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“Pai dos pobres” ou “Mae dos ricos”?: Getulio Vargas, industridrios e construcées de classe, sexo e populismo em Sao Paulo, 1930-1954* Joel Wolfe** Como a maioria de suas amigas © companheiras de trabalho, As- sumpta Bianchi teve como pais trabalhadores das fazendas de café do inte- tior do estado de Sdo Paulo. Muito jovem, chegou a cidade de SA Paulo, em 1922, ¢ logo se empregou na indistria téxtil. Passou ai sua vida ativa como teceli, aposentando-se em 1967. Embora se tenha filiado a Unitio dos Trabalhadores Téxteis, no inicio dos anos 30, raramente participow de seus enconiros. Tomou parte, entretanto, etn muitas greves empreendidas por companheiros de fébrica. De acordo com Assumpta, cla e “as colegas acreditavam que os sindicatos cram geridos por governo do pov”. Ainda que Assumpta permanecesse um membro da organizacao desde o infcio dos anos 30 durante os anos 60, ela nao acreditava que sindicalistas e politicos trabalhassem para: “Getilio (Vargas), Adhemar (de Barros), Jango Golo Goulart), pois néo pediam votos, mas no final era o que busca- vam.”* Odete Pasquini comegou a trabalhar nas fabricas nos anos 30 € nao se ligou aos sindicatos. Odete compartilhava o ponto de vista de Assumpta sobre Gettilio Vargas ¢ outros populistas: “Vargas, oh, ele era © pai do pobre, como se costumava dizer pelo rédio, mas sem duvida cle era verdadeiramente a mie do rico!”"? Ninguém teve m&ior impacto na historia brasileira no século atual que Getdlio Vargas. Alcangou o poder em 1930, através de um goipe que pés fim 4 Primeira Repablica Brasileira (1889-1930), a qual se caracterizou por um federalismo extremado dominado pelos interesses rurais dos estados de Sao Paulo e Minas Gerais.? Vargas, *Este paper foi originariamente apresentado pata o Harvard Latin American History Workshop. Meus agradecimentos a todas os participantes por seus comen- Larios e sugestées. Devo reconhecimento especial a Kathryn Burns, Brody Fischer, Roger Kittleson, Emilio Kourf, Florencia Malion e Teresa Meade, por sua ajuda Estendo, também, minha gratidao aos leitores da RHR, cujas contribuigées foram muito dteis: ¥** Professor do William’s College. ; | Assumpta Bianchi, entrevista com o autor, Sfo Paulo, SP, 10 de agosto ue 1987. ? Odete Pasquini, entrevista com o autor, Sao Paulo, SP, 17 de setembro de 1987 3 © methor trabalho sobre a Primeira Repdblica ainda ¢ 0 de José Maria Bello, “A History of Modern Brazil, 1889-1964", trad. James. L. Taylor (Stanford: Stanford University Press, 1966). Pera estudos bem elaborados sobre Estados, ver Joseph L. Love, Rio Grande do Sul and Brazilian Regionatism, 1882-1930 (Stanford: Stan- ford University Press, 1971); Love, Sdo Paulo. in the Brazilian Federation, 1889- 1937 (Stanford: Stanford University Press, 1980) e John D, Wirth, Minas Gerais in the Brazilian Federation, 1889-1937 (Stanford: Stanford University Ptess, 1977) 27 que havia sido governador do estado do Rio Grande do Sul, governou a prinofpio como presidente provisério de um governo constitucional (1930- 1937), depois como ditador num regime autoritdrio (0 Estado Novo ou ditadura estadonovista, 1937-1940), ¢ depois retornou como. presidente eleito em 1951. A influéncia politica de Vargas ultrapassa a data de seu suicidio. em 1954, pais seu herdeiro politico Jodo Goulart assumiu a presidéncia em 1961. Af se manteve até o golpe de 1964, mas o legado politico de Vargas continuon de diferentes maneiras durante o periodo da ditadura militar e a transig&o para os civis nos anos 80.* Vargas governou centralizando a politica brasileira ¢ 0 fortalecimento da administrago nacional, Embora tenha criado um largo espectro de instituigdes (0 mo- demo servigo civil, a burocracia do trabalho, companhia nacional de pe- tréleo ctc), ele consistentemente se apresentava como o sfmbolo simul- taneo do povo brasileiro ¢ de seu govern, quase um quarto de século em que atuon como presidente foi marcado pelo paradoxo de aparecer, com sticesso, a0 mesmo tempo como um construtor de instituigses ¢ por seu desejo de ser um lider carismético e personalista®, A coletividade brasileira dos trabalhadores teve um relacionamento complicado com Vargas. Os académicos assumem que trabalhadores como Assumpta Bianchi, Odete Pasquini ¢ muitos outros entrevistados man- tiveram uma “coaliz&o politica” com Vargas. Mas, quando estes operérios consideravam Getilio e outros politicos, eles o faziam de um modo tio esquemético que, como conseqiiéncia, nie os levava a se juntarem a partidos politicos ou a servir como base de “massa” para um movimento populista.® As relagdes de assalariados, como Assumpta e Odete, a politicos sfo raramente consideradas em anélises sobre 0 populismo brasileiro, que tendem a se concentrar em “altas” politicas. Estudiasos tém enfocado lideres politicos (como Getilio Vargas, Adhemar de Barros, Joao Goulart, entre outros) ou em efeitos a longo prazo de administragdes +A longn entrevista concedida pelo candidato civil de oposigao, Tancredo Neves, em 1985, na eleigéo presidencial indireta, sobre o fato de haver servido sob Vargas, em 1951-S4, e como invoca o antigo presidente para justificar seu planejamento administeativo in Valentina da°Recha Lima e Piinio de Abreu Ramos, Tancredo fala de Getilio (Sto Paulo: L&PM, 1986). 5 Sobre a figura de Vargas na politica ¢ cultura popular, veja Ludwig Lauerhaus Jr., “Who was Getdlio: Theme and Variations in Brazilian Political Lore", Journal of Latin American Lore 5,2(1979)-273-90, Para andlise sucinta de Vargas como criador de instituigio, Barbara Geddes, “Building ‘State’ Autonomy in Brazil, 1930-1964", “Comparative Politics” 22,2(1990):217-35. * Para a lista completa dos trabalhadores enteevistados,. veja 0 apéndice em Wolf, Working Women, Working Men: Sao Paulo and the Rise of Brazil's Industrial Working Class, 1900-1955 (Dutham: Duke University Press, 1993). B populistas no desenrolar da forma politica de governo no Brasil? Do mes- mo modo que os polfticos olhavam as classes populares como pessoas que poderiam constituir a massa fundamental para movimentos populistas, os literatos continuavam a conceptualizar os trabalhadores urbanos € os proletarios rurais como objetos num jogo politico mais do que té-los como sujeitos de seus estudos.5 Os poucos trabalhos em que analisam como grupos da classe popular consumiam discursos ¢ pritticas populistas revelam que tanto os primeiros como os segundos nfo tinham necessaria- mente sido cooptados pelo populismo; ao invés disto, eles manipulavam estes discursos em poderosas ideologias da classe a que pertenciam,? 7 Provavelmente, 0 melhor estudo neste veio € 0 trabalho de Francisco C. Weffort, © populismo na Politica Brasileira (Rio de Jancira, Pax e Terra, 1980). E Angela Castco Gomes, A invengda do trabaihismo (Rio de Janeito: IUPERJ/Vértice, 1988). * As classes populares sao vistas mais como receptoras do que como participantes. © debate sobre o populismo ne Brasil tem sido paralisado por esta tendéncia. Nos anos 60 ¢ inicio dos 70, académicos apontaram os trabalhadores. brasileiros como nio-sofisticados © aos quais faltava qualquer sentido de luta de classe. Leia, Robert J, Alexandre, Labor Relations in Argentina, Brazil and Chile (New York: MeGraw- Hill, 1962); Fernando Henrique Cardoso, Le prolétariar Brésilien, Situation et comportement sacial, Saciologie du Travail 3,4 (1961):362-77; Le6ncio Martins Rotirigues, Sindicalismo e Conflito Industrial no Brasil, Sio Paulo, Difel, 1966; Rodrigues, Sindicalismo ¢ Classe Operdria, 1930-2964, in “Historia Geral da Civilizagao Brasileira”, ed. Boris Fausto, v. 10 (Si0 Paulo: Difel, 1986):507-555; © Alain Touraine, Industrialisation et conscience ouvriére en Sdo Paulo, Socivlogie du Travail 3,4 (1961):389-407. Francisco Weffort (in O populismo na politica) alterou a trajet6ria deste debate, mostrando que os trabalhadores realmente nao tinham espago para manobra, porque o movimento deles era dominado peics sindicalistas (ambos amurrados 40 Ministérie do Trabalbo ¢ aos comunistas) que, Prazerosamente, cooperavam com os politicos populistas. Esta concentragio nos Iideres twabalhistas continua a cavacterizar a maior parte dos estudos do Brasil. Leia John D. French, The Brazilian Workers ABC: Class Conflict ond Alliances in Modern ‘Sao Pauto (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1992). A despeito do titulo do livro, French baseia a maioria de suas conclusdes nas relagées dos trabalhadores com seus sindicatos e 0 Estado em uma longa entrevista com um Hider trabalhista (0 qual ele nunca cita diretamente) e no extensivo uso de jornal o Partido Comunista Hoje, que consistentemente apoiou o papel do governo nas relagdes industriais. ° Para o Brasil, Jorge Luiz Ferceica, “A cultura politica dos trabathadores no primeiro governo Vargas", Estudos Histérieos 3,6 (1990):180-95; Wilma Manga- beira, “Lembrangas de Moscouzinho (1943-1964): Estado de um conjunto resi- dencial operdrio”, Dados 32-2 (1989):225-240, José Sérgio Leite Lopes, A tecelagem dos conflitos de classe na cidade dos chaminés (Sio Paulo: Marco Zero! Universidade de Brasflia, 1988) e Maria Andréa Loyola, Os sindicatos e @ PTB: Estudo de wm caso em Minas Gerais (Petr6polis: Vozes, 1980). Outros estudos de casos para a América Latina incluem Jeffrey L. Gould, “To lead as equals: rural rotest and political consciousness in Chinandega, Nicaragua, 1912-1979” (Chapel ill University of North Carolina Press, 1990, ¢ Daniel James, Resistance and Integration Peronism and the Argentine working class, 1946-1976 (Cambridge: Cambridge University Press, 1988). Dada a necessidade de uma andlise mais profunda 29 Qs termos “populismo” e “populista” so guase to mal definidos como os movimentos que eles se propéem a descrever. Uma recente and- lise dos politicos latino-americanos conseguiu capturar a esséncia do populismo com seu titulo: “Os ambiguos significados dos populismos latino-americanos”. Neste ensaio de 1992, Carlos de la Torre nota que os estilos politicos, partidos e movimentos taxados de “populistas” com- partilham certas caracteristicas. Eles confiam em Iideres carismaticos, utilizam discursos maniqueistas (isto ¢, justapSem a oligarquia ou inte~ esses estrangeitos e 0 “povo”), ¢ criam sistemas de clientelismo ¢ pater- nalismo. Finalmente, dois dos mais importantes tragos sdo paradoxais. ‘Assim, regimes populistas tendiam a valorizat a participagdo politica de grupos tradicionalmente exclufdos (especialmente, mas nao exclusivamente, trabalhadores urbanos), mas ao mesmo tempo a incorporagao destes atores ‘no projeto politica populista, mais freqilentemente, € direcionada a maiores graus de autoritarismo que a um aumento democrético.2° Regimes © movimentos politicos -- do narodnik no findar do t@a- rismo na Raissia e dos radicais agrarios no sul dos Estados Unidos, a admi- nistragio Clinton -- tém sido etiquetados de “populistas". A variedade dos regirnes populistas na América Latina, entretanto, parece conter alguns tragos em comum. Seus movimentos ¢ regimes esforgam-se para incorporar — pela primeira vez — setores das classes populares da regio? Tais incorporagdes eram usualmente uma tentativa para desmobilizar ou para priorizar atitudes estratégicas de grupos de trabalhadores.!? E aliangas do discurs populista em geral, ¢ da necessidade de estudas como ele foi consumnido ou recebido, ver Emilio de Ipola, Populismo ¢ ideologia: a propésite de Ernesto Laclaw, “Revista Mexicana de Sociologia" 41,3 (julho-setembro/1979)-925-60). "© Carlos de la Torre, “The ambiguous meanings of Latin American populisms”, Social Research 59,2 (1992):385-414. 1 O mais completo trabalho sobre a incorporagao de classes na América Latina pertence a David Collier e Ruth Bering Collier, Shaping the political arena: critical junctures, the labor movement, and regime dynamics in Latin America (Princeton: Princeton University Press, 1991). Uma fraqueza deste artigo. por outro lade 6ti- mo, a sua tendéncia em reificar o trabalho como wm ator politico abstrato. Para uma andlise da Inglaterra ¢ dos Estados Unidos, que aborda como a incorporagio & ‘a exclusdo tém dado forma aos movimentos trabaihistas, Ira Katznelson, Working- class formation and the state-nineteenth-century England in American perspective, in “Bringing the State Back im", ed. Peter Evans, et al. (Cambridge: Cambridge University Press, 1985) 12 Sem considerar seu contingente, os trabalhadores envolvides na producio para exportagio de bens vitais e servigos passaram a ser cada vez mais habilidosos em interferis na politica nacional. Para uma andlise dos trabelhadores no estratégico setor de exportagio, Charles Bergquist, Labor in Latin America: Comparative essays on Chile, Argentina, Venezuela, and Colombia (Stanford: Stanford University Press, 1986), Cada vez mais, hé livros sobre. os ttabalhadores latino-americanos — parti- cularmente, mas nio exclusivamente, nas capitais — afctando es politicas nacio- nais. Um exemplo: ébvio diz respeito ao trubathador mexicano durante a revolucio. Ver John M. Hart, Anarchism and the mexican working class, 1886-193] (Austin: » populistas tentavam mediar as crescentes contradigées sociais, invocando formas de politicas personalistas e de um patemalismo pré-capitalista, que haviam vigido quando do crescimento de cidades e setores industriais na formacao social capitalista?® Finalmente, regimes ¢ movimentos populistas experimentaram se colocar em aliangas entre um novo grupo ou lider politico (Vargas, Peron na Argentina, Gaitin na Colémbia etc.), classes populares ¢ elementos da burguesia nacional, especialmente, mas a%0 exclusivamente, industriais.4 Generalizar sobre populismo, entretanto, traz perigos para um estudo analitico.15 © discurso de um lider politico (ou sistemas de propostas) necessariamente ter4 de ser interpretado de acordo com suas préprias circunstincias, ponto de vista ¢ experiéncias. Embora seja impossivel determinar 0 pensamento de cada brasileiro sobre Getdlio Vargas, nds podemos destacar grupos mais significativos de industridrios (o mais Sbvio alvo de sev populismo) ¢ analisar seu relacionamento em relagdo a ele. Este ensaio estuda os discursos tabalhistas de Vargas, durante seus varios perfodos como presidente, ¢ examina como os trabalhadores em So Paulo — o maior centro industrial da América Latina —- os consumiam, Tal andlise revela que os assalariados avaliavam Vargas de acorde com suas préprias experiéncias ¢ ndo costumavam aceitar prontamente seu programa durante 0 perfodo de 1930 a 1945, Eles usavam seus préprios discursos trabalhistas — 0 que Foucault chamaria de “conhecimentos subjugados” University of Texas Press, 1978); Alan Knight, The working class and the mexican revolution, 1900-1920, Journal of latin american studies 16(1984):51-79; e Barry Carr, EY movimiento obrero y in poltica en México, 1910-1929 (México: Era, 1981). 3 Na tendéncia do populismo para usar formas politicas populares pré-capitalistas, Emesto. Laclau, “Politics and ideology in marxist theory: capitalism, fascism, populism” (London, New Left Books, 1977). Para um caso de polfticas populistas urbanas que analisa o patemalismo no Rio de Janeiro, Michael L. Conniff, “Urban politics in Brazil: the rise of populism, 1925-1945" (Pittsburgh: Pittsburgh Press, 1981). Para andlise inovadora que enfatiza 0 lado personalista dos populistas. do Brasil, Conniff, “The populists of Brazil”, Review of latin american studies 4,11991):44-65. '4 Sobre 0 relacionamento de Perén com os industriais argentinos, Joel Horowitz, “Industrialists and the rise of Perén, 1943-1946: some implications for the con- ceptualization of populism”, Americas 47,2(Octoher 1990):199-218; ¢ Carlos H Waisman, Reversal of development in Argentina: postwar countrerrevalutionary policies and their structural consequences (Princeton: Princeton University Press, 1987). °S Torre sensivel ao problema causado por tais generalizagées, mas coloca que o termo populismo ainda tem importante valor analitico. Ian Roxborough, por outro lado, vé tal diversidade nos populismos da América Latina, que ele adverte os académicos contra 0 uso do termo. Roxborough, “Unity and diversity im latin ame- rican history", Jounal of latin american studies 16(1984):1-26. 3 e James Scott de “transcrigdes escondidas” — para interpretar © reformular as ideologias ¢ praticas de Getdlio.’® O didlogo entre os trabalhadores de Sio Paulo ¢ o presidente em seu primeiro periodo (1930- 1945) levou a construgdo de um populismo que se atticulou mais claramente durante 0 perfodo de uma abertura politica competitiva (1945- 1964)” TRABALHADORES E O ESTADO: A IDEOLOGIA DO ESTADO NOVO DE’ VARGAS Embora Vargas esteja sempre associado com uma retérica anterior A @nfase dada A classe trabalhadora, seu programa, nos anos 30 € nos primeiros anos dos 40, sc sobressai mais pelo nacionalismo, Vargas acentuou seu interesse em integralizar o pafs como um todo em seu primeiro discurso do Dia do Trabalho, durante a ditadura do Estado Novo. No dia primeiro de maio de 1938, 0 ditador assegurou aos brasileiros compreender que “Ordem e Progresso” eram as suas mais importantes aspiragées, mas acrescentou dizendo que “Um pafs nao € apenas uma aglomeragio de individuos em um territério, mas é, prisicipalmente, uma unidade de raga, uma unidade de Ifngua, uma unidade de pensamento. Para se atingir este ideal supremo, € necessério, por conseguimte, que todos caminhem juntos em uma prodigiosa ascensio (...) para a prosperidade ¢ para a grandéza do Brasil.”!8 Vargas articulava, assim, uma aspirago dos militares e de outros segmentos da elite nacional. Da declaragao da Reptiblica em 1889 e durante os anos 30, os militares ¢ segmentos da clite civil lutavam para refundir %® Michel Foucault, “Two lectures” in Power/Knowledge: selected interviews and the writings, 1972-1977, ed.Colin Gordon (New York: Pantheon, 1980):78-108; e Tames C. Soit, Domination and the arts of resistance hidden transcripts (New Haven: Yale University Press, 1990). W Hesitei ao. denominar este perfodo: se como uma era democrética ou um periodo de politicos civis. A cleigao presidencial de 1946 opés dois Iideres militares (o Dutra do Exército derrotou o Gomes da Forga Aérea), ¢ as forgas armadas interferiram direta e indiretamente em muitas eleigdes presider-"ias e sucessoes. Além disso, as continuas limitagdes no sufrégio (o voto do enalfabeto s6 foi assegurado em 1986) circunscreveu, entdo, forma democratica. © mais completo trabalho sobre 0 perfodo ainda é 0 de Thomas E. Skidmore, “Politics en Brazil, 1930-1964: an experiment in democracy” (New York: Oxford University Press, 1967) 18 Getilio Vargas, A nova politica, 11 vols. (Rio: José Olympio, 1938-1943).4- 205,5:19-32; e "Boletim do Ministério do Trabalho, Inddstia e Comércio” (BMTIC), 45, (maio, 1938). Este discurso retrata irrefutavelmente a andlise de Benedict An- derson de “racionalismo oficial”. Ver Irsagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism (London, Verso, 1983}, 80-103 32 sua sociedade agrdria ¢ rural em uma nagio industrializada © unificada (racial € geograficamente). Mobilizagées populares comandadas por trabalhadores rurais ou urbanos aborreciam significativamente essas elites. A crise politica de meados dos 30 ¢ o estabelecimento em novembro de 1937 do Estado Novo forneceram aos militares © a seus aliados a oportunidade perfeita para fevar avante sua meta de remodelar o Brasil através da industrializapio, quando também seria disciplinada, contida, a populagao civil, No que diz respeito aos trabalhadores, Vargas foi o primeiro presidente brasileiro a, abertamente, dar-hes valor participativo na politica nacional. Ele atuou assim convocando-os a pa ar de sindicatos sancionados pelo Estado, que operavam dentro de um sistema de relagbes corporativistas de trabalho.” Discurso apés discurso, Vargas apelava para que todos os brasileiros evitassem conflitos de classe e atuassem no espirito de conciliagdo para o bem geral. Ele comunicava a seus ouvintes de rédio que somente uma centralizagio em mios estatais poderia Imiar contra a “subyersio estrangeira", ajudar na industrializacao do Brasil ¢ Prover a todos de uma real justiga social. Em Sao Panlo, em 22 de julho de 1938, preveniu uma aglomeragéo, admocstando: “Todos nés marcha- Temos juntos visando um esfor¢o comum; trabalharemos, sem limites, para @ prosperidade e grandeza do Brasil." Ao criar fortes centrais sindicais '9 Provavelmente a mais especial andlise da ideologia de Vargas seja a de Alcir Lenharo, “A sacralizagao da polftica” (Campinas, Papirus, 1986). * Pode-se dizer que a mobilizagic dos trabalhndores jd causava preocupacio entre as elites politicas nacionais. “A questio social e politica no Brasil” de Rui Barbosa, 1919, se constituiu numa tentativa precoce de lidar com a “questio social”, Rui baseou muitas de suas recomendagdes em principios sobre 0 trabalho do Tratado de Versalhes. Em 1923, Epitécid da Silva Pessoa criou 0 Departamento Nacional do Trabalho, © qual tratov de algumas disputas com trabalhadores, no Rio, Essas estruturas prossagiavam importantes aspectos do programa de Vargas. Leia Joel Wolf, “Worker mobilization, repression, and the crise of the authoritarian state Sao Paulo: 1914-1924" (“Paper” apresentado no S6th. Annual Meeting of the Southern Historieal Association Meeting, New Orleans, november 1990). * Um antor foi téo Jonge a ponto de argumentar que Vargas criow [ou recriou] a nogao de classe tabathadora através de seu discurso, sobre 0 operariado. Ver Maria Emilia A. T. Lima, “A construgio discursiva do povo brasileiro: os discutsos de Primeito de Maio de Getilio Vargas” (Campinas: UNICAMP, 1990) % Getdlio Vargas, “A nova politica do Brasil”, $:300. Ver, também “A. nova politic, 4:139-144, 4:151-156, 4:181-187, 5:121-127, 5:163-172. & importante notar como a retérica de Vargas neste tempo diferia da’ de outros populistas latino- americanes. Vargas apelava para a nogio de conciliagdo, que contrapunha o supostamente nfo violento passdo brasileiro com os legados sangrentos dos vizinhos da América Espanhola, enquanto outros populistas (por exemplo,. Perdn, Gaitdn, Velasco Ibarra etc.) tendiam a dar énfase em seus discursos a divisdes cm seus paises in “E] Pueblo vs la oligarquia", Torre, “The ambiguous meanings”, 399-401. 33 surgia, como conseqiiéncia, a necessidade de modifiear a populagao brasileira. Estudos de Francisco Campos, Antonio José Azevedo Amaral, Francisco José de Oliveira Viana ¢ outros idedlogos nacionalistas for- neceram 0s suportes intelectuais para um programa de “militarizar a nagdo”. Scus escritos combinavam teorias racistas, fascistas ¢ catélicas sobre o estado e © desenvolvimento nacional. Muitas dessas idéias nunca foram além do papel impresso, mas Vargas © seus aliados militares ¢ industriais as utilizaram para enquadrar o pafs numa moldura cor- porativista2? Vargas usow seu poder durante o Estado Novo (4937-1945) para elaborar seus posicionamentos politicos © sociais, proclamande como as condigées de trabalho do operariado melhorariam ¢ como Thes seria dado um maior acesso & justiga social através da interveagzo do Estado, como recompensa a seu apoio’ — como um todo —- aquele Estado. Presumtia-se que os trabalhadores participassem da politica atrayés de sindicatos com patrocinio estatal. De acordo com 0 Ministério do Trabalho, “unides de trabalhadores no Estado Novo tinham uma funcao representativa dual, na medida em que agiam de acordo com as velhas regras de associagées profissionais e eram [também] instituides come corporagGes com deveres representativos do Estado.” Os. sindicatos deviam atuar como “escolas de unidade ¢ disciplina’.™* Vargas garantiu publicamente & classe trabalhadora que elas seriam beneficiadas com a jomada de 8 horas didrias ¢ servigos sociais mantidos pelo Estado se rejeitassem “dogmas exdticos © subversivos” e os substituissem por apoio a seu governo. Prometeu, também, criar um salério minimo, ao qual denominou “imposigio da justiga social”.25 A politica trabalhista de Vargas durante os anos 30 € inicio dos 40, entretanto, nao seria caracterizada como “populista”. A intencao primordial de seu regime neste campo era precaver-se contra a luta de classes aberta (especialmente greves, mas também formas indiretas de resisténcia do trabalhador, incluindo mudangas de emprego para propiciar aumento de salérios), institucionalizando © mito brasileiro de conciliagao 22 Lenharo, “A sacrelizagio politica” 2% BMTIC 88 (dezembro 1941}, 82; Ari Pitombo, “A legislacie trabalhista © 0 momento atual”, BMTIC 112 (derembro 1943), 151; ¢ Lenharo, “ A sacralizagdo politica”, 37. Vargas, “A nova politica”, 4:144, 5:172. Alguns industrisis paulistanos apeiaram ‘a criagio do salério. minimo como, wm meio para limitar o apelo em dircgiio B ideologia de esquerda e para incrementar 0 desenvolvimento capitalista anmentando a demanda por bens nacionais. Ver ©. Pupo Nogueira, “Reperoussées do salfrio minimo”, BMTIC 61 (setembro 1939), 135-52. 4 através de um sistema de relagGes industriais corporativista.29 Embora Vargas discutisse abertamente o papel reservado aos trabalhadores dentro da, sociedade brasileira — 0 que eta por si mesmo uma modificagio importante — ele nao tentou mobilizar os operérios ou avivar as chamas da classe descontente. Sua politica tinha uma intengao oposta, pois ele almejava uma industrializagao, em que os trabalhadores estivessem sob controle rigoroso.** Em dltima insténeia, as caracterfsticas dos discursos politicos de Vargas durante os anos 30 ¢ os primeiros anos 40 dizem fespeito ao nacionalismo ¢ a colaboracdo entre as classes.28 Embora © Estado Novo encorajasse mudangas no sistema de relages industriais, ele buscava reforgar os “tradicionais” papéis para homens ¢ mulheres neste perfodo de grande ansiedade sobre a Participagio de ambos os sexos no mercado dé trabalho, Neste caso quando se fala em tradicionais, esté-se referindo a um ponto de vista nostdlgico sobre a famflia burguesa, no qual o papel das mulheres, era servir como mies ou manufatureiras domésticas, fora do sistema assalariado. Dentro da camada trabalhadora do Brasil, poucos haviam experimentado tal divisio. de trabalho, mas essa reatidade ni impediu que © pensamento oficial continuasse insistindo na volta de um passado idealizado, em que os homens recebessem salérios e as mulheres cuidassem de seus lares ¢ criangas,®® A sustentagdo para tal arranjo no se restringia @ intelectuais © condutores da politica, Em 1931, por exemplo. homens de sindicatos téxteis de So Paulo escreveram a Vargas queixando-se de que um enorme niimero de mulheres empregadas nesse setor “contribufam para aumentar 0 nimero de homens desempregados, eriando (...) um espetdéculo ridfculo, vergonhoso ¢ revoltante: “a mulher trabalhando na fabrica e 0 marido em casa cuidando de afazeres domésticos ¢ levando as criangas 2 Sobre © sistema corporativista, Kenneth S. Mericle, Conflict Resolution in the Brazilian Industrial Relations System (Ph.D. diss, University of Wisconsin, 1974) © Evaristo de Morais Filbo, O problema do sindicato nico no Brasil: seus fundamentos sociotdgicus, 2. ed. (S40 Paulo: Alfa-Omega, 1978). Sobre como este sistema operon em Sao Paulo, Woll, Working women, working men, 49-124. * Ver Luiz Werneck Vianna, Liberalismo ¢ sindicato no Brasil, 2. ed. Rio de Janeiro: Paz © Terra, 1978; Angela Maria de Castro Gomes, Burguesia e trabalho: politica e legislagdo soctal no Brasil, 1917-1937, Rio de Janeiro: Campus, 1979. ® Leniaro, Sacralizecdo politica, . ® Para andlise deste tipo de construgtio, Wolf, The rise of Brazil's industrial working class community, work, and politics in S40 Paulo, 1900-1955 (PhD. diss, University of Wisconsin-Madison, 1990}, 11-18; ¢ Susan K. Besse, Freedom and bondage: The impact of capitalism on women in Sao Paulo, Brazil, 1917-1937 (Pa. diss., Yale University, 1983),161-221, Besse é, também, muito boa a respeito das ansiedades femininas ¢ masculinas no perfodo dos anos 1910 aos 1930. 35 até a porta da fébrica para serem amamentadas.”"®° © Ministro do Tra- balho respondew a este apelo ¢ a outros semelhantes proclamando seu interesse om “proteger as mulheres, moral ¢ fisicamente” com regula- mentagdes especiais. O Estado, disse, cuidaria das mulheres porque elas eram “por natureza, mais frégeis” que os homens © porque elas nusriam as eriangas ¢ 0s trabalhadores do Brasil.5? Industriais @ outras elites uniram-se sob teorias pseudocientificas para sustentar suas visGes sobre 0s papéis da mulher na sociedade. Basearam seus pontos de vista em escritos de: trabalhadoras sociais como Maria Kiehl de Sdo Paulo. Ela relaton a funciondrios do Ministério do Trabalho que as mulheres nao tinham constituigao fisica ou mental para 0 trabalho requerido pelas fabricas. Argdiu a favor de regulamentagdes que protegessem 0 contingente feminino, porque “na maioria das profiss6es, a8 obrigages da esposa ¢ mile so incompativeis com as af exigidas”.? Enfim, esses tedricos acteditavam que o desenvolvimento capitalista havia destrafdo os tradicionais papéis dos diferentes sexos, ¢ assim, ameagado a coesdo das familias brasileiras. O Estado Novo prometeu reconduzir os homens ao seu papel de provedor as mulheres para os seus lares, onde elas poderiam criar os seus filhos ¢ tomar conta de seus companheiros. Vargas e seus partidérios apresentavam a participagiio nos gindicatos € 0 trabalho assalariado como atividades claramente masculinas. Miulheres trabalhariam em casa, criando os seus filhos e cuidando de seus companheiros. Trabalhos na fabrica eram descritos como atividades essencialmente masculinas no apenas pelos propagandistas do regime como também pelos sindicatos do governs. No inicio dos anos 30, a Uniio dos Trabalhadores Téxteis pedia garantias aos industriais © a Vargas no sentido de preferir-se homens em relagdo ay mulheres, nas contratagdes ——— © Memorial da Unifio dos Operirios em Fabricas de Tecidos de Séo Paulo pars Geidlio Vargas, em 3 de agosto de 1931, Secretaria do Presidente da Repiiblica (SPR) Ministério do Trabalho (MTIC), lata 3, agosto de 1931, Arquivo Nacional do Brasil (ANB). Sobre mais detalhes a respeito desta petigo © anteriores pressGes dos tra- balhadores sobre Vargas, Wolf, Working women, working men, cap. 3. 3 Maria Sophia Bulego Viaana, “A evolug%o do wabalho da mulier”, BMITIC 37 (set,/1937), 103-08; “Discurso pelo Ministro do Trabalho Falcéo, 12 de novembro de 1937, Arquivo de Waldemar Falcdo (Ministro do Trabalho, 1937-1941) (AWF) 7711.2, pasta & Fundacio Getdlio Vargas (FGV), Centro de Pesquisas, ¢ Dooumentacgdo (CPDOC); Vargas, “A nova politica”, 7:157-60; © Lenharo, “A sacralizagdo da politica”, 44-46, 32 Maria Kiehl, “O trabalho da mulher fora do ler", parte 2, BMTIC 97 (sets 1942), 127. Ver, também, a parte 1 deste artigo in BMTIC 96 (ago./1942), 83-95 Besse detalha a andlise “cientifica” do impacto das mudangas. do papel feminino em esferas pablicas nos anos 20 e 30, Ver Freedom and bondage, caps. 2 ¢ 3. 36 de: pessoal.** No final dos anos 30, a Unido dos Trabalhadores Téxteis crion um Departamento Feminino a fim de ensinar as mulheres como cozinhar ¢ cuidar de criangas; a agremiagao nfo intencionava encorajar a participagdo feminina em seus negécios.°* Na verdade, a “Cangio do Trabalhador Brasileiro” do sindicato revelava muitos pontos de vista de Vargas © dos sindicalistas sobre este tema, Seu refrao diz: “Trabalhar é nossa gloria/ com forga viril/ Trabalhar sempre pela vitéria/ E pela grandeza de nosso Brasil”, privilegiando a meta da corporag8o em tutelar © proteger © trabalho duro de preferéncia a batalhar por melhores salérios © condigGes de exercé-lo. O texto, quase obviamente, descreve 0 trabalho fabril como uma atividade “viril” 3° Os varios tecidos da ideologia do Estado Novo incluem oma garantir do governo em geral ¢ de Getiilio Vargas em particular, de que todos os cidadios brasileiros, especialmente og trabalhadores, teriam acesso & justiga social. A promessa de melhores condigdes de trabalho, aumento de pagamento, proteg%o para as mulheres nas atividades industriais ¢ igual representatividade para as classes populares através de seus sindicatos, eram partes integrantes do pacto social proposto pelo Estado Novo. E, discurso apés discurso, Vargas assegurava A camada trabalhadora serem todos os cidadaos iguais simplesmente pelo fato de serern brasileiros.°* Em sua mensagem de Ano Novo, em 1938, explicou que “quando 0 Estado toma a si a iniciativa, o fax para obedecer a imperativos da justiva social...” pessoalmente, o ditador garantia tal justiga para todos; na verdade, ele encorajava os trabathadores a the escreverem °° MALLET, Milena, Almas desnudas; A tragédia sexual da mulher brasileira, Rio; Victor, 1945. H4um aumento de estudos sobre ideologias a respeito de sexo associades com movimentos fascistas outros de tendéncia direitista. George L. Mosse, Nationalism and sexuality; middle-class morality in modern Europe, Madi- son: University of Wisconsin Press, 1985, 153-180; Cléudia Koonz, “Mothers in the fatherland; women, the family, and nazi politics”, New York: St. Martins, 1987, 177-219; © Nancy Maclean, Behind the mask of chivalry: gender, race, and class in the making of the Ku Klux Klan, 1920s, (Ph.D. diss., University of Wisconsin-Madison, 1989). % © pedido de sindicalistas masculinos para dar preferéncia a homens nos empregos pode ser visto em suas demandas para a contengiv de uma grove. no Sindicato Patronal das Indistrias Téxteis. do Estado de Sao Paulo, “Circulares”, 1185-A, 10 de maio de 1932; 1186, 13 de maia de 1932. Ver, também, Maria Clia Paoli, “Os trabalhadores urbanos na fala dos outros tempos, espaco ¢ classe na histéria operitia brasileira”, in Cultura e identidade operdria: aspectos da cultura da classe trabalhadora, ed. José Sérgio Leite Lopes (S40 Paulo: Marco Zero/UFRI,1987), 77. Sobre o Departamento Feminino © 0 descontentamento das mulheres em relagio a0 Sindicato dos Trabalhadores Téxteis, ver Wolf, Working women, working men, 77- 81. 8 “O tabalhador téxtil”, maio de 1945. 3 Ver Vargas, “A nova politica”, 4:44, 4:181-187, $:121-128, 6:117-120, 6:339-349, 7:281-285, 7:291-295, 8:45-47, 8:259-263. 37 diretamente relatando os seus problemas e tomando; assim, conhecimento das particulares consideragdes do presidente a respeito.?” Os trabalhadores cram representados dentro da retériea de Getilio — e da politica governamental — como novos atores sociais, que necessitavam tutela estatal para participarem da sociedade civil. A participagio deles nas polfticas nacionais seria moldada pelos sindicatos © pela legislagio social “dada por Vargas a eles. Esta situagdo € mais claramente representada no mito de outorga®® (de outorgar, conceder ou conferir) segundo o qual Vargas ¢ 0 governo central estendiam direitos aps trabalhadores, Getilio, assim, era tetratado: como 0 “Pai dos pobres” que benevolentemente conduzia os trabalhadores em sas transagdes com ‘08 industriais ¢ © Estado.2? A imagem de Vargas como um pai nacional teve largas implicagdes. Implicitamente, ¢ 3s yezes explicitamente, os assalariados eratn descritos emo eriangas, que no somente: requeriam piotecdo do Estado, mas também da intervencao pessoal do pai’ nacional. Esta metéfora familiar n&o apenas refletia a estrutura corporativista trabalhista do regime, como também apresentava uma retérica engendrada pata a defender as trabalhadoras, mas que as comparava a criangas.4? TRABALHADORES CONFRONTAM COM 0 ESTADO NOVO ‘A imagem de trabalhadores parecidos com criangas caminhando inocentemente pata a politica através da tutela de Vargas tinha pouco em comum com a vida e experigneia da populagao trabalhadora de Séo Paulo. 3? bidem $:126-127, 51167. Juan Perén também apelou, quasc com total sucesso, no sentido de justiga social ¢ cidadania para os trabalhadores da Argentina, James, Resistance and integration”, 14-33. 88 John D, French detalhou nao somente as origens do mito da. outorga, como tam- bém os caminbos pelos quais este mito informoy (ou desinformau) estudes bistsricos posteriores. Ver French, “The origin of corporatist state intervention in Brazitian Fndusitial relations, 1930-1934: a critique of the literature”, Luso-Brazilian Review 28,2 (Winter 1991);13-26, Infelizmente, a contra-ergumentaglo de French de que a intervengRo estatal fortulecen o trabalhador 4 cusia da burguesia, industrial, nfo encontra apoio nas fontes secundérias por ele citadas (26, n. 57). A importincia da figura de Vargas na propaganda detalhada por Lanerhaus em “Quem ere Getilio © A Consolidagao das Leis Trabalhistas (CLT), de 1943, inclui prescrigdes espect- ficas que limitavam a carga hordria de trabalho das mulheres ¢ eircunsereviam outras atividades, ma CLT, rftulo 3, capitulo 3, seg6es 1-2, artigos 379-81. Para uma andlise das origens bist6ricas do descontentamento das mulheres ert relagio a tal Tegislagéo protecionista, ver Joel Wolf, “Anarchist ideology, worker practice: the 1917 general strike and the formation of Sio Paulo's working class”, Hispanic American Historical Review Tl, (november 1991):809-46 BB Quando Vargas chegou a poder em 1930, o operariado paulistano tinha experimentado mais de vinte anos de conilitos industriais, a contar com embargos do trabalho até greves gerais.*! Podia-sc argitir que o mero fato de os trabalhadores da cidade terem panticipado de greves nao os tormava insuscetiveis de lisonjas da parte de um populista como Vargas. Um breve exame das vidas dos trabalhadores panlistanos revela da parte deles uma forte autoconscicntizagao como trabathadores.“? Assim, quando Vargas ¥agarosamente inclinou-se para 9 populismo, nos inicios dos anos 40, os industridrios da cidade de Sto Paulo ja tinham seus préprios discursos trabalhistas para confrontar com as posigées de Vargas. Num primeiro olhar, a répida industrializagao ¢ urbanizaga de Sio Paulo antes de 1940 poderia sugerir a presenga de condicbes estruturais favoraveis ao uso do populismo como um discurso politico apto a mobilizar 0 recém-surgido: proletariado.*® Entretanto, se se aprofundar o olhar sobre 0 desenvolvimento da cidade e 0 proceso de formagao da classe (claramente definido), percebe-se que os trabalhadores paulistanos estavam longe de serem facilmente mobilizados pelo que emanasse de cima. Embora os imigrantes italianos de Sao Paulo. nfo tivessem contatos extensivos com ideologias anarquistas ou radicais vigentes na Europa, cles detinham vasta experiéncia sobre 0 mercado capitalista de trabalho, adquitida anteriormente & sua chegada em solo paulistano.# Além do “" Sobre a primitiva atividade grevista paulistana, Silvia Lang Magnani, “O. movimento anarquista em Sao Paulo, 1906-1917" So Paulo: Brasiliense, 1982; Cristina Hebling Campos, “O sonhar libertério: movimento operfrio nos anos 1917 a (921". Séo Paulo: UNICAMP, 1988: Zélia Lopes da Silva, “Os sindicatos ¢ a gestio do Estado no mercado de trabalho: Sao Paulo, 1929-1932”, “Revista Bra- sileira de Histéria” 7,14 (margo-agosto 1987) 79-97; e Wolf, “Working women, ‘working men”, 6-49, ® & evolugso do discurso sindicalista paulistano esté. mais Plenamente desenvolvida em Wolf, Working women; working men. “ Gino Germani, a principio, comentou que’ tais condighes estruturais ajudavam a introdug4o ao regime populista de Perén. Embora sua andlise original tenha sido largamente. desacreditada, a industrializagio ¢ a urbanizagao tiveram papéis impor- antes em tutelar condigses favordveis para coalizbes populistas em muitas paises da América Latina. Leia Herbert Braun, “The assassination of Gaitén: public life and urban violence in Colombia” (Madison: University of Wisconsin Press, 1985), © Steve Stein, “Populism in Peru: the emergence of the masses and the politics of social control” (Madison: University of Wisconsin Press, 1980), Para ama andlise estrutural sofisticada do populismo, Christian Suter, “Genesis and dynamics of populist regimes in Latin America, 1900-1990: a comparative analysis” (“Paper” apresentado na 34% Convenedo Anual da International Studies Association, Acapulco, México, margo de 1993) * Sobre os imigrantes antes de deixarem a Ilia, Michael M. Hall, “Immigration and the early Sao Paulo working class”, “Jahrbuch fur Geschichte von Staat, Wirtschaft und Gesellschaft Latcinamerikas” 12(1975):391-407. Sobre os imi grantes pa economia cafecira de Sao Paulo, Thomas H. Holloway, “Immigrants on the land: cotfee and society in So Pauto, 1886-1934” (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1980) 39 mais, a vida no setor rural brasileiro, nessa época, nada tinha de idilica, havia muitas disputas com proprietérios ¢ outros chefes.** © fato de uma pessoa ser nova em relagio a0 meio urbano nao queria dizer que fosse inexperiente om relagdo aos conflitos com os empregadores nas relagSes capitalistas. Sao Paulo é reconhecida como uma cidade de muitos bairros com populagdes ¢ personalidades, distintas que diferem nfo somente por raga e classe, mas também por etnias. Os bairros, predominantemente italianos do Brés e Moéca so sempre apontados como o epicentro das atividades da classe trabalhadora. Bela Vista (conhecide como Bexiga apés a grande cpidemia de gripe de 1919) dividiu-se entre a cultura italiana de rua e a experiéncia de negros pobres instalados em cortigos, O Bom Retiro se tomou um centro de cultura judaica ¢ a Liberdade € o.cerne da confluéncia de imigrantes asiéticos. As populagées trabalhadoras da Lapa ¢ Ipiranga cresceram & medida que lojas ¢ fabricas af se instalaram no decorrer dos anos. Os Jardins se toraram o centro da vida da elite e da classe média, principalmente depois que industriais © bardes de café construiram suas grandes mansdes a0 longo da Avenida Pauliste. Quando o prefeito de Nova York Fiorello La Guardia visitou o Brasil durante a Segunda Grande Guerra, ele notou essas divisées, do alto de um edificio no Centro. Olhando para o Bras ¢ Modca, disse: “Nessa parte © povo trabalha.” Entéo virou-se cm direco & Avenida Paulista ¢ outros pairros da elite ¢ disse: “La, cles comem."*® Esses modelos padroes de estabelecimento mascaravam a realidade da classe trabalhadora nos anos 30 e 40. Comegande nos anos 10, 0 operariado de Séo Paulo mudou para trabalhar; poucos viviam perto de suas fabricas, Num sentido mais geral, ‘0s tabalhadores da cidade eram profundamente méveis.*? Eles usavam 0 apertado mercado de trabalho para elevar os seus salérios,, mudando de % Um dos melhores relatos de tal luta rural esté em Todd A. Diacon, “Millenarian vision, capitalist reality: Brazil's Contestado Rebellion, 1912-1916” (Darham: Duke University Press, (991), que detatha como um movimento milenarista entra com destaque em uma classe. Roberto P. Korzeniewiez analisou como a luta trabalhista se espalhou no setor rural argentino © como serviu de importante suporte precursor para o peronismo, em “Labor unrest in Argentina, 1930-1943", “Latin American Research Review” 28,1 (1993):7-40. 4 Mencionado in Mino Carta, “Histérias da Moéca: com a béngio de San Gennaro” (Rie: Berlendis and Vertecehia, 1982), 78. B Maria Célia Paoli, “Working-class Sio Paulo and its representations, 1900-1940”, “Latin American Perspectives” 14,2 Spring 1987):204-25, para outros exenplos de como Sto Paulo foi ¢ € apresentada como a quintesséncia da. cidade industrial da América Latina dividida entre 2onas da elite € da classe operéria 47 Jem 1915, apenas 20% dos empregados nas fébricas do Ipiranga viviom naquele paitro; em Maximo Barro Roney Bacelli, “Ipiranga”, Série Hist6ria dos Buirros de Sio Paulo, v. 14 (Sao Paulo: Prefeitura Municipal, 1979), 110. 40 empregos. Durante a época da colheita, muitos industridrios voltavam para © interior para ajudar a fam(lia ou simplesmente para ganhar salérios mais altos. A grande disperstio dos locais de trabalho mais a inclinagao dos paulistanos (¢ sua habilidade nisso) para mudar de empregos, forgou-os a ter de contar com o sistema piiblico de transporte, ineficiente ¢ caro. Eles dependiam de tal forma dele. que um prego relativamente modesto nas passagens, nos anos 40, ocasionou motins (conhecides como o quebra- quebra), nos quais centenas de Snibus ¢ bondes foram destrufdos pelos trabalhadores.*8 Essa espécie de mobilidade solitéria no criou um forte sentido de classe. As freqilentes greves tiveram um importante papel no sentido de encorajar a solidariedade entre o operariado. paulistano.4? B, também, significativo notar que importantes mudangas fisicas ¢ culturais nos anos 20 © 30 aumentaram as possibilidades de contato © petmitiram trocas de experiéncia entre eles. Maiores mudangas no tragado da cidade — incluindo 0 desenvolvimento de mais avenidas ¢ linhas de bondes, que conectavam ‘os baitros operarios com o Centro — possibilitaram o encontro de paulis- tanos em locagées comuns como nunca havia side posstvel antes.5° A centralizagéo do sistema de transporte, por exemplo, permitiu aos trabathadores de diferentes bairros assistirem, fora deles, a jogos de futebol (especificamente no estédio do Pacaembu e no Parque Antartica). Foi precisamente nos anos 30, com a expansio do servigo ptiblico de transporte ¢ a irradiagdo de jogos pelo radio, que os panlistanos de todos os bairres comegaram a abandonar os scus times locais para apoiar os assim chamados Trios de Ferro: Corinthians, Palmeiras e Sao Paulo. Este © Sobre a mobilidade durante a primeira metade do século XX, Wolf, Working women, working men. Para detalhes do quebra-quebra em 1945 © 1947, Didrio de Sao Paulo, 7 de fevereito de 1945 © 31 de jutho, 1 e 2 de agosto de 1947; Fotha da Manhd, 2 @ 3 de agosto de 1947; ¢ José Alvaro Moisés, “Protesto urbano € politica: © quebra-quebra de 1947”, in “Cidade, povo © poder”, ed. Moises et al.) Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra, 1982), 50-64. Este o tema principal em Wolf, Anarchist ideology, worker practice. Para anélise sobre como os trabalhadores transformavam a aimosfera carnavalesca de suas precoces experiéncias de greve em um maior sentido de solidariedade de classe, Michelle Perrot, “Les ouvriers en greve: France, 1871-1890", 2 vols. (Paris: Mouton, 1974). © Detalhes de como isto afetou numerosos bairros esté a disposic¢io ma série de histéria sobre eles, publicada pela Prefeitura. E Lucila Hermann, “Estudo de desenvolvimento de S40 Paulo através de andlise de uma radial, a estrada do café”, RAM (nov.-dez./1944):7-44; ¢ Ernani Silva Bruno, “Histéria e tradigées da cidade de Sio Paulo”, 3 vols. (Rio de Janeiro: José Olympio, 1954), 3:1315-82 5! Roney Bacelli, “Ipiranga”, 82-93; Wanderley dos Santos, “Lapa”, Série Histéria dos Bairros de Sto Paulo, v. 18 (Sho Paulo: Prefeitura Municipal. 1982), 87-88. 41