Você está na página 1de 10

Sujeito e poder em Foucault e Adorno:

Considerações sobre a mercantilização da cultura e a emergência do autor comercial 

Marco Antônio Sousa Alves 

Resumo: A análise genealógica foucaultiana e a teoria crítica da sociedade frankfurtiana são perspectivas
razoavelmente próximas e contemporâneas. No início dos anos 1980, um debate entre Foucault e
Habermas quase deslanchou, mas, infelizmente, a morte precoce de Foucault fez com que essa
aproximação fosse reduzida a algumas breves considerações. A proposta desta comunicação consiste em
levar adiante esse debate, focalizando especificamente a relação entre sujeito e poder em Adorno e
Foucault. Na perspectiva adorniana, o poder é tratado como algo que debilita ou corrompe o sujeito,
comprometendo sua autonomia. Já na perspectiva foucaultiana, as relações de poder possuem um papel
mais positivo ou produtor. Ou seja, mais do que destruído, o sujeito seria fabricado no seio de
determinados dispositivos de poder/saber. Partindo dessa análise mais geral, pretende-se, em um segundo
momento da comunicação, investigar o aparecimento da figura do autor comercial. Acredito que essa
diferença de abordagem e enfoque fica bem visível na análise do processo de mercantilização da cultura.
Na ótica adorniana, esse processo tende a retirar do sujeito sua autonomia, fazendo dele um consumidor
passivo ou um funcionário da indústria cultural (o autor comercial, que produz mercadorias culturais). Ou
seja, o sujeito tende a ser esmagado e deformado pela máquina do mundo administrado. Já Foucault
prefere privilegiar em suas análises os processos e mecanismos que conformam uma economia de poder e
fazem emergir determinadas posições-sujeito. A função-autor, nesse sentido, emerge na modernidade no
seio de uma dupla apropriação: penal (como alvo da censura e da perseguição real e religiosa) e civil
(como detentor de um direito de propriedade intelectual). Em suma, pretendo investigar como, partindo
das perspectivas de Adorno ou Foucault, somos conduzidos a diferentes maneiras de relacionar poder e
sujeito e como, a partir daí, podemos conceber distintamente a figura do autor comercial.

Palavra chave: Sujeito; Poder; Autor.

* * *

A relação entre a análise genealógica foucaultiana e a teoria crítica da sociedade


frankfurtiana, suas proximidades e distanciamentos, já foi objeto de inúmeros estudos.
Embora sejam perspectivas, em grande medida, contemporâneas, desenvolveram-se


Texto escrito para apresentação no III Colóquio Nacional Michel Foucault: Política, Pensamento e
Ação, que ocorrerá na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) entre os dias 15 e 17 de outubro de
2013. Uma primeira versão deste texto foi apresentada sob o título “O poder produz ou debilita o sujeito?:
considerações sobre a mercantilização da cultura e a emergência do autor comercial a partir de Adorno e
Foucault” no dia 19 de junho de 2013, na FAFICH/UFMG, no I Colóquio de Filosofia e Teoria Social:
Dois Modelos de Teoria Crítica.

Doutorando em Filosofia pela UFMG. Professor da FAJE e da Faculdade Milton Campos. Contato:
marcofilosofia@yahoo.com.br.

1
paralelamente e sem uma verdadeira interação. No início dos anos 1980, algum tempo
após a morte de Adorno (em 1969) e Horkheimer (em 1973), um debate entre Foucault
e Habermas (considerado o grande nome da segunda geração da Escola) quase
deslanchou, centrado na noção de modernidade e no significado da Aufklärung, mas,
infelizmente, a morte precoce de Foucault em 1984 fez com que essa aproximação fosse
reduzida a algumas breves considerações. A proposta desta comunicação consiste, de
certa forma, em levar adiante um debate imaginário ou uma contraposição de idéias
entre Adorno e Foucault. Mais especificamente, pretendo dirigir meu olhar para como a
relação entre sujeito e poder foi abordada por eles.
E por que gostaria de fazer isso? Com qual propósito? Para além de um mero
esforço de clarificação e comparação conceitual (tarefa por si só louvável), meu
interesse em contrapor essas duas abordagens críticas decorre de minha experiência de
pesquisa no doutorado, que oscilou entre uma perspectiva e outra, tentou conciliá-las, e
percebeu, ao final, algumas importantes divergências.
Em suma, gostaria, nesta comunicação, de tratar de duas questões. Primeiro (I),
meu foco será a relação entre poder e sujeito no seio das perspectivas críticas de Adorno
(sobretudo como aparece na Dialética do Esclarecimento) e Foucault (sobretudo o da
fase genealógica). Em segundo lugar (II), pretendo abordar o tema específico de minha
tese, que investiga a emergência da figura do autor na modernidade, procurando detectar
como as diferentes concepções sobre a relação entre sujeito e poder conduzem a
significativas divergências no que diz respeito ao processo de mercantilização da cultura
e à crítica ao autor comercial.

Comecemos por Adorno. Afinal, como o sujeito se relaciona com o poder em


sua perspectiva crítica? Tentarei responder essa pergunta tendo como foco os textos
adornianos dos anos trinta, quarenta e cinqüenta do século passado, voltados
especialmente para a crítica da indústria cultural, o que me permitirá traçar uma relação
mais direta com o tema que será desenvolvido na segunda parte deste trabalho. Sendo
assim, deixarei de lado uma boa parte da produção adorniana de minha análise, como a

2
Dialética Negativa e a Teoria Estética, ambas produzidas na década de sessenta e
características de seu pensamento tardio.
Em linhas gerais, o poder do mundo administrado é geralmente tratado por
Adorno como algo que debilita ou corrompe o sujeito, comprometendo sua autonomia e
autenticidade. Embora Adorno admita que o “princípio de individualidade” sempre foi
repleto de contradições e jamais chegou a realizar-se de fato, é comum, em suas
análises, encontrarmos denúncias a uma suposta degradação ou eliminação do sujeito,
entendido como um indivíduo autônomo (ou ao menos capaz de alguma resistência). Na
Dialética do Esclarecimento, no capítulo sobre a indústria cultural, é dito que “na
indústria, o indivíduo é ilusório [...] o que domina é a pseudo-individualidade [Pseudo-
Individualität]” (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 145).
Mas o que seria essa “pseudo-individualidade”? Esse termo, por si só, faz crer na
existência de algum tipo de individualidade autêntica, não enganadora. De fato, a crítica
adorniana à indústria cultural acentua justamente essa deformação do indivíduo, o
processo de sua progressiva eliminação. Como afirmou em Résumé sobre indústria
cultural, transmissão radiofônica realizada em 1963: “através da ideologia da indústria
cultural a adaptação toma o lugar da consciência” (ADORNO, 2013, n.p.). O efeito dela
é antiiluminista, ou seja, ela incrementa a exploração do “eu-débil” (Ich-Shwäche) e
conduz o gênero humano à sua menoridade, impedindo “a formação de indivíduos
autônomos, independentes, capazes de julgar e tomar decisões conscientemente”
(ADORNO, 2013, n.p.).
Em suma, o eu é enfraquecido, debilitado e não mais resiste às mentiras da
indústria cultural. E, apesar de experimentar sua degeneração em mera coisa ou simples
objeto (seja como cliente, seja como empregado da indústria), o sujeito crê na ideologia
da liberdade e espontaneidade da vida moderna, vivendo uma sensação falsa de
individualidade (cf. DUARTE, 2007, p. 35-36). Esse é o “sujeito do jazz” (Jazzsubjekt)
analisado no texto sobre a regressão da audição, o correlato subjetivo da padronização
da música, aquele que crê na liberdade de seu gosto mesmo quando reage
automaticamente: “gostar de um disco de sucesso é quase exatamente o mesmo que
reconhecê-lo” (ADORNO, 1983, p. 165).
Talvez o “confisco do esquematismo” apresentado na Dialética do
Esclarecimento seja a tese mais forte sustentada por Adorno no que diz respeito ao

3
aniquilamento ou debilitação do sujeito pela indústria cultural. Aqui, Adorno e
Horkheimer parecem ir além da mera afirmação de que o sujeito é incapaz de resistir.
Mais do que isso, o sujeito deixa de agir como sujeito ao receber passivamente produtos
mastigados, já esquematizados. A própria unidade originária da apercepção, o centro do
“eu” kantiano, é posta em xeque. Em suma, o pseudo-indivíduo da indústria cultural não
possui uma verdadeira interioridade. E, no lugar dos conteúdos psíquicos expropriados,
é posta uma espécie de mitologia, que compromete completamente a possibilidade do
conhecimento da realidade (cf. ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 117; DUARTE,
1997, p. 56-59; DUARTE, 2007, p. 65).
Vejamos então, também em linhas gerais, como sujeito e poder se relacionam na
perspectiva foucaultiana. Antes de tudo, convém salientar que não interessa a Foucault
desenvolver uma teoria geral do poder ou do sujeito, e nem uma crítica global deles,
mas sim realizar pesquisas menos ambiciosas voltadas para conjuntos de práticas
culturais específicas. De maneira geral, as pesquisas foucaultianas em canteiros
históricos enfatizam a contingência dos modos de ser do sujeito, voltando seu olhar para
as formas sempre específicas de subjetivação, que estão intimamente relacionadas com
determinadas relações de poder.
Em suma, as formas de subjetivação não são algo invariável, exterior às relações
de poder. Mas não devemos ver apenas o lado negativo ou repressor dessa relação entre
sujeito e poder. As relações de poder possuem um papel mais propriamente produtor. O
poder, sem dúvida, exclui e censura, restringe e deforma, mas também produz. Ou seja,
o poder não é algo que apenas impõe limites e castiga. Ao invés de puramente negativo,
o poder é, sobretudo, positivo, produtivo e transformador: antes de reprimir, o poder
produz o real.
O poder disciplinar, por exemplo, tal como analisado por Foucault em Vigiar e
punir, ao invés de uma destruição, implica, sobretudo, uma fabricação do sujeito (cf.
FOUCAULT, 1975, p. 200, 227). Mais do que “sujeitar” (assujettir), entendido como
um processo de assimilação e domesticação, o poder instaura um processo no qual uma
subjetividade se afirma positivamente, em um movimento propriamente constituinte de
si. Assim, o poder é também produtor de individualidade. Também nesse sentido, a tese
central do primeiro volume da História da sexualidade consiste em rever a “hipótese
repressiva”, baseada em uma mecânica do poder essencialmente da ordem da proibição,

4
da censura e da negação (um grande mecanismo central destinado a dizer não).
Contrapondo-se à tendência crítica da Escola de Frankfurt, Foucault chegou a observar
que, ao invés de destruição ou debilitação do sujeito, o problema tratado no primeiro
volume da História da sexualidade foi o “poder individualizante”, ou seja, o poder que
produz novos sujeitos (cf. FOUCAULT, 1976, p. 18-21, 110-119).
Ao falar em aspecto positivo e produtor do poder, é importante não vermos nisso
nenhum tipo de exaltação do status quo e nem uma mera constatação de seu caráter
inescapável. Ao analisar as mudanças nos regimes de poder e os deslizamentos e
transformações que marcam o funcionamento do discurso e as constituições do sujeito,
Foucault mantém sempre uma perspectiva crítica, o que não significa que alguma tese
revolucionária ou proposta de libertação plena seja apresentada. Essa crítica consiste
mais propriamente em fazer ver sobre quais evidências, familiaridades e modos de
pensar nossas práticas repousam. Como ressalta Foucault, o papel da crítica é “tornar
difícil os gestos simples demais”, problematizando aquilo que, de tão próximo e
arraigado em nossos hábitos e instituições, não conseguíamos perceber e, muito menos,
transformar (cf. FOUCAULT, 2001c, p. 999-1000). Nesses termos, a crítica consiste em
dar a ver aquilo que há de singular, contingente e arbitrário naquilo que nos é dado
como universal, necessário e obrigatório. A crítica é, portanto, provocadora de
mudanças, pois, a partir do momento que passamos a pensar diferentemente, as
transformações tornam-se possíveis e até mesmo iminentes. A possibilidade de “pensar
diferentemente” é sempre preservada, assim como o convite a um esforço permanente
de demolição e refabricação de si. Mas, ao invés de uma “transgressão” (transgression),
trata-se de considerar as possibilidades sempre parciais e provisórias de
“ultrapassagem” ou “liberação” (franchissement), que permitem novas experiências de
pensamento e práticas éticas e políticas inovadoras (cf. CASTELO BRANCO, 2008, p.
212).

II

Nesta segunda e última parte deste trabalho, gostaria de verificar como o


aparecimento do autor comercial pode ser compreendido a partir dessas duas
perspectivas críticas. É preciso salientar que Adorno e Foucault fizeram apenas alguns

5
poucos apontamentos críticos sobre o tema (partindo de problemas distintos, usando
métodos bem diferentes e focalizando épocas e objetos muito diversos). O esforço a ser
realizado aqui não consiste em uma apresentação ou comentário de suas análises, mas
sim, mais propriamente, em pensar com eles e a partir deles (contrapondo-os). Acredito
que a diferença de abordagem e enfoque que indicamos inicialmente na relação entre
sujeito e poder faz com que nosso olhar seja dirigido para problemas distintos e dê
origem a posturas críticas bem diferentes.
Comecemos pela análise da ótica adorniana. Em Crítica cultural e sociedade,
texto publicado originalmente em 1951, Adorno sustenta que a mercantilização da
cultura “completa-se até a insânia” no calculado aparato de distribuição da indústria e
afirma que “inteiramente dominada, administrada e de certa forma cultivada
integralmente, a cultura acaba por definhar” (ADORNO, 1998, p. 15). Na fase
concorrencial do capitalismo (século XVIII), ainda era permitido depositar alguma
esperança na possibilidade de autodeterminação do sujeito. Nessa época, tínhamos ainda
um contexto mercantil simples, no qual a obra tinha apenas a forma de mercadoria (uma
difusão comercial que se apropriava de uma obra autônoma). No século XX, na era do
capitalismo monopolista e do mundo administrado, a mercadoria atingiu o conteúdo das
obras, fazendo dos bens espirituais mercadorias culturais (desde a sua criação a obra é
pensada em função de seu mercado consumidor, de modo que as leis do mercado
penetram na substância mesma das obras, tornando-se imanentes a elas). A obra de arte
perde assim sua autonomia e seu criador deixa também de ser um autor em sentido
próprio (alguém que expressa algo próprio, singular) para se transformar em um
funcionário da indústria ou autor comercial (mero produtor de mercadorias culturais).
Nesse sentido, Adorno ressalta, em Minima Moralia, que a ocupação com coisas
espirituais tornou-se “um negócio marcado pela rígida divisão do trabalho” (ADORNO,
1992, §1), que faz do intelectual um profissional que, além de mal remunerado, “aliena-
se por completo do prazer, através de sua crescente assimilação aos negócios”
(ADORNO, 1992, §84).
Em suma, o processo de mercantilização da cultura tende a retirar do sujeito sua
autonomia e liberdade, fazendo dele um consumidor passivo ou um funcionário da
indústria cultural (o autor comercial, que produz mercadorias culturais). Ao invés de
sujeitos pensantes, capazes de criação e fruição estéticas, os pseudo-indivíduos são

6
passivos e domesticados. São pseudo-autores (funcionários da indústria) que se dirigem
a um pseudo-público (que não possui um gosto próprio). Esse é o jogo do star system,
dos best sellers e dos grandes sucessos musicais: os sujeitos não são os verdadeiros
agentes que fazem a indústria funcionar, mas sim seus objetos (cf. ADORNO, 2013,
n.p.). Em outras palavras, o sujeito é deformado e aniquilado pela máquina do mundo
administrado. Resumindo, a perspectiva adorniana favorece uma crítica do autor
comercial como uma degeneração daquilo que seria o autor em sentido próprio, criador
de obras autônomas que expressa sua subjetividade (típica de um sujeito ainda
pensante).
Por outro lado, a ótica foucaultiana nos leva a outra perspectiva crítica quanto ao
autor comercial. A figura do autor pode ser vista (seguindo as colocações feitas na
conferência de 1969 sobre o que é um autor) como uma posição-sujeito que emerge na
modernidade no seio de uma dupla apropriação: penal (como alvo da censura e da
perseguição real e religiosa) e civil (como detentor de um direito de propriedade
intelectual) (cf. FOUCAULT, 2001a, p. 827). Ao ser apropriado civilmente, o autor é
inserido em um “circuito de propriedades”, sendo sua obra transformada em bem de
consumo. De alguém potencialmente perigoso e alvo de censura e perseguição, o autor
é, aos poucos, domesticado no seio de uma nova economia de poder. A partir do século
XIX, o autor, mais do que um possível herege ou sedicioso a ser vigiado, é assimilado à
sociedade burguesa como um produtor de bens culturais valiosos, um novo herói
nacional.
O que acontece com o autor a partir do século XVIII pode ser equiparado como
outras figuras analisadas por Foucault que emergem nessa época e também apontam
para novas posições-sujeito no seio de uma nova economia do poder. Trata-se de um
processo no qual os indivíduos são assimilados e domesticados pela sociedade burguesa,
transformados em sujeitos úteis e produtivos.
Na História da loucura, Foucault destaca que o pobre não tinha lugar na
economia mercantilista, sendo tratado apenas como o ocioso, o vagabundo ou o
indigente, que deveria ser simplesmente internado. Posteriormente, a nascente indústria
demandava mais força de trabalho e, nesse sentido, os fisiocratas passaram a tratar a
população como um dos elementos da riqueza da Nação, sendo o internamento tomado
como um grande erro econômico. Com o fim de reinserir a população no circuito da

7
produção, os internos passaram a ser divididos entre aqueles aptos a trabalhar,
chamados de “pobres válidos” (pauvres valides), vistos como um elemento positivo na
sociedade, e aqueles inaptos, chamados de “pobres doentes” (pauvres malades),
tomados como uma espécie de peso morto (cf. FOUCAULT, 1972, p. 428-433).
Já em Vigiar e punir, Foucault ressalta como as modificações na tecnologia da
punição estão associadas, entre outras coisas, ao crescimento do aparelho produtivo e ao
aumento demográfico que ocorreram no século XVIII. O novo condenado, o
delinqüente, em vez de um mero corpo a ser supliciado ou um simples alvo da vingança
do rei, é, sobretudo, um bem social, um objeto de apropriação coletiva que deve ser
corrigido e utilizado economicamente (daí o isolamento e o trabalho como princípios da
pena). Em suma, o condenado deve tornar-se uma propriedade rentável. E a prisão,
assim, assume essa nova função: fabricar proletários (cf. FOUCAULT, 1975, p. 128-
129, 144, 254, 281). Não é muito diferente o que ocorre com o autor comercial: de um
criador economicamente inútil e potencialmente transgressor para um funcionário
produtivo e dócil, um “proletário” da cultura.
Assim como o autor é assimilado e feito proprietário (de um bem que é cedido
contratualmente para a indústria explorar no mercado), a literatura é também docilizada
e esvaziada de sua força contestadora. Em uma entrevista publicada no Japão em 1970,
Foucault afirmou que a literatura tornou-se instituição e foi recuperada pelo sistema,
praticando-se hoje nas editoras comerciais e no mundo do jornalismo, sendo sua
pretensa capacidade transgressora “uma pura fantasia” (un pur fantasme). A sociedade
burguesa seria, inclusive, tolerante com relação ao que acontece dentro da literatura,
sendo suas travessuras sempre perdoadas, uma vez que seu poder subversivo foi
digerido e assimilado (cf. FOUCAULT, 2001b, p. 985-986, 992).
E se a figura do autor emerge ao ser apropriado penal e civilmente na
modernidade, podemos imaginar novas figuras que aparecem no século XX com os
mass media e o star system, assim como novas posições-sujeito (ainda de contornos
pouco claros) que estão sendo produzidas no seio da cibercultura e do universo digital
(com suas novas relações de poder e formas de saber). Seguindo a linha genealógica,
parece constituir um instigante campo de pesquisa a análise das relações de poder que
fazem emergir a figura do autor comercial (funcionário da indústria cultural) no seio do
mundo administrado, ou do fornecedor de conteúdos e dos blogueiros na internet.

8
Se seguirmos algumas sugestões foucaultianas, deveríamos, em primeiro lugar,
rejeitar uma análise a partir de grandes formas de dominação (capitalista, burguesa). A
crítica de nosso ser histórico nos termos foucaultianos não tem a forma de uma crítica
ideológica, que denuncia uma suposta deformação ou inversão da realidade, e nem
assume uma postura prescritiva, nem nostálgica, nem catastrófica, nem propriamente
emancipatória. Não se trata de negar completamente a tradição crítica marxista, mas de
defender que os mecanismos que fazem o poder funcionar talvez sejam mais difusos e
diminutos que essa tendência de crítica à classe dominante e aos meios de produção
capitalista estaria disposta a admitir. Em suma, Foucault considera simplistas ou “fáceis
demais” (trop faciles) as explicações em termos de uma dominação da classe burguesa
(cf. FOUCAULT, 1997, p. 27-28). Ao invés disso, privilegia-se uma investigação a
partir de práticas e discursos que, mesmo ínfimos, conformam um dispositivo no qual o
poder funciona de determinada maneira e novas posições-sujeito são abertas.
Além disso, é preciso ver na figura do autor comercial não exatamente uma
aniquilação do “verdadeiro autor” e nem uma deformação daquilo que seria um sujeito
criador autônomo e livre. Esse tipo de abordagem crítica parece pressupor algum tipo de
eldorado perdido e tende a criticar o presente como se fosse uma inversão da realidade,
uma mitificação ideológica. Ao invés disso, a crítica de viés foucaultiana tende a voltar
nosso olhar para a mutabilidade do sujeito, sendo que cada forma historicamente
constituída é envolvida em jogos específicos de poder e formas de dominação. O autor
comercial não é o resultado da aniquilação do sujeito, mas sim da transformação de um
modo específico de ser sujeito. Ele aponta para um novo modo de dominação, talvez
mais refinado e robusto, mas nem por isso total e inescapável. Aqui reside um otimismo
característico do modo de pensar de Foucault: se, por um lado, não há libertação
completa nem eldorado perdido, por outro, como nada é necessário nem natural, resta
sempre a possibilidade de ultrapassarmos as dominações atuais e abrirmos novas
perspectivas éticas e políticas.

* * *

9
Bibliografia

ADORNO, Theodor W. (1983). O fetichismo na música e a regressão da audição. In:


Textos Escolhidos: Benjamin, Horkheimer, Adorno, Habermas (Coleção Os
Pensadores). 2a ed. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, p.
165-191.
ADORNO, Theodor W. (1992). Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada.
Tradução de Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática.
ADORNO, Theodor W. (1998). Crítica cultural e sociedade. In: ______. Prismas:
crítica cultural e sociedade. Tradução de Augustin Wernet e Jorge Mattos Brito de
Almeida. São Paulo: Ática, p. 7-26.
ADORNO, Theodor W. (2013). Résumé sobre indústria cultural. [conferência
radiofônica pronunciada por Adorno na Internationalen Rundfunkuniversität des
Hessischen Rundfunk de Frankfurt, de 28 de Março a 4 de Abril de 1963, depois
incluído no livro Ohne Leitbild: Parva Aesthetica, 1967]. Tradução de Carlos
Eduardo Jordão Machado. Disponível em: <http://www.nupese.fe.ufg.br>. Acesso
em: 11 ago. 2013.
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max (1985). Dialética do Esclarecimento:
fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro:
Zahar.
CASTELO BRANCO, Guilherme (2008). Atitude-limite e relações de poder: uma
interpretação sobre o estatuto da liberdade em Michel Foucault. Verve, n. 13, p. 202-
216.
DUARTE, Rodrigo (1997). Notas sobre modernidade e sujeito na Dialética do
Esclarecimento. In: ______. Adornos: nove ensaios sobre o filósofo frankfurtiano.
Belo Horizonte: Ed. UFMG, p. 45-64.
DUARTE, Rodrigo (2007). Teoria crítica da indústria cultural. Belo Horizonte: Ed.
UFMG.
FOUCAULT, Michel (1972). Histoire de la Folie à l’âge classique. 2a ed. Paris:
Gallimard.
FOUCAULT, Michel (1975). Surveiller et punir: naissance de la prison. Paris:
Gallimard.
FOUCAULT, Michel (1976). Histoire de la sexualité I: la volonté de savoir. Paris:
Gallimard.
FOUCAULT, Michel (1997). « Il faut défendre la société »: cours au Collège de France
(1975-1976). Paris: Seuil/Gallimard.
FOUCAULT, Michel (2001a). Qu’est-ce qu’un auteur? [1969]. In: ______. Dits et
écrits I, 1954-1975. Paris: Gallimard, p. 817-849.
FOUCAULT, Michel (2001b). Folie, littérature, société [1970]. In: ______. Dits et
écrits I, 1954-1975. Paris: Gallimard, p. 972-996.
FOUCAULT, Michel (2001c). Est-il donc important de penser? [1981]. In: ______.
Dits et écrits II, 1976-1988. Paris: Gallimard, p. 997-1001.

10