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O JARDIM DAS DELÍCIAS

Porque há uma tristeza sem fim em mim, que vai e vem


E tudo é, sempre, em tons escuros de azul, cinza e negro
O tempo inteiro, quero partir...

Antes, o que me movia era a esperança


O sonho e a inocência de pensar e de acreditar
Que, eu ia, embora fosse árdua a tarefa,
Atingir as alturas e a missão se cumpriria e a realização seria naturalmente, dever
cumprido
A vontade social de fazer um mundo justo e bonito
De plantar a sementes das nova consciência e nutrir o legado
Dar a beleza aos olhos desalentado
Trazer o conhecimento a mente ignorante
Dar o melhor de si, não retendo, mas compartilhando a boa nova

Mas, os poderosos não aceitam aqueles que de seus planos destoam, não se calma e
ousam
A desobediência apenas mostra que a Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade são
utopias
Punem, rebaixam e desmerecem
Matam o artista o traindo e o condenando ao ostracismo
Exilam o gênio que é difamado como louco
E assim, a arte é apagada em tons de negro e a genialidade termina os seus dias, em
penúria, sofrimento e loucura
Questão de tempo, até que a tristeza, o desgosto e a pobreza
Resultem em morte mas talvez não a sua expressão
Ao total aniquilamento
O futuro, este desconhecido, é azul e uraniano.

E isso sempre acontece


E isso nunca reverte
No plano maquiavélico
Dos que insistem em manter as mentes alienadas e escravizadas.
Mas, o futuro, este desconhecido, é azul e uraniano
E a esperança é azul, assim como o resgatar e o valorar

E onde está o louco? Aquele outro bufão alegre e tolo


Cego, condicionado e empolgado?
A servir sobre o sol e a chuva
Os melhores anos de sua vida e de sua energia
Em troca de quase nada
Terá valido a pena? é tanta alma pequena...
Sim! Todo louco tem a alma inocente
E a intenção gloriosa

Eu me escondo da luz solar


Eu evito o homem poderoso e popular
Sua boca de dentes perfeitos, alvos e brilhantes
E sua língua de serpente
Que promete mentiras
Que dá e tira
Sem compaixão, as migalhas da servidão

E de tudo, agora me escondo


Da vergonha dos pactos
Do desamparo de ter sido quebrada
Rebaixada e desprezada
Mas, a liberdade eu conquisto
A solidão de ser eu e de não estar mal acompanhada
O direito de dizer não
Sem culpa, nem ameaça
E o desapego, que após a dor
Vem para lavar a lama, a merda e o fedor
E o desvio daquele caminho
Que me conduzia ao abismo
Em breve, estarei
Entre as flores e as árvores
Num jardim de delícias e dos mais preciosos perfumes
Deito na relva, sobre a terra santa
Pássaros ao meu ouvido cantam
Joaninhas trilham o meu corpo
Para me mostrar
Que eu pude, antes que fosse tarde demais
De tudo isso me salvar
E de como eu tenho sorte
Ao entender que é somente através do desapego
A chave para o acesso
Aos Jardins da Delícia
Do encontro com a essência
E de uma nova e evoluída consciência.

Entre flores e cores


Entre cantos de pássaros e o som das quedas d’águas
Anoitece, os pirilampos iluminam os campos
Um céu de estrelas e o luar
Aqui, nos vestimos de céu¹
E, nos Jardins das Delícias, não existe o pecado
Somos felizes, livres, puros e abençoados
O artista, o gênio e o louco.
Simoni Dimilatrov
Apátrida, 12 de fevereiro de 2017

¹ vestir-se de céu: estar nú. Termo conhecido entre os praticantes da Bruxaria


Tradicional oriunda da Inglaterra.

Imagem: The Garden of Earthly Delights, 1510-1515 - Hieronymus Bosch

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