes. Aliás, mesmo no tempo em que o jaco- o plebiscito de 1993, o jacobinismo não deixou de dar a nota de sua presença:
binismo assim influía nos nossos destinos, reinavam na Inglaterra e Espanha existiu uma "corrente" que propugnava pela escolha de Dom Pedro de A l -
as rainhas Victória e Isabel I I ; ambas casadas com estrangeiros. cântara de Orleans e Bragança (5° filho de Dom Pedro Henrique), cujos
Em suma, a injustificável repulsa ao conde d'Eu, pelo simples fato de :ínéritos não estão em dúvida — ao contrário — mas, no entanto, pelo simples
ter nascido na França — apesar dos inúmeros serviços militares que prestou fato de ser casado com uma descendente de José Bonifácio, e não com uma
ao Brasil — foi um dos móveis do golpe de 1889. /princesa estrangeira, como Dom Pedro Gastão ou Dom Antônio!
Observe-se que o jacobinismo continua sendo um elemento sempre
latente na sociedade brasileira: vez por outra, em questões de maior ou menor 4.4. O MACHISMO
importância, ele volta a se manifestar. Tem sido utilizado pelos interesses
políticos, que o cultivam e mantêm vivo, como arma de bolso do colete. Em
O quarto elemento que influiu no golpe foi o machismo. Como nos
geral para criar ou manter mastodônticos e ineficientes "cartórios", que por
«dão conta os repertórios existentes — em elevado número — a verdade é
sua vez implementam e multiplicam o obscurantismo cultural, a estagnação
'que a Princesa Isabel foi apenas tolerada todas as vezes que assumiu a Re-
da sociedade, e consequentemente o "sucateamento" dos meios de crescimento
pência na ausência do pai; e, mesmo isso, pelo caráter passageiro, pela simples
do País. Na verdade, quer se visto sob esse antigo nome, quer mascarado
íjinterinidade. Ainda assim, nessas ocasiões, um mal-estar a custo disfarçado
sob a ridícula capa de um pretendido "nacionalismo" — que nada tem a ver
/Somava conta das camadas conservadoras: "Uma verdadeira inconformidade,
||ue tocava as raias da repulsa que vinha de muito longe, a resistir teimo-
samente ao tempo, nascida de um arcaico preconceito que continuava inex-
wficavelmente muito vivo nos fins do Império, a opor-se ao envolvimento da
* Rui Barbosa, ministro do governo republicano, fez desaparecerem dos cartórios os
WfUlher nos manejos políticos e muito mais ainda na administração propria-
registros de propriedade dos ex-escravos, para impedir que os ex-proprietários instruíssem os
pedidos corrTas respectivas certidões de propriedade. Estes, no entanto, que controlavam o governo,
mente dita de negócios do Estado" (Hermes Vieira, Princesa Isabel, uma
foram compensados por "outras vias", indiretamente. pida de luzes e sombras, GRD, São Paulo, 1989).
pf', 1
À vista da debilidade da saúde de Dom Pedro I I , era geral o temor de
que a princesa pudesse ascender ao trono: a maioria esmagadora dos mais
significativos expoentes políticos e económicos se opunha a essa possibilidade,
e opunham-se de forma inquestionável: as homenagens que lhe tinham pres-
tado pela assinatura da Lei Áurea nem de longe significavam concordância
com sua ascensão à Chefia do Estado, e ao exercício do Poder Moderador.
Não estavam rompidos, ainda, os laços com os velhos preconceitos, segundo
os quais o lugar da mulher era no lar, cuidando da prole, do fogão e da
roupa a lavar. As qualidades morais e intelectuais da princesa, o seu bom
senso e a sua prudência, embora reconhecidos, não poderiam ser suficientes
para elidir sua condição de, "simplesmente" ... mulher!
"Merecedora do maior respeito por suas excelentes qualidades de co-
ração e as suas virtudes pessoais, como mulher e mãe de família, dificilmente
a toleravam na posição oficial e no papel político que lhe cabia dentro da
Constituição do Império. Era uma intolerância fundada nos princípios, ou
melhor, nos preconceitos de ordem social que prevaleciam então no Brasil,
quando bem poucos compreendiam outro papel parti a mulher que não fosse
puramente doméstico ou quando muito mundano, excluindo-a de toda atuação
ou ingerência no mundo político e oficial, nas altas esferas do governo e da
administração pública" (Heitor Lyra. História da Queda do Império).

4.5. A CONCUPISCÊNCIA

O quinto, e talvez principal elemento que se conjugou àqueles para
determinar a sorte do País. foi a concupiscência, hoje chamada de "fisiolo-
gismo". Pois a obra de sedimentação de valores morais, contrariando o mau
legado das origens, estava apenas a meio do caminho: como bem precisou
Monteiro Lobato no artigo antes citado, "mais um século de catálise imperial
e o processo cristalizatório se operaria completo": consolidar-se-iam os bons
costumes, em grande parte irradiados e assimilados a partir dos princípios
que permeavam as instituições monárquicas, e do exemplo da Família Im-
perial.
A concupiscência leva as lideranças, quer políticas, como administra-
tivas, empresariais, universitárias, da imprensa, e enfim de todas as categorias
a rejeitarem a autoridade de um Imperador dinástico, hereditário. Isso porque
a concupiscência faz com que essas lideranças agarrem-se fisiologicamente
ao poder, à influência e às benesses dos seus cargos, ignorando qualquer
consideração sobre coisa pública ou interesse público. A existência institu-
cional e natural de um Imperador hereditário, superior ao "establishment" da
política, porque não dependente dela, nem de eleições, autoridade que é a
antítese, a negação e a correição a tudo o que essas lideranças representam,
significa uma permanente ameaça àqueles privilégios, à continuidade dos
seus manejos e das suas falácias. Em uma frase: rejeitam a monarquia porque
o monarca é, e deve ser superior. Superior, não porque tenha sangue azul
ou direito divino. Mas, autoridade "superior", precisamente, porque, não de-

PRINCESA ISABEL 115
(Princesa Imperial, foto de Pierre Petit,
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro)
pendendo da política e de eleições, não precisa descer ao nível — naturalmente Por todos esses motivos, resultam claras as razões do programa de
aé(¡co dos que perseguem a manutenção do poder; não tem que negociar condicionamento ideológico republicano, que descortinamos brevemente num
os interesses públicos, para chegar ao cargo e nele se manter. Por isso, para dos capítulos anteriores; e obviamente, as razões pelas quais o eleitor brasileiro
a classe política, o Imperador hereditário é uma espécie de "estranho no nunca teve, e continuará não tendo informações sobre os dois regimes. Nem
ninho" institucional da política: e essa espécie de política é tudo o que a nos bancos escolares, nem — sobretudo agora, depois do plebiscito — nos
classe política brasileira, ontem, como hoje, conhece e sabe fazer. Relem- jornais e televisões, sempre dependentes da boa vontade institucional repu-
bre-se, a propósito, a queixa de Dom Pedro I I , no seu Diário, quanto aos blicana. Pois, se a generalidade dos eleitores tivesse acesso a essas informa-
políticos que criavam querelas em torno dos seus interesses particulares. ções, provavelmente compararia os dois regimes. E entenderia a manietação
Uma autoridade estranha a esse "modus vivendi", autoridade que se de que têm sido vítimas, faz cem anos.
identifica diretamente com a sociedade, natural defensor dessa mesma so- Os integrantes da classe política, beneficiários desse estado de coisas,
ciedade que a classe política tem necessidade institucional de considerar herdeiros e sucessores de outras gerações da classe política que atuaram da
como massa de manobras e de exploração, só pode ser vista como ameaça mesmo modo — desde 1889 — sabem que só discriminando a monarquia,
potencial ao continuismo dessa mesma classe política. Além disso, suas lin- vedando o acesso do público à informação, podem sobreviver. Tudo indica
guagens são diferentes, o que impede o diálogo em igualdade de condições; que continuarão a discriminá-la.
e isto significa uma permanente reafirmação da condição de subordinação, A concupiscência de hoje é a mesma de 1889, que precisava ver-se
que deveria haver entre a sociedade — que o monarca representa globalmente livre do Imperador.
— e os políticos que em tese a representam parceladamente, mas na prática
representam somente a grupos localizados de interesses. Como os escravo- 4.6. OS INTERESSES NORTE-AMERICANOS
cratas, e outros.
Esse elemento, a concupiscência de lideranças, que se conjugou àqueles Um sexto elemento, ainda, e igualmente poderoso, conjugou-se contra
outros elementos para implantar a República, expandiu-se e muito durante o Império brasileiro: a denominada "doutrina de Monroe", para a qual a
este século. Constitui-se, hoje, no principal motivo daqueles que rejeitam presença de fortes vínculos com a Europa, na América Latina, representava
conscientemente o restabelecimento da Monarquia. O monarca, para estes, é ameaça aos desígnios hegemónicos que os Estados Unidos começavam a
o inimigo comum de todas as lideranças da estrutura republicana, intrinse- cultivar. Nossa Monarquia enquadrava-se, precisamente, nessa figura: demo-
camente oligárquicas, exploradoras do erário público, e portanto antidemo- cracia de tipo europeu. Era uma "pedra no sapato", para os impulsionadores
cráticas. dos desejos hegemónicos norte-americanos. O ideal para Washington eram
Se não fosse assim, como explicar a televisão e os grandes jornais — as "repúblicas" instáveis, dominadas por caudilhismo violento e corrupto.
que dependem das verbas institucionais intermediadas pela classe política — Consequentemente, fracas.
não darem acesso, não permitirem a palavra aos monarquistas? Como explicar Não é de causar espanto que a primeira bandeira do Brasil republicano
que essa grande imprensa e essas lideranças políticas — que clamavam contra tenha sido um simulacro da bandeira norte-americana, em verde e amarelo.
o regime de 1964, protestavam por pluralismo e por livre manifestação de Menos, ainda, que uma força-tarefa da marinha estadunidense tenha penetrado
pensamento, por democracia e liberdade integrais — discriminassem siste- o mar territorial brasileiro — chamada por Floriano Peixoto — para bom-
maticamente a Monarquia e o povo (no seu direito de ser informado), durante bardear os navios rebelados pelo Almirante Saldanha da Gama, em plena
a campanha do plebiscito, violando os princípios da pluralidade e da igualdade, baía de Guanabara! Relembre-se que a revolta do Almirante Saldanha da
impedindo que esse povo fosse informado e conhecesse algo diverso do que Gama (Revolta da Armada, 1893) só tinha como objetivo a realização do
aí está? É o óbvio: a monarquia é uma ameaça; é a negação da sistemática plebiscito prometido pela República em 1889.
dessa estrutura republicana de poder. E isso, pela sua simples integração A propósito, por ser quase desconhecido, vale transcrever o relato do
natural com a sociedade. Pois representa a retomada da identidade nacional, ataque da esquadra dos Estados Unidos contra a esquadra brasileira:
da verdadeira identidade política, dos valores morais e do auto-respeito; isto
é, representa o abandono da verdade formal e da lei complacente, que são "Em 6 de setembro de 1893 revoltava-se a Esquadra contra Flo-
o sustentáculo do poder republicano, em benefício da verdade real e da lei riano, sob o comando de Custódio de Melo. Começava a Revolta da
efetiva. Representa, em suma, o redespertar de uma Nação que, há cem anos Armada. Com ela fechava-se o cerco sobre Floriano, o que mais ainda
anestesiada, não tem como resistir aos verdadeiros estupros político-adminis- suscitava o apoio da oligarquia paulista. Embora sustentado pelo Exér-
trativos de que diariamente é vítima. cito, era São Paulo a fonte de maior apoio ao Vice-presidente.
\
116 117
No início cia luta. logo as fortalezas cio Rio cie Janeiro tomaram Santa Catarina, deu-se o confronto final. Floriano comprou navios no
posição: Laje e São João ficaram com o governo. A cie Villegaignon. estrangeiro e compôs a chamada "esquadra de papelão", que deu
sob jurisdição da Marinha, a princípio ficou neutra, depois aderiu à combate aos navios revoltados. Comandou-a o Almirante Jerônimo
Revolta. Gonçalves, que já se reformara, o único que aceitara a incumbência.
Havia no Rio de Janeiro navios de guerra estrangeiros (França. Um de seus navios pôs a pique o encouraçado Aquidabã. por torpedo,
Inglaterra. Itália e Portugal). Floriano não se responsabilizou pelos no combate de Anhatomirim (Santa Catarina). No Rio de Janeiro, não
eventuais danos c/tie eles pudessem sofrer em função dos tiros trocados podendo sustentar a luta, renderam-se os navios revoltados, sendo que
entre cts fortalezas e os navios revoltados. O Almirante Custódio ¡le grande parte da oficialidade e dos marujos embarcou para o exílio,
Melo. a certa altura, fez um acordo com o Marechal Floriano pitra após refugiarse nos navios estrangeiros.
cessar o bombardeio da cidade, desde que o governo retirasse o ar- Saldanha, regressando do exílio, ainda incorporou-se cts forças
mamento existente nos morros. Os fiadores desse acordo foram os co- sulistas que continuavam a Revolução Federalista. A Revolta da Armada
mandantes estrangeiros, interessados em ver poupadas as propriedades terminara em março de 1894, mas Saldanha veio a morrer com os fede-
dos súditos de seus respectivos governos, existentes na capital. A trégua ralistas, no combate de Campo Osório, no Rio Grande do Sul, em junho
acertada foi. porém, rompida por Floriano, que valeu-se da intervenção de 1895 (Cmte. Antônio Luiz Porto e Albuquerque, História do Brasil,
estrangeira para reforçar sua artilharia em pontos estratégicos. Pouco Serviço de Documentação Geral da Marinha de Guerra do Brasil).
mais tarde, em janeiro de 1894. Floriano veria de bom grado a inter-
venção da esquadra norte-americana comandada pelo Almirante Be- Relembre-se, ainda, os comentários do embaixador do Brasil em Was-
nham. Essa força naval exigiu que os navios revoltados suspendessem hington, Sérgio Correia da Costa, no seu livro A diplomacia do Marechal:
o bloqueio à capital. Comandava-os o Almirante Saldanha da Gama
(o Almirante Custódio de Melo deslocara-se para o sul), que teve o
cruzador 'Trujano' atingido por um disparo norte-amertcano. "As tendências monárquicas de Saldanha foram o argumento de
que se valeu Floriano para conquistar a adesão completa do Governo
A intervenção violenta norte-americana explica-se pelo interesse de Washington. A restauração, feita sob as vistas benévolas das es-
dos Estados Unidos em evitarem a restauração monárquica. A entrada quadras estrangeiras, deixaria uma porta aberta à influência européia.
de Saldanha na Revolta deu-lhe tal sentido evidente, quando lançou E a diplomacia do marechal soube fazer valer esta consideração junto
seu manifesto de 7 de dezembro de 1893. ainda na direção da Escola ao Departamento de Estado. A 13 de dezembro de 1893, depois do
Naval. Saldanha quis a restauração, para que depois o povo se expri- manifesto de Saldanha, Floriano informou, oficialmente, ao Governo
misse en\plebiscito pela forma de governo que desejasse. Os norte- americano, que a "restauração do Império" seria, daquele momento
americanos já se haviam transformado nos maiores compradores do em diante, o objetivo dos insurgentes.
café brasileiro e temiam que a restauração monárquica inclinasse no- Esta observação passou a ser estribilho de Salvador de Mendonça
mínente o país para a esfera britânica. Seu interesse era manter o junto ao Secretário de Estado Gresham. Se os Estados Unidos conti-
Brasil no círculo de influência dos Estados Unidos, o que se demons- nuassem a reboque do corpo diplomático europeu no Rio de Janeiro,
trava pela cópia que se procurou fazer do modelo político daquele a República brasileira não poderia resistir à pressão dos seus inimigos.
país na Constituição republicana ("Estados Unidos do Brasil") e até Referindo-se aos ataques da imprensa yankee contra o Governo Cle-
mesmo na primeira bandeira da República, que foi cópia excita da veland, por ter este propiciado o restabelecimento da monarquia em
bandeira norte-americana, só que nas cores verde e amarelo. Daí a Hawai, perguntava Mendonça: "Não serão demais duas restaurações
intervenção norte-americana, aceita e tornada possível pelo Marechal para uma só administração democrata?"
Floriano pelo decreto de 10 de outubro de 1893. em que declarou os
E chamava a atenção do estadista para a maior força existente
navios revoltados — de guerra ou mercantes armados — sem a proteção
nos Estados Unidos — a opinião pública — que certamente o conde-
da Bandeira Nacional: tornava-os navios piratas! Os demais navios
naria quando soubesse que nada fizera para impedir a queda da Re-
estrangeiros (europeus) apoiaram como puderam os navios de Salda-
pública nascente.
nha, inclusive com munição.
Vitoriosa a nossa gestão diplomática, tomoii-se efetiva, afinal,
Depois de muita luta, inclusive com desembarque de marinheiros a cooperação americana. Ao 'Charleston', ao 'Newark' e ao 'Detroit'
em Niterói (Ponta da Armação) sob o comando pessoal de Saldanha, vieram logo juntar-se mais dois novos e poderosos cruzadores, o 'S.
e ainda após os revoltosos terem instalado um governo provisório em Francisco', a 12 de janeiro, e o 'New York', no dia 16, sob o comando

119
supremo do Almirante Benham, com instruções especiais, para romper,
à bala se preciso fosse, o bloqueio do Rio de Janeiro. Os navios ame-
ricanos que quisessem atracar nos trapiches, embora conduzindo con-
trabando de guerra para as forças legais, poderiam contar com a ga-
rantia dos seus canhões.
De fato. Quando a corveta rebelde 'Trajano' tentou impedir que
as barcas 'Amy', 'Good News' e 'Julia Rollins' descarregassem nas
docas da Gamboa, Benham alvejou-a com um tiro de peça do 'Detroit',
formou os seus navios em linha de batalha e ameaçou pôr a pique os
pequenos barcos de Saldanha. Asseguraram ao autor alguns partici-
pantes da revolta (entre os quais o Almirante Brusque e o Comandante
Vilar) que o 'Detroit' não atirou.
Joaquim Nabuco, baseando-se em telegrama do ministro ameri-
cano ao secretário de Estado, em 31 de janeiro, sustenta o contrário:
"O 'Detroit', ao passar pela 'Trajano', ameaçou metê-la a pique, depois
de disparar um tiro de peça, não de pólvora seca, como diz o Coman-
dante Augusto de Castilho, mas de bala, e outro de mosqueteiro, que
5. A "proclamação" da República
ambos a alcançaram".'
Lawrence Etill, por sua vez, declara: "When one ofthe discharging
vessels was fired on by an insurgent cruiser, the U.S.S. Detroit, which Um grande jornal a denominou "República Federativa Soviética do
had taken a strategic position, the fire with a six pounder, the shot Brasil". Outro, "República da corrupção". Um terceiro, "República da igno-
striking under the bows of the insurgent".2 rância". Parece que nenhum título cai melhor do que "República do faz-de-
Em carta ao chefe rebelde, não deixou dúvidas quanto à firmeza conta".
da atitude que assumira: "Até que os direitos de beligerantes vos sejam Faz-de-conta, tudo. Faz-se de conta que os "rigorosos" inquéritos apu-
reconhecidos, não tendes direito de exercer a menor autoridade sobre rarão responsabilidades, e os culpados serão punidos; ou, que estão sendo
navios ou propriedade americana de nenhuma espécie. Não tendes o tomadas "severas" medidas para impedir a continuação de vergonhas como
direito de busca em navios neutros nem de apresar parte alguma da a da Previdência Social. Por falta de opção, o povo deve fazer de conta que
carga, mesmo que seja da que seria claramente definida como contra- acredita nas afirmações e promessas deste ou daquele governo; todos eles,
bando de guerra nas hostilidades entre dois governos independentes. sempre, divorciados dos interesses da Nação, mas fiéis defensores dos inte-
A tomada à força de qualquer desses artigos por pessoas sob o vosso resses de grupos que nada têm a ver com a justiça social e o crescimento
comando seria, na vossa atual condição (status), um ato de pirataria". dessa mesma Nação.
Saldanha lavrou um solene mas inútil protesto contra o ato de força de Na República do faz-de-conta, o que importa é não deixar rabo, fazer
Benham. Obrigado a consentir na atracação dos navios norte-americanos, tudo "de acordo com a lei". Sobretudo, dentro dos limites suportáveis pela
deliberou reconhecer igual vantagem aos navios das demais nações. frouxidão com que a lei é interpretada e aplicada. A lei complacente.
Sombria resignação a de Saldanha, prelúdio do tresloucado de- Fernando Collor, por exemplo, foi deposto — com alguns resquícios
sembarque que efetuaria dias depois na Armação, à frente de mari- de legalidade — não em virtude da corrupção do seu governo, que outros
nheiros alucinados".* houve tão ou mais corruptos. Mas, por dois motivos: tentou desmontar alguns
"cartórios" poderosos, pondo em risco a sobrevivência do poder dessas oli-
garquias, as célebres oligarquias, que não existiam no Império, e a República
instituiu; e porque, não pertencendo a nenhum dos quatro grandes partidos
1 A intervenção estrangeira na Revolta cie 1893, Rio de Janeiro. nacionais, esboçou a intenção de fazer do seu micro PRN um grande partido,
2 Diplomaria Relations Between the U.S. and Brazil, pp. 278/279. a partir das eleições municipais de 1992, para perpetuar-se no poder, pondo
* O Embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Corrêa da Costa, após longas pesquisas
em risco as pretensões presidenciais dos líderes notórios daqueles quatro gran-
em arquivos dos Estados Unidos, comprovou o acordo entre o governo republicano brasileiro e
o governo norte-americano para sufocar a Revolta da Armada brasileira, que queria o plebiscito, des. Além desses pecados capitais, Collor cometeu um outro: tentou concentrar
conforme seu livro A Diplomacia da Marechal. a corrupção, com exclusividade, no seu "esquema PC"; ameaçando, com

120 121
isso. tirar o "pão da boca" da classe política, tradicionalmente, há décadas e tou a República que lhe foi imposta", in Enciclopédia Bloch, n° 2, Rio de
décadas, engordada pelas propinas do tráfico de influência, e pelas comissões Janeiro, 1966).
dos "lobbies". Não fora isso, estaria aí até hoje, com todos os seus PCs e Qual o motivo pelo qual Deodoro — ainda que a contragosto, conforme
PPs, complacentemente admitidos por todos aqueles que — dedo em riste os registros históricos unânimes — concordou em instaurar a República, ao
— posaram para a mídia no momento em que diziam "sim" ao "impeachment". ouvir que Silveira Martins seria chamado para formar o novo governo? Sim-
É a República do faz-de-conta: tanto que os mais notórios corruptos e cor- ples: muitos anos antes, quando servia no Rio Grande do Sul. ele e Silveira
ruptores da atualidade estão aí mesmo, e ajudaram a depor Collor... por cor- Martins haviam disputado a preferência de uma dama gaúcha; e Silveira
rupção! Martins levara a melhor. Por isso, o "generalíssimo", no mesmo dia em que
Só quem não fez de conta foi a juventude, essa linda juventude de desfilara à frente da tropa aos brados de "Viva o Imperador!", e penetrara
"caras-pintadas", que — coitada — desinformada pelo nível de instrução da no Quartel General com os mesmos brados, concordara em mandar para o
República do faz-de-conta, e massificada pelos veículos de comunicação de exílio a Família Imperial, à frente o Imperador ao qual servira a vida toda.
e do qual sempre recebera as maiores distinções de amizade e consideração,
massa, pensa que tudo se resolve com "auês", passeata e festa: sequer pode
incluindo auxílio financeiro!
desconfiar que foi usada; usada, principalmente para assegurar a sobrevivência
de oligarquias, de corruptos, e de aventureiros! Em suma, nem desconfia de Assim, "a inconsequência, a falta de lógica, nessa verdadeira comédia
que foi usada para garantir que não mude o país que ela pensava estar mu- de absurdos começa com a própria proclamação. O primeiro desses absurdos:
dando. existe um Partido Republicano, mas não é este quem proclama a República.
Quem o faz é o exército que, em seu conjunto, não é republicano" (Leôncio
O faz-de-conta está visceralmente entranhado na República brasileira.
Basbaum, História Sincera da República. São Paulo, 1981). Acrescente-se
Já existia nos próprios motivos de sua instauração, porque não havia motivos:
que, quem encabeçou a quartelada é um ilustre marechal, amigo pessoal do
inexistia qualquer movimento, de qualquer segmento, sequer reivindicando
Imperador desde a mocidade; o mesmo que. menos de um ano antes, escrevera
a mudança do regime. Existia o faz-de-conta no projeto político dos que a
a seu sobrinho Clodoaldo da Fonseca, dizendo que a República seria "uma
fizeram, porque não tinham projeto político. Existia na sua falta de legiti-
desgraça para o Brasil" e que "o único sustentáculo do nosso Brasil é a
midade, porque o célebre "em nome da Nação" não tinha qualquer respaldo Monarquia; se mal com ela, piar sem ela". Ainda, o mesmo que ao entrar
na Nação: o caso foi mesmo de usurpação da Nação. Existia o faz-de-conta no Quartel General naquele fatídico dia levava uma lista com os nomes dos
na sinceridade, porque o plebiscito prometido nunca foi realizado: em seu novos possíveis ministros, para submetê-los ao monarca. E. finalmente, o
lugar, convocaram a "cláusula pétrea"! mesmo que empossado mais tarde como presidente da República, nomeou
Sobretudo, o faz-de-conta existiu no próprio ato da instauração, a famosa como seu braço direito e principal ministro o barão de Lucena, ardoroso e
"proclamação". É mais do que certo que a conhecida imagem do marechal público defensor da Monarquia!
Deodoro, montado e com a mão acenando o quépi, não é de "proclamação" Um outro aspecto da proclamação, ainda, não pode deixar de ser re-
nenhuma, mas do momento em que, pondo-se à frente da tropa amotinada, fletido, evidenciando a diferença de conteúdo ético entre os que a promoveram
gritava "Viva o Imperador!". Como dão fartos testemunhos todos os registros, e os que a sofreram. No dia 13 de novembro, à vista das notícias que lhe
jamais passara pela sua cabeça derrubar a monarquia e instaurar a república, chegavam sobre uma conspiração militar, o presidente do Conselho (vise. de
tanto que foi ainda bradando "Viva Sua Majestade, o Imperador!" que subiu Ouro Preto) tratou do assunto com o ministro da Guerra; e este cobrou in-
ao segundo andar do Quartel General, onde estava instalado o governo. De formações e adequadas providências do ajudante-general (chefe do Estado
todos esses fatos nos dá conta, entre outros, Pedro Calmon ("O Grito do Maior), marechal Floriano Peixoto. E este. que desde dois dias antes já se
marechal Deodoro", in O Cruzeiro, Rio. edição de 2.3.68). havia comprometido com a sedição, enviou a Ouro Preto a seguinte carta,
Mas, há outros dados: a própria princesa Isabel, em seu esboço auto- datada do mesmo dia:
biográfico "Alegrias e Tristezas" (in O Legionário, São Paulo, edições de
19 e 26.6. e 3.9.49) relata que Deodoro nada mais queria senão a deposição "Rio, 13 de novembro de 1889 — Exmo. amigo sr. Conselheiro
do gabinete do visconde de Ouro Preto, e só se resolveu pela República já — A esta hora deve v.ex. ter conhecimento de que tramam algo por
ao entardecer do dia 15, quando seus companheiros — Benjamin Constant ahi além; não dê importância; tanto quanto seria preciso, confie na
Botelho de Magalhães, entre outros — lhe disseram, para convencê-lo, que lealdade dos chefes que já estão alerta. Agradeço ainda uma vez os
Dom Pedro I I "iria" chamar Gaspar da Silveira Martins para formar o novo favores que se tem dignado dispensar-me. O meu afilhado, isto é, afi-
governo. No mesmo sentido, Laryston Gomes Pereira Guerra ("Deodoro acei- lhado dos liberaes do Rio Grande do Norte, Fonseca e Silva, esteve

122 123
aqui em comissão, percebendo vencimentos de comissão activa; não é de
justiça que vá para aquella província com prejuízo, razão por que peço
despacho favorável a esta junto, que v.ex. devolverá com data de 11.
Sou de v.ex. menor criado, amigo e obrigado. — Floriano Peixoto."

Essa, em suma, a origem da República: um faz-de-conta generalizado.
Dos motivos, que não existiam; do respaldo popular, que também não havia;
da ilegitimidade dos que usurparam os poderes da Nação, enquanto diziam
falar em nome dela; da insinceridade da promessa do plebiscito, que não
realizaram; da traição à amizade pessoal e da infidelidade aos deveres fun-
cionais; da covardia de utilizar força bruta contra quem dela jamais se utilizara;
da tibieza e da infirmeza moral de alguém que concordou em depôr a quem,
naquele mesmo dia, aclamara; da inexistência de projeto político; do descor-
tínio histórico e estadístico, que não tiveram ao banir do seu País quem dele
fora chefe do Estado durante meio século, e confessadamente pelos que o
faziam, realizara uma obra de construção nacional; do decoro, que não tiveram,
ao menos para considerar que esse Imperador estava velho, doente, e próximo
da morte; da futilidade dos motivos pessoais do "proclamador", a vingança
de uma frustração amorosa; dos pretendidos brio, honra e dignidade do exér-
cito, cuja disciplina — essa disciplina que Caxias sempre preservara —, no
entanto, quebraram, iniciando o ciclo do caudilhismo; na solerte deslealdade
de um chefe de Estado Maior, contra um chefe de Governo cuja retidão
moral jamais fora, e nem foi depois posta em dúvida. E, enfim, o faz-de-conta
de tantos outros aspectos, que deram a marca original ao atual regime; ins-
titucionalizando os comportamentos sob o seu pálio ao longo de todas as
gerações que sucederam à "geração parricida", da qual nos deu magnífico
perfil Luis Martins (O patriarca e o bacharel, Martins Editora, São Paulo,
1953).
Depois de tudo isso, para tentar acalmar sua consciência, Deodoro man-
dou oferecer ao Imperador os famosos cinco mil contos de réis: mais um
dos ingredientes do faz-de-conta da "res publica", que faz do dinheiro público
propriedade de quem exerce o poder. Dom Pedro I I recusou-os, obviamente,
apesar de pobre. Então, a República fixou para Deodoro o dobro dos venci-
mentos que o Imperador recebera durante quase 50 anos, confirmando o
faz-de-conta da coisa pública. Um precedente a mais, note-se, para as gerações
políticas vindouras...
Muitos acusam Dom Pedro I I de haver entregue o poder sem resistência.
Segundo estes, seria apenas um filósofo. Seria republicano, até. Ele era apenas
sereno, e ético; por isso, talvez cause indignação aos políticos de hoje, e
tenha causado o mesmo à "geração parricida". Mas, não era em nada inferior
à determinação e à coragem pessoal do pai. Todos quantos conheceram o
pensamento do Imperador, sabem que, passado o transe do 15 de novembro,
ele disse que não recebera em Petrópolis os dois telegramas enviados pelo
visconde de Ouro Preto; afirmou que, se os tivesse recebido, teria partido A princesa Isabel e seu primogénito, Dom Pedro de Alcântara
para Minas Gerais, e dali resistido. Os telegramas, porém, segundo algumas (foto de 1883, Arquivo do Palácio Grão-Pará)

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práticas de hoje, inauguradas naquele infausto evento, não chegaram às mãos totalidade do Exército — com toda a certeza teria acabado com a incipiente
de Dom Pedro I I . . . República, que ainda permanecia derrapando no atoleiro de sua própria ile-
Evidentemente, não há nada que tenha origem imoral, e produza frutos gitimidade!
morais. Existe, a propósito, um ditado popular: "Pau que nasce torto, não Os federalistas do Rio Grande, apesar de monarquistas, eram franca-
endireita". Como qualquer outra coisa, um regime político, seja ele monarquia mente maçónicos. A princesa Isabel era religiosa ao extremo. Hoje, essa
ou república, nascido sob as determinantes que no Brasil deram surgimento questão de catolicismo e maçonaria quase inexiste; mas. na época, era questão
ao sistema republicano, jamais poderia legar às gerações futuras algo diferente relevante. O novo Imperador tinha 16 anos, sua formação ainda estava por
daquelas marcas originais: a República, entre nós. foi e continua sendo um terminar. A princesa Isabel declarou que não renunciaria à sucessão, porque
"pau torto", que não pode endireitar; e a prova disso, queiram ou não reco- os federalistas iriam fazer do seu jovem primogénito um maçon. Diante disso.
nhecê-lo fruidores e condicionados fruídos, não são só as dez décadas que Dom Pedro I I retirou sua ideia de abdicação. O príncipe Dom Pedro de
se seguiram ao 15 de novembro, mas sobretudo o estado a que chegamos na Alcântara deixou de ser naquela oportunidade proclamado Imperador Dom
época atual. Pedro III, e seu regresso pelo Rio Grande do Sul não se realizou. De sobra,
permitiu a criação, mais tarde, da chamada "questão dinástica".
5.1. UMA OPORTUNIDADE PERDIDA Uma oportunidade de ouro ficara perdida, para o restabelecimento puro
e simples, então, da Monarquia brasileira. E para a retomada não só do notável
Em fins de 1890, Dom Pedro I I convocou ao seu exílio de Paris os trabalho de construção nacional que se empreendera durante o reinado de
membros do Conselho de Estado do Império.* Nem todos os Conselheiros Dom Pedro I I , como do tremendo surto de desenvolvimento que se iniciara
puderam atender à convocação, mas diversos deles fizeram-se presentes à nas suas duas últimas décadas.
reunião, da qual também participaram a princesa Isabel e o conde d'Eu.
Nessa ocasião, aliás, foi reconhecida pelos presentes a qualidade de conse-
lheiro de Estado ao célebre Gaspar da Silveira Martins, que fora nomeado
para o órgão pouco antes da instauração da República, e não chegara a tomar
posse.
Nessa pouco referida reunião. Dom Pedro I I ofereceu a espetacular
proposta de sua abdicação, desde que sua filha, a princesa Isabel, renunciasse
aos seus direitos de sucessão; dessa forma, seria desde logo aclamado o
príncipe Dom Pedro de Alcântara, filho primogénito da Princesa (e pai de
Dom Pedro Gastão, de Petrópolis), então com 16 anos de idade, como o
novo Imperador nominal do Brasil, como o nome de Dom Pedro I I I !
A essa proposta de Dom Pedro I I , Gaspar da Silveira Martins acres-
centou outra, ainda mais espetacular: como a Marinha brasileira era franca-
mente fiel à Monarquia, e assim também o eram os federalistas do Rio Grande
do Sul, os Conselheiros voltariam ao Brasil já acompanhando o Imperador
Dom Pedro I I I ; aportariam no Rio Grande do Sul, onde seu desembarque
seria tranquilo. A partir dali, com a figura do novo Imperador à frente, co-
meçariam a contra-revolução que restabeleceria a Monarquia!
Tudo indica que a proposta e o projeto de Silveira Martins estavam
correios: a chegada de Dom Pedro III ao Rio Grande, e o início do movimento
de restauração — com o apoio maciço do Povo, da Marinha, e da quase

* A qualidade de membro do Conselho de Estado era vitalicia. Assim, mesmo extinto
esse órgão pela República, juridicamente subsistiu a qualidade dos seus membros, cujo título —
Conselheiro — aliás, foi mantido pelo novo regime em caráler pessoal aos seus detentores.

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6. Resultados da República

Não será demasia, ainda uma vez, recorrer a Monteiro Lobato, no seu
artigo algumas vezes mencionado, para que se tenha um perfil da situação
do País, já em 1918, menos de 30 anos depois da imposição da República:

"De Norte a Sul o povo lamuria a sua desgraça e chora enver-
gonhado o que perdeu. Tinha um rei, tem sátrapas. Tinha dinheiro,
tem dívidas. Tinha justiça, tem cambalachos de toga. Tinha Parlamento,
tem ante-salas de fâmulos. Tinha o respeito do estrangeiro, tem irrisão
e desprezo. Tinha moralidade, tem o impudor deslavado. Tinha sobe-
rania, tem cônsules estrangeiros assessorando ministros. Tinha esta-
distas, tem pegas. Tinha vontade, tem medo. Tinha leis, tem estado de
sítio. Tinha liberdade de imprensa, tem censura. Tinha brio, tem fome.
Tinha Pedro II, tem ... não tem! Era. Não é."

Não vamos nos tornar repetitivos, voltando a abordar aspectos cujos
dados objetivos já foram mencionados; até porque, esses são aspectos e dados
que estão à disposição de quem os queira rever ou mais detalhadamente
analisar, nas respectivas fontes indicadas ao final deste livro.
O que parece ser de interesse, agora, são outros dados mais sutis, menos
evidentes ao observador desatento. E, no entanto, talvez mais importantes do
que os apontados resultados objetivos.
Através de sua análise, é fácil chegar à conclusão da grandeza da obra
realizada pelo Império.

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6.1. O PODER "MODERADOR" MILITAR rências formais. Inaugurava-se o império da lei complacente. Horizontes nunca
ousados escancararam-se para todos os interesses duvidosos. O novo regime,
É conhecida a frase de Dom Pedro I I : "Eu jurei a Constituição. Mas seu federalismo copiado, os direitos individuais, tudo se fadava ao duvidoso.
mesmo que não tivesse jurado, ela seria a minha segunda religião." Pouca "res publica", pouca democracia, pouca certeza, pouca igualdade, pouca
A eficácia e a efetividade das leis dependem fundamentalmente da sua seriedade. A sucessão de Deodoro, com Floriano assumindo definitivamente
aceitação pelos destinatários; essa aceitação, por sua vez. está condicionada apesar de cumpridos menos de dois anos do mandato presidencial, apesar da
ao grau de credibilidade que possam infundir ao bom senso desses destina- letra da Constituição, confirmá-lo-ia. Aliás, Deodoro já pusera o Congresso
tários. O artigo 14 da primeira Constituição republicana dispunha que "a em "férias"...
força armada é essencialmente obediente, dentro dos limites da lei, aos seus Se o Poder Moderador exercido pelo Imperador era limitado, porque
superiores hierárquicos e obrigada a sustentar as instituições constitucio- poder de Direito, estabelecido numa Constituição que o fazia imparcial e
nais". Tal disposição, além da linguagem ambígua, soou imediatamente como equidistante, o do restabelecimento militar não tinha limites, porque poder
falaz, pela evidência muito simples de que essa força "essencialmente obe- de fato, exercido à margem e acima da léi.
diente" e "obrigada a sustentar as instituições constitucionais" era a mesma
O artigo 14, da Constituição republicana de 1891, encontrou corres-
que depusera o Imperador e derrubara as instituições, movida exclusivamente pondência em todos os textos constitucionais que se seguiram àquela Carta;
pelo desejo de desobediência, de não ter mais a quem obedecer. Além disso, a antinomia entre ele e a realidade fática do início da República persistiu
não se percebia qualquer diferença entre derrubar o Imperador ou derrubar entre todos os dispositivos constitucionais que lhe fizeram as vezes, e as
um presidente, revogar a Constituição de 1824 ou a própria que dizia tais respectivas realidades fáticas de nossa vida política, até hoje: jamais, desde
coisas. Nem era possível dar crédito ao argumento de que tudo aquilo ocorrera então, o estabelecimento militar deixou de dispor, velada ou ostensivamente,
antes, mas só antes, só para instaurar a República: qualquer pessoa de mediana sobre as grandes, e com freqiiência também sobre as pequenas diretrizes da
inteligência sabia que a força armada, desobediente sempre que lhe aprouvesse, vida nacional.
estava ali, no mesmo lugar, com o mesmo poder e as mesmas concepções.
Classista, corporativista, autoritarista, hegemónica. Em consequência, os cons- Ostensivamente, primeiro foi a investidura efetiva de Floriano sob a
tituintes que haviam escrito um tal artigo só podiam tê-lo feito sob permissão égide do estabelecimento militar hegemonizado; aliás, mais tarde, o espetáculo
da própria força armada, que assim como desconfirmara a Constituição de deprimente da posse de Prudente de Morais — obrigado a tomar um "cabriolé"
24 e exilara o Imperador, podia fazer o mesmo com qualquer outro texto ou de aluguel para ir ao palácio, porque nem condução oficial Floriano provi-
autoridade. Ninguém deixava de sentir que o poder de conceder é o mesmo denciou para a investidura do sucessor — confirmaria a medida do desprezo
poder de retirar, enquanto se conserva com o mesmo teor; a imposição pura e do inconformismo militar face ao poder civil. Evidenciando, também, a
e simples da cláusula "pétrea" ao Congresso Constituinte, pelo "Governo do participação desse espírito no golpe de 1889.
Exército e Armada", não deixava margem a dúvidas. Depois, foram a revolução de 1930 e a instauração do Estado Novo,
em 1937, ambas sob sua égide. Depois, foi a deposição do próprio Vargas,
Como a moral, uma lei de tal amplitude e respeito não pode admitir em 1945, e a momentânea aliança do estabelecimento com o corporativismo
meio-termo. Menos, ainda, podê-lo-ia numa época em que a boa-fé das pessoas sindical de então, para eleger o ministro da Guerra. Pouco mais tarde, re-
e os princípios eram em geral sérios; e, sobretudo, numa sociedade que se conduzindo Vargas ao poder pelo voto, foi o estabelecimento quem o obrigou
habituara a ver respeitada e cumprida uma Constituição, como o fora a de a afastar João Goulart do Ministério do Trabalho, no episódio do "memorial
1824. Se havia na nova Carta uma disposição que não era para valer, mas dos coronéis" (1953). Em seguida, pelo exercício, mais uma vez, desse poder
só para constar, tal como o seu artigo 14, então tudo nela poderia ser só para tutelar exercido à margem e acima da lei, Vargas foi levado a se "licenciar",
constar, dependendo das circunstâncias e das pessoas interessadas; a partir poucas horas antes de se matar (1954). Um ano depois, a "novembrada"
mesmo, como pressuposto, do seu princípio de igualdade, já que havia tantos depunha o presidente em exercício. Carlos Luz, e o presidente efetivo, Café
que podiam deixar de cumpri-la, e desconfirmá-la, como havia sido feito Fiiho (1955). O presidente Juscelino Kubitschek foi obrigado a proclamar
com a anterior, sem qualquer punição possível. O bom senso das pessoas, que o seu governo se apoiava num "tripé" formado pelo ministro de Guerra
desde o homem da rua até os mais recônditos sertões, Ieyou-as a ter a certeza (Teixeira Lott), pelo comandante da Zona Militar de Leste (Odílio Denys) e
da falácia, que as lideranças estavam cansadas de conhecer; e passaram a no comandante do I o Exército.
agir de acordo com ela. falaciosamente.
Em 1961, renunciando Jânio Quadros, o estabelecimento por pouco
A letra da Carta revelava-se meramente formal, por nascença, na acei- não conseguiu impedir a posse do vice-presidente João Goulart: houve a
tação dos destinatários; tudo poderia ser permitido, desde que salvas as apa- dissensão do comandante do 3 o Exército, Machado Lopes. Mas, em 1964, o

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taurado o novo regime, iniciou-se uma manipulação generalizada de ações
estabelecimento depôs João Goulart. Menos de dois anos depois, quando o nas bolsas brasileiras, com atribuição de valores fictícios a empresas fantas-
marechal Castelo Branco quis realizar as eleições que a Constituição previa, mas, criadas só no papel, com a finalidade de especulação imobiliária; para
foi encostado à parede pelo próprio estabelecimento, de que era representante: financiar tudo isso, colossais emissões de papel-moeda foram feitas. O re-
teve que cancelar as eleições, dissolver os partidos, implantar a eleição indireta. sultado foi o famoso "encilhamento", uma verdadeira chuva de falências, e
Três anos decorridos, ensaiando Costa e Silva o mesmo projeto do antecessor, de prejuízos públicos e particulares. Era o abandono da honra pessoal como
foi por sua vez encostado à parede: teve que baixar o AI-5, fechar o Congresso, valor social: o escancarar da deterioração da sociedade.
e anuir na repressão que se iniciava; acabou com trombose cerebral, e foi Vale lembrar mais um trecho do famoso discurso de Rui ao Senado,
substituído pela Junta dos seus ministros militares, declarado impedido o em dezembro de 1914:
vice-presidente civil, Pedro Aleixo. Depois, seguiram-se Médici, Geisel e
Figueiredo. Esgotado o impacto desse ciclo, o estabelecimento fez uma pausa;
"E, nessa destruição geral das nossas instituições, a maior de
apesar disso, o ministro do Exército pôde pressionar a Constituinte, em 1987 todas as ruínas, Senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação
e 1988, contribuindo para a rejeição do parlamentarismo. Relembre-se que, dos homens públicos, pelo interesse dos nossos partidos, pela influência
durante todo o ciclo de 1964, o estabelecimento vestiu a roupagem de ver- constante dos nossos Governos. E nesse esboroamento da justiça, a
dadeiro partido político — armado — ocupando quase todos os postos de mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade aos. criminosos
importância da Administração civil; e, não ficou imune, muito ao contrário, confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolva
aos escândalos, negociatas e falcatruas a cuja extirpação da vida nacional um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem, mas que
dissera ter vindo, no início da revolução. ninguém tem coragem de apontá-lo à opinião pública, de modo que a
Não se pode perder de vista, no entanto, que se o mau passo dado em justiça possa exercer a sua ação saneadora e benfazeja."
1889 causou tudo o que se relatou, o estabelecimento militar acabou assumindo
e arcando com as consequências daquele erro. Aliás, muitas de suas inter- 6.3. O DESCRÉDITO E A CLASSE POLÍTICA
venções ostensivas ou disfarçadas não tiveram outro móvel — certa ou errada
a sua ótica — senão o exercício do poder de moderação, já que à falta de A classe política vive em permanente sintonia com o povo, do qual
outro, e mais precisamente, do verdadeiro. Ao longo desse século de ano- ela própria é oriunda. Não uma sintonia sã, sincera; mas sintonia para saber
malias, e sobretudo hoje, à vista da deterioração geral, não existe no País como agir em relação ao povo, isto é. saber como melhor tirar proveito do
outro manancial de civismo maior do que as Forças Armadas. E até mesmo que se passa na cabeça do povo. Porque o descrédito em relação à sinceridade
possível afirmar, sem incorrer em exagero, que o seu papel mais sensível já e efetividade da lei e da organização nacional fez a classe política — todas
não é o militar propriamente dito, mas o cívico-social e estratégico-político. as suas sucessivas gerações — a intuir que pode e deve tirar proveito, im-
punemente, de todos os cargos públicos. Oliveiros S. Ferreira detalhou isso,
6.2. O DESCRÉDITO em audiência ao Senado Federal, publicada sob o título A teoria da coisa
nossa, edições GRD, São Paulo. E o restabelecimento do conceito de lucro
Os sucessos — ou fracassos — da vida brasileira, causados pelo esta- pessoal com o exercício da autoridade pública, semeado ao tempo das capi-
belecimento militar caudilhizado e logo hegemonizado, desde o golpe contra tanias, que o Império tentou neutralizar para construir uma Nação.
o gabinete do visconde Ouro Preto, que acabou se transformando em golpe A classe política e os sucessivos governos dela oriundos agem conforme
contra a Monarquia, acabaram com a credibilidade da autoridade pública. A o conhecido procedimento do teste de Pavlov com o cachorro.
partir da constatação de que o poder não seria mais o da autoridade legítima
Esse cientista isolou um cachorro em um recinto e, em determinados
e da lei, a certeza de que essa lei passara a ser apenas formal, de fachada
horários, batia uma sineta e dava-lhe comida. Em outros horários, fazia um
— importando apenas o poder — abriram as portas àqueles horizontes nunca
sinal diferente, e dava-lhe uma surra. Bastou pouco tempo para que o animal
antes ousados, a tudo quanto se pudesse fraudar, burlar. Tudo passou a ser ficasse de pé com a sineta, esperando pela comida, e se encolhesse ao outro
permitido, e considerado com naturalidade; fisiologismo e pragmatismo, que sinal, sabendo que ia levar uma sova. Depois que o cachorro acostumou-se
nada têm em comum, passaram a ser sinónimos; tão consensual e indiscuti- aos horários e sinais diferentes, Pavlov trocou-os: a sineta significava a surra
velmente, como, por exemplo, Getúlio era o "pai dos pobres", etc. e o outro sinal a comida. O animal estranhou, mas acostumou-se dentro de
Relembre-se que, sugestivamente, em apenas 45 dias de República a um certo tempo: encolhia-se ao sinal da sineta e levantava-se ao outro. O
inflação pulou de 1.58% para 11% ao ano (30.12.1889); e no primeiro ani- cientista repetia a troca a cada nova acomodação do cachorro. Para abreviar:
versário (15.11.1890) já estava em 40% ao ano! Aliás, pouco depois de ins-
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o resultado final foi a completa aniquilação das reações, pois o pobre bicho sores da República e do presidencialismo, no plebiscito de 1993. E, nem
não sabia mais o que vinha em seguida a um sinal ou outro. poderia ser diferente.
É o que fazem a classe política e os governos. Digamos que o governo Vale lembrar, aqui, a mágoa e a frustração de Rui Barbosa, no fim de
queira tomar uma medida, e tenha medo da reação popular: aplica o processo sua vida, ao dizer:
mencionado. Os jornais estampam: "Vem aí uma reforma". Depois, no outro
dia: "Fulano declara que a reforma não virá". Em seguida: "Congresso declara "O mal grandíssimo e irremediável das instituições republicanas
que a reforma é necessária". Depois, debates na TV, com políticos discutindo consiste em deixar exposto à ilimitada concorrência das ambições me-
o assunto, sem chegar a um resultado. Não se fala no caso por uns dias nos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar a
(período de acomodação), e depois é repetido o processo de vai-e-vem da ser ocupado, em regra, pela mediocridade."
reforma.
O povo fica reduzido a um não-agente, mero paciente dos aconteci- Antes, sua desilusão já o levara a dizer:
mentos. Perdido, não vê lógica, não vê consequências. Acha seu raciocínio
inútil, pois vê tudo desabar, depois algo se salvar, e logo um novo desaba- "Na Monarquia havia vozes... Mas nossa República estabeleceu
mento. Fica como o cachorro da experiência de Pavlov: sem reação. Então, o silêncio... Com o governo parlamentar, as Câmaras Legislativas cons-
os dirigentes da política fazem o que querem e não o que o povo quer, pois tituem uma escola. Com o presidencialismo, uma praça de negócios."
ele não reage.
O povo não reage porque, depois de ver sucederem-se cansativamente 6.4. A PERDA DA IDENTIDADE
os mesmos atores, ou pelo menos atores vestidos com as mesmas roupagens,
representando os mesmos papéis, afetando as mesmas atitudes, repetindo as As consequências de tudo quanto se tratou nos tópicos precedentes são
mesmas mensagens e formulando as mesmas promessas, esse povo cansado facilmente detectáveis no comportamento do brasileiro.
e descrente, farto da trágica palhaçada que o empobrece, impotente diante Autorizado pela Câmara dos Deputados o processo político contra o
da prova das incapacidades e das improvisações que o aviltam, chega quase presidente Collor, Itamar Franco assumiu interinamente a presidência. De
a dormir, de tão anestesiado que fica. Não aplaude, não vaia, tornou-se in- início, como sempre, houve um consenso geral de boa vontade em relação
diferente, insensível: vive da mesma maneira com que um sonâmbulo caminha a ele, e ao seu governo. Em poucos dias, porém, a sociedade impacientou-se:
pela casa, à noite. acostumada aos passes de mágica dos governantes republicanos, nada via de
espetaculoso nas suas atitudes... Depois, Collor renunciou — assim mesmo
Quanto mais o povo se encolhe, se aliena, quanto mais deixa ficar
foi condenado pelo Senado, apesar de já não ser mais presidente — e Itamar
brutalizado o seu espírito coletivo, mais se aproveitam os Pavlovs da baixa
assumiu em caráter efetivo. Seja por despreparo, embora a razão de ser de
política. Esse círculo vicioso tem sua expressão concreta na "instituição na-
um vice-presidente seja estar sempre preparado, seja por mineira cautela, o
cional" da propina — a "bola" — e das comissões, sobrepreços, superfatu-
fato é que o novo chefe do Poder Executivo não acelerou o seu ritmo. Então,
ramento, recibos falsos, e na prática de escolher antecipadamente o vencedor os reclamos recrudesceram, e a imprensa passou a associá-lo à imagem de
de uma "licitação" pública. Permite que alguém, de família pobre, e cuja uma tartaruga.
única atividade por toda a vida resumiu-se ao exercício de cargos públicos
— cujos vencimentos são conhecidos, e em geral modestos — tenha antes Depois de um século de autoritarismo, pacotes, frustrações, ciclos in-
dos cinquenta anos uma fortuna estimada em centenas de milhões de dólares, termináveis de incapacidade face ao interesse público; e, da inviabilidade em
conciliar o interesse público com os interesses particulares dos que estão
emissoras de rádio e televisão, jornais e agências de propaganda, tornando-se
no poder, mostrando a própria inviabilidade do sistema, os brasileiros se
um dos homens mais poderosos do País; a ponto de depor um presidente da
acostumaram à subdesenvolvida e caudilhesca idéia de que governar é falar
República, eleger presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal,
grosso, intervir, ser autoritário. Todos querem e esperam que o governo in-
receber atestado de idoneidade de uma CPI que não tinha como absolvê-lo tervenha, não importa no que, para mostrar que é governo. E preciso que
da acusação de peculato e de enriquecimento ilícito, e ainda aspirar à Pre- regulamente. Disponha. Todos esperam ser mandados. Obrigados. O brasileiro
sidência da República! parece ter se habituado a levar a surra nossa de todos os dias, e ainda pedir
Enfim, seria impossível enumerar todas essas "possibilidades" do regime desculpas porque está de costas. Acostumou-se: quer o Estado mandando até
republicano brasileiro, nas breves páginas deste livro. Todos os que se en- dentro de sua casa. Porque assim, em contrapartida, pode esperar que o Estado
contram nas situações acima descritas, naturalmente, foram ferrenhos defen- faça tudo. Pode-se, até, exigir que o faça.

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Se o Estado fizer tudo, ninguém precisará fazer nada: ele será o único parcial com a sua ditadura: o elemento positivo consistiu na figura humana
responsável. Se o negócio vai mal, se o filho não estuda, se o parceiro trai, e permanente; o negativo, no excessivo poder de coerção direta. Dom João
a culpa também é sempre do Estado! Então, é frouxo quem não fala grosso, V I , o rei, tinha esse poder, mas muito pouco o usava; os imperadores Dom
não imposta a voz, não intervém, não impõe. Como esperar tudo de um Pedro I e Dom Pedro I I , quase não o tinham: seu poder de coerção era
governo que não intervém? Como jogar a culpa no Estado? indireto, mediato. Além disso, todos encarnavam o referencial humano e per-
manente, expressavam muito mais a "auctoritas" do que a "potestas".
Nenhum povo, aparentemente, é mais vocacionado para a frustração.
E, para a incoerência: se a autoridade é amena, precisava ser mais forte; mas, A República trouxe exatamente o contrário: falta de referencial perma-
quando é forte, é rejeitada. Rejeitar, contestar, reclamar, parece ser uma ne- nente, que causou o vazio do "etos" nacional, graças à interinidade e provi-
cessidade do nosso inconsciente coletivo. Tudo mostra, nesse quadro, aquilo soriedade que lhe são intrínsecas; e excesso de poder direto de coerção.
que os psicólogos chamam de "crise existencial"; no caso, crise existencial Em notável artigo sobre a atitude dos índios americanos em relação à
nacional. conquista espanhola, Hector Hernán Bruit ("Derrota e simulação: os índios
A verdade, no entanto, não é essa. A aparente vocação para a frustração, e a conquista da América", in D.O.Leitura, São Paulo, 11.10.92) nos deixa
e o determinismo para a derrota, não são o natural do organismo brasileiro, excelente análise de como um povo muda as suas características e o seu
mas somente uma espécie de doença adquirida. Essa doença psicológica, um comportamento, como forma inconsciente de resistir ao que abomina, para
flagrante complexo de inferioridade que produz o permanente desacorçoa- não deixar que um execrável novo estado de coisas penetre a sua mente, e
mento, tem sua causa na falta de identidade nacional: esta só começou a a partir daí o domine. Dominados fisicamente, os índios do Novo Mundo
mostrar resultados após a Segunda Guerra Mundial, mas teve o seu ponto fecharam-se numa série de comportamentos — como se buscassem refúgio
de partida, começou a medrar, no momento em que retiraram ao Povo o numa redoma — para impedir que sua estrutura interna pudesse ser ocupada
"etos" nacional. Isto é, precisamente, quando da proclamação da República, pelos invasores, como o haviam sido o seu espaço físico e a sua existência
que retirou aos brasileiros o referencial permanente do chefe de família na- exterior. Na falta de outra, era sua única fórmula para corroer os alicerces
cional, personificado pelo Imperador. da nova sociedade, para eles estranha, repulsiva e artificial, contrária à sua
sociedade natural.
A perda do referencial totêmico descaracterizou o sentimento de "Na-
ção", causando o vazio; cujos resultados são a frustração e o determinismo Como observa o autor citado, "a nova sociedade nascia 'melada' pela
para a inocuidade da existência, isto é, para o constante "estado de derrota". atitude da esmagadora maioria, militarmente vencida mas não conquistada
A República, em suma, veio dizer que não existia mais família nacional, espiritualmente ".
nem família imperial tradicional, cuja vida servisse de modelo para essa família A análise do comportamento dos brasileiros, em face da perda de sua
nacional; veio dizer, portanto, que ficavam rejeitados e eram condenados identidade nacional pelo golpe que impôs a República, de um lado, e em
todos os valores que garantiam o que sempre existira, e a partir de então face de sua massificação pelas falácias republicanas transformadas em dogmas,
seria cada um por si: quem pudesse mais, choraria menos, embora direta ou de outro lado, é bastante complexa; mas não é difícil de ser concluído, sua
indiretamente todos tivessem que chorar. atitude assemelha-se bastante à atitude e ao comportamento dos índios diante
A quem pode menos, no entanto, de pouco ou de nada adianta chorar. da conquista espanhola, e da sociedade por esta criada.
O remédio passou a ser contestar, contestar tudo, contestar sempre, ainda Os índios resistiram o quanto puderam, até serem semi-crucificados
que sem saber exatamente porque. Até as camadas ditas intelecuais se con- militarmente; depois, passaram àquelas atitudes e comportamentos. Aqui, tam-
dicionaram, e não conseguem pensar diversamente. bém, os pernambucanos, os baianos, o barão de Cerro Azul, o barão de
O remédio, hoje, é contestar. Contestar Figueiredo, Sarney, Collor. Ita- Batovi, o almirante Saldanha da Gama, e tantos outros, resistiram até serem
mar? Sim, porque não, ou a qualquer outro? Contestar a falta de identidade, tocaiados, passados a fio de espada, metralhados pelos navios norte-ameri-
a falta de solidariedade, a falta do respeito e da confiança. Num regime sob canos chamados por Floriano Peixoto, exilados, torturados. Depois, — ce-
o qual quem pode mais, chora menos, só é possível haver desrespeito e dendo, embora, à massificação dos mitos republicanos, tal como os índios
desconfiança recíprocos. Contestar, enfim, o que foi tirado há 103 anos, dei- faziam de conta que brigavam pela liturgia e pelos santos católicos —, o
xando o povo perdido no meio da estrada. Sem referencial confiável, sem povo brasileiro, tornado órfão de nacionalidade e de identidade, optou por
motivação. Órfão de nacionalidade. meios semelhantes: o seu inconsciente recusando aderir à República, de certa
O brasileiro, pela sua formação, precisa de um referencial nacional; forma estava reafirmando a identidade que essa república destruíra, Embre-
humano e permanente. Tanto quanto possível, porém, dotado de pouco poder nhou-se, então, pelo caminho do "informal", da sonegação, do contravencio-
de coerção direta. Não foi por outro motivo que Vargas só conseguiu sucesso nal, e do natural. De tudo. em suma, que fosse proibido oficialmente. Con-

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seguiu, de certa maneira, conservar sua identidade; pelo menos, no deixar risiona; se o Rio Grande fosse um país da Europa, e não um Estado
de acatar as leis das autoridades republicanas, o que tornou-se uma tradição. derado brasileiro, as riquezas produzidas não sofreriam tamanha vazão;
Exceto, naturalmente, quando ingressasse no contexto a coação direta, a amea- riquezas do Rio Grande se perdem nos descaminhos dessa federação falida;
ça de força bruta. Foi o que os brasileiros passaram a fazer e fazem até hoje: ufruir das próprias riquezas produzidas é direito de qualquer povo e qual-
a sonegação superando a arrecadação, a economia informal superando a oficial, 'faer cidadão.
os reis continuando presentes no ideário popular (rei Pelé; Roberto Carlos, % Entretanto, não é só nos estados do Sul que o separatismo grassa. Con-
o rei; rei do baião, Luiz Gonzaga, etc.). Foi da necessidade de furtar-se ao iforme reportagem publicada pelo O Estado de São Paulo (edição de 22.3.93,
cumprimento da lei que nasceu o propalado "jeitinho brasileiro", que antes i * Caderno), o nordestino não tem dúvida de que a causa do atraso e da
não existia. piiséria do Nordeste é a federação brasileira. Entrevistado nessa ocasião, o
A verdade, que ameaça tornar-se funesta, é que não há adesão afetiva ^prefeito de Solidão disse que o separatismo é uma realidade na sua região
para com o regime republicano: ele é uma imposição legal, no Brasil. E Í"Não se ouve outra coisa por aqui"). Ainda nessa oportunidade, vários outros
isso, além de ter acabado com a identidade nacional e com o patriotismo, ¡Entrevistados disseram ao repórter que "a melhor coisa para o Nordeste seria
acabou também com o orgulho cívico, e com o conceito de honra pessoal. <|e separar do Brasil".
Todos esses valores, se invocados hoje, soam ao brasileiro como algo inócuo, Em 1987, a revista Veja já publicara um longo artigo do vereador
até mesmo "careta", para usar a gíria da juventude; o brasileiro não consegue 'Marcelo Pessoa, do Recife ("Vamos nos separar do Brasil", edição de
alcançar o seu significado, nem tem como assimilá-lo. Perdido no cipoal da 16.12.87), no qual, entre outras coisas, diz o autor: "Quem conhece a fundo
corrupção, do autoritarismo, das fraudes, da impunidade, e da ilegitimidade (O Nordeste sabe que a região não é pobre porque quer. Ou que boa parte
dos votos conseguidos a poder de dinheiro ou de lavagens cerebrais, ataran- •ao seu povo não é ignorante por opção. O aguerrido nordestino, que suporta
tado, procura no seu inconsciente aquela identidade perdida; mas a realidade m desgraça com dignidade, vive em estado de penúria porque a área desen-
do que vive desautoriza e desconfirma a prestança e a própria existência volvida do Brasil, ao Sul da Bahia, assim determinou."
daqueles valores. I Em 1991, analisando uma pesquisa de opinião feita por um instituto
(paranaense, o jornalista Ricardo A. Setti afirmou: "Não se tratou de amos-
6.5. AS IDÉ1AS DE SEPARAÇÃO tragem reduzida. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, em graus ou formas
'diferentes, a semente de separação está instalada nos corações e mentes dos
Consequência direta e incontornável da perda da identidade nacional, brasileiros" (O Estado de São Paulo. 12.12.91).
são as idéias de secessão, o separatismo. Nem há necessidade de maiores fe, Todas essas manifestações contêm verdades irretorquíveis. Por ora, os
indagações a respeito desse outro resultado do regime republicano. Basta 'Movimentos são ainda pequenos, embora não tão pequenos quanto a grande
lembrar que, efetivamente, existem movimentos separatistas — e não apenas 'Mídia — orientada pelo governo — procura fazer crer, mas, são organizados,
folclóricos — nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, 'ííada autoriza afastar a hipótese de que venham a crescer; pelo contrário,
sendo de registrar que na Assembléia Constituinte do Rio Grande do Sul ¡iludo aponta nessa direção, se o quadro nacional não mudar,
(1989) alguns deputados apoiaram a proposta de secessão. Nesse Estado, í E, a propósito, por que tudo isso? Por qual razão pessoas que há quinze
aliás, há dois movimentos: o de Santa Cruz do Sul ("República do Pampa Enos atrás afirmavam-se inquestionavelmente brasileiras, hoje têm vergonha
Gaúcho"), com comités funcionando em quarenta cidades — inclusive de £è o serem? E, mais, pra que sentem revolta por isso? Simplesmente, porque
Santa Catarina — livros publicados, boletins periódicos de ponderável cir- I deterioração moral progressiva da política republicana atingiu um patamar
culação, além de arrecadação de fundos; e o de Porto Alegre ("Partido da tal que liquidou com qualquer reserva de esperança, e consequentemente com
República Farroupilha"). Observe-se, a propósito, que os adesivos separatistas ò vínculo nacional dos brasileiros. Ou seja, a política extinguiu a família
já são encontrados em grande escala nos vidros dos automóveis, restaurantes, tíacional, deixando as pessoas preocupadas exclusivamente com suas viabi-
etc.; incluem um mapa do Rio Grande, Santa Catarina e Paraná, com o lema lidades económicas. De tal modo que é possível encontrar absurdos aplausos
'O Sul é o meu país!'. ao separatismo^?), e argumentos contra um pretendido "anómalo gigantismo
Seria de todo o interesse — se a classe política fosse sincera e respon- 'territorial" ("A importância do separatismo no Brasil", in O Estado de São
sável — meditar sobre algumas das colocações do manifesto de lançamento Paulo, Caderno Empresas, 13.1.93). Incapazes, os que assim pensam, de re-
do "Partido da República Farroupilha": O Brasil não deu certo, e a federação fletir que o nosso tamanho, precisamente, é um dos maiores trunfos da via-
é a culpada por esse equívoco histórico e político; todas as regiões do Brasil bilidade do país para o terceiro milénio — os pequenos estão tratando de se
possuem condições de prosperidade, o entrave está na Federação que as unir em grandes corporações supranacionais — e, que o problema nao e o

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tamanho do território, mas a amoralidade do organismo republicano, junto
com a sua artificial e injusta estrutura federativa. llntrodução a este livro: querem trocar de país. E, já se viu que o problema \
Reduzidos à ótica extrema da sobrevivência pessoal, e já sem qualquer Ihão é do País, mas da desintegração dos valores morais, causada pelo meio
possibilidade de compreensão do que seja nacionalidade e família nacional, ¡¡ambiente político do regime republicano.
mas sobretudo condicionados aos limites de raciocínio que lhes foram im- |¡ Na verdade, porém, consequências como o desacorçoamento, que faz
postos pelo "marketing" republicano, os que assim pensam concordam antes Isurgir o desejo de "trocar" de país, e com ele as idéias separatistas, sempre
em acabar com o País, do que em acabar com o regime republicano! Para f o r a m previsíveis; porque, simplesmente, a República não tem e nunca teve
eles, é preferível desfazer o País em pedaços, do que terem a ombridade m que oferecer. Os seus únicos pontos de sustentação, o autoritarismo semi-
intelectual de desfazer o mito republicano, e manter o País íntegro!* fditatorial, o cultivo da ignorância e a disseminação de mito, estão ineluta-
Chegam ao ponto de não poder refletir, sequer, que os próprios Estados velmente com os dias contados. Ela já provou — exaustivamente — não
Unidos, a Rússia, ou o Canadá têm território bem maior do que o nosso, funcionar entre nós; nem com a ditadura civil ou militar, nem com a demo-
desigualdades raciais, diferenças linguísticas e culturais também maiores do cracia: logo, ela se exclui como alternativa concretamente experimentada.
que as nossas, e no entanto são e sempre foram viáveis. Seria preciso alargar Ifal como a planta parasita, que suga a outra até esgotar-lhe as forças e
o universo mental dos que defendem essas teorias; mas, como já visto, é piatá-1a, e em seguida morre por falta de alimento, a classe política criada
precisamente destas que retiram sua razão de ser, os espaços que ocupam, e p o meio-ambiente republicano está prestes a exaurir toda a seiva do nosso
as bases de sua busca de poder e de prestígio junto aos incultos e aos inte- povo. E, não somente a seiva material, mas sobretudo a seiva moral e pa-
lectualoidizados. Festejadas pela mediocridade dos meios nos quais pontifi- Étriótica, a seiva nacional. Será preciso que essa parasita não morra por falta
cam, são incapazes de raciocinar que a questão não reside no tamanho de
fite mais seiva a sugar, mas por ter sido ainda em tempo hábil arrancada ao
um país, mas em que as estruturas constitucionais daqueles outros grandes
fttonco que vem matando. No entanto, cumpre relembrar, o condicionamento
países correspondem plenamente às suas estruturas antropológicas e socioló-
: cultural é de tal ordem que o raciocínio de um grande número de pessoas
gicas, e às suas consequentes realidades regionais; enquanto que as nossas,
íjcontinua considerando mais "lógico" acabar com o país, do que acabar com
simplesmente, não correspondem.
•a República!...
Foi esse estado de coisas a que nos abriram caminho os — maus — Nada do que temos vivido e estamos vivendo, inclusive o aparecimento
visionários do positivismo, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Silva % e idéias separatistas, corresponde a uma circunstância ou a uma determinante
Jardim, Quintino Bocaiúva, e mais os caronistas da República, os republicanos
!/histórica; mas, somente ao labor impatriótico de alguns, à estreiteza de vistas
de segunda e terceira hora, Rui Barbosa, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto
I de outros, e à conseqiiente necessidade de copiar o que ocorre no estrangeiro,
e outros. Os "patriotas ininteligentes" a que se referiu Monteiro Lobato. Des-
isto é, de aderir ao que está "na onda". Muitos não conseguem, sequer, indagar
providos da envergadura de estadista, e por isso impossibilitados de enxergar
Se tudo isso não é causado pela inadequação do regime republicano ao nosso
longe e claramente; e como tal, limitados à simples imitação do que estava
tneio-ambiente autêntico, sociológico, histórico e cultural.
na moda, os Estados Unidos.
É verdade, porém, que um número cada vez maior de brasileiros está
De qualquer maneira, é importante que se medite: as idéias separatistas, tomando conhecimento de que é preciso ter coragem para assumir publica-
muito mais do que a vontade de não ser brasileiro, traduzem o desacorçoa- mente o rompimento com o mito republicano, e afirmar para quem queira
mento com a vida nacional, diante da constatada e inevitável deterioração ouvir que, para ter sucesso, a forma de Estado em qualquer país tem neces-
de tudo, a cada novo mandato presidencial. Prova disso é que há muita gente
sariamente que corresponder à estrutura da sua sociedade; e que nenhum
com saudades de Fernando Collor; durante o seu governo, havia muita gente
povo pode encontrar o bem comum com base em teorias académicas e lindas,
com saudade de Sarney; no deste, a saudade era de Figueiredo; com este,
mas singularmente utópicas diante das realidades nacionais. Essas já inume-
saudade de Geisel. E assim, sucessivamente. Ou seja, os que desejam a se-
ráveis cabeças pensantes estão constatando que a única possibilidade de sal-
cessão e a criação de novos "países" com parcelas do território e do povo
vação do País é a retomada imediata dos valores nacionais históricos que
brasileiros, na verdade estão querendo apenas aquilo de que já se falou na
foram retirados aos brasileiros; em suma, em número sempre crescente estão
verificando que só o retorno ao caminho natural do Brasil, com o seu regime
autêntico, permitirá esse desafio de salvação e recuperação. E, desse número
crescente passar esta noção para a totalidade — pois a Nação brasileira está
* A propósito desse condicionamento a limites, de pensamentos impostos pelo "marketing"
doente, mas ainda não está morta, e tem recuperação — parece ser uma
republicano, veja-se o esforço de Hélio Jaguaribe (Problemas na República. 1993) para procurar questão de tempo, cuja contagem regressiva terá sido deflagrada pela cam-
demonstrar que os problemas não o seriam da República, mas na República. panha do plebiscito. Independentemente de cláusulas pétreas, e daquele pró-
prio plebiscito, o resto poderá vir por si.
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Temos vivido, todos, condicionados: social, cultural e intelectivamente. interesse particular dos eventuais detentores de cargos públicos. A rigor, esta
Limitados e até certo ponto amedrontados pelos mitos do falso "progressismo", é uma inviabilidade de natureza circunstancial: o mundo inteiro — e não
e de um sem-número de chavões cuja veracidade poucos se atreviam, até somente o nosso País — parece passar por uma crise de crença nos valores
recentemente, a verificar, e muito menos a contrariar. A forma republicana morais, mais exatamente uma crise marcada pela contestação dos valores
de Estado é um desses chavões, repetidos aprioristicamente. E, no entanto, morais.
ela já provou que, no Brasil, é oposto da democracia; e não sinónimo de Se essa crise é geral, mais claramente se manifesta nos países que
democracia. Aliás, há que distinguir a essência da forma: a essência demo- trocaram por repúblicas as suas monarquias originárias; exemplos disso são,
crática é uma só, a manutenção de estruturas que permitam aos membros de entre outros, a França e a Itália. Ou, ainda, em países que mantiveram suas
uma sociedade o seu pleno desenvolvimento em todos os campos, acautelados monarquias originárias, mas retiraram-lhes os poderes de correição moral ou
os exageros da absolutização de conceitos, e tendo em vista a necessária positiva aos demais poderes da soberania, isto é, o Legislativo, o Executivo
preexistência da liberdade; a forma, no entanto, há de ser naturalmente ade- e o Judiciário; exemplos disso, no-los dão o Japão e a Suécia. Estes dois,
quada à maneira de ser de cada sociedade, sem submissão à ditadura das aliás, são gritantes. O Japão é uma das três primeiras economias do mundo;
utopias, que sempre apresentam como resultado o oposto do que pregam, ou e, no entanto, desde quando a Constituição de 1946 retirou ao Imperador o
alegadamente pretendem. poder moral de correição positiva, vem primando pela corrupção pública e
O baixo nível de instrução e o correspondente elevado grau de incultura governamental, o que antes inexistia. A Suécia enveredou pelo "Estado pre-
a que fomos reduzidos, obviamente, não poderia estar só no cidadão comum, videnciário", precisamente, depois que o parlamento de maioria socialista
o chamado homem do povo: a classe política não está em melhores condições; retirou os poderes ao rei; hoje, depois de 22 anos desse sistema marcado
aliás, proporcionalmente, parece estar em muito piores condições do que o pelo aparecimento das "greves gerais" — e, pelo elevado número de suicídios,
povo. E preciso ter em mente que a confusão rudimentar entre os fins e os cuja causa na falta de motivação pessoal ainda está por ser adequadamente
meios só poderia conduzir ao ponto em que nos encontramos: a classe política estudada — o Estado previdenciário ameaçou implodir, os socialistas foram
tem a política como um fim em si mesma, quando ela deve ser somente um alijados do poder, e todo o sistema político do país entrou em compasso de
meio para o bom governo; o povo passou a ter as eleições como um fim em velório.
si mesmas, quando elas são apenas um meio para escolher representantes;
coloca-se a democracia como caminho para a liberdade, quando a liberdade Observe-se que, quando se fala em Monarquia originária, ou em regime
é requisito "sine qua non" para que se consiga a democracia. Nessa semi-cloaca originário, isso diz respeito à espécie ou natureza do poder que impulsionou
cultural, os incultos sempre são muito mais numerosos do que as verdadeiras ou conduziu uma dada sociedade ao processo de afirmação e obtenção da
elites: hostilizam-nas, e à claridade das idéias que, no entanto, não conseguem sua soberania, mediante cujo exercício chegou essa sociedade à condição
alcançar; e fazem sentir o peso do seu obscurantismo através da simplificação de soberania; e, ainda, à forma de Estado com a qual ela se alçou a essa
e do radicalismo, estereotipando distorções de conceitos de acordo com suas condição, originariamente. Esse fator tem marcada atuação no contexto do
limitações culturais. São as grifes, tantas vezes citadas neste livro, que con- "etos" nacional, que fica estremecido ou desfigurado se a sociedade vem
denam ou consagram expressões ou imagens, de acordo com essas limitações depois a mudar a natureza do poder ou a forma de Estado com as quais
culturais. construiu sua soberania. Por essa razão, aliás, repúblicas originárias, como
os Estados Unidos e a Suíça, praticamente não sofrem com a crise de con-
Tudo isso é resultante do meio ambiente político em que temos vivido,
testação de valores morais; nem igualmente a Dinamarca, Noruega, Espanha,
e o separatismo nada mais é senão uma das manifestações da simplificação
Bélgica e outra monarquias originárias.
e do radicalismo a que se fez referência.
Se a profecia de Dom Bosco estiver certa, o Brasil não se fracionará, O caso do Brasil é mais complexo quanto aos fatores que nele influem;
e se projetará para o futuro como um clarão a iluminar o mundo ocidental. mas, ao mesmo tempo, é igualmente simples localizá-los. Se a crise de con-
Mas, certamente, isso não poderá ocorrer com base na estrutura política do testação e abandono dos valores morais é mundial, e se aqui desestabilizou-se
regime republicano. o "etos" nacional com a instauração da República, essa causa primária teve
outra consequência: o abandono da tentativa de construção de uma naciona-
lidade, e da correçâo dos vícios da origem do povoamento e da colonização,
6.6. A INVIABILIDADE INSTITUCIONAL
que vinham, uma e outra, sendo conseguidas pelo Império. Se os métodos
da política republicana só propiciam a corrupção de valores porque o pais
No tópico anterior, falou-se de uma das causas da inviabilidade insti-
ainda tem "etos" monárquico e não adere ao regime, a isso acrescentou-se
tucional republicana no Brasil, representada por uma impossibilidade flagrante
a cessação da correçâo dos vícios da origem social, em virtude da prática
e repetitivamente constatada, a de distinguir entre o interesse público e o
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142
teriais que bastassem para as consequências dessa inviabilidade, sobretudo a
(Jaqueles próprios métodos, aumentando o processo da corrupção de valores.
«anância, a cupidez, a concupiscência. E isto, simplesmente, por falta de
Assim, o regime republicano tornou-se uma espécie de círculo vicioso, no
poder do "etos" nacional e tradicional, objetivamente exteriorizado no Poder
qual logo passou a ser, ao mesmo tempo, causa e efeito da corrupção que o
inviabiliza. Pode-se dizer, até, que a inviabilidade republicana no Brasil é Moderador, e um Poder Moderador exercido por quem à parte da classe e
urna "circunstancia estrutural". da militância políticas. Ou seja, pelo monarca hereditário e apolítico. Sem o
qual, no Brasil, não haverá jamais solução para a nossa inviabilidade: sua
ausência representa o vazio totêmico. A esse respeito, magnífica e lucidamente
6.6.1. Ainda sobre a inviabilidade
expôs João de Scantimburgo na sua obra ultimamente citada.
Acima de tudo, como ja visto, a República resultou numa permanente
inviabilidade, em virtude de significar a extinção do poder totêmico tradi-
cional, ínsito ao inconsciente coletivo do povo; reduziu tudo ao elemento
contratual e racional, ao abolir o elemento psicológico e afetivo. A conse-
quência, como magnificamente apontado por João de Scantimburgo, foi que

"os responsáveis pelo golpe que derrubou o Império introduziram
nas instituições políticas de nosso país elemento desestabilizador, com
o qual não contavam. Suas consequências se fizeram manifestadas desde
logo, e, transcorridas nove décadas da proclamação da República, a
sua estabilidade é, antes, imposta, com predomínio do poder executivo,
do que naturalmente consentida" (O Poder Moderador, São Paulo,
1980).

Aliás, já na apresentação desse livro, o autor observara que

"Da crise de Deodoro à crise atual, todas as crises, esmaltadas
de características diferenciadas apenas em acidentes, são análogas.
Foram engendradas na mesma incubadeira, a que desprezou as nossas
tradições, e escolheu o modelo alienígena" (aut. e ob. cits.).

Enganam-se aqueles que, sinceramente, pensarem ser o problema ins-
titucional e social brasileiro uma questão económica, isto é, conseqiiência do
estado cronicamente caótico da nossa economia, ou das disparidades regionais:
tal pensamento nada mais traduz senão outro condicionamento intelectivo
dos tempos que correm, e desta vez à grife económica. Ao contrário do que
pregou Marx, e ainda presentemente têm como assente muitos dos denomi-
nados "economistas", a política não é um epifenómeno económico. Foi o
abalo do elemento "instituição", no fundo presente à concepção de Pico Della
Mirándola no seu De dignitate, dali se projetando no espírito da Renascença,
no Iluminismo, consumado na Revolução Francesa, e ampliado pela difusão
do marxismo, que abriu caminho a essa falsa concepção da razão económica
se sobrepondo à razão política, a razão material se sobrepondo à razão es-
piritual, a razão se sobrepondo aos valores morais.
E muito fácil perceber que, se por uma inesperada volta na roda da
fortuna o Brasil se tornasse a maior potência económica do globo, permane-
ceria desordenada e inviável nossa vida política; não havendo riquezas ma-

144
7 . Monarquia na atualidade

Antes de entrarmos no assunto, é necessário advertir o leitor brasileiro
para um outro aspecto do trabalho de desinformação que a nossa mídia realiza
todos os dias. Quando se fala em monarquia, a primeira imagem que aparece
na mente dos brasileiros é, precisamente, a da Monarquia britânica; no entanto,
esta quase nada tem a ver com a monarquia no restante do mundo ocidental,
nem com aquela que os monarquistas brasileiros pretendem. A Monarquia
inglesa é "sui generis", e existe exclusivamente na Inglaterra.
Por qual razão, então, os brasileiros pensam nela, quando ouvem falar
em monarquia? Simples: nossa mídia só noticia a Monarquia britânica. Seu
comportamento é este, porque a Monarquia britânica é a única no mundo
que mantém normalmente o aparato de um cerimonial colorido e brilhante,
que ajuda a vender notícias e espaços de propaganda comercial. Enquanto o
telespectador está preso ao vídeo, vê também os intervalos comerciais; o
mesmo ocorrendo com o leitor que folheia uma revista a cores. E, o que não
falta na Monarquia inglesa são cores. Aliás, na própria Inglaterra esse aparato
cerimonial é responsável por grande parte das receitas da mídia, e sobretudo
do turismo: são 350 milhões de dólares anuais, relembre-se, de turismo trazido
pelos atrativos da Monarquia, contra os 19 milhões de dólares anuais que o
país despende com a sua Família Real!
Um outro aspecto da Monarquia inglesa, que também alimenta a mídia,
é a tradicional irreverência dos membros da Família Real; por isso, inclusive,
existem dezenas de tablóides sensacionalistas na Inglaterra, ocupando-se ex-
clusivamente em noticiar o dia a dia dos membros da realeza. Sobretudo,
naqueles aspectos em que aparecem como quaisquer outras pessoas, com os
mesmos problemas de toda gente.

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A famosa irreverência tem seus marcos históricos. Por exemplo, no aquelas cerimónias; em outra passagem, assistindo em mangas de camisa ao
processo de divórcio movido pelo rei Jorge I V , no século passado, perante jogo da seleção espanhola de futebol; ou, a rainha Sofia chegando de charrete,
a Câmara dos Lordes, processo, aliás, que a rainha venceu. Ou, no compor- e a filha do casal chegando de bicicleta, para assistirem à prova de iatismo

tamento do rei Eduardo V I I (1901-1910), que figurou incógnito, como extra, de que participava o príncipe das Astúrias, herdeiro do trono. A propósito,
nos teatros de revista parisienses, em mais de uma das ocasiões em que foi esse é, exatamente, o tipo de monarquia que os brasileiros querem.
oficialmente à capital francesa; além disso, era um profundo admirador do Além do aparato tradicional, a Monarquia britânica tem outras parti-
belo sexo. Ou, no caso do rei Eduardo VIII (depois duque de Windsor, 1936), cularidades, como as rendas imobiliárias do ducado de Cornwall (o príncipe
que levou às últimas consequências a sua intenção de casar-se com Mrs. de Gales é duque de Cornwall), e outras dos ducados de York, Lancáster,
Wallys Simpson, uma americana duas vezes divorciada; quando o Canadá, Kent e Gloucester; todas elas decorrentes de seculares direitos de propriedade
depois a Austrália, e por fim a própria Inglaterra lhe disseram que não poderia da Família Real. O que não existe nas demais monarquias de modelo ocidental.
dar mau exemplo — para a época — preferiu abdicar da Coroa. Ou, ainda, Outro aspecto é a questão da soberania por si mesma: o rei da Inglaterra
no caso da princesa Margareth, irmã de Elizabeth I I , cujos casos amorosos o é, pelo simples fato de existir como pessoa, independentemente de qualquer
deram farto trabalho à soberana, e terminou por casar-se com o fotógrafo reconhecimento oficial. Sua condição de monarca não é instituída ou criada
Anthony Armstrong-Jones, depois lord Snowdon. E. mais, no caso da rumo- por texto legal algum, não é preciso que uma lei diga que ele o é, os textos
rosa separação entre a princesa Anne e o capitão Mark Philips, e no posterior legais que a ele se referem apenas confirmam implicitamente sua condição
casamento daquela. E, finalmente, nas espetaculares separações matrimoniais de rei. Ao contrário das outras monarquias, nas quais a existência e as funções
dos príncipes Charles e Andrew. do monarca são instituídas legalmente no texto da respectiva Constituição.
Qual a reação dos ingleses a esses problemas privados da Família Real? Essa característica "sui generis" da Monarquia inglesa também fica muito
Nenhuma, no máximo bom-humor e compreensão; às vezes, pesar e cons- clara, no que diz respeito às funções reais: não há um único texto enumerando
ternação. Como ocorreu no plenário do Parlamento, quando o primeiro-mi- essas funções; elas são consensualmente admitidas e reconhecidas por todos,
nistro John Major anunciou a separação do príncipe de Gales. Mas, sobretudo, pela nação britânica, pelo próprio rei, pelo parlamento, pelos juízes. O re-
um profundo senso de respeito à privacidade dos membros da realeza, que, sultado disso é que rei algum, nos últimos trezentos anos, ultrapassou os
como os de qualquer outra família têm direito, sempre que possível — e, limites da sua autoridade: obviamente, é muito mais fácil arranjar interpre-
essas possibilidades, para eles, são muito poucas — à sua própria vida. Porque, tações que burlem os limites de uma lei escrita, do que os de uma lei cos-
em última análise, essa privacidade é a mesma que qualquer cidadão inglês tumeira, porque consensual: da mesma forma como a dívida ou compromisso
faz questão de ter. Além disso, traduz uma noção muito clara de que esse garantido pela palavra é moralmente mais importante, e pesado à consciência,
respeito deve ser tanto maior em relação à Família Real, pelo seu significado do que a dívida ou compromisso garantido por um documento.
no contexto da nação inglesa. Na Inglaterra, mais do que representar ao governo, ao parlamento ou
ao povo, o rei representa a própria Inglaterra, que é o somatório de tudo isso
Existe, entretanto, um ponto que não parece ter se modificado ao longo
no presente, e mais o acervo de sua história milenar; que, em última análise,
dos últimos séculos, no pensamento dos ingleses: a rainha não pode ser mulher
contém isso tudo como o foi ao longo de séculos. Enfim, o rei personifica
"conhecida" por outros homens, além do rei. Isso está ligado, precisamente,
a Inglaterra em toda a sua história; por isso, exatamente, suas funções são
ao papel da Família Real e da Monarquia no contexto da nação; e foi a
representativas.
principal causa de rejeição do casamento de Eduardo V I I I com uma mulher
duas vezes divorciada, e da abdicação desse rei. Continua presente, hoje, Um outro aspecto peculiar desse peso histórico da Monarquia britânica
tanto que — segundo os tablóides que vivem do sensacionalismo — 30% traduz-se em que os piores e mais levianos príncipes de Gales foram bons
dos ingleses consultados gostariam que Charles e Andrew renunciassem aos reis: uma coisa é estar aguardando a hora de subir ao trono, outra é ter sob
seus direitos sucessórios; se for correta essa informação, aliás, elas demons- as pernas o seu peso.
tram que os ingleses desejam a continuidade das suas concepções em relação Do ponto de vista político, resta ao monarca inglês a função de escolher
à Monarquia. o primeiro-ministro, em duas circunstâncias: se o Partido Conservador tiver
Com relação à mídia brasileira, relembre-se, ela jamais se ocupa das maioria, mas não houver uma única liderança partidária inconteste (os Tra-
outras monarquias, porque não guardam o aparato cerimonial, nem o colorido balhistas fazem questão, em qualquer hipótese, de eleger seu líder); ou, se
tradicional da inglesa. Por inevitabilidade, na abertura e encerramento das nenhum dos partidos tiver a maioria necessária no parlamento (cf. Sir William
Olimpíadas de Barcelona, 1992, nossas tevês mostraram os reis da Espanha. Ivor Jennings, A Constituição da Inglaterra, Editora Universidade de Brasília,
O que se viu, então? Viu-se Juan Carlos de paletó e gravata, presidindo 1981). Essas hipóteses ocorreram somente três vezes neste século. Além disso,

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como lembra o autor citado, o rei pode recusar ao Gabinete a dissolução do 0u por segmentos políticos; e, em geral, essa escolha só é conseguida com
Parlamento, se a solicitação se fundar exclusivamente em motivos partidários. o apoio de grupos de interesses económicos. Devendo ser uma magistratura
Uma outra característica da Monarquia inglesa é a questão do pagamento que una toda a sociedade, divide-a, no processo de eleição. Precisando ser
de impostos pelo rei ou rainha. Não há uma regra fixa dizendo em quais um poder isento e sereno, nasce na paixão das disputas políticas, e vive a
hipóteses o rei paga ou deixa de pagar, e quais impostos. Antigas convenções elas sujeito. Necessitando ser um símbolo respeitado por todos, é submetido
entre o rei e o parlamento, firmadas ao longo de seculares lutas pelo poder, a todos os desgastes morais, próprios das campanhas eleitorais, com as ofensas
resultaram em que só o próprio monarca diz se paga ou não, em que hipóteses, pessoais, injúrias, deboches, libelos acusatórios, e críticas que têm por fina-
e quais impostos. A rainha Vitória (1837-1901) e seu filho Eduardo V I I lidade destruir-lhe a imagem. E, devendo ser um símbolo de solidariedade
(1901 -1910) não pagavam; Jorge V (1910-1936) pagava sobre algumas rendas; nacional permanente, resulta sempre do ato momentâneo de uma maioria
Jorge V I (1936-1953) não pagava; Elizabeth I I , depois de quarenta anos de falaciosa e fugaz, que se dissolve em pouco tempo.
reinado, determinou pagar sobre algumas rendas. Por essa razão, as repúblicas impõem a sua "unanimidade" conceituai
Assim, a Monarquia inglesa é algo particularíssimo, impossível de ser impossível de ser mantida natural e livremente — através da cláusula
imitado por qualquer outra nação. Não encontra paralelo, portanto, no resto pétrea, que reduz ao silêncio os discordantes. A monarquia não tem contra-
do mundo. Não houve exagero em André Maurois, quando disse que "a dições internas, por isso não contempla cláusulas pétreas: a unidade existe
Inglaterra é exemplo de sociedade humana que deu certo" (in História da naturalmente, sem divisões, atos de força ou prejuízos cívicos. O conceito
Inglaterra, Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, s/data). de unidade, na Monarquia, não se baseia na unanimidade política, mas na
harmonia do conjunto de posições políticas discordantes, reunido em torno
IA. A MONARQUIA MODERNA de um símbolo nacional personificado e palpável, que não se abala com os
sucessos partidários ou governamentais, e por isso é denominador comum
Por que será que todas as repúblicas, mesmo as melhores repúblicas, a todas essas posições.
aquelas que são as mais aceitáveis democracias republicanas, não abrem mão Observe-se que a queda de tradicionais tronos europeus, a partir da
de sua insegurança intrínseca, e adotam cláusulas pétreas contra a monarquia, última década do séc. X V I I I , não foi uma consequência do aprimoramento
impedindo os cidadãos de exercerem o direito de opção? O direito de opção das instituições, ou do pensamento político no mundo. Ao contrário, foi fruto
não é inseparável do conceito de cidadania, que a democracia instituiu e do imperialismo — na exata acepção do termo — de Napoleão Bonaparte,
continua pregando? A liberdade não é inerente à condição humana, inclusive sob a fachada de ideais revolucionários. Representou, antes, um retrocesso
a liberdade de escolher regime político? E democrática a imposição de uma ao sistema de governo pessoal fundado na força das armas, que, esclareça-se
cláusula pétrea?'E aceitável, politicamente, que homens de uma geração, de passagem, não era o sistema das monarquias tradicionais.* E curioso
ainda que disponham de representatividadé num dado momento histórico, notar que Napoleão não pretendeu eliminar as monarquias dos países por ele
estabeleçam princípios imutáveis para as gerações futuras? dominados; mas tão-somente substituir suas dinastias nacionais, em proveito
de sua própria família.
Será sempre "relativa" a liberdade no sistema republicano, até mesmo
em países como França, Itália, Estados Unidos, Portugal, Alemanha? Serão O fato é que, rompida a sucessão dinástica, os países europeus caíram
aceitáveis a democracia e a cidadania só e se enquanto os cidadãos compul- num vácuo político e institucional sem precedentes, disso resultando uma
soriamente quiserem o regime republicano, ou enquanto a ele se submeterem? instabilidade e uma falta de continuidade até hoje não afastadas. Exemplo
Será democracia um país que impede os seus cidadãos de optarem por regime típico, aliás, é o da própria França: passado Napoleão, o país promoveu duas
político diverso? restaurações monárquicas, mais uma república, e uma nova tentativa de im-,
pério; a partir de 1871, fixou-se — por maioria de um voto, relembre-se —
Por que será que nas Constituições monárquicas não existe a famigerada
numa terceira república, sucedida por mais duas. De tudo isso resultou que.
cláusula pétrea, impedindo os cidadãos de optarem pela república?
As respostas a estas questões têm como denominador comum a fraqueza
congénita da própria estrutura conceituai republicana, decorrente das irremo-
víveis contradições que lhe são intrínsecas. A começar por aquela que é o
cerne da questão, a contradição relativa à Chefia de Estado. * Em Portugal, o sistema era o do "Terceiro Braço", a união entre a monarquia e o povo
na sua generalidade; na Espanha, o sislema dos "fueros", a autonomia das cidades e vilas, em
É óbvio que a Chefia de Estado precisa necessariamente representar a união direta com a Coroa; na França, já se referiu, foi o próprio Luiz XVI quem, bem antes da
todos: mas, sobretudo, precisa ser uma suprema magistratura de todos: im- Revolução, aumentou o peso do Terceiro Estado — o povo — nas reuniões dos Estados Gerais,
parcial. No entanto, na república o seu ocupante é proposto por um partido, de modo a que tivesse a mesma força decisória que o clero e a nobreza.

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desde a onda revolucionária, já teve 13 Constituições, em 200 anos! Relem- do Ocidente cristão, ao introduzir no vocabulário dos povos as expressões
bre-se, também aqui já tivemos 7 Constituições, mais de 20 "leis constitu- "cidadão" e "cidadania". O homem comum deixou de ser vassalo, para se
cionais", mais de 100 emendas constitucionais, e mais de 15 "atos institu- transformar em cidadão do país. A condição do "súdito" coincide na nomen-
cionais", em 103 anos! Entretanto, a Inglaterra segue impávida, com sua clatura pós-moderna com a de cidadão; passou a sugerir, e prossegue sugerindo
monarquia milenar; a Dinamarca com a sua. ainda mais antiga; o Japão, com a vinculação ao Estado de que o rei é uma espécie de abóboda, e não mais
sua dinastia de 2.500 anos; a Espanha, com a sua monarquia nacional, de. uma subordinação pessoal ao monarca. O cidadão tem direitos e deveres em
500 anos, etc.. relação ao Estado, do qual a Coroa é a instituição representativa, e da qual
De tudo isso, resta uma conclusão clara: as monarquias — ao contrário' o rei é a autoridade mais alta. Só em decorrência dessa relação o cidadão
do que fazem supor os mitos republicanos — são mais flexíveis, mais pro- é formalmente súdito de tal ou qual rei.
gressistas, e propiciam sem grandes abalos a natural evolução das instituições As lições da Revolução Francesa, enquanto verdadeiras, foram perfei-
políticas. Além disso, a experiência comprova que a ótica da realeza é mais tamente apreendidas pela Monarquia, como instituição e como concepção de
afim com os regimes alheios ao poder pessoal, menos perigosa para o povo Estado. Ela se adequou a essas lições. Os monarcas, que antes governavam,
e para os seus dirigentes; aliás, só ela consegue atingir o ideal de regime' deixaram a cargo dos gabinetes e conselhos essa tarefa, embora de um modo
impessoal, caracterizado por um símbolo pessoal. Nos regimes republicanos, geral conservem formalmente as responsabilidades finais pela atuação dos
quer presidencialistas, como parlamentaristas, o que se vê são "presidentes' governos, mas só na qualidade de depositários e representantes finais do
que, como precários, transitórios e mutilados soberanos partidários, tentam poder do Estado. Passaram a se dedicar à tarefa mais importante de chefiar,
desesperadamente assumir o máximo absoluto de poder pessoal por meio de e representar efetiva e perenemente o Estado, desde uma posição à margem
toda a sorte de manobras e conchavos, quer para se firmar no seu posto,
e acima da política e da administração pública.
quer para realizar no curto lapso de seus mandatos objetivos populares e
nacionais permanentes que só políticas soberanas de longo prazo podem As monarquias fizeram com que os reis se recolhessem àquela posição,
paulatinamente assegurar" (Benedito Ferri de Barros, "A proposta monár- por ter se tornado consensual o entendimento de que seria necessário deixar
quica", in O Estado de São Paulo, cit.). aos próprios representantes imediatos da sociedade a tarefa de administrarem
suas pressões. A partir de então, tornou-se impossível associar a Monarquia
As imagens da Monarquia anterior à Revolução Francesa não podem
aos resultados dessa administração: aos reis, só deviam interessar a macrovisão
ser associadas a esse regime na atualidade: hoje, ela está inserida no contexto
da sociedade, a micro visão da situação dos cidadãos, e o estado das instituições
do Estado moderno.
durante o seu reinado. Em consequência, passaram a tirar proveito, benéfico
No passado, o conceito de Estado, e das suas finalidades era inteiramente para a sociedade e para o regime, da sua intangibilidade institucional em
diverso. A noção do que fosse reinar envolvia, efetivamente, muito mais um
face das mutações político-eleitorais. Não estando sujeitos a esse julgamento
direito pessoal dos reis do que um conjunto de deveres institucionais para
— em geral, falaz, diga-se — passaram a se dedicar decididamente e por
com o país e o povo. Se havia neles a preocupação com o que se denominava
completo a uma sutil, mas nítida relação de compromisso direto e exclusivo
"serviço do Estado", ou "serviço da Coroa", isso objetivava muito mais sua
para com as suas nações. Por vezes, assumindo a posição de "ombudsman",
projeção internacional, através do poder político e militar do país, dos tributos
que não necessita de petição, mas somente da sua simples palavra, em defesa
a serem arrecadados, do que a sorte e o bem-estar geral dos seus povos. Os
dos valores da sociedade; ou, numa situação de exortantes, face ao governo
deveres de Estado estavam muito mais ligados à respectiva instituição dinástica
por cujo êxito continuam formalmente responsáveis. Outras vezes, assumindo
do que a qualquer outra consideração. Em épocas recuadas, reis levavam
o papel de quase-corregedores em prol da sociedade, numa relação de qua-
seus povos à guerra em virtude de questões familiares, ou de prestígio pessoal,
se-superioridade em relação aos governos. Sempre representando globalmente
que nada tinham em comum com a vida dos seus vassalos e súditos; tanto
a sociedade.
que em 1702 o parlamento inglês incluiu no seu "Act of Settlement" um
dispositivo segundo o qual, se a coroa viesse a caber a pessoa de nacionalidade Em suma, de há muito, na atualidade, os reis adquiriram uma verdadeira
estrangeira, a nação não ficaria sujeita a se empenhar em qualquer guerra arte de reinar, por vezes influindo na formação e formulação dos governos,
para a defesa de domínios ou territórios que não pertencessem à Coroa da mas só na qualidade de símbolos da unidade nacional. Conservando-se, sem-
Inglaterra, salvo com o consentimento dele, parlamento. pre, apartados da política em si mesma.
Nada disso tem lugar nas monarquias de hoje: o interesse do monarca A posição a que se recolheram preencheu um vazio até então existente
é exclusivamente o do seu país. A Revolução Francesa, corrigidos os seus na imperfeita e artificial estrutura das democracias ressurgidas com a onda
excessos — muitos ainda por corrigir — transformou as concepções políticas revolucionária dos fins do século X V I I I . Ao ocuparem esse espaço, provaram

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a necessidade dessa ocupação, em proveito da própria democracia. Provaram ' aue o público em geral não perceba a existência de funções próprias e ex-
sua utilidade e granjearam dos seus povos uma simpatia e uma solidariedade clusivas da chefia do Estado. Ainda, os próprios agentes da mídia, por também
que os governos não podem ter. Deram consistência doutrinária ao cargo de desconhecerem a diferença, colaboram na manutenção dessa ignorância pelo
chefe do Estado e, sobretudo, à circunstância de chefiá-lo sem chefiar o público consumidor de notícias: ao se referirem aos chefes de Estado — por
governo. O rei passou a ser o primeiro servidor do Estado e o seu símbolo n ã o verem nestes a prática de atos de governo — disseminam o jargão "figura
de serviço permanente; assumiu a condição de representante regular, em tem- decorativa". Como se povos com o desenvolvimento social, político, econó-
pos normais, e de única certeza de continuidade, em qualquer tempo. Esse ? mico e cultural dos franceses, italianos, suecos, holandeses, ingleses e outros,
processo de inserção da monarquia no contexto do Estado moderno não sig-1 se dispusessem a "decorar" seus Estados com pinduricalhos inúteis, com a
nificou, assim, a compreensão de seu novo papel somente pelos próprios í simples finalidade de gastar o dinheiro dos contribuintes.
monarcas, mas também pelas suas nações; estas, implicitamente, acabaram
Entretanto, no Brasil, é de tal monta o condicionamento cultural levado
por assimilar essa importância, e a utilidade da existência dos seus reis nesse f
a efeito pelo regime republicano e presidencialista, que, mesmo as mais alen-
contexto.
tadas culturas têm dificuldade em entender o assunto livres dessa ótica. Che-
Ao se adaptar às novas concepções políticas e sociais, a monarquia oam ao ponto de, através dela, não conseguindo visualizar outra Chefia de
provou a sua autenticidade. Mostrou não ser o mero produto de um meio- Estado que não a do Poder Executivo, mas tendo diante dos olhos a realidade
ambiente social ultrapassado, de visão ou concepção política estreita e limi- da existência de chefes de Estado que não são Chefes do Poder Executivo,
tada, inadmissível em face das aspirações das sociedades modernas, superada criarem falsas doutrinas afirmando que no parlamentarismo há uma divisão
diante do virar das páginas da história dos povos. Sua origem, fundamentada do Poder Executivo em dois órgãos! Pois, sua cultura limitada por essa ótica
na organicidade da própria vida do homem em comunidade, alicerçada na — não pode vislumbrar algo que esteja fora dos padrões do presidencialismo;
família e nos costumes das nações, projetou nas sociedades modernas a con- então, é necessário entender a Chefia do Estado no âmbito do Executivo,
cepção de uma grande família. Principalmente, ela mostrou ser natural, imune disso decorrendo a mencionada "divisão" do Executivo.
às teorias cerebrinas e aos sistemas idealizados nas salas de estudos políti-
Além disso, o citado condicionamento, a par de impor a "tese" da
co-económicos. Ao cabo do processo de adaptação, que durou século e meio
divisão do Poder Executivo em dois órgãos, também impõe que afirmem ser
desde a Revolução Francesa, provou ser apta a todas as épocas e todas as
a república presidencialista viável em qualquer lugar, "porque funciona nos
transformações das sociedades. Ocupou o seu lugar, e sedimentou-se como
Estados Unidos"; o que é desmentido pelos fatos ao longo do mundo. Aliás,
regime de Estado, e com resultados incomparavelmente superiores aos das
"a História, que é política experimental, nos lembra que essa regra não tem
sempre problemáticas repúblicas, como se verá nas conclusões a este capítulo.
validade, porque é falsa" (cf. João de Scantimburgo, O Poder Moderador).
A propósito, em seu notável trabalho sobre a presidência norte-americana,
7.2. A CHEFIA DE ESTADO observou Laski não haver em qualquer país instituição que possa ser igualada
ao presidencialismo norte-americano (Harold Laski, The American Presiden-
A perfeita compreensão da questão Monarquia/República, passa neces- cy, New York, 1940). Nos Estados Unidos, a República presidencialista é
sariamente pela análise da natureza da Chefia do Estado. natural: nasceu de razões sociológicas e históricas que são exclusivas da
É extremamente difícil para a atual geração de brasileiros entender a sociedade norte-americana dos tempos do povoamento do território, manti-
distinção entre Estado e governo, chefia de Estado e chefia de governo. Essa veram-se presentes e projetaram-se para o futuro ao longo das gerações, até
dificuldade provém da circunstância de vivermos num sistema copiado ao os dias atuais. Obviamente, não poderia um tal regime criar raízes, nem se
presidencialista, em que uma só e mesma pessoa, o presidente da República, estabilizar em meios-ambientes sócio-políticos diversos daquele em que flo-
exerce cumulativamente a chefia do Estado e a chefia do governo. Além resceu naturalmente.
disso, as nossas sucessivas Constituições republicanas omitiram qualquer re-
A poucos ocorre refletir que, se os elementos integrantes dp Estado
ferência expressa ao cargo de chefe do Estado, embora consagrem-lhe as
são povo, território, governo e soberania, e se nenhuma parcela que integra
funções, que não se confundem com as de chefe do Poder Executivo, ou
um todo pode ser igual ao todo. Estado e governo não podem ser uma só e
governo.
mesma coisa. Ou, refletir que o Estado é permanente, enquanto o governo
Ajuda à desinformação a circunstância de que o número de intervenções é sempre temporário, ocasional. No entanto, apenas estas duas reflexões,
de um chefe de governo, no dia a dia de uma sociedade, é muito maior do dentre tantas outras que podem ser alinhadas, já são suficientes para fazer
que as de um chefe de Estado. Disso decorre que os nossos presidentes concluir que Estado e governo são coisas distintas. Que o Estado não se
comparecem à mídia muito mais como chefes de governo, o que faz com exaure no governo. O primeiro é a síntese da organização da sociedade; e,

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se a sociedade é composta por todos, sem exceção, o Estado tem que ser De qualquer modo, modernas Constituições, de ordens estatais as mais
uma espécie de teto comum, de casa que abriga a todos que integram essai avançadas política e juridicamente, ocupam-se da Chefia do Estado em seção
sociedade. O segundo é apenas o representante de uma facção política, ou completamente apartada daquela em que cuidam do governo, ou Poder Exe-
segmento de pensamento político eventualmente predominante dentro da so- cutivo.
ciedade, sem precisar ser majoritário, e jamais sendo geral. A essência dessa
diferenciação, o contraste entre representar permanentemente a todos, sem 7.3. CHEFIA DE ESTADO E PRESIDENCIALISMO
qualquer distinção política, teórica ou prática, e representar somente o pen-"
samento de alguns, ou de muitos, mas não de todos, pensamento que é em O drama do presidencialismo reside, exatamente, na circunstância de
maior ou menor medida imposto aos demais, faz com que o Estado se so- uma mesma pessoa exercer simultaneamente as funções de chefe de Estado
breponha em importância e essencialidade ao governo. Além disso, torna e de chefe de governo.
necessário que ele disponha de mecanismos extraordinários de correição ao A acumulação faz com que cada governo, apesar de sempre ocasional,
governo, sempre que esta se fizer necessária; em contrapartida, importa em sempre temporário, se esqueça desta condição que lhe é inerente; considere
que o Estado preste ordinariamente apoio ao governo, enquanto a atuação o Estado como domínio seu, dependente de sua vontade política, como se
deste for benéfica à sociedade, e não prejudicial. Nesse sentido, foi lapidar fosse ele o próprio Estado, e faça por ocupar o lugar deste, substituindo-o e
e elucidativa a resposta do Imperador Francisco José, da Áustria, ao presidente anulando-o. Ademais, porque o governo pretende se confundir com o Estado,
Theodore Roosevelt, quando este lhe perguntou quais as funções de um im- que é permanente, cria pretensões de permanência que não lhe são próprias,
perador: "Eu defendo o meu povo contra os seus governos!" do que resulta o surgimento do continuismo das oligarquias políticas —
buscando reforço e aliança em congéneres económicas — que procuram se
A Chefia de Estado e a sociedade, portanto, precisam pairar acima da perpetuar no poder de administrar.
política; vivendo e atuando apesar da política. Logo, sendo o governo um
agente político, úm e outro não podem ser chefiados pela mesma pessoa. A invasão do Estado pelo governo deixa a sociedade ao desabrigo das
intempéries e mazelas políticas, e do autoritarismo, inerentes a qualquer go-
A primeira característica da Chefia de Estado é constituída por sua
verno. Os mecanismos do Estado funcionam mal, quando acionados pelo
posição equidistante dos poderes políticos: posição neutra, de coordenação e governo. Porque, sendo voltados para o permanente, passam a ser utilizados
arbitragem em relação a estes. Trata-se de um Quarto Poder, natural, situado segundo os objetivos do governo, que são sempre passageiros, já que sujeitos
à margem dos poderes políticos; logo, só pode ser um poder apolítico. a influências circunstanciais: voltados para o geral, são utilizados para inte-
À Chefia de Estado incumbem funções que, ou são exclusivamente resses particularizados, segundo a ótica da equação das forças políticas que
representativas, tanto no plano- interno, como no externo, ou quando não o estão instaladas no governo. Ou seja, são sempre utilizados de forma casuística.
são especificamente, decorrem, no entanto, da sua natureza representativa. Enfim, os mecanismos do Estado funcionam mal, quando acionados pelo
Tais funções são inerentes à citada posição à margem dos poderes políticos, governo, porque utilizados para finalidades que lhes são impróprias, com
e dotada de representação global da sociedade. Esse exercício deve ser mar- freqiiência que também não lhes é própria, e segundo critérios necessariamente
cado pela ótica da imparcialidade na prática dos respectivos atos. aéticos; tudo como é comum e próprio em qualquer governo. Em suma, a
forma e os fins com que o governo aciona e utiliza os mecanismos do Estado
Não é possível incidir na confusão que, habitualmente — e, não só
são contrários à natureza destes.
entre nós — inclui a Chefia de Estado no âmbito do Poder Executivo, jun-
tamente com a chefia do governo (o chamado "Executivo dual"). Quando Acima de tudo, a confusão entre Estado e governo, via da invasão do
isso ocorre a nível constitucional, trata-se, evidentemente, de impropriedade primeiro pelo segundo, deixa a sociedade acéfala. Opera-se uma espécie de
legislativa, e doutrinária. Com alguma frequência, pode ocorrer tendo em crise de identidade coletiva: a sociedade fica na situação de alguém que não
vista objetivos meramente políticos, como foi o caso da Emenda Constitu- sabe quem é, nem onde fica o seu teto.
cional n° 4, de 1961, à Constituição brasileira de 1946. Em outros casos, Nesse quadro, o presidencialismo propriamente dito, o norte-americano,
decorre da manutenção formal de antigas tradições, mediante acordo entre é a única exceção. A regra é a do presidencialismo cesarista dos países que
os interessados, como no caso inglês: o rei, que secularmente exercera o procuraram imitar-lhe o modelo.
Poder Executivo, continua nominalmente com essa prerrogativa, embora con- Nos Estados Unidos, o sistema decorreu da necessidade de haver um
sensualmente não deva jamais exercê-la pessoalmente, mas somente conva- elo de união entre unidades políticas a rigor soberanas, com o intuito de criar
lidar com a sua chancela esse exercício pelos membros do gabinete. A Noruega um país maior e mais forte, mas em cujo seio essas soberanias continuassem
e a Dinamarca são outros exemplos dessa hipótese. respeitadas. Soberanias, portanto, preexistentes à do novo país que se pretendia

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criar. Precisamente, e"1 r a z ã o dessas soberanias o Congresso americano fi sistema, que conseguiu a proeza de manter unido um território continental.
desde o início o único órgão político comum aos novos Estados: nele tinha Isto, em virtude de haver um Estado, cuja chefia se identificava integralmente
assento os delegados desses Estados que, soberanamente, haviam decidid com a vida do país, desde sempre, e sobretudo depois da chegada da Família
se reunir. Assim, quando ficou evidenciada a ineficácia dos Artigos da Con' Real.
federação, foi decidida a criação de uma federação: e esta precisava de unfc Com a República, porém, a influência de um Executivo imposto pelas
órgão central e singular, que representasse a união de todos. Criaram, então, armas e representando o estabelecimento militar por ele mesmo recém-he-
o cargo de presidente dos Estados Unidos, ao qual atribuíram basicamente gj gemonizado, preexistindo a qualquer outro centro de poder e a qualquer outra
responsabilidade pela defesa externa e pela representação do país frente aoí instituição do Estado republicano, deu ao regime uma conformação prática
estrangeiro. O que importava em competências internas consequentes. Mas| e uma vocação tão cesarista quanto as dos vizinhos hispano-americanos. Ade-
no âmbito interno geral, embora sua autoridade e prerrogativas jamais tenhanti mais, também aqui não existiam soberanias locais a serem respeitadas e pre-
sido questionadas — até porque nunca foram extrapoladas — essa autoridade: servadas, a exigir um elo de ténue e sutil prestígio que as representasse e
é limitada pela soberania remanescente dos próprios Estados. Trata-se, por- unisse, legitimando uma federação. A inexistência de soberanias foi "suprida"
tanto, de um sistema "sui generis" em que os presidentes exercem muita pela criação artificial de autonomias de cima para baixo, via decreto, sem
mais funções de chefes de Estado — traçando metas — do que de chefes qualquer embasamento na consciência social das populações, ou na realidade
de governo, executando-as. política. Não havendo a limitação do poder central pelas soberanias locais,
Os sistemas dos países que copiaram o modelo norte-americano têm e a isso se somando a origem militar do regime, o resultado só poderia ser
pouco em comum com o original. E não poderia ser de outra forma. a inexistência de condições para funcionamento do modelo original: também
Nas colónias espanholas das Américas não havia os componentes sociais aqui, ele teve que ser adequalizado. Em consequência, não houve jamais uma
e políticos das antigas Treze Colónias. Ninguém fora para ali por não se chefia de Estado efetiva, já que exercida pelas mesmas pessoas investidas
submeter ao cerceamento de liberdades que eram asseguradas por uma Magna em governos de natureza unipessoal, na prática não sujeitos a limitações. O
Carta, ou com o intuito de fundar uma nova sociedade; eram quase todos resultado tem sido a sociedade permanentemente acéfala, entregue às mazelas
soldados da fortuna, aventureiros dispostos a enriquecer por qualquer meio. da política, confusa em relação à sua identidade; e, acima de tudo, a presença
Isso criou nessas colónias uma tradição de violência e de corrupção que, em do autoritarismo, sedimentado como filosofia de um Estado ocupado por
maior ou menor grau, persiste até hoje. Os seus processos de independência esses governos.
foram marcados por essas características, que são o caldo de cultura do cau- Sobre a Monarquia como única alternativa para essa situação, natural-
dilhismo. Foi sempre através de caudilhos que se constituíram os seus pri- mente, a desinformação faz com que muitos vejam o monarca com alguém
meiros governos, e muitos dos sucessivos. Em consequência, o presidencia- todo poderoso, que pode tudo, ignorando que tanto D. Pedro I como D. Pedro
lismo que transplantaram não poderia ser tal e qual o modelo: não havia I I não tinham nem um terço dos poderes mantidos pelos presidentes José
soberanias locais que se uniam, e a serem preservadas e respeitadas, nem Sarney, Fernando Collor de Mello ou Itamar Franco; isto, para não falar dos
necessidade de um órgão destinado a representante e garantidor dessa união. presidentes do ciclo militar.
Havia, sim, e sempre, um poder de fato, "manu militari", que buscava tâo-
Confundem Monarquia com poder absoluto, e República com demo-
somente rotulação para ser reconhecido legalmente.
cracia. O que se vê, na realidade, é o inverso. As repúblicas, via de regra,
A realidade e às circunstâncias desse poder é que foi adequado o modelo, são regimes autoritários e ditatoriais. Só no Brasil, já se viu que dos 103
em cada um dos países que o copiaram. Obviamente, nenhuma chefia de anos de República, 55 deles foram vividos sob regime de exceção ou ditatorial.
Estado poderia ser cogitada onde sequer havia Estado constituído, mas só Um presidente procura satisfazer àquela parcela da população que o elegeu.
poder de fato, sem qualquer limitação. Por isso, do presidencialismo a cópia Ao seu partido ou às forças políticas a ele coligadas. Desta forma ele jamais
foi só do rótulo externo, jamais do conteúdo. consegue a união nacional. Ademais, seu planejamento alcança, quando muito,
No nosso país, os elementos quê concorreram para a formação do meio cinco anos. O resto é problema, não só da nação, mas também do seu sucessor.
ambiente político e social, e sobretudo as raízes antropológicas, foram diver- Assim, vamos nós "apagando incêndios", regredindo no tempo, ao invés de
sos. Relembre-se, a propósito, a magna lição do Marechal Ignacio José Ve- avançarmos.
ríssimo, anteriormente invocado (no mesmo sentido, aliás, o notável Os donos Por ser imparcial, o monarca consolida a opinião pública e é ele que
do poder, de Raymundo Faoro, Editora Globo, Porto Alegre, 1976). consegue a unidade nacional, pois governos entram e saem, mas o monarca
Nossa independência não se fez através de caudilhos, nem através de continua, dando seu apoio ao gabinete que estiver no poder, como aliado e
práticas caudilhescas: houve uma transição pacífica dentro de um mesmo não como inimigo, através do seu poder moderador. Desta forma, consolida

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a unidade nacional e institucional, o que um presidente jamais consegue. 7.4.1. — PARÊNTESES SOBRE O ACONSELHAMENTO
Nada impedirá, por exemplo, que no regime monárquico constitucional par-
A confusão e a desinformação em torno de Chefia de Estado e chefia
lamentar um político como Luiz Inácio Lula da Silva possa ser o primeiro-
do governo, como anteriormente mencionado, é notória nos países de sistema
ministro. Aliás, diríamos que ele teria muito mais chances em ser um chefe
presidencialista, ou "cesarista" (cf. Karl Loewenstein, Teoria de la Consti-
de governo numa monarquia, do que um presidente no regime republicano.
No caso brasileiro, para que não se confunda liberdade, democracia, conti- tución). A figura do chefe de Estado governante, nesses sistemas, propicia
nuidade e estabilidade política com a república presidencialista, basta-nos amplo desconhecimento sobre as funções próprias e essenciais da Chefia de
comparar o quase meio século da "democracia coroada" de Pedro I I com o Estado, constituída num quarto Poder; pois, reitere-se, não só as duas funções
meio século de estado republicano-presidencialista que tivemos de 1930 para são acumuladas por uma mesma pessoa, como são muito mais aparentes e
cá. O deputado Cunha Bueno, que propôs a Monarquia parlamentarista aos numerosas as de chefia do governo. Resultado disso, lembre-se ainda uma
constituintes do País. lembrou que de 1926 a 1986, entre todos os presidentes vez, é a difusão mais ou menos generalizada da expressão "figura decorativa"
civis, Juscelino Kubitschek foi o único que conseguiu completar seu mandato; — desprovida de qualquer correspondência com a realidade, assim como de
e que, de 1889 a 1930 apenas um presidente — Campos Salles — conseguiu conteúdo doutrinário — com a qual culturas menos sólidas identificam a
governar sem recurso ao estado de sítio. De 1889 em diante, a República Chefia do Estado, como se fosse um simples ornato do Poder Executivo.
brasileira, instituída, como tantas outras, por meio de acidente histórico e Face a essa apontada degenerescência cultural, é fundamental incluir
golpe militar, não tem podido manter-se senão apoiando-se sobre forças ar- na enumeração das funções da Chefia de Estado aquela que, sem dúvida, é
madas, o que, nem para os presidentes, nem para o povo e nem para essas dentre todas a mais importante: a de manter o país com um governo estável.
forças é a melhor garantia de uma vida política a um tempo serena, democrática Essa função é exercida desde a formação do governo.
e livre. O chefe do Estado tem que propor ao Parlamento um governo, e via-
bilizar sua investidura. Isso equivale, na teoria e na prática, a não ter interesse
7.4. — FUNÇÕES DA CHEFIA DE ESTADO mais preponderante do que o de manter o país com um governo estável,
apoiando-o em tudo quanto for lícito. Em países de sistema bipartidário,
Em quase todos os países, as funções da Chefia de Estado obedecem como a Inglaterra — em que pese a existência de um terceiro partido, o
a um padrão mais ou menos uniforme, que decorre de sua natureza repre- Liberal — essa função não oferece maiores dificuldades: ressalvadas as duas
sentativa; da Nação como um todo, no plano interno; e do Estado nacional, hipóteses já mencionadas, em cuja ocorrência compete ao rei ou rainha uma
face ao exterior. Essas funções — já se viu — não se confundem com as escolha1 de caráter decisório e pessoal, a regra é a de o convite, para que o
do Poder Executivo, ou com as de qualquer outro Poder. líder de um dos dois grandes partidos organize um governo, ser meramente
Como consequência da representação no plano interno, o chefe de Estado formal; pois, apuradas as eleições, o que deles tiver maioria no parlamento
tem a incumbência de nomear e demitir o governo; isto, no entanto, nada deve governar, e a escolha só poderá recair no seu líder. Entretanto, essa
tem a ver com preferências pessoais, mas com a lúcida e isenta avaliação situação de bipartidarismo é exceção: a regra é a existência de três ou quatro
do quadro político. Além disso, em geral o chefe do Estado nomeia os altos grandes partidos (Itália, Alemanha, Bélgica, Espanha, etc).
funcionários civis e militares, como regra por indicação do governo, ao qual Quando há multiplicidade de partidos, há também necessidade de coa-
deve dar pleno apoio. lizão para obtenção de uma maioria, que permita a formação de um governo;
Em consequência da representação no plano externo, o chefe de Estado é nessas hipóteses que a atuação do chefe do Estado mostra-se essencial.
acredita os embaixadores do país no exterior, recebe as credenciais dos en- Situando-se numa posição institucionalmente à margem da política e dos
viados estrangeiros, e participa de conversações internacionais, quando do Poderes políticos, não deve ele ter interesse mais preponderante do que a
mais alto nível. estabilidade de um governo para o país. Além disso, não podendo ser ele
Competem ao chefe de Estado, também, o comando — direto ou in- mesmo o chefe do governo, nem pertencendo ao parlamento, e menos ainda
direto, conforme o país e as circunstâncias — das forças militares; a concessão podendo cogitar de coalizão minoritária, o que impossibilitaria o governo,
de indulto e graça, e a comutação de penas; e a promulgação (e veto, de- sua única via é encontrar imparcialmente uma coalizão majoritária; fora disso,
pendendo do país) das leis; o envio de mensagens e propostas às Câmaras; não tem o que empreender nesse campo. Como quem não está envolvido
a declaração de guerra e a celebração da paz, ambas com autorização ou "ad por um contexto tem melhor condição de apreciá-lo. o chefe do Estado pode
referendum" do parlamento; a convocação de referendo popular, a dissolução aconselhar aos líderes dos diversos partidos, quanto à formação de uma coa-
e convocação das Câmaras; e a concessão de honras. lisão; suas sugestões ou objeções, sabem-no os interlocutores, visam ao con-

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senso parlamentar. Nessa tarefa, inclusive, pode e deve levar em conta as ela. Não será demais lembrar, a este respeito, o trabalho das tropas nazistas
tendências da sociedade: muitas vezes, serão possíveis duas coalizões majo- de ocupação, na Noruega, em "apagar" dos muros e outros locais, a "pichação"
ritárias, com a ajuda dos pequenos partidos; mas, uma delas estará de acordo que aparecia todas as manhãs ("Tele H7!"): "Tele" significa, em norueguês,
com aquelas tendências, a outra, não. Será o momento de exercer a "prudente
"Viva"; " H " , a inicial do rei Haakom; "7", o seu número histórico de ordem,
e honesta" mediação, interpretando não só a composição parlamentar, como
o sétimo com esse nome. Enfim, "Tele H7!", "viva Haakom V I I ! " . Foi assim,
os anseios da sociedade. E. se razões pessoais ou de política menor obstruírem
também, com o Japão vencido. E a própria França, como já se indicou, com
a formação de um governo consensualmente viável, sempre disporá o chefe
setenta anos de regime republicano, foi buscar no símbolo da sua monarquia
de Estado do "apelo ao eleitorado", dissolvendo o parlamento e convocando
a fórmula para reunir na Resistência todas as facções políticas e ideológicas
novas eleições.
que lutavam contra o invasor nazista. Nem se pode deixar de lembrar que
Ao longo do governo, embora dele não faça parte, poderá o chefe de em Copenhague, desde o início da caça aos judeus pelos ocupantes nazistas,
Estado exercer sua influência, sempre através do aconselhamento. Pois, estará o rei Cristiano X saia do palácio real, todas as manhãs — em uniforme de
presidindo às reuniões do gabinete ou Conselho de Ministros, sempre que o gala, com todas as condecorações e mais um colar com a "estrela de Davi"
desejar. Pode exprimir livremente sua opinião, debater e aconselhar, convencer — e percorria a cavalo as ruas da capital, a passo, desafiando as autoridades
os seus interlocutores ministeriais. Se os convence, a opinião não é mais sua, nazistas a prendê-lo; e com isso, impossibilitando-as moral e positivamente
passa a ser dos ministros. Mas, sua influência moderadora é exercida, desde de prenderem judeus, ou como dispunha a ordem do comando, "todos aqueles
a posição neutra e imparcial que ocupa, em proveito da estabilidade. que portarem a denominada estrela de Davi!".
Na função de manutenção de um governo estável para o país, precisa- A Chefia de Estado monárquica apresenta algumas características que
mente, é que ressalta a "prudente mediação", a habilidade isenta com que o lhe são peculiares, e por isso não podem ser encontradas, sequer, nos regimes
chefe do Estado serve de árbitro conciliador entre o governo e o parlamento, parlamentares republicanos.
e entre os partidos políticos; realizando aquilo que o eminente constitucio-
A primeira característica corresponde, precisamente, à demonstrada e
nalista italiano Biscaretti Di Ruffia denominou "papel de puro controle da
mais essencial das necessidades: a distinção perfeita entre Estado e governo.
harmonia que deve haver entre o corpo eleitoral e as Câmaras" (Direito
Qualquer nação precisa de uma Chefia de Estado que se mantenha à margem
Constitucional, trad. Maria Helena Diniz. São Paulo, 1981). Exemplos atuais,
e acima da política, sobretudo da política partidária.
práticos, e clássicos dessa lição doutrinária são o profícuo reinado do rei
Os presidentes de repúblicas parlamentaristas não conseguem preencher
Balduíno da Bélgica (falecido em 31.7.93), que ao longo de 42 anos desem-
essa condição. São necessariamente oriundos de uma facção política, e da
penhou com serenidade essa mediação da harmonia entre o eleitorado, os
militância político-partidária; estão vinculados, objetiva ou subjetivamente,
parlamentos e os governos; e mais, garantindo a unidade do país entre os
por compromissos dessa ordem. Em consequência, por mais que o sistema
flamengos e os valões. Ainda, a atuação impecável do rei Juan Carlos, da
parlamentar seja destinado a condicioná-los à imparcialidade, dificilmente
Espanha.
ela será atingida: os sucessos eleitorais os compadecem. São conhecidas as
dissoluções de parlamento com o único fito de pescar, nas águas eleitorais
7.5. — CHEFIA DE ESTADO, MONARQUIA E REPÚBLICA
— sempre turvas — a possibilidade de conduzirem ao governo alguém do
seu partido ou ligado a ele, e se possível, subserviente. Enfim, a possibilidade
Nas monarquias de hoje, o monarca exerce exclusivamente as funções
de governarem indiretamente, através dessa interposta pessoa, ou junto com
de chefe do Estado. Há uma grande diferença entre exercê-las ordinariamente,
ela, assumindo ou procurando assumir o máximo possível de influência e de
em tempos normais, e em épocas de comoção nacional, ou de derrocada do
poder pessoais. Desvirtuando a natureza, a importância, e a essência da Chefia
Estado: nestas últimas, os reis têm se constituído em referencial, em ponto
de Estado, que é isenta, imparcial, desengajada, alheia à política e ao poder
de aglutinação de todas as energias nacionais remanescentes. Foi o que acon-
pessoal, voltada exclusivamente para o que é verdadeiro e essencial na vida
teceu, por exemplo, na Grécia, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca e Noruega
da sociedade.
ocupadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial: as pessoas dos
seus soberanos foram a presunção e a única prova possível da sobrevivência Essas deficiências do parlamentarismo republicano estão na sua essên-
cia; à qual, obviamente, não poderiam deixar de estar presentes as contradições
e ressurgimento dos respectivos Estados, a justificar o prosseguimento da
conceituais da república. Ele nada mais é do que uma tentativa de sucedâneo
resistência e da luta contra o invasor. A simples existência do monarca atuou
da monarquia, desfigurada pelo mau emprego, ou emprego levado ao exagero
como catalizador dos sentimentos da nação, assegurando a certeza de sua
da idéia de igualdade, trazida pela Revolução Francesa. Para atender a essa
continuidade, apesar dos reveses políticos e militares que se abateram sobre
ótica deformada por interpretação radical e absolutizada da igualdade, insti-
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tuiu-se uma Chefia de Estado pretendidamente moderadora, à feição do poder vida a prática de bem reinar, a vinculação da instituição monárquica com a
real, mas exercida em tese por qualquer pessoa. Isto é, um poder moderador nacionalidade e sua sociedade.
essencialmente inviável, porque destituído da totemização que mantém o etos Uma característica a mais, também digna de nota, é a visão abrangente
nacional, e é inerente ao seu exercício. O etos nacional, só a monarquia tem, e serena que os monarcas podem ter do panorama de suas sociedades, e do
por estar vinculada às tradições que o sustentam. Os resultados do parlamen- sentido de sua evolução: isso se deve à sua permanência no cargo ao longo
tarismo republicano são conhecidos, inclusive na prática brasileira. de uma ou mais gerações. Ademais, por não estarem preocupados com so-
Os reis são por natureza e definição alheios à política. Posicionam-se brevivência política, sua atuação na Chefia de Estado se desenvolve de acordo
à margem dela no cumprimento das suas tarefas, a além dela. quanto à pe- com o sentido natural dessa evolução; por esse motivo, precisamente, é que
renidade da sociedade e do Estado. Não se vinculam à militância política, os sociólogos afirmam que nas monarquias a evolução social se faz com
não dependem dos sucessos eleitorais. Não exercem um poder produzido por menos traumas e resistências, do que nas repúblicas. Os próprios monarcas,
compromissos com facções ou segmentos; por isso mesmo, não necessitam aliás, encarregam-se de dar exemplo da assimilação dessas mutações. Os
assegurar poder algum, através de sua expansão. A delegação que lhes faz presidentes, mesmo nas repúblicas parlamentaristas, não podem ter aquela
a sociedade é permanente e consensual; seu único compromisso é com a visão panorâmica, em virtude de sua curta ou duvidosa permanência; e nem
sociedade, com a garantia de que o Estado é e será de todos, indistintamente, sempre podem deixar de oferecer resistência à evolução, na medida em que
e com a intangibilidade desse Estado face aos azares da política. A simples têm compromissos para com segmentos diversos, e não somente condicio-
existência dos reis é símbolo referencial dessa unidade. Não procuram poder namentos de natureza partidária e eleitoral.
pessoal, que é a antítese da arte de reinar: sua formação é toda no sentido Além disso, a Chefia de Estado monárquica — porque permanente e
de que o poder é tanto maior, quanto mais impessoal e institucional; tanto apolítica — opera uma completa interação entre o Estado e a sociedade,
melhor quanto menos seja praticado, e mais seja resguardado como reserva realizando a "adesão afetiva" à qual se referiu o Prof. Jorge Velho; essa
moral para situações emergenciais ou terminais.
adesão afetiva impede a contraposição entre o cidadão e o Estado, e vice-
A segunda característica que não pode ser encontrada nos chefes de versa, impedindo o sistema do "quem pode mais, chora menos", que é ca-
Estado do parlamentarismo republicano é a preparação para a função e a sua racterístico da república. Nesta, as relações naturais, fundadas no costume e
vinculação para com ela. Nas monarquias, os que presumivelmente deverão no consenso, entre a sociedade e uma autoridade visível e permanente, é
reinar são preparados desde a infância para o bom exercício desse ofício; substituída por um inextrincável conjunto de leis — sem vida palpável —
familiarizam-se com as tarefas do Estado, e com suas obrigações nesse con- facilmente burláveis, e por um agente levado ao cargo pelo sabor da parcia-
texto. Esse conjunto de ensinamentos e de aprendizado, mas sobretudo o lidade política, cuja passagem meteórica pelo poder é marcada pela definição
compromisso para com ele, é uma espécie de patrimônio, mantido e sempre de interinidade, isto é, de provisoriedade. Consequentemente, de instabilidade
atualizado pelas famílias reais ao longo das gerações; razão pela qual elas intrínseca à natureza do próprio sistema, e do cargo que ocupa.
se constituem em verdadeiras instituições familiares, e suprafamiliares, que
Assim, com sua Chefia de Estado permanente, vitalícia, hereditária, e
tanto melhores são quanto mais antigas se tornam. É impossível a transmissão
consensual, a monarquia é o regime baseado na própria vida em comunidade,
genética de conhecimentos e de virtudes, de "know how"; só pela herança
alicerçada na família e nos costumes. Por isso, ela deu a cada uma das mais
de tradições, comportamentos, preocupações e concepções, passada de ge-
desenvolvidas sociedades modernas, nas quais vigora, a consciência de ser
ração a geração, cultivada através do tempo, é possível manter uma sucessão
uma só e grande família. Não dependendo de eleições, e consequentemente
de pessoas perfeitamente identificada com determinado ofício. E o ofício do
de conchavos e contas a saldar com segmentos e interesses particularizados,
Estado não escapa a essa realidade. Essa formação torna os reis tão co-
sua relação de complementaridade é nacional, faz-se diretamente com a so-
nhecedores dos segredos e particularidades da arte de chefiar o Estado quanto
ciedade, com toda a sociedade e seus interesses. O que. convenha-se, é ex-
o são todos aqueles que se dedicam a uma atividade, no seio de uma família
tremamente difícil de ser imaginado e entendido pelos brasileiros da atuali-
e através de gerações, o conhecimento passando de pai para filho, neto e
dade, depois de décadas sem família nacional; mas, de qualquer modo, precisa
bisneto.
ser entendido.
A formação que os reis recebem dentro de sua instituição familiar não
é possível encontrar nos presidentes guindados pelos sucessos da política ao Nessa tarefa de defender os interesses da sua sociedade e o exato fun-
exercício dos seus cargos, chefes de Estado fabricados por três ou quatro cionamento das instituições, por serem livres de consciência e não estarem
meses de campanha das agências de "marketing", através da mídia. A estes vinculados a outros compromissos, os monarcas não transigem; assim, sem
não envolve o contexto ético daqueles que têm como única preocupação de incorrer nos riscos — quando não na certeza — do autoritarismo, que é

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próprio do populismo republicano, as monarquias mantêm um diálogo direto para isso, conhecem os segredos desse ofício, que é uma arte. Não ignoram
com as suas respectivas nações, sempre um diálogo implícito, consensual e o seu papel, e têm perfeita noção da dignidade nacional, que é a dignidade
afetivo. Precisamente, é o referencial perene da pessoa do monarca, da sua da sua grande família.
vida familiar, do seu modo de ser, e dessa interação consensual entre ele e
Esta é a razão de as monarquias estarem entre as melhores democracias
a sociedade, que dá àquelas nações consciência de unidade própria de uma
e as mais desenvolvidas sociedades: a unidade de consciência nacional, gerada
grande família.
pela confiança e pela tranquilidade; unidade e confiança que o falso poder
"A família reinante deve, a um tempo, ser o espelho e o modelo republicano não dá, com presidentes sem compromissos com a nacionalidade,
do ideal familiar e social do país. Espelho, no sentido de que deve chefes de Estado efémeros que têm interesses e dependências que só raramente
possuir, do modo mais acentuado e autêntico, o que a mentalidade coincidem com os dos seus concidadãos.
doméstica e social do país tem de típico. A família reinante deve ser À unidade de consciência nacional, ao compromisso com a sua socie-
como que a concretização simbólica do espírito nacional, no que diz dade nacional, só o monarca vive vinculado. Depositário natural dessa so-
respeito à vida social e familiar. Modelo, no sentido de que cabe à berania, sua sensibilidade está sempre conectada com a sabedoria popular,
dinastia a função discreta de dirigir a evolução da mentalidade na- com a distinção entre o legal e o moral, o formal e o ilícito. Com o que é
cional, no lar e na sociedade. Munida do prestígio social inerente à autêntico.
sua condição, pode a família reinante, sobre a qual convergem todos O grande constitucionalista Carlos Maria Bru, ao comentar a Consti-
os olhares, por meio de seu exemplo, fazer cair em desuso os costumes tuição espanhola, foi enfático: "As duas vantagens reconhecidas à monarquia,
menos bons, e os substituir gradualmente por outros, exercendo assim são, a saber: sua imparcialidade (o poder não é devido a nenhum grupo ou
sobre o espírito público uma função pedagógica de imensa importân- facção), e sua continuidade (o poder se transmite sem saltos, nem vazios).
cia". (Plínio Corrêa de Oliveira, in O Legionário, São Paulo, 28.7.46). Isso decorre de que um Rei, simplesmente, nasce: não se faz". Aliás, existe
uma velha máxima espanhola, que diz: "El Rey nace y no se hace".
A propósito, relembre-se que em 1876 o "New York Herald", hoje Quando o imperador Hiroíto faleceu, o Japão não conheceu qualquer
considerado como "um dos precursores do jornalismo moderno", destacou o sobressalto em relação à sua sucessão, apesar de os velhos costumes japoneses
repórter James O'Kelly para documentar uma viagem de Dom Pedro I I e determinarem que o novo Imperador só é entronizado após os funerais do
Dona Teresa Cristina aos Estados Unidos. Fazendo a cobertura do embarque, antecessor, que devem esperar um ano após a morte deste. O Japão esperou
e registrando a grande massa presente, disse o repórter, na edição de 16.4.1876: em paz e tranquilidade um ano, o cumprimento do costume, para só depois
"Não era um chefe despedindo-se cerimoniosamente da nação que governava, entronizar solenemente o imperador Akihito. Sem questionamentos, sem dú-
era antes um casal adorado despedindo-se da família". vidas.
Além disso tudo, como corolário, há o elemento confiança, que consuma Outro grande comentador da Constituição espanhola, Miguel Herrero
a estabilidade. Aqueles países desenvolvidos sabem que os seus monarcas de Miñón, diz, lúcida e magistralmente: "Entende-se por "Potestas" a fa-
não procuram exteriorizar um poder que não têm, mas somente exercer aquele culdade de determinar a conduta de terceiros; por "Auctoritas", a capacidade
de que são investidos. Não praticam atos arbitrários, não se colocam acima de influir nela, em razão do prestígio, que, por qualquer razão, se tenha".
da Constituição e das leis, não ferem e não permitem que sejam feridos os "Tal como os sentidos do corpo humano, que aumentam quando algum
direitos dos cidadãos. Não fazem discursos bombásticos e demagógicos, não deles diminui — visão, olfato, audição, por exemplo —, a "Auctoritas" dos
usam o palanque, nem procuram convencer alguém daquilo em que não acre- reis foi aumentando ã medida que perderam ou tiveram diminuída a sua
ditam. Seu poder não é exercido simplesmente pelo poder em si, nem para "Potestas". Eles se afastaram das desgastantes questões do governo direto e
sustentar interesses que se põem contra a sociedade. Não precisam, como os objetivo, e com isso aumentaram o seu prestígio, sua autoridade moral, sua
presidentes, barganhar nomeações, apoios e verbas, para se manterem pas- influência, próprias de quem não exerce poderes políticos e parciais que são
sageiramente nos seus cargos e garantir influência política depois do mandato; próprios do governo. O rei se tornou um símbolo, como a Bandeira ou o
aliás, os reis não dispõem de cargos ou verbas para barganhar. Hino Nacional.
Sobretudo, como visto, os monarcas não são improvisados, não são Ê difícil ao povo ser fiel a uma idéia abstraía de Estado: é
fabricados pela mídia, nem vivem subjugados a ela, ou a grupos de interesses; preciso que o Estado se corporifique e se concretize individualmente
por isso, não criam resistências artificiais à satisfação das necessidades sociais numa pessoa visível. Além disso, é mais viável ser fiel a um Rei que
para atender a cartórios oligárquicos. São preparados para exercer a Chefia é símbolo nacional e representa toda a Nação, do que ao chefe do
de Estado, já se viu, desde os primeiros passos e as primeiras letras; vivem partido político contrário, que, no entanto, tornou-se presidente da

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república. Pois, além de que é mais fácil ser fiel "a quem represente São ainda de Plínio Corrêa de Oliveira as seguintes palavras, perfeita-
imparcialmente toda a Nação, é difícil ser fiel ao chefe do partido mente adequadas para caracterizar de que forma esse contexto familiar na-
contrário. O monarca é um fator de coesão, de unidade nacional". cional operou na Monarquia brasileira, a partir da Família Imperial:
(aut. cit.).
"... O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava
Sobre o papel da Monarquia nessa questão de unidade nacional, convém
em si as virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio pai. (...)
lembrar as palavras do cientista francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1833,
Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco
quando Dom Pedro I I contava somente oito anos de idade: "Os destinos do
parente daquela família-tipo." (Ob. cit.).
Brasil repousam hoje sobre a cabeça de um menino... que une o presente
ao passado. E uma criança o que une as Províncias deste vasto Império..."
(Viagem através do Brasil). Existe, além de tudo, uma função que nem sempre é necessariamente
Observe-se que os constituintes espanhóis retiraram ao rei o poder de própria da Chefia de Estado, mas que a monarquia acrescenta: a interação
veto às leis; mas, deixaram-lhe o poder-dever de sancioná-las. Por quê? Porque consensual entre o monarca e o povo, a já citada adesão afetiva recíproca,
a sanção do rei confere às leis a legitimidade e o prestígio. Assim, mesmo faz daquele um defensor permanente de sua Nação. Relembre-se, a propósito,
aqueles — como o Partido Socialista Operário Espanhol — que se opuseram a resposta do imperador Francisco José, da Áustria, quando o presidente
ao poder moral e social da Monarquia, acabaram convindo na necessidade Theodore Roosevelt lhe perguntou qual a função do imperador: "Eu defendo
desse poder, e na necessidade dessa força moral, porque neutra e imparcial. o meu povo contra os seus governos!", respondeu-lhe sem pestanejar o velho
Menos de dez anos passados, o primeiro-ministro e líder daquele mesmo e calejado chefe de Estado.
Partido Socialista Operário Espanhol, Felipe Gonzalez, proclama ao mundo Entre nós, essa função foi com muita felicidade traduzida no título de
que o rei era fator de estabilidade e legitimidade... "Defensor Perpétuo do Brasil", concedida primeiro ao Príncipe Regente Dom
Não é suficiente haver no ápice do Estado uma pessoa que exerça João — emboras poucos saibam disso — depois ao Príncipe Regente Dom
funções vitalícias e hereditárias, para se estar diante de uma Monarquia. Os Pedro, em caráter hereditário, pelo Senado da Câmara. Na época em que foi
Somoza sucederam-se ao longo de três gerações, na Nicarágua; os Trujillo, concedido a este último, destinou-se a investí-lo na qualidade de defensor
idem, na República Dominicana; os Duvalier, por duas gerações, no Haiti, contra as Cortes de Lisboa: mas o primeiro Imperador nunca descurou do
além dos Ceausescu, na Roménia, e Stroessner. no Paraguai, já preparavam seu alcance geral; tanto que, na sua viagem seguinte a São Paulo, lançou
os respectivos filhos para sucedê-los. Da mesma forma como, no século pas- proclamação aos paulistas, da qual constou o trecho: "Se a autoridade vos
sado, Francisco Solano Lopez sucedeu ao longo governo de seu pai, Carlos agravar, representai-me imediatamente". Essa proclamação, da qual há cópia
Antonio Lopez, no mesmo Paraguai. E, no entanto, sequer é possível cogitar no Museu do Ipiranga, em São Paulo, teve o efeito de introduzir na nossa
que isso caracterizasse a existência de monarquias. ordem jurídica algo assemelhado ao instituto do mandado de segurança, e
Na Monarquia há algo inconfundível e insubstituível, a que já nos re- em tudo idêntico ao direito constitucional de representação.
ferimos exaustivamente: a recíproca adesão afetiva, a interação consensual Dom Pedro I I fez questão de usar a vida inteira aquele título, norteando
— não imposta pela força — entre o povo e o monarca, e sua família; segundo o seu significado muitas de suas intervenções na vida pública.
interação que faz com que a Nação inteira sinta-se como uma só e grande
Reflita-se a palavra de um famoso militante republicano, Joaquim Na-
família. Tudo isso já foi visto antes; mas o aspecto a que agora queremos
buco: "Durante cinquenta anos, o povo encontrou o Imperador sempre de
nos referir é uma outra consequência dessa interação afetiva.
pé, na galeria de São Cristóvão (no centro da cidade) ou no Paço da Cidade
O fato de a Chefia do Estado estar ligada a uma instituição familiar
(Palácio do Governo), ouvindo a todos, sem enganar a ninguém". E nítida
opera uma modelagem do Estado e da Nação à imagem da família, sim;
a distância entre esse costume monárquico [auscultar o povo] e a prática da
mas, importante é que isso gera nos membros da coletividade nacional um
política de hoje, quando o povo só é procurado nas eleições. Se a Monarquia
excelente estado de segurança. Da mesma forma como a falta de apoio e
fosse efetivamente de feitio tão paternal, a República, de qualquer modo. nos
estima no contexto familiar ocasiona, nos membros de qualquer família, ca-
lançou na orfandade.
rências afetivas, fraqueza psicológica e tendência ao egoísmo, ao seu "eu
sozinho", "não reconheço pai, nem mãe". Por essas razões, precisamente, o Os chefes de Estado republicanos, pela própria ótica de sua origem
"quem pode mais, chora menos", que é típico das repúblicas: nestas, sendo política, jamais conseguiram captar o significado dessa função, nem exercê-la.
os presidentes meros agentes políticos que passam temporariamente pelo Até porque, inclusive em virtude de sua interinidade intrínseca, não se forma
cargo — e. sempre, para a sua própria conveniência política — não há entre eles e a Nação o citado elo de recíproca adesão afetiva. A Chefia de
sentimento algum de família nacional. Estado monárquica é um ofício, o "ofício real", e os ofícios são perpétuos.

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Quando se viu uma sequência de presidentes que se dedicam, um após
exerce-se-os a vida inteira, como única ocupação. Enquanto que a Chefia
de Estado republicana é o simples exercício temporário de um cargo, sem outro, ao empreendimento de um projeto nacional? Nunca.
ofício; é um exercício sempre improvisado e efémero. Quando foi visto um candidato presidencial eleito, que se dispõe a
prosseguir na obra de seu antecessor, mesmo que seja seu correligionário
Por todas essas razões, a ótica dos chefes de Estado republicanos é
politico, ou até o responsável pela sua eleição? A resposta é óbvia. Cada
sempre voltada para questões exclusivamente políticas; sempre precária, e
de efémera duração, como as próprias situações políticas. Se o meio ambiente , l 0 v o presidente trata de ignorar o que foi empreendido pelo antecessor, adotar
dos presidentes é a vida política, o meio ambiente dos reis é a vida natural uma nova e conflitante postura, e com frequência elimina os efeitos e até os
do povo, o seu dia-a-dia. resquícios desse trabalho. Como imaginar coerência num organismo (o Estado
republicano) que a cada quatro, cinco ou seis anos muda inteiramente o seu
E exclusivo da monarquia a interação entre a Família Real e o povo. projeto básico, isto é, se verdadeiramente o tiver? Aliás, é exatamente por
O povo reconhece que há nela a missão e a vocação de dotes tradicionais isso que a ordem jurídica nas repúblicas, sobretudo nas presidencialistas, é
e históricos para que os seus membros representem e personifiquem a Nação.
tão mutável, tão prolixa e intrincada, e tão pouco consistente e respeitada.
Esta tem a seu exclusivo serviço um patrimônio acumulado durante séculos,
e confia nessa Fidelidade, porque ela é natural, não vem da propaganda ou Dir-se-á que o monarca não tem poderes de governo, e portanto a
de "marketing". continuidade de um projeto nacional de longo alcance não dependeria dele,
mas da disposição dos chefes de Governo. A premissa é correta; Dom Pedro I
Todos os agrupamentos humanos bem constituídos tendem naturalmente e Dom Pedro I I tinham muito menos poderes do que qualquer dos presidentes
a adotar o modelo familiar, no qual cada membro apoia e completa os demais. da República. Mas, a proposição nela assentada não é verdadeira. Embora
Em ciência política, afirma-se que a monarquia hereditária é a melhor forma não tenha poderes de governo, as atribuições do monarca permitem-lhe exercer
de união dos povos, assim como a paternidade é a melhor forma de autoridade
uma fecunda influência nas diretrizes e nas providências de governo.
para a família.
Merece ser lembrado, a propósito, um fato corriqueiro no Império, que
A Monarquia, reitere-se, não é produto de laboratório, nem de teses nos é relatado por Afonso Celso, no seu Visconde de Ouro Preto (Excerptos
sofisticadas: é empírica, resultado de um aperfeiçoamento secular de insti- biográficos), Rio de Janeiro, 1935: "Uma noite, quando era Ministro da
tuições, processados de forma natural e dentro do mesmo contexto de aper- Marinha, durante a Guerra do Paraguai, meu pai recebeu às altas horas
feiçoamento de suas sociedades nacionais. A República, ao contrário, é pro- uma mensagem urgente de Dom Pedro H, dando conta de que naquela tarde
duto de concepções académicas e cerebrinas. Qualquer pessoa sabe que é chegara ao Rio um navio que talvez pudesse levar à esquadra em campanha
possível elaborar com perfeição lógica uma tese académica, provando as mais alguma coisa que fora pedida dias antes. Aborrecido, Afonso Celso respondeu
aberratórias afirmações; como, num exemplo caricato, provando que um ele- na hora: 'Senhor, os objetos pedidos pelo Almirante seguiram ontem. Fique
fante voa. E, do ponto de vista lógico-acadêmico, qualquer banca examinadora Vossa Majestade tranquilo, certo de minha vigilância no pronto cumprimento
ver-se-ia compelida a aprovar uma tal tese, se inatacável no seu silogismo. de todos os meus deveres, mesmo quando não nos lembram'. Pela madrugada,
Só que, qualquer um, igualmente, sabe que um elefante não voa. Assim, voltou o mensageiro com outro bilhete do Imperador: 'Sr. Celso, não fui
precisamente, são os fundamentos, o silogismo e as conclusões da tese re- bem compreendido. Sei que a sua vigilância patriótica é tão grande quanto
publicana: perfeitos e inatacáveis na teoria, inoperantes na prática. a minha. Mas, nesta quadra de dificuldades e preocupações, devemos todos,
Como disse Henrique Barrilaro Ruas, "a distância que vai do profano mais do que nunca, ajudar-nos uns aos outros".
ao sagrado é a que separa a República da Monarquia. Não é isto confundir Como cogitar a permanente obra de construção nacional empreendida
o que é de César com o que é de Deus, mas reconhecer que a Realeza insere na terceira fase do Império, sem a presença de um monarca apolítico?
um elemento do sagrado na massa do profano" (A Liberdade e o Rei, Lisboa, Outro aspecto da Chefia do Estado monárquica é o sentido reto do
1971).
dever de um rei. Já se lembrou que os chefes de Estado republicanos têm
Entre nós, recentemente e com invulgar propriedade, o Dr. Dario Abran- sua ótica voltada exclusivamente para as questões da política partidária; è
ches Viotti disse que "a diferença entre a República e a Monarquia é a que também, que durante suas efémeras passagens pelo cargo estão inarredavel-
existe entre o casamento civil e o religioso" (cf. " A monarquia moderna", mente voltados para sua sobrevivência política. Em consequência, seus atos
conferência proferida no Clube Miê Kaikan, São Paulo, 1992, ainda não estão sempre eivados do que lhes é conveniente, em termos de popularidade,
publicada). De nossa parte, a essa brilhante síntese, acrescentaríamos que os e de apoio de segmentos políticos: as medidas impopulares — embora, às
casais não dispensam o casamento religioso, apesar das imposições da lei civil. vezes, necessárias, e com frequência acertadas — não têm atrativos para eles.
Outro aspecto a ser examinado na Chefia de Estado monárquico é o Porque, reitere-se, seu interesse imediato não é uma obra a ser eventualmente
da continuidade da visão nacional, o chamado projeto nacional. realizada.
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Os reis, nos momentos em que são chamados a agir na função dé dendo a eleição, o que nos Estados Unidos é vexame, e atestado de incapa-
defensores da Nação, o sentido reto do dever impede-os de hesitarem diante cidade para um presidente. Mas, pior do que tudo, Sadam Hussein rearmou-se;
das medidas que se fizerem necessárias, ainda mesmo quando o seu próprio/ e n o seu segundo aniversário, a guerra ameaçou recomeçar, e talvez ainda
povo não tenha como, desde logo, perceber suas razões e seu alcance. Porqu«| volte a acontecer.
os reis não irão disputar a próxima eleição, não têm a preocupação do aplaus«| A propósito desse aspecto da chefia do estado monárquico, assim se
fácil e volúvel, o aplauso de hoje que se transforma amanhã em crítica gratuita expressou Gastão da Cunha Ferreira: "O Rei é livre pela própria natureza
e malsã, e até em vaias. : í da sua posição, o Rei não é um homem de partido, é o Juiz imparcial do
O exemplo da atuação de Dom Pedro I I na Guerra do Paraguai é Mus/ jogo de interesses divergentes que deve animar a vida política e social da
trativo. Passado a primeira fase do conflito, durante o qual houvera explosu Nação. O Rei é responsável perante um passado de centenas de anos e um
de patriotismo — isso mesmo, tínhamos isso! — e entusiasmo popular, futuro sem limites e o político é responsável por mandatos de vários anos,
arrastar-se de uma guerra difícil e custosa, perante um inimigo que a prepara minutos no relógio da História" (Portugal em baixo ou em cima!, Lisboa,
e se preparara com grande antecedência, começou a cansar. Os dois partidoü| 1988).
políticos, o Conservador que estava no Governo, e o Liberal, na oposição)!
já entendiam que seria muito bom negócio — do ponto de vista eleitoral ~m
7 6 — MONARQUIA E MAGISTRATURA
fazer a paz. Dom Pedro I I bateu o pé: paz, só com Solano Lopez fora dtx
poder. Porque, argumentava o Imperador, deixar o caudilho livre não seriá O chefe de Estado monárquico tem as garantias inerentes à magistratura.
acabar com a guerra, mas apenas interrompê-la por algum tempo, dando-lh
Porque é, efetivamente. na condição de magistrado — a imparcialidade —
a oportunidade de recomeçá-la tão logo estivesse rearmado e reorganizado!
que ele exerce função de árbitro conciliador entre o governo e o parlamento;
ainda mais aureolado com o "prestígio" que adquiriria por ter restado con*
sem esquecer a proteção às oposições, às dissidências, e às minorias de todos
o seu poder agressivo ileso, depois de haver invadido o Brasil e sustentado»;
os matizes. Precisamente, como já se observou, é nesse aspecto da impar-
a guerra contra três países. O imperador tinha a visão das soluções duradouras!
cialidade que falham os chefes de Estado oriundos de eleições — quer diretas
e não o ímpeto dos expedientes do momento, que são próprios da política
como indiretas —, nos sistemas parlamentaristas republicanos: como esperar
eleitoral-partidária. '4
imparcialidade de alguém que disputou uma eleição, se isso importa em mi-
Dom Pedro I I não hesitou em levar até o final a guerra j á impopular/'
litância política, e a parcialidade é inerente à vida político-partidária? Se
certo de que assim trabalhava não só para aquele momento, mas também»
qualquer eleição importa em compromissos eleitorais de toda ordem — eco-
para o futuro. Quando Caxias, doente, desfaleceu durante uma missa, e pediu:
nómicos, políticos, etc. — que têm que ser saldados através de sua atuação
para ser substituído — foi exatamente isso o que aconteceu, em que pesem:
desinformações difundidas ao longo deste século — o Imperador não teve; na função, depois da posse? Como pretender, enfim, que o chefe de Estado
dúvida em envolver a própria Família Imperial na continuação da guerra até eleito tenha os mesmos critérios para tratar correligionários e aliados da disputa
o seu final: nomeou seu genro, o conde d'Eu, para o comando das tropas eleitoral, e os que nela foram, e continuam sendo seus adversários?
brasileiras. Note-se, porém, que, terminada a guerra, Dom Pedro I I não mediu O magistrado, o juiz, se fosse eleito, proferiria sentenças contra os
mãos em providências para que o ex-inimigo voltasse a se organizar pacifi- interesses do seu partido, daqueles que o elegeram e poderiam reelegê-lo? É
camente; inclusive, providenciou a abolição da escravatura no Paraguai (1870). exatamente por terem como ofício a imparcialidade que os membros do Ju-
E, até mesmo a dívida de guerra foi mais tarde perdoada. diciário não são eleitos, já se registrou.
A História mostrou que Dom Pedro I I agira certo. No entanto, a república na sua concepção cerebrina e utópica coloca
Entretanto, não foi só naquele episódio que a História mostrou que as
a mais alta magistratura de um povo, a Chefia do Estado, nas mãos de um
soluções do bom senso sobrepõem-se aos expedientes políticos de conve-
agente político, eleito com todos os vícios próprios da política. Um "magis-
niência eleitoral. Sem entrar no mérito da intervenção militar norte-americana
trado parcial". Observe-se que até mesmo as leis processuais contêm preven-
(e de outros países) no conflito Iraque/Kuwait, o fato é que se o presidente
tivos e sanções contra os magistrados parciais; mas, o utopismo republicano
Bush houvesse permitido ao comandante das forças aliadas chegar até Bagdad,
quer na Chefia do Estado um magistrado necessariamente parcial...
e afastar Sadam Hussein do poder — o que, provavelmente, seria possível
em 1991 — os motivos que determinaram a Guerra do Golfo teriam sido Por essas razões, inclusive, com muita acuidade alguém j á comparou
satisfeitos. Mas, como Bush tinha interesses eleitorais a atender, determinou o presidencialismo a uma partida de futebol sem árbitro, na qual a equipe
a paralisação das operações no quarto dia da guerra, tão logo fora desocupado fisicamente mais forte impõe as regras do jogo adversário; ao parlamentarismo
o Kuwait. Substituiu o comandante que pensava corretamente. Acabou per- republicano, comparou-o a uma partida de futebol na qual o árbitro não
é imparcial, está peitado por uma das equipes, trabalhando para fazê-la

172 173
Observe-se, por outro lado, que o instituto da responsabilização política
vencedora; e à monarquia, comparou-a a um jogo de futebol com árbitro
dos governantes não surgiu em um sistema convencionalmente republicano,
imparcial. nem como apanágio deste. Muito menos do sistema republicano ressurgido
na era moderna, como uma das consequências da Revolução Francesa.
7.7 — MONARQUIA E REPRESENTATIVIDADE
O instituto de responsabilização política é um aperfeiçoamento do "im-
peachment" de ministros, do sistema inglês bastante anterior à Revolução
Dentro do melhor rigor, nada autoriza a associação doutrinária — e, Francesa. Tal e qual como hoje concebido e aplicado, foi que esse mecanismo
menos, ainda, a complementariedade — entre política e representação. Pois surgiu na Inglaterra; integrou-se às linhas gerais do sistema parlamentar criado
é normal reconhecer-se a representatividade de quem não exerce «a função naquele país, do qual, guardadas as devidas proporções, passou para o pre-
política, e a Chefia de Estado é o mais flagrante exemplo dessa constatação. sidencialismo norte-americano e para as formas impróprias de presidencia-
A aquiescência ou reprovação da soberania popular não se manifesta lismo, estas contendo em si o resultado da adoção do sistema por países sem
exclusivamente pelo ato formal de votar. Essa questão, que está na raiz da as mesmas características dos Estados Unidos.
representatividade, exige que se faça distinção, como ensina Bobbio (Studi Nas monarquias de tipo ocidental, governantes são os integrantes do
per una teoria generale dei Diritto, Torino, 1970), entre "legitimidade" como Gabinete, ou do Conselho de Ministros, ou do Conselho de Estado, que exer-
requisito da titularidade do poder, e "legalidade" como requisito do exercício cem o Poder Executivo, como se verá adiante; e estes são sempre e plenamente
do poder; como entre consenso e aceitação, e imposição e resignação. E não responsabilizáveis perante o parlamento, ou perante o Tribunal Constitucional.
se pode arguir, em contraposição a esse argumento, que sua ótica é essen- Da mesma forma como acontece nas repúblicas parlamentares, e também nas
cialmente política; pois, como observa o autor citado, "o ponto em que a repúblicas presidencialistas. Assim, a responsabilização política dos gover-
teoria geral do poder encontra-se com a teoria geral da norma jurídica é, nantes não é apanágio das repúblicas.
precisamente, o do paralelismo entre os requisitos do poder — legitimidade O que pode ocorrer, e em geral ocorre, é serem irresponsabilizáveis os
e legalidade — e os da norma jurídica — justiça e validade. chefes de Estado, quer nas monarquias, como nas repúblicas parlamentaristas.
As considerações acima expostas, bem como as lições em que se fundam, Cumpre ressaltar que Constituições como a da Finlândia, França e Moçam-
encontram confirmação evidente da realidade concreta, a demonstrar que a bique, dentre outras, silenciam sobre o assunto. No que respeita à impossi-
representatividade não está necessariamente ligada ao voto, que nada mais bilidade de responsabilização no sistema francês, não é possível perder de
é senão uma forma, e impeifeita, do sufrágio. vista a lição de Loewenstein, ao dizer que "o presidente é irresponsável, e
praticamente indestituível".
Existe, nitidamente, outra forma de sufrágio, o consensual, representado
por aquilo que os escandinavos denominam "plebiscito permanente e visível". Assim, o aspecto da responsabilização ou irresponsabilização política
Este é precisamente, o sufrágio que dá fundamento de representatividade ao não serve como traço diferenciador entre a República e a Monarquia. Em
chefe de Estado monárquico, a "adesão afetiva" que liga o povo à monarquia, ambas, a responsabilização incide sobre os governantes — e, governantes
e vice-versa. são os que exercem o poder político de governo — resultando em perda do
cargo a configuração de ato que importe na perda de confiança política; quer
por motivos de estrita conveniência, quer por afrontarem a ordem jurídica.
7.8 — MONARQUIA E RESPONSABILIZAÇÃO
Em geral, por ambas as causas.
Costuma ser dito que a responsabilização política dos governantes é Cumpre reiterar, por oportuno, que a irresponsabilização dos chefes de
instituto jurídico-político próprio do regime republicano, do qual seria um Estado monárquicos, e dos de diversas repúblicas, não decorre de que sejam
princípio exclusivo. legal ou costumeiramente considerados como estando situados acima da lei;
mas, unicamente, em virtude de não ser juridicamente possível aplicar-se-lhes
Tal entendimento pode ter lugar, somente, quando se labora em termos
qualquer sanção destinada a atos político-governamentais, em virtude de, pre-
de retrospectiva histórica, em relação às monarquias do passado, mesmo quan- cisamente, não exercerem quaisquer funções políticas no governo.
do esse passado seja até certo ponto recente, isto é, primórdios do século
Acrescente-se, a título de lembrança, que a expressão "república", de-
XIX. Pois, até então, o monarca exercia o Poder Executivo, um dos poderes
rivada de "respublica", significa primordialmente o regime em que o interesse
políticos. Mas esse entendimento não Rode subsistir no que diz respeito às
da coletividade dos governados se sobrepõe ao interesse particular ou parti-
monarquias de tipo ocidental, das eras pós-moderna e contemporânea; e isso,
cularizado do governante. Pois, houve tempo em que, como regra, tinha-se
como já visto, porque nessa espécie o monarca chefia o Estado, mas não por legítimo que o governante sobrepusesse o seu interesse privado ao daqueles
exerce o governo. Como, aliás, ocorre também nas repúblicas parlamentaristas.

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que governava; e, precisamente, o sentido da expressão "res publica" é o do aprovação do Parlamento. Com essa soma, os monarcas atendem ao custo
regime em que o interesse público se sobrepõe a qualquer outro, inde- da representação do Estado: as despesas do cargo, a manutenção e conservação
pendentemente da forma de Estado ou sistema de governo. Ocorre, por outro dos palácios reais, seus serviços e funcionalismo; e os próprios vencimentos.
lado, que o princípio da supremacia do interesse público é, no mundo con- Nada mais do que isso. A deliberação parlamentar que aprova essa "lista
temporâneo o que preside a qualquer Estado, tenha este chefe eletivo ou civil", é objeto de veiculação oficial, para conhecimento público, como qual-
hereditário: já se incorporou ao conhecimento jurídico e político comuns a quer outro ato legislativo. Esse valor não fica embutido nos inextrincáveis
expressão "monarquias republicanas", para conceituar as ordenações estatais meandros de uma lei orçamentária, como ocorre nas repúblicas. Além disso,
nas quais a Chefia do Estado é provida por sucessão hereditária, mas sendo como o monarca não é chefe de governo, não tem como cogitar em remanejar
óbvia a prevalência do interesse público sobre qualquer outro. Isto, aliás, não verbas dessa lista, nem em pedir autorização para abertura de créditos adi-
é apenas da era contemporânea: desde Dom João I I (1484-1495) os alvarás cionais ou suplementares, para cobrir excessos de gastos. O montante da
dos reis de Portugal tinham por preâmbulo a fórmula ritual: "Atendendo aos verba é aquele mesmo.
superiores interesses da república no Reino de Portugal...". Nas repúblicas, dificilmente alguém tem como localizar o que verda-
deiramente é gasto pela presidência, no contexto das dotações estabelecidas
7.9 — O CUSTO DA MONARQUIA pelas leis orçamentárias. Além disso, o acesso aos dados é bastante proble-
mático; pode-se dizer que, se há tradições republicanas, esta é uma das prin-
Existe no Brasil uma crença generalizada de que, por ser desprovida cipais dentre elas: é quase impossível saber como um presidente ou os seus
de pompa tradicional, a República é um regime barato, económico; e a Mo- auxiliares diretos utilizam e remanejam verbas para atender os seus gastos,
narquia, em virtude de cerimonial, um regime dispendioso. Essa crença, evi- e dos que lhes estão próximos. Aliás, sequer se sabe, no Brasil, quantas
dentemente, é falsa. Mas, assoma proporções de imagem estereotipada; mais viagens nacionais e internacionais são anualmente pagas por conta de serviços
do que isso, até, proporções de mito. Como sempre sua causa reside na à presidência; apesar disso, no entanto, os dados disponíveis permitem concluir
desinformação, quando não na desinformação propositadamente disseminada. que a nossa presidência — só ela, e não a estrutura e os serviços do Executivo
— custa muito mais ao contribuinte brasileiro, do que a mais cara Monarquia
Quer por incultura, como pela dependência das boas graças do regime
do mundo custa para o contribuinte inglês! Este aliás é oportuno que se
republicano, o mito é repetido e reprisado nas mentes dos destinatários da
reitere, apenas investe dinheiro na Monarquia, e com uma rentabilidade di-
mídia. Além disso, ou por causa disso mesmo, com alguma frequência a
ficilmente igualada por outros investimentos.
veiculação dessa errónea noção não tem causa específica em uma diretriz
atual: os próprios responsáveis pelos "clips" também foram vítimas, algum A sociedade gasta muito — muito, mesmo — para eleger um chefe
dia, desse processo de massificação cultural; e, repetem, veiculam mecani- de Estado republicano. Pouco antes das eleições presidenciais brasileiras de
camente o que lhes foi incutido. Como se fosse coisa pacífica tão indiscutível 1989, a previsão de gasto com a campanha eleitoral era de 600 milhões de
quanto um dogma. dólares para cada candidato com reais possibilidades de disputar o cargo;
De qualquer modo, por qualquer daquelas causas, o fato é que a simples mas, essa previsão foi de muito ultrapassada. Pelo menos os seis primeiros
audição da palavra "monarquia" desperta nos desinformados a visualização colocados gastaram, casa um, a média de I bilhão e 200 milhões de dólares.
de imagens luxuosas, ostentórias e perdulárias. Ou seja, 7 bilhões e 200 milhões de dólares, sem contar os candidatos menores.
De onde saiu esse dinheiro? Dos contribuintes diretos e indiretos, certamente.
Antes de qualquer outra consideração, é preciso reiterar que a Monarquia
Segundo as projeções das agências especializadas em "marketing" eleitoral,
inglesa não serve como parâmetro, também nesse campo. Quando se tratar
nos próximos 25 anos os brasileiros gastarão 270 bilhões de dólares para
de monarquia, em qualquer dos seus aspectos, os indicadores adequados devem
eleger os seus cinco presidentes seguintes; ou seja. duas vezes o valor da
ser países como a Bélgica, a Espanha, o Canadá, o Luxemburgo, a Dinamarca;
nossa atual dívida externa!
ou, qualquer outra monarquia de modelo ocidental, com exceção, precisa-
mente, da Inglaterra. Muito embora os custos da Monarquia britânica sejam Aliás, pergunta-se: qual o motivo de aplicarem tanto dinheiro numa
eleição?
sobremodo inferiores aos das mais festejadas repúblicas, e muito maior o
lucro que ela carreia para os cofres ingleses. Como se verá. Entretanto, há outros dados a acrescentar. Apesar de a Monarquia inglesa
A verdade é que, em matéria de custos as monarquias modernas são ser a única no mundo a manter seu conhecido aparato — por exigência do
extremamente parcimoniosas. Nelas existe o que se chama "lista civil", que turismo, do Parlamento, e por razões ligadas à própria imagem histórica da
é o rol das quantias previstas anualmente, ou qiiinqúenalmente para atender Inglaterra — é notório, para os que pesquisam o assunto, que a manutenção
às suas despesas; esse montante é entregue ao chefe de Estado, mediante do palácio de Buckingham com todo o seu cerimonial, criadagem, carruagens,

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veículos em geral, custam anualmente, em dólares, cerca de 22 a 23% do proporciona, que o deputado Delfim Netto demonstrou que a manutenção do
custo de manutenção do palácio do Planalto, em Brasília! nosso Imperador, com a sua "lista civil", custaria no máximo 2 milhões de
Esses dados já seriam suficientes para demonstrar como a falácia re- dólares anuais ao País, na atualidade; na mesma ocasião, lembrou que Sarney
publicana sobre o custo da monarquia não passa disso mesmo, uma falácia. nos custava 30 milhões de dólares por ano! (Cf. conferência na Faculdade
Acrescente-se: se a Monarquia inglesa mantém outros palácios — Kesington, de Direito de Araçatuba, São Paulo, gravada, arquivo do Autor). A isto,
Hampton Court, Sandringham, Windsor, Balmoral — nós temos outros pa- acrescentaríamos que Collor nos custava, por baixo, 75 milhões de dólares
lácios presidenciais e vice-presidenciais: Alvorada, Riacho Fundo, Laranjeiras, por ano! Tudo isto, relembre-se, só em gastos de manutenção, sem contar o
Jaburu, Rio Negro; e, a proporção nos gastos não se altera. Computada toda dispêndio das campanhas eleitorais. Assim, enquanto que ao fim de 25 anos
a lista civil da rainha da Inglaterra, ela equivale a um custo de US$ 0,33 a monarquia nos teria custado algo em torno de 25 milhões de dólares, nesse
(trinta e três centavos de dólar), anualmente, para cada cidadão britânico; e mesmo período a República nos custaria cerca de 1 bilhão e 900 milhões de
se à "lista civil" fosse correto somar os gastos funcionais com a Chefia do dólares, só na manutenção da presidência; sem contar os cerca de 270 bilhões
Estado propriamente dita — que, no entanto, existiram ainda que o país fosse de dólares estimados pelas agências especializadas, para a eleição de cinco
uma república, porque são gastos da Chefia de Estado, e não da Monarquia presidentes nesse período.
— ainda assim esse valor elevar-se-ia, somente, para US$ 1,82 (um dólar e
A propósito dessas comparações, não custa relembrar as viagens de
oitenta e dois centavos) por habitante, conforme a pesquisa publicada por
José Sarney, Fernando Collor de Melo, João Figueiredo.
Dominique e Michele Frémy, no prestigioso e documentado Quid 90, Edition
Robert Laffont, Paris, 1989, e confirmados pelo Ministério do Interior da No entanto, quando qualquer dos reis atuais viaja, leva consigo quatro
Grã-Bretanha. Em contrapartida, sempre segundo essas fontes autorizadas, a ou cinco pessoas. Em fins do século passado, o rei Dom Carlos I , de Portugal,
Monarquia carreia para os cofres ingleses, em turismo, a bagatela de 350 viajava em comitiva, a bordo do cruzador "Vasco da Gama". Dom Pedro I I
milhões de dólares anuais. Ou seja, a Família Real custa a cada cidadão US$ fez quatro viagens — em cinquenta anos — a bordo de navios de carreira,
0,33; mas, devolve a cada cidadão, US$ 3,30! Fora as indispensáveis funções acompanhado da Imperatriz e do seu médico, pagando as passagens do próprio
institucionais que exerce. bolso, e recusando verbas especiais para o custeio dessas viagens.
E, as outras monarquias ocidentais? A Família Real dinamarquesa custa A república sai mais caro, comprovada e documentadamente. Todos
500 mil dólares por ano, ou seja, US$ 0,09 (nove centavos de dólar) a cada os levantamentos já realizados mostram que isso é assim, porque nas repúblicas
cidadão. A espanhola, US$ 0,10. Da holandesa, não se tem os dados precisos, — mesmos nos Estados Unidos — as autoridades não têm o menor respeito
mas é notório ser ela a mais pobre dentre todas. E, assim, sucessivamente. pela coisa pública, pela "res publica". Agem segundo a concepção de que,
Comparem-se os dados: a presidência e a vice-presidência brasileiras, se o erário é do público, e elas são formalmente os representantes do público,
só elas, sem incluir os órgãos do Poder Executivo, que no sistema presiden- podem dispor desse erário como se fosse seu, enquanto forem representantes
cialista encampa a Chefia de Estado, custam a cada cidadão brasileiro US$ desse público. Disso resulta, paradoxalmente, que, na república a coisa pú-
3,40 (três dólares e quarenta centavos) por ano! blica não é pública, não é do público, mas de quem o representa!
* Sempre foi assim. Lembre-se que Dom Pedro I I recebeu 67 contos de Assim, na República, o Estado foi "particularizado": tudo está à dis-
réis mensais para a sua "lista civil", desde 1840 até 1889; apesar de a arre- posição — é como se pertencesse — não ao público, mas a quem momen-
cadação do país, nesse período, haver crescido 15 vezes. No entanto, no dia taneamente o representa. Se no passado, e até mesmo sob o regime absoluto
seguinte à imposição da República, fixaram para o marechal Deodoro ven- havia confusão entre o cofre público e o cofre do rei; se um dos propósitos
cimentos de 120 contos de réis mensais, sem qualquer obrigação de manter da democracia foi acabar com o regime absoluto; se para isso uma das pro-
palácios ou servidores, com a qual Pedro I I tinha que arcar. posições originais da democracia foi o estabelecimento da república; de tudo
A Família Imperial brasileira é tradicionalmente sóbria. Dom Pedro I I isso, no entanto, resultou a confusão entre o cofre público e o cofre particular
e Da. Teresa Cristina evitavam gastos, com os quais, de resto, não poderiam das autoridades republicanas. Ou seja, ao cabo de mais de duzentos anos, a
arcar. Grandes festas? Já se viu: quatro, em cinquenta anos. Os atuais membros República conseguiu realizar somente aquilo a que se propusera acabar! O
da Família Imperial, são tão sóbrios como os seus avós e bisavós, acostumados que prova o utopismo e a inocuidade da concepção.
que foram às agruras do exílio, ou da infância pobre. Vivem, hoje, como Em contrapartida, as monarquias conseguiram — sem abalos estruturais,
pessoas de classe média alta, quando muito. nem perturbações — realizar o que as repúblicas não puderam: estabelecer
Ao contrário do que os brasileiros foram acostumados a acreditar e a uma rígida e concreta — não somente teórica — separação entre o patrimônio
repetir de olhos fechados, é tão óbvia a questão da economia que a Monarquia do Estado e o dos que ocupam os seus órgãos.

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Exemplo claro da ótica republicana em relação ao dinheiro público, é
o notório endividamento dos bancos oficiais, no Brasil, para custear as cam- que o rei Juan Carlos I , da Espanha, incompatibilizável com o radicalismo
panhas eleitorais dos candidatos a cargos eletivos. quando integrantes dos esquerdista do Partido Socialista Operário Espanhol, fez questão de entregar
"esquemas" políticos dos governos federal e estaduais. Em geral, é dinheiro o governo ao líder desse partido, Felipe Gonzalez, quando ele logrou maioria
"emprestado" a fundo perdido: as contas correntes nas quais os saques são nas eleições gerais? Em contrapartida, Miterrand, chefe de Estado com a
feitos, permanecem a descoberto até o dia em que, através de simples lan- falaciosidade do meio ambiente político republicano, fez proezas para manter
çamento contábil, os saldos devedores deixam de existir como tal... o seu Partido Socialista no poder, apesar da flagrante rejeição da opinião
Outro exemplo, e histórico — mas que tem similares todos os dias, pública francesa...
não veiculados por serem de menor repercussão — foram as "deinarches" A moral e a ética são irmãs gémeas. Seu conjunto forma a retidão
que marcaram o início do processo de "impedimento" do presidente Collor. pessoal, a honestidade. Só a honestidade faz económico um regime político.
Inicialmente, o Congresso resolvera não instalar uma CPI para apurar as Tudo isso põe a nu o mito republicano sobre o custo da monarquia. Tanto
fraudes do esquema PC Farias; porque a apuração dos fatos levaria inevita- orgânica, quanto institucionalmente, a monarquia é muito mais barata do que
velmente ao presidente. Depois, para salvar as aparências e a própria face, a república; mais barata, mais sincera, mais humilde, mais autêntica e, so-
o Congresso resolveu instalar a CPI. mas com a ressalva de que o chefe de bretudo... mais honesta. Mais moral e mais ética. Reitere-se : o que pensar,
Estado não poderia ser investigado, mesmo que as conclusões da Comissão
quando uma Presidência custa US$ 3,40, e as monarquias custam de US$ 0,10
conduzissem a ele. Ou seja, ninguém cogitou de moralidade, transparência
a US$ 0.33 anualmente, para cada cidadão? Por que é assim? Simples: porque
ou "res pública": a ótica generalizada era a de que, amanhã, o mesmo poderia
o meio ambiente da política republicana afasta qualquer prurido de moral,
acontecer a qualquer dos presidenciáveis, se chegasse lá; por isso, nessa pri-
ou de ética; e, porque a Monarquia é calcada na honra pessoal. Por mais
meira fase Collor teve a solidariedade de Leonel Brizola e Orestes Quércia,
que não queiram vê-lo aqueles que não conseguem se libertar das hipócritas
dentre outros. Depois, vislumbraram a possibilidade de depô-lo, e com isso
aumentarem suas fatias de poder no eventual governo Itamar Franco, tudo e falaciosas concepções republicanas.
com vistas às eleições de 1995. Então, foi como se viu. O que mais dizer,
sobre a moral republicana? 7.10 — SOBRE A "MODERNIDADE"
Poderia esse sistema, de "terra de ninguém", ser mais económico do
que a monarquia, sistema calcado na honra pessoal? Como deixar de pensar Depois do que foi lembrado na Introdução a este livro, ainda que o
em Dom Pedro II partindo sem um níquel, para o exílio, depois de ser chefe tenha sido brevemente, o tema dispensaria maiores comentários.
de Estado durante quase cinquenta anos? Se qualquer presidente, governador, Se constitui uma eloquente prova do espírito de modernidade do Im-
ou até mesmo prefeito, fica rico depois de quatro anos de mandato? Como pério, por exemplo, ter feito do Brasil o segundo país do mundo a instalar
não pensar em que nesse transe o velho e doente Imperador recusou os cinco linhas telefónicas regulares, também constitui algo inimaginável que a Re-
mil contos de réis (o preço de quatro e meia toneladas de ouro!), e foi morar pública, em 103 anos, não tenha sido capaz de cobrir de linhas telefónicas
num hotel de terceira classe em Paris? Como esquecer as palavras com que todo o território nacional.
recusou esses cinco mil contos de réis do governo provisório republicano:
Se o Império foi capaz de, sem um só tiro, abolir a escravidão —
"Que autoridade têm esses homens, que se dizem governo, para disporem
quando os Estados Unidos só o conseguiram no contexto da mais sangrenta
assim do dinheiro da Nação"? Como esquecer que, quatro semanas depois
em Lisboa, os funerais da imperatriz Da. Teresa Cristina tiveram que ser guerra das Américas — constitui desídia indesculpável não haver sido a Re-
pagos por um português que fizera fortuna no Brasil, porque o Imperador pública, 103 depois, capaz de integrar plenamente o negro à sociedade bra-
do Brasil não tinha dinheiro para pagá-los? sileira. Reveja-se que. desde quando se tornaram independentes, até extin-
guiram sua escravidão, os Estados Unidos levaram 86 anos; a Monarquia
Tudo isso é a retidão, a honestidade. Mas, e a ética, que também é
brasileira, de 7 de Setembro de 1822 até 13 de Maio de 1888, levou 66
móvel da decência, e consequentemente, de economia? Como não meditar
(sessenta e seis) anos. Vinte anos menos, portanto. Reveja-se que, da extinção
em que a princesa Isabel, Regente, confidenciou a amigos que temia pudesse
a libertação dos escravos ser causa da queda do trono, e ainda assim não do tráfico até a abolição, os Estados Unidos levaram 57 (cinquenta e sete)
hesitou em patrocinar o projeto da "Lei Áurea", e em sancioná-lo. depois? anos; o Brasil, levou somente 38 (trinta e oito) anos!

Como não lembrar que, em 1991, o rei Balduíno I , da Bélgica, licen- Se o Império brasileiro construiu 10.000 (dez mil) quilómetros de es-
ciou-se do trono por um dia, para permitir que o Parlamento promulgasse a tradas de ferro, antes mesmo que os Estados Unidos estivessem convencidos
Lei sobre o Aborto, à qual era pessoalmente contrário? Ou, como esquecer desse meio de transporte, parece que essa simples referência basta para de-
monstrar o grau de modernidade que então nos imbuía.
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Por outro lado, o fato de termos uma economia tão sã quanto possível, responsabilidade, na paz social interna, caracterizada por igualdade de opor-
para o mundo da época, também não pode deixar de ser visto como prova tunidades e direitos de criação e produção segundo as qualidades de cada
de modernidade. indivíduo; segurança externa; estabilidade da moeda, tanto interna, como
O que dizer dos demais dados comparativos, expostos nos precedentes externamente. A partir desses pressupostos essenciais, outros lhes são con-
itens 3.3.7 ("Moralidade pública"), 3.3.8 ("Ordem jurídica"), 3.39 ("A repre- sequentes, traduzindo no seu conjunto a consecução do bem comum. Para
sentação eleitoral"), 3.3.10 ("O aspecto social"), 3.3.11 ("O progresso"), 3.3.12 isto, precisamente, é que a sociedade erige o Estado como "órgão" adminis-
("A educação e o ensino") e 3.3.13 ("A posição internacional")? trador desses interesses e necessidades.
O que dizer, ainda, da insistência da Monarquia brasileira em instituir Ocorre que o Estado é somente uma pessoa jurídica, um ente imaterial.
o voto universal, finalmente aprovado pela Lei Saraiva (1881), quando só Sua existência é exclusivamente legal. Todos os seus atos, ou seja, os atos
em 1991 a Suíça concedeu direito de voto às mulheres? praticados no seu nome, o são pelos agentes públicos que ocupam os seus
cargos. Aqui, exatamente, insere-se a questão monarquia vs. república.
Assim, para quem examina também a questão da modernidade com
olhos de lucidez e desengajamento, a terceira fase do Império foi — propor- Antes de qualquer outra consideração, é de ser lembrado que o regime
cionalmente aos meios do seu tempo — um período ímpar de progresso e republicano — salvo quando original — jamais consegue levar adiante a
avanço na nossa História, jamais igualado pela República. consecução do bem comum. A História prova que as repúblicas se debatem,
interminavelmente, entre os extremos de maior ou menor ingovernabilidade,
7 . 1 1 — 0 BEM COMUM ou de uma falsa governabilidade, momentaneamente conseguida à custa de
autoritarismo, de hegemonia de um dos Poderes políticos sobre os demais,
e até mesmo do arbítrio. Em qualquer desses dois extremos, inevitavelmente,
O bem comum é o conjunto de interesses de uma sociedade. Sua pro-
fica patente a incapacidade do sistema para propiciar o bem comum, eviden-
moção não se resume, simplesmente, em construção de obras públicas, ou
ciando a inviabilidade prática de sua teoria.
em aumento de salários. Nem, tampouco, na desnecessidade do trabalho e
no aumento do lazer, como filosofia de vida a ser alcançada na prática. Nem Em virtude da apontada inviabilidade — congénita, como se verá —
finalmente, em qualquer outra concepção ou atividade de que resulte o avil- as constantes dos regimes republicanos são tão notórias, que sequer neces-
tamento do potencial criativo e produtivo dos membros da sociedade, ou a sitar-se-ia apontá-las. Entretanto, algumas não podem deixar de ser lembradas:
sua desmotivação pessoal para a prosperidade em todos os sentidos. Ao con- a) se há períodos de aparente estabilidade política, eles são sempre o
trário, o bem comum cifra-se na existência e no crescimento do potencial resultado de semi-ditaduras partidárias, de autocracias legislativas, de restri-
criativo e produtivo, assim como na motivação pessoal dos membros de uma ções ou irreconhecimento puro e simples de direitos, da atitude complacente
sociedade em direção à consecução, manutenção e ampliação de sua pros- de governantes que permitem a todos a corrupção ou dela se utilizam, ou,
peridade em todos os sentidos, até os limites possíveis. ainda, de ditaduras propriamente ditas, munidas de poderes excepcionais e
Registre-se que, a expressão "prosperidade" não está aplicada exclusi- arbitrários (às vezes, de tudo isso ao mesmo tempo);
vamente no sentido material e biológico, mas também no sentido moral, ético b) se há períodos de aparente prosperidade económica, eles são con-
e humanístico-cultural em geral, assim como no científico e tecnológico. Além seguidos à custa de medidas artificiais ou protecionistas, sempre injustas, que
disso, a expressão "limites possíveis" lembra a inadequação de pretender-se permitem o enriquecimento de algumas classes, em troca do empobrecimento
níveis de ampliação dessa "prosperidade", a tal ponto que se tornem preju- da maioria da sociedade; é por isso, aliás, que nas repúblicas a média aritmética
diciais a ela mesma, por serem contrários ao equilíbrio que deve instruir de renda "per capita" não traduz a verdade da distribuição interna de renda,
todos os empreendimentos. Exemplos típicos de ampliação que termina con- com insignificantes minorias numéricas detendo a quase totalidade da riqueza
tra-produce nte, e prejudica a consecução do bem comum, são, dentre outros: indicada nesses índices;
a explosão demográfica; o excesso de facilidades materiais, que conduz à c) se há períodos de aparente estabilidade da moeda, isso é conseguido
errónea valoração de sua importância, e ao conseqiiente afrouxamento moral; através de manipulações igualmente artificiais, que não traduzem a realidade
a ótica que vê a atuação do Estado como fim — o "esperar tudo do Estado" económica; e,
— e não como meio para serem alcançados os diversos aspectos do bem d) finalmente, a corrupção campeia sempre, em maior ou menor grau
comum, que, no entanto, jamais prescindirá das qualidades e das iniciativas institucionalizada, como método de conquista ou aumento de poder político
pessoais de cada um dos membros de uma sociedade. e económico, e de sucesso pessoal.
Em suma, é possível sintetizar os pressupostos essenciais propiciadores Tão notórios quanto aquelas constantes, são os fatos que as evidenciam.
do bem comum, sem exclusão de outros pressupostos, na liberdade com Quanto ao Brasil, tanto do ponto de vista político, como do económico, eles

182 183
já foram lembrados anteriormente, desde a Introdução a este livro. Cumpriria sociedade. Ademais, pairando acima das fugazes mudanças de maiorias ou
ressaltar, porém, do ponto de vista económico, a pequena multidão de ministros combinações políticas, e dos governos, e por definição protegendo as minorias,
da Fazenda, e o extenso rol de planos e "pacotes" económicos, políticas congrega em torno de si todos os segmentos da nacionalidade, incutindo
salariais, cambiais, fiscais, e moedas diferentes que o País teve nos últimos continuidade à consciência nacional e ao progresso de natural evolução social,
50 anos; além. naturalmente, da inafastável e sempre crescente desvalorização sem o continuismo oligárquico próprio dos governos.
dessas moedas, do quase inverossímil aumento interno dos preços, do em- As repúblicas não dispõem dessa Chefia de Estado, que é própria das
pobrecimento da população, do aumento da miséria propriamente dita, e da monarquias. Por isso, o regime republicano jamais consegue promover o bem
mortalidade infantil, igualmente mencionadas em páginas anteriores. Sem es- comum.
quecermos o comprovado decréscimo na média do quociente de inteligência Embora as Constituições republicanas venham tentando se aprimorar
(QI), e o inquietante alheiamento da capacidade cultural. no sentido de prover a essa indispensabilidade, tem se mostrado impossível
Como ficou dito. o fenómeno não é do Brasil, nem de um ou outro consegui-lo com os chefes de Estado oriundos de injunções políticas. Nas
país, nem de muitos países, mas de todos aqueles nos quais vigora o regime repúblicas parlamentaristas, já se viu, são presidentes parciais, que não podem
republicano, resultado do canto de sereia de filósofos utopistas, cujas elocu- dar o mesmo tratamento a todos os segmentos sociais e políticos. Por outro
brações alienadas e simplistas deram nascimento a teses académicamente per- lado, nas repúblicas presidenciais, os presidentes são muito mais chefes de
feitas, mas concretamente deficientes e prejudiciais. governo, do Poder Executivo; são "chefes de Estado governantes". Desgas-
Nenhum outro país, de resto, parece melhor exemplo do que a própria tam-se diariamente nas decisões e tarefas executivas, no atendimento às rei-
França pós-Revolução: basta que se examine o cíclico revezamento daquelas vindicações dos seus partidários, e nisso cometem toda a sorte de parciali-
notórias constantes do regime republicano na vida do país durante os últimos dades; deixam em branco a personificação da sociedade como um todo, e
duzentos anos. Foram períodos de aparente prosperidade, minutos de euforia da unidade nacional. Sequer podem servir como referencial de estabilidade
igualitária levada às raias da irresponsabilidade, seguidos de estágios milita- à política, porque são eles próprios militantes políticos; nem podem incutir
ristas, com vários desastres militares, regimes frustrados, regimes autoritários, sentido de perenidade à consciência nacional, porque os seus mandatos são
governos de exceção, tentativas de ditaduras, e ditaduras declaradas. E, sem- efémeros.
pre, crescendo a corrupção. Uma coletividade, para ter a consciência nacional que a caracterize
Esse quadro se verifica, também, em relação à Alemanha, Portugal e como Nação, precisa de referenciais nacionais permanentes. Precisa ter um
outros países, desde que adotaram o falaz republicanismo, oriundo do canto símbolo referencial da sua personificação, porque a Nação é permanente, só
da sereia revolucionária. Em todos esses constantes transes nacionais, sempre, os governos devem ser temporários.
uma causa comum: a inexistência de um ponto de equilíbrio. A interinidade intrínseca aos mandatos presidenciais não propicia a
O fenómeno da congénita frustração do regime republicano, se tem realização de projetos nacionais que concretizem o bem comum. Primeiro,
origem mediata na sua própria concepção doutrinária, encontra causa imediata porque sua transitoriedade exclui o compromisso com a continuidade que é
na inexistência de um ponto de convergência e neutralização das tensões própria da identificação nacional, e da sua perenidade; não é por outro motivo
políticas, oriundas da pressão dos interesses diversos que atuam simultânea que os valores nacionais entraram em desagregação, desde que as revoluções
e concorrentemente sobre o Estado, demandando resposta às suas pretensões. americana e francesa introduziram o sistema republicano. Segundo, como
Esse ponto nevrálgico é, precisamente, a Chefia de Estado insuspeita, porque consequência, porque desde que se empossa um presidente, é natural que se
não comprometido o seu titular com o próprio sucesso político, ou sobrevi- pense sobre quem será o seu sucessor: a sucessão, afinal de contas, será
vência política, nem vinculado anteriormente ou presentemente a qualquer quase amanhã — quatro anos, cinco, seis, sete, no máximo!— Essa interi-
segmento político, nem de qualquer deles dependente para a sua permanência nidade institucional é causa concreta da instabilidade, de improvisação, e de
no cargo; além disso. Chefia de Estado imparcial, não só como consequência falta de identificação nacional. Além de ser causa de ineficiência da Admi-
de sua insuspeição, mas também do fato de o seu titular não estar jungido nistração, que é acionada para garantir a influência — quando não, a sobre-
à prevalência de qualquer daqueles interesses, ou de alguns deles sobre os vivência — política do presidente, durante e após o seu mandato; pois, a
demais; e, finalmente, Chefia de Estado que atue de forma homogénea e Administração é sempre acionada casuística e improvisadamente: nunca é
contínua, em virtude de perene permanência do seu titular. Qual pára-raios utilizada para garantir a continuidade serena dos objetivos do Estado.
para o qual confluem as descargas eletromagnéticas, recebe o seu impacto e Ao contrário, o chefe de Estado vitalício dá à sociedade a perfeita
neutraliza o seu ímpeto, essa Chefia de Estado suporta adequadamente o noção de continuidade; a marca de uma era, através de uma ótica permanente,
impacto das pressões sobre o Estado, neutralizando os seus efeitos sobre a isto é, através da maneira de ser e de comportar-se que lhe é peculiar.

184 185
Sobretudo, reitere-se, o monarca — imperador, rei, príncipe, não importa sidade de uma Chefia de Estado com as características que só a monarquia
o título nacional — por situar-se à margem e acima dos partidos e da política, oferece: entretanto, ainda hoje são poucas as personalidades suficientemente
é uma garantia constante de proteção às oposições, às dissidências e aos autênticas para desatrelarem-se, de público, dos antolhos que foram secular-
novos rumos desejados pela sociedade: uma espécie de líder natural das mente impostos à cultura. Primeiro, pela literatura revolucionária do século
oposições, ou de defensor permanente de novas idéias, de mudanças conse- X V I I I , depois pela doutrina do liberalismo, mais tarde pela onda do marxismo
quentes aos fatos e realidades sociais. e do proletarismo, e finalmente pelo denominado "modernismo", pelo popu-
Por que é assim, se aparentemente isso significa um paradoxo, algo lismo, e pelo progressismo em geral. Tornou-se moda e bom-tom, nos meios
que é a antítese da rotatividade — o chefe de Estado vitalício e hereditário ditos "intelectuais", ser "de esquerda", ser "progressista"; trata-se da famosa
— propiciar, pela sua simples existência e presença, a evolução, a renovação grife. Na verdade, essa grife nada mais revela senão pouca cultura, pouca
política e social? A resposta é simples, exatamente como na física prova-se visão histórica, e pouco raciocínio, quando não interesse pessoal puro e sim-
que os poios opostos se atraem: o chefe de Estado hereditário e vitalício é ples; a mediocridade, enfim. Na atualidade brasileira, aliás, reconheça-se,
garantia da renovação e da evolução, pelo simples fato de o seu poder não esta é a regra*.
provir da política, nem pertencer à política. Por isso, precisamente, o monarca De qualquer modo, pelas razões apontadas, os teóricos republicanos
não vive preocupado com a sua sobrevivência política. Além disso, por ser jamais poderiam reconhecer explicitamente o mais fatal dos calcanhares de
a personificação natural da sociedade, símbolo referencial da nacionalidade, Aquiles do regime, a falta de uma chefia de Estado à feição monárquica; até
é livre para sentir — instintiva e institucionalmente — os anseios de sua porque, ainda vivem jungidos ao mito que impõe uma errónea — e, inade-
sociedade: não impede os anseios dessa sociedade; ao contrário, sente-os em quada para os dias de agora — aplicação do princípio da igualdade.
si, e estimula-os, Para resolver o problema de ter algo de que necessita, mas cuja exis-
tência não pode reconhecer sob pena de auto-desconfirmar-se, o regime re-
O comportamento dos monarcas não é possível a quem é levado ao
publicano evoluiu para uma paródia: criaram-se chefias de Estado eletivas,
cargo através de eleições ou a quem chefia um governo. Porque, um e outro
no sistema parlamentarista, através da figura de presidentes que correspon-
têm que cuidar de interesses outros, preocupações que não assaltam àqueles.
deriam aos reis: longos mandatos, passíveis de reeleições sucessivas, funções
Tais preocupações, como regra, são sempre oligárquicas, e opostas aos inte-
representativas, e moderadoras em alguns aspectos. E óbvio que o "expe-
resses da coletividade. Pois as oligarquias vivem de um permanente sistema diente" jurídico-político não poderia funcionar, como não funcionou: faltam
de "tirar" do público e de impedir a liberalização da sociedade. a esses simulacros de reis a imparcialidade, a perenidade, o desinteresse po-
Relembre-se: a maior prova de tudo quanto até aqui se disse e mostrou lítico pessoal, a vinculação geral com a sociedade, e todos os demais atributos
foi fato de em apenas 67 anos, a Monarquia haver construído no Brasil que são próprios da monarquia. Os regimes republicanos contribuirão sem
fundamentos tão fortes — embora não concluídos — que o País foi capaz conseguir promover o bem comum.
de, até agora ainda sem se desintegrar, resistir aos 103 anos da incapacidade
e da insinceridade destruidoras que se lhe seguiram. Essa obra só foi possível
graças à sua naturalidade, isto é, à correspondência entre a estrutura do Estado
monárquico e a realidade da nossa sociedade. Ao contrário, para acabar com
a monarquia o revolucionarismo do séc. X V I I I matou um rei, uma rainha,
um príncipe herdeiro, e dezenas de milhares de partidários do regime, mas
não conseguiu o seu intento: já se viu que na Segunda Guerra Mundial o
general de Gaulle teve que apelar ao conde de Paris, para unir a Resistência.
Além disso, note-se: os duzentos anos que se iniciaram com o Terror, passaram
por vários golpes de Estado, despotismo, guerras perdidas no exterior e no
próprio território, quatro ocupações estrangeiras do país, corrupção perma-
nente, escândalos financeiros de toda a sorte, também não conseguiram, lá,
acabar com o país, ou seja, com a obra de consolidação nacional construída
pela sua monarquia. Essa obra, só foi possível- pelas mesmas razões que a * Significativo verificar que entre os constitucionalistas portugueses, por exemplo, no
realizada pela Monarquia brasileira. passado e no presente foram produzidas obras de grande fôlego e profundidade. Mas, por ser o
conhecido Gomes Canotilho um "jurista de esquerda", suas obras tomaram-se uma espécie de
Finalizemos estas conclusões notando que os regimes e doutrinadores coqueluche entre os mais afamados lentes das universidades brasileiras nos dias atuais. Como
republicanos, em quase todo o mundo, têm perfeito conhecimento da neces- foi Evgeny Pasukanis (Teoria Geral do Direito e Marxismo) nos tempos áureos do comunismo.

186 187
8 — Perspectivas de reintrodução
da Monarquia no exterior

O ciclo inaugurado com a Revolução Francesa, como todos os ciclos,
parece aproximar-se do seu fim. Não um fim marcado por um só fato histórico
espetaculoso. mas por um conjunto de fatos cuja importância nem sempre é
suficientemente compreendida no momento em que acontecem. Tem sido
assim ao longo da História, e já se viu que a História não é um mero repositório
ou arquivo de lembranças, mas algo dotado de dinâmica própria e inexorável.
Aluando, precisamente, por meio de ciclos.
A Revolução Francesa, com sua radical derrubada de valores e de con-
cepções, abalando tronos e derrubando sistemas, foi o fato espetaculoso que
permite localizar mais comodamente o início de um ciclo. Mas não foi ela
sozinha que caracterizou esse ciclo, nem o representa isoladamente. Outros
faios integram com ela um conjunto: a obra de Pico delia Mirandolla. o
consequente renascentismo. a época do iluminismo, a era da razão, e o lan-
çamento e difusão da teoria de Montesquieu, por exemplo, são apenas alguns
desses fatos, alguns anteriores a ela. O império napoleónico, a deposição de
Carlos X. a "Monarquia de Julho", o manifesto socialista de Ferdinand Las-
salle, o manifesto comunista de Karl Marx, e a encíclica "Rerum Novarum"
de Leão XIII, são outros desses fatos, assim como a Revolução Russa e a
derrubada do muro de Berlim.
Todos os ciclos deixam valores ou efeitos duradouros; assim como
efeitos que, pelo seu excesso, precisam ser revistos ou melhor vistos. E a
depuração do que fica e do que sobra afunila-se, precisamente, à medida que
o ciclo se aproxima do seu final e de sua substituição.

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A noção de liberdade é um dos efeitos duradouros que a Revoluça© s seculares monarquias e dinastias, como única forma de pacificar suas
Francesa deixou, embora a sua perfeita caracterização ainda esteja longe dé ¡edades e sua vida política.
ser conseguida. O mesmo se diga em relação aos conceitos de cidadania ¿
de igualdade. Como sempre ocorreu, a dificuldade de caracterização, com o¿ g j _ ROMÉNIA
consequentes avanços e retrocessos, corre na esteira do radicalismo e doà
excessos que foram imprimidos à aplicação desses valores ou efeitos. Com Na Roménia, as possibilidades de retorno da monarquia são consistentes.
grandes prejuízos a serem repostos. Tanto que o rei Miguel I foi recebido com grande entusiasmo popular, na
O excesso que ocorreu em relação à eliminação do absolutismo consistiu sua única visita ao país após a queda de Ceausescu; e o fato de o governo
em ligá-lo indissoluvelmente à monarquia, na ótica doutrinária da Revolução- 5 do presidente Ion Illiescu haver proibido sua entrada no país, após aquela
e, consequentemente, por via dessa associação incorreta, no derrubar os usos} primeira visita, é prova inconteste da força da monarquia: ninguém se preocupa
tradições, institutos monárquicos, quando o que se pretendia era derrubar o em combater inimigo morto. Estima-se que a monarquia conte com mais de
absolutismo. Aliás, à própria época da Revolução havia o exemplo da In-¡ 30% de aceitação.
glaterra — que já vivera quase um século com os reinados parlamentares de
Guilherme I I I e Maria I I . Anna, Jorge I e Jorge I I — a sinalizar no sentido g.2 — HUNGRIA E ÁUSTRIA
de que absolutismo e monarquia não eram irmãos siameses.
A Revolução, e seu produto napoleónico, abalaram profundamente as; Na Hungria, o arquiduque Otto de Habsburgo foi surpreendido, em
instituições na Europa inteira. Como, porém, todo ciclo caminha para o seu 1990, com 1500 pessoas que se acotovelavam num auditório de quinhentos
final a partir mesmo do momento em que surge, a depuração dos excessos» lugares, para vê-lo, em sua primeira visita ao país em setenta e cinco anos.
em relação à monarquia começou quase que ao mesmo tempo. Já sem ab- E, note-se, ele ali não fora como pretendente à coroa húngara, mas como
solutismo, os Bourbons voltaram a ocupar o trono francês (1815), logo após deputado ao parlamento europeu. A partir dessa visita, os monarquistas hún-
a derrocada napoleónica: o mesmo ocorreu com a Grécia, a Bélgica e á garos passaram a articular um movimento não desprezível pela volta da mo-
Holanda, que se instalaram como nações independentes (1830), com monar- narquia. É certo que Otto, embora aureolado com a condição de Príncipe
quias parlamentares. Ao longo dos últimos 200 anos, essa depuração de ex- Herdeiro do Império Austro-Húngaro, filho de Carlos I , último Imperador
cessos e reposição de valores prosseguiu; no seu processo normal, evidente- da Áustria e rei da Hungria (1916-1918), está com mais de 80 anos; isso,
mente, ou seja, com avanços e recaídas. É, sobretudo, um processo lento, porém, em nada abala o movimento monárquico húngaro, até porque Otto
porque os abalos causados haviam sido muito profundos. têm sucessão regular. Além do seu inegável carisma pessoal, e do prestígio
Tudo indica que se esteja chegando ao fim do ciclo, e dos efeitos de sua falecida mãe, a imperatriz-rainha Zita, Otto e sua descendência tem
revolucionários gerados em 1789. A derrubada do muro de Berlim não sim- a seu favor o fato de seu pai haver sido solenemente coroado rei da Hungria,
boliza somente a liberdade da parte oriental da cidade, mas de todo o chamado em 1917: para os húngaros, essa circunstância tem um valor indestrutível.
Leste Europeu. Com ela, o homem do "fim de siècle", já agora do século A aceitação da monarquia, no país, está acima de 25%.
X X que abre espaço para o século X X I , recuperou o seu livre arbítrio em Na Áustria, secularmente a "pátria" supranacional dos Habsburgos no
termos psico-políticos; sobretudo e não só no Leste europeu — a soberania seu vasto império, as chances da monarquia parecem ser algo menores do
sobre o próprio pensamento. que na Hungria. Uma das causas é a germano-americanização do país, após
Nesse contexto, não é possível dizer se a idéia monárquica — que a Segunda Guerra Mundial; outra, apesar disso, ou por causa disso, é a sensível
retorna em toda a Europa — está sendo beneficiária, ou se, ao contrário, é influência de pensamento residual nazista — Hitler banira os Habsburgos; e
uma das causas impulsionadoras. O fato é que quase todos os países do Leste finalmente, porque o pai de Otto, Carlos I , embora tenha sido imperador de
europeu voltam em maior ou menor medida a venerar os seus antigos reis, 1916 a 1918, jamais foi coroado na Áustria. Entretanto, se são menores do
ou os descendentes destes, e pretendenles às respectivas coroas. Não se perca que na Hungria, não são inexistentes as possibilidades da monarquia na Áus-
de vista que a derrocada dos regimes comunistas na Europa do Leste, e na tria: se lá ela ostenta um honroso percentual de aceitação, na Áustria também
própria União Soviética, integra-se ao fim do ciclo da Revolução Francesa. mantém de 15 a 20%. O que, convenhamos, é mais ou menos igual ao elei-
Naturalmente, essa derrocada levará algum tempo para se acomodar em termos torado regular do PT no Brasil.
político-jurídicos, comportando, eventualmente, retrocessos. Mas, não podem Observe-se, a propósito, que a eleição do arquiduque Otto como de-
restar dúvidas: ela contém revisão de conceitos exagerados por aquela Re- putado ao parlamento europeu foi consagrada por uma significativa votação
volução. E, não se pode deixar de considerar que no ano de 1993, dois países popular. E, mais recentemente, o próprio presidente da República da Austria,
africanos (Suazilândia e Buganda) e um asiático (Camboja) restabeleceram fazendo coro a inúmeras outras notabilidades políticas do país, instou para

190 191
que o arquiduque se candidatasse à sucessão presidencial; e, lamentou a recusa
a fortalecer a secular imagem dos Sabóia; se toda a cúpula do fascismo
desse príncipe, dizendo que ele representa uma das melhores dentre as grandes/
italiano — a começar pelo próprio Mussolini — era convicta e devotadamente
gerações de estadistas que os Habsburgos produziram.
monarquista, os escalões inferiores — com o radicalismo simplista (ou sim-
plório) próprio dos que têm menos conhecimento — desprezavam o rei. Esse
8.3 — BULGÁRIA
desprezo, em parte, era aquele próprio do mau vencedor para com o vencido
o fascismo se impusera ao rei — e em parte era devido à admiração, ou
Na Bulgária, a monarquia e o pretendente Simeón I I , da dinastia de
pelo menos à mescla de respeito e temor, que nutriam por Hitler. O fato é
Saxe-Coburgo, que foi rei nominal quando ainda menino ao fim da Segunda
que a figura de Vitor Manoel I I I , face à política, não foi de molde a fortalecer
Guerra (é filho e sucessor do rei Bóris I , assassinado pelos nazistas), contam
ou manter a Monarquia. Observe-se que o regime de Mussolini começou em
com cerca de 10 a 15% de aceitação. Fato significativo, foi a primeira visita
1922, com a histórica "Marcha sobre Roma" — permitida pelo rei; portanto,
da rainha Joana de Savoia (viúva de Bóris III) ao país, em agosto de 1993,
depois de quase meio-século de exílio: milhares de pessoas foram recebê-la durante 23 anos (1922-1945) Vitor Manoel conviveu com o fascismo. E, se
em sua chegada ao aeroporto de Sofia; e mais de oitenta mil pessoas, portando essa "marcha" pôde acontecer, foi porque o rei não se saiu como seria de-
bandeiras e fotos de seu filho Simeón, foram vê-la na missa que, em homenagem sejável, na sua função de símbolo nacional, e de árbitro entre as correntes
à sua visita e por intenção do finado rei, foi rezada no mosteiro de Bila. políticas: a política italiana tornara-se uma baderna; e foi isso que propiciou
o surgimento e crescimento dos fascistas e a sua famosa "Marcha".
8.4 — PORTUGAL Se do lado dos fascistas o rei era mais ou menos desprezado, no lado
dos antifascistas ele era execrado, precisamente, por haver tolerado que aque-
Em Portugal, o índice de aceitação da monarquia, aparentemente, si- les empolgassem o poder, e depois convivido com eles.
tua-se nos mesmos 15% a 20%. Mas, nada permite afirmar que esse índice Portanto, o reinado de Vitor Manoel I I I não fora de molde a trazer
formal não seja apenas isso mesmo, isto é. formal: e que num eventual plebis- brilhos para a monarquia italiana. Mas, não há a menor dúvida de que a
cito ele não viesse a se mostrar acima dos 35%. Pois poucos países existem, surda oposição do príncipe de Piemonte (príncipe herdeiro) Humberto, mais
na Europa, cuja consciência nacional seja tão estreitamente ligada à saga tarde Humberto I I efemerame.nte (35 dias), graças à fraude eleitoral dos aliados
histórica nacional e mundial de sua monarquia. O atual pretendente é o duque — a tudo quanto o pai fez, e ao fascismo, foram capazes de contrabalançar
de Bragança, Dom Duarte Pio, tetraneto de Dom Miguel I , único irmão do o prejuízo e manter o sentimento nacional italiano pela monarquia. Deposto
nosso Dom Pedro 1 (quando terminou a linhagem de D. Pedro I , com a morte pelo "plebiscito" do general Mark Clark, esse rei conservou por toda a sua
do ex-Rei Dom Manoel I I , sem descendentes, a sucessão ao trono português vida a chama da monarquia. Com o seu charme e o seu notável carisma
retornou à descendência de Dom Miguel I). Existe um movimento monárquico pessoal, sem dúvida, mas sobretudo com o prestígio de ter sido a vida toda
mais ou menos regular e consistente; esse movimento, inclusive, teve atuação um opositor, e uma figura não confiável para o fascismo.
na Assembléia Constituinte, após a "Revolução dos Cravos", para abolir a O filho e sucessor de Humberto I I , teoricamente Vitor Manoel I V , não
"cláusula pétrea" republicana, mas, não o conseguiu. O duque de Bragança tem ajudado muito à monarquia italiana. Extremamente dado à chamada "dol-
é sobrinho — filho de uma irmã — do príncipe Dom Pedro Gastão de ce vita" — inclusive já tendo passado por fases agudas de outras antivirtudes
Orleans e Bragança, de Petrópolis. — sua figura em quase nada personificou, até agora, um rei ou virtual rei.
Ainda assim, o sentimento monárquico italiano autoriza, sem exageros, falar-se
8.5 — ITÁLIA no percentual antes referido, no caso de uma consulta ao eleitorado. Lem-
bre-se, a propósito, que a Constituição italiana contempla a famigerada "cláu-
Na Itália, as possibilidades da monarquia oscilam em torno de um índice
sula pétrea" republicana. Na idade madura, Vitor Manoel IV assumiu os
de 10 a 15%; mas, como em Portugal, nada autoriza supor que. numa eventual
deveres como chefe da Casa Real de Savoia: seu comportamento tornou-se
consulta ao eleitorado, esse índice não se mostrasse num patamar bastante
adequadamente sóbrio, a "dolce vita" da juventude foi esquecida; a sólida
superior.
formação histórica e humanística prevaleceu, e fez aflorar a figura do dinasta
Não se pode esquecer que o plebiscito realizado sob "supervisão" das autêntico, representativo do início de um novo milénio. Impedido de ir ao
forças de ocupação norte-americanas, em 1945. teve os seus resultados adul- seu país (o solo italiano é interditado a ele, pelas leis republicanas), o príncipe
terados e impostos pelos "supervisores", pois a vitória da monarquia, então, de Nápoles namora sua pátria desde a residência da ilha de Cavallo, na
fora flagrante. E certo que as atitudes dúbias e oscilantes do rei Vitor Manoel Córsega, da qual pode ver próximo o litoral italiano. Dedicado à família e
III (Vitório Emmanuele) em relação ao regime fascista, não foram de molde aos eventos sociais e representativos, anualmente preside o Capítulo da Ordem
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dos Santos Maurício-e-Lázaro, cuja séde é localizada na vila de Saint Maurice jos tempos de rei Paulo. Nos dias presentes, tudo indica que esse percentual
d'Agaune, no Valais suiço; nessas ocasiões, faz-se acompanhar de seu filho! tenha caído para cerca de 15 a 20%. Não se pode deixar de levar em conta,
e sucessor, Emmanuel Filiberto, ao qual nomeou príncipe de Veneza. , > porém, que em Setembro de 1993, na primeira viagem que fizeram ao país
Entretanto, em matéria de monarquia italiana, não se pode deixar de desde o seu exílio, o rei Constantino e a Família Real foram a tal ponto
levar em conta que a península itálica continha dois reinos, o da Sardenha aclamados e assediados pelas multidões que acorriam aonde estivessem, que
e o das Duas Sicílias (Casa de Bourbon-Sicílias). A capital deste último era' o governo republicano grego tomou a deliberação de aplicar-lhes uma espécie
Nápoles. Foi há cerca de 130 anos que o rei da Sardenha, ajudado por vo- de conftnamento, determinando — já em meio à visita — a quais cidades
luntários e mercenários de muitos países (inclusive o casal Giuseppe e Anita poderiam eles ir...
Garibaldi) invadiu o reino das Duas Sicílias, e unificou a Itália sob a sua
coroa. Essa unificação foi festejada por todos os italianos, à época, como o; 8.7 — RÚSSIA
são todas as novidades; hoje, porém, se constitui em um dos mais notórios '
focos de separatismo no continente europeu, embora a mídia oficial do país Na Rússia pós-Gorbachev, a questão é ainda mais complexa. O grâo-
se esforce por ignorá-lo. duque Vladimir, herdeiro da dinastia Romanov, visitou Moscou e São Pe-
A Casa Real das Duas Sicílias tem como chefe o príncipe Dom Fer- tersburgo, em 1991, sendo recebido com sinceras homenagens, não só oficiais,
dinando, duque de Castro; seu primogénito sucessor tem o título de duque como populares. Falecendo em 1992, teve funeral condigno à sua condição
de Calábria. Em setembro de 1993, dom Ferdinando decidiu o retorno da de herdeiro do trono imperial. Mas, nada autoriza supor que a monarquia
séde das Ordens Reais, de São Xavier, e Ordem Constantiniana de São Jorge, passe disso, ou seja, de um fator histórico — passado — venerável. Pesquisas
à antiga capital das Duas Sicílias, Nápoles. Na ocasião, reuniram-se no Duomo acreditadas estimam que a monarquia não tenha, hoje, mais do que 10% da
da Catedral os trezentos cavaleiros da Ordem de São Jorge, e mais os vinte opinião pública russa, principalmente sem o inegável carisma pessoal de Vla-
da Ordem de São Xavier, para acolher o mais novo membro da última, no- dimir. Entretanto, a possível explosão da herança de mais de um milénio
meado por dom Ferdinando: o Irmão Régis Barwig, grão-mestre da Ordem monárquico, após parcos e duros 70 anos de regime soviético, poderá provocar
Soberana de Malta. As autoridades republicanas de Nápoles puseram nas uma verdadeira surpresa no mundo inteiro. A grã-duquesa Anna, filha de
ruas os carabineiros e outros policiais, todos em uniforme de gala, para receber Vladimir, é o fiel depositário dessa possibilidade.
o rei das Duas Sicílias, o "rei de Nápoles". A sua chegada à capela do Pio
Monte da Misericórdia, uma multidão o aclamava aos brados de "viva o
rei!". E, furando os cordões de isolamento, uma menina entregou-lhe uma 8.8 — FRANÇA
faixa com o dístico " A dinastia que fez de nossa cidade uma capital e do
Na França, a questão é menos complexa, embora ambígua. Os burgueses
nosso país um grande reino"!
de Paris criaram uma tradição anti-absolutista, que, como já foi referido antes
A Casa de Bourbon-Sicílias há de ser considerada, também, quando se nestas linhas, foi simploriamente confundido com antimonarquismo. Certa
pensa em Monarquia na Itália. ou errada, essa tradição espraiou-se para boa parte dos franceses. Em con-
trapartida, o sentimento de fidelidade à monarquia continua intocado, além
8.6 — GRÉCIA de autêntico. Relembre-se que, desmoronado o império napoleónico, foi no-
vamente a monarquia dos Bourbons que os franceses chamaram de volta,
Na Grécia, a questão Monarquia/República é complexa. Quando o país com Luiz X V I I I . Quando Carlos X incorreu no erro de colocar-se contra os
obteve o status de nação soberana, em 1830, isso ocorreu com o estabeleci- postulados da Revolução — exagerados, embora, mas ainda recentes — os
mento de uma monarquia, com a dinastia dos Hohenzollern-Sigmaringen; e, franceses chamaram os Orleans, mas mantiveram a monarquia (1830). Quando
durante 135 anos essa monarquia teve sua imagem e aceitação nacional re- a França se reorganizava, após a derrota de Napoleão I I I frente a Prússia
forçadas por uma série de excelentes reis. Infelizmente, o rei Constantino (1871), foi por uma diferença de um voto que a Assembléia Nacional deixou
cometeu alguns erros de cálculo, acabando deposto pela "junta dos coronéis" de, mais de uma vez, restabelecer a monarquia dos Bourbons (Henrique V ) ,
— uma ditadura férrea — em 1967. Sua imagem pública nunca foi das me- e assim mesmo isso se deveu ao fato de o presumível rei haver se recusado
lhores, após ascender ao trono, apesar de "herói" olímpico, e de filho e sucessor a aceitar a bandeira tricolor da Revolução... oitenta anos depois! Já se viu
de um rei muito estimado, Paulo 1. Em que pesasse a execração pública à reiteradamente que, na Segunda Guerra Mundial, com o país ocupado pelos
ditadura dos coronéis, contra a qual Constantino temerariamente tentara opor alemães, como já se referiu, foi no conde de Paris — herdeiro atual da
o prestígio real em 1967, o fato é que em 1970 a monarquia grega já não Monarquia — que o general de Gaulle foi buscar união para a Resistência
contava senão com 45%; o que era muito pouco, se comparado com os 80/85% contra o invasor.
194 195
Hoje, um número apreciável de jornais diários, semanários e mensais
circula na França, defendendo a Monarquia. Os Orleans, e o conde de Paris,
já com mais de 80 anos, parecem ser patrimónios nacionais franceses. É
imprevisível, mas sem dúvida bastante grande o percentual da aceitação da
monarquia na França contemporânea. O conde de Paris é cunhado — casado
com uma irmã — do príncipe Dom Pedro Gastão de Orleans e Bragança,
de Petrópolis.

8.9 — ALEMANHA

Na Alemanha, a aceitação da monarquia é um mistério. Parece certo
que os representantes das monarquias "locais" — sobretudo os Wittelsbach,
na Baviera — têm ainda grande prestígio histórico. Ao nível nacional alemão,
porém, nada permite uma afirmação concreta: se os Hohenzollern são ainda
uma legenda, é pacífica a materialização dos alemães, mormente depois que
o país tornou-se a segunda economia e um dos maiores focos de consumismo
do mundo; o passado, ao qual pertence sua monarquia, mesmo um passado
recente, parece ter sido esquecido, mais ou menos como um guarda-chuva.
9 — As Famílias Reais
Obviamente, tendo o país uma tradição imperial de cerca de 1400 anos,
esse esquecimento não impede que, a qualquer momento, a Monarquia possa
ressurgir. As famílias reais são instituições históricas nacionais, com ramificações
internacionais; algumas delas foram supranacionais. Conhecidas como "Ca-
8.10 — SÉRVIA/JUGOSLÁVIA sas" — a Casa de Hanover: a Casa de Windsor; a Casa de Hohenzollern; a
Casa de Bragança; a Casa de Bourbon-Sicílias, Bourdon-Parma, a Casa de
A Iugoslávia não existe mais, pelo menos tal como existiu nos últimos Modena, a Casa de Wurtenberg, a Casa de Hesse, a Casa Romanov; a Casa
sessenta anos. Seu núcleo principal era a Sérvia, uma Monarquia secular; de Habsburgo; a Casa de Orleans; a Casa de Savoia; a Casa de Battenberg,
primeiro com a dinastia dos Obrenovitch, depois com a dos Karageorgevitch. mais tarde Mountbaten; a Casa de Wittelsbach; a Casa de Luxemburgo; a
Após a Primeira Guerra Mundial, foi constituído o reino Sérvio-Croata-Slo- Casa Karageorgevitch; a Casa de Saxe-Coburgo; a Casa de Liechtenstein; a
veno, como uma espécie de federação que, além desses três países, reunia Casa Grimaldi; a Casa de Bernadotte, etc.
alguns outros territórios sob o cetro do rei Pedro I . Quando esse rei faleceu, No passado, dentre outras, houve a Casa de Brandenburgo, a Casa de
pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o país já passara a ser conhecido Mecklemburgo, a Casa de Borgonha, além de outras, menores e menos im-
por outro nome, Iugoslávia. O filho de Pedro I , o jovem Pedro I I , opôs-se portantes, como a Casa de Montenegro, de Hainaut, de Artois.
aos nazistas durante a Segunda Guerra, e o país foi invadido e ocupado pelo
No mundo contemporâneo, a Casa de Hanover (ramo Windsor), e os
exército alemão. Depois da guerra, a história é conhecida: o regime cripto-
Saxe-Coburgo, estão principalmente no trono da Inglaterra, além de estarem
comunista do marechal Tito; passado este, a desagregação e a guerra civil.
também na Bélgica, Noruega e Holanda. Os Battenberg (Mountbaten) também
O atual chefe da Casa Real da Sérvia/Iugoslávia, é o príncipe Alexandre,
estão no trono da Inglaterra, e remotamente no da Espanha. Na Espanha
genro do nosso Dom Pedro Gastão', de Petrópolis.
estão os Bourbon, e indiretamente, os Bragança e os Hohenzollern-Sigma-
São nebulosas as informações sobre o movimento monárquico na ex-
ringen (rainha Sofia). Na Holanda, como sempre, há os Orange.
Iugoslávia; embora seja certo que tem havido manifestações, em Belgrado e
outras partes do país. E, isso parece resumir as notícias sobre o assunto: há No fundo, todas as dinastias existentes estão em todos os tronos, direta
monarquistas em número aparentemente ponderável; há movimento, e há ma- ou indiretamente, em virtude dos casamentos. A que mais se espalhou pelo
nifestações. Mas não se sabe qual o percentual de aceitação da Monarquia, mundo foi a de Saxe-Coburgo.
tanto atual, como eventual. Não é pelo entrelaçamento que resulta dos casamentos, no entanto, que
as famílias reais foram ou são supranacionais; pois, as precisas leis que cuidam
do assunto, em todos os países que adotam a monarquia, são claras e rígidas
no manter a respectiva Família Real em âmbito nacional, e no evitar qualquer
196 197
tipo de influência dos parentes afins, estrangeiros ou não. O caráter supra- Além disso, uma Família Real precisa ser um modelo de vida doméstica
nacional se manifesta quando ocorre o que, em Ciência Política e em Direito e social, segundo os costumes e os valores familiares do seu povo, de modo
Constitucional, se denomina "associação real": o vínculo de solidariedade que possa sutilmente influenciar pelo exemplo a evolução da consciência
entre dois ou mais países, exclusivamente, através da dinastia e do monarca nacional, na sociedade e no lar. Por isso, precisamente, é que a Monarquia,
comum, sem que qualquer dos países abra mão de sua soberania nacional personificada pela rainha Elizabeth e seu marido, o príncipe Philip, merece
plena, seu governo e sua ordem jurídica; é o caso, hoje, da ténue associação integral aprovação dos britânicos, na mesma medida em que as atribulações
real entre Canadá. Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, etc.. que têm a mesma dos casais Charles/Diana e Andrew/"Fergie" suscitam reprovações.
família real e o mesmo monarca. Mas o caráter supranacional também se
manifesta nos denominados "impérios": diversas nações, cada qual com seu Numa família tradicionalmente dedicada só à vida militar, os filhos,
idioma, etnia e demais características, convivem sob a coroa de um mesmo netos, bisnetos, e assim por diante, conhecem os segredos da profissão militar,
monarca, pertencente à dinastia comum a todas, e unidas por uma ordem independentemente da sua própria experiência, em virtude não só dos ensi-
jurídica geral; foi o caso do Império alemão, até 1918 mantendo com o namentos que lhes são dados, em casa, por seu pai, avô ou bisavô, mas
imperador da dinastia Hohenzollern — que era também rei da Prússia — também em virtude do simples convívio diário com os sucessos e problemas
uma federação de centenas de nações germânicas, soberanas entre si no âmbito desses seus maiores. Assim, também, numa família de ferreiros, de diplomatas,
interno do império. Ou, o caso do Império Austro-Húngaro, que, sob estrutura de professores, de sapateiros. Se um "freguês" chega à banca de quem é
até certo ponto semelhante, mas menos federativa, reunia austríacos, tchecos, sapateiro por tradição de família ao longo de gerações, este já sabe qual é
eslovacos, dálmatas, eslovênios, vénetos, tiroleses, italianos, croatas, e mais o defeito ou o problema do sapato, só de vê-lo, antes que o cliente diga
um punhado de povos menores em torno de uma ordem jurídica geral, com qualquer coisa. Assim, com o diplomata, diante de uma questão — maior
um imperador da dinastia dos Habsburgos; nesse contexto, a Hungria formava ou menor — internacional; a^sim, o ferreiro, ao ver o casco do cavalo; da
uma associação real com a Áustria, não se incluindo no contexto da ordem mesma forma, o rei, quando qualquer ministro, embaixador ou cidadão comum
jurídica do Império, nem na mesma condição das demais. O Império Aus- inicia uma conversa: ele, como regra sabe onde reside o problema e quais
tro-Húngaro era, mais efetiva e menos formalmente, aquilo que hoje pretendem as possíveis providências a tomar.
outros países, com a União Européia e o Tratado de Maastricht. É certo que no mundo contemporâneo não existe como regra a perma-
Obviamente, o que distingue uma Família Real não é o "sangue azul", nência de atividades numa mesma família; entretanto, existem famílias que
isto é, o pertencer a uma raça orgânica ou biologicamente diferente dos demais se dedicam, inteiras e tradicionalmente, de geração a geração, a uma mesma
seres humanos. As dinastias são o produto e a expressão de tradição secular atividade. Ademais, a Chefia de Estado monárquica não é uma opção qual-
— algumas, de tradição milenar — com o trato dos assuntos, das praxes e quer, nem pessoal: é um dever nacional e histórico. Sem dúvida, alguns
das exigências de comportamento do que modernamente se denomina "Chefia membros de famílias reais se exoneram desse ónus, e o príncipe Eduardo,
de Estado"; o que, como antes apontado, se constitui numa verdadeira arte. terceiro filho da rainha Elizabeth I I , é exemplo: preferiu o teatro. Mas ele
Essa arte envolve o trato de questões de governo, sem se envolver no governo; era somente o terceiro filho da rainha, o sétimo na linha de sucessão. Podia
o de questões políticas entre os partidos, sem se envolver na política; o know fazer isso porque antes dele havia outros seis; mas, certamente não poderia
how do delicadíssimo trato com a diplomacia e suas questões; uma percepção permitir-se a escolha se fosse o segundo ou terceiro. Do primeiro ao quarto,
natural e instintiva do inconsciente coletivo e da opinião pública das suas na Inglaterra — que citamos apenas como exemplo — todos foram preparados
sociedades; a vivência natural dos costumes e formas de comportamento dos para suportar os ónus da realeza; a estes, lá, tradicionalmente, não é per-
seus povos; inclui, ainda, a conhecida função didática de exemplos de com- mitido "escolher". O caso do rei Eduardo V I I I , em 1936, não foi de opção
portamento; e inclui, mais, uma variada gama de experiências acumuladas por outra atividade; e, pode-se mesmo dizer que se constituiu num acidente
dentro de um mesmo contexto familiar ao longo de gerações e gerações. histórico.
Não será demais, para a perfeita compreensão do tema, lembrar o que Observe-se que, ainda na Inglaterra, em que pese o seu sistema "sui
já se referiu antes: sendo impossível — pelo menos até o momento — a generis", em 1992 a rainha Elizabeth I I esteve presente a pouco mais de
transmissão genética de conhecimentos e virtudes, só pela "herança de tra- 1500 compromissos oficiais, o que significa uma média de quatro compro-
dições, de comportamentos, preocupações e concepções, passada de geração missos por dia; o príncipe Charles, cerca de 1200 compromissos (por dia, 3
a geração e cultivada através do tempo, é possível manter uma sucessão de cerimónias); a princesa Anne, outros 600 (próximo a dois, por dia); a rai-
pessoas perfeitamente identificadas com determinado ofício ", inclusive a arte- nha-mãe Elizabeth — com 85 anos — mais de 600! Pergunta-se: como fica
ofício de chefiar o Estado. a vida privada dessas pessoas? Existe, efetivamente, ou não, um devotamento

198 199
às obrigações do Estado? Poderão suportar essa renúncia pessoal os que não estrangeiros, ou não exclusivamente nacionais, para inaugurar suas monar-
são criados dentro dessa tradição e desse contexto? quias; como ocorreu, por exemplo, com a Bélgica, a Holanda e a Grécia,
em 1830: a primeira, depois da recusa do príncipe Eugênio de Beauharnais,
A função de Chefia de Estado, pela sua transcendência na vida dos
chamou Leopoldo de Saxe-Coburgo; a Holanda, Guilherme Orange; e a Gré-
respectivos povos, não é, nem pode ser objeto de escolhas pessoais que re-
cia, depois da recusa de sua coroa pelo nosso Dom Pedro I , foi buscar um
sultem em deserção; é renunciável, sim, mas nesse caso trata-se de renúncia
príncipe da Casa de Hohenzollern-Sigmaringen.
a um dever, o que só é possível quando o seguinte está pronto a preencher
o lugar. A deserção não se inclui entre as faculdades dos membros da realeza: Mas, não somente quando se fundou um novo país essa prática foi
o seu compromisso é sobretudo com a História, o que importa numa visão utilizada: também quando se extinguiu a dinastia real num dado país, isso
transcendental sobre o próprio destino do homem. aconteceu. Assim, para não nos alongarmos em muito exemplos, quando
morreu sem descendência o último rei espanhol da dinastia dos Habsburgos:
As famílias reais foram feitas ao longo da História, e pela experiência
a diplomacia espanhola e a das demais potências européias cogitaram de
que se transformou em tradição. Obviamente, nenhuma delas teve início como
diversos candidatos para inaugurar uma nova dinastia nacional; inclusive, o
Família Real: todas tiveram início, nessa condição, no dia em que alguém
príncipe Leopoldo de Hohenzollern. A escolha acabou recaindo em Felipe
— em geral, peia força de conquista — proclamou-se ou foi reconhecido,
de Bourbon, sobrinho do rei Luiz X I V , da França; ele se tornou o rei Felipe
ou designado como rei em um determinado território; e a partir disso, seu
V, inaugurando a dinastia dos Bourbons espanhóis, que reina até hoje.
poder foi transmitido em sucessão dentro de sua família, quer por confirmação
eletiva pelos notáveis do país — foi assim, no início — como por via here- O mesmo ocorreu na Inglaterra, quando se extinguiu o ramo conhecido
ditária. A partir do momento em que o ofício real foi mantido dentro de uma da dinastia dos Stewarts: foram buscar um novo rei, e uma nova dinastia na
mesma família, começou a se acumular entre os seus membros a experiência Casa alemã de Hanover, hoje Windsor. Aliás, em quase todas as Constituições
de reinar, consistente em conhecimentos e ensinamentos sobre o mister; a das monarquias atuais, consta um dispositivo dando poderes ao Parlamento
transmissão reiterada e mais ou menos ininterrupta desse poder, dessas ex- para escolher uma nova dinastia no caso de extinção da reinante. Essa cláusula
periências e desse conhecimento, é que constitui o acervo histórico que ca- constava, também, da Constituição brasileira de 1824.
racteriza a realeza. E, além disso, começou a se formar no seio dessas famílias A propósito dessa prática, nem todas as pessoas sabem que, quando
o senso do que se chama "serviço do reino", isto é, do dever de reinar — cia fundação dos Estados Unidos da América, o processo também foi tentado:
sem escolha — como mais do que um direito. Dever que, conforme a época, não se pensava, então, num "presidente", simplesmente porque inexistiam
teve alvos diversos: no início, a própria grandeza da família; depois defender presidentes. Pensou-se em um rei da América. O próprio Alexander Hamilton,
a fé católica, ou cristã; defender os costumes; defender os valores nacionais, apesar de suas invectivas contra a Monarquia inglesa (Jorge III era execrado)
etc. no The Federalist, propôs ao Congresso — numa atitude tão dúbia como
Algumas famílias reais são milenares, como os Capeto propriamente denotadora do inconsciente americano — que o governante do novo país
ditos, e os seus ramos Valois. Angouleme, Bourbon, Orleans, cujo milénio fosse vitalício; e o fato de a sua proposição haver sido derrotada — por uma
foi comemorado solenemente pela República Francesa, em 1987; ou os Habs- margem insignificante — não descaracteriza o que se passava no íntimo
burgos. A família imperial japonesa está no trono há cerca de 2500 anos; a desse acérrimo antibritânico. Muitos queriam coroar George Washington como
etíope (cujo 226° imperador vive exilado na Suiça), tem essa mesma idade. primeiro rei da América: seus amigos chegados pediam-lhe que aceitasse; o
Outras são mais recentes, como os Romanoff (380 anos), os Hohenzollern general Neuberg e sua tropa o aclamavam. Outros, segundo a praxe de que
(cerca de 500 anos), os Windsor (cerca de 300 anos), os Orange (600 anos). ora nos ocupamos, passaram a buscar um príncipe disponível e aceitável
Outras duas dinastias que estão próximas de comemorar seu milénio são os dentre as Casas reais européias. Na verdade, a América só não se tornou
Wittelsbach (Baviera) e os Bragança (embora o duque de Bragança tenha se uma monarquia, e foi criado o cargo de presidente, por três motivos: todas
tornado rei de Portugal, com o nome de Dom João IV, somente em 1640, é as Casas reais européias estavam comprometidas, então, com o absolutismo;
certo que os duques de Bragança descendiam de Dom Afonso Henriques, a única que não estava, precisamente, era a britânica, mas não tinha sentido
primeiro rei português; provindo, os Bragança, portanto, das dinastias de fazer rei da América um príncipe inglês; e, finalmente, Washington — depois
Avis, Borgonha, e consequentemente, dos Capetos. de longas hesitações — terminou por recusar a investidura real, apesar de
declarar que aceitava os poderes correspondentes. Em virtude disso, aliás
Essa qualidade especial de que são dotadas as famílias reais, esse know
how da arte de reinar, resultado da experiência histórica acumulada, é que durante sua presidência, ele era protocolarmente tratado por "Sua Alteza", o
faz com que, frequentemente, novos Estados tenham ido buscar príncipes presidente dos Estados Unidos.

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9.1 — O CASAMENTO ENTRE PRÍNCIPES democrático — o princípio da igualdade jurídica, também conhecido como
"isonômico" — na medida em que iguala os desiguais.
Um outro aspecto que merece atenção é o do casamento entre as famílias':!' No bojo dessa "democratização" imprecisa e desvirtuada, formou-se
reais. Essa prática surgiu em épocas recuadas, nas quais não só a realeza,/ uma espécie de consenso no sentido de que as famílias reais deveriam aban-
mas a grande e pequena nobreza estavam ligadas à posse de terras e das j donar a prática de casarem-se entre si, e passarem a fazê-lo com qualquer
respectivas rendas: as grandes famílias faziam casamentos entre os seus mem- pessoa da sociedade, e preferencialmente no próprio país. A Família Real
bros, visando aumentar patrimônio. A tal ponto isso chegou a importar no britânica, como sempre aberta à adoção de novos costumes, não se fez de
crescimento do poder, e na formação dos países, que havia o dístico "tu felix rogada: o príncipe Charles e seu irmão Andrew casaram-se segundo a nova
Áustria nube" (você, Áustria feliz, casa), ou seja, enquanto outros guerreavam, moda. O resultado é conhecido.
para aumentar os seus domínios, os Habsburgos faziam isso por meio dos
Em outros países, o novo costume tem sido dosado com maiores cau-
casamentos.
telas. O falecido rei Balduíno, da Bélgica, por exemplo, casou-se fora da
Deve-se fazer ressalva, porém, para o velho ditado ibérico "O rei faz família real, mas encontrou sua esposa, a rainha Fabíola, na tradicionalíssima
da pastora, rainha", corrente sobretudo na realeza portuguesa, mostrando que, família dos príncipes de Mora Y Aragon, da Espanha. O rei Carlos Gustavo,
por vezes, os reis casavam-se fora de famílias reais, e até mesmo com mulheres da Suécia, casou-se com a alemã Sílvia de Sommerlat, radicada no Brasil
de origem humilde. desde a mais tenra infância, e sem qualquer ligação com Casas reais ou com
a aristocracia européia; e o casamento, não só do ponto de vista doméstico,
De há muito os casamentos da realeza deixaram de ser "alianças" ma-
trimoniais, no sentido político; porque faz bastante tempo, também, nas mo- como do Estado, foi sempre um sucesso. Esse, porém, é um caso isolado,
narquias o interesse público substituiu o interesse particular dos reis. Além que não constitui regra; e se não é impossível de se repetir, deve-se à ex-
disso, os monarcas não mais exercem poderes políticos de governo, as funções cepcional vocação pessoal da rainha Sílvia para a natureza do "serviço do
do Executivo. reino"; vocação essa à qual não é estranha a sua cultura e compreensão do
assunto. Um fortuito feliz, porém: nada mais do que isso.
Os casamentos entre príncipes prosseguem como uma prática mais ou
Anote-se, como um parêntese, que os príncipes de Mónaco não dão
menos constante, no entanto. Mas, desde os últimos duzentos anos, essa prática
especial atenção (do ponto de vista oficial) aos casamentos das suas filhas.
está ligada exclusivamente ao "serviço do reino", hoje "serviço de Estado",
Isto, por três razões: a) as mulheres não sobem ao trono do minúsculo prin-
isto é, precisamente à conservação e à ampliação do acervo de tradições e
cipado; b) existe um tratado segundo o qual o principado reverte à França,
do cabedal de experiência e de conhecimentos acumulados ao longo das
caso venha a se extinguir a linha masculina da Casa Grimaldi; c) em virtude
gerações, com a finalidade de servir ao país; procurando impedir, através do
desse tratado, e do pavor que têm os monegascos de perderem sua inde-
casamento entre membros de duas famílias igualmente seculares, uma eventual
pendência — o nível económico e as condições de vida são altíssimos —
quebra na transmissão desses conhecimentos, o que seria possível no casa-
pouco se lhes dá com quem case o príncipe, e como seja sua atuação à testa
mento com alguém oriundo de família que não os cultiva.
do minúsculo país. Note-se, porém, que quanto ao último aspecto, os mone-
Em alguns casos especialíssimos, foi admitido o que se denomina "ca- gascos nunca tiveram queixas.
samento morganático": o sucessor imediato ao trono casava-se com mulher Qual a razão das cautelas a respeito do assunto, e do fracasso dos
não pertencente h realeza, mas esta não poderia assumir eventualmente a casamentos Charles/Diana e Andrew/"Fergie", na Inglaterra? As razões são
condição de rainha, nem transmitir aos filhos desse casamento a condição simples. Primeiro, como se viu, o ofício real é extremamente cansativo, é
de integrante da linha sucessória. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o rei uma doação permanente. Tivemos ocasião de registrar que alguns membros
Luiz X I V , da França, ao casar-se com madame de Maintenon. ou mais re- da Família Real britânica cumprem até cinco compromissos oficiais diários,
centemente, com o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da o que não consome menos do que doze horas num dia. Quase que deixa de
Áustria-Hungria. quando casou-se com a condessa Sotla Chotek. existir a privacidade, já que muito pouco tempo sobra para ela. Segundo:
Novos ventos e novas idéias assomaram o mundo, após a Segunda como suportar uma tal vida alguém que não foi educado com esse senso do
Guerra Mundial, e a monarquia não poderia deixar de ser sensível a elas. dever, de doação de si mesmo em prol da Nação? Isso não só explica o
Algumas idéias, até, imprecisas em relação ao significado dos conceitos que fracasso desses dois casamentos, como demonstra o engano da ótica com
pretendiam expressar. Exemplo típico foi a idéia de "democratização" aplicada que os leigos pensam em "família privilegiada".
como sinónimo de dar acesso de tudo a todos, independentemente de qua- Observe-se que, no Japão, a prática de casamentos fora da Família
lificação pessoal; o que, em última análise, contraria um dos pilares do sistema Imperial é antiga. Lá, porém, isso é perfeitamente viável: sem que se entre

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suas funções são exercidas pelo Regente, ou Regência. Exemplos disso foram
no mérito da questão, essa viabilidade ocorre em virtude da submissão regência do príncipe de Gales (futuro Jorge IV), enquanto vivia seu pai,
a
mulher japonesa ao marido.
que se tornara demente (Jorge III); ou do príncipe herdeiro Dom João (futuro
Dom João VI), pelo mesmos motivos, enquanto vivia sua mãe D Maria I ;
9.2 — A PREPARAÇÃO PARA A CHEFIA DE ESTADO ou, ainda do príncipe Leopoldo (Baviera) em nome de seu sobrinho Oto I .
Assim, também, o afastamento do príncipe François de France da linha su-
É notório que os herdeiros de tronos são preparados desde a mais tenra/ cessória, em virtude de incapacidade congénita, por ato de seu avô, o conde
idade para suceder. Dom Pedro I I teve uma educação das mais rígidas m de Paris, atual Chefe da Casa Real francesa.
abrangentes; até mesmo excessiva, diga-se, ao ponto de falar sete idiomas.'
A legitimidade é questão de magna importância, nos países monárquicos.
aos catorze anos, causando o seu envelhecimento precoce (ao falecer, apesar;,
É ela, aliás, o elemento que determina não só a própria razão de ser da
da aparência que o situava próximo aos 80 anos, contava 66 anos de idade),1
monarquia, mas também a ordem de sucessão e o procedimento nos casos
O atual rei Juan Carlos, da Espanha, freqiientou as Academias da Força Aérea,»
de incapacidade, tal como precedentemente vistos.
do Exército, cursou Faculdade de Direito e outras Escolas. Entretanto, ne«
nhuma dessas Escolas dispõe de uma cadeira denominada, por exemplo, "Che- A legitimidade assenta nos elementos examinados ao longo deste ca-
fia de Estado"; nem há uma "Faculdade de Realeza". O aprendizado é prático, pítulo, isto é, nas circunstâncias — inclusive as históricas — que cercam as
dir-se-ia quase que ambiental, cumprido pelo fato de a própria vida dos prín- famílias reais.
cipes estar contida, no seu dia a dia, no contexto de realeza e de reinar; A desinformação é trágica, no Brasil; não só quanto à Monarquia, mas
recebido de forma natural, porque no seio da própria família e de geração a sobre quase todos os assuntos de relevância nacional, e isso é obra das su-
geração, e vivenciando concretamente as tradições de honra pessoal própria cessivas classes políticas republicanas e dos seus sucessivos governos. Em
de sua condição, de dignidade e interesse nacionais, de ótica e de compor- virtude dessa desinformação, no início da campanha do plebiscito surgiram
tamento da realeza. Nada disso é ensinado numa escola, mas recebido dos perguntas como "Quem será?", "Será o Lula, Quércia, Collor, Brizola?", Por
pais, avós e familiares, desde as primeiras luzes e os primeiros passos. Além que os Bragança?", "Por que não outra família?"
disso, desde cedo participam de atos e cerimónias próprios da função. Ainda A Monarquia está indissolúvel e historicamente ligada à legitimidade
são encontráveis nos arquivos cinematográficos filmes mostrando a então monárquica. E essa legitimidade é a que repousa sobre uma determinada e
princesa Elizabeth (Elizabeth II) aos 9 e 10 anos de idade, ao lado de seu certa família, a Família Real, a dinastia nacional. Caso contrário, não se
pai, Jorge I V , cercados de generais aliados, atravessando o canal da Mancha, estaria diante de uma Monarquia, nem mesmo diante de perspectiva de mo-
durante a Segunda Guerra Mundial; ou, sempre junto ao pai, assistindo às narquia: tratar-se-ia de uma forma diferenciada — e piorada — de República,
reuniões do Conselho Privado, ou do Gabinete. O meio ambiente da formação, a denominada "monarquia eletiva". Até porque, ao final de cada reinado
é sabido, influi decisivamente na maneira de ser do adulto. Registros seme- seria possível a escolha de nova família, a eleição de novo rei, com todos
lhantes também estão à disposição dos pesquisadores, na Bélgica, Holanda, os vícios próprios das eleições políticas; e isso, nem mais nem menos, des-
Dinamarca, Japão, Tailândia, e outros países monárquicos. caracterizaria o atributo fundamental da Monarquia, a qualidade histórica da
Família Real. Pois, neste caso, inexistiria Família Real, e com essa inexistência
não haveria o acúmulo das experiências e dos conhecimentos próprios da
9.3 — A SUCESSÃO, A LEGITIMIDADE E O "SERVIÇO".
arte de reinar, que são o seu elemento essencial. "Qualquer" família não
serve, simplesmente, porque não é Família Real, não é dinastia, não tem
Quanto à sucessão dinástica, também já é quase do conhecimento co-
acervo histórico de experiência na arte de reinar; e não terá noção e per-
mum, faz-se pelo principio da primogenitura em linha reta, preferindo o sexo
cepção do "serviço do reino".
masculino ao feminino; o grau de parentesco mais próximo, ao mais remoto;
e quando dentre pessoas do mesmo sexo, a de mais idade, à de menos. Entretanto, não se pode descartar "a priori" a escolha inicial do monarca
dentre os membros da Casa Real nacional, quando um país de origem mo-
Evidentemente, essa ordem de sucessão passa pelo crivo da capacidade:
nárquica restabelece a sua Monarquia após algum período de conturbação
na monarquia, o problema da incapacidade por qualquer causa resolve-se
política ou de experiência republicana. Desde que respeitada a linha de su-
sem traumas, através de seu reconhecimento pelos meios consensual ou le-
cessão dinástica legítima. Pois, nessa hipótese, o que ocorre é um ato cons-
galmente adotados, que resultam na exclusão do incapaz à linha sucessória,
tituinte, isto é, do poder constituinte originário, que é poder soberano, de
ou no estabelecimento de uma regência que exercerá as atribuições reais no
fato, e essencialmente político; tratando-se de poder político, seus atos serão
lugar do rei, se já o for o incapacitado. Em respeito ao principio da legiti-
sempre pautados pelo critério da convivência e oportunidade.
midade, conserva-se nominalmente o rei incapacitado, enquanto viver; mas
205
204
O exemplo mais recente foi o cia Espanha. O primogénito e sucessor compatriota contra outro, em guerra fratricida, mas sem renunciar a
legítimo do rei Afonso X I I I era Dom Jaime, duque de Segóvia; mas este nenhum dos seus direitos que não considerava seus e sim, como disse,
tinha problemas de ordem pessoal que. na prática, impossibilitavam-no de um depósito acumulado pela História, de cuja custódia tem de pedir-me
suceder. Dom Jaime renunciou a todos os seus direitos em 1933, em favor rigorosa conta. Esta atitude do meu pai, que revela um acendrado
de seu irmão Dom Juan. conde de Barcelona; isso foi providenciado, reitere-se, amor à Espanha, que todos lhe reconheceram, foi uma constante da
tendo em vista circunstâncias dificilmente removíveis, pelo próprio Afonso minha vida, pois desde jovem me consagrei ao seu serviço.
X I I I . O conde de Barcelona, por sua vez, veio a criar profundas arestas Por circunstâncias especiais, de todos conhecidas, recaiu sobre
políticas entre os franquistas, graças à sua serena mas desassombrada repro- mim este depósito sagrado, e o Rei Dom Afonso Xlll, em 15 de Janeiro
vação à ditadura do general Franco. Chegou, porém, o momento em que os de 1941, no seu manifesto de abdicação, dizia: 'Ofereço à minha pátria
dois lados tiveram que ceder: Franco, porque não tinha outra escolha senão a renúncia aos meus direitos, para que, por lei histórica de sucessão
preparar a volta da monarquia; e Dom Juan, porque tinha que reconhecer na Coroa, fique automaticamente designado, sem discussão possível
que, com ele. Franco não o faria. Isso, aliás, não foi difícil a este último, quanto à legitimidade, meu filho o Príncipe Dom Juan, que encarna
porque inseria-se na noção de dever e serviço, de desapego e entrega, que
em sua pessoa a instituição monárquica e que será, num dia de amanhã,
é próprio da Monarquia. Resultado: concordaram os dois em que o primo-
quando a Espanha o julgar oportuno, o Rei de todos os espanhóis'.
génito de Dom Juan, o jovem príncipe Juan Carlos, deveria ser desde logo
No seu testamento, recomendou à sua Família que me reconhe-
preparado para assumir o trono, como ocorreu. O conde de Barcelona, aliás,
cesse como Chefe da Família Real, como sempre havia correspondido
esperou que o filho fosse solenemente proclamado rei da Espanha, para só
ao Rei na monarquia espanhola.
então renunciar aos seus direitos em favor dele. Não ficou ferido o princípio
da legitimidade: não só a escolha se fizera dentro da linha sucessória, como Quando chegou a hora da sua morte, com plena consciência dos
tal escolha tivera caráter constituinte e inicial. seus atos, invocando o santo nome de Deus, pedindo perdão e per-
doando a todos, deu-me, estando eu de joelhos junto ao seu leito, o
Na França de 1830, o poder constituinte entendeu que exercia suas último mandato: 'Majestade, a Espanha cima de tudo'. Em 28 de Fe-
prerrogativas ao mesmo tempo em que respeitava a legitimidade ao substituir vereiro de ¡941, eu tinha vinte e sete anos. Não tinham passado, todavia,
o ramo Bourbon pelo ramo Orleans. A mesma ótica constituinte informou a dois desde o término da nossa Guerra Civil e o Mundo submergia na
substituição dos Stewarts pela dinastia de Hanover, na Inglaterra.
maior conflagração que a História conheceu. AU, em Roma, assumi o
Deve-se lembrar, no entanto, que depois da escolha inicial e de natureza legado histórico da monarquia espanhola, que recebia do meu pai.
constituinte, não há mais o que "escolher" em matéria de sucessão: em virtude O imenso amor à Espanha, que caracteriza fundamentalmente
do princípio da legitimidade, as regras dinásticas não deixam margem a dú-
ao Rei Dom Afonso Xlll, inculcou-me desde criança e creio não só o
vidas. Ou, como disse Dom Juan de Bourbon, conde de Barcelona, no seu
haver conservado, bem como talvez aumentado em tantos anos de es-
Manifesto, datado de 7.4.1947:
perança cheia de ilusão. O espírito de serviço ao nosso povo, a custódia
dos direitos da dinastia, o amor à nossa bandeira, a unidade da pátria,
"A Monarquia hereditária é, por sua própria natureza, um ele-
admitindo seu enriquecimento com as peculiaridades regionais, têm
mento básico da estabilidade, graças à permanência institucional que
sido constantes que, gravadas na minha alma, acompanharam-me sem-
triunfa sobre a caducidade das pessoas e graças à exatidão e clareza
pre. O respeito à vontade popular, a defesa dos direitos pessoais, a
dos princípios sucessórios, que eliminam os motivos de discórdia e
fazem impossível o choque dos apetites e dos impulsos " (apud Vamireh custódia da tradição, o desejo do maior bem-estar possível promovendo
Chacon, A experiência espanhola, Brasília, 1979). os avanços sociais, foram e serão constante preocupação da nossa
Família, que nunca regateou esforços e admitiu todos os sacrifícios,
A propósito da escolha constituinte inicial, e de legitimidade sucessória, por duros que fossem, se se tratava de servir á Espanha. Em suma, o
vale transcrever o Manifesto de renúncia do mesmo conde de Barcelona, Rei tem de sê-lo para todos os espanhóis.
datado de 14.5.1977: Fiel a estes princípios, durante trinta e seis anos vim sustentando,
invariavelmente, que a Instituição monárquica tem de adequar-se às
"Meu pai, Sua Majestade o Rei Dom Afonso Xlll, em 14 de Abril realidades sociais que os tempos pedem: que o Rei tem de exercer um
de 1931, na sua mensagem de despedida ao povo espanhol, suspendeu Poder arbitral acima dos partidos e classes sociais, sem distinções;
deliberadamente o exercício do poder, manifestando de forma termi- que a monarquia tem de ser um Estado de Direito, no qual os gover-
nante que desejava afastar-se de tudo que equivalesse a lançar um nantes e governados têm de estar submissos às leis ditadas pelos or-

206 207
ganismos legislativos, constituídos por uma autêntica representação
espanhol, na absoluta entrega a esse grande ideal que é nossa pátria,
popular; que embora sendo a religião católica a professada pela maio-
com seu esplêndido passado, seu apaixonante presente e seu futuro
ria do povo espanhol, tem-se que respeitar o exercício e a prática das
outras religiões, dentro de um regime de liberdade de cultos, como o cheio de esperanças.
estabelecido pelo Concílio Vaticano II. E, finalmente, que a Espanha, Hoje, ao oferecer à Espanha a renúncia aos direitos históricos,
por sua História e por seu presente, tem direito a participar destaca- que recebestes do Rei Dom Afonso XIII. realizais um grande ato de
damente no conjunto das nações do Mundo civilizado. serviço. Como filho, emociona-me profundamente. Ao aceitá-la, agra-
Nem sempre este meu pensamento político chegou exatamente deço vossa abnegação e desinteresse e sinto a íntima satisfação de
ao conhecimento dos espanhóis, apesar de ter estado em todo momento pertencer à vossa dinastia. E é meu desejo que sigais usando, como
presidido pelo melhor desejo de servir à Espanha. Também sobre minha tendes feito durante tantos anos, o título de Conde de Barcelona.
pessoa, e sobre a Monarquia, derramou-se toda espécie de juízos ad- Acabais de pronunciar importantes palavras. Recebo-as, ouço-as
versos, mas hoje vejo com satisfação que o tempo os está retificando. e medito-as.
Por tudo isto, instaurada e consolidada a Monarquia na pessoa do Quero cumprir, como Rei, os compromissos deste momento his-
meu filho e herdeiro, Dom Juan Carlos, que, nos primeiros instantes tórico. Quero escutar e compreender o que seja melhor para a Espanha.
do seu reinado encontrou a aquiescência popular, claramente mani- Respeitarei a vontade popular, defendendo os valores tradicionais e
festada, e que na ordem internacional abre novos caminhos para a
pensando, acima de tudo, que a liberdade, a justiça e a ordem devam
pátria, creio chegado o momento de entregar-lhe o legado histórico
inspirar meu reinado. Desta forma, a Monarquia será elemento decisivo
que herdei e, em consequência, ofereço à minha pátria a renúncia dos
para a necessária estabilidade da nação.
direitos históricos da monarquia espanhola, seus títulos, privilégios e
a Chefia da Família e Casa Real da Espanha, que recebi do meu pai, Nestes momentos de indubitável transcendência para a Espanha,
o Rei dom Afonso XIII, desejando conservar para mim, e usar como e para nossa Família, e ao receber das tuas mãos o legado histórico
até agora, o título de Conde de Barcelona. que unido ao profundo respeito que sempre te professei, ao compreen-
der, desde pequeno que, sobre tudo e acima de tudo, nunca tivesse
Em virtude desta minha renúncia, sucede na plenitude dos direitos
outro ideal senão a absoluta entrega ao serviço do povo espanhol.
dinásticos como Rei da Espanha ao meu pai Dom Afonso XIII, meu
filho e herdeiro o Rei Dom Juan Carlos I. Majestade: pela Espanha,
tudo pela Espanha. Viva a Espanha! Viva o Rei! Madrid, 14 de Maio de 1977.
Juan Carlos I, Rei da Espanha."
Madrid, 14 de Maio de 1977.
Juan de Bourbon, Conde de Barcelona".
Um outro exemplo é elucidativo do que representa a concepção mo-
A propósito, ainda, de outro tema igualmente tratado neste capítulo, o nárquica de "servir", isto é, do "serviço da Nação". Luiz X V I I I , irmão e
do "serviço do reino", e da sua significação de entrega e desapego pessoal, sucessor do decapitado Luiz X V I , já percorrera boa parte da Europa, pobre,
próprios da monarquia, parece oportuna, também, a carta pública do rei Juan banido e sem prestígio, vivendo aqui e ali de parcos auxílios de um ou outro
Carlos a seu pai, no mesmo dia do manifesto anteriormente transcrito: monarca aparentado com os Bourbons. Napoleão, que, prestes a proclamar-se
Imperador, necessitava que o rei legítimo abrisse mão dos direitos históricos
"Senhor: da Casa de Bourbon, fez uma proposta de sustento da família, com as con-
O mandato de sua Majestade o Rei Dom Afonso XIII, 'a Espanha dições materiais adequadas à sua dignidade. A resposta do rei semi-maltrapilho
acima de tudo', creio que foi cumprido. foi lapidar:
O povo espanhol, com sua fina sensibilidade, percebeu claramente "Sei distinguir o Sr. Buonaparte dos que o precederam; aprecio
os grandes sacrifícios que tivemos de enfrentar. Compreendo que fosse nele o valor e os talentos militares; credito em favor dele vários de
dura a separação de um filho, para que se educasse na sua pátria,
seus atos administrativos, pois ser-me-á sempre caro qualquer bem
entre espanhóis, e se formasse devidamente para servi-la quando fosse
que se faça a meu povo. Mas engana-se ele se pretende engajar-me a
necessário. Considero que assimilei por completo a grande lição que
transigir sobre meus direitos; muito pelo contrário, ele próprio estaria
encerra esta decisão. A educação que recebi, e de que me sinto satis-
consolidando tais direitos se fossem eles objeto de discussão pela ini-
feitíssimo, formou-me no cumprimento do dever, no serviço do povo
ciativa que agora está tomando.

209
Ignoro quais são os desígnios de Deus sobre minha estirpe e Um outro e atualíssimo exemplo do "serviço da Nação" foi dado por
sobre mim; mas conheço as obrigações que me impôs, pela posição Dom Pedro Gastão e todo o "ramo de Petrópolis". Certos de que a vinculação
em que lhe aprouve fazer-me nascer. de seus primos Dom Luiz e Dom Bertrand à TFP forneceria um arsenal de
Como cristão, cumprirei essas obrigações até meu último suspiro; campanha aos republicanos, mas, sobretudo cônscios de que a Monarquia
filho de São Luiz, saberei seguir seu exemplo de respeitar-me ainda moderna não pode desfazer a conciliação entre os princípios dinásticos e os
que acorrentado; sucessor de Francisco I, como ele quero poder pelo conceitos de soberania popular os principes do "ramo de Petrópolis" lançaram
menos dizer: tudo perdemos, menos a honra." ao país o seguinte manifesto, em 1992:
a) Louis. "(apud Marie-Madeleine Martin, "Le Roi de France
ou les grandes jornées qui ontfait la monarchie", Mesnil-sur-l'Estrée,
1963, traduzido). "À NAÇÃO BRASILEIRA

Idêntica, a resposta do príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, em Nós, abaixo-assinados, membtros da família Orleans e Bragança,
1912. ao projeto legislativo de revogação do banimento da Família Imperial, descendentes de D. Pedro 1, de D. Pedro II e da Princesa Isabel, vimos
em troca da renúncia de sua pretensão dinástica: manifestar, de público, nossa integral fidelidade ao princípio de que
todo poder legítimo emana do povo e em seu nome deve ser exercido.
Compromissados que somos com a tradição constitucional brasileira,
Quanto à revogação da lei do banimento que pesa sobre nós.
que nasceu sob a égide da limitação do poder real, reafirmamos nossa
devo desde já dizer-lhe e convém que todos saibam que só a tomaremos
crença arraigada naqueles valores democráticos permanentes que nor-
em consideração se for suprimido o seu artigo II [do projeto] que
tearam as instituições e costumes políticos de nosso período monár-
subordina essa revogação à renúncia por parte dos membros de nossa
quico, quais sejam: liberdade de imprensa, de expressão, de pensamento
Família, que dela se prevaleceram, dos seus direitos presentes ou futuros
e de iniciativa individual; defesa intransigente do interesse público;
ao torno do Brasil.
alternância dos partidos no poder, primado do poder civil e cobrança
Se esta condição for mantida, pode estar certo de que nenhum de responsabilidades às classes dirigentes.
de nós a aceitará, não porque seja difícil renunciar a direitos, mas
Como brasileiros, irmanamo-nos na mais intensa esperança de
porque a par destes existem deveres, consequência e razão de ser dos
que a revisão da atual carta constitucional, em 1993, abra caminho
primeiros, e ao dever ninguém pode dignamente renunciar.
para que instrumentos eficazes de defesa do interesse público preva-
Por graça de Deus e aclamação do Povo, foi a nossa Família
leçam sobre os interesses corporativistas de grupos e facções. Somente
outrora colocada à frente da Nação Brasileira. O nosso dever, é, pois,
assim será possível resgatar aqueles vedores culturais, políticos, sociais
ficar perpetuamente às ordens da Divina Previdência e à disposição
e económicos que deram origem a sociedades realmente livres, prós-
de nossa Pária para ser. nos momentos de crise que se apresentem, o
peras e democráticas. Somente assim será possível interromper a mar-
seu supremo recurso, o seu instrumento de unidade, coesão e grandeza.
cha da insensatez, que deixou o País à deriva.
Hoje, o Brasil, ou melhor o Brasil oficial, supõe não precisar
Faz parte de nossa tradição familiar colocar em primeiro lugar
desse instrumento, mas quem sabe se amanhã não surgirão complica-
o Brasil, ou seja, o interesse público. Em segundo lugar, viria a forma
ções, interiores ou externas, em que a todos pareça necessário recorrer
de governo — monarquia ou república —, como já entendia Pedro II,
de novo ao regime que já foi. na terrível crise da Independência e
em momento de extrema provação, quando, mais uma vez, deu teste-
outras, a salvação do Brasil, e durante mais de meio século lhe deu munho de sua reconhecida desambição pessoal. Somente como terceira
ordem, progresso, paz e liberdade, no interior, glória e prestígio, pe- prioridade, estaria a designação do futuro monarca constitucional, a
rante o estrangeiro? ser feita, sob a proteção de Deus, pelos legítimos representantes do
Renunciar a esse dever sagrado seria mais que falta de caráter, povo, caso seja este o desejo expresso pela Nação Brasileira no plebis-
seria um crime de lesa-patriotismo. cito marcado para 7 de Setembro de 1993.
O exílio é duro; ao exílio, porém, e mesmo a um exílio perpétuo Repudiamos, assim, veementemente quaisquer organizações e mo-
nos resignaremos, de preferência a aceitar o pensamento de atraiçoar vimentos extremistas que possam perturbar o processo democrático.
o nosso dever, a nossa Pátria! (apud Armando Alexandre dos Santos, Vinculações desse tipo seriam um desrespeito à tradição liberal e pro-
ob. cit.). gressista que marcou o Império e que nos cabe preservar.

211
Dom Pedro de Orleans e Bragança
Pedro Carlos de Orleans e Bragança
Maria da Glória de Orleans e Bragança
Afonso de Orleans e Bragança
Manuel de Orleans e Bragança
Cristina de Orleans e Bragança
Francisco de Orleans e Bragança
Dom João de Orleans e Bragança
João Henrique de Orleans e Bragança"

Um último aspecto, ainda, a ressaltar sobre o "serviço". É da tradição
das famílias reais cumprirem o papel de protetoras das artes e das ciências,
assim como de incentivadoras e patrocinadoras das boas vocações; o que
fazem não só por meios materiais, como através de seu natural prestígio
social. 10 — Os Orleans e Bragança
No Brasil, sem nos esquecermos das antológicas providências de Dom
João V I para promover as artes é ciências, e a cultura em geral, hão de ser
lembrados dos esforços da imperatriz Leopoldina nesse mesmo sentido, sem- Família Imperial, ou Família Real?
pre apoiados eficazmente por Dom Pedro I . Evidentemente, também é de
Sem dúvida, o Brasil teve imperadores, D. Pedro I e Pedro I I . Os
conhecimento notório o que Dom Pedro I I fez — e já se mencionou — por
Orleans e Bragança são sucessores dos nossos imperadores. Oficialmente
Carlos Gomes, Pedro Américo, Victor Meirelles e outros artistas; assim como
(Constituição de 1824, e decretos do governo provisório republicano), nossa
por Gonçalves Dias e outros poetas e escritores; j á que ressaltar, aliás, ter
Monarquia foi um Império, encabeçado por imperadores.
sido o nosso segundo Imperador o responsável pela primeira expedição fran-
co-brasileira à Antártida, atendendo entusiasticamente a um pedido dos meios
científicos de Paris, e especificamente da Academia Francesa. 10.1 — O BOM REI JOÃO

Entretanto, o Brasil também foi um Reino, e independente: o Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarves. E, o fato de ser reino unido a Portugal
e Algarves, em nada diminuiu nossa independência em relação ao mundo, à
comunidade internacional. Já éramos independentes como reino, desde 1816,
embora associados a Portugal. E mais: o rei não morava em Portugal, morava
aqui mesmo, no Rio de Janeiro. O Brasil também teve rei.
Além disso, Dom João V I não era um rei qualquer: era um rei bonachão
e pacato, bem ao gosto dos brasileiros. E amava o Brasil: quantas vezes disse
e provou que queria viver aqui até o fim de sua vida. Partiu, em 1821,
literalmente com lágrimas nos olhos. Se sua esposa (não, mulher) Carlota
Joaquina bateu os sapatos ao embarcar, para sequer levar daqui a poeira das
ruas, o grande e sentimental Dom João, o Dom João sem brilho, mas sagaz
e previdente, o homem que providenciou para nós toda a estrutura de que
precisava um Estado independente (criou o Banco do Brasil, Casa da Moeda,
Arsenal de Guerra, Ministério da Marinha, etc.) esse deixou saudades. Tanta
saudade que, cinquenta anos depois da sua partida, ainda se compunham
modinhas e lundus falando do rei. Cento e trinta anos depois de sua partida,
o inesquecível Francisco Alves — o "rei da voz" — ainda gravou uma canção

213
212
de Carnaval ("A Lapa") falando do bairro que "o rei conheceu"! No centro
tradicional do Rio de Janeiro, tudo lembra Dom João V I , tantas foram as
obras e lembranças. O Largo da Carioca, todas as igrejas do centro da cidade,
o Passeio Público com o seu chafariz em que a água jorra do "pipiu" de um
menino ("Sou útil, inda brincando"), a "Bica da Rainha" no bairro do Cosme
Velho, tudo lembra o bom Dom João V I . O mais autenticamente brasileiro,
dentre todos os nossos governantes. Consequência: não temos imperador,
nem presidente do futebol, do Carnaval, ou de qualquer outra coisa — temos
o "rei" de todas essas coisas.
Nossa família é imperial. Mas talvez, na tradição popular, também seja
"real". Talvez haja dificuldade para saber se devemos ter um imperador do
Brasil, ou um rei do Brasil.
Evidentemente, a transfiguração da nossa História, levada a efeito sis-
tematicamente pelo "marketing" ideológico desde os primeiros dias da Re-
pública, não poderia poupar Dom João V I . Por isso. a versão que chegou
até as atuais gerações: de um rei fujâo, que teria deixado Portugal abandonado
diante das tropas de Napoleão; e aqui chegado, teria se dedicado exclusiva-
mente a comer frangos, deixando que os negócios públicos andassem à própria
sorte.
A verdade, como sempre em tema de "marketing" republicano, foi bem
outra.
Em primeiro lugar, Portugal sempre tivera a perfeita noção do que seja
"império" no sentido jurídico-territorial-transcendental desse vocábulo. Essa
noção, nos dias que correm — por influência do deturpado emprego das
expressões "auto-determinação" e "imperialismo" — é de difícil compreensão
para os espíritos parvos, sem grandeza; mas, a realidade do terceiro milénio
que se aproxima, lança-se-lhes aos rostos, bloqueia-lhes o raciocínio apeque-
nado e os argumentos de espírito estreito: em todo o globo, países já se
reúnem em grupos supranacionais, conservando cada qual suas características,
mas unidos por uma idéia diretriz comum, quer política como económica e
social, ou por ambas. Isso é apenas uma versão do "império".
Portugal sempre tivera, bem nítida, essa noção. Camões já a traduzira
nos seus versos:

"Quando um teu ramo, ó Gama, se exp'rimenta
No Governo do Império, cujo zelo..." (Os Lusíadas, canto X, LXII).

O marquês de Pombal chamava o Brasil "esse vasto Império..." (apud
Varnhagen, ob. cit., vol. I V ) .
Dos "Anais da Biblioteca Nacional". L I I , também consta a "Informação
de Minas", falando em "Dilatar aquele império". E ainda em Varnhagen
que encontramos a notícia da utilização dessa imagem pelo marquês de Alorna
(1802), falando do sonho do "Imperador do Ocidente", de D. Luis da Cunha
(Poesias, I V ) :
DOM JOÃO V I
n l n T s ^ w ' ^ 0 " ^ " i n t e r a a c i ° n a ' do Brasil como Reino independente
215
(16.12.1815), e criador dos principais órgãos da estrutura governamental brasileira
"Num dos largos sertões, que em si encerra É certo, aliás, que o projeto surgiu pouco depois da instituição das
Do Brasil o opulento e vasto império." capitanias hereditárias no Brasil. Quando Martin Afonso de Souza retornou
da viagem à sua capitania de São Vicente, em conversa sobre a "bondade e
largueza da terra do Brasil", D. João I I I perguntou-lhe o que achava a trans-
Cláudio Manoel da Costa (Obras, I , apud Pedro Calmon, ob.cit.), tam- ferência da Corte para o colónia; ao que o colonizador respondera que, "doi-
bém o dissera: dice seria viver um Rei na dependência de seus vizinhos, podendo ser monarca
de outro maior mundo" (Cf. Jordão de Freitas, História da Colonização Por-
tuguesa do Brasil, Vol. I I I , Porto, 1924, com remissão a Frei Luis de Souza,
"Este das Minas, este o áureo hemisfério
Anais de J. João III). Essa conversa entre o rei e o donatário ocorreu, portanto,
Nobre porção do Lusitano Império." 4 bem antes do ano de 1580, que João Ameal indica como primeiro exemplo
dessas cogitações.
Ainda, em carta ao Príncipe Regente Dom João, dizia o marquês de Assim, a vinda de Dom João para o Brasil, longe de ser um ato atra-
Alorna (1801): "V.A.R. tem uma grande império no Brasil e o mesmo inimigo, biliário de alguém em fuga, procurando salvar a própria pele, não foi senão
que ataca agora com tanta vantagem talvez que trema e mude de projeto se a concretização de uma hipótese há mais de duzentos anos cogitada como
V. A. R. o ameaçar de que dispõe a ir ser imperador naquele vasto território.,." projeto governamental da Monarquia portuguesa, e instruída pela sua arraigada
(of. Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, Vol. I , Rio, 1908). •.'< concepção de vocação para o império.
Em terceiro lugar, do ponto de vista político e estratégico, as circuns-
O naturalista Arruda Câmara também dissera ao futuro D. João V I :
tâncias não só aconselhavam, mas até impunham naquele momento a secular
"Entre os estabelecimentos úteis a este novo Império que V.A.R. veio bem-
idéia de transmigração do Estado, com todos os órgãos e símbolos da sobe-
aventurar com a sua assistência..." (apud Pedro Calmon, ob. cit.).
rania, como meio único para preservar a integridade de Portugal, dos demais
A noção de Império importa em três elementos: a transcendência de Estados que integravam o império português, e do próprio Brasil: "E co-
povos e territórios, separados por heterogeneidade ou por grandes distâncias, nhecido o projeto francês de ocupação do Brasil, após a sujeição do território
sua união e solidariedade em torno de uma autoridade e um destino comuns, português na Europa. Sabe-se que chegam a ser dadas aos generais Keller-
e a manutenção de suas individualidades. O Império não é uma só Nação, man. Delaborde e Loyson patentes de governadores do Rio de Janeiro, Baía
é um Estado enquanto ordem jurídica, que congrega num destino comum e Maranhão. São as tradições de Villegaignon e dos outros corsários gauleses
diversas Nações. Essa noção, os portugueses sempre a tiveram. — de que Napoleão se faz continuador arrojado." (João Ameal, cit.).
Em segundo lugar, a idéia de transferir para o território americano a O expediente estratégico utilizado por Dom João, já o fôra por outros
sede da monarquia portuguesa, não era nova, nem surgiu com a invasão países, ao longo de séculos, e voltou a sê-lo durante a Segunda Guerra Mun-
napoleônica de Portugal. "A idéia vem, aliás, de longe. Faz parte do nosso- dial: Holanda, Luxemburgo e Noruega levaram os seus monarcas, como de-
patrimônio histórico e é trazida a lume nas ocasiões graves e melindrosas. positários últimos da soberania nacional, seus ministros e titulares de pos-
Há quem a sugira a Dom Antonio, prior do Crato, em 1580, para se subtrair tos-chave de governo para fora do continente europeu; sua simples existência
à invasão espanhola do duque de Alba e transportar além-Atlântico o fogo a salvo do invasor, era promessa e garantia de sobrevivência dos seus Estados
sagrado da independência pátria; dá o padre Antônio Vieira a Dom João nacionais soberanos. A própria França mandou para Londres os generais de
IV o mesmo conselho num lance dúbio da Guerra da Restauração; com Gaulle e Leclere, que lá criaram o governo da "França Livre."
temor da Espanha, pensam Pombal e Dom Luis da Cunha na ida de Dom Napoleão celebrara com a Espanha o tratado de Fontainebleau, dispondo
José para o Rio em 1762. Em 1803 advoga calorosamente igual solução nada menos do que a extinção do reino de Portugal, e a divisão do território
Dom Rodrigo de Souza Coutinho... Enfim, já em 1807, o conde da Ega, português em vários pedaços que passariam a constituir pequeninos pseudo-
nosso embaixador em Madrid, refere-se diretamente à possibilidade de tal principados, a serem entregues aos seus familiares, acólitos o\i aliados de
medida e Tomás Antônio de Vila Nova Portugal quer que pelo menos Dom momento; além disso, dera ordens expressas para o aprisionamento de toda
Pedro, ainda Príncipe Real, parta para o Brasil (João Ameal, História de a Família Real portuguesa e seu confinamento na França, com o evidente
Portugal, Porto, 1974). intuito de livrar-se dela pelo menos, enquanto tal — o que significava o ato
O historiador inglês Robert Southey também registra que por diversas final da liquidação do Estado português. O que ocorrera a outros países,
vezes a Casa de Bragança havia cogitado essa hipótese (in História do Brasil, retalhados à vontade pelo imperador francês, confinadas e destituídas suas
Tomo V I , trad. Luis Joaquim de Oliveira e Castro, Rio de Janeiro, 1862). dinastias, e extintos seus Estados nacionais, suas soberanias reduzidas à con-

216 217
dição de caudatárias da França, a própria Inglaterra ameaçada de invasão, publicar no Brasil quando chegasse o Principe-Menino àquele Estado");
eram exemplos suficientes; e não havia como opor-se ao verdadeiro rolo pouco antes, chegara a elaborar um projeto de enviar o filho na companhia
compressor das hordas napoleónicas, até então invencíveis. "Napoleão já se da princesa Dona Maria Benedita, irmã e nora de D. Maria I (viúva do
fixara no tocante a Portugal: pelo tratado de Fontainebleau, a 27 de Outubro, falecido irmão de Dom João), que exerceria a regência do Brasil em nome
partira e demarcara o reino luso, como se fosse terra de ninguém, despojo do jovem Dom Pedro.
prévio de ulterior conquista. A região de Entre Douro e Minho, incluída a Durante todo esse tempo, pedira a opinião de quantos pudera: chamou
cidade do Porto, tocariam à rainha regente da Etniria com o título de reino ministro por ministro, separadamente; os desembargadores, e todas as pessoas
da Lusitânia Setentrional, em troca da Toscana, cedida ao imperador dos gradas do governo; até mesmo da mãe demente pediu conselho, e, segundo
franceses; a província do Alentejo e o reino dos Algarves seriam doados ao consta, com notável lucidez ter-lhe-ia respondido a rainha "ou vamos todos
torpe Godoy [1° ministro espanhol] com o título de Príncipe dos Algarves; ou não vá nenhum" (Otávio Tarquinio de Souza, História dos Fundadores
finalmente, as províncias da Beira, Trás-os- Montes e Estremadura ficariam do Império do Brasil, Vol. II, Tomo I , Rio de Janeiro, 1957, com invocação
em reserva para futuras combinações. Assim se dispunha, com arrogante a Angelo Pereira, Os Filhos de El-Rei Dom João VI).
desprezo, de um velho país e de um grande povo." (Otávio Tarquinio de Tudo pronto para a partida do filho. Dom João mudou de ideia à última
Souza, História dos Fundadores do Império do Brasil, Vol. I I , Rio de Janeiro,
hora: iriam juntos. Mas, para isso havia que esperar mais algum tempo, para
1957).
que todas as providências fossem tomadas. Entretanto, a 22 de Novembro
Por todos esses motivos, a própria Inglaterra, a velha aliada de Portugal, chega ao Tejo a esquadra do almirante Sidney Smith, com despachos diplo-
instava Dom João para que partisse; não só para preservar a continuação do máticos de Londres, e mais o ministro Lord Strangford, que põe o Regente
Estado português, desde o outro lado do Atlântico, como para salvar o Brasil diante de duas alternativas: partir imediatamente, levando a cúpula do Estado
da eventual ocupação francesa. Mandou a Lisboa vários diplomatas com a e mais a esquadra; ou, permanecer, sujeitando-se ás tropas franceses, mas
missão de convencer o Príncipe Regente, dentre eles lord Rosslyn e o almirante nesse caso deixando com a Inglaterra a esquadra, que também precisava ser
Jervis, isso ainda antes do tratado de Fontainebleau; e quando da assinatura salva. Era o quase-dilema, e já não havia tempo para buscar outras soluções,
deste, Jervis retornou à capital portuguesa, "para sustentar a retirada de uma vez que o exército de Junot estava a pouco mais de cem quilómetros
S.A.R. para o Brasil, único recurso que lhe restara contra a maldade e de Lisboa! Se teimasse em ficar, perderia o território americano, para os
perfídia dos seus inimigos". Em 1806, retornou lord Rosslyn a Lisboa, desta franceses... ou para os próprios aliados ingleses! Se partisse, perderia ou não
vez acompanhado de lord Saint-Vincent e do general Samcoe, com o mesmo o território europeu, mas preservaria, em qualquer hipótese, o território ame-
propósito de convencer o Regente. Dom João resistia. Fizera de tudo, desde ricano! Dom João não pensou mais: reuniu o Conselho de Estado, que por
1797, para evitar essa solução, embora ela estivesse presente às suas cogitações unanimidade aprovou a viagem; em seguida, nomeou uma Junta Governativa,
estratégicas; nesse ano, na tentativa de prevenir futuras pretensões belicistas para atuar em seu nome. Depois, foram os preparativos para a partida: era
e expansionistas — que pressentia — da França revolucionária, firmara com a execução do velho projeto do Estado Lusitano, que fazia quase trezentos
ela um tratado que lhe custara bastante dinheiro, com os corruptos membros
anos vivia presente às cogitações.
do Diretório revolucionário de Paris.*
Depois disso, todas as vezes que a instável situação européia fazia "Essa providência, muitas vezes aventada nos séculos anteriores,
aflorar a hipótese da transmigração, o Regente procurava outras alternativas: para a hipótese de surgirem dificuldades superiores à força do peque-
se o problema era preservar a monarquia e o Estado portugueses, em 2 de nino reino europeu, foi então posta em prática.
Outubro de 1807 resolvera a ida do jovem Dom Pedro, então príncipe da Daí resultou a impossibilidade, em que se encontrou o dominador
Beira, e lançou um manifesto aos brasileiros recomendando o filho, que viria de quase toda a Europa, de afastar do Trono aquela dinastia, a exemplo
com o novo título de Condestável do Brasil ("Decreto de S. A. R. para se
do que já havia realizado em outros países do continente. (Hélio Vianna.
História do Brasil, Tomo I I , São Paulo. 1966).

Do embarque, nos dá conta, ainda, João Ameal, citando a "Relação
* "O ministro português na Haia, Antônio Araújo de Azevedo (futuro conde da Barca), breve, e verdadeira da entrada do Exército Francez, etc.":
recebeu instruções em setembro de 1796 para 'negociar a paz cm Paris. O artigo secreto seria
o pagamento de 2 ou 3 milhões dc cruzados. Araújo gastou cerca dc 160 contos em subornos.
('Em Paris não se dá passo algum sem dinheiro...' Gastou sabiamente mancheias de diamantes "apenas se pode referir, pareceo desfazer-se esta grande cidade;
do Brasil." (Artur da Cunha Araújo, Perfil do Conde da Barca. Porto, 1940). não he mais dolorosa a huma família a repentina morte de hum amado

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pai: o Povo correu em chusmas a todas as montanhas de onde se
"Defacto, Dom João salva, nessa jornada tão caluniada de No-
avista a barra deste Porto; e eu fui testemunha de o ver banhado em
vembro de 1807, a integridade da Soberania Nacional e a do próprio
lágrimas de alegria por ver, contando já em nada a sua própria des-
Portugal americano", conclui Ameal.
graça, os seus Augustíssimos Soberanos livres da traição e pérfida
aleivosia dos nossos inimigos... Tanto que as Naos, em que hião os E João Pandiá Calógeras foi preciso: "Em torno desses aconte-
Senhores, passarão a barra, o Povo voltava hum para o outro, e repetia cimentos se formou uma lenda de fuga pura e simples, vergonhosa e
com uma alegria que lhe nascia no fundo do coração: já estão salvos, covarde. E, entretanto, se tratava de executar um plano madura e po-
já não tem perigo" (ob. cit.). liticamente delineado, o mais acertado nas condições peculiares de
Portugal... Nada mais é mister acrescentar para tornar evidente quão
Dom João desferira o seu mais importante golpe, e fora decisivo!
superficial é o conceito dos que opinam ser mera evasão ou pânico,
"O golpe foi magistral. Nenhum dos parceiros que jogaram com Na-
tal ato de importância capital para ambos os países" (in Formação
poleão os destinos do mundo, vibrara tão inesperada cartada... Há
Histórica do Brasil, 4 a edição. São Paulo, 1945).
muito que Bonaparte teme esse desfecho e se esforça por que Dom
João não execute o fatal projeto de viagem pra a América'", refere
Ameal na sua obra citada, prosseguindo: "Não será exagero asseverar Assim, é mais do que evidente que a vinda de Dom João para o Brasil
que a ida da Corte portuguesa para o Rio anuncia o declínio da estrela nada teve a ver com fuga. Só não o compreendem os espíritos limitados por
napoleónica. Quem duvidar, leia estes períodos ofuscantes do próprio horizontes culturais estreitos, destituídos de raciocínio lógico, e sobretudo de
Bonaparte, no Mémorial, escrito em Santa Helena: — 'Elle (l'Angle- raciocínio histórico; em que pese muitas vezes haverem aprendido datas e
terre) a pu dès lors continuer la guerre; les débouchés de l'Amérique nomes, tal como dito por Taine. Muitos, até, mais do que não terem capacidade
méridionale lui ont été ouverts; elle s'est fait une armée dans la Pé- para compreendê-lo, são disso impedidos, por sentirem-se obrigados a sacri-
ninsule, et de là elle est devenue l'agent victorieux, le moend redoutable ficar o conhecimento e a verdade às exigências de complexos de inferioridade
de toutes les intrigues qui ont pu se former sur le Continent... C'est e condicionamentos psicológicos que, se em outros tempos poderiam cha-
ce qui m'a perdu.'" * mar-se "nativistas", hoje são perfeitamente identificáveis como "terceiromun-
distas".
Assim, inexistiram surpresa, atrabilhiarismo ou fuga na viagem de Dom Com relação ao papel desempenhado por Dom João no Brasil, basta
João. Joaquim Ferreira, foi conciso, a respeito: que se reflita sobre o que a propósito nos diz Hélio Vianna:

"Dom João, Príncipe-Regente e Rei de Portugal, Brasil e Algar-
"... não devemos exprobar levianamente, como um acto de co-
ves, por ter propiciado e presidido a mais profunda transformação
bardia, aquilo que favoreceu muitíssimo a causa nacional. Se o prín-
ocorrida em nossa História, a passagem da fase colonial para a in-
cipe-regente persistisse em ficar neste país, entregar-se-ia indefeso aos
invasores. Seria um títere agrilhoado ao vampirismo do Corso. E po- dependente, dela é magna figura, digna, sem dúvida, de apresentação
demos calcular os malefícios que viriam recair sobre a nação portu- especial, para melhor compreensão do referido período.
guesa provindos deste monarca feito escravo de Napoleão. " (História
de Portugal, Porto, 1951). Único soberano europeu transferido ao ambiente americano, sou-
be adaptar-se às mais difíceis circunstâncias, aqui efetivamente criando
um novo reino, a que legou sua dinastia, preservando-o, a um só tempo,
Oliveira Lima, aliás, é um dos que a intitularam "inteligente e feliz
da fragmentação territorial e da quase uniformidade republicana do
manobra política " (Dom João VI no Brasil, 2" edição, Vol. 1°, Rio de Janeiro,
continente. Verdadeiro "fundador da nacionalidade brasileira" consi-
1945).
derou-o o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e assim realmente
poderia ser classificado, se fosse possível a personificação de um fato
dessa natureza.
Desde a publicação da grande obra de Oliveira Lima — Dom
* "Ela (a Inglaterra) pode desde então continuar a guerra; os recursos da América João V I no Brasil (Rio de Janeiro, 1909), não é mais possível a infe-
Meridional lhes foram abertos; ela armou um exército na Península e desde então tornou-se riorização do papel que naquela transformação coube ao Príncipe-Re-
em agente vitoriosa, a Matriz formidável de todas as intrigas que puderam se formar no con-
gente e Rei, aqui residente de 1808 a 1821. Suas qualidades pessoais,
tinente... Foi o que me perdeu! [A partida de Dom João]".
de governante atilado e político adaptável às duras contingências que
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pai: o Povo correu em chusmas a todas as montanhas de onde se
"De facto, Dom João salva, nessa jornada tão caluniada de No-
avista a barra deste Porto; e eu fui testemunha de o ver banhado em
vembro de 1807, a integridade da Soberania Nacional e a do próprio
lágrimas de alegria por ver, contando já em nada a sua própria des-
Portugal americano", conclui Ameal.
graça, os seus Augustíssimos Soberanos livres da traição e pérfida
E João Pandiá Calógeras foi preciso: "Em torno desses aconte-
aleivosia dos nossos inimigos... Tanto que as Naos, em que hião os
cimentos se formou uma lenda de fuga pura e simples, vergonhosa e
Senhores, passarão a barra, o Povo voltava hum para o outro, e repetia
covarde. E, entretanto, se tratava de executar um plano madura e po-
com uma alegria que lhe nascia no fundo do coração: já estão salvos,
liticamente delineado, o mais acertado nas condições peculiares de
já não tem perigo" (ob. cit.).
Portugal... Nada mais é mister acrescentar para tornar evidente quão
Dom João desferira o seu mais importante golpe, e fora decisivo!
superficial é o conceito dos que opinam ser mera evasão ou pânico,
"O golpe foi magistral. Nenhum dos parceiros que jogaram com Na-
tal ato de importância capital para ambos os países" (in Formação
poleão os destinos do mundo, vibrara tão inesperada cartada... Há
Histórica do Brasil, 4" edição. São Paulo, 1945).
muito que Bonaparte teme esse desfecho e se esforça por que Dom
João não execute o 'fatal projeto de viagem pra a América'", refere
Ameal na sua obra citada, prosseguindo: "Não será exagero asseverar Assim, é mais do que evidente que a vinda de Dom João para o Brasil
que a ida da Corte portuguesa para o Rio anuncia o declínio da estrela nada teve a ver com fuga. Só não o compreendem os espíritos limitados por
napoleónica. Quem duvidar, leia estes períodos ofuscantes do próprio horizontes culturais estreitos, destituídos de raciocínio lógico, e sobretudo de
Bonaparte, no Mémorial, escrito em Santa Helena: — 'Elle (1'Angle- raciocínio histórico; em que pese muitas vezes haverem aprendido datas e
terre) a pu dès lors continuer la guerre; les débouchés de 1'Amérique nomes, tal como dito por Taine. Muitos, até, mais do que não terem capacidade
méridionale lui ont été onverts; elle s'est fait une armée dans la Pé- para compreendê-lo, são disso impedidos, por sentirem-se obrigados a sacri-
ninsule, et de là elle est devenue l'agent victorieux, le moend redoutable ficar o conhecimento e a verdade às exigências de complexos de inferioridade
de toutes les intrigues qui ont pu se former sur le Continent... Cest e condicionamentos psicológicos que, se em outros tempos poderiam cha-
ce qui m'a perdu!" * mar-se "nativistas", hoje são perfeitamente identificáveis como "terceiromun-
distas".
Assim, inexistiram surpresa, atrabilhiarismo ou fuga na viagem de Dom Com relação ao papel desempenhado por Dom João no Brasil, basta
João. Joaquim Ferreira, foi conciso, a respeito: que se reflita sobre o que a propósito nos diz Hélio Vianna:

"Dom João, Príncipe-Regente e Rei de Portugal, Brasil e Algar-
"... não devemos exprobar levianamente, como um acto de co-
bardia, aquilo que favoreceu muitíssimo a causa nacional. Se o prín- ves, por ter propiciado e presidido a mais profunda transformação
cipe-regente persistisse em ficar neste país, entregar-se-ia indefeso aos ocorrida em nossa História, a passagem da fase colonial para a in-
invasores. Seria um títere agrilhoado ao vampirismo do Corso. E po- dependente, dela é magna figura, digna, sem dúvida, de apresentação
demos calcular os malefícios que viriam recair sobre a nação portu- especial, para melhor compreensão do referido período.
guesa provindos deste monarca feito escravo de Napoleão." (História
de Portugal, Porto, 1951). Único soberano europeu transferido ao ambiente americano, sou-
be adaptar-se às mais difíceis circunstâncias, aqui efetivamente criando
um novo reino, a que legou sua dinastia, preservando-o, a um só tempo,
Oliveira Lima, aliás, é um dos que a intitularam "inteligente e feliz
da fragmentação territorial e da quase uniformidade republicana do
manobra política" (Dom João VI no Brasil, 2 a edição, Vol. I o , Rio de Janeiro,
continente. Verdadeiro "fundador da nacionalidade brasileira" consi-
1945).
derou-o o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e assim realmente
poderia ser classificado, se fosse possível a personificação de um fato
dessa natureza.
Desde a publicação da grande obra de Oliveira Lima — Dom
* "Ela (a Inglaterra) pode desde então continuar a guerra; os recursos da América João V I no Brasil (Rio de Janeiro, 1909), não é mais possível a infe-
Meridional lhes foram abertos; ela armou um exército na Península e desde então tornou-se riorização do papel que naquela transformação coube ao Príncipe-Re-
em agente vitoriosa, a Matriz formidável de todas as intrigas que puderam se formar no con-
gente e Rei, aqui residente de 1808 a 1821. Suas qualidades pessoais,
tinente... Foi o que me perdeu! [A partida de Dom João]".
de governante atilado e político adaptável às duras contingências que
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se lhe apresentaram, não mais podem ser contestadas, à luz da docu- "Envolvido nas contradições do século, nos choques entre a velha
mentação hoje conhecida. Acima de tudo, tornou-se sincero amigo do ordem, o Antigo Regime, e os novos tempos, engendrado nas convulsões
Brasil, interessando-se por seu progresso material e engrandecimento do Terror, do bonapartismo, das guerras napoleónicas e da influência,
cultural, e não apenas em razão de sua posição de chefe do Estado, cada vez maior, dos Estados Unidos, o jovem príncipe tinha de ocupar
mas por uma sólida compreensão do futuro que ao 'Novo Império' a primeira cena, entre as "dramatis personae" de uma época profun-
estava reservado (ob. cit.). damente abalada, sobretudo por seu concunhado, Napoleão, imperador
dos franceses. Quando, pois, em 7 de setembro de 1822. proclamou a
Independência do Brasil, cedeu ao pedido de todas as razões que vieram
...Por isso, certamente, é que se os Orleans e Bragança são a Família a povoar-lhe a inteligência, a dirigir-lhe a vontade, a integrá-lo num
Imperial brasileira, jamais deixarão de ser, também, a nossa Família Real. país já consciente de sua condição, como era o Brasil. Se o Brasil é
obra da Casa de Bragança, que governou o Brasil da Restauração ci
10.2 — DOM PEDRO I Independência, e, por um de seus ramos, emancipou-o, não é menos
certo que, nessa dinastia ilustre, destaca-se o príncipe, o regente, o
Os Orleans e Bragança, como Família Imperial, descendem de Dom imperador Dom Pedro, como um de seus maiores membros, não obs-
Pedro I , o proclamador da Independência, primeiro Imperador Constitucional tante seus poucos anos de vida". (João de Scantimburgo, O Brasil e a
e Defensor Perpétuo do Brasil. O vigésimo oitavo rei de Portugal (Dom Revolução Francesa. São Paulo. 1989).
Pedro I V ) e duque de Bragança. "No velho, assim como no novo mundo, estava destinado a ser
o agente de revoluções, e antes que terminasse sua brilhante, mas
Um homem grande. "O menino Pedro tinha na sua carne e no ephemera carreira, na pátria de seus antepassados, tinha elle de expiar
seu sangue, no seu espírito e no seu coração, como dons que lhe vieram os desvarios e loucuras de sua vida anterior, pela sua corajosa e heróica
com a vida, aquelas reservas de energia e resistência, de ímpeto puro devoção à causa da liberdade civil e religiosa" (John Armitage, ob. cit.).
e originalidade autêntica que marcam os homens do destino, os seres
fadados à glória, ainda que mesclada pelo infortúnio " (Otávio Tarquinio O que lhe sobrava em coragem, inteligência e altaneria, não lhe faltava
de Souza, ob. cit.). em desapego às coisas materiais: tal como ocorreria cinquenta e oito anos
depois com o filho, ao abdicar em 1831 deixou o Brasil quase que do dia
"Príncipe romanesco, intuitivo, não raro instintivo, guiou-o a
para a noite, levando consigo somente suas jóias pessoais e as da imperatriz,
Providência por insuspeitados caminhos, confirmando que dela depen-
alguns objetos de família, e praticamente nenhum dinheiro; e por isso passou
demos, que a ela estamos presos queiram ou não os materialistas his-
necessidades ao chegar à Europa. Uma carta enviada a José Marcelino Gon-
tóricos. Seu itinerário caprichoso se troca do palácio de Queluz ao
çalves, em Paris, nos dá uma idéia das suas preocupações:
Brasil, à Regência, à Independência, à Abdicação, à volta a Portugal,
à retomada do trono português para sua filha, à morte em Queluz no
"Contando que V.Exa. conservará para com D. Pedro quando
mesmo quarto onde nascera, observando, na antevéspera da grande simples particular, aquele mesmo grau de amizade que mostrava a D.
viagem, o Senhor Dom Quixote, que vira ao nascer, como que lhe Pedro quando Imperador cio Brasil, tomo a liberdade, depois de lhe
predestinando aventuras bem sucedidas ou frustradas, amargas na sua fazer os meus cumprimentos, de lhe pedir que haja de me alugar uma
maioria, embora se tivessem vinculado indelevelmente ao seu nome, à casa na Rua de St. Honoré (em Paris), se for possível, aliás em outra
sua decisão, à sua inteligência, à sua argúcia, a qualidades que não perto deste sítio, por seis meses, e também receber e recolher na casa
se explicam num jovem mais ou menos estróina, de vinte e poucos alugada a bagagem, tanto a minha, como da minha esposa e de minha
anos, sem formação regular, sem estudos sérios, sem assistência per- Filha, a Rainha de Portugal, que 'en roulage ordinaire' vai ser enviada.
manente dos pais, ocupados com negócios de Estado e problemas da Como poderá pensar que eu desejo um palácio, mister é que o advirta
corte. que fui Imperador que só tratou da Pátria, e não de si, e por isso
"O quixotesco Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal é, sem nada possuo; portanto, uma casa barata e decente é o que me convém,
contestação, a maior figura do Novo Mundo, e uma das grandes, das aonde eu caiba com minha esposa e a Rainha, que em breve chegara
estupendas figuras da plêiade de génios, de aventureiros, de cavaleiros, a Brest e que desembarcará debaixo cio (título) de Duquesa do Porto."
de sonhadores, de ambiciosos, de heróis que já povoaram as galerias (Arquivo Nacional).
da História.

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Igualmente elucidativa é outra carta da mesma época, logo após o seu
retorno de Londres, a um amigo no Brasil:

"Meu amigo verdadeiro. Eu estou bom, a Imperatriz outrora,
hoje Duquesa de Bragança, vai bem com os seus 5 meses, a Rainha,
boa e mui crescida: a sua causa não sei como vai. Por estes sete dias
parto para a França, pois Londres é muito caro e eu não posso com
a despesa, apesar de andar com o prumo na mão; veremos se em
França será melhor. Vou vender a minha prata e as jóias para fazer
um fundo, para poder viver e andar de camisa branca e engomada,
sem dever a ninguém cousa alguma" (Cf. A. D. de Pascual, "Rasgos
memoráveis do Senhor D. Pedro I , Imperador do Brasil e Excelso Duque
de Bragança", Laemmert, Rio de Janeiro, 1862).

Com menos de tinta e seis anos, em 18 de setembro de 1835, Dom
Pedro I do Brasil e IV de Portugal dirigiu-se aos deputados portugueses.
Afirmou ter sido sempre "franco e fiel aos meus juramentos", comunicando
que deixava os negócios públicos por não ter condições de saúde para deles
tomar conhecimento: era a moléstia pulmonar que o assaltara desde que se
iniciara a campanha contra seu irmão. Dom Miguel I . Dois dias depois, em
20 de setembro, recebeu a extrema-unção. No dia 23, afirmou: "Morro con-
tente, porque a ninguém fiz mal". Nessa madrugada do dia de sua morte, na
presença de sua esposa D a Amélia, já sem forças para escrever, seu último
alento foi para ditar — entre crises de falta de ar — sua inesquecível "Carta
aos brasileiros", da qual não se pode. deixar de mencionar pelo menos um trecho:

"Não posso deixar de vos dirigir numa advertência acerca da
escravidão dos negros. A escravidão he hum mal, e hum attentado
contra os direitos e a dignidade da espécie humana, mas as suas con-
sequências são menos danosas aos que padecem o captiveiro, do que
á Nação, cuja legislação admitte a escravatura. He um cancro que
devora sua moralidade."

A 23 de Setembro, poucas horas antes da morte, pediu para abraçar
um soldado — qualquer um, desconhecido — que tivesse estado com ele no
cerco do Porto. Veio o soldado Manuel Pereira, "cabelos grisalhos, já curvado
ao peso dos anos".
O duque de Bragança, proclamador da Independência e primeiro Im-
perador Constitucional do Brasil, o 28° Rei de Portugal cingiu os ombros do
velho soldado, e disse: "dizem que fui um príncipe mulherengo: será portanto
um soldado que há de receber meu último adeus!" (Bertita Harding, ob. cit.). PRÍNCIPE DOM PEDRO D E ALCÂNTARA
(Dom Pedro III)
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10.3 — A FAMÍLIA IMPERIAL
Fundando o Império do Brasil, e tornando-se o nosso primeiro impe-
rador. Dom Pedro I fundou, também, a Família Imperial brasileira. É dele
que descendem os Orléans e Bragança.*
Dom Pedro I tinha a impulsividade dos Bourbon, mais a sagacidade
dos Bragança. Seu pai, Dom João V I , era um Bragança legítimo, filho de
D. Maria I e do rei-consorte D. Pedro: dois Braganças. Mas, sua bisavó, a
mãe de D. Maria I , esposa de D. José I , já era uma Bourbon; e sua mãe, a
terrível Carlota Joaquina, era uma Bourbon de corpo e alma. Alguns histo-
riadores põem em dúvida a paternidade de Dom João V I , em relação ao filho
Pedro: foram notórias as aventuras extraconjugais de D" Carlota Joaquina,
assim como a preferência de Dom João pela primeira filha do casal, que.
segundo reza a crónica, era a única de cuja paternidade ele tinha certeza.
Infelizmente, o bom e pacato homem teria que ter vivido mais um século,
para aplicar suas dúvidas: a impressionante semelhança do seu tetraneto Dom
Pedro Henrique de Orléans e Bragança, não permite dúvida sobre a filiação
de Dom Pedro I em relação a Dom João V I . Aliás, essa mesma semelhança,
estampada no semblante de uma das irmãs de Dom Pedro II, também já teria
sido suficiente para desfazer as dúvidas do monarca. O próprio Pedro I I , até
a juventude, tinha na fisionomia traços indeléveis de Dom João V I ; e também
Dom Pedro I , pouco antes de ser assaltado pela tuberculose, já mostrava no
rosto uma impressionante semelhança com Dom João.
Dom Pedro I casara-se com D a Maria Leopoldina Josefa Carolina de
Habsburgo, arquiduquesa d'Àustria, filha do Imperador Francisco I . Assim,
Dom Pedro I era também um Habsburgo. Casou-se com D a Teresa Cristina
de Bourbon-Sicília. Desse modo a princesa Isabel, além de Bragança, e de
Habsburgo, tinha uma grande dose de ascendência bourbônica (a esposa de
Dom João I , depois D a Carlota Joaquina, e finalmente D a Teresa Cristina);
casando-se com Gastão de Orléans (os Orléans e os Bourbon são primos
próximos), essa ascendência aumentou na família.
A princesa Isabel e o conde d'Eu tiveram três filhos: Dom Pedro de
Alcântara, Dom Luiz e Dom Antônio. Este último morreu solteiro em 1918.
Em torno dos dois primeiros foi que se criou a chamada "questão dinástica"
no Brasil.
Dom Pedro de Alcântara, príncipe do Grão-Pará, namorou durante cerca
de oito anos a condessa Elisabeth Dobrezensky von Dobrzenicz. Para casar-se
precisou renunciar a todos os seus direitos à coroa brasileira (1908). Desse

* A propósito do mito republicano que fala em Família Imperial "estrangeira", portanto,
nem há como que se perder tempo, argumentando. Basta pensar que menos de 5% dos brasileiros
não têm um bisavô ou trisavô estrangeiro, sendo de notar que mais de 90% os têm portugueses;
nem por isso, no entanto, essa esmagadora maioria é menos brasileira, ou "estrangeira".

A Família Imperial, já residindo no Palácio Grâo-Pará, em Petrópolis: Dom Pedro III, 227
D" Elizabeth (esposa). D* Francisca (mais tarde duquesa de Bragança), Dom Pedro Gastão,
D" Isabel (futura condessa de Paris), Dom João e D" Tereza.
casamento resultaram D" Isabel (1911), que se casou com o Conde de Paris,
"Corre por aí pretender eu reaver os direitos de sucessão eventual
herdeiro da coroa da França: Dom Pedro Gastão (1913). que reside em Pe-
ao trono do Brasil, com prejuízo de Dom Pedro. Henrique, meu sobrinho,
trópolis; D a Francisca (1914), já falecida, casada com Dom Duarte Nuno,
renegando minha renúncia de 1908.
Duque de Bragança, anterior herdeiro da coroa de Portugal (o atual, seu filho,
A minha renúncia, em 1908, é válida, embora muitos monarquis-
é D. Duarte Pio); Dom João, oficial reformado da Força Aérea Brasileira,
tas, como o Cons. João Alfredo, o Visconde de Ouro Preto, e outros,
casou-se com a princesa Fátima, irmã do ex-rei Farouk, do Egito; e D a Tereza
atualmente membros da Ação Monarquista Brasileira, entendessem e
(1919), casada com o Sr. Martorel y Caldeio.
entendam que, politicamente e pelas leis brasileiras que vigoravam em
Dom Luiz de Orleans e Bragança casou-se com a princesa Maria Pia 1889, ela deve ser ratificada pelas Câmaras no caso de ser restaurada
de Sabóia, da Casa Real italiana. O casal teve três filhos: Dom Pedro Henrique a Monarquia. Aliás, na minha família nunca haverá dissenções ou dis-
de Orleans e Bragança, Dom Luiz Gastão e D a Pia Maria. Dom Luiz Gastão putas por causa do poder imperial". (Cf. Diário de São Paulo,
faleceu em 1931, solteiro; D a Pia Maria casou-se com o Conde René de 22.4.1938).
Nicolay, mas a descendência desse casal não tem direitos dinásticos no Brasil.
Dom Pedro Henrique (falecido em 1981) casou-se com a princesa D a Maria Na sua obra anteriormente citada (A legitimidade monárquica no Brasil),
de Wittelsbach, da Casa Real i!.i Baviera. Armando Alexandre dos Santos reproduz, em fac-símile. uma carta datada
de 1935, na qual Dom Pedro de Alcântara também declara ao Prof. Sebastião
1 0 . 4 — 4 "QUESTÃO DINÁSTICA" Pagano que o pretendente ao trono é seu sobrinho e não ele. Aliás, como
essa, há um número muito grande de cartas, e declarações expressas ou im-
A denominada "questão dinástica" estaria colocada, então, entre esses plícitas de Dom Pedro de Alcântara, e de outros membros da Família Imperial,
dois ramos, oriundos do renunciante Dom Pedro de Alcântara, e de seu irmão aparentemente afastando quabquer dúvidas do ponto de vista dinástico.
Dom Luiz, que, com aquela renúncia, assumiu a condição de sucessor da Completando o relato desse quadro, é bom lembrar que, se a renúncia
Princesa Isabel, e o título de Príncipe Imperial. No Império brasileiro, é bom de Dom Pedro de Alcântara foi forçada* pelas circunstâncias do seu casa-
que se lembre, o herdeiro do trono e futuro sucessor do Imperador tinha o mento, isso em absolutamente nada diminuiu a estreitíssima amizade que
título de "Príncipe Imperial", e seu herdeiro ou sucessor o título de "Príncipe ligava e ligou a vida inteira os dois irmãos, ele e Dom Luiz. Aliás, é de uma
do Grão-Pará"; assim, a Princesa Isabel foi "Princesa Imperial", e seus filhos carta da época da renúncia, dirigida pela princesa Isabel à baroneza de Loreto,
Dom Pedro de Alcântara e Dom Luiz foram sucessivamente "Príncipe do o seguinte trecho: "Graças a Deus os irmãos são muito unidos e tudo fizeram
Grão-Pará". Pois, "de jure", desde a morte de Dom Pedro I I , D a Isabel era de comum acordo" (apud Armando Alexandre dos Santos, ob. cit.). Do mesmo
Imperatriz do Brasil; assim, aliás, tratavam-na epistolarmente os monarquistas arquivo do I.H.G.B. (arq. do Vise. de Ouro Preto, DL427.I9), carta de Dom
brasileiros. De modo que, consequentemente, seus dois filhos foram também Luiz de Orleans e Bragança (Cannes, 20.11.1908) ao visconde de Ouro Preto,
"de jure". Príncipes Imperiais. Os demais membros da Família Imperial eram da qual consta o seguinte trecho:
somente príncipes. O título de "Príncipe do Grão-Pará" era uma homenagem
à maior província do Império, o Pará, que englobava os atuais Estados do "Minha mãe communicou aos Senhores a declaração pela qual
Pará, Amapá, Amazonas e Roraima. meu irmão mais velho, por motivo do seu consórcio, renunciou em
meu favor a seus direitos eventuais à Coroa..."
Durante a vida de Dom Pedro de Alcântara, parece não ter havido
qualquer discussão a respeito da sucessão. Existem cartas da Princesa Isabel Ainda, do Arquivo do Palácio Grão-Pará, e publicada na "Revista do
aos dirigentes do Diretório Monárquico Brasileiro (Conselheiros Lafayete Ro- Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", vol. 26, pág. 382, uma minuta
drigues Pereira e João Alfredo Corrêa de Oliveira, e o Visconde de Ouro de carta do Diretório Monárquico à Princesa Isabel, manuscrita em Fevereiro
Preto), comunicando a renúncia de seu primogénito e a nova condição de de 1909, pelo conde de Afonso Celso, e com as últimas linhas do punho do
seu segundo filho. Dom Luiz, como seu sucessor; nessas cartas, inclusive, a visconde de Ouro Preto, da qual se lê:
Princesa Isabel recomendava aos monarquistas brasileiros que se unissem em
torno de Dom Luiz. Existe correspondência, também do próprio Dom Luiz,
já como sucessor presuntivo, ao Diretório Monárquico. E existem reiteradas
reafirmações de renúncia por parte do próprio Dom Pedro de Alcântara: numa * "Fui forçada a renunciar nas meus tllreitos eventuais ao trona tio Brasil", diria ele
delas, aliás, mensagem dirigida à Ação Monarquista Brasileira, dizia o ex- em data de 1923. ao conde de Afonso Celso, prosseguindo: "Respeitador dessa renúncia nunca
Príncipe do Grão-Pará: procurei nem procurarei fazer propaganda ou aliciar partidários pessoais" (In arquivo do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro)

228 229
"...Natural era que o Sr. D. Luiz. elevado pela abnegação do Sr. de Dom Pedro de Alcântara; e, indisfarçavelmente, continua até hoje. Além
D. Pedro de Alcântara, ao grau de inunediato herdeiro da coroa...". dessa causa inicial, outras contribuíram para alimentá-la.
Note-se, em primeiro lugar, que quando Dom Luiz faleceu (1920) o
Outro ponto que convém registrar, é que, a partir da renúncia de seu
seu primogénito Dom Henrique contava somente onze anos de idade; foi
irmão, e da sua ascensão à condição de sucessor da princesa Isabel, Dom
com essa idade, portanto, que passou à condição de sucessor direto — no
Luiz empreendeu uma intensa atividade — apesar de a família estar exilada
seu ramo — da princesa Isabel, que viveu até 1921. Por mais ética e irre-
na França —junto aos monarquistas brasileiros. Inclusive, com desassombro,
preensível que tenha sido a vida inteira, como efetivãmente foi a atitude de
viajando ao Brasil.* Aliás, esse dinâmico príncipe parece ter tido excepcionais
Dom Pedro de Alcântara em relação à sua renúncia e à sucessão, o certo é
qualidades, tanto que seu primo, o rei Alberto I , da Bélgica, dizia dele: "Ho-
que aos olhos do mundo e dos monarquistas brasileiros, além de ser o pri-
mem como poucos, príncipe como nenhum". Daí, inclusive, a razão pela qual
mogénito da princesa, em 1920 ele era um varão com quase 45 anos de
foi cognominado "o Príncipe Perfeito", embora não se saiba exatamente quem
idade, que ostentara o título de príncipe do Grão-Pará; e o novo eventual
o congnominou, e nem quando.
chefe da Casa Imperial e sucessor do trono era um órfão de onze anos. Além
Outro aspecto que convém esclarecer, é que Dom Luiz faleceu ainda disso, a eventual renúncia de Dom Pedro de Alcântara só diria respeito aos
em vida da Princesa Isabel (1920); por esse motivo, seu filho Dom Pedro seus direitos como sucessor ao trono brasileiro: não, como filho primogénito
Henrique teria sucedido diretamente à Princesa. Dom Pedro de Alcântara do conde d'Eu — que era filho do Duque de Nemours, e neto do rei Luiz
faleceu em 1940, no Palácio Grão-Pará, em Petrópolis. Filipe I — o que lhe dava o prestígio de membro da Casa Real francesa,
Dom Pedro Gastão, primogénito de Dom Pedro de Alcântara, e Dom integrante da linha sucessória ao trono da França, e principal proprietário do
Pedro Henrique, primogénito de Dom Luiz, foram os seguintes chefes de Castelo d'Eu. Tudo isso, é de concluir, permitia-lhe uma projeção muito
cada um dos ramos de uma só e mesma Família Imperial. O segundo, na maior do que a de seu sobrinho, o menino talvez chefe da Casa Imperial
condição até certa altura incontestada, de eventual sucessor ao trono. brasileira, Dom Pedro Henrique. Muito embora, conforme a carta já citada
Os membros do Diretório Monárquico Brasileiro, à época da renúncia ao conde de Afonso Celso, Dom Pedro de Alcântara tenha dito expressamente:
de Dom Pedro de Alcântara, haviam considerado prematuro o ato. Entendiam,
então (1908), que a restauração far-se-ia num breve prazo, tão logo o tempo "Os direitos eventuais ao titrono de França são fixados por uma
levasse deste mundo os homens públicos da Monarquia, que, por patriotismo sucessão perfeitamente estabelecida na Casa Real da França — A nossa
e por verem que a República não tinha projeto político, haviam consentido família constitui a Casa Imperial do Brasil. "
em continuar servindo à Administração Pública do país. Consequentemente,
entendiam que a questão do casamento do Príncipe do Grão-Pará poderia ser A segunda causa, foi que, levantado em 1922 o banimento da Família
apreciada quando da restauração do regime, acarretando ou não sua renúncia. Imperial, Dom Pedro de Alcântara retornou ao Brasil, com todos os seus.
A princesa Isabel, no entanto, enxergava mais longe: achava que a restauração Assim, foi com Dom Pedro de Alcântara que as autoridades brasileiras se
— ou o restabelecimento sob novas concepções — demoraria décadas; por entenderam, relativamente aos bens particulares da Família Imperial. Foi Dom
isso, instou desde logo para que todos aceitassem a renúncia e o novo pre- Pedro de Alcântara quem promoveu contra a União Federal ações judiciais,
tendente, evitando o que ela chamava — e temia — a divisão pela "criação e celebrou acordos que resultaram na devolução de alguns daqueles bens, e
de partidos". compensação em relação a outros. Aliás, ainda existe pendente uma ação de
Foi com base no entendimento dos dirigentes do Diretório Monárquico reintegração de posse, relativa ao Palácio Guanabara, sede do governo do
(1908), no entanto, que a aludida "questão dinástica" surgiu, após a morte Estado do Rio de Janeiro*; essa reintegração obteve sentença favorável numa
das Varas da Fazenda Pública, e confirmação pelo Tribunal Federal de Re-
cursos, em grau de apelação. Depois disso, a União recorreu extraordinaria-
mente ao Supremo Tribunal Federal, onde o processo se encontra em com-
* O príncipe Dom Luiz foi impedido de desembarcar, pelo presidente Afonso Pena, que passo de espera há mais de cinquenta anos!
se baseou em parecer de Rui Barbosa, o qual fez. mais tarde, o seu "mea culpa", redimindo-se
de todos os seus erros anti-monárquicos, a partir da sua "campanha civilista" à Presidência da
República; apesar disso. Dom Luiz recebeu delegações e pequenas multidões, a bordo do navio
"Amazone", fundeado na barra do Rio de Janeiro e em Samos. E , no cais do porto do Rio, uma
grande multidão permaneceu concentrada durante todo o tempo em que o navio permaneceu * O terreno foi comprado, e a construção do Palácio custeada, ambos com dinheiro
fundeado. O mesmo ocorreu no porto de Santos. Depois. Dom Luiz percorreu o Rio Paraguai, particular do conde d' Eu (que trouxera ao vir para o Brasil) e da princesa Isabel (dote de casamento
sempre impedido de desembarcar. que lhe foi dado pelo pai. Dom Pedro II); apesar disso, o Palácio foi confiscado pela República...

230 231
Enfim, se na Europa a projeção de Dom Pedro de Alcântara fora na-
turalmente maior do que a do menino Dom Pedro Henrique, no Brasil essa
projeção só aumentou, após sua volta. Inclusive, porque ele nascera e se
criara aqui, estava aqui, morando num anexo do palácio do verão de seu avô
Dom Pedro I I , em plena Cidade Imperial de Petrópolis, onde ainda viviam
tantos amigos desse avô, e de seus pais; na verdade. Dom Pedro de Alcântara
nunca foi qualquer coisa diversa daquela pela qual era visto e considerado:
Dom Pedro I I I . Enquanto, que Dom Pedro Henrique, nascido e criado no
exílio da família, na França, ainda continuava lá.
O fato de Dom Pedro Henrique ter voltado à Europa depois de aqui
ter vindo em 1922, foi a terceira causa da aludida "questão dinástica". Evi-
dentemente todos os príncipes brasileiros que nasceram no exterior, durante
o exílio da família, foram imediatamente registrados na repartição diplomática
competente. Pois, todas as Constituições republicanas brasileiras — como a
atual — reconheceram como brasileiros natos os filhos de brasileiros nascidos
no exterior, se registrados nas nossas repartições diplomáticas do país de
nascimento, e se ao completarem a maioridade confirmassem a opção pela
cidadania brasileira.
Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança não foi só registrado no
consulado brasileiro competente: sucessor que seria da Princesa Isabel pelo
menos à ótica da própria princesa, à época da morte prematura o pai —
também fôra balizado com água brasileira, recolhida no chafariz do Largo
da Carioca, no Rio de Janeiro, e levada especialmente à França para o seu
batismo!
Entretanto, levantado o banimento da família, o órfão Dom Pedro Hen-
rique, já com 13 anos, não ficou no Brasil: acabou voltando só depois da
Segunda Guerra Mundial, já casado e com quatro filhos; e, tudo indica que
as razões tenham sido de ordem financeira.
Além disso, Dom Pedro Henrique registrou os seus quatro primeiros
filhos. Dom Luiz, Dom Eudes, Dom Bertrand e D" Izabel como cidadãos
franceses; e não como brasileiros, o que, no entanto, poderia ter feito. Só
muito mais tarde esses príncipes, já no Brasil, em virtude de uma nova lei
brasileira que passou a permiti-lo, resolveram adotar nossa cidadania. Aliás,
quando quis que sua esposa D a Maria de Wittelsbach trocasse a nacionalidade
alemã por outra, também não foi a nacionalidade brasileira que Dom Pedro
Henrique escolheu, mas a francesa. Nessa ocasião foi que D a Maria acres-
centou ao nome o de "Elizabeth".
Aliás, parece sugestiva uma carta de seu pai Dom Luiz, datada de 25
de Abril de 1909, em Madrid, e dirigida aos "Srs. Membros do Diretório
Monarchista", na qual esse príncipe assina "Luiz de Bragança Orleans"...
(Arq. do Vise. de Ouro Preto, em poder do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro — registro).
Do levantamento do banimento, até 1945, só Dom Pedro de Alcântara
O PRÍNCIPE DOM PEDRO GASTÃO D E ORLEANS E BRAGANÇA (Dom Pedro IV),
(até morrer, em 1940) e seus filhos. Dom Pedro Gastão à frente, representaram
primogénito de Dom Pedro de Alcântara
a Família Imperial, e simbolizaram a Monarquia no Brasil. (Foto de 1992)

232
10.5 — OS DOIS "RAMOS'

Hoje, os dois "ramos" da Família Imperial são conhecidos como "ramo
de Petrópolis" e "ramo de Vassouras".

10.5.1 — O "ramo" de Petrópolis

Dom Pedro de Alcântara, chegado ao Brasil, acabou por ir residir no
anexo do Palácio Imperial de Petrópolis, recuperado às autoridades republi-
canas, e a partir de então denominado "Palácio Grão-Pará". Teve cinco filhos,
como já referido: D" Isabel (1911), que casou-se com Henri de Orleans,
Conde de Paris, herdeiro da coroa da França; Dom Pedro Gastão (1913),
casado com a princesa Maria Esperanza de Bourbon; D" Francisca (1914),
que se casou com o Duque de Bragança, herdeiro do trono de Portugal; Dom
João (1916), que se casou com a princesa Fátima, irmão do então rei do
Egito, Farouk; e. D" Tereza (1919), casada com o Sr. Ernesto Martorell y
Calderó.
Dom Pedro Gastão, que sucede o pai na chefia desse ramo, teve seis
filhos: Dom Pedro Carlos (1945), D" Maria da Glória (1946), Dom Afonso
(1948), Dom Manuel (1949), D a Cristina (1950) e Dom Francisco (1956).
Seu irmão Dom João tem um filho. Dom João Henrique (1954).
Dom Pedro Gastão tem um carregado sotaque francês. É natural: já
nasceu no exílio (1913), e lá viveu sua infância, falando francês na escola,
na rua, etc. Não tem culpa, evidentemente, de ter nascido no exílio: isso é
o estigma da República. Nem por isso, no entanto, é estrangeiro: não só é
brasileiro nato, como o são todos os príncipes da Casa Imperial, mas é de-
cididamente um brasileiro, profundamente apaixonado pelas coisas do Brasil.
Precursor do "ecologismo", desde há muitas décadas já se dedicava à pre-
servação das florestas e da fauna da região serrana do Rio de Janeiro; no
Palácio Grão-Pará, inclusive, sempre é possível encontrar alguma espécie em
extinção, tanto da nossa fauna, como da flora, inclusive amazônicas.
Com razão de ser o mais conhecido dos príncipes brasileiros. Dom
Pedro Gastão é bastante popular. Tem antigo hábito de todos os dias dar
uma volta a cavalo peias ruas de Petrópolis (o "Grão-Pará" fica no centro
da cidade), e nesses passeios é constantemente abordado, "estacionando" a
montaria para conversar; muitas vezes, inclusive, vai à cavalo ao trabalho,
na sua Companhia Imobiliária de Petrópolis." E extremamente afável e de-
licado, um príncipe na acepção da palavra; mas tem um pouco do "pavio
curto" da sua avó, a princesa Isabel, e às vezes não se dá ao trabalho de
escolher palavras aveludadas, ou de "ficar em cima do muro" para deixar de
dizer o que pensa. Como na célebre tomada de televisão, ao vivo. no meio
do trânsito de Petrópolis, e levada ao ar em cadeia nacional: perguntado pela
repórter sobre o que achava de determinada questão política, respondeu sem
pestanejar "Falta de vergonha na cara!", e engatando a marcha do seu carro,
seguiu adiante. Um brasileiro típico, nos seus hábitos, nos seus gostos, e na

235
maneira de ver as coisas. Não é um cerebrino, nem teórico: ao contrário, é
extremamente prático e objetivo, com uma impressionante acuidade política,
tão grande essa acuidade que lhe permite não só transitar naturalmente na
alta política, com interlocutores dotados dessa medida, como não ficar indefeso
diante da baixa política. Este, aliás, é apenas um dos seus traços marcantes.
Muito bem relacionado em quase todos os círculos da vida pública
brasileira, goza, também, de um vasto número de relações pessoais e familiares
no exterior: é tio do rei Juan Carlos, da Espanha; tio do duque de Bragança,
pretendente ao trono de Portugal; cunhado do conde de Paris, chefe da Casa
Real Francesa; e sogro do príncipe Alexandre, Chefe da Casa Real da Sérvia.
Além disso, é o único membro da Casa Imperial que até os oito anos
de idade ainda pôde sentar-se no colo de sua avó, a princesa Isabel, o que
faz dele uma espécie de elo de ligação entre o passado, o presente e o futuro;
ou entre o passado e o futuro, passando por sobre o nosso lamentável presente.
Acima de tudo, é um monarca verdadeiro: a grandeza de sua compostura
natural, salta aos olhos do mais distraído interlocutor; sua afabilidade verda-
deira, sem afetações, e seu espírito democrático, além da segurança de sua
condição de sucessor imperial — que transmite com sua simples presença,
sem precisar engendrar situação ou explicação alguma — não suscita e nem
poderia suscitar dúvida em quem quer que com ele se defronte. Dom Pedro
é grande chefe de Estado por circunstância natural da sua posição. Prova-
velmente, seria tão grande para a época contemporânea, quanto o foram Pedro
I e Pedro I I , cada qual no seu tempo.
O primogénito desse grande varão imperial é o príncipe Dom Pedro
Carlos, pai do pequeno Dom Pedro Thiago, o que foi sequestrado em 1992.
Engenheiro ambiental, especializado na preservação e recriação de florestas
— a velha tradição dos Bragança, desde a obra de restabelecimento da floresta
da Tijuca — é autoridade mundialmente respeitada no ramo, atendendo con-
sultas dos mais distantes países. Reservado, mas sem ser tímido, é também
um homem do mundo, transitando com facilidade e rapidez de raciocínio
nos mais variados campos. Embora no passado tivesse mantido uma atitude
até certo ponto reticente em relação à monarquia, hoje vem desenvolvendo
uma discreta mas eficiente atividade de preservação das tradições monárqui-
cas, e de impulso ao movimento. Os outros filhos de Dom Pedro Gastão,
Dom Afonso, Dom Manuel, Dom Francisco, D". Maria da Glória e D a . Cristina,
mantêm-se envolvidos por suas atividades particulares. A promessa de con-
tinuação na linha de primogenitura, é o citado Dom Pedro Thiago, atualmente
com 13 anos.
O único irmão de Dom Pedro Gastão, é Dom João. Tenente-coronel
aposentado da Força Aérea Brasileira, vive em Parati, e como "hobby" produz
uma cachaça de boa qualidade, ocupação que, segundo consta, dá-lhe prejuízo
financeiro permanente. Mantém-se afastado, também, do movimento monár-
quico. Mas, seu único filho, Dom João Henrique, tem participado ativamente.
Esse príncipe de espírito aventureiro — alpinista, explorador na Antártida,
surfista, etc. — poderia ser, também, por sua vocação íntima, um depositário
A linha de sucessão na Família Imperial:
Dom Pedro IV com seus filho e nelo primogénitos. 237
Dom Pedro Carlos e Dom Pedro Thiago
de toda a sua vida, até falecer, em 1981, Dom Pedro Henrique reuniu à sua
da continuação das tradições e valores monárquicos no "ramo de Petrópolis".
volta a maior parte dos monarquistas brasileiros; a legitimidade dinástica
Mas, não foi preparado para isso, como provaram suas atitudes durante a
campanha do plebiscito; além do que, só remotamente está na linha de su- aparente acabou por sobrepor-se durante algum tempo às outras considerações.
cessão: no "ramo de Petrópolis", antes dele vêm os cinco filhos de Dom Consta que, nas suas extremas dificuldades, Dom Pedro Henrique foi
Pedro Gastão, e depois os filhos destes, e depois seu pai, Dom João. ajudado, entre outros, pelo Dr. Plínio Correia de Oliveira, fundador e presi-
dente da TFP — Sociedade Brasileira de Defesa e Tradição, Família e Pro-
priedade, que não podia admitir passasse esse Príncipe as dificuldades pelas
quais passava. Essa sociedade tem uma péssima imagem pública, criada pela
esquerda, que, como já se viu, tomou conta das redações da imprensa falada
e escrita, e até certo ponto das cátedras universitárias. O motivo, é simples:
foi ela a única força organizada que, nos anos 50 e 60, opôs-se à esquerdização
10.5.2 — O "ramo" de Vassouras da Igreja, conseguindo, em parte, que isso não acontecesse. Como vingança
contra a inusitada e "reacionária" resistência da TFP, a esquerda disseminou
Dom Pedro Afonso Henriques de Orléans e Bragança (dentre outros pública e nacionalmente a sua imagem de organização ultra-conservadora e
nomes, obviamente), mais conhecido como Dom Pedro Henrique, neto e talvez
ultra-radical de direita.
sucessor dinástico direto da Princesa Isabel, como já se viu, tinha .treze anos,
O autor ignora quais sejam os verdadeiros postulados da TFP, sua dou-
quando foi levantado o banimento da Família Imperial pelas autoridades re-
trina; também não conhece os seus estatutos. Mas, não pode deixar de registrar
publicanas. Não tinha como ficar no Brasil. Suas dificuldades financeiras
o óbvio, isto é, não só que a imagem negativa da TFP foi disseminada a
prosseguiram por toda a juventude. Quando teve condições para pensar em
partir do controle que as esquerdas exerceram — e ainda exercem — ideo-
vir definitivamente, a situação da Europa j á estava conflagrada pela escalada
lógica e culturalmente, como também que os príncipes do "ramo de Vassouras"
hitlerista na Segunda Guerra Mundial: ele e os seus foram "internados" na
não professam ideologia do que as esquerdas conseguiram denominar como
França ocupada. Só terminada a guerra pôde partir para o Brasil, já com
"de direita", aliás como se isso equivalesse a uma condenação moral e social,
quatro filhos: Dom Luiz, Dom Eudes, Dom Bertrand e D" Isabel. Não se
pense, no entanto, que as aludidas dificuldades financeiras de Dom Pedro o que nem sempre condiz com a realidade.
Henrique foram resultantes de falta de bens: ao contrário, no seu testamento O fato é que, sempre como consta, não só em gratidão ao Dr. Plínio
o conde d'Eu contemplou muito mais a seu filho Dom Luiz, e aos descendentes Correia de Oliveira, pela ajuda recebida em relação à educação de seus filhos,
deste, do que ao primogénito Dom Pedro de Alcântara, tanto em dinheiro mas também por ser ele mesmo um convicto professante dos postulados
como em outros bens. Ao ponto de o administrador de sua fortuna, domiciliado cívico-filosóficos da entidade, o príncipe Dom Pedro Henrique teria filiado
em Londres, mandar carta à França, estranhando a desigualdade de tais dis- à TFP o seu terceiro filho, Dom Bertrand; e mais tarde, por instâncias deste
posições testamentárias. último, o próprio Dom Luiz teria ingressado na entidade. Realmente, embora
Dom Pedro Henrique não dispusesse de recursos para tanto, é certo que todos
No Brasil, chegando sem dinheiro, Dom Pedro Henrique foi diretamente os seus filhos tiveram educação compatível. Dom Luiz voltou à Europa,
para o Palácio Grão-Pará, em Petrópolis, onde foi hospedado, com todos os graduou-se na Alemanha. Dom Eudes cursou a Escola Naval, no Rio de
seus, por seu primo Dom Pedro Gastão; lá permaneceu durante algum tempo.
Janeiro; mais tarde, já como oficial, deu baixa da ativa da Marinha de Guerra,
Depois, recebeu de um amigo a doação de uma casa no Rio de Janeiro. Mais
e hoje é fabricante de vinhos. Dom Bertrand graduou-se bacharel em Direito
tarde, tentou chegar a um acordo patrimonial com os parentes de Petrópolis,
na tradicional escola do Largo de São Francisco, em São Paulo; aliás, par-
em vão: os prazos contratuais para a recompra das suas ações da Cia. Imo-
ticipou ativamente da política académica, e, à época, a chapa que integrou
biliária de Petrópolis, já haviam decorrido. Essa questão, inclusive, gerou
ficou conhecida como "chapa do príncipe". Dom Antônio é engenheiro nu-
uma ação judicial entre Dom Pedro Henrique e Dom Pedro Gastão, vencida
clear. Dom Alberto é advogado no Rio de Janeiro. Enfim, todos são formados.
por este último, em todas as instâncias. Com a casa que lhe fôra doada, e
mais a ajuda de amigos e admiradores, Dom Pedro Henrique conseguiu com- A prevalecer a renúncia de Dom Pedro de Alcântara, a linha de sucessão
prar uma pequena fazenda no Paraná, município de Jacarezinho. Lá, nasceram ao trono é a seguinte: Dom Luiz de Orleans e Bragança, solteiro, que com
outros oito filhos do casal, num total de doze; consta que esses príncipes o falecimento de seu pai Dom Pedro Henrique, em 1981, teria passado à
conheceram, inclusive, o trabalho de enxada, na roça. Eles próprios, aliás, o condição histórica de Chefe da Casa Imperial Brasileira; Dom Bertrand, tam-
afirmam. bém solteiro, que pelo mesmo motivo teria passado à condição de Príncipe
Imperial, é o segundo; Dom Antônio (3°), casado com a princesa Cristina
Depois, mudou-se para Vassouras, no Estado do Rio de Janeiro, cidade,
aliás, em que o conde d'Eu deixara um grande círculo de amizades. Ao longo Ligne, da antiga família de príncipes belgas que leva esse nome; Dom Pedro
239
238
Luiz (4°), nascido em 1986 e D a Amélia (5 a ), nascida em 1984, Dom Rafael
(6°) e D a Maria Gabriela (7 a ), todos filhos de Dom Antônio; D a Isabel (8"),
solteira, D a Eleonora (9 a ), casada com o príncipe Michel de Ligne, D a Maria
Tereza (10 a ) e D a Maria Gabriela (1 I a ) , as cinco últimas irmãs de Dom Luiz,
Dom Bertrand e Dom Antônio.
Os príncipes Dom Eudes (1939), Dom Pedro de Alcântara (1945), Dom
Fernando, e Dom Alberto (1957), renunciaram ao seus direitos à sucessão.
Alguns o fizeram antes do falecimento de Dom Pedro Henrique, outros, depois.
Desde que assumiu a condição de Chefe do "ramo de Vassouras", Dom
Luiz tem preenchido razoavelmente o papel de referencial, na divulgação da
Monarquia, e também na implementação do movimento monárquico. Além
disso, tem feito algumas viagens curtas, a diversos pontos do território na-
cional. Extremamente simples, quase frugal, esse é um dos seus traços que
mais impressionam os interlocutores. Mas parece ser rígido, quase obstinado
nas suas concepções, sobretudo no que diz respeito à fé e à moral católicas
(não, simplesmente, cristãs), ao rigor da legitimidade sucessória dinástica, da
qual se crê o depositário, e a alguns outros pontos doutrinais nos quais,
porém, alguma dose de flexibilidade ajudaria bastante à Monarquia brasileira
nos dias atuais. Para o jargão da esquerda, Dom Luiz será classificado como
"reacionário": e, sem dúvida ele o é, se isso for entendido como sinónimo
de um lutador contra a deteriorização dos valores éticos e morais na política
e na sociedade. Mas, esse príncipe está bem longe daquilo que o famoso
jargão também classifica como "direitista", ou como "ultrapassado": suas
concepções sobre a monarquia moderna estão perfeitamente inseridas no que
se pode esperar do sistema democrático, e do papel do Estado no contexto
nacional.
O homem de confiança de Dom Luiz, é seu irmão. Dom Bertrand.
Culto, dinâmico, irrepreensivelmente polido e extraordinariamente inteligente,
muito à vontade nos campos da psicologia social e de massas, da ciência
política e da sociologia política*, este príncipe se mostrou capaz de visitar
trinta cidades num só mês, nos pontos mais distantes do território nacional,
proferindo conferências, participando de debates e concedendo entrevistas,
durante a campanha do plebiscito. E, sem dúvida, o grande estrategista e
divulgador da campanha monárquica, suplantando e, de muito — ao deputado
Cunha Bueno nesse mister. Dele já se tem dito, por pessoas dentre as mais
aptas a apreciá-lo, e inclusive por republicanos, que é "mais preparado do
que a maioria dos homens públicos do nosso tempo". Três características
distinguem Dom Bertrand: a capacidade de descer de nível e falar de igual
para igual com as lideranças republicanas; a rigidez de conceitos, tão grande

* Não tendo como contestar as posições políticas e sociais, nem o comportamento de
Dom Bertrand, na campanha do plebiscito a mídia republicana passou a classificá-lo como "homem
DOM LUIZ D E ORLEANS E BRAGANÇA
extremamente insinuante", como se fosse um alerta para as pessoas não se deixarem convencer
( I o na linha de sucessão no "ramo de Vassouras")
por ele.
(Foto de 1992)

240
quanto a de seu irmão Dom Luiz; e, sua absoluta e irreparável fidelidade a
este último. Príncipe de "pavio longo", no entanto, formaliza-se e distancia-se
quando o interlocutor — se por irreverência — deixa de lhe dar o tratamento
adequado. Extraordinariamente perspicaz, com visão histórica e panorâmica
de qualquer questão política, Dom Bertrand é, efetivamente, um defensor da

rà\> TFP, à qual conceitua como entidade cultural de defesa dos valores cristãos;
e, sem delongas, ou meias palavras, confirma ser seu filiado, e passa desde
logo a esclarecer que tem orgulho de pertencer à entidade, exatamente por
causa das razões da má imagem pública que ela tem. íntegro, e obstinado
nas suas concepções, esse príncipe também não se preocupa em ficar "em
cima do muro", isto é, em omitir o que pensa, no que acredita, e o que
pretende; lembra um soldado das Cruzadas em batalha, ou um centro-avante
que abaixa a cabeça e investe em pique para a área do adversário. Mas,
naquilo em que acredita, inclui-se uma perfeita e moderníssima noção do
sistema democrático, de parlamentarismo, dos direitos de cidadania, e de
como a monarquia pode servir eficientemente a esses postulados, e a um
rápido — mas regular e sem tropeços — avanço do país na retomada do
lugar que lhe compete, e por injunções naturais, no concerto das nações.
Em todos os aspectos dos quais até aqui nos ocupamos, Dom Bertrand
é o próprio modelo do excelente Príncipe Imperial. E, sem dúvida, também
poderia vir a ser um excelente rei ou imperador de um Brasil que, de repente,
e sem o perceber, descobrisse que dera o passo para se libertar da incapacidade
e do atraso republicanos, e visse que havia reencontrado a si mesmo, e ao
seu caminho natural de grande Nação. E óbvio, no entanto, que, sem ser um
afetado, a naturalidade de Dom Bertrand pertence a uma outra espécie, que
não a de Dom Pedro Gastão.
DOM BERTRAND D E ORLEANS E
BRAGANÇA, 2° na linha de sucessão no Consta que, certo dia, ainda na fazenda em Jacarezinho, Dom Pedro
"ramo de Vassouras" e grande estrategista Henrique teria reunido os doze filhos, e conclamado a que dedicassem suas
da campanha monárquica. (Foto de 1992)
vidas ao restabelecimento da monarquia; especialmente, teria conclamado
Dom Luiz e Dom Bertrand a que, — qual sacerdotes, que não podem casar-se,
para melhor dedicarem-se à sua missão, no caso a missão de sustentar a fé
católica — não se casassem, antes que o objetivo da causa monárquica hou-
vesse sido alcançado.
Dom Bertrand segue à risca o mandado paterno. Dom Luiz, além do
mandado, tem outras circunstâncias a impeli-lo no cumprimento: numa idade
em que isso já não costuma ocorrer, e em plena Alemanha, contraiu paralisia
infantil que, sem prejudicar sua cabeça, nem o seu caráter, prejudicou o
desenvolvimento de sua perna direita. Consta, também, que esse fato lhe
teria causado uma desilusão amorosa na mocidade, o que ainda mais o impeliu
àquele cumprimento. De qualquer modo, porém, a sucessão sempre estará
DOM ANTONIO
DE ORLEANS
garantida, no "ramo de Vassouras", por Dom Antônio e família.
E BRAGANÇA, Dom Antônio de Orleans e Bragança (1950) é o quinto filho de Dom
3 o na linha de sucessaoj
no "ramo de Vassourai"
Pedro Henrique/D" Maria Elizabeth, e o terceiro na linha de sucessão ao
e família: Dom Pedro 1 trono brasileiro no citado "ramo de Vassouras". Casado com a princesa Cris-
D 3 Cristina, tine de Ligne, tem dois filhos e duas filhas. Sempre trabalhou na empresa
D* Maria Gabriela,
Dom Rafael, e D" Amélj 243
privada. É tímido. Mas. há quem diga que essa timidez decorre, exclusiva-
mente de sentir-se naturalmente alvo de observações veladas, pelo fato de Constituição de 1824. O visconde de Ouro Preto, o conselheiro João Alfredo,
ser um príncipe da Casa Imperial, o que faz sentido. A verdade é que onde o conselheiro Lafayette Rodrigues Pereira disseram isso explicitamente à prin-
foi, nos tempos de campanha do plebiscito, não desagradou aos ouvintes ou cesa Isabel. O certo é que para eles a renúncia não foi válida, até porque,
interlocutores. Além disso, muitos homens tímidos têm dado excelentes mo- naturalmente, o Congresso Nacional não iria tomar conhecimento, nem apre-
narcas; Jorge V I , da Inglaterra, e Carlos Gustavo, da Suécia, são exemplos. ciar uma tal questão, em 1908.
Demais disso, não se pode afirmar com certeza que o imperador ou rei do A posição do Diretório Monárquico tinha um quê de ambiguidade, mas
restabelecimento, no Brasil, deva ser, sequer, um Luiz Felipe I : talvez um só até certo ponto. Na verdade, não se pode obrigar alguém a exercer uma
homem como Pedro I seja perfeitamente ideal para o início do regime; ou, função; logo, se parlamento houvesse para apreciar a renúncia de Dom Pedro
no extremo, um Pedro I I , ambos reconhecidamente tímidos. de Alcântara, somente duas alternativas haveria para o órgão político: ho-
mologava-a ou recusava-lhe a homologação. Na primeira hipótese, o ato do
10.6 — 4 "QUESTÃO" parlamento conduziria por si mesmo à sucessão por Dom Luiz, à época,
porque até então sem descendência o pretendido renunciante: na segunda,
Não pode haver qualquer dúvida acerca de que a legitimidade dinástica honrando Dom Pedro de Alcântara a sua palavra e a sua assinatura, e recu-
não é apenas essencial à Monarquia: ela é a própria Monarquia. Caso contrário, sando-se a continuar na qualidade de herdeiro, e depois recusando-se a exercer
o que acontece é o malsão sistema eletivo, com todas as distorções, insin- o ofício imperial, isso também conduziria à sucessão por D. Luiz, uma vez
ceridades e violentações à autenticidade e à ética. Pior, cuidar-se-ia de pri- que o parlamento seria obrigado a reconhecer e declarar a vacância do Príncipe
vilégio inconcebível, uma vez que essa eleição recairia em candidatos de do Grão-Pará, ou conforme o caso em que se confirmasse a recusa de Dom
uma única família, em detrimento de quaisquer outros. Isto é, o que na Mo- Pedro, a vacância do Príncipe Imperial.
narquia é natural e benfazejo — a sucessão ocorrendo tradicional e orga- Nessa ordem de raciocínio, portanto, a validade da renúncia jamais
nicamente no seio de uma única família, historicamente preparada para a poderia ser posta em dúvida. Além disso, Dom Pedro de Alcântara reiterou-a
função magna de senúço, de manutenção e preservação dos valores nacionais seguidamente, ao longo de sua vida.
— tornar-se-ia um vício político inadmissível. Uma outra questão, porém, se coloca: se o restabelecimento da monar-
Assim, na Monarquia não se pode abrir mão da legitimidade dinástica. quia houvesse ocorrido quando Dom Pedro de Alcântara já tivesse filhos, e
Até porque, não é possível existir monarquia sem dinastia, nem dinastia sem então o parlamento fosse apreciar sua renúncia datada de 1908, quais seriam
legitimidade. as consequências de qualquer uma das atitudes possíveis ao órgão político?
A resposta a esta questão impõe considerações prévias e de outra natureza.
A luz da legitimidade dinástica. Dom Pedro Gastão e o "ramo de Pe-
trópolis", segundo seus primos do "ramo de Vassouras", estão excluídos na É possível, na ordem jurídica, alguém se comprometer por si e pelos
sucessão. Esta, aliás, é também a opinião de um excelente e erudito genea- seus herdeiros ou sucessores? Sem dúvida, sim; isso, aliás, é um dos pilares
logista, o Prol. Alexandre dos Santos, em suas obras tantas vezes citadas da certeza do Direito, e da segurança jurídica que ela assegura. Em qualquer
neste livro: mas, não se pode deixar de ter em conta que ele mesmo é um compra e venda existe a cláusula da evicção, pela qual o alienante se com-
destacado membro da TFP, o que até certo ponto põe em risco a isenção promete, por si e por seus sucessores — que, com frequência ainda não
das suas conclusões quanto ao tema. Demais disso, não é essa a opinião de nasceram, ou ainda não existem — a "fazer sempre boa e firme" a alienação,
outro erudito genealogista, o dr. Rui Vieira da Cunha. lembrando aqui o jargão cartorário. Existe, portanto, a possibilidade de alguém
comprometer-se por si e pelos seus herdeiros e sucessores. Não só existe,
Já se viu que uma decisão constituinte inicial é perfeitamente possível como é referencial da ordem jurídica. Qual a natureza dos direitos em relação
ser escolhido, para iniciar o restabelecimento do regime, um príncipe que aos quais é possível a alguém comprometer-se por si e pelos seus herdeiros
não seja o sucessor natural e imediato do último monarca; desde que essa e sucessores? Direitos patrimoniais, quer se trate de direitos reais, como
escolha se mantenha dentro da linha regular de sucessão, ou ao menos no pessoais.
âmbito da dinastia, sem ofender o princípio da legitimidade. Além disso, há
que considerar outro aspecto: os dirigentes do Diretório Monárquico Brasileiro A renúncia a um direito correspondente a um compromisso dali para
entenderam prematura a renúncia de Dom Pedro de Alcântara, que, segundo o futuro, compromisso de não tentar ou de não reivindicar mais o exercício
eles, só precisaria ter acontecido quando do restabelecimento do regime, e do direito renunciado? Sim, também.
ainda assim se nessa ocasião ela fosse entendida como necessária; nesta última O direito à sucessão monárquica é um direito patrimonial? Não, porém.
hipótese também precisaria ser homologada pelo parlamento, nos termos da Pode, até, ter tido esta conotação, em "priscas eras", ou, o direito patrimonial
pode ter sido, naquelas épocas, uma consequência do exercício do poder real
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245
(que trazia consigo o "domínio real" sobre terras, e as respectivas rendas; posição de Dom Pedro Gastão. No mínimo, ela teria que ser analisada, porque
mas, nesse caso, a rigor o monarca era um senhor de terras como tantos está muito longe de ser uma vã pretensão.
outros). Modernamente, no entanto, o direito à sucessão é um direito público Note-se, aliás, que a chamada "questão dinástica" não pode ser atribuída
subjetivo ci função pública, o "ius qfficium" a que se refere Biscaretti di ao fato de Dom Pedro Gastão proclamar-se Chefe da Casa Imperial Brasileira,
Ruffia (Direito Constitucional, cit.). mas à circunstância de dois príncipes (ele e seu primo Dom Luiz) fazerem-no
Dentro dessa ótica da função real como uma função pública, pode al- concomitantemente.
guém renunciar pelos seus descendentes — mesmo que ainda por nascer — À luz de todas as considerações antes expostas, mas sobretudo à luz
a uma função pública, ainda que hereditária? Nada indica, também, que a de outras mais que constam de parecer anexo ao final deste volume, juridi-
resposta seja aprioristicamente positiva. camente, o autor entende que não subsistem as pretensões de Dom Luiz e
O cargo real, ou imperial, não é propriedade de uma determinada família, Orleans e Bragança à Chefia da Casa Imperial brasileira, ao trono brasileiro,
a família real ou imperial: salvo o caso inglês, já mencionado (e ao que tudo e à sucessão pelo "ramo de Vassouras": jurídica e historicamente, isto é, à
indica, o tailandês), esse cargo é constituído pelo poder constituinte de uma luz do Direito Público, do Direito Privado, do Direito Dinástico e da expe-
Monarquia. Assim, tudo igualmente indica que os postulados da sucessão riência histórica, criadora de direito, o príncipe Dom Pedro Gastão de Orleans
monárquica deixaram de ser um apanágio do Direito Dinástico, para se trans- e Bragança é o legítimo herdeiro da Monarquia brasileira, sucessor dos Im-
formarem em instituto de Direito Constitucional. A partir dessas constatações peradores D. Pedro I . D. Pedro I I , e de D a Isabel na Chefia da Casa Imperial.
não resta a alguém o direito de renunciar pelos seus descendentes ao direito É, efetivamente, Dom Pedro IV. Muito embora essa conclusão não prejudique
subjetivo do "ius officium", mesmo que hereditário. Sem dúvida, opinião o óbvio, ou seja, a atribuição do Poder Constituinte no eventual momento
contrária prevaleceu ao longo de séculos, mas já não pode hoje encontrar inicial de instauração da monarquia.
aceitação: ninguém pode ser condenado a ter os seus direitos extintos sem A propósito deste tema de magna importância, deve-se atentar para as
a sua anuência, ou sem a manifestação de vontade da lei (no caso, a Cons- palavras de Antônio Sardinha (Processo dum rei, Porto, 1937), ao dizer:
tituição); mormente, antes que tenha nascido.
"Pelas múltiplas e gravíssimas causas já examinadas (a perda
Diante dessas considerações, voltemos à questão da hipótese de resta-
do direito ao trono de Portugal, por Dom Pedro, ao tornar-se Imperador
belecimento da monarquia, e do consequente exame da renúncia de Dom do Brasil), a realeza de D. Maria II não pode ser encarada senão
Pedro de Alcântara pelo parlamento; mas, agora, na hipótese de isso ocorrer como um governo de fato, que Portugal acabou por aceitar, porque
depois de ele já haver casado e tido filhos. Quais seriam as consequências sem governo não lhe era possível viver. Morta, porém, prematuramente
de qualquer das alternativas do órgão político legislativo, ou seja, homolo- a rainha, ainda que a verdadeira legitimidade, tanto a da pessoa como
gando ou negando homologação à renúncia? a da instituição, estivesse exilada em Bronmbach, o que não admite
Em qualquer das hipóteses, os efeitos seriam restritos à sua pessoa: dúvidas é que seus sucessores, D. Pedro V e D. Luis. receberam o
homologada a renúncia, não poderia ela atingir sua descendência (o trono poder como de "justo título" em harmonia com a ordem sucessorial
não é propriedade da Família Imperial; não temos e não tivemos aqui a estabelecida na Carta".
"soberania por si mesma", como na Inglaterra, mas sempre a função imperial
constituída); e se recusada a homologação, mas persistindo ele na recusa ao A propósito, observou João de Santimburgo:
exercício da qualidade de herdeiro e da função de imperador, igualmente,
nada disso afetaria os seus descendentes.
"Os direitos legais de D. Maria II davam lugar assim a uma
Reitere-se, de qualquer modo, que aquela renúncia nunca foi apreciada situação legitima debaixo do ponto de vista formal. Com D. Pedro V
por quem de direito. E, mesmo sob os seus aspectos intrínseco e formal, ela e depois com seu irmão D. Luís, embora vivo ainda D. Miguel, a
é de duvidosa eficácia. justiça da aquisição e a diuturnidade da posse ir-se-iam transformando
Tudo faz concluir, portanto, que as pretensões de Dom Pedro Gastão, pouco a pouco, quanto à pessoa do monarca, numa espécie de legiti-
que geraram a famosa "questão dinástica", na pior das hipóteses, têm o seu midade — a legitimidade de origem. Não se tratava já de ocupação.
fundamento. E como o cargo real, ou imperial, no Brasil é constituído, cabe O poder fora herdado por vias legais — o que importa dizer, por vias
ao constituinte decidir a respeito. No entanto, observe-se que, depois de tudo pacíficas. O que lhe faltava, porém, a esta legitimidade de origem, era
quanto foi dito, o simples fato de caber ao constituinte a decisão, e não a legitimidade de exercício, não porque el-rei D. Miguel vivia ainda,
somente ao formal das regras de sucessão dinástica, confere consistência à mas também e sobretudo porque continuavam suspensas as leis fun-

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damentais do povo contra as quais nada valiam, pois que se confiavam foi buscar no leito de morte de Henrique V sua legitimação como Chefe da
nos limitados âmbitos duma questão sucessorial, os direitos legais de Casa Real francesa.
D. Maria //". (O Poder Moderador, cit.). A conclusão que se põe, portanto, é que foi legítimo o exercício da
Chefia da Casa Imperial brasileira pelos príncipes Dom Luiz e Dom Pedro
Refere o autor citado, ainda, o publicista Gama e Castro, também in- Henrique de Orleans e Bragança, até 1940; isto é, até o momento em que
vocado por Antônio Sardinha. Aquele publicista estabelece distinção — para manifestou vontade de reassumí-lo o príncipe Dom Pedro Gastão de Orleans
nós, também, óbvia — entre legitimidade e razão legal, concluindo que a e Bragança. Mas, de qualquer modo, como já antes indicado, face a esse
legitimidade de instituição é essencial, e deve coincidir com a legitimidade exercício pacífico pelos príncipes do "ramo de Vassouras", desde 1908 até
de pessoa. 1940, é imprescindível que a Família Imperial brasileira assimile esses fatos
históricos e apresente, doravante, uma única linha sucessória, sob pena de
Essas lições não podem ser dispensadas no caso da sucessão brasileira.
descaracterizar-se como dinastia, e de tornar-se um mero instrumento nas
E, agora cabe inquirir sobre a posição de Dom Luiz de Orleans e Bragança
mãos sempre transitórias e volúveis de classe política. Entretanto, é igualmente
(O "Príncipe Perfeito") e os seus sucessores do "ramo de Vassouras", na
inquestionável que só Dom Pedro IV representa a legitimidade, e somente
questão da sucessão ao trono brasileiro.
sua palavra poderá reconhecer a legitimidade do seu futuro sucessor: comete
Independente da validade ou invalidade da renúncia de Dom Pedro de
a ele o dever de praticar esse ato; a partir de então, deverá exercer naturalmente
Alcântara, podia a Casa Imperial ficar sem Chefia? Obviamente, não: desa-
suas prerrogativas de sucessor imperial.
parecia o sentido de unidade da dinastia: com isso desapareceriam também
as suas tradições e a sua estrutura dinástica, e enfim, descaracterizar-se-ia "Gregos e troianos" — partidários de Dom Pedro, os "gastãozistas", e
ela como tal. Alguém, portanto, deveria exercer a chefia da Casa Imperial. partidários de Dom Luiz, os "luizistas", sabem uns e outros que a Monarquia
precisa de seu mais importante elemento, a unidade.
Após o ato de renúncia — mesmo inválido, esse ato — persistiu Dom
Pedro de Alcântara em manter sua palavra renunciante, abstendo-se de exercer A unidade nacional foi uma das principais obras do nosso Império. A
a Chefia da Casa Imperial? A resposta é afirmativa. unidade nacional, afetiva e de espírito, parece ser a principal tarefa de qualquer
monarquia nos dias que correm; é isso, exatamente, que a diferencia da Re-
Dom Luiz recebeu essa chefia por vias "pacíficas", consensuais, como
pública. Aristóteles já dissera que o sistema de escolha do chefe de Estado
de "justo título"? A resposta também é afirmativa; e ainda mesmo que desde
por eleição é "idealisticamente " a mais racional, mas a sucessão hereditária
o falecimento de Dom Pedro de Alcântara, em 1940. o Sr. Dom Pedro I V
é "concretamente" mais tranqiiila e prodúceme. Pedro 1 uniu os brasileiros
tenha feito presente a sua condição, isso não inutiliza a exercício da chefia
ao fazer a Independência, e tornou a uni-los quando abdicou em 1831, embora
por Dom Luiz, até ¡920, e por Dom Pedro Henrique, pelo menos até 1940.
pudesse resistir militarmente à revolta, mas nessa hipótese dividindo-os ainda
Logo, não há que discutir a "justiça da aquisição e a diuturnidade da mais do que se haviam tornado. O desapego, o "ato de serviço" é próprio
posse", como conducentes à criação de uma "espécie de legitimidade", na-
dos monarcas: insere-se nas funções da monarquia.
queles tempos; convindo relembrar que, com apoio naquelas lições relativas
à legitimidade de Dom Miguel I e de D. Maria I I , de Portugal — que se Sabendo todos os monarquistas que se torna necessário, ou no mínimo
adequam precisamente à questão da legitimidade entre os "ramos" de Petró- aconselhável e desejável dispor de uma figura humana única, que personifique
polis e de Vassouras, da Família Imperial brasileira — a conclusão é a de os ideais e valores monárquicos no País, o deputado Cunha Bueno, líder
que, também, em nenhum momento, até 1940, o exercício da Chefia da Gasa inconteste do Movimento Parlamentar Monárquico, até certo ponto "gastão-
Imperial peio "ramo de Vassouras" se constituiu numa "ocupação". zista", seis meses antes do plebiscito, propôs uma reunião dos dois ramos
da Família Imperial, a fim de procurarem encontrar um denominador comum,
Assim, por todos esses motivos, paralelamente à legitimidade — in-
que permitisse a apresentação de uma frente única, com um único pretendente
contestável — de Dom Pedro IV, criou-se uma legitimidade, ou algo próximo
ao trono, comum aos dois ramos. Essa reunião realizou-se em Brasília, em
disso, no exercício da Chefia da Casa Imperial pelo "ramo de Vassouras".
fins de 1992, na residência do Dr. Dario Abranches Viotti, Juiz federal apo-
Isto só, no entanto, não será e nem é suficiente para garantir as pretensões
sentado, e assessor parlamentar do Senado Federal. Muitas pessoas estiveram
do atual Dom Luiz. Pois, sempre na esteira daquelas lúcidas lições, a legi-
presentes, inclusive o Embaixador J. A. de Meira Penna, famoso por sua
timidade da instituição monárquica, essencial, "deve coincidir com a legiti-
atuação no caso das "polonetas", durante o governo Figueiredo, quando che-
midade de pessoa." Foi exatamente a falta dessa coincidência, que permitiu
fiava a nossa representação diplomática em Varsóvia.
fosse sempre Luiz Felipe I acoimado de "rei ilegítimo", assim como o foram
seus descendentes, enquanto vivo o conde de Chambord (Henrique V); e não Para a reunião dos dois ramos, o deputado Cunha Bueno levou no
foi por outra razão que em 1883 o conde de Paris, neto de Luiz Felipe I , bolso uma "proposta" que à primeira vista poderia parecer espetacular: Dom

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Pedro Gastão e todos os seus filhos concordariam em examinar a possibilidade qualquer situação nas mãos da classe política. Dessa nossa classe política,
de virem a renunciar seus direitos em favor de Dom Antônio, sucessor eventual lembre-se, que já deu todas as provas de que não passa de um monstrengo
de Dom Luiz e de Dom Bertrand no "ramo de Vassouras"; mas, a condição amoral e aético. Observe-se que, inseria-se na "jogada" de Cunha Bueno a
para que o "ramo de Petrópolis" examinasse — note-se bem — a possibilidade, hipótese de "não conseguir" a renúncia do "ramo de Petrópolis", depois que
era a prévia renúncia de Dom Luiz e Dom Bertrand... e se Dom Luiz e Dom Bertrand houvessem renunciado; nessa hipótese ele
(como classe política) só teria que continuar tentando manobrar um ramo da
Convenha-se que, apesar de juridicamente não poder restar qualquer Família Imperial, e não os dois. Aliás, não foi outra coisa que o deputado
dúvida quanto aos direitos de Dom Pedro Gastão, a verdade é que publica- fez durante toda a campanha: dispersar, para manter o controle, apresentando
mente a questão insere-se hoje no âmbito de uma questão de fato: o poder um sem-número de príncipes, como se fossem candidatos ao trono; desco-
constituinte, embora jurisdiciszado pela Constituição (Ait. 1° § 1°), é na sua nhecedor, evidentemente, na sua ótica republicana, de que príncipes não se
essência um poder de fato, manifesta-se através de decisões políticas, isto é, lançam candidatos a uma eleição. Sobretudo, não sendo capaz de assimilar
escolhas de fato. Nesse quadro, as pretensões de Dom Luiz também não que uma eleição para a Chefia do Estado desfigura e transfigura a Monarquia.
poderiam ser aprioristicamente ignoradas: nada obsta que, apesar de sucessor Em suma, a atuação do deputado Cunha Bueno traz consigo a própria negação
legítimo o Sr. Dom Pedro IV, o poder constituinte preferisse, ou venha even- da monarquia. Nesse sentido, até hoje foram corretíssimas e adequadas as
tualmente a preferir o "ramo de Vassouras". Tal como ocorreu, aliás, reitere-se, posições de Dom Pedro I V , não pleiteando, e de Dom Luiz e Dom Bertrand,
no nascedouro moderno dos Orleans em França: vivíssimo quem seria Hen- não renunciando.
rique V (o conde de Chambord), a Assembléia Nacional Francesa "elegeu" Por qual razão o deputado Cunha Bueno deixou de levar àquela reunião
para rei dos franceses o duque de Orleans, Luiz Felipe I , trocando a descen- uma proposta concreta, não fosse ele impulsionado por sua lamentável ótica,
dência legítima dos Bourbons, pela inauguração institucional da dinastia dos que contém o "modus faciendi" da política republicana?
Orleans; com a agravante de que Luiz Felipe I era filho de quem não só Por qual razão não teria levado um documento redigido em favor de
renunciara aos seus direitos sucessórios, como de qualquer modo estaria ina- Dom Antônio, para ser assinado em conjunto por Dom Pedro I V e os do
bilitado a suceder em virtude da sua participação na condenação e decapitação "ramo de Petrópolis", e por Dom Bertrand e Dom Luiz e os do "ramo de
de Luiz X V I . Vassouras"? Porque, ao menos, não propôs esse documento conjunto?
Assim, a "proposta" do deputado Cunha Bueno, não foi uma proposta, Uma boa solução nessa famosa reunião, teria sido o fim da desunião,
mas um ultimatum que exigia uma espécie de rendição incondicional a Dom dos dissabores e impasses com que a Monarquia tem convivido. Porque, uma
Luiz e Dom Bertrand. Inaceitável, portanto, não só para esse príncipes, como coisa seja dita: houvesse um único pretendente, mesmo com a existência do
para os monarquistas seguidores do "ramo de Vassouras", que são em elevado outro ramo, mas que o reconhecesse, e esse pretendente já poderia — pelo
número. menos, desde o primeiro ano do governo Collor — haver se autoproclamando
imperador ou rei, a partir de qualquer ponto do território nacional; e teria só
Observe-se que, todos quantos conhecem Dom Pedro IV sabem que
com essa proclamação galvanizado o País, e contado com o seu apoio semi
ele jamais pleitou publicamente os seus direitos. E sabem, também, que muito
integral. Para convocar um plebiscito honesto. Ou, para provocar um movi-
provavelmente esse príncipe, com a grandeza que é característica dos ver-
mento que recolocasse nos eixos a História, e repusesse a Monarquia — até
dadeiros monarcas, não se recusaria a mais um "ato de serviço" em prol da
admíta-se—da mesma maneira com que a República a derrubara! Aliás, supõe-se,
união de todas as correntes monárquicas. Mas, de qualquer forma, o ultimátum
isso ocorreria com provável agradecimento das classes armadas, que teriam,
de Cunha Bueno não poderia mesmo ser aceito por Dom Luiz e Dom Bertrand;
assim, a oportunidade de ver redimido o colossal engano histórico de 1889...
até porque, tudo indica, não passava de um ardil, daquilo que vulgarmente
A menos de cinco meses do plebiscito, no entanto, a ótica republicana
se classifica como "jogada" política.
não permitiu que o deputado vislumbrasse qualquer das diversas possibili-
Não é possível recusar ao deputado Cunha Bueno o papel de um ver-
dades; não pôde ver o cavalo arreado que passava ao alcance do pulo.
dadeiro herói, na batalha pela derrubada da "cláusula pétrea"; esse louro,
ninguém poderá tirar-lho, nem os monarquistas, nem os demais democratas,
porque a "cláusula pétrea" é a própria negação da democracia, na medida 10.6.1 — CONCLUSÕES
em que se nega um dos principais direitos humanos, o de livre manifestação
política. Mas, é igualmente impossível deixar de assinalar que, com sua for- Os dois "ramos" da Família Imperial, o de Petrópolis encabeçado por
mação republicana, esse deputado jamais deixou de ver a campanha pela Dom Pedro I V (5° geração desde Dom Pedro I ) . e o de Vassouras (ou já
Monarquia senão através dessa mesma ótica republicana. Com todos os vícios agora de São Paulo?) encabeçado por Dom Luiz (6° geração) têm cada qual
a ela inerentes, sobretudo o vício de manter o controle e a decisão final de por seu turno direitos indiscutíveis, um face ao outro. Os do "ramo de Pe-

250 251
"se apoderado dos bens da família". Não consta que essa acusação tenha
trópolis", é certo, têm maior amplitude. Mas, no contexto geral, nem se há sido feita, e menos ainda publicamente.
de discutir que esses direitos remanescem, em última análise, na própria Fa- Em respeito à verdade cumpre esclarecer que nada disso traduz o que
mília Imperial. E têm deveres irrenunciáveis face à História e ao tenaz pa-
efetivamente houve entre Dom Pedro Henrique e Dom Pedro Gastão.
triotismo dos monarquistas brasileiros. Porque, a monarquia da qual são de-
Em 1943, o governo brasileiro nomeara uma comissão encarregada de
positários, não pode suportar que cada um desses príncipes continue aguar-
estudar a forma de extinguir do nosso direito a enfiteuse, o foro e o laudêmio.
dando que o outro abra mão de suas pretensões. Inclusive, porque não foi
Essa medida, se viesse a concretizar-se, também extinguiria a principal fonte
Dom Pedro IV quem colocou na boca de seu augusto pai a verdadeira denúncia
de recursos da Cia. Imobiliária de Petrópolis, cujas ações pertenciam aos
contida nas reiteradíssimas palavras "Fui forçado a renunciar"; e, também
não foi Dom Pedro Henrique quem se auto-arvorou no exercício fático de dois ramos da Família Imperial.
preservação da sucessão: este, de qualquer modo, lhe teria sido passado, Estando Dom Pedro Henrique no exterior, então "internado" na França
pacificamente, por morte de seu pai. Dom Luiz. Essa questão, portanto, só pelas autoridades nazistas, a Companhia era dirigida por Dom Pedro Gastão.
comportaria duas soluções: composição dos dois ramos em torno de uma Estava em curso a Segunda Guerra Mundial. Face a toda essa situação, depois
solução aceitável a ambos, e apresentável — sem arestas, nem rejeições — de conversações prévias com o procurador de Dom Pedro Henrique no Brasil,
ao País; ou, escolha, desse príncipe, pelo poder constituinte, na eventual opor- Dr. Américo de Oliveira Castro, assim como com o mais chegado amigo
tunidade, segundo a linha de sucessão que for por ele reconhecida. Fora desse príncipe no País, o Cel. Torres de Guimarães, Dom Pedro Gastão enviou
disso, mesmo agora, passado o plebiscito, a Monarquia não se estruturará ao primeiro uma carta-proposta de compra das ações (3.11.43) do príncipe
internamente, nem se institucionalizará como alternativa aos olhos da Nação; ausente, assim como das de sua mãe e irmã, D a Maria Pia. e D a Pia Maria.
e aos partidários de um e de outro ramo só restará cultivarem sua fidelidade Dessa carta, constou o seguinte trecho:
à dinastia, aos príncipes continuarem príncipes, uns e outros alimentando o
desejo e trabalhando pela próxima oportunidade de refazerem a paz social e a "Perante esse fato, é meu plano de ação. à frente da diretoria
grandeza do País. Tudo isso, sem deixar de levar em conta como parâmetro que da Cia. salvar o que puder do patrimônio de nossa família, a qualquer
a legitimidade jurídica e tradicional está indiscutivelmente com Dom Pedro IV. preço, mesmo correndo risco de empreendimentos de ordem económica
O próprio homem do povo já sente que "rei" é algo que está acima de de duvidoso sucesso. Não me julgo, em consciência, autorizado afazer
disputas políticas. Ele não entende de querelas dinásticas. No momento em com que corram esse risco senão os meus irmãos, prontos como eles
que esse homem do povo toma conhecimento pleno de que existe — na estão a partilhar de meus projetos como partilham de minha apreensão.
Família Imperial! — uma disputa em torno daquilo que para ele é simples- Indenizando previamente os meus parentes e pondo a coberto de
mente "poder", aos seus olhos desaparece a principal qualidade da Monarquia, qualquer eventualidade o seu capital, agirei com independência e de-
e ela fica igualada à República: os príncipes ficam equiparados aos políticos safogo.
republicanos, que disputam cargos. Então... adeus. Monarquia! A impossibilidade em que me encontro de um entendimento pes-
A famosa reunião na residência do Dr. Dario Abranches Viotti, em soal com meus primos, que sempre viveram no estrangeiro e hoje se
Brasília, talvez tivesse sido o mais importante ato — além da proclamação encontram em zona ocupada, me priva da oportunidade de expor di-
de D. Pedro de Alcântara com D. Pedro III, da heróica revolta do Almirante retamente a eles o assunto.
Saldanha da Gama, e da abolição da "cláusula pétrea" — para restabelecer Aliás, se em qualquer ocasião meus primos pretenderem read-
o regime monárquico. A frustração da possibilidade de união, causada em quirir as ações que nos venham a vender, não terei dúvida em aceder
grande parte pela ótica republicana do deputado Cunha Bueno, talvez tenha a esse seu desejo".
prestado ao Brasil um desserviço tão grande quanto o golpe militar que impôs
a República. Depois disso, só lhe restou a campanha dispersiva do horário Essa carta proposta foi entregue na reunião promovida naquela data,
eleitoral; passando ao largo da pessoa do pretendente, falando aos eleitores entre Dom Pedro Gastão, o Dr. Américo de Oliveira Castro e o Coronel
com um idioma algo parecido ao "economês"! Torres de Guimarães. Dessa reunião, foi lavrada a seguinte ata:

10.7 — A QUESTÃO PATRIMONIAL "Aos três dias do mês de novembro de mil novecentos e quarenta
e três, reunidos no edifício da Avenida Rio Branco, n" 311 (edifício
Muito se tem propalado a respeito dessa questão, à qual já nos referimos Brasília). Sua Alteza Imperial o Príncipe Dom Pedro de Orleans e
ligeiramente. Reportagens, inclusive, têm sido veiculadas, segundo as quais Bragança, o Coronel Cândido Torres de Guimarães e o Dr. Américo
os príncipes do "ramo de Vassouras" acusariam Dom Pedro Gastão de haver
253
252
Mendes de Oliveira Castro, por S. A. foi dito que havia promovido a sempre admissíveis em qualquer negócio, razão pela qual V.A. pretende
presente reunião para trocar ideias com os demais sobre a situação comprar as ações dos Príncipes ausentes, lastimando Meu Senhor que
criada para a Companhia Imobiliária de Petrópolis pelo recente ato a situação política internacional impeça um entendimento pessoal com
do Governo Federal nomeando uma comissão que redigisse o ante- os mesmos Príncipes, inconveniente este a que V.A., propõe obviar
projeto da lei que vai extinguir a enfiteuse no país. assegurando aos ditos Príncipes o direito à recompra das mencionadas
Esse ato tirou compulsoriamente à administração da Companhia ações.
o seu feitio tradicionalista e calmo, aconselhando, com o intuito de Tendo pensado refietidamente sobre o assunto e fortificado o
prevenir ou minorar prejuízos, que se lancem mão de todos os meios meu modo de ver pela concordância com ele manifestada pelo Coronel
para valorizar os recursos da Companhia. E como possam surgir me- Guimarães na conferência que ontem tivemos, venho, como procurador
didas que imponham resoluções drásticas e algo ousadas, de resultado dos Príncipes, responder a Meu Senhor:
final duvidoso, sentia-se S.A. um tanto manietado em Suas decisões, a) Concordo em vender a Meu Senhor as ações dos Príncipes,
pela impossibilidade de auscultar previamente, devido cts circunstân- pelo preço oferecido de Cr$ 1.100,00 (um mil e cem cruzeiros) por
cias, o modo de ver dos Príncipes em França. cada uma.
Pensava assim S.A., como meio adequado de não ligar arbitra- b) Fica a efetividade da venda expressamente subordinada à con-
riamente os interesses dos aludidos acionistas ao risco de medidas que dição de ratificarem-na os Príncipes, meus constituintes e ausentes.
se tornem imprescindíveis, comprar ele as ações dos já referidos acio- c) No caso de não assentirem SS.AA. ratificarem a venda, feita
nistas, assegurando-lhes, entretanto, o direito de recomprá-las pelo sob esta condição, pagarão eles a Meu Senhor o mesmo preço de Cr$
mesmo preço, uma vez que o restabelecimento das comunicações com 1.100,00 (um mil e cem cruzeiros) por ação — tendo os Príncipes o
a França ou com o país em que estiverem residindo permita um en- prazo de um ano, a contar do restabelecimento normal, pela cessação
tendimento direto entre os Príncipes. das hostilidades, da circulação postal, para exercerem o direito de
Pelo Coronel Torres Guimarães foi dito que, dada a reconhecida recompra, nas bases expostas no item anterior.
notoriedade dos fatos declinados por S.A., julgava vantajosa para os Rogando a V.A. confirmarse a recepção da presente, e aceitação
interesses dos Príncipes ausentes a oferta feita pelo proponente. Prín- das questões de detalhe nesta consignadas, rogo a Meu Senhor acreditar
cipe Dom Pedro e que acabava de falar, assegurado como estava por na dedicação de seu fiel servidor.
S.A. aos Príncipes ausentes o direito de recompra dos títulos nas mesmas a.) Américo Mendes de Oliveira e Castro.
condições em que era feita a venda, empregando-se o produto prove-
niente da transação da melhor e mais segura forma possível. No mesmo dia 4 de novembro, o Príncipe Dom Pedro respondeu ao
Pelo Dr. Oliveira Castro foi dito que folgava muito ver que o procurador de Dom Pedro Henrique, em carta, nos seguintes termos:
Coronel Torres Guimarães concordava com o seu ponto de vista, ainda
não manifestado, porque achava o dito Dr. Castro procedentes os fatos
"Caro Américo — Conforme acordamos em documento anterior
alegados pelo Príncipe D. Pedro. e respondendo a sua última carta, reafirmo o propósito de manter a
E, nada mais havendo a tratar, lavrou-se, peto presente instru- favor dos Príncipes meus primos, opção para aquisição das ações cuja
mento, ata do ocorrido. venda ajustamos, opção que exercerão na base de Cr$ 1.100,00 por
Rio, 3 de novembro de 1943. ação, dentro de um ano a contar da data em que a situação bélica
(As.) Dom Pedro de Orleans e Bragança, Coronel Torres Gui- internacional permita o reatamento das comunicações e um entendi-
marães, Américo Mendes de Oliveira Castro". mento direto entre mim a eles. Fica claro que a presente opção é
estabelecida exclusivamente a favor dos Príncipes. Com o meu sincero
.Face ao resolvido, no dia seguinte o Dr. Américo Oliveira Castro enviou saudar.
ao Príncipe Dom Pedro a seguinte carta:

"Acuso recepção da carta de V.A. de ontem, na qual reitera as a.) Dom Pedro."
preocupações que o assoberbam com as recentes inovações do Governo
visando, para prazo breve, a extinção das enfiteuses e a necessidade Pouco depois desse ajuste (9.11.1943), as ações de Dom Pedro Henrique
que julga premente de se descobrirem novas fontes de renda para a e família foram colocadas na Bolsa de Títulos do Rio de Janeiro, e Dom
Companhia Imobiliária de Petrópolis e da possibilidade de prejuízos. Pedro Gastão adquiriu-as.

254 255
Código Civil, lembre-se, é de 1916. E, em assuntos jurídicos, também é
Em 29 de dezembro de 1944. as comunicações postais foram restabe-
preciso que se esclareça, a expressão — da lei e da doutrina jurídica —
lecidas (Circular n° 206, do Departamento de Correios e Telégrafos), entre
"direitos reais" não tem nada a ver com rei, imperador ou realeza, mas com
o Brasil e a França, onde se encontrava Dom Pedro Henrique. A correspon-
direitos sobre as coisas, móveis ou imóveis (do latim "res, rei" — coisa).
dência por via diplomática, aliás, já fora restabelecida em data anterior.
O segundo aspecto da questão a esclarecer, é que a enfiteuse da Cia.
Em agosto de 1945, chegou ao Rio o Príncipe Dom Pedro Henrique,
Imobiliária de Petrópolis alcança menos de 5% do município, e não é a única
indo diretamente para o Palácio Grão-Pará. em Petrópolis, onde foi hospedado
no Estado do Rio de Janeiro. Em Petrópolis mesmo, há mais de cinco enfi-
por Dom Pedro Gastão, ali fixando residência por algum tempo. Entretanto,
teuses: a da Fazenda do Retiro de São Tomás e São Luís, no bairro Valois
apesar desse convívio, até o final de 1945 — mais de um ano, portanto,
Souto; a da Cia. Petropolitana de Tecidos, no bairro da Cascatinha; a dos
desde que restabelecidas as relações postais — nenhuma manifestação houve
herdeiros do Comendador Jerônimo Ferreira Alves; a das terras da Fazenda
por parte de Dom Pedro Henrique, no sentido de readquirir as ações da Cia
do Alto da Serra; e a pertencente à Matriz do bairro de São José do Rio
Imobiliária de Petrópolis. Nenhuma declaração oral, judicial ou extrajudicial.
Preto.
Aqui termina o relato. Bastante depois de decorrido o prazo contratual,
Além disso, existem outras enfiteuses nos municípios de Magé, Duque
Dom Pedro Henrique pretendeu recomprar as ações. e a dom Pedro Gastão,
de Caxias, Miguel Pereira, Vassouras, Paraíba do Sul, Três Rios, Sapucaia,
então, isto já não interessava: comprara as ações numa época incerta, com
Niterói, Saquarema, Cabo Frio, Macaé, e Campos, todos no Estado do Rio
todos os riscos de virem elas a tornar-se "pó", em virtude das anunciadas
de Janeiro.
intenções do Governo em extinguir a enfiteuse. Pagara o preço justo, à vista.
Arrostara todos esses riscos. Seu primo recebeu dinheiro da venda. Depois, Na cidade do Rio de Janeiro, além das enfiteuses dos terrenos e prédios
passado o perigo, esperara pacientemente que seu primo — hospedado com do Mosteiro de São Bento, do Convento de Santa Thereza, da Arquidiocese
a família em sua casa — manifestasse o desejo de recompra no prazo con- do Rio de Janeiro, das Ordens e de inúmeras outras de particulares, relembre-se
tratual, o que não ocorreu. Não tinha porque, e nem como acolher esse desejo a dos sucessores de Araújo Lima, no bairro de Botafogo.
depois de vencido o prazo. No Estado de São Paulo, existem enfiteuses dos herdeiros de Eufly
Dom Pedro Henrique intentou ação judicial. Perdeu. Dom Pedro Gastão Jales, no município de Jales; em São Paulo, também, como em Santos, Bom
Jesus dos Perdões, Bom Jesus de Pirapora, para citar apenas algumas.
não "se apoderou" de nada: fez um negócio limpo, correndo alto risco. E
cumpriu com a sua parte. E no Brasil inteiro, do Pará até o Rio Grande do Sul, existem dezenas
e dezenas de enfiteuses. Cerca de 90% delas são do Governo federal, ou de
entidades governamentais; 9% pertencem às Cúrias, Mitras e irmandades re-
1 0 . 8 — 4 FAMOSA ENFITEUSE DE PETRÓPOLIS
ligiosas; e 7%, a particulares. Nestas últimas figuras e da Cia. Imobiliária
de Petrópolis, cujas ações são de propriedade dos membros da Família Im-
A propaganda republicana sempre usou de todos os meios — em vão
perial.
— para criar uma má imagem da Família Imperial junto ao público. Mormente
depois da previsão do plebiscito, pela Constituição de 1988. As terras da Cia. Imobiliária de Petrópolis, antes denominada Imperial
Uma das "peças de resistência" dessas tentativas, é a questão da enfiteuse Fazenda de Petrópolis, e originariamente Fazenda do Córrego Seco, foram
existente sobre pequena parte da área urbana da cidade de Petrópolis, e es- adquiridas por Dom Pedro I , que, ao fazê-lo, nelas já encontrou diversos
tabelecida á Cia. Imobiliária de Petrópolis, cujos proprietários são os príncipes contratos perfeitos, de enfiteuse, entre o antigo proprietário e foreiros que
detinham o respectivo domínio útil. Essa fazenda foi a única herança que
do "ramo de Petrópolis", da Família Imperial.
Dom Pedro I I recebeu do pai, e representa pouco menos de 0,01% das terras
enfitêuticas do território nacional.
10.8.1 — ESCLARECIMENTOS

Para que se tenha uma idéia da desinformação, quando não de precon- 10.8.2 — SOBRE O INSTITUTO DA ENFITEUSE
cebimento e da má fé com que certos noticiários de imprensa exploram o
assunto, principie-se por dizer que a enfiteuse de Petrópolis nada tem a ver Enfiteuse é um instituto jurídico multimilenar, remontando à Grécia
com um pretenso e injustificável privilégio da Família Imperial. Ao contrário, antiga. Nunca deixou de ser utilizado em obras de povoamento. Assimilado
a enfiteuse é um "direito real sobre coisas alheias", previsto no Código Civil pelo Direito Romano, serviu ao povoamento e colonização das terras da Eu-
Brasileiro (arts. 678 a 694), cujo exercício está ao alcance de qualquer pessoa: ropa; em seguida assimilado pelos direitos inglês, francês, espanhol e portu-
não foi inserido no Código Civil em favor da Família Imperial. Aliás, o guês, serviu ao povoamento das três Américas e da África, em cuja grande

257
256
maioria de países continua sendo largamente utilizado. Tem a grande vantagem foi considerado "comisso " (falta de pagamento do foro); assim mesmo, porque
de propiciar a fixação do homem à terra, quando a oferta de terras é maior esse foreiro, simplesmente, desaparecera, sem deixar vestígios.
do que a procura: e de impedir a especulação imobiliária, quando a procura E certo, no entanto, que "a enfiteuse já chegou à nossa Pátria com
é maior do que a oferta. um conceito genérico muito desagradável*, graças aos "tradicionais" abusos
Pelo contrato enfitêutico perpétuo, o proprietário passa à condição de de senhorios, em países europeus, nos séculos anteriores. Abusos decorrentes
"senhorio" ou "enfiteuticante"; o interessado em adquirir a terra — sem con- de condições sócio-econômicas específicas de alguns países, e da inexistência
dição econômico-financeira para fazê-lo — assume a condição de enfiteuta de um Poder Judiciário independente, como sempre tivemos desde a Inde-
ou "foreiro". O primeiro, mantém a posse indireta e o domínio direto, uma pendência". Por isso, o programa de condicionamento ideológico republicano
serve-se dela — embora em vão — como se fosse um "pitéu", para hostilizar
espécie de "nú propriedade". O segundo, mantém a posse direta e o "domínio
a Família Imperial. Mas, como observou o inolvidável civilista Lafayette
útil": é este quem usufrui efetivamente da terra, em todos os sentidos.
Rodrigues Pereira,
O foreiro ou enfiteuta paga ao senhorio ou enfiteuticante. um "foro"
anual, devido somente após alguns anos, nos termos do contrato enfitêutico. "No Brasil, por força de circunstâncias peculiares, a enfiteuse
Quando Dom Pedro I I instituiu a enfiteuse sobre as terras de sua herança do nunca foi uma instituição odiosa. A vastidão das propriedades e a
Córrego Seco, mandou vir colonos alemães para povoarem a área; nos seus escassez da população produziram aqui os mesmos resultados que em
contratos, o fôro só era devido após 8 (oito) anos: ninguém tinha interesse, Roma, no tempo dos imperadores: para ter quem as cultivasse e apro-
então, em ir para o alto da serra, povoar o que hoje é Petrópolis. veitasse cumpria fazer os emprazamentos com condições vantajosas
Na enfiteuse da Cia. Imobiliária de Petrópolis, se o foreiro transmitir para o enfiteuta; daí os prazos perpétuos e a modicidade das pensões"
o domínio útil a terceiros, paga ao senhorio o "laudêmio". valor correspondente (In Direito das Cousas, Garnier, Rio de Janeiro, 1877).
a 2,5% da terra (nas enfiteuses do governo federal e entidades governamentais,
o laudêmio é de 5%). Ainda nos contratos da Cia. Imobiliária de Petrópolis, Isto, nem mais, nem menos, é a verdade sobre a enfiteuse, e particu-
se a transmissão do domínio for por morte do foreiro (aos sucessores), por larmente sobre a da Cia. Imobiliária de Petrópolis. A hostilidade da República
pacto antenupcial, e por diversas outras razões, não incidem cobrança e pa- deve-se, exclusivamente, a dois motivos: a) indispor o público com a Família
gamento do laudêmio. Imperial; e b) não conseguir, a partir dos seus postulados positivistas e anti-
Além disso, o contrato enfitêutico pode conter certas obrigações im- naturais, realizar a normalização fundiária, que a Monarquia vinha realizando.
postas ao foreiro. Como, por exemplo, não transferir o domínio útil antes de A imprensa, nas mais das vezes, é prejudicada pela generalizada falta
15, ou 20 anos; edificar na área; embelezá-la; não desmatá-la; ou, ainda, a de instrução e de cultura que vem submergindo o País nos últimos 60 anos.
proibição do corte de determinadas árvores. Em virtude desta última espécie Seus agentes, por isso, mais e mais adotam a prática da simplificação —
de cláusula, aliás, é possível encontrar às margens da rodovia Rio-Petrópolis, com freqúência, simploriedade — de conceitos, que nas suas páginas, mi-
jequitibás com cerca de 3 (três) metros de diâmetro. crofones e vídeos transformam-se em "chavões". E esses "chavões", ela os
repete sistematicamente, porque os "chavões" viram moda, e a moda "vende"
Levantamentos efetuados nos arquivos da Cia. Imobiliária de Petrópolis
notícia. Na maior parte das vezes, os agentes da imprensa repetem esses
pelo Jornal do Brasil, em setembro de 1975, mostram que àquela época o
chavões sem, sequer, saber o seu verdadeiro significado; como ocorre com
preço anual do foro incidente sobre cada "prazo" (lote de terra) era de Cr$
os conceitos de "moderno" (on "atual") e "ultrapassado", que, radicalmente,
0,005 (meio centavo)! Levantamento realizado pelo autor na primeira semana
elevam à condição de "bom" ou de "mau". Por isso, a imprensa serve à
de fevereiro de 1993, mostra que o preço do foro anual, por foreiro (de- República — porque existe, e se existe é "atual" — e ataca a Família Imperial
pendendo do número de lotes) variava entre Cr$ 50,00 a Cr$ 3.000,00. Ou de todas as formas. Uma dessas formas, é "condenar" a enfiteuse da Família
seja, uma décima parte do preço de uma cerveja, ou de um maço de cigarros! Imperial; com isso, obviamente, presta um desserviço a mais, à cultura e à
Na verdade, o contrato enfitêutico é uma reforma agrária espontânea, informação.
a reforma agrária decorrente do bom senso, um verdadeiro assentamento de
colonos na terra; bom senso que o positivismo da República, com o seu
formalismo legal e o sistema do "quem pode mais, chora menos", nunca
pôde realizar. E assim, jamais pôde promover a normalidade fundiária do
País.
Acrescente-se, ainda sobre os contratos de enfiteuse da Família Imperial, * Cf. Paulo Xaltron Avilez. Dn Fazenda do Córrego Seca à cidade de Petrópolis, edição
em Petrópolis: desde a sua existência, só uma vez — em 1974 — um foreiro particular, Petrópolis, 1980.

258 259
11 — O movimento monárquico

Depois de quase oito anos de operações militares, massacres, tocaias,
atentados, prisões, torturas e outras violências nos mais diversos pontos do
País, além dos exílios forçados, a República conseguiu eliminar os últimos
focos de resistência ostensiva dos que se opunham à sua imposição. A partir
de então, as atividades da Monarquia passaram a desenvolver-se intensa e
reservadamente, quase intra-muros, nas reuniões em residências, ou em ins-
tituições culturais e históricas nas quais tinham assento as principais lideranças
monárquicas; o próprio Diretório Monárquico Brasileiro, naturalmente, existia
na semi-clandestinidade.
Entretanto, artigos e reportagens veiculados na imprensa, assim como
o "Manifesto" do príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança (1909), e sua
anterior chegada ao Rio e Santos (1907) — vindo incógnito entre os passa-
geiros do vapor "Amazone", mas impedido de desembarcar — garantiam a
continuidade pública do movimento. Contribuía para essa vitalidade, também,
a intensa correspondência entre os membros da Família Imperial e os líderes
monarquistas brasileiros, assim como as constantes viagens que estes — e
cidadãos, em geral — faziam à França, para se avistarem "tête a tête" com
a Imperatriz "de jure" e seus filhos; e mais, o permanente cuidado moral —
às vezes, material — e as providências pessoais que D a Isabel dispensava
aos problemas de brasileiros na Europa, ou até mesmo no Brasil, interferindo
por eles com seu prestígio pessoal.
Nesse quadro, dentre as centenas de manifestações sugestivas ocorridas
ao longo das três primeiras décadas seguintes à imposição do regime repu-
blicano, vale lembrar o desabafo de Quintino Bocaiúva, um dos mentores do
golpe de 1889: "Eu só voltaria ao Senado para pedir perdão a Deus do que

261
fiz para que visse esta República: e admiro que o povo ainda não tenha Tudo leva a crer, portanto, que nos anos vinte — em parte, também,
cortado a cabeça de quantos cometemos tão funesto erro." (In Revista do porque a primeira República, mal e mal, ia conseguindo conviver com os
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 260, 1963, p. 352). Dessa seus problemas estruturais — os monarquistas a pouco e pouco foram se
mesma publicação, vale relembrar, igualmente, trecho de carta do Conselheiro resignando ao papel de mantenedores das tradições monárquicas do País:
João Alfredo de Oliveira a D a Isabel, datada de 2 de Maio de 1905, referindo-se sem prosseguir no intento de imediato restabelecimento do regime, preser-
a Lauro Sodré: "...procurei apurar as suas intenções por intermédio do Dr. vavam-no para a eventualidade de dias melhores. Para isso, inclusive, durante
Manuel Vitorino (vice-presidente que exerceu por 5 meses a Presidência, no os 55 anos decorridos desde o 15 de Novembro até o fim da Segunda Guerra
mandato de Prudente de Morais), homem de talento superior e grande am- Mundial, tiveram a ajuda voluntária ou involuntária de uma plêiade de ini-
bição, capaz de relevantes serviços quando em boa escola, já desenganado gualáveis e antológicos historiadores que, com respaldo em pesquisa séria,
da República, e no fundo monarquista", (ob. cit., p. 344). Ou, dessa mesma e com a perspicácia de verdadeiros cientistas políticos, produziram imenso
correspondência, o seguinte trecho: "Na Semana Santa, na Matriz da Lagoa, número de tratados e monografias sobre História do Brasil, sobre o Império
vi o vigário da Gávea, Padre Petra Fontoura, entoar com a sua excelente e sobre os tempos que se seguiram à República; isso favorecia à Monarquia,
voz a oração 'Pro Imperator nostra', suprimida desde 1889. Cumprimentei-o por circunstância natural ligada à veracidade dos fatos.
e prometi levar o fato ao conhecimento de V.M.l." (ob. cit., p. 346). Relem- Após a Segunda Guerra, com a vinda definitiva de Dom Pedro Henrique
bre-se, são, respectivamente, de 1914 o famoso discurso de Rui Barbosa ao e os seus para o Brasil — já falecido Dom Pedro de Alcântara em 1940
Senado, referido neste livro, e de 1918 o artigo de Monteiro Lobato, idem. o movimento monárquico ganhou novo impulso: a maioria dos monarquistas
Com o levantamento do banimento da Família Imperial, em 1922, e o aglutinou-se em torno de sua pessoa, e foram criando entidades cívicas e
seu retorno ao Brasil, um curioso fenómeno ocorreu. Os monarquistas mais culturais ligadas à Monarquia, entre elas a "Ação Imperial Patrianovista Bra-
chegados — alguns ainda sobreviventes de 1889 — continuaram suas arti- sileira", do Prof. Arlindo Veiga dos Santos, catedrático da Pontifícia Uni-
culações e proselitismo; mas o fato de a Família estar de novo no País, versidade Católica de São Paulo, e, indiscutivelmente, o grande líder negro
reverenciada por aqueles, e oficiosamente reconhecida pelas autoridades re- da política brasileira. Por esse tempo, igualmente, e por mais duas décadas,
publicanas, parece ter operado uma acomodação de consciências e de brios. novas e notáveis obras históricas vieram a lume, de cunho sempre antológico;
A campanha tornou-se mais pacífica: os mesmos artigos e reportagens con- e como não poderia deixar de ser. isso era benéfico à campanha do regime
tinuaram sendo esporadicamente veiculados na imprensa, as reuniões de antes monárquico. O aspecto quase que exclusivo de zelo e preservação das tradições
igualmente organizadas, mas algo arrefeceu no seu ímpeto de reconquista do para quando chegassem dias melhores e propícios, cedeu lugar a um ténue,
Estado; dir-se-ia mais um zeloso trabalho de manutenção das nossas tradições, mas perceptível ambiente de campanha propriamente dita, de preparação ou
visando impedir-lhes o esquecimento. Depois, Dom Pedro de Alcântara, que de impulso ao advento mesmo desses dias melhores. Na própria Constituinte
havia fixado residência no palácio Grão-Pará, em Petrópolis — a Cidade de 1946, noventa e um deputados subscreveram e apresentaram uma proposta
Imperial por excelência — mantinha irretorquivelmente sua renúncia como de restauração da Monarquia, a qual. no entanto, não obteve aprovação.
ponto de honra pessoal, embora prosseguisse não fazendo segredo sobre haver Esse estágio, no entanto, durou pouco tempo: em breve Dom Pedro
sido forçado a praticá-la. Seu irmão Dom Luiz faleceu em 1920, antes que Gastão manifestou sua inaceitação quanto à validade e eficácia do ato de
a Princesa Isabel (1921); e o primogénito Dom Pedro Henrique, que. a pre- renúncia de seu pai; e isso fez com que aqueles que até então tinham se
valecer a renúncia de Dom Pedro de Alcântara seria o Chefe da Casa Imperial mantido à parte, e não se haviam aglutinado em torno de Dom Pedro Henrique
e pretendente ao trono, aqui viera por pouco tempo, retornando à Europa. passassem desde logo — por também não concordarem com aquela renúncia
Assim, mortos a Princesa Isabel e Dom Luiz, ausente Dom Pedro Hen- — a apoiar Dom Pedro Gastão. Perfilhando com cada um dos ramos, desde
rique, e renunciado Dom Pedro de Alcântara, a volta da Família Imperial essa época até hoje, há um grande número de juristas e historiadores.
nessas circunstâncias parece ter trazido mais esvaziamento do que estímulo Assim, o movimento monárquico passou a existir declaradamente di-
aos esforços dos monarquistas: a expectativa por longo tempo aguardada, vidido, cada lado atribuindo sinceramente ao outro a responsabilidade por
concretizara-se; mas com acefalia na dinastia, revelando a faceta de Família essa divisão; o que, evidentemente, só poderia enfraquecê-lo. Quando em
Imperial sem chefia e sem pretendente à coroa. Isso, de certa forma, esvaziava 1981 Dom Pedro Henrique faleceu, essa divisão aumentou: além dos que
as energias dos partidários do regime, que assim não tinham o referencial reconheciam a legitimidade de Dom Pedro Gastão, muitos dos que a reco-
natural e visível — um dos pontos característicos e essenciais da monarquia nheciam no falecido príncipe, rejeitaram a sucessão nas pessoas de seus filhos
— pelo qual persistir nos seus esforços. Na verdade, tudo isso significou não Dom Luiz e Dom Bertrand, em razão de serem membros da TFP; uns pre-
terem por que persistir. feririam a renúncia dos dois em favor de Dom Antônio, terceiro na linha de

262 263
sucessão no "ramo de Vassouras", e outros simplesmente recolheram-se
uma atitude de apatia. "'%
Esse enfraquecimento no movimento monárquico coincidiu com u
outro fator, externo, a aumentá-lo. Foi nos anos setenta que o verdadei
endeusamento do "tecnológico" no Brasil trouxe consigo a efetiva imple
mentação de novas diretrizes à educação, causando uma abrupta queda é;
nível de ensino humanístico; com isso, os grandes historiadores deixaram <f
ser lidos, ficando restritos a sua existência e o seu conhecimento a um sele
percentual de pessoas. Suas reedições, simplesmente, não aconteceram, e
quando muito apareceram "concentradas" em textos reduzidos, quase tel.
gráficos, desprovidos do mais importante à verdadeira cultura, isto é, as refj
missões aos repertórios, os comentários, as indicações e testemunhos histó*/
ricos, em geral constantes das notas de rodapé. Evidentemente, estudantes)?
de qualquer dos ciclos, sem apoio em repertórios verdadeiros — sempre;;
embasados em documentos oficiais ou jornalísticos das respectivas épocas/)
além de em obras contemporâneas aos fatos — nada poderiam conhecer 12 — A campanha do plebiscito
acerca da nossa História, nem da Monarquia brasileira.
Entretanto, não foi tudo: paralelamente a essa subtração da verdadeira
cultura, já se viu como a partir do governo Kubitschek, com o intuito dé Pelos motivos vistos no capítulo anterior, a campanha monárquica para
direcionar a opinião pública para os seus postulados, as "esquerdas" ocuparam
o plebiscito foi feita a duras penas.
as redações de jornais, rádios e televisões; e essa providência, muito natu-
Em primeiro lugar essa campanha teria que ser, como foi, muito mais
ralmente, estendeu-se à redação e edição de livros "didáticos". Todos eles
dispendiosa para os monarquistas, do que para os republicanos. Afinal, a
"reinterpretando" nossa História com o fim de demolir os valores nacionais
e facilitar o caminho para a famosa e utópica "pátria internacional"; conse- República falara sozinha durante mais de cem anos, criara mitos, e sobretudo
quentemente, transfigurando a monarquia, que, obtusamente, viam como uma condicionara as mentes; logo, os seus porta-vozes não precisavam estar pre-
espécie de "exclusão das esquerdas". sentes, falando, em todo o território nacional: as cabeças dos eleitores estavam
feitas desde muitas gerações. A Monarquia, ao contrário, precisava fazer-se
Já se mostrou, anteriormente, como mesmo a docentes das mais famosas
presente — e, pessoalmente, com a pessoa de qualquer um dos príncipes da
grifes universitárias do País falta, às vezes, um mínimo de cultura humanística,
Família Imperial — em todo o território nacional, o que importava num custo
e sobretudo histórica; falta-lhes, sobretudo o senso histórico — o pegar "o
espírito da coisa" — percepção intelectiva que permite a quem o possui financeiro respeitável.
situar-se dentro de um contexto histórico, para apreciar fatos nele acontecidos. Em segundo lugar, o dinheiro disponível era muito exíguo, quer entre
Ao contrário, desprovidos desse senso histórico, dessa adequação de racio- os que apoiavam o "ramo de Petrópolis" (MPM-Movimento Parlamentar Mo-
cínio, aplicam nas suas interpretações de fatos ocorridos há um, dois, ou três nárquico, dirigido pelo deputado Cunha Bueno, apoiado por expressivas f i -
séculos, valores e parâmetros de hoje; e ainda assim, valores duvidosos, porque guras da vida nacional), como no Conselho Pró-Brasil Monárquico, do "ramo
bitolados por estreitezas ideológicas. de Vassouras". Inexistiu patrocínio empresarial: os empresários só investem
O resultado de tudo isso foi que, seis meses antes do plebiscito, a no que apresenta um grau mínimo de certeza, mesmo que tenham que dividir
esmagadora maioria do povo brasileiro nem sabia que a monarquia existe; o investimento, apoiando os pés em mais de uma "canoa", para estarem
ou a respeito dela só conhecia as "mensagens" passadas pelos patrióticos (da sempre no lado vencedor; além disso, o hábito republicano do autoritarismo
"pátria internacional") autores daqueles livros "didáticos", e da mídia enga- condiciona-lhes a ótica para investirem em candidatos ao governo, e enfim
jada. investirem em candidatos ligados à política — de onde lhes saem as com-
pensações pelo apoio — e não para investirem em sistemas, e sobretudo
num sistema situado à margem do governo e da política. De outro lado,
embora as duas correntes monárquicas precisassem de muito dinheiro, não
seria de qualquer um que poderiam aceitá-lo, mas só daqueles que o fizessem
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idealisticamente convictos: jamais dos fisiologicamente interessados, à espera rei?", j á de si expressivas do incrível aviltamento a que chegou a cultura
do retorno em facilidades, tráfico de poder e de influências, isenções tribu- brasileira nos dias atuais, nem sempre eram os maiores escolhos com que
tárias, subsídios, financiamentos a taxas zeradas, empregos, e outros privilé- se defrontavam os conferencistas.
gios. Receber esse tipo de apoio significa o que na gíria se convencionou Entretanto, acima de tudo por outro aspecto, ligado às duas razões
como "ficar de rabo preso", o que é incompatível com a Monarquia. anteriores, a campanha foi difícil para os monarquistas. Já se falou bastante
Conseqiiência disso, foi que os monarquistas só contaram com patrocínio sobre ele; mas tudo o que foi dito, ainda não foi suficiente para traduzí-lo
no varejo, constituído por uma ou outra doação maior, de caráter pessoal, e em toda a sua extensão: o inacreditável grau do condicionamento republicano
de pequenas ou quase irrisórias contribuições mensais espontâneas, recolhidas inculcado na cabeça da grande massa. Com frequência, nas palestras, pessoas
pelo "Pró-Monarquia" (do Conselho Pró-Brasil Monárquico); e pela insufi- não conseguiam conter o riso, mesmo diante de argumentos cabais, fundados
ciente venda de brindes, nos meses que antecederam ao plebiscito. Por essa em dados oficiais do próprio regime republicano: o riso, portanto, não era
razão, aliás, aliás, foi que o deputado Cunha Bueno colocou no horário gratuito causado pela demonstração de fatos cabais, mas pela circunstância de o
o pedido de contribuições, que acabou por custar muitos votos à monarquia: orador estar falando contra a República! Algumas pessoas chegavam ao
o eleitorado menos informado, não tendo parâmetro exemplificativo, terminou ponto de cobrir o rosto com as mãos, como se estivessem envergonhadas de
por associar isso ao locupletamento com o dinheiro público, tradicional da serem vistas ouvindo o que estava sendo mostrado! Esse verdadeiro estado
vida republicana. de radicalização intelectiva fazia com que muitas pessoas também reagissem
Ao contrário, presidencialistas e parlamentaristas republicanos dispu- às mais pacientes e detalhadas explicações dos oradores, até com um misto
seram de dinheiro no atacado, à farta: para os seus patrocinadores (investi- de repulsa e de raiva; precisamente, por exemplo, como se estes estivessem
dores), a vitória da República significava a continuação do "tudo como está", contrariando os bons costumes, fazendo proposta indecorosa, propondo a l i -
com as já referidas e conhecidas compensações aos que a patrocinassem; isto beração do crime, a abolição dos seus direitos, ou coisas desse jaez.
é, a permanência do "stablishment" e do seu estado de coisas, e formalmente Havia, ainda, o flagrante desequilíbrio causado pela própria mídia: en-
com o "apoio do povo". quanto que os republicanos tinham acesso permanente aos grandes jornais,
Em terceiro lugar, se os republicanos nada tinham que esclarecer aos e eram recebidos com honras de vitória óbvia nos estúdios de televisão —
eleitores já com suas mentes massificadas — no máximo repisar os chavões, o que significava, ainda e sempre, a inculcação dos chavões e dos mitos —
mesmos, através dos quais as cabeças haviam sido de longa data condicionadas só muito raramente um grande jornal veiculou algo favorável à Monarquia.
— aos monarquistas era necessário esclarecer, ensinar, comparar, em todos As redes de televisão, essas jamais: no máximo, foram veiculados um ou
os pontos do País. E. para tanto, naturalmente, não havia conferencistas em outro programa, produzidos por outras tantas mentes a tal ponto subjugadas
número suficiente: foi comum uma mesma pessoa deslocar-se através de toda por aqueles mitos e chavões, que o próprio fundo musical era sempre feito
uma região, comparecendo a encontros e debates, proferindo palestras e con- por músicas barrocas, ou quinhentistas!
ferências em cidades distantes mais de cem quilómetros uma da outra. Aliás, Registre-se, ainda, que nem só nos grandes jornais e televisões se ob-
essa dificuldade esteve presente ao próprio "staff" do deputado Cunha Bueno, servou o patrulhamento ideológico republicano: nas escolas e universidades,
e da agência de "marketing" por ele contratada: um e outro, tudo indica, não com grande frequência, as palestras dos monarquistas eram canceladas, e
dispunham de conhecimentos específicos sobre Monarquia, aqui ou no resto inclusive sem aviso; acontecendo o palestrante locomover-se até o local, e
do mundo; e sobretudo, quanto ao significado e aos efeitos das diferenças só lá chegando, no horário mesmo em que deveria falar, ficar sabendo que
essenciais entre os dois regimes. a palestra não iria "mais" se realizar. O próprio príncipe Dom Bertrand passou
Em quarto lugar, o trabalho desses conferencistas e palestrantes da Mo- por dissabores dessa natureza, e por duas vezes, na Faculdade do Largo de
narquia era quase sobre-humano, muitas vezes, diante de auditórios total e São Francisco em São Paulo (a escola pela qual se graduou bacharel em
absolutamente incapacitados para entenderem qualquer explanação; equiva- Direito, note-se). Na primeira dessas oportunidades, o Diretório Académico
lente, por exemplo, ao professor que dispusesse do exíguo espaço de uma marcara o evento para o imenso salão nobre da faculdade, com dispensa dos
aula, para ensinar todo um programa de física nuclear a nível de pós-graduação, académicos que pretendessem comparecer; no entanto, no horário mesmo da
e tivesse antes que ensinar aos pós-graduados as quatro operações fundamen- conferência foi anunciado que, não só a direção da escola não permitiria o
tais da matemática. Perguntas do tipo "Vai voltar a escravidão?", "Vamos uso do salão nobre, como não dispensaria os alunos, e sequer fora divulgada
voltar a ser de Portugal?", "Vão voltar as capitanias hereditárias?", " A gente a realização do evento. Resultado: o príncipe falou na exígua sala de con-
pode tirar o rei?", "Vai haver um rei em cada Estado?", "O rei pode mandar gregação, para uma platéia de vinte estudantes! Em outra ocasião, esta no
matar?", "O rei vai ser dono de todas as terras?", ou "Quem vai sustentar o salão nobre, a conferência foi simplesmente impedida pelas bufonices e trua-

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Diante de todo esse quadro, que não poderia traduzir opção livre e
nices do ridículo "ator" Cacá Rosset, o mesmo que tornou a fazê-las, depois consciente por mentes bem informadas, a campanha monárquica só poderia
do plebiscito, em plena cripta do Ipiranga, onde repousam os restos mortais ser como foi, penosa.
de D. Pedro I , D* Leopoldina, D" Amélia e D* Maria Amélia! Em outra
Ainda assim, os monarquistas realizaram uma proeza. É mais do que
Faculdade de Direito, na região noroeste paulista, uma conferência de Dom
notório que Dom Pedro Gastão já era conhecido em quase todo o território
Bertrand — agendada e confirmada reciprocamente com cinco meses de an-
nacional — que percorria desde muito antes da própria Constituição de 1988,
tecedência, e fartamente anunciada pela imprensa local — foi substituída
cultuando amizades sinceras dos tempos de seu pai, e prosseguiu viajando
"por engano" pela direção da escola; não fora a pronta solicitude de outra
ao longo da campanha do plebiscito. Por seu turno, Dom Luiz, Dom Antônio
faculdade local — cujo auditório recebeu quase mil pessoas! — a conferência
e Dom Bertrand, sobretudo este último, visitaram centenas de municípios,
de Dom Bertrand não se realizaria. Enfim, o desequilíbrio, causado pelo
proferindo conferências, concedendo audiências, dando entrevistas, recebendo
patrulhamento ideológico, foi outra das dificuldades da campanha monárquica,
títulos de cidadão, inaugurando "Centros", "Institutos" e "Juventudes" mo-
e está diretamente ligado ao condicionamento cultural republicano.
nárquicas. Dom Pedro de Alcântara (Dom Pedrinho) e D a Isabel, irmãos dos
Finalmente, havia a aludida divisão na Família Imperial, impedindo a precedentes, também estiveram presentes aos mais variados locais e eventos.
apresentação de um pretendente único, em torno do qual estivessem unidos Além disso, o M P M e o Conselho Pró-Brasil Monárquico "tiraram leite da
todos os monarquistas, isto é, um depositário natural e legítimo da sucessão pedra", para manter no ar a "Rádio Monarquia", ou para publicar o tablóide
imperial. Frustrada essa possibilidade, o deputado Cunha Bueno — que con- "Cara & Coroa", e o folhetim "Monarquia 93".
seguira do Congresso, através de uma "manobra" regimental, ter acesso ex-
Parece não haver dúvida de que teria ajudado — e muito — à campanha
clusivo ao horário gratuito, "alijando o ramo de Vassouras" — partiu para
a presença de Dom Pedro Gastão (D. Pedro IV) no horário gratuito. Lúcido,
um simulacro de união, exibindo no vídeo diversos príncipes, pertencentes
ágil, cavalheiresco e paternal, figura perfeita do avô atuante. Dom Pedro
aos dois ramos; todos eles, no entanto, despreparados, e isso pela razão Gastão poderia ter mostrado que é tão brasileiro quanto qualquer um de nós,
simples de que não são integrantes da linha direta de sucessão ao trono. seu sotaque francês decorrendo de ter nascido no exílio da família por im-
Para poder fazê-lo, porém, Cunha Bueno teve que lançar mão da não menos posição da República, e de por isso ter sido obrigado a falar francês. Ou
esdrúxula metáfora segundo a qual não existiria linha de sucessão. E conseguiu seja, o seu sotaque é um dos anátemas que a República carrega. Além disso,
que eles dissessem tal coisa na televisão, o que, aliás, provou a sua falta de sua simples presença poderia lembrar que Adenauer, Churchill e outros, go-
preparo. vernaram — e muito bem — os seus países com mais de oitenta anos; ou
A partir do momento em que membros da própria Família Imperial que, além de Luigi Einaudi, Sandro Pertini, Vincent Auriol, e outros do
disseram de público que "não havia" linha de sucessão, as perguntas que passado mais ou menos recente, muitos Chefes de Estado da atualidade são
vieram à cabeça do homem do povo foram simples: "Então, por que monar- mais velhos do que ele! E, ainda que Barbosa Lima Sobrinho é presidente
quia?" ou "Por que só aquela família?". Com isso, por extensão, ficou bastante da Associação Brasileira de Imprensa aos noventa e cinco anos de idade;
fácil igualar os príncipes — inclusive o herdeiro legítimo — aos "presiden- Austregésilo de Athaíde, idem, da Academia Brasileira de Letras aos noventa
ciáveis" da República; e, em última análise, igualar a Monarquia à República. e dois anos; Tancredo Neves foi eleito à Presidência com setenta e sete anos;
Consequência, em um mês as intenções de voto para a Monarquia caíram de ou Sobral Pinto, fez seu último juri aos noventa e oito.
22% para 10%! Afinal, o homem do povo ignorava se aqueles que apareciam
Logo depois do plebiscito, a justa reprovação de Dom Pedro I V ao
no vídeo, estavam ou não preparados, faziam ou não parte da sucessão.
deputado Cunha Bueno, deixou no ar o futuro da campanha pelo "ramo de
Além disso, essa "pérola" inventada pelo deputado Cunha Bueno, e Petrópolis"; sendo certo que o patriarca da Família Imperial já declarou que
com a qual anuíram esses príncipes que só muitíssimo remotamente estariam "a Monarquia não é propriedade de um político, ou de um partido político".
na linha de sucessão, permitiu que na esteira do "por que não eu?" surgissem
outros inexistentes pretendentes, como Dom Felipe de Saxe Coburgo e Bra- 12.1 — SOBRE O PLEBISCITO
gança, com o seu folclórico e insignificante "Movimento Real Monárquico",
na qualidade de trineto — com duas transmissões por linha feminina — da Há cento e quatro anos, no dia da imposição da República, o Dec. n°
princesa Leopoldina, irmã da princesa Isabel! Com pouco menos que os 1 prometia um plebiscito. Tratou-se de um expediente para lançar poeira nos
mesmos direitos, também se "candidatou" alguém que se diz sucessor de olhos de quem visse a inconstitucionalidade e imoralidade com que a cúpula
Zumbi, "rei" dos Palmares, como se Zumbi algum dia houvesse sido rei militar aliada a um reduzidíssimo número de políticos, tirara o País do seu
do Brasil!
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caminho natural, jogando-o num interminável lodaçal de ambições e de ir- sequiosos de informação, e até refletiam sobre o que ouviam! Mas, acima
responsabilidade, já desde aquele mesmo dia. de tudo, essas platéias estavam sentindo o chamado que persistia latente no
seu grande subconsciente! Em suma. a pregação monárquica estava derru-
A promessa do plebiscito serviu, também, para distrair as consciências
bando as bases de sustentação da classe política republicana: a desinformação,
dos próprios perpetradores do golpe: faziam de conta que iam realizá-lo.
a ignorância e os mitos.
Faziam de conta com a Nação e consigo mesmos.
Evidentemente, para essa classe, tal coisa era inadmissível, quase uma
Com a promessa do plebiscito, inaugurara-se o faz-de-conta na vida
questão de "segurança nacional". O plebiscito só fora concedido ao deputado
pública brasileira. Como realizar um tal plebiscito, se o resultado seria no-
Cunha Bueno e ao Dom Pedro Gastão — que figura irresistível! — para
toriamente contrário à República? O único caminho seria o novo regime
constar, para fazer de conta ao povo que se dava o direito de ele determinar
ostentar claramente o seu estigma de nascimento, partir para a repressão. E
o regime; e naturalmente, para mostrar aos "gringos" e ao F M I que somos
foi como o fizeram, começando com o "decreto-rolha" (Dec. n° 85-A, de
uma democracia. Afinal, ninguém imaginava que a monarquia pudesse influir
23.12.1889), passando por Floriano chamando navios de guerra norte-ame-
na ordem das coisas, depois de cem anos...
ricanos para metralhar brasileiros indignados, em plena baía da Guanabara,
e mais pelas tocaias e assassinatos de líderes monarquistas, pela batalha de E, então?, pensou a classe política. "Com a pregação de regime autên-
Monte Santo (25.000 mortos em um dia), e nunca mais cessando o emprego tico, que fez a Independência, consolidou a nacionalidade, manteve a inte-
ostensivo da força pelo regime. Afastada a "auctoritas", só poderiam recorrer gridade territorial, criou o mais brasileiro dos nossos sistemas de governo,
à "potestas". nos deu desenvolvimento interno e respeitabilidade externa, esses subversivos
de agora, cassados há cem anos, se tiverem tempo disponível, vão esclarecer
Cento e quatro anos decorridos, os sucessores dos que impuseram a
o Brasil inteiro!
República, só poderiam novamente fazer-de-conta — e, fizeram-no, embora
com outras armas — em relação ao mesmo plebiscito, arrancado quase que "Já imaginaram se eles vencem? Um Imperador que não é da classe
heroicamente pelo deputado Cunha Bueno à Assembléia Nacional Constituinte política, não depende de conchavos e barganhas, porque não disputa eleições?
de 1987/88. Um outro Pedro I I , ou mesmo Pedro I , com mania de honestidade, de mo-
ralidade pública? E, ainda, com o freio de mão do Poder Moderador? Adeus,
Afinal, quem queria que as coisas mudassem, voltassem ao seu estuário
lei complacente!"
natural? Queriam-no, e querem-no, patriotas remanescentes, que, para os de-
fensores da república não são mais que uns ingénuos e ultrapassados; uma O susto levou alguns políticos a pensarem em "ajuda" norte-americana
espécie que parecia em extinção, mas que é tão rija e perene como provaram ("afinal, eles ajudaram tanto em 1889, 1891 e 1893..."). Outros, em simples-
sê-lo as raízes da monarquia. mente "cancelar" o plebiscito, ou no velho remédio de um simples decreto,
como em outros tempos, proibindo propaganda da monarquia! Mas, não era
De qualquer maneira, para a classe política republicana tudo correria
possível: a Constituição — "essa malfadada Constituição, que tirou a cláusula
"de acordo com os conformes", nesse plebiscito. Nada de esclarecimentos
pétrea e arranjou tudo isso" — garantia o plebiscito e a propaganda. Quem
ao eleitorado; campanha, só "a nossa" (a sua) calcada na afirmação do re-
sabe, pensaram alguns, uma "prensa" da Receita Federal nas contas "deles"?
sultado óbvio; "presidencialismo, parlamentarismo — vá lá! — depois a gente
Mas, que contas, se "eles" não tinham patrocínio, nem trabalhavam por di-
acerta, compõe, e fica tudo como está... mas, com a nossa República, que é
nheiro? Pensaram, ainda, nas viagens dos príncipes, suas estadias nos locais
intocável!". E, de fato, tudo correu de acordo com os conformes. Mas, não
onde iam: de onde saía o dinheiro? Vasculharam, e acharam: tudo isso era
sem um grande susto. pago pelos próprios monarquistas.
De repente, "não mais que de repente", um dado novo entrou no circuito.
Surgiu a idéia genial: antecipariam o plebiscito. Assim, diminuiriam o
Um dado incomodante, desagradável: a Monarquia começou a aparecer nos
tempo para aquela campanha de informação do povo. Com esse intuito jun-
mais variados pontos do território nacional, revelando seguidores nos mais
taram-se as duas correntes republicanas, pof razões óbvias; os parlamenta-
diversos ramos de atividade profissional, em todas as camadas sociais, nos
ristas, de quebra, achando que isso os ajudaria a vencerem o presidencialismo:
diferentes níveis culturais. Pior: sua pregação começou a esclarecer o elei-
o parlamentarismo estava na "onda", e era melhor aproveitar a hora. Foram
torado, sem truques! Mostrando — e, ameaçando — privilégios "imexíveis"
os parlamentaristas, aliás, os mentores e impulsionadores da antecipação.
da casta política e das oligarquias, agregados e caudatários; desfazendo as
falácias, as mentiras abertas, os embustes e os mitos sobre os quais assentam Entretanto, no "casamento" das duas correntes republicanas contra a
os direitos mal-adquiridos da República. E, mais, os ingénuos patriotas, idea- monarquia, obviamente teriam que levar a melhor os presidencialistas: seu
listas às portas do século X X I , encontravam ressonância nas platéias onde intento era o de — em qualquer hipótese — fazerem tudo ficar como estava.
chegavam: se havia os que riam ou escondiam o rosto, muitos os ouviam Para isso, discreta e sorrateiramente "permitiram" alguma difusão do parla-

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mentarismo, já que este se apresentava como ponto comum entre monarquia
Será que os argumentos ora invocados não foram lembrados, na época,
e república. Tirar votos da Monarquia, que assustava, eis tudo.
ao serem fixados dia, mês e ano para a consulta popular e para a
Ocorre que, o parlamentarismo republicano, simplesmente, não funciona revisão que a ela se seguiria? Grande parte dos que hoje propugnam
entre nós, e em geral no mundo. Apesar da desinformação prepositada que pela antecipação já eram congressistas naquela época... Outrora, cansei
criou a imagem da "figura decorativa", o fato é que uma das grandes vantagens de ouvi-los vociferar contra o que chamavam de 'golpe militar'. Não
do parlamentarismo é dispor de um chefe de Estado neutro, imparcial, que se vexam agora de atentar também, com um golpe branco, contra o
atua como árbitro entre o governo (primeiro-ministro) e o parlamento, assim direito do povo? ("Antecipação do plebiscito: a quem interessou?", in
como entre os diversos partidos políticos, e sempre atento para os direitos Diário do Grande ABC, 1.03.92).
das oposições e minorias. Já se viu, é impossível esperar imparcialidade de
um chefe de Estado (presidente) que foi eleito. Por isso, o parlamentarismo
só funciona, só tem as virtudes que todos proclamam, nas monarquias; pois, À luz dos seus interesses pessoais, e face às projeções que a campanha
o imperador ou rei não tem partido, não disputa eleições e não tem compro- monárquica autorizava concluir, a classe política não tinha outro caminho,
missos eleitorais. O resto, hipocrisia ou má fé. Já tivemos o parlamentarismo senão o de antecipar o plebiscito. Mas, não só a diminuição do tempo de
republicano aqui em 1961: os deputados simplesmente ignoravam os primei- campanha — e do conseqiiente esclarecimento do eleitorado — influiu na
ros-ministros (Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima), e pro- antecipação: a data originariamente fixada na Constituição, também era in-
curavam diretamente o presidente João Goulart. Como esperar imparcialidade sustentável pela República. Afinal, no 7 de Setembro comemora-se a Inde-
num país acostumado a se dobrar ao presidente? Como poderá governar um pendência, e a Independência está indissoluvelmente vinculada a Dom Pedro
primeiro-ministro diante disso, e de um presidente que dissesse "fui eleito I como príncipe corajoso. Imperador de mão firme, e à Monarquia como
com 40 milhões de votos"? instituição. Em consequência, era preciso encontrar uma data que não lem-
brasse a Monarquia, mas, ao contrário, sugerisse a República; essa data só
Não adianta fazer de conta que não se vê: o que o Brasil precisa é
poderia ser o 21 de abril, cujo ídolo fora criado pela iconografia oficial do
"passar o apagador" no lamentável desvio republicano. Só poderia ter resultado
regime.
em tudo que nos atrasou nesses 103 anos. Era previsível, foi previsto e foi
dito. Confirmou-se. Só com um chefe de Estado isento poderemos retornar
à nossa posição natural como Nação. 12.2.1 — Aspectos jurídico-constitucionais da antecipação
O parlamentarismo republicano acabou sendo o principal aliado do pre-
sidencialismo, para levar a cabo o faz-de-conta do plebiscito. A soberania é elemento integrante da figura do Estado, atributo indis-
pensável à sua existência. Essa existência é corporificada no instrumento
jurídico que leva o nome de Constituição, através da qual se constitui o
12.2 — SOBRE A ANTECIPAÇÃO
Estado. Se o Estado pode ser soberano, e tem sua existência corporificada
pela Constituição, disso resulta que o poder que cria a Constituição é um
A antecipação foi o instrumento do faz-de-conta. Os mesmos homens
poder soberano, desvinculado de quaisquer limitações ou premissas que o
que protestavam contra o regime de 1964, clamavam por liberdade, pluralismo
antecedem. E o Poder Constituinte originário que soberanamente dá origem
político e participação popular, exigiam livre manifestação de pensamento,
à Constituição, e com ela ao Estado.
esses mesmos homens não tiveram dúvida em "fazer de conta" com a au-
tenticidade do plebiscito. De nada valeu que os mais renomados juristas do A Constituição é um conjunto de princípios sob os quais querem viver
País protestassem contra isso, por razões jurídicas; nem outros protestarem os nacionais de um Estado: ela determina a estrutura desse Estado, os seus
por outras razões. Como disse o relator do projeto de emenda constitucional órgãos, poderes, e os limites à sua atuação e autoridade.
que antecipava a data, para a classe política republicana, tudo se resumia a Não sendo possível pensar-se em Constituição imodificável, porque as
uma "simples questão de poder"! sociedades evoluem permanentemente para novas perspectivas, que são o
Vale registrar a sã indignação de um brilhante e honrado chefe militar, resultado de sua experiência, o próprio Poder Constituinte originário, em ato
o general de Exército Pedro Luís de .Araújo Braga, ex-Comandante Militar de vontade que decorre da sua soberania, dispõe sobre a possibilidade de
do Planalto e ex-Comandante Militar do Sudeste nos governos Sarney e Collor: modificações futuras na Constituição: no próprio texto da Lei Maior, ele
determina as hipóteses e a maneira de alterá-la. Institui, portanto, na própria
Constituição um poder de reforma; poder que por derivar de sua vontade,
"A aluai Lei Magna levou dois anos para ser elaborada. Eu
tem o nome de poder derivado de reforma. Ao determinar as hipóteses e a
acompanhei de perto os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte.
maneira de atuação desse poder derivado, na verdade o poder originário im-
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273
põe-lhe limitações: ou seja, fora daquelas hipóteses e maneira, não é possível que visam objetivos permanentes, que devem durar através do tempo. As
a reforma da Constituição. regras transitórias estão destinadas a extinguirem-se por si mesmas, logo
Por ser o conjunto de princípios consagrados pela sociedade, a Cons- que cumpridos os seus objetivos, e só quando isso acontecer.
tituição deve gozar de uma certa rigidez, que lhe assegure a perenidade; ela Além disso, o que mais distingue as disposições permanentes das dis-
é o textp matriz, que contém os princípios segundo os quais será possível a posições transitórias? Distingue-as a evidência de que as transitórias sobre-
produção de todos os textos que integram a ordem jurídica. É exatamente
põem-se às permanentes. As permanentes são uma espécie de normas cons-
nas limitações ao poder derivado de reforma que repousa a perenidade da
titucionais gerais, enquanto que as transitórias são "normas constitucionais
Constituição.
especiais": excepcionam aquelas, têm preferência em relação àquelas. Exem-
No sistema constitucional brasileiro, as limitações à reforma, impostas plo: O art. 16. do texto permanente, dispõe que "a lei que alterar o processo
pelo Poder Constituinte originário ao instituir o poder derivado, são de quatro eleitoral só entrará em vigor um ano após sua promulgação", mas, os artigos
espécies. 4°, § I o e 5°, "caput", das Disposições Transitórias excepcionam, dispondo
A primeira das espécies contém as limitações de natureza material: diz que o art. 16, do texto permanente não se aplicaria — como não se aplicou
respeito às matérias que, por força da vontade soberana do Poder Constituinte — às eleições presidenciais de 15 de novembro de 1989, e às eleições mu-
originário, não são passíveis de modificações, não podem ser removidas do nicipais de 15 de novembro de 1988. Outro exemplo: o art. 60, § 2°, do
Texto Magno. São as chamadas "cláusulas pétreas", que levam esse nome texto permanente, dispõe que as propostas de emendas constitucionais serão
sugerindo a impossibilidade de serem removidos de seu lugar natural os gran- discutidas e votadas "em cada Casa do Congresso Nacional", em dois turnos,
des rochedos. Essas cláusulas irremovíveis, são: a federação; o voto direto,
considerando-se aprovadas as que obtiveram três quintos dos votos dos mem-
a separação entre os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário; e os direitos
bros do Congresso em ambos os turnos: mas, o art. 3" das Disposições Tran-
e garantias individuais (art. 60, § 4° I a IV).
sitórias diz que a Revisão Constitucional prevista para 1993 será feita pela
A segunda espécie, é a das limitações que dizem respeito à forma pela maioria absoluta dos membros do Congresso (não, por três quintos), em sessão
qual poderá ser modificada a Constituição, isto é, ao procedimento a ser unicameral (não, por "cada Casa"), e não faz referência a dois turnos de
obedecido: quem tem competência para oferecer a proposta de emenda, quem votação. Outros exemplos, os artigos 32, 34, § 6° e 35, das Disposições
tem competência para aprová-la ou rejeitá-la, qual o procedimento a ser se- Transitórias, sobrepondo-se a artigos do texto permanente. A recíproca, no
guido na sua tramitação, qual o quorum e sistema de votação (art. 60, § 2° entanto não é verdadeira: se nos assuntos de que se ocupam, as disposições
e 3°). transitórias modificam a aplicação das regras gerais do texto permanente,
A terceira espécie de limitações, é de natureza circunstancial. Diz res- estas não incidem sobre as regras transitórias. Assim, o poder derivado de
peito a situações diante das quais não é possível emendar a Constituição: reforma, estabelecido no texto permanente, não alcança as disposições tran-
enquanto estiver vigorando intervenção federal em qualquer Estado-membro sitórias.
ou no Distrito Federal; e durante a vigência do estado de sítio, ou do estado
de defesa (art. 60, parágrafo 1°). Por que é assim? Precisamente, porque as disposições permanentes são
A quarta espécie, é a das limitações temporais-materiais: podem dizer gerais, e as transitórias são específicas; têm precedência, são algo que o
respeito ao decurso de prazos eventualmente exigidos pelo Poder Constituinte Poder Constituinte originário enfatiza com redobrada e irremovível vontade
originário, para que seja possível reformar o Texto Maior: ou, podem impedir soberana, objetivando — ele, poder originário — um resultado particular
a qualquer tempo a modificação de disposições que visem implementar con- numa questão distinta. Não se incorporam ao texto permanente da Consti-
dições específicas, condições que se esgotam naturalmente, por si mesmas tuição: incidem temporariamente sobre ele, para excepcioná-lo a fim de im-
e só assim, quando realizados. Em virtude da sua natureza marcada por um plementar condições materiais determinadas e desejadas pelo Poder Cons-
lapso de tempo definido, no primeiro caso, ou por lapso de tempo indefinido, tituinte originário. Tais regras, consequentemente, só podem ser modificadas
mas estritamente ligado e suficiente àquela realização de objetivos, essas por esse próprio poder originário; por esse motivo, não há precedente, no
limitações ficam contidas na parte transitória do texto. direito constitucional brasileiro, de modificação de uma disposição transitória
O que são, então, as disposições transitórias de uma Constituição? São pelo poder derivado de reforma.
regras emanadas da vontade soberana do Poder Constituinte originário, sim. A antecipação do plebiscito contrariou disposição transitória, específica
Mas, além disso, são regras, que, pela sua natureza passageira, com atuação e material, imposta como limitação ao poder derivado de reforma. Teve uma
contida num lapso de tempo previsto ou previsível, não poderiam ficar co- finalidade imoral: modificar as regras do jogo, para assegurar a vitória da
locadas no texto permanente da Carta, porque esse texto é destinado às regras república no plebiscito.

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Q questão, ao contrário do que entendem simploriamente alguns, não A doutrina se divide entre pensadores das mais diversas correntes. Mas,
é meramente "de poder", mas, de limitação do poder derivado de reforma. dentre as mais opostas correntes de pensamento jurídico, persiste a afirmação
Sempre que reformar disposições transitórias, o Congresso estará ignorando de que na revisão o constituinte continua derivado, e limitado pelo que instituiu
essa limitação, assumindo a condição de Poder Constituinte originário, ou o constituinte originário. Neste sentido, Manoel Gonçalves Ferreira Filho,
seja, de Assembléia Constituinte. Sem ter legitimidade, nem autorização cons- (Curso de Direito Constitucional) e Michel Temer (Elementos de Direito
titucional para tanto. Constitucional), para lembrarmos apenas esses. No Direito Comparado, Re-
casens Siches, Schmitt, Burdeau, Hauriou e outros.
Por outro lado, embora a Constituição não haja fixado de maneira ex-
pressa os limites temporais ao exercício do Poder Constituinte derivado de Além disso, a emenda que antecipou a data do plebiscito feriu o princípio
reformá-la, tudo indica que tal determinação existe implícita; pelo menos, a constitucional da igualdade jurídica.
teor do artigo 3°, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Tudo E notório que, decorridos três anos e meio da promulgação da Cons-
parece acenar, a propósito, não ser possível aplicar ao caso o entendimento tituição, ainda não se iniciara, nem fôra fora regulamentado o livre acesso
de que a revisão, prevista no supramencionado dispositivo, refira-se exclu- das correntes que deveriam concorrer no plebiscito, aos meios de comunicação
sivamente ao plebiscito determinado no precedente artigo 2°, do Ato referido; de massa.
pois, nessa hipótese, seria de supor fosse a revisão objeto de mais um parágrafo É igualmente notório que, por razões ligadas à qualidade do ensino, e
— o 3° — a este artigo. outras decorrentes da média de poder aquisitivo, o nosso eleitorado não estava,
No sentido de que a revisão constitucional far-se-ia de qualquer modo e continua não estando munido de conhecimentos políticos. Embora com
ao cabo de cinco anos — ainda mesmo que o plebiscito mantivesse o sistema frequência dotado de sensibilidade própria do que se convencionou denominar
presidencialista — inúmeras declarações foram veiculadas pelos Constituin- "sabedoria popular", não dispõe de informações, nem de compreensão acerca
tes, à época da promulgação da Carta Magna. O que, aliás, está expresso no do que seja parlamentarismo, quer monárquico, como republicano; menos,
seu texto que, não distingue hipóteses de resultado para o plebiscito como ainda, informações a respeito das diversas formas sob as quais existe esse
condicionantes para a realização, ou não, da revisão. sistema de governo.
Contraria o "telos" do Texto Magno uma emenda constitucional como A rigor, sequer sabe o eleitorado a respeito do próprio presidencialismo.
a que antecipou o plebiscito, pelas consequências capitais que poderá acarretar Mas, a respeito do presidencialismo, tem pelo menos a noção decorrente
para as instituições políticas do país. do fato de ser este o sistema vigorante.
Consequências, aparentemente, prejudiciais ao aprimoramento das ins- Observe-se o que se passa, por outro ângulo, especificamente quanto
tituições mencionadas. Na melhor das hipóteses, producentes de maus efeitos à Monarquia parlamentar. Durante décadas o regime republicano desenvolveu
didáticos ao eleitorado, diante de mais esse exemplo do desinteresse da classe livremente sua propaganda, em causa própria e não em causa da formação
política pela fiel observância dos mandamentos constitucionais, com reflexos cultural da sociedade: transformou a Monarquia em objeto de ridículo, a tal
diretos sobre a eficácia da ordem jurídica e sobre a credibilidade do regime ponto ultrapassada — no dizer dessa propaganda — que até mesmo a sua
democrático. presença no contexto histórico brasileiro passou a ser vista como algo jamais
existente.
É indiscutível que o Poder Constituinte derivado não pode atuar sobre
disposições constitucionais transitórias. Já seria assim, mesmo à luz da corrente Ainda sob outro ângulo específico, do parlamentarismo republicano o
doutrinária que, no Direito Comparado e entre nós, levanta a questão de eleitorado só tem como notícia o malogrado e fugaz sistema de 1961; adotado,
saber se a Constituição fica à livre disposição do legislador constituinte. A não como uma solução institucional para o país, mas como expediente para
resposta a essa indagação não se contém em regra apriorística, mas no con- resolver momentaneamente uma crise do presidencialismo brasileiro, por mui-
teúdo e significado de cada disposição constitucional em particular; precisa- tos alcunhado de "presidentismo".
mente, nessa consideração é que parece de todo inadequada a modificação, O enfoque da situação das três correntes concorrentes ao plebiscito,
pelo Constituinte derivado, de um prazo designado com atributos de peremp- conferiu a uma delas, desde logo nítida e cómoda — mas, injustificada —
toriedade, pelo Constituinte originário. situação de vantagem sobre as duas outras. Injustificada, porque não decor-
Não parece adequado lançar-se mão, também, para o caso concreto, da rente de uma preferência fundada na informação; mas, precisamente, fundada
distinção entre poder de reforma e poder de revisão; distinção que permitiria na desinformação em que foi e continua mantido o eleitorado pelos sucessivos
dizer que o artigo 3°, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, governos do sistema republicano, quer intencionalmente, quer por desídia.
fixou um prazo peremptório de cinco anos para a revisão, mas nenhum prazo Consequentemente, a correção para tal situação, seria a igualização das
foi fixado para a reforma eventual. informações sobre as três correntes. E essa igualização só seria possível se

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o Poder Público houvesse, desde logo, promulgada a Constituição, providen- É perfeitamente certo que, como sustentou Ross, "o direito é o que os
ciado o proselitismo e seu acesso aos meios de comunicação de massa. O tribunais dizem que ele é" (Alf Ross, Sobre El Derecho y la Justicia, Buenos
que dependia da regulamentação, que cometia à Justiça Eleitoral prover, e Aires, 1977). Isto não significa, porém, que os tribunais não modifiquem o
não ocorreu. seu entendimento, a qualidade jurídica e a de magistrado dos seus integrantes.
Ora, se não foi providenciada a informação do eleitorado, e não foi A História está cheia de registros de épocas em que, quer por uma questão
facultado o acesso aos meios de comunicação de massa, o prazo que se de ótica jurídica, como de compreensão do seu papel, juízes claudicaram ou
estendia até 7 de Setembro de 1993 já seria, de si, extremamente restrito, deliraram de suas funções e de suas prerrogativas constitucionais.
impedindo, em tese, que todas as correntes concorressem em igualdade de O fato de o Supremo Tribunal Federal haver deixado para julgar só
condições. Entretanto, pelo menos esse prazo, também em tese, deixaria ao sete dias antes do plebiscito a inconstitucionalidade da antecipação deste, dá
mérito e demérito de cada qual delas providenciar pelos seus interesses. uma mostra precisa de até quanto o mais alto tribunal do País assumiu sua
Mas, a redução do prazo em cinco meses, numa situação como a descrita, posição de "Pilatos no credo", no contexto institucional e político brasileiro,
impedia que o plebiscito fosse realizado com plena observância do princípio apesar de "guardião" da Constituição. A circunstância de apenas três dentre
isonômico. os seus onze membros haverem se mantido fiéis à defesa da pureza consti-
Assim, também por este prisma foi inconstitucional a antecipação, na tucional, e de os demais haverem contribuído para tornar letra morta a doutrina
medida em que impediu que as três correntes concorressem em igualdade constitucional que sempre vigorou entre nós, e vigora no mundo em geral
de condições. — sacrificando à conveniência o primado e a rigidez da Constituição — em
Inconstitucional, ainda, na medida em que, como consequência da vio- nada altera tudo quanto ficou dito sobre os aspectos jurídicos da antecipação
lação ao princípio da igualdade jurídica — isto, com relação à Monarquia do plebiscito de 1993. Provavelmente, retornarão os dias em que Pedro Lessa.
parlamentar — violou o princípio do pluralismo, enfatizado no art. 1°, V, da Pedro Kelly, Aliomar Baleeiro e outros excelsos ministros faziam a guarda
Constituição. Pois. obviamente, não se pode pretender que esse princípio estrita da Constituição, embora o tribunal não fosse formalmente batizado
fundamental estivesse presente a um plebiscito, cujos votantes simplesmente como seu guardião.
ignoravam o conteúdo de uma das propostas. Informação essa que, durante
cem anos lhes fora proibida, e desde que levantada essa proibição, não fora 12.2.2 — Historiografia e iconografia republicanas
providenciada.
É fato notório que, graças à dependência de verbas institucionais, con- A República, que usou e abusou da criação de mitos em sua — falsa
cessão, e até — porque não dizê-lo? — de boa vontade da classe política — "historiografia" oficial, precisava complementá-los para desenvolver seu
para intermediação dessas relações, quase nenhum acesso teve o parlamen- programa ideológico de alheiamento cultural. Criou, então, uma correspon-
tarismo republicano, e nenhum acesso teve o parlamentarismo monárquico à dente iconografia.
chamada "grande mídia". Já se viu que a figura de Dom Pedro I não servia à República como
Se a nossa ordem jurídica e a nossa doutrina não acolhem a teoria das símbolo da Independência, porque era ao mesmo tempo o símbolo da Mo-
normas constitucionais inconstitucionais, no entanto, uma tal emenda carac- narquia; trataram, em consequência, de substituí-lo nessa iconografia oficial.
terizou-se em conflito com todo o sistema erigido pelo Texto Magno. Primeiro, por José Bonifácio, a quem passaram a atribuir todos os méritos
Resta assinalar que a data, 21 de Abril de 1993, também foi violadora do movimento emancipacionista; mas, a figura do grande Andrada não calou
do princípio isonômico. Qualquer pessoa sobe dos efeitos psicológicos que na alma popular, além do que ele próprio era monarquista: um teórico e
têm os símbolos, em política; e, no 21 de Abril é celebrada a morte de prático adepto da Monarquia, com ardor e coerência que nenhuma historio-
Tiradentes, erigido em substituto republicano de José Bonifácio, e de Pedro I . grafia conseguiria travestir. Então, o remédio foi apelar para a figura de
Assim, um plebiscito realizado no dia de Tiradentes só poderia ter, Tiradentes; e armaram-no com a figura de Jesus Cristo, para melhor impres-
para a psicologia popular, a presunção de um plebiscito republicano. Pre- sionar a alma popular.
sunção psicologicamente reforçada, nos dias presentes, pela morte de Tancredo
Neves. Tudo isso contrariando os mais comezinhos princípios de igualdade 12.2.3 — Parênteses sobre Tiradentes
e imparcialidade do Poder Público, que devem necessariamente presidir a
uma votação, no regime democrático. Ao contrário do que afirmaram seus defensores nos autos do processo,
Também por violar o princípio isonômico, via da nova data escolhida, Tiradentes não era "fraco da cabeça": essa alegação foi somente um expediente
a emenda em questão foi inconstitucional. de defesa, ainda hoje comum nos processos criminais. Dantas Mota o qualifica

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como "homem lido e de raciocínio rápido". Exatamente por não lhe faltar homens, sob o comando do conde de Rochambeau, como sua esquadra —
discernimento, no entanto, não poderia ele pretender — como as pesquisas à época, a mais poderosa do mundo — para inverter a marcha da guerra. E,
mostram que não pretendia — levar a cabo uma luta de independência do quando na batalha naval de Chesapeake os almirantes franceses De la Mote-
Brasil. Com base em cidade encravada no interior de Minas, sem acesso livre Piquet, de Grasse, e D'Estaing — este, o famoso "almirante das índias" —
ao mar, sem exército, sem força naval e sem outro apoio político senão o afundaram por inteiro a esquadra inglesa, a sorte dos exércitos ficou decidida.
local, não poderia pretender enfrentar toda uma estrutura social e económica Efeito decisivo teve, também, a atuação do marquês de La-Fayette.*
enraizada e controlada pela metrópole; nem lutar contra uma estrutura de De qualquer modo, se os pretextos foram fúteis e vazios, o motivo não
o foi menos: aproximava-se a hora da "derrama", isto é, dos impostos legal-
autoridade pública e de poderio militar presente em todos os pontos-chaves
mente devidos ao governo pela atividade da mineração. Inclusive, a parcela
do território brasileiro. Como pensar em vencer os portugueses, expulsar o
conhecida como "quinto d'El Rei", a quinta parte excedente sobre esses im-
poder colonial? Kenneth Maxwell, no seu excelente livro A devassa dadevassa
postos. Como a mineração estava em franca decadência havia muito tempo,
(Ed. Paz & Terra, Rio, 1973, trad. João Maia, p. 222), concluiu que "ninguém
o "quinto d'El Rei" estava atrazado há cinco anos, e montava a quase 600.000
o sobrepujou em entusiasmo por uma Minas independente, livre e republi-
contos de réis; cujo pagamento, diga-se, a Coroa tolerantemente esperava.
cana", em que pesem depoimentos tomados no processo, que contrariam a
Assim, o verdadeiro motivo, longe de ser um ideal nativista ou mesmo
conclusão desse autor quanto ao regime pretendido pelos conjurados. De pseudo-patriótico, ou de qualquer outro matiz louvável, foi, simplesmente,
qualquer modo, tudo conduz a que o seu movimento pretendia a emancipação um motivo econômico-fmanceiro. Na melhor das hipóteses, os inconfidentes
de Minas, não do Brasil; idêntico ao que ocorreu na mesma Minas Gerais, teriam procurado se valer desse aspecto e momento, sem considerações mais
nos tempos de " D a Beija": movimento local, sem ânimo ou amplitude nacional, nobres a imbuí-los. Prova disso, foi o depoimento do mestre de Campo Pam-
movimento meramente separatista, como tantos outros. Felipe dos Santos, plona no processo (ainda em Vila Rica) falando na distribuição dos cargos:
mais tarde, teria maiores chances de sucesso no Nordeste; embora, também, "...Que esta Capitania era um formidável império; ao que saiu aquele
sucesso apenas local. E, mesmo assim, nem isso conseguiu. vigário [Carlos Correia de Toledo e Melo] dizendo: — Eu sou o Pontífice,