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Universidade Federal de Uberlândia

Instituto de História
Programa de Pós-Graduação em História
Disciplina: Sensibilidades, sentimentos, subjetividades
Profa.: Jacy Alves de Seixas
Aluna: Cristiane Paula Arantes

Possibilidades para pensar uma historiografia no século XXI

A representação dos contornos assumidos no presente revela uma tentativa


dissimulada de transformar aquilo que se entende por contemporaneidade em um singular
tempo histórico, do ponto de vista intelectual e artístico. Inúmeras são as noções que
visam pincelar imagens da relação contemporânea com o tempo, de modo a capturá-lo
em variadas textualidades. Em que sentido um discurso é classificado como
contemporâneo e por quê? Como e por que um autor se propõe a traçar uma narrativa que
responda às suas inquietações com o tempo e a sociedade? Essas indagações inspiram o
debate sobre a cultura na contemporaneidade e, na tentativa de ao menos classificar aquilo
que denominamos como contemporâneo, os dizeres do filósofo italiano Giorgio Agamben
sejam salutares:

Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente


contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem
está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual;
mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e
desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e
apreender o seu tempo. (AGAMBEN, 2009, p. 58-59)

Essa inadequação ao tempo ou diacronia não prescinde, necessariamente, de uma


transferência do ser a outro tempo, em termos de nostalgia ou negação radical do
indivíduo contemporâneo no momento em que constrói um sentido para ao real. Segundo
Agamben, contemporâneo é aquele que concorda e discorda da visão que lhe é proposta,
aproxima-se e se distancia por promover comparações, digressões, dissociações e por
pensá-las em conjunto. O contemporâneo é, nesse sentido, caracterizado pelo olhar
fraturado, sem maiores juízos de valor, tampouco rejeições dogmáticas, já que a
imaginação do homem, o intelectual, o artista e demais agentes sociais, não se amolda
passivamente.
A fratura, por sua vez, consiste em um ponto de intersecção entre o passado e o
presente, nesse sentido, há essa descontinuidade que dificulta sua apreensão, a exemplo
da moda. O tempo da moda está constitutivamente adiantado a si mesmo e, exatamente
por isso, também sempre atrasado, tem sempre a forma de um limiar inapreensível entre

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um “ainda não” e um “não mais”. (AGAMBEN, 2009, p. 67) Nesse sentido, o estar na
moda como apreensão sensível do presente já comporta um passado, pois ao afirmá-la já
se está apartado dela.
Ser contemporâneo exprime, portanto, uma atitude política de pertencimento à
escuridão, pois há uma descontinuidade entre passado e futuro no presente, isto é, uma
inabilidade em lidar com a efemeridade deste último, a qual se desvela como
inapreensível. Em outras palavras, o contemporâneo em Agamben reconhece as trevas do
presente, dada a sua incapacidade de apreensão objetiva diante da aparição incontrolável
do passado.
Essas formas de subjetivação e a cultura na contemporaneidade contribuem para
pensarmos inúmeros temas correlatos à História e à historiografia. Essas reflexões
apontam para uma problematização dos significados e desdobramentos da modernidade,
pois abarcam formas de pensar, sentir e agir dos indivíduos em sociedade. Nesse sentido,
tentaremos traçar um breve ensaio que visa elencar esses temas discutidos na disciplina
“Sensibilidades, sentimentos, subjetividades” e correlacioná-los à pesquisa de
doutoramento em curso, que visa estudar o impacto e os significados do new historicism1
na historiografia e, assim, desenvolver uma reflexão acerca dos rumos do trabalho
historiográfico, perante as várias abordagens e campos de pesquisa na História.

1- Cultura contemporânea: algumas considerações


No decorrer da pesquisa de mestrado, pesquisamos o conceito de cultura na obra de
Fredric Jameson, sua relação com a ideia de pós-modernidade e, enfim, pincelamos as
contribuições do pensamento jamesoniano para a historiografia. As representações
culturais são discutidas a partir de dois conceitos – pastiche e paródia – cuja importância
se dá na construção teórica desse autor e numa nova sensibilidade histórica, a qual é
apresentada por ele como uma ruptura. Do ponto de vista da historicidade dos conceitos,
podemos dizer que é delineada uma temporalidade que sucumbe a relação clássica entre
passado, presente e futuro, que de acordo com o autor pode ser denominada pós-
modernidade. Ela aparece como um movimento de diluição das fronteiras entre alta e
baixa cultura, evidenciadas pela noção de paródia, a qual funciona como um jogo de

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O novo historicismo transformou-se numa escola ou corrente de prática de escrita no fim da década de
1980, a qual buscou tornar esmaecidas as fronteiras entre arte, filosofia, literatura, antropologia e história,
esse esforço interdisciplinar foi acompanhado de uma tentativa de explodir com as categorias formalistas
presentes nas análises literárias da academia norte-americana. Seu principal divulgador foi Stephen
Greenblatt.

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imitação que subverte o estilo clássico e o torna objeto de riso, a partir do sarcasmo.
Na contemporaneidade, a paródia se transforma em pastiche, o qual também
contempla estilos da alta cultura, mas não o subverte, pois promove uma mescla de estilos
sem a preocupação de rir do estranhamento por ele causado. Imitar, portanto, perde a
função risível. Enfim, elementos da cultura erudita unem-se à cultura de massa,
produzindo produtos culturais “não subversivos”, tampouco pautados em alguma
novidade estilística. Se para Agamben há uma fratura no viés contemporâneo, na
perspectiva de Jameson ela é trabalhada como um movimento de diluição das fronteiras
entre alta e baixa cultura, pois que a paródia configurada em pastiche inviabiliza sua
potência política do riso.
A imitação e mistura de estilos isentos de pretensões estilísticas inovadoras seria
um traço da perda da historicidade na vertente pós-moderna. Posto isso, há um esforço
historicista de Jameson de denunciar e historicizar a perda da historicidade, a qual vai ser
encontrada a partir das contingências da chamada lógica cultural do capitalismo tardio.
O horizonte norteador do modernismo era a singularidade incomparável e
esdrúxula, e este sofreu um colapso, só restando aos produtores culturais se voltarem para
o passado e copiá-los aleatoriamente. “Graças ao pós-modernismo, nós, arquitetos,
ficamos enfim livres da tirania do estilo”. Em outras palavras, se livraram da tirania de
terem de ser eles mesmos. (CASTORIADIS, 2002, p. 156)
Se as obras já não causam mais estranhamento, quer dizer que a desordem por elas
causada perdeu o sentido de outrora. A estética de Picasso, por exemplo, já não
escandaliza os olhares, menos ainda os impacta. Sobre isso, Jameson nos diz:
O que aconteceu é que a produção estética hoje está integrada à
produção das mercadorias em geral: a urgência desvairada da economia
em produzir novas séries de produtos que cada vez mais pareçam
novidades (de roupas a aviões), com um ritmo de turn over cada vez
maior, atribui uma posição e uma função estrutural cada vez mais
essenciais à inovação estética e ao experimentalismo. (JAMESON,
1991, p. 30)

As tendências monádicas perdem seu sentido e influem, definitivamente, na


abundante produção de simulacros, isto é, nas imagens desconexas reificadas. O passado,
por sua vez, perde a dimensão “referente” possível nos romances históricos, mas
acompanha uma nostalgia em termos comerciais em detrimento dos que contemplavam a
historicidade, já em processo de esmaecimento.

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Georg Simmel, ao refletir sobre a cultura na modernidade também apreende uma
mutação no paradigma das formas culturais, as quais existem para expressar a vida, o
processo cultural é o momento em que dois elementos se reúnem e nenhum deles a contém
em si: a alma subjetiva e a criação espiritual objetiva. (SANTOS, 2014, p. 147). A cultura
em Simmel exprime

Pertence ao conceito de toda cultura o fato de o espírito criar algo objetivo


independente por onde passa o desenvolvimento do sujeito de si para si
mesmo; mas por isso mesmo este elemento integrador que condiciona a
cultura é predeterminado por um desenvolvimento específico, que
sempre consome as forças do sujeito, que sempre os atrai para sua órbita
sem os conduzir assim ao máximo de si mesmos: o desenvolvimento do
sujeito já não pode tomar o mesmo caminho que o desenvolvimento do
objeto; se o faz ainda assim, entra em uma rua sem saída ou no
esvaziamento da vida mais íntima e mais própria (SANTOS, 2014, p.
160).

Os objetos culturais constroem o si, mas na cultura contemporânea deixam de


significar a vida, pois se autorreferenciam, vida e forma são rompidos, na medida em que
emerge as formas culturais evoluem de forma imanente e se tornam estrangeiras à sua
origem. Assim, as obras culturais se tornam trágicas, pois atendem a uma lógica interna
que neutraliza mudanças, sendo assim uma repetição.
De acordo com Simmel, a cultura, que outrora objetivara o sujeito e subjetivara o
objeto, realiza um movimento na contemporaneidade em que o homem moderno sente
que está envolto a um fluxo de vários elementos, mas que não são assimilados e deixam
de abrigar traços da vida. Assim como, Simmel e Jameson, a pensadora Claudine Haroche
(2008), ao relatar o número contínuo de imagens, apreende mudanças nas formas de
pensar e sentir, pois as mídias alteram as formas de percepção que também esmaecem as
formas do sujeito se subjetivar. Segundo o diagnóstico da autora:

[...] nas sociedades contemporâneas, a sensação contínua e o movimento


permanente transformam os modos de funcionamento sensoriais:
estimularam o desinteresse, o descompromisso e o desengajamento, bem
como afastaram as ideias de limite e consciência, e a própria noção de eu.
(HAROCHE, 2008, p. 207)

A atual estado de fluidez no excesso de imagens e os usos da cultura sucumbem


formas de resistência e de pensar com profundidade, desenhar projetos a longo prazo,
relacionar-se afetivamente de forma que a duração não se encerre em instantes efêmeros
com alguma intensidade simulada.
As tecnologias, na compreensão dos três autores funcionam, dessa forma, como
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dispositivos de poder e conformação, ainda que não utilizem esses conceitos, mas
apreendem a racionalidade implícita às ditas ferramentas tecnológicas nas diversas
formas culturais da modernidade, pós-modernidade ou modernidade líquida.

Dispositivos historiográficos: “velho” e “novo” historicismo


A identificação de traços de um possível old historicism na História contribuiu
para o exame de categorias teórico-metodológicas que ultrapassam as fronteiras entre
crítica literária e teoria da História. Jameson enuncia outros debates no cerne da
historiografia, a configuração do novo historicismo, por ele discutido a partir da obra
Renaissance self-fashioning (1980) do crítico literário Stephen Greenblatt, o que nos
permitiu elaborar uma proposta de tese.
Em outras palavras, podemos dizer que o debate travado em torno de um velho e
novo historicismo pode ser considerado uma imagem da discussão que gravita em torno
da forma de se pensar e escrever a História, uma vez que trata da composição da narrativa
histórica, sua função, metodologia e estilo, enfim, a epistemologia do conhecimento
histórico. Sabemos que a História como disciplina tem sido cada vez mais abalada pelas
discussões que claramente questionam a ideia de tempo e ciência, ou as tencionam de
forma indireta. François Hartog afirma de forma categórica que o historiador agora
aprendeu a não reivindicar nenhum ponto de vista predominante. (2013, p. 37).
Será que a reflexão teórica sobre a História caminha para a defesa de uma
temporalidade sem sofrer processo de temporalização? Isso significaria dizer que já
estamos em um momento de total rompimento com a lógica clássica que estabelece uma
fratura entre passado, presente e futuro? Vivenciamos aquilo que Jameson denunciou
como presentismo?
Para responder a estas e outras perguntas objetivamos com a proposta de tese de
doutoramento entender em que medida o novo historicismo pincela um novo regime de
historicidade (nos moldes de Hartog) e, em consequência, de historiografia. Esse objeto
vai partir das considerações de variados expoentes das humanidades que questionam e
apresentam argumentos acerca do estado atual da pesquisa no âmbito da História, ao
construírem uma espécie de crise e incerteza.
Na narrativa identificada como historicista clássica2 há um traço cognitivo que

2
Utilizo a ideia de “historicismo clássico” para identificar um movimento intelectual alemão ocorrido no
século XIX que, embora não tenha tido a pretensão de se auto-identificar como tal e tenha apresentado
diferentes autores que refletiram e divergiram sobre o conteúdo e forma de apresentação do conhecimento
histórico, o que implica dizer que esses historiadores convergem no sentido de tentar traçar uma didática,
metodologia para a ciência histórica, pensada e assim consolidada no momento de especialização das

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visualiza o passado e desenha um futuro para o presente, já que está imbricada de uma
ordem linear e progressista da História, ao mesmo tempo em que tornava o evento em
conhecimento científico. Isto garante [ou garantia] o cumprimento de uma meta de ação
teleológica que estaria intrínseca à produção de sentido ao acontecimento. Por isso, a
cognição elaborada pelo historicismo servia como orientação, segundo Jörn Rüsen
(2011).
A prática de escrita do chamado “novo historicismo”, segundo Greenblatt, entende
que os métodos do historicismo seriam insuficientes para visualizar os mecanismos
linguísticos e representacionais das vontades individuais que, segundo ele são
prerrogativas do “novo historicismo”. Essa metodologia de análise construiria uma
proeminência da estratégia da ação humana, em detrimento da relevância do processo
inexorável da História, que de acordo com Greenblatt é uma característica do historicismo
do século XIX.
Especialista em Shakespeare, Greenblatt publica em 1980, o famoso Renaissance
Self-Fashioning: From More to Shakespeare obra em que o autor atesta suas críticas às
generalizações do historicismo, no entanto, trabalha com concepções também
generalistas para entender e combater o “inimigo”. Durante a narrativa Greenblatt
enfrenta questões correlatas aos domínios ideológicos da crítica literária norte-americana
e suas metodologias de análise da literatura e das artes, para tanto, o escritor utiliza
personagens e constrói analogias. Sobre isso, podemos apreciar as análises elaboradas
pelo crítico-literário

Será que os textos se referem a uma realidade social? Em caso positivo, será que
eles meramente refletem ou será que imaginam realidades utópicas? Como a
questão de se Dreiser gostava ou não do capitalismo, essas questões [Michaels
erroneamente limita a questão às da representação realista (grifo do autor)]
parecem postular um espaço fora da cultura a partir do qual se questionam as
relações entre espaço (aqui definido como o literário) e a cultura. Mas os espaços
que procurei explorar estão todos bem dentro da cultura, e portanto o projeto de
questionamento esvazia-se de sentido. (GREENBLATT, 1980, p. 27)

A ausência de sentido supracitada é um aspecto interessante das narrativas


contemporâneas e da própria crítica de Greenblatt acerca do historicismo clássico. Isso
permite elaborar outras questões não somente ao historicismo, mas à historiografia e suas
variadas linguagens.

ciências humanas. Portanto, referencio historicismo como um momento intelectual com vários expoentes,
ademais, pode ser considerado um clima intelectual que ainda inspira a historiografia.

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O trabalho historiográfico nas ciências humanas nos permite criticar, dissecar e
fazer diferentes perguntas às fontes, e também cria-las intuitivamente, mas em que
medida há o esforço ético em não ir além da fonte? Não cometer anacronismos deveria
ser o mote de análise historiográfica? A crítica de Greenblatt coloca um incômodo de
ordem epistemológica, uma vez que questiona metodologias rigorosas que ainda são
aplicadas na historiografia. Métodos que constantemente são colocadas em dúvida pelos
anseios de uma escrita menos plástica e academicista.
O questionamento da linguagem científica e totalizante é evidenciado pela crítica
desses autores da crítica literária [assim como Greenblatt], os quais contribuem para
compreendermos a formação de um movimento neo-historicista como um aspecto de um
novo regime de historicidade. Sobre isso, os escritos de François Hartog nos permite
estabelecer uma reflexão sobre a dificuldade que encontramos ao desenhar a
temporalidade contemporânea:

Simples ferramenta, o regime de historicidade não pretende falar da


história do mundo passado, e menos ainda do que está por vir. [...]
Tampouco busca reativar uma história transformada por um tempo único,
regulado ele mesmo por um único staccato do acontecimento ou, ao
contrário, pela lentidão da longa e bem longa duração. (HARTOG, 2013,
p. 37)

O regime de historicidade consiste em um mecanismo heurístico para apreender


uma crise dos tempos, em que se estabelece uma relação entre o regime de historicidade,
que consiste nas ideias e relação com o tempo em um determinado período, e o regime de
historiografia, em que se tenciona como essa ordem de historicidade exerce força sobre a
reflexão e escrita da História. Nesse sentido, contribui para entendermos não tão somente
as ideias de Greenblatt, mas também o porquê delas se constituírem com força no meio
acadêmico.
A disciplina “Sensibilidades, sentimentos, subjetividades” nos permitiu o contato
com a discussão sobre esse regime de historicidade contemporâneo a partir dos autores
que dialogamos acerca da cultura, mas também nos trouxe um ponto de inflexão ao tratar
a ideia de dispositivo. Em que medida refletir sobre os dispositivos contribui para pensar
o saber/ fazer historiográfico? Como questionar as convenções acadêmicas que muitas
vezes parecem ineficientes para apreender as sensibilidades contemporâneas e suas
possibilidades de profanação? Como profanar a cultura contemporânea e a cultura
historiográfica que apesar da ampliação dos temas e diversidade metodológica para lidar
com as fontes, muitas vezes reforça relações de poder institucionais e apresenta uma

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ineficiência na relação conhecimento e sociedade? Dito em outras palavras, pode a
historiografia do século XXI subjetivar o indivíduo, ou os textos produzidos ainda
permanecerão apartados do eu e do nós?
O pensamento que Michel Foucault desenvolveu nos idos da década de 1970 e
1980 desafiou as humanidades ao dissecar as formas e relações de poder entre os sujeitos.
Sujeito, na obra de Foucault é pensado a partir dos jogos de verdade na ciência, religião,
nos poderes institucionais, entre outros. Foucault analisa práticas coercitivas e de
autoformação que produzem verdades, conformações, estados de dominação e, também
resistências de variados matizes, o que permitiu retirar o caráter essencialista dos
discursos produzidos na sociedade. Os dizeres foucaultianos são instigantes:

[...] tanto o dito como o não dito, eis os elementos do dispositivo. O


dispositivo é a rede que se estabelece entre estes elementos [...] com o
termo dispositivo, compreendo uma espécie – por assim dizer – de
formação que num momento histórico teve como função essencial
responder a uma urgência. [...] O dispositivo está sempre inscrito num
jogo de poder e, ao mesmo tempo, sempre ligado aos limites do saber,
que derivam desse e, na mesma medida, condicionam-no. Assim, o
dispositivo é: um conjunto de estratégias de relações de força que
condicionam certos tipos de saber e por ele são condicionados.
(AGAMBEN apud FOUCAULT, 2009, p. 28)

Nesse viés, refletir a sobre os dispositivos permitirá problematizarmos o


historicismo clássico, assim como a proposta do novo historicismo. Como o primeiro
essencializa a história ao pensar uma função específica para o conhecimento histórico de
forma controlável, a partir de uma operação mental de compreensão – que nada mais é
que uma imaginação controlada – e, em muitos casos, fataliza a história a estabelecer uma
função ou forma específica de escrever a História, ainda que se leve em consideração a
experiência humana [ao que tudo indica sob um viés hegeliano], alguns especialistas3
asseveram que houve uma confusão ao atrelar o historicismo ao positivismo, em
decorrência da cientificidade.
Ao mesmo tempo, a noção de dispositivo nos permite visualizar de maneira mais
sensível a proposta de um novo historicismo, suas possibilidades e limitações
epistemológicas, a vontade de poder intrínseca a criação de uma nova escola/ corrente ou

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Para aprofundar essa discussão, recomendo dois textos interessantes disponíveis online na língua
portuguesa: FALCON, Francisco. Historicismo: antigas e novas questões. História Revista (Goiânia), nº 7
(2002) 23-54. MARTINS, Estevão C. de Rezende. Historicismo: tese, legado, fragilidade. História Revista
(Goiânia), nº 7 (2002) 1-22.

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prática de leitura, e em que medida se distancia do historicismo clássico. As relações de
poder na produção de conhecimento estão envoltas a instabilidades, afinal, também há
relações de liberdade, reversibilidade ou resistências ao se escrever histórias. Nesse
sentido, pensar sob o viés dos dispositivos contribui também para desnaturalizar ambos
os movimentos historiográficos e a própria Teoria da História, ou teorias das histórias.
Outro desafio que se impõe será um diálogo entre a percepção dos regimes de
historicidade e historiografia, na obra de Hartog e a ideia de dispositivo em Foucault,
teorizada por Agamben. Como esses conceitos se aproximam e se distanciam, ademais,
de que maneira operam no sentido de possibilitar o entendimento de uma possível
historiografia do século XXI, que esteja permita profanar a escrita da história e torná-la
de uso comum das humanidades, em outras palavras, cumprir o intento contemporâneo
transdisciplinar. Sobre a ação profanatória e transdisciplinar, Agamben nos traz outra
inspiração:

Profanar não significa simplesmente abolir e cancelar


separações, mas aprender a fazer delas um uso novo, a brincar
com elas. A sociedade sem classes não é uma sociedade que
aboliu e perdeu toda memória das diferenças de classe, mas uma
sociedade que soube desativar seus dispositivos, a fim de tornar
possível um novo uso, para transformá-las em meios puros.
(AGAMBEN, 2007, p.75)

Nossa capacidade de responder às perguntas aqui elencadas e pensar um processo


de profanação da escrita da história que permita restituir não somente à área, mas às
humanidades como um todo permanecem em aberto, ao mesmo tempo em que parece ser
uma proposta para pensarmos teórico e metodologicamente a pesquisa. No mais,
podemos concluir com brevidade que pensar a escrita e teorias da história à luz dos
dispositivos e regimes de historicidade nos pareceu um caminho bastante profícuo.

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