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Os Amplificadores Operacionais

Excerto do capítulo 3 do livro KraftWerk - Uma interface BCI com o Arduino (título provisório)
de João Alexandre da Silveira

1 - Introdução

As portas lógicas AND, OR e NOT são os blocos básicos da Eletrônica


Digital; os amplificadores operacionais (op-amps) são os blocos básicos da
Eletrônica Analógica. Os op-amps foram criados na época das válvulas
termoiônicas, logo depois da segunda guerra mundial, quando os computadores
analógicos estavam em desenvolvimento. Eram circuitos amplificadores com
realimentação (onde parte do sinal de saída do amplificador é desviada para
a entrada) montados com dois duplo-triodos 12AX7 e alguns resistores e
capacitores. Veja na imagem ao lado como era o K2-W, um op-amp comercial
dessa época montado num soquete octal. O op-amp clássico é chamado de
amplificador diferencial, já que amplifica a diferença entre dois sinais
analógicos em suas duas entradas. É tambem chamado de circuito subtrator porque mostra em sua
saída o resultado (amplificado ou não) de uma operação aritmética de subtração entre duas variáveis.
Mas é um circuito construido de tal forma que suas características de operação podem ser alteradas
pelo tipo e intensidade de realimentação que ele recebe. Modificando o arranjo e os valores dos
componentes do elo de realimentação é possível programar o op-amp para realizar algumas outras
operações matemáticas, como adição, diferenciação, integração e função logaritmica. Foram
portanto os blocos básicos de construção dos primeiros computadores analógicos, como este
mostrado na fotografia abaixo.

Foi somente em 1963 que surgiu comercialmente o primeiro


op-amp com 9 transistores na forma de circuito integrado.
Era o uA702, fabricado pela Fairchild Semiconductors.
Depois surgiram aqueles op-amps que viriam a ser tornar os
clássicos por décadas em qualquer projeto eletronico: o
uA709 e o uA741.

Um op-amp é um amplificador eletrônico com duas entradas


diferenciais, uma inversora e uma não-inversora, e um
terminal de saída referenciado ao mesmo ponto comum
(terra) das duas fontes de tensões simétricas que o
alimentam. A entrada não-inversora é marcada com o sinal
matemático de adição (“+”) e a entrada inversora com o sinal
de subtração (“-”). Veja o símbolo usado nos diagramas
eletrônicos para o amplificador operacional na figura ao
lado. Um sinal analógico aplicado somente na entrada
inversora (com a não-inversora = 0 volts) aparece
amplificado e invertido na saída, ou seja 180º defasado em
relação ao sinal original. O mesmo sinal aplicado somente na entrada não-inversora (com a inversora
= 0 volts) é tambem amplificado mas não sofre na saída qualquer alteração de fase. Um op-amp sem
realimentação, em loop aberto, tem um ganho de tensão muitíssimo elevado, podendo chegar a
1.000.000 (ou 120 dB). O ganho de tensão de um amplificador, simbolizado pela letra “A”, é a divisão
da tensão obtida na saída pela tensão aplicada na entrada. Nos op-amps esse ganho é a relação entre
a tensão de saída e a diferença entre as tensões nas entradas diferenciais.
Só com op-amps conseguimos amplificar os ínfimos sinais
cerebrais que são da ordem de algumas dezenas de
microvolts para níveis próximos de 5 volts de pico para
acionarmos uma entrada analógica do Arduino.
Um amplificador operacional em loop aberto não tem
qualquer aplicação prática, pois seu elevadíssimo ganho de
tensão faz com que ele fique muito sensível, a ponto de
mesmo sem qualquer sinal aplicado às suas entradas o op-
amp fique tão instável que sua saída satura ora em uma
ora em outra tensão de alimentação simétrica sem qualquer controle. Esse problema é resolvido
inserindo-se um resistor entre a saída e a entrada inversora (entrada " - ") do op-amp. Essa técnica
é conhecida como realimentação negativa (negative feedback), onde uma parte do sinal de saída é
desviada para essa entrada do amplificador. Esse resistor é chamado de resistor de realimentação
(feedback resistor - Rf) e faz com que na ausência de sinal nessa entrada inversora a tensão
diferencial se estabilize em 0 volt na saída. Veja na figura ao lado como é um amplificador inversor
com op-amp. Repare que a entrada não-inversora é conectada diretamente à terra e o sinal a ser
amplificado é aplicado na inversora atraves de um resistor de entrada (Rin).

O OP-AMP IDEAL

O op-amp ideal é um modelo eletrônico que tem ganho de


tensão, impedância de entrada, resposta de frequência e
taxa de rejeição para sinais em modo-comum infinitos; e
tambem impedância zero na saída. A taxa de rejeição em
modo-comum (CMRR - Common-Mode Rejection Rate) é a
medida da habilidade do op-amp em rejeitar os sinais que são
comuns a ambas as entradas, como ruídos e interferências
eletromagnéticas.
O ganho de tensão desse tipo de amplificador é dado
pela relação entre o resistor de realimentação e o
resistor na entrada inversora. A tensão de saída é
defasada 180º em relação à entrada, o que é indicada
pelo sinal " - " na formula do cálculo do ganho de tensão:

Av = - Rf / Rin

Vout = Vin * (- Rf/Rin)

Podemos refazer o circuito do amplificador inversor


conectando um lado do resistor Rin à terra e aplicando
agora o sinal a ser amplificado diretamente na entrada não-inversora. Com isso montamos o
amplificador não-inversor onde a tensão de saída está em fase com a tensão de entrada. Essa nova
configuração em loop fechado dá ao amplificador mais estabilidade e muito maior impedância de
entrada que o anterior. Veja a figura ao lado. O ganho de tensão desse amplificador é dado por:

Av = 1 + (Rf / Rin)
Vout = Vin * [1 + (Rf/Rin)]

Ainda nessa configuração se fizermos Rf = 0 e Rin


infinito obtemos um amplificador de ganho unitário
conhecido como seguidor de tensão. Veja a figura ao
lado. Esse tipo especial de amplificador não-inversor
tem impedância infinita (op-amp ideal) e por isso é muito
usado para interfacear circuitos de baixa impedância de entrada e filtros ativos. São tambem
conhecidos como buffers e têm seu equivalente digital no 74LS244, um CI TTL tri-state com oito
desses amplificadores unitários em um só encapsulamento de 20 pinos DIL.

Uma outra configuração pode ainda ser montada combinando agora um amplificador inversor com
um não-inversor para utilizarmos as duas entradas de um op-amp, o amplificador diferencial.

Veja na figura abaixo como fica esse tipo de amplificador. Aqui dois sinais distintos, V1 e V2, podem
ser aplicados nas entradas do amplificador. A saída Vout será a diferença entre essas duas
entradas. Se fizermos R1 = R2 e R3 = R4 a formula para o cálculo dessa tensão de saída é muito
parecida com a do amplificador inversor visto acima:

Vout = R3 / R1 * (V2 - V1)

É importante notar que se V1 > V2 a saída será


negativa; se V2 > V1 a saída será positiva. Os op-
amps têm aplicações em praticamente todos os
campos da Eletrônica Analógica e até em alguns da
Eletrônica Digital. Podem ser usados como
amplificadores de sinais DC de alguns microvolts
provenientes de transdutores de sinais físicos e
eletrodos biomédicos até a banda de radio-
frequência; como osciladores podem gerar formas de ondas senoidais, quadradas, triangulares e
outras, com frequência estabilizada por cristal; como reguladores de tensão em fontes de
alimentação; por serem em essência amplificadores diferenciais os op-amps são usados como
comparadores de tensão e em todas as formas de filtros ativos; em sistemas digitais são usados
como osciladores VFC (Voltage to Frequency Converter), um tipo de oscilador cuja frequência é
função da amplitude de um sinal DC de entrada (conversão A/D), e como circuitos integradores na
conversão D/A.
2 - Por dentro do Amplificador Diferencial

Para entender bem como funciona o amplificador


diferencial precisamos rever o funcionamento do mais
simples dos amplificadores a transistor bipolar, o
amplificador do tipo emissor-comum, visto na figura
ao lado.

O transistor bipolar é em essência um dispositivo


eletrônico amplificador de corrente elétrica. A Física
nos ensina que corrente elétrica é o fluxo de
portadores de cargas elétricas em um condutor (ou
tambem o fluxo de íons em meios eletrolíticos, como
os meios intra e extracelular) provocado por uma
tensão elétrica (ddp) aplicada entre as extremidades
desse condutor. Assim, para amplificar uma tensão, o
amplificador emissor-comum primeiro converte essa tensão em corrente elétrica, amplifica essa
corrente e depois a converte de volta para tensão em sua saída. A tensão de entrada Vin vai
alimentar a malha formada pelo resistor de base Rb e a junção PN base-emissor, fazendo surgir
uma corrente de base (Ib), que retorna à fonte de entrada pelo terra comum. Uma outra fonte de
tensão +V vai alimentar uma outra malha formada pelo resistor de carga RL e coletor-emissor,
fazendo surgir uma corrente de coletor (Ic) que retorna à fonte de alimentação pelo mesmo terra
comum do circuito.

A corrente de coletor que circula pelo resistor de carga é controlada pela pequena corrente de
base. O resistor de carga converte essa corrente de coletor em tensão de saída Vout, que é a
diferença entre +V e a queda de tensão sobre RL, ou seja, Vout = Vce. Todo resistor é um conversor
tensão-corrente (Lei de Ohm). Com dois amplificadores do tipo emissor-comum conectados em
paralelo, e inserindo um resistor comum para os dois emissores (Re), podemos montar um
amplificador especial com duas entradas, cada uma delas sensível à polaridade oposta a do outro, o
amplificador diferencial com transistores. Veja o circuito na figura abaixo.

Repare que os resistores de coletor (Rc) de cada


transistor têm o mesmo valor e é o dobro de Re.
Vamos considerar inicialmente que cada entrada
receba um sinal analógico de mesma frequência e
amplitude referenciado à terra, ou seja V1 = V2.
Sendo T1 e T2 idênticos, a corrente que passa
por Re é a soma das correntes de igual valor que
circula pelos dois transistores e seus respectivos
resistores de coletor. Se esses sinais nas duas
bases forem altos o suficiente para levar os dois
transistores à condução máxima, a queda de
tensão Vce, entre o emissor e o coletor, de cada
um será praticamente 0 volt, fazendo com que
seus resistores de coletor de 10K fiquem em
paralelo. O resistor equivalente desse
paralelismo terá o mesmo valor de Re e em série
com este, fazendo com que a tensão de saída
Vout, tomada no divisor de tensão assim formado, seja tambem 0 volt. Essa é uma das principais
características dos amplificadores diferenciais: sinais iguais em suas entradas resultam em uma
saída nula. Essa característica recebe o nome de Relação de Rejeição em Modo Comum (Common-
Mode Rejection Rate - CMRR). Esse é um importante parâmetro desse tipo de amplificador porque
ruídos e sinais de interferência eletromagnética externos, comuns às duas entradas, são
cancelados. Se considerarmos agora que a base de T1 do nosso amplificador diferencial receba um
sinal de amplitude maior que aquela na base de T2, ou seja V1 > V2, esse primeiro transistor vai
ficar mais polarizado diretamente que o segundo. Isso faz com que a corrente que passa pelo
resistor comum aos emissores se divida desigualmente pelos transistores, a maior parte vai passar
por T1 e a parte menor por T2.
A queda de tensão menor sobre o resistor de coletor de T2 (Lei de Ohm) faz a tensão de saída
Vout do circuito mais positiva (mais próxima de +V). Se for o inverso (V2 > V1), T2 vai conduzir mais
que T1, a saída se torna menos positiva (mais distante de +V). Porisso a entrada de T1 é marcada
com o sinal de “ + ” e chamada de entrada não-inversora, e a entrada de T2 é marcada com “ - ” e
chamada de entrada inversora. Repare que só temos saída nesse tipo de amplificador se existe
diferença de tensões entre as entradas, se essa diferença for nula a saída é tambem nula.

3 - O Amplificador de instrumentação

O amplificador diferencial com um


op-amp visto acima tem uma
grande limitação: a sua baixa
impedância de entrada, se
comparada com o amplificador
não-inversor, por exemplo. Isso
ocorre devido à presença de
resistores nas entradas do
circuito. Uma maneira de resolver
esse problema é adicionando um
amplificador não-inversor atuando
como buffer em cada entrada,
como visto na figura ao lado.
Com essa configuração
conseguimos um amplificador
diferencial com altíssima
impedância de entrada que recebe o nome de amplificador de instrumentação (in-amp). Uma
característica importante desse amplificador é que devido à sua alta impedância de entrada de
cada buffer a tensão V1 aparece toda no lado superior de R1 e a tensão V2 no lado inferior desse
resistor; o amplificador diferencial formado pelo op-amp A3 vai subtrair essas duas tensões e
amplificá-las. É esse o tipo de amplificador de instrumentação que utilizaremos para captar os sinais
neuronais em nossa Interface Cérebro-Computador. O ganho do estágio de entrada diferencial
formado pelos dois amplificadores não-inversores, A1 e A2, é dado por:

Av = 1 + (2 * R2) / R1

O último estágio, o amplificador diferencial A3, é um subtrator cuja tensão de saída é dada por:

Vout = (V2 - V1) * [ 1 + 2R2/R1 ] * (R4 / R3)


4 - Filtros Ativos

Um filtro é qualquer dispositivo que


tem a função de separar misturas.
Um filtro eletrônico é um circuito
que aceita em sua entrada sinais
elétricos de um amplo espectro de
frequências mas que só deixa passar
(ou não passar) para sua saída sinais que estejam dentro de uma faixa selecionada. E de acordo com
essa faixa de frequências passantes os filtros são classificados em quatro tipos: filtros passa-
baixas, passa-altas, passa-faixa e rejeita-faixa (quando uma faixa de frequências é bloqueada). Os
filtros em Eletrônica tambem podem ser passivos, quando são construídos com resistores e
capacitores; ou ativos, quando tambem utilizam componentes como transistores e circuitos
integrados, como os op-amps. Os filtros passa-baixas (LPF - Low Pass Filter) são aqueles que deixam
passar somente os sinais que estejam abaixo de uma determinada frequência, chamada frequência
de corte (cut-off frequency), e bloqueiam
todas as outras acima desta. Os filtros passa-
altas (HPF - High Pass Filter) só deixam
passar os sinais com frequências acima da de
corte. Os passa-faixa (BPF - Band Pass
Filter), tambem chamados de filtros passa-
banda, permitem a passagem somente dos
sinais cujas frequências estejam entre duas
frequências de corte selecionadas, a de corte
inferior e a de corte superior. Por fim, os
filtros rejeita-faixa (BRF - Band Reject
Filter), ou rejeita banda, bloqueiam todos os
sinais dentro de duas frequências de corte e permitem a passagem de todas as outras. O filtro
mais simples que se pode construir é composto por um resistor e um capacitor em série, chamado
de filtro RC, e conectados diretamente à fonte de sinais; a saída desse filtro é tomada sobre o
resistor ou sobre o capacitor. Veja a figura ao lado.

O filtro RC da esquerda é um filtro LPF e sua


saída é tomada sobre o capacitor; o da
direita é um filtro HPF e sua saída é tomada
sobre o resistor. Os filtros BPF e BRF são
combinações em série desses dois primeiros
filtros. A amplitude do sinal tomado na saída
de um filtro RC é sempre atenuado por seus
componentes passivos e pode ainda ter sua
resposta de frequência (seletividade)
alterada pela impedância do circuito que vai
a ele conectado. Para contornar tais
problemas existem os filtros ativos que alem
de amplificar o sinal filtrado podem ainda melhorar sua seletividade. Filtros ativos são normalmente
construídos com op-amps por estes possuirem alta impedância de entrada, baixa impedância de
saída e ainda ter seu ganho de tensão controlado pelo seu resistor no loop de realimentação.
Um filtro ativo passa-baixas simples pode ser construído conectando um amplificador não-inversor
(ou um inversor) com op-amp logo na saída de um LPF passivo, como mostra a figura ao lado. Vimos
acima que o ganho de tensão do amplificador não-inversor é dado por:

Av = 1 + R2 / R1

A frequência de corte em Hertz do filtro LPF é dado por:

Fc = 1 / (2pi*R1*C1)

De forma semelhante podemos montar um filtro ativo passa-altas simplesmente conectando o sinal
de saída de um filtro RC passivo HPF a um op-amp configurado como amplificador não-inversor,
como na figura ao lado.

As mesmas formulas para o cálculo do ganho de tensão do amplificador e de frequência de corte do


circuito anterior valem para este
tipo de filtro. Filtros passa-faixa
e rejeita-faixa ativos tambem
podem ser implementados
inserindo-se amplificadores com
op-amps entre filtros passivos
LPF e HPF. Os filtros vistos até
aqui são ditos de primeira ordem
porque eles têm somente um
componente reativo no circuito, o
capacitor. Se dois estágios desses
filtros são conectados em série
para melhorar a seletividade do
sinal de entrada passam a ser
classificados como filtros de segunda ordem ou filtros de dois polos; os de terceira ordem possuem
tres componentes reativos, e assim por diante. Em nosso projeto de interface cérebro-computador
utilizaremos um tipo especial de filtro ativo passa-baixas de segunda ordem chamado de filtro
Butterworth para fazer a conexão entre a saída do amplificador de instrumentação e uma entrada
analógica do Arduino. O filtro ativo Butterworth alem de mais seletivo apresenta banda passante
mais plana que os filtros convencionais. Veja na figura ao lado um filtro ativo passa-baixas
Butterworth típico.

Observe que em relação ao circuito do LBF ativo visto anteriormente foi acrescentado somente
mais um resistor e um capacitor. O cálculo da frequência de corte desse tipo de filtro é dado pela
formula:

Fc = 1 / [ 2pi*sqr(R1*R2*C1*C2) ]

Se os resistores são dados em Kohms e os capacitores em uF, o resultado deverá ser multiplicado
por 1000 para ser convertido em Hz.