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CENTRO UNIVERSITARIO DO DISTRITO FEDERAL

ARQUITETURA E URBANISMO
ARQUITETURA BRASILEIRA
PROF.: MARCELO TEIXEIRA
2/2017

APOSTILA PARA A PROVA DOCENTE


ARQUITETURA BRASILEIRA:
Escola Paulista, Pós-Modernismo, Contemporaneidade.

A “Escola Paulista” é a denominação dada a produção histórica de um grupo de


arquitetos radicados em São Paulo, reunidos em torno da figura do professor, arquiteto
e teórico João Batista Vilanova Artigas. Esses arquitetos tinham como denominador
comum em suas obras a ênfase na técnica construtiva, valorização estrutural e do
concreto aparente, além do prestígio da modulação, da racionalização e da
mecanização. Entretanto, cabe lembrar que a arquitetura produzida por escola não é
sinônimo de arquitetura paulista. Os arquitetos integrantes desse grupo foram, além de
Artigas: Ruy Ohtake, Paulo Mendes da Rocha, Marcelo Fragelli, Pedro Paulo de Melo
Saraiva, João Walter Toscano, Abrahão Sanovicz. Desses arquitetos, apenas Marcelo
Fragelli se formou no Rio de Janeiro, sendo Ohtake, Toscano e Sanovicz formados na
Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e Mendes da
Rocha e Saraiva provenientes da Faculdade de Arquitetura da Universidade
Presbiteriana Mackenzie.

As características da obra desse grupo eram:

 Adoção de grandes vãos;


 Continuidade visual;
 Uso de rampas, valorização dos elementos de circulação vertical;
 Introspecção, ênfase no interior;
 Iluminação zenital;
 Horizontalidade;
 Força estrutural;
 Associado ao Brutalismo.
Outra característica importante desse grupo de arquitetos era seu conteúdo político:
acreditavam que os arquitetos também são responsáveis pelo desenvolvimento
nacional, para isso, valorizavam a adoção de técnicas construtivas modernas e
desafiadoras; racionalização da construção (estrutura, canteiro, pré-fabricação,
mecanização) e a adoção de uma linguagem moderna. A Escola Paulista via no
investimento na modernização arquitetônica, desde o desenho até a obra final,
passando pelo canteiro, uma busca, mais do que estética ou tecnológica, de um projeto
político capaz de superar o subdesenvolvimento brasileiro. Dessa forma, mais do que a
preocupação de afirmar uma linguagem arquitetônica adequada a realidade nacional na
qual tanto o moderno quanto resquícios de uma tradicional arquitetura brasileira fossem
integrados (como no caso dos arquitetos cariocas), a Escola Paulista instigava a
superação dos entraves ao desenvolvimento técnico-econômico, por meio da
exploração arquitetônica que exigiam o uso de técnicas construtivas mais elaboradas.

Foi importante também na consolidação da Escola Paulista as mudanças curriculares


nos cursos de arquitetura, especialmente na FAU-USP onde um novo currículo foi
implantado por Vilanova Artigas _então diretor_ em 1962. O currículo da FAU-USP
seria adotado por diversas faculdades pelo Brasil e trazia mudanças no conteúdo
didático, como destaque para o atelier de projeto (no qual se estruturava o curso),
considerado espaço fundamental de aulas, discussão, formação técnica, estética e
política. O curso da FAU-USP se articulou em três grandes eixos: projeto, história,
técnica. Essa articulação visava a formação generalista do arquiteto, que o habilitasse
tanto a ter um posicionamento crítico sócio politicamente quanto a atender as demandas
provenientes da carreira profissional.

A característica mais notória da Escola Paulista é sua identificação com o “brutalismo”.


Essa corrente arquitetônica, inserida dentro do modernismo, tem origens, como termo,
no final da década de 1940, na Europa (particularmente França e Inglaterra). Le
Corbusier utilizou o “bréton brut”, concreto bruto, cru, aparente, em sua Unidade de
Habitação de Marselha, projetada em 1947 e terminada em 1952. Também utilizou o
concreto aparente e materiais crus no projeto da Maison Jaoul, de 1951. Entretanto, o
termo brutalismo é cunhado na Inglaterra em 1953, por Alison e Peter Smithson,
arquitetos, para designar as obras de concreto aparente feitas por Le Corbusier após a
II Guerra Mundial. De 1951 até 1966, surge na Europa um conjunto de obras
arquitetônicas que compartilhariam características que seriam identificadas como
brutalismo em 1966, com a publicação do livro “The New Brutalism: Ethic or Aesthetic”,
do crítico inglês Reyner Banham. A partir daí, o brutalismo torna-se um estilo. As
características mais importantes do brutalismo são:
 Franca exposição dos materiais, vigas e detalhes;
 Concreto aparente, tijolos, materiais crus;
 Unidade visual do edifício;
 Clara exibição da estrutura;
 Superfícies limpas, ausência de adornos;
 Ênfase na massa, no peso, na presença visual do edifício.

O Brutalismo Paulista, segundo Ruth Verde Zein (2005) comporta as seguintes


características:

 Adoção de monoblocos;
 No caso de dois volumes, hierarquia evidente;
 Contraste visual com o entorno;
 Horizontalidade;
 Caixas portantes, planta genérica;
 Grandes vãos;
 Destaque para as circulações;
 Adoção de concreto armado;
 Austeridade e homogeneidade da solução;
 Clareza estrutural;
 Replicação do edifício;
 Pré-fabricação;
 Ênfase no caráter experimental

Figura 01: linha histórica da Escola Paulista. Fonte:


http://www.arquiteturabrutalista.com.br/index1port-conceitos.htm
Arquiteturas Pós-Brasília:

Pós-Modernismo:

Em 1932 aconteceu a exposição intitulada “The International Style” (O Estilo


Internacional), organizada por Philip Johnson e Henry Russel-Hitchcock no Museu de
Arte Moderna de Nova York, na qual exibiam-se um conjunto de obras arquitetônicas
que compartilhavam a ênfase no racionalismo, no objetivismo, utilitarismo, na negação
de raízes históricas, ausência de ornamentos, uso de técnicas e materiais modernos
(vidro, aço, concreto). As obras apresentadas marcavam-se pela regularidade
volumétrica, pela pureza das superfícies, pela retilinearidade, pela verdade material,
funcional e técnica. São considerados os fundadores do Estilo Internacional Walter
Gropius, Le Corbusier, Frank Lloyd Wright e Mies van Der Rohe. Entretanto, cabe
ressaltar que esses arquitetos não tinham em mente organizar um “estilo internacional”
(ou seja, um repertório arquitetônico disponível para a cópia) e sim fazer uma arquitetura
moderna, que respondesse aos desafios impostos pela era industrial e pelas grandes
civilizações urbanas do século XX. A partir da exposição, a arquitetura estiliza-se, isto
é, torna-se um estilo, no qual cristaliza-se a adoção de determinadas soluções e
repertórios, indiferente ao contexto histórico-social e ambiental no qual a obra
arquitetônica seria instalada. É a partir das críticas a essa cristalização que surge o
chamado “pós-modernismo”.

Ainda que as críticas aos ideários da arquitetura modernista estejam presentes desde
os estágios iniciais de sua concepção, é a partir da década de 1960 que um
posicionamento crítico em relação a esses ideários repercute com maior intensidade.
Entre 1961 e 1969, todos os atribuídos pais fundadores do Estilo Internacional falecem
(Gropius, Der Rohe, Le Corbusier, Rietveld), implicando em uma revisão crítica do
legado arquitetônico deixado por eles. Além disso, é durante essa década que surgem
importantes livros que continham críticas ao modernismo, como “Morte e Vida das
Grandes Cidades Americanas” (1961) de Jane Jacobs e “Contradição e Complexidade
em Arquitetura” (1966) de Robert Venturi e Denise Scott-Brown. As críticas contidas
nesses livros são:

 O urbanismo moderno empobrecia a cidade;


 A ênfase na funcionalidade era reducionista;
 O edifício deveria prestar atenção em sua aparência externa;
 A arquitetura é uma linguagem; o edifício deve falar;
 Os edifícios modernos careciam de simbolismos;
 A arquitetura deveria voltar ao ornamento e os estilos históricos
As críticas de Jacobs e Venturi são seguidos por outros livros importantes na
consolidação de uma oposição arquitetônica ao modernismo, como “Aprendendo
com Las Vegas” (1972) de Robert Venturi e Denise Scott-Brown, “A Forma Segue o
Fiasco” (1977) de Peter Blake e “The Language of Post Modern Architecture” (1977)
de Charles Jencks. Para Blake, a frase mítica da arquitetura moderna “a forma segue
a função”, cunhada pelo arquiteto norte-americano Louis Sullivan no final do século
XIX, era um fiasco: o arquiteto moderno, ao adotar determinadas soluções, não
seguia a função do edifício, se limitando a escolher alguns problemas em detrimento
de outros. Em 1972, é demolido o conjunto habitacional Pruitt-Igoe, projetado em
1959 por Minoru Yamasaki, considerado um ícone do ideário urbanístico e
arquitetônico modernista. Com a demolição do conjunto, tem-se convencionado
historio graficamente o fim da arquitetura modernista: a partir de então, entramos no
período da arquitetura pós-moderna.

Em 1980, realizou-se a primeira Bienal de Arquitetura de Veneza, na Itália, com o


tema “A Presença do Passado”, na qual reuniram-se arquitetos que adotavam
elementos do repertório histórico-classicista em suas obras, lançando um debate
internacional sobre a arquitetura pós-moderna. Os elementos arquitetônicos do
passado reapareciam dentro de uma linguagem moderna, porém como ironia, como
citação ou colagem. A volta do adorno, do ornamento, de regras clássicas de
composição arquitetônica, misturadas com elementos inusitados eram
características das obras dos arquitetos presentes na Bienal, como Charles Jencks,
Michael Graves, Frank Gehry, Rem Koolhas, Charles Moore, Robert Venturi e
Denise Scott-Brown, entre outros. A partir da Bienal de Veneza, o pós-modernismo
consolida-se como um estilo arquitetônico, com um repertório identificado.

No Brasil, o pós-modernismo arquitetônico surge em meados da década de 1980,


mas é no início dos 1990 que fortalece-se. Entretanto, o pós-modernismo brasileiro
não apresenta o conteúdo crítico originário observado na produção norte-americana,
se limitando a reproduzir o repertório arquitetônico identificado como pós-
modernista, mas também permitindo maior liberdade compositiva ao arquiteto. Foi
em Minas Gerais que interessantes obras pós-modernas foram construídas,
especialmente a obra de Éolo Maia, Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá.
Particularmente a obra de Maia é a mais instigante, partindo de uma inicial adesão
formal à Escola Paulista até uma aberta provocação, como suas obras após o Centro
de Apoio ao Turista Tancredo Neves, em Belo Horizonte (em parceria com Jô
Vasconcellos) de 1991. Outro arquiteto considerado pós-moderno é Fernando
Peixoto.
Modernismo Pós-Modernismo
Simplificação Complexidade, contradição
Unicidade Ambigüidade, tensão
Exclusividade Inclusividade
Puritanismo Hibridismo
Unidade óbvia (objetividade integrista) Vitalidade emaranhada
Simplificação Complexidade, contradição
Simbolismo figurativo Simbolismo Insinuado
Ornamento aplicado Ornamento integrado
Arquitetura heterogênea Arquitetura pura
Arquitetura populista Arquitetura elitista
Evolutiva, seguindo ideais históricos Revolucionária
Convencional e configuração barata Singular, arrojada até heróica
Fachadas frontais belas e luxuosas Todas as fachadas tratadas iguais
Construção convencional Tecnologia progressiva
Aceita escala de valores do cliente Ideal do arquiteto

Uma das críticas que foram feitas a arquitetura do Estilo Internacional foi a sua
indiferença com o contexto na qual era implantada, com o lugar, com as suas
características sociais, históricas, ambientais. O historiador Kenneth Frampton
utilizou o termo “Regionalismo Crítico” em 1983 para falar das obras arquitetônicas
que preocupavam-se com o lugar, em introduzir elementos da arquitetura local na
linguagem universal do modernismo. Desta forma, elementos da arquitetura
vernacular são mesclados com os princípios de universalidade da arquitetura
moderna, visando fornecer identidade local. No Brasil, há uma tendência, observada
desde a Escola Carioca (Lúcio Costa, Oscar Niemeyer) em mesclar elementos ditos
“tradicionais” da arquitetura brasileira com a arquitetura moderna, sem entretanto,
definir essa escola como “regionalista crítica”. Vale ressaltar que o regionalismo
crítico não despreza o legado modernista, tentando equalizar o vernáculo e o
moderno, os empregando conscientemente na intenção de uma hibridização. Já o
regionalismo puro, valoriza mais o regional do que o moderno, conscientemente se
retirando da universalidade contida na linguagem arquitetônica moderna e
confinando-se nos aspectos vernaculares. No Brasil, arquitetos como Severiano
Porto obtiveram consistente produção arquitetônica inspirando-se nos materiais
locais, nas técnicas tradicionais e orientando-se pelas imposições climáticas
regionais. Outros nomes como Zanine Caldas e Gerson Castelo Branco _apesar de
não serem arquitetos diplomados_ são exemplos de mesclagem de elementos
vernáculos com linguagem moderna, caracterizando-os como regionalistas.
A partir dos anos 1990, começa a tomar força na produção brasileira o que podemos
chamar de arquitetura “neo-modernista”. Essa arquitetura, em um âmbito mundial,
surge como reação ao neoecleticismo, complexidades e cenografias do pós-
modernismo, propondo uma volta a simplicidade, austeridade, na ausência do
ornamento, na solução de volumes monolíticos, linhas retas e ao repertório
corbuseriano, como pilotis, terraços jardins, janelas em fita. Atualmente, os nomes
mais relacionados com o neomodernismo brasileiro são Isay Weinfeld, Marcio
Kogan, Gustavo Penna, Arthur de Mattos Casas. As principais características dos
neomodernos são:

 Revalorização do repertório moderno;


 Esvaziamento político do modernismo;
 Soluções modernistas adaptadas a atualidade;
 Clareza na solução;
 Ortogonalidade;
 Utilização de prismas;
 Materiais locais, naturais, crus;
 Planos valorizados;
 Minimalismo;
 Uso inusitado de materiais;
 Grandes vãos, plantas abertas

Panorama:

Modernismo: volumes geométricos simples e pouca ornamentação, forma segue a


função, pilotis, terraço jardim, planta livre, fachada livre e janela corrida.

Pós-modernismo: uso de ornamentos, alusões aos estilos arquitetônicos do passado,


a forma segue a moda e a fantasia do arquiteto, é indiferente às possibilidades
tecnológicas.

Minimalismo: valoriza espaços vazios e formalmente limpos, eliminando todos os


elementos que não sejam absolutamente necessários;

Regionalismo: simbiose entre arquitetura erudita e a arquitetura popular (vernácula),


empregando frequentemente o estilo arquitetônico da primeira e técnicas construtivas
e materiais da segunda;

Neo-modernismo: soluções modernistas utilizando tecnologias construtivas mais


avançadas e quebrando regras rígidas do modernismo, introduzindo elementos
inusitados
Kitsch:

Em seu livro de 1977, “Aprendendo com Las Vegas”, Robert Venturi e Denise Scott-
Brown publicam obras de arquitetura kitsch como exemplos de leitura clara ausentes na
arquitetura moderna. Em 1979, o livro “Arquitetura Kitsch, suburbana e rural”, de Dinah
Guimaraens e Lauro Cavalcanti Objeto lançou luz sobre a presença do kitsch em nossa
arquitetura popular, geralmente desconsiderado pelos arquitetos eruditos. O ambíguo
termo “kitsch” tem origem alemã na década de 1860 e é comumente empregado em
referência a estéticas consideradas vulgares, de mau-gosto, sentimentalistas,
caracterizadas pela produção em massa de ícones relacionados a cultura erudita ou
clássica e utilizados pelas classes médias emergentes como símbolos de distinção
social e aproximação com as elites. O kitsch tenta encarnar valores de supostas
tradições culturais eruditas por meio da adoção de repertórios estéticos
descontextualizados, mal reproduzidos e de pastiches. Para Roger Scruton (2014) o
kitsch é uma arte falsa, que expressa emoções falsas mas que leva ao seu consumidor
a entende-las como sérias e profundas. Uma das características do kitsch é o seu apelo
popular, sua oposição à regras de estilo convencionalmente entendidas como
adequadas, seu humor.