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A ANTIGUIDADE TARDIA

Waldir Freitas de Oliveira


Professor de História Medieval
Universidade Federal da Bahia

OLIVEIRA, Waldir Freitas. A Antiguidade tardia, de Marco Aurélio a Romulus Augustulus. São
Paulo: Ática, 1990.

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Algumas palavras
O período histórico a que se refere o presente trabalho é por muitos designado como
Antiguidade Tardia. Há, contudo, quem não aceite esta denominação, preferindo designá-lo
como Primeira Idade Média, antecessora do que se costuma identificar como Alta Idade
Média (Vide FRANCO JUNIOR, H. A Idade Média e o nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 1987).

Quanto à denominação Antiguidade Tardia, difundiu-se a partir dos anos 1950, após a
acolhida que lhe deram alguns historiadores alemães, entre outros, P. E. Hübinger e K. F.
Stroheker. E o termo Spatantike ultrapassou fronteiras passando a ser utilizado por grande
número de pessoas no resto do mundo.

Em 1977, o historiador francês Henri-Irénée Marrou, recentemente falecido, deu como


título à sua obra derradeira Decadência Romana ou Antiguidade Tardia?, nela declarando
que “o que importa é que termo Antiguidade Tardia receba, de uma vez por todas, uma
conotação positiva”. Mas, ao questionar se seria lícito afirmar que o mesmo já participava
da linguagem corrente dos historiadores, lastimava que tal não houvesse ainda acontecido:
“Em francês (e o mesmo se dirá dos seus equivalentes italiano e inglês),

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a expressão conserva ainda alguma coisa de esotérico”; e concluía: ‘‘Só o alemão, mais
plástico, parece ter acolhido melhor a palavra Spatantike”.

A questão essencial é, sem dúvida, a da fixação dos limites entre a Antiguidade e a Idade
Média. Em princípios do século XIX, três opiniões dividiam entre si a preferência dos
especialistas - a primeira, estabelecendo-os em 324, quando Constantino assumiu o
poder, na condição de primeiro imperador favorecedor do cristianismo; a segunda,
preferindo o ano de 395, data da divisão definitiva do Império Romano; e a terceira,
escolhendo o ano de 476, quando Romulus Augustulus, o último imperador do Ocidente,
foi deposto por Odoacro.

Há de reconhecer-se, no entanto, que o período que vai da crise do século III até o final do
Império Romano do Ocidente possui características que lhe propiciam uma definição melhor
que a de declínio ou decadência do Império Romano. Segundo Marrou, ele se apresenta
como “uma a outra Antiguidade, uma outra civilização que é preciso aprender a reconhecer
na sua originalidade e a julgá-la por si mesma, e não através de cânones estabelecidos em
tempos passados”. E, se em verdade existem dificuldades para fixar-se uma fronteira nítida
entre a Antiguidade e a Idade Média, é precisamente neste ponto onde a denominação
Antiguidade Tardia encontra razão para estabelecer-se, identificando um tempo de transição
rico em mudanças e muito distante de um conceito simples de decadência.
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O historiador inglês Peter Brown, em seu livro Religion and society in the age of Saint
Augustine, chama a atenção para o fato quando afirma:

Os séculos da Antiguidade Tardia têm sido demasiadas vezes desqualificados como período de
desintegração, de fuga para o Além, em que as almas débeis, delicadas, ‘boas almas”, se livraram da
sociedade que à sua volta caia, para ir buscar refúgio numa outra cidade, a Cidade Celeste.

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Nada mais distante da verdade Na história da Europa, mal terá havido algum período que haja
legado aos séculos seguintes instituições tão perduráveis: os códigos do Direito romano, a estrutura
hierárquica da Igreja Católica, o ideal de um Império cristão, o monaquismo. Da Escócia à Etiópia, de
Madri a Moscou, quantos homens viveram desta imponente herança, quantos se foram sempre
referindo a essas criações da Antiguidade Tardia para nelas encontrar um principio de organização da
sua vida neste mundo.

Reconhecendo a importância desse tempo, admitimos, também, a dificuldade da sua


delimitação. Há quem o faça atingir as proximidades do ano 600, sob a alegação de
haverem sido os anos entre os fins do século VI e os princípios do século VII repletos de
acontecimentos de importância, como a criação pelos lombardos da última formação estatal
germânica sobre as terras romanas (568), o pontificado de Gregório, o Grande (590-604),
as reformas do Império Bizantino sob Heráclio (610-641), a aparição dos ávaros e dos
eslavos como forças novas atuantes sobre os Bálcãs e o começo da expansão dos árabes
(632), que modificaram, substancialmente, a evolução histórica do Ocidente. Outros,
contudo, o levam apenas até a morte de Justiniano (565) e a invasão da Itália pelos
lombardos (568).

Quanto a nós, preferimos conceber a Antiguidade Tardia como o período que, no Ocidente,
vai da crise do século III até a derrocada do Império, com a deposição de Romulus
Augustulus por Odoacro; e, no Oriente, até a proclamação como imperador de Heráclio.
Aceitando, desse modo, a denominação de Alta Idade Média para os tempos que se iniciam,
a partir desses momentos, em cada uma das partes convencionalmente designadas como
Ocidente e Oriente, aceitos, em geral, como de transição, possuidores, no entanto, de
características diversas daquelas que identificam a Antiguidade Tardia. Considerando, no
entanto, os objetivos imediatos do presente trabalho, destinado a leitores de um país
vinculado, de modo direto, às culturas que

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se constituíram na Europa Ocidental, somente iremos cuidar dos fatos ocorridos até o ano
de 476, o da queda final do Império Romano do Ocidente, deixando de acompanhar aqueles
que, a partir desta data até a época de Heráclio, irão desenrolar-se sobre a área do
Império Romano do Oriente. E ainda que admitamos ser esta posição passível de críticas
pertinentes, resolvemos adotá-la por conveniência didática. Convencidos de que a mesma
poderá permitir, àqueles que se destina este livro, uma compreensão mais exata de um
período de importância decisiva para a história do Mundo Ocidental.

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1 – A CRISE DO SÉCULO III
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Antecedentes
Em 161, sucedendo a Antonino Pio, passou Marco Aurélio, descendente, como Trajano,
de provinciais originário da Espanha, a dirigir os destinos do Império Romano.

Um balanço criterioso do seu tempo de governo leva-nos a considerá-lo negativo; a


despeito de uma ampla e moderna tendência no sentido de valorizar, de modo dominante
sua figura de filósofo e autor de textos que lhe conferira lugar definido na história do
pensamento do Mundo Antigo.

No entanto, os resultados pouco satisfatórios das suas lutas contra os invasores partos e
germanos, respectivamente na Ásia e na Europa, a devastação, em conseqüência das
guerras no Danúbio, das províncias da Récia, Nórica, Panônia e Mésia, a epidemia de peste
que assolou o Império naquela ocasião, o fracasso da sua expedição de conquista contra os
marcomanos, a revolta das legiões do Oriente, sob o comando do governador da Síria,
Avídio Cássio, a perseguição que desencadeou contra os cristãos, tudo isto
impede que possamos julgá-lo de modo favorável.

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Dos dezenove anos durante os quais chefiou o Império, dezessete foram de guerra. A peste
e a fome estiveram presentes sobre as terras romanas por todo esse tempo. Vencido
Avídio Cássio e assim mantida a integridade territorial de Roma, viu-se forçado a elevar
seu filho Cômodo, do nível de César para o de Augusto. E foi esta a fraqueza maior do
imperador filósofo. Abandonava ele o princípio da adoção que, desde Nerva, propiciara ao
Império excelentes resultados, e revalidava o da hereditariedade, no caso específico,
desastroso. E em 180, com a sua morte, na frente de luta do Danúbio, Cômodo, com
apenas 19 anos, passou a ser o novo imperador.

Podemos afirmar que o governo de Cômodo desagradou quase todos. Com a exceção,
talvez, de um pequeno grupo de gladiadores, seus companheiros de lutas contra feras
selvagens e seus comparsas em degradantes espetáculos de libertinagem.

Autoritário e despótico, indispôs-se, desde logo, com o Senado, em conseqüência do tratado


de paz que assinou com os germanos, e procurou, desde então, apoiar-se nas forças
armadas, às quais cumulou de regalias.

Empolgado pelo poder que lhe chegara às mãos de modo um tanto inesperado, imaginou-se
deus. Tudo quanto concernia ao imperador passou a ser considerado sagrado. E ele próprio
se acreditou entidade intermediária entre Júpiter e os homens, como a verdadeira
encarnação de Hércules.

Mantendo pouco contacto com as legiões das províncias, confiou, demasiadamente, na


proteção que lhe daria a Guarda Pretoriana. Ela não foi, no entanto, capaz de livrá-lo de
uma morte humilhante, estrangulado no banho pelo próprio camareiro e atleta preferido,
com a cumplicidade de sua concubina Márcia.
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O exército romano, naquela ocasião, contava com trinta legiões, perfazendo um total entre
300 000 e 350 000 homens, incluídos os legionários e as tropas auxiliares.

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As legiões eram integradas, em grande parte, por soldados provinciais comandados,
contudo, por oficiais romanos, oriundos da classe dos eqüestres ou do Senado.

Localizavam-se elas, de modo quase permanente, ao longo das fronteiras (limes) do


Império, principalmente às margens do Danúbio, região mais sujeita a invasões. Visavam,
de modo evidente, preservar a paz, numa estratégia de guerra defensiva, com flagrante
subestima do perigo germano. E essa estagnação, por longos períodos, sobre as áreas mais
longínquas do Império, enfraquecia, sem dúvida, seu poder de combate, sua disposição
para a luta e, por outro lado, as isolava do contexto social e político imperial ao qual se
sentiam fracamente ligadas.

Ainda mais, a inexistência de um exército de reserva, se excetuarmos os contingentes da


Guarda Pretoriana sediada em Roma, impedia a substituição regular dessas legiões que
cada vez mais se regionalizavam, criando e aprofundando raízes sobre os locais onde se
acantonavam.

Outro fato importante a constatar: qualquer ação militar de maiores proporções, em um


determinado ponto das fronteiras, exigia a retirada de tropas de um outro setor, que ficaria,
desse modo, desguarnecido.

Quanto aos povos bárbaros, apaziguados, momentaneamente, por Cômodo, esperavam,


apenas, o instante propício para transpor as fronteiras do Império e se estabelecer sobre
suas terras. Pressionados pelas migrações dos germanos orientais — anglos, saxões,
lombardos, burgúndios, vândalos, entre outros — que então se deslocavam do norte na
direção do sul — os povos havia muito estabelecidos ao longo das fronteiras — os cuados,
os hérulos e os marcomanos — começaram a se inquietar. Serão eles os primeiros a
atravessar o limes romano, inicialmente na condição de soldados mercenários, contratados
pelo próprio Império e, um pouco mais tarde, após a morte de Alexandre Severo, como
autênticos invasores.

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As fronteiras do Império ao tempo de Cômodo correspondiam, na Bretanha, aos muros de
Adriano e Antonino, na linha de separação atual entre a Inglaterra e a Escócia; e sobre o
continente, a grosso modo, aos cursos do Reno e do Danúbio, afastando-se deste último
para incluir a região da Dácia e, entre os altos cursos desses rios, englobando os Campos
Decumates. Ao longo dessas fronteiras o Império mantinha uma série contínua de
fortificações.

No Oriente e na África era bem outra a situação. Não existia ali uma linha de fronteiras
perfeitamente identificadas. Os pontos de referência não eram, então, as fortificações, mas
poços d’água. Os desertos dificultavam a permanência, na área, das legiões encarregadas
da sua guarda.
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Quanto ao mar Mediterrâneo, constituía, sem dúvida, o fator básico da unificação do


Império. As suas margens eram, todas, romanas. Donde não constituir exagero ser este
mar então denominado pelos cidadãos de Roma como Mare Nostrum.

No que se refere ao cristianismo, a despeito das perseguições anteriores sofridas pelos seus
seguidores, continuava crescendo, particularmente no Oriente. Já pelo ano 100, as cidades
de Antioquia, Damasco e Trípoli eram, virtualmente, cristãs.

Cômodo foi tolerante para com os cristãos já numerosos nas terras do Ocidente. Não por
aceitar o cristianismo, mas, provavelmente, por não entendê-lo ou não avaliar suas
possibilidades de expansão. Com o seu governo teve início o período denominado de
“Pequena Paz da Igreja”, que se estenderá até 250, ao tempo de Décio.

A sucessão de Cômodo e a guerra civil


Com a morte de Cômodo, a situação do Império se tornou confusa. Sob pressão dos preto-
rianos, o Senado escolheu para sucedê-lo o prefeito do Pretório - Helvius Pertinax.

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Este, no entanto, logo se tornou impopular, ao tentar dirigir o Império, de modo austero,
visando restabelecer o equilíbrio das finanças devastadas pelo seu antecessor. E os próprios
pretorianos que o haviam indicado para o posto o assassinaram, após 3 meses de governo.

Foram ainda os pretorianos que decidiram colocar em leilão o cargo de imperador,


arrematado pelo senador e rico comerciante Dídio Juliano, que se comprometeu, uma vez
vitorioso, a doar elevada quantia aos soldados que lhe garantissem o poder.

Não se conformando com tal solução, as forças provinciais, comandadas por oficiais
romanos também pretendentes ao posto de imperador, decidiram intervir. Não de modo
conjunto, mas isoladamente, sustentando cada grupo de legiões a candidatura do seu
comandante. E, desse modo, marcharam sobre Roma as legiões da Panônia e Ilíria, sob a
chefia de Septímio Severo, as legiões da Bretanha, Gália e Espanha, comandadas por
Clódio Albino, e as legiões do Oriente, chefiadas por Pescênio Niger. Iniciava- se a
guerra civil.

Nos combates que entre si travaram, coube a vitória a Septímio Severo, que ocupou
Roma e, sucessivamente, derrotou as forças de Pescênio Niger, na Síria, e Clódio Albino,
na Gália, eliminando-os e saqueando, como castigo, as cidades de Bizâncio e Lyon, que os
haviam sustentado em suas pretensões.

Tal disputa deve ser encarada como o reflexo da oposição já existente entre a população da
Itália e a das províncias, daquela que apartava o Senado das forças armadas e, finalmente,
da rivalidade efetiva que afastava as legiões.

Os Severos (193-235)
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Quanto à vitória de Septímio Severo, expressa uma nova situação na qual se evidenciam
o crescente prestígio das forças armadas e o enfraquecimento do papel do Senado.

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Ela irá favorecer o progresso do absolutismo e do princípio dinástico, como também a
tendência para a divinização pessoal dos imperadores, valendo realçar-se o fato de, a partir
de então, terem passado a ser sustentados no poder pelo apoio que lhes fosse dado por um
exército composto, na sua maior parte, por tropas não-itálicas.

Septímio Severo governou de 193 a 211. Guerreou contra os partos, no Oriente, e


enfrentou os bárbaros, na Bretanha. Durante grande parte do seu tempo de governo,
permaneceu em combates. E, pouco convencido da fidelidade da Guarda Pretoriana,
dissolveu-a, logo após a sua vitória, colocando em seu lugar tropas da sua inteira confiança,
a chamada Legião Pártica, integrada essencialmente por soldados da Ilíria. Sua ação contra
a aristocracia romana, representada pelo Senado, foi enérgica e violenta. Em primeiro lugar
afastou, dos comandos militares, os senadores. E em seguida confiscou os bens de todos os
membros do Senado que se haviam oposto às suas pretensões de governar o Império.
Perseguiu, ainda, os cristãos, proibindo-lhes o proselitismo, principalmente em Alexandria e
Cartago.

Pela primeira vez na história de Roma, um provincial de origem semita, nascido em Leptis
Magna, no norte da África, se tornava imperador. E do Oriente, da cidade de Emessa, na
Síria, trouxe para Roma a nova imperatriz — Júlia Domna, filha de Júlio Bassiano,
sacerdote de Baal, deus do Sol naquela cidade.

Dela dizem os cronistas haver sido bela demais para manter-se fiel a um homem sempre
envolvido em guerras e por isso forçado a longas ausências. Mas a sua presença na capital
do Império foi marcante. Transformou seu palácio num centro de altas conversas, das quais
participavam filósofos, literatos e artistas, criando uma Corte que havia muito Roma não
assistia. E foi através dela que penetraram no Ocidente, com toda a pompa e brilho, idéias,
hábitos e costumes orientais. Dentre os personagens importantes que

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a freqüentavam, destacam-se os jurisconsultos Papiniano, nomeado prefeito do Pretório,
Paulo e Ulpiano, todos integrantes da Escola Jurídica de Beirute.

Septímio Severo morreu em combate, na Bretanha, em 211, deixando dois filhos - Geta e
Bassiano, mais tarde chamado Caracala. Uma série de intrigas e acontecimentos confusos
seguiu-se à sua morte, deles resultando o assassinato de Geta, provavelmente pelo próprio
irmão, e logo a seguir o de Papiniano, segundo se afirma, por se haver recusado a
justificar, perante o Senado, o crime praticado. E, dessa maneira, passou Caracala a
imperador.

Ele governou o Império sob a influência direta de sua mãe Júlia Domna, e seus anos de
governo foram marcados por grave crise econômica e enorme corrupção. A necessidade de
defesa do Império levou-o, contudo, à luta contra os partos, no Oriente, onde conseguiu
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invadir a Média, ali profanando os túmulos sagrados dos reis desse povo. No entanto, as
legiões por ele comandadas não se mostraram dispostas à sustentação da luta e
ameaçaram retirar-se das terras conquistadas caso não lhes fossem duplicados os soldos.
Pelo que a conquista realizada não pôde ser mantida. Já na Europa, teve ele de enfrentar os
alamanos e os godos, conseguindo acalmá-los em troca de alta recompensa em dinheiro ou
os aceitando como mercenários a serviço de Roma.

Tamanha foi a crise econômica que se abateu sobre o Império durante o seu governo, que
teve Caracala de elevar, substancialmente, os impostos e, ainda, usando um hábil
estratagema, estender a cidadania romana a todos os cidadãos livres do Império, o que os
tornava, a partir de então, contribuintes obrigatórios de determinados impostos, até aquela
época pagos apenas pelos itálicos. Isso foi realizado através da célebre Constitutio
Antoniniana, em 212, certamente inspirada pelos jurisconsultos sírios. Quanto às moedas
que circulavam no Império, tiveram o seu percentual em ouro diminuído ou substituído por
igual quantidade de prata.

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Teve Caracala o mesmo fim de tantos outros imperadores do seu tempo. Morreu
assassinado. Quanto a Júlia Domna, foi banida para Antioquia, onde acabou seus dias,
esquecida e ultrajada. Ascendeu ao trono imperial, nessa ocasião, Macrino, prefeito do
Pretório, suposto mandante do assassinato de Caracala, que tratou, imediatamente, de
negociar a paz com os partos, em troca de vultosa indenização. Era o primeiro eqüestre a
tornar-se imperador. Foi, também, o primeiro imperador a nunca haver residido em Roma.

As legiões do Oriente insufladas por Júlia Mesa, irmã de Júlia Domna, juntamente com
suas filhas, Júlia Soemias e Júlia Maméia, revoltaram-se e o depuseram. Colocaram,
então, no trono imperial, o filho de Júlia Soemias, Vário Avito Bassianus, que trazia o
nome místico de Elagábalo e de quem se afirmava ser filho natural de Caracala.

Roma passou, a partir desse instante, a ser governada, de fato, por Júlia Mesa.
Elagábalo, seu neto, não se interessava por qualquer assunto militar ou administrativo.
Suas funções de sacerdote do deus Sol, em Emessa, eram prioritárias sobre quaisquer
outras. Tinha 14 anos quando assumiu o cargo e por certo não entendeu a importância do
posto que ocupava.

Descrevem-no os seus contemporâneos como um jovem depravado, quase sempre vestido


de seda púrpura bordada a ouro, com as faces pintadas de carmim, olhos artificialmente
dilatados, braceletes nos braços, colar de pérolas no pescoço. Dizem, ainda, que gostava de
música, tocava órgão e trompa e também cantava. A tal ponto chegaram, contudo, as
loucuras do rapaz (entre as quais a de, certa vez, tentar emascular-se, inconformado com a
sua condição), que a experiente Júlia Mesa decidiu eliminá-lo, juntamente com sua mãe,
Júlia Soemias, esta, por sinal, sua própria filha. E ambos foram assassinados.

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Aliou-se, então, Júlia Mesa, à sua outra filha, Júlia Maméia, a fim de colocar no trono do
Império Alexandre Severo, filho desta última, com 17 anos. E foi ele aclamado imperador.
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Tornava-se, de fato, Júlia Maméia, a nova governante. Ao seu lado, o sírio Ulpiano,
jurisconsulto de renome, nomeado, então, prefeito do Pretório, e que passou a exercer, de
modo não-oficial, o papel de tutor do imperador. Foi das Júlias, a mais interessada nos
negócios públicos, e esteve sempre ao lado do filho, em todas as ocasiões, auxiliando-o,
tanto no que se referisse aos assuntos administrativos como às guerras em que foi forçado
a envolver-se contra germanos e persas, acompanhando-o aos campos de batalha.

Alexandre Severo fora bem-preparado para o cargo. Por essa razão, foi um imperador
respeitado não só pelos soldados como pelo Senado, ao qual devolveu muitas das
prerrogativas que lhe haviam sido antes retiradas. Seu governo teve, pois, uma conotação
ampla de liberalismo. Em verdade, procurou ele enfraquecer a participação política das
forças armadas, revalorizando o papel dos senadores na vida do Império. Resolveu, ainda,
adotar uma política de austeridade econômica com base nos princípios morais das velhas
tradições de Roma.

Instituiu o Conselho Imperial, integrado por cinqüenta senadores e vinte jurisconsultos,


como órgão auxiliar do governo. Ampliou, consideravelmente, as funções do Estado, ainda
que para isso houvesse aumentado de modo substancial o corpo de funcionários. Adotou,
como linha de ação, um sistema de nítido intervencionismo e dirigismo estatal. E, tentando
obter o apoio das classes médias urbanas, passou a reconhecer a personalidade jurídica das
associações de operários e mercadores que então existiam nas cidades do Império.

Tais medidas desagradaram os pretorianos, que em 228 assassinaram seu principal mentor,
o sírio Ulpiano, sem que o imperador tentasse punir os autores do crime praticado

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em sua própria presença. No que se refere à defesa do Império, guerreou contra os persas
sassânidas, que haviam passado a governar o Irã desde 224, e contra os germanos, que
tentaram por várias vezes, durante o seu governo, ultrapassar as fronteiras do Reno e do
Danúbio. No Oriente, a luta contra os persas lhe foi favorável, permitindo-lhe impor aos
vencidos a condição de manter o Império sobre as terras da margem direita do Tigre, em
caráter permanente, com uma guarnição armada, no oásis de Hatra.

No entanto, na Europa, não lhe correram as coisas de modo igual. Tentou ali negociar com
os alamanos a evacuação dos Campos Decumates por eles ocupados. Tal procedimento foi,
contudo, reprovado pelas legiões da Gália, que inconformadas se revoltaram e o assassina-
ram juntamente com a sua mãe, Júlia Maméia, sob a tenda de campanha que os abrigava.

Balanço geral da época dos Severos


O período dos Severos deve ser encarado como de transição entre um sistema de governo
apoiado na oligarquia senatorial e outro fundamentado sobre o poderio das forças armadas.
Donde o fortalecimento progressivo da tendência para um dirigismo estatal praticamente sem
limites e atuante sobre todos os setores da vida social, econômica e religiosa do Estado.
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As legiões, já agora conscientizadas acerca do papel que desempenhavam, tornaram-se


cada vez mais exigentes quanto ao valor dos seus soldos e à obtenção de determinados
direitos que lhes eram negados, entre eles o de os legionários poderem casar-se com suas
concubinas. Tal direito, o jus connubium, lhes foi concedido por Septímio Severo.
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Outro fato importante: passando os legionários a receber parcelas de terra em pagamento
pelos seus serviços, a partir do governo de Alexandre Severo tendiam a fixar-se de modo
definitivo em suas propriedades, recusando-se a partir de então a deslocar-se, obedientes
às ordens dos seus comandantes. Além disso, considere-se que, a esse tempo, já havia
crescido, de modo significativo, a participação de mercenários germanos — os numerii —,
nos corpos das legiões. Em verdade, passara a existir um novo exército, politizado e
vinculado às províncias, bem diverso do antigo exército da época da expansão romana. Não
teria sido, pois, descabida a advertência feita por Septímio Severo aos seus dois filhos:
“Enriquecei os soldados e zombai do resto”. Ele tinha razão.

Considere-se, agora, a tolerância dos Severos, levemente comprometida por Septímio


Severo, em relação aos cristãos. E poderemos afirmar que foi durante este período que se
consolidou o cristianismo, sendo então os cristãos autorizados a possuírem cemitérios
privados na cidade de Roma — as catacumbas, construídas ao tempo dos bispos Zeferino
(198-217) e Calisto (217-222). Com eles surgiram as primeiras manifestações de uma arte
nova, a arte cristã, representada fundamentalmente pela ornamentação dos sarcófagos e
urnas funerárias dos crentes da nova religião.

No entanto, a confusão no campo das idéias religiosas deve ter sido imensa. Lado a lado se
realizavam os cultos cristãos e outros oriundos do Oriente, como os de Mitra e Isis, os
consagrados aos deuses romanos, como também circulavam e eram aceitas por muitos as
idéias dos filósofos neoplatônicos. As obras de Clemente de Alexandria (180-221) e de
Orígenes (185-222), autores cristãos, demonstram bem este estado de coisas. Tentaram
eles, com muita decisão, uma fusão impossível entre o helenismo e o cristianismo,
procurando justificar a nova religião, combatendo o paganismo, mas recorrendo, com
freqüência, às idéias básicas da filosofia grega. É de realçar-se, contudo, a esta época,

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a importância crescente das chamadas províncias “gregas”, as mais importantes do
Império, particularmente a da Síria, considerada a mais rica e próspera de todas elas.

Ali viviam, provavelmente, 10 milhões de pessoas, o que chega a parecer absurdo,


confrontando-se tal situação com a dos tempos modernos. Antioquia, a sua capital,
Damasco, a sua mais antiga cidade, Beritus (a atual Beirute), célebre pela sua Escola de
Direito, Êmeso (a Homs de nossos dias), Palmira (a Tacimor de hoje): eram centros
comerciais cheios de vida, por onde circulavam grandes riquezas. E, com base na
documentação da época, podemos afirmar, com segurança, que tal situação de
prosperidade era ali maior e mais contínua do que em qualquer outra província do Império.

Não teria sido, pois, por mero acaso que Avídio Cássio, sírio de nascimento, o mais
eficiente e famoso general de Marco Aurélio, tentara, ao tempo em que governava a Síria,
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usurpar-lhe o trono. As excepcionais condições desta província deveriam bem ter lhe
incitado à ação e alimentado os seus devaneios.

Lembremos, ainda, que foi de Êmeso que Septímio Severo levou para Roma sua segunda
esposa, a síria Júlia Domna. Atribui-se, como já vimos, às reuniões por ela promovidas em
seu palácio, nas imediações do Forum, às quais compareciam filósofos, poetas, retóricos e
toda classe de intelectuais da época, papel eficiente na introdução de hábitos e idéias
orientais na parte ocidental do Império. Além disso, a partir do governo de Septímio
Severo, nascido no norte da África, em Leptis Magna, falando melhor o siríaco que o latim,
passaria o Império Romano a ser governado por semitas, por mais de três décadas, pois
tanto Júlia Domna como Papiniano, prefeito do Pretório ao tempo de Caracala,
Elagábalo, Alexandre Severo e, finalmente, Ulpiano, prefeito do Pretório no reinado
desse imperador, todos nasceram na Síria.

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Por essa época, já decresciam o prestígio e a conseqüente influência do racionalismo grego
sobre a população culta do Império e se tornava grande a busca aflita pelo sobrenatural. Os
antigos deuses, em verdade, já não satisfaziam os homens. E, nesse tempo, tanto
Clemente de Alexandria como Orígenes, como já dissemos, muito iriam se esforçar para
justificar o cristianismo, utilizando para isso o bom conhecimento que tinham da filosofia
clássica. A tal ponto se tornou, então, intensa a luta de idéias entre cristãos e
neoplatônicos, que a obra de Orígenes, filósofo de formação grega mas ao mesmo tempo
um dos mais ardorosos defensores da nova religião, é considerada, por essa circunstância,
da máxima importância para a exata compreensão da história da formação e do
desenvolvimento do cristianismo. P. Boehmer e E. Gilson referem-se a ela, em sua
História da filosofia cristã, como “a mais discutida das de todos os padres da Igreja”,
principalmente por haver Orígenes, como afirmam, ido buscar, “espontaneamente, o
auxílio da filosofia grega” e perfilhado “elementos helênicos dificilmente conciliáveis com o
cristianismo”, enquanto argumentava em favor dos princípios básicos da doutrina cristã e
atacava, duramente, o paganismo, concluindo com a afirmação de haver sido, realmente,
“impossível que a filosofia e a cultura gregas, conscientemente assimiladas, tivessem
deixado de influir, profundamente, no seu sistema”.

Durante esse mesmo período, devemos ainda registrar o surgimento e a valorização de uma
nova classe social: a dos eqüestres, constituída por elementos ligados às forças armadas e
nelas exercendo postos de comando. Classe esta que logo se contrapôs, na influência
exercida, à antiga nobreza senatorial.

Na esfera econômica, a situação se tornara extremamente grave. Os campos haviam sido


abandonados e crescia o êxodo dos seus habitantes em direção às cidades. Foi esse
também o período da formação de grandes latifúndios, com produtividade agrícola
extremamente baixa. Donde a falta de alimentos e uma vertiginosa alta de preços,

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estimulada por uma desvalorização muito rápida das moedas circulantes.
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Cresciam, contudo, os centros urbanos, ainda que não oferecessem condições razoáveis de
existência aos que os habitavam. A classe média se pauperizava e aumentava o número de
miseráveis. Por outro lado, aumentavam as despesas do Estado, enquanto diminuíam as
rendas públicas. Foi em vão, portanto, que se elevaram os impostos cobrados, pois era
sempre menor o número de pessoas capazes de pagá-los, pelo que se passou a admitir seu
pagamento em espécie ou em trabalho, O Estado intervinha, então, em todos os setores,
visando alcançar soluções imediatas, mas quase sempre fracassava nas suas intenções.

O Império já se evidenciava, então, um organismo débil e incapaz de longa sobrevivência A


nova divisão em classes da sociedade, os particularismos regionais exaltados, o conflito de
crenças religiosas, o papel especial assumido pelas forças armadas, todos esses fatores
concorriam para a explicação dessa debilidade.

A anarquia militar (235-268)


Com a morte de Alexandre Severo se inicia, na história de Roma, o período chamado de
anarquia militar. Foi uma época confusa, marcada pela insegurança, tanto dos governantes
como dos governados, por Constantes e sucessivos pronunciamentos das legiões, que
depunham ou aclamavam, à sua vontade e aos menores pretextos, os imperadores. Em
cerca de 50 anos, 39 imperadores se sucederam. Só seis escaparam à morte violenta.

Maximino, comandante das legiões da Panônia, substituiu Alexandre Severo no governo


do Império. Teve, porém, para assegurar seu posto, de enfrentar as legiões comanda das
por outros pretendentes ao trono. Entre eles, Gordiano, procônsul da África,

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aliado a seu filho Gordiano II, ambos apoiados pelos grandes proprietários de terras
daquela província, e ainda Pupiano e Balbino, sucessivamente aclamados imperadores
pelo Senado de Roma, após a ação da III Legião Augusta, que sufocou a revolta na África e
eliminou seus comandantes. Nessa luta, envolvendo os pretendentes ao trono antes
ocupado por Alexandre Severo, em apenas 99 dias, cinco deles foram assassinados:
Gordiano, Gordiano II, Maximino, Pupiano e Balbino. Sendo, então, aclamado
imperador, Gordiano III, com apenas 13 anos, sustentado pelo Senado, que tentava, de
modo desesperado, recuperar o controle do governo do Império.

O novo imperador teve, de imediato, de enfrentar os godos, que haviam atravessado as


fronteiras do Danúbio, e os persas sassânidas. Contidos os germanos, partiu para a Ásia,
onde, por sua vez, foi também assassinado pelos seus comandados, por instigação do
prefeito do Pretório, Felipe, o Árabe, que se fez, logo após, proclamar imperador.

Sob o novo governo ocorreram, ainda, invasões dos germanos. Vitorioso sobre os mesmos
pôde, então, o imperador comemorar, em 247, com grandes festividades, o milenário da
cidade de Roma. Continuaram, contudo, os godos, a ameaçar a segurança do Império, nas
fronteiras do Danúbio; e Felipe, o Árabe, enviou para lá, a fim de combatê-los, Décio,
senador e comandante das legiões da Ilíria, que conhecia bem a região, pois lá estivera
durante cinco anos, exercendo o cargo de legado da Mésia Inferior.
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As legiões por ele agora comandadas recusaram-se, contudo, à luta contra os godos, e
muitos legionários chegaram a desertar das fileiras romanas. Os que nelas permaneceram
decidiram então proclamar Décio imperador; e com eles marchou Décio não contra os
germanos, mas contra Felipe, o Árabe, enfrentando-o em combate e infligindo-lhe uma
séria derrota. Em seguida mandou assassiná-lo, passando a ocupar o trono do Império.

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Responsabilizando os cristãos pela agitação reinante, Décio tratou de persegui-los. Foi
curta e violenta tal perseguição. Tornava o imperador obrigatório o seu próprio culto,
punindo com a morte quem não o praticasse, o que resultou em vasto morticínio Décio,
contudo, empenhado na luta contra os godos, cada vez mais dispostos a se fixarem sobre
as terras romanas, morreu em combate contra os mesmos, em 251.

A Décio sucederam Galo (251-253), Emiliano (253), Valeriano (253-260) e Galieno


(260-268). Ao tempo de tais imperadores, os fatos mais importantes foram uma nova
invasão dos persas sassânidas em 252, e a execução, em 258, durante uma nova
perseguição aos cristãos, de Xisto, bispo de Roma, junto com todos os membros do colégio
diaconal. Além disso, enfrentando os persas, foi Valeriano aprisionado pelos seus inimigos
e por eles executado. Era a primeira vez, na história do Império, que um imperador
conhecia tal fim. Os tempos haviam, realmente, mudado.

Sob o governo de Galieno cessaram as perseguições aos cristãos e a crise econômica se


agravou de modo relevante. Já o antonianus, a principal moeda do Império, nada mais era
que uma peça de bronze banhada em prata. Por outro lado, os senadores continuavam
afastados dos comandos militares e o cristianismo se tornara uma religião consentida,
havendo, então, sido restaurados os cemitérios cristãos e reabertos os seus templos.
Quanto aos germanos, insistiam pressionando as fronteiras romanas. Os francos e os
alamanos invadiram a Gália, os godos atacaram as guarnições romanas nas margens do
mar Negro, e ao longo do Danúbio os persas invadiram a Antioquia. Tanto a Dácia como os
Campos Decumates foram ocupados por godos e alamanos. Galieno incumbiu os
comandantes das legiões da Gália e do Oriente da defesa e recuperação das terras
invadidas; e a figura de Odenato, o futuro “rei de Palmira”, irá sobressair no cumprimento
de tal tarefa, fazendo com que os persas recuassem sobre o chão conquistado, bem como a
figura de Posthumus, comandante da Gália.

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As invasões, contudo, se amiudaram. Os romanos haviam sido forçados a se retirarem das
terras da margem direita do Reno e da margem esquerda do Danúbio. Era este um recuo
que bem demonstrava a fraqueza do Império, de tal modo evidente, que já permitia
estarem os godos a pilhar a Ásia, ali saqueando as cidades de Trebizonda, Calcedônia,
Nicéia, Apaméia e Prusea e, mais tarde, as terras da Grécia, onde atacaram as cidades de
Corinto, Esparta, Argos e a própria Atenas. Na realidade, Roma fraquejava e já aceitava a
presença dos marcomanos como povo federado, nas terras da Panônia. Foi durante esse
período que ocorreram as mais sérias tentativas de secessão do Império, com o surgimento
do Império das Gálias (260-273) e do Reino de Palmira (262-273).
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O Império das Gálias


Nas Gálias, Posthumus, encarregado de proteger aquela região contra os invasores
germanos, enfrentou os alamanos, lutando à frente de uma tropa composta por gauleses e
francos, sem qualquer ajuda do poder central do Império. E, após expulsá-los da área
invadida e de haver repelido os ataques por mar, dos anglos e dos saxões, decidiu
proclamar-se imperador. Sentia-se pouco ligado a Roma. Passaria, então, a reinar sobre
uma extensa área que incluía a Bretanha, a Gália, a Hispânia e a Gália Cisalpina. O Império
das Gálias existiu por mais de 13 anos, 8 dos quais sob a chefia de Posthumus, seguido
por Vitorino e Tétricus, até ser reintegrado ao Império, em 273, ao tempo de Aureliano.

Pretenderia, talvez, ser um Estado romano, tanto em sua estrutura como em seu
funcionamento. Representou, no entanto, seu surgimento, o revivescimento do sentimento
gaulês anterior à conquista das Gálias por Júlio César, agora mesclado a valores adquiridos

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da civilização romana. Seria, pois, do ponto de vista cultural, um Estado galo-romano.

O Reino de Palmira
Quanto ao Reino de Palmira, representa uma reação idêntica na forma do seu surgimento,
diversa, no entanto, em função da região onde apareceu. Seria a afirmação de um
sentimento nacional semita jamais destruído apesar da presença das legiões romanas sobre
a área.

Palmira gozava, desde os tempos de Trajano, das prerrogativas de cidade protegida.


Localizava-se quase no ponto extremo das fronteiras de Roma, em situação geográfica tal,
que se tornara a única opção do Império para negociar, diretamente, com o Oriente, sem se
sujeitar às exigências dos persas, que controlavam as rotas terrestres que ligavam a Ásia à
Índia e à China. Através de Palmira, podiam as caravanas alcançar os ativos portos do golfo
Pérsico, onde, por via marítima, eram estabelecidos os contactos com chineses e indianos.

Considerados os maiores comerciantes da época, os palmirenses conseguiram criar uma


civilização original, da qual participaram como elementos culturais formadores, valores
herdados tanto de Roma como da Pérsia, ao lado de outros semitas. Seria, então, uma
cidade, do ponto de vista político, romana; quanto à economia, persa, tal era a ligação de
sua burguesia com aquele Império; contudo, semita, tanto na religião como na etnia.

Odenato, o seu rei, recebera de Roma a incumbência de defender as terras do Oriente


contra os persas e o fizera com tal disposição e coragem que conseguira expulsar os
invasores dos domínios romanos.

O próprio Galieno o distinguira com o título honorífico de Corrector Totis Orientis, em sinal
de gratidão. No entanto,

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provavelmente em conseqüência da sua vitória, passou Odenato a se considerar rei de fato


e não um simples representante de Roma sobre aquelas terras. Tanto que, logo após o seu
grande feito, adotou para si o imponente título de ‘‘Rei dos Reis”.

Com a sua morte, assumiu seu posto Zenóbia, sua esposa, governando em nome do seu
filho Vaballath, ainda menor de idade. Síria de nascimento, bela e culta, governaria ela o
seu efêmero reino com dignidade e brilho, transformando-o num importante centro difusor
de cultura, onde pontificou, entre outros, Longino, célebre retórico grego, para ali atraído
pelo dinamismo que caracterizava a cidade.

Considerando-se semita e não romana, teve ela a coragem de romper, definitivamente, com
Roma, sem aceitar a posição dúbia que ocupara Odenato, a um só tempo rei de Palmira e
vassalo do Império; e, à frente dos seus soldados, tratou de conquistar as terras romanas
do Egito, ocupando Alexandria e a maior parte das terras do Império na Ásia.

Sua ousadia foi, a princípio, tolerada por Aureliano, então imperador. Mas só até o
momento em que Zenóbia resolveu cunhar novas moedas, nas quais em lugar da efígie do
imperador apareciam a sua e a do seu filho, acompanhadas respectivamente dos títulos de
Augusta e Augusto.

Roma despertou para o perigo que representava Zenóbia para a integridade do Império e
enviou seus soldados contra Palmira. Em 273, findava-se o reino. Zenóbia foi capturada,
havendo participado, pela sua fama, da festa do Triunfo de Aureliano, desfilando,
prisioneira, em Roma, coberta de pedrarias e presa a correntes forjadas em ouro.

Galieno e a reforma do exército


Galieno se destaca, na história do Império, como o grande reformador do exército romano.
Compreendendo que a regionalização das legiões constituía o maior obstáculo

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para o seu comando formou um novo corpo de oficiais a ele diretamente ligados - os
Protectores Divini Lateris -, colocando-os à frente de destacamentos altamente treinados
para a guerra, que deveriam deslocar-se, sob as ordens do imperador, para qualquer ponto
do Império onde se tornasse necessária uma ação imediata; uma espécie de tropa de
choque, em termos atuais. Mas o mais importante é vê-los como a primeira expressão de
um exército nacional, livre dos condicionamentos provinciais ou da influência pessoal dos
comandantes das legiões, quase sempre as dirigindo visando atender interesses pessoais.

Foi, pois, a partir de Galieno que passaram a existir, em Roma, dois exércitos: o dos
limitanei, também denominado dos ripenses ou riparienses e o dos comitatenses, mais
conhecido como o dos “companheiros” do imperador. Os efetivos militares haviam então
duplicado, e chegavam a 600.000 homens. Incluiu ele, ainda, nas forças armadas, alas de
cavaleiros - os vexillationes -, dando à cavalaria uma importância que em pouco tempo
rivalizaria com a da infantaria, arma tradicional dos romanos. Além disso, determinou a
construção de muralhas defensivas em torno das principais cidades do Império, tal era a
insegurança da época, com as incursões freqüentes dos germanos.
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Os imperadores ilírios (268-285)


Com a morte de Galieno, assassinado em 268, assumiu o poder Cláudio II, denominado o
Gótico, pela sua espetacular vitória sobre os godos em Naíssus; e, a seguir, Aureliano, O
restaurador da unidade imperial. Foi ele que, tendo reconhecido a debilidade do Império e,
com isso, a impossibilidade concreta de recuperação da Dácia, então ocupada pelos godos,
decidiu cedê-la, em definitivo, a esse povo. Prosseguiu, ainda, com a construção de
muralhas em torno das cidades romanas, continuando a obra de Galieno.

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Tentou, também, restaurar o prestígio da Monarquia e incentivou, por todas as maneiras, o
culto monoteísta do deus Sol, a fim de opor-se à influência crescente do cristianismo.

Assassinado em 275, teve como sucessores, na ordem que se segue, Tácito, Floriano,
Probo, Caro, Numeriano e Carino. Todos eles provindos da Ilíria, imbuídos de um forte
ideal de romanidade, militares afeitos à luta contra os germanos e decididos a afastá-los, a
qualquer preço, das terras do Império.

Em 284, no entanto, no governo de Carino, as legiões sob o comando de Diocleciano se


rebelaram, proclamando-o imperador. E, com a sua vitória sobre Carino, iniciou- se uma
nova fase na história de Roma. Torna-se necessário, contudo, analisar com maior cuidado,
embora a longos traços, a situação do Império nesta ocasião.

A crise econômica, que vinha de muito tempo, se agravara. Principalmente no que se refere
à produção de alimentos. Quanto à população, decrescera em conseqüência das guerras, da
fome e das epidemias. A rede de transporte do Império, antes tão eficiente, se deteriorara,
por falta de manutenção. As cidades estavam, agora, transformadas em praças militares
protegidas por muralhas contra as incursões dos bárbaros e altamente debilitadas quanto às
suas funções comerciais. A moeda continuava em franca desvalorização, enquanto os
preços prosseguiam em alta Constante, tornando-se insuportáveis para a maior parte dos
habitantes. Ainda mais porque tal alta se fazia acompanhar por uma elevação contínua dos
impostos. Por outro lado, as despesas públicas cresciam de modo desmedido, dado o
caráter militarista e dirigista do Estado. Tudo isto, afinal, gerando uma especulação
desenfreada e alimentando a possibilidade de uma concentração exagerada de bens nas
mãos de uns poucos privilegiados, enquanto se empobreciam, numa rapidez
impressionante, as classes médias urbanas e rurais do Império.

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Donde o surgimento, por essa época, dos movimentos denominados bagaudes,
principalmente nas Gálias e na Hispânia, que nada mais eram que ações de pilhagem e
banditismo a cargo de camponeses tornados miseráveis e que procuravam, desse modo,
garantir a própria sobrevivência. Atacavam, então, as propriedades dos grandes senhores e
as pequenas cidades, saqueando-as e incendiando-as, quase sempre.

É verdade, contudo, que a pressão dos germanos sobre as fronteiras de Roma havia
diminuído desde a batalha de Naíssus, travada ao tempo de Cláudio, o Gótico, quando
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sofreram os godos uma amarga derrota. Mas é certo também que, a essa época, fortes
contingentes de germanos já habitavam as terras do Império, na condição de escravos,
mercenários ou colonos, constituindo o que alguns historiadores denominaram de barbárie
interna, contraposta aos bárbaros que continuavam a viver além das fronteiras de Roma.
Esta barbárie interna irá, mais tarde, desempenhar papel dos mais importantes, mesmo
antes do momento das grandes invasões.

Do ponto de vista das crenças religiosas, foi esta a fase em que mais se opuseram as idéias
cristãs às do neoplatonismo, do qual foram as maiores expressões Plotino e Porfírio.

De referência a Plotino, assinalemos haver sido a figura máxima do neoplatonismo. Egípcio


de nascimento, discípulo de Amônio Sacca, o fundador da escola, radicou-se em Roma,
provavelmente em 244, durante o governo de Galieno. Quanto a Porfírio, seu biógrafo,
natural de Tiro, prosseguiu sua obra e evidenciou-se como um dos mais ardorosos
defensores dos seus princípios e opositores dos cristãos.

Rodolfo Mondolfo, em O pensamento antigo, considera o neoplatonismo como “expressão


máxima do sincretismo religioso”, vinculando-o, nos seus primeiros momentos, aos
ensinamentos de Plotino e denominando o período

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relativo aos séculos II e III como alexandrino-romano; dando-lhe prosseguimento, através
da atuação de Jâmblico, Juliano e Hipátia de Alexandria, no decurso dos séculos IV e V,
período por ele denominado sírio; registrando, afinal, seus últimos tempos, com Proclo, em
meados do século V, durante o período que designa como ateniense.

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2 - O BAIXO IMPÉRIO “TOTALITÁRIO”

Diocleciano e a Tetrarquia
Vencido Carino, Diocleciano se tornou o novo imperador, promovendo, de imediato,
profundas reformas no Império, visando salvá-lo de um fim que se prenunciava próximo.
Reinou durante vinte anos e conseguiu devolver certo alento às elites romanas já
descrentes e pouco interessadas no seu próprio destino, através da adoção de um sistema
de governo autoritário onde se consagrava ao Estado todos os esforços e se negava ao
simples cidadão quase tudo.

Reconhecendo, desde logo, a impossibilidade prática de governar, sozinho, todo o Império,


imaginou Diocleciano uma fórmula através da qual dividiria com outro imperador as
tarefas de sua administração: a Diarquia. Logo depois alterou-a, para incluir mais dois
governantes e instituir a Tetrarquia.

A partir de então, passaram a existir quatro imperadores, dois deles portando o título de
Augustos e os dois outros o de Césares, cabendo a esses últimos substituírem os Augustos,
em caso de sua morte ou após decorridos vinte anos de seus governos.
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Diocleciano e Maximiano foram os primeiros Augustos, tendo como Césares,
respectivamente, Galério e Constâncio Cloro. Diocleciano se estabeleceu em Nicomédia,
administrando as províncias do Oriente, sendo o único dos governantes com o direito de
legislar e nomear governadores ou cônsules. Maximiano governou, com sede em Aquiléia,
as províncias da Itália, África e Espanha. Quanto aos Césares, Galério, com sede em
Sírmio, administrava as províncias entre o sul do Danúbio e o mar Negro, ou sejam, a
Trácia, a Tessália e a Panônia; enquanto Constâncio Cloro era o responsável pelo governo
das Gálias e da Bretanha, dirigindo-as da cidade de Tréveris.

Tal divisão não escondia, contudo, o predomínio de Diocleciano, monarca absoluto, no


melhor estilo dos chefes de Estado orientais, encarnando “a lei viva acima das leis escritas”,
na realidade, o supremo soberano. A fim de garantir a cooperação e a fidelidade dos seus
companheiros, tratou Diocleciano de reforçar os laços que os ligavam. E desse modo
promoveu o casamento de sua filha Valéria com Galério, e de Teodora, filha de
Maximiano, com Constâncio Cloro; ao mesmo tempo, tanto ele como Maximiano
adotaram como filhos, respectivamente, Galério e Constâncio.

O sistema por ele imaginado tinha objetivos bem nítidos: visava garantir a unidade
territorial do Império pela permanência, eficiência e integridade do poder imperial; para
atingi-los, tratou de implantar as reformas que julgou necessárias.

Em primeiro lugar, a fim de preservar a unidade cultural de Roma, em decadência


marcante, buscou revigorar as velhas tradições do Império, rejeitando o cristianismo e
perseguindo os seus adeptos, ao mesmo tempo em que incentivava o retorno ao culto dos
deuses do passado. Impôs, ainda, às províncias do Oriente, o uso do latim, esquecido ou
desprezado pelos seus habitantes. E prestigiou as leis romanas frente às leis locais, o
Direito escrito frente ao dos costumes, declarando-o base para todas as

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demandas judiciais. Buscava, assim, a ressurreição do antigo espírito do Império.

Do Ponto de vista administrativo, objetivando uma distribuição ampla de cargos, dividiu o


Império em 101 províncias, agrupadas em doze dioceses, por sua vez reunidas em quatro
prefeituras. Seriam as províncias dirigidas por governadores por ele escolhidos nas classes
dos senadores e eqüestres. Quanto às dioceses, seriam administradas por vicários,
subordinando os governadores das províncias No que se refere às prefeituras, estariam a
cargo de prefeitos do Pretório, diretamente ligados ao imperador.

As Gálias, a Itália, a Ilíria e o Oriente eram as quatro prefeituras. Havendo, contudo, o caso
especial da cidade de Roma e, posteriormente o de Constantinopla, administradas por
prefeitos urbanos (prefecti urbi), escolhidos entre os membros do Senado.

Ao lado de tais autoridades, existiam os duces, comandantes de legiões, atuando ao lado


dos governadores respeitada, no entanto, a separação entre o poder civil e o militar.
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Quanto à defesa do Império, continuava a existir a divisão estabelecida, desde Galieno, das
forças armadas em dois exércitos - o dos limitanei e o dos comitatenses - cabendo aos
tetrarcas a manutenção das legiões estabelecidas sobre os territórios que governavam. Nas
legiões das fronteiras, contudo, prosseguia o fato, já assinalado, da diminuição gradativa
dos efetivos romanos e da ampliação conseqüente dos efetivos germanos. E em relação ao
soldo que lhes era pago, tornara-se mais freqüente o pagamento em forma de “tratos de
terra”, o que transformava, gradativamente, os soldados em agricultores.

Já em face das dificuldades existentes para preencher os efetivos militares necessários


passaram-se, então, a adotar novas formas de recrutamento - por hereditariedade, por
imposição do imperador ou por incorporação forçada de elementos germanos. Uma nova
aristocracia, a militar, passava a ser sempre mais influente. E, quanto aos povos bárbaros,
muitos dos alinhados ao longo das fronteiras já haviam adquirido a condição de

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povos federados. A única ameaça séria à integridade do Império, nessa ocasião, havia
ocorrido na Bretanha, com a secessão de Carausius, que se proclamou imperador da
Bretanha, em 286, sendo derrotado, dez anos depois, pela ação militar de Constâncio.

A política fiscal de Diocleciano


Na esfera econômica as reformas impostas por Diocleciano foram mais efetivas,
principalmente pela reformulação da política fiscal. A anona, taxa cobrada a todos os
cidadãos proprietários, em épocas excepcionais, e destinada ao sustento dos soldados e
oficiais, foi substituída pela capitatio, cobrada, indistintamente, a todos os cidadãos, em
caráter permanente, tanto em dinheiro como em produtos naturais, ou através da prestação
de serviços, tais como o transporte dos produtos arrecadados para o celeiro do governo e a
conservação das vias públicas.

Para sua cobrança foi criada uma nova classe, a dos curiales, escolhidos no seio da alta
classe média urbana, cabendo a grandes proprietários o exercício dessa cobrança sobre os
seus próprios domínios. Graves problemas resultaram, contudo, desse sistema, quer pela
incapacidade real de pagamento pelos devedores, quer pela corrupção dos encarregados de
arrecadá-lo, visando, quase sempre, o enriquecimento que ao fiel cumprimento da missão.

Em verdade, as exigências fiscais já haviam ultrapassado, em muito, a capacidade de


pagamento dos setores produtivos da sociedade. E ainda mais grave se tornava a situação,
pela concessão freqüente, por parte dos imperadores, de privilégios, isentando
determinados grupos de pessoas de tal obrigação.

As classes mais atingidas pela crise econômica foram, além do proletariado, a classe média
urbana, dedicada ao comércio e ao artesanato, e a classe média rural, integrada

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por pequenos e médios proprietários que se endividavam de modo crescente.
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Disto resultava o esvaziamento cada vez maior dos campos, com a fuga dos agricultores
para as cidades ou até mesmo para o seio das comunidades germanas estabelecidas fora
das fronteiras do Império, visando, livrarem-se da escorcha fiscal dos governantes.

Outro sério obstáculo surgiria, contudo, para a execução dessa política: o poder de que
passaram a dispor os grandes proprietários de terras e que lhes permitia enfrentar e
desafiar a força do Estado, negando-se tanto ao pagamento dos impostos que lhes eram
cobrados, como à arrecadação, para o Império, daqueles devidos pelos seus colonos.

Visando contornar tais problemas, Diocleciano adotou medidas drásticas - uma delas
consistia em fixar os agricultores, colonos ou arrendatários sobre as terras que cultivassem,
proibindo-lhes abandoná-las, em quaisquer circunstâncias. E, com essa violenta supressão
da liberdade individual, o homem livre da época se transformou em servo. Surgia a
servidão. Mas foi mais além o novo imperador. Determinou ainda, que os trabalhadores
urbanos deveriam permanecer em suas profissões, sem o direito de abandoná-las, devendo
transmiti-las aos descendentes, em caráter obrigatório. Instituía-se, desse modo, um
sistema de castas até então desconhecido em Roma, com o nítido objetivo de manter
estacionária e imobilizada a estrutura econômica do Império. Criou, também, empresas
estatais monopolistas, objetivando a compra de matérias-primas para garantir o
aprovisionamento das forças armadas. Finalmente, adotou um sistema rígido de fixação de
preços dos produtos agrícolas e manufaturados. Com Diocleciano o dirigismo estatal
alcançava seu ponto mais elevado.

Enquanto isto, os grandes proprietários rurais, os potentiores, negociavam com os médios e


pequenos sua proteção, acolhendo-os em seus domínios na condição

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de colonos ou arrendatários, e recebendo em troca as suas terras. Protegia-os, então,
contra o poder do fisco e da ação dos curiales. Surgia o patronato e crescia, em
conseqüência, o número de colonos protegidos (patrocinium potentiores).

Exigiu, ainda, Diocleciano, ser tratado como um Deus. Sobre as moedas que então
circulavam, as letras D e N significavam Dominus Noster, referindo-se ao imperador. E
todos os seus súditos deveriam, diante dele, ajoelhar-se e beijar a púrpura dos seus
calçados. Era o início da fase denominada Dominado, em oposição ao Principado.

Tentava Diocleciano, a qualquer preço, reconstruir o Império na grandeza e opulência do


passado, mesmo que para isto provocasse a ruína da maior parte dos seus habitantes. E de
certo modo o conseguiu. Roma se fazia, outra vez, respeitar pelos adversários. Ampliando
as reformas que Galieno havia introduzido nas forças armadas, logrou Diocleciano ter à
sua disposição um exército poderoso e obediente.

Foi dele, ainda, que partiu a mais terrível perseguição aos cristãos, da história de Roma, no
seu empenho em restaurar o culto dos antigos deuses e impor o seu próprio às populações
romanas. Quanto à secessão da Bretanha, onde Carausius se proclamara imperador,
reprimiu-a com violência, encarregando Constâncio de submeter os revoltados.
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Tratando-se de um personagem de tal envergadura, surgindo num momento crítico da


história do Império, e se mostrando capaz de restaurar, ainda que por curto prazo, a
grandeza perdida de Roma, será conveniente ouvir o que dele disseram alguns
historiadores. Assim, Rostovtzeff, em sua História de Roma, define-o como “um governante
autocrata que controlava uma burocracia onipotente que impedia qualquer manifestação de
autogoverno, embora professando conservá-lo”. E, quanto aos habitantes do Império,

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o mesmo autor define-os como “uma população de servos, vivendo e trabalhando
principalmente para os objetivos do governo”. Já F. G. Maier, em Las transformaciones del
mundo mediterráneo, descreve desse modo o Império ao tempo de Diocleciano:

No novo Estado, o aparato centralizador do poder, com sua burocracia e seu exército profissional,
estava coordenado pelo imperador, fonte de todo o poder, a quem competia o controle do complexo
funcionamento do conjunto. O cidadão era, então, somente um súdito, cujo primeiro e principal
dever consistia em servir ao Estado e trabalhar para sua manutenção. Além de haver perdido, desde
muito, sua liberdade política, entregava agora sua liberdade social e econômica para assegurar a
ordem e a sobrevivência coletivas. Esta aspiração por organizar, inclusive, a vida social e econômica,
se manteve sempre viva. As intermináveis guerras de fronteira e o aparelho burocrático
Constantemente ampliado elevaram, cada vez mais, as necessidades financeiras do tardio Estado
romano. O estatismo inicial do sistema se transformou, logo, em fiscalismo. A burocracia imperial, ao
tempo em que constituía um instrumento de administração e de poder, era também um meio de
exploração. A corrupção crônica da burocracia não contribuía para melhorar a situação. [...] Este
Estado absoluto foi, em certo sentido, uma criação restauradora. Estabilidade e conservação
constituíam suas metas principais. Através de uma decidida simplificação do aparelho estatal,
embora sacrificando a liberdade pessoal, o mundo romano estava disposto a continuar vivendo sob
novas formas e a defender-se ainda por muito tempo, dos ataques externos. De modo contrário ao
que se poderia supor, esta ordem estatal demonstrou possuir uma incrível resistência e tenacidade.

A abdicação de Diocleciano e Maximiano


Em 305, conforme havia sido determinado, Diocleciano e Maximiano, após completarem
vinte anos de governo como Augustos renunciaram aos seus cargos.

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Assumiram os seus postos os Césares, Galério e Constâncio Cloro, que imediatamente
escolheram novos Césares, respectivamente, Maximino Daia e Flávio Severo.

A morte de Constâncio Cloro, contudo, ocorrida na Bretanha, em 306, tumultuou o


processo. Seu filho Constantino, comandante das legiões naquela província, foi aclamado
imperador pelas suas tropas. E, para conciliar tal procedimento com as normas do sistema,
Galério o reconheceu como César, de Flávio Severo. No entanto, Maxêncio, filho de
Maximiano, foi, na mesma ocasião, proclamado imperador pelos pretorianos. Rejeitada por
Flávio Severo tal proclamação, irá tal rejeição determinar a volta de Maximiano ao
cenário político, em apoio às pretensões do seu filho. Unidos, enfrentaram eles as forças de
Flávio Severo, derrotando-as e eliminando o imperador. Aliaram-se, então, Maximiano,
Maxêncio e Constantino contra Galério, que a essa altura já havia escolhido Licínio para
substituto de Flávio Severo. Mas já Constantino se autoproclamava Augusto. E, para
consolidar sua posição tratou de ligar-se a Maximiano por laços de família, casando-se
com sua filha Fausta.
21

A luta dos seis imperadores


Seis imperadores disputaram, então, o cargo Galério, Maximiano, Maximino, Licínio,
Maxêncio e Constantino —, e se iniciou o processo de eliminação dos pretendentes.
Constantino, após aprisionar Maximiano, determinou a sua execução, mesmo se tratando
do seu próprio sogro. Um ano após, morreria Galério, em 311. Prosseguiria a luta entre os
quatro restantes. Uniram-se, então, Constantino e Licínio contra Maxêncio e Maximino.

Toda a ideologia da Tetrarquia havia sido abandonada e retornava, com toda a força, o
princípio da sucessão hereditária na história de Roma.

40
As forças de Constantino enfrentaram Maxêncio, no combate da Ponte Mílvia em 312,
logrando vencê-lo e eliminá-lo. Logo a seguir, Constantino dissolveu a Guarda Pretoriana
que apoiara o seu rival. E, para reforçar a sua aliança com Licínio, promoveu-lhe o
casamento com Constância, sua irmã. Finalmente, atribuindo a vitória alcançada sobre
Maxêncio à proteção que lhe teria sido dada pelo Deus dos cristãos, decidiu, através do
Édito de Milão (313), em comum acordo com Licínio, reconhecer o direito à liberdade de
culto para os seguidores do cristianismo, bem como determinar a devolução de todos os
bens que lhes haviam sido confiscados em perseguições do passado.

Quanto a Maximino, derrotado na Trácia pelas forças de Licínio morreria logo depois,
excepcionalmente de morte natural.

Constantino e Licínio governaram Roma, sem maiores atritos, de 316 a 323, quando em
razão de sérios desentendimentos se enfrentaram, sendo então Licínio derrotado e
assassinado. Dos pretendentes ao trono do Império, sobrevivera apenas Constantino.

Constantino e o cristianismo
Analisemos o seu governo inicialmente quanto ao papel que passou a ter naquela ocasião o
cristianismo, levando em conta, antes de tudo, o fato de haver sido Constantino o primeiro
imperador convertido à nova religião.

O Édito de Milão é prova da sua simpatia pelo culto. Logo após, em 314, quando do cisma
donatista, na África, através de um sínodo por ele convocado, logrou obter a condenação
dos rebeldes, considerados heréticos, perseguindo-os durante vários anos. Além disso,
desde 315, os símbolos cristãos começar a aparecer nas moedas romanas. E em 323,
quando enfrentou e derrotou as forças de Licínio, em Crisópolis sua posição favorável ao
cristianismo já era bem-conhecida nas províncias do Oriente.

41
Todavia, desde 321, a vida do Império, no que se refere à religião cristã, iria ser
tumultuada pelo surgimento da doutrina arianista que provocou a divisão do cristianismo da
época, gerando uma vasta polêmica que acabou por envolver os próprios imperadores.
22

É difícil para o historiador situar, de modo claro, a posição de Constantino frente ao


cristianismo. Analisando o problema, afirma F. G. Maier:

Constantino era extraordinariamente capaz como militar, administrador e legislador, e estava


dotado de uma energia que surgia, por vezes, brutal. Não podia ocultar a estreiteza característica do
soldado nem a debilidade do autocrata frente aos personagens palacianos. Como homem de Estado
era um planificador exigente e flexível em suas idéias. De sua atitude religiosa e de suas possíveis
mudanças sabemos pouco, com certeza. Conhecemos o imperador através das fontes cristãs e
pagãs, que precisamente nesta questão mantinham atitudes parciais. Durante muito tempo, dominou
a brilhante tese de Jacob Burckhardt, segundo a qual Constantino seria em verdade um político
sem religião e amoral, para o qual o reconhecimento do cristianismo constituía um ato de cálculo
frio, visando utilizar a nova fé como fundamento espiritual para a renovação do Império. Esta tese é
hoje insustentável, pois significaria atribuir a Constantino uma visão demasiado profética para sua
época, sobre as possibilidades do cristianismo. Constantino possuía, sem dúvida, uma espécie de
predisposição religiosa e buscou, com afinco, durante muito tempo, a segurança na fé. Começou
sendo adepto do culto do Sol Invicto, para mudar, mais tarde, desta religião militar para um
monoteísmo ligado ao culto de Apolo, o que pouco a pouco lhe conduziu à nova fé. Possivelmente,
chegou a um contacto e confrontação com o cristianismo, sob a impressão das grandes perseguições.

Ao seu tempo, a Igreja já se organizara em patriarcados, dentre eles sendo os mais


importantes os de Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Roma. Aos quais se acrescentou, após
a fundação de Constantinopla, o desta cidade.

42
Seus bispos gozavam de grande prestígio e favores fiscais. Eram também muito Ouvidos
pela População quanto aos problemas que requeres fundamentação religiosa. Mas já existia,
nesse período, uma forte tendência à secularização do clero, em parte atraído pelos
prazeres da vida mundana e pelas regalias que o poder lhe proporcionava Donde haverem,
então, ocorrido as primeiras manifestações de insatisfação no seio da Igreja, com a
fundação de mosteiros para onde partiam e se recolhiam os descontentes, a fim de ali
praticar um cristianismo mais puro e fiel às suas próprias origens Foi neste cenário que
surgiu o grande cisma provocado por Ário, presbítero da Igreja de Alexandria
Quanto à situação econômica do Império ao tempo de Constantino, vemos que, em
conseqüência das medidas tomadas por Diocleciano ocorrera um relativo progresso
principalmente pela intensificação do comércio marítimo, que provocara a recuperação das
cidades. A moeda se estabilizara, e o solidus, cunhado em ouro e instituído por
Constantino, funcionava como a base de segurança do Império, respeitado por todos,
dentro ou fora dos limites de Roma. Crescia, no entanto, a servidão, enquanto a escravidão,
incapaz de atender às exigência da nova ordem econômica, declinava de modo rápido.

O arianismo e o Concílio de Nicéia


Voltando, contudo, ao cristianismo, identifiquemos os principais personagens eclesiásticos
que participaram da questão do arianismo, em primeiro lugar, Alexandre, bispo de
Alexandria, sob cujas ordens se encontrava Ário; a seguir, Atanásio, bispo que substituiu
Alexandre, nessa mesma cidade; Eustáquio, bispo de Antioquia; Eusébio, bispo de
Nicomédia, e Eusébio, bispo de Cesaréia.

Ário afirmava em suas pregações que o Cristo, como Criatura do Pai, não lhe poderia ser
idêntico, faltando-lhe
23

43
inclusive o atributo da eternidade, desde que “houve um tempo em que não existia”.
Subordinava-o, pois, à figura do Pai. Por outro lado, sustentava ser o Evangelho uma
revelação da verdade, mas não a única e definitiva fonte da verdade para os cristãos.

Suas idéias provocaram enorme celeuma e discussões. E em 318 foi ele expulso da
comunidade cristã de Alexandria pelo bispo Alexandre. O que não impediu que
continuasse as suas pregações.

Frente a tal situação, decidiu Constantino convocar um grande concílio, em 325, na cidade
de Nicéia, para resolver a questão. Foi o primeiro concílio universal da Igreja. Reuniu 220
bispos, na maior parte provindos do Oriente, de 20 de maio a 25 de julho, e nele Ário
defendeu-se das acusações e sustentou a posição assumida. Mas, apesar do apoio que
recebeu de Eusébio de Nicomédia e Eusébio de Cesaréia, suas idéias foram conside-
radas heréticas, havendo sido então excomungado e condenado ao desterro, sendo a
mesma pena de desterro também aplicada a Eusébio de Nicomédia, por tê-lo defendido.

Firmava-se, naquela ocasião, a doutrina oficial do cristianismo, segundo a qual existe uma
identidade perfeita entre Pai e Filho, desde que o Filho é “da mesma substância que o Pai”.

Logo a seguir, contudo, Constantino, talvez temeroso da repercussão da punição imposta


aos dois sacerdotes dissidentes, revogou as penas de desterro aos mesmos aplicadas, o que
provocou protestos veementes de Atanásio, bispo de Alexandria, que mais furioso ficou ao
tomar conhecimento de que Eusébio de Nicomédia havia ministrado, em ato público, a
comunhão a Ário. E a partir de então assumiu Atanásio uma posição de franco desafio a
Constantino, a quem acusava de traidor da Igreja. O fato é que, apesar da condenação do
arianismo pelo Concílio de Nicéia, a heresia se difundira na parte oriental do Império.

44
E Eusébio de Nicomédia se tornara, a esta altura, o grande líder do movimento herético,
em luta aberta contra Atanásio e Eustáquio.

Novos concílios se seguiram ao de Nicéia. Assim, o de Cesaréia, em 334, e os de Tiro e


Jerusalém em 335. Neles foi reafirmado o Credo de Nicéia e condenado Atanásio por
desrespeito e desobediência ao imperador, condenação esta que lhe valeu o afastamento do
cargo e a pena de exílio para as Gálias, por determinação de Constantino.

Impossível, contudo, será avaliar, de modo preciso, a participação de Constantino nesse


conflito. No entanto, é significativo o fato de, havendo decidido batizar-se em 337, às
vésperas da sua morte, ter escolhido, para ministrar-lhe o sacramento, exatamente um
bispo ariano, Eusébio de Nicomédia.

De qualquer modo, porém, que haja atuado, seu favorecimento ao cristianismo foi
incontestável. Evidenciando se através de atos como a construção de igrejas em Roma,
Constantinopla e Jerusalém, entre elas, a do Santo Sepulcro e a primeira basílica de São
24

Pedro, bem como pela doação feita aos bispos de Roma, para residência episcopal, do
palácio de Latrão, onde habitara Fausta, sua segunda esposa, filha de Maximiano
No que se refere à defesa do Império, consolidou entre 332 e 334, a fronteira do Danúbio,
com suas vitórias sobre os godos. E como marco definitivo do seu governo construiu a nova
capital do Império: Constantinopla, às margens do Bósforo, entre 324 e 330.

A sucessão de Constantino
Morto Constantino em 337, o Império acabou dividido em duas partes, distribuídas entre
seus filhos Constâncio governando o Oriente, e Constante, o Ocidente.

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O primeiro fato importante a ser constatado será o da oposição de crença entre os dois
governantes: Constâncio, professando o cristianismo ariano, e Constante, o de Nicéia. E,
como conseqüência desta situação, teremos a revogação, por parte de Constante, da pena
de desterro imposta a Atanásio por Constantino, o que possibilitou a volta do bispo
rebelde à Alexandria.

Em verdade, a evolução e consolidação do cristianismo assinalam o período de governo dos


filhos de Constantino, com a Constante discussão de questões doutrinárias, e
principalmente pela disputa em que se empenharam, visando a predominância, cristãos
arianos e cristãos de Nicéia. Dessa maneira, em 338, no Concílio de Antioquia, com nítida
maioria de bispos arianos, foi, mais uma vez, renovada a condenação de Atanásio,
novamente substituído, como bispo de Alexandria, por um bispo ariano. Na mesma época já
havia Eusébio de Nicomédia se transferido para Constantinopla, dada a mudança de sede
do governo do Império. Crescia a força do arianismo.

Em 340, no Concílio de Roma, os bispos do Ocidente, formando, agora, a maioria presente,


determinaram a reabilitação de Atanásio e estabeleceram o primado da Igreja de Roma
sobre as demais Igrejas. Firmaram, ainda, o princípio da liberdade da Igreja frente ao poder
do Império, ponto fundamental na história do cristianismo.

Não aceitaram, contudo, as Igrejas do Oriente, particularmente as de Alexandria e


Antioquia, tais determinações. E um ano depois, no Concílio de Antioquia, fizeram os bispos
orientais aprovar outro princípio, o de terem os concílios provinciais o direito de estabelecer
julgamentos com plena independência da Igreja de Roma.

Cresciam, pois, com o correr dos anos, as divergências entre o Oriente e o Ocidente
cristãos. Tanto que, em 343, dois concílios que se realizaram simultaneamente, um em
Sárdica, no Ocidente, e o outro em Filipópolis, no Oriente, concluíram seus trabalhos cada
um deles determinando

46
a excomunhão coletiva e recíproca dos participantes do concílio rival.
Os cristãos nicenos, predominantes no Ocidente, se encontravam, então, firmemente
apoiados pelo imperador Constante, que reintegrava imediatamente, nas suas funções,
após haverem sido depostos por Constâncio, os bispos nicenos; e dava todo o seu apoio a
25

Atanásio Em 350, contudo, morreria Constante; e o Império se reunificou sob o comando


de Constâncio, imperador do Oriente.

Este convocou, em 359, o Concílio de Sírmio, no qual foi a crença ariana consagrada e
imposta a todo o Império. Os bispos nicenos foram perseguidos e o próprio Atanásio se viu
obrigado a fugir para o deserto, a fim de escapar à prisão e humilhação frente aos seus
adversários. Não era, no entanto, tranqüila a situação entre os arianos, pela divisão que
entre eles se estabelecera, no que se refere a posições doutrinárias. Dividiam-se, então, em
vários grupos o dos homusianos que negavam a identidade entre Pai e Filho, mas aceitavam
a similitude substancial entre os mesmos; e o dos anomeanos radicais ao extremo,
sustentando uma completa diferença entre os dois personagens sagrados. Já outro grupo, o
dos homeanos, embora negasse a identidade entre Pai e Filho, aceitava a similitude não-
substancial entre eles.

Juliano e a reação do paganismo


Quando da morte de Constâncio, em 361, já havia cristãos no Senado ou exercendo altas
funções na administração do Império. Parte considerável da alta sociedade romana já a
essa altura se convertera à nova religião. Tal estado de coisas foi bruscamente alterado
durante o curto período do governo de Juliano.

Sobrinho de Constantino, educado por preceptores cristãos arianos, foi nomeado César em
355, e enviado, como governador das Gálias, para a fronteira do Reno,

47
visando repelir os ataques dos germanos. Cinco anos depois, após grandes vitórias
militares, foi aclamado Augusto pelas suas tropas e à frente delas marchou contra
Constâncio, tentando usurpar-lhe o trono. Constâncio, contudo, morreu antes de
enfrentá-lo, o que facilitou as pretensões de Juliano, que passou a ocupar o trono vago.

Havendo abandonado o cristianismo e se tornado, sob a influência dos filósofos da Escola de


Pérgamo, um dos maiores defensores do neoplatonismo, tentou Juliano fazer ressurgir a
antiga religião dos romanos, perseguindo, ainda que moderadamente, os crentes cristãos.
Tal perseguição se evidenciando principalmente pela preterição, na nomeação para os
cargos da administração civil e do exército, dos seguidores do cristianismo. Estimulava,
desse modo e com bastante êxito, a apostasia, que se tornou então freqüente e, somente
excepcionalmente, sua perseguição aos cristãos assumiria caráter de violência.

Não teve, porém, Juliano, tempo suficiente para consolidar sua campanha pelo
ressurgimento do paganismo. Em 363, lutando contra os persas, foi mortalmente atingido,
e a possibilidade do retorno ao culto dos antigos deuses extinguiu-se com ele.

Das forças armadas surgiu o novo imperador, Joviano, que morreria logo após e seria
sucedido por Valentiniano I. Este se associou ao seu irmão Valente para governar o
Império. Governaria o Ocidente. A Valente caberia o governo do Oriente. Paradoxalmente,
não coincidiam nas crenças cristãs que professavam. Valentiniano I era cristão de Nicéia,
enquanto Valente era cristão ariano.
26

Tentemos, agora, rever a situação do Império neste final do século IV. As condições
estáveis geradas pelas reformas empreendidas por Diocleciano e Constantino haviam
permitido um bom funcionamento do sistema político e econômico, com uma maior
eficiência produtiva, podendo mesmo falar-se, em certo sentido, de uma “restauração”

48
(Reparatio Saeculi). Sobretudo na Síria e no Egito, onde floresciam as cidades como
grandes centros de comércio, atraindo para si as rotas de mercadores que partiam do litoral
do mar Negro e atingiam as terras atuais da Rússia, Turquestão e China, e ao longo do mar
Vermelho chegavam à Etiópia e à Índia. Constantinopla se havia tornado, nessa época, uma
cidade importante, verdadeira plataforma de um intenso comércio internacional.

Ao mesmo tempo que se processara tal recuperação, alcançara uma estabilidade monetária
que garantia grandes transações, O solidus convertera-se em base do tráfico monetário Ao
seu lado, o follis, cunhado em cobre, era reservado para os negócios de pequena monta.

Reiniciavam-se contudo, as infiltrações germânicas através das fronteiras. Os francos


penetraram nas Gálias e os godos continuavam cada vez mais agressivos ao longo dos
limites do Danúbio.

Foi nesse momento que, provindos da Ásia, chegaram à Europa os hunos, atacando
inicialmente os ostrogodos já fixados no litoral norte do mar Negro, derrotando-os e
continuando sua marcha no rumo do Ocidente. E em 375 foi o Danúbio transposto, com o
consentimento do imperador Valente, pelos visigodos em fuga, acossados pelos hunos.

Três anos depois, em 378, revoltados com os maus-tratos que lhes davam as populações da
Trácia, onde se haviam fixado, rebelaram-se os visigodos havendo Valente, desde 375
governante único do Império devido à morte de Valentiniano I, marchado para enfrentá-
los, o que ocorreu em Andrinópolis onde foram os romanos derrotados, tendo Valente
desaparecido em meio ao combate. Tal derrota havendo sido, para Roma, de grande
signjficado, pois era aquela a primeira vez em que um imperador morria lutando contra os
germanos sobre o próprio território romano.

Assumiram, então, o poder, no Ocidente Graciano e Valentiniano II, este com apenas 4
anos de idade, ambos filhos de Valentiniano I, sendo o segundo declarado Augusto,

49
mas sem poder algum, dada sua pouca idade. Foi confiado, na ocasião, o Oriente, por
determinação de Graciano, a Teodósio, um militar provindo de uma família cristã da
Espanha. Graciano governaria, a princípio, sob a influência tanto de Teodósio como de
Ambrósio, bispo de Milão; havendo sido este de importância decisiva para sua posição em
favor dos cristãos nicenos e de perseguição aos cristãos arianos do Oriente.

Tendo transferido a capital do Império do Ocidente, de Tréveris para Milão, dali o dirigiu até
383, quando foi destronado pelo usurpador Máximo, que propôs a Teodósio a divisão do
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Império entre eles e mais Valentiniano II. Aceita, de início, tal proposta, Máximo fixou-se
nas Gálias, Teodósio, no Oriente, enquanto Valentiniano II, sob a tutela de sua mãe
Justina, reinou sobre a Itália e a Ilíria. Posteriormente, contudo, decidiu Teodósio
enfrentar Máximo, a quem derrotou em 388, instalando-se então em Milão e deslocando
Valentiniano II para as Gálias, onde três anos depois seria ele assassinado, em condições
nunca devidamente esclarecidas, pelo general franco Argobasto. Havendo surgido naquele
instante um novo pretendente ao torno, Flávio Eugênio, visando ocupar o lugar de
Valentiniano II. Teodósio também o derrotou, em 392, tornando-se a partir de então o
único governante do Império.

Vale acentuar, contudo, que Teodósio passara, de fato, a ser imperador desde quando, em
379, fora proclamado Augusto por Graciano, que lhe confiara o governo do Oriente; mas,
em verdade, a direção do Império esteve desde então em suas mãos, a despeito da
presença, no Ocidente, de Graciano e Valentiniano II, até respectivamente 383 e 392,
anos nos quais foram eles sucessivamente assassinados.

Teodósio
Com Teodósio findou-se a política de tolerância religiosa no Império pela sua obstinação na
defesa do cristianismo niceno.

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Já em 380, através do Édito de Tessalônica, declarava o cristianismo definido em Nicéia a
religião oficial do Império, logrando logo a seguir no Concílio de Constantinopla, em 381, a
reafirmação do Credo ali aprovado e a condenação do arianismo. Daí tendo partido para
uma perseguição sem tréguas aos cristãos arianos, o que resultou finalmente na extinção
da heresia, bem como na total submissão, ao poder do Império, das igrejas do Oriente. Tal
submissão não ocorreu, contudo, no Ocidente, onde Ambrósio insistia em afirmar a
separação entre Igreja e Estado, declarando, ousadamente a independência da Igreja frente
ao imperador. De grande importância é o fato ocorrido em 390, quando, condenando o
massacre de revoltosos ordenado por Teodósio na cidade de Tessalônica, impôs o bispo de
Milão ao imperador penitência pública pelos seus pecados, cumprida por Teodósio, após
seis meses de relutância em sinal de respeito pela Igreja.

Tal atitude define bem a Igreja do Ocidente, em confronto com a do Oriente. Ela irá
concorrer para lhe propiciar uma posição especial na definição dos rumos da história da
Europa, transformando a em personagem importante na evolução dos fatos que ocorrerão
nos séculos à frente.

Deve-se tal atitude, sem dúvida, à ação de Ambrósio que não hesitou em opor-se,
sucessivamente, a Graciano, Valentiniano II e Justina, e ao próprio Teodósio, sempre
em defesa da autonomia da Igreja e da supremacia da moral cristã ante as decisões do
imperador. Donde haver afirmado que “em matéria de fé, pertence aos bispos o direito de
julgar os imperadores cristãos e não aos imperadores o de julgar os bispos”, uma vez que
“O imperador faz parte da Igreja mas não se sobrepõe à Igreja”. E será em razão de tal
atuação que iremos encontrar, no decurso dos anos que se seguiram em oposição a uma
28

Igreja submissa aos imperadores, no Oriente, uma Igreja altiva e independente, e mesmo
rebelde ante as pretensões do Império, no Ocidente.

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No que se refere à segurança das fronteiras, Teodósio conseguiu negociar a paz com godos
e persas, permitindo aos primeiros fixarem-se na Trácia, na condição de federados, sobre
terras romanas, e cedendo aos persas parte substancial da Armênia. Estabeleceu, desse
modo, um período longo de paz, durante o qual houve tranqüilidade e prosperidade no
Império, intensificação do comércio e certo desenvolvimento intelectual, envolvendo,
principalmente, as artes e as letras.

Foram contemporâneos de Teodósio grandes luminares do cristianismo: Ambrósio e


Jerônimo, no Ocidente, Gregório de Nissa, Sinésio de Cirene e João Crisóstomo, no
Oriente; e, quanto às artes, foi na decoração dos templos cristãos que se manifestou uma
ampla renovação, particularmente na elaboração de mosaicos. Sendo também necessário
referirmo-nos aos baixos-relevos que surgem nos monumentos comemorativos, a essa
época, nos quais o imperador aparece menos como um ser humano do que como a
encarnação de um poder máximo sobre a Terra.

Teodósio foi o último soberano de um Império cristão unificado, numa posição na qual se
mesclavam o duradouro e o transitório, a persistência do espírito e das tradições romanas
em meio às transformações que abalavam o Império, anunciando um novo tempo.
Personagem singular, combatia o paganismo, proibia seus ritos, fechava os seus templos,
determinava o fim dos Jogos Olímpicos (393), mas confiava a Temístios, um filósofo
clássico, a educação do seu filho Arcádio; e se defendia o espírito romano cristão com todo
o empenho, favorecia as comunidades germânicas que habitavam as terras de Roma,
proporcionando-lhes a ocupação de postos elevados na administração imperial e nos
comandos das forças armadas; e foi dessa maneira que, ao seu tempo, no Ocidente, o
exército romano esteve sob o comando de um semivândalo, Estilicão, que chegou a casar-
se com Serena, sobrinha do imperador.

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Esta presença e participação dos germanos na vida do Império criaria, a seguir, graves
problemas internos, desde que nas legiões eram eles praticamente a maioria, embora
comandados no mais das vezes por oficiais romanos; e por já formarem, sobre as terras
romanas, grandes aglomerações, tanto nas Gálias como na Panônia e norte da Itália, como
também na Trácia, onde já se encontravam estabelecidos os visigodos desde os tempos de
Valente. Foram, em razão de tal evidência, se tornando cada vez mais freqüentes os
conflitos entre romanos e germanos. Teodósio buscava, contudo, conquistar os bárbaros
para a cultura romana através do cristianismo. Isto iria requerer, porém, longo período de
tempo; e, enquanto a assimilação desejada pelo imperador não ocorria, surgia, com
significação bem grande, um forte sentimento antigermânico no Império, particularmente
no Oriente, havendo aumentado, de modo considerável, após a morte de Teodósio.

53
3 – OS DOIS IMPÉRIOS
29

Honório e Arcádio, filhos de Teodósio, o primeiro com 11 anos e o segundo com 18,
tornaram-se então os novos imperadores, respectivamente, do Ocidente e do Oriente.
Honório, sob a proteção de Estilicão, que ostentava o título de “Protetor do Império”, já
ligado, por laços de família, a Honório, desde que se casara com uma sua prima; havendo
reforçado tal relação ao promover o casamento do jovem imperador com sua filha Maria,
em 398; e após a morte desta, dez anos depois, ainda em estado de virgindade, com sua
outra filha, Termância, não tendo resultado também desse segundo casamento qualquer
descendência. Quanto a Arcádio, no Oriente, esteve, inicialmente, sob a proteção de
Rufino, um general gaulês da inteira confiança de Teodósio, que o indicou para esta
função em seu testamento. Exercera ele o cargo de prefeito do Pretório e possuía grande
popularidade no seio da população de origem germânica de Constantinopla.

O Império do Oriente ao tempo de Arcádio


O principal problema enfrentado pelo novo imperador foi o de manter a política de boa
convivência entre godos

54
e romanos, estabelecida por seu pai. A esse tempo, as circunstâncias haviam elevado o
godo Alarico à condição de líder do seu povo. Defensor intransigente dos direitos dos
godos, tornara-se ele peça fundamental no processo de evolução histórica do Império. Logo
após a morte de Teodósio, daria seguimento à luta iniciada em 378 (quando em
Andrinópolis haviam os godos derrotado as legiões comandadas por Valente).

Caracteriizara-se o governo de Teodósio como um período de paz e entendimento entre as


duas comunidades. A política de favorecimento dos godos adotada por esse imperador
desgostava, no entanto, os intransigentes defensores de uma romanidade em decadência;
mas satisfazia os germanos, que pouco a pouco aprendiam a respeitar e aceitar os valores
romanos. Com a sua morte, contudo, a situação mudara. Não seguiu Arcádio essa mesma
política; e tentaria Alarico, em represália, marchar sobre Constantinopla. Reconhecendo,
no entanto, a impossibilidade de transpor suas muralhas, suspendeu-lhe o cerco e passou a
saquear as cidades da Grécia. A tal ponto se havendo tornado ameaçadora sua ação, que
resolveu Arcádio solicitar ao seu irmão Honório a ajuda militar necessária para contê-la.

Tal apoio lhe foi dado com a chegada ao Oriente, de Estilicão, o poderoso protetor do
Império do Ocidente, retornando, naquela ocasião, da campanha contra o usurpador
Eugênio, que se proclamara imperador em lugar de Valentiniano II. Comandara
Estilicão, nesta luta, as legiões de um Império unificado ao tempo de Teodósio. Preparou
se, então, para enfrentar os godos de Alarico, pretendendo manter sob o seu comando
essas legiões. Foi, contudo, desautorizado a fazê-lo, pois que dele Arcádio exigiu a
devolução das legiões do Oriente, não chegando, pois, Estilicão, a combatê-los E sob a
chefia do godo Gainas foram elas enviadas de volta a Constantinopla.

Ali, temia-se a ambição de Estilicão e falava-se da sua intenção de estabelecer seu domínio
sobre as duas partes do Império.
55
30

Sua condição de meio-romano e meio-vândalo justificava, em parte, tal suposição; e


imaginavam-se, com grande preocupação, as conseqüências de uma provável união entre
ele e Alarico. Enquanto isto, após uma série de tumultos, nos quais talvez se tenham
envolvido os godos comandados por Gainas, foi Rufino, ainda em 395, assassinado e
substituído em seu posto por Cesáreo, de declarada posição pró-germanos.

Um novo personagem passara, a esse tempo, a dispor, em Constantinopla, de grande


influência sobre Arcádio. Tratava-se do eunuco Eutrópio, que se tornara a pessoa de
maior poder na corte do Oriente. Conseguiria ele, após haver rompido com Estilicão, a
quem de início estivera ligado, o afastamento de Cesáreo, passando a ocupar-lhe o posto;
e, ainda, que fosse Estilicão declarado, pelo Senado de Constantinopla, inimigo do Império.

Sua capacidade de influir sobre o imperador era, de fato, enorme; havendo mesmo sido
quem escolheu Eudóxia, filha de um general franco, para esposa de Arcádio. Não teria,
contudo, avaliado corretamente a ambição da imperatriz, que em 399 o afastaria do seu
posto, para exilá-lo e, a seguir, mandar executá-lo. Assumiria, a partir de então, a
imperatriz, o comando das ações, nomeando Aureliano para o posto de prefeito do
Pretório. Iriam juntos, agora, liderar a corrente antigermanista em Constantinopla.

Por essa ocasião e talvez por esse motivo, revoltaram- se os godos sob o comando de
Gainas, e chegaram a ocupar no ano seguinte a capital do Império do Oriente. Desta, no
entanto, logo se retiraram, por haver Gainas reconhecido a impossibilidade de mantê-la
sob seu controle, tal era a animosidade existente na sua população contra os germanos. Ou,
segundo alguns autores, por haverem eles recebido grande soma em dinheiro sob a
condição de abandonarem as terras do Império, o que de fato fizeram sem que houvessem,
contudo, tido a oportunidade de usufruir do prêmio ganho, pois logo após haverem

56
atravessado as fronteiras do Danúbio foram atacados e massacrados pelos hunos.

Aureliano tomou, naquele instante, medidas enérgicas contra os germanos. Em primeiro


lugar, excluindo-os das legiões; e, a seguir, perseguindo-os de várias maneiras, visando
afastá-los definitivamente do país. O antigermanismo fora o vencedor, em toda a linha.
Eudóxja e Aureliano, seus grandes campeões. Contaram, no entanto, nessa luta, com a
eloqüência e a pertinácia de dois grandes nomes da Igreja da época - Sinésjo de Cirene e
João Crisóstomo, este último, então, patriarca de Constantinopla.

Quanto a Alarico, prosseguiria a saquear as cidades da Grécia; e mais uma vez a tática do
suborno tão emprega da pelos orientais funcionou a contento. Além de dinheiro, foi
oferecido a Alarico, por Arcádio, o posto de magister militum na Ilíria, região disputada, a
essa época, pelos dois Impérios e, segundo sugerem alguns historiadores, teria ainda o
imperador do Oriente induzido Alarico a marchar com seus comandados sobre as terras do
Ocidente, onde Estilicão enfrentava a oposição crescente da nobreza romana, que nele
pouco confiava. E, quando em 401 os godos de Alarico atacaram Veneza e logo a seguir
Milão, forçando inclusive a transferência da Corte imperial de Milão para Ravena, foi ele
acusado de conivência dolosa com os invasores. Apesar de havê-los enfrentado em
31

combate, conseguindo, mesmo, aprisionar a mulher e os filhos de Alarico, na batalha de


Pollenzo, em 402.

Em 403, contudo, voltaram os godos ao ataque, sitiando Verona. Vencido Alarico,


decidiram, no entanto, os dois adversários entrar em acordo, o que desagradou o Senado
de Roma. E em conseqüência eclodiu na Itália um forte sentimento antigermânico que
acabou por ocasionar matanças indiscriminadas de famílias godas e vândalas, culminando
com a execução, ordenada pelo próprio Honório, de Estilicão e da maioria dos oficiais
germanos das legiões do Ocidente, em 408.

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Como principais conseqüências desses fatos, tivemos o enfraquecimento das defesas do
Império, com a substituição, no Oriente, dos experientes soldados godos pelos isáuricos, e
no Ocidente, eliminada a maior parte dos oficiais comandantes das legiões, a impossibi-
lidade prática de deter o avanço das forças de Alarico, que logo após invadiam a Itália.

Morreria, contudo, Arcádio, antes do fim da invasão. Dois anos antes da ocupação de
Roma pelos visigodos, desapareceu o imperador, passando o seu lugar a ser ocupado por
seu filho, Teodósio II.

O Império do Ocidente - de Honório a Romulus Augustulus


Enquanto isto, no Ocidente, fora Honório, em 409, destronado por Alarico que obrigara o
Senado de Roma a substituí-lo por Atalo, um senador e pagão convertido ao arianismo, no
ato da posse. Logo depois, porém, surgindo desentendimentos entre ele e Alarico, foi
Honório reconduzido ao trono. Foi quando iniciaram os godos sua segunda invasão, a que
os levaria até a cidade de Roma, por eles ocupada e saqueada em 410.

Dali partiram para o sul da Itália, onde Alarico morreu, naquele mesmo ano, perto de
Cozenza; e os visigodos, então, escolheram para sucedê-lo, seu cunhado Ataulfo, que após
permanecer por mais algum tempo em terras da Itália, deslocou-se com os seus soldados
para o sul das Gálias.

Haviam, contudo, os godos, desde a sua passagem pela cidade de Roma, levado consigo, na
condição de refém, Gala Placídia, irmã de Honório. Veio ela a casar-se, posteriormente,
em 414, com Ataulfo, tornando-se, desse modo, rainha dos visigodos; e assim permane-
ceu, por pouco tempo, pois no ano seguinte foi Ataulfo assassinado, em Barcelona.

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Havendo ela, então, regressado à Corte de Ravena, por solicitação de Honório e
consentimento de Vália, o novo rei dos visigodos.

De retorno ao Império, embora enfrentando a oposição do Senado, que a considerou


traidora da causa romana, Honório promoveu-lhe um segundo casamento, desta vez com
Constâncio, comandante das legiões do Ocidente, de quem teria um filho que viria a
ocupar o trono do Império. Constâncio, no entanto, tentaria destronar Honório, em 421,
não havendo, porém, conseguido manter-se no posto usurpado. Reintegrado ao poder,
32

morreria Honório dois anos depois, em 423. Antes, porém, designara Augusto ao filho de
Gala Placídia com Constâncio, Valentiniano III, proclamado imperador dois anos mais
tarde, com apenas 5 anos de idade, passando o Império a ser, de fato, governado por Gala
Placídia, na condição de imperatriz regente.

O período de governo de Gala Placídia se caracterizou pela rivalidade existente entre ela e
o general Aécio, comandante das legiões do Ocidente. Foi, sem dúvida, um período
conturbado. Visigodos, francos e burgúndios atacaram, por várias vezes, as terras de Roma,
logrando Aécio, com a colaboração dos hunos, povo com o qual mantinha excelentes
relações, afastá-los a cada investida. Isso pelo menos até o momento em que assumiu
Átila o comando dos hunos, em 434. Antes já havia cedido Aécio, em definitivo, a Panônia
aos hunos, que tanto haviam com ele colaborado na defesa do Império. Agora, porém,
tinham deixado de existir condições de diálogo entre romanos e hunos. Foi quando Átila
iniciou sua marcha contra o Império, atacando particularmente a Gália.

A derrocada do Ocidente romano já se iniciara com a desagregação do seu território. Em


primeiro lugar, pela perda da Bretanha, abandonada logo depois de 410, à qual se seguiu a
da Espanha e África, esta ocupada pelos vândalos, em 429. Agora eram as Gálias que
estavam sendo ameaçadas por Átila.

59
Aécio partiu para enfrentá-lo, aliando-se aos visigodos de Teodorico. E conseguiu derrotá-
los, em 451, na célebre batalha dos Campos Catalaúnicos. Retiraram-se, então, os hunos,
das Gálias, se encaminhando para a Itália, onde penetraram saqueando as cidades de
Aquilea, Milão e Pávia, e chegando às portas de Roma, em 452, não a ocupando por
motivos até hoje não bem explicados. Dali se havendo retirado para as terras ao norte do
Danúbio, onde morreu, no ano imediato.

Gala Placídia morrera pouco antes, em 450. Valentiniano III, agora no poder efetivo,
desprezando a amizade e o apoio de Aécio, passou a prestigiar o eunuco Heráclio, que o
instigou contra o general. E o imperador assassinou Aécio com suas próprias mãos, em
454. Um ano depois, contudo, seria, por sua vez, assassinado, juntamente com Heráclio.

Entre 455, data da sua morte, e 476, quando Odoacro, um chefe militar germano, se
proclamou imperador, nove imperadores se sucederam na chefia do Império, dirigido, de
fato, pelos militares. Foram os chamados imperadores fantasmas, escolhidos, em sua
maioria, pelo comandante de milícias Ricimero, um suevo de origem. O último deles
havendo sido Romulus Augustulus, uma simples criança, deposto por Odoacro, em 476.

O Império do Oriente - de Teodósio II à dinastia Leonina


No Oriente, ao lado de Teodósio II, na condição de regente, estaria Antêmio, o prefeito
do Pretório. Mas muito cedo Pulquéria, a irmã mais velha do imperador, conseguiria
afastá-lo do cargo e passaria a ser, na prática, a governante do Império. Foi ela, inclusive,
quem convenceu Atenais, uma grega pagã, a converter-se ao cristianismo e mudar o seu
nome para Eudócia, a fim de casar-se com Teodósio II. Em pouco tempo, porém, iria
estabelecer-se uma grande
33

60
rivalidade entre essas duas mulheres, daí surgindo problemas sérios na administração.
Durante algum tempo governaram juntas, exercendo suas influências sobre o imperador. A
certa altura dos acontecimentos, Eudócia decidiu, no entanto, exercer sozinha o domínio
sobre Teodósio II, havendo-se manifestado, pela primeira vez, de forma mais evidente, o
conflito entre elas, quando do surgimento do nestorianismo.

Pulquéria odiava Nestório, o patriarca de Constantinopla. Eudócia decidiu apoiá-lo. E, em


439, conseguiria afastar Pulquéria da capital do Império. A vitória final de Cirilo, bispo de
Alexandria, contra Nestório, representou, contudo, a derrota de Eudócia, que foi por sua
vez expulsa de Constantinopla em 443, recolhendo-se a Jerusalém, onde permaneceria até
a sua morte.

Enquanto isto, no Ocidente, morto Honório em 423, tentaria Pulquéria a reunificação do


Império, opondo-se às pretensões de Gala Placídia, que defendia os direitos à sucessão do
seu filho Valentiniano III. A solução para o conflito entre o Oriente e o Ocidente foi,
porém encontrada pela promoção do casamento de Valentiniano III com Eudócia, filha
de Teodósio II e homônima da sua mãe.

Durante o período de governo de Teodósio II, ocorreram fatos importantes. Foram


firmados tratados de paz com os hunos e persas, garantindo-se desse modo a segurança
das fronteiras do Império, e reforçadas as muralhas em torno de Constantinopla,
provavelmente sob a influência da tomada de Roma pelos godos de Alarico. Foi, também,
fundada a Escola Cristã de Constantinopla, que se tornaria o maior centro de ensino cristão
dessa época, e organizada a primeira grande coleção de leis romanas, aquela que seria
depois conhecida como o Código de Teodósio. A essa mesma época, surgira uma nova
heresia: o nestorianismo. Devendo acentuar-se o fato de haver concorrido para a
condenação de Nestório e da sua doutrina, pelo Concílio de Éfeso, em 431, a união
estabelecida entre Pulquéria e Cirilo, patriarca de Alexandria,

61
ambos decididos a eliminarem o crescente prestígio do patriarca de Constantinopla.

Com a morte, em 450, de Gala Placídia e Teodósio II, no Ocidente, Valentiniano III
livrava-se da tutela materna, enquanto no Oriente, Pulquéria, após haver assegurado a
sucessão para Marciano, um tribuno militar de menor importância, iria com ele casar-se,
continuando, desta vez como imperatriz de fato, a governar o Império, como já o fizera ao
tempo de Teodósio II. E entre 450 e 457 teria a oportunidade de sustentar a firme posição
de independência do Império do Oriente em relação à Igreja de Roma, que não desistia do
intento de impor-se às Igrejas do Oriente e sujeitá-las às suas ordens.

Desse conflito resultaria o surgimento de mais uma heresia - o monofisismo -,


representando a sua adoção, por grande parte da população do Império, mais que uma
posição a favor ou contra determinados princípios cristológicos, um posicionamento de
34

caráter “nacionalista”, que se caracterizaria como uma demonstração de independência dos


cristãos orientais.

Após a morte de Marciano, em 457, quatro anos depois da de Pulquéria, iniciou-se a


dinastia Leonina, com a ascensão ao poder de Leão I (457-474). Foi ele o primeiro
imperador a ser coroado pelo patriarca de Constantinopla, em solenidade que demonstrava
a associação que se estabeleceria, desde então, entre Império e Igreja. Firmava-se, naquele
instante, o princípio de considerar-se o imperador, o representante de Deus na Terra,
reconhecido pela própria Igreja. Foi também Leão I o primeiro a tentar recuperar, embora
fracassasse em seu intento, as terras da África conquistadas aos romanos pelos vândalos,
em 431. Com a sua morte, face ao prestígio que passara a possuir Zenon, chefe da sua
guarda pessoal de isáuricos e casado com sua filha Ariadne, ocuparia o poder Leão II,
filho de Zenon e neto de Leão I. Reinou ele por muito pouco tempo; e logo após o seu
falecimento reclamou Zenon o trono vago.

62
Teve, contudo, de lutar pelo mesmo durante dois anos, até derrotar Basilisco, o
comandante da fracassada expedição enviada contra os vândalos por Leão I.

Os fatos mais importantes ocorridos durante o governo de Zenon foram: a outorga do título
de patrício a Odoacro, que em 476 havia destronado Romulus Augustulus, o último
imperador do Ocidente, e se declarado rei da Itália; e a publicação do édito denominado
Henoticon, através do qual buscaria, sem êxito, conciliar monofisistas e cristãos
calcedônios. Provavelmente teria também induzido, secretamente, os ostrogodos, sob o
comando de Teodorico, a marcharem sobre a Itália a fim de destronar Odoacro e garantir
para o Império do Oriente a posse das terras do Ocidente; agindo, então, com intenção
diversa da que simulara quando concedera a Odoacro o Patriciado.

Foi a partir dessa época que passaram os historiadores a referir-se ao Império Romano do
Oriente como Império Bizantino, considerando o fato de já haver desaparecido o Império
Romano do Ocidente e continuado a existir apenas o do Oriente, com sede em Constanti-
nopla, com características distintas das que haviam identificado o Império do Ocidente.

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4 - CONCLUSÃO

No Ocidente, entre a ascensão ao poder de Cômodo (180) e a deposição de Romulus


Augustulus (476), três séculos se haviam passado. Através da análise dos fatos e das
transformações ocorridas no mundo romano, tentamos identificar, nesse período,
características próprias, diversas daquelas do chamado Mundo Antigo. Elas foram,
gradativamente, se corporificando, a partir dos últimos anos do século II, e surgiram,
plenas de vitalidade, em meados do século IV, durante o governo de Constantino. E
incorporaram-se afinal, ao sistema econômico, à organização da sociedade e à mentalidade
dos habitantes do Império, de modo definitivo.
35

Mas, enquanto estivermos condicionados pelo conceito de decadência do Império Romano,


seremos incapazes de compreendê-las. Se, ao contrário, adotarmos ponto de vista diverso,
encarando-as, idealmente localizados no seio do próprio Império, sem nos considerarmos
espectadores do processo, viciados, devido a erros de formação, por preconceitos que nos
fazem, inconscientemente, lamentar o fim do mesmo, iremos reconhecer nesse período um
tempo de grandes realizações que marcaram, de modo indelével, a evolução histórica dos
povos do Ocidente.

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Em primeiro lugar, devendo aceitar a idéia de que as elites romanas do século IV não
viveram aterradas ante uma perspectiva de catástrofe. Eram prósperas e confiavam em si
mesmas. Acreditavam ser possível manter-se, ainda por muito tempo, nos postos que
conquistaram, mesmo ante a ameaça dos povos vizinhos, particularmente dos germanos.
Como afirma Peter Brown em seu O fim do Mundo Clássico, no Império do Ocidente a
sociedade e a cultura são (então) dominadas por uma aristocracia senatorial cinco vezes
mais rica, em média, do que os senadores do século I. E as cidades do Império
conheceram, nessa época, uma fase de grande desenvolvimento, como constituem
exemplos as cidades de Óstia e Constantinopla.

O que devemos acentuar, de modo frisante, é a enorme distância que existia entre ricos e
pobres. Nunca havia esta distância atingido tão grandes proporções. Donde a crise
econômica muito grave na parte ocidental do Império. O que explica a tragicidade das
palavras de Salviano, denunciando a degradação moral da sociedade do seu tempo e
chegando a elogiar a moral e o comportamento dos povos bárbaros.

Tais elites, contudo, já não eram constituídas de modo igual ao dos séculos passados. Seus
integrantes eram, agora, bem distintos dos antigos senadores da época do Principado. Delas
participavam provinciais e elementos provindos diretamente das forças armadas, dado o
prestígio crescente da classe dos eqüestres. E pouca ligação existia entre os novos
elementos e a cidade de Roma. Muitos deles nunca ao menos a visitaram. Eram pessoas
ligadas, de modo essencial, às províncias onde haviam nascido e atuado. Todos, no entanto,
interessados em preservar o modo de vida herdado do passado. Havendo, contudo, novas
atitudes e modos de pensar que repercutiam na valorização da pessoa humana, nas crenças
religiosas, nos gostos, nas próprias vestimentas e na arte nova que então surgia.

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As províncias marcavam, afinal, sua presença no conjunto do Império. De certo modo
poderemos dizer que se emancipavam, libertando-se da tutela dos itálicos.
Diremos, ainda, que a civilização romana do século IV foi mais liberal que em outros
tempos, no sentido de propiciar a elementos provindos das classes mais baixas da
sociedade a ascensão social, expressa pela participação dos mesmos na vida pública, tanto
na área da administração como na eclesiástica, nos comandos militares, no campo das
letras e das artes. Persistiam, no entanto, em todos eles, o sentimento de pertencerem ao
Império e o da necessidade de preservá-lo.
36

Dentre as modificações então ocorridas deve ser considerada a mais importante, a da


propagação do cristianismo, tornado religião oficial do Império a partir de Teodósio. Pois
com ele veio a preocupação pelo sobrenatural, através da aceitação da idéia da existência
de um Deus Todo Poderoso, capaz de interferir no mundo dos homens, impondo-lhes Sua
vontade. Um Deus, contudo, de todos os homens, ricos ou humildes. E também a crença
nos demônios, nas forças do mal, tentando induzir ao erro as pessoas sobre as quais
atuassem. Era a vitória do mundo invisível sobre o material. Um mundo que a todos
envolvia e somente poderia ser compreendido e enfrentado com o auxílio da nova religião
que ensinava aos mortais um seguro e adequado modo de convivência com as suas
entidades. E isso se traduz, principalmente, nas manifestações artísticas da época, nas
quais a presença de cenas e figuras ligadas ao cristianismo é dominante.

De tudo isto resulta uma preocupação exagerada pelas questões teológicas, apaixonando
elite e multidão. Desde que todos por elas se interessavam, buscando, desesperadamente,
a salvação de si mesmos após a morte física. Pois que o racionalismo grego se
desprestigiara, a despeito da atuação brilhante dos gnósticos e dos neoplatônicos, da ação
de um prodigioso pensador como Plotino ou da energia e disposição de Juliano, o mais

66
culto dos últimos imperadores de Roma, tentando reviver o paganismo e a filosofia helênica.

No século IV, no Ocidente, a Igreja triunfara e se tornara, na prática, a dirigente das


mentalidades no Império. A atuação de Ambrósio mostra bem isto. Bem como a tese
fundamental da Cidade de Deus, de Santo Agostinho. E acelerara-se o ritmo das
transformações que estavam a ocorrer, tendo ao seu lado, neste papel, a presença cada vez
maior e mais ativa dos elementos germanos infiltrados na sociedade romana, ocupando
altos postos na administração civil e no comando das forças armadas, tais como Estilicão,
Argobasto ou Ricimero.

Os germanos, contudo, assimilando o romanismo, não o conservaram na sua integridade


original. Foram, em verdade, preparando o caminho para os novos tempos que se
acercavam e iriam transformar a civilização do Ocidente numa civilização que continuaria
romana em suas bases, possuindo, no entanto, características diversas, em função da
cultura dos povos habitantes das várias províncias que constituíram o Império do Ocidente.
E a principal evidência desse processo foi o surgimento, na época, do latim vulgar, utilizado
como língua franca, principalmente pelos proprietários, cobradores de impostos e pelos
bispos, do qual se iriam originar línguas dele contudo derivadas: as línguas neolatinas.

Quanto à ordem econômica, será a real incapacidade da maioria dos habitantes do Ocidente
para o pagamento dos impostos que lhes eram, extorsivamente, cobrados que irá não só
determinar o surgimento da agitação nas zonas rurais das Gálias e Hispânia, com as
bagaudes, como também o fortalecimento do poder dos grandes proprietários, os
potentiores, a aparição do sistema da servidão, por intermédio do colonato, a debilitação
dos imperadores e, após a chegada maciça dos germanos, a fragmentação do Império em
remos que procurarão, a despeito de toda uma série de fatores,
37

67
manter o que poderíamos chamar, com propriedade, de uma tardia civilização romana.

Quanto ao Oriente, entre a morte de Teodósio (395) e a ascensão de Heráclio ao poder


(610), pouco mais de dois séculos se passaram. Durante este período, caracterizou-se
o Império Romano do Oriente como o fiel depositário e defensor da cultura e civilização
greco-romana, à qual se integrara, desde Constantino, o cristianismo.

Empenharam-se, por todos os modos, seus dirigentes, por este motivo, e de modo especial
Justiniano, em preservar esses valores. Em verdade, contudo, já estava ali a formar-se uma
nova civilização: a bizantina. Convindo assinalar, então, o fato de, convictos de serem os
continuadores do antigo Império Romano unificado e cristão, incapazes, porém, por várias
circunstâncias, de enxergar as transformações que, ao seu redor, estavam a ocorrer,
continuaram os que o habitavam a denominar-se romanos e a assim considerar-se, sem
poderem avaliar que as características novas que assumiam não mais poderiam, em
verdade, justificar a continuidade no uso da expressão.

Esta é a Antiguidade Tardia, época com identidade própria e de importância decisiva para a
exata compreensão dos tempos medievais e da história do Ocidente.

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5 - CRONOLOGIA

A crise do século III

 Antecedentes - o fim da dinastia dos Antoninos; a dinastia dos Severos 235-238

161-180 Marco Aurélio


161-166 guerra contra os partos
161-175 primeira guerra do Danúbio
175 revolta de Avídio Cássio, governador da Síria
177-180 segunda guerra do Danúbio
180 instituição da Monarquia hereditária
180-192 Cômodo
193 Helvius Pertinax; Dídio Juliano
193-197 a disputa do poder: Septímio Severo, Pescênio Niger e Clódio Albino
193-211 Septímio Severo
194 derrota de Pescênio Niger
195-196 guerra contra os partos
197 derrota de Clódio Albino
197-199 guerra contra os partos
208 guerra na Bretanha
211-217 Caracala
212 a Constitutio Antoniniana
214 guerra contra os partos
217-218 Macrino
218-222 Elagábalo
222-235 Alexandre Severo
227 instalação da dinastia Sassânida na Pérsia
230-233 guerra contra os persas
234 guerra no Reno
235 assassinato de Alexandre Severo
38

 Anarquia Militar (235-268)

235-238 Maximino
238-244 Giordano III
241-244 guerra contra os persas
244-249 Felipe, o Árabe; a paz com os persas
249-251 Décio
250 édito de perseguição aos cristãos
251-253 Galo
253 Emiliano
253-260 Valeriano; guerra contra os persas
258 surgimento do Império das Gálias
260 guerra contra os persas; morte de Valeriano
260-268 Galieno; continuação da perseguição aos cristãos
262 surgimento do Reino de Palmira

70
 Os imperadores ilírios - a estabilização do Império

268-270 Cláudio, o Gótico


270-275 Aureliano
271 construção das muralhas de Roma
273 submissão do Reino de Palmira e do Império das Gálias; restabelecimento da
unidade do Império
275-276 Tácito
276-282 Probo
282-283 Caro; guerra contra os persas
283-284 Numeriano
284 Carino

 O Baixo Império “totalitário”

284-305 Diocleciano
285 a Diarquia: Diocleciano e Maximiano
286 surgimento do Império da Bretanha
293 a Tetrarquia. Galério e Constâncio Cloro como Césares; as novas capitais do
Império: Aquilea, Sírmio, Tréveris e Nicomédia
296 submissão do Império da Bretanha
297-298 guerra contra os persas
303-304 última grande perseguição aos cristãos
305 abdicação de Diocleciano e Maximiano; a crise da Tetrarquia

71
306-337 Constantino
306-324 a disputa pelo poder entre Constantino, Galério, Constâncio, Maximino
Daia, Flávio Severo, Maximiano, Maxêncio e Licínio
306 morte de Constâncio
307 assassinato de Flávio Severo
311 morte de Galério
312 derrota e morte de Maxêncio, na batalha da Ponte Mílvia
313 morte de Maximino Daia
324 derrota e morte de Licínio
325 Concílio de Nicéia
330 fundação de Constantinopla
337 primeira divisão do Império
337-350 Constante, imperador do Ocidente
337-361 Constâncio II, imperador do Oriente
39

361-363 Juliano
363-375 Valentiniano I, imperador do Ocidente
363-378 Valente, imperador do Oriente
378 batalha de Andrinópolis
375-383 Graciano, imperador do Ocidente
381 transferência da capital do Ocidente de Tréveris para Milão
378-392 Valentiniano II, imperador nominal do Oriente

72
379-395 Teodósio
380 chegada de Teodósio a Constantinopla; imposição do Credo de Nicéia ao Oriente;
reconhecimento do cristianismo como religião oficial do Império
383 morte de Graciano, usurpação do poder, no Ocidente, por Máximo
388 derrota de Máximo; instalação, em Milão, de Teodósio
389-390 tratado de paz com os persas
391 volta de Teodósio a Constantinopla
392 assassinato de Valentiniano II
394 unificação do Império
395 morte de Teodósio

 Os dois Impérios

395-408 Arcádio, imperador do Oriente


395-397 revolta dos godos no Oriente
399 fortalecimento do sentimento antigermânico; nomeação de Eudóxia como
Augusta
400 expulsão de Gainas e dos godos, do Oriente
400-409 primeiras incursões dos hunos sobre a Trácia
395-423 Honório, imperador do Ocidente; Estilicão, “Protetor do Império”
401 primeira invasão da Itália pelos visigodos
402 transferência da capital do Ocidente de Milão para Ravena; invasão das Gálias
pelos germanos
407-409 segunda invasão da Itália pelos visigodos
408 assassinato de Estilicão

73
409 invasão da Hispânia pelos germanos
410 saque e pilhagem de Roma pelos visigodos de Alarico
418 reconhecimento dos visigodos como federados sobre as terras da Aquitânia
408-450 Teodósio II, imperador do Oriente
422 tratado de paz com os persas
431 condenação do nestorianismo pelo Concílio de Éfeso
438 publicação do Código de Teodósio
423-455 Valentiniano III, imperador do Ocidente, sob a regência de Gala Placídia
428 ação militar de Aécio contra francos e burgúndios
429 invasão da África pelos vândalos
432 cessão da Panônia aos hunos
435-437 revolta dos bagaudes nas Gálias
439 queda de Cartago
440 concepção da Igreja como entidade monárquica governada pelo papa, ao tempo
do papa Leão I (440-461)
442-448 invasão da Bretanha pelos anglo e saxões
450 morte de Gala Placídia; morte de Teodósio II
451 vitória de Aécio e dos visigodos de Teodorico II sobre os hunos nos Campos
Catalaúnicos
452 invasão da Itália pelos hunos
453 morte de Átila
454 assassinato de Aécio assassinato de Valentiniano III;
40

455 invasão da Itália pelos vândalos


450-457 Marciano, imperador do Oriente, por escolha de Pulquéria
451 condenação do monofisismo pelo Concílio de Calcedônia
455-476 os últimos imperadores do Ocidente governando sob a proteção de generais
germanos
457-474 Leão I, imperador do Oriente
474-491 Zenon, imperador do Oriente
476 deposição de Romulus Augustulus por Odoacro; fim do Império Romano do
Ocidente
478 invasão da Itália pelos ostrogodos de Teodorico
482 publicação do Henoticon; ruptura de relações entre as Igrejas de Roma e de
Constantinopla
491-518 Anastásio I, imperador do Oriente
508-527 Justino I, imperador do Oriente
527-565 Justiniano, imperador do Oriente
528-533 compilação do Código de Justiniano; fechamento da Academia de Atenas
532 revolta de Nika
534 tomada de Cartago por Belisário; destruição do Reino dos vândalos
535 invasão da Itália pelas forças de Belisário; tomada de Roma

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537 consagração da Igreja de Santa Sofia, em Constantinopla
547 consagração da Igreja de San Vitale, em Ravena
552 substituição de Belisário por Narsés, na Itália
554 ocupação do sul da Espanha pelos bizantinos
562 vitória final de Narsés sobre os ostrogodos, na Itália
565-578 Justino II, imperador do Oriente
568 invasão da Itália pelos lombardos
578-582 Tibério II, imperador do Oriente
582-602 Maurício, imperador do Oriente
584 retomada de Córdoba pelos visigodos
602-610 Focas, imperador do Oriente
603 invasão do Império do Oriente pelos persas
610-641 Heráclio, imperador do Oriente

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6 - VOCABULÁRIO CRÍTICO

Adoção: Ato jurídico, com objetivo predominantemente religioso, visando garantir, em determinadas
famílias da sociedade romana, a perpetuação do culto dos antepassados; donde somente haver sido
permitido, inicial- mente, a quem não possuísse filhos. Tornou-se, com o correr dos tempos, ato sem
maiores restrições, tendo sido utilizado, com freqüência, a partir do século II, pelos imperadores, para
assegurar aos por eles adotados o direito de sucedê-los na chefia do Império.
Arianismo: Doutrina surgida no seio do cristianismo, no século IV, pregada por Ário, presbítero da
Igreja de Alexandria, condenada como herética pelo Concílio de Nicéia, em 325. Colocava em dúvida a
identidade entre Pai e Filho, no dogma da Trindade, mediante a afirmação de ter havido um tempo em
que o Filho não existia, pelo que seria o mesmo uma criatura do Pai.
Barbárie interna: Grandes contingentes de povos germanos que viviam, antes mesmo da chegada
dos hunos, na Europa, e a partir daí em maior número, sobre as terras do Império, com o
consentimento dos seus governantes.

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Sua influência e ação foram, para o desenvolvimento dos fatos relacionados com os últimos tempos do
Império Romano do Ocidente, mais importantes que as das hordas que iniciaram a travessia em
massa das fronteiras do Reno, no inverno de 406.
Catacumbas: Denominação dada ao local situado às margens da via Ápia, nos arredores da cidade de
Roma, onde foram escavadas, com a permissão do Império, ao tempo do bispado de Zeferino (198-
217), as galerias subterrâneas do primeiro cemitério cristão construído no Ocidente romano. O termo
passou, posteriormente, a designar cemitérios cristãos com a mesma aparência.
Colonato: Sistema de exploração da terra surgido em Roma nos tempos de Constantino, através do
qual pequenos proprietários de terras foram transformando-se em colonos. Como colonos, não
possuíam o direito de abandonar as terras sobre as quais trabalhavam e que haviam sido por eles
próprios doadas a grandes proprietários (os potentiores), em troca da proteção que eles lhes dariam
contra o poder fiscal do Império.
Concílios ecumênicos: Reuniões contando com a totalidade (ou quase) dos bispos dirigentes das
igrejas cristãs existentes no Império, visando alcançar o acordo da maioria presente, tanto quanto a
questões de ordem doutrinária como a decisões de caráter administrativo. O Concílio de Nicéia, de
325, foi o primeiro concílio ecumênico da Igreja cristã.
Constitutio Antoniniana: Designação dada, na sistemática jurídica romana, ao ato do imperador
Caracala, mais conhecido, posteriormente, como Édito de Caracala. Nele foi declarado serem,
efetivamente, cidadãos romanos (cives romani effecti) todos os homens livres que viviam sobre terras
de Roma (in orbe Romano).

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Crise: Termo aceito por grande parte dos historiadores atuais para designar um processo amplo de
transformações ocorrente no decurso de um determinado tempo histórico. Opõe-se, com freqüência,
nos escritos desses historiadores, ao termo decadência, comprometido pelo seu caráter ideológico.
Curiales: Casta constituída, a partir do século III, nas principais cidades do Império, por participantes
de uma emergente classe média urbana, possuidores de alguma fortuna e encarregados, inicialmente
por designação dos imperadores, do recolhimento dos impostos devidos ao Império. Tal encargo
tornou-se, em tempos posteriores, de caráter hereditário.
Decadência: Conceito de conteúdo impreciso, quase sempre ligado a compromissos de ordem
ideológica e por isso evitado, nos dias atuais, por grande parte dos historiadores. Foi muito utilizado,
durante a Idade Média, pela Igreja, apegada em demasia à idéia do envelhecimento do mundo e ao
desprezo pelos fatos relacionados com a vida terrena. O termo não resistiu, contudo, à racionalidade
dos tempos modernos, apesar das tentativas relativamente recentes, feitas por Spengler e Toynbee,
para revivê-lo e sustentá-lo. Admitimos, neste nosso trabalho, que as sociedades, tanto quanto as
civilizações, não decaem ou declinam; apenas se transformam.
Dominado: Período da história de Roma, imediatamente posterior ao Principado, ocorrente a partir
de quando os imperadores passaram a exigir, dos seus súditos, que estes os adorassem como a
deuses. Costuma-se indicar o governo de Aureliano como o do início do período, pelo fato de haver
este imperador associado ao seu nome, o título Deus et Dominus natus. É possível, contudo, admitir-
se seu começo no tempo dos Severos, cultuados como divindades pela população romana.

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Donatistas: Seguidores do bispo Donato, de Cartago, o qual no século IV passou a negar a validade
dos sacramentos administrados por sacerdotes que, durante os períodos de perseguição aos cristãos,
haviam renegado a sua fé ou se omitido em defesa do cristianismo, retornando, no entanto,
posteriormente, ao seio da Igreja. Tal posicionamento resultou na formação de um movimento
cismático na Igreja cristã daquele tempo, denominado donatismo, condenado como herético em
concílios sucessivos, a partir do de Latrão (313), tendo sido, ainda, fortemente atacado por Santo
Agostinho, durante o século V.
Escola Jurídica de Beirute: Beirute, a antiga Berytus dos fenícios, tornou-se, no decurso dos
séculos III e IV, um centro de altos estudos jurídicos, provavelmente, o mais importante do Império.
Dentre os juristas dele provindos, destacaram-se Papiniano e Ulpiano, tanto por sua competência
como pela influência que exerceram sobre os imperadores da dinastia dos Severos, havendo chegado
a ocupar, nesse período, altos cargos administrativos na hierarquia do Império.
Eqüestres: Proprietários possuidores de certa fortuna, oriundos, em sua maioria, das legiões.
Constituíram, a partir do século III, uma nova classe na estrutura social do Império, formando uma
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aristocracia equivalente à senatorial, sendo tratados pelos títulos de eminentissimus e perfectissimus,


ao tempo de Diocleciano.
Fiscalismo: Prática utilizada por governos despóticos para, através de uma cobrança extorsiva de
impostos, assegurar a manutenção das estruturas sociais e econômicas que os sustentam e,
conseqüentemente, às classes dominantes, o usufruto de privilégios. O fiscalismo constituiu uma das
marcas mais evidentes do Império Romano, nos últimos séculos de sua existência, no Ocidente.

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Gnosticismo: Conjunto de crenças relacionadas com os cultos orientais dos mistérios, objetivando o
alcance da gnose, espécie de iluminação que permitiria aos iniciados o contacto e a comunhão com o
mundo das realidades espirituais — o mundo das idéias, o único real, segundo as concepções de
Platão. Muitos dos gnósticos tentaram, nos primeiros tempos do cristianismo, conciliar o racionalismo
da filosofia clássica grega com os princípios da nova religião. Estiveram, contudo, sempre convencidos
de serem portadores de uma sabedoria mística sobrenatural que lhes propiciava o entendimento
perfeito e exclusivo do Universo.
Mistérios: Designação comum de doutrinas e práticas religiosas que somente os iniciados deveriam
conhecer. As religiões de mistérios foram comuns e tiveram muitos seguidores nos últimos tempos do
Império Romano do Ocidente. Os gnósticos possuíam seus próprios mistérios; mas os mais famosos
mistérios na Antiguidade Clássica foram os de Elêusis, de Mitra, de Dioniso, de Isis e de Orfeu.
Monofisismo: Doutrina pregada por Eutiques, monge de grande prestígio e popularidade em
Constantinopla, no século V. Opunha-se à política religiosa de Flaviano, patriarca daquela cidade. O
conteúdo básico das suas pregações era a afirmação da predominância absoluta da natureza divina do
Cristo sobre a sua natureza humana. Mais pela sua oposição a Flaviano que pelas suas pregações, foi
considerado herege, e os seus escritos e palavras foram condenadas pelo quarto concílio ecumênico
da Igreja, o de Calcedônia, realizado em 451.
Neoplatonismo: Corrente intelectual de cunho filosófico, surgida no século III, em Alexandria, sob a
liderança de Amônio Sacca, sustentada e desenvolvida, a seguir, por Plotino. O neoplatonismo é
considerado, por muitos autores, como uma interpretação panteísta e mística do pensamento de
Platão. Dentre os autores cristãos do século III influenciados pelo neoplatonismo, figuram Clemente
de Alexandria e Orígenes.

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Nestorianismo: Doutrina pregada por Nestório, patriarca de Constantinopla (428). Defendia a idéia
da unidade plena do humano e do divino na pessoa de Cristo. Sua rivalidade com Cirilo, patriarca de
Alexandria, levou-o a ser acusado de heresia, por se haver referido a Maria, usando a expressão Mãe
de Cristo (Christotokos) em vez da usual e consagrada Mãe de Deus (Theotokos). O nestorianismo foi
considerado herético pelo Concílio de Éfeso, realizado em 431.
Patriarcas: Título dado aos bispos dirigentes das grandes Igrejas, nos primeiros tempos do
cristianismo. A partir do Concílio de Calcedônia (451), foram oficialmente reconhecidos os patriarcados
de Roma, Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Jerusalém.
Patronato: Instituição muito antiga na sociedade romana, através da qual se colocavam homens
livres sob a proteção de senhores poderosos (os potentiores). A partir do século III, esta proteção
passou a ter caráter estritamente econômico e a envolver um número crescente de pequenos
proprietários. Ameaçando o poder dos imperadores sobre seus súditos e fortalecendo os grandes
proprietários de terras do Império, foi proibido o patronato, embora sem resultados práticos, por
Constantino e por todos os imperadores que o sucederam, até Justiniano.
Potentiores: Poderosos senhores de terras aos quais recorriam, solicitando proteção, pequenos
proprietários, dando-lhes em troca suas próprias terras, a fim de se livrarem da cobrança extorsiva de
impostos por parte do aparato fiscal do Império.

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Pretorianos: Integrantes da Guarda Pretoriana (Praetoria Cohors), criada por Augusto, aquartelada
em Roma, com a função precípua de zelar pela segurança pessoal dos imperadores. Era comandada
pelo prefeito do Pretório, personagem que chegou a assumir, várias vezes, papel decisivo nas lutas de
sucessão do Império.
Principado: Período da história de Roma que antecede o Dominado e sucede a República, durante o
qual o poder do imperador cresceu de modo a suplantar e mesmo anular o do Senado, instituição que
se tornou, desde então, um instrumento obediente e submisso à vontade dos imperadores.
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7 – BIBLIOGRAFIA COMENTADA

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