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terapia familiar a @€mica sist Claudia B. Bruscagin A terapia familiar sistémica, a diferenca de outras abordagens, nao tem um “pai” (ou uma “m&e"), um teérico principal considerado seu fundador. Ela foi sendo desenvolvida por varios pesquisadores e clinicos - ao mesmo tempo e em diferentes lugares ~ que depois foram tomando contato com os trabalhos uns dos outros, conhecendo-se e aprenden- do juntos. O interessante é que os precur- sores da abordagem, apesar de atuarem de modos diversos e em diferentes lugares dos Estados Unidos, pais onde esse movimento se iniciou, tinham concepgdes muito prdxi- Mas sobre familia e buscavam formas muito semelhantes de trabalhar com ela. A abordagem baseia-se na ideia de que os comportamentos de uma pessoa devem ser compreendidos no contexto da familia. Esta é entendida como o conjunto de pessoas que se relacionam por lagos de parentesco e/ou afetivos. E uma forma de trabalhar que busca novos caminhos para uma melhor convivéncia entre os membros do grupo familiar. Tem ainda um cardter preventivo, fa medida em que traz a tona ~ e valoriza = 0s recursos da prépria familia, os quais muitas vezes nao sao usados na resolucdo dos problemas e das crises por causa do desconhecimento de suas possibilidades. A terapia familiar sistémica também visa 0 autoconhecimento dos membros da familia, de que modo funcionam e estabele- cem as relacdes entre si, oferecendo-lhes Novas compreensdes que os libertam para que possam escolher melhor como se re- lacionar, se comunicar e conviver para o leno crescimento. » DT ae ee) (1904-1980) publica sua dssertaczo eter aC. cd A) Cee air i) SE CUCL eee cr sy Pare tet Bateson publica com Mead O'Carater fr eee cme Secure Lon he en Cate yo ee) el) Warkentin atendem casais; algum tempo Cee eee ce Reyreereao ate 41 Tug Ospina 4e eng dal d one «em reali wt eeu Ge erm ‘Ludwig von Bertalanffy (1901-1972) publica em Uma revista de filosofia dema o primeira Pence ner ce bee Seirs Tonnes Goines) Cet on cients eee ire uy Peete Ae cee) Pe ee lL ec CO scien Whitaker faz confferéncias sobre Cee Meee ee ocd Dei et Cerca) rakoaalabeniname rebar! reer ty I Wee Te ToS vy poten eeecLs Pee UU USCIS Cero ses poe ue ui oe familar: uma abordagem para a Grea ce aah cont) resort Pee nee Cele PLU la Cera ie Bateson obtém financiamento para Gear lema ecu Pe eed com dohn Weakland (1919-1995), Fe eee AO) anos depois, Donald D, Jackson ey es Baleson enconire.se com o fundador da teoria cibemnética, Norbert Wiener, e passa a recebertinanciamento da Fundagao Macy pare estudar a ‘comunicagao esquizofrénica, Dan Jackson publica o artigo "A (Meee Aan a Percale ELC Te Lest PE eu cud @ publica A psicodinamica da vida Fu eau SU DLE Pe An er neu) de Terapia Familar no Instituto de Psiquatria da Pensilvania Oriental aa LL Poe TOs ho Pee Tunak Reed ee cue Satir (1916-1988) e, no ano Ee CML rege Py eu R CE Rey a ate en i an) Washington, até 1990 DUC enn a Tretamento da Familia, e ee EE CU UL Poe Con as ror eer rues) uaa PSICOTERAPIAS I Terapie Fair ssténica Per Teoria Geral Pinan) IN OLINICAL 0 Cee eet en Le ete er eter atta a Tai uma das mais importantes do.campo, Pe ees SS) ccolaboracao entre Haley € Salvador iver . ‘ Haley publica Estrategas Nee tay Oecee a Se eid Seeremt rick Pen uc Ag Bateson i aight PS eee oo 1 Pee rar) Berean cee ites eter id Cre Cia uncle UE LeE ne ae rs VAURATER Rue eee Ec} Tee Ue E criado 0 Centro:de Terapia Breve Rania etree ta PRN e CLUE Een ee come OTe wae ee) Ce Ue Cee ae eta) Peer oes gC Sr ata 4 ee ence RSci ann oscl Learnt) ay Bateson publica Passos para uma ecologia da mente, antologa de seus Daud te ti BLL} ee eae Unie ny CURL rh Daren Dee LOL Meal et eae nay Ceri Haley mudase para Washington rene Pere eee Haley publica Terapia da solicao de Be EU RC AE. dee} eel mr ary Wiener Te Moen aoc He UL) Ue aM Ato Fee eure) Deir OMe Mul a CUBS DM gic ane) PSICOTERAPIAS I OA eae) Palanick Pinick OU Cone Lee finaiza o Utimo trabalho do pai, Meco Cee aL ones SO Wt wae Dre nU ETE be cr Bocas oo) PMc eu aaa) aE Lee) eel acc) ancl PSICOTERAPIAS I Terapia Faniliar sistémica A familia nao é so um grupo de pessoas que convivem; cada uma delas tem uma série de regras, codigos e simbolos que lhe s&o proprios » Para tanto, faz uso de bases tedricas de Silvas waeipas valle dae: provenioates, de psicologia. Desse modo, a cerapia familiar sistémica no tem origem nas teorias da per- sonalidade ou do inconsciente, mas se utiliza das oriundas da fisica, engenharia ¢ biologia a fim de compreender as relagdes na familia. Bo caso da teoria sistémica do bidlogo aus- triaco Karl Ludwig von Bertalanfly (1901- 1972), que parte do principio de que todo e qualquer organismo é um sistema, 0 que implica a existéncia de uma ordem dindmi- ca entre varios componentes ¢ processos em. miitua interagéo. Quando aplicada 4 estruu- ra familiar, vé-se que ela apresenta principios identificados com as proptiedades presentes nos sistemas, dentre as quais se destacam as de auro-organizagio, autorrenovagio e auto- transcendéncia. Essa linha terapéucica busca compreender a pessoa ndo somente na sua dimensdo indi- vidual, abordando 0 plano intrapsiquice, isto & seus processos mentais na rela¢ao consigo mesma, mas também na sua dimensio social, num plano interpsiquico, tomando o sujeito em sua relagio com o outro, Isso porque 0 ser humano é um ser social, nascido em uma familia que é parte de uma familia extensa, a qual, por sua vez, esta inserida numa co- munidade compreendida no interior de uma sociedade e no mundo. Bi em cada um desses diferentes contextos que recai o foco da tera pia familiar sistémica. A familia nao é apenas um grupo de pes- soas que convivem. Cada uma delas tem uma série de regras, cédigos e simbolos que lhe sao préprios, Serd que vocé consegue identificar 42 algumas caracteristicas que sao peculiares & sua familia? Um determinado jeito de olhar que significa algo? Palavras que sio enten- didas 86 pelos seus membros? Uma comida especial que era a especialidade da sua bisavo, depois de sua avé, e se tornou a da sua mae? Trabalhar com familias em terapia fami- liar € muito diferente do que se faz no atendi- mento individual. O terapenta familiar preci- sa estar atento a todas as pessoas a0 mesmo tempo — umn casal apenas ou uma familia de trés, quatro ou sete pessoas, com adultos, adolescentes ¢ criangas de diferentes idades, todes reunidos numa mesma sala para serem atendidos, ouvidos e compreendidos. Diante disso, é necess4rio prestar atengio na linguagem verbal, falar de uma forma que seja acessfvel e compreensivel a todos os pre- sentes, sobretudo as ctiancas. Elas também devem ser ouvidas, pois nao estio ali como meros espectadores; além disso, muitas vezes sentem-se na berlinda, especialmente quando séo objeto das conversas dos adultos que fa- zem relatos negativos a respeito delas. A linguagem corporal também conta mui- to: quem comega a relatar, a quem se dirige a fala, quem olha para quem antes de falar, que lugares os membros da familia ocuparam ao se sentar na sala, quem parece distante, quem est mais envolvido. O terapeuta familiar pro- cura observar qual o “idioma” dessa familia: se existem cédigos que excluem os que nao entendem, se ha jargocs, se os seus membros aceitam a entrada ca participagao do terapeuta para, juntos, encontrar recursos e alternativas para as questdes que os preocupam. A terapia familiar também difere da de PSICOTERAPIAS | Terapie Familiar sistémica grupo. Se nesta as pessoas nao se conhecem, naquela se da o inverso, estao bastante fami- liarizadas umas com as outras; a familia tem uma longa histéria de convivéncia, e seus membros continuarao juntos por muito tem- po. No grupo terapéutico, é mais facil falar de certas coisas porque as pessoas sao estranhas, 20 contrario do que acontece na fam! Aliés, 0 terapeuta tem de ser cuidadoso porque, apesar de os membros familiares terem intimidade, no & tudo que pode ser totalmen- te verbalizado, nem de qualquer forma, Uma vez dito, nio hi como voltar atris, ¢ as pessoas da familia, diferentemente das do grupo de terapia, voltario para a mesma casa, dormirao na mesma cama ou quarto e seguirdo sua vida juntos uns com outros. Se no grupo terapéuti- co uma pessoa pode sair e nunca mais volrar, na familia isso nao ¢ possivel. Familias séo grupos de pessoas intimas, que compartilham histérias, crengas, mitos, defesas e pontos de vista. Seus membros nio se relacionam democraticamente, ndo séo to- dos iguais (por mais que algumas mies ado- rem dizer que sim...), h4 uma hierarquia (que é necessaria), diferentes geragoes se relacio- nando e influindo-se muruamente. A familia precisa ser compreendida como tal, e, assim sendo, o caminho é vé-la como um sistema. UM POUCO DE HISTORIA O movimento da terapia sistémica familiar surgiu nos Estados Unidos no pés-guerra, quando o pais vivia as consequéncias da Se- gunda Guerra Mundial, da Guerra da Coreia 43, PSICOTERAPIAS I Terapia Familiar sistémica eda bomba atémica. Nesse momento, houve, de modo geral, um aumento na coesdo ¢ no envolvimento familiar, a0 mesmo tempo que © governo ampliou as verbas para as pesqui- sas em satide mental, que vivia um periodo de questionamento sobre as teorias psicodi- nimicas, psicanaliticas e behavioristas, Isso porque os atendimentos nessas linhas nao se mostravam efetives, sobretudo, para ajudar as populacées menos favorecidas, bem como os pacientes esquizofrénicos e delinquentes. Gracas a verbas destinadas para pesquisa pelo governo americano, psiquiatras (muitos deles com formago psicanalitica) e pesqui- sadores comegaram a estudar 0 universo de pacientes esquizofrénicos, observando suas interagdes com as maes e, de modo geral, as relages do grupo familiar a0 qual eles per- tenciam. Uma das primeiras descobertas deles relacionava-se ao fato de que o que se pensava ser uma doenga de uma pessoa tinha, na verdade, um sentido na sua familia ou no seu grupo social. Em varias situagSes percebeu-se que, quando um esquizofrénico melhorava, outro membro familiar “adoecia’; ou entao, quando © paciente voltava para a familia, ele proprio piorava e era reinternado, Era como se os com- portamentos sintomdticos, em grande parte, mantivessem o equilibrio interno da familia e funcionassem como elementos homeostaticos, como vieram a ser chamados posteriormente. No inicio da década de 50, o psiquiatra americano Don Jackson (1920-1968) docu- mentou 0 efeito dramatico que a psicoterapia podia ter sobre a vida de outros membros da familia e a esse respeito escreveu o artigo Descobriu-se que as mesmas leis que regem os sistemas abertos, como os fisico-quimicos e os bioldgicos, podem ser aplicadas aos familiares “Suicide’, publicado na edigao 191 da revista Scientific American (1954). Jackson, entre ou- tros casos, relatou o de uma mulher com de- ptessdo cujo matido, a medida que ela melho- rava. com o tratamento, se queixava ao médico da piora dela. E assim foi progressivamente: conforme ela se recuperava, o marido se dese- quilibrava a olhos vistos, a ponto de perder o emprego ¢, por fim, suicidar-se, Jackson pre- sumiu que a estabilidade dele estava ligada a fragilidade da esposa. O terapeuta americano Augustus Y. Napier, no liveo The family crucible - The intense ex- perience of family therapy (1978), escrito em coautoria com Carl Whitaker (1912-1995) em 1978, relacaa histéria do infcio da terapia familiar, que teve lugar num grande hospital psiquidtrico, Um grupo de pesquisadores que acuavam com os internos da instituigao interessou-se em observar 0 comportamen- to dos esquizofiénicos. Nesse trabalho, os psiquiatras perceberam que, quando a mae de determinado paciente o visitava, ele apre- sentava grande perturbacio comportamental nos dias subsequentes. Diante disso, passaram a observar 0 que ocorria entre mie e filho quando se encon- travam. Para surpresa deles, viram que 0 pa- ciente, em vez de ficar desligado, preso ao seu mundo, como esperado, estava fortemente envolvido numa intrincada e perturbada for- ma de comunicagao com a mae. O padrao co- municacional assim descoberto foi mais tarde denominado duplo vinculo. Nesse tipo de interagio, a comunicagao ocorre em dois niveis, um verbal e um nao verbal, ¢ suas mensagens sao conflitantes. Por exemplo, no encontro com o filho a mae o cha- mava para vir abraca-la, mas, quando ele partia em ditecio dela, ela se afastava; nas vezes em que ele conseguia abragé-la, o corpo materno se enrijecia como se nao guisesse o abraco. Se © filho fizesse qualquer comentdrio sobre sua percepcaio de sentir-se rejeitado, iniciava-se uma longa discussao desqualificadora de seus sentimentos € petcepsées, colocando-o numa posigio de ser mal-agradecido ou agressivo, 0 que o levava a sentir-se culpado, Ou seja, quer ele respondesse de um modo ou de outro 4 agdo da mie, ele estaria errado, A partir de entao e durante algum tem- po, as maes passaram a set responsabilizadas pela doenga dos filhos, mas depois os pesqui- sadores clinicos lembraram que esses pacien- tes tinham um pai e também poderia haver algo na relacao entre eles. Descobriram entio que nas familias de pacientes esquizofrénicos 0s pais se mostravam distantes e separados dos filhos, o que permitia um envolvimento excessive da mae com a crianga. PSICOTERAPIAS | Terapla Familiar sist@mice Dando prosseguimento as suas observa- gGes, os pesquisadores notaram que entre o casal existiam dificuldades conjugais de longa data e os episddios psicéticos dos filhos-esta- vam relacionados aos ciclos de conflitos. pa- rentais. Os pais iniciavam uma batalha entre eles, e, conforme esta ia se intensificando, o filho comegava a apresentar sintomas psicé- ticos. Os pais, entao, deixavam os desenten- dimentos de lado para cuidar do enfermo, o que parecia manter a homeostase, ou seja, a estabilidade familiar, por um periodo. Outra importante descoberta desses tra- balhos foi que a melhora substancial do pa- ciente, com a remissao de seus sintomas sem. alteragses significativas nos padroes da fa- milia, era acompanhada do adoecimento de outro membro familiar. Os pesquisadores passaram, entio, aver a familia de outros an- gulos e a incorporar todos os membros nas entreyistas com o paciente. sourse a pensar a familia de forma diferente: como um grupo de individuos dotado de pa- drdes de organizagio e funcionamento, estru- tura, regras e objetivos proprios. ] SISTEMA FAMILIAR A familia foi vista de forma mais global, € © respaldo teérico para essas ideias foi en- contrado nos trabalhos do criador da teoria _geral dos sistemas, Bertalanffy. Isso quando se entendeu que as mesmas leis que regem os sistemas abertos, como os fisico-quimicos e os biolégicos estudados por ele, podiam ser 45 PSICOTERAPIAS | Terapia familiar sistémica aplicadas aos familiares. Bertalanffy abordou 08 grupos sociais como organismos, sistemas abertos em interacio com o ambiente. Diferentemente dos fechados (nao vivos), © sistema vivo mantém-se em troca continua de substancias com seu meio. Por exemplo, a0 respirar, inspiramgs oxigénio e expiramos did- xido de carbono.(Um sistema vivo faz mudan- gas no préprio comportamento baseado nas informagées que recebe do seu meio ambiente. Esse mecanismo, chamado feedback, permite que o sistema mude sua arividade, estrutura e diresao, para poder atingir seus objetivos. Jé os nao vivos, como as mAquinas, embora também funcionem por meio de feedbacks, s6 podem fazé-lo quando dirigidos por seres humanos, (Gim sistema, portante, um camplexo elementos em interacio, formado por subsis- temas separados por fronteiras. Dessa forma, a familia é definida como um sistema, na me- dida em que funciona como tal, sendo og sub- sistemas os individuos que estao em interatao] (por exemplo, o subsistema parental; formado pelos pais, eo fraterno, pelos irmaos); nele, as particularidades dos individuos nao explicam © comportimento de todos. Assim, a andlise de uma familia néo é de modo algum a soma das andlises de seus membros. As caracteristicas gerais dos sistemas abertos podem ser encontradas também no familiar, Sao elas: lobalidade: Os sistemas comportam-se como um todo coeso. Assim, se uma das pat- tes se modificar, as demais mudam igualmen- te,)Por exemplo, caso a mae comece a estudar ou 0 pai perca o emprego, todos os membros da familia serio afetados pela situacio e, ~ 46 Na concepco sistémica, a familia é definida muito mais pelos padrdes das suas relacgdes que pelas caracteristicas dos individuos diante disso, precisam promover mudangas p P para se adaptar. Nao somatividade: Um sistema nio pode ser considerado a soma de suas partes. Trans- formando-se a relagao entre elas, muda-se todo o funcionamento, Ou seja, sé podemos com- preender as pessoas levando em conta os con- textos interacionais nos quais elas.funcionam, [Homeastase: Ti 0 processo de autorregulacio que mantém a estabilidade do sistema e preser- va seu funcionamento diante das mudangas] Por exemplo, se uma crianga tem crise de asma toda sexta-feira, esse sintoma pode estar asso- ciado ao fato de que, nos finais de semana, os pais (que vivem uma relagao conflituosa) teriam mais tempo juntos ¢, consequentemente, briga- riam. Com a irrupcio da crise de asma, 0 casal conjugal (quer dizer, nos seus papéis de maridoe mulher) evita discutir, enquanto 0 casal parental (que exerce os papéis de pais da crianga) se une para atender o filho com problema, Morfogénese: Trata-se de uma caracte- ristica dos sistemas abertos que absorvem inputs do meio e mudam sua organiza¢io; au- totransformam-se. Portanto, esse conceito se opée a homeostaseJA familia rem um grande potencial de mudanca, seja em sua estrutura, seja em sua funcionalidade, podendo adquirir uma configuracio nova e qualitativamente di- ferente da anterior. Circulavidade: A interagio entre os ele- mentos do sistema ¢ circulag(A influencia B, que é influenciado por A e por C, que, por sua vez, 0 6 por A, e assim sucessivamente), endo linear (A causa B, sem que B tenha nenhuma agao sobre A). (Retroalimentagéo on feedback: E uma caracteristica do sistema que assegura 0 seu fancionamento circular. Os mecanismos de feedback garantem a citculagao da informagio entre os componentes do sistema. Ha dois ti- pos dele: — Feedback negativo, que reduz as pertur- bagées, permitindo ao organismo diminuir 0 desvio e voltar ao estada de equilibrio. Ou seja, mantém a homeostase. — Feedback positivo, que amplia os desvios, favorecendo 0 desenvolvimento, a aprendiza- gem ea evolucdo do sistema. Ou seja, promo- ve a morfogénes. (Equifinatidade: Nos sistemas abertos, di- ferentes condicdes iniciais geram 0 mesmo resultado, € diversos resultados podem ser obtidos pela mesma ‘causa” ou evento} No enfoque sistémico, a familia é compre- PSICOTERAPIAS | Terapia Familiar sist8mi endida como um sistema aberto, em que cada individuo contribui de forma interdependen- te para a configuracao dela, assim como molda a constru¢io de seus membros como pessoas tinicas, O sistema familiar esté em constante troca também com o seu meio: influencia-o € é por ele influenciado. ‘A homeostase familiar, obtida por inter- médio das regras familiares, governa as rela- ges. Dessa forma, o membro da familia que tem um problema e é trazido a terapia em busca de ajuda é visto como o paciente iden- tificado (PI) daquele grupo familiar: assume © papel de vitima, sacrifica-se em prol de um bem maior; estabelece 0 equilibrio familiar, desse modo liberando os demais de suas difi- culdades, Em contraste com ele, gracas 4 sua “debilidade’, os outros aparecem como fortes, sos.c altruistas. oi inte disso, o terapeuta familiar procura atender toda a familia, e nao 6 aqnele clien- te “doente’, por entender que cada pessoa do grupo familiar afeta e é afetada pelo outro, bem como est envolvida no problema, sendo parte dele e também da solugio. Nessa con- cep¢ao, a familia é definida muito mais pelos -padraes das suas relacoes que pelas caracte- itisticas das individuos que a compacmn] DOIS MOMENTOS DA CIBERNETICA Paralelamente ao trabalho de Bertalanffy, 0 matemdtico americano ert Wiener (1894-1964), do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglés), langou o livro Cihernética (1948). Além dos a7 PSICOTERAPIAS | Terapia Familiar sistBmica temas de sua drea, o cientista tinha grande in- teresse nos referentes a filosofia e neurologia, entre outras disciplinas. fProduto da interdisciplinaridade entre matematica, antropologia, psicologia, neuro- logia, fisica, biologia etc., a cibernética é uma ciéncia que trata dos processos de comunica- go e controle dos sistemas vivos e ndo vivos (mAquinas), a partir dos quais se elaboram os prine{pios da informética e da inteligéncia artificial. Ela estuda o modo como a informa- slo-circulace:se organiza, bem cima a fotna para controlar esses processos ¢ governa-los. O conceito de retroalimentagéo € fundamen- tal nessa teoria; ele se refere 4 maneira como um sistema consegue a informagio necesséria pata efetuar suas agde Vejamos um exemplo de maquina ciber- nética, tomando como base 0 computador ¢ a impressora. Quando eu quero imprimir algo, insiro as informagées no computador, que vai encaminhé-las 4 impressora para que execute o trabalho, Esta, por sua vez, passa- r4.ao computador outra informacio, do tipo: “acabou ou atolou o papel’, “terminou a tinta’, “a impressdo chegou ao fim’, Bm decorréncia dessas. notificagoes, sou levada a uma agao: colocar o papel e teiniciar a maquina, encer- rar a impressdo etc. ‘Nos seus primérdios, a cibernética era uma disciplina que estudava a comunicagao em sis- temas biolégicos, sociais e artificiais. Como tal, ocupava-se da informagao, e nao da ma- téria e energia, podendo operar em sistemas com caracteristicas fisicas muito diversas. Essa concep¢ao trouxe entendimento sobre a conti- nuidade entre os sistemas biolégicos e sociais, naturais e artificiais, nos quais ocorriam os processos de comunicagio, Essa énfase na con- tinuidade dos sistemas entre homem e natu- reza estd na base de uma concepgio ecolégica dos processos de comunicagao. jutro conceito fundamental dessa teoria é0 de circularidade ou recursividade. No siste- ma familiar, isso quer dizer que cada membro influencia os outros e ao mesmo tempo é in- fluenciado por eles. Essas influgncjas micuas constituem o dia a dia da familj Dois grandes momentos podem ser dis- tinguidos no campo da cibernética. O de pri- meira ordem, que ocorreu bem no comego, na fase mais ligada 4 engenharia da comunicagio eas ciéncias da automagio e da computasao. E 0 de segunda ordem, que surgiu quando a cibernética passou a tomar a si mesma como objeto de estudo. A cibernética de primeira ordem, por sua vez, também se dividiu em dois momentos: primeira e segunda cibernética. A nogao prin- cipal era que se podia aprender objetivamen- te uma verdade sobre os outros ¢ o mundo. Em termos de psicoterapia, isso se refletiu na postura dos terapeutas do periodo, que assu- miam uma posigao de experts do que deve- tia ser mudado na familia. Havia como que a ideia de um modelo de como as familias “fun- cionais” deveriam ser, sendo 0 terapeuta seu condutor. As escolas terapéuticas dessa época tinham seu foco nos processos de comunica- 40 e interacdo entre os membros da familia, trabalhavam com regras ¢ mitos familiares, bem como com padrées interacionais. A primeira cibernética, iniciada com a co- municagio nos sistemas e voltada para a ma- 48. nutengio da estabilidade, focava sua atengio na homeostase. Outros conceitos dessa época inclufam a circularidade, a continnidade, o propésito cosistema observado”.O terapeuta planejava toda a sessao, buscava téenicas que burlassem sintoma, cuja fungio — assim se entendia — seria fazer com que o sistema no mudasse. O terapeuta ento provocava uma crise para que a familia se reorganizasse mais fancionalmente sem precisar do sintoma, Jana segunda cibernética o foco da terapia passoua ser as relagdes, endo mais o sintoma, dado que ele setia tio somente um sinaliza- O conceito cibernético de circularidade, quando aplicado a familia, refere-se as influéncias mutuas que ocorrem entre seus membros dor de que algo na familia nao ia bem. A crise surgida dele foi sendo vista entéo como par- te do processo de imudanga, que deveria ser mais ampla e profunda. Na evolugao da primeira para a segunda ordem, 0 conceito de circularidade foi am- pliado, ¢ 0 observador passou a ser incluido no fendmeno, ja que ele é parte daquilo que observa, do "sistema observante’. E sé pode- familiar sistémica mos conhecer nossas préprias construgées sobre os outros eo mundo. Foram os trabalhos realizados na fisica quintica que possibilitaram a compreen- sao da subjetividade da realidade. O fisico. austrfaco Eritjof Capra, no livre Q panto de mautacdo, explica que, quando procuravam ob- servar elementos atémicos, luz e outras for- mas eletromagnéticas, os fisicos notaram que estes tinham um comportamento dual: ora como patticulas, ora como ondas. Como era possivel que 2 mesma coisa pudesse ser uma particula ¢ uma onda? A resposta a essa intrigante pergunta veio com a percepgio de que 0 comportamen- to desses elementos variava (entre particula e onda) de acorde com 0 que o observador esperava encontrar, a depender “do aparelho com que o elemento era forcado a interagir”. Se o observador usava um instrumento que media ondas, o elemento era percebido como tal, € 0 mesmo se aplicava a0 caso das par- ticulas. Descobriu-se, assim a natureza dual da matéria e, o mais importante, a diferenca que 0 observador faz no sistema que obser- va, uma vez que os resultados que ele obtém dependem muito do que se propée procurar. A partir desse momento, j4 nao se trata de “um sistema observado’, mas de “um sistema observante’”, do qual ele faz parte, Com base nessas descobertas, houve uma mudanga epistemoldgica nas ciéncias como. um todo, o que também se refleti: na forma de atendimento terapéutico. Isso porque se entendeu que, assim como 0 pesquisador or- ganiza uma série de instruments com 0 ob- jetivo de encontrar respostas para a pergunta 49 PSICOTERAPIAS | Terapia familar sistémica A introducao das ideias da cibernética na terapia familiar foi feita por Bateson, que pesquisava a comunicacao com esquizofrénicos que formula, estando desatento para perceber © que ndo procura, o terapeuta também obte- ra respostas conforme a postura que assumir a direcao que imprimir ao atendimento. Desse modo, a compreensao dos processos que ocorrem na terapia subjetiva sera sempre dependente dos valores, das experiéncias de vida e das crengas do terapeuta; assim como das hipéteses que formula para cada caso. Sendo toda realidade subjetiva, cada pessoa tem a propria verso das vivencias, e, no caso da familia, as de todos os membros sao igual- mente validas. Desse ponto de vista, 0 terapeuta deixa a posisio de expert ¢ assume a postura de faci- licador, cujo conhecimento € como qualquer outro, estando ele livre do status privilegiado. e terapeuta é visto entio como mais um no sistema, No lugar de intervir, coparticipa dele, atuando para uma transformacdo construida em conjunto, que conta com o inesperado ¢ 0 imprevisivel, 4 medida que os sistemas pro- duzem a prépria mudan © desenvolvimento das ideias sistémico- cibernéticas, que se estendeu para outras areas do saber cientifico, fez parte de uma mudanga paradigmatica que enfatizava o papel do con- texto para a compreensio das quest6es huma- nas, considerando que o individuo est4 sem- pre se relacionando. Assim, os sintomas de cada pessoa deixaram de ser entendidos como apenas dela, e passaram a ser vistos como par- te e produto das inter-telagdes no interior do contexto em que est inserida. FUNCIONAMENTO DA MENTE A introdugao das ideias da cibernética na terapia familiar foi feita pelo antropdlogo in- glés Gregory Bateson (1904-1980), que tra- balhava com um grupo multidisciplinar em pesquisas sobre comunicagao com pacientes esquizofrénicos. Ele havia entrado em con- tato com Wiener e sua ciéncia em uma série de conferéncias multidisciplinares, as Macy Conferences, ocorridas entre 1946 e 1953, em Nova York. Por meio delas, cientistas de diversas dreas do conhecimento buscavam definir as bases para uma ciéncia geral do funcionamento da mente humana. E uma das propostas centrais da mudanga conceitual de Bateson para pen- sar sistemas familiares foi a definigao de circu- laridede, pela qual a mudansa em uma pessoa sempre modifica o sistema. Vale lembrar que na época havia um cres- cente desencanto com o pensamento linear de causa e efeito usado para explicar as doengas mentais; tomando como base modelos médi- 50 cos ou psicodinamicos, eles nao levavam em conta o contexto ou as telacdes. Diante disso, essas ideias sistémico-cibernéticas aplicadas a terapia causaram uma revolugao na area da saude mental. Bateson foi um grande aglutinador de pessoas inteligentes, carisméticas e criativas, provenientes de diversas dreas de conheci- mento, que se propuseram a estudar juntas e pesquisar diferentes temas relacionados 4 comunicagio. ‘Tal intento culminou na ideia de que os sintomas esquizofrénicos seriam express6es de angiistia relacionada ao duplo vinculo estabelecido nas relagées familiares e deveriam ser validados como uma experiéncia catartica e transformativa. Lembrando, o du- plo vinculo se refere a comunicagio paradoxal da familia com o membro esquizofrénico. Para que essa comunic¢io ocorra algumas condigées precisam estar presentes no modo como as pessoas (duas ou mais) se vinculam: (a) uma relagio de longo tempo; (b) um vinculo estabelecido de tal modo que a pessoa nao pode escapar dele; (c) a comunicagao nao pode ser comen- tada pela pessoa, em fun¢do do parado- xo que cria, Por exemplo, em fungao das seguintes ordens: “quero que me domine’, “tem que me amar”; “tem total liberdade para ir, nao se preocupe se comeco a cho- rar’, obedecé-las ou nao? O sujeito fica num beco sem saida, pois nao pode ques- tiond-las com medo do abandono ou do desprezo alheio. Bateson no era terapeuta, apesar de todo o seu interesse nas familias; mais que o trata- mento, era a teoria que o encantava. Assim, PSICOTERAPIAS | Terapia Familiar sistémica seus maiores esforgos estavam voltados para estudar a importancia da comunicagao na organizagio familiar. Como todo grupo com muitas pessoas brilhantes juntas, as ideias € desejos dos membros comecaram a entrar em desacordo até que, em 1962, ele se dissolveu. Aqueles mais interessados na pritica clinica se mantiveram juntos no Instituto de Pesqui- sa Mental (MRL, na sigla em inglés), dirigido por Jackson. Bateson e outros partiram para outras pesquisas. DO LINEAR AO SISTEMICO [A passagem da ciéncia tradicional, que busca obter um conhecimento objetivo da tealidade, a ciéncia pés-moderna, que incluiu a subjetividade na observagio dos fendme- nos, deu-se em decorréncia de uma mudanca de paradigma: de um modo linear de ver os fenédmenos, como estando numa relacéo de causa ¢ efeito, a um modo circular de pensd- los como interdependentes um do cid] Segundo a psicéloga Maria José Esteves, de Vasconcellos, no livro Pensamento sistémi- £020 nova paradigma da ciéncia (2002), sao trés as principais pressupostos_epistemolé- gicos do pensamento sistémico{"A crenga na complexidade, em todos os niveis da nature- za; a crenga na instabilidade do mundo, em processo de tornar-se; a crenga na intersub- jetividade como condigio de construgio do conhecimento do mundo’ As diferencas na forma de pensar ¢ agic na dinica, que passam pela modificagio do pensamento linear ao circular, podem ser re- 51 PSICOTERAPIAS I Terapia Familiar sistémica 2) 0 foco esté no por | a) Ofoco é no que acon- que aconteceu. teceu e como aconteceu. b) Parte da rela¢ao de | b) Trabalha com o tipo causa e efeito: de relacao e a rede de Estimulo -> Resposta. | acontecimentos. c) Ocupa-se do contetido || c) Volta-se a forma de da historia. relacdo e a rede de acon- tecimentos. d) Dé importancia & 4d) Ressalta 0 contexto psicopatologia; cren referencial; as crises em condutas normaise || evolutivas do desenvolvi- anormais.. ‘mento humano sao vistas como naturais. e) Atua com as nocées €) Trabalha com os ' de normaiidade x doen- | conceitos de sais Gaede cura. funcionalidade e disfun- cionalidade. f} Busca explicagdese | #) Procura novas atterna- foca acompreensao. || twas de funcionamento e a mudanga. )Prioriza a comunica- | g)Usaa ican a0 logico-verbal (ideias faradoxal, racial, @ pensamentos logicos n&o verbal © paraverbal; formals). inclul o corpo com suas linguagens. h) Tem como foco as h) Foca as dificuldades ‘queixas, 0s problemas e | (que, se mal administra- sintomas. das, podem se transfor- mar em problemas). i) Visa a manuteneao do | |) Visa 0 desenvolvimento Padrao infantil (depen- || do padrao adulto (au- fancia-independancia) | tonomia) nas relaco Nas relagdes afetivas ¢ afetivas e de poder de poder (inclusive na (inclusive na rela¢ao relagao terapéutica), terapéutica). j) Trabalha com interpre- || |) Faz uso de intervencées tagao da resisténcia. sistémicas: diretas, meta- foricas e paradoxais. sumidas conforme 0 quadro a seguir: ‘Ao longo do tempo, a palavra sistema” aca- bou se tornando senso comum na terapia fami- liar, perdendo até muito do seu significado pelo seu uso excessivo, pela generaliza¢ao e elabora- 40 académica. Embora a teoria dos sistemas seja a pedra fundamental na qual se baseia a te- rapia familiar, a diversidade de abordagens cl{- nicas que se desenvolveram a partir dela indica as diferentes maneiras pelas quais um sistema familiar pode ser definido e manejado. Quando se trabalha clinicamente, a defini- s40 de um sistema pelos terapeutas depende do foco de atengéo dado por ele ao atendi- mento, bem como do que acredita ser a causa do problema ¢ do modo como ele ¢ a familia pretendem agit. Por exemplo, como veremos mais detalhadamente adiante, de acordo com o terapeuta argentino Salvador Minuchin, um sistema é definido de acordo com as fronteiras, a organizaco hierdrquica. Para o americano Murray Bowen (1913-1990), tanto a defini- 40 do termo como a intervengao clinica ba- seiam-se nos conceitos de triangulasao ¢ grau de diferenciagao. Jay Halcy (1923-2007), Cloé Madanes e os representantes da terapia estra- tégica, por sua vez, vem o sistema em termos de escrutura de poder. Ja o psiquiatra de ori- gem hiingara Ivan Boszormenyi-Nagy (1920- 2007) aborda as lealdades em trés geracées, € a italiana Mara Selvini Palazzoli (1916-1999), na primeira fase de seu trabalho sistémico, bus- cava os paradoxos sistémicos. E assim também o fizeram outros expoentes da terapia familiar como James Framo (1922-2001), Whitaker, Manrizio Andolfi, Gianfranco Cecchin (1932- 2004), Peggy Papp, entre outros. Pensar sistemicamente é ver uma situagao sob diferentes aspectos, buscando entender como o todo eas partes interagem ese mantém O importante ¢ saber que todas as escolas de terapia sistémica, independentemente de seu foco principal e de suas definigées clini- cas, tém em comum a compreensio ea leitura sistémica, de acordo com os preceitos basicos da teoria geral de sistemas. [Pensar sistemicamente nao é pensar s6 em termos de psicoterapia, mas é uma forma de © terapeuta compreender o mundo e a vidal E sair do terreno das verdades estabelecidas, dos dogmas, para poder levantar diferentes hi- péteses, encontrar novas alternativas e trazer 2 tona os pecursos dos sujeitos envolvidos no problema.|E poder ver uma mesma situagao sob diferentes aspectos, buscando entender como 0 todo ¢ as partes se relacionam, inte- rigor‘ xe mnaneen fs buscar as scnlhanran as diferengas, e nao 0 certo ¢ a errado. Ei ver arealidade de uma forma holistica, ecoldgica e circular, Essa visdo propicia formas diferentes de compreender a realidade na psicoterapia e trabalhar com ela, Nao a toa, os terapeutas de destaque na PSICOTERAPIAS I Terapia Familiar sist@mica histdria da terapia familiar tém origens bem diferentes: psiquiatria hospitalar e interpesso- al, movimento da assisténcia social, psicologia de grupos, pesquisas sobre esquizofrenia e aconselhamento conjugal. A fim de ter uma visao getal dessa linha terapéutica, € tomar contato com as técnicas mais amplamente utilizadas, destacamos os perfis dos principais terapeutas ¢ apresen- tamos as respectivas abordagens, usadas até hoje na clinica com algumas evolugses. Vale lembrar que a terapia familiar é um campo em constante desenvolvimento, e suas teorias ¢ compteensoes continuam em franca evolucdo, Hoje, jé temos as terapias familiares ditas pés- modernas: construtivistas, narrativas e colabo- rativas que surgiram como desdobramentos dos trabalhos de terapia familiar sistémica. No entanto, ndo sero abordadas neste texto, cen- trado nos autores mais sistémicos. DIAGNOSTICO FAMILIAR Devido a sua obra ¢ as suas caracteristicas pessoais, Nathan W. Ackermap (1908-1971) é tido como o mais notavel expoente da te- tapia familiar. Psiquiatra com formacio em psicandlise, seu modo de, pensar as familias refleriu essa sua base, estando ele interessado tanto no que se passava no mundo interior das pessoas como entre glas. Inovou o psica- diagnéstico infantil ao introduzir a ideia do diagnéstico familiar para melhor compreen- der a problematica da crianga. Dai nasceu seu interesse nas familias, Sua obra é vasta e importante, tendo ele produzido muitos tex- 53, PSICOTERAPIAS I Terapia familiar sistémica ————— tos (dos 25 anos até sua morte) sobre teoria técnica de terapia familiar. Para ele, as familias demonstram uma aparéncia de unidade, mas por tras disso sio divididas emocionalmente em grupos tivais. Assim, existem coalizées dinamicas, que po- dem ser entre mae e filha contra pai e filho, as vezes de uma geracao contra outra. Nas sessdes familiares, Ackerman fazia questao de que todos os que vivessem sob 0 mesmo teto estivessem presentes a fim de que o contato emocional significativo pudesse ser es- tabelecido. Como terapeuta era muito provoca- dor, incitava revelagdes e confrontagdes entre os membros da familia; por vezes podia se mostrar agressivo, onipotente ¢ exibicionista, mas gua coragem e criarividade para ousar, mobilizar ajudar realmente surtin efeito nas familias com as quais trabalhava. Juntamente com Jackson criou, em 1960, a revista especializada Family Process, que € a mais difundida na drea. Além disso, fundou a primeira Clinica de Terapia de Familia, em Nova York, que, depois de sua morte, passou a se chamar Instituto Nathan Ackerman. COMUNICAGAO HUMANA ‘Outro nome de destaque na drea é o psicd- logo ¢ fildsofo austriaco radicado nos Estados Unidos Paul Watzlawick (1921-2007).Um dos mais influentes terapeutas do MRI, ele pattici- pou, com Bateson, dos projetos de pesquisa so- bre comunicasio, cujas ideias serviram de base para seu livro Pragmdtica da comunicagao hu- mana. Nele, Watzlawick define cinco axiomas Para Don Jackson, um dos pioneiros da area, as familias sao unidades homeostaticas que tém certa constancia no funcionamento interno necessdrios para o estabelecimento de uma boa comunicagao entre duas pessoas. Se um deles, de alguma forma, estiver compromerido, havers risco de falha na compreensio da informagao. Sio eles: SDNio se pode nip comunicar, Todo com- portamento é um tipo de comunicagao; dada a inexisténcia de anticomportamen- tos, ndo é possivel ndo comunicar, (2) Toda comunicasao tem um contetdo ¢ wn aspecto relacional tal que o tiltimo classifica 0 primeiro, chegando-se assim a uma metacomu- nicagdo. Isso significa que toda comunicagao inclui, além do significado das palavras, mais informagées sobre a forma como o emissor quet set compreendido e como ele mesmo vé sua relagao com o receptor da informagao. GJA natureza da relagao depende da pon- tuagao dos parceiros nos processos de comu- nicagdo, Emissor e receptor estruturam 0 fluxo de comunicagao de maneiras diferen- tes ¢ assim interpretam os préprios com- portamentos durante a conversaga4o como mera teagéo ao comportamento alheio. A comunica¢io humana nio é linear (causa e efeito), mas circular. (4A comunicagio humana envolve ambas ‘as modalidades: digital e analégica. Nao abrange apenas palavras (comunicasio di- gital), mas também tudo que é nao verbal (analégica), na forma de postura, gestos, expressio facial, inflexdo de voz, sequén- cia, ritmo ¢ cadéncia das proprias palavras, bem como qualquer outra manifestagio nao verbal de que 0 organismo seja capaz. (S).A comunicagao pode ser simétrica ou complementar. A depender da relacgao dos parceiros (emissor ¢ receptor), baseia-se em diferencas ou semelhancas. HOMEOSTASE FAMILIAR Outro dos grandes pioneiros da verapia fa- miliar€ 0 jf mencionado Jackson. Q psiquiasa : voltou sua aten¢io a0 tratamento, enfatizando o efeito da terapia sobre a familia. No lugar de separar o doente dela, hos- pitalizando-o, buscou traté-lo em conjunto com seus membros. Como Bateson, com quem traba- lhou no grupo de pesquisa, acreditava que com- portamento e comunicacio eram sinénimos. Descreveu as familias como unidades ho- meostaticas que mantinham certa constincia no seu funcionamento interno. Entre seus prin- cipais conceitos esta o de homeostase familiar (as familias, como unidades, seriam resistentes 4 mudanga). Porém, essa nogio, que esteve muito ptesente nos primeiros anos da terapia fami- liar, nao levava em conta as transformagées que PSICOTERAPIAS I Terapia Familiar sistémice ocorriam com as familias, no caso, as mudancas relativas ao ciclo vital, que sao necessérias para seu desenvolvimento saudavel, ou os eventos inesperados e imprevisiveis, como morte, perda de emprego, divércio. Em sua visio, as questées familiares estariam mais relacionadas ds do ca- sal, sendo os problemas que surgiam com as criangas apenas sintomas da relacio marital. E dele também 0 conceito de-quid pro quo ~ barganhas relacionais sobre os papéis a serem desempenhados pelo marido e pela mulher, que nio sio explicitos ou conscientes. Hi na tro- ca mittua que os direitos ¢ deveres de cada um serao estabelecidos. Um exemplo é a ideia pre- concebida de que o marido é a pessoa racional, légica e realista no casal, que cuida da manuten- 40 de tudo na casa, e a mulher, a pessoa mais sensivel, sonhadora, que cuida das emogées entende melhor de pessoas do que de coisas. O que acontece se um no corresponde & imagem. esperada do outro? Outro pensamento importante desenvol- vido por Jackson refere-se 3 dicotomia entre -métricos. Os primeiros s4o aqueles em que as pessoas diferem na maneira em que se ajustam (um submisso, outro dominador; um légico, outro emotivo). Os segundos baseiam-se na igualdade ¢ similaridade (ambos tém catreira e dividem as tarefas domésticas). TERAPIA ESTRATEGICA Haley, que também trabalhou com Bate- ‘son, que conheceu depois de graduar-se em comunica¢ao, orientou sua terapia para reso- 55 PSICOTERAPIAS I Terapia familiar sistémica lugio de problemas. Este 0 convidou a parti- cipar do que ficou conhecido posteriormente como Projeto Bateson — tido como um dos marcos da criagio da terapia familiar. Com Weakland, Jackson e William Fry, que tam- bém participavam desse projeto de pesquisa em comunicagao, publicaram um dos artigos mais importantes da 4rea, intitulado “Em di- 7 : izafenia” Foi em 1962, enquante estava no MRI, em Palo Alto, Califérnia, que Haley tornou- se editor fundador da revista Family Process. Nessa época, estabeleceu forte relacionamen- to profissional com o psiquiatra americano Milton Erickson (1901-1980), especialista em hipnose, cuja interessante abordagem da mente inconsciente como criativa e criadora de solug6es influenciou fortemente o traba- lho clinico ¢ as propostas teéricas de Haley paraa terapia familiar estratégica. Em sua terapia estratégica, Haley com- binava a compreensao sistémica dos proble- mas ¢ forcas humanas com uma.abordagem pragmatica de intervengac. Em sua técnica tetapéutica)- sobre a qual ele dizia nao.ter uma teoria — nfatizava estratégias criativas provocativas, com tarefas para os clientes rea- lizarem fora da sessio Sua énfase era no “aqui © agora’, e os sintoriias eram compreendidos como resultado das tentativas da familia de corrigir 0 que consideravam como comporta- mentos problematicos. ua terapia estratégica é, portanto, focada na solugdo de problemas especificos, Entre seus principios basicos temosy (1) 0 terapeuta tem 0 compromisso de ali- iar as queixas apresentadas; Para Bowen, outros dos grandes nomes da area, a satide de cada membro da familia é uma funcao do seu rau de diferenciacdo lentro dela (2) os problemas sio vistos como dificul- dades de inveragadfseu enfoque maior era nos distuirbios do“casal que geravam sin- tomas nos filhos), bem como dificuldades cotidianas ndo resolvidas, resulrantes de um problema estrutural do sistema; (3) as transigées de vida e 0 ciclo de vida Familiar requerem grandes mudangas nos telacionamentos; (4) os problemas de longa duragio nem ‘Sempre so indicadores de cronicidade, mas de persisténcia de uma dificuldade mal enfrentada; (9). resolugio de problema requer pri- meiramente a substituicao de padrées de comportamento; (Ga promogio de mudangas através de meios que funcionem mesmo que pare- sam ilégicos, Nessa linha terapéutica, as tarefas sio da- das com 0 objetivo de mudar o padrao com- portamental ¢ tém valor mesmo que nao se- jam realizadas, 56: Por exemplo, pensemos em um casal que chega ao consultdrio com a queixa de que nio tem relages sexuais ha oito anos. O terapeu- ta pode qualifica-los como“destreinados’ para relacionatem-se sexualmente c depois ques- tiond-los sobre o que ja fizeram para tentar resolver essa situacao. Pode apontar também que precisam estabelecer mais intimidade e propor coisas nesse sentido: que o marido convide a esposa pata jantar e ir ao cinema. E entdo perguntar ao marido se ele se lembra de quando tinha 19 anos ¢ foi com a namorada pela primeira vez ver um filme. “Vocé a agar- rou logo na primeira vez? Tente algo como foi no inicio” Nessas colocagées h4, sem diivida, um toque de provocacio e desafio. PRESENCA HUMANIZADORA Numa época em que as atencées eram, muito mais voltadas para o pragmatisma.das solugdes dos problemas familiares que para as pessoas da familia, a presenga de Virginia Satir (1916-1988) foi humanizadora. A as- sistente social ¢ cofundadora do MRI, com Jackson, foi uma das primeiras terapeutas a ver a familia toda nas sessdes. Ela costumava recomendar que os pais fossem mais afetivos e carinhosos um com outro e com seus filhos, mas sem deixar de ser firmes com eles. Seu grande interesse erafpromover a autoestima de cada membro da familia, encorajando-os a deixar de lado suas mdscaras e a expressar seus verdadeiros sentimento: Numa profissio predominantemente mas- PSICOTERAPIAS | Terapia familiar sistémica culina, Satir foi a primeira e, por um longo tempo, a tinica mulher a ter proeminéncia na terapia familiar, o que lhe trouxe problemas com os colegas, que culminaram em sua safda do grupo de Palo Alto. A partir de entio, de 1964 a 1969, foi diretora do Instituto Esalen, em Big Sur, California, Seus livros, de uma clareza e simplicidade invejéveis, sio usados por todos os terapeutas de familia, ABORDAGEM INTERGERACIONAL Jé Bowen, outro dos pioneiros na drea, desenvolven seu trabalho sempre buscando fazer caminhar pari passu teoria e pratica te- rapéutica; até hoje, afféoria desenvolvida por ele & a mais sa e completa no campo da terapia a exemplo de sua elabora- da visio sobre a diferencia¢ao do“eu” na fami- lia. Como muito dos“fundadores” da rea, era psiquiatra especializado em esquizofrenia. Para ele, & satide de cada membro da fami- lia € uma fungao do seu grau de diferenciagdo dentro dela Esse conceito, pedra fundamen- tal da sua teoria,/define as pessoas de acordo com o grau de fusio ou diferenciagao entre 0 funcionamento emocional ¢ intel 'Des- sa forma, pode-se pensar os individuos em um continuum: num extremo estariam aqueles cujas emogoes e intelecto se encontrariam tao fasionados que suas vidas seriam dominadas pelas primeiras; no outro, os mais diferencia- dos (mais flexiveis, adaptaveis e independentes emocionalmente que os seus préximos). Nes- se caso, as pessoas no sé teriam a razio, mas conseguiriam equilibrar pensamento e senti- PSICOTERAPIAS I Terapia familar slstOmica mento; assim, em situagées de estresse teriam relativa autonomia para enfrentar a crise. Outro conceito fundamental da teoria de Bowen, anteriormente mencionado, é a triangulagao/O triingulo é uma configuraio emocional de trés pessoas, 0 bloco basico de qualquer sistema emocional, seja a famflia ou outro grupo{Trata-se, portanto, da estrutu- ra relacional que resulta da reagio emocional humana em combinagio com a tendéncia de evitar conflitos, mesmo que ao custo de falhas na resolugio de problemas. Por exemplo, quando, num casal, os par- ceitos vivem um momento de tensdo, ha uma cendéncia a buscar uma terceira pessoa para diminuir a ansiedade, evitando assim uma briga maior ¢ estabilizando a relagao. No en- tanto, isso nao ocorre nas situagées em que os parceiros sio diferenciados, nao tem medo do conffito ¢ conseguem resolver a situacao dire- tamente sem a necessidade de intermediatios on neutralizadores para equilibri-la. Nesses casos, é mais facil enxergar seus varios lados, procurando entender a posicéo de cada um, mas mantendo o foco na resolugao da questao, € nio no julgamento. Isso também permite que as pessoas se conscientizem das préprias emogses ¢ controlem suas respostas. Sem sombra de diivida, uma das principais contribuigées de Bowen foi na érea de formacio dos terapeutas, ao mostrar a importincia de que fizessem um trabalho de diferenciagio na prd- pria fumilia. Ele demonstrou isso aplicando em si mesmo a propria teoria. Passou 12 anos tentando compreender sua familia e sete ou ojto anos emes- forgo ativo e direto para modificar sua rela¢o com ela (diiferenciat-se e nao entrar em triangulagbes). A terapia experiencial da familia, de Whitaker, é radical e provocativa, uma mistura de apoio cordial e rasteira emocional imprevisivel Relatada a experiéncia, varios de seus es- tagiérios passaram a se voltar para as préprias familias ¢ trabalhar a diferenciagao deles em relagio a elas. Segundo Bowen observou, eles se tornaram mais produtivos como terapeu- tas em comparagao aqueles que nao haviam trabalhado as préprias questécs. Nos cursos de formagao de terapeutas fa- miliares no Brasil, esse é um quesito obrigaté- tio no processo formadot, que é feito em mo- mentos especiais em que a familia de origem do terapeuta é trabalhada por intermédio de técnicas préprias desenvolvidas para esse fim. No se trata de uma terapia familiar do tera- peuta, mas de um trabalho de autoconheci- mento da sua familia ¢ questoes relativas a ela. A abordagem de Bowen leva o nome de intergeracional, dada a grande énfase que dé As transmissées e repeticdes que ocorrem nas geracées familiares, ainda que de formas dife- rentes. Uma das técnicas por ele desenvolvi- das para melhor coletar e compreender dados importantes relacionados ao sistema familiar 58.