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Mariano E Enguita

Educaciio e Traha/ho no Capitalismo

E D u e A e A o
teoría e crítica
Mariano F. Enguita, professor da Universidade
Complutense de Madri, é amplamente conhecido
por seu trabalho na área de Sociologia da Educa~ao,
realizado de urna perspectiva crítica e progressista.
Entre seus livros incluem-se: EscoJa, Trabalho e
Ideología (publicado nesta mesma série); La Escuela
en el Capitalismo Democrático; e Marxismo y
Sociología de la Educación.
Em A Pace Oculta da EscoJa, M. Enguita examina
a conexao entre as rela~óes sociais do trabalho e
as rela~óes sociais da educa~ao, numa admirável
síntese das literaturas histórica e sociológica sobre
o desenvolvimento da organiza~ao do trabalho e
sobre a institucionaliza~ao da educa~ao sob o
capitalismo. Neste livro ternos, finalmente, urna
verdadeira história social da escola, em contraste
coma historiografia convencional, centrada no
desenvolvimento das idéias sobre educa~ao. Aqui
a escola nao aparece sob sua costumeira face,
iluminista e edificante; revela-se, ao invés, sua outra
fa ce: a de su as conexóes com o processo de
produ~ao.

Livros
por uma melhor
MJEs qualidade de vida
M;DICAS
r

AFACE
OCULTA
DA
ESCOLA
Mariano Fernández Enguita

AFACE
F363f Fernández Enguita, Mariano
A face oculta da escala: educa~ao e trahalho no capitalismo
OCULTA
Mariano Fernández Enguita : trad. Tomaz Tadeu da Silva .
Porto Alegre : Artes Médicas. 1989.
272p.
DA
l. EDUCA~ÁO - ASPECTOS SOCIAIS 2. EDUCA~ÁO
E ESTADO 3. COMUNIDAD E E ESCOLA l. Silva. Tomaz Ta-
ESCOLA
deu da 11. t.
Educa~áo e Trabalho no Capitalismo
CDD 370.19
CDU 37.015.4

Índice alfabético para catálogo sistemático


Sociologia da Educa~ao 37.015.4
Tradw;ao:
Bihliotecária Neiva Vieira- CRB10/563 TOMAZ TADEU DA SILVA

PORTO ALEGRE/1989

E o u e A e A o
©de Editora Artes Médicas Sul Ltda., 1989

Capa:
Mário Róhnelt

Reservados todos os direitos de publica~ao em língua portuguesa a


EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA. A memória de Carlos Lerena,
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PREFÁCIO

Há tres anos publiquei um livro, Trabalho, escala e ideologia, ao longo


de cuja elabora<;:ao mudou minha concep<;:ao do papel da educa<;:ao na
sociedade. Quando comecei a escreve-lo estava convencido que se tinham
atribuído muitas virtudes e defeitos a educa<;:ao ou, para sermos rnais exatos,
urna relevancia social que nao tinha. Em geral, parecia-me insatisfatória
qualquer considera<;:ao que !he atribuísse grandes poderes sobre os indivíduos
Também o inclivíduo singular tem que percorrer, quanto a seu conteúdo, as e a sociedade, seja para adaptar os primeiros a segunda, seja para levá-los a
fase_s. de forma<;:ao do espírito universal, mas como figuras já dominadas pelo sua transforma<;:ao, pois ambas as vers6es colocavam a eficácia da escola em
espmto, como etapas de um caminho já trilhado e aplainado; vemos assim sua mensagem ideológica.
como, no que se refere aos conhecimentos, o que em épocas passadas Trabalho, escala e ideologia pretendia demonstrar que as idéias das
preocupava o espírito maduro dos homens desee agora ao plano dos pessoas se formam essencialmente através de suas práticas sociais, mas eu
conhecimentos, dos exercícios e até dos jogos próprios da infancia, e nas localizava essas práticas fora da escola, fundamentalmente no trabalho - daí a
etapas pedagógicas reconheceremos a história da cultura projetada como em ordem dos substantivos no título - e relegava a escola ao limbo das
contornos de sombras. superestruturas, tal como as concep<;:6es cujas insuficiencias tinham me levado
a escreve-lo. Entretanto, em seu processo de gesta<;:ao cheguei a conclusao de
G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito. que a escola nao era um simples veículo para a transmissao e circula<;:ao das
idéias, mas também e sobretudo o cenário de urna série de práticas sociais
materiais. Carecia de sentido, por conseguinte, pretender que as práticas no
trabalho tivessem urna grande eficácia ideológica e, ao mesmo tempo, ignorar
A filogenia . e a ontogenia de um mesmo ser constituem aspectos a eficácia das práticas na escola. Nessa mudan<;:a de perspectiva tiveram urna
complementares, de nenhum dos quais é possível conhecimento pleno sem o grande influencia o muito discutido, mas já clássico, livro de Bowles e Gintis,
conhecimento do outro. Schooling in Capitalist America, e urna releitura de autores tao díspares
quanto Althusser, Parsons e Dreeben.
Faustino Cordón, A euolu9áo conjunta dos animais e de seu meio. Isto se traduziu na reda<;:ao do capítulo VII do referido livro, ''A
aprendizagem das rela<;:6es sociais de produ<;:ao' ', cuja tese central era a de
que, através das rela<;:6es sociais e das práticas no interior da escola, crian<;:as
e jovens sao conduzidos a aceitar as rela<;:6es sociais do trabalho adulto. Este
livro desenvolve a mesma tese, mas de um modo diferente.
A idéia de que a escola prepara para o trabalho, nao já em termos
cognitivos, embora também, mas sobretudo em termos de atitudes, trabalho assalariado; o primeiro deles centra-se nos aspectos da aprendizagem
clisposi<;óes, formas de conduta e aceita<;ao das rela<;óes sociais imperantes que conduzem a aceitac;ao das rela<;óes hierárquicas da produ<;ao capitalista; 0
pode ser aceita, em geral, pela maioria dos estudiosos da educa<;ao. Mas segundo, nos que semeiam de obstáculos qualquer possível vía em dire<;ao a
assume dimensóes inteiramente diferentes segundo consideremos que a seu questionamento ou transforma<;ao. Por último, o capítulo VIII analisa as
organizac;ao social atual do trabalho é algo natural, racional ou simplesmente contradic;:oes e conflitos que marcam esse processo e, em geral, as rela<;óes
inevitável, ou que é urna forma histórica determinada nao pelas necessidades entre escola e trabalho.
das pessoas, nem da "produc;ao" em geral, mas pelos imperativos de sua O peso relativo dos componentes deste livro poderia dar urna impressao
forma capitalista e industrial. No primeiro caso, a socializac;ao para o trabalho que gostaria de dissipar de entrada: a de que a escola cumpre com perfei<;ao
na escola poderla ser ou nao conveniente, mas teria a aura da necessidade e a func;ao de reproduzir as relac;oes sociais do processo de produc;ao capitalista,
da funcionalidade. No segundo, deve merecer o mesmo juízo que merece a levando em sua passagem indivíduos grupos e classes. Constituí um certo
forma histórica do trabalho para cuja aceita<;ao prepara; e, se consideramos paradoxo o fato de que, enquanto as características, a historicidade e a
esta como opressiva e imposta, teremos de ver também a socializa<;ao para a questionabilidade das atuais rela<;óes sociais do trabalho sao tratadas através da
mesma como um processo de imposi<;ao e domesticac;:ao. resistencia maci<;a que produziu sua implantac;ao, quatro dos cinco capítulos
Enfim, se aceitamos que urna fun<;ao primordial da escola é a socializac;ao dedicados a escola tratam-na como se funcionasse sem resistencia nem
para o trabalho - e assim o fazem nao apenas a maioria dos estudiosos da problema algum; isto é, que o subsistema social do trabalho seja tratado desde
educa<;ao, mas também seus agentes e seu público -, salta aos olhos a a perspectiva do conflito e o da escola desde a da reprodu<;ao. Nao se deve ao
necessidade de compreender o mundo do trabalho para poder dar a devida acaso, mas ao convencimento de que cada urna delas traz aquilo que
conta do mundo da educac;ao. habitualmente falta na considerac;ao de ambos os mundos. O último capítulo
A primeira parte deste livro é consagrada ao trabalho. O capítulo I trata de tem o objetivo de nao deixar de fora a clinamica contraditória da escola, mas é
suas condi<;óes e sua evoluc;ao gerais ao longo da história da humanidade. Os apenas um, contra quatro que insistem em sua dinfunica reprodutora. Em
capítulos seguintes estao dedicados a mostrar os processos históricos diversas publica<;óes anteriores centrei minha atenc;ao no lado conflitivo e
altamente conflitivos pelos quais homens e mullieres foram privados do contraditório dos processos e func;óes da escola (Fernández Enguita, 1985b,
controle sobre suas condi<;óes de vida e de trabalho e conduzidos ao trabalho 1986ab, 1987ab, 1988ae), e espero voltar a faze-lo logo, mas nao considero que
assalariado, forma que hoje nos aparece como a mais natural do mundo, mas seja necessário clizer tudo cada vez que se escreve, e muito menos repetí-lo.
que nao foi vista do mesmo modo por aqueles que haviam conhecido outras e Para terminar, algumas notas de agradecimento. A primeira parte deste
foram subitamente arrancados delas. O capítulo II centra-se na resistencia livro beneficiou-se de urna temporada no Femand Braudel Center for the
oferecida ao processo de industrializa<;ao, em especial durante a Revolu<;ao Study of Economies, Historical Systems, and Civilizations, State
Industrial, pelas popula<;óes dos países que hoje consideramos avanc;ados. O University of New York, Binghamton, e em particular da discussao com
capítulo III analisa o caso dos países coloniais, particularmente África, em que Immanuel Wallerstein e outros membros da equipe. A segunda beneficiou-se
a rapidez da mudan<;a, que condensou em decenios o que na Europa havia de dois períodos no Center for Educactional Research at Stanford,
durado séculos, converteu em aberto - e violento - choque cultural o que Stanford University, California, e em especial de intercambios diversos,
entre nós tinha sido urna evolu<;ao relativamente pausada. nessas e em outras ocasióes, com Henry Levin e Martín Carnoy. Ademais,
A segunda parte é dedicada a urna análise da escola e suas func;oes de devo agradecer os comentários sobre algumas das idéias em que se baseia
socializac;ao para o trabalho. O capítulo IV percorre o processo de ajuste da este livro, de Carlos Lerena, Herbert Gintis, Christian Baudelot, Michael
educac;ao as novas necessidades do mundo industrial, quando a linguagem Apple, Henry Giroux e Julio Carabana. Além disso, foram muito úteis as
franca e as vezes brutal dos reformadores sociais nao havia sido ainda reac;óes dos estudantes de meus cursos de doutorado e, em geral, as dos
substituída pelo atual mel da pedagogía reformista nem pela frieza tecnocrática diversos públicos diante dos quais tive a oportunidade de expor minhas idéias.
da literatura sobre a rela<;ao entre educa<;ao e desenvolvimento ou sobre os A responsabilidade fmal, está claro, é apenas minha.
aspectos nao cognitivos da escola. O capítulo V repassa as principais correntes
de pensamento que contribuíram para desmontar a imagem mítica e romantica
da educa<;ao e sua história e a desvelar suas func;óes reais. Os capítulos· VI e
VII entram já diretamente na análise das rela<;óes sociais e das práticas
educacionais e suas func;óes e objetivos no que concerne a socializa<;ao para o
SUMÁRIO

PRIMEIRA PARTE:
A TRANSFORMA<;:ÁO DO TRABALHO

l. O trabal ha atual como forma histórica . .. . . . . . . .. . . . .. . . . . . . .. .. .. . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . 3


2. O caso europeu: RevolUI;:áo Industrial e resistencia popular..................................... 33
3. A experiencia colonial: A empresa civilizadora e a civilizac;áo da empresa................... 65

SEGUNDA PARTE:
A CONTRIBUI<;:ÁO DA ESCOLA

4. Do lar afábrica, passando pela sala de aula: a genese da escala de massas ... . ... .... .. . . . .... 105
5. O crepúsculo do mito educativo: da análise do discurso a análise das práticas escolares 133
6. As relac;óes sociais da educac;áo, 1: a domesticac;áo do trabalho.... .... .. . .. . .. . .. . . . . .. .... . . . 161
7. As relac;óes sociais da educac;áo, 2: a atomiza -<¡o do carpo social . . . .. .. .. . .. . .. . .. . .. . .. .. . . .. . 191
R. As contradic;óes da relac;áo entre escala e trabalho ................................................ 217
Referencias Bibliográficas.................................................................................. 241
PRIMEIRA PARTE:
A TRANSFORMA~ÁO DO
TRABALHO
1

O TRABALHO ATUAL
COMO FORMA HISTÓRICA

Concebemos normalmente o trabalho como urna atividade regular e sem


interrupc;óes, intensa e carente de satisfac;óes intrínsecas, impacientamo-nos
quando um garc;om tarda em nos servir e sentimo-nos indignados diante da
imagem de dois funcionários que conversam, interrompendo suas tarefas,
embora saibamos que seus trabalhos . nao tem nada de estimulante.
Consideramos que alguém que cobra um salário por oito horas de jornada deve
cumpri-las desde o primeiro até o último minuto. Mesmo quando em nosso
próprio trabalho fazemos exatamente o contrário, esgueirando-nos o quanto
podemos, vemos isto como urna excec;ao, o que revela nossa escassa moral
kantiana, adotando a postura do free rider, do andarilho que nao cumpre as
normas na confianc;a de que os demais as seguirao cumprindo e nada virá
abaixo. Nao se trata simplesmente de que pensemos que aquele que trabalha
para outro tem obrigac;óes contraídas que deve cumprir, mas antes de que
somos incapazes de imaginar o trabalho de outra forma. Veríamos de forma
igualmente estranha que um dentista ou reparador hidráulico que exerce sua
profissao de modo independente trabalhasse apenas meia jornada, e veríamos
como irracional que interrompesse de vez em quando suas tarefas para
entregar-se ao descanso, a seus divertimentos ou a suas relac;óes sociais, em
lugar de trabalhar o máximo tempo possível para obter o máximo ganho
possível. É certo que conhecemos as excelencias de estarmos estirados ou de
nos dedicar a algo que nos agrade fora do trabalho, mas isto nao nos parece
motivo suficiente. Vivemos em urna cultura que parece ter dado por perdido o
campo do trabalho para buscar satisfac;óes somente no do consumo.

A Face Oculta da Escola 3


Este fatalismo do trabalho expressa-se tanto em máximas religiosas urna máquina ou o de montador de pe<;as em série. Se o mal de muitos é
("ganharás o pao com o suor do teu rosto") quanto em can<;ües ("arrastar consolo de tolos, o mal de alguns poucos nao teria por que chegar nem a
a dura cadeia, trabalhar sem tréguas e sem fim, o trabalho é urna sina que isto.
ninguém pode evitar, etc."). Neste contexto, aceitamos de boa ou má O capitalismo e a industrializa<;ao trouxeram consigo um enorme aumento
vontade empregos sem interesse, compostos por tarefas monótnoas e da riqueza e empurraram as fronteiras da humanidade em dire<;ao a limites que
rotineiras, sem criatividade, que, entretanto, exigem nossa aten<;ao e nossa antes seriam inimagináveis, mas seu balan<;o global está longe de ser
dedica<;ao permanentes, e escolhemos quando podemos - um ou outro, inequívocamente positivo. Se pensamos o mundo em seu conjunto, em lugar de
nao em fun<;ao do que sao em si, mas do que os rodeia: o salário e o faze-lo somente na parte que ocupamos, nao é difícil ver que destruímos a
prestigio associado (aquilo que nos darao em troca), os horários e as férias África e que demos lugar a urna escandalosa polariza<;ao entre riqueza e
(durante quanto tempo nos veremos livres deles), as possibilidades de miséria na Ásia e na América Latina, fazendo com que milhóes de pessoas
promo<;ao (ou seja, escapar deles), etc. Vítimas de nosso etnocentrismo e vivarn abaixo do nível de subsistencia e substituindo prometidos processos de
de nossa limitada experiencia histórica, nao imaginarnos que possa ser de desenvolvimento autónomo - como na Índia e em outros lugares - por urna
outra forma. dependencia atroz. Se examinamos a história dos povos que entraram em
E no entanto quase sempre foi de outra forma. A organiza<;ao atual do nossa órbita encontramos em toda parte processos de exterrnínio intencional
trabalho e nossa atitude frente ao mesmo sao coisas recentes e que nada tem - mediante as guerras - ou de genocídio derivado, mas muito mais eficaz -
a ver com ''a natureza das coisas' '. A organiza<;ao a tu al do trabalho e a cadencia mediante a destrui<;ao de suas economias, do trabalho for<;ado ou da
e seqüencia<;ao atuais do tempo de trabalho nao existiam em absoluto no exporta<;ao de enfermidades as quais nao estavam imunizados, como foi o caso
século XVI, e apenas come<;aram a ser implantadas precisamente ao final do de toda a Íbero-América.
século XVIII e início do século XIX (Clawson, 1980: 39). Sao, pois, produtos O balan<;o nao é claro mesmo que nos limitemos a olhar para nós próprios.
e construtos sociais que tem urna história e cujas condi<;óes tem que ser Nao há dúvida de que há urna minoria, a que se apropria direta ou
constantemente reproduzidas. A humanidade trabalhadora percorreu um longo indiretamente do trabalho alheio ou de seus resultados, que desfruta de bens
caminho antes de chegar aqui, e cada indivíduo deve percorre-lo para e servi<;os nao sonhados por minorias anteriores, mas os resultados sao
incorporar-se ao estádio alcan<;ado. A fllogenese deste estádio de evolu<;ao bastante menos equívocos para a maioria, para os que vivem unicamente de
consistiu em todo um processo de conflitos que, infelizmente, nos é seu trabalho. É certo que estamos rodeados de bens que nossos ancestrais
praticamente desconhecido (a história, nao se esque<;a, é escrita pelos nao podiam imaginar, mas há muito de ilusório na aprecia<;ao que fazemos
vencedores). Reconstruí-lo é urna ambiciosa tarefa, apenas come<;ada, que disso. Possuímos, por exemplo, automóveis que permitem que nos
dará muito trabalho aos historiadores, tanto mais que sao relativamente destoquemos mais rapidamente ao trabalho ou que saíamos da cidade para
poucos, embora nao tao escassos quanto antes, os que compreenderam que a desfrutar um pouco da natureza, mas nossos antepassados, sem necessidade
história real da humanidade nao pode ter sua única nem sua primeira fonte no de tais máquinas, consegdam facilmente ambas as coisas, pois trabalhavam em
testemunho dos poderosos. suas casas ou perto delas e estavam na natureza ou chegavarn a ela sem esfor<;o
Na realidade, ademais, sobrestimamos nossos trabalhos. Damos gra<;as a com suas pernas ou sobre o lombo de um cavalo, sem engarrafamentos, sem
sorte ou nos orgulhamos de nossos próprios méritos se podemos evitar os tensóes e com menos acidentes. É certo que nao chegavam tao longe quanto
trabalhos mais manifestamente rotineiros, como podem ser os de urna do- nós, mas é também certo que nao precisavam disso. Observa<;óes similares
na-de-casa, de um varredor ou de um operário em urna linha de montagem. poderiam ser feítas a respeito de outros bens ou servi<;os que associamos com
Cabe perguntar-se, ampliando e prolongando Rousselet (1974), se tanta a idéia do bem-estar alcan¡;ado, mas nao é esse o objetivo aqui e agora.
insistencia sobre os males dos ''operários especializados'' ou nao qualificados, Menos claro, entretanto, é o balan<;o de nosso bem-estar moral e
que identificamos com a imagem oferecida por Carlitos no penetrante filme psicológico. Nao é necessário fazer a lista dos males de hoje, embora nao
Tempos Modernos, assim como toda a euforia em torno dos círculos de faltem descri<;óes sombrías sobre a ansiedade, o stress, a inseguran<;a, etc.
qualidade, do enriquecemento de tarefas, da rota<;ao dos postos de trabalho, Sao fáceis de serem identificadas, entretanto, duas fontes de mal-estar
etc., ou identifica<;6es eufemísticas como a que costumamos fazer entre profundamente arraigadas e de longo alcance, associadas ao capitalismo e a
oficinas e trabalho manual, por um lado, e escritórios e trabalho intelectual, por industrializa<;ao e que nao apresentam perspectivas de melhorar. Em primeiro
outro, nao tem como efeito fmal adormecer nossa consciencia diante do fato de lugar, nossas necessidades pessoais, estimuladas pela comunica<;ao de
que a maioria dos trabalhos nao sao muito melhores que o de alimentador de massas, pela publicidade e pela visao da outra parte dentro de urna distribui<;ao
4 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 5
desigual da riqueza, crescem muito mais rapidamente que nossas Dois mundos do trabalho diferentes
possibilidades. Já Hegel indicava que as necessidades nao naturais cresciam
mais que os meios para satisfaze-las, mas nao podia nem imaginar a orgia Na economia de subsistencia produz-se para satisfazer urna gama
consumista das atuais sociedades industrializadas, nem a forma pela qual limitada e pouco cambiante de necessidades. O trabalho é indissociável de
chegaríamos a ver associada nossa imagem pessoal - diante de nós mesmos seus fms e, como conseqüencia, da vida mesma em seu conjunto. Persegue
e diante dos demais - a nosso consumo. O resultado dessa separa<;ao daquilo urna fmalidade imediata e nao pode ser considerado como um frrn em si
que aceitamos como fms, em rela<;ao aoque possuímos como meios, isto é, de mesmo. Dentro do marco de urna divisao do trabalho tao simples que se
nossos desejos, em rela<;ao a nossos recursos, nao pode ser outro que a esgota, ou quase, na reparti<;ao de tarefas entre homens e mullieres, o
frustra<;ao. trabalhador decide o que produzir, como produzi-lo, quando e a que ritmo.
Em segundo lugar, nossa sociedade nutre urna imagem de existencia de Até mesmo esta formula<;ao acaba sendo excessiva para o que pretende
oportunidades para todos que nao corresponde a realidade, motivo pelo qual e expressar: simplesmente, os indivíduos e os grupos satisfazem suas
apesar do qual o efeito para a maioria é a sensa<;ao de fracasso, a perda de necessidades com um grau de esfor<;o variável, dependendo tao-somente da
estima e auto-culpabiliza<;ao. A suposi<;ao da igualdade de oportunidades maior ou menor generosidade da natureza, da tecnologia a seu alcance e
converte a todos, automaticamente, em ganhadores e perdedores, triunfadores da composi<;ao demográfica do grupo, cujos indivíduos, de acordo com sua
e fracassados. Nao é por acaso que a cultura dos Estados Unidos, suposta idade, protagonizam combina<;óes diversas de trabalho e consumo. Em todo
''terra de oportunidades'', classifica obsessivamente as pessoas em winners caso, o tempo e o ritmo de trabalho raramente sao sacrificados a satisfa<;ao
e losers. Diferentemente dos do passado, cuja posi<;ao era atribuída a seu de necessidades nao elementares, seja porque nao existem, seja porque se
''bom ber<;o'' ou a sua ''origem humilde'', os ricos e os pobres, os poderosos renunciou a satisfaze-las a esse pre<;o.
e os desvalidos de hoje nao apenas devem suportar sua condi<;ao, mas ainda A situa<;ao é muito diferente em urna sociedade industrializada. A imensa
devem ser considerados e considerar-se eles próprios responsáveis por ela. maioria das pessoas nao conta com a capacidade de decidir qual será o produto
de seu trabalho. Os assalariados nao a tem, em geral, e aqueles que trabalham
Nas sociedades aristocráticas ou em outras sociedades tradicionais, a por conta própria a possuem apenas de forma limitada, pois estao sujeitos as
debilidade nao é um fato vergonhoso per se. As pessoas herdavam sua restri<;óes do mercado ou de monopólios de compra de seus produtos. O
debilidade na sociedade; nao era responsabilidade própria. O senhor trabalhador da economia de subsistencia tampouco tinha muita escolha, dada
herdava sua for<;a; esta era muito impessoal. (... ) O homem era um tanto sua escassa tecnologia, mas nao podía viver isto como urna falta de op<;óes,
distinto de sua posi<;ao. Como observa Louis Dumont em seu estudo da pois a escolha entre trabalhar ou nao, entre ca<;ar ou pescar, entre semear ou
hierarquia na sociedade indiana, Hamo hierarchicus, nestas condi<;óes tecer, era tao simples quanto a entre comer ou nao, alimentar-se ou vestir-se,
nao é humilhante ser dependente. etc. O trabalhador moderno, em traca, ve estender-se diante de si urna
Na sociedade industrial veio a se-lo. O mercado fez com que as amplíssima panóplia de op<;óes teóricas e imaginárias, mas muito poucas
posi<;óes de dependencia se tornassem instáveis. Podía-se subir e po- possibilidades práticas. A liberdade nao é algo absoluto, mas relativo a
día-se baixar. O impacto ideológico mais forte dessa instabilidade foi o de realidade que nos rodeia.
que as pessoas come<;aram a sentir-se pessoalmente responsáveis pelo Tampouco parece clara, nas sociedades pré-industriais, a diferen<;a entre
lugar que ocupavam no mundo; consideravam seus exitos ou seus trabalho e ócio e atos sociais rituais, pois atividades como a ca<;a nas
fracassos na !uta pela existencia como questao de for<;a ou debilidade sociedades ca<;adoras-coletadoras ou os mercados nas sociedades agrícolas
pessoal. (Sennet, 1980: 51). mesclam inextricavelmente as tres dimensóes. As atividades produtivas
compreendem, mais freqüentemente do que nao, dimensóes recreativas e
Mas esses sao desvios com rela<;ao ao que é aqui o problema principal: as sociais. Embora o ócio e os ritos sociais apresentem urna maior concentra<;ao
mudan<;as radicais na fun<;ao e nas características do trabalho e de seu lugar na em determinados momentos no tempo (a noite, o fmal da semana, as
vida das pessoas. É um caminho muito longo e tortuoso aquele que vai desde festividades religiosas, etc.), raramente existem períodos do dia ou do ano
a produ<;ao para a subsistencia até o trabalho assalariado na sociedade destinados somente ao trabalho de maneira ineludível - embora existam, isto
industrial - ou, se se prefere, pós-industrial, o que para o caso dá no sim, períodos dedicados somente ao ócio ou aos rituais comunitários -, os
mesmo-, e podemos come<;ar a fazer urna idéia de suas dimensóes e tres tipos de atividade superpondo-se constantemente de forma irregular,
obstáculos se pensamos nas diferen<;as entre os extremos percorridos. porém reiterada.

6 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 7


Ao contrário, a sociedade industrial e os indivíduos neJa vivem
técnicas e instrumentos do campones continuam sendo simples e - exceto a
permanentemente cindidos entre o trabalho, considerado como urna carga, um terra - de fácil acesso. As técnicas e instrumentos do artesao sao mais
esfon;:o e urna fonte de desprazer, e o ócio, tempo exclusivo do desfrute e da complexos, mas o que escapa a seu controle individual pode ser submetido ao
entrega as inclinayóes pessoais. O tempo de trabalho deve ficar livre de toda controle coletivo através da organizayao gremial. Nos dois casos, decidindo
interferencia externa. Trabalho e nao-trabalho formam compartimentos livremente o que produzir ou nao, o trabalhador pré-industrial conserva a
estanques e, no correspondente a este último, as atividades sociais capacidade total ou quase total de decidir como produzi-lo.
apresentam-se de forma localizada: Em sua maioria, os trabalhadores de hoje nao contam coma capacidade de
O espayo é também objeto de urna distribuiyao distinta. Na sociedade pré- controlar e determinar por si mesmos seu processo de trabalho. Os
-industrial um mesmo espayo serve para o desenvolvimento da vida familiar, trabalhadores assalariados, que sao a maior parte da populayao chamada
para as atividades de consumo e ócio e para as funyóes produtivas. Isto nao ''economicamente ativa'' - da qua! um claro viés sexista excluí as mullieres
significa que o espayo seja inteiramente homogéneo, pois pode, por exemplo, que realizam apenas tarefas domésticas, e conseqüentemente sao classificadas
estar dividido para homens e mullieres, apresentar zonas vedadas aos nao como inativas -, veem-se inseridos em organizayoes produtivas com urna
adultos, oferecer urna diferencia<;:ao estrita entre espayo público e espa<;:o divisao do traballio mais ou menos desenvolvida para cuja conformayao nao se
privado ou compreender subespayos especiais destinados aos rituais sociais. contou nem se contará com eles. Os processos de trabalho sao organizados
Mas o essencial na vida ativa das pessoas, a produyao de seus meios de vida pelos escritórios de métodos e tempos ou, simplesmente, a critério dos
e a reproduyao de suas vidas - a produyao e o consumo - é levado a cabo patroes e dos quadros intermediários. Aqueles que trabalham por conta
em um mesmo e único lugar, seja a casa familiar ou o espa<;:o comunal. O própria evitam a divisao interna do trabalho, a decomposiyao do processo que
nómade leva sua casa para onde está seu trabalho, o ca<;:ador-coletador vive produz um bem ou que constituí um serviyo consumível em tarefas parcelares,
dos recursos que rodeiam sua morada e elabora-os aí mesmo, o campones vive mas deve também mover-se entre os limites colocados pela divisao social do
junto de sua parcela e desenvolve grande parte de suas atividades produtivas trabalho - entre unidades produtivas que produzem distintos bens ou serviyos
no local de moradia, e o artesao vive em sua oficina ou perto dela. - e pela concorrencia que generaliza os processos que trazem maior
Na sociedade industrial e urbana, os espayos da produyao e do consumo produtividade. Por isso, a situayao dista já também da dos camponeses ou
diferenciam-se sistematicamente pela primeira vez, e a separayao entre espa<;:o artesaos pré-industriais.
privado e espayo público é levada a suas últimas conseqüencias. O lugar de Enfun, nas economías pré:.industriais os homens dispoem a seu critério de
produyao está habitualmente separado por urna grande distancia do lugar de seu tempo de traballio - e de seu tempo em geral -, ou seja, decidem sua
residencia, separayao física que exige, reflete e refor<;:a a separa<;:ao temporal durayao, sua intensidade, suas interrupyoes. Isto pode ser considerado como
entre traballio e ócio. Os ritos sociais (cerimónias religiosas, festas um aspecto a mais do controle do processo de trabalho, mas merece ser
participativas, atividades políticas) geram seu espa<;:o próprio, o que também assinalado em sua especificidade. Podem prolongar sua jornada, acelerar seu
acontece até mesmo com as relayóes sociais inter-individuais que transcendem ritmo ou eliminar as interrupyóes quando urge a consecuyao de um objetivo,
o contexto familiar (os encontros na rua sao um bom exemplo disso). mas também encurtar a primeira, diminuir o segundo ou aumentar as últimas
Essa dupla segrega<;:ao temporal e física, junto com a segrega<;:ao funcional quando nao há urgencia. Isto significa ser dono do próprio tempo, e o tempo,
entre atividades extra-domésticas e domésticas, "produtivas" e "nao como assinalou Marx, é o espayo em que se desenvolve o ser humano.
produtivas' ', o u entre as diferentes atividades separadas pelo desenvolvimento
da divisao social do trabalho, caracteriza a sociedade industrial, em Nos locais e nas épocas em que os homens mantinham o controle de
comparayao com as sociedades pré-industriais (Dubin, 1976: 11-14). ,suas próprias vidas de traballio, a pauta de trabalho consistía em períodos
Os trabalhadores pré-industriais controlovam seu processo de trabalho. alternados de traballio intenso e de ociosidade. (Thompson, 1967: 73;
Em urna economía primitiva, os meios de produyao sao rudimentares e sua também Grazia, 1964: 74-75, 186).
elaborayao está ao alcance de qualquer um. É o homem quem poe os meios
a seu serviyo, e nao o contrário. As técnicas sao simples e podem ser A maioria dos traballiadores nao controla hoje a durayao nem a intensidade
dominadas por todos. Isto coloca o trabalhador numa posiyao de controle de seu traballio. O traballiador assalariado deve submeter-se aos ritmos
absoluto de seu processo. Mesmo na produyao agrícola para o mercado ou na impostos pela maquinaria, aos fluxos planificados de produyao e as normas de
produyao artesanal, embora o traballiador tenha perdido já, parcialmente, o rendimento estabelecidas pela direyao. O trabalhador por conta própria
controle sobre seu produto, continua sendo dono e senhor do processo. As controla-as apenas de forma limitada, pois o movimento dos preyos forya-o a
8 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 9
nao distanciar-se demasiadamente do calendário, do horário e do ritmo A rela~ao negativa com o objeto converte-se na forma deste e em
impostos por aqueles que tem menos escrúpulos em explorar a si mesmos. algo permanente, precisamente porque diante do trabalhador o objeto
Este pode, teoricamente, estabelecer seu próprio equilibrio entre trabalho e tem independencia. Este termo médio negativo ou ayáo formativa é, ao
consumo, mas o primeiro ve-se estimulado pela concorrencia e o segundo mesmo tempo, a singularidade ou o puro ser para si da consciencia, que
pelas normas sociais e culturais, aproximando todos dos padroes aceitos. agora se manifesta no trabalho fora de si e passa ao elemento da
Estas diferenc;:as podem resumir-se na que separa a dependencia da permanencia; a consciencia que trabalha chega, pois, desta forma, a
independencia. A unidade económica da produyáo de subsistencia é intuiyáo do ser independente como de si mesma.
plenamente auto-suficiente e, por isso mesmo, economica e socialmente (... ) Na forma~ao da coisa, sua própria negatividade, seu ser para si,
independente. O artesao pré-industrial também era substancialmente somente se converte para ela em objeto enquanto supera a forma
independente, em parte por si mesmo e em parte através de sua organiza~ao contraposta que é. Mas este algo objetivamente negativo é precisamente
gremial. Mesmo o servo medieval teria pouco a invejar ao assalariado a essencia diante da qual tremia. Mas, agora destrói este algo negativo
moderno, pois sua dependencia do senhor nao era unilateral, mas parte de um estranho, póe-se enquanto tal no elemento do permanente e converte-se
sistema de dependencia e obriga~oes mútuas, embora assimétricas. Assim, deste modo em algo para si mesmo, em algo que é para si. (... ) Toma-se,
por exemplo, nao podía abandonar sua terra, mas tampouco ser expulso dela. portanto, por meio deste reencontrar-se por si mesma sentido próprio,
precisamente no trabalho, no qual apenas parecía ser um sentido alheio
(Hegel, 1973: 120).
Liberdade e necessidade no trabalho
Em linguagem corrente, estas passagens poderiam ser assim resumidas:
A tradi~ao cultural judaico-crista sempre apresentou o trabalho, no pior o homem (a autoconsciencia) só se reconhece como ser livre no trabalho (a
dos casos, como a penitencia do pecado original e, no melhor, como resultado a~ao formativa), ao modificar o universo material que o rodeia (o elemento da
da necessidade. Esta representayáo ajusta-se bem ao sentido comum (tem-se permanencia) tomando efetivos seus próprios desígnios (seu ser para si, a
que trabalhar para comer, etc.), mas nao ultrapassa a superfície do problema. negatividade). Dito de outra forma: só ao modificar seu contexto pode o ser
O trabalho é necessário para a reprodu~ao da vida humana, mas é algo humano considerar-se livre. Hegellevou este raciocínio ao ponto de sugerir
mais que sua mera reprodu~ao mecanica. Ele incorpora um elemento de que nao pode haver liberdade sem trabalho e que o pior trabalho é urna forma
vontade que o converte em atividade livre e, de maneira geral, na base de toda de liberdade. Assim, no famoso capítulo sobre o senhor e o servo, afirma:
a liberdade. Hegel compreendeu muito bem isto, assinalando, em primeiro
lugar, que nas próprias necessidades, ao ir além da mera necessidade n~tural, (... ) O senhor, que intercalou o servo entre a coisa e ele, nao faz com
há um elemento de liberdade: isso mais que unir-se a dependencia da coisa e gozá-la puramente; mas
abandona o lado da independencia da coisa ao servo, que a transforma
Urna vez que nas necessidades sociaJ.s, enquanto umao das (Hegel, 1973: 118).
necessidades imediatas ou naturais e das necessidades espirituais da
representar;áo, é esta última a preponderante, há no momento social um Esta é a idéia que Marx retomou para proclamar o trabalho como elemento
aspecto de libertar;áo. Oculta-se a rígida necessidade natural da constitutivo e distintivo do homem, como indivíduo e como espécie (Marx,
necessidade e o hornero comporta-se em rela~ao a urna opiniáo sua, que 1977).
é em realidade universal, e a urna necessidade instituída por ele; já que
nao está em rela~ao a urna contingencia exterior, mas interior, o arbítrio Concebemos o trabalho sob urna forma que pertence exclusivamente
(Hegel, 1975: 236). ao homem. Urna aranha executa opera~óes que recordam as do tecedor,
e urna abelha envergonharia, pela construyáo dos favos de sua colméia,
Em segundo lugar, ao indicar que o processo de trabalho, ao dar o homem mais de um mestre pedreiro. Mas o que distingue vantajosamente o pior
forma ao mundo exterior de acordo com sua vontade, supunha outro elemento mestre pedreiro da melhor abelha é que o primeiro projetou a colméia em
de liberdade, para além da determina~ao das necessidades, no processo sua cabe~a antes de construí-la na cera. Ao consumar-se o processo de
encaminhado para sua satisfa~ao. Na esotérica linguagem da Fenomenolo- trabalho surge um resultado que antes de seu come~o já existía na
gía: imaginar;áo do operário, ou seja, idealmente. O operário nao apenas

10 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola


efetua urna mudanc;:a de forma do natural; no natural, ao mesmo tempo, excedente expropriável. Podemos afirmar que as grandes forrnac;:oes
efetiva seu próprio objetivo, objetivo que ele sabe que determina, económicas pré-capitalistas, salvo as baseadas de maneira generalizada na
como urna leí, o modo e forma de seu agir e ao qual tem que subordinar escravidao, eram compostas, na realidade, por imensas redes de economías
sua vontade (Marx, 1975: I, 216). domésticas sobre as quais se elevavam superestruturas políticas que se
apropriavam do rnais-produto. Estas estruturas políticas podiam aumentar sua
Hegel e Marx coincidiram, assim, ao conceber o trabalho como efetiva<;ao pressao, mas nao foram capazes de romper a lógica da produ<;ao para o uso,
de urna vontade transformadora da natureza. O aspecto de liberdade reside no imperante nas unidades de economía doméstica, nem de transformar
elemento de vontade - a autoconsciencia de Hegel - e nao pode existir sem substancialmente os processos de trabalho correspondentes. Mesmo ao
ela. Mas, no trabalho organizado, essa simbiose de vontade e a<;ao pode recorrer ao trabalho forc;:ado parcial - as prestac;:oes de servic;:o, a corvéia, etc.
romper-se, ficando cada um de um lado da organizac;:ao polarizada do processo - ou absoluto, importaram os hábitos de trabalho próprios da produ<;ao de
produtivo. Esta é precisamente a transic;:ao do trabalho livre ao trabalho subsistencia, inclusive degradados, como o demonstram a baixa produtividade
alienado. Hegel acreditava que todo trabalho supunha aliena<;ao porque de escravos e servos.
identificava esta com a objetivac;:ao da autoconsciencia, isto é, com a O primeiro passo verdadeiramente importante, no que concerne ao
rnaterializac;:ao prática de qualquer projeto intelectual. processo de trabalho, a partir da produ<;ao de subsistencia é o que leva a
Marx aceitava que a objetivac;:ao era característica comum de qualquer produc;:ao para a troca. Por um lado, ele vai acompanhado sempre do
trabalho - e aquilo que o distingue da atividade animal seria para ele, como desenvolvimento da divisao do trabalho, pois se trata de artesaos que se
para Hegel, o fato de que tal projeto é elaborado pelo trabalhaodr -, mas nao especializam em um tipo de produc;:ao frente aos trabalhos artesanais
que o fosse a alienac;:ao. Esta representarla um passo para além da objetiva<;ao, complementares da familia camponesa, ou de camponeses que passam da
um passo qualitativamente distinto: a elabora<;ao do projeto por outro. Em agricultura de subsistencia, necessariamente variada, a agricultura comercial,
suma, a dissociac;:ao entre o elemento consciente e o elemento puramente logicamente especializada nos produtos rnais demandados pelo mercado ou
físico do trabalho torna possível sua aliena<;ao. A protohistória dessa aliena<;ao rnais rentáveis. Ao mesmo tempo, rompe-se a relac;:ao direta entre a produc;:ao
comec;:a com as formas primitivas de apropriac;:ao por outro do trabalho e as necessidades. Já nao se produz para o uso e o consumo, mas para a troca.
excedente, coma aparic;:ao do trabalho forc;:ado; mas sua verdadeira história e, Embora o pequeno produtor possa continuar e continua buscando um ponto de
de qualquer forma, sua história recente é a do surgimento do trabalho equilibrio entre seu esforc;:o de trabalho - produc;:ao - e a satisfac;:ao de suas
assalariado e, sua evoluc;:ao, a do processo de produc;:ao capitalista. necessidades - consumo -, já estao dadas as bases a partir das quais se
poderá chegar aquele que é seu fim, ou seja, simplesmente produzir rnais para
ganhar rnais, embora este caminho exija toda urna história. Ademais, se sua
Da p:rodu~iio de subsistencia ao t:rabalho assala:riado produc;:ao nao encontra saída no mercado vizinho, o trabalho do pequeno
produtor pode ser explorado pelo comerciante através do intercambio desigual
A economía de subsistencia em sentido estrito existiu apenas nos e da estrutura dos prec;:os. A venda de seu produto por seu valor exige
primeiros estádios da humanidade e, posteriormente, em contextos isolados. condic;:oes que nunca foram dadas, como sao as da concorrencia perfeita em
Fora da comunidade primitiva, todas as forrnac;:oes sociais conheceram alguma um mercado transparente, ou condic;:oes que apenas existiram parcial e
forma de redistribui<;ao do excedente (Konrad e Szeleny, 1981; Polanyi, transitoriamente, como o monopólio de oferta exercido pelos gremios de
Arensberg e Pearson, 1957) produzido pelas unidades económicas de artesoes - mas nunca pelos camponeses.
subsistencia ou recorreram a diversas formas de trabalho forc;:ado para produzi- Ao contrário do que supoe o imaginário marxista ortodoxo, o trabalho do
-lo de forma direta. Embora o trabalho forc;:ado regular chegasse a ter urna produtor mercantil simples é tao explorável quanto o do trabalhador
importancia primordial na forma da escravidao, o trabalho excedente foi assalariado, e sem dúvida este é um dos fatores - mas nao exclusivo - que
extraído durante a maior parte da história mediante punc;:oes sobre as unidades contribuíram para torná-lo perdurável, contra todas as profecias sobre seu
económicas de subsistencia. As familias ou as aldeias dos impérios fluviais, ou desaparecimento. O charnado Terceiro Mundo oferece hoje os casos mais
os camponeses da época feudal, tinham que entregar parte de seu produto ou extremos neste sentido, embora nao os únicos. Para o capital é possível, por
de seu trabalho a seus imperadores ou senhores, mas continuavam vivendo exemplo, explorar o trabalho de um campones com a mesrna ou maior
fundamentalmente em urna economía de subsistencia, regida pela lógica da intensidade que o de um operário desde que seja capaz de organizar como
produc;:ao doméstica, embora submetida a pressao de ter que produzir um mercado de vendedores o das sementes e dos adubos e de outros meios de

12 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 13


produc;:ao e como mercado de compradores o dos produtos a~~ários, !st~_é, de outro, com a mesma tecnologia ou com outra. Isto dá lugar ao que Marx
monopolizar ou ologopolizar um e outro. Entao pode perrmtir-se nao Ja_ urna denominava a subsunc;:ao ou subordinac;:ao formal do trabalho ao capital, ou a
simples explorac;:ao casual, mas inclusive converter o custo de reproduc;:ao da forma simples da explorac;:ao capitalista do trabalho, correspondente a extrac;:ao
forc;:a de trabalho do carnpones, embora esta nao se venda como tal no de mais-valia absoluta (Marx, 1973: 54-58, 60-72). O trabalhador foi arrancado
mercado em um elemento de custo racionalmente calculável, tal como faz o da esfera doméstica e destituído dos meios de produc;:ao, mas o capitalista situa-
capitalis~ industrial com os salários (Chevalier, 1983). M~itos projetos te:ceir~­ -se ainda, por assim dizer, ao princípio e ao fmal do processo de produc;:ao
-mundistas de povoamento de zonas nao exploradas agnculturalmente ~ao sao propriamente dito. Traz os meios de produc;:ao, entrega ao trabalhador seus
mais que isto, mesmo quando tomam a retumbante forma de cooperativas de meios de subsistencia em troca de sua forc;:a de trabalho e apropria-se do
proprietários fmanciadas incialmente com fundos públic_os (Werlh?f: 1983). E m produto fmal, mas ainda nao controla o processo de trabalho em si, que
lugar de pagar a reproduc;:ao da forc;:a de trabalho atraves dos salanos, paga-se continua sendo realizado, basicamente, como se o trabalhador fosse ainda um
através dos prec;:os de venda dos produtos, mas de forma que, ao estarem elemento independente. O capitalista pode agora supervisionar diretamente a
controlados estes e os dos insumos, nao há escapatória possível para o intensidade do processo de trabalho ou prolongar a jornada de trabalho, mas
campones. Como, ademais, nao se trata de camponeses ~solado.s mas de fazer eficazmente o primeiro elevarla enormemente os custos de supervisao e
unidades familiares, e como é impossível e carece de sentido eVIta:" que o tanto um quanto o outro sao fonte permanente de conflitos. O trabalhador
campones coma parte do que colhe ou cria e pod~-se mesmo e~timular a encontra-se já em urna posic;:ao de alienac;:ao em relac;:ao ao produto e aos meios
pequena produc;:ao de subsistencia, o capital comer<:_ial de~loca assun para a de produc;:ao, que pertencem a outra pessoa, e em relac;:ao a seus meios de
esfera doméstica urna parte dos custos de reproduc;:ao ma10r que aquela que vida, que nao obtém como resultado direto de seu trabalho ou em troca do
pode deslocar o capital industrial em um cont~xt? urbano. As parcelas de produto dele mesmo, mas em troca de sua forc;:a de trabalho (Marx, 1977: 106
subsistencia permitem, além disso, explorar mdrretamente o trabalho da ss.), de sua capacidade de trabalho; mas conserva ainda, no fundamental, o
mulher como dona-de-casa, já que elas levam a urna maior contribuic;:ao de ~~a controle sobre o processo de trabalho, seu ritmo e sua intensidade.
parte a reproduc;:ao da forc;:a de trabalho e dirninuem assim o custo monetario
desta, ou seja o salário. _ .
Podemos apostar que a maior parte da pequena produc;:ao mercantil, e A subordina~ao real do trabalho ao capital
especialmente agrícola, que a história moderna coru:ec~u s~tuou-se em al~m
lugar entre sua figura idílica em um mercado_ perfe1to mex1stente_ e. casos do O passo fmal na degradac;:ao do trabalho é a transic;:ao ao que Marx
tipo citado, poden do chegar facilmente a localizar-se er:tre estes ultimos,. mas chamava de subsunc;:ao ou subordinac;:ao real deste ao capital (Marx, 1973:
raramente ou nunca em consonancia com sua irnagem 1deal. Este mecarusmo 72-77), ou divisao manufatureira do trabalho (Marx, 1975: cap. XII). Esta tem
nao apenas funcionou para pequenos produtores recém-implantados como os lugar quando o capitalista, em vez de limitar-se a aceitar os processos de
dos povoamentos, mas, em urna ou outra medida, para os camponeses ~m trabalho estabelecidos e tratar simplesmente de aumentar a mais-valia extraída
geral em um setor dominado pelos comerciantes; e ~bém, no deVIdo mediante a prolongac;:ao da jornada, reorganiza o próprio processo da produc;:ao.
momento, para a pequena indústria doméstica rural, com o sistema de trabalho A mais-valia absoluta cede entao caminho a mais-valia relativa, e a divisao de
a domicilio para um comerciante que traz as matérias primas e leva o produto trabalho tradicional, herdada dos ofícios, a decomposic;:ao do processo de
a mercados inacessíveis para o produtor ou que, simplesmente, conta como produc;:ao da mercadoria em tarefas parcelares. O trabalhador, que já havia
capital necessário para esperar o momento oportuno para comprar e vender, perdido a capacidade de determinar o produto, perde agora o controle de seu
algo que raramente pode permitir-se o pequeno produtor. . , processo de trabalho, entra em urna relac;:ao alienada com seu próprio trabalho
Nestas condic;:óes, o capitalista pode forc;:ar o produtor a trabalhar mrus atraves como atividade (Marx, 1977: 108-113).
do abaixamento dos prec;:os, mas ainda nao é dono e senhor de seu trabalho. O Marx explicou muito bem a diferenc;:a entre a divisao social e a divisao
trabalhador ainda se apóia, em boa parte, na produc;:ao para a subsistencia e, de manufatureira do trabalho, diferenc;:a na qual nos podemos apoiar para entender
qualquer forma, pode a qualquer momento escolher a combinac;:ao de t~balho e o que significa a transic;:ao do artesanato independente ao trabalho assalariado.
consumo ou de esforc;:o e renda que melhor lhe parec;:a - dentro de parametros
dados- e resistir de mil maneiras as pressóes do capitalista comercial. (. .. ) Apesar das muitas analogias e dos nexos que medeiam entre a
O seguinte passo é a conversao do trabalhador indepe~dent~ em divisao do trabalho no interior da sociedade e a divisao dentro de urna
trabalhador assalariado, seja dentro do mesmo ramo de produc;:ao, seja em oficina, elas diferem nao apenas gradual, mas essencialmente.

14 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 15


(... ) O que é que gera a conexao entre os trabalhos independentes do encargo do trabalhad~r ou~ o que dá no mesmo, desqualifica seu posto de
vaqueiro, do curtidor e do sapateiro? A existencia de seus produtos trabalho. Esta desqualificayao procede também da substituiyao da rnao de obra
respectivos como mercadorias. O que caracteriza, pelo contrário, a nas tarefas que requerem urna maior precisao e, em geral, da elirninayao
divisao manufatureira do trabalho? Que o operário parcial náo produz prática de qualquer possibilidade de decisao no processo produtivo (Bright
mercadoria alguma. Apenas o produto coletivo dos operários parciais 1958; Braverman, 1974; Freyssenet, 1977). '
se transforma em mercadoria. O taylorismo sup6e um salto qualitativo na organizayao do trabalho. Seu
(. .) A divisao manufatureira do trabalho supi>e a concentr~áo dos obje~vo é a de~~mposiyao do processo de trabalho nas tarefas mais simples,
meios de produyao nas rnaos de um capitalista; a divisao social do trabalho, mediante a analise de tempos, a qual Gilbreth acrescentaria a análise dos
o fracionamento dos meios de produyao entre muitos produtores de movimentos. Com isso se pretende colocar a disposiyao da direyao das
mercadorias, independentes uns dos outros. empresas um conhecimento detalhado dos processos de trabalho que lhes
(. .. ) A norma que se cumpria planificadamente e a priori no caso da evite terem que depender do saber dos trabalhadores e de sua boa vontade
divisao do trabalho dentro da oficina, opera, quando se trata da divisao do isto é, de sua disposiyao para empregarem a fundo sua capacidade de trabalh~
trabalho dentro da sociedade, só a posteriori, como necessidade e serem explorados (Taylor, 1969). Enfim, o propósito da "organizayao
intrínseca, muda, que apenas é perceptível na troca barométrica dos cien~ca .do trabalho'' é converter a ca pacidade de trabalho do assalariado, que
preyos do mercado (... ) . A divisao manufatureira do trabalho supi)e a o capitalista comprou, no máximo de trabalho efetivo, o que passa por
autoridade incondicional do capitalista sobre os homens reduzidos a arrebatar-lhe a capacidade de decidir a respeito. Frente a divisao manufatureira
meros membros de um mecanismo coletivo, propriedade daquele; a do trabalho, ·o taylorismo representa simplesmente urna tentativa de
divisao social do trabalho contrapoe produtores independentes de sistematizayao, codificayao e regulayao dos processos de trabalho individuais
mercadorias que nao reconhecem mais que a autoridade da concorrencia com vistas amaximizayao do lucro, mas seu método é qualitativamente distinto
(. .. ) (Marx, 1975: I, 431-434). (Braverman, 1974; Freyssenet, 1977; Aronowitz, 1978).
O fordismo é a incorporayao do sistema taylorista ao desenho da
Por isso a passagem da produyao para o mercado ao trabalho assalariado, maquinaria mais a organizayao do fluxo contínuo do material sobre o qual se
independentemente das diversas subformas que possam adotar um e outro, trabalha: simplificando, a linha de montagem. Tal como a maquinaria na divisao
representa a passagem da independencia a dependencia, ou de depender tao- manu~atureira . do trabalho, o fordismo, que representa com relayao ao
-somente de foryas impessoais como sao ou parecem ser as do mercado, taylonsmo a mcorporayao dos cálculos de movimentos e tempos em um
embora estejam mediadas pelas pessoas, a ver-se inserido em certas rela«;óes sistema mecánico de ritmo regular e ininterrupto, supoe a subordinayao do
de dependencia pessoal, embora estejam mediadas pelas coisas; a passagem trabalhador a máquina, a supressao de sua capacidade de decisao e, ao mesmo
da elabora«;ao completa do produto, que pode ser a base do orgulho tempo, a diminuiyao drástica dos custos de supervisao (Freyssenet, 1977;
profissional, a contribuiyao parcial e fragmentária, a qual pode trazer tao- Conat, 1987; Durand, 1979). Com ele, o trabalho alcanya o grau máximo de
-somente a sensa«;ao de insignificancia; a passagem, enfim, do domínio do submetimento ao controle da direyao, desqualificayao e rotinizayao, e os
processo de trabalho em sua totalidade a inser«;ao no seio de urna organizayao trabalhadores veem diminuído ao mínimo o controle sobre seu próprio
estruturada em tomo de um poder hierárquico e alheio apessoa do trabalhador. pro:esso pro~utivo e reduzida a zero ou pouco mais que zero a satisfayao
A divisao manufatureira do trabalho pode desenvolver-se simplesmente mtrmseca denvada do mesmo. Entra-se de cheio no que Giedion (1969: 175)
como decomposi«;ao de um processo em suas tarefas integrantes, tal como a chamou de ''barbárie mecanizada, a mais repulsiva de todas as barbáries' '.
descrevia Adam Smith, com o famoso exemplo da subdivisao da fabricayao de
um alfmete em dezoito opera«;6es (Smith, 1977: 109 ss.), mas seus grandes
progressos vieram da introdu«;ao da maquinaria, do taylorismo e do fordismo. A diversidade atual nas condi~oes de trabalho
A maquinaria estabelece um ritmo mecánico ao qual o trabalhador, como
seu apéndice, tem que se subordinar, incorporando em seu mecanismo urna Nem todos os trabalhos da sociedade capitalista sao iguais. Toda
regulayao do tempo e da intensidade que, sem ela, exigiria elevados custos de categorizayao geral é, necessariamente, urna simplificayao, mas necessitamos
supervisao. Apóia-se na divisao manufatureira do trabalho, pois somente a delas para nao nos perdermos na casuística. A atividade dos intelectuais, dos
decomposiyao do processo em tarefas simples permite a substituiyao do ~scritores ou dos artistas, entre outros, pode representar o mesmo grau de
homem pela máquina. Ao encarregar-se de parte das tarefas, simplifica o liberdade que a do trabalhador da economia de subsistencia e maior que a do

16 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 17


artesao pré-industrial. Mas, por isso mesmo, tendemos a nao considerá-la social, sua fé na mobilidade social ou suas inclinac;6es políticas, tarnbém as
como um trabalho em sentido estrito e, se a taxamos como tal, é ~orque é separam radicalmente outras, tais como nao possuir meios de produc;ao
remunerada. Fora dessas excec;6es pouca significativas, entretanto, ext~te .todo materiais e derivar sua posi<;ao intermediária e relativamente privilegiada do
um gradiente ao longo do qual é possível ir-se desde os trabalhos rr:ms livres próprio fato de estarem integrados no modo de produc;ao capitalista - ou no
aos mais rotineiros. Compreende-se melhor isto simplesmente analisando-se setor público - em vez de produzir diretamente para o mercado, etc. (Wright
alguns estereótipos.
19~. '
As profissoes liberais, os camponeses independentes e os chamados Na base desse gradiente estao os postos de trabalho subordinados. Sao
trabalhadores autónomos - os artesaos de nossos dias no que se refere ao postos cujos ocupantes nao tem nenhum controle nem capacidade de decisao
trabalho como rela<;ao social, independentemente de seu conteúdo - tem um sobre o produto de seu trabalho e pouca ou nenhuma sobre seu processo.
certo grau de controle sobre o produto de seu trabalho. Este nao apenas lhes Neste último aspecto, entretanto, podem-se dar situac;6es muito diversas que
pertence legalmente, mas além disso podem decidir qual será ele dentro_ da vao desde um considerável grau de liberdade - dentro dos limites inflexíveis
gama de possibilidades trac;ada pelo mer~ado_, algurnas. re~lamenta~o~s marcados pelo horário e pelas tarefas a cumprir - até o submetimento a urna
estatais e, em seu caso, as normas das orgamzac;oes profiss10na1s ou greffilalS. regulac;ao estrita. O maior grau de liberdade dá-se naqueles postos de trabalho
E conservam, sobretudo, um grau substancial de controle sobre s~u ?rocesso cujas tarefas nao estao integradas nurna seqüencia coletiva - por exemplo, o
de trabalho, tanto qualitativa - os procedimentos - quanto quan~tauvamente vigia de um edificio ou o recepcionista de um hotel. Um grau intermediário
- 0 emprego do tempo. Afina!, estes grupos sao os restos, ffialS ou meno~ (intermediário em termos relativos, em compara<;ao com outros trabalhos
transformados, da velha pequena burguesia, isto é, da produ<;ao mercantil subordinados, porém insignificantes em si mesmos) é o daqueles postos de
trabalho cujas tarefas foram normalizadas, mas nao integradas nurna seqüencia
simples. , . . .
As chamadas serniprofissoes representam o estad1o pnme1ro da mecanica - por exemplo, um balconista ou um funcionário de escritório, que
subordina<;ao do trabalho ao capital. Elas estao compostas por membros dos realizam tarefas rotineiras mas podem interromper brevemente seu trabalho,
corpos que constituem as profissoes liberais, nao as exercer:_do, entre~to, desacelerá-lo, acelerá-lo e introduzir pequenas variac;oes. O grau zero (ao
como tais, mas como assalariados, e por outros grupos que nao consegurram menos teoricamente) de controle dá-se nos postos de trabalho cujas tarefas
nunca, coletivamente, o estatuto de profissao liberal, embora hajam passado foram incorporadas a urna seqüencia medi.nica - o exemplo clássico é a linha
por processos de formac;ao equivalentes. Seu lugar. _nat~ral pare~e se: os de montagem.
servic;os ao público que exigem um alto grau de qualihcac;ao, urna t1tulac;a~ e Esses diferentes tipos de processo de trabalho que diferenciam
um ethos similares aos das profissoes liberais, e geralmente tambem transversalmente a sociedade reproduzem como divisao presente a evoluc;ao
organizac;oes profissionais próprias - associac;6es - que exercem as mesm~s global do trabalho no processo de industrializac;ao e de expansao e
func;oes protetoras e restritivas que as daquelas. Exem~lo~ desses grupos. s~o consolidac;ao do capitalismo. Os exemplos com rnaior grau de liberdade sao os
os professores, os médicos assalariados da saúde ?ublica o~ .de h~sp1ta1s correspondentes aquelas func;6es que o modo de produc;ao nao pode - por
privados, os assistentes sociais, os grupos profissiona1s da admrrustrac;ao, etc. enquanto, talvez - absorver, e a degrada<;ao do trabalho, ao passar aos grupos
O produto de seu trabalho nao lhes pertence e escapou a seu controle, mas seguintes, é o produto do progressivo grau de penetrac;ao do modo de
mantem um elevado grau de autonomia em tudo o que concerne a seu produc;ao capitalista nos setores, nos ramos e nas func;6es correspondentes.
processo de trabalho. Também apresentam um grau de liberdade maior aqueles empregos que
Entre situac;oes similares as dos grupos anteriores distribuem-se os existem como tais precisamente como resultado da polarizac;ao das
dirigentes e executivos das organizac;oes, desde as empresas. até as qualificac;6es e da capacidade de decisao que a organiza<;ao capitalista ou
administrac;oes e os órgaos públicos. Na medida em que a capae1da~e de burocrática do processo de trabalho introduz na produc;ao coletiva - neste
decisao sobre os fms da organizac;ao está mais ou menos centralizada, caso o dos executivos. Isto nao significa que toda ocupac;ao que apresente um
possuirao um grau de controle maior ou menor sobre o produto de seu alto grau de controle dos trabalhadores sobre seu trabalho tenha urna origem
trabalho; e, de qualquer forma, conservam um controle substancial sobre seu pré-capitalista, mas, simplesmente, que, embora seja relativamente nova, suas
processo. Este grupo, juntamente com o anterior, tem sido assirnilado com características técnicas e/ou a forc;a organizada de seus componentes
freqüencia a pequena burguesia, ou qualificado de "nova pequena burguesia" impediram sua degrada<;ao. Estas condic;6es podem ser reunidas por grupos
para diferenciá-la da "tradicional" (Poulantzas, 1974; Labini, 1981), mas, ainda ocupacionais muito antigos, como no caso dos médicos e dos advogados, ou
que as unam características tais como ocupar um lugar intermediário na escala muito novos, como no dos psicanalistas. Entretanto, torna-se óbvio que os

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 19


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velhos grupos profissionais estao submetidos a um fogo cruzado, como o indica reduzir-se a func;oes de execuc;ao. É o processo de desqualificac;ao e
degradac;ao do trabalho.
0 fato de que a maioria de seus membros já se tenham convertido em
assalariados, e aqueles novos grupos na~ já como tais, embora Em terceiro lugar, na passagem de um processo orientado pelo caráter
freqüentemente urna parte deles exen;:a sua atividade de maneira autónoma. qualitativo das tarefas a um processo encaminhado exclusivamente a economía
A questao é, sobretudo, de propon;oes. Na sociedade pré-capitalista nao de tempo, em detrimento de sua qualidade intrínseca. Na terminología de
estavam ausentes formas de trabalho em que nao havia controle por parte dos. Thompson (1967), a passagem do task-oriented ao time-oriented labour, da
trabalhadores, desde um setor dos escravos até os galeotes, mas a forma orientac;ao fmalista a orientac;ao temporal do processo de trabalho.
predominante, de longe, era o trabalho autónomo - embora este estive~e
submetido a confiscos sobre o produto -, ou entao o trabalho for<;ado, mas sob Enquanto a maioria dos trabalhadores na maior parte das economías,
condic;ües tais que o trabalhador continuava controlando o processo - por históricas e quase-contemporaneas, eram orientados primordialmente
exemplo, a corvéia. Na sociedade atual persistem - e, as vezes, surgem - pelos fms - task-oriented -, a grande maioria das pessoas
formas de trabalho autónomo, mas a maioria da populac;2o "ativa", isto é, a que economicamente ativas nas sociedades industriais nao apenas trabalham
trabalha por dinheiro, está submetida a formas degradadas de trabalho. seguindo um programa temporal rigidamente determinado, mas, além
disso, sao recompensadas em termos de unidades temporais nas tarefas
atribuídas; isto é, sao pagas por seu trabalho em termos de horas,
Pautas da evolw;iio do trabalho semanas, meses ou anos (Moore, 1963: 25).

Resumindo, podemos dizer que cada urna dessas mudan<;as representam O tempo, como dizia Benjamin Franklin em seu Advice to a young
um passo adicional em vários processos. Em primeiro lugar, na dissociac;2o tradesman, é dinheiro. Já nao é um fim em si, nem o espac;o de qualquer fim,
entre o processo de trabalho e seu objetivo, a satisfac;2o das necessidades mas o meio principal para o fim único. Da profundidade dessa mudanc;a e seu
próprias e as alheias. Qualquer idéia de equilibrio com a natureza, de limitac;2o arraigamento nas mentalidades pode dar-nos urna idéia a diferen<;a entre as
do trabalho ao necessário para a satisfac;ao das necessidades estabelecidas, atitudes dos homens de duas culturas distintas. Urna pesquisa entre os
como as que presidiam a produc;2o de povos primitivos e, apesar da pressao habitantes de Lima-Callao (Peru) e os de Bruxelas e Nodebais (Bélgica), em
demográfica sobre a terra, a das sociedades camponesas e artesanais, cede fms dos anos sessenta, indicava que apenas 18,5% dos belgas tinham a
passagem ao aumento ilimitado das necessidades (Illich, 1977) e ao sensac;ao de nao haver perdido o tempo, frente a 63,7% dos peruanos
desenvolvimento incessante da produc;ao. Lewis Mumford assim o expressou (Rezsaaházy, 1972: 458), diferen<;a ainda mais impressionante se se tem em
de forma lacónica: conta o distinto ritmo de atividade em um país e outro.
Em quarto lugar, na perda também do controle sobre a intensidade e
(...) Há apenas urna velocidade eficiente: mais rápido; apenas um regularidade, ou irregularidade, de seu trabalho, que é o mesmo que dizer: na
destino atrativo: mais longe; apenas um tamanho desejável: maior; passagem de um tempo-atividade vinculado ao estado de animo ou a disposic;ao
apenas um objetivo quantitativo racional: mais (Mumford, 1970: 173). do trabalhador ao tempo regular da máquina. Nas palavras de um historiador:

Em segundo lugar, na perda, por parte do trabalhador, do controle sobre Emerge (... ) um tempo novo, urna nova temporalidade, um novo
seu processo_de trabalho, na passagem da atividade criativa a inserc;ao em um "tempo social" como diz G. Gurvitch, tempo pleno, tempo homogéneo,
todo pré-organizado, da autonomía a submissao a normas. Ao se arrebatar ao tempo rigoroso, tempo coletivo, imposto pela "mega-máquina" da
trabalhador o controle de seu processo, adquire urna nova dimensao a divisáo produc;ao. (... ) Outrora dono de um tempo que era seu tempo, eis aqui
entre trabalho manual e trabalho intelectual e inicia-se o caminho que vai do ::.~gora o trabalhador joguete de um tempo exterior, de urna temporalidade
trabalho complexo e qualificado ao trabalho simples e desqualificado, do externa (Le Goff, 1985: 28).
trabalho concreto ao abstrato, do artesáo orgulhoso de seu saber profissional
ao Jack-of-all trades, master of none, (homem de todos os ofícios, mas que Em quinto lugar, na passagem de um processo de trabalho variado,
nao domina nenhum). De um lado, as func;oes de concepc,:2o cindem-se e composto de múltiplas tarefas distintas e cuja alternancia é fonte de variedade,
distanciam-se do trabalho da maioria para concentrar-se nas máos da direc;2o a realizac;ao reiterada, monótona e rotineira de um reduzido número de tarefas
das organizac;oes produtivas; do outro, as tarefas do trabalhador tendem a simples. Em suma, de um tipo de trabalho que se podía considerar como um

20 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 21


espa<;o e um tempo de realiza<;ao pessoal a outro que somente pode ser aceito ou, de qualquer forma, de produzir mais do que o que consomem. Ademais
como um mal necessário, inevitável ou simplesmente imposto. Marx assim o a compra de escravos supunha imobilizar um capital que apenas ao cabo de u~
expressava: longo período seria recuperado, enquanto o salário, cujo único objetivo é cobrir
os custos diários, semanais ou mensais de reprodu<;ao da for<;a de trabalho, é
Em que consiste, pois, a aliena<;ao do trabalho? Primeiramente, no recuperado muito mais rapidamente: em termos mais técnicos, podemos dizer
fato de que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, nao pertence a seu que o escravo representa também urna inversao em capital fixo, o assalariado
ser; que em seu traoalho, o trabalhador nao se afirma, mas se nega; nao apenas em capital circulante. Isto levava a situa<;6es paradoxais, tal como a de
se sente feliz, mas infeliz; nao desenvolve urna livre energia física e que na América do Norte colonial se chegasse a preferir os assalariados livres
espiritual, mas mortifica seu corpo e arruína seu espírito. Por isso o irlandeses para as tarefas mais perigosas, dado seu custo menor que o dos
trabalhador só se sente ele mesmo fora do trabalho, e no trabalho algo fora escravos (Philips, 1963: 182). Mesmo quando os escravos eram adquiridos por
dele. Ele se sente em casa quando nao trabalha, e quando trabalha nao se métodos mais vantajosos que o da compra no mercado, sua rentabilidade era
sente em casa. Seu trabalho nao é, assim, voluntário, mas obrigado; é duvidosa.
trabalho {or9ado. Por isso nao é a satisfa<;ao de urna necessidac\e, mas
apenas um meio para satisfazer as necessidades fora do trabalho (... ) . A experiencia tem-no demonstrado. De todos os tipos de cria<;ao, a do
Disso resulta que o homem (o trabalhador) apenas se sente livre em gado humano é a mais difícil. Para que a escravidao seja rentável quando
suas fun<;6es animais, no comer, beber, procriar, e quando muito no que se aplica a empresas em grande escala, tem que haver abundancia de
se refere ahabita<;ao e avestimenta, e em troca em suas fun<;6es humanas carne humana barata no mercado. Isto só se pode alcan<;ar por meio da
sente-se como animal. O que é animal torna-se humano e o que é humano guerra ou das incurs6es em busca de escravos. De maneira que urna
torna-se animal (Marx, 1977: 108-109). sociedade dificilmente pode basear urna boa parte de sua economia em
seres humanos domesticados, a nao ser que tenha a mao sociedades mais
fracas a serem vencidas ou arrasadas (Bloch, 1966: 247).
As vantagens económicas do trabalho livre
Isso é o que gregos e romanos fizeram com as sociedades que os
O trabalho assalariado, a troca da for<;a de trabalho por dinheiro, nao é a rodeavam, e os colonizadores brancos com a África. A escravidao, portanto,
única forma sob a qual se tem explorado o trabalho sob o capitalismo. Cabe implicava elevados custos de captura e transporte. Os escravos de segunda
entao perguntar-se por que a evolu<;ao geral em sua dire<;ao. Immanuel gera<;ao nao apresentavam esses custos, mas em compensa<;ao apresentavam
Wallerstein e sua escola parecem sugerir urna certa indiferen<;a do capitalismo os de cria<;ao, equivalentes ou superiores. De Avenel já estava consciente da
diante das distintas formas de organiza<;ao do trabalho, entre as quais ele duvidosa rentabilidade da escravidao:
optaria de acordo com aquilo que se trata de produzir e onde:
(... ) Se se comparam as vantagens e inconvenientes dos escravos,
Por que diferentes modos de organizar o trabalho - escravidao, cuja reprodu<;ao compensa, menos que a de qualquer outro gado, a perda
"feudalismo", trabalho assalariado, auto-emprego - no mesmo ponto resultante de morte natural, invalidez ou de acidente, e que proporcionam
temporal no seio da economia-mundo? Porque cada modo de controle do sempre urna quantidade de Frabalho muito menor que a de um trabalhador
trabalho é o mais adequado para tipos particulares de produ<;ao independente, chegaremos a perguntar-nos se o trabalho escravo nao era
(Wallerstein, 1979: 121). muito mais caro... que o trabalho livre (citado por Lengelle, 1971: 94-95).

Entretanto, nao é difícil identificar as diferen<;as que, em princípio, fazem Tampouco a servidao destacou-se como urna máquina particularmente
do trabalho assalariado a forma preferível de explora<;ao do trabalho para o eficaz na extra<;ao de mais-trabalho. Embora os camponeses tivessem
capital e que o converteram na forma distintiva de trabalho sob o capitalismo obriga<;ao de trabalhar a terra dos senhores, obriga<;ao a que nao podiam
ao longo do globo terrestre. escapar salvo fugindo para as cidades ou emigrando, a mao de obra via-se
Frente ao escravismo apresenta a vantagem de desresponsabilizar o notavelmente desperdi<;ada nos latifúndios. A explora<;ao real dos camponeses
capitalista da captura e cria<;ao dos trabalhadores e de seu sustento quando, pelos senhores situava-se muito longe do limite fisiológico do qual tanto se
pela idade ou qualquer outra razao, nao estao mais em condi<;6es de trabalhar aproximarla depois com o capitalismo fabril, e isso, sem dúvida, pela

22 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 23


resistencia ativa ou passiva dos servos: com técnicas similares, com lugar de origem, pois tarde ou cedo dá lugar a revoltas ou, quando menos,
instrumentos de trabalho provavelrnente mais potentes e com terras de igual fugas. Daí que a escravidao capitalista da época moderna tomasse a forma de
ou melhor qualidade, o trabalho dos servos rendía notavelmente ~eno~ nas um deslocamento maci<;o de milh6es de trabalhadores de um continente a
propriedades do senhor que nas suas próprias. Eles se neg~ mcluslVe a outro, e que praticamente todas as outras formas de trabalho for¡;:ado, e
aceitar parcelas maiores para si por temor de ~n:a, ,eleva¡;:ao das ~argas inclusive os contratos de servidao, supusessem o desarraigamento dos
associadas (K.ula, 1979). Na chamada "segunda serv1dao da Europa Onental, trabalhadores em urna ou outra medida, sempre através da distancia. Mesmo
a corvéia mostrou-se urna maneira ineficaz de extrair mais-trabalho e, em a escravidao dos negros no Sul dos Estados Unidos e no Caribe deu logo lugar
última instancia, como um obstáculo para sua máxima explora¡;:ao (Nichtweiss, a fugas maci¡;:as e ao estabelecimento, com mais ou menos exito, de numerosas
1979: 138, 151). , . . .. colonias de fugitivos.
O trabalho assalariado permite ao capitalista a maxrrna fl.ex1bilidade. Quanto a explora¡;:ao através do sistema de entregas ou trabalho a
Apenas tem que se encarregar dos custos de reprodu<;ao da for¡;:a .de trabalho domicilio, ou do monopólio de compra das colheitas comerciais, a avidez por
na medida em que a explora, nao mais do que isso. Pode fazer recarr ~oa parte mais-trabalho do capital deveria e deve enfrentar-se coma lógica intrínseca da
dos custos de sua reprodu¡;:ao cotidiana e, de qualquer forma, a ma1or parte produ¡;:ao doméstica, seja esta para o consumo próprio (a produ<;ao doméstica
dos de sua reprodu<;ao geracional sobre outros modos de produ<;ao, em sentido estrito) ou para a troca (a empresa familiar), que tende sempre a
particularmente sobre o doméstico (em todas as sociedades) e sobre o pór limites a intensidade do trabalho e a auto-explora<;ao, embora )sso seja o
burocrático (o setor público nas sociedades de "bem-estar"), e pre<;o da renúncia a satisfa<;ao das necessidades nao vitais. E um erro
subsidiariamente sobre o modo de produ¡;:ao mercantil, quando os considerar, a maneira de alguns articulacionistas, que os modos de produ¡;:ao
trabalhadores assalariados realizam outras fun¡;:6es para o mercado, por distintos do capitalismo e que o rodeiam (como o setor público, a produ¡;:ao
exemplo, os camponeses que podem comercializar produto~ de suas pequenas doméstica para o próprio consumo ou a própria produ<;ao mercantil simples)
parcelas que, no entanto, nao os livram do trabalho assalanado. O trabalhador, sejam um mero horizonte passivo ou um simples joguete do capitalismo.
por outro lado, sabe que a conserva<;ao de seu posto de trabalho depe.nde de Possuem, de qualquer forma, sua própria lógica, embora em urna sociedade
maneira direta (dada a possibilidade de demissao) e indireta (dado o nsco de dominada pelo setor capitalista já nao se possam desenvolver livremente, mas
quebra da empresa) de sua produtividade. Sab~ tamb~m, ademai.s, ~ue a tao-somente dentro de um marco dado e em conflito constante com os
obten¡;:ao de meios de vida é para ele ou ela mseparavel da ace1~<;~o da requisitos estruturais impostos pelo capitalismo.
explora<;ao de seu trabalho, em compara<;ao, por exemplo, com a pos1¡;:ao do Assim como os servi¡;:os públicos nao sao tao baratos, em impostos,
servo, que pode trabalhar intensamente para si e nao faze-lo. pa~ o se~or. quanto os capitalistas desejariam e estariam dispostos a fazer com que fossem
Em geral, a produtividade do trabalho for¡;:ado sempre fm mmto ba:xa. _O através de urna explora¡;:ao mais intensa do trabalho dos funcionários, e nao o
mito do negro pregui¡;:oso, o lazy nigger, nao foi exclusivo da coloruza¡;:ao sao porque a produ¡;:ao dentro do setor público nao segue a mesma lógica que
africana nem da escravidao do Sul dos Estados Unidos. Os visitantes britanicos a do setor capitalista privado, embora se apegue parcialmente a ela, da mesma
pensavam exatamente o mesmo do servo bra.n~~ ru_sso (~novese, 1971.:5; maneira a produ<;ao mercantil simples, embora se ache subordinada em um ou
Levine, 1973: 44), apesar das diferen<;as de c1viliza<;ao e clima, e ~s norte- outra medida ao setor capitalista através do mercado, nao se presta facilrnente
-americanos dos mexicanos (Thompson, 1967: 91). Malthus e a ma1or parte ao mesmo grau de intensidade no esfor¡;:o de trabalho.
dos economistas da época mercantilista pensavam de forma similar a respeito Urna vez já dentro do setor capitalista, por outro lado, a passagem da
de todos os trabalhadores em geral, come¡;:ando por seus próprios subordina<;ao formal a subordina<;ao real do trabalho ao capital nao póde nem
compatriotas. pode ter outro sentido que este. Embora alguns autores o desvinculem da
O trabalho for¡;:ado pode absorver o tempo e a vida do trabalhador e obter busca de urna maior produtividade, interpretando-o como urna simples
seu esfor¡;:o físico, mas de nenhum modo pode obter sua colaborafio. seu tentativa de refor¡;:ar o controle (Marglin, 1973) ou como o resultado de urna
compromisso. Bem pelo contrário, torna-o impossível desde o princíp1o, como op<;ao cultural sem muita fundamenta¡;:ao económica racional (Piore e Sabel,
se mostrou em todos os casos em que existiu, desde a mobiliza¡;:ao for¡;:ada dos 1984), parece mais plausível a explica¡;:ao tradicional que se apóia na maior
africanos pelas potencias coloniais até o trabalho dos convictos, hoje em dia, produtividade do que Marx chamava o modo de produ¡;:ao capitalista
em muitos países. propriamente dito, ou seja, a subordina¡;:ao real do trabalho ao capital,
A experiencia, além disso, também mostrou urna e outra vez que nenhum permanecendo o resto das coisas iguais. Ao fi.m e ao cabo, controle e
forma de trabalho for¡;:ado é viável se os trabalhadores permanecem em seu produtividade sao alheios entre si. Quando o trabalhador mantém o controle do
24 Mariano Fernández Enguita
A Face Oculta da Escola 25
processo produtivo, a produtividade, sob condic;:oes técnicas dadas, depende nao. s~m recuos, rm:rchas e contra-marchas, a industrializac;:ao em geral e 0
dele mesmo, tanto por meio da intensidade do trabalho quanto por meio da capitalismo em particular empurraram e arrastaram milhoes de pessoas a
tomada de decisoes e da atribuiyao de recursos. Quando o controle passa as pautas de trabalho radicalmente distintas das que correspondiam a seus
maos da direc;:ao, é este que pode perseguir e persegue um aumento da desejos e preferencias e a seus padroes culturais profundamente arraigados.
produtividade através da reorganizac;:ao e da intensifica<;ao do trabalho. Consegui-lo exigiu, em primeiro lugar, privar-Ihes de quaisquer outras
Isto nao contradiz necessariamente o fato, bem conhecido, de que as possibilidades de subsistencia. Foi necessário arrancar os camponeses do
genericamente chamadas ''novas formas de organizayao do trabalho'' campo, o que se obteve grac;:as a combinac;:ao do crescimento demográfico da
supressao das terras comunais, da ampliac;:ao das grandes propriedades 'em
conduzem a níveis de produtividade superiores as formas hoje já tradicionais,
detrimento das pequenas e da capitalizayao das explorac;:oes agrárias, na
tayloristas e fordistas (Alcaide Castro, 1982; Fernandez Enguita, 1986a), pois
Europa, e a métodos distintos, mas de objetivos similares, em outros
o que é certo hoje, quando os hábitos necessários para um trabalho regular e
continentes. Foi preciso levar os ofícios tradicionais a ruína e a dissoluc;:ao, para
intenso já estao profundamente arraigados nas gerac;:oes adultas, nao tinha por
o que se quebraram seus privilégios monopolistas, se !hes arrebatou o controle
que se-lo também na transic;:ao das formas de produc;:ao arcaicas para as
próprias do capitalismo. Aclemais, os efeitos perversos que aparecem com da aprendizagem e do acesso, se projetou urna maquinaria fora de seu alcance
tanta intensidade na produyao em série atual nao tinham por que faze-lo entao, económico e até se proibiu sua organizayao coletiva, o que, juntamente com as
quando o salto se deu em urna escala menor; nem o caráter cambiante do pressoes do mercado, determinou sua degradac;:ao até sua prática desaparic;:ao
mercado, a instabilidade dos custos e as preferencias dos consumidores por nos terrenos da atividade económica cobic;:ados pelo capital. Além disso, este
attigos diferenciados, fatores que hoje levam a formas de produc;:ao flexíveis, processo nao pode completar-se senao a medida que se cerravarn as fronteiras
parece que foram fatores dignos de ser tidos em conta na época da grande económicas, isto é, a medida que desaparecia a possibilidade de escapar para
transformac;:ao em direyao ao taylorismo e ao fordismo. Por último, grande o Novo Mundo ou para as fronteiras móveis do velho.
parte dos experimentos exitosos com novas formas de organizac;:ao do trabalho Quanto ao campesinato, esta tarefa foi realizada de forma surda, em muitos
baseia-se em contextos nos quais existe urna identificayao do trabalhador com locais, pelo mero crescimento demográfico, mas também de forma ativa e
os fms da empresa, isto é, urna boa disposic;:ao de sua parte: tal é o caso na ruidosa por medidas tais como os cercamentos e a supressao de terras
organizac;:ao paternalista das empresas japonesas, nos exemplos comunais na Europa Ocidental, a coletivizac;:ao forc;:ada na URSS, ou a
autogestionários nos países ocidentais ou, por razoes distintas que nao é confmayao dos nativos a reservas exíguas e pouco produtivas no Sul da África.
necessário detalhar, nas empresas da Alemanha Ocidental e em muitas As diferenc;:as de densidade demográfica explicam o éxito do empreendimento
empresas que produzem diretamente tecnologia, grupos que englobam a maior na Europa e no Japao, depois, em zonas densamente povoadas como Ásia ou
parte de tais experimentos. América Latina, ondeo empobrecimento dos camponeses foi o produto fácil do
De qualquer forma, as pessoas nao agem de acordo com o que as coisas crescimento da popula<;ao e do contato com o mercado mundial, e seu fracasso
sao, mas com o que elas creem que sao, e aqui se incluem os capitalistas e os inicial em zonas de baixa densidade como a África, onde, ao nível de
executivos; e nao há razao, neste caso, para pensar que nao acreditavam subsistencia, existía - e ainda existe em parte do continente - urna
realmente no que constantemente proclamavam: a maior produtividade do dispo:U~ilidade ilimitada de terra para a populac;:ao existente. O que em jargao
novo sistema, baseada em parte na própria maquinaria e em parte na maior economico se conhece como ''desenvolvirnento com urna oferta ilimitada de
regularidade e intensidade impostas ao trabalho. trabalho'' (Lewis, 1954) tornou-se um problema mais político e cultural que
~con~mico; ou, melhor dito, um problema económico incompreensível e
msoluvel dentro dos postulados da economia clássica e neoclássica.
A longa marcha do capitalismo Em segundo lugar, a organizac;:ao do trabalho que hoje conhecemos é o
resultado de urna longa cadeia de conflitos globais, setor por setor, indústria
A expansao do capitalismo nao foi exatamente um passeio, mas o por indústria, fábrica por fábrica e oficina por oficina, entre os patroes e os
resultado de um processo prolongado, inacabado e irregular de lutas de classe, trabalhadores. Estes conflitos desenvolveram-se - e ainda se desenvolvem -
concorrencia económica e enfrentamentos políticos. Tendemos a nos f1xar no próprio local de trabalho, e só muito lentamente foram sendo saldados com
semente na parte desses conflitos concernentes as relac;:oes de propriedade e vitória. após vitória dos patroes. Foram e sao conflitos pouco visíveis, pois para
aos regimes políticos, mas tanto ou mais importante foi a luta em torno da os me1os de comunicac;:ao e mesmo para a história, a economia e a sociologia
organizac;:ao, das condic;:oes e da intensidade do trabalho. Através dela, embora do trabalho, sempre foi mais fácil fixar a atenc;:ao sobre variáveis mais

A Face Oculta da Escala 27


26 Mariano Fernández Enguita
evidentes, como os salários ou a jornada de trabalho, que no intrincado mundo religiosos, humanistas, filósofos e urna longa lista de intelectuais e publicitários
da organizayao dos processos produtivos. Em todo esse percurso, os patroes de diversos tipos, coincidentes todos no desejo de desarraigar os velhos
puderam valer-se nao apenas de sua prepotencia económica, mas também e modos e hábitos de vida e substituí-los por outros mais adequados as
muito do poder policial, judicial e militar do Estado; e, a partir de um certo necessídades do Moloch industrial.
ponto, da aquiescencia das organizayoes sindicais, que passaram de urna Em quarto lugar, foi necessária urna sistemática política repressíva dirigida
política de oposiyao as organizayoes manufatureira, taylorista e fordista, e de contra os que se negavam a aceitar as novas relayoes sociais. Nao por acaso
defesa das condiy6es de trabalho existentes e do controle sobre o processo de os inícios do trabalho fabril estiveram associados com as pris6es, os hospitais,
trabalho, a urna política de aceitayao daquelas, em troca de contrapartidas os orfanatos e outras formas de internamento. Perseguiu-se implacavelmente
extrínsecas ao processo de produyao, como os aumentos salariais, a reduyao os pobres, os vagabundos e outros "marginais", que entao nao eram tantos,
de jornada, etc. (há duas ou tres décadas, os sindicatos voltaram a recuperar expulsando-os das cidades, internando-os, obrigando-os a trabalhos foryados e
a problemática da participayao, da organizayao e das condiyoes de trabalho, submetendo-os a castigos corporais. Mesmo assim, este processo nunca
mas nunca com a forya da primeira resistencia inicial e sempre com os chegou a bom fnn, apesar dos esforyos da política dos distintos governos.
escrúpulos e reparos devidos a urna política assentada na homogeneidade de Como reconhecem, se bem que pagando tributo ao eufemismo de supor que
condiyao do trabalhador). a política assístencial dos Estados foi simplesmente isso, dois autores norte-
Muitos desses conflitos nao tiveram nem tem a forma de enfrentamentos americanos:
coletivos abertos e declarados. Consistiram e consistem em resistencias
informais, individuais ou coletivas, dos trabalhadores as reorganizayoes ( ... ) Na verdad e, nao existe nenhuma sociedad e capitalista
induzidas pelos patr6es, manifestando-se, com freqüencia, no absenteísmo, no inteiramente desenvolvida. (... ) O capitalismo desenvolveu-se e expan-
alcoolismo, nos problemas de qualidade e até mesmo nas pequenas diu-se lentamente. Durante a maior parte de sua evoluyao, o mercado
sabotagens. Formas de resistencia que, embora nao figurem nos livros de proporcionava magras recompensas a maioria dos trabalhadores e
história nem nos informes sobre a ordem pública, podem fazer naufragar total nenhuma em absoluto a alguns. Para muitos continua sendo assim. E,
ou parcialmente os planos da direyao ou impor soluyoes intermediárias entre durante a maior parte de sua evoluyao, amplos setores das classes
os desejos das partes. trabalhadoras nao estavam inteiramente socializados no ethos do mercado.
Em terceiro lugar, foi necessária urna profunda revoluyao cultural. A O sistema de previdencia, é nosso argumento, contribuiu de forma
''economia moral'' - nas palavras de Thompson - dos artesa os e as importante para superar esta persistente debilidade da capacidade do
tradiyoes dos camponeses foram varridas pela ideologia capitalista do "livre" mercado para dirigir e controlar os homens (Piven e Cloward, 1971.: 33).
mercado. O profundo respeito pelo trabalho pessoal bem feíto cedeu lugar ao
fetichismo da maquinaria. A busca de um equilibrio entre a satisfayao das Embora se mocará ter maciyo dos comeyos da industrializayao, a perseguiyao
necessidades de consumo e o esforyo de trabalho necessário para isso foi dos que optaram por manter-se a margem durou até nossos días. Ressurgiu com
substituída pela identificayao do bem-estar com o mito do consumo sem fnn. especial forya em momentos em que urna crise económica empurrou grande
A apreciayao do trabalho como parte integral da vida que devia ser julgada por quantidade de pessoas para o exterior das relay6es sociais de produyao
seus valores materiais e morais intrínsecos cedeu terreno a sua considerayao estabelecidas; por exemplo, durante a Grande Depressao, período em que os
como mero meio de conseguir satisfay6es extrínsecas. As redes comunitárias chamados ''nao empregáveis'' converteram-se em um sério quebra-cabeya para
de solidariedade, reciprocidade e obrigay6es mútuas de artesaos e as mentes bem-pensantes (Myrdal, 1968: II, 1004). E perdurou em todo momento
camponeses, e mesmo o rígido código de direitos e obrigayoes entre o e perdu• a hoje em manifestay6es como a repressao a mendicidade, as leis de
campesinato e a nobreza, foram substituídos pela atomizayao das relay6es periculosidade social, o controle que acompanha os serviyos estatais, a psicose
sociais, pela expansao do individualismo e pela guerra de todos contra todos - sobre a fraude no seguro-desemprego, etc.
guerra económica mas, caso necessário, também armada.
Isso foi em parte resultado do próprio desenvolvimento económico, da
transformayao radical das condiy6es de existencia e do emprego de urna ampla Filogénese e ontogénese do trabalho moderno
parafernália de recursos políticos, mas também de urna encarniyada e
prolongada cruzada ideológica. Para a mesma contribuíram, a partir de Em quinto e últi_mo lugar, foi preciso assegurar os mec.anismos
diferentes perspectivas, mas com um fnn comum, economistas, reformadores institucionais para que cada novo indivíduo pudesse inserir-se nas novas

28 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 29


relac;oes de produc;:3o de forma nao conflitiva. A maioria das pessoas que se converteram no lugar apropriado para acostumar-se as relac;6es sociais
chegam a idade adulta encontram já urna série de condic;oes ?adas: ~ao do processo de produc;:3o capitalista, no espac;o institucional adequado para
existe para elas outra via disponível de obtenc;ao de seus mews de VIda preparar as crianc;as e os jovens para o trabalho. Assim fez-se válida a sábia
senao o trabalho assalariado, este goza já de aceitac;ao social, os ~ue o recomendac;ao do velho Hegel:
rejeitam tem sido relegados a urna posic;ao marginal e a cultura domrnan~e
bendiz e reproduz tudo isto. Isso seria já o suficiente se os at~a1s Também o indivíduo singular tem que percorrer, quanto a seu
processos de trabalho fossem ''naturais'' ou se as pessoas fossem fe1tas conteúdo, as fases de formac;ao do espírito universal, mas como figuras já
de material plenamente plástico e estivessem dispostas a que qualquer um dominadas pelo espírito, como etapas de um caminho já trilhado e
lhes desse qualquer forma, mas nao é suficiente numa situac;ao em que o aplainado; vemos assim como, no que se refere aos conhecimentos, o que
processo de trabalho é artificial, isto é: ~sto~c~en!e condicio~do, e as em épocas passadas preocupava o espírito maduro dos homens desee
pessoas tem ou desenvolvem suas propnas mclinac;oes ~ deseJOS. agora ao plano dos conhecimentos, exercícios e até dos jogos próprios da
Era necessário, por conseguinte, que, antes de mcorporar-se ao
infancia, e nas etapas pedagógicas reconheceremos a história da cultura
trabalho cada indivíduo percorresse em anos o caminho que seus projetada como em contornos de sombras (Hegel, 1973: 21).
anteces~ores ou a espécie percorreram em séculos. Este mecanismo nao
podia estar no próprio trabalho, pois as leis sobre o emprego das crianc;as
Se os trabalhadores ocidentais adultos tiveram que ser moralizados e os
nas fábricas romperam a única possibilidade: a aprendizagem do ofício, nativos das colonias civilizados, os novos membros da sociedade tem que ser
que, intensamente degradada a partir de suas formas artesanais, havia-se educados. Em qualquer dos casos, o objetivo é o mesmo: submeter seus
convertido em pura e simples super-explorac;:ao da infancia, e que era impulsos naturais, ou o que deles ficara de pé nas velhas formas de trabalho,
necessário suprimir para arrancar dos trabalhadores o controle do e romper suas tradic;oes até levá-los a aceitar as novas relac;oes sociais de
recrutamento. Tampouco podia estar na familia, pois esta conservou,
produc;ao. Ao fim e ao cabo, a idéia nao era nova. Rousseau (um dos vários
embora diluídas, muitas das pautas de comportamento e relac;oes que a
Rousseaus) já havia dito que ' 'as instituic;oes sociais boas sao as que melhor
caracterizavam quando era urna unídade de produc;:ao agrícola ou artesanal,
sabem apagar a natureza do homem" (Rousseau, 1979:3), e Kant, seu melhor
e algumas até mesmo reforc;adas desde que deixou de se-lo e liberou-se
discípulo em matéria de educac;ao, defmiria a personalidade, objetivo da
da carga do trabalho.
educac;ao, como ''a liberdade e independencia do mecanismo de toda a
Muitas das velhas instituic;oes contribuíram para isto, e entre todas natureza" (Kant, 1977: 151).
cabe destacar os exércitos de conscripc;:3o que, como reza o ditado, ''nos
Aos quatro primeiros processos, especialmente os tres últimos deles,
fazem homens' '. Nao há nada tao parecido com a estupidez e com a falta
voltaremos com mais detalhe nos dois próximos capítulos. Ao quinto está
de interesse da atividade fabril quanto a militar a que sao submetidos dedicada por inteiro a segunda parte deste livro.
milhoes de jovens varoes nos países com servic;o militar obrigatório.
Depois de tal experiencia, o mais embrutecedor dos trabalhos pode ser
visto como urna hberac;ao. Mas o servic;o militar é breve e, a falta de
guerras, torna-se pouco rentável manter por mais tempo, ou até mesmo
por qualquer tempo, jovens que estao em idade de produzir, sem fazer
nada de útil; seu ethos é muito pouco convincente, motivo pelo qual seus
efeitos como socializac;:3o para o trabalho podem ser os menos esperados
-nao por acaso as primeiras fábricas foram identificadas com os quartéis,
como um argumento para serem rejeitadas -; ademais, o arraigado
machismo castrense impede a instituic;:3o de exercer seus benéficos
efeitos sobre a futura mao de obra feminina.
Era preciso inventar algo melhor, e inventou-se e reinventou-se a
escola; criaram-se escalas onde nao as havia, reformaram-se as existentes
e nelas se introduziu a forc;a toda a populac;ao infantil. A instituic;ao e o
processo escolares foram reorganizados de forma tal que as salas de aula

30 Mariano Fernández Enguita


A Face Oculta da EscoJa 31
2

O CASO EUROPEU:
REVOLU~ÁO INDUSTRIAL
E RESISTENCIA POPULAR

A fábrica e o trabalho assalariado foram desde o primeiro momento coisas


indesejáveis para a popula<;ao européia, em parte como produto de urna cultura
que, tendo-se recém libertado da servidao, identificava o trabalhar para outro
com a dependencia. Nao por acaso a idéia de liberdade havia nascido
estreitarnente associada a defesa da propriedade necessária para a vida e o
trabalho pessoais. A propriedade feudal era condicionante tanto para o senhor
quanto para o servo, de forma que se este podia ver nessa condicionalidade a
base de sua dependencia, o senhor tarnbém encontrava nela urna fonte de
obriga<;6es e alguns limites a sua capacidade de decisao. Os trabalhadores
livres da época, por outro lado, eram camponeses independentes ou artesaos,
e o eram por possuir seus meios de produ<;ao - embora a propriedade dos
artesaos pudesse também estar limitada pelas normas gremiais. Nestas
circunstancias, torna-se perfeitamente explicável que o caminho em dire<;ao a
liberdade fosse identificado com a passagem da propriedade condicional a
propriedade absoluta, assim como que a falta de propriedade fosse vista como
falta de independencia e o trabalhar para outro como dependente e nao honrado.
Para o pensamento anti-aristocrático da Europa medieval, a propriedade
era, pois, a base da independencia, a garantia necessária e suficiente de que
ninguém se apropriaria do trabalho de outro. Nem podiam imaginar que o
desenvolvimento da institui<;ao terminarla dividindo a sociedade em urna
minoria de proprietários e urna imensa maioria de pessoas que nao possuem

A Face Oculta da EscoJa 33


meios de trabalho, tal como sucede hoje. A propriedade erga omnes ficava idade, havia superlotac;:ao e tanto o local de moradia quanto a oficina se
desligada, como diría Tawney (1972), de qualquer func;:ao, passando da situac;:ao tinham tornado menos desejáveis a partir de sua combinac;:ao sob um único
de estar limitada em seu desfrute por suas func;:6es sociais a constituir-se em teto. Em muitas, mas nao em todas, pois havia trabalhadores a domicilio
um direito absoluto... dos proprietários. Paradoxal, porém que eram muito prósperos, e, em seus días alciónicos, o tecedor manual
compreensivelmente, a passagem da propriedade absoluta a propriedade esteve na invejável posic;:ao de um homem que tinha algo valioso a vender
condicional nao trouxe consigo um mundo de proprietários felizes e e podía viver muito confortavelmente disso. Mas o trabalhador a domicilio
autónomos, mas urna sociedade cindida entre proprietários e nao em pior situac;:ao, mesmo nos casos em que, aos olhos de quem examine
proprietários. Os primeiros encaixaram-se facilmente em seu papel as forc;:as económicas das quais dependía seu sustento, parecía estar
privilegiado. Os segundos, reduzidos a necessidade d~ trabalhar para aq~eles, sujeito ao extremo de urna cadeia muito mais curta do que ele próprio
tiveram que ser encaixados a forc;:a - a forc;:a das cmsas, a forc;:a da le1 ou a pensava, era em muitos aspectos seu próprio patrao. Trabalhava longas
simples forc;:a bruta - no seu papel. horas, mas eram suas horas; sua esposa e seus filhos trabalhavam, mas o
faziam a seu lado e nao havia nenhum poder alheio sobre suas vidas; sua
Se olhamos o trabalho assalariado da perspectiva do século XVII, casa era sufocante, mas podía escapar para seu quintal; tinha temporadas
como de fato o fizeram esses homens, recordamos que os levellers de desemprego, mas as vezes podía usá-las para cultivar suas verduras. As
pensavam que os trabalhadores diaristas haviam perdido seus direitos forc;:as que regiam seu destino estavam em certo sentido fora de sua vida
naturais como ingleses nascidos livres e nao deviam ser autorizados a cotidiana; nao ensombreciam e envolviam seu lar, sua familia, seus
votar; que Winstanley pensava que os trabalhadores assalariados nao movimentos e hábitos, suas horas de trabalhar e suas horas de comer
tinham nenhuma participac;:ao em seu próprio país e que o trabalho (Hammond e Hammond, 1919: 18-19).
assalariado devia ser abolido. (... ) Os homens nascidos livres sentiam
ainda que ir voluntariamente a urna fábrica era renunciar a seus direitos de Mas nao se tratava apenas de urna questao moral, por importante que esta
nascimento, que um leveller havia definido como a propriedade da própria fosse. Os trabalhadores nao se negavam a submeter seu trabalho ao controle
pessoa e do trabalho (Hill, 1975 261-262). de outro tao-somente por sua ansia de independencia; nem este outro, o
patrao industrial, buscava tal submetimento pelo mero afa de poder. A busca de
Embora as condic;:6es de vida e de trabalho do artesao independente ou um equilibrio entre trabalho e bem-estar que havia presidido a agenda do
reduzido ao trabalho domiciliar para um terceiro ou do agricultor proprietário trabalhador independente devia ceder caminho a tentativa de maximizar o
ou arrendatário pudessem ser materialmente muito duras Oogo veremos isto), rendimento do trabalho dos assalariados por parte de um patrao que buscava
0 fato de manter a capacidade de decisao sobre seu trabalho, a intensidade e o enriquecimento sem limite, que devia rnanter a competividade no mercado
durac;:ao do mesmo, etc., lhes outorgavam urna independencia n:aterial.. e, barateando os prec;:os de seus produtos e que devia rentabilizar no mínimo
sobretudo, ideal. Por outro lado, o espac;:o de trabalho e a moradm familiar tempo possível a inversao realizada em capital fixo. Isto supunha romper com
confundiam-se, assim como a produc;:ao e a satisfac;:ao das necessidades, de hábitos de trabalho profundamente arraigados. Podemos fazer urna idéia do
forma que o trabalho aparecía como urna necessidade natural ou, o que dá no choque se voltamos nosso olhar para as pautas de trabalho pré-industriais.
mesmo, como a forma elementar de satisfazer as necessidades naturais.
Mesmo as diversas formas de servidao e de obrigac;:oes feudais podiam ser
vistas como meros acréscimos ao trabalho desenvolvido com func;:oes de O trabalho antes da industrializa~ao
subsistencia. Tudo isto confluía em urna irnagem de autonomía e de dignidade
na qual nao se podía ajustar o salto a condic;:ao de trabalhar :de. forma constante Comecemos pelos días de trabalho. O calendário oficial pendurado na
e regular para outra pessoa, menos ainda deixar-se arrebat:ái a capacidade de parede de qualquer oficina, loja ou escritório é algo muito recente, assim como
decisao sobre a própria atividade. Esses magníficos precursores da história a regulac;:ao legal do calendário de trabalho, de forma que nao é fácil saber-se
social do trabalho que foram os Hammond escreveram: quantos días trabalhavam nossos ancestrais. Ademais, toda época tende a
confundir sua história recente coma culrninac;:ao ou, ao menos, como último
Praticamente nenhum dos males associados ao trabalho fabril era de passo dado por urna história universal que apontaria sempre no mesmo
natureza inteiramente nova. Em muitas indústrias domésticas o horário era sentido. Assim como caímos no erro de pensar - ao menos se o fazemos sem
longo, o pagamento pobre, as crianc;:as trabalhavam desde a mais tenra maiores precis6es - que o trabalho assalariado é urna melhoria inequívoca em

34 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 35


relac;:ao ao trabalho servil e que este o foi também em relayao ao trabalho regulamentac;:ao gremial, ou de dezesseis horas no ''verao'' (seis meses) e oito
escravo, tendemos a ver a recente conquista da semana de quarenta horas ou no "inverno" (outros seis), na Franc;:a do século XIII. Estes horários
das férias de um mes como o último resultado obtido desde nao se sabe que aumentaram notavelmente desde entao até os séculos XVII e XVIII
jornadas, semanas ou anos de trabalho interminável tinham padecido nossos alcanc;:ando as quatorze, dezesseis ou dezoito horas, salvo as interrupc;:6es par~
antecessores. Nada disso, entretanto, corresponde a realidade. a comida, etc. Mas nao se pode considerar o horário amargem da regularidade
H. Webster, por exemplo, recordava que, dos 355 dias do calendário e da intensidade do trabalho. Seria paradoxal que aqueles que tao eficazmente
romano, quase um terc;:o - exatamente 109 - eram considerados días defendiarn seus dias de folga nao f¡zessem o mesmo com suas horas nos dias
"nefastos", isto é, impróprios para os assuntos judiciais e políticos, e que a de trabalho.
inclina<;ao dos romanos para as férias os levou até os 135 dias nos meados dos O trabalho podía ser interrompido a qualquer momento para comer ou
século II e até os 175 nos meados do século IV. Entre os gregos, Estrabao dizia beber, para conversar com os companheiros ou para rezar o angelus. A venda
que os dias de festa tinham chegado a exceder em número aos de trabalho podia ser abandonada, pois os clientes sabiam onde encontrar o vendedor ou
(Grazía, 1964: 82-3; Wllensky, 1961: 33). podiam voltar rnais tarde. As máquinas nao estavam ali para marcar o ritmo. O
Na Idade Média nao parece que as coisas tivessem piorado - outros mais parecido que podemos encontrar com isto hoje em dia talvez seja o
diriam melhorado. Alguns historiadores calculam que 115 festas como média, a trabalho dos executivos, dos professores de universidade ou das donas-de-ca-
parte dos 52 domingos de rigor, sao urna estimativa adequada, e parece que sa. O horário é interminável, mas o indivíduo conserva um controle pleno
eram compartilhadas em grande parte por servos e, em seu caso, escravos. A sobre sua distribuic;:ao interior, podendo decidir a interrupc;:ao de seu trabalho,
Inglaterra medieval celebrava as efemérides de cem ou mais santos (Hill, 1964: sua desacelerac;:ao, sua intensificac;:ao, etc.
146). Walter de Henley sugere um ano de trabalho agrícola de quarenta e
quatro semanas, o que, se se acrescentam os domingos, significava trbalhar
dois dias de cada tres (Thirsk, in Thomas, 1964: 63). Após a peste negra de O recurso ao trabalho fors:ado
1348, por exemplo, os gremios artesanais decidiram, como oferenda, celebrar
as festas dos santos de todas as igrejas, capelas e bairros da cidade, cinquenta Estas tradic;:6es constituíram um formidável obstáculo ao recrutamento de
no total, como que reduziram em um dia sua semana de trabalho (K.ula, 1979: mao de obra para as modernas oficinas e fábricas, motivo pelo qual nao é de
276). Se damos crédito a Lafargue (1970: 30), os artesaos do Antigo Regirne se estranhar que estas se baseassem inicialmente em formas de mobilizac;:ao
nao deviam trabalhar mais que cinco dias por semana, pois somente a Igreja do trabalho que hoje nos escandalizariam. Por um lado se recorreu aos
garantía noventa dias de descanso por ano (52 domingos e 38 dias festivos). desvalidos da sociedade, aos que nao tinham outra forma de sobrevivencia. De
James Howell, comparando a Inglaterra protestante com a Espanha católica, acordo com Mantoux (1955, 375),
calculava que nesta última se dedicavam aos santos e se convertiam em festa,
no total, mais de cinco meses por ano, "urna religiao que agradaria muito aos o pessoal das fábricas era, no princípio, composto dos elementos mais
aprendizes de Londres" (Hill, 1964: 149). Os arameiros parisienses do século díspares: camponeses expulsos de suas aldeias pela ampliac;:ao das grandes
XIII tinham, além dos 141 dias livres de todo mundo, outros 30 de férias propriedades, soldados licenciados, indigentes sob a responsabilidade da
(Wilenskky, 1961: 34), e a Franc;:a teria de esperar até o século XVII para que paróquias, os desvalidos de todas as classes e de todos os ofícios.
Colbert conseguisse reduzir os dias festivos dedicados aos santos a 92 (Hill,
1964: 148-9). Na Itália, em pleno século XVI renascentista, os días de festa Nas minas do País de Gales era habitual, nos séculos XVIII e XIX,
totais eram 96 por ano na Lombardia, 80 ou 90 em Veneza, 87 em Florenc;:a e empregar criminosos e fugidos da justic;:a (Pollard, 1965: 163). David Dale,
140 no Prato (Cipolla, 1985: 100). Pedro I regulou as condic;:oes de trabalho na empresário de New Lanark, inteirado de um naufrágio de emigrantes apres-
Rússia em 1722, com normas que haveriam de durar até 1853: 115 dias de festa sou-se a oferecer-lhes emprego em sua fábrica (Pollard, 1965: 173). "Com
por ano, incluindo os domingos (Levine, 1973: 5), e provavelmente este esforc;:o poucas excec;:oes' ', dizia Robert Owen, ''apenas as pessoas privadas de
"modernizador" explica por que para alguns chegasse a ser "o Grande" e amigos, de emprego e de caráter estavam dispostas a fazer a experiencia'' (loe.
para outros ''o Cruel''. cit.). Na Rússia czarista, os artesaos urbanos preferiam a pobreza, no caso de
As jornadas, entretanto, eram longas. Wllensky (1961: 34), por exemplo, nao poder viver de seu trabalho tradicional, a se converterem em operários
fala de 12 horas de trabalho diárias (incluídas meia hora de descanso pela comuns, algo que desdenhavam (Hogan, 1985: 83). Em tais circunstancias, a
manha e urna hora para o almoc;:o) para muitos ofícios, seguindo urna tentac;:ao de recorrer a distintas formas de trabalho mais ou menos forc;:ado
36 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 37
devia tornar-se irresistível para os novos industriais ávidos de rnao de recrutados rnorriarn, fugiarn ou tinham que ser devolvidos a seus
obra. responsáveis, seus parentes ou aos contatos que os haviam enviado,

Ern princípios da Idade Moderna a concentra<;ao de operários dentro para ern continuac;:ao oferecer as impressionants cifras de ''desperdício'' nas
das oficinas operou-se ern parte por rneios coercitivos: pobres, oficinas de Cuckney entre 1786 e 1805: de 780 aprendizes, 119 (15,2%) haviam
vagabundos e crirninosos forarn obrigados a ingressar na fábrica, e até a fugido, 65 (8,3o/o) haviarn rnorrido e 96 (12,2o/o) haviarn sido devolvidos, num
entrada do século XVIII os operários das minas de Newcastle erarn presos total de 280 (36%) (Chapman, 1967: 170).
corn argolas de ferro (Weber, 1974: 158). Na Europa do Leste, a chamada "segunda servidao" forneceu o marco
legal para levar os carnponeses ao trabalho forc;ado nas fábricas. Sob Pedro I
Na Escócia, os rnineiros e os cavadores de sal erarn obrigados pelo e Catarina II eles forarn transferidos das terras as oficinas por seus senhores,
costurne e pela lei a trabalhar no rnesrno lugar durante toda a sua vida (Ashton, e ernpregados abundantemente na realizac;:ao de obras públicas. Ern 1721, urn
1977: 44; veja-se tarnbérn Sarnuel, 1977). Os rnineiros de carvao só virarn sua édito perrnitiu aos fabricantes comprar aldeias inteiras cujos habitantes ficavarn
servidao abolida no ano de 1799 (Webb e Webb, 1950: 89). Sidney Pollard conscritos de forma permanente as "fábricas possuidoras". Nas fábricas
escreve, referindo-se a Gra Bretanha, que estatais, os ''carnponeses designados'' erarn explorados ern ternpo integral ou
solicitados periodicarnente. Quando os senhores nao tinharn fábricas nas quais
houve poucas áreas do país ern que as indústrias modernas, particularmente po-los a trabalhar, podiarn alugá-los a outros fabricantes ou a contratadores
as texteis, nao estiverarn, no caso de se desenvolverern ern grandes edifí- interrnediários, corno se se tratasse de gado (Swianiewicz, 1965: 160 ss.;
cios, associadas a prisoes, casas de trabalho ou orfanatos (... ). Isto é rara- B!urn, 1961: 308-325; Bendix, 1963: 128-143; Levine, 1973: 12). Tarnpouco se
mente enfatizado, particularmente por aqueles historiadores que dao por deixou de recorrer, é claro, aos vagabundos, as prostitutas, aos servos fugidos,
certo que as novas oficinas recrutavarn apenas trabalho livre (. .. ). Os pen- aos convictos, etc. (Bendix, 1963; 133-4). A. G. Rashin calculava que os
sarnentos dos prirneiros ernpresários, a busca de urn trabalho dócil de na- trabalhadores forc;:ados, ern relac;:ao aos trabalhadores industriais,
tureza nova, voltararn-se rapid**arnente para o trabalho nao livre, tanto aqui representavam 91% no ano de 1767 (de 199.300), 73% ern 1804 (de 224.882),
(na Inglaterra) quanto no novo continente (Pollard, 1965: 162). 66o/o em 1825 (de 340.568) e 44% ainda ern 1860 (de 862.000) (citado por
Blurn, 1961: 324). Urna proporc;:ao decrescente, mas tarnbérn urn
A prática do trabalho fon;ado encontrou fácil carne de canhao ern toda sorte irnpressionante crescirnento das cifras absolutas.
de vagabundos, mendigos, órfaos, etc. A Aunt6ne Générale de Lyon conver-
teu-se na prirneira rnetade do século XVI ern urna excelente provedora de rnao
de obra infantil para a indústria da seda, e pela rnesrna época erarn enviados as Camponeses e artesiios diante da fábrica
galeras os mendigos fisicarnente aptos de Veneza e forc;ados a trabalhar os inati-
vos de Louvain e as crianc;:as pobres de Troyes (Lis e Soly, 1984: lll-2). Na Ing- Para os carnponeses tornava-se rnuito difícil adaptar-se as novas condic;:oes
laterra foi urna prática generalizada a de forc;:ar os aprendizes das workhouses a de trabalho da fábrica. Acosturnados ao trabalho ao ar livre, aos ritmos
trabalharern na indústria privada, a pesar de sua rentabilidade ser duvidosa, por- sazonais, aos abundantes dias de festa, a poder abandonar as tarefas a
que de outra forma nao se teria contado corn suficiente trabalho, ao menos nao qualquer momento, ern suma, a seguir seu próprio ritmo ern vez de um
corn suficiente trabalho infantil ern relac;:ao ao adulto. Ernbora numerosos histo- calendário, urn horário e urn ritmo irnpostos, nao podiarn deixar de sofrer um
riadores nao vacilern ern argumentar que o trabalho infantil já existia e nao era violento choque. Por isso se negavarn a acudir as fábricas e, quando se viarn
rnelhor antes da Revoluc;:ao Industrial (p. ex., Cipolla, 1985: 81-82), nao há dúvida forc;ados a faze-lo, nao era raro que desertassern ern rnassa, rnesmo ern
de que agora se tratava de urn trabalho rnuito rnais duro. Mesrno urn historiador momentos já avanc;:ados da industrializac;:ao. Exernplos nao faltarn. Sob Catarina
tao satisfeito quanto Stanley D. Chaprnan, antes e depois de tentar convencer a II, segundo Levine, dava-se urn tipo de deserc;:ao tipicarnente russo: os
seus leitores de quao bern tratadas erarn as crianc;as, nao tern dúvida ern dizer operários abandonavarn rnacic;:arnente as fábricas e, juntamente corn suas
que havia farm1ias, regressavarn a suas aldeias de origern, corn freqüencia distantes
centenas de quilómetros. Os que assim haviarn desertado de urna fábrica
urna aguda escassez de trabalho infantil, e o problema tornava-se ainda rnais lanc;:ararn urna advertencia ao governo:
agudo por urn alto grau de desperdício. Mais de urn terc;:o dos aprendizes

38 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 39


Se formos presos e devolvidos pela fon;a as fábricas haverá Os artesaos preferiam viver mal da crise de seus ofícios, trabalhando a
derramamento de sangue de ambas as partes, e por isso lhes fazemos esta domicilio, mas mantendo um certo grau de controle e autonomía em seu
advertencia, e estamos enviando-a a todas as partes, para que nao nos trabalho, a ter que transpassar a porta das fábricas, que eram a negayao de sua
fa<;am responsáveis por nenhum derramamento de sangue que possa independencia e as quais viam como lugares de deprava<;ao moral e
ocorrer (Levine, 1973: 15-16). desumaniza<;ao. Como indica Thompson (1977: III, 143),
Entretanto, aquilo que a Irving R. Levine, um jornalista e ensaísta norte- A diferen<;a de status entre um servant, um trabalhador assalariado
-americano, parecia ser urna exclusividade dos russos, nao o era tanto assim. sujeito as ordens e a disciplina de seu master, e um artesao, que podia ''ir
Ainda em 1830 instalou-se no povoado baleeiro de Nantucket, Nova Inglaterra, e vir" quando lhe aprouvesse, era grande o bastante para que os homens
urna nova fábrica de tecidos de seda. No princípio, mullieres e crian¡;:as se deixassem matar em seu ramo antes que tolerar que lhes levassem de
assediaram-na para obter emprego, mas ao cabo de um mes come<;aram a um lugar a outro. De acordo com o sistema de valores vigente na
abandoná-la em pequenos grupos, até que, fmalmente, a abandonarem quase comunidade, aqueles que resistiam a degrada<;ao estavam em seu perfeito
todos, tendo que ser fechada (Gutman, 1976: 22). O inefável Andrew Ure direito de faze-lo.
lamentava-se do ocorrido em urna aldeia a poucas milhas de Belper, onde urna
''série das famílias mais necessitadas' ', ao lhes ser oferecido emprego em um Assim, em conseqüencia, o número de tecedores manuais manteve-se
fábrica de meias, ''acudiram com tropas de crian¡;:as e estavam satisfeitas por praticamente constante nas primeiras décadas do século passado na Gra
se instalarem em um lugar tao confortável' ', mas, apesar disso, dos salários Bretanha embora seus rendimentos tivessem diminuído mais da metade e o
mais altos que os da indústria doméstica e do emprego mais regular, trabalho fabril oferecesse salários mais altos (Landes, 1969: 86-87). As coisas
abandonaram-na em poucas semanas para voltar a sua ''apática nao eram diferentes na Fran<;a, onde os tecedores também mostraram preferir
independencia" (Ure, 1967: 333-4). Também os camponeses escoceses a manuten¡;:ao de sua independencia, mesmo suportando as fortes baixas de
negavam-se sistematicamente a trabalhar nas fábricas (Pollard, 1965: 172-3). salário, que acudir as fábricas. Um autor do século passado, Reybaud, escrevia:
Mesmo no Japao, país do qual tendemos a pensar que todo trabalho parece
bom a seus habitantes, as novas indústrias texteis de fms do século passado e Prefeririam as maiores redu<;6es a deslocar a sede de seu trabalho. O
come¡;:os do atual deviam enfrentar sérios problemas de escassez de mao de que os une a ele é que o executam sob seu próprio teto, perto dos seus
obra pela resistencia dos camponeses a incorporar-se ou a permanecer nelas e também um pouco de acordo com sua vontade. Sentem um horror
(Clark, 1979: 39). invencível desse quartel que chamam oficina comum e prefeririam
Os artesaos urbanos nao estavam mais dispostos que os camponeses. renunciar a seu ofício a terem que se submeter a um enquadramento
Resistiam por todos os meios ao trabalho fabril os trabalhadores das (Perrot, 1978: 366).
popula<;6es portuárias, principalmente marinheiros ou pescadores, os
fiandeiros, os tecedores manuais, os urdidores... (Pollard, 1965: 161; E, segundo Dunham,
Chapman, 1967: 156). Um tecedor de Gloucestershire queixava-se em 1838:
''expulsaram-nos de nossas casas e nossos quintais para que trabalhemos o industrial francés, no come<;o do século XIX, encontrava urna mao de
como prisioneiros e m su as fábricas e suas escolas de vício'' (citado por obra abundante, barata e inteligente, mas também teimosa e difícil de reter
Wadsworth e Mann, 1931: 393). Outro afrrmava perante um Comité Especial e de formar, e a qual era ainda mais difícil fazer trabalhar em urna fábrica
sobre as peti<;6es dos tecedores manuais: (Le Goff, 1985: 27).
(. .. ) Nenhum homem gostaria de trabalhar em um tear mecanico. Pro- Embora os artesaos nao tivessem urna terra a qual voltar, podiam,
duz-se tanto ruído e escandalo que qualquer um fica louco; e além disso, entretanto, caso se vissem obrigados ao trabalho na fábrica, abandoná-la em
tem-se que sub meter a urna disciplina que um tecedormanualnao pode aceitar busca de outra melhor ou, simplesmente, para obter um descanso antes de
nunca( ... ). Todos os que trabalham nos teares mecanices o fazem a for<;a, pois incorporar-se a outra igual. Isto dava lugar a urna elevada taxa de abandono e
nao podem viver de outra forma; costuma ser gente cujas famílias sofreram rotatividade nos empregos, por exemplo de cem por cento ao ano, entre os
calamidades ou que se arruinaram ... sao os que formam essas pe quenas fiandeiros ingleses na primeira metade do século XIX (f'ollard, 1965: 182). Os
colonias ao redor das fábricas ... (citado porThompson, 1977: II, 178). fabricantes se defenderam contra isso coma Master and Servant Law, que
40 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 41
penalizava mais gravemente a ruptura por parte do trabalhador que por parte dois a segunda, que sedío ac;oitados durante sua estada na prisao, que os
do empregador, com contratos inelásticos de longa durac;:ao, de aprendizagem incorrigíveis serao marcados com a letra R e, se forem presos de novo,
ou indentures, tanto para jovens quanto para adultos (Chapman, 1967: 163), executados (Marx, 1975: I, 919-921). O Act of Settlement de 1662
e, é claro, com as leis de pobres (Hobsbawm, 1964: 352). estabeleceu a chamada ''servidao de paróquia' ', que limitava estritamente a
mobilidade dos pobres. Em 1795, a Speemhamland Law decidía que os
pobres que nao trabalhassem ou o fiZessem por um salário abaixo de um
O intemamento e as leis contra os pobres mínimo tinham direito a um subsídio público até completá-lo, mas também a
obrigac;ao de trabalhar. A Reform Bill de 1832 e a Poor Law Amendment
Essa aversao para com o trabalho fabril fez com que urna massa ingente de de 1834 terminaram defmitivamente com qualquer idéia assistencial, hberando
camponeses e artesaos expulsas por meios económicos ou extra-económicos o mercado de trabalho de qualquer trava, isto é, eliminando qualquer forma de
de suas terras ou de seus oficios preferisse viver de seus parentes e protec;ao dos trabalhadores (Polanyi, 1957: 77-85); Mencher, 1967). As
conhecidos, da caridade pública ou do nada a alistar-se como assalariados. Os workhouses foram sobretudo urna criac;:ao do período que vai de 1590 a 1640,
vagabundos e os pobres, no sentido mais amplo de ambos os termos, mas foi a lei de 1832 a que terminou de converte-las em lugares indesejáveis.
converteram-se no pesadelo dos séculos XV a XlX. Para alguns eram a É difícil saber se as workhouses se inspiraram no modelo da fábrica ou
expressao mais clara e a conseqüencia mais grave da dissoluc;ao da velha o contrário, como pensam alguns autores (Pollard, 1965: 161; Bendix, 1963: 41;
ordem; para outros, urna massa de indigentes que se negava a trabalhar. De Ashton, 1977: 90). Parece mais verossímel a primeira hipótese, já que a
qualquer forma, tomavam-se um elemento dissonante em urna sociedade que legislac;:ao de pobres só comec;ou a incluir a obrigac;ao de um trabalho coletivo,
necessitava de forma crescente de regularidade e estabilidade nos hábitos de duro e estreitamente regulado no período em que as fábricas faziam sua
trabalho (Le Goff, 1985: 31). Para eles colocou-se em ac;ao urna colec;ao de aparic;ao. De qualquer forma, a similaridade entre o trabalho forc;ado de pobres
sagas legislativas em todos os países, que comec;aram com fms assistenciais e e vagabundos e o da fábrica nao podia deixar de desacreditar este ainda mais.
terminaram por converter-se em urna agressiva política de mobilizac;ao da mao O caso francés nao foi diferente. Em 1657 ordena-se o ingresso de todos
de obra. os mendigos de París no Hospital Geral, a menos que abandonem a cidade,
Em 1530, Henrique VIII legisla na Inglaterra que os vagabundos capazes com o que o número de mendigos da cidade reduz-se de cerca de 40.000 a 4
de trabalhar serao atados a parte traseira de um carro e ac;oitados até que saia ou 5.000 que sao internados (Foucault, 1967: II, 308). Um novo édito real de
sangue, após o qual deveriam prestar juramento de que regressariam a seu 1661 ordena que ''os pobres mendigos, válidos ou inválidos, de um e outro
lugar de procedencia e se poriam a trabalhar; urna nova lei estabelecerá mais sexo, sejam empregados em um hospital, para trabalhar nas obras,
tarde que, em caso de serem presos pela segunda vez, e após serem manufaturas e outros trabalhos" (Ibid.: II, 310-11). No mesmo édito, o rei
flagelados de novo, lhes seria cortada meia orelha, e na terceira seriam estabelece como parte do regulamento a ser observado no Hospital Geral que
executados. Eduardo VI estabelece que aquele que se recusar a trabalhar será "para estimular os pobres encerrados a trabalharem com maior
entregue como escravo a seu denunciante, o qual poderá forc;á-lo a trabalhar assiduidade e dedicar;iio, aqueles que tiverem chegado a idade de 16 anos,
de um ou outro sexo, ficarao com um terc;o do ganho de seu trabalho, sem
com o uso de cadeias e do chicote, se for preciso; se escapar por mais de
nenhum desconto" (Ibid.: II, 313). Em 1685, outro édito proibe toda forma de
quinze dias será condenado a escravidao por toda a vida, e o dono poderá
mendicidade na cidade de París ''sob pena do chicote a primeira vez; e na
vende-lo, alugá-lo ou legá-lo; se escapar pela segunda vez será condenado a
segunda, irao as galeras os que forem homens ou meninos, e as mullieres e
morte; aquele que for descoberto folgando durante tres días será marcado com
um ''V'' e, o que indicar um falso lugar de nascimento, condenado a ser meninas serao desterradas" (lbid.: I, 104-105): quatro anos mais tarde há
escravo no mesmo e marcado com um "S"; qualquer pessoa tem direito a tirar cinco ou seis mil pessoas encerradas em París. Colbert está perfeitamente
os fllhos de um vagabundo e tomá-los como aprendizes; os amos poderao pór consciente do papel formativo da legislac;ao sobre os pobres:
em seus escravos argolas no pescoc;o, nos brac;os ou nas pemas para melhor
Todos os pobres capazes de trabalhar devem faze-lo nos días de
identificá-los, etc. Isabel legisla em 1572 que os mendigos nao autorizados
trabalho, tanto para evitar a ociosidade, que é a mae de todos os males,·
serao ac;oitados e, se ninguém quiser tomá-los a seu servic;o por dois anos,
como para acostumar-se ao trabalho, e também para ganhar parte de seu
marcados a ferro na orelha esquerda; se reincidem serao executados de
qualquer forma. James I decreta que os juízes de pa¡ypoderao mandar ac;oitar alimento (Ibid.: I, 110).
em público os vagabundos e encarcerá-los até seis Íneses a primeira vez e até
A Face Oculta da Escala 43
42 Mariano Fernández Enguita
Um século mais tarde, um "reformador" dos hospitais dar-se-á conta de Nuremberg, Viena, Leipzig, Brunswick, Frankfurt, Munich, Spandau,
que Copenhagen, Estocolmo, Tiverton, Exeter, Hereford, Kingston, etc., etc.
O intemamento nao era em absoluto urna forma de caridade; nem sequer
os holandeses inventaram um método excelente: consiste em destinar a era principalmente urna medida de ordem pública; era, sobretudo, um
bomba aqueles que desejam exercitar no trabalho; faze-los desejar o instrumento para forc;:ar a populac;:ao ao trabalho quando haviam sido destruídas
emprego de cultivar a terra e prepará-los para isso mediante um trabalho as velhas condic;:6es de trabalho e as novas nao resultavam o bastante atrativas.
muito mais duro (. .. ). Encerra-se tao somente a pessoa que se trata de Foucault assinalou acertadamente que tinha pouco que ver com urna política
habituar ao trabalho em um reduto que os canais inundam, de tal maneira assistencial dirigida aos pobres, aos enfermos, aos loucos ...
que o afogam se nao dá voltas sem cessar a manivela da bomba. Só que
lhe dao tanta água e tantas horas de exercício quanto suportem suas forc;:as Antes de ter o sentido medicinal que lhe atribuímos ou que ao menos
nos primeiros dias; mas se aumenta continuamente mediante graduac;:ao queremos conceder-lhe, o confmamento foi urna exigencia de algo muito
( ... ) . É natural que se aborrec;:am de girar assim continuamente e de diferente da preocupa<;ao de cura. O que o tomou necessário foi um
serem os únicos ocupados tao laboriosamente. Sabendo que poderiam imperativo de trabalho. Onde nossa filantropía quisera reconhecer sinais
trabalhar a terra do local em companhia, desejarao que se lhes permita de benevolencia para com a enfermidade, só encontramos a condenac;:ao
trabalhar como os outros. É urna grac;:a que se lhes acorrerá mais cedo ou da ociosidade.
mais tarde, de acordo com su as faltas e suas disposic;:6es atuais'' (!bid.: (... ) O que hoje nos parece urna dialética inábil da produ<;ao e dos
II, 325-6). prec;:os tinha entao sua significac;:ao real de certa consciencia ética do
trabalho em que as dificuldades dos mecanismos económicos perdiam sua
Como explica Badeau em meio a seu entusiasmo pela utilidade social dos urgencia em favor de urna afirma<;ao de valor.
polder, tudo de que o pobre necessita fazer para escapar do castigo é decidir- (... ) Na Idade Média, o grande pecado, radix malorum omnium, foi
-se a trabalhar, isto é, submeter-se as novas relac;:oes de produ<;ao. Em 1790, a soberba. Se vamos dar crédito a Huizinga, houve um tempo, nos albores
em plena revoluc;:ao, Musquinet projeta urna casa correcional para vagabundos do Renascimento, em que o pecado supremo tomou o aspecto da avareza,
na qua! cada semana o trabalhador mais aplicado ''receberá do senhor a cicca cupidigia de Dante. Todos os textos do século XVII anunciam,
presidente um premio de um escudo de seis libras, e o que tenha obtido tres pelo contrário, o triunfo infernal da Preguic;:a: é ela, agora, a que dirige a
vezes o premio terá obtido sua liberdade" (!bid.: I, 118). ronda dos vícios e os arrasta (Foucault, 1967: I, 102, 112, 114).
As leis de pobres - ou, como dizia Braudel (1967: I, 56), as leis contra os
pobres - nao foram exclusivas dos países de mais rápida industrializa<;ao, De fato, é duvidoso que o intemamento e o trabalho forc;:ado pudessem ser
Inglaterra e Franc;:a, mas, isto sim, se desenvolveram nestes de acordo com a justificados como urna forma de se conseguir trabalho barato. O trabalho
consistencia daquela. Em Castela, urna ordem de 1351 obrigava todo homem forc;:ado era barato em comparac;:ao com o trabalho livre, mas também era
sao maior de 12 anos a trabalhar, e outra de 1387 permitia qualquer pessoa muitíssimo menos produtivo. Nao tem muito sentido a discussao sobre a
forc;:ar um vagabundo a faze-lo de grac;:a durante um mes. Entre 1349 e 1401, racionalidade económica do intemamento e do trabalho obrigatório, tal como
urna série de leis forc;:ou também ao trabalho em Portugal (Lis e Soly, 1984: formulam, por exemplo, Polanyi (1957), Blaug (1974), pois do que se trata é de
66-7). Mas parece que as workhouses foram um fenómeno mais específico compreender como se obrigou a populac;:ao a entrar nas novas regras do jogo,
dos países que levavam vantagem no processo de industrializac;:ao e, por nao de saber se jogavam bem ou mal os distintos agentes. Mas tampouco era
conseguinte, tinham maior necessidade de mao de obra, urna diferenc;:a talvez urna medida moral, nem sequer a expressao exarcebada de urna moral em
apoiada pela saída que a imigrac;:ao para a América significou para Portugal e acordo com as mudanc;:as económicas em curso. O próprio Marx parece dar-
Espanha. Workhouses, h6pitaux generaux, Zuchthausem e -lhe mais esta dimensao quando escreve:
Tuchthuizen parece que foram um fenómeno característico da Inglaterra,
Franc;:a, Alemanha e dos Países Baixos, as zonas industrialmente florescentes (. .. ) E m fins do século XV e durante todo o século XVI prolifero u em
da época. Vemo-los aparecer emBrujas, Bruxelas, Gante, Ypres, Amsterdam, toda Europa Ocidental urna legisla9áo sanguinária contra a
Worcester, Norwich, Bristol, Lyon, Bremen, Lubeck, Hamburgo, Danzig, etc., vagabundagem. Castigaram-se os pais da atual classe operária, no
enfliTI, nos novos pólos industriais (Foucault, 1967: I, 107-8; Lis e Soly, 1984: princípio, por sua transformac;:ao em vagabundos e indigentes. A legislac;:ao
138 ss.; Piven e Cloward, 1972: 23-25). Logo se estenderiam a Paris, Breslau, tratava-os como a deliqüentes voluntários: supunha que a boa

44 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 45


vontade deles dependia de que continuassem trabalhando sob as salários razoáveis". O Board of Trade prop6e-se a "tornar úteis ao público"
velhas condi9óes, já inexistentes (Marx, 1.975: I, 918). os pobres e considera que a origem de sua sifua<;ao nao está nos baixos
salários nem no desemprego, mas na ''debilitac;:ao da disciplina e no
Paradoxalmente, Max Weber, que entendeu sempre menos que Marx a relaxamento dos costumes" (Foucault, 1967: I, 106, 117).
especificidade das relac;:6es de produ<;iío capitalistas, parece ter compreendido A economia política nao ficou para trás. Fielding sugeriu abrigar todos os
melhor que ele que nao bastavam as leis económicas para levar os indivíduos pobres a trabalharem por um salário fixo. Berkeley pensava que o melhor que
ao trabalho assalariado e, por conseguinte, o papel que desempenhou a se podia fazer com os mendigos teimosos era converte-los em escravos
coer<;ao em conseguí-lo: públicos por alguns anos. Temple acreditava que deveriam ser encarcerados e
abrigados a trabalhar quatorze horas diárias. Defoe abominava a caridade.
O recrutamento dos operários para a nova forma de produc;:ao, tal Child propugnava um sistema generalizado de workhouses. Bellers sugeriu
como se desenvolveu na Inglaterra desde comec;:os do século XVIII, na enviar todos os que nao trabalhavam as colonias. Benfham propós urna
base da reuniao de todos os meios produtivos em maos do empresário, organizac;:ao de casas de trabalho segundo o modelo de seu panóptico,
realizou-se as vezes utilizando meios coercitivos muito violentos, em enquanto Malfhus, Ricardo e Say criticaram toda a legislac;:ao assistencial sobre
particular de caráter indireto. Entre estes figuram, sobretudo, a leí de os pobres e defenderam sua supressao. Say propós diretamente o trabalho
pobres e a lei de aprendizes da rainha Elizabefh. Tais regulamentos forc;:ado (Furniss, 1965: 80-93; Gaudernar, 1981).
f¡zeram-se necessários dado o grande número de vagabundos que existiam Um instrumento complementar contra a vagabundagem e a fuga do
no país, pessoas que a revoluc;:ao agrária havia convertido em deserdados. trabalho foram os passaportes internos, livrets de travail e outras formas de
A expulsao dos pequenos agricultores pelos grandes arrendatários e a restric;:ao da mobilidade geográfica que serviam, ao mesmo tempo, para
transformac;:ao das terras cultiváveis em pastagens (embora se tenha registrar o bom ou mau comportamento dos trabalhadores como tais. Na
exagerado a importancia deste último fenómeno) determinaram que o Franc;:a do século XIX, todo trabalhaddor sem livret era considerado um
número de trabalhadores necessários no campo se fiZesse cada vez vagabundo (Le Goff, 1985: 41).
menor, dando lugar a um excedente de populac;:ao que se viu submetido ao Mais tarde ou mais cedo, massas de trabalhadores viram-se expropriadas de
trabalho coercitivo. Quem nao se apresentasse voluntariamente era seus meios de produc;:ao e abrigados a trabalhar, primeiro em seus domicilios e
conduzido as oficinas públicas regidas por severíssirna disciplina. Quem, depois nas oficinas, para o capital. Entretanto, pó-los a trabalhar era urna coisa,
sem permissao do mestre ou empresário, abandonava seu posto no obrigá-los a faze-lo de forma efetiva- segundo os critérios dos empregadores -
trabalho era tratado como vagabundo; nenhum desocupado recebia ajuda era algo completamente diferente. Nas rela<;6es de produc;:ao capitalistas, o
senao mediante seu ingresso nas oficinas coletivas. Por este procedimento proprietário de capital adquire no mercado a forc;:a de trabalho por seu valor de
recrutaram-se os primeiros operários para a fábrica. Só a contra-gosto troca, mas tem ainda diante de si o problema de converte-la em valor de uso
chegaram a essa disciplina de trabalho. Mas a onipotencia da classe efetivo. A diferenc;:a das máquinas ou outros meios de produyao, a forc;:a de
abastada era absoluta; apoiava-se na administrac;:ao, por meio dos juízes de trabalho está dotada de inteligencia e vontade, e depende destas para seu
paz, os quais, a falta de urna lei obrigatória, administravam a justic;:a tao- rendimento. A reduc;:ao dos indivíduos a condic;:ao de trabalhadores da indústria
-somente de acordo com um conjunto de instruc;:6es particulares, segundo doméstica ou assalariados nao eliminava o peso das tradic;:6es culturais em torno
o próprio arbítrio; até a segunda metade do século XIX dispuseram a seu da relac;:ao entre o trabalho e a vida, entre o esforc;:o de trabalho e o sustento, mas
talante da mao de obra, inserindo-a nas novas indústrias (Weber, 1.974: 260- as deslocava simplesmente para o interior de outra relac;:ao social e, no segundo
-1). caso, também para outro espac;:o físico. Em outras palavras, urna vez decidida a
questao da propriedade sobre os meios de produc;:ao e o produto ficava ainda por
Os escritores para o grande público, em sintonía com os poderes de seu resolver a do controle sobre o processo de produ<;ao.
tempo, lanc;:aram-se também a cac;:a. Um folheto atribuído a Dekker, Grevious No caso da indústria doméstica, a separac;:ao física entre empregador e
groan for the public, queixava-se de que "muitas paróquias lanc;:am a empregado, de um lado, e seu corolário, a nao segregac;:ao entre o lugar de
mendigar, a burlar ou a roubar para viver, os pobres e os trabalhadores válidos trabalho e a casa e o meio familiar e social do trabalhador, de outro, constituíam
que nao querem trabalhar, e desta maneira, o país está infetado condic;:6es particularmente favoráveis para que o trabalhador conservasse o
miseravelmente". Em 1630, urna comissao régia recomenda perseguir "todos controle sobre o processo de produ<;iío, isto é, sobre as técnicas produtivas e,
aqueles que vivam na ociosidade e que nao desejem trabalhar em troca de sobretudo, sobre a durac;:ao, o ritmo e a intensidade do trabalho.
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O manufatureiro nao tinha nenhuma forma para fon;:ar. seus de urna exigencia extravagante a outra, até que a carga se tomou
trabalhadores a fazer um número dado de horas de trabalho. O tecedor e o demasiado intolerável para ser suportada. Voces fiXaram o número de
artesao domésticos eram danos de seu tempo, comeyando e terminando nossos aprendizes, e muitas vezes até o de nossos oficiais. Voces
quando o desejassem. E, embora o empregador pudesse elevar o despediram um certo número de nossos operários e nao deixaram que
pagamento por pe<;:a com o objetivo de estimular o empenho, acabava outros ocupassem seu lugar. Pararam todas as máquinas de chapa e
descobrindo que, na realidade, isto reduzia a produ<;:ao. O trabalhador, que chegaram até a destruir os cilindros diante de nossos olhos. Puseram
tinha um conceito bastante rígido do que considerava como um nível de vida restri<;:oes a máquina rotativa. e ditaram até mesmo o tipo de padrao a ser
decente, preferia o ócio aos rendimentos, a partir de um certo ponto; e, impresso. Ou negam, em caso de urgencia, a trabalhar a luz da lamparina,
quanto mais altos fossem seus salárics, menos teria que fazer para alcan<;:ar e obrigam até mesmo nossos aprendizes a fazer o mesmo. Despedem
este ponto. Em momentos de abundancia o campones vivia para o dia, nao nossos supervisores quando nao lhes agradam e nos obrigam a aceitar
pensando em absoluto no amanha. Gastava muito de sua magra ra<;:ao na empregados detestáveis. Ultimamente, desafiam toda subordina<;:ao e toda
tavema ou cervejaria locais; ia para a farra no sábado de pagamento, no boa ordem, e em lugar de mostrar deferencia e respeito para com seus
domingo sabático e também na "Santa Segunda-Feira", voltava de má empregadores, voces os tratam de um modo depreciativo e pessoalmente
vontade ao trabalho na ter<;:a, come<;:ava a aquecer na quarta e trabalhava ofensivo (Webb e Webb, 1950: 75-76).
furiosamente na quinta e na sexta para terminar a tempo para outro longo
fun-de-semana (Landes, 1969: 58-59; vejam-se também Medick, 1976; Ainda em fms do século XIX, os curtidores, os alfaiates, alguns ofícios
Levine, 1977; Berg, 1985; Kriedte, Medick e Schlumbohn, 1986). metalúrgicos, numerosas associa<;:oes locais de litógrafos e algumas de
vidreiros proibiam na Fran<;:a, com éxito, o trabalho por tarefa (Fridenson,
Os artesaos, em sua maioria, de fato, eram independentes ou estavam 1978: 379).
submetidos ao trabalho domiciliar, honravam de um modo ou outro a "Santa Mas quando os patroes eram capazes de impor eles próprios o horário
Segunda-Feira" e até a "Santa Ter<;:a-Feira", isto é, dedicavam esses dias a aos operários, estes podiam ainda conservar certa capacidade de
recupera<;:ao dos excessos do domingo, costume que se manteve durante um resistencia. Assim, por exemplo, os cavadores das mi11as de carvao
longo tempo urna vez convertidos em assalariados. Entre os ingleses era inglesas decidiam por si mesmos seu horário no trabalho por tumos, ou
denominado o Blue Monday, respeitado escrupulosamente por sapateiros, entravam na hora flXada pelo vatrao mas saíam por sua conta ao considerar
alfaiates, mineiros, gráficos, oleiros, tecedores, costureiros, cuteleiros, cumprida a produ<;:ao do día - embora isto nao signifique que tivessem
pedreiros, etc. (Thompson, 1967: 73; Douglass, 1977: 253). Também era horários certos, pois trabalhavam por subcontratos (Samuel, 1977: 51).
costume na Fran<;:a, onde era conhecido, mais prosaicamente, como {aire le Mesmo quando já ia bastante avan<;:ada a industrializa<;:ao, nao era
lundi (Fridenson, 1978: 371). Ou, como dizia Duveau: "O domingo é odia da infreqüente que, depois de horas ou dias de trabalho intenso, este fosse
farrn1ia, a segunda-feira o da amizade" (Thompson, 1967: 74). Na Alemanha subitamente interrompido para organizar urna festa, como entre os
praticava-se o blauen Montag, de características sinillares, e se possível marceneiros de Nova York antes da Guerra de Secessao; ou que um
seguido da ter<;:a-feira e da quarta-feira (Kriedte, Medick e Schlumbohm, 1986: homem lesse o jornal para o resto - pago por cotiza<;:ao -, ou que todos
105). Na Rússia, antes de 1914, era um costume arraigado entre os interrompessem o trabalho para ir ao bar, como entre os cigarreiros do
trabalhadores ao qual, com freqüencia, se somavam os patroes (Bonnell, 1983: fmal do século XIX; ou que os toneleiros deixassem de trabalhar por
64-5). O costume existiu também, pelo menos, entre os belgas, os suecos, os completo no dia do pagamento semanal (Gutman, 1976: 34-7).
mexicanos (Thompson, 1967: 74) e os brasileiros (Candido, 1987: 87). Todos esses exemplos denotam a preferencia - a qual se aludiu antes
Exagerando, sem dúvida, Ure (1967: 369) queixava-se de que, além de - dos trabalhadores pelo ócio, antes que por salários mais altos, quando
outras barbaridades, os gráficos irnpunham seus horários a seus patroes. De se punha a alternativa. Isto era algo que tinha sido bem compreendido
fato, nao faltavam restri<;:oes corporativas cuja efetividade dependia da for<;:a pelos porta-vozes da indústria desde o prirneiro momento. O doutor
relativa dos trabalhadores. Um empresário de Manchester dirigía-se Johnson afirmava no século XVIII que "subir os salários dos diaristas era
amargamente, em nome de todos, aos estampadores de Manchester em 1815: um erro, porque isso nao os faz viver melhor, mas sirnplesmente mais
ociosos" (Hill, 1975: 265). Os patroes e os autores mercantilistas
Concedemos um por um o que devíamos ter resistido a conceder, coincidiam amplamente a esse respeito (Mencher, 1967: 9). Segundo
resolutamente, todos; e voces, alegres pelo éxito, foram senda arrastados Towsend: ''Todos os fabricantes es tao de acordo em que os pobres

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raramente sao diligentes, exceto quando o trabalho é barato e o grao é termos assépticos como os da "curva decrescente de oferta de trabalho"
caro" (Furniss, 1965: 123). Arthur Young nao duvida disso: "Qualquer ser estigmatizada na linguagem indignada de Malthus e Ure, para os quai~
um, exceto um idiota, sabe que as classes baixas devem ser mantidas na trabalhadores eram ''inativos, pregui¡;:osos e sentiam repugnancia
pobreza, ou nunca serao industriosas" (Tawney, 1947: 224), e o mesmo trabalho" (Bendix, 1963: 89). Mas, de qualquer forma, esses hábitos de
pensavarn Petty, Law, Hume, Hanway e outros (Furniss, 1965: 120 ss.). trabalho entravam em colisao com a busca de lucro pelos empresários, com sua
Em 1747 afirmava-se que o homem ''que possa subsistir com tres dias, necessidade de dispor dos produtos acabados segundo os prazos acordados,
manter-se-á ocioso e bébado o resto da semana" (Hill, 1.975: 263). A etc., e, sobretudo e em primeiro lugar, com a regularidade exigida pelo
primeira parte desta afirmac;:ao nao devia ser um simples conto, pois trabalho mecanico. Edward Cave, que queria introduzir a maquinaria
podem-se encontrar lamentos parecidos entre os patroes de outros aperfei¡;:oada por Wyatt, escrevia ao colaborador deste, Lewis Paul:
lugares e datas. Em Paris, até finais da década de 1820, certos ofícios
negavam-se a trabalhar mais que tres dias por semana (Perrot, 1978: 351). A metade de meus trabalhadores nao veio trabalhar hoje e nao me
Estas pautas de trabalho nao resistiram em geral a industrializa¡;:ao, mas produz um grande entusiasmo a idéia de depender de gente semelhante
nao faz muito podiam-se encontrar ainda restos delas em alguns setores (Wadsworth e Mann, 1931: 433).
organizados mediante o procedimento dos contratos por tarefa. Douglass
(1977: 252) dá testemunho disso: Por isso proliferaram diversos sistemas disciplinares com a intenc;:ao de
submeter os trabalhadores adisciplina fabril. Se dermos crédito a Andrew Ure,
Durante os meses de inverno podia-se ler no quadro de anúncios da o mérito de Arkwright nao consistiu na invenc;:ao da throstle, cujos elementos
mina urna nota de um diretor que dizia: "Estou muito preocupado com a essenciais já haviam sido introduzidos por Wyatt, mas em disciplinar a forya de
quantidade de homens que falta ao trabalho". A resposta, escrita a mao, trabalho:
abaixo, era: "Entao enforca-te, porque está come¡;:ando o tempo bom".
Num encontro de massas sobre o absenteísmo convocado por um diri- Na minha opiniao, a principal dificuldade nao estava tanto na inven¡;:ao
gente empresarial de Doncaster havia um capataz implorando aos homens de um mecanismo propriamente automático para esticar e tran¡;:ar o
desde o palanque: "Por que voces trabalham quatro tumos por semana?" algodao em um fio continuo, quanto na distribui¡;:ao dos diferentes
Responderam-lhe em coro: "Porque nao podemos viver com tres!" membros do aparato em um organismo cooperativo, em movimentar cada
órgao com a velocidade e precisao adequadas e, sobretudo, em preparar
De maneira geral, os trabalhadores pré-industriais pareciam valorizar seu os seres humanos para renunciar a seus hábitos inconstantes de trabalho
ócio mais que o dinheiro e o consumo, a partir de um certo ponto; como qué, e identificar-se com a regularidade invariável do autómato complexo.
a prosperidade das manufaturas, se trazia consigo maiores salários, voltava-se Planejar e administrar com éxito um código de disciplina fabril, adequado
contra sua produtividade. Os mineiros de Yorkshire, os operários de a necessidade da diligencia fabril, foi a empresa hercúlea, o nobre feito de
Manchester, assim como os trabalhadores agrícolas e, ao que parece, os Arkwright (... ). Na prática, necessitava-se de um homem coma ambi¡;:ao
trabalhadores em geral, reduziam suas horas de trabalho quando os salários e a fibra de Napoleao para submeter os temperamentos obstinados dos
eram mais altos (Furniss, 1965: 119; também Grazia, 1964: 187). "Quando o trabalhadores acostumados a paroxismos irregulares de diligencia (Ure,
comércio interior e o comércio exterior da Gra Bretanha se desenvolveram, os 1967: 11).
salários subiram, e os operários exigiram trocar urna parte de seus
rendimentos por mais ócio' '. Por isso os patr6es, que ainda nao tinham podido A maquinaria em si foi um instrumento contra a mao rebelde do trabalho.
submeté-los ao trabalho fabril, recorreram urna e outra vez ao parlamento, no Através da desqualifica¡;:ao do trabalho, da imposi¡;:ao de um ritmo mecanico e
sécul0 XVIII, para que foryasse mediante leis os trabalhadores a domicilio a da possibilidade de substituir os artesaos de costumes arraigados por
entregar o produto terminado em prazos determinados (Marglin, 1973: 72). camponeses, por trabalhadores bra¡;:ais nao qualificados, por mullieres e
crian¡;:as, a inova¡;:ao tecnológica serviu para ir quebrando pouco a pouco a
Controle operário e disciplina fabril resistencia a nova vida fabril. A tundidora resultou ser um eficaz instrumento
contra os operários "indisciplinados, bebedores brig6es" em Vienne, Fran¡;:a
A preferencia pelo ócio antes que pelo trabalho e pelos rendimentos, ou a (Perrot, 1.978: 351). Um industrial de Manchester do século XIX, interrogado
busca de um equilibrio entre trabalho e consumo pode ser conceptualizada em por Buret, declarava:

50 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 51


(... ) A insubordinac;:ao de nossos operários tem-nos feito sonhar com pode-se entender mellior, ainda, a resistencia da Associac;:ao Internacional dos
prescindir deles( ... ). A mecanica liberou o capital da opressao do traballio Trabalhadores a propugnar o trabalho de mullieres e crianc;:as, apesar da
(Perrot, 1978: 352). decidida aposta em favor do mesmo feita por Marx e pelos comunistas em seu
interior.
As multas foram outro sistema amplamente disseminado (Pollard, 1965: Embora os trabalhadores assalariados perdessem logo o controle sobre a
187). Na Franc;:a e na Bélgica, no século XVIII, os operários podiam ser durac;ii.o de seu tempo de trabalho, mantiveram-no durante um período sobre
multados por chegar tarde, por empregar demasiado tempo na comida, por sua intensidade. E embora tivessem perdido o controle sobre o produto de seu
fumar, por cantar, por jurar, por brigar... (Lis e Soly, 1984: 185). Em Tyldesley, trabalho - perda que remontava, na verdade, ao sistema de trabalho a
perto de Manchester, na primeira metade do século XIX, um tecedor podia ser domicilio -, mantiveram-no em um grau considerável sobre o processo, ou
multado por ter a janela aberta, por estar sujo, por lavar-se, por apagar ou seja, sobre o procedimento para realizar suas tarefas. As normas de trabalho
acender demasiado cedo sua lamparina, por assobiar, etc., etc., além de por auto-impostas eram urna forma de controlar indiretamente a intensidade do
qualquer coisa que pudesse ser julgada pela direc;:ao como manifestac;:ao de trabalho, quando nao também diretamente, e os sindicatos de ofício um
tentativa de evitar o traballio (Hammond e Hammond, 1919: 19-20). Nas instmmento para faze-las respeitar pelos empregadores. Assim, por exemplo,
fábricas francesas do mesmo século podia-se sofrer multas por conversar, ler,
limpar-se, comer ou beber durante o trabalho, pegar as sobras, limpar as maos nos estatutos da sec;:ao local número 300 dos trabalhadores em vidro de
no tecido, pentear-se, polir os sapatos, fumar, cantar, assobiar, brincar no janela dos Knights of Labor (nos Estados Unidos em fins do século
recinto da fábrica, discutir, etc. (Le Goff, 1985: 31). XIX) havia 66 "normas de trabalho". Estas especificavam que "em cada
Lenin (1972: II, 33-72) fez urna acerba crítica da Lei de Multas implantada crisol'' devia estar presente todo o grupo de trabalho; que a fusao só
contra os traballiadores fabris pelo czarismo, embora em parte fosse urna podia ser feita no início do sopro e na hora do almoc;:o; que os sopradores
tentativa de refrear a arbitrariedade dos patroes - em resposta ao protesto e os levantadores nao deviam trabalhar a um ritmo superior a nove
operário. A primeira vista pode parecer que as multas nao eram senao um laminados por hora, e que o tamanho padrao de cada laminado de fon;a
truque dos patroes para abocanhar urna maior quantidade de mais-valia, o que padrao devia ser de 40 x 58 para cortar laminas de 38 x 56. Nao se devia
provavelmente tinha algo de certo. Mas o fato de que o sistema continuasse trabalhar em determinadas festividades, e nenhum soprador, levantador
mantendo toda sua vigencia depois que se obrigou os patroes a destinar o ou cortador podia trabalhar entre 15 de junho e 15 de setembro. Em outras
obtido a diferentes formas de assistencia social aos trabalhadores, indica que palavras, o sindicato proibia traballiar durante os meses de verao. Em
era fundamental seu caráter disciplinador. As multas nao só eram um meio 1884, a sec;:ao locallevou a cabo com exito urna longa greve para proteger
direto para impor a disciplina, mas também um poderoso meio indireto, pois, seu limite de 48 caixas de vidro por semana, norma que seus membros
ao serem descontadas dos salários, atavam o operário a empresa de forma consideravam chave para preservar a dignidade e o bem-estar do oficio
recorrente. (Montgomery, 1985: 30-31).
Outra forma de quebrar a resistencia dos traballiadores varoes adultos foi,
é claro, sua substituic;:ao por mullieres e crianc;:as. Estas, acostumadas a O sindicato nacional de modeladores de ferro estabeleceu que nenhum
submeter-se a autoridade patriarcal no seio da familia, ou sem haver chegado membro podía ir trabalhar antes das sete da manha (!bid.: 32). Um estudo de
a conhecer sequer a liberdade consciente - no caso das crianc;:as - eram 1912 sobre a indústria do ac;o revelou que, nos fornos a fogo aberto, o ócio dos
muito mais fáceis de disciplinar que os adultos apegados a suas tradic;:oes de trabalhadores ia de 54 por cento do turno, para um segundo ajudante, a 70 por
independencia (Grazia, 1964: 188). As crianc;:as, além disso, podiam ser cento, para um operador de ac;o. Analogamente,
tratadas com urna política do porrete, fazendo-as passar, além disso, pelas
sanc;:oes comuns aos adultos (demissoes, multas e o utras), por o utras tais os homens dos altos fornos traballiavam denodadamente 38 por cento do
como as queixas aos país, os castigos corporais, os confinamentos, as turno, moderadamente durante 3 por cento e muito pouco, para nao dizer
vestimentas degradantes, etc. (Pollard, 1963: 263). O destacado papel dos nada, durante 47 por cento, e dedicavam os 12 por cento restantes a
orfanatos na provisao de mao de obra para as primeiras oficinas coletivas pode observar o forno (!bid.: 59).
explicar-se, assim, como um recurso ao gmpo menos capaz de opor
resistencia. Os orfanatos tinham urna organizac;:ao mais autoritária que a As indústrias de montagem continuaram sendo por muito tempo um
fann1ia, e os orfaos nao seriam defendidos por ninguém. Desta perspectiva bastiao dos trabalhadores qualificados, urna vez que seus conhecimento e

52 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 53


destrezas permaneceram imprescindíveis até a chegada da maquinaria (... ) sabotagem, sindicalismo revolucionário [isto é, demandas de
automática de precisao e do taylorismo (Landes, 1969: 306-7). Os artesaos e controle operário da produ<;ao em seu conjunto], resistencia passiva. Nao
os oficiais levaram consigo as oficinas um alto e rígido conceito sobre a havíamos tido noticia dessas coisas até que ouvimos falar de
dignidade do trabalho. management científico e dos novos métodos de produ<;ao (Green, 1980:
89-90).
Por exemplo, a tendencia dos imigrantes camponeses (nos Estados
Unidos, mas provavelmente em qualquer parte) para trabalhar
afanosamente quando estava presente a autoridade e a folgar quando A reforma moral dos trabalhadores
estava ausente (... ) logo foi substituída nas minas de carvao ou nas oficinas
de fabrica<;ao de vagoes pela ética do artesanato, de negar-se a trabalhar A redu<;ao dos trabalhadores as condi¡;oes do trabalho fabril nao foi apenas
quando o patrao estivesse observando (M:ontgomery, 1985: 61). um processo de luta em torno das condi<;oes materiais, mas também urna
Kulturkampf, um processo de prolongado conflito cultural. Filantropos,
Como se pode imaginar, essas tradi<;oes artesanal e camponesa reformadores, moralistas, economistas, dirigentes religiosos e outros
acolheram muito mal os come<;os do taylorismo. Na Rússia czarista deu intelectuais organices da nova ordem social atuaram em sintonía quase perfeita
lugar, em 1914, a um onda de greves em Sao Petersburgo similar a da para criar a nova ordem moral que devia justificá-lo e presidí-lo. Esta foi urna
revolu<;ao de 1905 (Hogan, 1983). Mas nos Estados Unidos, onde ambos os campanha multifacetada e seriam necessários muito tempo e muito espa<;o
grupos tinham sido arrancados de suas raízes, a aceita<;ao nao foi para dar conta de todos os seus aspectos, mas vale a pena deter-se em alguns
necessariamente melhor. deles. Já vimos a opiniao dos economistas e veremos em seguida a dos
reformadores religiosos, mas deve-se dizer que tampouco faltaram ao concerto
(. .. ) Para o artesao, os estudos de tempo simbolizavam os humanistas. Erasmo nos Colloquia e Morus na Utopia execraram a
simultaneamente o roubo de seu conhecimento por parte dos patroes e mendicidade, assim como outros tais como Agrippa, Elyot e Starkey, propendo
um ultraje contra seu sentido de conduta honrada no trabalho (... ). Os todos eles o trabalho for<;ado. Também o fez, com especial for<;a, o espanhol
modeladores do arsenal de Watertown tinham um acordo pelo qual Juan Luis Vives em sua De subventione pauperum (Lis e Soly, 1984: 104-5).
ninguém trabalharia contra o relógio. Um mecanice do arsenal de Rock A religiao exerceu um grande papel na aceita<;ao das novas condi<;oes de
Island, que foi visto medindo a base de urna plaina de broca e bra<;adeira vida. Sem necessidade de nos determos em velhas polémicas como, por
padronizadas, foi isolado por seus companheiros de trabalho. Os homens exemplo, a que divide a marxistas e weberianos em torno da ordem causal
que realizavam estudos de tempo na American Locomotive Company, de entre o desenvolvimento do capitalismo e a reforma protestante, é óbvio que
Pittsburgh, foram atacados e feridos pelos trabalhadores em 1911, apesar o protestantismo em geral e o puritanismo em particular foram essenciais para
do fato de que os haviam introduzido na fábrica com o consentimento dos azeitar a expansao do novo sistema económico. A reforma protestante é
sindicatos. A apari<;ao de relógios e de cartoes de trabalho na Norfolk habitualmente tida em conta, sobretudo, pelo papel da teoría da predestina<;ao
Navy Yard em 1915 provocou urna enorme greve e urna manifesta<;ao no na conforma<;ao da nova mentalidade burguesa e, em geral, por sua ética do
sindicato, "num enérgico protesto". Cinco anos antes, os mecanices de trabalho, mas tanto ou mais importante que isto foram seus efeitos sobre o
Starret Too! haviam decidido considerar esses relógios ''como parte do calendário de trabalho dos trabalhadores. A prolifera<;ao de días festivos na
mobiliário". A mera suspeita de que se ia introduzir um estudo de tempos Europa medieval estava estritamente vinculada ao santoral e as festividades
nas oficinas de repara¡;oes da Illinois Central Railroad foi suficiente para religiosas do catolicismo, entao simplesmente cristianismo. O rito ortodoxo nao
forjar urna frente unida de todos os ofícios e provocar urna greve em 1911 devia ficar para trás, pois parece que contava com nao menos de oitenta
que durou quatro sangrentos anos (Montgomery, 1985: 144-5; sobre festividades por ano (Gutman, 1976: 24). A reforma protestante, ao eliminar o
Watertown, veja-se também Green, 1980: 71). culto aos santos, eliminou também, de urna penada, as festas associadas a
eles.
Em geral, a introdu<;ao do taylorismo suscitou em seus primeiros cenários Ali onde os reformadores contaram com um poder mais direto,
- ferrovias, arsenais, fábricas de muni<;oes, etc. - formas de resistencia até empregaram-no na supressao, além disso, das festas laicas, como o demonstra
entao desconhecidas entre os trabalhadores norte-americanos. Um dirigente o exemplo da supressao das quartas-feiras livres dos aprendizes em Genebra,
sindical declarava diante da Comissao de Rela<;oes Industriais: em 1561 (Hill, 1964: 148). Lutero interveio na reorganiza<;ao da assistencia

54 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 55


pública em Leisnig, em 1523; Zwinglio o fez em Zurich, em 1526, e Calvino em esteve estreitamente associado ao empenho em supnmrr o domingo
Genegra, em 1.541: em todos os casos incluía-se o trabalho obrigatório. continental, afirmar os hábitos de trabalho e, em geral, converter os recém
O puritanismo converteu o ano num período de trabalho constante, com a chegados a ética puritana do esforc,:o. E, sobretudo, ao aumento da
única excec;ao do domingo sabático. A implantac,:ao forc,:osa deste deve enten- produtividade. Como dizia um superintendente de urna fábrica Ford:
der-se como urna autolimitac,:ao dos laboriosos e urna forma de restringir a
concorrencia que respeitava as exigencias de regularidade - seis dias de Para obter a produc;a_o normal de urna jornada, o trabalhador está
trabalho e um de folga - da nova ordem (Hill, 1964: 151-2). programado de forma a sustentar um ritmo enérgico durante oito horas
Nao bastava, ademais, limitar o descanso, mas era necessário também por dia; isto só se pode conseguir quando o trabalhador e seu lar levam um
controlá-lo. O domingo sabático, dedicado a orac,:ao, a observancia religiosa e ao vida bem regulada. Se se quer que o empregado mantenha seu alto nível
recolhimento em familia, era a alternativa ao domingo de diversao que se podia de produtividade nesta fábrica, as preocupac,:6es, a vida descuidada, a
prolongar em cansac,:o ou ressaca na segunda-feira de trabalho. Os hábitos embriaguez e a doenc,:a devem ser eliminadas (Chandler, 1964: 183).
tradicionais que nao se encaixavam na nova cultura industrial tinham que ser
desacreditados, e o ócio dos sábados e domingos era para os industriais e para A preocupac,:ao com o álcool e com sua influencia sobre a produtividade
os reformadores ingleses um deles (Pollard, 1965: 194). Nos Estados Unidos nao foi nem é exclusiva dos países capitalistas ocidentais. A. N. Chikolev,
defendía-se o domingo de observancia contra o chamado ''domingo especialista industrial a servic,:o do Ministério da Marinha da Rússia czarista,
continental'' (o da Europa continental, em comparac;ao com o da Inglaterra queixava-se de seus nefastos efeitos em princípios do século (Hogan, 1985:
puritana), de folga e diversao (Hays, 1957: 100). 80). E m nos sos dias, a equipe governamental encabec,:ada por M. Gorbachov,
(Entre parenteses, digamos que valeria a pena que alguém investigasse em obcecada especialmente pela baixa produtividade do trabalho na URSS,
que momento transformou-se a frase bíblica em: "Ganharás o pao como suor comec,:ou seu mandato com a proclamac;ao de um conjunto de medidas contra
do teu rosto". Nas economias de subsistencia, como era a do Antigo o consumo de álcool que constituem quase urna ''leí seca''.
Testamento, o pao e os alimentos em geral nao se ganham, mas sao produzidos A divisória entre os que já se haviam adaptado as novas pautas de trabalho
ou, na pior das hipó teses, sao conseguidos, obtidos, etc. ''Ganhar'' é urna e os que ainda nao o haviam feíto coincidiu muitas vezes com linhas de
expressao própria de urna economia monetária desenvolvida, do trabalho diferenciac;a_o étnicas. Nao foram apenas os índios e os negros que foram vistos
assalariado, cuja transformac;ao em consigna bíblica nao denota senao a como incapazes, em um primeiro momento, de se adptarem ao ritmo e a
adaptac;a_o da do utrina religiosa a nova ordem). intensidade do trabalho próprios das populac,:6es que já haviam passado pela
As campanhas contra o álcool podem ser interpretadas dessa forma. Seu revoluc;a_o industrial; isto também ocorreu com grupos de homens brancos de
consumo nas festas, mesmo quando nao se prolongavam em Santa Segunda- diferentes procedencias. Assim, os irlandes suportavam menos a disciplina
-Feira e Santa Terc,:a-Feira ou em interrupc,:6es esporádicas, era visto pelos fabril que os ingleses (Ashton, 1977: 94), embora, por outro lado, estivessem
empregadores, em parte com razao e em parte levando a prevenc;ao ao dispostos a trabalhar por salários mais baixos. Nos Estados Unidos, cuja
preconceito, como urna causa de diminuic;:ao da produtividade; para nao falar já populac;a_o é o produto de sucessivas ondas de imigrac,:ao, passaram pelas
de seu consumo cotidiano (Pollard, 1965: 193-4). No século XVIII era visto na mesmas demonstrac,:6es de inadaptac,:ao os ingleses, os judeus, os poloneses,
Inglaterra e na Franc,:a como a causa da miséria do trabalhador ou como o os mexicanos, os sulistas, os eslavos, os italianos, etc. (Rodgers, 1974). Isto fez
centro de seus defeitos (Furniss, 1965: 100; Perrot, 1978: 351). Ademais, com que o processo de assimilac,:ao aparecesse, com freqüencia, mais como
beber nao era um vício individual, mas também e sobretudo um ato social e um processo multifacetado de aculturac,:ao que como o que na realidade era,
público (Kriedte, Medick e Schlumbohm, 1986: 106). É bem conhecido o papel um processo de socializac;a_o para o trabalho e de repressao das práticas
das tavernas na Revoluc,:ao Francesa de 1789 ou no desenvolvimento da so- consideradas inconvenientes para a nova ordem industrial. Quando a Young
cial-democracia alema, e o evangelista Billy Sunday via nos saloons de Men's Christian Association comec,:ou a dar aulas de ingles aos
Chicago ''o anarquista do mundo'' e urna ameac,:a contra a ''grande velha trabalhadores imigrantes da empresa International Harvester, em 1911, a
bandeira norte-americana" (Hogan, 1978: 170-1). Embora para a proibic,:ao primeira lic;a_o rezava:
norte-americana confluíssem outros motivos, como os do reformismo mora-
lista, os da pequena burguesía desejosa de ordem ou os das mullieres pouco Ouc,:o o apito. Devo apressar-me. Ouc,:o o apito de cinco minutos. É
dispostas a suportar os maus tratos de um marido beberrao, canalizados estes hora de entrar no trabalho. Pego o cartao do quadro de entrada e coloco
últimos através da opc,:ao proibicionista do movimento sufragista, sempre no quadro do departamento. Troco de roupa e me disponho para trabalhar.

56 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 57


Soa o apito de início. Como meu almoc;o. Até entao é proibido comer. Soa dedicac;ao do exército desmobilizado a tarefas produtivas para continuar na
o apito cinco minutos antes de comec;ar. Preparo-me para ir trabalhar. mobiliza<;ao militar de trabalhadores. A segunda refletiu-se no escrito As
Trabalho até que soe o apito de saída. Deixo meu lugar em ordem e limpo. tarefas imediatas do poder soviético, onde Lenin apostava abertamente e
Ponho todas as minhas roupas no compartimento. Devo ir para casa com toda a franqueza na implantac;ao do taylorismo.
(Hogan, 1978: 167).
Aprender a trabalhar, eis aqui a tarefa que o poder soviético deve
Para nós, esta recorrencia é urna demonstra<;ao a mais de que a resistencia colocar em toda a sua envergadura diante do povo. A última palavra do
ao trabalho industrial nao foi o resultado de excepcionais peculariedades capitalismo neste terreno - o sistema Taylor -, assim como todos os
culturais de tal ou qual povo, mas urna resposta generalizada e recorrente de progressos do capitalismo, reúne em si toda a refinada ferocidade da
todos os pavos diante do caráter excepcional na história dos processos de explora<;ao burguesa e muitas valiosíssimas conquistas científicas
trabalho trazidos pela industrializac;ao. concernentes ao estudo dos movimentos mecanicos durante o trabalho, a
supressao dos movimentos supérfluos e lentos, a elaborac;ao dos métodos
Hábitos mais que irregulares de trabalho uniram a conduta de de trabalho mais racionais, a implanta<;ao de melhores sistemas de
trabalhadores fabris de primeira gera<;ao separados uns dos outros pelo contabilidade e controle, etc. A República soviética deve adotar, a todo
tempo e pela estrutura global da sociedade que enfrentavam pela primeira custo, as conquistas mais valiosas da ciencia e da técnica neste domínio
vez. Poucas populac;oes de classe operária norte-americana diferiam em (. ..) . Deve-se organizar na Rússia o es tu do e o ensino do sistema Taylor,
tantos aspectos essenciais (seu sexo, sua religiao, seu lugar de nascimento sua experimentac;ao e adaptac;ao sistemáticas (Lenin, 1970: JI, 695).
e sua cultura rural e aldea prévia) quanto as jovens e as mullieres das
oficinas de Lowell da Era dos Bons Sentimentos e os trabalhadores do ac;o Lenin nao compreendia que, ao importar o que acreditava ser urna simples
procedentes do Sul e do Leste da Europa na Era Progressiva. Descrever op<;ao técnica inserida dentro de diferentes relac;oes de produc;ao, ia importar
as sirnilaridades entre suas expectativas sobre o trabalho fabril nao também as relac;oes sociais do processo de produ<;ao capitalista propriamente
significa desprezar essas importantes diferenc;as, mas sim sugerir que dito, o que Marx chamava o ''despotismo da divisa o manufatureira do
homens e mulheres muito diferentes em outros aspectos interpretaram tal trabalho" ou a "subsun<;ao real do trabalho ao capital" (Braverman, 1974:
trabalho de forma similar (Gutman, 1976: 25-26). 12-2; Querzola, 1978). No mesmo erro cairia, anos depois, Gramsci em sua
defesa do "americanismo". Mas o que importa aqui nao é discutir o acerto ou
o erro desta op<;ao, mas avaliar as dificuldades da imposi<;ao do trabalho
A variante burocrática industrial em um contexto de coletivismo burocrático - ou, se se prefere, de
socialismo real.
A industrializac;ao da URSS traz urna expenencia completamente O regime nascido da Revoluc;ao de Outubro operou desde o princípio em
diferente, por razoes óbvias, mas com o elemento comum da dificuldade de urna relativa situac;ao de desvantagem frente ao capitalismo ao faltar-lhe o
incorporar a populac;ao as novas pautas de trabalho. Embora a Rússia tivesse instrumento principal deste para a mobilizac;ao eficaz da mao de obra: o
urna longa tradic;ao de autocracia e despotismo, era essencialmente urna mercado de trabalho com seu exército de reserva industrial. Dado que o posto
economia camponesa de subsistencia com reduzidas ilhas industriais, de trabalho era e é algo garantido, chegou-se a paradoxal situa<;ao de urna
essenciais desde o ponto de vista do processo político revolucionário, mas menor identifica<;ao entre o trabalhador e sua empresa que sob o capitalismo.
insignificantes da perspectiva dos usos sociais e da cultural em geral. A Neste, o trabalhador pode odiar sua empresa e seu empresário, mas nao pode
Revoluc;ao encontrou-se com toda a tarefa da industrializac;ao por diante, mas deixar de sentir-se parcialmente identificado com eles, na medida em que da
sem o processo de urbanizac;ao e transformac;ao cultural percorrido já entao sorte de sua empresa no mercado depende seu próprio posta de trabalho. Em
pela Europa Ocidental. um sistema de propriedade pública, pelo contrário, o trabalhador pode sen-
Desde o primeiro momento colocou-se o problema da mobiliza<;ao da mao tar-se a porta de sua casa a ver passar o cadáver de sua empresa, na
de obra e seu emprego eficaz na indústria. Desta perspectiva deve-se entender tranqüilidade de que será sustentado pelo erário público ou se lhe oferecerá
a proposta de Trotsky de criar um exército do trabalho e a especial outro pasto de trabalho ou subsídio.
preocupac;ao de Lenin por elevar a produtividade. A primeira foi posta em A falta de um mecanismo coercitivo económico como o do mercado de
prática durante o breve período do "comunismo de guerra", comec;ando pela trabalho, as autoridades soviéticas tinham em suas maos dois instrumentos

58 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 59


alternativos: a propaganda e a coen;:ao política. Parte da primeira foram e sao solu~ao, pois, a parte as leis que protegiam os trabalhadores e a possibilidade
o culto a figura do trabalhador, o realismo e o construtivismo socialistas e o de regressar ao campo, a economía soviética sempre havia sofrido de escassez
sem-fnn de medalhas, distim;:oes, premios, etc., aos produtores mais de mao de obra nas condi~6es de produtividade existentes. Contra a falta de
destacados. Parte da segunda, a mobiliza~ao for~ada, as deporta~6es maci~s, disciplina no trabalho, pois, decretou-se urna série de medidas repressivas e de
os passaportes internos, as regulamenta~oes sobre a ordem no trabalho, os controle tais como os passaportes internos, as carteiras de trabalho, 0
castigos exemplares contra a ''sabotagem da produ~o'' e, em geral, como racionamento dos produtos básicos e a oferta de casas através das fábricas,
nao, a polícia política. Entretanto, ambos os mecanismos sao de eficácia etc. Em 1940, o abandono nao autorizado do posto de trabalho converteu-se
duvidosa desde o ponto de vista económico e, de qualquer forma, difíceis de em um delito punido com o confmamento num campo de trabalho for~ado
serem sustentados por muito tempo. Em consequencia, desde suas origens (Swianiewicz, 1965: 154). A priva~ao das vantagens da previdencia social e da
até nossos dias, o novo regime soviético tem tido seu calcanhar de Aquiles no casa foi utilizada como castigo para os que acumulavam faltas como a
ritmo mais que moderado de atividade dos trabalhadores (Rochan e Abraham, impontualidade ou empregar demasiado tempo no almo~o. Em 1940, urna lei
1983: 461) ou, para dize-lo mais tecnicamente, em urna baixíssima fJXou os trabalhadores em seus postos de trabalho, embora medidas desse tipo
produtividade do trabalho (em 1963, por exemplo, a metade, ou menos, que tivessem sido produzidas também na liberal Inglaterra no período de guerra.
nos Estados Unidos) (Inkeles, 1971: 53). Por toda a URSS surgiu um novo tipo de campo de trabalho, nao tao duros com
Como outras revolu~oes posteriores, a soviética teve que enfrentar desde os dos prisioneiros políticos, mas o bastante para dissuadir os trabalhadores de
o primeiro momento a questao dos estímulos a produ~ao. No come~o, estes atentar contra a disciplina do trabalho (!bid.: 155).
foram sobretudo do tipo propagandístico e coletivo: a campanha pela emula~ao Em algumas indústrias estratégicas e pouco atrativas para os
socialista, os sábados e domingos vermelhos, as brigadas de choque trabalhadores, a organiza~o chegou a ser assunto direto da polícia. Milhoes de
constituídas por voluntários, etc. Entretanto, os efeitos dessas medidas kulaks, reais ou presumidos, foram enviados aos assentamentos no Ártico ou
estavam condicionados pela escassa organiza~ao do proletariado industrial, que as novas zonas industriais para além dos Urais e submetidos a um regime de
era a base de massas do partido bolchevique, e iam estar também, logo em trabalho for~ado (Kochan e Abraham, 1983: 366). A grande indústria rnadereira
seguida, pelo refluxo da revolu~ao, produto do estancamento e da regressao do Norte esteve sob a dire~ao da N.K.V.D. (Swianiewicz, 1965: 113-114).
económicos, conseqüencia da Primeira Guerra Mundial, da guerra civil, da Outras medidas foram de natureza positiva, como o movimento
interven~ao exterior e do isolamento internacional. Grande quantidade de stakhanovista. A diferen~a da emula~ao e das outras campanhas do come~o, o
operários industriais foram absorvidos pelos aparatos político e militar, caíram stakhanovismo nao era um sistema de estímulos propagandísticos que apelasse
nas sucessivas !utas ou se viram obrigados a regressar ao campo pela penúria para a consciencia revolucionária dos trabalhadores, embora se colocasse em
económica, enquanto a nova industrializa~ao se iría basear na mao de obra tomo ao mesmo um grande aparato publicitário, mas sobretudo um sistema de
procedente do campo. incentivos económicos individuais que introduziu notáveis diferen~s nos
A coletiviza~o for~ada da agricultura desempenhou na URSS um papel salários monetários e outras vantagens em espécie aos trabalhadores. Tinha
similar ao dos cercamentos e da supressao de terras comunais na Europa em comum com o taylorismo a característica de estimular a produtividade
Ocidental (Moore, 1965: 55), liberando mao de obra para a indústria - urna individual para converter suas realiza~oes em normas da produtividade
fun~ao que já antes haviam desempenhado, em menor medida, as granjas coletiva, pelo qua! suscitou urna forte resistencia, tal qua! o reconhecia um
coletivas das primeiras levas. Mas, também na URSS, liberar mao de obra era autor tao pouco suspeito de sentimentos anti-soviéticos quanto Maurice Dobb:
urna coisa e empregá-la efetivamente outra.
Os esfor~os de alguns dos primeiros stakhanovistas encontraram um
Os camponeses, extraídos de suas aldeias natais, nao se sentiam vincula- certo grau de obstru~ao, nao apenas por parte dos dirigentes que, por
dos a nenhuma localidade ou fábrica particulares e viam-se inclinados a levar cnnservadorismo inato ou medo do deslocamento resultante, olhavam com
urna vida semi-nómade. Isto desorganizava gravemente a produ~o, e as receio os novos métodos, mas muitas vezes por parte de seus próprios
autoridades estavam muito preocupadas como problema de como diminuir a companheiros trabalhadores, aos quais desgostava qualquer coisa que
excessiva rotatividade da mao de obra (Swianiewicz, 1965: 112). viesse perturbar os métodos de trabalho longamente honrados ou que
conservavam antiquados preconceitos contra a ''acelera~o' '. O próprio
Os planos quinqüenais enfrentaram sérios problemas de rotatividade, Stakhanov teve que enfrentar "certos trabalhadores que o insultaram e o
absenteísmo, impontualidade, falta de empenho, etc. A demissao nao era urna acossaram por causa de suas idéias novas" (Dobb, 1948: 440).

60 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 61


As manifestar;:oes de resistencia foram desde a migrar;:ao constante, a rotativi- (... ) pode dizer-se que o principal: o avanr;:o será tanto mais rápido
dade, a má qualidade do trabalho ou os danos a maquinaria (Ritterspom, 1978: quanto mais altos forem a disciplina, o grau de organizar;:ao e a
252-3; Dobb, 1948: 444-5) até, inclusive, a numerosos assassinatos de "trabalha- responsabilidade de cada um pelo trabalho encomendado, pelos frutos do
dores de choque de vanguarda'' (Levine, 1973: 129). Assim como Chaplin levou ao mesmo (Gorbachov, 1986: 35).
cinema urna magistral paródia crítica do fordismo e da obsessao por converter todo
o tempo de trabalho em tempo produtivo, Wajda refletiu a mescla de motivos e O primeiro ministro compartilha do diagnóstico:
rear;:oes em tomo do stakhanovismo, embora no contexto polonés.
O flill da era stalinista foi também o dos mecanismos coercitivos na ex- Após analisar de urna forma crítica a situar;:ao criada, o Partido adotou
trar;:ao de trabalho. Estes foram substituídos por sucessivas reformas basea- medidas para reforr;:ar a direr;:ao da economía e, sobretudo, para elevar o
das em complexos sistemas de incentivos individuais e coletivos que, entre- grau de organizar;:ao e a disciplina de trabalho (Rizhkov, 1986: 9).
tanto, nao tiveram muito éxito. Após a queda de Krushev, a era brejneviana
organizou-se em tomo de um consenso nao declarado: a burocracia nao É um problema aberto o de determinar até que ponto um sistema social
oferecia nada aos trabalhadores, mas tampouco se lhes exigia algo. baseado na propriedade coletiva dos meios de produr;:ao pode ser capaz de
A URSS e os países do Leste de nossos días sao o melhor exemplo de elevar a produtividade do trabalho, por um lado, e em que medida pode chegar
como a industrializar;:ao, a passagem do tempo, a modernizar;:ao cultural, o a faze-lo sem os elevados custos sociais associados ao processo sob o
desejo de consumir, a evolur;:ao tecnológica e os incentivos económicos nao sao capitalismo, por outro. O tempo dará urna resposta, ainda que tarde em ser
suficientes para extrair dos trabalhadores urna produtividade similar a obtida definitiva.
pelo capitalismo ocidental. Qualquer um pode comprovar isto visitando urna
fábrica ou, simplesmente, um bar, pois é difícil nao sentir-se assombrado com
a baixa produtividade do trabalho, pelas interrupr;:oes, pelo escasso interesse
pelo resultado, etc. Nao é necessário entrar na discussao sobre se o desejável
é trabalhar mais e consumir mais, trabalhar menos e consumir menos ou
buscar algum ponto intermediário de equilibrio.
De qualquer forma, é improvável que, no contexto das relar;:oes
económicas intemacionais lideradas pelos países capitalistas de maior
produtividade, alguma sociedade possa permitir-se por si mesma outra opr;:ao
que a primeira. Para nosso propósito basta assinalar que as pautas de trabalho
do mundo ocidental nao sao um produto espontaneo nem das necessidades ou
desejos humanos nem do desenvolvimento económico, mas o resultado de um
prolongado conflito em torno das condi~oes de vida e trabalho. Os atuais
governantes soviéticos parecem inclinar-se pela primeira opr;:ao e colocar a
reorganizar;:ao e intensificar;:ao do trabalho no alvo de sua política. Assim o
expressa, na linguagem oblíqua da burocracia soviética, Mikhail Gorbachov:

[Na época de Brejnev] a economía, por inércia, continuava


desenvolvendo-se em um grau considerável sobre a base extensiva,
orientava-se para incorporar a produr;:ao recursos de trabalho e materiais
adicionais. Como conseqüencia, reduziu-se seriamente o ritmo de
crescimento da produtividade do trabalho (... ) (Gorbachov, 1986: 34).

Disso tira o dirigente soviético tres ensinamentos: que se deve examinar


sinceramente o passado, que se deve agir com coerencia e decisao e, o mais
substantivo,

62 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola


3

A EXPERIENCIA COLONIAL:
A EMPRESA CIVILIZADORA E A
CIVILIZA~ÁO DA EMPRESA

Compadecemo-nos dos povos primitivos e tendemos a imaginá-los


submetidos a um duríssimo trabalho para atender a suas meras necessidades
de subsistencia. Entretanto, e sem chegar aqui a glorificar o feliz e bom
selvagem, poderíamos invejá-los por numerosas razoes, sendo a primeira deJas
o seu trabalho. É o mínimo se levamos em conta, por exemplo, que os bemba,
os hawaianos ou os kuikuru só trabalhavam quatro horas diárias, e os
bosquímanos kung e os kapauku seis; mais ainda se sabemos que os
mesmos bosquímanos trabalhavam dois días e meio por semana, o que dá
quinze horas semanais, e os kapauku um dia sim e outro nao; e muito mais
se consideramos que se trata de períodos de trabalho tranqüilo e marcado por
interrup<;oes. Nao se trata de casos excepcionais, mas de urna pauta normal
entre os povos cayadores-coletadores (Lee e Devore, 1968; Sahlins, 1977;
Meillasoux, 1979). Podemos pensar que nao trabalhavam mais porque com
isso, dado seu primitivismo, só teriam conseguido mais subsistencia que nao
poderiam guardar e mais objetos que nao poderiam transportar, o que, diga-se
de passagem, significaría atribuir-lhes urna racionalidade da qual nós próprios,
que acumulamos objetos que nao necessitamos e que as vezes nem sequer
ternos tempo de utilizar, nao nos podemos orgulhar; mas, de qualquer forma,
nao é essa a questao.
O acesso as técnicas agrícolas foi, logicamente, urna condi<;ao necessária
para a passagem da ca<;a e da coleta a agricultura e ao pastoreio, mas

A Face Oculta da Escala 65


provavelmente nao suficiente. Seguramente foi mais importante a pressao do chamada "Escala de Organizac;ao e Produc;ao" apresentaram com forc;a a idéia
crescimento demográfico sobre os recursos naturais, pois os cac;adores-cole- de que a lógica económica do mercado e da acumula<;ao de capital nao era
tores necessitavam de grandes extensoes para sobreviver. Numerosos pavos aplicável a análise do comportamento das unidades domésticas camponesas.
rejeitaram enquanto puderam a agricultura porque implicava urna maior Se estivemos contrapondo com particular insistencia, e continuamos
quantidade de trabalho, apesar de conhecerem suas técnicas ou terem acesso fazendo-o, a unidade de explorac;ao familiar a capitalista, fazemo-lo ao nível da
a elas e de estarem a par de sua maior "produtividade": assim, por exemplo, organizac;ao e da produc;ao: a explorac;ao doméstica em contraste com a
desde os muito primitivos hadza, embora estivessem rodeados de pavos explora<;ao baseada no trabalho assalariado. Neste sentido há duas maquinarias
agricultores (Sahlins, 1977: 41), passando pelos germanos, segundo o económicas completamente distintas que reagem de modo diferente diante dos
testemunho contemporaneo de Tácito (Le Goff, 1983: 108), até, nao faz muito, mesmos fatores económicos (Chayanov, 1985: 266).
os bachkir dos Urais (Le Play, citado por Lafargue, 1970: 12).
Como assinala Marshall Shalins (1977: 99 e ss.), a antropología ocidental Na teoria, os tratados de economía nacional desde Ricardo até nossos
manteve um duplo preconceito com respeito a esses pavos: por um lado, dias foram construídos dedutivamente a partir da motiva<;ao e das
imaginava-se-os trabalhando constantemente só para sobreviver, enquanto por estimativas económicas do hamo economicus que age como um
outro nao se deixava de assinalar sua "preguic;a congénita". Mas a realidade empresário capitalista e ergue sua empresa sobre a base do trabalho
era mais sábia: tinham suas necessidades limitadas e trabalhavam somente até assalariado. Mas na realidade ocorre que este clássico hamo
onde se viam abrigados a faze-lo para cobri-las, para além do qual preferiam o economicus com freqüencia nao se senta na cadeira do empresário, mas
ócio. Por outro lado, a estrutura de parentesco existente nao teria resistido a é o organizador da produc;ao familiar. Portanto, o sistema de economía
um processo de produc;ao de um maior excedente e de urna maior acumula<;ao, teórica construído a partir da atividade empresarial do hamo
como o demonstra sua dissoluc;ao progressiva nas economías agrícolas. economicus como capitalista é decididamente parcial e é inadequado para
Embora a economía camponesa suponha maiores quantidades de trabalho conhecer a realidade económica em toda sua complexidade atual (Ibid.:
e, com isso, maiores possibilidades de acumulac;ao e de diferenciac;ao social, 267).
conserva a característica de buscar um equilibrio entre esforc;o de trabalho e
satisfac;ao das necessidades. Situam-se ambos num ponto muito superior, mas A idéia básica de Chayanov é a de que o núcleo da racionalidade económica
mantém-se, entretanto, a mesma lógica qualitativa da economía primitiva. da unidade doméstica é a busca de um equilíbrio entre a satisfa<;ao das
necessidades familiares e a intensidade do trabalho (ou, se se prefere, a auto-
-explorac;ao da forc;a de trabalho). Para a unidade doméstica, a capacidade ou
Economia doméstica versus acumulayao capitalista forc;a de trabalho é algo dado, e o resto dos fatores que intervem na produc;ao
(terra e meios de produc;ao produzidos), assim como o produto fmal, sao as
A estigmatizac;:ao da economía dos povos primitivos e, por extensao, de variáveis que, juntamente com a intensidade no emprego da capacidade de
todos os nao ocidentais, tem sua base singular na constatac;ao de que, ao trabalho dada, deve manipular o campones em busca do citado equilibrio. A
contrário da economía capitalista e, em menor medida, da mercantil, eles nao mesma satisfac;ao das necessidades - isto é, o nível a alcanc;ar na mesma, o
identificam o ponto ótimo de produ<;ao com seu ponto máximo. Desse ponto de grau de bem-estar - deve ser considerada como urna variável dependente na
vista, o comportamento do cac;ador-coletor que deixa de trabalhar tao logo medida em que vá além das naturais e mais elementares.
tenha conseguido o necessário para cobrir algumas necessidades limitadas ou Este enfoque explicada comportamentos do campesinato aparentemente
do campones que deixa sem cultivar parte de suas terras é tachado de irracionais - desde o ponto de vista da economía política do capital - como
economicamente irracional. o aumento da produ<;ao diante da queda dos prec;os - para obter a satisfac;ao
Cabe também pensar, entretanto, que sua racionalidae seja outra, mínima das necessidades - e sua diminuic;ao quando a remunerac;ao do
diferente da racionalidade da acumula<;ao mercantil ou capitalista. Isto foi produto se eleva, ou supostos paradoxos em um sistema capitalista com urna
postulado e argumentado por A. V. Chayanov, um agrónomo e economista importante populac;ao camponesa, tal como que os salários baixem quando o
russo que dedicou sua vida ao estudo das explorac;óes familiares camponesas prec;o dos cereais sobe - por más colheitas que, ao mesmo tempo que
durante os últimos anos do czarismo e os primeiros do Estado soviético - e produzem a alta dos prec;os, forc;am os camponeses a complementar seus
que, certamente, inspirou em grande medida o "socialismo a passo de rendimentos trabalhando como assalariados, o que faz cair os salários -, para
tartaruga'' de Bukharin. Chayanov e a - segundo ele impropriamente - citar apenas alguns furos na capacidade explicativa da economía clássica. (É

66 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 67


preciso clizer que, do ponto de vista da economia clássica, a queda dos prec;:os camponeses submetidos ao trabalho complementar domiciliar dos princípios
agrícolas deveria trazer urna diminuic;:ao da produc;:ao e, o aumento dos prec;:os do capitalismo (Medick, 1.976; Levine, 1977; Berg, 1985), a autolirnita<;ao do
dos cereais, urna eleva<;ao dos salários). trabalho dos artesaos (Thompson, 1967) ou a auto-regulac;:ao do trabalho
A conveniencia ou nao de qualquer iniciativa ou alternativa para a doméstico das donas-de-casa atuais (Fernández Enguita, 198&). Pode-se
explora<;ao doméstica nao seria avaliada em termos de custo-benefício mas, de aplicar, em geral, a todas aqueJas formas produtivas nas quais o trabalhador
maneira intuitiva, em fun<;ao de seus efeitos sobre o nível de consumo e o nível mantém o controle sobre o processo, a dura<;ao e a intensidade de seu
de intensidade do trabalho. Es tes separariam a ''unidade teleológica subjetiva trabalho.
da atividade económica racional, isto é, a explorac;:ao da unidade" (Chayanov,
1985: 132).
América: o índio indolente
(. .. ) A energía desenvolvida por um trabalhador e m urna unidad e
doméstica de explora<;ao agrária é estimulada pelas necessidades de A transic;:ao para as formas de trabalho próprias do capitalismo adquire a
consumo da família e, ao aumentar estas, sobe forc;:osamente a taxa de forma espetacular de um choque entre culturas ali onde aquele entra em
explora<;ao do trabalho campones. Por outro lado, o consumo de energía repentino contato com urna sociedade completamente diferente, coisa que
é inibido pelas fadigas próprias do próprio trabalho. Quanto mais dura o ocorreu, no devido momento, nas colónias. O "encargo do homem branco",
trabalho, comparado com a remunerac;:ao, mais baixo é o nível de bem- sua "responsabilidade", seu "trabalho civilizador", nao sao, afmal, senao
estar no qual a fanu1ia deixa de trabalhar, embora seja freqüente que para eufemismos para designar o tremendo e brutal empenho europeu em fazer os
obter até mesmo este nível reduzido deve haver grandes esforc;:os. Em outros povos abandonar seu modo de vida em troca das excelencias modernas
outras palavras, podemos afirmar positivamente que o grau de auto-ex- de converter-se em proletário, seja agrícola ou industrial.
plorac;:ao da forc;:a de trabalho se estabelece pela rela<;ao entre a medida da O problema do "recrutamento" de trabalho assalariado converteu-se no
satisfa<;ao das necessidades e a do peso do trabalho (Chayanov, 1977: 84). mais grave enfrentado pelos europeus desde que puseram o pé nas colónias.
Em essencia, o problema consistía- e continua consistindo em muitos lugares
Chayanov (1977: 41) estendeu esta lógica a toda unidade doméstica - em como transferir recursos humanos da agricultura de subsistencia para os
camponesa, quer formasse parte de um sistema de economia natural, quer empregos remunerados, quando isto implica numa transforma<;ao na dura<;ao,
estivesse integrada em um sistema de economia nacional c~m unidades na intensidade, nas condic;:6es e no sentido do trabalho, que sup6e urna ruptura
familiares de artesaos urbanos e/ou em urna economia feudal. E importante total com os padr6es culturais existentes.
sublinhar que nao se trata da lógica de urna economia natural ou de A Espanha foi a primeira potencia imperialista européia a topar com o
subsistencia, embora, naturalmente, desenvolva-se nela da forma mais livre "problema" em suas possess6es coloniais. Embora o nosso nao fosse
e completa. Trata-se da lógica da produc;:ao doméstica, que persiste mesmo precisamente um país avanc;:ado no desenvolvimento capitalista, as empresas
quando na multiplicidade de unidades em que se organiza ergue-se urna económicas que se puseram em marcha desde o primeiro momento nas
aparato de extra<;ao tributária do excedente. Chayanov assinalou chamadas Índias Ocidentais supunham formas de trabalho muito mais próximas
explícitamente sua vigencia dentro de urna economía feudal, pensando sem morfologicamente das do capitalismo (anterior a Revoluc;:ao Industrial) que as
dúvida no passado europeu - que ainda estava presente na Rússia antes da da economia de subsistencia e mesmo dos sistemas tributários baseados na
Revoluc;:ao de Outubro -, e nós devemos estender a observac;:ao aos Estados produc;:ao doméstica. Os espanhóis nao iam a Íbero-América buscar algumas
tributários que os europeus encontraram na América Central, América do oportunidades de subsistencia ausentes em seu país de prigem, mas extrair
Sul, parte da África, além, naturalmente, da Ásia. Os próprios fracassos da um excedente como qual comerciar e enriquecer. As minas, as plantations
política agrícola soviética poderiam ter sua raiz nao apenas nas disfunc;:oes da e as atividades de construc;:ao exigiam um trabalho regular ao qual as
gestao burocrática, mas também na persistencia de urna lógica doméstica e populac;:6es indígenas nao estavam acostumadas e ao qual eram bastante
camponesa nao rompida, como no mundo capitalista, pelo mercado (nao por difíceis de se adaptarem. Desde sua chegada as Antilhas, por exemplo, os
acaso Chayanov foi urna das primeiras reabilita<;6es políticas e científicas espanhóis puderam comprovar como os arauacos negavam-se a trabalhar nas
trazidas pela perestroika). condic;:6es que lhes eram propostas (Harris, 1960; Clementi, 1.974).
Esta ''regra de Chayanov' ', como a denomina Sahlins, vale também para Em seguida estigmatizaram-se os índios como seres preguic;:osos, vadios,
explicar o escasso trabalho dos nupe (Nade!, 1942), as intensas jornadas dos indolentes. Conforme escrevia o agostiniano Xuárez ao rei Felipe II, o índio era

68 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 69


"por natureza", indolente, preguic,:oso e dado ao ócio e ao vício; "de sua estendiam as plantac,:oes de produtos altamente demandados pela Europa. Esta
natural inclinac,:ao, sao amigos do vadiar" (Martin, 1954: 139; Florescano, foi urna variante generalizada sobretudo nas zonas dedicadas as plantac,:oes de
1980: 46). A Coroa espanhola escrevia ao vice-rei Mendoza de Nova Espanha ac,:úcar e café, sob o domínio tanto espanhol quanto ingles, francés, holandés ou
que os índios "sao pregui<;:osos por natureza" (Simpson, 1929: 156). O vice-reí portugués.
Velasco repetia pouco depois que ''os índios sao inclinados a ociosidad e''
(Florescano, 1986: 48). Nos séculos XVI e XVII [no sul dos Estados Unidos da América] tinha-
Em tais circunstancias, nada podia parecer mais natural aos espanhóis do -se tentado utilizar os índios para a produc,:ao em massa, mas logo se viu
que obrigar os índios ao trabalho forc,:ado. A coroa ordenava em 1535 ao vice-rei que nao serviam para este tipo de trabalho, motivo pelo qual se acorreu a
Mendoza que forc,:asse os índios a trabalharem nas minas e na construc,:ao de importac,:ao de escravos negros (Weber, 1974: 84; veja-se também
mosteiros e fortalezas, e, em 1542, quando se tratou de abolir o trabalho Williams, 1973).
forc,:ado, este sensato representante da coroa nao duvidava de que, sem
coerc,:ao, aqueles se negariam a trabalhar para os espanhóis. Ao sucessor de As colonias capitalistas resolveram organizar-se em plantations. Os
Mendoza, Velasco, se !he instruiu para que indígenas forneciam a mao de obra necessária (... ) . Logo se evidenciou
que os índios eram absolutamente inservíveis para o trabalho das
os índios fossem obrigados a trabalhar por salário nos campos ou nas plantations. A partir de entao iniciou-se a importac,:ao de escravos
cidades, para que nao andassem como vagabundos (Semo, 1985: 193). negros, negócio que pouco a pouco fez-se com regularidade e adquiriu
considerável extensao nas Índias Ocidentais (Weber, 1974: 254).
A primeira tentativa de soluc,:ao, obviamente, foi a escravidao. Até meados
do século XVI, os índios foram submetidos como escravos para levá-los a Por outro lado, regulou-se o trabalho forc,:ado dos índios de forma que sua
trabalhar nas empresas agrárias, mineradoras e industriais dos ocupantes, economía de subsistencia nao flcasse destruída. Em realidade, foram os
assim como nas obras públicas e religiosas de todo genero, no transporte de espanhóis que criaram tal economía. Ao destruir os impérios pré-existentes a
mercadorias, etc. Na verdade, a escravidao indígena nunca desapareceu sua chegada - por outro lado já em crise - romperam o delicado equilibrio
totalmente durante o período colonial, pois, embora a coroa a houvesse abolido baseado na redistribuic,:ao de produtos procedentes de diferentes zonas
formalmente, continuava autorizada para os índios que se levantassem contra ecológicas - sobretudo de diferentes altitudes -, o que produziu situac,:oes de
ela ou seus representantes, e sempre era fácil para os espanhóis provocar ou escassez de alimentos que contribuíram notavelmente para dizimar a populac,:ao
inventar tais levantes_ e difícil e pouco tentador para a coroa verificá-los. nativa. Ademais, com o objetivo de melhor controlar, evangelizar e mobilizar os
Entretanto, a escravidao dos índios nunca se mostrou muito rentável nem indígenas para o trabalho, efetuaram sua "congregac,:ao" e "reduc,:ao" em
eficaz, pois o genocídio, os pesados trabalhos, sua vulnerabilidade as povoados que substituiram as velhas aldeias e a dispersao demográfica.
enferrnidades européias e a destruic,:ao de seu mundo logo flzeram deles urna Responsabilizando a comunidade por tributos de todo genero, criaram esta e
mao de obra escassa e pouco estável. A abrandar a escravidao e outras formas converteram-na na unidade social básica. E, a diferenc,:a dos impérios
de trabalho forc,:ado contribuíram também a obra de Freí Bartolomeu de las autóctones anteriores, os espanhóis !hes extraíram tributos, tais como
Casas e outros defensores dos indígenas e a disparidade de interesses entre aqueles, mas nao !hes deram nada em troca, exceto povoar a geografía de
a coroa e a igreja, de um lado, e os colonizadores de outro. Enquanto estes igrejas e mosteiros e, obviamente, de núcleos de arquitetura colonial para
tinham pressa de enriquecer e, consequentemente, de explorar com a máxima desfrute dos colonizadores.
intensidade e no mínimo de tempo a mao de obra disponível, aquelas Quanto a mobilizac,:ao do trabalho, a escravidao dos indígenas, com a
desejavam assegurár-se urna fonte tributária a longo prazo, a qual passava por excec,:ao das construc,:oes, levou primeiro a encomienda e depois ao
estabilizar as comunidades indígenas e nao por matar precipitadamente a repartimiento de índios. A primeira consistiu em obrigar os índios de urna
galinha dos ovos de ouro. De qualquer forma, os índios tinham que trabalhar zona a trabalhar para o encomendero, um colonizador espanhol, que em troca
mais, isto é, "viver como homens, ou seja, como os espanhóis" (González tinha as obrigac,:oes teóricas de defendé-los, evangelizá-los e civilizá-los. Como
Sánchez, 1980: 138). a coroa nao queria ver estabilizar-se urna nova classe feudal coma qual dividir
A soluc,:ao foi dupla. Por um lado, substituíram-se como escravos os índios o poder, negou-se sempre a que a encomienda fosse hereditária - embora,
pelos negros trazidos da África, mais robustos, resistentes as enferrnidades na prática, perrnitisse repetidamente sua transrnissao de pais a filhos -;
européias e capazes de aclimatar-se aos trópicos do Novo Mundo nos quais se entretanto, esta medida, que teoricamente separava ainda mais o índio do

70 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 71


escravo, voltou-se contra aquele, pois, nao tendo o encomendero garantia Sob a encomienda, a intensidade do trabalho do índio era incontrolável
alguma de poder conservar indefinidamente seu direito sobre o trabalho do para a coroa e seus representantes e dependía das necessidades e do grau de
índio, tinha o máximo interesse em explorá-lo aceleradamente. brutalidade que era capaz de aplicar o encomendero. Sob o repartimiento,
Em 1536, e sobretudo em 1542, substituiu-se a encomienda pelo oitenta por cento dos índios - o resto eram crian¡;:as, velhos e alguns
repartimiento. O índio já nao estava vinculado necessariamente a um privilegiados - trabalhavam para os espanhóis entre duas e quatro semanas ao
encomendero, mas este ou qualquer outro colonizador deveriam solicitar, ano - sem contar o tempo de deslocamento, muitas vezes longo -, o que
para empregar seu trabalho, a permissao do representante da coroa, o qual se supunha para as comunidades colocar a sua disposi<;:ao, permanentemente,
encarregava de verificar que efetivamente existia tal necessidade. O entre 2 e 4 por cento de sua for<;:a de trabalho - mais tarde entre 4 e 10 por
repartimiento significou, com rela<;:ao a encomienda, a passagem da cento -, conforme a intensidade exigida pelos ciclos produtivos (Semo, 1974:
imobilidade do trabalho indígena a sua mobiliza<;:ao em fun<;:ao das necessidades 223-225; Florescano, 1986: 42).
variáveis, urna forma de racionaliza<;:ao e rota<;:ao do trabalho for<;:ado (Semo, A encomienda e o repartimiento, sob formas puras, derivadas ou
1985: 222). intermediárias, existiram de forma generalizada em todas as colonias
espanholas na América, sob nomes distintos como a mita do Peru e Bolívia,
(... ) Sob as formas legais da encomienda e do repartimiento, o cuatequil ou coatequil da Nova Espanha, a mita, o alquiler e o
oculta-se a escravidao latente e generalizada da popula<;:ao indígena. O concertaje da Colombia, etc., renascendo de novo no século XIX (Zavala,
encomendado ou repartido nao foi arrancado de sua vida comunitária, 1943: 69 ss.; Ots Capdequí, 1973: 25-28; Bagú, 1969; Wallerstein, 1979: 130,
mas foi brutalmente transformado em instrumento para a constru<;:ao de 474; Wolf, 1982: 136-137; Kubler, 1963: 371-373; Cardoso e Pérez Brignoli, 1987:
urna nova economia (e de urna nova sociedade) alheia a lógica do I, 171; Klein, 1967: 138 ss.).
desenvolvimento de sua própria; urna economia (e urna sociedade) na qual Além disso, a recusa do trabalho intenso e continuado nao iria ser coisa
ocupa o mais baixo dos' níveis sociais. Nao é propriedade privada do apenas dos índios. Em fmais do século XIX seria também característica dos
conquistador, mas é tratado como ''propriedade emprestada'' cujo valor gauchos na Argentina e dos gaúchos no sul do Brasil e, em geral, dos caipiras
de uso deve ser aproveitado o mais rapidamente possível. Sua condi<;:ao é neste último país. A semana de trabalho destes, quando existia, era de quatro
a de escravo coletivo de quem se disponha indistintamente a lavrar as dias por semana (Candido, 1987: 87). Isto nao era privativo do campo, pois
terras das planta<;:6es de trigo, transformar Tenochtitlán na cidade do também os industriais queixavam-se amargamente em fmais do século pas-
México, fazer funcionar minas de prata que se encontram a centenas de sado; por exemplo, os da Uniao Itabirana, de Minas Gerais:
quilómetros de sua comunidade, ou transportar, na qualidade de tameme,
os pertences do conquistador nas selvas da América Central (Semo, 1985: (... ) Infelizmente, poucos te m qualquer interesse por suas tarefas,
206). ( ... ) nao se submetem a nenhum controle sistemático, (... ) nao
permanecem em seus empregos, nao dao importancia a seus contratos
Mas há outras diferen<;:as importantes entre a encomienda e o ( ... ).
repartimiento, de um lado, e a escravidao, de outro. Em primeiro lugar, o (... ) Entregues a suas vidas indolentes, trabalhando tres ou quatro
escravo é urna propriedade que o amo deve manter para nao perder a renda días por semana, nao querem ganhar mais que um salário miserável,
capitalizada nele invertida, enquanto que o encomendero nao tem outra porque apenas pensam em comer, mastigar palitos, beber cacha<;:a e
responsabilidade com o índio que a de pagar-lhe seu baixo salário. Em segundo corromper-se (Stein, 1979: 71; Rago, 1985: 20-21).
lugar, o índio encomendado ou repartido continua reproduzindo-se a partir
de sua econornia de subsistencia, gra<;:as ao qual quem o emprega deve fazer A mesma coisa na agricultura, conforme aflrmavam os fazendeiros de café
frente aos custos menores de seu trabalho. A encomienda é a reprodu<;:ao na em 1880 e os deputados de Sao Paulo pela mesma época. Veja-se,
América da servidao européia, e o repartimiento lhe acrescenta a mobilidade respectivamente:
da mao de obra própria do trabalho assalariado. O trabalho do encomendado
nao era retribuído, o do repartido sirn; por conseguinte, podemos considerar Os nacionais (... ) sao tao refratários ao trabalho sistematizado,
este como urna figura de transi<;:ao entre a servidao e o trabalho assalariado que é um número muito reduzido aquele que se presta ao aluguel re-
quando o trabalhador da economía de subsistencia nao se mostra por si mesmo gular de seus servi<;:os em bens de explora¡;:ao agrícola (Kowarick, 1987:
com disposi<;:ao de aceitá-lo. 65).

72 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 73


Os trabalhadores nacionais limitam-se a caya e a pesca (... ) , rejeitam para depois, com o dinheiro obtido, comprar as apetitosas mercadorias
o serviyo de camaradas, nao querem prestar-se ao serviyo do cultivo da oferecidas também por eles. Mas nao foi assim de forma alguma. Os nativos,
terra (Cardoso, 1962: 209). em geral, nao tinham grandes necessidades das mercadorias que os brancos
lhes ofereciam. Nao lhes desagradavam, provavelmente, mas tampouco
Ao terminar a primeira metade deste século, o autor de Os Sertóes, correspondiam a qualquer necessidade óbvia que nao estivesse coberta por
Euclides da Cunha, ainda podia descrever a atitude do sertanejo diante do urna agricultura e um artesanato rural bastante integrados. Algumas poucas
trabalho dizendo que ''passam as horas matando, no significado estrito do mercadorias, em troca das quais eles também podiam oferecer bens, bastavam
termo, o tempo'' (Gnacarini, 1980: 147). Do submetimento do caipira como artigos de luxo para fins ornamentais, de prestigio, etc. Em geral, os
trataremos mais adiante. europeus tiveram bastante dificuldades para introduzir seus produtos. Os
africanos nao mostravam muitas necessidades que pudessem estimular o
África: a missao do hornero branco comércio europeu.
Tao amarga experiencia nao era nova para os europeus. Os chineses
A colonizayao africana no século XIX oferece outro cenano no qual tinham-se declarado autosuficientes, como lhe fez saber seu imperador a Jorge
observar a escassa disposiyao natural das pessoas para se integrarem no que III em 1793: "nao nos falta nada ... e já nao necessitamos as manufaturas de
hoje entendemos por trabalho. A diferenya da América1, a África era um vosso país" (Wolf, 1982: 254). A Índia produzia texteis muito superiores aos
continente escassamente povoado quando os colonialistas europeus deixaram da Europa e mais baratos. Em vista do qual, as potencias coloniais, Inglaterra
de limitar-se a comercializar mercadorias exóticas ou a capturar escravos em em primeiro lugar, lanyaram-se a toda urna série de tropelias que, pelo visto,
suas costas para erguer diretamente explorayoes diversas em seu território, de nao fizeram enrubescer os partidários do livre comércio (embora,
forma que os nativos sempre tinham a sua disposiyao terras adicionais. Os naturalmente, nao figurassem nos manuais de economia): declararam guerra
habitantes da África negra ou subsaariana obtinham seu sustento da cac;:a e aos chineses para impor-lhes o consumo do ópio (mercadoria cuja oferta
coleta ou de formas de agricultura arcaicas e apenas ocasionalmente tinham consideraram a mais capaz de gerar sua própria demanda), destruiram de
conhecido formas políticas tributárias desenvolvidas. O clima era hostil para os forma sistemática as manufaturas e o artesanato da Índia e ocasionaram as
europeus, pouco preparados para fazer frente as enfermidades associadas, o maiores fomes de sua história, corromperam os norte-americanos nativos e os
que desencorajou a colonizayao maciya. Ademais, as potencias que levaram a polinésios com a venda de álcool e armas, etc.
cabo a colonizayao do continente eram já no século XIX sociedades capitalistas Mas o mais terrível para os europeus era que os demais povos, além de
relativamente avanc;:adas e queriam dispor da forma mais flexível e rentável que nao desejar serem seus clientes, nao estavam dispostos a serem seus
pode adatar o trabalho alheio, a do trabalho assalariado. assalariados, isto é, nao quiseram deixar-se explorar em nome da civilizayao.
A maior preocupayao ia ser, por conseguinte, o desenvolvimento de urna Contrariamente ao que os europeus pensavam, nao é difícil compreender que
forya de trabalho nao qualificada e barata (Berg, 1977), pois, qualificada e cara, constituía urna mostra de elevada racionalidade nao querer abandonar suas
em termos comparativos, a pouca que era necessária se podia importar da condiyoes de vida pelas que o capitalismo intruso lhes oferecia.
Europa. Os colonos nao tinham pejo de reclamar abertamente o que Diante de tao incompreensível falta de cooperayao com a nobre obra
consideravam como um inalienável direito humano e branco. Assim, urna civilizadora, os europeus nao duvidaram nem por um momento que tinham o
organizac;:ao de colonos brancos no Kenya queixava-se diante do governador direito, até mesmo o dever, de fazer trabalhar essa massa de gente indolente,
britanico: para seu próprio bem, embora contra sua vontade. Por conseguinte,
impuseram todas as variantes imagináveis do trabalho foryado. Em primeiro
Devemos fazer notar a Vossa Excelencia que é enormente injusto lugar, os europeus obrigaram os nativos a trabalhar em toda classe de obras de
convidar o colono a este país, como se fez, dar-lhe terras sob condiyoes infra-estrutura necessárias para a colonizac;:ao. Baseando-se na tradiyao de
que exigem o trabalho e, ao mesmo tempo, privá-lo dos fundamentos em participayao coletiva em trabalhos comunais, impuseram, através dos chefes, a
que se baseia a totalidade de seu esforyo e sua esperanya, concretamente realizayao de toda sorte de trabalhos de construyao e manutenyao nos enclaves
urna mao de obra barata (Wolff, 1974: 93-94). brancos. Urna vez que nao havia meios de transporte mecanizados, nem de
trayao animal - inviável pela abundancia da mosca tsé-tsé -, rapidamente
Em pura teoria económica clássica, os nativos teriam que ter acorrido em f¡zeram dos nativos seu meio favorito de transporte, forc;:ando-os a trabalhar
bandos a competir pelos empregos assalariados que lhes ofereciam os brancos como carregadores levando daqui para lá os pertences dos funcionários, dos

74 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 75


subministras das cidades, as mercadorias dos comerciantes, as colheitas (Hammond, 1966: 325). Tao zelosos eram os funcionários portugueses no
mercantis, as armas, etc. A ferrovia e as rodovias, em especial, foram a forma recrutamento de trabalhadores, que até o bispo anglicano de Lebombo teve
de iniciac;ao ao trabalho ''a européia'' para muitas dezenas de milhares de que queixar-se, em 1906:
africanos, e para boa parte deles também a tumba (veja-se Wolff, 1974;
Isaacman, 1976; Hammond, 1966; Igbafe, 1979; Wiedner, 1962; Berg, 1977; As novas ferrovias [em Moc;ambique] estao sendo todas construídas
Dumont, 1969; Skinner, 1964). com trabalho forc;ado. Foi com este propósito que a policía veio buscar um
Mas a África subsaariana, embora fosse a mais visível, nao foi a única sede de nossos subdiáconos e o levou da igreja, nao faz muito, enquanto estava
do trabalho forc;ado. Foi também comum no norte muc;ulmano, por exemplo a dirigindo o servic;o (Hammond, 1966: 325).
prestation da Argélia francesa, pela qua! se obrigava os argelinos a trabalhar,
eles e seus camelos e bois, para os colonizadores, embora fosse comutável por E deu-se no exemplar e cristao Congo belga, onde se colocou meio milhao
dinheiro (Wickins, 1986: 'Jl). Nao estava ausente tampouco na Ásia: nas minas de adultos para extrair látex, continuando com isso práticas dos holandeses nas
e nas plantations de Tonkin, soba dominac;ao francesa (Dumont, 1969: 39), na Índias Orientais, reputadamente rentáveis (Gann e Duignan, 1979: 126,
Turquía sob os alemaes, para algumas tribos índias e nas plantac;óes do su! da 142).
Ásia em geral (Myrdal, 1968: 969, 971).
Voltando a África subsaariana, além dessas formas ''normais'' de extrair
trabalho forc;ado existiram outras tantas, mais ou menos pitorescas. Os A coer~iio indireta
convictos foram pos tos a trabalhar nas rodovias, etc., quase por nada (Berg,
1977: 170). Nas colonias portuguesas, em particular, a condena<;ii.o ou, Fica difícil distinguir o simples trabalho forc;ado dos impostos em trabalho,
simplesmente, a presun<;ii.o de haver cometido um delito, perrnitiram de forma impostos em trabalho comutáveis em dinheiro, ou impostos em dinheiro
abusiva obrigar os nativos a trabalhar (Isaacman, 1976: 84). Venderam-se os comutáveis por trabalho. As obrigac;oes dos povoados do Congo belga tinham
direitos sobre o trabalho dos nativos juntamente com os terrenos que a forma de impostos; viam-se no dever de entregar um certo número de
ocupavam: a Companhia Ac;:ucareira de Moc;ambique, por exemplo, tinha direito solda~os e de trabalhadores "livres", realizar transportes e extrair látex (Gann
de fazer trabalhar os habitantes das terras que comprava nas colonias e Duignan, 1979: 130). Em Moc;ambique, os impostos sobre os chefes eram
portuguesas (Hammond, 1966: 157). pagos como trabalho de seus escravos nas rodovias e plantac;óes (Hammond,
A moral colonialista aceitava sem melindres o trabalho forc;ado para tarefas 1966: 157, 159) - os escravos existiam de antemao, mas o trabalho a que os
de "interesse público" tais como a construc;ao de rodovias, pontes, ferrovias submetiam os europeus nao guardavam nenhuma relac;ao com a sua servidao
e edifícios administrativos, a intendencia militar ou o transporte de doméstica da qua! se !hes tirava. Em geral, houve impostos no trabalho nas
mantimentos aos centros coloniais; também para fms de estatuto mais colonias alemas, francesas e portuguesas (Wickins, 1986: 57). Por certo que o
discutível, tais como carregar os pertences dos funcionários, servir-lhes imposto no trabalho nao !hes livrou do pagamento de outros: assim, urna aldeia
pessoalmente ou construir suas residencias de descanso. Nao era bem visto, típica do Congo belga, formada por urnas quarenta pessoas, estava obrigada
em troca, a idéia de que se pudesse forc;ar os nativos a trabalhar para todos os anos a entregar quatro pessoas em tempo integral para servir o
empresas privadas ou particulares. Entretanto, este princípio era violado governo e outras dez para obras públicas ou para a coleta de látex e marfun,
constantemente, tanto nas colonias portuguesas, francesas e belgas quanto nas mas também tinha que entregar cinco ovelhas, cinqüenta galinhas, tres mil
mais escrupulosas colonias britanicas. No caso das colonias francesas, já libras de arroz, urnas trezentas libras de outros vegetais e cento e cinqüenta
aludimos a Argélia, mas pode-se também listar o Alto Volta, a Costa do libras de látex (Wiedner, 1962: 222).
Marfun, o Chad ou Tonkin (Berg, 1977: 170; Dumont, 1969: 38; Skinner, 1964: A primeira coisa que fizeram os ocupantes foi agravar os nativos com
158). Tal como se encarregou de esclarecer Jules Ferry: ''A Declarac;ao dos impostos em dinheiro, forc;ando-os a assalariar-se para conseguí-lo. Foi urna
Direitos do Homem nao foi feíta para os africanos" (Dumont, 1969: 37). Deu fórmula generalizada, com a excec;ao da Costa do Ouro (Berg, 1977: 166).
se, obviamente, nas colonias portuguesas, onde os nativos de Angola e Assim, por exemplo, em fmais do século passado, o imposto em Moc;ambique,
Moc;ambique que nao eram levados a empregar-se para os ingleses fora de o mussoco, estava fixado em 800 réis, o que obrigava os colonos (nome
suas terras eram forc;ados a trabalhar para os colonos brancos locais portugues para os habitantes nativos) a trabalhar durante duas semanas, a 400
(Isaacman, 1976: 86), quando nao submetidos ao chibalo, isto é, conscritos réis cada urna, para o governo ou o arrendatário das terras (Hammond, 1966:
para o trabalho para particulares e suscetíveis de serem alugados e realugados 157). Os que nao podiam pagar eram submetidos a trabalhos forc;ados, e a

76 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 77


coleta fiscal era com freqüencia urna ocasmo para que maltratassem os ticos, devem ser considerados como trabalhadores temporários... (De
homens, violassem suas mullieres e fllhas e lhes tirassem qualquer coisa que Briey, 1977: 200).
lhes apetecesse (Isaacman, 1976: 88). No Alto Volta francés, os morosos eram
diretamente expropriados (Skinner, 1964: 158). No Kenya e na Nyasalfuldia, os Antes as coisas tinham sido piores. No mesmo Kenya, em principios deste
que trabalhavam como assalariados para os europeus tinham que pagar apenas século, o período médio de trabalho desses trabalhadores era de um mes - de
a metade do imposto (Berg, 1977: 167). O imposto adquiriu muitas formas: em qualquer forma, sempre menos de dois (Wolff, 1974: 96). As mesmas queixas
clinheiro em trabalho ou em espécie; sendo em dinheiro, comutável por podiam ouvir-se na Africa do Sul (Schapera, 1967: 148) e, em geral, por toda
' .
trabalho ou nao; por cabec;:a, por choc;:a ou por povoado; comparativamente a África (Barber, 1961); e também nos países hoje chamados subdesenvolvidos
baixo e em troca de alguns servic;:os - mas nao muitos nem muito claros -, de outros continentes como América Latina (Frank, 1979) e Ásia (Moore, 1965:
como nos domínios britanicos, ou comparativamente alto e em troca de nada, 36).
como nos portugueses. Além de forc;:ar os nativos ao trabalho, foi urna forma No jargao económico, isto conduz ao que se chama a curva de oferta
de impedir a acumulac;:ao por sua parte. de trabalho de inclinac;:ao decrescente, isto é, ao fato de que, se aumen-
tam os salários, os trabalhadores abandonam antes seus empregos porque
Os espanhóis já haviam inventado e posto em prática, muito antes, o conseguem antes seus objetivos. Como diz o ditado, nao há mal que nao
procedimento dos tributos monetários para forc;:ar os índios ao trabalho na venha para bem, esta infeliz circunstancia tem também urna vantagem nao
América. As prestac;:oes em trabalho foram substituídas, com a passagem da desprezível para os empresários, pois, do ponto de vista económico, justi-
encomienda ao repartimiento, por impostas em clinheiro, mas os indígenas fica - ou, ao menos, assim acreditam alguns - os baixos salários como
só podiam obte-lo trabalhando para os espanhóis. A igreja colocou, entretanto, forma de reter os trabalhadores em seus postos em nome dá eficiencia e
seu graozinho de areia, ao cobrar, também em dinheiro, as taxas religiosas. da racionalidade económica gerais e apesar de sua irracionalidade indivi-
Alcaides e corregedores obrigavam-nos a comprar certas mercadorias, figura a dual.
que também se deu o nome de repartimiento (Semo, 1985: 221; Florescano, Nem as privac;:oes de urna economía camponesa sufocada, nem a pressao
1986: 108-ill), e tinham também que pagá-las em dinheiro. dos impostos em clinheiro, nem as qualidades fascinantes das mercadorias
ocidentais, pois, foram suficientes para que se constituíssem um mercado de
De forma que, mediante distintas formas de pressao extra-económica trabalho e urna oferta de mao de obra assalariada a medida das necessidades
tentou-se forc;:ar os africanos ao trabalho, essencialmente pelo procedimento dos capitais europeus, particularmente em termos de abundancia e
de criar-lhes novas necessidades e impedí-los de satisfaze-las - as novas e as rendimento. Em conseqüencia, e ainda que com a consigna de ''Trabalho
velhas - por meio de sua economía tradicional. Mas, mesmo assim, nada livre!" no cora<;:ao, os colonizadores, ávidos de mao de obra, tiveram que
transcorreu como os europeus pensavam; o contato com a economía monetária recorrer a diversas formas de compulsao a meio caminho entre o trabalho
nao estimulou as necessidades e apetites dos nativos nem, por conseguinte, forc;:ado ou a escravidao e o "trabalho livre".
seus desejos de trabalhar por um salário. Em realidade, o que apareceu foi o Em certo sentido, e por raz6es distintas, ninguém desejava o trabalho
que os anglo-sax6es chamam de target worker (trabalhador por ou com um forc;:ado. Os nativos por raz6es óbvias e os europeus porque preferiam que os
objetivo), isto é, o trabalhador que acorre ao trabalho em busca de algo, ob- africanos fizessem voluntariamente o que eles os forc;:avam a fazer
tém-no e vai embora. Ainda nos anos cinqüenta, afirmava um informe oficial obrigatoriamente. Freire de Andrade, pensando no Moc;:ambique de 1907,
com referencia ao Kenya: expressava claramente os escrúpulos morais - ou lingüísticos? - dos
colonizadores:
De um total de uns 350.000 trabalhadores masculinos e adultos
africanos empregados fora das reservas, calcula-se que mais da metade é Escravidao ou trabalho forc;:ado sao palavras que soam terríveis aos
do tipo migratório ou "por objetivos" (target); isto é, trata-se de ouvidos de nosso século, e talvez seja por isso que elas sao usadas para
trabalhadores que deixaram as reservas com um propósito específico - ameac;:ar os que desejam arrancar o homem negro do estado de ociosidade
por exemplo, conseguir dinheiro suficiente para pagar os impostas, que lhe é tao caro ... Eu nao desejo a escravidao sob nenhum forma ou
repor o guarda-roupa ou adquirir urna esposa... e voltar as reservas aspecto, mas desejo sim o dever de trabalhar, imposto pela grande lei da
urna vez conseguido esse propósito. Muitos deles nao passam nenhum natureza que está incorporada em nossos estatutos, e nao creio que o
ano mais de seis meses fora das reservas e, para todos os efeitos prá- negro deva dela escapar através da benevolencia da lei e através da prática

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dessa verdadeira escravidao que imp6e sobre a mulher (citado por guarda nacional, a todos aqueles arrendadores que se empregarem de
Hammond, 1966: 324-325). forma efetiva no cultivo dos principais géneros de exportac;ao: café,
algo da o e ac;úcar (Lamounier, 1988: 82).
Sem necessidade de se chegar a esses emocionados arroubos de
feminismo, os colonizadores, especialmente os britanicos, inclinavam-se por Esta foi a func;ao principal do recrutamento militar forc;ado, a de preencher
formas mais indiretas de incitac;ao ou compulsao ao trabalho, antes que pelo as vagas nas plantac;6es e nas fábricas, e nao no exército, tal como se
trabalho diretamente forc;ado. Em parte porque correspondiam melhor a moral reconhecia as claras na correspondencia interna oficial (Gonzáles Arroyo, 1982:
da época, mas sobretudo, porque a compulsao nao se mostrava muito eficaz. 67). O mecanismo funcionou tao bem que muitos fazendeiros conseguiram
Os exércitos foram outro poderoso meio de coerc;ao indireta. Vale a pena assim, nao já trabalho assalariado, mas sim trabalho gratuito (Lamounier, 1988:
deter-se um momento em assinalar seu especial significado na modernizac;ao 83; Gonzáles Arroyo, 1982: 68).
forc;ada das populac;6es africanas e americanas, sobretudo as primeiras. O exército desempenhou, além disso, urna func;ao disciplinar direta. Como
Certamente sua func;ao mais elementar foi expulsá-las de suas terras e escrevia urna testemunha argentina de princípios do século XIX:
reprimir qualquer resistencia. Mas a expulsao de suas terras nao tinha apenas
o frrn de as deixar livres para os colonizadores europeus, mas também, com Os alcaides ( ... ), ou magistrados de vila, sao solicitados para prender
freqüencia, o de nao os deixar manter-se numa economia fechada de todos os vagabundos que nao tem meios de vida e os enviam aos quartéis
subsistencia e de obrigá-los a submeter-se total ou parcialmente ao trabalho onde se os tratam rudemente até domá-los (Rodríguez Molas, 1982: 130,
assalariado. e também 149).
Na Argentina, a chamada ''conquista do deserto'', que nao o era tanto,
consistiu em grande parte, quando nao em seu simples extermínio, no No Alto Volta, o recrutamento do Ministério da Guerra francés alcanc;ava
deslocamento macic;o dos índios para fora de suas zonas naturais para sub- urnas 45.000 pessoas por ano (Skinner, 1964: 162). E m ocasi6es como esta, a
mete-los ao trabalho assalariado ou, mais rudemente, a escravidao. Assim, os tradic;ao guerreira dos mossi fazia com que fosse mais fácil recrutá-los para o
pampas foram enviados a Tucumán entre 1879 e 1985, os matacos a Orán em exército que para o trabalho assalariado; urna vez recrutados, eles eram
1859, etc. A campanha do Chaco, em 1884, teve como glorioso resultado o de enviados a trabalhar nas obras públicas ou nas empresas privadas da Costa do
incorporar a produc;ao ''20.000 brac;os viris que se encontravam inúteis'' (lñigo Marfrrn. Foram abrigados a trabalhar como assalariados em obras civis
Carrera, s.d.: 33). milhares e milhares de nativos que, voluntariamente ou a forc;a, se tinham
Em toda a pampa e outras zonas da Argentina, a ameac;a de recrutamento convertido em soldados, tal como aconteceu nas ferrovias do Congo Belga e,
forc;ado e do envio a linha de frente esteve suspensa por muito tempo sobre as em geral, nas colonias francesas (a chamada deuxieme portian) (Skinner,
cabec;as de todos aqueles que nao fossem honrados ''lavradores'' ou 1964: 175; Wickins, 1986: 58). Ao contrário, em outras ocasi6es, quando as
"criadores de gado", isto é, fazendeiros, ou nao pudessem demonstrar estar necessidades eram de outro tipo, voluntários recrutados para um emprego
trabalhando para eles mediante a caderneta de conchavo; urna ameac;a de que particular eram detidos, transportados a centros militares e alistados a forc;a,
dá bom testemunho Martín Fierro, e que serviu para terminar com a figura do como em Moc;ambique. O governador de Tete reconhecia num relatório de
gaucho independente. No Brasil, o mesmo expediente foi utilizado contra os 1908 que a principal causa de emigrac;ao era o medo de servir o exército
caipiras renitentes ao trabalho assalariado. Para reforc;ar a eficácia da Lei de (lsaacman, 1976: 85). Entre 1892 e 1914 passaram 66.000 homens pelas flleiras
Arrendamento de Servic;os - isto é, de contratos de trabalho - de 1879, o da Force Publique do Congo Belga. Aí foram acostumados a pontualidade, a
deputado Barreto nao duvidava de que o exército seria de grande ajuda: ordem, a estarem permanentemente ocupados e a nao questionarem nada,
adquirindo, na verdade, as virtudes do assalariado dócil. Pelo visto, os
Como nossa popula<;ao livre ainda nao se acha habituada aos assíduos resultados eram esplendidos:
trabalhos agrícolas, como seria desejado, entendo que nao basta regular
os direitos e deveres de arrendatários e arrendadores; é também Durante horas, os recrutas permaneceram em destacamentos sem
indispensável que criemos algum incentivo poderoso para o trabalho; um fazer outra coisa que levantar alternadamente sua mao direita e sua mao
incentivo que nos garanta a estabilidade dos servic;os que hoje nao esquerda, seguindo os gritos estridentes Droit! e Gauche! Em poucos
podemos conseguir. (. .. ) Com vistas a tal incentivo, ocorreu-me eximir do dias produz-se urna extraordinária mudanc;a mesmo nos mais primitivos
recrutamento para a marinha e para o exército, assim como do servic;o na destes recrutas. Parecem adquirir a arte de converterem a si mesmos em

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autómatas, e antes que termine o treinamento de seis meses já podem tentativa. Aquí se seguiu, urna vez mais, a seqüencia habitual: primeiro foi
realizar as mais complicadas evoluc;óes e mover-se em grandes formac;óes necessária a forc;a, depois bastou sua evocac;ao.
com urna precisao e urna uniformidade com as quais nao poderia competir Os chefes locais jogaram com freqüencia um papel nao menos lamentável.
nenhuma tropa européia (... ) (Mountmorres, citado por Gann e Duignan, Impostas pelas potencias coloniais com freqüencia contra os desejos dos
1979: 80). habitantes, apoiados na forc;a de sua superioridade militar, livres dos
tradicionais vínculos de reciprocidade e comunidade que haviam limitado 0
poder e as ac;oes de seus predecessores e com pressa por fazer fortuna,
As formas de transi~íio a o trabalho li vre apoiando-se em urna posic;ao que podiam perder tao rapidamente como a
haviam conquistado, foram muitas vezes, em seu zelo servil, mais longe que as
A escravidao foi abandonada, por sua escassa rentabilidade e sob a autoridades ocupantes. Colaboraram no recrutamento de trabalho assalariado
pressao da opiniao liberal, antes de que se tivessem assegurado as condic;oes para empregadores públicos e privados e puseram seu graozinho de areia,
para o surgimento de um ''mercado de trabalho livre'' suficientemente fazendo degenerar, pelo abuso, a velha tradi<;ao dos trabalhos comunais para os
desenvolvido para fornecer aos empresários urna mao de obra abundante, chefes. Nao era raro que se apropriassem de urna parte do salário de seus
barata, eficaz e dócil. Na América, onde a disponibilidade inicial de terras - súditos, geralmente um terc;o (Igbafe, 1979: 134). Urna magnífica descric;ao do
para os brancos e a custa dos índios - e a voca<;ao de proprietários dos papel ambíguo e contraditório dos chefes locais em outro contexto, o do Peru
imigrantes europeus tornava extremamente difícil sua sujeic;ao ao trabalho no comec;o da segunda metade deste século, é a oferecida por Manuel Scorza
assalariado e os índios tampouco ofereciam urna alternativa plausível, rentável nas cinco novelas que compóem o ciclo A Guerra Silenciosa.
e eficaz, foram os negros africanos, arrancados a for<;a de seu local de origem Finalmente, os agentes de recrutamento desenvolveram todo tipo de
e facilmente distingüíveis dos livres por sua cor, os que forneceram a mao de práticas limítrofes na ca<;a de escravos. Com freqüencia forc;aram pura e
obra cativa das plantac;óes, tanto na América do Norte, quanto no Caribe_ou no simplesmente os nativos a aceitar o trabalho mediante a violencia, por si
Brasil e, em menor medida, nas colonias espanholas do continente. Na Africa, mesmos ou com o apoio ativo dos funcionários coloniais. Em outros casos, o
onde os negros estavam em seu meio natural e histórico e a colonizac;ao agente de recrutamento era o comerciante e combinava habilmente as duas
económica foi tardía, nunca se converteu na forma dominante de trabalho. func;oes: iludía o nativo com produtos que excitavam sua imaginac;ao, vendía-o
Tanto a impossível escravidao generalizada na África como o vazio deixado pela a crédito e fazia-o cair em dívidas leoninas, cujas dimens6es, sem nenhuma
aboli<;ao na América foram cobertos com o recurso a formas contratuais experiencia no cálculo monetário, era incapaz de avaliar; urna vez que estivesse
situadas em diversos pontos intermediários entre o trabalho forc;ado e o envolvido pelas dívidas, dava-lhe a oportunidade de optar entre aceitar o
trabalho assalariado livre. trabalho assalariado para pagá-las ou perder sua liberdade, suas terras, ou
Aqui jogam um papel essencial tres figuras que dominaram a cena colonial ambas (Berg, 1977: 66). Esta fórmula era também habitual nos Andes; por
africana - e também, em menor medida, a asiática e a latino-americana - exemplo, no Peru, onde o contrato de longa durac;ao recebia o nome de
durante muito tempo: o funcionário colonial, que primeiro foi militar, depois enganche, sendo na realidade
civil e, fmalmente, natural do país; o chefe local, geralmente imposto ou
comprado pelas autoridades ocupantes; e o agente de recrutamento, um acordo múltiplo que estabelecia um indivíduo denominado
trabalhando por conta própria ou alheia e as vezes também comerciante. Os enganchador como capitalista, por um lado, e o trabalhador, pelo outro,
funcionários coloniais desempenharam com freqüencia um papel abertamente sem que existisse urna real rela<;ao salarial entre o capitalista (fazendeiro)
compulsivo, forc;ando o recrutamento dos nativos mediante maus tratos físicos, e o trabalhador indígena imigrante. (... ) O enganchador era aquele que
detenc;óes, acorrentamentos, intimidac;ao, etc., como no caso de Moc;ambique ia as províncias vizinhas a serra, instalava um pequeno tambo, fazia
(Isaacman, 1976: 84) ou do Congo Belga, ou como num caso mais discreto, o propaganda de seus produtos e comec;ava a entregar aos indígenas
dos "apóstolos do trabalho", no mesmo Congo Belga (Gann e Duignan, 1979: mercadorias a crédito e ocasionalmente dinheiro, sob a prévia assinatura
75, 202) ou no Kenia (Wickins, 1986: 117; Wolff, 1974: 102, 122-3). Entretanto, de um documento. Criada a dívida, o enganchador exigia seu pagamento.
se se considera que os funcionários coloniais reuniam a autoridade militar, Raros eram os que conseguiam faze-lo, pois a maioria nao tinha dinheiro.
policial, judicial e fiscal, compreender-se-á em seguida que seus desejos eram Assim o enganchador, utilizando estas e outras modalidades, conseguía
ordens para os nativos e, suas sugestoes e estímulos, por conseguinte, muito recolher trabalhadores para os vales vizinhos (Burga, 1976: 242-3).
difíceis de serem distinguidos da compulsao, se alguma vez fizeram esta

82 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 83


Esta modalidade durou no Peru até o primeiro ten;o do século XX. Em origem. Em primeiro lugar, porque com freqüencia nao coincidiam a demanda
outros momentos e lugares, os agentes haviam chegado a ser personagens e a oferta abundantes de mao de obra. Em segundo lugar, e sobretudo, porque
quase todo poderosos, como os qomastas indianos, agentes locais da a totalidade dos empregadores e das administra¡;:6es coloniais logo se deu conta
tristemente célebre Companhia das Indias Orientais (Mukherjee, 1974). de que a for¡;:a de trabalho era muito mais facilmente controlável, submetível e
Entretanto, nao bastava recrutar: era necessário também manter os disciplinável se fosse transferida para o local mais distante possível da terra em
trabalhadores assim que estes descobrissem que as condü;6es de trabalho que havia nascido.
eram piores que tudo o que haviam imaginado. Isto era bastante difícil ali onde
existía a possibilidade de abandonar o emprego e voltar ao cultivo da terra, a Os trabalhadores africanos de fora do território sao descritos com
economía doméstica. A situa<;:ao era radicalmente diferente, em troca, quando freqüencia como mais confiáveis, mais dispostos a disciplina e menos
os trabalhadores eram desenraizados de seus lugares de origem e levados inclinados ao absenteísmo que seus homólogos da Rodésia do Sul. Podem-
longe o bastante para que o retorno nao fosse possível, nem a fuga viável. Esta -se observar fenómenos similares em todos os territórios da África
fórmula podía ser complementada com o estabelecimento de formas diversas Central. Mesmo na Nyasalandia, o maior exportador de mao de obra [da
de trabalho dependente. Entre os dois pólos, representados pela escravidao ou zona], os empregadores tem dependido dos trabalhadores estrangeiros
a servidao e o trabalho livre, floresciam diversas figuras de contratos de longa para certos tipos de trabalho.
dura<;:ao para nativos e trabalhadores importados, com cláusulas penais para os (... ) Quando está separado geograficamente de seu entorno
trabalhadores que os rompessem: peonagem, contratos de enganche, tradicional, o africano aceita tarefas que rejeitaria se estivesse mais
indentured labour, indentured servants, contratos de aprendizagem, próximo de seu lar (Barber, 1961: 211, 212).
trabalhadores engagés, etc.
Contratos desse tipo desenvolveram-se praticamente por todas as O recrutamento organizado incluía outra recomendayao: os trabalhadores,
colonias. Suas ví~mas foram sobretudo os naturais de diversos lugares, quando sao levados para longe de seus lugares de origem, aceitam melhor a
for¡;:ados por urna via ou outra a aceitá-los, camponeses arruinados que nao disciplina.
encontravam melhor forma de comer, pela pressao demográfica e pela (. .. ) Os trabalhadores estrangeiros, isolados em um contexto que nao lhes
escassez de terras disponíveis, ou que deviam fazer frente a dívidas que nao era familiar, eram mais dóceis, mais facilmente organizáveis para um trabalho
podiam pagar e, em alguns casos, imigrantes que ganhavam dessa forma a eficaz, e se comprometiam de forma mais permanente (Myrdal, 1968: 970, 971).
passagem a urna suposta terra de promissao. Nao se submeteram a eles
apenas povos nao brancos, mas também grande número de europeus que Assim se organizou um tráfico internacional de trabalhadores, a forc;:a ou
emigravam dessa forma as colonias da América do Norte (Galenson, 1981; com base em urna conformidade associada ao aliciamento, cuja quantidade
Klein, 1971.: 169 ss.) ou ao Brasil (Wolf, 1982: 373), fudios sul-americanos que poderla ser comparada com as da escravidao ou das migrac;:oes voluntárias dos
iam trabalhar nas minas- por exemplo, o caso peruano- (Moore, 1965: 62), últimos séculos. Milhares de ibos nigerianos e de mo¡;:ambicanos foram
etc. Além de oferecer mao de obra barata e estável, aliviavam enormemente, levados as planta<;:6es de colonias insulares francesas como Mayotte, Nossibé,
do ponto de vista dos empregadores, os custos de forma<;:ao dos trabalhadores Bourbon ou Réunion (Hammond, 1966: 317; Isaacman, 1976: 83). Os mossi do
assalariados. Na verdade, a pouca disposi<;:ao dos africanos, americanos nativos Alto Volta foram transferidos em massa a Costa do Marfrrn (Skinner, 1964: 161;
e outros povos a permanecer nos empregos assalariados fazia, por um lado, Hammond, 1960: ill). Angolanos e mo¡;:ambicanos foram praticamente a fonte
com que os empregadores se vissem constantemente obrigados a formar de for<;:a de trabalho de Santo Tomé e Prfucipe, juntamente com os kroomen
trabalhadores novos, por breve que fosse esta forma<;:ao; por outro, os próprios e outros africanos ocidentais, e os mo¡;:ambicanos urna importante parte dela
trabalhadores, quando voltavam a seus empregos ou a outros similares, após na Rodésia e no Transvaal (Isaacman, 1976: 84; Hammond, 1966: 312-8). Da
muito tempo fora deles, podiam ser considerados, para todos os efeitos, como Nyasalandia foram exportados trabalhadores para a Rodésia do Norte e do Sul
gente sem experiencia. Se se prescinde da linguagem eufemística da (Barber, 1961: 210).
"forma<;:ao", da "qualificayao", da "experiencia", etc., e se se pensa que eles Mas seguramente nenhum povo forneceu tanta mao de obra ''livre''
também perdiam os bons costumes, ou seja, a disposic;:ao a trabalhar de forma quanto os indianos e os chineses. Os indianos foram parar nas planta¡;:oes de
continuada, intensa e regular, ter-se-á urna idéia mais exata do problema. cana das ilhas Fiji e de Natal, na África do Sul, Ceilao, Guiana Britanica,
Entretanto, os contratos de longa durac;:ao raramente deixavam de estar Jamaica, Trinidad, Butao, Birmania, Kenia, Uganda, no Peru, além de serem
associados a exporta¡;:ao de mao de obra para pontos distantes de seu lugar de enviados de um lado a outro de seu imenso país (Wolf, 1982, e Myrdal, 1968,

84 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 85


passim). Os chineses as Filipinas, Malásia, Califórnia, ao Congo Francés - aos trabalhos industriais. Baseadas na coleta e no processamento rápidos e
onde se encontram com os cubanos -, ao Rand sul-africano, as Antilhas, ao sistemáticos de grandes colheitas e no emprego de urna mao de obra
Peru, etc. (Wolf, 1982; Wickins, 1986; Bradby, 1980; Cardoso e Pérez Brignoli, numerosa, exigiam e aplicavam urna estrita disciplina na organizac;ao do
1987: II, 27). trabalho. As plantac;oes foram o lugar ''no qual se ensinaram a populac;ao local
Falta explicar em que condi<;oes se realizavam esses contratos. Com as destrezas e os hábitos do trabalho metódico" (Karmack, 1967: 121 e ss.).
freqüencia os trabalhadores eram forc;ados a aceitá-los por diversos meios Tanto as obras públicas quanto as plantac;6es reuniam, além disso, a vantagem
compulsivos. Com mais freqüencia do que nao, eram ludibriados sobre as adicional de serem atividades ao ar livre - como a construc;ao, em geral, hoje
condic;6es dos mesmos ou se abusava deles, tirando-se proveito de seu em dia -, o que parece facilitar a passagem do trabalho agrícola ao de fábrica.
desconhecimento dos níveis salaríais fora de seu território. Sua ignorancia dos Urna variante do mesmo foi o colonato, dirigido especialmente aos
costumes, do território e do idioma convertiam-nos em vítimas propiciatórias imigrantes europeus. O Brasil, dedicado quase inteiramente a cultivos de
de toda classe de excessos. Quanto mais longe de seu lugar de origem eram exportac;ao, principalmente o café, foi o último grande país a abolir a escravidao,
levados, mais arbitrário era o poder que podiam exercer sobre eles os pela Leido Ventre Livre, de 1971, para os novos nascidos, a de 1885, para os
empregadores e os agentes de recrutramento. Os salários que recebiam sexagenários e a de 1888, com caráter geral, e mesmo assim de forma gradual e
desvaneciam-se no pagamento do crédito nos armazéns da empresa e de com todo tipo de cláusulas que colocavam os libertos sob o controle de seus
multas impostas por qualquer outro motivo, etc., e o reembolso da dívida inicial antigos amos ou das autoridades policiais, como flill de obrigá-los a engajarem-se
convertia-se em um objetivo cada vez mais distante. A repatriac;ao a seus num contrato. Nesse momento, o caipira ou ''elemento nacional'' era
lugares de origem, quando era solicitada, encontrava toda sorte de obstáculos considerado incapaz de moldar-se ao trabalho regular da plantac;ao ou da fábrica
ou, simpleBmente, nao chegava nunca. Veja-se o que dizia urna testemunha (Kowarick, 1987; Candido, 1987; Gnacarini, 1980). A soluc;ao adotada pelos
sobre os coolies chineses no Peru, no último quarto do século passado: fazendeiros de Sao Paulo, Minas Gerais e outros estados de rápido crescimento
económico foi a importac;ao macic;a de ''colonos'' europeus. Frente ao caipira, a
O negro era escravo para toda a sua vida, ele e toda sua descendencia; meio caminho entre a economia de subsistencia e os poros da sociedade
o coolie nao o é senao por um tempo determinado. Mas esta vantagem é escravista, o colono apresentava a vantagem de vir já expropriado de seus meios
contrabalanc;ada por um fato inegável: o novo sistema suprime a única de produc;ao e socializado para o trabalho regular e intenso. Além disso, imbuído
garantia que possuíam contra a crueldade dos amos e o abuso de sua da idéia de ''fazer as Américas'', chegava disposto a aceitar os trabalhos mais
autoridade. Esta garantia era o interesse em prolongar as instancias úteis, duros sempre que se lhe oferecesse a perspectiva, que ao flill e ao cabo poderla
em nao debilitar pelo excesso de trabalho as constituic;oes (carpos) que tomar-se ilusória, de acedera propriedade.
reproduziam um capital considerável. Este cálculo, provavelmente odioso, O colono via-se atado pela dívida que supunha o fmanciamento de sua
era lógico e constituía urna garantia em favor da rac;a negra. Com os viagem e o adiantamento de dinheiro ou géneros de subsistencia até a primeira
coolies, esta garantia desaparece: que o chinés resista a tarefa durante colheita, gastos que primeiro ficaram a cargo dos fazendeiros e posteriormente
oito anos, isso é tudo o que demanda o interesse, e que esses oito anos do Estado. Chegado ao Brasil, era enviado diretamente a urna planta<;ao ou a
se prolonguem para além de seu limite legal. Tenta-se conseguir isso urna fábrica, fundamentalmente a primeira. Nas plantac;6es se lhe ofereciam
através de fantásticas contas de ferramentas quebradas, roupas gastas, diversas fórmulas que combinavam o trabalho no cultivo do café ou outros
etc.; eis aí a principal preocupac;ao daquele que compra e emprega o produtos de exportac;ao, de qualquer forma e sempre para o fazendeiro, com
coolie (. .. ) (Charles Wiener, 1880, citado por Burga, 1976: 236-7). diversas formas de pagamento (em espécie ou em dinheiro, de acordo com a
colheita ou proporcional) e de economia de subsistencia (quintal próprio,
Grande parte desses trabalhadores eram contratados para grandes obras possibilidade de plantar milho entre as fileiras de pés de café, etc.). A durac;ao
públicas ou para as plantac;oes. Tanto urnas quanto as outras se prestavam dos contratos era em princípio indefmida, e seu cumprimento pelos colonos era
especialmente para a ''iniciac;ao'' dos nao europeus ao trabalho assalariado. As assegurado com a ameac;a de sanc;oes penais, mas os protestos do consulado
obras públicas tinham seu cenário em lugares afastados dos povoados e italiano e, sobretudo, o risco de ver cortada a fonte de mao de obra, levaram
levavam atrás de si os barracoes de seus trabalhadores, aumentando assim seu a determinar um máximo para a durac;ao dos contratos e a suavizar as cláusulas
desenraizamento e dificultando o abandono. As plantac;oes eram unidades em penais. De qualquer forma, como o colono nao conseguia dinheiro suficiente
boa medida autosuficientes, também afastadas dos núcleos de povoamento e, para aceder a propriedade, via-se abrigado a firmar contrato urna e outra vez
sendo trabalhos agrícolas, assemelhavam-se enormemente em suas condic;oes na mesma ou em outra fazenda.

86 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 87


O que se buscava nao era um trabalhador qualificado, nem na agricultura,
nem na indústria, pois o cultivo dos cafezais estava isento de qualquer "civilizac;:a_o", um caminho alternativo teria sido o de favorecer 0
complexidade e as tarefas industriais que se lhes atribuíam também (Gonzáles desenvolVlillento de urna agricultura comercial independente. Na realidade os
Arroyo, 1982: 89, 94-5). Assim, os italianos eram preferidos aos espanhóis e nativos respondiam com muito mais boa vontade a esta possibilidade que ~ de
portugueses, e os do Norte aos napolitanos, por sua maior disposic;:ao a converter-se pronta e simplesmente em assalariados, apesar de sua de
submeter-se a disciplina de trabalho (Arroyo, 87-8); e, se no início se achou qualquer forma, escassa inclina<;:ao ao consumo para além das necessid~des
que era mais barato importar trabalhadores solteiros, logo se compreendeu básicas e de uns poucos elementos suntuários ou rituais, e ao trabalho
que seria mais fácil manter sujeitos os casados, presos pelas responsabilidades continuado. Entretanto, os europeus queriam sobretudo mao de obra barata.
familiares (!bid.: 96). Embora frente ao público internacional se insistisse no Apenas porque a queriam excepcionalmente barata nao passaram
termo ''colono'' e se exaltasse a perspectiva de pronto acesso a propriedade, simplesmente a expulsar os africanos de suas terras. Fizeram com que fossem
os documentos oficiais eram mais francos ao referir-se a ''importa<;:ao' ', bastante pobres para que tivessem que correr a empregos assalariados tao
"sele<;:ao", "escolha" ou "atra<;:ao de trabalhadores" (Ibid.: 84). Nao faltou logo se lhes oferecesse a possibilidade, mas nao tanto que nao pudessem
urna tentativa de substituir os colonos europeus por coolies chineses, em atender com suas atividades de subsistencia a reproduc;:ao da for<;:a de trabalho,
condi<;:oes contratuais muito piores, mas ela se viu frustrada pela oposi<;:ao isto é, criar e alimentar as crianyas, manteras mullieres e cuidar dos ancioes.
O desenvolvimento de urna agricultura indígena teria exigido a aquisic;:ao de
internacional e do govemo chinés (Lamounier, 1988).
Vale a pena deter-se também no caso da peonagem baseada em dívidas, algumas ferramentas que os nativos nao tinham dinheiro para comprar, ou
que foi urna fórmula generalizada, por exemplo, no México, durante todo o mecanismos de fmanciamento que, obviamente, nao lhes foram oferecidos. Havia
século XIX. Os peoes recebiam urna pequena parcela (o pejugal) e urna necessidade de transportes, mas estes foram ·construídos exclusivamente na
moradia (a casilla) na fazenda, assim como adiantamentos em espécie e, medida das necessidades dos colonos europeus. Havia necessidade de liberdade
subsidiariamente, em dinheiro (na venda vizinha). Em troca, estavam de mercado, mas se proibiu aos nativos cultivar alguns produtos e se lhes obrigou
abrigados a trabalhar cinco ou seis dias por semana para o fazendeiro. Ao final a plantar outros (Berg, 1977: 167-8). Limitou-se seu direito a comerciar
do ano subtraía-se o adiantado do salário global e se transferia a dívida restante livremente, por exemplo no Congo e no Kenia (Gann e Duigna, 1979: 124; Wolff,
para o ano seguinte (Leal e Huacujo Roundtree, 1984: 98 e ss.). Por este 1974: 140 e ss.), ou se lhes impediu fazer chegar seus produtos as áreas européias
procedimento, o peao ficava permanentemente endividado com o fazendeiro, (Barber, 1961: 26). Proibiu-se o comércio itinerante que ia até o interior
~o~erciar com os nativos e expulsaram-se seus principais protagonistas, os
configurando-se assim urna rela<;:ao por toda vida e herdada através de
gera<;:oes. Embora esta fórmula se generalizasse para explora<;:oes agrícolas mdmnos, por exemplo, em Mo<;:ambique (Isaacman, 1976: 88; Hammond, 1966:
nas quais o ritmo do trabalho era muito intenso, ela foi empregada inicialmente 88, 160). Utilizou-se o monopólio da demanda em maos dos brancos para impor
nas constru<;:oes, nas quais índios naborias (antigos escravos ou seus filhos), pre<;:os artificialmente baixos - inferiores aos que pagavam aos cultivadores
geralmente peoes por dívidas, prisioneiros e escravos negros ou mulatos, europeus - ao milho africano, ou para excluir seu fumo, por exemplo, na Rodésia
e na Nyasalandia (Berg, 1977: 167-8; Barber, 1961: 26-7). Impediu-se-lhes de
constituíam já no século XVII o grosso da for<;:a de trabalho.
comprar terras fora de suas reservas e se lhes confmou a extens6es limitadas
ignorando - ou melhor dito, buscando - as pressoes demográficas e for<;:an~
A supressíio das oportunidades alternativas de vida do-os assim a urna explorac;:ao intensiva (mas com técnicas extensivas
tradicionais) e depredadora de suas terras (Barber, 1961: 174; Butler, Rotberg e
Um instrumento complementar foi a ampla parafernália de obstáculos Adams, 1977: 10-1, 122). E nada se fez, naturalmente, para facilitar sua passagem
postos ao desenvolvimento de atividades económicas autosuficientes ou das técnicas extensivas - inviáveis a partir de urna certa densidade demográfica
distintas do trabalho assalariado por parte dos povos colonizados, inclusive ao - de aproveitamento da terra a técnicas intensivas, capazes de um
nível de subsistencia. Para os colonizadores, tudo o que nao significasse ver a aproveitamento eficaz e equilibrado do meio natural.
populac;:ao nativa convertida em mao de obra barata era indesejável, e isto Algo parecido ocorreu nas colonias da América. Nas Antilhas, como sob os
h?landeses na Indonésia, a popula<;:ao foi simplesmente varrida, aniquilada ou
incluía desde o desenvolvimento de urna economía comercial própria até a
diretamente submetida ao trabalho for<;:ado enquanto durou. Nas grandes
vagabundagem, passando pelas atividades de subsistencia.
extens6es do continente, os índios tiveram que ser arrancados de seu hábitat
Se a ''missao'' do homem branco na África tivesse consistido tao-somente
em estimular o comércio em favor das metrópoles e/ou em estender a e os europeus privados da possibilidade de aceder as terras livres. Como já se
disse, as redu<;:6es de índios, ao romper o ecosistema baseado na dispersao da
88 Mariano Fernández Enguita
A Face Oculta da EscoJa 89
popula<;ao, fon;avam os ínclios das colonias espanholas a buscar recursos . Como a profusao de terras em ~de quantidade tem contribuído,
adicionais fora da economia de subsistencia. Na cultura dos ínclios, por outro maiS que ~enhurna outra ca_usa, para a dificuldade que hoje se sente pa-
ra consegurr trabalhadores livres, é seu parecer que, de agora em diante
lado, nao entrava a idéia de explorar a terra para além do necessário para a
as terras sejam vendidas sem exce<;ao alguma. Aumentando assim 0 valo;
satisfac;ao de suas necessidades, negativa esplendidamente ilustrada pelas
das terras e d~c~ltando-se, em conseqüencia, sua aquisic;ao, é de se
guerras contra os plantadores relatadas por Miguel Angel Asturias em
esperar que o lllligrante pobre alugue seu trabalho e o fac;a realmente
Hombres de Maíz. Quanto as tribos cac;adoras e coletadoras, foram
po~ algum tempo, antes de obter meios para converter-se em proprietário
simplesmente empurradas para territórios cada vez mais reduzidos nos quais
(Luna, 1954: 82).
seu velho sistema de vida haveria de se tornar inviável. Esta foi a sorte,
combinada com o simples extermínio, dos ínclios da América do Norte, das
Igualmente se aplicou a todos a JJdialernália de medidas de repressao da
selvas amazónicas - a edificante empresa continua ainda hoje nesta zona - e
"vagabundagem", isto é, da autoexclusao do trabalho assalariado mediante 0
do sul argentino. Em 1859, por exemplo, o exército argentino fez urna primeira
recurso a economia de subsistencia. O Manual para os juízes de paz de
tentativa de arrancar os matacos do Rio Bermejo de suas formas de vida
tradicionais, colhendo um fracasso temporário, tal como o relatava o chefe da
campanha, na Argentina de 1825, rezava:
fronteira Norte de Salta:
Outro mal de grave transcendencia adverte o governo existir na
campanha. Tal é o mal que causam alguns homens que sob o pretexto de
A tentativa terminou falida, apesar dessas promessas [de entregar-lhes
terras e obrigar os ''viiinhos' ', os fazendeiros brancos, a pagar-lhes
povoadores ou lavradores e sem ter mais fortuna que urna choc;a,
permanecem em alguns terrenos baldios ou de propriedade particular
salários, quando os empregassem]; os índios se obstinaram, como se
sob a denomina<;ao de arrimados, sem trabalhar, ou sem render todo o
obstinam sempre, a nao abandonar seus campos de cac;a e as costas dos
produto que necessitam para seu sustento e o de suas familias (Citado
ríos para a pesca, apesar de viver a1i na pior condic;ao, pois, como eu disse
por Rodríguez Molas, 1982: 150).
antes, os donos dos terrenos exerciam as maiores arbitrariedades, como
a de castigá-los, matá-los e repartir suas familias, apesar de tudo, vivendo
O expediente de perseguir os vagabundos, estigmatizando soba mesrna cate-
precariamente da cac;a e da pesca, apesar disso, digo, os ínclios resistiram,
goria desde os mendigos até todos os que, negando-se a converter-se em traba-
muitos se afastaram, outros fugiram para seus refúgios, que nao distam
lhadores assalariados, mantinham-se na economia de subsistencia, apoiando-se
mais que dez ou vinte léguas de Orán, e nao foi possível repetir a tentativa,
em trabalhos remunerados ocasionais e precários, foi eficazmente importado da
pois careciamos de recursos (. .. ) (Inigo Carrera, s/d: 29).
Europa para as colonias. Já em 1790, os ''lavradores'' - isto é, os fazendeiros-
argentinos solicitavam ao Cabildo de Buenos Aires que lhes autorizasse a formar
Esta sorte nao estava reservada tao-somente aos ínclios ou a quaisquer
um corpo policial para !impar o território próprio e o alheio,
outros nativos, mas, de forma geral, a todo aquele que, de urna maneira ou
outra, tratasse de subsistir a margem dos circuitos estabelecidos, isto é, a
poi~ estreitados os criadores com os vínculos de urna bem regalada
margem do trabalho assalariado ou da grande propriedade. O acesso fácil a
soCiedade, e alentados com seu próprio interesse, agiráo de forma
pequena propriedade era o obstáculo mais evidente no caso dos imigrantes
a purgar os campos de tudo o que lhes incomode, fazendo que os
europeus. Em consonancia com isso, no Brasil, onde por um lado tinha-se que
vagan~es espanhóis se apliquem ao trabalho ou se destinem as novas po-
recorrer a importac;ao de colonos, mas por outro devia-se evitar que
pulac;oe;; e_. .. ) e _que os negros e mulatos vivam precisamente agregados
abandonassem rapidamente as fazendas, urna lei de 1850 cortou todas as vias
aos propnos cnadores, para que estes possam vigiar sua conduta e
de acesso a propriedade fundiária que nao fossem as da compra. A partir dela,
acelerar seus trabalhos com este auxilio (... ) (!bid.: 88).
reverteram ao Estado todas as terras sobre as quais nao existisse um direito
de propriedade legalmente reconhecido e sancionado anteriormente, entre
, Em volta dessa mesma data, o alcaide de Coronda, província de Santa
elas todas aquelas das quais os caipiras haviam tomado posse pelo
Fe, ?aseando-se em um auto de "bom governo" que ordena desalojar as
procedimento antes aceito da ocupac;ao. Ao mesmo te'mpo, o caminho ficava
fa~as de povoadores ''de seus ranchos e quintais' ', incendeia o povoado com
fechado de antemao para os colonos imigrantes (Gonzalez Arroyo, 1982: 229;
a aJuda da soldadesca. Com o apoio do padre da regiao, os prejudicados cor-
Souza, 1986: 122; Gnacarini, 1980: 34; Kowarick, 1987: 84-85). Já em 1842, o
rem a justic;a, demonstrando-se que a maioria de tais ''vagantes'' possuem
Conselho de Estado havia exposto claramente a razao:
A Face Oculta da Escola 91
90 Mariano Fernández Enguita
gado rnaior e menor e cultivam pequenas hortas e chácaras. Os incendiários ( ... ) É dever da sociedad e pór esses miseráveis fllhos da selva sob
sao multados, mas a tarefa já está feíta (Ibid.: 88-9). Ainda no fmal do século um regime de trabalho árduo, modificando assim seus hábitos grosseiros
XIX, a "a lei de conchabas" de Tucumán persegue penalmente os peoes que (Ibid.: 61).
faltem ao trabalho; os que o fazem
Esta política também foi habitual na África, especialmente nas colonias
sem licenc;:a do patrao, ou sem aviso, pelo menos no caso de necessidade portuguesas (em Mo<;ambique, chegou-se a considerar como vagabundos
justificada, serao castigados com um dia de prisao, ou com urna multa de todos os que nao estavam contratados: Wiedner, 1962: 212), mas deu-se
um peso nacional, e pastos a disposi9áo do patráo, cumprida a também nas civilizadas e humanitárias colonias briUl.nicas (Wolff, 1974: 120).
condena9áo (lb id.: 88-9).

Os indígenas e gauchos que teriam podido refugiar-se no deserto, sub- A resistencia ao enquadramento ao trabalho
sistindo por seus próprios meios, sao maci<;amente detidos durante a década
dos 80. Em 1881, dez mil, no ano seguinte o dobro e no outro o triplo. Se Nao se deve pensar que os africanos tivessem aceito de forma submissa
há empregos, devem aceitá-los e, se nao o fazem, se os mantem detidos· ou os propósitos dos brancos ou nao tivessem sido capazes de opor-se a eles.
sob controle. Na década dos 90 qualificam-se como vagabundos todos os Naturalmente nao contavam com a técnica nem com a organiza<;ao necessárias
povoadores maiores de dezessete anos sem ''bens suficientes de que viver e para fazer frente aos invasores, mas exerceram múltiplas formas de resisten-
que nao exer<;am arte, profissao ou indústria que lhes proporcione sua sub- cia individual e coletiva. Em seu Voyage au Congo, André Gide reproduzia
sistencia". Os assirn qualificados - para o que basta o acordo do juiz de paz um relatório oficial de 1902 que considerava bastante eloqüente:
e dos ''vizinhos respeitáveis'' - devem empregar-se no prazo de quinze dias e,
se nao o fazem, serao for<;ados ao trabalho em obras públicas (Ibid.: 294-5). Durante o último ano, a situa<;ao tornou-se mais e mais difícil. Os man-
No Peru, a vagabundagem parece que se havia convertido em urna praga gias estao consumidos e nao tem já nem a capacidade nem a vontade de
que preocupava seriamente as autoridades em princípios do século XX (Bur- fazer nada. Preferem qualquer coisa, inclusive a morte, ao recrutamento. A
ga, 1976: 201). No Brasil, em fmais do século XIX, os livres e libertos eram dispersao das tribos continuou durante mais de um ano. Os povoados se
ainda considerados vagabundos e indolentes (Kowarick, 1987: 15). O Con- desfazem, as farru1ias se dispersam, todo mundo abandona sua tribo, sua
gresso Agrícola, Comercial e Industrial do estado de Minas Gerais lamenta- aldeia, sua família e sua terra para viver na selva, como animal selvagem, com
va-se em 1903: o objetivo de evitar ser recrutado (Citado por Dumont, 1969: 38).

Estamos escassos de operanos assíduos e diligentes, estamos Um fenómeno que recorda a decadencia das povoa<;6es indígenas na
escassos de diaristas para os engenhos ( ... ) . Há escassez de bra<;os? América espanhola, os aspectos mais duros do ''desinteresse vital'' de que
Estritamente falando, nao; o que escasseiam sao os bra<;os ativos, os falam alguns historiadores (Sánchez Albornoz, 1973: 75-7). Por volta de 46.000
trabalhadores, isso é o principal. Se a indústria nao se queixa tanto é pessoas fugiram apenas em 1929 do trabalho nos campos de algodao e nas
porque, para ela (... ), o déficit nao é tao palpável. A agricultura, rodovias do Alto Volta para dirigir-se a Costa do Ouro (Skinner, 1964: 172,
entretanto, está se debilitando e morrendo por causa da ausencia quase 174). Ainda em 1945, os mossi selecionados para um suposto assentamento
completa deste elemento essencial de seu funcionamento. O povo nao modelo no Delta do Niger abandonaram-no quase em massa tao logo tiveram
tem sujei<;ao: esta pitoresca frase repetida em toda parte, expressa e a oportunidade, isto é, quando foi abolido o trabalho for<;ado (Hammond,
defme bem a situa<;ao. Na verdade, a nossos trabalhadores lhes falta 1960: 114). No cristianíssimo Congo Belga, a resistencia e as fugas para nao
ambi<;ao; nao estao familiarizados com o conforto; caracterizam-se pela coletar látex para os ocupantes foram também urna constante. O "Estado
imprevisao. Qualquer coisa é suficiente para eles (... ). Sao virtualmente livre'' decidiu en tao encarcerar as mullieres para for<;ar seus maridos a
nómades (... ) (Citado por Gonzáles Arroyo, 1982: 74-5). trabalhar (prática que já haviam empregado os espanhóis no Peru). Urna
can<;ao de guerra indígena dizia:
Urna década antes, um fazendeiro desse mesmo estado já havia
respondido sem rubor a um questionário oficial qual poderia ser a melhor Nao podemos permitir que nossas mulheres e crianc;:as sejam presas
solu<;ao: E castigadas pelos selvagens brancos.

92 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 93


Faremos a guerra contra Bula Matadi. a emancipa<;ao a regimes transitórios que os fon;avam a continuar trabalhando,
Sabemos que morreremos, mas queremos morrer. como no caso da tutela nas colonias portuguesas na África (Harnmond,
Queremos morrer (Gann e Duignan, 1.979: 139). 1966: 316), da aprendizagem no Caribe britanico (Cardoso e Pérez Brignoli,
1987: II, 26), ou da já citada obrigac;:ao de empregar-se no Brasil.
Também na África Portuguesa era prática comum a emigrac;:ao. Os nativos Nao é preciso ir muito longe na associa<;ao entre escravidao e rejeic;:ao do
fugiam dos locais em que se lhes exigia trabalho para ~q~eles em qu~ i:to trabalho assalariado. Há urna tese segundo a qual os trabalhadores livres
nao ocorria, da regiao de Tete - como vimos - para nao rr para o exerc1to, teriam rejeitado o trabalho assalariado precisamente ou com maior forc;:a a1i
de Moc;:ambique em seu conjunto para nao serem convocados a trabalhar nas onde existia ou havia existido a escravidao, enquanto isso nao ocorria onde
colonias francesas durante longos anos (Isaacman, 1.976: 83, 85; Harnmond, aquela nao formava parte da história recente. Isto permitirla explicar sua
1966: 164). Os bantus das terras próximas ao Kilirnanjaro fugiram, deixa- suposta aceita<;ao na Europa e sua rejeic;:ao na América Latina, por exemplo.
ram-se morrer de fome ou se rebelaram, para nao aceitar o trabalho Paralela a esta corre outra tese, a qual pretende explicar a rejeic;:ao do trabalho
assalariado (Wiedner, 1962: 212; Barber, 1961: 48). Os passaportes interiores assalariado pelos ex-escravos, por exemplo no sul dos Estados Unidos, porque
converteram-se em um instrumento de controle habitual para impedir as se teriam impregnado do espírito ocioso e do desdém pelo trabalho de seus
migrac;:6es dos que queriam evitar trabalhar para os europeus (Wolff, 1.974: aristocráticos amos. Entretanto, já vimos que a rejeic;:ao se deu com igual ou
105, 119-20; Wiedner, 1962: 139). maior forc;:a na Europa livre que nas colonias, só que naquela foi mais fácil de
A fuga das plantac;:6es, em especial, foi muito freqüente em outros estancar, ao menos em sua forma mais extrema - a simples recusa a vender
continentes, tanto na Ásia (Myrdal, 1968: 1105-6), como na América (Wolf, a própria forc;:a de trabalho - pela forte limitac;:ao das oportunidades
1982: 156, 368)·. No Caribe, em particular, chegaram a adquirir grande alternativas de vida, em particular a carencia de terras livres.
importancia os palenque formados por escravos negros fugidos, sobretudo Se o trabalho assalariado foi estigmatizado nas colonias latino-americanas
na Jamaica e no Suriname (Cardoso e Pérez Brignoli, 1987: I, 209-11); um ou africanas, ou entre os negros do sul dos Estados Unidos, como assimilável
papel semelhante parece que exerceu também o território da Florida para os a escravidao, isto nao implica que esta fosse a responsável por aquele. Na
escravos fugidos das plantac;:6es de algodao da América do Norte. E m 1792, Europa usou-se a mesma metáfora, embora também, com mais freqüencia, as
os índios gananes da fazenda mexicana Las Palmillas abandonaram-na em fábricas fossem equiparadas a pris6es ou a casas de trabalho. No Brasil, as
massa devendo ser detidos pelo "oficial da República" e levados ante o juiz, condic;:6es de vida dos colonos nao eram muito mais apreciadas pelos homens
ao quaÍ explicaram que o ajudante do capataz da fazenda os tratava muito mal e livres, incluídos os parceiros (Gnacarini, 1980: 139), que as dos escravos. O
que ocorria, realmente, era que homens e mullieres estigmatizavam o traba-
como se nao fossemos racionais, quer que o trabalho vá além do que lho assalariado com os vocábulos e imagens mais fortes a seu alcance e, se
podem as forc;:as naturais, motivo pelo qual, amedrentados com o excesso, na Europa do antigo regime o pior que se podia imaginar era a prisao, nas
nos retiramos da fazenda (Gonzáles Sánchez, 1986: 164). colonias o espantalho era a escravidao. Se as coisas tivessem se passado de
forma diferente, as imagens teriam sido outras. Um jornalista francés que
Entre 1875 e 1879, grande quantidade de índios pampas capturados na havia visitado o Brasil contava a resposta que havia ouvido, em 1910, da boca
pampa e na Patagonia foram enviados a trabalhar nos engenhos de ac;:úcar de de urna criada negra, ao se negar a obedecer urna ordem que considerava
Tucumán, mas, antes que se passasse urna década, salvo os que nao puderam indigna: "Quem voce ere que sou? Urna italiana?" (Holloway, 1984: 161).
faze-lo por terem sido mortos, a quase totalidade havia fugido (Guy, 1981). A interpretac;:ao da rejeic;:ao do trabalho assalariado como urna reac;:ao a
Tao pouco atrativo se tornava o trabalho assalariado que era considerado imagem da escravidao, seja pelos homens livres que conviveram com esta ou
um coisa própria de escravos, inclusive pelos próprios escravos. Na ilha pelos escravos libertos e seus descendentes, nao passa de urna forma tosca
portuguesa de Sao Tomé, os habitantes livres negavam-se a se assalariar, de eximir o modo de produc;:ao capitalista de toda culpa. A mesma func;:ao
incluídos os forros, os mais pobres dentre eles, com freqüencia antigos teve na Europa a atribuic;:ao de tal rejei<;ao a associac;:ao supostamente espúria
escravos ou libertos; a emancipa<;ao de 1876 trouxe também um aumento das fábricas com as workhouses e outras formas contemporaneas de traba-
macic;:o da desocupa<;ao na África (Hammond, 1966: 314). A mesma. repulsao lho forc;:ado. Urna vez que o modo de trabalho próprio do capitalismo é
em rela<;ao ao trabalho assalariado deu-se entre os escravos emancipados da imaginado como o único possível e desejável - para os demais, claro -, a
América Latina (Cardoso e Pérez Brignoli, 1987: II, 26). Preventivamente, as responsabilidade tem que estar fora. Normalmente é situada do lado dos
potencias coloniais, com freqüencia, submeteram os escravos libertados com indivíduos- os "vagabundos" -; de forma complementar ou subsidiária, ao
94 Mariano Fernández Enguita 95
A Face Oculta da Escola
familias (Karmack, 1967: 101-2), ou dos bantus da Somália, que nao queriam
lado dos modos de trabalho anteriores ou das formas transitórias que, se em produzir para o mercado, afirmando que "o algodao nao se come"? (Hess,
sua época foram tidas como imprescindíveis, urna vez cumprida sua func;:ao 1966: 114-5). E o que pensar do carpinteiro indígena que, depois de lavrar um
sao vistas com cínico ou ingenuo assombro. Esta versao tem a vantagem chaukut para urna porta ou janela, ficava um dia sem trabalhar, colocava-o
adicional de, como que de passagem, enfatizar implicitamente o caráter sobre um lenc;:ol estendido no chao diante da casa que ia adornar e se sentava
"liberador" do processo de trabalho caracteristicarnente capitalista frente as junto a ele para receber as felicitac;:oes e os obséquios de seus paisanos
formas que o precederam. admirados? (Singer, 1960: 266). Naturalmente, a res posta é de q'!e se trata
de seres imaturos, infantis, nao económicos, ou seja, nao racionais. E o mesmo
que pensava Saint-Hilaire dos caipiras brasileiros em finais do século passado:
A produtividade do trabalho indígena
Quando um artesao ganhava algumas patacas (330 réis) descansava
Quando africanos, americanos nativos e asiáticos erarn submetidos, por até que elas terminassem. (... ) Se alguém precisasse encomendar alguma
urna via ou outra, ao trabalho fabril ou as tarefas sistemáticas das plantac;:oes, coisa a um artesao tinha que faze-lo com grande antecipac;:3o. Suponha-
permanecia todavia o problema da bai:xa produtividade de seu trabalho; Desde mos, por exemplo, que se tratasse de um trabalho de carpintaria. Antes
o comec;:o da colonizac;:ao, a escassa produtividade dos nativos foi a obsessao de mais nada era necessário recorrer aos amigos para conseguir, na selva,
dos europeus em toda parte. Já ouvimos os espanhóis falarem sobre a at;_itude a madeira para o trabalho. Em seguida, era necessário ir centenas de
dos índios perante o trabalho. Um relatório oficial de 1946 sobre a Africa vezes a casa do carpinteiro, pressionando-o e ameac;:ando-o. E, ao fmal,
oriental britfulica (Kenia, Uganda e Tanganika) - um entre mil - assinalava: muitas vezes nao se conseguia nada (Saint-Hilaire, 1976: 146).
"O problema dominante em toda a África Oriental é o nível deploravelmente
baixo de eficiencia do trabalhador'' (De Briey, 1977: 190). Fazia parte da Os nativos, em troca, achavam que o irracional era a forma com que os
opiniao generalizada que os africanos e, em geral, os povos nao brancos - colonialistas queriam que eles trabalhassem. "Como pode um hom~m -
ou nao anglos, ou nao saxoes - eram incapazes de um esforc;:o contínuo, da perguntavam-se os camaroneses a vista das plantac;:oes - trabalhar assim, dia
regularidade exigida pelo trabalho industrial. após dia, sem ficar louco? Nao morrerá?" (Thompson, 1967: 38). E os mossi
do Alto Volta sentenciavam: Nansaratoumde di Mossi ("0 trabalho do
A aparente impossibilidade de se encontrar um número suficiente de homem branco come [isto é, mata] as pessoas") (Skinner, 1964: 158), e nao
trabalhadores africanos minimamente eficiente absorvia a atenc;:ao dos estavam muito equivocados, pois a taxa de mortalidade entre os jovens mossi
europeus excluindo quase qualquer outra preocupac;:ao: "é o tema recrutados para o trabalho era muito elevada; outros exemplos podem ser
constante de todas as discussoes em todos os hotéis, em todos os clu- encontrados na populac;:ao do Gabao, que decresceu de um milhao de
bes, no trem, e no barco, ao redor de todas as cenas e em todos os habitantes no início do século para menos da metade em fmais dos anos
balcoes .." (Wolff, 1974: 96, citando urna carta de "Um velho residente", sessenta (Dumont, 1969: 39), ou na morte de 47.000 entre 164.000 contra-
publicada em 1909). tados e soldados do Kenia - a maioria fora do campo de batalha - durante a
primeira guerra mundial (Wolff, 1974: 106).
Tais dificuldades nao eram senao a e.xpressao da incompatibilidade entre Pense-se, por exemplo, nos horários de trabalho citados no comec;:o deste
os hábitos de trabalho nativos e os que queriam impor-lhes os ocupantes capítulo. É verdade que correspondem a povos que se encontravam no estádio
europeus. Na cultura nativa, o ócio ou a satisfac;:3o derivados do trabalho bem da cac;:a-coleta, mas mio se deve pensar que outros sistemas económicos pré-
feito eram muito mais importantes que qualquer critério relacionado com o capitalistas tenham gerado condic;:oes de trabalho muito mais duras. Estima-
rendimento, a rapidez ou a valorizac;:3o quantitativa de um equivalente obtido
tivas recentes sobre o trabalho na Ásia, que nao é precisamente sede de
em troca do próprio trabalho (veja-se Karmack, 1967: 54, 101; Barber, 1961:
culturas primitivas, dao resultados parecidos. De acordo com um estudo de
70). Do ponto de vista do colono branco ou da administrac;:3o que defendia seus in-
1950 sobre a Índia, de urna forc;:a de trabalho de 160 milhoes de pessoas, 20
teresses, isto era um comportamento nao económico, nao racional, atávico.
milhoes trabalhavam urna hora ou menos por dia, 27 milhóes 2 horas, 45
Se nao se trata disso, como julgar entao a atitude dos agricultores do
milhoes quatro horas ou menos (Swianiewicz, 1965: 63). Outro estudo, de
Kenia, da Tanzania ou da Uganda que deixavam os 10 ou 20% fmais da co-
1926-1927, concernente tao-somente a agricultura, fala de um ócio entre os
lheita de algodao sem recolher, que ao aumentar sua renda contratavam agricultores indianos de, pelo menos, 2 a 4 meses por ano; de acordo com
assalariados para fazer um trabalho que poderiam fazer eles mesmos ou suas
A Face Oculta da Escala 97
96 Mariano Fernández Enguita
outro, nas zonas de irriga<;ao (1/10 dos camponeses) o ócio é de tres meses, europeus para alcan<;ar um certo resultado com as máquinas. (... ) Em urna
nas restantes (9/10) de nove ou dez. Inclusive entre os assalariados (gain- fábrica textil do Congo belga, na qual se empregam mullieres africanas para
fully employed), em 1955, 27o/o trabalhavam menos de 29 horas por semana manejar algumas máquinas, urna trabalhadora maneja duas máquinas,
e outros 17% entre 29 e 42. Um estudo sobre o Ceilao, concemente aos anos enquanto, na Bélgica, urna mulher européia maneja quatro máquinas iguais.
1952-53, assinalava que 14% da mao de obra trabalhava menos de 20 horas por (... ) Em Ubangi-Chari, o produto dos africanos em várias formas de trabalho
semana, e a porcentagem seria muito maior se se descontassem os empre- de constru<;ao era de apenas entre um ter<;o e um quarto daquele dos
gados nas planta<;6es, que desenvolviam langas jornadas. Na Malásia, calcu- trabalhadores que, na Fran<;a, desempenham o mesmo tipo de tarefas (O.I.T.,
lava-se que a jornada média de um pequeno campones, produtor de látex para 1958: 144-6; citado por Udy, 1970: 60).
o mercado, era de 1,3 horas de trabalho pesado, 1,2 horas de trabalho
moderado e 0,8 horas de trabalho leve: total, 3,3 horas (estudos citados por Recapitula~ao
Myrdal, 1968: 1076-80).
Esta idéia parece ver-se apoiada pelas compara<;6es de produtividade. Tentemos resumir. A chegada dos europeus aquelas que iam ser as
Em condi<;6es iguais, o rendimento dos trabalhadores nao ocidentais mostra- colonias colocou-os em contato com civiliza<;6es que nao tinham passado pelo
se, em geral, muito inferior ao dos ocidentais. Na Hindustan Machine Tools, longo processo de expropria<;ao dos meios de vida, transforma<;6es nas pautas
por exemplo, 4 indianos produziam em 1955 o mesmo que 1 suí<;o, passando de trabalho e mudan<;as culturais que culminariam, na metrópole, no
a relayao a ser de 3 para 2 e m 1961. Em Jamshedpur, nas oficinas da Mercedes, desenvolvimento do capitalismo e na industrializa<;ao. Em muitos casos, trata-
6 operários de Tata faziam em 1955 o mesmo que um alemao de Stuttgart, va-se de povos que viviam estritamente em urna economía de subsistencia,
passando a relayao a ser de 6 para 5 em 1961. Na Integral Coach, de Perambur, organizados em unidades domésticas inteira ou quase inteiramente
um vagao ferroviário exigía 19.648 horas de trabalho indian~s, enquanto na autosuficientes. Em outros, sobre estas unidades levantavam-se aparatos
Europa bastavam 6.500 horas de trabalho suí<;as; em 1961, na India, isto já era políticos com fun<;6es de extrayao e redistribui<;ao do excedente económico,
conseguido com apenas 8.519 horas (!bid.: 1141n). Nas minas de carvao de mas a produyao de um excedente continuava sendo marginal com relayao a
Coahuila, México, o patrao Edwin Ludlow registrava em princípios deste século produ<;ao para o próprio consumo, além de reverter sobre as unidades
o que eram capazes de carregar os trabalhadores de diferente grupos étnicos: domésticas e estar estreitamente associada a sua cultura política e religiosa.
os norte-americanos brancos, 10 toneladas por dia, os negros 8, os italianos 6, Se o primeiro contato com os avan<;os da civiliza<;ao européia foi, em geral,
os japoneses 5, os chineses 4 e os mexicanos 2. Ludlow esperava que em urna meramente comercial, o assentamento dos colonizadores nos novos territórios e
gerayao os mineiros mexicanos seriam tao eficientes quanto os norte-ameri- su a vontade prioritária de explorar seus recursos com vistas a se u próprio consumo
canos, ingleses ou alemaes (Bernstein, 1964: 89). Entretanto, os próprios e, sobretudo, a exporta<;ao, coloco u em seguida a questao da mao de obra.
trabalhadores negros, que se aproximavam do recorde dos norte-americanos Para os nativos, isto significava levar seu esfor<;o de trabalho para além
brancos no México, situavam-se muito distantes dele em sua terra natal, urna de suas necessidades, algo contrário a lógica da economía de subsistencia.
vez mais. Quase todas as avalia<;6es dos trabalhadores africanos vinham a Além disso, tratava-se de trabalhar para outros, para estranhos, em vez de para
coincidir com esta dos camaroneses sob o domínio francés, extraída de um si próprios. Mesmo se já antes o haviam feíto no marco de suas organiza<;oes
relatório de 1949: políticas autóctones, estas - como as européias para os europeus -
devolviam algo em troca e eram parte integrante de sua cultura, duas
Comparado com o produto de um trabalhador branco, o do negro varia condi<;oes que nao queriam (a primeira) nem podiam (a segunda) reunir os
entre um ter<;o e um sétimo ou um oitavo, dependendo do empregador e recém chegados senhores. Supunha, enfim, abandonar seus hábitos
do ofício - ou dentro de um ofício dado. A propor<;ao habitual é de um irregulares e pausados de trabalho em favor da regularidade e da intensidade
quarto. Em outras palavras, um negro precisa quatro dias para fazer o próprias das obras públicas, das planta<;oes, das constru<;oes e das fábricas
que um branco faz em um. E esta opiniao tem sido confirmada por todos - em geral, da empresa capitalista ou da simples explora<;ao coletiva do
os empregadores com os quais ternos falado (DeBriey, 1977: 191). trabalho. Em suma, o mesmo problema já surgido na industrializayao européia,
mas multiplicado e potenciado pela violencia do choque cultural e pela dis-
Em urna fábrica de tabaco de Uganda, a dire<;ao estimava que na mesma, tancia e pela incompatibilidade entre dois mundos distintos.
em geral, necessita-se de tres africanos para produzir o que podem produzir O recurso mais elementar era o de submeter os nativos a diversas formas
na Europa dois europeus; em resumo, sao necessários mais africanos que de trabalho for<;ado, mas isto nao deixava de colocar sérios problemas. A

98 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 99


forma absoluta do trabalho fon;ado, a escravidao, foi o primeiro expediente inflexibilidades da escravidao e de evitar sua rejeic;ao em face da persistente
adotado, mas exigia certas circunstancias especiais. Em primeiro lugar, nao era negativa dos nativos a danc;ar conforme a música dos europeus. Entretanto,
viável, ao menos em sua forma moderna, no território dos escravizados. Em embora edulcoradas, estas formas de trabalho forc;ado conservavarn, com urna
conseqüencia, desenvolveu-se na forma da exportac;ao macic;a de rniio de obra única excec;iio - a imobilizac;ao macic;a de capitais -, todos os inconvenientes da
de um continente a outro, obtendo-se assim o desenraízamento das vitimas. escravidao. Tudo apontava para a conveniencia e a necessidade de chegar a
Por outro lado, a escravidao era a única forma segura de se obter e conservar a satisfazer as exigencias de mao de obra dentro de um regime de trabalho livre.
rnao de obra em condic;oes de acesso livre aterra e a outros meios de vida. Mas nao podía haver "trabalho livre", isto é, brac;os dispostos a empre-
Em segundo lugar, a compra de escravos significava a imobilizac;ao de gar-se nas condic;oes que propunham os europeus, enquanto as cabec;as
consideráveis quantidades de dinheiro que, de outra forma, poderiam funcionar situadas sobre aqueJes considerassem que podiam satisfazer suas
estritamente como capital. Enquanto o trabalho assalariado exige do necessidades por meios mais benignos e menos constritivos. Para que
empregador apenas que adiante ao trabalhador o necessário para sua acudissem em tropel as plantac;oes e fábricas seria necessário elevar essas
reproduc;iio até o próximo pagamento, a escravidao exige comprá-lo de urna vez necessidades acima de suas possibilidades de satisfac;iio, suprimir as formas
por todas, por todo seu valor prospectivo. Além disso, um decréscimo no nível de se obter meios para satisfaze-las, diferentes do trabalho assalariado, ou
de produc;ao, ou um aumento na produtividade do trabalho, mantendo-se ambas as coisas. Esta foi a parte suave, aparentemente e em comparac;ao
constante a produc;iio, criava outro problema para o escravista, o de manter a com a escravidao e com o trabalho forc;ado, da história colonial. Na realidade
milo de obra inativa, o que o capitalista podia evitar facilmente, livrando-se foi tao sangrenta quanto a anterior, mas, enquanto a escravidao, a cac;a de
deJa, isto é, nao tornando a contratá-la quando nao fosse necessário. Além escravos, os navios negreiros ou os trabalhos forc;ados indiscriminados
disso, a possibilidade de morte, enfermidade ou invalidez para o trabalho, incomodavam a consciencia européia, as expropriac;oes de terras, os impostes
convertía a compra do escravo em urna inversao muito arriscada em em dinheiro, a repressao da vagabundagem ou a isenc;ao condicional do ser-
comparac;ao com a realizada no trabalhador livre, reduzida ao salário. A vic;o militar encaixavam-se e encaixam-se dentro daquilo que qualquer fariseu
passagem da escravidao ao trabalho livre nao é seniio a transferencia dos comum podía e pode aceitar sem perder a compostura.
custos do fator trabalho, da parte flxa, para a parte variável do capital. Aumentar as necessidades dos nativos foi o propósito de medidas como
Em terceiro lugar, a produtividade do trabalho escravo era muito baixa. as vendas a crédito, os impostes em dinheiro, a obrigac;ao de comprar certas
Vendido por toda a vida, tendo perdido defmitivamente sua liberdade, o escravo mercadorias, etc. Entretanto, este expediente nao podia ser estendido ao
nao podia encontrar nenhum interesse, nenhum estímulo positivo que o infinito, pois chocava-se com as culturas autóctones e, levada a seu ponto
levasse a um maior esforc;o de trabalho - para o amo. O único estímulo para extremo, era tao capaz de suscitar resistencia quanto a escravidao ou o
seu trabalho era a repressao, o castigo. Em comparac;ao, os trabalhadores trabalho forc;ado macic;o. Seu resultado mais brilhante nao o era tanto: o
livres, além de mais baratos, mostravam-se muito mais dispostos ao esforc;o e trabalhador ocasional, o target-worker, com um objetivo-teto para além de
eram, por conseguinte, mais produtivos. De qualquer forma, a organizac;ao de cuja consecuc;ao nao estava disposto a continuar trabalhando, o que continuava
urna explorac;ao económica com base no trabalho escravo supunha custos de supondo inseguranc;a, incerteza, baixa produtividade e altos custos de
supervisao muito elevados. recrutamente e formac;ao para os empresários.
Em quarto lugar, a moral européia encarava com crescentes maus olhos a Suprimir as oportunidades alternativas de vida foi o objeto de medidas
escravidao das pessoas, incluídas as de outras rac;as, sobretudo a partir do como o oligopólio das terras e/ou o encarecimento do acesso a elas, os
momento em que deixou de ver-se a escravidao como necessária ou conve- obstáculos postos a incorporac;ao a atividades económicas que só eram
niente. Urna vez que o tráflco de escravos era um tráflco internacional, al- permitidas aos europeus e a perseguic;iio a ''vagabundagem' ', que na realidade
guns países que tardavam em tornar patentes seus princípios cristaos viram- nao foi senao a eliminac;ao da economia de subsistencia. Os contratos de longa
se, a contragosto, em face do esgotamento da oferta exterior de gado huma- durac;iio pra coolies, colonos, aprendizes, etc., nao era m mais que outra for-
no e do rápido encarecimento de seus prec;os interiores. ma de se obter a mesma coisa: em vez de impedir-lhes o acesso a outra forma
A primeira resposta a esta panóplia de problemas foi a busca de outras de vida, se lhes proibia abandonar a presente, o trabalho assalariado.
formas de trabalho forc;ado. Deste ponto de vista, a encomienda, o repar- Na realidade: ou meios de vida livres, ou trabalho livre. Talvez seja este
timiento, o mussoco, a mita, o coatequil, os impostes em trabalho, a o momento de pedir desculpas pelo emprego reiterado da expressao "trabalho
duxieme portian, o envio dos supostos vagabundos as obras públicas e livre' '. Enquanto os recursos eram livres, fundamentalmente a terra, o trabalho
outras variantes nao eram senao formas distintas de tratar de aliviar as tinha que ser forc;ado, pois ninguém teria aceitado converter-se em assalariado
100 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 101
l11¡,¡
li
¡1 podendo viver, inclusive sobreviver, trabalhando para si mesmo. Para que o
trabalho se convertesse e m assalariado, em ''livre'' de qualquer outra
alternativa de vida, livre de recursos com os quais subsistir por si mesmo,
isto é, para que alguns homens e mullieres, a maioria, aceitassem trabalhar
para outros, a minoría, era preciso que os meios de trabalho deixassem de ser
acessíveis. Nas colonias, como na Europa, o trabalho assalariado nao foi
conseqüencia da ascensao a liberdade pessoal, mas da queda na carencia de
outros recursos.
SEGUNDA PARTE:
A CONTRIBUI~ÁO DA
ES COLA

102 Mariano Fernández Enguita


DO LAR A FÁBRICA,
PASSANDO PELA SALA DE AULA:
A GENESE DA ESCOLA DE MASSAS

Sempre existiu algum processo preparatório para a a integrac;ao nas


relac;oes sociais de produc;ao, e com freqüencia, alguma outra instituic;ao
que nao a própria produc;ao em que se efetuou esse processo. Nas socieda-
des primitivas podem ser o jogos ou as fratrias de adolescentes, marcado
seu desenvolvirnento por algum que outro rito de iniciac;ao. Em alguns casos,
a inicia<;i'io de crianc;as e adolescentes é responsabilidade dos adultos em
geral ou dos anciaos; em outras, de estruturas mais ou menos fechadas
de parentesco ou da familia, que é de qualquer forma urna estrutura am-
pliada.
Na Roma arcaica, por exemplo, encontramo-nos com urna mistura de
aprendizagem familiar e participac;ao na vida adulta em geral: o jovem varao
simplesmente acompanha o pai no trabalho da terra, no foro ou na guerra,
enquanto as f!lhas permanecem junto a rnae ajudando-a em outras tarefas. Na
econornia camponesa, mesmo em nossos dias, a sede da aprendizagem social
e para o trabalho continua sendo a familia. Para o campones autosuficiente, a
escoJa nao podia oferecer outra coisa que doutrinamento religioso e, em seu
caso, político. As destrezas e os conhecimentos necessários para seu trabalho
podiam ser adquiridos no próprio local de trabalho; e, de qualquer forma, a
escoJa nao os oferecia.

A Face Oculta da Escola 105


Algo parecido ocorria na Idade Méclia, com a diferen<;a de que neste abrigado a servir fielmente ao mestre nao apenas nas tarefas do ofício mas
período a permanencia na família original era substituída em grande medida no conjunto da vida doméstica. O mestre estava abrigado a ensinar-fue as
pela educa<;iío ou aprenclizagem no seio de outra família. Philippe Aries (1973: técnicas do ofício, mas também a alimentá-lo e a vesti-lo, dar-lhe urna
252-253) recolhe um texto italiano sobre a farm1ia medieval inglesa em fmais do forma<;iío moral e religiosa e prepará-lo para converter-se em um cidadao
século XV: (Scott, 1914); e, com freqüencia, a ensinar-lhe os rudimentos literários e a
enviá-lo a urna escala na qual pudesse adquiri-los (Bennett, 1926: 22). 0
A falta de cora¡;ao dos ingleses manifesta-se particularmente em sua contrato de aprendizagem (indenture), que vinculava a ambos durante um
atitude para com seus f!lhos. Após have-los tido em casa até os sete ou longo período, em geral de sete anos, convertia a rela¡;ao em algo estável.
nove anos (entre nossos autores clássicos, sete anos é a idade em que as Ademais, a convivencia continuada em urna pequena oficina que era também a
crian¡;as deixam as mulheres para incorporar-se a escala ou ao mundo dos residencia convertia o conjunto formado pelo mestre artesao e pelo punhado
adultos), colocam-nos, tanto os meninos quanto as meninas, no duro de oficiais e aprendizes em urna sorte de familia ampliada sem la¡;os consan-
servi¡;o das casas de outras pessoas, as quais as crian¡;as ficam vinculadas güíneos.
por um período de sete a nove anos (portanto, até a idade de quatorze a Estes intercambios familiares e contratos de aprendizagem incluíam nao
dezoito anos, aproximadamente). Sao chamados entao de aprendizes. apenas as crian¡;as e jovens que conseguiam assim dar o primeiro passo para
Durante este tempo desempenham todos os ofícios domésticos. Há incorporar-se ao artesanato a partir de outro setor social, mas também e
poucos que evitam este tratamento, pois todos, qualquer que seja sua sobretudo os fllhos dos próprios artesaos, que se iniciavam no ofício em urna
fortuna, enviam assim seus filhos as casas de outros enquanto recebem família e oficina alheios; o qual, por sua vez, criava urna espessa rede de
por sua vez as crian¡;as alheias. reciprocidades tendente a normalizar e a estabilizar a rela¡;ao mestre-aprendiz,
pois o tratamento dado ao aprendiz acolhido era o que iria receber o f!lho
O mesmo afirma a respeito das classes altas Rowling (1979: 137), o qual enviado para fora da farm1ia. Embora o trabalho do aprendiz beneficiasse em
assinala que freqüentemente enviavam seus filhos a outros lares para que primeiro lugar o mestre (assim como o do oficial), a rela¡;ao de dependencia,
servissem como pagens a partir dos sete anos e como escudeiros ou subordina<;iío e, provavelmente, explora¡;ao, encontrava sua contrapartida na
assistentes (squires) a partir dos quatorze. Aries, apoiando-se para isso em própria forma¡;ao e na perspectiva, nao segura porém presente, de culminar a
outros testemunhos dos séculos XII e XV, sugere que este costume, embora própria carreira alcan¡;ando a condi¡;ao de artesao independente.
cause admira¡;ao ao autor italiano do texto antes citado, devia estar bastante Em geral, a aprendizagem e a educa¡;ao tinham lugar como socializa¡;ao
ampliado no ocidente durante a Idade Média, alcan¡;ando outros países e direta de urna gera¡;ao por outra, mediante a participa<;ao cotidiana das crian<;as
outros estamentos sociais. nas atividades da vida adulta e sem a interven<;ao sistemática de agentes
As crian<;as eram enviadas a outra casa com um contrato ou sem ele. Ali especializados que representa hoje a escola, institui¡;ao que entao
aprendiam boas maneiras e talvez fossem levadas a urna escola, embora estas desempenhava um papel marginal.
nao fossem muito apreciadas pelas classes altas. Desempenhavam fun¡;oes Mas aqui queremos enfatizar outro aspecto. Em urna época em que as
servis e nao ficava muito clara a fronteira entre os serventes propriamente rela<;6es de produ<;ao sao atravessadas de cima a baixo por rela<;6es sociais de
ditos e os jovens encarregados de sua educa<;ao e eles próprios: vem daí que dependencia, a crian¡;a que é enviada como aprendiz-servente a outra família
os livros que ensinavam boas maneiras pare os serventes se chamassem em está aprendendo algo mais que um ofício ou boas maneiras: está aprendendo
ingles babees books, ou que a palavra valet servisse também para designar as rela¡;6es sociais de produ<;ao.
os meninos, ou que o termo gar¡;on designasse também ambas as coisas e se
conserve ainda hoje, na Fran¡;a, para designar quem serve as mesas nos Assim, o servi¡;o doméstico confunde-se com a aprendizagem, forma
restaurantes (o termo espanhol mozo talvez inclua-se no mesmo caso). Esta muito geral da educa¡;ao. A crian¡;a aprendia por meio da prática, e esta
era a via normal de aprendizagem, enquanto a escola, pelo menos além das prática nao se detinha nos limites de urna profissao, pois nao havia entao,
primeiras letras, ficava reservada para os que estavam chamados a ser copistas nem houve por muito tempo, limites entre a profissao e a vida privada
ou algo similar. (... ) . Assim, é por meio do servi¡;o doméstico que o mestre transmitirá a
Esta espécie de intercambio familiar tinha lugar de forma especial no urna crian¡;a, e nao a sua, mas a de outro, a bagagem de conhecimentos,
artesanato. O mestre artesao acolhia um pequeno número de aprendizes a experiencia prática e o valor humano dos que se lhe supóe em possessao
entrando com eles numa rela<;iío de mútuas obriga¡;óes. O aprendiz estava (Aries, 1973: 255).

106 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 107


Por que, entretanto, em outra fallli1ia e nao na própria? Precisamente por em estes reinos de seis anos a esta parte, pessoas piedosas tem dado
essa segunda fun<,:ao da aprendizagem, talvez a mais importante. Naquela ordem para que haja colégios de meninos e meninas, desejando dar
época, o normal era que os ftlhos homens adotassem a mesma profissao ou o remédio a grande perdic;ao que de vagabundos, órfaos e crianc;as
mesmo ofício dos pais e, naturalmente, que herdassem sua pertinencia a um desamparadas havia, (... ) porque é certo que ao se remediar estas
estamento ou a outro. A transmissao e ·aquisi<,:ao das necessárias destrezas crianc;as perdidas póe-se obstáculo aos latrocúrios, delitos graves, e
sociais e de trabalho, por conseguinte, bem podiam ser levadas a efeito na enormes, que por se criarem livres e sem dono, aumentam, porque se
própria familia. Mas esta, vinculada por lac;os afetivos, nao era o lugar mais tendo criado em liberdade de necessidade hao de ser quando grandes
adequado, provavelmente, para aprender os lac;os de dependencia nem a au- gente indomável, destruidora do bem público, corrompedora dos bons
to-disciplina necessários. Para isso era necessário haver urna rela<,:ao mais costumes, contaminadora das gentes e povos (Varela, 1983: 240).
distante entre o mestre e o aprendiz, ou entre o cavalheiro e seu assistente,
e isto só se podia obter ou, ao menos, era a melhor forma de faze-lo, colocando Entretanto, foi o desenvolvimento das manufaturas que converteu
os jovenzinhos a cargo de outra família que, assumindo o papel de educadora, defmitivamente as crianc;as na guloseima mais cobic;ada pelos industriais:
nao se visse travada pelo obstáculo do afeto. Afma!, já na Idade Média diretamente, como mao de obra barata, e indiretamente, como futura mao de
encontramo-nos com a incapacidade parcial da instituic;ao familiar para iniciar as obra necessitada de disciplina. O momento culminante dos orfanatos e, em
jovens gerac;óes nas relac;oes sociais existentes. geral, do internamento e disciplinamento das crianc;as em casas de trabalho e
Era comum que os jovens nobres que serviam em casa de urna familia outros estabelecimentos similares foi o século XVIII.
alheia fossem colocados a cargo de um preceptor, assim como os artesaos que Na Inglaterra, as workhouses converteram-se em Schools of Industry
acolhiam as crianc;as alheias para ensinar-lhes o ofício comprometiam-se além ou Colleges of Labour. O essencial nao era já pór os vagabundos e seus ftlhos
disso a ensinar-lhes a ler e a escrever ou a enviá-las a escola, embora, em a fazer um trabalho útil com vistas a sua manutenc;ao, mas educá-los na
ambos os casos, o ensino literário desempenhasse um papel marginal. Os disciplina e nos hábitos necessários para trabalhar posteriormente (Furniss,
f!lhos dos aristocratas podiam aprender as primeiras letras no colo de suas 1965: 85 ss.). Sir Josiah Child expressou em seu New Discourse on Trade
maes, mas, de qualquer forma, nao iriam muito além disso. O ideal educativo o que a maioria dos autores de sua época pensava:
da nobreza feudal nao passava pelas letras, mas por aprender a montar a cavalo,
a usar as armas e, talvez, a tocar um instrumento musical. Quanto aos (... ) Que produzam lucros ou nao, é algo que nao importa muito; o grande
artesaos, a aprendizagem literária era para eles muito secundária e, no problema da nac;ao é, em primeiro lugar, afastar o pobre da mendicidade
concernente aos camponeses, os poucos que acudiam a urna escola eram e da inanic;ao e assegurar-se de que todos os que sejam capazes de
apenas doutrinados nos tópicos religiosos e morais em voga. trabalhar possam ser, no futuro, membros úteis para o reino (Furniss,
1965: 92).
O intenmmento da inffu1cia marginal
Muitos autores expressaram seu desejo de ver universalmente internadas
Na própria Idade Média, entretanto, havia algo mais que nobres, artesaos as crianc;as pobres, e ''escolarizadas'', o que fundamentalmente significava
e camponeses. Um setor importante e crescente da popula<,:ao, antecipac;ao submetidas a muitas horas de trabalho e alguma de instru<;ao. Entre eles,
da grande massa que seria despojada de seus meios de vida no processo Richard Raines, que propunha internar e pór a trabalhar as crianc;as pobres
da Revoluc;ao Industrial, vivia já marginalizado das relac;óes dominantes de desde os quatro anos. Algo parecido propós William Temple:
produc;ao: mendigos, vagabundos, pícaros, órfaos, etc. Contra os adultos
instituiu-se o internamente em workhouses, hópitaux, Zuchthausen, Quando estas crianc;as tiverem quatro anos, serao ·enviadas a urna
etc., já tratados no capítulo dedicado a Revoluc;ao Industrial. Para as crian- casa de trabalho rural e, ali, ensinadas a ler duas horas ao dia e mantidas
c;as instituiram-se os mesmos meios ou outros ad hoc, os orfanatos. plenamente ocupadas o resto de seu tempo em qualquer das manufaturas
A inquietude pelas crianc;as órfas ou f!lhos de pobres nao era nova, da casa (... ) . É de considerável utilidade que estejem, de um modo ou
havendo nascido da preocupac;ao pela ordem pública e pelo desperdício que, outro, constantemente ocupadas ao menos doze horas ao dia, quer
para a nac;ao em geral, representavam seus brac;os inativos. Em 1548, as ganhem a vida ou nao; pois, por este meio, esperamos que a gera<,:ao que
Cortes de Valladolid informavam o rei, o qual imediatamente darla ordem de está crescendo estará tao habituada a ocupac;ao constante que, em geral,
apoiar o empreendimento, de que !he será agradável e divertida (... ) (Furniss, 1965: 115).

108 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 109


New Lanark, fábrica da qua! Robert Owen furia, para a época, um modelo escreveu sobre como deveria ser a educa<;iio de um gentleman (apesar de ter
de organiza<;ao do trabalho e de tarefa educativa, foi fundada em 1799 por David proposto o internamento das crian<;as pobres) - nao duvidou em declarar:
Dale com meio milhar de crian<;as procedentes dos asilos de Edimburgo e
Glasgow. Ninguém está obrigado a saber tudo. O estudo das ciencias em geral
Nao foram diferentes as coisas na Fran<;a. As crian<;as internadas em é assunto daqueles que vivem confortavelmente e dispoem de tempo livre.
hospícios e outras institui<;oes eram urna mao de obra barata para os Os que tem empregos particulares devem entender as func;oes; e nao é
industriais, que as contratavam em grupos e podiam devolve-las a menor insensato exigir que pensem e raciocinem apenas sobre o que forma sua
queixa, ou exploravam seu trabalho diretamente na própria institui<;ao em que ocupa<;ao cotidiana (Locke, s.d.: III, 225).
estavam internadas. Um relatório dirigido ao Ministro do Interior pelo Diretor
do Bureau des Hospices Civils, no ano V da Revolu<;iio, rezava assim: O problema tinha já urna longa tradi<;iio na Inglaterra. Cromwell, Mulcaster,
Wase, Forrest, Hartlib e outros haviam defendido a expansao das escolas, mas
O governo deve estímulo e prote<;ao as rnanufaturas. Deve empregar todos foram mais abundantes as ilustres figuras que a ela se opunham ou que por ela se
os meios a seu alcance para conseguir-lhes os bra<;os necessários para sentiam alarmadas, entre as quais Bacon (Francis), Chamberlayne ou Howell
seus trabalhos. (Cressy, 1975), mas a opc;ao continuava sem soluc;ao em princípios do século XIX.
É no interesse das crian<;as: sao preparadas para trabalhos que, em Nas escolas anglicanas de Hannah More, as crianc;as aprendiam
urna idade rnais avan<;ada, poderao proporcionar-lhes meios de existencia;
sao arrancados da ociosidade; sao minorados os inconvenientes que a durante a semana trabalhos toscos que os preparam para serem
permanencia nos orfanatos sempre trouxe para sua moralidade (Flandrin, serventes. Nao permito que se ensine a escrever os pobres, pois meu
1982: 75). objetivo nao é converte-los em fanáticos, mas formar os baixos
estamentos para a indústria e a piedad e (Vaughan e Archer, 1971: 37).
Apegando-se a oferta, o industrial Boyer-Fonfrade, de Tolouse, reclamava
quinhentos órfaos de diversos orfanatos, convencido de que estas ''crianc;as Entretanto, nem sequer essas escolas, dedicadas fundamentalmente a
!he prometem urna grande vantagem como mao de obra grac;as a vida fazer trabalhar e moralizar as crianc;as, escaparam da crítica. Pode-se afirmar,
comunitária, a sua obediencia e a se u hábito de trabalhar "(Flandrin, 1982: 76). inclusive, que urna parte das crianc;as escolarizadas foi arrancada das escolas
E a mesma coisa no Norte da Europa. Por exemplo, em Amberes, onde para o trabalho, nos dias úteis, através do movimento das Sunday Schools,
os fabricantes texteis qualificavam, em 1781, o orfanato local, de ''escola de escolas dominicais sem outra pretensao que a de ensinar-lhes moral religiosa.
forma<;iio para as fábricas "(Lis e Soly, 1982: 183).Em Postdam, em Berlim, Os projetos de lei que pretendiam assegurar um mínimo de instruc;ao literária
em Belfast, etc., o u em Hamburgo, onde a autoridade inscreviam as crianc;as foram sistematicamente rejeitados durante grande parte do século XIX.
dos pobres, dos seis aos dezesseis anos, em "escolas industriais "nas que se Os ilustrados franceses tampouco foram, em sua maioria, favoráveis a
dedicavam dois terc;os do tempo ao trabalho e o resto a urna instruc;ao educac;ao universal (Fernández Enguita, 1988). Foram explicitamente
rudimentar. contrários a ela, ao menos, Mirabeau, La Chalotais, Destutt de Tracy e o
"príncipe da luz", Voltaire. Este último chegou a afirmar sem rodeios que em
sua terra queria "diaristas, nao clérigos tonsurados "(Laski, 1977: 184).
Qual educa¡¡:ao para o povo? Outros foram apenas timidamente partidários ou ambíguos, como o próprio
Condorcet, Rousseau e, além fronteiras, Kant. Em urna feroz crítica aos
Os pensadores da burguesía em ascensao recitaram durante um longo Irmaos da Doutrina Crista (os freres ignorantins) que encontraria o aplauso
tempo a ladainha da educac;ao para o povo. Por um lado, necessitavam recorrer de Voltaire, La Chalotais !hes reprovava que
a ela para preparar ou garantir seu poder, para reduzir o da igreja e, em geral,
para conseguir a aceitac;ao da nova ordem. Por outro, entretanto, temiam as (... ) ensinassem a ler e a escrever pessoas que nao necessitavam mais
conseqüencias de ilustrar demasiadamente aqueles que, ao frrn e ao cabo, iam que aprender a desenhar e a manejar o buril e a serra, mas que nao
continuar ocupando os níveis mais baixos da sociedade, pois isto poderia querem continuar fazendo-o (... ). O bem da sociedade exige que os
alimentar neles ambic;oes indesejáveis. John Locke, que passa ainda por ser um conhecimentos do povo nao se estendam além de suas ocupac;oes (Charlot
dos inspiradores da "educac;ao "moderna e liberal em geral - porque e Figeat, 1985: 84).

110 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 111


Um século depois, Bravo Murillo sustentava ainda a mesma opiniao na irritac;:ao da desgrac;:a que se precisa sobretudo tanto de urna potente
Espanha, ao afirmar: ''Nao precisamos de homens que pensem, mas de bois cadeia quanto de urna consolac;:ao cotidiana (Charlot e Figeat, 1.985: 84).
que trabalhem' '.
Nao faltaram, entretanto, reformadores que viam na educac;:ao do povo a Esta maneira de pensar nao era privativa do Antigo Regime. Napoleao
melhor formar de amansá-lo e traze-lo ao redil da nova ordem ou da velha, tal levou-a a prática ao deixar o ensino primário nas rnaos das ordens religiosas ao
como Roland de Erceville, o qual nao duvidava de que: mesmo tempo que convertia o secundário e o universitário em monopólio do
Estado laico; e, nisto, Guizot nao ia senao seguir seus passos. Em 1851,
Quanto mais ignorante o povo, mais disposto está a ser subjugado por Taillandier, secretário geral do Ministério da Instruc;:ao Pública, declarava:
seus próprios preconceitos ou pelos charlataes de todo genero que o
assediam (Charlot e Figeat, 1.985: 84). Hoje em dia, um dos maiores intereses da civilizac;:ao, em meio ao
desenvolvimento imenso da indústria, é a educac;:ao dos operários, a
Condorcet sustentou urna opiniao parecida. Independentemente de sua educac;:ao moral mais que a educac;:ao técnica (Monier, 1.985: 162).
insistencia em identificar a educac;:ao com a ilustrac;:ao, a liberdaqe e o
progresso, estava muito consciente do enorme papel socializador da educac;:ao, As coisas nao foram muito diferentes na Inglaterra Industrial. Ao analisar
atribuindo urna enorme eficácia a seu monopólio pela igreja, que ele rejeitava: os efeitos das leis sobre educac;:ao de 1833, os inspetores de fábrica
encontraram que, urna opiniao bastante generalizada entre os patróes, era a de
Nao é apenas urna questao de que cada homem abandonado a si que, quanto menos educac;:ao recebesse o trabalhador, melhor. Alguns
mesmo encontre entre ele e a verdade a espessa e terrível falange dos fabricantes de algodao em Derbyshire afrrmarám:
erros de seu país e de seu século, mas de que os mais perigosos daqueles
erros se haviam tomado, de certa forma, pessoais (Condorcet, 1.980: 181). Somos de opiniao que é mais adequado para o bem-estar de nosso
povo esforc;:ar-se em fazer deles cristaos ilustrados que sábios no
Por que, entao, renunciar a um instrumento tao poderoso? Mais prudente conhecimento mundano; nao queremos estadistas em nossas fábricas,
e aconselhável tinha que lhe parecer, logicamente, empregá-lo com outros fms. mas indivíduos de ordem (Silver, 1983: 39).

É expandindo as luzes entre o povo que se pode impedir que seus


movimentos se convertam em perigosos (Condorcet, 1847a: 390). Do doutrinamento a disciplina
(... ) Freqüentemente os cidadaos ofuscados por vis facfuoras se
levantam contra as leis; entao a justic;:a e a humanidade lhes clamam para Os que se davam por contentes com que as crianc;:as do povo, futuros
empregar só a arma da razao para recordar-lhes seus deveres; por que, trabalhadores, nao recebessem nenhuma instruc;:ao ou que esta se limitasse ao
entao, nao desejar que urna instruc;:ao bem dirigida lhes tome difíceis de doutrinamento religioso tinham os olhos ainda postos na velha sociedade, no
serem seduzidos mais adiante, mais dispostos a cederem a voz da Antigo Regime, nas formas de produc;:ao que já estavam sendo varridas por
verdade? (Condorcet, 1847b: 447). outras novas. Provavelmente Necker tivesse razao para a época, quando o
terceiro estado se via empobrecido pelos tributos impostas pela velha
A vía intermediária era a única que podia suscitar o consenso das forc;:as superestrutura feudal e monárquica, mas vivía ou sobrevivia, ainda, do produto
bem-pensantes: educá-los, mas nao demasiadamente. O bastante para direto de seu trabalho. Mas a proliferac;:ao da indústria iría exigir um novo tipo
aprendessem a respeitar a ordem social, mas nao tanto que pudessem de trabalhador. Já nao bastaria que fosse piedoso e resignado, embora isto
questioná-la. O suficiente para que conhecessem a justificac;:ao de seu lugar continuasse sendo conveniente e necessário. A partir de agora, devia aceitar
nesta vida, mas nao ao ponto de despertar neles expectativas que lhes trabalhar para outro e faze-lo nas condic;:óes que este outro lhe impusesse. Se
f¡zessem desejar o que nao estavam chamados a desfrutar. Que melhor, para os meios para dobrar os adultos iam ser a fome, o internamente ou a forc;:a, a
isto, que a religiao? Necker já o havia compreendido claramente em 1788: infancia (os adultos das gerac;:oes seguintes) oferecia a vantagem de poder ser
modelada desde o principio de acordo com as necessidades da nova ordem
Quanto mais claro ficar que os impostas mantem o povo na rniséria, capitalista e industrial, com as novas relac;:6es de produc;:ao e os novos
mais indispensável se toma dar-lhe urna educac;:ao religiosa; porque é na processos de trabalho.

112 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 113


A fé, a piedade, a humildade, a resigna<;ao ou as promessas de que o reino Porque a produ<;:ao moderna nao é verdadeiramente útil e benéfica senao
dos céus passaria a ser dos pobres e que os últimos seriam os primeiros na medida em que se baseia em urna organiza<;:ao metódica. Entretanto, na
podiam ser suficientes para obter a submissao passiva do trabalhador, base de to,da a organiza<;:ao nao é possível substituir a autoridade pela
especialmente do campones fragmentado, ignorante e apegado anarquía. E preciso, portanto, que o operário aprenda a vencer suas
incondicionalmente as normas da propriedade, mas nao para conseguir a resistencias naturais ao dever absoluto de obedecer, e isto é o que lhe
submissao ativa que o trabalho industrial exige do operário assalariado. Os ensinaremos nas Epinettes (... ). A disciplina na oficina constituí a
cercamentos, a dissolu<;ao dos la<;:os de dependencia, a superpopula<;ao relativa dignidade bem entendida do operário; a higiene e a previsao terminam por
e a ruína dos pequenos artesaos bastavam para que a for<;:a de trabalho fazer dele um homem consumado (Charlot e Figeat, 1985: 133).
aparecesse no mercado por seu valor de troca, mas nao asseguravam a
extra<;ao de seu valor de uso. Para isto era necessário o concurso da vontade A escola podia realizar isto e devia faze-lo. Era só urna questao de tempo
do trabalhador, e portanto nada mais seguro que 1.1oldá-la desde o momento de para que os patroes em seu conjunto compreendessem os belos e lucrativos
sua forma<;:ao. frutos que podia oferecer urna educa<;:ao popular ''bem entendida''. A respeito
O instrumento idóneo era a escola. Nao que as escolas tivessem sido dos fiandeiros de linho de Westmorland afirmava-se que a educa<;:ao havia
criadas necessariamente com este propósito, nem que já nao pudessem ou melhorado
fossem deixar de cumprir outras fun<;:oes: simplesmente estavam a1i e se podía
tirar bom partido delas. Em 1m, William Powell já havia visto a educa<;:ao como a conduta e os hábitos de subordina<;ao dos operários fabris em geral, o
meio de adquirir o u instilar o ''hábito da laboriosidade' ', e o reverendo William que é claramente observável no fato de que nao se emprega palavroes, na
Turner, em 1786, enaltecia as escolas dominicais de Raikes como ''u m aparencia timpa e asseada e em um aumento da diligencia na freqüencia
espetáculo de ordem e regularidade "e citava um fabricante de Gloucester aos lugares de culto (Silver, 1983: 39).
afirmando que as crian<;:as que freqüentavam as escolas voltavam ''mais
tratáveis e obedientes, e menos briguentas e vingativas "(Thompson, 1967: Tao idílico panorama, especialmente o relativo ¿ ''<:-onduta e aos hábitos de
84). subordina<;ao' ', nao podía deixar de impressiona1 os patróes, ao ponto de
O acento deslocou-se entao da educa<;ao religiosa e, em geral, do doutrina- convencer os mais recalcitrantes. Isto era assim registrado por um inspetor de
mento ideológico, para a disciplina material, para a organiza<;ao da experiencia fábricas em 1839:
escolar de forma que gerasse nos jovens os hábitos, as formas de comporta-
mento, as disposi<;:óes e os tra<;:os de caráter mais adequados para a indústria. Muitos dos proprietários de fábricas que aprovam agora a educa<;:ao
Mimerel, grande patrao do Norte da Fran<;:a, formulava isto com clareza: estavam entre aqueles que, anteriormente, julgavam sua aplica<;:ao quase
impossível e nao acreditavam que fosse provável que trouxesse o mínimo
Nao, nao queremos pór limites a instru<;ao, mas preferimos a que faz benefício (!bid.).
com que o homem esteja contente com sua posi<;:ao e leve-o a melhorá-la
mediante a ordem e o trabalho aquela que o faz perder em projetos de O que inicialmente havia sido urna rea<;:ao de agradável surpresa ia
realiza<;:ao impossível um tempo tao útil para o bem-estar de sua familia. [0 converter-se em seguida em urna reivindica<;:ao ou, se se prefere, em urna
ensino] deve assegurar as crian<;:as excelentes hábitos de ordem, de firme opiniao sobre a fun<;:ao das escolas. Se Mimeral "prefería "a forma<;:ao
propriedade, de trabalho e de prática religiosa que farao delas crian<;:as de hábitos a um ensino desnecessário, os patroes esclarecidos logo iarn
mais submissas e pais mais devotos (Le Goff, 1985: 54). compreender, por toda a parte, que o papel essencial da escola era esse, por
mais que fosse encoberto por outros processos. Isto foi o que, do outro lado
A mesma coisa pensava o empresário Kula, o qual, em lugar de esperar do Atlantico, encontraram Horace Martn e George Boutwell quando, em 1841
que resolvessem o problema, fundou ele mesmo urna escola na rue des e 1859, interrogaram os empresários sobre o valor da educa<;:ao dos
Epinettes, Paris, com o objetivo de nela formar bons operários. Conforme trabalhadores.
seu chefe de oficina, Pradillon,
Um empresário respondeu que o conhecimento era secundário para a
Outro ponto da educa<;ao moral sobre o qual nunca se insistirá mor:alidade, e que o trabalhadores educados mostravam ''um
demasiadamente é o que concerne a obediencia e a disciplina na oficina. comportamento mais ordenado e respeitoso' '. Nos conflitos sobre o

114 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 115


trabalho, escreveu o mesmo capitalista avisado, ''sempre me dirigi aos 1818) de nao votar a ~ui.iven<;ao para a escoJa mútua apesar das ordens do
mais inteligentes, mais bem educados e mais morais e m busca de apoio' '. governado~ lemos:
Alegra-se em dizer que era "o ignorante e o nao educado (... ) o mais
turbulento e problemático'', que agia ''sob o impulso da excitar;:ao da O modo de educar;:ao atual, concretamente o seguido pelos Irrnaos
paixao e da inveja' '. A associar;:ao de virtudes era significativa: igualavam- das escoJas cristas, tarda mais em conseguir os objetivos (. .. ) , mas
-se educar;:ao, moralidade e docilidade. Se resta alguma dúvida a este oferece urna série de vantagens através da rela<;ao que tem com a
respeito, considerem-se as palavras de outro patrao, que enaltecia a educar;:ao moral, a qual nao pode ser substituída por nenhuma outra. Este
"diligencia e ( ... ) o submetimento voluntário "dos educados, os quais, ao modo de educa<;ao dirige de alguma maneira o emprego de tempo das
ganhar a confian<;a de seus colegas, exerciam ''urna influencia crianr;:as (... ) desde bastante pequenos até sua adolescencia, isto é, até
conservadora ''em momentos de problemas trabalhistas, urna influencia de que possam entrar utilmente na sociedade, com os conhecimentos
"grande valor pecuniário e moral". A escoJa primária formava homens de convenientes a sua condi<;ao e com os hábitos de ordem, docilidade,
empresa (Katz, 1971.: 33). aplicar;:ao ao trabalho, e a prática dos deveres sociais e religiosos
(Querrien, 1979: 75).
A mesma coisa, por exemplo, na Gra Bretanha, onde urna investiga<;ao
sobre as higher elementary schools em 1906 (conforme a interpretar;:ao do
Comite Consultivo), pós de manifesto que o que os patr6es queriam destas A ordem reina nas salas de aula
escoJas era que formassem neles um bom caráter e !hes imbuíssem qualidades
servis, a parte das destrezas gerais básicas (Reeder, 1981: 74). Esta enfase na disciplina converteu as escoJas em algo muito parecido aos
Numerosos educadores, especialmente entre os mais dispostos a buscar quartéis ou aos conventos beneditinos. Regularam-se todos os aspectos da
a funr;:ao ou justificar;:ao da educar;:ao em sua rela<;ao com a sociedade global em vida em seu interior, as vezes até a extremos delirantes. Dir-se-ia que os
vez de no desenvolvimento de supostas essencias inatas dos indivíduos, educadores, ou urna parte deles, enfrentavam os alunos fazendo sua a
compreenderam isto perfeitamente. E sobretudo as autoridades educacionais; observar;:ao do Gra Duque Miguel diante da tropa formada: "Está bem, mas
por exemplo, William T. Harris, Comissário de Educa<;ao dos Estados Unidos, respiram' '.
para o qual, em urna época de grande desenvolvimento urbano e industrial, Nas escoJas metodistas inglesas de princípios do século XIX, a primeira
tornava-se claro que coisa que aprendiam os alunos era a pontualidade. Urna vez entre seus muros,
a disciplina escolar assemelhava-se muito a militar:
a pontualidade, a precisao, a obediencia implícita ao encarregado ou a
direr;:ao, sao necessárias para a seguranr;:a de outros e para a produr;:ao de O Superintendente fará soar de novo a campainha, e entao a um movimento
qualquer resultado positivo. A escoJa leva a cabo isto tao bem que para de sua mao, toda a escoJa levantar-se-á a um só tempo de seus assentos; a
algumas pessoas ela !hes traz a recorda<;ao desagradável de urna máquina um segundo movimento os escolares se voltam; a um terceiro, se deslocam
(Tyack, 1974: 73). lenta e silenciosamente ao lugar designado para repetir suas lir;:oes, e entao
ele pronuncia a palavra "Come<;ai "(. .. ) (Thompson, 1967: 85).
Que o objetivo da escoJa, ao contrário de seu discurso, nao era ou havia
deixado de ser a instrur;:ao, é algo que havia sido colocado na polemica entre Pela mesma época, Bally propunha o seguinte horário para a escoJa mútua:
os métodos mútuo e simultaneo, na Franr;:a, em princípios do século XIX. A 8:45, entrada do instrutor, 8:52, chamada do instrutor, 8:56, entrada das
escoJa mútua havia mostrado ser capaz de ensinar o mesmo em menos tempo crianr;:as e ora<;ao; 9:00, entrada nos bancos; 9:04, primeira lousa, 9:08, fundo
ou muito mais no mesmo tempo, e com urna maior economia de professores. ditado, 9:12, segunda lousa, etc. (Foucault, 1976: 154). Esta organiza<;ao e
Entretanto, o tempo veio a ser, nao a variável dependente, mas a disciplina do tempo estendiam-se também ao corpo e aos movimentos. O
independente. A questao nao era ensinar um certo montante de Joumal pour l'instruction élémentaire explicava a codifica<;ao de cada
conhecimentos no menor tempo possível, mas ter os alunos entre as paredes movimento nas escoJas mútuas:
da sala de aula submetidos ao olhar vigilante do professsor o tempo suficiente
para domar seu caráter e dar a forma adequada a seu comportamento. Na Entrem em seus bancos. A palavra "entrem", as crianr;:as póem
exposir;:ao de motivos da decisao tomada pelo Conselho Geral de Calvados (em ruidosamente a mao sobre a mesa e ao mesmo tempo passam a perna por

116 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 117


cima do banco; as palavras "em seus bancos", passam a outra pema e Em 1890, Joseph Rice relatava o observado em outra escola:
sentam-se frente a su as lo usas (... ) . Pegue m as lo usas. A palavra
"peguem", as crian<;:as levam a mao direita a cordinha que serve para Durante os períodos letivos, quando os estudantes tinham que demonstrar
pendurar a lousa ao prego que está diante delas, e com a esquerda, pegam que haviam memorizado o texto, supunha-se que as crian<;:as, dizia Rice,
a lousa pela parte do meio; a palavra "lousas", as crian<;:as soltam-nas e tinham que ''alinhar-se de pé, perfeitamente imóveis, seus corpos eretos,
poem-nas sobre a mesa (Foucault, 1976: 171). seus joelhos e pés juntos, as pontas de seus sapatos tocando a borda de
um taco no chao''. A professora prestava tanta aten<;:ao a posi<;:ao das
O ensino ou instru<;:ao ficava em um obscuro segundo plano, atrás da pontas de seus pés e seus joelhos quanto as palavras de suas bocas''.
obsessao pela ordem, pela pontualidade, pela compostura, etc. O guia para o "Como vais fazer algo", perguntou urna mulher, "com teus joelhos e
trabalho dos inspetores nas escolas mútuas publicado pela Sociedade para a pontas do sapato mal colocados? "(Tyack, 1974: 55-56).
Melhoria da Instru<;:ao Elementar, na Fran<;:a, em 1817, continha vinte e oito
normas, e as treze primeiras eram:
Da auto-instru~ao a escolariza~ao
Observa-se na escola um silencio geral suficiente?
Permanece o professor suficientemente silencioso, fazendo-se obedecer Cabe ainda perguntar-se em que medida nao eram os trabalhadores e o
mediante gestos? Realiza-se a leitura realmente a meia voz? Está em movimento operário os primeiros interessados na escolariza<;:ao universal, em
ordem o mobiliário? Cumpre-se realmente a máxima: cada coisa em seu que medida nao foi a escola urna conquista operária e popular que as classes
lugar e um lugar para cada coisa? Sao suficientes a ventila<;:ao e a dominantes teriam tentado depois e ainda tentariam adulterar com mais ou
ilumina<;:ao? Tem bastante espa<;:o os alunos? É carreta a atitude dos menos éxito. Infelizmente, a historiografia existente é obra, em sua maior
alunos? Colocam claramente as maos atrás das costas durante os parte, de autores que identificam, no fundamental, a escola com o progresso
movimentos e deslocam-se marcando o passo? Estao satisfeitos os alunos? social, o que provavelmente lhes levou nao apenas a urna intepreta<;:ao
Tem os alunos as maos e os rostos limpos? Estao bem visíveis os rótulos enviesada, mas também a urna sele<;:ao igualmente enviesada dos dados
das puni<;:oes e sao utilizados? O professor amea<;:a bater as crian<;:as? históricos. Assim, o que normalmente sabemos ou lemos do movimento
Exerce corretamente o professor urna vigilancia permanente sobre o operário diante da educa<;:ao é que sempre pediu mais escolas, maior acesso as
conjunto dos alunos? (Querrien, 1979: 86-87). escolas existentes, etc. Entretanto, há informa<;:ao suficiente para levar a
pensar que, antes da identifica<;:ao da classe operária com a escola como
Nao se pense que o delirio pela ordem era privativo das escolas mútuas. instrumento de melhoria social, houve um amplo movimento de auto-instru<;:ao.
Embora sem levá-lo a tal extremo, desde antes vinham-no pondo em prática as Harry Braverman descreveu eloqüentemente em que consistia ser um
escolas lassalianas, e logo o Estado educador francés encontrarla certo gosto trabalhador qualificado antes de as hordas de Ford e Taylor irromperem na
pela ordem, algo que era ironizado por Matthew Arnold ao falar do ministro organiza<;:ao do trabalho fabril.
francés que olhou seu relógio e disse com satisfa<;:ao que, nesse momento, em
todos os liceus franceses os meninos estavam fazendo a mesma coisa (Silver, O artesao ativo (the working craftsman) estava ligado ao
1983: 86). Em fmais do século, as escolas norte-americanas apresentavam urna conhecimento técnico e científico de seu tempo na prática diária de seu
obsessao similar pela ordem, embora as vezes a ado<;:assem com música. Em ofício. A aprendizagem incluía geralmente o treinamento em matemática,
urna escola modelar de Nova York, em 1867, um comité enviado pelo conselho compreendidas a álgebra, a geometria e a trigonometria, nas propriedades
escolar de Baltimore havia observado, impressionado, que e procedencia dos materiais comuns no ofício, nas ciencias físicas e no
desenho industrial. As rela<;:oes de aprendizagem bem administradas
os deslocamentos dos grupos das salas de aula para a grande sala de proporcionavam assinaturas das revistas técnicas e econornicas que
reuniao eram regulados por pianos, dois dos quais estavam em cada urna afetavam o ofício, de forma que os aprendizes pudessem seguir os
das salas grandes. Todas as mudan<;:as [de lugar] eram realizadas avan<;:os. Mas, mais importante que o treinamento formal ou informal, era
marchando, alguns em passo normal a ritmo duplamente rápido de parada o fato de que o oficio proporcionava um vínculo cotidiano entre a ciencia e
militar (... ) . A regularidade de movimentos e m tao grande movimento de o trabalho, pasto que o artesao se via constantemente abrigado a utilizar
crian<;:as (... ) era realmente interessante (Tyack, 1974: 51). em sua prática os conhecimentos científicos rudimentares, a matemática,

118 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 119


o desenho, etc. Estes artesaos eram urna parte importante do público A esta rede formal e informal de capacitac;ao profissional e formac;ao
científico de sua época e, como norma, mostravam um interesse pela técnica e científica devem-se acrescentar as escalas de iniciativa popular, as
ciencia e pela cultura que ia além do diretamente relacionado com seu sociedades operárias, os ateneus, as casas do pavo e toda urna gama de
trabalho. Os florescentes Institutos Mecanicos, que na Gra Bretanha atividades similares que compunham um considerável movimento de auto-
chegaram a uns 1.200 e tiveram mais de 200.000 membros, estav-a.m em -instruc;ao. Boa parte do movimento operário colocou nessa rede suas
grande medida dedicados a satisfazer este interesse por meio de esperanc;as de acompanhar o ritmo do progresso e melhorar sua posic;ao social
conferencias e bibliotecas (Braverman, 1974: 133-4). e política frente as classes dominantes, quando nao de subverter radicalmente
a ordem social existente. Outra parte - a de orientac;2.o marxista - centrou
Estes mestres artesaos, oficiais e, em geral, trabalhadores qualificados suas reivindicac;oes em urna escala para os trabalhadores fmanciada mas nao
levavam seu afa cultural para além dos limites do ofício, participando gestionada pelo Estado e combinada com a incorporac;ao dos jovens na
plenamente das inquietudes culturais e educacionais de urna época produc;ao. Entretanto, a escolarizac;ao estatal ou sob a égide do Estado - e a
deslumbrada com as potencialidades de um saber em rápido desenvolvimento influencia mais ou menos direta dos industriais - lago ganhou a partida deste
e apegada a fé no progresso. Assimilavam a cultura de outros grupos sociais e movimento de auto-instruc;ao.
irradiavam-na eles mesmos para o exterior de seu próprio grupo. Na Inglaterra, a derrota do cartismo acarretou a desaparic;ao das iniciativas
operárias no campo da educac;ao, durante as décadas de 1830 e 1840 (Sharp,
Todos os distritos de tecedores tinham seus tecedores poetas, 1980: cap. V). Na Franc;a, as ·leis Ferry elirninaram qualquer espac;o para
biólogos, matemáticos, músicos, geólogos, botanicos (... ) . Ainda existem possíveis alternativas (Ligue Communiste Révolutionnaire, 1974: 54). Na
no Norte museus e sociedades de história natural que possuem fichários Espanha, este movimento teve sempre urna vida nao muito animada e sofreu
e colec;oes de lepidópteros realizados por tecedores; contam-se histórias sua maior derrota como corolário da Semana Trágica (Solá, 1976). Fator
de tecedores nas aldeias afastadas que aprendiam sozinhos geometría importante dessa substituic;ao foi, sem dúvida, a ingenua conflanc;a do
escrevendo com graveto no solo e que discutiam entre si os problemas do movimento operário nas virtudes reformadoras e progressistas da educac;ao
cálculo diferencial (Thompson, 1977: II, 156-7). em geral.

O próprio domínio de seu ofício levava-os, com freqüencia, mais longe do


que nossa imagem de "Joao, o Bom "nos permitirla supor. Além de suas A assimilas:ao fors:ada
habilidades práticas, desenvolviam seus conhecimentos teóricos na medida das
possibilidades de seu contexto e de sua época, entao nao tao cingidas a escala. O processo de industrializac;ao dos Estados Unidos oferece urna
experiencia incomparável para a análise da assimilac;ao da populac;ao as novas
Ainda mais impressionante era a preparac;ao teórica desses homens relac;oes industriais por meio da escala. Nele se combinaram a industrializac;ao
(os artesa os durante a revoluc;ao industrial, MFE). E m geral, nao eram os mais avanc;ada e a chegada de sucessivas levas de irnigrantes nao habituados ao
remend6es iletrados da mitologia histórica. Mesmo o maquinista trabalho industrial. Se os pioneiros ingleses vinham já com a experiencia da
(millwright) ordinário, como o faz notar Fairbairn, era, em geral, "um vida industrial e o estímulo da moral puritana, nao foi esse o caso dos
bom aritmético, sabia algo de geometría, nivelamento e medic;2.o e, em irlandeses, dos milh6es de camponeses procedentes do Leste e do Sul da
alguns casos, possuía conhecimento muito preciso de matemática prática. Europa, nem dos negros.
Podia calcular a velocidade, resistencia e potencia das máquinas, podia A escala foi o mecanismo principal de sua "americanizac;ao", com o
desenhar em plano e em sec;ao... "Grande parte desses ''feítos e encargo de apagar seu passado, suas tradic;oes culturais e sua língua,
potencialidades intelectuais elevados "refletiam as abundantes convertendo-os em cidadaos da nova pátria. Foi, além disso, o centro da
oportunidades para a educac;ao técnica em "povoados "como Manchester, estratégia defensiva de urna comunidade "nativa "- os verdadeiros nativos
que iam desde as academias dissidentes e sociedades ilustradas até os estavam já nas reservas, mas os descendentes dos primeiros ocupantes
conferencistas locais e visitantes, as escalas privadas ''matemáticas e ingleses gostavam de chamar-se a si próprios de native Americans -
comerciais "com aulas vespertinas e urna ampla circulac;2.o de manuais alarmada por urna promiscuidade de línguas e culturas que ameac;ava sua
práticos, publicac;oes periódicas e enciclopédias (Landes, 1969: 63). suposta identidade e suscitava medos similares aos da at11'1 1 "inseguranc;a
cidada". Mas essa mesma comunidade nao deixz··a de estar muito consciente

120 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 121


de que sua posic;ao privilegiada continuava dependendo da imigrac;ao rnaci<;a de escolares sao mais baratos que os cárceres "e que "os professores e os livros
mao de obra barata, motivo pelo qual nao restava outro remédio senao mover oferecem mais seguranc;a que as esposas e os agentes de polícia "(Gurrnan,
todas as alavancas possíveis para assimilar um fluxo que nao se podia evitar. 1976: 73). Depois das greves de 1877, o Comissário de Educac;ao dos Estados
Em particular, era necessário, como vimos em um capítulo anterior, erradicar Unidos concluía que
os irregulares hábitos de trabalho das populac;oes imigrantes e substituí-los por
outros mais adequados as necessidades da indústria em rápido crescimento. o capital, por conseguinte, deverá pesar os custos da turba e do vagabundo
Aqui, como em nenhum outra parte, a escola iria exercer o papel de socializar contra o custo de urna educac;ao universal e suficiente (Tyack, 1974: 74).
as gerac;oes jovens para o trabalho assalariado.
A preocupac;ao primária era habituar os recém chegados e seus filhos a A populac;ao negra emancipada, que reunia a dupla condic;ao de ser
pontualidade e regularidade ou, de forma mais geral, a organizac;ao do tempo proletariado potencial e pertencer a urna rac;a considerada inferior, deu a alguns
exigida pela indústria. Em meados do século XIX, os comites escolares viviam reformadores escolares a oportunidade de pór em prática suas idéias sobre a
obcecados pela tarefa de instilar nas crian<;as - e em seus pais - um sentido formac;ao para o trabalho industrial sem ter que conservar a incómoda
do tempo - capitalista ou industrial - cuja carencia tornava-se patente em sua roupagem da educac;ao para urna sociedade livre e democrática. Arrancados há
irregular freqüencia a escola e em sua impontualidade (Katz, 1971: 32). nao muito tempo de urna economia de subsistencia e apenas habituados, a
Em um folheto muito difundido de 1874, The theory of education in the maioria, ao trabalho rnais regular das plantac;oes de algodao ou as func;oes
United States of America, escrito por Harris e Doty, duas figuras da domésticas servis, emigravam em massa para o Norte industrializado e eram
educac;ao, e assinado por setenta e sete presidentes de centros universitários vistos como a base idónea - a mao de obra excepcionalmente barata - da
e superintendentes escolares dos estados, apontava-se que necessária industrializac;ao do Sul.
O mito do negro preguic;oso e incapaz de organizar sua vida sem a ajuda
a precisao militar é necessária para o manejo das classes escolares. Insiste- do branco persistia. Para J. L. M. Curry, presidente - branco, naturalmente
-se enormemente 1) na pontualidade, 2) na regularidade, 3) na atenc;ao e - da Segunda Conferencia para a Educac;ao no Sul, o negro era ''u m
4) no silencio como hábitos necessários ao longo da vida para a trabalhador estúpido, indolente e va dio'', ''um obstáculo para a riqueza e o
colaborac;ao eficaz com os próprios companheiros em urna civilizac;ao desenvolvimento do Sul "(Anderson, 1975: 31), e por isso devia ser educado.
industrial e comercial (Tyack, 1974: 50). Em urna versao mais sofisticada, o negro devia sua escassa propensao para o
trabalho ao fato de que se tinha contagiado pelo desprezo que pelo mesmo
Ao entrar no século XX, a Comissao de Imigrac;ao da Califórnia distribuía nutriam seus pseudo-aristocráticos amos brancos, os latifundiários sulistas.
entre as donas-de-casa dos lares imigrantes um folheto que, além de expli- Se já nao se podia utilizar o chicote, devia-se recorrer a escola. Qualquer
car-lhes que as janelas, os cestos de lixo, etc., deviam estar limpos, encare- coisa antes que perder o controle da mao de obra negra por causa da
cia-lhes que enviassem seus f!lhos asseados e pontualmente a escola: emancipac;ao, pois fazer o contrário seria desperdic;ar alguns preciosos
recursos. George Foster Peabody, outro prestigiado reformador da educac;ao,
Nao deixe que seu fJ.lho chegue tarde. Se o faz, quando crescer escrevia a um amigo:
chegará tarde a seu trabalho. Entao perderá seu emprego e será sempre
pobre e miserável (Tyack, 1974: 236). Nao tenha a menor dúvida de que se o milhao de negros (... ) fosse
corretamente educado (... ) valeria em dólares e centavos tres vezes seu
Pouco depois, em 1916, David Snedden, Comissário de Educac;ao do valor atual. Se isto é certo, como estou absolutamente seguro que é, e
Estado de Massachusetts e um dos principais especialistas nacionais em urna vez que as propriedades do estado da Georgia pertencem em grande
educac;ao industrial advogava a substituic;ao da curta e "suave "jornada escolar medida a rac;a branca, nao seria o benefício para a rac;a branca, sob os
tradicional por urna ajustada as condic;oes industriais reais, isto é, a aplicac;ao atuais métodos de distribuic;ao, incalculável em dólares e centavos e urna
nas escolas do horário de trabalho da indústria (Rodgers, 1978: 85). muito maior tranqüilidade, vida pacífica e harmonia de consciencia para o
Em termos mais gerais, a escola aparecia como a melhor soluc;ao para cidadao branco que governa? (Anderson, 1975: 32).
todas as resistencias individuais e coletivas as novas condic;oes de vida e
trabalho ou, ao menos, como a mais prudente e barata, a soluc;ao preventiva. A partir dessa perspectiva fundou-se urna rede de escolas para negros. Os
Assim acreditava John L. Hart quando, em 1879, escrevia que ''os edifícios reformadores brancos selecionaram entre eles os mais dispostos a propagar

122 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 123


sua mensagem e converteram-nos em líderes educacionais perante seu povo - crime para qualquer professor, branco ou negro, educar o negro para
embora, é claro, nao lhes tenham permitido sentar nos mesmos conselhos e posic,:ües que nao estao abertas para ele (Anderson, 1975: 38-9).
conferencias que eles, nem lhes pagaram da mesma forma que aos
especialistas brancos. A recordac;:ao recente da escravidao tomava mais
aconselhável para os brancos este sistema de selec,:ao de negros com alma A obsessao pela eficiencia
branca que urna atuac;:ao direta e sem intermediários de sua parte. Por outro
lado, os negros tampouco queriam enviar seus fllhos para serem educados por A rudimentariedade da organizac,:ao das escalas e dos processos
professores brancos cujo primeiro ato provavelmente haveria de ser o de educativos correspondia a rudimentariedade da organizac,:ao dos processos
explicar-lhes sua inferioridade congenita e inevitável. produtivos do século XIX. Quando a produc;:ao fabril - e, embora em menor
O Instituto Agrícola e Normal de Hampton, considerado modelar em sua medida, a de servic,:os - foi submetida a urna profunda revisao cuja parte mais
época, era um bom exemplo de como se enfocava a educac;:ao dos negros. Nele visível foram as idéias da gestao científica do trabalho de F. W. Taylor, as
se formaram desde o último terc,:o do século XIX numerosos professores escalas nao tardaram em ligar-se a roda da indústria. Como antes, as empresas
destinados inevitavelmente as escalas primárias para crianc,:as negras. Tanto apareciam ante o público bem pensante em geral, e ante os reformadores da
em Hampton quanto em outras escalas normais negras os professores eram educac,:ao em particular, como o paradigma da eficiencia. O mundo empresarial
educados fundamentalmente através dos trabalhos manuais, já que era essa a tinha e tem a virtude de que &penas deixa ver o que sobrevive; ocultam-se a
formac;:ao que deviam transmitir depois a seus alunos negros. O programa de vista, sem necessidade de esforc,:o algum, seus múltiplos fracassos e quebras
Hampton era composto de ensino academice, trabalho manual e disciplina. Mas ou sua capacidade para monopolizar as empresas rentáveis ao mesmo tempo
o central era o trabalho, pois a parte academica consistia essencialmente nas que deixa para o setor público as arruinadas, o que subsidiaramente permite
destrezas literárias básicas para um professor e na defesa de urna atitude comparac,:óes superficiais nas quais aquelas saem necessariamente em
adequada para com o trabalho, e a disciplina exercia-se em grande parte vantagem em comparac,:ao com este. As empresas aparecem como as
através deste. Tal o como o indicou lapidarmente Anderson (1982: 137): organizac,:óes que com maior eficácia enfrentam satisfatoriamente as
necessidades de seus clientes, por um lado, e o problema da gestao de
Em Hampton e em outras escalas industriais normais desenvolviam- contingentes importantes de pessoas, por outro.
-se atividades de trabalho manual rotineiras e repetitivas com o propósito No contexto da carreira obsessiva e do domínio geral do discurso pela
de condicionar os candidatos a professores a servirem como missionários eficiencia, as escalas, através de mais ilustres reformadores inspirados no
da ética puritana do trabalho nas comunidades negras do Sul. mundo da empresa, importaram seus princípios e normas de organizac,:ao de
forma extremada em ocasioes delirantes, mas sempre com notáveis
O negro devia ser preparado para integrar-se no lugar que lhe havia conseqüéncias para a vida nas salas de aula. Logicamente, este processo teve
reservado o branco: o trabalho industrial menos qualificado, mais mal pago lugar em primeira instancia e sobretudo nos Estados Unidos, mas estendeu-se
e mais duro. Tudo isso sem interferir, entretanto, na vida social e política por toda parte grac,:as a dinamicas autónomas similares, embora com menor
da comunidade branca nem tentar escapar a sua posic,:ao. William H. forc,:a e, em especial, grac,:as a difusao universal dos modelos e teorias
Baldwin, outro ilustre reformador sulista, presidente do Conselho Geral de educacionais nascidos na nova metrópole do sistema capitalista mundial.
Educac,:ao, resumía sucintamente, em princípios deste século, suas Taylor havia proposto para a indústria, como se viu em um capítulo
recomendac,:oes sobre a educac,:ao dos negros (os alunos dos institutos, isto anterior, um sistema de organizac;:ao baseado no controle absoluto de produtos
é, os selecionados com o propósito de obter líderes dóceis aceitados pela e processos de produc;:ao pelo empresário ou seus representantes, os
comunidade de cor!): gerentes, que se traduzia, para os trabalhadores na padronizac,:ao e na
rotinizac,:ao ao máximo de suas tarefas. Tudo isto vem, além disso, revestido
Evitai as questóes soc1a1s; deixai estar a política; continuai sendo por urna preocupac,:ao crescente por controlar detalhadamente cada dólar gasto
pacientes; levai vidas morais; vivei de maneira simples; aprendei a ou ganho e aquilatar até o limite os custos de produc,:ao. Esta dupla obsessao
trabalhar e a trabalhar de maneira inteligente; aprendei a trabalhar com pela gestao do dinheiro e dos recursos humanos foi introduzida nas escolas
dedicac,:ao; aprendei a trabalhar duro; aprendei que qualquer trabalho, por através de reformadores como Spaulding, Bobbitt ou Cubberley.
baixo que seja, torna-se dignificado se é bem feito; ( ... ) aprendei que é um Em primeiro lugar, as escalas deviam reconhecer a lideranc,:a do mundo
erro ser educados fora de vosso necessário ambiente; aprendei que é um empresarial. Os reformadores proclamavam o dever das escalas de servir a

124 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 125


comunidade para, ato contínuo, confundir esta com as empresas. Além disso, etc. Tudo isto, obviamente, sem prestar nenhuma aten<;ao ao contexto social
os interlocutores das empresas nao eram, claro está, o reparador hidráulico da ou as peculiares características pessoais ou grupais dos alunos. Aventurou-se
esquina nem o assalariado da grande fábrica, mas os porta-vozes naturais do a estimar o valor relativo e absoluto das diferentes rnatérias, concluindo, por
dinheiro, os grandes capitalistas, os proprietários dos monopólios industriais. exemplo, que um dólar permitia proporcionar 5,9 aulas de grego por aluno, 23,8
Estes, por sua vez, tinham compreendido a irnport;:mcia da educa<;ao, como o de francés, 12 de ciencias, 19,2 de ingles, 13,9 de arte ou 41,7 de música vocal
demonstra claramente o ativo papel desempenhado nesta pelas funda<;6es (Callahan, 1962: 73). Dólar por dólar, prop6s, em conseqüencia, a supressao
erigidas por personagens como Rockefeller, Carnegie ou Ford. do caríssirno grego (um sábio conselho, porém carente de melhores razoes).
Bobbitt, por exemplo, estava convencido de que, <>ssirn como as Franklin Bobbitt defendeu a introdu<;:ao do taylorismo na organiza<;ao do
especifica<;6es para a fabrica<;:ao de um trilho de a<;o era1~1 formuladas pela processo educacional, a partir de quatro princípios: 1) fixar as especifica<;6es
empresa ferroviária que o encomendava, e nao podiam vir da siderurgia que o e padr6es do produto fmal que se deseja (o aluno egresso); 2) fixar as
construía, os padr6es e especifica<;6es do processo educacional, que era ''u m especifica<;6es e padr6es para cada fase de elabora<;:ao do produto (rnatérias,
processo de elabora<;ao na mesma medida que a fabrica<;:ao de trilhos de a<;o' ', anos académicos, trimestres, dias ou unidades letivas); 3) empregar os
deviam ser fixados pela sociedade. Bobbitt considerava chegado o dia em que métodos tayloristas para encontrar os métodos mais eficazes a respeito e
os produtos da educa<;ao podiam ser ministrados com a mesma precisao dos assegurar que fossem seguidos pelos professores; 4) determinar, em fun<;ao
da indústria, pois, na última década (a prirneira deste século), os educadores disso, as qualifica<;oes padronizadas exigidas dos professores; 5) capacitá-los
em consonancia com isso, ou colocar requisitos de acesso tais que for<;assem
haviam chegado a ver que é possível proporcionar padroes defmidos para- as institui<;oes encarregadas disso a faze-lo; 6) erigir urna forma<;ao
os diversos produtos educacionais. A capacidade de sornar a urna permanente que mantivesse o professor a altura de suas tarefas durante sua
velociade de 65 combina<;oes por minuto com urna precisao de 94 por permanencia no trabalho; 7) dar-lhe instru<;oes detalhadas sobre como realizar
cento é urna especifica<;:ao tao defmida quanto a que se pode proporcionar seu trabalho; 8) selecionar os meios materiais mais adequados; 9) traduzir
para qualquer aspecto do trabalho na planta siderúrgica (Callahan, 1962: todas as tarefas a realizar em responsabilidades individualizadas e exígiveis; 10)
81). estimular sua produtividade mediante um sistema de incentivos; e ll) controlar
permanentemente o fluxo do ''produto parcialmente desenvolvido' ', isto é, o
O deslocamento das demandas da comunidade para as exigencias da aluno (Bobbitt, 1913: II, ll-96).
indústria em termos de mao de obra nao era acidental, nem devido Ellwood P. Cubberley esfor<;ou-se por introduzir nas escolas a figura
simplesmente a maior facilidade de buscar exemplos na indústria, em correspondente ao especialista em organiza<;ao do trabalho que o taylorismo
compara<;ao com a familia, ou a maior facilidade de medir a capacidade de havia trazido consigo, o especialista em eficiencia. "Por acaso supoe-se que os
sornar que a estatura moral. Já em 1913, um superintendente escolar, de moto- educadores sao tao competentes'', perguntava-se, ''que seus métodos nao
-próprio ou inspirado por seus líderes reformadores, afirmava perante seus pode m ser melhorados? "(Callahan, 1962: 96). O especialista deveria es tu dar
colegas da National Educational Association que todas as fases do processo educacional, as necessidades da sociedade e da
indústria, o estado do produto (o aluno) nas distintas fases, a eficácia dos
urna vez que a escola é mantida pelo público ou pelos interesses das distintos métodos, a rela<;ao entre custos e eficiencia, etc., e fornecer, com
empresas, e em realidade existe só para o propósito de formar homens e base nisso, os dados e conclus6es pertinentes as autoridades escolares e ao
mullieres de empresa do futuro, é evidente que deveria haver urna perfeita público. Assim se abria caminho para os estudos sobre o emprego do tempo,
harmonia entre as autoridades escolares e os interesses das empresas a onipresen<;a dos testes, a avalia<;ao da eficácia dos professbres, etc. Os
(Callahan, 1962: 227-8). professores avaliariam os alunos, os superintendentes os professores, os
professores - ocasionalmente - os superintendentes, etc.
O movimento de reforma da educa<;:ao foi abrangente. Frank Spaulding A paixao por imitar e servir as empresas chegou ocasionalmente a
personificou melhor que ninguém a introdu<;ao da análise de custo-benefício extremos grotescos. Entre 1915 e 1922 organizou-se urna campanha entre as
em termos de produ<;ao escolar. Ele prop6s que se avaliasse o produto das escolas primárias para ensinar as crian<;:as a frugalidade, pondo-se em
escolas com medidas tais como a propor<;ao de jovens de determinada faixa de funcionamento pequenas caixas económicas nos colégios. U m professor
idade nela matriculados, os dias de freqüencia por ano, o tempo necessário por publicou no Journal of Education um "alfabeto da economia "de sua
aluno para realizar um determinado trabalho, a porcentagem de promo<;6es, inven<;ao, com pérolas inigualáveis: B de banco", "D de dólar", "J de juro "e

126 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 127

,[
outras virlte e tres assoe1ac;oes entre as letras e as preocupac;oes de novas matérias ou sucessivos passos de aproximac;ao aos interesses da crianc;a
vendedores e contadores, cuja relac;ao completa pouparemos aos leitores ou a pedagogia científica - que, naturalmente, sempre é a última, seja a de
(Callahan, 1962: 228). O superintendente de Lincoln, Nebraska, ideou Comenio ou a de Skinner. Pode-se acrescentar a receita, claro está, urnas
juntamente com um empresário e elaborou, para entregá-la a outros que a gotinhas de mudanc;a: os pedagogos já nao sao escravos mas urna
solicitassem, urna "lista de eficiencia "dos meninos, para ingressar na qual semiprofissao, o currículo já nao está formado pelo trivium e o quadrivium
eram exigidas as seguintes características: e, onde antes se dizia "disciplina "agora se diz "disposic;ao para cooperar".
Mas que conexao ou que continuidade pode existir entre a rela<;ao de
1) 14 anos idade; 2) Bom caráter, demonstrado por: veracidade; Aristóteles com seus discípulos e a do mestre de oficina com os alunos de
obediencia; laboriosidade (industry); bons hábitos (Nota: Nao será forma<;ao profissional, entre a maieutica socrática e o reforc;o
elegível nenhum menino que fume ou beba); 3) Conhecimento de Lincoln comportamentalista, entre as escolas episcopais da Idade Média e os institutos
e sua relac;ao com Nebraska; 4) Capacidade de escrever urna boa carta secundários de hoje? Na hora de destacar o que deve mudar na escola pode ser
com~rcial; 5) Capacidade de expressar-se de maneira cortes, mas muito interessante assinalar coincidencias ou, o que dá no mesmo, os
conc1samente e na linguagem dos negócios diante de seu empregador e arcaísmos, mas aí termina a utilidade. Pode ser que nosso ensino de f!losofia
seus associados na empresa; 6) Capacidade de realizar as quatro pura continue ainda, em boa medida, enredado na problemática de ontem, mas
operac;oes fundamentais e frac;oes simples (... ) . O Clube do Comércio e as é muito maior o número de coisas que mudaram do que o das que
autoridades escolares pediram aos empresários sugestoes sobre as permanecem. E, o que mais importa, nao houve mudanc;a num sentido
qualificac;oes desejáveis nos jovens que se empregam (Callahan, 1962: cumulativo, nem sequer evolutivo, mas em um sentido radical. Pense-se, por
229-30). exemplo, nas universidades medievais e nas de hoje: naquelas, os estudantes
elegiam, sem a participa<;ao dos professores a seu servic;o, o reitor, o qual, no
protocolo urbano, precedía o cardeal, podiam assistir armados as aulas e
Desmistificar a história da escola multar ou sancionar de alguma outra forma os professores que nao cumpriam
adequadamente suas obrigac;oes; nas atuais, carecem de qualquer poder ou
A história da educac;ao ocidental, tal como se apresenta neste livro, tem-no reduzido a urna participac;ao irrelevante, sempre em minoria e sem
comec;a com as primeiras tentativas educacionais dos gregos alguns séculos nenhuma capacidade de influir sobre o corpo docente. Mais que urna evolu<;ao,
antes de Cristo, e chega até os inícios da pedagogía científica no século XX. a história da educac;ao é a de urna sucessao de revoluc;oes e contra-revoluc;oes.
Essencialmente é o registro de urna evolu<;ao. Revela como nossas próprias Os primeiros sistemas escolares que surgem na história do Ocidente tem
práticas e opinioes se formaram paulatinamente com o transcurso dos séculos, pouco a ver com a economia, respondendo antes a fatores e fms políticos,
e enlac;a passado e presente como aspectos de urna vida em permanente religiosos ou militares. A primeira parte desta afirma<;ao nao deve ter nada de
desenvolvimento, cuja etapa atual nos pertence (Boyd e King, 1977: 9). surpreendente, se se toma em considerac;ao que, até o irúcio do processo de
industrializac;ao, quase todas as pessoas aprendiam a fazer seu trabalho
Assim comec;ava o prefácio a primeira edic;ao, em 1921, de The History fazendo-o. A ·grande maioria, os camponeses, aprendiam, sem necessidade
of Western Education, de Wiliam Boyd, atualizada por Edmund ]. King em sequer de sair da esfera doméstica, constituída por unidades económicas
1964, quando era "já um clássico em seu genero". Mas pode-se afirmar quase autosuficientes. E urna pequena minoria por caminhos de um alcance um
realmente que a educac;ao "comec;a "e "chega", que seguiu "urna evoluc;ao", pouco maior, como os candidatos a artesaos em seu périplo como aprendizes
que tenha feíto algo "paulatinamente "ou que sua história tenha sido algo e oficiais, mas sem necessidade de recorrer a mecanismos alheios as próprias
parecido a um "permanente desenvolvimento"? Com freqüencia o instituic;oes produtivas, embora transcendessem a unidade doméstica de
investigador social é vítima de um fetichismo das palavras que o leva a nao ver orige m.
seu diferente significado em diferentes contextos espaciais e temporais, em Os primeiros anúncios de sistema escolar foram o produto dos impérios:
parte por ignorancia e em parte por puro etnocentrismo. A educa<;ao é um o Baixo lmpério romano e o Império carolingio. Tem-se querido ver no
campo de cultivo privilegiado deste tipo de equívocos. Urna vez que na Grécia primeiro caso a continua<;ao de urna suposta mas indemonstrável escola dos
já havia "academias", "escolas "e "pedagogos", por exemplo, pode-se romanos e, no segundo, os frutos do "pequeno Renascimento". As coisas sao
imaginar a história da educa<;ao ocidental como um continuum no qual muito mais simples: ambos eram impérios burocráticos que necessitavam para
simplesmente se vao acumulando horas e dias de aula, crianc;as escolarizadas, seu próprio funcionamento e sua reprodu<;ao de urna caterva de escribas e

128 A Face Oculta da Escala 129


Mariano Fernández Enguita
funcionários, conhecedores, ao menos, da leitura e da escrita e dos quatro paredes da escola. Este argumento poderla ser ampliado tendo-se em
rudimentos das leis. Algo disto, mas nao só isso, houve também na forma<;ao con_ta a existencia do setor público nas economias nacionais capitalistas ou
do sistema escolar estatal - os ensinos secundário e superior - napoleónico. assmalando as semelhan<;as morfológicas e funcionais entre as escalas do
A burocracia, afma!, que deve em parte sua fun<;ao e sua legitimidade ao capitalismo ocidental e as dos sistemas burocráticos dos países do Leste, mas
monopólio de um tipo de saberes, necessita do sistema escolar para sua isto nao acrescentaria nada de essencialmente diferente ao que aqui se
reprodu<;ao. pretendeu demonstrar.
Outros sistemas escolares surgiram principalmente no calor das lutas Por que o capitalismo foi tao capaz de dar forma a escolariza<;ao é algo
religiosas. Isto é certo, quando menos, para os estados alemaes da época da relativamente fácil de compreender. Em primeiro lugar, as grandes empresas
Reforma protestante - e, como rea<;ao, para os católicos, por exemplo a capitalistas sempre exerceram urna grande influencia sobre o poder político,
expansao do ensino dos jesuítas -, para a Escócia e para um grande número quando nao foram capazes de instrumentalizá-lo abertamente. Em segundo
de escalas inglesas criadas como arma na luta entre as seitas e as lugar, além das autoridades públicas foram apenas os "filantropos "recrutados
denomina<;oes. Em geral, para o protestantismo nao há outro intermediário ou auto-recrutados entre as fileiras do capital os que puderam prover de fundos
entre a pessoa e Deus senao as Sagradas Escrituras, o que exige, e exigiu um grande número de iniciativas privadas e, de preferencia, como é lógico, as
naquele momento, que todos fossem capazes de le-las. Por outro lado, os que mais se ajustavam a seus desejos e necessidades. Em terceiro lugar, os
reformadores religiosos, mais que ninguém, nao ignoravam o enorme poder supostos beneficiários das escalas ou os que atuavam em seu nome sempre
doutrinador da escola. viram estas, essencialmente ou em grande medida, como um caminho para o
A forma<;ao dos estados nacionais modernos foi outro desencadeador da trabalho e, sobretudo, para o trabalho assalariado, aceitando, por consegüinte,
expansao do ensino. Os novos estados nacionais reuniram dentro de algumas de boa ou má vontade, sua subordina<;ao as demandas das empresas. Em
fronteiras únicas, sob um poder e algumas leis comuns e através de urna só quarto lugar, as escalas, como organiza<;oes que sao, tem elementos em
língua, pavos que pouco antes nao cessavam de guerrear entre si, com comum com as empresas que facilitam o emprego das prirneiras como campo
costumes, leis e línguas diferentes e bastante alheios a idéia da unifica<;ao de treinamento para as segundas. Em quinto lugar, as empresas sempre
nacional. A tarefa era ideal para a escola e a ela foi atribuída em primeiro lugar. apareceram na sociedade capitalista como o paradigma da eficiencia e gozaram
Este motivo pode ver-se claramente nos processos de forma<;ao da na<;ao sempre de urna grande legitimidade social, seja como institui<;oes desejáveis
alema ou espanhola. No mesmo sentido deve-se interpretar o ou como institui<;oes inevitáveis - exceto em alguns períodos de agita<;ao
empreendimento de assimila<;ao das sucessivas levas de irnigrantes aos social, os mesmos em que também se viram questionadas as escoJas -,
Estados Unidos da América ou, depois da Revolu<;ao de Outubro, na l}niao convertendo-se assim em um modelo a imitar para as autoridades
Soviética, ou, para mudar de hemisfério, o papel da escala nas na<;oes da Africa educacionais. E, em último lugar, mas nao por sua importancia, convém
negra e do Oriente Médio. recordar que as escoJas de hoje nao sao o resultado de urna evolu<;ao nao
Ao lado dessas causas está também a que todo mundo sabe: a necessidade conflitiva e baseada em consensos generalizados, mas o produto provisório de
de dominar urna certa quantidade de conhecirnentos e destrezas para urna longa cadeia de conflitos ideológicos, organizativos e, em um sentido
desenvolver-se em qualquer trabalho ou fora dele em urna sociedade amplo, sociais.
industrializada e urbanizada. Efetivamente, desde o momento em que a Entretanto, a maior parte da historiografia da escoJa, elaborada geralmente
aprendizagem do trabalho e da vida social já nao é possível diretamente ou, ao por escolares já crescidos mas que raramente sairam dos claustros da
menos, exclusivamente, no próprio local de trabalho - sobretudo a prirneira - institui<;ao, tendeu a basear-se na mera análise da evolu<;ao do discurso
é preciso voltar-se para a escala (mas também para outras institui<;oes, velhas pedagógico, da sucessao de escalas modelares através das épocas ou da
ou novas, como a familia e os meios chamados de comunica<;ao de massas) evolu<;ao de cifras agregadas que agrupavam sob epígrafes comuns realidades
para que desempenhe tal fun<;ao. nao acumuláveis nem comparáveis. Por outro lado, é bem sabido que a história
Por conseguinte, torna-se claro que as escalas antecederam o capitalismo é escrita pelos vencedores, que nao gostam de mostrar a roupa suja: sempre
e a indústria e continuaram desenvolvendo-se com eles, mas por razües a eles é mais conveniente apresentar a história da escala como um longo e frutífero
alheias. Entretanto, pode-se afirmar que, desde um certo momento de caminho desde as presumidas misérias de ontem até as supostas glórias de
desenvolvimento do capitalismo que seria tao difícil quanto ocioso datar, as hoje ou de amanha que, por exemplo, como um processo de domestica<;ao da
necessidades deste em termos de mao de obra foram o fator mais poderoso a humanidade a servi<;o dos poderosos. A verdade, dizia Hegel, é revolucionária.
influir nas mudan<;as acorridas no sistema escolar em seu conjunto e entre as

Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 131


130
5

O CREPÚSCULO DO MITO
EDUCATIVO: DA ANÁLISE
DO DISCURSO A ANÁLISE
DAS PRÁTICAS ESCOLARES

Embora a prática da educayao tenha estado sempre dominada por


considera<;óes muito mais prosaicas, como esperamos haver fundamentado
suficientemente no capítulo anterior, sua teoria tem estado quase sempre, e
continua sendo em grande medida, dominada pela convicyao de que seu
objetivo e seus meios eram e sao somente as idéias.
Tudo no desenvolvimento cotidiano da relayao pedagógica leva a pensar
assim. O discurso do professor, o conteúdo do livro-texto, a memória ou a
capacidade de raciocínio do aluno sao manifesta<;óes de idéias, isto é, de dados
e configura<;óes e interpreta<;óes articuladas dos mesmos. As demais coisas
que ocorrem ou deixam de acorrer na escola apresentam-se diante dos olhos
dos agentes do processo educacional como subsidiárias, colaterais e
contingentes ao núcleo do processo de ensino e aprendizagem, por um lado e,
por outro, como inevitavelmente derivadas das determina<;óes devidas a
organiza<;ao coletiva do ensino ou da própria atividade de aprender ou,
quando menos, como solu<;óes pragmáticas cuja discussao nao merece muita
aten<;ao.
Esta representayao tem outra fonte nos diferentes ritmos de mudan<;a das
realidades escolares. Todo professor já mudou o conteúdo de suas aulas, viu
serem substituídos alguns programas ou grupos de matérias por outros e

A Face Oculta da Escola 133


empregou diferentes textos ou materiais didáticos, tudo isso repetidas vezes. tivesse aplicado a análise da ideología - das idéias em geral - um enfoque
Entretanto, apenas algurnas gera<;:oes viveram diretamente transforrna¡;:oes materialista muito antes de ter urna concep<;:ao acabada da própria realidade
como a passagem da escola unidocente a seriada, da instru<;:ao individualizada material - como o demonstra o fato de seus textos sobre a ideología
a simultanea ou da escola dominical a de cinco dias por semana, para citar antecederem suas análises económicas -, o marxismo foi incapaz, durante
apenas algurnas das mais espetaculares. muito tempo, de efetuar urna análise materialista da educa<;:ao.
Por outro lado, o campo do discurso escolar presta-se mais a inciativa Esta foi tratada até duas décadas atrás como urna mera questao de idéias.
pessoal do professor que o das práticas escolares, configurando o primeiro Poucos autores marxistas ocupavam-se da educa¡;:ao, já que esta era relegada
urna área de variabilidade, decisao pessoal e autonomia, enquanto o segundo ao campo das "superestruturas", isto é, das facetas da vida social que, em
apresenta-se como um campo cuja organiza<;:ao está dada de antemao. É muito urna concep<;ao mecanicista do materialismo, nao mereciam aten¡;:ao por si
fácil saltar um ou vários ternas de um programa e acrescentar outros que nao mesmas urna vez que nao podiam ser transformadas antes de transformar a
estavam previstos, comprimir uns e enriquecer outros ou mudar o enfoque de "infraestrutura" ou a "estrutura" e mudariam por si mesrnas urna vez
qualquer deles. Entretanto, é muito difícil alterar realidades como a conseguido isto. Se o marxismo disse algo sobre a educa<;:ao depois de Marx
organiza<;:ao individualista do trabalho dos alunos, a avalia<;:ao quantitativa de e antes da apari<;:ac das correntes relativamente recentes que logo
seu rendimento ou, simplesmente, o horário letivo. comentaremos, nao foi porque algum teórico marxista generalista tenha
Ademais, a enfase na educa¡;:ao como um intercambio de inforrna¡;:oes e concedido alguma importancia ao tema, mas antes porque nao faltaram
idéias devolve ao professor urna imagem de si mesmo muito mais gratificante educadores que, sem deixar de se-lo, incorporaram-se ao campo do marxismo
que a aten<;:ao a prática escolar. É muito mais agradável ver-se a si mesmo (Krupskaya, Hoernle, Freinet, etc.).
como alguém que descobre o mundo ou o saber para as crian¡;:as e jovens, Dir-se-ia que, durante muito tempo, o marxismo havia vivido, no que
ou que esclarece suas cabecinhas imaturas que, se o que argumentamos concerne a educa<;:ao - e a outras ''superestruturas'' - dominado por urna
neste livro é total ou parcialmente certo, ver-se como quem prepara as afirma<;:ao parcial e circunstancial de Marx e Engels:
condi<;:oes para a a¡;:ao eficaz do capataz ou poupa trabalho a juízes e poli-
da. As idéias da classe dominante sao as idéias dominantes em cada
Finalmente, a escola é raramente estudada desde fora. A imensa maioria época; ou, dito em outros termos, a classe que exerce o poder material
dos investigadores e analistas da escola sao (somos) produto exclusivo da dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual
mesma. Ne la permanecemos ao alcan<;ar a vida adulta por haver apreciado dominante. A classe que tem a sua disposi<;:ao os meios para a produ<;ao
altamente sua fun¡;:ao de transmissao, aprendizagem e intercambio de idéias a material dispoe com isso, ao mesmo tempo, dos meios para a produ<;ao
margem das práticas que a revestem. Sob o efeito de tais determinantes, espiritual, o que faz com que !hes sejam submetidas, no devido tempo, em
esperar urna avalia¡;:ao objetiva e desapaixonada da escola, para nao falar de geral, as idéias dos que carecem dos meios necessários para produzir
conclusoes desfavoráveis, é como pedir a um sacerdote que julgue a igreja ou espiritualmente (Marx e Engels, 1972: 50).
a um militar que fa<;a o mesmo com o exército, apesar de nossa institui<;:ao ser
muito mais tolerante que as suas. Este texto sugere urna visao das idéias como algo que tem um processo
O pensamento educacional esteve quase sempre pautado principalmente de produ<;ao específico e que é alheio ao campo central das rela<;oes sociais.
pela marca do idealismo. Embora em sua história figurem nomes vinculados ao Nao resta dúvida de que existem "meios de produ<;ao espiritual": a escola é
sensualismo ou a um certo materialismo como os de Locke ou Helvetius, o que um deles, mas também os meios de comunica<;:ao, a arte, a publicidade, etc.
domina é urna longa lista de ftlósofos-pedagogos de tendencia idealista: Tampouco de que, efetivamente, quem dispoe dos meios materiais dispoe, em
Sócrates, Santo Agostinho, Sao Tomás de Aquino, Kant, Herbart, etc., para boa parte, dos espirituais. Sao poucas as pessoas que podem fmanciar urna
citar apenas alguns. Isto é natural se se tem em conta que o veículo aparente escola, fundar um periódico ou simplesmente comprar um quadro original, e
por excelencia da educa¡;:ao é a palavra, e que esta parece ser o único suporte estas poucas dispoem ademais de outros meios de influencia diretos e
das idéias que expressa ou transmite. indiretos, além de sua capacidade fmanceira ou aquisitiva. Em breve
Entretanto, o idealismo inerente a atividade e ao pensamento educacionais discutiremos se é este o único processo de "produ<;ao espiritual".
é de muito mais longo alcance, como o demonstra um caso extremo: as A segunda parte do texto sugere que as idéias sao algo, ao menos para a
dificuldades do marxismo, apesar de sua voca¡;:ao inequívocamente maioria das pessoas, imposto de fora. Haveria um reduzido número de pessoas
materialista, para romper com o marco impregnado por aquele. Embora Marx que as esbo<;am, as elaboram e um grande número que as recebe, dicotomia

134 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 135


a qual nao é difícil acrescentar um grupo um pouco mais amplo que o primeiro escala, esta é cenano de urna trama de relac;6es sociais materiais q
mas muito mais reduzido que o segundo, encarregado de transmití-las. Es~ org.anizam a experien~ia coti~~na e pessoal do aluno com a mesma forc;a ~~
representac;ao nao é inteiramente incorreta e pode-se aplicá-la muito bem a mms do que as relac;oes socims de produc;ao o fazem com a experiencia do
tríades do tipo universidade-professores-alunos ou a outras do estilo. Mas é oper.ário na fábrica ou do pequeno produtor no mercado. Por que, entao,
falsa por ser parcial, embora tenha em si mesma muito de certo. continuar olhando para o espac;o escolar como se nele nao houvesse outra
Os. próprios Marx e Engels haviam escrito em continuac;ao do parágrafo coisa em que fixar-se senao nas idéias que se transmitem ou deixam de
antes atado: transmitir? Em outras palavras, por que dar tanta importancia ao conteúdo do
ensino e tao pouca a forma em que é transmitido, é inculcado ou de que se
As idéias dominantes nao sao outra coisa que a expressao ideal das reveste este contéudo?
relac;6es materiais dominantes, as mesmas relac;6es materiais dominantes As dificuldades do marxismo para olhar de maneira nao idealista a escala
concebidas como idéias (Marx e Engels, 1972: 50). demonstram a forc;a do idealismo no campo do discurso escolar. Durante muito
tempo, os marxistas dedicaram-se meramente a discutir se onde se ensinava
É curioso que a primeira citac;ao tenha chegado a ser tao popular e a isto devia-se ensinar aquilo ou se tinham acesso poucos ou muitos filhos da
segunda nap tanto, porque nesta se condensa muito melhor o pensamento classe operária aos níveis nao obrigatórios, o que é o mesmo que dizer que
marxiano. A diferenc;a da primeira, a direc;ao que sugere vai das idéias as permaneceram encerrados na dupla problemática do conteúdo do ensino e da
relac;oes materiais - idéias elaboradas em algum lugar vem a justificar as igualdade de oportunidades. Teve-se que esperar até Althusser para que o
relac;oes, embora apenas o dornínio destas torne possível a elaborac;ao marxismo analisasse a escala como cenário e trama de relac;oes sociais
daquelas -,. mas de relac;oes materiais com respeito as idéias, as quais materiais, em vez de como limbo das idéias. Mas antes, ao mesmo tempo, ou
apar~cen:, Simples:nente, COJ?O sua expressao. Há outra breve passagem
pouco depois, outras correntes de pensamento comec;ariam já a abrir o
significativa e mmto conhec1da da mesma obra que contém os textos caminho para a análise das práticas escolares. A contribuic;ao das ·principais
anteriores, A Ideo logia Alemá: delas é o que tentaremos resumir e avaliar em continuac;ao.

A consciencia nao pode ser nunca outra coisa que o ser consciente,
e o ser dos homens é se u processo de vida real (Marx e Engels, 1972: 26) . A sociología funcionalista norte-americana

. Se .a unimos a an~erior podemos formular urna concep<;<lo da ideología O enfoque funcionalista em sociología - geral ou da educac;ao - caracteriza-
mmto diferente da maruqueísta e instrumentalista inspirada na primeira citac;ao se por urna visao harmónica e determinista da sociedade. Formalmente parte de
de M~rx e Engels. Em primeiro lugar, se o ser consciente é a expressao Durkheim, o qual por um lado postulou a identidade entre evoluc;ao social e
con~~Iente do ser r:al, e este consiste sobretudo, para Marx, nas relac;oes desenvolvimento da divisao do trabalho, como corolário de caracterizar a esta, nas
socims - e, em particular, nas de produc;ao -, podemos pensar que sao estas sociedades avanc;adas, como solidariedade organica ou complementariedade entre
mesmas relac;6es as que geram e difundem vis6es ideológicas de si mesmas as partes e a necessidade mútua e, por outro, concedeu urna grande atenc;ao as
isto é, que tem urna eficácia ideológica própria. De fato, demonstrar isto é ~ func;oes sociais - essencialmente de controle - de fenómenos como, por
que tentou Marx ao criticar a dimensao ideológica das categorias da economia exemplo, a religiao, de cujo discurso nao forma parte tais func;oes.
política - por exemplo, a identifica<;ao entre meios de produc;ao produzidos e Entretanto, e para o que aquí interessa, nao se poderla encontrar melhor
capital.-' na. análi~e do fetichismo da mercadoria e da reifica<;<lo das relac;oes definic;ao do espírito funcionalista, embora avant la lettre, que a do velho
de capital e mclusive, antes, na crítica da relac;ao entre a sociedade civil 0 Hegel: "O que é real é racional" (Hegel, 1975: 23). O filósofo considerava um
Estado ~ a reli~ao em suas obras anteriores. Dito de outra forma, a ideolo~a, erro infantil a convicc;ao de muitos críticos de sua época de que as instituic;oes
no se~tido mms amplo do termo, nao necessitaria para existir de instituic;oes ou algumas delas estavam aí e eram como eram por nao se sabe que desígnios
especialmente dedicadas a criá-la e perpetuá-la, embora estas possam ser de arbitrários ou, como ele dizia, "abandonadas de Deus" (Hegel, 1975: 16), e
grande ajuda. concluía, contra a fllosofia ''edificante'' (reformista), com urna frase que,
Em segundo lugar, estas instituic;6es- ou, ao menos, algumas dentre elas trocando o termo "fllosofia" por "sociología", bem poderla ter-se convertido
- poderiam e deveriam ser analisadas com o mesmo instrumental que Marx na máxima dos funcionalistas: ''A tarefa da fll.osofia consiste em conceber o que
empregou para analisar as relac;oes sociais de produc;ao. Se nos cingimos a é, pois o que é é a razao" (Hegel, 1975: 24).

136 A Face Oculta da Escola 137


Mariano Fernández Enguita
O funcionalismo parte do pressuposto de que os componentes do todo social como urna série de aprendizagens de papéis ocupacionais adultos
tem urna fun<;ao de conserva<;ao e reprodu<;ao do equilibrio do sistema. Esta idéia independentemente da utilidade do conteúdo real da instru<;ao (como, po;
traz facilmente consigo, embora nao necessariamente, urna imagem nao exemplo, os conhecimentos aritméticos ou lingüísticos) (Parsons, 1976c:
problemática, e sim apologética ao extremo, da sociedad e, mas também produziu 228).
resultados irrenunciáveis. A fertilidade desse enfoque pode ser melhor
compreendida recordando a distin<;iío de Merton entre func;oes manifestas e Dreeben efetua a mesma mudanc;a de enfase, do conteúdo a da forma do
latentes de urna institui<;ao social: as primeiras sao as que esta, exercendo-as ou ensino, quando afirma que diversos estudos
nao, declara; as segundas as que exerce sem declará-las. A sociología
funcionalista deu grande importancia a descoberta e análise das segundas. nos levam a acreditar que as crianc;as aprendem coisas na escola, além do
No estudo da institui<;ao escolar isto significou ir além dos tópicos sobre que se !hes ensina mediante a instru<;iío, em virtude de sua experiencia
as fun<;óes manifestas da escola - ensinar e avaliar e certificar o aprendido - diária em um cenário organizativo que tem as propriedades sociais
para centrar-se em suas fun<;óes latentes. Ademais, ao buscar estas na relac;ao particulares da escola; e que o que aprendem a1i é, provavelmente
entre a escola e o sistema social global, isto é, ao considerar que aquela serve diferente do que aprendem em outros cenários com diferentes
a este - em vez de supor, por exemplo, que serve aos indivíduos -, os características sociais (Dreeben, 1983: 77).
funcionalistas concederam grande importancia a análise da rela<;ao entre a
escola e o mundo do trabalho. Assim, para o principal de seus representantes Mais específicamente, este autor sublinha a importancia das
em geral, Talcott Parsons, aprendizagens nao cognitivas e sua dependencia direta da precisa organizac;ao
estrutural do contexto escolar. A pergunta sobre o que se aprende na escola,
o sistema escolar é um microcosmos do mundo do trabalho adulto, e a deve-se responder, segundo ele, que
experiencia nele constituí um campo inuito importante de atua<;ao dos
mecanismos de socializa<;iío da segunda fase [a primeira é a familiar], a os alunos aprendem a aceitar princípios de conduta, ou normas sociais, e
especifica<;ao das orienta<;óes de papel (Parsons, 1976c: 229). a agir de acordo com elas. Neste argumento estao implícitos os seguintes
pressupostos: (1) As tarefas, as restri<;óes e as oportunidades disponíveis
Com ele coincide plenamente Robert Dreeben, por sua vez o mais dentro dos cenários sociais variam com as propriedades estruturais destes
destacado representante do funcionalismo no campo mais específico da cenários; (2) os indivíduos que participam destas tarefas, restri<;óes e
sociología da educa<;ao. Discutindo as acepc;óes da expressao ''currículo nao oportunidades derivam princípios de conduta (normas) baseados em suas
escrito", escreve: experiencias ao fazer-lhes frente; e (3) o conteúdo dos princípios varia
com o cenário (Dreeben, 1968: 44).
U m quarto significado refere-se ao marco social dominante em que a
escolariza<;ao tem lugar, e que implica que as crian<;as alcancem modos de Enfun, outros preclaros funcionalistas, Inkeles e Smith, em um livro
pensar, normas sociais e princípios de conduta, dada sua prolongada dedicado a relac;ao entre educa<;iío e desenvolvimento, outorgam a mesma
participac;ao nesse marco. Este é o significado que acho mais interessante, importancia as rela<;óes sociais dentro das salas de aula quando afirmam que
(... ) a estrutura social da escola (Dreeben, 1983: 74).
a escola moderniza através de urna série de processos distintos da
A "experiencia" no "microcosmos" a que alude Parsons e a "estrutura instru<;iío formal em matérias académicas: recompensas e castigos,
social'' que interessa a Dreeben tem muito pouco a ver com o conteúdo do adoc;ao de modelos (modeling), exemplificac;ao e generaliza<;iío (lnkeles e
ensino. Aludem diretamente a forma em que se organiza a atividade - ou a Smith, 1974: 140).
inatividade - dos alunos nas salas de aula, isto é, a suas vivencias sociais
materiais. Estas adquirem importancia própria, superior a do currículo formal A conexao entre a socializa<;ao escolar e as demandas sociais baseia-se
e independente dele. Conforme o primeiro autor, sobretudo na adequac;ao da conduta as necessidades das institui<;óes do mundo
do trabalho. Mas, para os funcionalistas, esta conexao é mais social que
de pontos de vista muito diferentes, na sociedade norte-americana é técnica, reside mais nas aprendizagens educativas e nas exigencias do trabalho
preciso considerar a experiencia que surge no curso da educac;ao formal nao cognitivas que nos propriamente cognitivos. No jargao da pedagogía

138 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 139


poderla expressar-se isto dizendo que a educac;ao é muito mais que a escritos pedagógicos de pensadores generalistas, na obra dos grandes
instruc;ao, urna fórmula já familiar e enormemente ambígua, mas cuja pedagogos ou nos relatos sobre escolas modelares, ela tem apresentado a
interpretac;ao adequada nos é oferecida sem rodeios: história da educac;ao como urna flleira de grandes homens - e algumas
mullieres, poucas, geralmente ocupadas com a educac;ao das meninas -,
Qualificar as pessoas para o trabalho ( ... ) supóe muito mais que benfeitores da humanidade, empenhados em sua melhoria através da educac;ao
adestrá-las para serem competentes em destrezas relacionadas com o e das luzes. Em certos casos isto levou pura e simplesmente a se falsear o
posto de trabalho; supoe também modelar os estados de espírito dos pensamento e o fun dos reformadores - por exemplo, quando se pretende que
homens e conseguir que estejam dispostos a aceitar normas de conduta Locke escreveu sobre a educac;ao do gentleman porque assim exigia a
relacionadas com o desempenho de um emprego e com o domínio das ocasiao, mas que teria formulado seus princípios pedagógicos pensando em
atividades que o compóem (Dreeben, 1968: 31). toda a humanidade, o que implica ignorar sua aversao pelos pobres e sua
oposic;ao a que fossem educados.
Os funcionalistas inserem sua análise da escola dentro de teorias da Mas o que agora importa nao é julgar a lista de personagens ilustres que
estratificac;ao ou da modernizac;ao que nao compartilhamos. Para eles, a constituem o índice de qualquer história da pedagogia, mas simplesmente
estratificac;ao social é a melhor forma pela qual a sociedade pode assegurar o assinalar que os escritos pedagógicos nao constituem a história da educac;ao,
bom desempenho das func;óes que sao necessárias. Mediante um sistema de sendo antes urna medíocre aproximac;ao a mesma. Mais que a realidade,
recompensas diferenciais em termos de renda, poder e prestigio, a sociedade refletem como a viram ou deixaram de ve-la ou quere-la seus autores. E, se
conseguiría trazer as pessoas mais capazes para as func;óes mais difíceis ou os reformadores eram o que sua hagiografia pretende, tem-se que pensar
mais importantes, oferecendo-lhes recompensas mais elevadas, enquanto, no simplesmente que a maioria deles nao significou tanto como seus admiradores
pólo oposto, as func;óes mais irrelevantes ou desempenháveis por qualquer um acreditavam, ou que conseguiu terminar por parecer-se muito pouco com o
encontrariam recompensas mínimas. O mercado e a escola seriam os dois que buscavam. Isto nao deve ser raúío de escandalo: com freqüencia as
dispositivos essenciais de crivo e selec;ao dos individuos para as distintas montanhas parem ratos e as árvores nao deixam ver o bosque.
func;óes. Mais úteis, em troca, tem sido os estudos de história social centrados na
Por outro lado, os funcionalistas saúdam a forma capitalista de organizac;ao vida cotidiana ou nas instituic;óes de base como a familia, as corporac;óes, as
da produc;ao e do trabalho como o paradigma da racionalidade e da eficácia. Por associac;óes de trabalhadores, etc. Estes nos tem oferecido, embora de forma
conseguinte, nao se deve senao alegrar-se pelo fato de que a escola forme nos circunstancial e colateral, instantaneos da educac;ao e da escola que por si só
alunos as atitudes e as normas e formas de conduta necessárias para inserir-se deveriam ser suficientes para romper muitos dos clichés da história em uso.
nela tal e como é. Quando este processo de socializac;ao se refere as jovens Aqui é inevitável aludir aos historiadores da classe operária como Thompson,
gerac;óes das sociedades avanc;adas, chamam-no educac;ao; e, quando se refere Gutman, Rodgers e outros, da farm1ia e da vida cotidiana como Aries, etc. Mas
ás sociedade do Terceiro Mundo, modernizac;ao. as duas contribuic;óes mais importantes foram, sem dúvida nenhuma, a de
Mas, a parte suas posic;óes normativas, alguns de seus trabalhos, Michel Foucault e de alguns de seus discípulos e a dos chamados
frutificados pela fecunda idéia metodológica básica de que nada· ocorre por ''historiadores revisionistas'' da educac;ao norte-americanos.
nada nem se justifica por si mesmo, trazem análises da instituic;ao e dos Foucault mostrou que o Século das Luzes foi também o das disciplinas, o
processos escolares imprescindíveis para urna crítica radical da escola e sua de urna ''microfísica do poder'' que se estende indiscriminadamente a través
relac;ao com a sociedade. Esta atitude foi a mesma que levou Hegel a obter, a das instituic;óes coletivas: a prisao, o hospital, o exército, o trabalho, a escola.
partir de urna armac;ao teórica insustentável, urna riquíssima análise da Ele sublinhou como, enquanto nos espac;os públicos como o mercado ou a
sociedade de seu tempo. Por isso nao admira que com os funcionalistas se esfera política as liberdades abriam caminho, nos espac;os fechados como os
possa fazer o que Marx fez com Hegel: virá-los para pó-los sobre os pés e tirar citados criava-se toda urna parafernália de normas, regras e controles
o melhor partido de seu brilhante trabalho. disciplinares destinados a sufocar a iniciativa e a individualidade. Foucault
destacou a difusao de mecanismos como a vigilancia panóptica, a organizac;ao
A otltra história da educas:ao serial do espac;o, a economía do tempo, a codificac;ao dos movimentos, os
registros e, em geral, a normalizac;ao dos indivíduos e de seus
Deve-se dizer que a história da pedagogía nao tem ajudado muito a se comportamentos através das instituic;óes.
conhecer nem a se compreender a história real da educac;ao. Centrada nos

140 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 141


Aparece, através das disciplinas, o poder da Norma. Nova lei da das "disciplinas" supüe a instaurac;ao de urna ruptura artificial com 0
sociedade moderna? Digamos antes que desde o século XVIII vinham-se ascetismo monacal e a racionalizac;ao da vida religiosa, fonte de
agregando a outros poderes, obrigando-os a novas delimitac;oes: ao poder regulamentac;oes do tempo e do corpo, que tem urna longa história
da Lei, ao da Palavra e do Texto, ao da Tradi<;ao. O Normal estabelece-se anterior a idade clássica. Na análise dos setores institucionais em que
como princípio de coerc;ao no ensino com a instaurac;ao de urna educac;ao nasce a disciplina é, inversamente, urna amálgama das técnicas escolares,
padronizada e o estabelecimento das escolas normais; estabelece-se no militares, industriais, reunidas na categoria de tecnologia do corpo cuja
esforc;o por organizar um corpo médico e um enquadramento hospitalar da fmalidade é o controle da interioridade e a instaurac;ao de um poder
nac;ao capazes de fazer funcionar algumas normas gerais de salubridade; (Chamboredon, 1983: 86-87).
estabelece-se na regularizac;ao dos procedimentos e dos produtos
industriais (Foucault, 1976: 188-9). Se as disciplinas conheceram urna expansao geral no Século XVIII,
passando, de urna situa<;ao em que estavam restringidas a espac;os marginais,
No caso da escola, ele acentuou particularmente os mecanismos de a invadir instituic;oes amplamente generalizadas, como o hospital ou a prisao,
vigilancia e de controle do comportamento e sua integra<;ao na relac;ao ou de vocac;ao universal como a milicia e a escola, nao foi por um milagre
pedagógica. Para a análise da educa<;ao, o valor de seu trabalho - de qualquer ocorrido num espac;o vazio. Sem aludir explicitamente a Foucault, mas
forma, magnífico - reside sobretudo em ter feito sair a luz do sol o obscuro pensando sem dúvida nele, Charlot e Figeat escreveram recentemente:
mundo oculto por detrás do retumbante discurso da educac;ao, a trama
disciplinar interior que constitui a outra face dos supostos valores liberais e O que está em questao nao é a repressao do Desejo, do Corpo, da Se-
igualitários da escola. xualidade ou do Espírito, em um combate metafísico entre filósofos, mas a
Entretanto, o trabalho de Foucault nao está livre de limitac;oes. Se, por um reproduc;ao da forc;a de trabalho popular por meio de práticas que, embora
lado, historiou o velado espac;o interior das instituic;oes, por outro, converteu afetem o desejo, o corpo, a sexualidade o u o espírito, o faz e m em primeiro lugar
em a-histórica a rela<;ao entre elas ou entre cada urna delas e a sociedade e sempre sobre o fundo dalutade classes (Charlote Figeat, 1985: 94).
global. Em vez de mostrar a articula<;ao entre as disciplinas intra-institucionais
e a sociedade global, extrapolou aquelas até converte-las numa caracterizac;ao Alguns foucaultianos oferecem urna interpretac;ao menos indiferenciada.
monocromática desta. Assim, ficamos sabendo que o Século das Luzes as viu Assim, por exemplo, Anne Querrien, em cujo trabalho já nos apoiamos no
nascer, mas nao se nos oferece nenhuma explicac;ao de por que o fizeram neste capítulo anterior, escreve:
momento e nao, por exemplo, antes, na Idade das Trevas, ou depois, na época
dos totalitarismos deste século. Apontar um paradoxo nao é explicá-lo. Como Eu vejo na escola simplesmente um aparato para transformar, para
assinalou Jean-Claude Chamboredon: fazer operac;oes, para produzir efeitos em (... ). Para o capitalismo a
operac;ao fundamental é a aplicac;ao ao trabalho, e para sua obtenc;ao se
A imagem do novo sistema de controle, imposic;ao uniforme de um dirige á escola capitalista industrial (Querrien, 1979: 21).
poder abstrato desligado de toda rela<;ao de dominac;ao e, em
conseqüencia, de toda func;ao atribuível aos grupos sociais, exclui a análise Os ''historiadores revisionistas'' norte-americanos devem essa
da diversidade das formas escolares e das func;oes dessas formas em denomina<;ao ao fato de terem submetido a urna profunda revisao os tópicos
relac;ao com as estratégias de transrnissao. Na verdade, na análise de M. comumente aceitos sobre o caráter e os fms das reformas educacionais que
Foucault, a constituic;ao da "disciplina" como modo específico de controle tiveram lugar nos Estados Unidos durante o último terc;o do século passado e
supóe fazer-se abstrac;ao das relac;oes de dornina<;ao que tornam possível comec;os deste. Seu trabalho centrou-se de forma especial na área do Estado
o exercício desses modos de poder. É a esse prec;o que as técnicas de de Massachusetts, em particular, e da Nova Inglaterra em geral. Isto, longe de
domesticac;ao, de manipulac;ao, de regulamenta<;ao, cujo sentido e forma ser urna lirnitac;ao, significa tomar como alvo da revisao o espac;o geográfico e
variam segundo a rela<;ao na qual se exercem (relac;ao de assalariado, social que liderou e representou mais claramente a corrente de reforma da
relac;ao pedagógica, relac;ao de autoridade em urna organiza<;ao, etc.) educac;ao na época. Nao se esquec;a, por exemplo, que Marx colocou o Estado
podem ser constituídas como urna forma nova de poder. de Massachusetts como modelo de organizac;ao da educa<;ao perante a
(. .. ) Há duas distorc;oes principais na demonstra<;ao de M. Foucault. Associac;ao Internacional de Trabalhadores, e Giner de los Rios nao deixou de
Na cronologia, a defmic;ao do século XVIII como momento de constituic;ao mostrar sua admira<;ao por personagens como Mann, Barnard e Harris.

142 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 143


Onde a história nao havia visto senao epopéias escolares destinadas a ordem, seguranc;:a, submissao e burocracia e um sentido compulsivo do
melhorar a sorte das classes desfavorecidas e a fomentar a igualdade e a dever. Este conjunto de trac;:os de caráter também apresenta urna
liberdade, os historiadores revisionistas desvelaram um movimento_ cujos disposic;:ao para aceitar e realizar um trabalho carente de significado e
propósitos e resultados eram a ass~c;:ao dos gr~pos imigrante~ :nedlal1~~ a repetitivo e um sentido agressivo do nacionalismo e do patriotismo. Era
destrui<;ao de seus acervos culturrus, a conservac;:ao da ordem c1vil e política para produzir estes trac;:os de caráter que a high school americana tinha
por meio da doutrinac;:ao ideológica e a inculcac;:ao do respeito pela autoridade sido planejada (Spring, 1975: 41-42).
e a formac;:ao de urna mao de obra dócil disposta a aceitar sua posic;:ao através
da modelagem de seu caráter e de seus hábitos de conduta. Os revisionistas norte-americanos nao acham que essa fosse a única
Contrariamente a imagem deles fornecida por urna história cor-de-rosa, os func;:ao da escoJa. Nao negam, pelo contrário afrrmam que a escoJa e suas
educadores contribuíram voluntária e involuntariamente, direta e reformas desempenharam outras func;:óes. Alguns, como Karl Kaestle,
indiretamente, para a domesticac;:ao da classe operária. acreditam mesmo que

Quando os educadores argumentavam que o trabalhador educado era os historiadores viram-se envolvidos em um esforc;:o procusteano para ver
um empregado melhor, isto nao significava simplesmente que soubesse ler como conflito de classe o que nao era senao conflito étnico, religioso,
as instruc;:óes ou que estivesse menos inclinado a beber uísque ou a entrar geográfico, institucional e de gerac;:óes - cada um dos quais poderla ou
em greve; significava também, na realidade, que havia sido nao estar relacionado com as classes (Kaestle, 1976: 394).
adequadamente socializado nas novas formas de produc;:ao, adaptado a
hierarquia, a neutralidade afetiva, as exigencias específicas de papel e aos Desde que comec;:ou a revoluc;:ao industrial, toda sociedade teve que
incentivos extrínsecos com relac;:ao ao rendimento (Tyack, 1974: 73). desenvolver um mecanismo para mudar os comportamentos apropriados
em urna sociedade tradicional para aqueles exigidos pela modernidade. A
Os revisionistas assinalaram nao apenas a func;:ao de socializac;:ao para o América enfrentou este problema, o problema da disciplina industrial,
trabalho desempenhada pela escola, mas a proeminencia da preocupac;:ao assim como tantos outros, através das escolas (Katz, 1971: 32).
explícita a esse respeito entre os reformadores. Após analisar a expansao das
escolas urbanas no estado de Massachusetts, Marvin Lazerson escreve: Ela fez isso através nao apenas da mensagem escolar, mas também e
sobretudo da organizac;:ao de seu contexto material. A análise deste é o que
Por volta de 1915 dois temas passaram a competir nas escoJas urbanas constituí para nós o interesse dos historiadores revisionistas. De certa forma,
de Massachusetts. Um retroagia aos fermentos de reforma das décadas pode-se afirmar que a história social da educa<;ao pode desvelar com facilidade
entre 1870 e 1900 e via a educac;:ao como a base da melhoria social. A o que para a sociologia mostrou-se ser urna difícil tarefa. Em ambos os casos
escola devia alcanc;:ar e elevar o pobre, particularmente através de novas foi necessário superar a complacencia, os preconceitos e os lugares comuns
técnicas para ensinar os valores sociais tradicionais .. O segundo tema, cada que dominam a análise da escola, mas a historiografia foi capaz de descobrir
vez mais proeminente a partir de 1900, incluía a aceita<;ao da ordem nos dados e documentos de épocas anteriores que as que hoje sabemos ou
industrial e a preocupa<;ao de que a escola refletisse essa ordem. Fazia do acreditamos saber serem suas func;:óes ocultas foram defendidas com unhas e
ajustar o indivíduo a economia a principal fun<;iío da escola. Por meio do dentes, postas em prática sem dissimula<;ao e firmemente impostas contra
ensino de destrezas específicas e padróes de conduta, as escoJas qualquer resistencia. Referindo-se a experiencia norte-americana, a qual
produziriam trabalhadores e cidadaos melhores e mais eficientes, e faria podemos considerar como urna condensac;:ao da história da escoJa européia
isto através de um processo de selec;:ao e orientac;:ao (Lazerson, 1971: x-xi). comparativamente livre da influencia da ordem social pré-capitalista, Elisabeth
Vallance escreveu:
Joel Spring, referindo-se em particular a expansao e reorganizac;:ao da
escola secundária, é ainda mais categórico: Sugiro que o currículo oculto chegou a se-lo até fmais do século XIX
simplesmente porque por essa época a retórica já havia cumprido sua
O propósito dessa organizac;:ao era produzir o que Wilhelm Reich func;:ao. Da situac;:ao de ser urna influencia socializadora suplementar, a
chamou de caráter encourac;:ado (a courac;:a de caráter?), urna série de escola havia evoluído até ser urna ativa forc;:a impositiva. Ao mudar o século
trac;:os de caráter tipificados pelo amor para com e o desejo de autoridade, podia dar-se por seguro que as escolas ofereciam urna experiencia
144 Mariano Fernández Enguita 145
A Face Oculta da EscoJa
suficientemente homogénea e regimentada. O currículo oculto estava bem Pode-se colocar como obje<;:iío a Althusser urna formulac;:ao ainda confusa
instalado. Só quando a visao da escola como modelac;:ao de um caráter e c~m element_?s idealista~ de su~ teoria da ideología - por exemplo, quando
comum chegou a seu zenite, as reformas funcionalistas abriram a porta a an~s~ a _relac;:~o. entre a 1de~lo~a e os sujeitos - e, sobretudo, ignorar a
urna nova retórica justificatória. Só entao pode a necessidade de fornecer e~ca~m. _:deolog¡ca das propna~ relac;:oes de produ<;:iío, apropria<;:iío,
aos indivíduos os instrumentos para a sobrevivencia económica e social distnbmc;:ao e troca e ter recorndo a urna termino logia, a dos ''aparatos
oferecer urna justifica<;:iío para a escola que chegaria a rivalizar e mesmo a ideológicos de Estado'' que elimina a distinc;:ao entre este e a sociedade civil
deslocar a necessidade de criar urna plebe homogénea (Vallance, 1977: (veja-se Fernández Enguita, 1985a: 271.-3, e 1985b: 8). Entretanto, isto nao
601-2). tira nenhum valor a reviravolta que significou seu trabalho ao assinalar a
vinculac;:ao entre ideología e práticas rnateriais ou, na terminologia que aqui
O estruturalismo althusseriano preferimos, relac;:oes sociais.
Precisamente Althusser toma como exemplo fundamental a escola, a qual
Depois de Marx, a teoria geral marxista e a sociologia marxista da considera o aparato fundamental mais poderoso, juntamente com a familia, na
educac;:ao tiveram de esperar até Althusser para conseguir urna aproxirnac;:ao a sociedade moderna:
urna teoria adequada da ideologia. O que Althusser coloca é, essencialmente,
que a ideologia nao é simplesmente questao de idéias fabricadas nao se sabe ( ... ) Um Aparato Ideológico de Estado desempenha, em todos os
onde, mas que sua vigencia e sua reproduc;:ao estao indissoluvelmente seus aspectos, a fun<;:iío dominante, embora nao se preste muita atenc;:ao
associadas a práticas materiais que ele localiza no interior do que denomina a sua música, de tao silenciosa que é: trata-se da escola.
"aparatos ideológicos de Estado". A escola recebe as crianc;:as de todas as classes sociais desde o
Maternal, e já desde o Maternal, tanto com os novos como com os antigos
( ... ) As "idéias" ou "representac;:oes", etc., de que parece ser métodos, inculcam-lhes durante anos, precisamente durante os anos em
composta a ideologia nao tem existencia ideal, espiritual, mas material. que a crianc;:a é extremamente "vulnerável" ( ... ).
( ... ) Urna ideologia existe sempre em um aparato, e em sua prática, ( ... ) Nenhum Aparato Ideológico de Estado dispoe durante tantos
ou em suas práticas. Esta existencia é material. anos de audiencia obrigatória ( ... ) (Althusser, 1977: 94-7).
Certamente que a existencia material da ideologia em um aparato e
em suas práticas nao possui a mesma modalidade que a existencia material Ele atribuí urna posic;:ao de primeira ordem a escola na reproduc;:ao
de um paralepípedo ou de um fuzil. ideológica, mas nao por sua manifesta func;:ao de ensinar mas pelo contexto
Nós falaremos de atos inseridos em práticas. E além disso organizado através do qual ela exerce essa func;:ao:
indicaremos que estas práticas estao regulamentadas por rituais nos quais
essas práticas se inscrevem, no interior da existencia material de um Afinal, o que se aprende na escola? Chega-se rnais, ou menos longe,
Aparato Ideológico, embora apenas em urna pequena parte deste aparato nos estudos, mas de qualquer forma se aprende a ler, a escrever, a contar.
(. ..) . Assim, pois, algumas técnicas e muitas outras coisas ainda, incluídos
Por outro lado, devemos a "dialética defensiva" de Pascal a alguns elementos (que podem ser rudimentares ou, ao contrário,
maravilhosa fórmula que nos permitirá dar a volta a tal esquema nocional profundos) de "cultura científica" ou "literária" diretamente utilizáveis
da ideologia. Pascal diz aproximadamente: ''Ponde-vos de joelhos, movei nos diferentes postos de produ<;:iío (urna instruc;:ao para os operários, outra
os lábios para rezar, e crereis" (Althusser, 1977: 106-9). para os técnicos, urna terceira para os engenheiros, urna última para os
quadros superiores, etc. ). Aprendem-se, portante, certas habilidades.
O que Althusser diz é que a ideologia nao se adquire através da Mas ao mesmo tempo, e também com o pretexto destas técnicas e
inculcac;:ao nem se conserva apenas como um conjunto de idéias nas quais destes conhecimentos, aprendem-se na escola as regras do ''bom compor-
crer ou a serem pregadas, mas que se adquire e se exerce através de práticas tamento", isto é, da adequada atitude que deve observar, conforme o posto
materiais. Os aparatos ideológicos de Estados nos quais localiza estas práticas que está "destinado" a ocupar, todo agente da divisao do trabalho": regras
compreendem virtualmente todas as instituic;:oes da vida social menos as de moral, de consciencia cívica e profissional, o que, falando claramente,
económicas: a igreja, a cultura organizada, os partidos, a familia, a es- significa regras a respeito da divisao técnico-social do trabalho e, enfim,
cola ... regras da ordem estabelecida por meio da dominac;:ao de classe (. .. ) .

146 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 147


Para enunciar este fato em urna linguagem mais científica, diremos proletários a ideología dominante. Daí provém a oposir;ao sistemática das
que a reprodU<;ao da fon;a de trabalho exige, nao apenas urna reprodU<;ao práticas escolares (Baudelot e Establet, JW6: 151).
de sua qualificar;ao, mas também, e simultaneamente, urna reprodur;ao de
sua submissao as regras da ordem estabelecida, isto é, urna reprodur;iio de Na realidade, em seu trabalho de qualquer forma magnífico, Baudelot e
sua submissao a ideología dominante (... ). Establet entram apenas obliquamente na questao das relar;oes sociais da
E m outras palavras, a escola (... ) ensina certas "habilidades", mas educar;ao. Seu objetivo é sobretudo mostrar os dois tipos de cultura, ou as
mediante formas que asseguram o submetimento a ideología dominante, duas vers6es hierarquizadas da mesma, que a escola oferece aos estudantes
ou antes o domínio de sua prática (Althusser, JW7: 74-5). de urna e outra rede. Ao pretender analisar o que Althusser denomina as
"práticas" e os "rituais" do "aparato ideológico" escolar continuam
Christian Baudelot e Roger Establet aplicaram o modelo de Althusser a movendo-se sobretudo no terreno da análise da mensagem escolar, da
análise do sistema escolar francés. Seu principal objetivo era mostrar a escola como relar;ao de comunicar;ao e nao como cenário de constantes
contribuir;ao da escola para a reprodur;iio da divisao social do trabalho e das práticas materiais. Por isso em sua análise aparecem apenas aqueles
classes sociais. Para isto dispuseram-se a demonstrar estatisticamente a aspectos das relar;oes rnateriais que se apresentam diretamente vinculados
existencia em seu interior de duas redes escolares, as quais denominaram a diferenr;as no campo dos símbolos - por exemplo, o cálculo e o problema
"prirnária-professional" e "secundária-superior", distintas por sua base ou o ditado e a dissertar;ao -, mas nao o fazem com outros que nao
social de recrutamento e pelas posir;oes na hierarquia da divisao social do apresentam tal vincular;ao, como ter que cumprir um horário, permanecer
trabalho a que conduzem e herméticas, isto é, sem canais reais de horas sentado ou ser avaliado individualmente.
comunicar;ilo que permitam a passagem dos alunos de urna a outra. Por outro lado, ao buscar as diferenr;as nas práticas das duas redes
Mas, para nossos propósitos, sua contribuir;ao mais importante é o estudo minimizam tudo que elas tem em comum, aquilo que a altura do ensino
das diferenr;as sistemáticas nas orientar;oes pedagógicas empregadas em urna obrigatório constitui o grosso das relar;oes sociais da educar;ao.
e outra rede para alunos do mesmo grupo de idade - ao menos idade escolar Rachel Sharp desenvolveu também um enfoque que pode ser clas-
-, urna vez que com isto entram precisamente na análise das relar;oes sociais sificado como estruturalismo althusseriano. Ela distingue entre "ideologías
da educar;ao. Além de mostrar que a cultura que se transmite a uns e outros teóricas", ou seja, os sistemas teóricos abstratos ou, mais em geral, o que
é diferente, Baudelot e Establet revelam também a configurar;ao de distintas a linguagem comum denomina sirnplesmente ideologías, e "ideologías
relar;oes do aluno para com o saber. Opondo a rede secundária-superior a práticas", baseando-se na concepr;ao de ideología de Althusser, ou
primária-profissional, o que encontram é a propedéutica frente a repetir;ao, o ''comportamentais' ', apoiando-se na terminología de Volosinov. Com o termo
culto ao livro frente a lir;ao de coisas, o problema matemático frente ao "ideología prática" ela quer designar
exercício de cálculo, a dissertar;ao frente ao ditado, o estímulo a emular;ao
frente ao deixar fazer, o abstrato frente ao concreto, etc. um modo socialmente definido de pensar e agir, urna sene de con-
venr;oes e suposioes que tornam possível a significar;ao (Sharp, 1980:
A segregar;ao dos materiais ideológicos, as duas formas incompatíveis 96).
de inculcar;ao da ideologia dominante em urna ·e outra red e produzem
efeitos opostos: por um lado, aos futuros proletários se lhes transmite um É esta que constitui o núcleo fundamental da socializar;ao e da
corpo compacto de idéias burguesas simples; por outro, os futuros aprendizagem na escola, e nao as ideologías teóricas:
burgueses aprendem, através de toda urna série de aprendizagens
apropriadas, a converter-se (em pequena ou em grande escala) em É em grande medida através da ideología prática que a escola
intérpretes, atores e elaboradores da ideología burguesa. Evidentemente consegue assegurar as condir;oes para a acumular;ao continuada de
trata-se da mesma ideología mas, entre o processo de inculcar;ao na capital e a reprodur;ao das relar;oes de classe capitalistas. A forma pela
primária-profissional e o processo de inculcar;ao na secundária-superior, qual estao socialmente organizadas as escalas, as salas de aula e o
existe a mesrna diferenr;a que entre o catecismo e a teología (... ) conhecirnento, as práticas e rotinas materiais através das quais tem lugar
(Baudelot e Establet, 1976: 139). a aprendizagem e o ensino proporcionam o contexto socialmente
A rede SS tende a formar os intérpretes ativos da ideología burguesa, significativo que medeia qualquer transmissao explícita do conheci-
enquanto a rede PP trata somente de submeter brutalmente os futuros mento, dos conceitos e das teorias formais (Sharp, 1980: 123-4).

148 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 149


Práticas escolares com dimensoes ideológicas sao a estrutura<;:ao da a correspondencia essencial entre escola e sociedade é, na realidade, entre
jornada do aluno, a defini<;:ao do que é conhecimento, os padroes de aquela e o mundo empresarial, e nao comas org~a<;:óes ou a modernidade
intera<;:ao, a distribui<;:ao de recompensas, o trabalho individual, o estímulo em geral como rezava a pretensao funcionalista. E a falta de similaridade
a diligencia, a deferencia para com a autoridade do professor, a divisao entre en.tre ~ organiza<;:ao do trabalho e a org~~<;:ao familiar o que faz com que
trabalho manual e intelectual, as dicotomías "puro-aplicado", "abstrato- cruba a escola um papel central na trans1<;:ao da familia a produ<;:ao.
concreto' ', ''especializado-geral' ', ''academico-profissional' ', etc.
A escola é a primeira das grandes e principais institui<;:óes, tirando
a familia, na qual quase todos nós nos vemos imersos. Do jardim de
A teoria da correspondencia infancia em diante, o estudante come<;a a aprender como é
verdadeiramente a vida na Empresa (Jackson, 1968: 37).
Embora as revisóes sociológicas coloquem o nascimento da teoría da
correspondencia entre as rela<;:óes da educa<;:ao e as do trabalho na obra de Mas sao Samuel Bowles e Herbert Gintis os que mais claramente
Bowles e Gintis, assinalada já na corrente neomarxista em sociologia da enfatizaram a importancia das rela<;:óes sociais materiais da educa<;ao, ao
educa<;:ao que fez do estudo desse isomorfismo - e de seus limites - um menos no que concerne a conexao entre esta e o mundo do trabalho.
centro de interesse, o mérito de sua formula<;:ao cabe a Philip W. Jackson,
cuja investiga<;:ao é injustamente relegada ao grupo dos trabalhos etnográficos (... ) Os aspectos formais, objetivos e cognitivamente orientados da
ou sociológicos que, trazendo importantes sugestóes para a crítica da escola, escolariza<;:ao captam tao-somente um fragmento das rela<;óes sociais
estariam carentes de um marco teórico que desse sentido a seus achados. cotidianas do encontro educacional (... ). Devemos considerar as escolas
Para este autor: a luz das rela<;:oes sociais da vida económica. (... ) Sugerimos que os
aspectos principais da organiza<;:ao educacional sao urna réplica das
A transi<;:ao da sala de aula a fábrica ou a oficina dá-se facilmente rela<;óes de domínio e subordina<;ao na esfera económica. A
para quem desenvolveu ''bons hábitos de trabalho'' em urna idade correspondencia entre as rela<;:óes sociais da escolariza<;ao e as do
precoce (Jackson, 1968: 32). trabalho explica a capacidade do sistema educacional para produzir urna
for<;:a de trabalho submissa e fragmentada. A experiencia da
Jackson assinala específicamente o propósito da escola em produzir os escolariza<;ao, e nao meramente o conteúdo da aprendizagem formal é
modos de comportamento e as atitudes necessárias para sua inser<;:ao nao central nesse processo (Bowles e Gintis, 1976: 125).
conflitiva no mundo do trabalho, e isto através da similaridade entre a
organiza<;:ao das duas esferas. Baseando-se, por um lado, no trabalho dos historiadores revisionistas da
educa<;ao, aos quais já nos referimos antes e, por outro, na crítica estatística
(... ) Os hábitos de obediencia e docilidade engendrados na sala de das predi<;óes da concep<;ao tecnocrática da escola, sustentam que esta nao
aula tem um alto valor de retomo em outros contextos. No que cumpre as fun<;óes de desenvolvimento pessoal e garantia da igualdade de
conceme a sua estrutura de poder, as salas de aula nao se diferenciam oportunidades sociais que geralmente se lhe atribuem, mas, em primeiro
muito das fábricas ou das oficinas, estas onipresentes organiza<;:óes em lugar e sobretudo, as de legitimar a ordem social existente, socializar a for<;:a
que se gasta urna parte tao grande de nossa vida adulta. Portanto, pode de trabalho de acordo com o lugar que vai ocupar, estratificar e fragmentar
realmente dizer-se da escola que é urna prepara<;:ao para a vida, mas os trabalhadores e reconciliar as pessoas com seu destino social.
nao no sentido habitual que os educadores dao a esta frase (Jackson, De todas essas fun<;:óes, a que agora nos interessa é a idéia básica de que
1968: 33). crian<;as ejovens sao preparados para inserir-se de forma nao conflitiva no mundo
da produ<;:ao adulta através da experiencia, que a escola lhes faz vivenciar, de al-
Embora Jackson nao apresente urna teoria da sociedade em que se gumas rela<;:óes sociais similares durante sua permanencia nela. Este é o chama~
enquadre sua análise da escola - o que a converte, de certa forma, em do ''princípio da correspondencia'', que é assim formulado por seus autores:
intemporal e a-histórica, como teremos ocasiao de ver no capítulo seguinte,
ao discutir sua aguda observa<;:ao sobre a aprendizagem do significado do (... ) As rela<;óes sociais da educa<;ao - as rela<;óes entre os
trabalho - tampouco se lhe escapa (como já o indica a cita<;:ao anterior) que administradores e os professores, os professores e os estudantes e dos

150 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 151


estudantes entre si e com seu trabalho - reproduzem a divisao Eles tratam de validar sua hipótese sobre a socializac;:ao diferencial na
hierárquica do trabalho. As relac;:oes hierárquicas refletem-se nas linhas de escola utilizando o mesmo procedimento. De acordo com eles, os trac;:os
autoridade vertical que vao dos administradores aos professores e destes recompensados nos níveis inferiores da educac;:ao e do trabalho sao os que
aos estudantes. A aliena<;ao do trabalho assalariado reflete-se na falta de correspondem a atitude de submissao (trabalhar constantemente de acordo
controle do estudante sobre sua educa<;ao, na alienac;:ao do estudante com com normas impostas), nos níveis intermediários os que constituem urna
respeito ao conteúdo do currículo e na motivac;:ao do trabalho escolar atitude de seriedade ou conflabilidade (ser capaz de trabalhar sem urna
através de um sistema de notas e outras recompensas externas, em vez supervisao constante, mas com objetivos flxados pela autoridade); e, nos
da integrac;:ao do estudante seja com o processo (a aprendizagem) seja
níveis superiores a iniciativa ou autonomía (controlar os flns e o processo do
com o resultado (o conhecimento) do "processo de produc;:ao"
próprio trabalho, mas tendo interiorizado os fms da organiza<;iio). Entretanto,
educacional. A fragmentac;:ao no trabalho reflete-se na competic;:ao
esta validac;:ao é difícil e de interesse duvidoso, já que o que se faz é tomar a
institucionalizada, e com freqüencia destrutiva entre os estudantes, e na
associac;:ao entre trac;:os de personalidade e indicadores de rendimento
classifica<;ao e na avaliac;:ao efetuadas em bases meritocráticas. Ao adaptar
produtivo ou o exito económico como urna aproxirna<;:ao da correspondencia
os jovens a urna série de relac;:oes sociais similares as do local de trabalho, entre as relac;:oes sociais da educa<;ao e da produ<;iio, o que significa reduzir
a escolarizac;:ao busca conduzir o desenvolvimento das necessidades urna hipótese de amplo espectro a algumas variáveis muito parciais e
pessoais de acordo com suas exigencias (Bowles e Gintis, 1976: 131). influenciadas por outros fatores. Embora Bowles e Gintis apresentem este tipo
de validac;:ao indireta apoiando-se em alguns estudos empíricos, outros autores
Bowles e Gintis vao além dessa caracterizac;:ao geral da escola ao tentar
nao encontram tal sustentac;:ao (Olneck e Bilis, 1980).
mostrar que a populac;:ao nao é toda submetida ao mesmo tipo de socializa<;ao.
Por seu desejo de construir urna hipótese e urna demonstra<;ao fechadas,
Identificam essas diferenc;:as com a passagem do ensino secundário e obrigatório
Bowles e Gintis incorrem em urna visao da escola que sobrestima sua eflcácia
ao superior de durac;:ao curta e ao superior de dura<;ao longa. No nível mais baixo
como mecanismo de socializac;:ao. Na verdade, o salto da constru<;ao de urna
os estudantes sao socializados em urna atitude de submissao as normas e as
hipó tese baseada numa descric;:ao fenomenológica a sua verificac;:ao por meio da
autoridades; no mais alto procura-se estimular neles urna atitude de iniciativa ou
medic;:ao estatística da associac;:ao entre trac;:os de personalidade, rendimento
interioriza<;ao das normas (urna disciplina interna mais que externa); no
escolar e rendimento no trabalho só tem sentido a partir do pressuposto da
intermediário produz-se um tipo de socializac;:ao mista. Cada etapa produz um
eflcácia absoluta da escola. Ao dar este salto, eles exp6em sua teoria a urna
tipo de socializac;:ao e todos passam pela primeira, mas o número dos que chegam
refutac;:ao fácil, embora de tao duvidoso valor quanto sua demonstra<;ao. E, ao
as seguintes reduz-se progressivamente. Assim, se, como sustentamos autores,
aceitar o pressuposto em que se baseia, veem-se levados a imaginar a escola
pode-se dar a mesma distinc;:ao entre níveis da hierarquia do trabalho e tra~os de
como urna máquina perfeitamente lubrificada e livre de coriflitos e desajustes
caráter neles exigidos, cada grupo social abandona a escola com o tipo de
em suas func;:oes de socializac;:ao.
socializac;:ao mais apropriado para desempenhar adequadamente sua func;:ao no
Os próprios autores revisaram sua posic;:ao em escritos posteriores
lugar que lhe corresponde na divisao do trabalho.
(Bowles e Gintis, 1983) e tem sido criticados a partir de enfoques mais abertos
Eles tentam também validar empíricamente sua posic;:ao através da análise
a considerac;:ao de contradic;:oes estruturais, conflitos sociais e estratégias
dos trac;:os de personalidade que se associam ao exito na escola e no trabalho,
individuais ou grupais (Carnoy e Levin, 1985; Apple, 1985; Fernández Enguita,
ou a caracterizac;:ao como bom estudante e bom trabalhador, tratando de
1987). Entretanto, nada disto tira o valor quanto aoque aqui nos preocupa, sua
mostrar que os trac;:os recompensados pela instituic;:ao escolar sao os mesmos
enfase nas relac;:oes sociais da educac;:ao.
que os positivamente sancionados e buscados no local de trabalho. Basean-
do-se em Weber e Merton, afirmam:
Outras contribui96es importantes
Os estudantes sao recompensados por mostrar disciplina,
Embora as citac;:oes acima constituam as correntes principais de
subordinac;:ao, um comportamento orientado intelectual e nao
pensamento nas quais pode e deve apoiar-se qualquer estudo do papel da
emocionalmente, urna forte laboriosidade independentemente da
escola na socializac;:ao para o trabalho, nem por isso deixam de existir outras
motivac;:ao intrínseca das tarefas. Mais ainda, esses trac;:os sao
que, sem fazer disso seu foco de atenc;:ao, trouxeram elementos dignos de
recompensados independentemente de qualquer efeito da ''conduta
serem tomados em considerac;:ao. Faremos simplesmente urna rápida menc;:ao
adequada'' sobre o rendimento escolar (Bowles e Gintis, 1976: 40).
a elas, sem expó-las de forma geral nem criticar suas limita<;:oes.
152 Mariano Fernández Enguita
A Face Oculta da Escola 153
Numerosos clássicos da pedagogia, longe ainda do idealismo do O desenvolvimento mais criativo e frutífero deste enfoque é, sem dúvida
reformismo pedagógico, nao duvidaram em colocar a enfuse que estava a seu nenhuma: o da chamada ''No~ Sociologia da Educac;ao'' britanica (Young,
alcance nos aspectos disciplinares da escola. Assim, por exemplo, Comenio e 1971; 'Yhltty e You~g, 1977; Kedd1e, 1973; :Voods, 1979; urna revisao e avaliac;ao
Kant, mas também Locke, que embora pensando apenas na educac;ao do geral e a de Forqum, 1983). Como a defmm sua cabec;a mais visível, tratava-se
cavalheiro insistía em que a primeira coisa eram os bons costumes, ou de
Helvécio, o qual, sem necessidade de falar da escola, ofereceu urna teoria
materialista geral da educac;ao na qual bem poderla fundamentar-se qualquer (... ) urna investigac;ao da organizac;ao social do conhecimento nas
projeto disciplinar - ou o contrário, mas de qualquer forma baseado na instituic;óes educacionais. (... ) urna sociologia da educac;ao que faz dos
centralidade da experiencia material. É suficiente urna breve alusao aos dois problemas do controle e da organizac;ao do conhecimento e de suas in-
primeiros. ter-relac;oes sua preocupac;ao principal. (... ) Hoje em dia, sao as
Comenio nos obsequio u com a máxima de que ''escola sem disciplina é concepc;óes de senso comum do "científico" e do "racional", juntamente
moinho sem água" (Comenio, 1986: 265), insistindo na importancia de com as diversas crenc;as sociais, políticas e educacionais que se sup6em
modelar os costumes, a parte da instruc;ao propriamente dita (''a disciplina provir delas, as que representam as categorías legitimadoras dominantes.
mais rigorosa nao se deve empregar por causa dos estudos e das letras; mas Por conseguinte, converte-se em tarefa da investigac;ao sociológica tratar
para a correc;ao dos costumes' ') (loe. cit.) e na necessidade de um controle estas categorías, nao como realidades absolutas, mas como realidades
estrito pelo professor (" socialmente construídas que se realizam em contextos insitucionais
sentado no lugar mais elevado, estende seus olhos ao redor e nao permite que particulares (Young, 1971: 3).
ninguém fac;a outra coisa senao ter seu olhar posto nele" (ibid.: 180).
Kant, o filósofo do espírito, tampouco foi insensível a tentac;ao de Outra corrente a considerar, formada por trabalhos que podem ser
empregar disciplinarmente a escola. Se o domínio da animalidade, o agrupados mais por sua metodologia comum que por seus pressupostos
submetimento dos instintos, era a base da moralidade, bem que se podia teóricos ou suas conclus6es, é a constituída pelos estudos do tipo
recorrer a disciplina antes e preferentemente que a razao. Ademais, a cultura antropológico e etnográfico. Por princípio, o antropólogo apresenta, em relac;ao
podia ser adquirida em qualquer etapa da vida, mas a disciplina devia ser ao sociólogo típico, a vantagem de ser capaz de olhar com certa distancia seu
assegurada na idade mais precoce ou nao o seria nunca. Por conseguinte, nao objeto de estudo como resultado do relativismo cultural que emerge da
era questao de menosprezar as possibilidades das salas de aula: dispersao da atenc;ao entre sociedades e civilizac;oes de tipos muito diferentes.
O que consideramos natural ou inevitável quando nos ftxamos em um só tipo
Assim, por exemplo, enviam-se a princípio as crianc;as aescola, nao já com de sociedade converte-se em arbitrário ou contingente ao observar que nao
a intenc;ao de que aprendam algo, mas com a de habituar-lhes a está presente em todas; quando menos, converte-se em algo que precisa ser
permanecer tranqüilos e a observar pontualmente o que se !hes ordena, explicado em vez de ser dado por suposto. Por isso mesmo, tem sido de
para que mais adiante nao se deixem dominar por seus caprichos grande valor os estudos específicos do tipo antropológico e etnográfico, alguns
momentáneos (Kant, 1983: 30). deles associados a teoria do rotulamento (labeling theory) ou a psiquiatría,
realizados em torno de instituic;oes e processos educacionais, embora nao
Voltando a nossos días, o chamado ''enfoque interpretativo'', produto de cheguem a constituir urna corrente no sentido forte do termo (por exemplo:
urna simbiose entre o interacionismo simbólico de Blumer (1982), o Becker, 1961; Hollingshead, 1949; Stinchcombe, 1964; Cicourel e Kitsuse,
comportamentalismo social de Mead (1972), a sociologia ''humanista'' de 1963; Henry, 1971, 1972; Friedenberg, 1963; Leacock, 1971).
Schutz (1974), a sociologia "fenomenológica" de Berger e Luckmann (1971) e De maior interesse teórico é outra corrente, esta sim no sentido forte, de
a etnometodologia de Garfinkel (1967), ao adotar como centro de interesse o desenvolvimento relativamente recente: os chamados es tu dos ''culturais'' e
mundo que se dá por certo (taken for granted world), isto é, os significados, outros assimiláveis, baseados na reac;ao de R. Williams (1965, 1973, 1977) e E.
valores, práticas e relac;oes sociais cotidianas que raramente ou nunca P. Thompson (1977, 1978) contra o determinismo estruturalista, e associados as
questionamos, também trouxeram urna bagagem cheia de observac;óes e denominadas teorías da resistencia. Como os interacionistas, este grupo de
interpretac;oes que podem ser úteis em urna análise das relac;oes sociais da autores centra sua atenc;ao nos processos culturais pelos quais os sujeitos do
educac;ao (para urna crítica deste enfoque, vejam-se Sarup, 1978, e Gleeson e processo educacional percebem, medeiam e transformam os significados e os
Erben, 1976). fms da instituic;ao, mas enquadrando aqueles nos determinantes surgidos das

154 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 155


subculturas de classe, genero e rac;:a nas quais estao inseridos seus A importii.ncia da experiencia escolar
protagonistas (Willis, 1986; Corrigan, 1979; Ball, 1981; Everhart, 1983;
McRobbie, 1978; Jenkins, 1983). Centenas de milhoes de crianc;:as e jovens vao todos os dias a escola no
Um grupo muito diferente de autores- que aqui consideramos como de mundo. Acodem a elas cinco dias por semana, trinta ou mais semanas por ano
menor importancia, mas que teve um enorme impacto entre os educadores e um número crescente de anos. A maioria da populac;:ao infantil e juvenil
- é o constituido pelos "desescolarizadores" (Illich, 1974; Reimer, 1973; mundial está escolarizada de urna ou outra forma, e nos países industrializados,
Kozol, 1968; Holt, 1967a, 1967b; Goodman, 1973). Ao focalizar as escolas capitalistas ou socialistas, e nos socialistas nao industrializados, a proporc;:ao
como instituic;:oes burocráticas que suprimem a individualidade e a alcanc;:a praticamente a totalidade. Permanecem no recinto escolar cinco, seis
convivialidade, concederam especial atenc;:ao a seu funcionamento cotidiano ou mais horas diárias, mas a sombra da escola se estende para além disso,
e a seus pretensamente inamoví:veis e indiscutíveis fundamentos e projetando-se diretamente sobre boa parte de suas horas nao escolares
pressupostos, legando-nos urna crítica perceptiva de sua fenomenologia e, (mediante o estudo, as tarefas, as repetic;:óes) e indiretamente sobre seu tempo
com ela, valiosas contribuic;:5es para qualquer análise de suas func;:5es de de ócio (atividades extraescolares em tempo extraescolar, jogos ''educativos'',
socializac;:ao. grupos de iguais combase em relac;:oes nascidas na escola, etc.).
Além disso, deve-se fazer referencia aos numerosos trabalhos sobre o Nos países industrializados, o período mínimo de escolarizac;:ao alcanc;:a
''currículo oculto'' da escola (vejam-se os de Vallance, 1973, 1980; Eisner legalmente os oito ou dez anos e, na prática, os doze ou quatorze para a maioria
e Vallance, 1974; Frey, 1972; Martin, 1976) nao necessariamente associados e mais, mesmo para um setor minoritário, porém crescente. Nos nao
a quaisquer das correntes aludidas. Entretanto, muitos destes trabalhos industrializados, o menos que podemos encontrar é um período obrigatório de
mantem-se no terreno da análise da comunicac;:ao simbólica nas salas de quatro ou seis anos, embora, por outro lado, a escolarizac;:ao nao seja universal.
aula, sem dar o salto ao das relac;:oes sociais materiais, ou colocam num Entretanto, o padrao ocidental converteu-se, ao menos quantitativamente, no
mesmo saco todos os mecanismos nao declarados e os efeitos nao modelo que todas as nac;:óes aspiram imitar.
explicitamente buscados do processo de socializac;:ao na escola. O termo A freqüencia a escola é obrigatória, legalmente compulsória. Nem sequer
"currículo oculto" existe a possibilidade de evitá-la mediante a certificac;:ao de se estar de posse
das capacidades, conhecimentos e habilidades que se supóe ela gera ou
(... ) é um termo deliberadamente vago que se refere mais a um efeito transmite, o que bem poderla ser feito mediante um sistema de exames
posterior (o caráter oculto) que a um processo (o de ocultá-lo) ou a um públicos. A escola é urna espécie de instituic;:ao total de tempo parcial, cujos
conteúdo (o que é ocultado) quaisquer particulares. O fenómeno a que nos internos contam com tardes livres, fms de semana e férias anuais. Nenhuma
referimos como currículo oculto é um fenómeno onipresente. Parece ser outra instituic;:ao social, exceto os exércitos de servic;:o obrigatório - que nao
(de acordo com os que escrevem sobre ele) um efeito generalizado da existem em todos os países nem afetam o genero feminino - apresenta esta
escolarizac;:ao, que tem lugar sem que o planejemos e, na realidade, sem característica de enquadramento obrigatório de toda a populac;:ao. Outras
nosso conhecimento prévio; parece atuar de urna forma diferente, que tem instituic;:oes totais, das quais os internos nao se podem livrar, tais como as
mais a ver com as atitudes, os preconceitos, as normas e os valores prisóes e os manicomios, afetam apenas a grupos proporcionalmente
sociais que, por exemplo, com os currículos de matemática ou de reduzidos - embora já se tornem bastante amplos - da populac;:ao.
economia doméstica per se. Embora estejamos comec;:ando a identificar Além disso, a sociedade atribui-lhe urna importancia que chega a
alguns dos efeitos do currículo oculto (em especial, por exemplo, os liv- identificac;:ao entre a condic;:ao de crianc;:a ou jovem e a de escolar. A primeira
ros-texto de história), o conceito é mais notável como urna referencia aos coisa que perguntamos a urna crianc;:a, depois de seu nome, é o que está
efeitos gerais que produzem - atitudes sexistas ou racistas, por exemplo estudando ou como vao os estudos. Para as próprias crianc;:as e para os jovens
(Vallance, 1980: 139-40). é difícil nao adotar como imagem própria, ou como parte da mesma, a que lhes
devolve a escola. A escola apresenta-se perante eles, ou assim o proclama a
Por último, é preciso mencionar outra corrente ainda vigente: os trabalhos sociedade, como a única coisa séria que existe nesse período de sua vida: o
influenciados em maior ou menor medida pela teoria da reproduc;:ao cultural de resto é o brinquedo, o privado, o trivial. Como escreveu urna vez Fabricio
Bourdieu e Passeron (1970), em especial do primeiro. Entre eles, sobretudo, Caivano, a infancia foi substituída pela ''alunancia' '; a isto deve-se acrescentar
os dedicados ao estudo da formac;:ao profissional (Grignon, 1972; Tanguy, 1983, que, entre os adolescentes, já perdeu sentido a velha pergunta: ''Estudas ou
1985). trabalhas?' '. Todos estudam ou se veem obrigados a fmgir que o fazem.

156 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 157


A escola é a primeira instituic;ao a que se incorporam as. crianc;:as, (. .. ) Ao trabalhar e m um tare fa, um indivíduo desenvolve certas crenc;:as,
descontando a familia, a que ocupa o período que medeia entre a exclusividade valores e preferencias específicas da tarefa em si que, com o tempo, sao
desta e o trabalho e, de qualquer forma, a escolarizac;ao representa seu generalizadas a outras áreas da vida (. .. ) (Breer e Locke, 1965: 10).
primeiro contato com um institui<;ao formal e/ou burocrática, com urna
organiza<;ao. Por conseguinte, é nela onde crian<;as e jovens fazem a primeira Esta generalizac;ao será tanto mais fácil quanto mais se assemelhem entre
experiencia do trato regular com estranhos, do trato com outras pessoas fora si os dois contextos, aquele em que sao geradas as atitudes e aquele ao qual
dos la<;os de parentesco ou da comunidade imediata. sao transplantadas. Deste ponto de vista, a eficácia da socializa<;ao na escola
Sem chegar a ser urna institui<;ao total, tem-se, ao menos, urna vontade para a incorporac;ao ao trabalho poderla ser vista como um exemplo do que
absorvente e panóptica. Crian<;as e jovens sao mantidos constantemente em Breer e Locke denominam ''generalizac;ao lateral'', a transferencia de atitudes,
intera<;ao com o professor e outros agentes da instituic;ao ou sob sua vigilancia. etc., que passa de um "complexo de estímulos" a outro. A influencia da
A escola nao apenas pretende modelar suas dimens6es cognitivas, mas experiencia escolar sobre as atitudes e os valores mais abstratos das pessoas,
também seu comportamento, seu caráter, sua relac;ao com seu corpo, suas isto é sua influencia sobre seus valores e atitudes mais gerais no presente e
rela<;6es mútuas. Prop6e-se a organizar seu cérebro, mas no mais amplo na vida adulta, constituirla um processo de "generalizac;ao vertical".
sentido: nao apenas alimentar um recipiente, mas dar forma ao núcleo de sua Nao importa como chamemos a esses "complexos de estímulos", de
pessoa. Este é o significado último do tao citado lema de Montaigne: nao Breery e Locke: estrutura profunda da experiencia escolar (Apple e King,
cabec;:as bem cheias, mas cabe<;as bem feítas. Cabec;:as sobre as quais nao há 1983), ideología prática (Sharp, 1980; Kickbusch e Everhart, 1985), currículo
que preocupar-se com o risco de que amanha possam beber em outras fontes. nao escrito (Dreeben, 1983), "ruído" que acompanha a comunicac;ao (Henry,
Se a escola consegue este objetivo ou se aproxima dele nao é através 1971), currículo oculto (Vallance, 1980) ou, como aquí s~ fará, e como o f¡zeram
da comunica<;ao, mas por meio da organiza<;ao sistemática da experiencia, Bowles e Gintis, relac;oes sociais da educac;ao. Privileg¡aremos este termo por
da vida prática, da inffmcia e da juventude. Se o objetivo da educa<;ao fosse duas simples razoes: a primeira, porque explicita que a experiencia escolar é
somente comunicativo - extrair, transmitir ou inculcar informa<;6es, algo socialmente determinado; a segunda, porque o que aqui fazemos é aplicar
conhecimentos, idéias, etc. - a escola estaria na iminencia de ser varrida a escola o mesmo tipo de dissecc;ao que levou Marx a desvelar as relac;oes
da face da terra, ou já o teria sido, pelos meios de comunicac;ao de massas, sociais de produc;ao como algo histórico e contingente, nao como a panacéia da
que sao incomparavelmente mais eficazes no que respeita a esse fim, mais natureza e da racionalidade.
atrativos e baratos. Mas a desvantagem insuperável, nesse terreno, do meio
de comunica<;iio é que, exceto na fábula de Orwell, sempre pode ser
desconectado.
Professores e país costumam prestar pouca atenc;ao aquilo que nao seja
o conteúdo do ensino, isto é, da comunica<;ao, e o mesmo faz a maioria dos
estudiosos da educa<;ao. Entretanto, apenas urna pequena parte do tempo
dos professores e alunos nas escolas é dedicada a transmissao ou aquisi<;ao
de conhecimentos. O resto, a maior parte, é empregado em forc;:ar ou evitar
rotinas, em impor ou escapar ao controle, em manter ou romper a ordem.
A experiencia da escolaridade é algo muito mais amplo, profundo e complexo
que o processo da instru<;ao; algo que cala em crian<;as e jovens muito mais
fundo e produz efeitos muito mais duradouros que alguns dados, cifras,
regras e máximas que, na maioria dos casos, logo esquecerao.
As atitudes, disposi<;6es, etc., desenvolvidos no contexto escolar serao
logo transferidas a outros contextos institucionais e sociais, de forma que
sua instrumentalidade transcende sua rela<;iio manifesta ou latente com os
objetivos declarados da escola ou com seus imperativos de funcionamento.
Podemos considerar isto como urna aplicac;ao do chamado ''princípio de
similaridade' ':

158 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 159


6

AS RELA~ÓES SOCIAIS
DA EDUCA~ÁO, 1:
A DOMESTICA~ÁO DO TRABALHO

Em continua<;ao examinaremos as rela<;6es soe1a1s imperantes na


educa<;ao e seu isomorfismo com as rela<;6es sociais de produ<;ao capitalistas.
Ao tratar algumas destas últimas, torna-se difícil distinguir se correspondem
propriamente a economia e a organiza<;ao da produ<;ao capitalista ou,
simplesmente, a toda forma de trabalho industrial ou mesmo coletivo. A
autoridade e a hierarquia, por exemplo, nao sao exclusivas das empresas
capitalistas, elas podem ser encontradas também na economia familiar de
subsistencia, na fazenda escravista, na oficina medieval ou na empresa
''socialista real''. Isto se deve so mente ao emprego de termos tao genéricos
quanto os citados. A autoridade do cabe<;a de família na unidade económica
auto-suficiente nao é a mesma que a do empresário sobre seus trabalhadores:
a primeira é paternalista, a segunda burocrática. Diferen<;as como estas
marcam a necessidade de processos de socializa<;ao distintos. A socializa<;ao
familiar podia ser adequada e suficiente para preparar o campones para a
aceitayao das rela<;6es de dependencia pessoal e de servi<;os mútuos com o
senhor feudal, mas nao o seria para a inser<;ao na organiza<;ao impessoal e
regulamentada da empresa moderna. É aí, justamente, onde intervém a
escoJa.
Mas o problema mais complexo que se apresenta a este respeito é outro,
a saber: quantas e quais das rela<;6es sociais que atribuímos ao capitalismo nao
sao meramente o efeito da industrializa<;ao, adote esta urna forma capitalista,

A Face Oculta da Escola 161


socialista ou qualquer outra que se poda imaginar. Discutiu-se amplamente, competividade em um mercado mundial único, tal como acorre no setor
por exemplo, se a divisao do trabalho acompanha necessariamente o público das economias capitalistas no contexto de mercados nacionais
desenvolvimento de qualquer sociedade ou só pode analisada especificamente únicos.
para cada urna de suas formas. Durkheim representarla a primeira variante; As conclusóes que aqui extraímos sobre a conexao entre as relac;oes
Marx, a segunda. Urna vez mais, parte do problema deve-se a abrangencia do sociais da educac;ao e as relac;oes sociais de produc;ao capitalistas apenas de
termo, que se aplica indistintamente a segregayao das tarefas entre os géneros forma limitada sao generalizáveis as relac;óes sociais de produc;ao sobre outras
na economia primitiva de subsistencia e na linha de montagem. Marx criticou formas de industrializayao nao capitalistas. Confiamos em que, dentro do
a visao da divisao do trabalho como mero desenvolvimento da especializac;ao e processo de democratizayao e ampliac;ao da liberdade de consciencia e de
da complementariedade e distinguiu claramente entre a divisao social e a expressao que comec;a a ter lugar nos países do Leste, nao tardarao a aparecer
divisao rnanufatureira do trabalho. A primeira, que separa entre si unidades de investigac;óes sobre a relac;ao entre sua escala e seu sistema social.
produc;ao independentes: campo e cidade, agricultura e indústria, setores e
ramos da produc;ao, oficinas, empresas, está presente em toda a história nao
primitiva da sociedade, embora passe por diferentes etapas. A segunda, que Ordem, autoridade e submissiio
decompóe o interior de um processo produtivo em tarefas distintas atribuídas
a diferentes pessoas, corresponderla exclusivamente a sociedade capitalista. Urna das características importantes, se nao a mais, que as escalas tero
Hoje em dia, entretanto, vimo-la desenvolver-se de forma similar nas em comum é a obsessao pela manutenyao da ordem. Basta recordarmos nossa
sociedades charnadas socialistas. Pode-se pensar, entao, que se deve em própria experiencia como aluno ou professor, ou visitar urna sala de aula, para
realidade ao simples processo de industrializac;ao e nao a sua forma social e evocar ou presenciar um rosário de ordens individuais e coletivas para nao
económica capitalista. fazer ruído, nao falar, prestar atenyao, nao movimentar-se de um lugar para
Em que medida pode afetar nossa análise? Em nenhurna. O modo de outro.
produc;ao capitalista tero sido a forma específica da industrializac;ao no
Ocidente. As relac;oes sociais que implica dependem, na verdade, do fato de Fiquem quietos! Calero-se! Estas sao as grandes palavras de ordem
ser um capitalismo industrial, isto é, tanto de ser industrial quanto de ser da escala (Holt, 1977: 26).
capitalista. A história poderla ter ido por outros carninhos, mas o fez por estes.
O fato de que a industrializac;ao tivesse tornado urna forma capitalista nao teve A ordem pode ser defendida por razóes técnicas, tal co;:no a
como única conseqüencia a adic;ao de um qualificativo, mas além disso reforc;ou impossibilidade de que a voz do professor chegue a todos se alguns falam ou
algumas possibilidades e suprirniu outras. Ao desenvolver-se coro base na o fazem em voz alta. A rnaioria dos professores, para nao dizer a totalidade,
propriedade privada do capital, colocou todo o poder nas maos de seus pensam que é a condic;ao irnprescindível de urna instruc;ao eficaz. Diante de
proprietários e nenhum nas dos trabalhadores, permitindo aqueles reorganizar qualquer turma de alunos é urna obsessao permanente, e diante de alguns, os
um processo de produyao e de trabalho que afeta fundamentalmente a estes. "grupos difíceis", pode chegar a converter-se no único objetivo. Muitos
De forma análoga, a industrializac;ao perrnitiu ao capitalismo desenvolver sua professores tero a primeira notícia disso quando, ao incorporar-se a urna
lógica a um ponto que nunca teria sido possível sob suas formas comercial ou escala, o diretor adverte-os de que nao importa tanto o que ensinem a seus
fmanceira. alunos quanto que saibam mante-los em ordem. Coro raras excec;oes, os
Que o capitalismo comercial nao trouxe consigo as mesmas modificac;oes demais acabam por aprender a mesma coisa pelo carninho.
nas relac;oes de produc;ao é algo sobre o qual qualquer um estaria de acordo.
Pois bem, da mesma forma pode-se afirmar que a industrializayao nao (... ) Deve-se manter a ordem e impar a disciplina, mantendo, ao
capitalista tampouco o fez, tal como argumentamos em um capítulo anterior. As mesmo tempo, um estado aceitável de justic;a distributiva. A capacidade de
teorias da modernizac;ao, que interpretam as características comuns ao controlar a classe é o sine qua non da permanencia no grupo, pois, sem
socialismo real e ao capitalismo como procedentes da industrializayao e as ela, nao pode ter lugar lugar instruc;ao alguma (Lortie, 1961: 11-2; veja-se
diferentes como mostra de urna modernizac;ao insuficiente do primeiro, também Eddy, 1967).
permanecem tao indemonstradas quanto a hipótese inversa: que as
características comuns a economia dos países capitalistas e a dos países do O que confere sua dirnensao característica ao problema da ordem nas
Leste se devem a influencia dos primeiros sobre os segundos dada sua maior escalas é que nao se trata de instituic;oes voluntárias. Manter a ordem na sala

162 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 163


de aula é notavelrnente mais difícil que faze-lo em urna sala de conferenCias ou debilitá-la. As grandes manifestac;óes de autoridade apresentam sempre, para
em um cinema, porque nestes a assistencia e a permanencia obedecem a quem a exerce, o risco de provocar grandes resistencias; mas as pequenas
vontade e naquela nao. O problema da ordem, quando nao é livremente fazem com que o risco de resistí-las nao valha a pena para quem as sofre.
desejada ou consentida, converte-se de imediato no problema da autoridade e Comentando pequenas restric;óes .e imposic;óes sobre a roupa, as atividades
da submissao a mesma. desportivas, etc., Edgar Z. Friedenberg escrevia a propósito das escalas
Muitos professores nao veem nisso um problema, pois consideram que secundárias norte-americanas:
aceitar a autoridade é parte da transic;ao a vida adulta, que é necessário para
urna presenc;a nao conflitiva e urna atividade eficaz em contextos adultos. É certo que se trata de pequenas restric;oes, impostas por meio de
Outros, em traca, nao podem deixar de ver a si mesmos envolvidos em urna pequenas sanc;óes. As escalas secundárias americanas nao sao campos de
contradic;ao ou em urna situac;ao esquizofrénica ou, quando menos, concentrac;ao; e eu nao me queixo de sua severidade, mas do que ensinam
ambivalente, atormentados entre o discurso liberal da pedagogía e a dimensao a seus estudantes no que conceme a relac;ao adequada do indivíduo com
autoritária da prática escolar. Os país e o público em geral também concedem a sociedade. O fato de que as restric;óes e as penalidades sejam pequenas
grande importancia a disciplina: ano após ano, as pesquisas de opiniao pública e nao importantes em si mesmas é urna forma de piorar as coisas. As
realizadas pelos Institutos Harris e Gallup nos Estados Unidos a situam como grandes intromissóes sao mais facilrnente reconhecidas como tais; as
o primeiro problema em importancia, ao menos no que concerne as escalas pequenas restric;oes sao resistidas apenas pelos mais "revoltosos"
secundárias. (Friedenberg, 1963: 46-7).
Os alunos veem-se assim inseridos dentro de relac;oes de autoridade e
hierarquia, tal como deverao faze-lo quando se incorporarem ao trabalho. Em Subsidiário, mas nao carente de importancia, é o efeito que a submissao
parte, esta autoridade baseia-se diretamente em sua condic;ao nao adulta, mas permanente a autoridade produz sobre a imagem de si mesmo e a auto-estima
o faz sobretudo na legitimidade concedida a escala pela sociedade, em suas dos alunos. O exercício constante da autoridade sobre eles é urna forma de
exigencias como organizac;ao e numa suposta necessidade pedagógica. A fazer-lhes saber e recordar-lhes que nao podem tomar decisoes por si
submissao a autoridade aprendida no seio da familia nao constituí urna base mesmos, que nao se pode depositar confianc;a neles, que devem estar sob
preparatória suficiente para a aceitac;ao da autoridade no local de trabalho. tutela.
Como escreveu Richard Sennet:
Longe de ajudar os estudantes a se desenvolverem como indivíduos
O que sabe urna crianc;a acerca da protec;ao de seu pai nao é o mesmo maduros, auto-suficientes e automotivados, as escalas parecem fazer tudo
que o que aprenderá um adulto jovem acerca de um chefe. O trabalho nao para manter os jovens em um estado de dependencia crónica, quase
é urna extensao natural da família. (... ) Na melhor das hipó teses, quando infantil. A onipresente atmosfera de desconfianc;a, juntamente com as
cada ser humano sai da farm1ia em que nasceu, esse ser humano ve essas regras que abrangem os aspectos mais ínflffios da existencia, ensina todos
relac;óes refletidas no trabalho ou na política como em um espelho os días aos estudantes que eles nao sao gente de valor nem, naturalmente,
deformante (Sennett, 1980: 59). indivíduos capazes de regular sua própria conduta (Silberman, 1971: 134).

O que Locke dizia a respeito da pos¡c;ao do chefe político, urna vez Um feito que se ajusta as mil maravilhas com o que já reivindicavam
separada a família do Estado, pode ser estendido ao chefe económico, urna vez fortemente os patroes na primeira metade do século XIX:
dissociada a farm1ia da produc;ao. Nenhum dos dois pode mais dizer, como
Nicolau II: "Nao discutais comigo! Sabeis que sou vosso pai e basta!". Mas se O hornero que, de qualquer lugar que venha, queira converter-se em
a autoridade da escala já nao é a autoridade indiscutida do pai, tampouco é a um bom operário, deve comec;ar por desfazer-se da idéia exagerada de seu
autoridade parcial e limitada do Estado liberal. É, como a autoridade no próprio mérito (Charlot e Figeat, 1985: 90).
trabalho, urna autoridade com tendencia a ser total durante o período de tempo
em que o indivíduo está incorporado a instituic;ao e dentro do espac;o Que a autoridade e a disciplina escolares sao mais parte da relac;ao
delimitado por seus confms. educacional em si mesma que da relac;ao entre gerac;oes que se lhe superpoe
Fora da freqüéncia compulsória carece de grandes manifestac;óes. Seu é algo que fica claro no grau diferente de legitimidade concedido as ordens do
ambito limita-se a pequenas coisas, mas isto assegura sua forc;a antes de professor e as do bedel, em geral mais adulto ainda mas raramente obedecido

164 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 165


salvo na medida em que consiga o apoio da autoridade do outro. Entretanto, a Burocracia e impessoalidade
autoridade da escola, que é parte da relac;:ao social da educac;:ao, nao se
enquadra no campo mais restritivo da instrut;ao, como o demonstra, em A autoridade, ao menos tal como a tratamos na set;ao anterior, é apenas
sentido oposto ao da comparac;:ao anterior, o papel do administrador - que nao urna dirnensao pessoal da organizac;ao. Urna das características que separam o
tero por que ser um professor nem, de qualquer forma, por que exerce-lo mundo do trabalho, ao qual a escola serve, da familia, no que tange a seu
como tal - nas escolas norte-americanas, nas quais atua como diretor e público, é a que opóe as relac;oes pessoais e íntimas desta as relac;:oes
representante dos objetivos educacionais da comunidade. impessoais, formais e burocráticas daquele. A aprendizagem destas novas
Por outro lado, nao se deve pensar que as pautas de autoridade e disciplina relac;oes tero lugar na escola, como se encarrega de recordar Talcott Parsons
presentes na escola sao, simplesmente, as necessárias em qualquer tipo de ao enumerar as duas prirneiras entre as quatro func;:oes por ele atribuídas a
organizac;:ao. Se imaginamos que nao há nenhuma outra forma de aprender classe escolar:
senao escutar ou realizar as atividades coletivas indicadas por um professor -
como se depreende, por exemplo, da citac;:ao anterior de Lortie -, entao nos (... ) 1) Urna emancipat;ao da crianc;a coro relac;ao a sua relac;:ao
veremos insensivelmente levados a aceitar a necessidade da ordem, do primária elementar coro a familia; 2) urna interiorizat;ao de normas e de
silencio, da imobilidade, da simultaneidad e, dos horários coletivos, etc., coisas valores sociais que se situam acirna dos que pode aprender unicamente
todas elas que sao obtidas nas escolas através do exercício ou da invocac;:ao da por meio de sua familia (Parsons, 1976: 76).
autoridade. Entretanto, a presente organizac;:ao da educac;ao nao é a única
forma de organizat;ao possível, mas apenas, como tratamos de demonstrar em Que tero a escola, no que concerne a normas e valores, que nao pode ter
um capítulo anterior, a forma que historicamente lhe foi dada, urna entre as a família? Que, nela, crianc;as e jovens sao agrupados de acordo coro urnas
muitas possíveis. poucas características e tratados de forma teoricamente uniforme sem a
interferencia de considerac;oes individuais nem, muito menos, afetivas. As
A ordem e a autoridade nas salas de aula, como opostos a livre relac;óes afetivas e duradouras da farru1ia tero sua contraparte na escola em um
criatividade - e nao, como as vezes se pensa, a violencia, aos distúrbios grande número de relac;oes transitórias e irnpessoais. Como se escreveu em
ou ao simples ócio - sao o derivado necessário do ensino simultaneo, sobre múltiplas ocasióes, estar na escola é estar em multidao, ser tratado como parte
cuja história já dissemos também algo anteriormente. Elimine-se esta forma de um coletivo Gackson, 1968: 10; Silberman, 1971: 121; Pellegrin, 1976: 354).
de ensino e tornar-se-á automaticamente prescindível o manejo dos alunos O trabalho do professor consiste principalmente em lidar coro essa multidao:
ao estilo de um pelotao militar. Nao é necessário na autodidaxia, nem na
aprendizagem no local de trabalho, nem quando se concebe o professor como (... ) a educac;:ao e o desenvolvimento de um grupo de crianc;:as sao
um monitor especializado de crianc;as ou jovens que aprendem por si propriamente um trabalho de direc;ao e gestao (management), nao um
mesmos. Nao é preciso forc;:ar a ordem, ela nao se converte em um problema trabalho de comunicac;ao, nem sequer um trabalho académico (Handy e
organizativo, quando a aprendizagem é voluntária do princípio ao fun. Mas Aitken, 1986: 42).
tudo isto está hoje reservado a processos educacionais localizados fora das
escolas. A relac;ao pessoal coro o pai, a mae ou outros adultos da farru1ia é substituída na
escola pela relac;ao coro o professor, mas urna relat;ao na qua! o al uno é considerado
Pois bem, o ensino simultaneo está para a autodidaxia como o trabalho apenas enquanto parte de um grupo, coletivo ou categoria. Como escrevia um
assalariado está para a produc;ao de subsistencia ou para o trabalho autónomo, crítico das escolas secundárias na segunda meta de do século passado:
e está para a livre aprendizagem comum como urna empresa capitalista está
para urna cooperativa ou para urna empresa autogestionada. Se o método (. .. ) é o que se deve esperar inevitavelmente da escolarizac;ao e m massa.
simultaneo converteu-se no método dominante foi precisamente porque Para manejar coro éxito urna centena de crianc;as, ou mesmo a metade
representava na escola o que as novas relac;:oes de produc;ao capitalistas deste número, o professor deve reduzi-las tanto quanto seja possível a
representavam no trabalho, porque era sua réplica escolar e, em conseqüencia, urna unidade (citado por Tyack, 1974: 54).
a melhor forma de preparar a infancia e a juventude para sua aceitac;:ao. Urna
das características fundamentais da educat;ao na escola é sua dimensao Mas o que compromete a impessoalidade e o tratamento como parte de
onipresente de educac;ao para a docilidade (Henry, 1955). um coletivo nao é o número em si, mas urna organizac;ao socialmente

166 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 167


determinada das escolas e da educac;:ao. Os hospitais relacionam-se com um grupos homogéneos que se constituem em categorias definidoras de acordo
número de pessoas tao elevado ou mais que o das escolas, mas nem por isso com as quais sao tratados e se espera que ajam.
as submetem a um tratamento uniforme nem as reduzem a unidades "Especificidade" significa que aceita ser tratado assim,
componentes de coletivos internamente homogéneos - embora nao lhes falte independentemente de todas suas outras circunstancias ou características
alguma tendencia a isso. gerais. Urna vez que é aluno, deverá apresentar-se todos os dias as oito ou as
O trabalho do professor passa assim a consistir, sobretudo, e nove da manha sem que importe que, talvez, como indivíduo, lhe seja muito
contrariamente a qualquer idéia platónica a respeito, em ensinar crianc;:as e mais difícil que aos demais levantar-se a hora correspondente; terá de recitar
jovens a comportar-se da forma que corresponde ao coletivo ou categoria em a lic;:ao diante de seus colegas embora lhe seja especialmente embarac;:oso, terá
que foram incluídos, exigindo e premiando a conduta correspondente e que estudar a literatura clássica embora suas preferencias se inclinem para o
rejeitando e mesmo penalizando tudo o que possa derivar de suas outras romance policial, etc.
características como indivíduos ou, ao menos, tudo o que delas possa Tudo isso porque, quando deixar de ser Pedrinho para ser Pedro, um
manifestar-se na escola ou chegar a afetar a relac;:ao pedagógica. trabalhador adulto, terá que estar preparado para ser tratado como assalariado,
No jargao funcionalista, isto significa a aprendizagem do universalismo e da como votante, como usuário dos transportes públicos, etc., antes que como
especificidade, que juntamente com a independencia e a realizac;:ao seriam os Pedro, fora das relac;:oes familiares e de amizade. Se se converte em garc;:on,
objetivos da escola: será tratado como tal embora seja um grande conhecedor da fllosofia alema ou
guarde em casa um título de engenheiro; se ingressa no cárcere, será tratado
Ao falar destas quatro idéias como normas, refrro-me ao fato de que como recluso embora possua urna alma sensível; se sobe no onibus, terá que
os indivíduos as aceitam como critérios legítimos para governar sua pagar o prec;:o da passagem embora por isso já nao possa comprar pao.
própria conduta nas situac;:oes apropriadas. Concretamente, (... ) Aprender a ser tratado com critérios "universalistas" e "específicos" é
reconhecer o direito dos demais a tratá-los como membros de categorías também aprender a tratar os demais com esses mesmos critérios. O professor
[universalismo] com base em algumas poucas características discretas é o professor, nao o pai de alguém; sua autoridade deve ser respeitada, mesmo
antes que com base na inteira constelac;:ao delas que representa a pessoa que suas decisoes nao sejam as mais acertadas. Porque, na vida adulta, o chefe
completa [especificidade] (Dreeben, 1968: 63-4). de Pedro será o chefe, embora seja um cretino, e se é garc;:on só servirá algo
a quem possa pagá-lo e o pague, sem fazer descontos aos amigos nem praticar
Os cifrados termos do funcionalismo merecem urna explicac;:ao. a caridade com os que tem sede mas nao dinheiro.
"Universalismo" quer dizer que o jovem Pedrinho aceita ser tratado como A traca de professores de um ano para outro e, a partir de urna certa
aluno, o que implica exigir dele todas as ac;:oes e omissoes que se esperam altura, de urna matéria ou atividade para outra propicia a despersonalizac;:ao do
de um aluno. De forma mais geral, deverá aceitar ser tratado como exercendo papel ou, o que é a mesma coisa, sua universalizac;:ao; algo que nao era possível
um papel mais ou menos preciso: aluno, aluno de terceira série, aluno de no seio das relac;:oes familiares, onde os papéis estavam indissoluvelmente
geografia de terceira série, aluno repetente de geografia de terceira série, associados as pessoas que os desempenhavam. Simetricamente, o aluno
etc. experimenta o tratamento que !he dá o professor como o correspondente a sua
Esta aprendizagem é propiciada através da desconsiderac;:ao na escola das qualidade como tal, nao a sua particular pessoa e a suas especiais
características adscritas que fazem de cada componente um indivíduo único na características.
farm1ia. Nesta dificilmente se podem encontrar pessoas do mesmo genero e
idade, de forma que as específicas combinac;:oes destas duas características
configuram identidades únicas em torno das quais giram as atitudes e A aliena~ao com :rela~ao aos fins do t:rabalho
expectativas dos demais com relac;:ao aqueles aos quais correspondem: o bebe,
a menina pequena, o adolescente homem, a mae adulta, o av6 anciao, etc. Na Marx caracterizou acertadamente o trabalho na sociedade capitalista, em
escola, em troca, tais características, ou sao ostensivamente - ou comparac;:ao com o trabalho em geral, como trabalho alienado. Para ele, esta
pretensamente - ignorados, como ocorre com o genero, ou desaparecem alienac;:ao residía, basicamente, na relac;:ao entre o trabalhador e o produto, o
como diferenciadores dentro dos coletivos para limitar-se a diferenciar os processo e os meios de seu trabalho (Marx, 1977: 105 e ss.). A alienc;:ao com
coletivos entre si, como ocorre com a idade - e, nas escalas mistas, tam- relac;:ao ao produto do trabalho tem um duplo sentido: em primeiro lugar, este
bém com o genero. Assim, os alunos veem-se designados e confinados a produto nao pertence ao trabalhador mas a urna pessoa alheia, ao capitalista

168 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 169


que comprou sua fon;:a de trabalho, sua capacidade de produzir durante um ''Tuas expenencias, tuas preocupac;:6es, curiosidades, necessidades, o
tempo determinado; em segundo lugar, o trabalhador ja nao determina qual que sabes, desejas, perguntas, esperas, temes, gostas ou desgastas, para
será o produto de seu trabalho, mas este é decidido pelo capitalista ou seu o que serves e para o que nao, tudo isto nao tem a mínima importancia,
representante. O primeiro aspecto afeta a propriedade dos resultados do nao conta para nada. O que importa aqui, o único que importa, é o que nós
trabalho; o segundo, a determinac;:ao de seus fins e objetivos. Isto distingue o sabemos, o que consideramos importante, o que queremos que fac;:as,
trabalhador assalariado das figuras antes dominantes do artesao ou do penses e sejas (Holt, 1977: 24).
campones medievais. O primeiro era inteiramente proprietário de seu trabalho
e determinava livremente o produto do mesmo - dentro das limitac;:oes impo Certamente fica difícil imaginar situac;:oes nas quais alguém possa fazer
stas pelo mercado e pela organizac;:ao corporativa - e o segundo o fazia, ao única e exclusivamente o que queira e tudo o que queira, mas o poder da
menos, parcialmente- a outra parte era o produto ou o trabalho que tinha que escola vai além da mera restri<;:iio. Assim como a autoridade no seio da família
entregar ao senhor. é fundamentalmente restritiva, a autoridade escolar é essencialmente
O primeiro aspecto da alienac;:ao com relac;:ao ao produto, o fato de ser prescritiva, o que representa urna diferen<;:a de qualidade e de grau. Vem a
propriedade de outro, nao vem ao caso tratar com rela<;:ao a escola. O resultado mente, com facilidade, o paralelismo com a diferenc;:a entre o trabalho
do trabalho do aluno, seja o conhecimento ou seu certificado, pertence-lhe sem autónomo e o trabalho para os outros. O mercado imp6e restri<;:6es ao
discussao. produtor independente na hora de decidir o objeto de seu trabalho, assim como
O segundo aspecto, a determina<;:iio dos fms por urna vontade alheia, as limita<;:6es dos instrumentos e do saber fazer as imp6em ao trabalhador
reproduz-se inteiramente na escola. Assim como o trabalhador assalariado primitivo em urna economía de subsistencia, mas nem um nem outro
carece de toda capacidade de decidir o que produzir, a crianc;:a e o jovem encontram nada nem ninguém que lhes dite o que devem fazer, mas urna gama
escolarizados carecem da capacidade de decidir o que aprender. O produto de de opc;:oes possíveis que minimizam as restric;:oes. O que trabalha para outro,
seu tra?alho ou, se se prefere, o conteúdo do ensino e da aprendizagem, é ao contrário, nao encontra diante de si restric;:oes, mas prescric;:oes: nao é
determmado por outro. Pouco importa se este outro é o professor ou se necessário dizer-lhe o que nao pode fazer porque já lhe foi dito o que tem que
também este, por sua vez, encontra-se submetido- como é o caso- a urna fazer. Na escola, como na produc;:ao capitalista, minha liberdade nao comec;:a,
ou várias vontades alheias - as autoridades das unidades administrativas como reza o ditado, onde termina a liberdade dos demais, mas onde termina
educacionais, as autoridades políticas, os fabricantes de livros-texto e outros seu poder, o que neste caso quer dizer fora da instituic;:ao.
materiais escolares. No esotérico jargao dos pais da teoria da reproduc;:ao A eficácia na imposic;:ao desta relac;:ao social do aluno com o conteúdo de
cultural: seu trabalho nao precisa esperar a vida de trabalho para se fazer evidente. A
maioria das crianc;:as e jovens aprende logo a nao perguntar por que tem que
Toda a<;:iio pedagógica é objetivamente urna violencia simbólica aprender isto ou aquilo. Logo aceitam que, a esse respeito como a outros,
enquanto imposic;:ao, por um poder arbitrário, de urna arbitrariedade estiio submetidos a urna vontade alheia.
cultural (Bourdieu e Passeron, 1977: 45).
Por que lhe fizeram aprender isto e nao aquilo, ou por que isto antes
Isto é, toda ac;:ao pedagógica implica a :;elec;:ao de um conjunto de saberes que aquilo, é outro mistério para ele; tampouco precisa saber quais
como dignos de serem transmitidos e aprendidos e, como corolário, a poderiam ser as opc;:oes alternativas. Urna vez que pouco do que lhe
eliminac;:ao de outros como indignos de tal procedimento. O que Bourdieu e fizeram aprender tem muito sentido para ele, exceto talvez ler, escrever e
Passeron nao demonstram de forma convincente é que essa seja urna fazer contas, raramente pergunta por que lhe fizeram aprende-lo. Também
característica de toda ac;:ao pedagógica (por exemplo, onde está a selec;:ao sente que se lhe ensinará seja lá o que for que a professora decidiu
arbitrária, ou a arbitrariedade cultural, quando o campones ensina seu filho a ensinar, logo a questao é inútil (White, 1968, citado por Silberman, 1971:
lavrar a terra em urna economía de subsistencia?), mas nao há dificuldade em 147).
considerar válida sua afrrmac;:ao no que conceme a escola atual.
A indiferenc;:a ou a resignac;:ao diante do conteúdo do próprio trabalho,
Na escola escuta-se toda série de belas coisas sobre o respeito para escolar primeiro e assalariado depois, equivale a deixar as maos livres aqueles
com a crianc;:a, as diferenc;:as individuais e coisas parecidas. Mas nossas que contam com o poder de organizá-lo, o professor na escola e o patrao ou
ac;:oes, em contraposic;:ao a nossas palavras, parecem dizer a crianc;:a: o chefe na empresa, ou a renunciar a resistir a seus ditados. Por isso God-

170 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 171


win pode dizer, faz já séculos, que a educa<;ao preparava os homens para de poder, por parte do trabalhador, para determinar o procedimento pelo qual
aceitar formas despóticas de governo. obterá os objetivos fJXados para seu trabalho. Representa a perda do controle
O chamado ensino individualizado nao traz nenhuma diferen<;a. A "indivi- sobre a própria atividade durante o tempo de trabalho.
dualiza<;ao'' raramente afeta os fins. Consiste normalmente em urna adapta<;ao ou A crian<;a e o jovem escolarizados sao preparados para aceitar esta
dosifica<;ao dos meios para chegar ao mesmo objetivo ou, como afirma Oettinger, condi<;ao através de sua incorpora<;ao a urna experiencia similar na escola.
em que cada' 'cada aluno é livre para ir mais• o u menos rapidamente aonde lhe foi Além de nao poder determinar o objeto de seu trabalho escolar - o conteúdo
dito para ir" (citado por Silberman, 1971: 137). Mas, mesmo que esta do ensino -, o aluno carece também de capacidade de decisao sobre seu
individualiza<;ao implique mudanyas reais na posi<;ao do aluno em rela<;ao ao processo de trabalho - a aprendizagem, a pedagogia, os métodos.
conteúdo de seu trabalho, o acesso a tal possibilidade é socialmente diferenciado.
Urna biblioteca em que se tenha múltiplas op<;6es custa mais dinheiro que um Encontramo-nos, pois, com este discípulo curioso, paciente,
livro-texto obrigatório, urna sala que permita diferentes tipos de atividade é mais resolvido, enérgico e hábil. Fazemo-lo sentar em um banco escolar e o que
cara que urna sala com bancos alinhados e um quadro-negro, e assim é que lhe ensillamos? Muitas coisas. Em primeiro lugar, que a
sucessivamente. Desta forma, a possibilidade de urna crian<;a ver-se incorporada aprendizagem é algo a margem da vida: ''Vocem vem a escola para
a um processo de ensino que implique outra rela<;ao como conhecimento está em aprender", dizemo-lhes, como se as crian<;as nao tivessem aprendido
propor<;ao a seus rendimentos familiares, entre outros fatores associados a antes, como se a vida tivesse ficado fora e a aprendizagem dentro, e nao
origem social. Em conseqüencia, urna educa<;ao mais livre é mais provável para houvesse nenhuma rela<;ao entre as duas. Em segundo lugar, que nao se
quem também tenha mais probabilidades de chegar a um destino social mais deve confiar em que aprenderao e que nao servem para isso. Tudo o que
elevado e refor<;a cumulativamente estas. E um destino social "mais elevado" fazemos para ensiná-los a ler - tarefa muito mais simples do que as que
significa, entre outras coisas, urna posi<;ao distinta na divisao vertical do trabalho, a crian<;a já domina- parece indicar-lhe: "Se nao te ensillamos a ler, nao
isto é, maiores possibilidades de ter capacidade decisória sobre o objeto e o o farás, e se nao o fazes tal como dizemos, nao poderás' '. E m resumo,
processo deste. chega a pensar que a aprendizagem é um processo passivo, algo que fazem
A possibilidade de aceder a níveis superiores, de escolher urna forma<;ao a ti, em vez de algo que fazes por ti mesmo (Holt, 1977: 23).
académica ou profissional, entre ramos universitários ou profissionais ou entre
matérias optativas tampouco muda muito o panorama global. Para come<;ar, esta Em outras palavras, o que se lhes diz e imp6e é que nao há outra
escolha tem, com freqüencia, muito de orienta<;ao foryada ou de op<;ao tao-so- aprendizagem que a regulada pelo professor. Invertendo os termos, a
mente entre as possibilidades que nao foram previamente excluídas. E sobretudo aprendizagem explica-se pela escola e nao o contrário. O aprendido antes ou a
porque urna vez feita a escolha esgota-se toda capacidade de decisao. Pode-se parte nao vale porque o foi fora dos muros da escola; ao contrário, tudo o que
escolher, se isto for permitido, entre seguir estudos superiores ou nao, cursar se passa dentro desta é automaticamente considerado aprendizagem, embora
Direito ou Ciencias Económicas, aprender francés ou ingles, mas feita essa com freqüencia consista na mais miserável perda de tempo. De novo, de acordo
escolha, topa-se de novo com urna vontade alheia que é a que decide qual ingles, com Bourdieu e Passeron, a (para eles toda) a<;ao pedagógica é urna forma de
qual francés, quais leis, qual economia e assim sucessivamente. violencia simbólica também no sentido de que imp6e e inculca um arbitrário
Entretanto, o mais notável a este respeito é que tais mudanyas, atinge m os que cultural ''segundo u m modelo arbitrário de imposi<;ao e de inculca ya o'' (1977:
permanecem mais tempo no sistema escolar, avan<;ando através de seus sucessi- 46).
vos níveis, afetando apenas, portanto, aqueles que no mundo do trabalho va o ocu- É o professor, livremente ou sob restri<;6es, quem decide se a
par posi<;6es intermediárias o u superiores, de forma que se pro duz urna socializa- aprendizagem será baseada na memória ou ''ativa' ', se as borboletas serao
<;ao diferencial de acordo como diferente destino social. Esta socializa<;ao diferen- estudadas ao vivo ou na página 53 do livro artificial de ciencias naturais, se os
cial superp6e-se, ademais, a hierarquia e a estratifica<;ao dos conhecimentos ahmos podem cooperar na realiza<;ao de seu trabalho ou devem competir
transmitidos, hierarquia na qual apenas alguns fazem todo o percurso. ferozmente entre si, se o importante é saber localizar urna banana na
classifica<;ao dos vegetais ou conhecer suas qualidades nutritivas, etc.
A aliena~ao com rela~ao a o processo de trabalho Dados o horário, o calendário e os períodos obrigatório e habitual de
escolariza<;ao, esta perda do controle sobre o próprio processo de aprendi-
A aliena<;ao com rela<;ao ao próprio processo de trabalho, outra das zagem implica mais ou menos, durante o período de anos que se permanece
características do modo de produ<;ao capitalista industrial, radica na carencia na escola, colocar a metade da própria vida consciente a disposi<;ao de um

172 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 173


poder alheio, o do professor e da organizac;:ao que atua por seu intermédio. O objetivo da escola é a imposic;:ao de tarefas; se o aluno gostar, muito
Durante este tempo nao contam os interesses subjetivos nem a vontade do bem; se nao, a obrigac;:ao é a mesma (citado por Tyack, 1974: 40).
aluno, mas tao-somente os supostos interesses da sociedade, cujo
representante legítimo a esse respeito é a institui<;:iio escolar, e a vontade do O objetivo, em realidade, é dispor do tempo e da capacidade efetiva dos
professor. alunos, em lugar de permitir que o fac;:am eles mesmos. Se a ordem é a
primeira obsessao das escolas, a segunda é manter os alunos ocupados, o que
Outra visao da autoridade do professor pode centrar-se no processo se traduz na angústia do professor por organizar constantemente atividades.
de substitui<;:iio pelo qual seus planos de ac;:ao substituem os próprios do Esta obsessao por manter os jovens e sobretudo as crianc;:as fazendo algo
estudante. Quando os estudantes fazem o que o professor lhes diz para transpassa a jornada escolar, tantos nas escolas mais tradicionais quanto nas
fazer estao, na realidade, abandonando urna série de planos (os seus) em mais progressistas (Conant, 1971; Sharp e Green, 1975). O motivo reside, em
favor' de outra (os do professor). As vezes, é claro, estas duas séries de boa parte, no fato de que a atividade constante se apresenta como um antídoto
planos nao entram em conflito e podem ser mesmo bastante semelhantes. contra a perda de tempo e como urna forma de evitar o surgimento de
Mas, outras vezes, aquilo a que se renuncia nao se parece de forma problemas de ordem na sala de aula (Pellegrin, 1976: 355), mas o resultado é
alguma a ac;:ao exigida pelo professor. (... ) O ponto essencial é que os o de antecipar com isso a jornada de trabalho sem poros.
estudantes devem aprender a colocar suas capacidades executivas a A disposi<;:iio do tempo e da atividade dos alunos pelo professor manifesta-se
servic;:o dos desejos do professor mais que a servic;:o de seus próprios no controle deste sobre o horário. Suaconseqüencia pedagógica é que, ao ante por a
desejos, mesmo que doa Qackson, 1968: 30). organizac;:ao burocrática do tempo ao ritmo próprio da atividade e do interesse dos
jovens, há urna grande probabilidade de que os dois nao coincidam.
Salta a vista o paralelismo entre a posic;:ao do estudante e a do trabalhador
assalariado. No modo de produ<;:iio capitalista, adiferenc;:a do mercantil simples (a A adesao a um horário requer que, com freqüencia, as atividades
produc;:ao direta e independente para o mercado), o trabalhador nao vende o comecem antes que surja o interesse e terminem antes que desaparec;:a.
resultado ou produto de seu trabalho (bens) nem seu trabalho mesmo (servic;:os), Assim, exige-se que os estudantes deixem os livros de aritmética e
mas sua forc;:a de trabalho, seu tempo de trabalho, seu trabalho abstrato, sua peguem os de ortografía embora queiram continuar com a aritmética e nao
capacidade de trabalhar durante um tempo determinado. Encerrada a compra-e- queiram saber de ortografía. Na sala de aula, com freqüencia, poe-se fim
venda da forc;:a de trabalho, é o capitalista que a adquiriu quem decide a forma em ao trabalho antes que tenha terminando. As perguntas ficam freqüentes
que será empregada durante o tempo contratado, perdendo o trabalhador o poder vezes pendentes quando soa o sinal Qackson, 1968: 16).
correspondente (o direito trabalhista limita isto apenas parcialmente).
O tempo do aluno deixa de ser a dimensao aberta na qual transcorre sua
Analogamente, os estudantes, ao ultrapassar a porta da escola, poem sua atividade para converter-se, sob a forma de calendário, horário e seqüenciac;:ao
capacidade de trabalho a disposi<;:iio da instituic;:ao ou, no plano das relac;:oes de atividades por parte do professor, no organizador da mesma ou, mais
imediatas, a disposic;:ao do professor. Será este quem decidirá para que, como exatamente, na mediac;:ao através da qual outros a organizam. As necessidades
e a que ritmo utilizá-la. O fato de que paguem pÓr esta renúncia, em vez de organizativas podem explicar a opc;:ao por tal ou qual distribuic;:ao horária frente
cobrar por ela, nao melhora muito as coisas. Em lugar de urna compra-e-venda a outra, mas nao explicam de forma alguma que tenha que haver de qualquer
encontramos urna cessao; ou, em lugar de trabalho "livre", trabalho forc;:ado, modo urna distribuic;:ao da atividade escolar por unidades horárias ou parecidas.
ao menos durante o período obrigatório. A falta de urna contrapartida clara, de De qualquer forma, o que o aluno encontra é que seu tempo é fragmentado,
qualquer forma, pode converter a escolaridade em algo mais indesejável que o normalizado e recomposto na forma de um quebra-cabec;:as de atividades que
trabalhar para um outro ou, o que é a mesma coisa, pode fazer dela algo ainda ele nao planejou nem é capaz de compreender.
mais suscetível de rejei<;:iio. Neste aspecto cabe assinalar a diferente organizac;:ao horária do ensino
Os agentes da instituic;:ao escolar, de qualquer forma, nao tem dúvidas a primário e secundário. No primário, o emprego do tempo fica na esfera de
respeito da disponibilidade do tempo e da capacidade de trabalho dos decisao do professor, que pode decidir, por exemplo, empregar urna porc;:ao
estudantes. A func;:ao da escola é, precisamente, a de empregar este tempo, maior em matemática e urna menor em linguagem, ou ao contrário. No
dispor dele, tal como o expressava claramente um reformador de fmais do secundário, o tempo está rigidamente compartimentalizado e distribuído pelas
século passado, John D. Philbrick: diferentes matérias, sem que seja possível sua altera<;:iio pelo professor.

174 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 175


Deste modo o tempo do aluno do primário depende da autoridade pessoal e em geral. Entretanto, nao é difícil notar que a primeira, a segunda e a quinta
direta do professor, enquanto o do estudante do secundário está submetido a respondem sobretudo a lógica do capitalismo industrial, enquanto a terceira e
urna regulamentac;ao burocrática (embora só parcialmente, pois, dentro das a quarta sao parte nuclear da chamada "moral vitoriana" que tao
unidades temporais, o professor continua poden do atuar a se u critério). Estas estreitamente se associa a escala.
duas formas de controle do tempo e da atividade antecipam já a diferente A escala contribuí notavelmente para a inculcac;ao de algumas dessas
organizac;ao do processo de trabalho dos assalariados situados na base da noc;oes de tempo. A "precisao nos encontros" é a base da organizac;ilo da
hierarquia de trabalho e os situados em lugares intermediários ou superiores, jornada escolar. A atividade escolar transcorre entre limites de tempo fixados
assim como suas diferentes formas de relac;ao com a autoridade. Em alguns com exatidao e está marcada por acontecimentos que ocorrem nos momentos
sistemas escolares, esta dualidade pode-se dar mesmo para alunos da mesma precisos. Parafraseando o velho ditado, há um momento para cada atividade e
idade biológica e escolar mas que seguem ramos distintos da árvore escolar urna atividade para cada momento, e eles nao devem ser confundidos: nao se
(Baudelot e Establet, 1976), mas conservando o mesmo sentido: disposic;ao deve abrir o livro enquanto o professor expoe, nem fixar a atenc;ilo neste
arbitrária do tempo dos que vao ser trabalhadores plenamente subordinados e durante o tempo determinado para o estudo, nem se pode tentar divertir-se ou
regulamentac;ao burocrática do tempo dos que ocuparao posic;oes comer o lanche fora das horas de recreio, mesmo que essas atividades nao
intermediárias ou elevadas. interflram de fato com o desenvolvimento das previstas.
A precisao temporal dos acontecimentos nao está necessariamente ligada
a qualquer tipo de ensino ou aprendizagem, nem sequer a qualquer tipo de
A percep~ao social e pessoal do tempo escala. Carece de sentido na aprendizagem autónoma e nao existe em absoluto
no ensino individualizado da escala unidocente na qual o professor atende
Em um estudo sobre a conexa o entre o desenvolvimento económico e a con- dentro de um mesmo período alunos os mais diversos. Para impor-se na escala
cepc;ao do tempo na cultura de urna sociedade, RudolfRezsoházy estabelece cinco foi necessário esperar-se a implantac;ao das formas mútua, primeiro, e
tipos de relac;oes entre a noc;ao social des te e a possibilidade daquele: simultánea, depois, do ensino.
No que concerne a economía e ao trabalho, nao é difícil encontrar razoes pelas
l. A precisáo nos encontros. O grau de exatidao com o qual dois ou quais qualquer economía de intercambio requer a precisao temporal- por exem-
mais sujeitos coordenam suas ac;oes no tempo, seja para colaborar, para plo, no cumprimento dos contratos, na entrega pontual dos produtos, etc. -,
participar em urna mesma atividade ou para substituírem um ao outro. (... ) entretanto é menos difícil ver que, quando esta adquire sua verdadeira importancia
2. A seqüencia9áo de atividades. A organizac;ao das iniciativas é com a chegada do trabalho coletivamente organizado, o que em nossa história
pessoais ou coletivas no tempo e o grau de racionalidade desta específica quer dizer a chegada da fábrica. É a moderna produc;ilo industrial, que
organizac;ao. Diz respeito as iniciativas a tomar quando se apresentam urna tem que coordenar o trabalho de centenas ou milhares de brac;os e que tem que
ou várias tarefas imediatas. A perspectiva é, portanto, a do passado ou do valorizar no mínimo lapso possível um capital fixo que, por se-lo, nao deve
futuro imediatos (... ). 3. Previsáo. A capacidade de visualizar objetivos permanecer inativo, a que necessita submeter as vontades e os ritmos individuais
futuros ou de estabelecer objetivos distantes e ajustar as próprias ac;oes as exigencias da programac;ao temporal. Enflm, a escala ensina a respeitar e
de acordo com os acontecimentos futuros desejados ou inevitáveis. (... cumprir um horário; e, para sermos mais precisos, um horário imposto.
Sentido de progresso) 4fi. Urna concepc;ao do desenrolar dos Na verdade, o horário escolar é muito semelhante ao horário de trabalho.
acontecimentos que !hes atribuí urna tendencia a melhorarem. (... ) Implica Naturalmente, isto se apóia em razoes tais como: que a escala depende do
urna visao do futuro que é necessariamente melhor, e provoca a ac;ao que horário de trabalho dos professores e que os país desejam ter seus ftlhos sob
impede a paralisac;ao. (... ) 5. O tempo como valor em si mesmo. Um custódia enquanto trabalham, mas isto nao impede que a prática do horário de
juízo sobre o tempo que o iguala a outras coisas geralmente apreciadas. hoje disponha os alunos para a aceitac;ao, no día de amanha, do horário de
Esta avaliac;ao cría urna atitude em relac;ilo ao tempo: deseja-se econo- trabalho. Que esta considerac;ao está presente é algo que fica óbvio ao nos
mizá-lo, dominá-lo, devido a seu valor (Rezsoházy, 1972: 450-1). darmos conta das habituais diferenc;as de horário entre o ensino académico e
Essas maneiras de perceber o tempo ou de relac;oes com ele sao tidas o ensino técnico na escala secundária: os alunos do ensino académico
como as correspondentes a qualquer forma moderna de sociedade, motivo comec;am sua jornada, em geral, urna hora mais tarde que os alunos de
pelo qua! se supoe que sua aquisic;ilo é, precisamente, boa parte do processo formac;ao profissional, tal como os trabalhadores das oficinas o fazem com
de modernizac;ao cultural e social, condic;ao do desenvolvimento económico relac;ao aos dos escritórios.
176 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 177
A "seqüencia<;ao de atividades" pode ser entendida como a amplia<;ao da A incorpora<;ao desta no¡;ao, por outro lado, é quase imprescindível para a
precisao a coordena<;ao das próprias atividades. Na escola está presente aceita<;ao da escala, pois para a maioria dos alunos, o valor desta nao reside
através da organiza<;ao seriada, supostamente derivada da lógica interna do nela mesma mas nas l'. 0mpensas ·.ue se supoe trará a médio e longo prazo;
saber ou das necessidades pedagógicas, da transmissao e aquisi<;ao do fundamentalmente, a promessa de urna boa ou melhor posi<;ao social. Carente
conhecimento. Um marco importante em sua implanta<;ao foi a passagem das eles de motivos intrínsecos, dada sua impotencia frente asele<;ao de seus frns
escalas unidocentes ao ensino seriado - a outra cara da simultaneidade -, e a determina<;ao de seus processos, a escola - juntamente com a poupan<;a
que implicou na dosifica<;ao do saber de acordo com a idade biológica e escolar. e o trabalho - representa o paradigma deste lugar comum da ética protestante
No dia-a-dia do ensino está presente na grada<;ao dos livros-texto, na e da chamada moral vitoriana que é o adiamento das gratifica<;óes. Ou, no
programa<;ao por objetivos do professor e na organiza<;ao do trabalho pessoal jargao da psicanálise, da primazia do principio da realidade sobre o principio do
do aluno - sob a férula do professor. prazer, do superego sobre o ego.
A teoria do desenvolvimento supoe que urna adequada seqüencia<;ao é a O "sentido de progresso" é considerado importante porque leva as
condi<;ao indispensável de urna produtividade elevada, o que justifica com pessoas a a<;ao, a superar as dificuldades, etc. Entendido de forma passiva -
vantagens sua aprendizagem. Mas, em realidade, neste ponto, como no anterior, o progresso que chegará com seguran<;a - pode-se considerá-lo também,
o que o aluno aprende nao é a organizar sua própria seqüencia de atividades, mas entretanto, como urna forma de tornar mais suportável o presente, isto é, como
a que outros a organizem por ele. Da mesma forma que amanha, como um milenarismo laico e caseiro. Naturalmente a escala incorpora com grande
trabalhador, deverá aceitar a seqüencia de tarefas que lhe impuserem. for<;a a seu discurso ideológico a idéia de progresso: supoe-se que ela própria
o personifica e é seu principal instrumento. Mas o que incorpora a sua prática
( ... ) A escola é um lugar onde as coisas, com freqüencia, nao é a idéia de progresso pessoal como algo cumulativo e carente de limites,
sucedem porque os professores assim o queiram, mas porque chegou o através da experiencia da soma de anos de escolaridade, matérias cursadas,
momento delas ocorrerem Qackson, 1968: 13). créditos, títulos, etc., e de sua sempiterna insuficiencia. Por outro lado, nao é
difícil associar a escala a convic<;ao de que qualquer tempo futuro será melhor:
É a mesma posi¡;ao em que se encontra o trabalhador assalariado frente a frente ao cinza do presente escolar, o futuro de trabalho pode parecer pintado
seqüencia temporal de suas tarefas. A maior parte dos trabalhos e atividades com todas as cores do arco-íris; e, mesmo que se o anteveja cinza, pelo menos
exige algum tipo de seqüencia<;ao, mas este termo engloba realidades muito será remunerado.
diferentes. Um pintor de paredes autónomo, por exemplo, sabe que deve A idéia do progresso também nasceu associada ao capitalismo, que
!impar e lixar ou raspar a superfície antes de aplicar a camada de pintura, e nao rompeu as barreiras postas a produ<;ao pelas formas sociais anteriores e,
ao contrárío. A seqüencia, neste caso, é dada pela mútua rela<;ao entre as posteriormente, associou-se ao socialismo, que partilha com o primeiro a
diferentes partes da tarefa a realizar. Para a imensa maioria dos assalariados, paixao pelo crescimento económico e o nível de vida. Carecia de sentido nas
entretanto, a seqüencia de suas tarefas nao é o resultado de sua natureza sociedades primitivas e, provavelmente, na sociedade feudal, assentadas na
intrínseca nem de seu raciocinio pessoal, mas a mera execu<;ao de urna idéia de um mundo imutável e limitadas a produ<;ao de subsistencia mais um
ordena¡;ao pré-flxada por outro. Na escala aprende-se fundamentalmente a pequeno excedente no qua! se baseava o sustento de sacerdotes, bruxos e
aceitar o segundo tipo de seqüencia. O professor que indica aos alunos que chefes, primeiro, e dos senhores feudais e seus séquitos, depois.
escrevam o esquema de urna disserta<;ao antes de come<;ar a dar-lhe sua Finalmente, o valor do tempo em si mesmo se aprende, mais que por seu
reda<;ao final está-lhes ensinando a organizar por si mesmos seu próprio aproveitamento - que é escasso -, por seu emprego como medida universal.
trabalho, mas aquele que !hes faz estudar matemática urna hora, geografla Embora a escala fa<;a sua a máxima de Franklin - "O tempo é ouro" -,
meia, gramática tres quartos, etc., está-lhes ensillando a incorporarem-se a tratando de preencher cada momento vazio com alguma atividade, estimulando
rotinas previamente estabelecidas. a diligencia, condenando a ociosidad e, etc., o certo é que o tempo dos
A no<;ao de ''previsao'' nao é sena o a aplica<;ao da seqüencia<;ao a médio estudantes é consumido principalmente em esperas, lapsos mortos e rotinas
e longo prazos. O espa<;o temporal em que se insere nao é o da cotidianeidade, nao instrucionais. Os estudos a respeito indicam que normalmente só se
mas o do período escolar em seu conjunto. Os professores recorrem aproveita entre um quarto e um ter<;o do tempo escolar para a instru<;ao
constantemente a esta no<;ao de tempo quando justificam o que querem que se (Reimer, 1973: 32; Silberman, 1971: 123).
aprenda hoje por seu valor propedéutico, isto é, por sua necessidade em Mas o que outorga valor ao tempo é sua conversao em equivalente
fun¡;ao do que terá que aprender mais adiante. universal. Assim como no mercado desenvolvido - que é o mercado do mo-

178 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 179


do de produ<;:ao capitalista - o tempo de trabalho converte-se na medida do canso frente a isso: nao há pausa para o café, nao há uns minutos para
valor de todas as mercadorias, na escola ele se converte na medida do valor fumar um cigarro, nao há nenhuma sala como a dos professores, por pobre
do conhecimento e, subsidiariamente, das pessoas que o possuem. Assim, que seja, na qual os jovens possam escapar aos adultos. As escolas
para além de seu conteúdo real, cinco anos de estudos superiores produzem secundárias nao tem salas para as associa<;:oes; a diversao e a ginástica
sempre urna gradua<;:ao, e os títulos correspondentes sao considerados como estao organizadas (Friedenberg, 1963: 32).
tendo valor equivalente. O trabalho escolar, tal como o trabalho produtivo,
ve-se reduzido a trabalho abstrato, a tempo de trabalho. Esta redu<;:ao Através dessa experiencia aprendem a sufocar a própria espontaneidade,
manifesta-se claramente, por exemplo - ao menos no plano das inten<;:oes - a adiar a satisfa<;:ao de seus desejos ou a renunciar a eles. A escola é 0
no sistema de créditos, que atribuí valores iguais a matérias cursadas durante superego, o outro generalizado, mas deslocado das alturas etéreas da
períodos iguais, e assim faz deles valores acumuláveis. Estudos distintos consciencia ao terreno prosaico da disciplina imposta nos mínimos detalhes.
tornam-se comensuráveis, como se fossem homogéneos, sem outra base que
sua dura<;:ao. Os sociólogos, com nossa inclina<;:ao a "medir" a educa<;:ao pelo Ao aprender a viver na escola, nosso estudante aprende a subjugar
número de anos, sabemos também algo disto. seus próprios desejos a vontade do professor e a submeter suas próprias
Mas a redu<;:ao do trabalho ao tempo, a substitui<;:ao do trabalho concreto a<;:oes no interesse do bem comum. Aprende a ser passivo e a aceitar a
pelo trabalho abstrato, nao se limita aos anos ou aos créditos, que continuam rede de normas, regulamentos e rotinas em que está imerso. Aprende a
representando grandes unidades de tempo. A organiza<;:ao prática do horário tolerar as pequenas frustra<;:oes e a aceitar os planos e a política das
escolar tem o mesmo sentido. As matérias tornam-se equivalentes porque autoridades superiores, mesmo quando sua justifica<;:ao permanece
ocupam o mesmo número de horas por semana, e sao vistas como tendo inexplicada e seu significado obscuro. Como os habitantes da maioria das
menos prestígio se ocupam menos tempo que as demais. demais institui<;:oes, aprende a encolher os ombros e dizer: ''Assim sao as
A sucessao de períodos muito breves - sempre de menos de urna hora coisas" Qackson, 1968: 36).
- dedicados a matérias muito diferentes entre si, sem necessidade de
seqüencia lógica alguma entre elas, sem atender a melhor ou pior adequa<;:ao Embora "motivar" seja o verbo da moda na escola, esta constituí, como
de seu conteúdo a períodos letivos mais longos ou mais curtos e sem prestar institui<;:ao, urna poderosa maquinaria entregue inteiramente ao
nenhuma aten<;:ao a cadencia do interesse e do trabalho dos estudantes; em empreendimento de desmotivar os indivíduos. Crian<;:as e jovens acodem a ela
suma, a organiza<;:ao habitual do horário escolar, ensina ao estudante que o carregados de motiva<;:oes, mas a obsessao da escola é substituir as que eles
importante nao é a qualidade precisa de seu trabalho, a que o dedica, mas sua trazem pelas que ela considera associadas a objetivos dignos de serem
dura<;:ao. A escola é o primeiro cenário em que a crian<;:a e o jovem presenciam, perseguidos. ''Motivá-los' ', na realidade, quer dizer convence-los de que
aceitam e sofrem a redu<;:ao de seu trabalho a trabalho abstrato. desejam por si próprios ir para onde o professor já decidiu que vao. E, como
os objetivos com freqüencia nao sao compatíveis, isto implica fazer tábula rasa
de todos os que possam entrar em concorrencia com os da escola, o que em
Trabalho versus atividade livre urna sábia política preventiva acaba por consistir em todos os que eles podem
trazer por si mesmos.
Permanecer sentado, nao falar em voz alta ou nao falar em absoluto com
os companheiros, levantar. a mao para dirigir-se ao professor, nao interromper, A distin<;:ao entre trabalho e jogo tem conseqüencias de longo alcance
pedir permissao para abandonar a aula, nao expressar visivelmente as para os assuntos humanos, e a sala de aula é o cenário no qual a maioria
emo<;:oes, mantero olhar sobre o próprio exame sem olhar o do vizinho, etc., das pessoas encontra esta distin<;:ao de forma pessoalmente significativa.
a lista de restri<;:oes e prescri<;:oes a que crian<;:as e jovens veem-se submeti- De acordo com urna de suas muitas defmi<;:oes, o trabalho implica envol-
dos na escola seria interminável. Sua vida nela consiste na submissao ver-se em urna atividade com um fun que nos foi prescrito por outra
constante a vigilancia e as ordens dos adultos, na (e para além da) rela<;:ao pessoa; urna atividade na qual nao estaríamos envolvidos nesse momento
pedagógica. se nao fosse por algum sistema de rela<;:oes de autoridade. Pode ser que,
como pré-escolares, os estudantes tenham brincado com o conceito de
O que os adultos em geral, na minha opiniao, nao sao capazes de trabalho, mas suas representa<;:oes fantasiosas das situa<;:ües de trabalho
captar embora possam sabe-lo de fato, é que nao há refúgio nem des- adulto carecem habitualmente de um ingrediente essencial, a saber: o

180 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 181


emprego de algum tipo de sistema de autoridade externo para dizer-lhes A aliena~ao com rela~ao aos meios de produ~ao
o que fazer e mante-los fazendo-o. O professor, com seus ditames
prescritivos e sua vigilancia sobre a aten<;:ao do estudante, proporciona o Marx situou a aliena<;:ao do trabalho assalariado também na ausencia de
ingrediente que faltava para tornar real o trabalho. O professor, embora posse por parte do trabalhador dos meios de produ<;:ao. Da mesma forma,
possa rejeitar o título, é o primeiro "patrao" do estudante Gackson, 1968: podemos afirmar que os estudantes nao possuem seus meios de trabalho, que
31). nao se reduzem ao lápis, ao caderno, ao livro-texto e outros objetos
similarmente acessíveis.
Mas por que razao ter-se-ia que esperar até o ensino pnmano ou O desenvolvimento do capitalismo conta entre suas condi<;:6es necessárias
secundário para ensinar as crian<;:as o que é o trabalho? Apple e King - mas nao suficientes - com a enorme escala alcan<;:ada pelos meios de
realizaram um estudo sobre as percep<;:oes do trabalho e do jogo em alunos de produ<;:ao. Se os meios de trabalho continuassem sendo o arado e o cavalo, o
ensino pré-escolar que desmente até mesmo a duvidosa imagem lúdica que martelo e a serra, etc., isto é, se sua escala continuasse sendo tal que qualquer
Jackson assinala neste. Afinal, trata-se de urna máxima repetida com muita pessoa pudesse produzi-los ou obte-los, o desenvolvimento do capitalismo nao
freqüencia nas escalas: ''o que podes fazer hoje nao o deixes para amanha' '. teria tido nunca lugar; quando muito, nao teria passado de suas formas
comercial e fmanceira nao desenvolvidas. Os meios de produ<;:ao em grande
Suas respostas durante a entrevista indicaram que as atividades na sala escala exigem para sua obten<;:ao e aproveitamento grandes recursos
de aula nao tinham um significado intrínseco: as crian<;:as atribuíam os fmanceiros, e estes só podiam vir da coopera<;:ao de muitos contribuintes com
significados baseando-se no contexto nos quais eles estavam colocados. ( ... ) pequenos recursos (na forma de cooperativas ou, anteriormente, de
As categorías de trabalho e de brinquedo surgiram rapidamente como propriedades e equipamentos comunais, o que nao foi o caso, embora
organizadores poderosos dentro da realidade da classe. (... ) O trabalho incluí excepcionalmente pudesse ter sido) ou do surgimento de indivíduos ou
todas e quaisquer atividades dirigidas pela professora; só as atividades entidades com grandes recursos (como os capitalistas e o Estado ou,
desenvolvidas durante o tempo livre sao chamadas de ''brinquedo' '. Tarefas anteriormente, os senhores e magnatas feudais e os estados pré-modernos).
como colorir, desenhar, esperar na fila, escutar história e cantos, ver filmes, Nas rela<;:6es económicas cotidianas, a escala desses meios - cuja origem
cantar, mereceram o no me de '' trabalho' '. Assim, '' trabalho'' era aquilo que última é também o trabalho - oculta e legitima a distribui<;:ao desigual do
nos dizem que ternos de fazer, sem levar em conta a natureza da atividade de produto ao apresentar-se esta como necessária, como justa retribui<;:ao dos
que se trata (Apple e King, 1977: 46-48). fatores. Por outro lado, sua posse legitima os que a trazem para que exer<;:am
a autoridade no processo de produ<;:ao sobre os que só podem trazer sua for<;:a
O que as crian<;:as e jovens aprendem, na realidade, é quais sao as de trabalho.
condi<;:6es do trabalho assalariado. Nem o trabalho na economía de Na esfera económica, isto coloca o problema da propriedade dos meios de
subsistencia, nem o trabalho autónomo para o mercado, nem o trabalho produ<;:ao, isto é, o problema de se tais meios devem ser propriedade privada
doméstico - nao confundí-lo com o servi<;:o doméstico - reúnem as livre (cuja forma desenvolvida é a propriedade capitalista), propriedade privada
características que Jackson e as crian<;:as entrevistadas por Apple e King de todos os trabalhadores que os empregarn em seu trabalho ("a terra para o
atribuem ao trabalho em geral. As rela<;:6es de autoridade ou o fato de que nos que trabalha", · cooperativas industriais e de servi<;:os, trabalhadores
digam o que ternos de fazer sao algo que distingue o trabalho assalariado nao autónomos, etc.), propriedade do Estado (coletiviza<;:ao e gestao burocrática),
apenas do brinquedo, mas também do trabalho livre. Naturalmente houve ou propriedade pública da sociedade toda (coletivizayao e gestao coletiva).
outras formas de trabalho submetido a um sistema de autoridade (o trabalho Ademais, o que aqui vem mais ao caso, pode colocar-se o problema da
for<;:ado ou escravo, a corvéia medieval, etc.) mas já nao fazem parte das distribui<;:ao da capacidade de controle - desde a posse até o uso cotidiano -
alternativas presentes para a imensa maioria da popula<;:ao: em nossa deixando de lado o problema da propriedade jurídica: controle operário,
sociedade, a única forma nao livre de trabalho - exceto os trabalhos for<;:ados cogestao, autogestao, etc.
para convictos ou o servi<;:o militar - é precisamente o chamada ''trabalho .Ao tratar dos meios de aprendizagem nao cabe colocar a questao e m
livre' ', isto é, o trabalho assalariado. Que se atribuam suas características termos de propriedade, pois sendo em sua maior parte realidades nao físicas
específicas ao trabalho em geral nao faz senao refletir, por um lado, que já é carece de sentido aplicar-lhes o conceito de propriedade tal como nossa
a forma habitual de trabalho para a maioria das pessoas - fora da esfera cultura o en ten de - como direito erga omnes. Cabe, entretanto, colocá-la em
doméstica - e, por outro, que adquiriu urna alta dose de legitimidade. termos de controle.

182 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 183


Assim como o crescimento da produ<;ao desenvolveu os meios de trabalho Espa<;os transparentes, pátios de recreio vigiados, entradas controladas,
a urna escala na qual já nao sao pensáveis sua produ<;ao, sua apropria<;ao nem compartimentos sem fechadura nos banheiros, etc., sornados a falta de um
seu emprego individuais, o crescimento do saber desenvolveu os meios de espa<;o próprio que nao seja a sala de aula, além de possibilitar a vigilancia
aprendizagem a urna escala na qual nao sao verossímeis o acesso aos mesmos constante, recordam a crian<;as e jovens que o território da escola nao é, de
e sua manipula<;ao por pessoas isoladas. A escala da cultura transcende a dos forma alguma, seu território, que nao podem dispor dele, assim como nao
homens e mulheres chamados a adquiri-la, produzi-la, reproduzi-la, transmi- podem dispor de si mesmos enquanto permanecerem dentro de seus limites.
ti-la e empregá-la, razao pela qual essas fun<;oes já nao sao viáveis no marco
exclusivo da comunidade imediata. Isto impoe sua produ<;ao, gestao e O território psicológico necessita de urna expressao física. Todos
distribui<;ao coletivas, o que se manifesta de forma evidente na obsolescencia necessitamos nosso canto próprio, e os escritórios transparentes veem-se
da socializa<;ao familiar e na desapari<;ao das figuras do preceptor privado e do rapidamente divididos em espa<;os separados, marcados por arquivos e
professor autónomo e sua substitui<;ao pelo Estado e pelas pequenas ou vasos. Nas escolas secundárias, os professores estabelecem rapidamente
grandes empresas capitalistas que sao proprietários _e gestores, seus territórios, tanto o psicológico quanto o físico, mas nem sempre fica
respectivamente, das escolas públicas e das escolas privadas. E neste ponto claro onde podem encontrar o seu o menino ou a menina individuais
em que o poder absoluto dos capitais em seus feudos e da estrutura (Handy e Aitken, 1986: 97).
burocrática do Estado se interpoe entre os usuários das escolas e seus meios
de aprendizagem, impossibilitando seu controle direto. O público da escola é Os estudantes veem atribuídos espa<;os para cada momento ou cada
tao incapaz de exercer o controle sobre esta quanto o sao, em seus respectivos atividade do dia, sem poder dispor livremente deles. As salas de aula e os
ambitos, o da saúde ou o dos transportes públicos. laboratórios permanecem fechados quando neles nao se desenvolvem
Assim, os estudantes veem-se submetidos a urna rela<;ao de dependencia atividades docentes ou discentes programadas, os períodos de recreio devem
frente a empresa e/ou a administra<;ao escolares similar a que amanha os ser passados nos lugares indicados, os corredores devem ser lugares de
vinculará, como assalariados, as empresas públicas ou privadas. Esta última passagem e nao cenário de concentra<;óes, a área dos gabinetes da dire<;ao está
verá apoiada sua legitimidade pela mesma razao que aquela, porque os meios proibida, o bar só está aberto em certas horas, a saída da sala de aula deve ser
necessários excedem a escala humana individual e nao estao ao alcance dos expressamente autorizada ... Professores e hedéis colaborarao na tarefa de
particulares em geral. assegurar que cada um permane<;a no lugar que lhe corresponde.
Por outro lado, a gestao empresarial privada ou burocrática do Numerosos colégios levam ainda mais longe o empenho de privar crian<;as e
conhecimento permite sua distribui<;ao desigual, estratificada e hierarquizada, jovens de urna base territorial, associando as salas de aula a diferentes matérias
tal como ocorre com a distribui<;ao da renda e do poder sobre si. próprio em vez de a distintos grupos de escolares e organizando assim um intenso tráfico
(autonomía) e sobre os demais (autoridade) entre os trabalhadores. A entre cada dois períodos letivos. Mesmo - ou sobretudo - dentro das salas de
distribui<;ao desigual dos recursos económicos e do poder político entre os aula organiza-se a disposi<;flO do espa<;o para eles mas sem eles: amplo, aberto e
indivíduos e os grupos sociais proporciona-lhes oportunidades diferenciais de elevado para o professor, mas exíguo, denso e baixo para os alunos; atribuído
acesso aos meios de aprendizgem, sejam estes privados (caso em que nominalmente, o que os prega nos bancos e permite a detec<;ao fácil das
dependem dos primeiros) ou públicos (em cujo caso dependem do segundo). ausencias e a localiza<;ao imediata do aluno buscado; hierarquizado, talvez, entre
O véu encobridor que sobre essa posse desigual de poder e recursos na esfera eles, em fun<;ao do rendimento ou de critérios mais arbitrários.
educacional supóem a igualdade formal perante a institui<;ao escolar e a Nao é melhor sua rela<;ao com o equipamento ou o material coletivo. Os
ideologia da igualdade de oportunidades nao é nada mais que antecipa<;ao do objetos de uso ocasional - aparelhos de laboratório, projetores, vídeos,etc. -
que estenderao sobre as desigualdades de propriedade e poder na esfera encontram-se habitualmente sob chave, quando nao simplesmente em desuso
económica o igualitarismo formal do mercado e a ideologia da livre para sua melhor conserva<;ao, e os de consumo regular - giz, papel higiénico,
concorrencia empresarial e individual. etc. - sao meticulosamente racionados. Tudo serve para recordar-lhes que
A falta de controle dos estudantes sobre os meios de seu trabalho escolar nada é seu - ou que é tao de todos que ninguém pode dispor separadamente
manifesta-se também na disposi<;ao dos principais meios físicos que também dele - e que correrla risco em suas maos.
superam a escala dos recursos pessoais da maioria: o espa<;o e o equipamento
escolares. Tudo na escola parece estar organizado para que os alunos nao Enquanto um hotel, por exemplo, preve em seu or<;amento urna quan-
possam desenvolver sentido algum de posse ou controle. tia para o desgaste, a quebra e um razoável nível de furto de len<;óis e
184 Mariano Fernández Enguita
A Face Oculta da Escala 185
de equipamentos e se previne tranqüilamente com um seguro, a escola - manifestac;óes externas da conduta; quando falamos de trac;os de
embora possa, na verdade, fazer o mesmo - doutrina pomposamente os personalidade, estamos designando seus imediatos determinantes internos.
estudantes sobre o "respeito para com a propriedade pública", os "bons Através da imersao sistemática em algumas relac;óes sociais educacionais
hábitos de higiene" e assim sucessivamente antes de deixá-los aproxi- isomorfas com as relac;óes sociais de produc;ao dominantes, a escola seleciona
mar-se da piscina (Friedenberg, 1963: 45). nos indivíduos que constituem seu público aqueles trac;os que mais convém a
estas e, se nao existem previamente de forma potencial, utiliza todos os
Os alunos aprendem assim a relacionar-se com o espac;o e os objetos da recursos a seu alcance p¡tra gerá-los. De certo modo, estes trac;os de
mesma forma que terao que faze-lo no trabalho adulto. Sua relac;ao com o personalidade podem ser considerados como o resultado da intera<;iio entre o
espac;o escolar é igual, ou até mais estrita, que a terao como espac;o produtivo. indivíduo e seu ambiente, isto é, como produto da interiorizac;ao das relac;óes
Sua relac;ao com o equipamento é presidida pela obsessao de que deve ser sociais.
cuidadosamente conservado e a convicc;ao de que nao o seria se lhes Os trac;os de personalidade e formas de comportamento premiados pela
deixassem agir livremente. Dado o contexto social da produc;ao, a obsessao escola nao sao simplesmente os que a consciencia comum considera
nao é descabida, pois, como escrevia um operário da metade do século desejáveis em nossa sociedade. O que se produz é urna selec;ao que supóe
passado: que, entre os diversos trac;os potencialmente desejáveis, uns sejam
premiados e outros penalizados ou, na melhor das hipóteses, ignorados,
Se nao produzimos o que poderíamos produzir, se nao conservamos conforme convém aos imperativos do bom funcionamento da institui<;iio ou as
as matérias primas e os instrumentos de trabalho como poderíamos fa- idéias do professores sobre o que constituí um bom caráter. A escola leva
ze-lo, é porque nao ternos nenhum interesse na prosperidade do patrao também a cabo esta selec;ao em outros terrenos, por exemplo o da linguagem
(... ) . Se vemos um de nossos companheiros estragar ou perder a matéria e, em geral, o da cultura, mas aquí interessam especialmente os trac;os nao
prima ou um instrumento de trabalho permanecemos indiferentes, com cognitivos.
freqüencia inclusive nos rimos ao ver um colega fazer seu trabalho todo ao Há numerosos estudos nesse sentido, mas comentaremos apenas alguns
revés (Charlot e Figeat, 1985: 86). deles. Em sua investigac;ao sobre as primeiras semanas da educac;ao pré-
escolar, Apple e King (1983: 46-47) chegaram a conclusao de que se premiavam
Um dos efeitos da combinac;ao entre a regulamenta<;iio restritiva e o atitudes tais como a diligencia, a persistencia, a obediencia e a participac;ao
discurso moralizante bem pode ser, no caso em que sua eficácia prospere, o de nas tarefas coletivas, mas nao outras tais como a perfeic;ao no trabalho, a
fornecer urna justificac;ao adicional para a falta de poder do trabalhador criatividade ou a engenhosidade. Silberman descreve os itens que constituem
assalariado sobre os meios de trabalho: se nao foi capaz de conservá-los na a ''preparac;ao para o trabalho de primeira etapa'' dos alunos de cinco anos nos
escola, nao merece possui-los nem dispor deles na vida adulta. jardins de infancia, conforme a autoridade escolar de urna zona de classe
média:

A sele~ao dos tra~os de personalidade A prepara<;iio implica dezessete atributos, os tres primeiros dos quais
dizem assim: ''l. Sente-se quieto e trabalhe nas tarefas designadas
Para a maioria das crianc;as e jovens, satisfazer as demandas da escola nao durante 15 ou 20 minutos. 2. Escute e siga as instruc;óes. 3. Mostre bons
é algo que possa ser reduzido a submeter-se provisoriamente, nas horas hábitos de trabalho' '. O quarto atributo é: ''Tenha curiosidade
letivas, a urna série de rotinas. Embora sempre exista algum grau de intelectual." (Silberman, 1971: 130).
dissociac;ao entre o que realmente sao e o que tratam de aparentar na escola,
seis horas diárias, cinco dias por semana, trinta ou quarenta semanas por ano Esta tendencia torna-se ainda mais clara no ensino obrigatório. O Guia
- quantidades sempre ampliáveis grac;as as tarefas para casa, a preparac;ao de Curricular para a Format;iio do Caráter, do sistema de escolas públicas de
exames extraordinários,etc. - e muitos anos de vida nao podem deixar de Boston, por exemplo, assinalava, em fmais da década de sessenta, como trac;os
produzir efeitos duradouros sobre a estrutura do caráter das pessoas. Esta é de caráter a desenvolver: a obediencia a autoridade devidamente constituída,
outra forma de formular a mesma coisa que vimos sustentando até aqui e o autocontrole, a responsabilidade, a gratidao, a amabilidade, a disposic;ao ao
sustentaremos nas páginas que seguem, mas vale a pena deter-se um pouco trabalho e a perseveranc;a, a lealdade, o trabalho em equipe, a honestidade e
nisso. Quando falamos de relac;óes sociais estamo-nos referindo as o jogo limpo. Jonathan Kozol comentava a respeito:

186 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 187


Duas das coisas mais impressionantes desta lista sao (1) a enfase nas Aptidao Escolar (S.A.T.) verbal: 0,31; submissao a autoridade: 0,29;
características de obediencia e (2) a forma pela qual a personalidade foi interioriza<;ao das normas: 0,16 (todos p menor 0,01); temperamento: 0,08;
dissecada e dividida e a forma pela qual, conseqüentemente, cada "tra<;o quociente intelectual: 0,01 (estes dois últimos com p maior 0,05). Em outras
de caráter'' foi isolado e colocado como se se tratasse da enumera¡;:ao de palavras, a submissao a autoridade mostrou-se tao bom preditor do rendimento
características favoráveis no elogio de um funeral ou na rela<;ao de um quanto o teste verbal e muito melhor que o quociente intelectual, embora nao
título honorário em urna cerimónia de abertura. Em vao se buscará nesta tao bom quanto o teste matemático; os outros dois fatores de personaliade
lista algo que tenha que ver com urna crian<;a original ou com um estilo mostraram ser maus preditores.
independente. Em vao, também, se buscará qualquer estimativa, avalia¡;:ao De tudo isso pode-se inferir que a escola premia um tipo de tra<;os de
ou concep¡;:ao da personalidade humana como urna constela¡;:ao integral, personalidade (os integrados com sinal positivo no fator ''submissao a
organica ou constantemente viva e em evolu¡;:ao, em vez de como um autoridade"), rejeita outros (os integrados com sinal negativo no mesmo fator:
armário arquivador de tra¡;:os aceitáveis (Kozol, 1968: 179-80). note-se que eram precisamente a criatividade e a independencia) e desdenha
ou aprecia pouco o resto (os integrados nos outros dois fatores).
A tentativa mais sistemática para determinar que tra¡;:os de caráter De forma independente, Richard Edwards empregou um método similar
favorece e rejeita a escola continua sendo a de Bowles, Gintis e Meyer (1975; para predizer o rendimento no trabalho - avaliado pelos chefes dos
também Bowles e Gintis, 1976). Estes autores estimaram os tra¡;:os de trabalhadores - a partir de tra<;os de caráter agrupados em tres fatores:
personalidade de urna rnostra de duas centenas de estudantes da segunda inclina<;ao para o cumprimento de normas (rules-orientation), formalidad e e
etapa do ensino secundário norte-americano (senior high school) e mediram interioriza<;ao das normas. Ele descobriu que todos eles apresentavam urna
sua capacidade para predizer as notas escolares, controlando o coeficiente associa<;ao relevante com o rendimento, mas que cada um o fazia de forma
intelectual e a capacidade em testes de aptidao matemática e verbal. Os índices preferencial em distintos níveis da hierarquia de trabalho: a sujei<;ao a normas
de correla<;ao parcial obtidos foram os seguintes: no nível baixo, a formalidade no intermediário e a interioriza<;ao no superior.
Trac;:os recompensados: perseverante: 0,42; formal: 0,40; constante: 0,39; Aplicando os mesmos fatores, Bowles, Gintis e Meyer novamente concluiram
identifica-se com a escola: 0,38; aceita as ordens: 0,37; pontual: 0,35; adia a que tinham urna elevada capacidade de predi¡;:ao dos resultados escolares
gratifica<;ao: 0,31; motivado externamente: 0,29; predizível: 0,25; mostra tato: (0,28, 0,28 e 0,29 respectivamente). Sua conclusao foi que
0,17 (todos eles p menor 0,01). Tra¡;:os penalizados: criativo: -0,33; agressivo:
-0,27; independente: -0,23 (todos eles p menor 0,01). Tra<;os neutros: franco: os tra<;os de personalidade recompensados nas escolas, ao menos para
0,11; solitário: -0,07; temperamental: -0,02 (todos eles p maior 0,05). esta mostra, parecem estar bastante estreitamente relacionados com os
A partir desses tra<;os e mediante urna análise fatorial (procedimento tra¡;:os indicativos de um bom rendimento no trabalho da economia
estatístico que permite agrupar variáveis que evoluem de forma conjunta), capitalista (Bowles, Gintis e Meyer, 1975: 14).
Bowles, Gintis e Meyer identificaram tres "fatores da personalidade". O
primeiro, ao qual denominaram "submissao a autoridade", estava composto Bowles e Gintis (1976) apóiam-se · em outras análises semelhantes que
pelos tra¡;:os, ordenados conforme a importancia de seu peso sobre o fator: permitem extrair conclusóes similares. Em geral, a maioria dos estudos
constante, identifica-se com a escola, pontual, formal, externamente motivado, sobre a rela¡;:ao entre tra¡;:os nao cognitivos e rendimento escolar coinci-
perseverante, independente e criativo (estes dois últimos com sinal negativo). dem em assinalar a importancia dos enquadráveis em categorias como
O segundo, batizado como "temperamento", pelos tra¡;:os: agressivo, submissao, disciplina, neutralidade afetiva e motiva<;ao extrínseca (Gintis,
temperamental, franco, predizível, com tato e criativo (todos eles com sinal 1971).
negativo, exceto o quarto e o quinto). O terceiro, designado como Assim, a escola sanciona positivamente os tra<;os de caráter e formas de
"interioriza<;ao das normas", estava formado por dois tra¡;:os: aceita as ordens conduta funcionais para o trabalho coletivo submetido a relac;:óes de autoridade
e adia a gratifica¡;:ao. - o que em nosso ambito quer dizer para o trabalho assalariado - e
Expressada em termos de coeficientes de regressao normalizados negativamente os que nao o estao, os que seriam disfuncionais. De forma mais
(obtidos introduzindo-se todas as variáveis em urna regressao simples), a geral, pode-se afirmar que urna das tarefas principais da escola é a repressao
capacidade para predizer as notas escolares a partir desses tra<;os, comparada do prazer e, em um sentido mais amplo, a repressao do desejo. Diversos
com a do Q. I. e e a das provas objetivas, foi a seguinte, por ordem de historiadores da educa<;ao destacaram o propósito explícito nas origens da
importancia: Teste de Aptidao Escolar (S.A.T.) matemático: 0,43; Teste de educa<;ao de massas de reprimir a sexualidade de crianyas e jovens (Spring,

188 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 189


1975; Katz, 1971). O "principio da realidade" do trabalho submetido a urna
autoridade alheia devia-se impor ao "princípio do prazer" que representa os
desejos e inclina<;:6es pessoais, que poderiam levar a rejei<;:ao do trabalho ou,
pior ainda, ao questionamento e desafio de sua organiza<;:ao social imperante.
Como escrevera o próprio Freud, a tarefa da educa<;:ao

consiste em tornar as crian<;:as o mais saudáveis e capazes para o trabalho


que seja possível ( ... ) ; de qualquer ponto de vista é indesejável que as
crian<;:as sejam revolucionárias (citado por Millot, 1982: 156).

AS RELA~ÓES SOCIAIS DA
EDUCA~ÁO, 2:
A ATOMIZA~ÁO DO CORPO SOCIAL

A estabilidade das sociedades capitalistas industrializadas, ou melhor dito,


a estabilidade de sua estrutura fundamental, baseia-se em grande parte em
fatores alheios a escoJa como a opacidade das rela<;:6es de produ<;:ao e
distribui<;:ao, o consenso em torno da forma democrático-representativa de
Estado e diversas formas de hegemonía e domina<;:ao ideológicas; além,
naturalmente, da polícia e do exército.
A escola, entretanto, exerce um importante papel. No capítulo anterior
tratamos da forma pela qual as rela<;:6es sociais em seu interior preparam os
indivíduos para aceitar e incorporar-se sem muitas fric<;:6es as rela<;:6es de
produ<;:ao ou, mais exatamente, as rela<;:6es ou ao processo de trabalho
dominantes. Agora veremos a forma pela qua! servem para cercear sua
potencialidade de resistencia e colocar obstáculos a sua capacidade de
resposta. Tudo isto, é claro, a parte ou além da contribuic;:ao ao próprio fun da
pura e simples inculca<;:ao ideológica.
Urna sociedade dividida em classes sociais, géneros, grupos étnicos ou ao
longo de outras linhas de fratura, torna-se muito mais tolerável para os setores
mais desfavorecidos se apresenta ou aparenta apresentar um alto grau de
abertura e oferece ou promete vias de mobilidade social. Cada pessoa
190 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 191
descontente com sua sorte, entiío, tem diante de si duas alternativas: tratar de tunidades de vida conformes com o sistema. Por isso nas recentes
melhorar a posic;ao relativa do grupo ao qual pertence ou tratar simplesmente versoes da ideología do rendimento o éxito no mercado é substituído pelo
de melhorar sua posi<;ao pessoal. A primeira, por sua vez, admite duas éxito profissional, representado pela educac;ao formal (Habermas, 1975:
variantes: melhorar a posic;ao coletiva subvertendo ou virando as relac;oes de 102).
poder existentes ou tratar de faze-lo dentro delas, sem chegar a colocá-las em
questao. Por outro lado, a escola cerceia as condic;oes da a<;ao coletiva ao inserir os
Subverter as relac;oes existentes, em um sentido ou em outro, este indivíduos numa trama de práticas sociais que os relacionarn entre si como
é o objetivo das revoluc;oes. Suas promessas sao sem dúvida as mais atrativas elementos atomizados e isolados, com interesses contrapostos e mutuamente
para os grupos mais desfavorecidos, mas também apresentam riscos mais hostis. Aquilo que eufemisticamente costumamos chamar "consenso",
elevados. Em primeiro lugar, pela incerteza quanto ao que virá depois; em "consentimento" ou "legitimidade" de urna ordem social nao consiste
segundo lugar, porque provocam intensos enfrentamentos sociais nos quais, necessariamente, ou consiste raramente, em que todo mundo esteja de acordo
para conseguir algo mais, pode-se perder tudo. Nessas condic;oes, o interesse em torno dos fundamentos da sociedade da qual faz parte; consiste sobretudo,
e o ponto de vista particulares tendem a diferir dos sociais. Da perspectiva muito mais freqüentemente, em que os que nao partilham desses fundamentos
individual pode ser mais seguro, requerer menos esforc;o, ser menos arriscado nao encontrem alternativas a eles, nao possam elaborá-las nem formulá-las em
e apresentar mais probabilidades de éxito, a tentativa de mudar a própria sorte comum e nao possam alcanc;ar os meios nem a organizac;ao necessários para
dentro das relac;oes sociais existentes que o de alterar estas para mudar a de defende-las de forma eficaz.
todos. A outra face do tratamento formalmente igual de crianc;as e jovens é
A escola exerce aqui um duplo papel. Por um lado abre urna via, embora o ignorar suas identidades coletivas, ou os elementos coletivos de sua
para a maioria seja mais aparente que real, através da qual é possível melhorar identidade. Ao ignorar suas características próprias, sua pertinencia a grupos
a posic;ao de indivíduos e grupos dentro dos cursos de a<;ao estabelecidos e sociais específicos ou a subculturas particulares, a escola interpela-os como
aceitos e sem risco de desembocar em um conflito aberto. Fundamentalmente, sujeitos isolados e os forc;a a se comportarem e a agirem de forma
permite aos grupos ocupacionais reforc;ar sua posi<;ao controlando as individualista. As fraturas, as relac;oes de poder e dominac;ao e os confli-
possibilidades de acesso aos mesmos, as quais sao restringidas através da tos sociais que tem sua base na estrutura social global e nas identidades
eleva<;ao das exigencias em termos educacionais; e, sobretudo, permite aos coletivas dissolvem-se assim, aparentemente, em um mare magnum
indivíduos lutar pessoalmente para mudar de grupo, para aceder a outro formado por incontáveis comparac;oes e !utas inter-individuais e frustrac;oes
situado em urna posic;ao mais desejável. Na realidade, a escola é hoje o pessoais.
principal mecanismo de legitimac;ao meritocrática de nossa sociedade, pois Finalmente, a escola contribuí para que os indivíduos interiorizem seu
supoe-se que através dela tem lugar urna selec;ao objetiva dos mais capazes destino, sua posic;ao e suas oportunidades sociais como se fossem sua
para o desempenho das func;oes mais relevantes, as quais se associam também responsabilidade pessoal. Assim, os que obtem as melhores oportunidades
recompensas mais elevadas. atribuem-nas a seus próprios méritos e os que nao as obtem considerarn que
é sua própria culpa. As determinac;oes sociais sao ocultadas por detrás de
De acordo com a idéia burguesa que permaneceu constante desde os diagnósticos individualizados, legitimados e sacralizados pela autoridade
comec;os do moderno direito natural, até chegar ao direito eleitoral escolar.
contemporaneo, as recompensas sociais devem ser distribuídas de acordo
com o rendimento dos indivíduos: a repartic;ao das gratificac;oes deve ser A ideologia que poderíamos chamar carismática (porque valoriza a
isomorfa ao modelo dos diferenciais de rendimento de todos os indivíduos. "grac;a" ou "dom") constituí, para as classes privilegiadas, urna
A condic;ao para isso é que todos participem, com iguais oportunidades, de legitima<;ao de seus privilégios culturais, que sofrem assim urna
urna competic;ao regulada de forma tal que se possam neutralizar as transformac;ao da heranc;a social em grac;a individual ou mérito pessoal.
influencias externas. O mercado era, precisamente, um mecanismo de Desta forma disfarc;ada, pode-se implantar o "racismo de classe" sem que
alocac;ao dessa índole; mas desde o momento em que mesmo as grandes se torne óbvio. Esta alquimia dá tao bons resultados que, longe de opor a
massas de populac;ao se deram conta de que nas formas de intercambio se ela outra idéia do exito escolar, as classes populares assimilam, por sua
exerce também urna coac;ao social, o mercado perde credibilidade, como vez, o essencialismo das classes altas e vivem sua desvantagem como urna
mecanismo de justic;a do rendimento, quanto a distribuic;ao de opor- sina pessoal (Bourdieu e Passeron, 1970: 104).

192 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 193


A motivac;ao mediante recompensas extrínsecas Através nao do que dizemos, mas do que fazemos, da forma em que
atribuímos recompensas e castigos, convencemos a mais de um estudante
A conseqüencia necessária e ineludível da aliena~ao do trabalhador com que nao se aprende pela alegria e pela satisfa~ao que proporciona o
rela~ao ao processo e ao produto de seu trabalho é, se nao se quer ou nao se pode conhecimento, mas para conseguir algo; que o que conta nas escolas e
recorrer a mecanismos diretamente coercitivos, erigir um sistema de motiva~oes centros de ensino nao é o saber e compreender, mas o fazer crer a alguém
extrínsecas. Se nem os fms da própria atividade nem suas características sao que se sabe e se compreende; que o conhecirnento torna-se valioso nao
capazes de motivar o trabalhador, que nao pode reconhecer-se nela, precisa-se porque nos ajude a abordar melhor os problemas da vida privada e pública,
entao da oferta de contrapartidas de um tipo ou de outro. mas porque se converteu em um artigo que se pode vender a elevados
No mundo do trabalho, estas contrapartidas sao bem conhecidas e pre~os no mercado (Holt, 1977: 47).
reconhecidas como tais. Algumas sao de caráter positivo, como o salário, os
benefícios marginais, os servi~os e vantagens de vários tipos - residencias, Mas esta "pressao" nao procede, como parece crer Holt, de nenhuma
viagens, créditos, etc. Outras sao de caráter negativo e referem-se mais a perversao dos professores, nem sequer da onipresen~a dos exames e das
limita~ao da carga de trabalho ou a possibilidade de escapar a mesma: horário, notas. Procede do fato de que, urna vez que se perdeu ou nao se conseguiu
semana de trabalho, férias, oportunidades de prom~ao, idade de encontrar um interesse intrínseco no estudo, coisa que ocorre
aposentadoria, etc. Outras, enfun, sao diretamente punitivas: sem trabalho nao necessariamente de forma irnediata quando só se pode estudar o que outros
há rendimentos, nem auto-estima, nem nada daquilo que estes podem dizem e como eles decidem, ''conseguir algo'' em troca é o unico que pode
proporcionar. justificar urna atividade tao penosa ou, no melhor dos casos, tao carente de
Na escola sao também facilmente identificáveis: aprova~ao social, atrativo. Na realidade, estuda-se porque as notas conduzem aos títulos e estes,
oportunidades de promo~ao académica, oportunidades ocupacionais e sociais, ao menos supostamente, a melhores oportunidades sociais de todo genero,
possibilidade de evitar san~oes ... Algumas dessas motiva~oes sao encontradas fundamentalmente de trabalho e económicas. Estuda-se, em suma, porque a
no contexto social irnediato: a irnagem de si, a satisfa~o paterna, a aprova~ao escola promete mobilidade social aos que nao gozam de urna posi~ao desejável
do professor, o suposto prestigio diante dos colegas, obter urna bicicleta de e promete mante-la para os que já desfrutam dela.
presente ou passar unas boas férias. Através das motiva~oes extrínsecas os estudantes sao levados a aceitar
urna gama de atividades pouco ou nada significativas, rotineiras e desprovidas
É um lugar comum que, para que a escola seja educativa, tem que de interesse. Esta aprendizagem prepara-os para fazer o mesmo no dia de
haver algo no estudante que o motive paa a educa~o. As motiva~oes amanha, quando se encontrarem na mesma rela~o com seu trabalho, e para
fundamentais sao a esperan~a e o medo: a esperan~a de conseguir algo e faze-lo sem atritos. É a aprendizagem da chatea~ao, da monotonia, da
o medo ao castigo no caso de nao conseguir. Disso se segue que, onde nao dissocia~ao interior da própria atividade, necessária para que alguém aceite
estejam presentes a esperan<;a do éxito nem o medo ao castigo pela sacrificar em troca de qualquer coisa as melhores horas de sua vida.
ausencia de éxito, nao há motiva~ao para a educa~ao (Henry, 1971.: 36). Sua segunda fun~o é a de deslocar os conflitos do centro da organiza~ao
do trabalho para outro lugar. Urna vez que o trabalhador está fora de si no
Entretanto, o éxito per se só existe nas distantes regioes celestiais da trabalho e em si só fora dele, suas demandas já nao sao dirigidas a organiza~ao
moral puritana nao contaminada pela vida terrena, ou seja, em parte alguma. social do processo produtivo, o que poria imediatamente em questao a
O castigo pela ausencia de éxito, pelo fracasso, é já algo extrínseco a educa~o, distribui~ao existente do poder e dos recursos, mas a sua periferia. O objeto
e o próprio éxito, ao menos se como tal se entende o éxito educacional, nao principal das negocia~6es e dos conflitos coletivos ou entre o indivíduo e a
se deseja por si mesmo mas pelo que promete. Estamos tao acostumados a empresa nao é já a rela~ao social da produ~o entre as partes, mas a gama e
associar o ensino as notas ou aos títulos que os consideramos parte integrante a quantia das contrapartidas, fundamentalmente os salários. Isto converte o
e inseparável de qualquer forma de educa~o, mas trata-se em realidade de trabalhador, do ponto de vista da empresa, em um interlocutor mais
credenciais simbólicas cujo valor último reside fora da educa~ao, nao dentro respeitável, posto que também é mais respeitoso.
dela; isto é, trata-se de motiva~oes extrínsecas. A forma mais clara desse deslocamento é o auge do consumismo, que nao
representa senao a busca desesperada de gratifica~6es fora do trabalho urna
(. .. ) A conseqüencia mais ampla e geral desta pressao por conseguir vez que se renunciou a encontrá-las dentro. Frente a um processo de trabalho
boas notas é que se degradou e corrompeu o ato da aprendizagem em si. marcado por ordens, normas, rotinas pré-estabelecidas, no qua! o indivíduo se

194 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 195


encontra constantemente submetido a urna autoridade alheia pessoal ou simplesmente desnaturalizado, de forma que quando, por exemplo, se fala de
burocrática, o mundo do consumo oferece a possibilidade de escolher, de dizer "disposi<;:ao para cooperar" de um aluno, o que se está designando é sua
sim ou nao, de organizar o próprio tempo e a própria atividade ou inatividade. disposi<;:ao para envolver-se nas tarefas organizadas pelo professor, isto é, a
O consumo representa um espa<;:o de liberdade por contraposi<;:ao ao trabalho, obedecer.
que é justamente visto como um espa<;:o de submissao. A competi<;:ao é estimulada, sobretudo, através das notas. Estas
Este é um dos la<;:os, senao o mais importante, que associarn o surgimento estabelecem urna categoriza<;:ao entre os estudantes a qual os professores e
da chamada sociedade de consumo ao desenvolvimento da aliena<;:ao no eles mesmos - na medida em que partilham dos objetivos proclamados pela
processo de trabalho, concretamente, a produ<;:ao em série. Nao por acaso os escola - associam sua irnagem e sua estima, algo que todos sabem que terá
éxitos dos trabalhadores, dentro da negocia<;:ao coletiva e sem necessidade de conseqüencias posteriores. A publica<;:ao de cada nova rodada de notas supoe
agudos conflitos, em matéria salarial, de seguran<;:a no emprego, etc., tem um relocaliza<;:ao simbólica dos indivíduos dentro do grupo.
estado sistematicamente associados a suas concessoes em matéria de Mas o ponto importante aquí é que as notas, como os títulos, só
produtividade, isto é, a sua renúncia a controlar o próprio processo de trabalho. possuem um valor relativo. Posto que os títulos sao um instrumento para
Como afirmara certeiramente Jules Henry, o ópio do povo nao é já a religiao, aceder a bens escassos, os empregos mais desejáveis, e posto que para a
mas a eleva<;:ao do nível de vida. maioria dos grupos ocupacionais este acesso dá-se através do mercado de
trabalho, nao existe associa<;:ao absoluta alguma entre títulos e empregos. Um
título de medicina, por exemplo, abre a possibilidade de trabalhar como
A competic;ao inter-individual médico, mas nao garante o éxito de urna consultório particular, nem um lugar
na saúde pública ou no hospital. Por conseguinte, permanecendo o resto das
A economia capitalista de mercado supoe a competi<;:ao nao apenas entre coisas iguais - isto é, na medida em que o acesso ao que se deseja dependa
as empresas (mercados de capitais, bens e servi<;:os), mas também entre os dos títulos -, as credencias educacionais só tem valor efetivo na medida em
indivíduos pelo acesso aos empregos (mercado de trabalho, ou de for<;:a de que sao maiores e/ou melhores que as dos concorrentes que aspiram a mesma
trabalho). Além disso, a organiza<;:ao social da empresa traz a competi<;:ao para coisa.
seu interior na forma de salários por tarefa, normas de produ<;:ao, premios por Este critério é facilmente transferido por professores e alunos ao interior
produtividade, demissao dos trabalhadores menos produtivos, competi<;:ao da escola, o que significa as notas. Obter a men<;:ao de ''apto'', ''aprovado'' ou
pelas oportunidades de promo<;:ao, etc. ''suficiente'' e m urna matéria serve para livrar-se dela, mas nao assegura por
Com isso, em primeiro lugar, barateia-se o custo da for<;:a de trabalho, pois si mesmo nada no futuro. Se todos a obtem, entao só ganha quem obtém a
as leis de oferta e procura agem fortemente sobre os trabalhadores; com mais men<;:ao de "notável", "excelente", etc. Ao contrário, a mais baixa das notas
for<;:a inclusive que sobre os possuidores ou vendedores de outras acima do umbral de aprova<;:ao adquire um grande valor se os que a obtem sao
mercadorias, pois se o fabricante ou o comerciante, com freqüencia, podem poucos. Pode-se afirmar, por conseguinte, que o valor da nota atribuída a cada
resistir a vender a baixo pre<;:o e esperar que cheguem melhores tempos no aluno conserva urna rela<;:ao inversa com o valor da atribuída aos demais. Dito
mercado, o trabalhador cuja forya de trabalho é seu único meio de vida de outra forma, o éxito de outro é meu fracasso, e seu fracasso meu éxito.
raramente pode faze-lo. A organiza<;:ao coletiva dos trabalhadores pode aliviar Esta competi<;:ao destrutiva nao precisa esperar o fun do mes para
relativamente os efeitos da competi<;:ao inter-individual dentro da empresa, isto manifestar-se em torno das notas. É urna cena habitual nas escolas quando o
é, entre os trabalhadores ocupados, mas dificilmente o consegue - em geral professor se dirige a um aluno ou outro para perguntar-lhe algo e comprovar
nem sequer o tenta - entre aqueles que o que buscam é o acesso ao emprego, se sabe ou nao. Posto que o número de alunos é alto e o tempo curto, apenas
os desempregados - que, normalmente, sao também os menos organizados alguns podem ser perguntados. Entre os demais, uns desejam que seus
ou nao o sao em absoluto. Em segundo lugar, aumenta-se a produtividade. E, colegas deem a resposta correta para que a pergunta nao chegue a eles, porque
em terceiro lugar, divide-se entre si os trabalhadores e poe-se obstáculos a sua nao a sabem; o resto, os que a sabem, desejam exatamente o contrário. E~tre
solidariedade. o rosário de maos que se levantam para responder urna pergunta ou realizar
A escola, mesmo que seu reformismo pedagógico tenha incorporado urna tarefa de forma voluntária, todas as que nao sao correspondidas pelo dedo
definitivamente a seu discurso termos como "solidariedade", "coopera<;:ao", do professor ("Tu") representam os mais negros sentimentos - embora
"trabalho em equipe" e outros do estilo, estimula por todos os meios a seu sejam pequenos - para com o escolhido, pois apenas se ele fracassa poderá
alcance a competi<;:ao entre os alunos. Em grande medida, este discurso foi um outro tentar o éxito.
196 Mariano Fernández Enguita 197
A Face Oculta da Escola
A condena<;:ao institucional do "sopro" e sua provável aceitac;ao final pelos e as do grupo de iguais (Parsons, 1976; Willis, 1978; Femández Enguita, 1988).
alunos é outra rnanifesta<;:ao. Se a solidariedade grupal pede que se ajude ao Posto que a resistencia a cultura escolar passa, corn rnais freqüencia que por
que se encontra ern diflculdades, a institui<;:ao e a conveniencia pessoal dentro qualquer outro rneio, através do grupo, o professor, que nao pode deixar de
das regras de cornpetic;ao reclama que se o abandone a sua sorte. O "sopro" perceber isso, ve-se levado a ernpregar todos os rneios a seu alcance para
é rnuito freqüente e indiscriminado nos inícios da incorpora<;:ao a escola, mas romper a coesao deste, por exernplo mediante a discrirninac;ao nas sanc;6es ou
vai deixando de se-lo ou se reduz as relac;6es privilegiadas a medida ern que atribuic;6es de lugares na sala de aula.
se avanc;a nesta. No geral sua vigencia só se rnantérn entre os grupos "anti- Socializar hoje sisternaticarnente as crianc;as no individualismo, na
escola' ', sendo rejeitado pelos alunos que aderern aos fms e aos rneios da cornpetic;ao e na falta de solidariedade é preparar o terreno para que arnanha
instituic;ao, isto é, por aqueles corn os quais a socializa<;:ao foi rnais eficaz. se lhes tome difícil erigir outro género de relac;6es entre eles e, ern particular,
O conhecirnento, que tern sua origern na cultura, no cornurn por para que nao sejarn capazes de agir de forma solidária frente a seus
excelencia, configura-se assirn corno urna forma de propriedade privada da qual ernpregadores. A subrnissao as relac;6es de produc;ao capitalistas encontra urn
os dernais devern ficar excluídos. É medido individualmente, e só poderá fa- obstáculo nao apenas na ac;ao solidária de todos os trabalhadores, mas o
zer-se valer pessoalrnente, ern oposi<;:ao aos outros. Os alunos encontrarn-se, encontra tarnbérn, e notável, na organizac;ao formal de apenas urna parte dos
pois, na seguinte situac;ao: ernbora sejarn tratados e igualados corno rnernbros ocupados - os sindicatos, que por outro lado apresentarn a contrapartida de
de categorias e coletivos, ernbora vivarn ern urna proxirnidade física corn seus sua própria burocratizac;ao e inserc;ao nas relac;oes existentes, e outras
colegas que só é superada ern alguns transportes públicos e ernbora organizac;oes corn base no local de trabalho - e rnesrno na recte informal de
estabelec;arn corn eles relac;6es cuja durac;ao só é superada pelas relac;oes relac;6es que, por exernplo, propicia a resistencia passiva a acelerac;ao do ritmo
familiares rnais irnediatas, devern considerá-los e tratá-los corno a estranhos, de trabalho. Desta perspectiva entende-se rnelhor a relevancia para a escola,
se nao corno a elementos hostis. nao apenas de impedir que a turma escolar aja corno urna vontade coletiva, mas
tarnbérn de destruir ou neutralizar os pequenos grupos de arnizade que se
Outro aspecto da vida escolar (... ) é a solicita<;:ao recorrente de que forrnarn ern seu interior.
o estudante ignore os que o rodeiarn. Nas classes elernentares passa-se Ernbora a cornpetic;ao entre os alunos seja urna velha característica da
aos estudantes, corn freqüencia, urn trabalho para ser realizado ern sua educac;ao, nao se deve pensar que o desejo de obter a aprovac;ao do professor
carteira, a qual se espera que dediquern suas energías individuais. está necessariarnente associado ao desejo de sobressair. Na educac;ao dos
Durante estes períodos de trabalho desestirnula-se, se é que nao se jovens sarnoanos, por exernplo, desestirnulava-se que se destacassern ou que
proíbe abertarnente, as conversas e outras formas de cornunicac;ao entre fossern rnuito precoces (Mead, 1975). Sern sair de nossa própria história, nao
os estudantes. Ern tais situac;6es, a advertencia geral é a de que fac;as teu há trac;os de urn estímulo claro a cornpetic;ao até o surgirnento da pedagogia dos
próprio trabalho e nao te envolvas corn os outros. jesuítas. Algurnas grandes rnudanc;as forarn necessárias posteriormente para
Ern certo sentido, pois, os estudantes devern tentar comportar-se que pudesse ser perseguida sisternaticarnente corno objetivo, e entre elas cabe
corno se estivessern sozinhos, quando o certo é que nao estao. Devern destacar a passagern das escolas unidocentes as seriadas. Nas prirneiras, a
rnanter a vista sobre seus papéis quando há rostos humanos que lhes diversidade de níveis juntava alunos de diferentes idades, entre os quais nao
fazern sinais. Na realidade, nos prirneiros anos de escola é infreqüente tinha sentido urna relac;ao competitiva, e o próprio professor, para urna rnaior
encontrar estudantes urn frente ao outro ern redor de urna mesa enquanto, eficácia ou para aliviar sua carga, fornentava urna rela<;:ao de colaborac;ao (o
ao rnesrno ternpo, se lhes exige que nao se cornuniquern uns corn os apoio dos rnaiores aos de menos idade e dos rnais avanc;ados aos atrasados).
outros. Se querern chegar a ser bons estudantes, estes jovens devern A introduc;ao da escola seriada terrninou corn isto. Reunindo todos os alunos
aprender a estar sozinhos na rnultidao (Jackson, 1968: 16). por idades escolares associadas a idade biológica e separando-os ern rnaiores
e menores, propiciou a padronizac;ao dos critérios de avalia<;:ao e organizou a
O isolarnento do aluno nao é urn simples subprodutro do estímulo a cornpetic;ao ern tomo deles.
cornpetic;ao corn seus colegas. A escola coloca grande ernpenho ern romper os
vínculos grupais entre eles. É já quase urn lugar cornurn que, para o aluno ern A divisao do trabalho
geral ou ao menos para os que pertencern a urna subcultura social oposta aos
valores da escola ou ao menos nao suficientemente identificada corn seus A escola reproduz sob múltiplas formas a divisao do trabalho imperante na
valores, coloca-se constantemente a opyao entre as demandas do professor sociedade. A rnais elementar destas formas, ernbora nao a rnais importante, é

198 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 199


sua própria divisao interna. A quase totalidade dos sistemas escolares Mas o papel mais importante da escala na reprodu¡;:ao da divisao do
apresenta durante o período obrigatório algum tipo de divisao entre ensino trabalho diz respeito a um aspecto rnais preciso desta: a cisao entre trabalho
académico e profissional, planejados, grosso modo, para conduzir os jovens, manual e trabalho intelectual, embora esta dicotomia necessite de algurnas
respectivamente, a postas de trabalho de gravata ou de rnacadío - de precisóes e matizac;:oes. A primeira é que a eloqüencia de expressóes como
colarinho branco ou azul, se se prefere. Muitos apresentam ramos claramente ''divisao entre trabalho manual e intelectual'', ''separac;:ao entre mao e
diferenciados, como o bacharelado e a forrna¡;:ao profissional espanhóis da Lei cérebro", etc., nao deve esconder que urna separa¡;:i'io estrita é impossível. Até
Geral de Educa¡;:ao de 1970, herdados já da legisla¡;:ao anterior. Outros o mais rotineiro trabalho manual requer o emprego de faculdades intelectuais,
substituem a segrega¡;:ao entre escalas com esses dois tipos diferentes de entre e las a atenc;:ao, a previsao, o processamento de informa¡;:i'io, etc., e o mais
ensino por urna segrega¡;:iio dentro delas, como o sistema norte-americano do espiritual dos trabalhos intelectuais nao só tem seu substrato em processos
tracking (que divide internamente a educa¡;:ao em geral e profissional) ou o bioenergéticos, mas, se se deve traduzir em algo, exige alguma forma de
britanico do streaming (que divide os alunos por capacidades ou velocidades esforc;:o manual ou físico, embora seja apenas o de articular um discurso falado,
de aprendizagem mas na prática conduz a tipos distintos de ensino, embora passar as páginas de um livro ou escrever sobre um papel.
tenham a mesma denomina¡;:ao). Outros, enfim, permitem que os alunos se Pode-se pensar que a escala só se relaciona com essa divisao através da
diferenciem através da escolha entre um conjunto mais ou menos amplo de selec;:ao dos alunos para um futuro educacional e profissional ou outro, pois o
matérias optativas. Estes mecanismos de divisao nao sao alternativos, mas tronco comum pode reunir elementos de forma¡;:i'io teórica, prática, física,
acumuláveis, de forma que cada sistema escolar apresenta sua própria artística, etc., o mais académico dos bacharelados pode incluir atividades
combina¡;:ao deles. práticas e todo ramo de forma¡;:i'io profissional compreende algum tipo de
A especializa¡;:ao, naturalmente, predomina sobretudo no ensino ensino teórico. Tudo isto é certo, mas nao impede em absoluto a escala de
académico pós-obrigatório e no ensino profissional. A estes bem se pode reproduzir a cisao ou, melhor dito, a polariza¡;:i'io entre trabalho manual e
aplicar o velho aforismo que afirma que sabemos - que aprendemos - cada trabalho intelectual.
vez mais sobre cada vez menos. Provavelmente já foi dito em outros lugares e Esta cisao está claramente presente na oq~anizac;:ao curricular, mais con-
por outras pessoas tudo o que há para dizer sobre os efeitos da ultra-espe- cretamente na compartimentalizac;:ao dos conhecimentos e habilidades em rna-
cializa¡;:i'io no ensino. É suficiente dizer que a especializa¡;:ao estreita é um térias. A escala pode oferecer simultaneamente e aos mesmos alunos física
obstáculo quase intransponível para a percep¡;:ao e a compreensao de conjunto teórica e urna oficina de metal, mas o faz a partir da aceitac;:ao prévia da divisao
dos processos sociais e produtivos. entre teoria e prática. As matéri3s teóricas, naturalmente, tem deriva¡;:oes
A contradic;:ao entre a crescente universalidade do processo de produ¡;:ao práticas, mas para encohtrá-las deve-se apelar avida económica e social fora da
capitalista e a crescente, absoluta e relativamente unilateralidade do trabalho escala. As atividades práticas, é claro, obedecem a um plano e, portanto, a con-
do operário individual, encontra seu correspondente educacional na siderac;:oes teóricas, mas estas sao anteriores e, do ponto de vista dos alunos,
contraposi¡;:ao entre a universalidade do saber e a unilateralidade das unidades alheias a sua implementac;:ao. O que a escala faz, na melhor das hipóteses, é
nas quais ele é transmitido. A medida que os campos da produ¡;:i'io e o saber combinar muitas do ses de teoria se m prática com algumas de prática sem teoria.
se ampliam, os do trabalho e da aprendizagem se estreitam. O trabalhador A formac;:ao dos professores, extremamente especializada (o generalismo
especializado enfrenta a organiza¡;:ao global do processo produtivo como algo dos professores de ensino elementar é um falso generalismo, produto de urna
cuja unidade reside fora do próprio processo, visível apenas para quem o forma¡;:i'io que, como a de seus alunos, nao é mais que urna soma de fragmentos
organiza, para o capital; enfrenta-a como algo dado, pré-determinado, que goza dispersos, membra disjecta), leva precisamente a isto. A comunica¡;:ao entre
da legitimidade do fato dado e torna-se difícil questionar. Analogamente, a o professor de oficina e o professor de ciencias, ou entre este e o de história
unidade do saber só existe para o estudante como algo alheio, como urna é praticamente impossível, pois falam linguagens distintas e cada um
suposic;:ao supostamente encarnada em sua organiza¡;:ao curricular; supóe-se desconhece inteiramente o campo do outro. A chamada habitual em favor da
que o saber transmitido é o que merece se-lo simplesmente porque está interdisciplinariedade tem mais de reconhecimento de urna situa¡;:i'io intuída
precisamente ali, isto é, porque é o saber escolhido e organizado pela mas dificilmente solucionável com as próprias for¡;:as que de eficácia, pois os
institui¡;:ao delegada e legitimada pela sociedade para isto, a escala. A posi¡;:ao bons propósitos de uns quantos professores sao urna débil arma contra o que
do aluno diante do saber e diante da relac;:ao em que se colocou com ele é tao foi criado por todo um sistema.
contemplativa e passiva como a do trabalhador diante da produ¡;:ao social e do Esta cisao e desconexao entre as matérias "teóricas" e as "práticas"
lugar que nela se !he atribuiu. alenta nos alunos a idéia de que trabalho manual e trabalho intelectual sao

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irreconciliáveis. Em lugar de urna formac;:ao e urna atividade integrais longa campanha de separac;:ao das func;:óes de concepc;:ao e execu<;iio,
encontram-se diante da situac;:ao de ter que decidir entre urna teoria irrelevante convertendo as primeiras em monopólio do capital e da direc;:ao e relegando aos
e urna prática carente de significado, isto é, entre duas opc;:óes sirnetricamente trabalhadores de base as segundas. A partir dessa conceptualizac;:ao
parciais e unilaterais. compreende-se que um trabalho consistente na manipulac;:ao de dados nao tem
Além disso, a associac;:ao entre a idéia do trabalho intelectual e a escoJa por que compreender urna dirnensao de concepc;:ao, que pode ser um simples
costuma adquirir um sentido forte que sobrestima a ''intelectualidade'' do que trabalho de execu<;iio: podemos qualificá-lo, se isso nos agrada, de intelectual,
se passa nas salas de aula. Na vida relacionamo-nos com as coisas, com outras mas só no sentido mais fraco do adjetivo.
pessoas e com dados concernentes a urna e outras. Na escoJa, a intensidade Salvo nos escaloes superiores do sistema, aos quais só acedem alguns
e a freqüencia das relac;:oes com os dados e as pessoas sao elevadas, enquanto poucos, o trabalho escolar é essencialmente um trabalho de execuc;:ao, embora
as da relac;:ao com as coisas é baixa. Poderíamos dizer que a escoJa é urna o que se execute sejam operac;:oes com os dados. A concep<;iio prévia do
instituic;:ao cuja func;:ao manifesta é ensinar crianc;:as e jovens a relacionar-se mesmo é algo que fica em milos dos professores ou das instancias de poder
com os dados - a manejar a informa<;iio -, cuja func;:ao latente é ensiná-los a que, da perspectiva dos alunos, se situam por detrás deles. A concepc;:ao do
relacionar-se com as pessoas as relac;:oes sociais - e na qua! a trabalho é precisamente a determinac;:ao de seu produto e de seu processo, e
aprendizagem da relac;:ao com as coisas representa apenas urna func;:ao o procedirnento que conduz a ela, e esta é a primeira coisa que a escola veda
secundária. a seu público.
Na realidade, o que crianc;:as e jovens fazem constantemente nas salas de Através deste mecanismo, a extirpa<;iio dos elementos de concepc;:ao da
aula é manejar informac;:ao: neste sentido, o trabalho escolar é um trabalho organizac;:ao e da prática cotidianas do trabalho escolar, preparam-se os jovens
intelectual. Mas, se assirn o entendemos, entao ''intelectual'' já nao significa para trabalhos adultos pouco criativos, para renunciarem a sua criatividade no
necessariamente criativo, complexo, etc. A manipulac;:ao de dados pode trabalho. Por isso mesmo, esta só poderá buscar e encontrar espac;:os para sua
apresentar urna complexidade muito menor que a de coisas, como salta avista expressao e desenvolvimento fora do trabalho, no consumo e no ócio. O
se comparamos o trabalho de urna mecanógrafa como de um matrizeiro ou, de importante é que a ninguém ocorra algo diferente.
forma mais geral, os trabalhos rotineiros de escritório com os trabalhos
artesanais. A escola oferece urna versao tao degradada do trabalho intelectual
quanto do trabalho manual. O aluno que cursa o bacharelado está bastante livre A submissao a uma avaliac;ao alheia
para ver-se a si mesmo como o pensador de Rodin ou como um emulo de
Leonardo da Vinci, mas por enquanto nao está sendb preparado para muito A escoJa é um lugar no qua! crianc;:as e jovens sao constantemente
mais que para ocupar urna mesa em um escritório. Ao contrário, é certo que avaliados por outras pessoas: ao final de seus estudos, de cada nível
o aluno de formac;:ao profissional verá a irnagem de seu futuro mais no pedreiro educacional, de cada ano escolar, de cada trimestre, de cada mes ... A avaliac;:ao
que ve nas construc;:oes que em Benvenuto Cellini, mas tudo isto é é, de fato, um mecanismo onipresente na cotidianeidade das salas de aula, pois
simplesmente parte do jogo; a formac;:ao separada para trabalhar em relac;:ao te m lugar formal ou informalmente - mas sempre com efeitos - cada vez que
com os dados ou com as coisas se acrescenta urna pátina ideológica que, o aluno responde ou deixa de responder urna pergunta do professor, mostra-
identificando o primeiro com o trabalho criativo e de prestigio e o segundo com -lhe seu trabalho ou torna visível seu comportamento, além da lista
o trabalho rotineiro e ao alcance de qualquer um, satisfaz o ego de todos os interminável de exercícios, pravas, testes e outros dispositivos específicos para
futuros trabalhadores dos setores terciário e quaternário que, embora ganhem esse fim. A avaliac;:ao do trabalho e do comportamento escolares juntam-se,
menos dinheiro que os operários manuais, gostam de ver-se a si mesmos além disso, o emprego de provas psicológicas ou psicométricas, que constitui
como membros da ''classe média' ', mas nada mais - salvo que, de passagem, em grande parte a base da suposta cientificidade do empreendimento de se
também reconforta o ego dos professores. educar, selecionar e certificar os alunos.
Chegados a este ponto, torna-se mais útil e explicativa a distinc;:ao entre Na escola aprende-se a estar constantemente preparado para ser medido,
concepc;:ao e execuc;:ao. Em princípio, todo trabalho humano é urna unidade das classificado e rotulado; a aceitar que todas nossas ac;:oes e omissoes sejam
duas, mas em sua organizac;:ao capitalista- e, por certo, na "socialista real'', suscetíveis de serem incorporadas a nosso registro pessoal; a aceitar ser
mas este nao é nosso tema agora - ela se ve cindida. O longo caminho que objeto de avaliac;:ao e inclusive a desejá-lo. O agente principal do processo de
vai desde as origens da divisao manufatureira elementar do trabalho até os avaliac;:ao é o professor, mas a ele se somam os corpos examinadores externos
mais sofisticados estudos de movimentos e tempos nao é outra coisa que urna (exames de seletividade para o acesso a Universidade na Espanha, exames

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públicos na Inglaterra e no País de Gales, exarnes de Estado na Fran¡;:a), os mesma idade e nas mesmas circunstancias. A escola, na realidade, joga
especialistas em campos vizinhos da educa<;ao, introduzidos nas escolas com sua auto-estima. Cada aluno está exposto e é vulnerável aos juízos
(psicólogos, orientadores, assistentes sociais), e a pletora de visitantes dos adultos com autoridade e de seus iguais, aqueles que se parecem a ele
ocasionais a elas enviados pelos organismos públicos e de pesquisa. em muitos aspectos. Se a crian<;a em casa se pergunta se é querida, o
Mais importante ainda é a incorpora¡;ao dos demais alunos a avalia<;ao de aluno se pergunta se é urna pessoa digna de considera<;ao. Em ambos os
cada um, pois, dado que a intera<;ao entre o professor e o aluno se dá quase cenários pode encontrar algum tipo de resposta observando como o
sempre em público, ninguém escapa a oportunidade de ser avaliado explícita ou tratam os demais (Dreeben, 1968: 38).
implicitamente pelos demais nem se ve privado de lhes pagar na mesma moeda.
Embora se suponha que a avalia<;ao verse somente sobre as dimens6es
Os colegas de aula unem-se com freqüencia ao ato. As vezes, a classe cognitivas da educa<;ao, é óbvio que outros aspectos intervem fortemente.
em seu conjunto é convidada a participar da avalia<;ao do trabalho do Wood e Napthali (1975) assinalam seis critérios informais utilizados pelos
estudante, como quando o professor pergunta: '' Quem pode corrigir a professores na avalia<;ao: o interesse do aluno na matéria, sua habilidade na
Billy?", ou: "Quantos creem que Shirley leu esse poema com muita mesma, sua capacidade geral, seu comportamento, a qualidade e a limpeza de
expressividade?". Outras vezes, a avalia<;ao tem lugar sem que a pe<;:a o seu trabalho e sua participa<;ao no contexto de aprendizagem. Apenas o
professor, como quando um erro crasso faz romper os risos ou urna segundo e o terceiro, segundo a ordem exposta, sao critérios propriamente
atua<;ao brilhante ganha urna aplauso espontaneo Gackson, 1968: 20). cognitivos, enquanto os demais pertencem mais a esfera do comportamento. O
fato de que os sistemas escolares, com freqüencia, avaliam os tra<;os pessoais
Foi dito que em cada um de nós há tres pessoas: a que eremos que somos, e o comportamento - notas em higiene, pontualidade, obediencia, capacidade
a que os demais creem que somos e a que eremos que os demais creem que de trabalho em equipe, etc., etc., - independentemente do rendimento
somos; a quarta, a que realmente somos, ou nao existe ou é desconhecida e cognitivo, nao deve levar a pensar que as notas propriamente académicas
inacessível. A escola ocupa-se manifestamente das tres primeiras, embora seu estejam livres da influencia dos aspectos nao cognitivos. Para o professor,
discurso idealista se refira permanentemente a quarta. O relevante nela nao é torna-se pouco menos que impossível nao se deixar influir, se é que o tenta,
o que cada qua! pensa de si mesmo, mas o que outros pensam da gente. Entre pelo comportamento do aluno, medido pelo termómetro das exigencias da
estes outros, o mais poderoso - ou mais "significativo", como diria o institui¡;ao e das conveniencias da gestiio do grupo-classe. A maioria
comportamentalismo social - é o professor, que está investido de autoridade simplesmente incorpora de bom grado esses critérios as notas académicas.
pela institui<;ao e cujo ditame produz importantes efeitos no plano da estrutura Criticaram-se as formas tradicionais de avalia<;iio por centrarem-se no
formal da escola e, em geral, fora dela. O juízo dos demais nao é tao produto em vez de no processo (Cicourel, 1974), mas a questao nao é muito
importante, mas nao deixa de ter relevancia: primeiro, porque tende a refletir clara. Em primeiro lugar, porque, como já se disse, os professores tem em
e a refor<;ar o da autoridade; segundo, porque também produz efeitos na rede conta aspectos comportamentais - e estes aspectos sao exatamente o
de rela<;6es informais. Além disso, se as teorias da rotula<;ao (Rist, 1977), da processo - ao atribuir as notas académicas, num grau muito mais elevado do
profecía que se auto-realiza (Merton, 1970) e do efeito Pigmaleao (Rosenthal e que oficialmente se reconhece. Em segundo lugar, porque o próprio resultado
Jacobson, 1968) estao carretas, a conforma¡;ao dessas nossas segunda e é a expressao de um processo. A obten<;ao de um bom resultado escolar passa
terceira pessoas teria urna grande influencia sobre a primeira, a que eremos inevitavelmente pelo ajuste do próprio comportamento as exigencias escolares:
que somos, obtendo-se assim a harmonia em nossa trindade anterior. A por ficar estudando em casa em vez de ir jogar com os amigos, etc. Em
institui<;iio escolar é o cenário no qua! aprendemos a substituir nossa auto- terceiro lugar, e sobretudo, porque, em consonancia com a primeira
estima pela avalia<;ao que os demais fazem de nós, a conformar a primeira a se- observa¡;ao, voltar a aten<;ao para o processo é precisamente voltá-la sobre o
gunda ou, o que dá no mesmo, a deixar que os outros decidam nosso valor. comportamento. Quando se eleva a nota de um aluno porque empenhou-se
bastante, embora seus resultados sejam ruins, ou se reduz a de outro porque
Uma vez que muitas atividades na sala de aula sao julgadas em nao se esfor<;:a, embora seus resultados sejam bons, se está reconhecendo que
público, o aluno é bombardeado com mensagens dizendo-lhe em que o que preocupa a escola, nos alunos, é o comportamento ou o caráter, mais
medida elas foram bem feítas e (mediante um pequeno salto inferencial) que o conhecimento ou as capacidades.
em que medida ele é bom. Se nao é suficiente para isso a palavra do Neste sentido, algumas fórmulas inequívocamente consideradas
professor, nao tem mais do que verificar o desempenho de outros da "progressivas", tais como a chamada avalia<;ao continua, sao, na realidade,

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instrumentos de dais gumes. A avalia<;:ao continua busca pretensamente resultadp a distribui<;:ao dos alunos em atrasados, em dia, e adiantados. O que
eliminar a incerteza do exame e basear a nota fmal no período total de importa nao é o resultado em si, mas se foi obtido ou nao no tempo adequado.
aprendizagem, nao em alguns poucos desempenhos isolados, realizados em Mas o resultado em rela<;ao com o tempo, o produto obtido dividido pelo
situa<;oes de ansiedade. Mas, ao mesmo tempo, ela tira do aluno a tempoo invertido em obte-lo, é a fórmula da produtividade no mercado e,
possibilidade de desconectar-se das exigencias da escala, como acontece no sobretudo, na organiza<;ao do trabalho no interior da empresa capitalista.
exame tradicional, salvo nesses momentos de pravas parciais ou da prava fmal. Por outro lado, a avalia<;ao, que com o transcurso do tempo vai adquirindo
A avalia<;ao continua está para o exame como a ética protestante da formas mais sofisticadas, com as quais se pretende medir mais e mais novos
predestina<;ao está para o recurso católico do arrependimento no último aspectos e fatores, termina por confundí-los todos e mostrar assim, outra vez,
instante. No catolicismo, o cristao pode permitir-se urna vida pecadora até o a redutibilidade e a redu<;ao de fato do trabalho escolar concreto a trabalho
momento da verdade, assim como no sistema de avalia<;ao tradicional o abstrato. O procedimento habitual, baseado em um programa subdividido em
estudante pode arriscar-se a ignorar as exigencias da escala até o dia do urna longa série de se<;oes, um exame aleatório e urna nota normalizada,
exame. Mas, assim como a doutrina da predestina<;ao abriga o cristao a suprime as diferen<;as entre os diferentes componentes do conteúdo do
mostrar em todo momento que se encontra entre os escolhidos de Deus, a en~ino, igualando todos os itens da matéria examinada em um sistema contável
avalia<;ao contínua for<;a o estudante a confirmar a todo instante que figura entre uniforme. A nota global, que geralmente nao é senao a nota média, faz a
os escolhidos do professor. Dito de forma breve, a avalia<;:ao contínua é o mesma coisa com as diferentes matérias que compoem o programa de um
controle permanente. curso ou de qualquer outra unidade de tempo tomada como base para a
Esta afirma<;ao parecerá menos forte se se tem em canta outra dimensao avalia<;ao. Trata-se de urna igualdade que nao busca a equivalencia na utilidade
do problema. As fun<;oes da avalia<;:ao sao potencialmente duas: o diagnóstico dos diferentes conteúdos, mas o tempo empregado para assirnilá-los.
e a classifica<;ao. Da primeira se supoe que permita ao professor e ao aluno
detectar os pontos fracos deste e extrair as conseqüencias pertinentes sobre
ande colocar posteriormente a enfase no ensino e na aprendizagem. A segunda A distribuic;ao de recompensas
tem por efeito hierarquizar os alunos, estimular a competi<;ao, distribuir
desigualmente as oportunidades escolares e sociais e assim sucessivamente. A A escala apresenta também um conjunto peculiar de critérios de
escala prega em parte a avalia<;ao com base na primeira fun<;ao, mas a emprega distribui<;ao das recompensas, sejam positivas ou negati~s, próximo ao da
fundamentalmente para a segunda. Do ponto de vista do diagnóstico, a estrutura ocupacional, mas distante do da familia. E justamente em
avalia<;ao contínua nao pode ser objetada e é altamente desejável, mas do ponto compara<;ao com o da familia que melhor se pode compreender sua
de vista da classifica<;ao dos alunos pode tornar-se um instrumento de controle especificidade.
muito mais poderoso e, portanto, mais opressivo que a avalia<;ao pontual, isto Na farm1ia, por exemplo, exercem um papel essencial as características
é, a tradicional. inerentes, concretamente a idade e o sexo. O desempenho que se espera e
Mas o mais notável das formas de avalia<;ao na escala é que levam a marca que, portanto, será aprovado - e sua carencia ou as atitudes alternativas
indelével da organiza<;ao económica de nossa sociedade. Nao existe nenhum desaprovadas - de cada um de seus membros depende em grande medida
critério absoluto que informe ao professor sobre o que um aluno deve aprender dessas características, que nao podem ser alteradas em nenhum caso (o sexo)
em tal ou qual idade escolar ou biológica. O que a escala faz é converter a ou só podem se-lo pela passagem do tempo (a idade)' mas que nao dependem
tendencia central, provavelmente média, em norma. A institui<;ao e seus de forma alguma da vontade nem da atividade dos indivíduos. Na escala, em
agentes sentem-se tranqüilos quando um determinado nível de exigencia traca, espera-se principalmente o rendimento - seja lá o que isso signifique,
configura as notas dos alunos seguindo mais ou menos urna curva de e com certeza nao é apenas o rendimento cognitivo -, embora existam alguns
distribui<;ao normal, com a maioria delas em torno de valores médios e caudas mecanismos secundários para mitigar seus efeitos.
mais ou menos simétricas nos extremos. É o que poderíamos chamar a Na farm1ia, as tarefas e responsabilidades atribuídas as crian<;as e jovens
"síndrome do sino": se os reprovados sao muitos, abaixa-se o nível; e se todo nao apenas dependem de sua idade e do grau de maturidade que teoricamente
mundo é aprovado, eleva-se-o. É exatamente o mesmo critério que emprega lhe corresponda, mas de sua capacidade real tal como esta se rnanifesta na
urna empresa ao fixar as normas de produtividade no trabalho. prática. Se a tarefa colocada excede essa capacidade, os parentes adultos
No fmal das cantas, o que se mede nao é outra coisa que o rendimento. concluem que a tarefa foi mal escolhida. Na escoJa, pelo contrário, atribuem-se
A expressao acabada da avalia<;ao é a promo<;ao ou nao para outro nível, e seu tarefas padronizadas a todos os alunos em fun<;ao de um suposto modelo geral

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e, se as capacidades de algum deles fica abaixo do exigido, nao existe que conta nao sao as possibilidades dos alunos, mas sobretudo, e em primeiro ·
estratégia compensatória nem revisao da norma de rendimento, mas exclusao lugar, as exigencias da institui<;ao, que sao fixadas em fun<;ao de outros
ou certifica<;ao de ''fracasso'' daquele que falhou. critérios.
Na família, a igualdade nas gratifica<;óes costuma ser um objetivo em si Mas a analogia é oportuna com rela<;ao a distribui<;ao de recompensas. ''A
mesmo. De qualquer forma, supóe-se que as necessidades físicas e afetivas cada qual segundo suas necessidades'' é a fórmula de sua distribui<;ao no seio
dos frlhos - e a manuten<;ao física e a prote<;ao afetiva sao os principais da família, a qua!, nao por acaso, em sua forma primitiva, Margan já charnara
recursos e, portanto, as principais gratifica<;óes distribuídas pela família - de "comunismo de vida". "A cada qua! segundo seu trabalho" é a fórmula
devem ser fornecidas independentemente de seu desempenho. Qualquer teórica, mas apenas teórica, da distribui<;ao na sociedade capitalista. Seria a
gratifica<;ao diferenciadora reduzir-se-á normalmente a recursos ou fórmula efetiva de um igualmente teórico mercado de competi<;ao perfeita, e
necessidades marginais: ser enviado a cama sem sobremesa é mais duro para talvez por isso Marx a qualillcou de ''distribui<;ao burguesa'', que se
a gula que para o apetite e para o ego que para o estómago. Por conseguinte, conservarla no socialismo como figura de transi<;ao. Sua expressao, nao já no
desempenhos muito diferentes conduzem . a gratifica<;óes praticarnente mercado, mas no interior da empresa produtiva capitalista é a suposta
similares. retribui<;ao dos fatores de produ<;ao, incluído o trabalho, a sua taxa de retorno,
Na escala, as coisas passam-se exatamente ao contrário. A principal ou seja, segundo sua contribui<;ao a sua produtividade marginal.
recompensa a ser atribuída, as notas e os títulos escolares, é distribuída de Mas, em realidade, o que caracteriza a distribui<;ao da riqueza tanto no
forma altamente diferenciadora em resposta a pequenas diferen<;as no mercado, que sempre é "imperfeito" - imperfeito do ponto de vista da teoría
desempenho dos alunos. Com base numa igualdade formal na partida, espera- económica, mas perfeito do ponto de vista da prática dos que Ievam a parte do
-se e estimula-se a desigualdade nos resultados. Ieao -, como no interior da produ<;ao coletiva, na empresa, é que os
diferenciais nas retribui<;óes dos indivíduos - ou outras unidades económicas
A professora se interessa (... ) mais pelo resultado que pelas - sao proporcionalmente muito maiores que os diferenciais em suas
"necessidades" emocionais das crian<;as. Nao se dedica a suprimir a contribui<;óes. Nao há proporcionalidade entre urnas e outras, exceto se
distin<;ao entre bons e maus alunos, mesmo quando o pequeno Johnny tomamos como tal a rela<;ao entre urna progressao aritmética - a que separa
sofra por nao poder estar entre os bons. (... ) A mae, pelo contrário, deve as diferentes contribui<;óes, as produtividades individuais - e urna progressao
dar prioridade primeira as necessidades de seu fi1ho, independentemente geométrica - a que separa os rendimentos.
das atitudes deste último. A escoJa, urna de cujas fun<;óes é preparar os indivíduos para a aceita<;ao
(... ) É essencial (... ) que o professor nao seja urna mae para seus desta ordem de coisas como natural, nao se limita a registrar as diferen<;as e
alunos e insista em regras válidas para todos, assim como em atribuir recompensas com um critério de proporcionalidade. O diferencial que
recompensas diferentes segundo o éxito obtido. Acima de tudo, a separa entre si as recompensas alcan<;a de imediato urna amplitude muito
professora deve ser o agente que suscita e legitima urna diferencia<;ao da maior que a do diferencial nos desempenhos que Ievaram a elas, e a própria
turma escolar em fun<;ao dos resultados escolares (Parsons, 1976: 56). distribui<;ao desigual daquelas altera a igualdade formal de partida facilitando o
caminho de uns e obstaculizando o de outros.
Este discurso recorda, curiosamente, a diferen<;a entre o socialismo e o
comunismo, ou entre as supostas duas etapas do socialismo, formulada por A condi<;ao fundamental subjacente ao processo é provavelmente a di-
Marx (1970) na Crítica do Programa de Gotha. A primeira dessas etapas, visao dos valores comuns entre os dois sistemas adultos referidos: a família
segundo Marx, ver-se-ia sucintamente expressada na frase: "De cada qua! e a escala. Neste caso, o ponto principal é urna avalia<;ao dividida do rendí-
segundo suas possibilidades (ou capacidades), a cada qua! segundo seu mento. Isto acarreta, acima de tu do, o fato de se admitir ajusti<;a de conceder
trabalho"; a segunda, por sua parte, seguirla o lema: "De cada qua! segundo gratifica<;óes diferenciais de acordo com os diferentes níveis de rendimento,
suas possibilidades, a cada qua! segundo suas necessidades' '. O primeiro na medida em que as oportunidades tenham sido repartidas eqüitativa-
termo de ambas ("de cada qua! segundo suas possibilidades") tem sua mente, assim como a justi<;a de que estas gratifica<;óes deem aos que tem
aplica<;ao na esfera da família, onde, efetivamente, ao menos no que concerne éxito oportunidades ainda maiores. A classe da escoJa elementar parece
as crian<;as - diferente é a situa<;ao das mulheres adultas -, nao se pede a encarnar fundamentalmente a virtude americana primordial da igualdade de
ninguém mais do que aquilo que se supóe possa fazer. Entretanto, carece de oportunidades, no sentido de que coloca eníase ao mesmo tempo na
aplica<;ao no caso da escoJa, onde - exceto, talvez, na educa<;ao especial- o igualdade de partida e no rendimento diferencial (Parsons, 1976: 57).

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Assim entendida, a ''igualdade de oportunidades'' nao é urna simples para a segunda: post hoc, ergo propter hoc. Assirn parece, mas nao é, pois
''virtude americana'' mas, virtude ou vício, urna característica do mecanismo até os escolásticos sabiam que o que ocorre depois nao é necessariamente
de apropria<;ao e distribui<;ao da riqueza na sociedade capitalista. A conseqüencia do que ocorreu antes. Entretanto, a aparencia é suficiente para
aprendizagem da virtude nas salas de aula passa aqui por ensinar os alunos a dotar as diferen<;as sociais de urna legitimidade baseada nas diferen<;as
perder de vista qualquer critério, nao já de igualdade, mas inclusive de detectadas, ou criadas, mas, em todo caso, devidamente certificadas e
proporcionalidade no que concerne a distribui<;ao das oportunidades de vida e santificadas pela escola.
do acesso a bens desejáveis. O que ocorre na realidade é que a escola produz essas diferen<;as. Ao
estabelecer urna norma comum para todos os alunos, foryando ao mesmo
tempo, até onde é possível, sua capacidade e disponibilidade para o trabalho
A consciencia estratificada escolar, gera necessariamente urna diferenci<;ao em torno do rendirnento.
Como, além disso, a norma é extraída daquilo que constitui a subcultura, a
A rela<;ao entre educa<;ao e estratifica<;ao social é bem conhecida - ou, linguagem, os valores, as pautas de comportamento, a atitude perante a escola
pelo menos, tem sido abundantemente discutida - no que concerne a e o horizonte educacional dos grupos sociais privilegiados, o resultado consiste
associa<;ao e as rela<;6es de causalidade entre urna e outra em termos de e m grande medida em ''eleger os eleitos'' (contribuindo assim para reproduzir,
distribui<;ao individual das oportunidades escolares (anos e tipo de educa<;ao) nao apenas a estrutura de classes da sociedade, mas também a pertinencia
e sociais (status ocupacional, rendimentos, etc.). Nao nos deteremos aqui individual a mesma). Esta é
neste aspecto, em vez disso vamo-nos centrar no papel exercido pela escola na
aceita<;ao desta estratifica<;ao e, em geral, nas diferen<;as sociais através de sua a forma muito particular segundo a qua!, a escola prirnária, confundindo
própria estratifica<;ao interna. sob o nome de normas o ideal e a média, imp6e a todos como um ideal
Há urna forma óbvia para o pesquisador, embora opaca para a consciencia a realizar, os resultados médios das crian<;as da burguesia. (... )
social, na qua! a escola contribui para isto. Apresentando seus mecanismos e No fun das contas, ao impor a todos os cursos escolares o universo
critérios de sele<;ao como produto lógico, científico e indiscutível da estrutura social, a linguagem, a história de alguns e ao rejeitar todos os elementos
interna do saber, no singular, e de sua transmissao, acostuma os alunos a idéia que poderiam permitir que os outros compreendessem sua situa<;ao
de que sua classifica<;ao e hierarquiza<;ao é ponto menos que inevitável. Daí a efetiva de classe, a escala produz nao apenas seus bons alunos, mas
se pensar que também o sao as diferen<;as de classe, ocupa<;ao, rendimentos, também, e sobretudo, seus idiotas (Baudelot e Establet, 1976: 182, 192).
prestígio e poder na sociedade só há um passo, e nao importa muito se os
jovens chegam a isso por si sós ou se seus professores se esfor<;am por U ma vez obtida essa prime ira diferencia<;ao, o mecanismo de estratifica<;ao
convence-los de que nao valerao na sociedade nem mais nem menos do que deixa de consistir apenas em urna sele<;ao cultural que coloca a uns em
aquilo que demonstraram valer na escola. O habitual é que ocorram as duas vantagem e a outros em desvantagem, a uns comodamente instalados na
coisas. harmonia entre sua cultura de origem e a da escola e a outros capturados e
Esta transferencia de critérios e de escalas de valor tem sua base na forte cindidos na contradi<;ao entre urna e outra, a tomar a forma de urna
associa<;ao entre educa<;ao e posi<;ao social e na importancia formal concedida discrimina<;ao sistemática, quando os alunos sao separados em ramos
as credencias educacionais no mercado de emprego. Que tal associa<;ao se escolares diferentes para que se transmitam saberes diferentes e para serem
deva a urna rela<;ao causal ou a urna terceira causa é um outro problema. submetidos a práticas diferentes (o que nao irnpede que, para os que
Embora o debate continue e nao apresente sinais de chegar a termo, os permanecem nos ramos nobres apesar de nao virem da origem social
resultados da pesquisa apontam para a segunda hipótese, isto é, para a adequada, persistam os mesmos mecanismos que na escala comum).
constata<;ao de que urna origem social adequada é a causa tanto de urna boa Este é o sentido último da tao mencionada diferen<;a entre "mobilidade
educa<;ao quanto de um bom destino social, embora o primeiro efeito se patrocinada'' e ''mobilidade competitiva'' (Turner, 1960). Supóe-se que o
acrescente, por sua vez, ao segundo. prirneiro conceito corresponde aos sistemas escolares em que se produz urna
Mas, para o senso comum, as coisas nao sao tao evidentes, o que é segrega<;ao rápida ou desde o primeiro momento, entre os alunos (o
evidente é o contrário. Se, em geral, tudo o que consegue urna boa educa<;ao, bacharelado e a forma<;ao profissional na Espanha, antes da Lei Geral de
consegue mais adiante urna boa posi<;ao social, parece sensato inferir-se que Educa<;ao de 1970 e os atuais sistemas escolares dos países centro-europeus
há urna rela<;ao de causa e efeito e que a dire<;ao da mesma seja da primeira de língua alema, por exemplo) e o segundo aos sistemas unificados nos quais

210 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 211


todos os alunos se rnantém longo tempo juntos (o sistema espanhol depois da próprios dos cursos que conduzem a formac;:ao profissional e ao trabalho
citada Lei, e mais ainda com as reformas em curso, ou as escoJas unificadas representam urna relac;:3.o passiva com o saber e urna atitude merament~
dos países anglo-saxoes, também como exemplos). No primeiro caso, a receptiva perante a ideología. As redac;:oes e dissertac;:oes, os problemas
sociedade elege desde o prirneiro momento aqueJes que gozarao das melhores matemáticos, a interpretac;:ao e o debate, típicos dos cursos preparatórios para
oportunidades escolares e sociais; no segundo, deixa que a selec;:ao tenha lugar o secundário académico e os estudos superiores, expressam e propiciam urna
a partir dos próprios alunos e através de urna prolongada competic;:3.o entre relac;:ao parcialmente ativa com o conhecirnento e urna atitude, senao criativa
eles. Naturalmente, o primeiro procedirnento corresponderia a urna sociedade ao menos manipulativa diante da ideologia. '
mais tradicional, fechada e classista, e o segundo a urna sociedade mais Tan~y (198?) ~ss~~lou algo muito parecido ao comparar a organizac;:ao
moderna, aberta e meritocrática. Na realidade, a diferenc;:a consiste dos horanos, a d1stnbmc;:ao do tempo entre as matérias e as formas de trabalho
sirnplesmente em que, nos sistemas escolares de ''patrocínio' ', a sociedade, escolar no secundário académico e no profissional, estimulando o prirneiro
ou os grupos que detém maior poder, declaram rnanifestamente seus urna relac;:ao pessoalmente direta e criativa com o conhecirnento escolar e o
segu~do urna relac;:ao subordinada, mediatizada sempre pela presenc;:a e pela
propósitos e os perseguem sem disfarces no terreno da educac;:ao; em troca,
no segundo, recorre-se ao subterfúgio de se apresentar como urna competic;:ao autondade do professor. Anyon (1980) também mostrou as diferenc;:as entre
límpida o que realmente é urna competic;:ao viciada, na qual uns partem com escoJas do mesmo nível e ramo, mas com públicos diferentes de classe
notável vantagem com relac;:3.o aos outros. A prirneira variante é mais segura, operária, classe média, profissionais bem colocados e de elite.
mas gera descontentamento nos manifestamente excluídos; a segunda Isto matiza o que ternos afirmado a respeito das relac;:oes sociais da
apresenta o risco de que nao haja garantias totais para os que devem obter o educac;:ao em geral, e em particular o colocado no capítulo anterior em torno
éxito nem obstáculos insolúveis para os que nao deveriam fazé-lo, mas tem a da relac;:ao do aluno como produto e o processo de seu trabalho escolar mas
seu favor urna grande capacidade de fomentar o consenso social tanto em torno nao há por que alegrar-se. O paradigma da socializac;:ao escolar para o tr;balho
da escola quanto em torno da estrutura da sociedade em seu conjunto. assalar!ado é a educac;:ao obrigatória e comum e, naturalmente, a formac;:ao
profi~s10nal. Mas nem todos se conformam com tao pouco.
A estratificac;:ao social manifesta-se também como urna classificac;:ao
hierárquica dos saberes. As crianc;:as aprendem desde o princípio que há A medida que se sobe de nível no aparato educacional, a relac;:ao do
saberes nobres e outros que nao o sao tanto, que a matemática ou as línguas estudante com o conteúdo e o método de seu trabalho se torna mais flexível.
clássicas tém mais valor que as oficinas de metal ou madeira. Esta hierarquia Se n? comec;:o só havia um ensino comum e matérias obrigatórias, ao
está presente de diversas formas: desde a importancia cultural que lhes é aprox1mar-se do fmal pode-se optar entre diferentes ramos e carreiras e
concedida, até seu peso relativo na avaliac;:ao global ou seu lugar no horário adquire maior importancia interna a possibilidade de opc;:3.o. Embora seja
escolar, passando pelas facetas sociais a que se associam, o professorado sempre dentro de urna ordem, os exercícios repetitivos sao substituídos por
distinto que os ministra, etc. Esta hierarquia dos saberes, mais ou menos tarefas mais criativas, o livro de texto por múltiplos livros de consulta o
próxima ou diferente das que ordenam os alunos nos distintos meios sociais, d~u~rinamento pela discussao, o trabalho sob a vigilancia do professor ;ela
é implícitamente, urna avalia<;ao e um ditame sobre a cultura a que pertencem atlVldade pessoal, a submissao pela iniciativa. Mas ocorre que, os que entao
e, portanto, sobre eles próprios. Quando sao separados uns dos outros para ainda ~ermanecem no sistema escolar nao se encaminham já para posic;:oes
serem conduzidos a diversos ramos do ensino, aquele que lhes toca sanciona subordmadas na organizac;:ao da produc;:3.o.
oficialmente a medida de seu valor pessoal de acordo com a escola. ?s grupos sociais privilegiados tem também a oportunidade de escapar
A hierarquizac;:ao nao atinge somente os conteúdos dos diversos ramos do relativamente aos males comuns da escola comum mediante o recurso as
ensino, mas também os métodos pelos quais sao transmitidos e adquiridos. escoJas particulares e até monopolizando de fato algumas escolas públicas que
Assirn, ao analisar as sec;:oes do ensino secundário na Franc;:a, Baudelot e se prestem para isso por sua localizac;:ao geográfica, já que as classes e outros
Establet (1976) encontraram, em geral, duas orientac;:oes pedagógicas grupos sociais nao se distribuem de forma homogénea no espac;:o. Além disso,
diametralmente opostas: propedéutica e de tradic;:3.o jesuítica urna, baseada no é altamente provável que, estendendo os valores e pautas de comportamento
rendimento, na emulac;:ao pessoal, na superac;:ao, no culto ao livro; próprios de sua particular experiencia no trabalho - no qua! gozam de maior
pretensamente "progressiva" e "concreta" a outra, apoiada na repetic;:ao, na autonomia, liberdade de iniciativa, etc. - a outras facetas da vida social, entre
organizac;:ao do conteúdo em círculos concéntricos, em urna certa adaptac;:ao elas a sua idéia sobre a educac;:ao que querem para seus fllhos, os país
passiva ao aluno, ou seja, as diferenc;:as entre os alunos, e na inércia. Os pertencentes a esses grupos demandem urna pedagogia rnais aberta, seja por
ditados, os exercícios de cálculo aritmético, a aprendizagem memorística, tao urna mera transferencia passiva de tais valores e pautas de urna esfera a outra,

A Face Oculta da Escola 213


212 Mariano Fernández Enguita
seja por urna razoável opc;:ao em func;:ao do tipo de trabalho que se sup6e
desempenharao amanha, seja por ambas as coisas. Nascer na familia adequada uruco responsável por sua sorte. Pode ser que esta estivesse lanc;ada de
nao é apenas urna questao de rendimentos. antemao, mas, tal como no mito de Er, em que Deus era inocente e as pobres
A escola, pois, produz e reproduz a estratificac;:ao social, por sua realidade almas responsáveis por um destino previamente decidido mas para elas
interior e por seus efeitos, em um duplo sentido. Primeiro, porque diferencia desconhecido, aqui o indivíduo é o único responsável por seu éxito escolar e
previamente seu público de acordo com as exigencias estratificadoras da suas subseqüentes oportunidades sociais, urna vez que a escola é, por
soci~d~de.como ponto de destino. Contribui, assim, para produzir e reproduzir deflnic;ao, inocente.
a ~st~n~1a de clas~es sociais, grupos ocupacionais e outras categorias em que
está cmd1da a soc1edade. Segundo, porque distribuí os indivíduos entre os Há degraus suficientes para que cada qual possa subir uns poucos. As
diferentes estratos escolares ou os joga nos diversos estratos sociais de acordo séries escolares sao bastante simples no início, nos países ricos,
com a divisao já existente na sociedade como ponto de partida, isto é, porque conseguindo ultrapassá-las, assim, quase todos. Quando o caminho se torna
tende a enviá-los ao mesmo lugar de onde vem, fazendo-lhes seguir o itinerário difícil, já se aprendeu a lic;ao: há igualdade de oportunidades, mas
educac~onal comp~ra?vam~nte mais de acordo com seus extremos já simplesmente os homens nao sao todos iguais. A escadaria do trabalho
conhec1dos. Contnbw asslffi, também para reproduzir geracionalmente a funciona do mesmo modo. Exceto aquel es que nao se desenvolveram bem na
pertinencia social dos indivíduos, isto é, a converter a origem social em destino escola, todos os demais sobem algum que outro degrau. Depois os pontos
social. Certamente, seus méritos prestidigitadores nao residem neste deixar de descanso já duram mais tempo. As pessoas comec;am a envelhecer. ]á nao
as c_oisas como estao, o que nao parece muito difícil, mas em fazer que, no importa tanto quanto antes (Reimer, 1975: 64).
cammho, todos se convertam a fé meritocrática e estejam contentes com isso.
O registro global dos cadáveres que a escola deixa pelo caminho -
cadáveres simbólicos, claro, embora também alguns reais - é espetacular, mas
O processo de dissuasao a ele se chega como resultado de um lento gotejar. Este ano repetem cinco
estudantes do grupo, no ano passado tiveram que faze-lo quatro e no próximo
Aquilo que da perspectiva do longo prazo e dos grandes agregados de serao tres. Um, com boas notas nas outras matérias, afundou-se na
cate~orias sociais aparece de urna forma, bem pode aparecer de outra do ponto matemática; outro, que era bom em matemática, nao se deu bem coma física;
de v1sta da experiencia pessoal vivida. Este é o caso do processo de exclusao um terceiro foi bem em ambas, mas nao teve sorte com o latim ou com a
e selec;:ao na escola. Se da primeira perspectiva citada o faz como um processo história. Cada caso aparece como urna combinac;ao específica de éxitos e
de reproduc;ao social, da segunda apresenta-se como éxito ou fracasso pessoal. fracassos parciais, pontos fortes e fracos, sucessos e insuficiencias. O
A ideología escolar da igualdade de oportunidades esteve desde as origens resultado final é a exclusao, mas a dispersao casuística reforc;a a idéia de que
da escolarizac;ao de massas, e continua estando hoje, associada a urna se trata de problemas individuais, de que a escala nao pode ser proclamada
e~onomia da escassez. Urna vez que o que está em jogo nao é a educac;ao por culpável.
s1 mesma,.sobre a qual bem poder-se-ia argumentar e ser aceito por todos que Depois de tudo, se uns nao o conseguem, deve ser responsabilidade sua,
deve ser 1gual para todos, conduzir aos mesmos resultados em termos de já que outros o conseguiram. No fundo, espera-se de todos, e em especial dos
desenvolvimento pessoal e acesso a cultura; urna vez que nao se trata disso, primeiros, que assumam o que R. H. Tawney (1951) chamava ''a filosofia do
mas ~o- ~cesso as. posic;óes sociais mais desejáveis - o que converte o jogo girino'', de acordo com a qual es tes simpáticos bichinhos deveriam aceitar sua
num ht1g10 -, acerta-se com naturalidade a aplicac;ao a escola da velha máxima habitual negra sorte porque alguns dentre eles chegarao a converter-se em ras.
evangélica: muitos serao os chamados, mas poucos os escolhidos. O grande empreendimento da selec;ao pode ser levado a cabo pela escola
Isto poderia ser visto por todos os rejeitados como urna forma de mediante a paulatina eliminac;ao dos nao elegíveis, mas com freqüencia nao é
exclusao, mas a escola e a ideología meritocrática que a rodeiam sao preciso chegar a isso. O mecanismo pode funcionar também a maneira do
notavelmente eficazes no empreendimento de apresentar isso como o simples ''esfriamento'' das expectativas pessoais descrito por Ciark (1960). Quando
resultado final do conjunto dos desempenhos pessoais. Tratando a todos de diante do aluno se acumulam os pequenos fracassos, as indicac;:óes de que nao
modo formalmente igual e individualizando provas, medic;6es, vereditos e vai conseguir ir muito mais longe, chega o momento de retirar-se
sentenc;as - embora aqui a sentenc;a costume ser anterior ao veredito como discretamente e sem escándalo. Em acréscimo, é provável que os imperativos
na justic;a da Rainha Vermelha -, a escola faz com que cada qual se ~inta 0 de saúde do próprio ego aconselhem oferecer a si mesmo e aos demais
qualquer explicac;ao diferente da real, de forma que cada qual carrega sua cruz
214 Mariano Fernández Enguita
A Face Oculta da Escola 215
interior e procura que nao a vejam os outros; a soma dessas atitudes bem pode
levar a que ninguém veja outro problema senao o seu, isto é, a que o conjunto
de exclusoes ou ''fracassos'' individuais resista em ser percebido como um
problema social.
A própria experiencia da progressao escolar redunda na interiorizayao dos
fracassos escolar e social. Se se póde passar os primeiros cursos, está claro
que, se nao se pode passar os seguintes, é culpa do aluno, pois a escola já
demonstrou que nao tinha nada contra ele. Se podia progredir na escola,
poderá progredir também na sociedade; portanto, se nao o fazemos deve ser
porque em algum momento come<;amos a falhar, a nao fazer o que deviamos
ou a fazer o que nao devíamos. De resto, urna vez que quase todo mundo foi AS CONTRADI~ÓES DA
bastante mais longe na escola que seus progenitores, quase todo mundo já
experimentou, em urna versao perversa dos desejos de Andy Warhol, seu RELA~ÁO ENTRE ESCOLA E
quarto de hora de mobilidade social - e ascendente.
TRABALHO

A forma em que apresentamos o papel da escola na socializa<;ao para o


trabalho assalariado responde mais a urna lógica dedutiva, apoiada de forma
genérica na evidencia empírica, que a urna análise pormenorizada do
funcionamento real de sistemas escolares ou contextos educacionais
concretos. Disso poder-se-ia, talvez, deduzir urna imagem da escala como um
mecanismo de relojoaria que cumpre a perfei<;ao suas fun<;6es, sejam estas
declaradamente manifestas ou trabalhosamente detectadas como latentes. Na
realidade, estas fun<;6es só se desenvolvem acompanhadas de urna série de
conflitos, media<;6es, disfun<;6es e processoss entrópicos.
Entretanto, o reconhecimento disto, essencial para urna análise da
educa<;ao localizada de forma mais precisa em certas coordenadas de tempo e
espa<;o - isto é, históricas-, nao deve levar a urna relativiza<;ao absoluta das
conclusóes da análise estrutural nem, muito menos, a colocar num plano de
igualdade esta e as observa<;6es isoladas, as rela<;6es sociais gerais da
educa<;ao e os processos concretos de intera<;ao individual. Nao há nem pode
haver urna divisa o de tarefas entre urna análise estrutural, téorica, ''macro'',
etc., que se dedicasse ao estudo dos sistemas mas seria incapaz de descer ao
aqui e ao agora dos processos sociais vivos, e urna análise fenomenológica,
empírica, ''micro'', etc., que darla conta dos processos concretos mas sem
conseqüencias fora de seu ambito de estudo.

216 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 217


Em continuac;:ao analisaremos as que se apresentam como as fontes mais
As contradic;:oes, os conflitos, as distorc;:oes na realizac;:ao pela escola de
importantes desses conflitos e contradic;:oes. Em primeiro lugar, a contradic;:ao
suas func;:oes sociais podem e devem ser também analisados em termos
entre a persistencia de diversos modos de produc;:ao na sociedade e a
estruturais. Em primeiro lugar, porque é nas próprias relac;:oes estruturais
configurac;:ao da escola a servic;:o tao-somente de um deles. Depois, a
onde se encontram principalmente suas raízes. Em segundo lugar, porque é na
contradic;:ao entre as lógicas distintas que presidem a esfera do Estado, na qual
complexa trama que essas formam (a estrutura social mesma) onde adquirem
está integrada a escola, e a esfera da economia, a qual pretende servir. Mais
sentido. E, em terceiro lugar, porque a subordinac;:ao da atividade individual as
tarde, a contradic;:ao entre os desenvolvimentos contrapostos da qualifica<;ao do
tendencias e contratendencias estruturais é o que faz dela algo mais que urna
trabalho e a qualificac;:ao dos trabalhadores. Por último, o conflito entre os
insignificante gota de água em um errático oceano soci~. !Uém disso, aqu_i, padroes culturais e modelos de vida auspiciados pela escola e os padroes
como em outros terrenos, a análise estrutural nao substitm os estudos mrus culturais e projetos pessoais de seu variado público.
sistemáticos e detalhados da evidencia empírica, mas, certamente, é o que
lhes oferece um marco conceitual e interpretativo.
Em grande medida a escolarizac;:ao universal tem sido um instrumento para
Modos de produs;ao social e educa~ao
suprimir ou, ao menos, mitigar e desativar as grandes contradic;:oes e fontes
potenciais de conflito da sociedade, cujos cenários fundamentais eram e sao os
No fragor do processo de industrializac;:ao e de resistencia ao mesmo, a
campos da economia e da política pública. Ela nao tem falhado nesse
escola adotou como norte a preparac;:ao de crianc;:as e jovens para constituir
empreendimento, mas o éxito tem sido obtido em boa parte, mais que pela
urna mao de obra assalariada disposta, dócil e manejável. Provavelmente a idéia
supressao ou abafamento das contradic;:oes existentes, pelo seu deslocamento
da desaparic;:ao da pequena burguesía, ou seja do trabalho autónomo para o
a novos terrenos e pelo processo de dar-lhes novas formas, ou fazendo surgir
mercado, nao foi simplesmente urna deduc;:ao da teoria económica marxiana,
novas fontes de conflito.
mas também um componente da visao do futuro dos reformadores da escola
A forma adotada pela escola de massas supós também abordar de forma
nesse período. Por outro lado, a economia política e a teoria económica
homogénea um feixe heterogéneo de possibilidades. Nem o público que acode
chegaram quase a nos convencer de que nao existe outro trabalho que o
as salas de aula o faz com a mesma disposic;:ao, com as mesmas expectativas,
trabalho remunerado, reduzindo todo o resto ao porao da vida privada, ao ócio
etc., nem os lugares da estrutura ocupacional a que estao destinados seus
e ao consumo ou, quando muito, a rubrica insignificante das "tarefas".
membros individuais colocam as mesmas exigencias. De certa forma, pode-se
As coisas foram sempre, e sao hoje, muito diferentes. Apesar do
dizer que a escola tem feito tábula rasa da complexidade social, assentando
crescimento continuo do trabalho assalariado em termos absolutos e em
assim as bases para todo genero de desajustes, disfunc;:oes e atritos.
proporc;:ao ao conjunto da populac;:ao ativa ou da popula<;ao global, o trabalho
Por outro lado, a instituic;:ao escolar chegou a converter-se em um pesado por contra própria manteve-se como um setor importante da economia
aparato que, por si mesmo, constituí um subsistema social de grande (Fernández Enguita, 1987b). Em um país como a Espanha representa hoje,
importancia. Como tal, goza de urna relativa autonomia e apresenta sua própria oficialmente, algo mais que a quarta parte da populac;:ao ativa registrada. Em
lógica, derivadas ambas das especificidades de sua fun<;ao, seu público e sua
alguns países mais industrializados e/ou terciarizados que o nosso representa
gestao por um corpo semiprofissional com interesses, expectativas e valores
urna proporc;:ao menor, mas na maior parte das economias nacionais do sistema
próprios. Nao se deve, pois, pensar a escola como um mero instrumento
capitalista mundial supoe urna propor<;ao muito maior. Além disso, no último
passivo em maos e a servic;:o do Estado, do capital ou de qualquer outro poder
decenio registrou-se urna certa recuperac;:ao de sua posic;:ao relativa nas
externo.
economías avanc;:adas, provavelmente como efeito de múltiplas causas: como
Finalmente, embora possamos caracterizar a escola, em geral, como urna
resposta ao escasso crescimento dos empregos assalariados; como resultado
instituic;:ao que busca moldar as pessoas, nao é possível ignorar que estas nao
de urna estratégia de desconcentra<;ao por parte das grandes empresas que
sao simples matérias primas ou produtos semitransformados dos quais se
lhes permite livrar-se da legisla<;ao trabalhista e da capacidade coletiva de
pode fazer qualquer coisa, como sugere a metáfora da tábula rasa. Trata-se,
negociac;:ao das organizac;:oes sindicais, diminuir os riscos e ganhar
pelo contrário, de seres humanos, dotados de inteligencia e vontade, cujos
flexibilidade; como aproveitamento da possibilidade aberta, em terrenos nos
desejos, preferencias, aversoes, expectativas, experiencias, etc., se traduzem
quais antes nao existia, por alguns recentes desenvolvimentos tecnológic~s;
em respostas individuais e grupais aos imperativos da institui<;ao, com o
enfun, como efeito buscado pelas políticas públicas de emprego. Ademrus,
resultado final de que os resultados obtidos por esta nao podem chegar jamais
podemos apostar que o trabalho por conta própria representa um setor
a coincidir inteiramente com seus desígnios iniciais.
A Face Oculta da Escala 219
218 Mariano Fernández Enguita
sensivelmente maior, em termos absolutos e relativos, do que o que é disfuncionais quando aplicadas a um contexto industrial urbano (Feinberg
expressado pelas estatísticas de emprego. A raúio é muito simples: a chamada e Rosemont, 1975: 69).
economía submersa chegou a significar urna pon;ao importante e crescente de
toda economía nacional, e o trabalho por canta própria é o trabalho Substituir as condutas, as atitudes e os valores adequados para a
submergível e submergido por excelencia. sociedade agrária por outros adequados para a sociedade industrial foi
A relativizar;:ao da importancia quantitativa do trabalho assalariado torna-se precisamente, como esperamos ter demonstrado a estas alturas, o objetivo
muito maior se evitamos confundir a economía em geral com a esfera das principal da escala. A questao, agora, é em que posi<;3o se situa urna forr;:a de
relar;:óes monetárias e, por conseguinte, o trabalho em seu conjunto com o trabalho formada para o emprego assalariado diante das formas autónomas de
trabalho remunerado. As unidades domésticas obtem urna parte importante do produr;:ao ainda existentes, mesmo que se tenham visto modifi~das por seu
que consomem, sejam bens ou servir;:os, mediante a compra-e-venda no contato com o modo de produr;:ao capitalista. Comentaremos sllDplesmente
mercado ou através das transferencias em espécie procedentes do setor alguns aspectos relativos a dois tipos de trabalho, o agrícola e o industrial ou
público; mas também obtem outra parte, nao menos importante, produzindo-a de servir;:os autónomos.
diretamente. O trabalho doméstico - cujo componente principal, mas nao o Insistiu-se o suficiente, nesta obra e fora dela, no fato de que as e~colas
único, é o da dona-de-casa - é ignorado pelas macromagnitudes associadas a geram hábitos de pontualidade e regularidade no trabalho. A outra face desta
conceitos como "popular;:ao ativa", "produto interno bruto", etc., mas moeda é que nao deve haver trabalho antes nem depois das horas marcadas.
representa um número de horas visivelmente superior ao que supoe o trabalho Isto nao é senao um aspecto da orientar;:ao do trabalho de acordo com o tempo,
remunerado. Porque nao só grande parte das necessidades da popular;:ao sao de sua configurar;:ao como trabalho abstrato. Entretanto, este tipo de atitude,
diretamente satisfeitas por meios criados nas unidades domésticas - hoje que é altamente funcional para o trabalho assalariado na indústria e nos
fundamentalmente servir;:os, mas também alguns bens -, mas urna parte servir;:os - e se estendem ao trabalho assalariado agrícola -, seria altamente
muito substancial dos bens adquiridos fora da esfera doméstica necessitam de disfuncional aplicado ao trabalho agrário independente. Para o éxito de urna
urna reelaborar;:ao fmal nesta para seu consumo ou uso. A redur;:ao ideológica explora<;3o camponesa é indiferente que o agricultor independente comece sua
do trabalho a suas formas remuneradas tem reforr;:ado a posi<;3o dos homens jornada as cinco ou as oito da manha, desde que disponha de_suficiente temp_o
na relar;:ao entre os géneros e nao há dúvida de que tem facilitado o trabalho com luz natural, assim como nao importa que interrompa ou nao e durante ma1s
dos estatísticos, mas tem relegado injustamente as donas-de-casa ao limbo da ou menos tempo sua jornada de trabalho ou que resolva fazer urna folga no
"nao atividade", tem levado a ignorar o trabalho nao remunerado dos meio da semana, desde que o tempo de trabalho total nao seja menos que o
trabalhadores remunerados e tem suposto urna tergiversar;:ao da realidade necessário para realizar as tarefas. Entretanto, teria conseqüencias
económica. desastrosas se, chegando as cinco ou seis da tarde, abandonasse o trabalho no
Deve-se perguntar, entao, em que medida urna escala modelada a partir da estado em que estivesse, se se negasse a trabalhar em dias feriados, no caso
considerar;:ao de urna única forma de trabalho, o trabalho assalariado, póde e em que fosse necessária a realizar;:ao imediata de certas tarefas, ou se entrasse
pode servir para socializar toda urna popular;:ao chamada a desenvolver em férias de acordo com a temporada de praia, sem atender aos ciclos da
distintas formas de atividade de trabalho. colheita, da semeadura, etc. Se o trabalho do operário fabril ou do funcionário
de escritório exige pontualidade e regularidade entre as horas assinaladas
A ética protestante esteve tao onipresente na Europa e nos Estados como sendo de comer;:o e fllD da jornada, o trabalho do agricultor exige
Unidos ao longo do último século que é difícil ver que nao há urna série perseveranr;:a até que a tarefa tenha sido terminada e disposir;:ao para realizá-la
única e consistente de valores sobre o trabalho que acompanhe ou deva no momento em que é necessário e possível faze-lo.
11 acompanhar toda incorporar;:ao ao mesmo. O fato de que as escalas O que crianr;:as e jovens, futuros agricultores, aprendem na escola,
'¡1
tenham sido modeladas para inculcar em muitas crianr;:as hábitos como a entretanto, é a comer;:ar e terminar de trabalhar quando soa o sinal, a organizar
ri pontualidade, a velocidade, o nao distrair-se das tarefas e a laboriosidade seu calendário de trabalho de acordo com a disposir;:ao invariável dos dias úteis
1! deve-se a crenr;:a comum de que estes valores sao as normas que ou feriados, etc., além de, provavelmente, a nao trabalhar quando nao es tao
deveriam governar a conduta de toda atividade de trabalho - desde a sob a vigilancia do professor. A escala, por conseguinte - ao menos em sua
agricultura familiar até a investigar;:ao em um laboratório, passando pela forma atual - é disfuncional com relar;:ao ao trabalho agrícola independente.
linha de montagem. Mas esta crenr;:a é errónea; as normas de trabalho A adequar;:ao nao parece melhor com rela<;3o ao trabalho por conta pró~~a
apropriadas para urna sociedade amplamente agrária sao, com freqüencia, em um contexto urbano, isto é, ao trabalho autónomo nos setores secundarlo

220 Mariano Fernández Enguita 221


A Face Oculta da Escala
e terciário. Em parte, pelas mesmas razoes que no caso do campesinato Tradicionalmente, as destrezas e capacidades, assim como as disposic;:oes
independente; mas só em parte, pois o trabalhador autónomo da indústria e e valores necessários para este tipo de trabalho tem sido o objeto da
dos servi<;os nao se encontra submetido aos imperativos do ciclo agrícola, das socializa<;ao das meninas - e, secundariamente, dos meninos, embora em
varia<;6es meteorológicas e de outros determinantes, fora de seu alcance, que outras tarefas - no seio da família. Entretanto, as rápidas e espetaculares
condicionam o campones. Em contrapartida, o trabalho por conta própria em transforma<;6es nas condi<;6es e formas de vida produzidas pela indus-
um contexto urbano exige capacidades de iniciativa, exercício da autonomía, trializac;:ao, pela urbanizac;:ao, pela introdu<;ao e aperfei<;oamento crescentes
criatividade, tomada de decis6es, etc., que nao sao necessários para o trabalho dos aparelhos domésticos e pelo desenvolvimento de novas necessidades
assalariado em geral - exceto nos níveis superiores de sua hierarquia tornaram obsoleta esta via tradicional de aprendizagem. Sobretudo no terreno
organizacional - e que sao apenas moderadamente nec~ssários no trabalho propriamente cognitivo, as novas destrezas e capacidades necessárias já nao
agrícola. A escola, como vimos, nao proporciona nem estimula precisamente podem ser transmitidas de gera<;ao em gera<;ao precisamente por isso,
este tipo de capacidades, mas justamente as opostas. porque sao novas e nao urna heran<;a cultural talvez de séculos. Entretanto,
a escola, a qual se confiou a educa<;ao em outros campos, substituindo
As for<;as morais sao muito mais poderosas na vida do que voces também a outras velhas formas de aprendizagem - por exemplo, na
creem. Perguntem as pessoas que tiveram sucesso quais meios elas qualifica<;ao para o trabalho ou na doutrina<;ao religiosa, antes desenvolvidos
empregaram! Observem os professores que foram, como voces, nas próprias faiT111ias como unidades produtivas, nas organizac;:oes gremiais ou
modestos aprendizes e sao hoje cidadaos honrados por todos! nas igrejas -, nao se ocupou paralelamente das necessidades criadas pelas
Atividade perseverante e desejo constante de aperfeir;oar-se. transforma<;6es na vida doméstica (Fernández Enguita, 1988c).
Gesttio consciente de seus negócios e dedicar os melhores A enfase que a escola coloca na submissao dos alunos a rotinas distantes
cuidados a sua clientela. de seus centros de interesse facilitou tudo isso, pois, como tal, a melhor
Honestidade, economía, sobriedade e ordem na oficina, na rotina é a que nao tem outra justificativa nem proje¡;ao que ela própria. A
venda e no lar. indiferen<;a para com o conteúdo concreto do trabalho escolar de que se
Eis aqui os segredos do éxito na vida artesanal. gloriam os professores e, induzidos a isso, os alunos, possibilita que nao se
Por que nao iriam voces fazer como eles? Caminhando sobre seus pergunte sobre a relevancia do aprendido ou, o que é a mesma coisa, nao se
passos voces chegarao a seu objetivo: a mestria e a independencia no interrogue sobre o que seria relevante aprender. A velha senten¡;a, segundo
ofício de voces! (Zarca, 1986: 217). a qual a escola está separada da vida pode ser interpretada dessa forma, pois,
embora nao haja dúvidas de que a escola prepara para a incorpora<;ao ao
Perseveranc;:a, auto-aperfeic;:oamento, gestao consciente, honestidade e trabalho assalariado (a forma fundamental de trabalho em nosso restrito
economía só podem ser pregadas como virtudes para os que vao incorporar-se conceito de economía) e para a vida política (tal como é e nao tal como alguns
ao trabalho na condi¡;ao de autonomía. Qualquer dessas virtudes poderia ser de nós desejaríamos que fosse), tampouco há dúvidas de que o resto da vida
pregada em um sermao dominical para todos os trabalhadores, mas para os social fica em grande parte fora de seu horizonte.
trabalhadores elas sao simplesmente impostas, ou se tornam inúteis, através Por outro lado, o trabalho doméstico tem em comum com o trabalho por
da regulamenta<;ao estrita de seu trabalho. conta própria para o mercado o amplo grau de autonomía que oferece a quem
Algo parecido ocorre em rela<;ao aesfera e a o modo de produ<;ao domésticos. o desempenha. Isto nao quer dizer que seja um trabalho que se distinga por
Se consideramos que este nao engloba apenas as tradicionalmente denominadas sua criatividade - o que realmente nao ocorre -, mas simplesmente que a
tarefas domésticas, isto é, o trabalho das donas-de-casa, mas tu do o que as pessoas eficácia e o rendimento do mesmo dependem em grande medida da iniciativa
fazem para seu próprio consumo - considerando como unidade de consumo a do trabalhador, de sua capacidade de tomar decisoes e de resolver problemas
unidade doméstica, isto é, o lar como conjunto de recursos pos tos emcomum -,o complexos ou de fazer frente a situa¡;oes imprevistas, embora isso se
que incluí desde a prepara<;ao de urna comida até a gestao de u m or¡;amento familiar, desenvolva dentro do restrito ambito da cotidianeidade. A escola, como
passando por dirigir umautomóvel, cuidar de urna crian <;a o u planejar as férias, nao vimos, nao prepara para isto.
é difícil concluir que a escola deixou de lado qualquer tipo de forma¡;ao ou Mesmo no próprio ambito do trabalho assalariado desenvolvem-se
socializa<;ao específica para este tipo de trabalho- exceto os tristemente famosos tendencias que fazem duvidar da adequa<;ao da socializac;:ao escolar. As
''trabalhos manuais para o lar'' o u a' 'economía doméstica'' do currículo de alguns formas tradicionais de organiza<;ao hierárquica da produ<;ao estao sendo hoje
sistemas escolares. parcialmente substituídas pelas genericamente ''novas formas de organiza<;ao

222 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 223


do trabalho' '. Nada permite predizer que 1sto signifique urna inversao das As lógicas contrapostas da escola e do trabalho
tendencias anteriores, mas trata-se, de qualquer forma, de um fenómeno de
suficiente alcance para ser tomado em considerac;:ao. A divisao manufatureira A caracterizac;:ao que f12emos da socializac;:ao para o trabalho assalariado
do trabalho, o taylorismo e o fordismo, assim como o conjunto de seus como func;:ao da escoJa enquadra-se bem com a caracterizac;:ao de nossa
arremedos em pequena escala, erarn apropriados em um contexto de sociedade como urna sociedade capitalista. Entretanto a nossa sociedade n~o
mercados estáveis, consumo indiferenciado de rnassas e possibilidade de é apenas capitalista; ela é também democrática. Bowles e Gintis (1983, 1986)
planificac;:ao económica a longo prazo. A instabilidade dos custos do trabalho propóem considerar a sociedade como um todo constituído por tres esferas
e das matérias primas, o caráter inseguro dos mercados, a diversificac;:ao das diferenciadas: a economia, o Estado e a familia.
preferencias dos consumidores e os próprios entraves técnicos da grande
produc;:ao e m série modificaram. o velho panorama já familiar. Numerosas Cada urna dessas tres esferas é capaz de sustentar relac;:oes
empresas necessitam hoje apostar em sistemas de produc;:ao mais flexíveis diferentes de domínio e subordinac;:ao. Assim, pois, caracterizaríamos a
para os quais nao se torna viável o mesmo tipo de organizac;:ao. esfera da produc;:ao capitalista como a esfera do domínio do capital sobre o
Se as características do velho modelo de organizac;:ao da produc;:ao trabalho, e a familia como a esfera do domínio dos homens sobre as
poderiam ser sintetizados na produc;:ao em grandes séries, na maquinaria e mullieres. Por contraste, o Estado, em sua forma liberal democrática,
no instrumental do tipo específico, na mao de obra pouco ou nada qualificada embora seja central para a reproduc;:ao das relac;:óes de domínio e
e num sistema de direc;:ao vertical, as do novo poderiam se-lo exatamente nos subordinac;:ao na familia e na economia, nao é em si mesmo necessaria-
termos inversos: produc;:ao de pequenas séries ou a pedido, maquinaria mente urna esfera de domínio (Bowles e Gintis, 1983: 13).
universal, mao de obra altamente qualificada e sistemas participativos de
gestao (Piore e Sabe!, 1984). Pode-se compreender facilmente que tanto Estas tres esferas apresentam diferentes principios e diferentes lógicas de
urnas quanto outras das características nao sao livremente intercambiáveis de funcionamento que se traduzem em práticas políticas contrapostas:
um sistema a outro, mas estao estreitamente associadas. Para nos cingirmos
ao novo modelo, a produc;:ao de pequenas séries ou por encomenda requer As práticas políticas na esfera da produc;:ao capitalista caracterizarn-se pe-
maquinaria e instrumental universais, pois nao seria sensato realizar grandes los direitos de que se in veste a propriedade, de forma que os direitos sao
inversóes num capital fixo cuja utilidade nao estaria assegurada para além exercidos pelos indivíduos sornente na medida e m que possuem propriedades
delas; a produc;:ao de pequenas séries ou por unidades supóe, por outro lado, ou representam os que as possuem. Ao contrário, as práticas políticas no
um mercado em constante mudanc;:a ao qual se deve responder velozmente, Estado democrático liberal caracterizam-se pelos direitos outorgados a
razao pela qual o sistema de direc;:ao vertical, no qual todas as decisóes ficam pessoa, segundo os quais todos os indivíduos, como cidadaos, podem parti-
nas maos da direc;:ao, deve ser substituído por urna descentralizac;:ao destas cipar igualmente, embora de forma indireta, através de representantes, nas
que encurte o período que medeia entre o planejamento e o início da decisóes estatais. De novo, ao contrário, a esfera familiar caracteriza-se pelos
fabricac;:ao; a vanac;:ao nos produtos, · a maquinaria universal e a direitos outorgados aos homens adultos para controlar o trabalho e a
descentralizac;:ao das decisóes, enfim, exige urna forc;:a de trabalho altamente reproduc;:ao das mulheres (Bowles e Gintis, 1983: 16).
qualificada, capaz de agir por si mesma em sua esfera de autonomia e de
exercer a iniciativa (Fernández Enguita, 1986). Disso deduzem os autores o caráter contraditório da localizac;:ao social da
escola ou, se se prefere, de sua articulac;:ao com o trabalho. Permita-se-nos
Está claro que a escola nao propicia aos futuros trabalhadores as urna última citac;:ao:
características nao cognitivas que podem chegar a esperar-se deles - e
duvidoso que propicie as cognitivas, Mesmo que hoje se comece a ouvir falar A contradic;:ao central dos sistemas educacionais das sociedades de
no mundo do ensino de ''educac;:ao para a iniciativa'' - iniciativa que, capitalismo avanc;:ado deriva-se dos aspectos de sua localizac;:ao na
curiosamente ou nem tanto, parece restringir-se ao trabalho por conta totalidade social. Primeiro: forma geralmente um subsistema da esfera do
própria, sem incluir seu exercício na produc;:ao organizada, o que quer dizer Estado e portanto está diretamente sujeito ao principio dos direitos
a participac;:ao na empresa -, já é um tanto tarde para os que deixaram a outorgados a pessoa. Segundo: a educac;:ao desempenha um papel central
escoJa, os que constituem a populac;:ao ocupada ou simplesmente ativa e na reproduc;:ao da estrutura política do processo de produc;:ao capitalista,
serao durante muito tempo a maioria da mesma. que por sua vez está legitimado nos termos dos direitos outorgados a

224 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 225


proprieda.de. Assim, pois, a educac;ao está diretamente envolvida na público assemelha-se a ela quase como um ovo a outro. Na política, porque, se
articulac;ao contraditória da dicotomia propriedade/pessoa: a educac;ao bem que seja duvidoso que a lógica democrática domine no terreno das
reproduz os direitos da propriedade, enquanto que está por si própria práticas institucionais, ela está fortemente presente, já nao na produc;:a_o, mas
organizada nos termos dos direitos das pessoas (Bowles e Gintis, 1983: na distribuic;:a_o dos bens públicos - entre eles a educac;ao - e, de modo
20). fundamental, no discurso ideológico do Estado - come<;ando por sua
componente educacional.
Esta análise, certamente brilhante, nao pode ser aceita ao pé da letra, Para ficarmos no campo da educac;ao, esta incorpora tanto urna lógica
embora constitua um sugestivo ponto de partida para a análise das democrática e igualitária encamada no tratamento formalmente igual dos
contradic;oes da educac;:ao. Nao pode ser tomada ao pé da letra porque reduz alunos, na participac;ao, no discurso pedagógico humanista, etc., quanto urna
tanto a esfera económica quanto a política a urna de suas partes componentes. lógica burocrática e autoritária a que já nos referimos suficientemente em
Bowles e Gintis tem razao ao assinalar que a esfera económica está organizada capítulos anteriores. Isto é algo que fica claramente evidente na vida regular
em tomo dos direitos da propriedade e que isto explica a assimetria nas das escolas (Femández Enguita, 1986b). Dois educadores expressaram isto
relac;oes entre capitalistas e assalariados. Entretanto, passam insensivelmente sem rodeios tendo-os a separar tres quartos de século:
do conceito de processo de produc;:a_o capitalista - a organizac;:ao capitalista do
trabalho - ao da esfera económica em seu conjunto, e entao a generalizac;ao A confusao fundamental é esta: a Democracia é um prmCipio de
toma-se insustentável. govemo; as escolas pertencem a administrac;:ao; e urna democracia tem o
A organizac;ao em tomo dos direitos da propriedade nao sup6e por si mesmo direito que urna monarquía a que seus assuntos sejam bem levados
mesrna domínio nem subordinac;:ao. A produc;ao capitalista nao é toda a (Butler, citado por Tyack, 1974: 77).
produc;ao, nem a produc;ao é toda a economia. Fora daquela, tanto na produc;ao
autónoma ( a produc;ao direta para o mercado dos trabalhadores que sao Talvez o público possa pensar que as escolas sao democráticas. Sao
proprietários de seus meios de produ<;ao), quanto na subesfera distinta da democráticas no que concerne aos direitos do indivíduo, mas, no que
circulac;ao (em que os proprietários se relacionam entre si como iguais pelo concerne ao funcionamento, nao sao democráticas. Para se conseguir a
fato de se-lo) e do consumo (em que o indivíduo ou qualquer outra unidade eficácia num sistema escolar deve haver um padrao claro de
económica só se relaciona com o objeto que vai satisfazer suas necessidades, funcionamento, conduta, normas e regulamentac;ao [isto é, autoridade]
e o faz livremente devido também ao fato de que é sua propriedade), nao (um diretor de escola secundária, citado por Silberman, 1971: 126-7).
existem necessariamente relac;óes de domínio e subordinac;ao - embora
possam existir, pois pode haver explorac;:ao através do mercado (Chevalier, Estas precis6es sao necessárias porque, se se aceitasse simplesmente a
1983; Roemer, 1982; Wright, 1985) e, obviamente, domínio e subordinac;ao no caracterizac;ao de Bowles e Gintis, tomar-se-ia bastante difícil explicar porque
consumo através das relac;oes de poder patriarcais (Durán, 1988). as escolas, cuja dimensao autoritária domina claramente sua dimensao
Por outro lado, reduzem o Estado a seu componente democrático - a democrática, estao mais dominadas pela lógica de urna esfera alheia - a
igualdade de direitos, o sufrágio universal, etc. - esquecendo-se que ele é economía - que pela própria esfera a que pertencem - o Estado. Mas,
também urna maquinaria vertical e hierarquicamente organizada e, em si esclarecido isto, fica também claro que enquanto a lógica dos processos
mesmo, um modo de produc;ao (Femández Enguita, 1988d). Estes; dois produtivos nos quais a maioria dos jovens se inserirao como trabalhadores
princípios distintos, democrático e liberal em contraste com burocrático e assalariados é unívoca e inequívocamente autoritária - para eles -, a escola
autoritário, podem ser vistos refletidos em dicotomías tais como a formada move-se dentro de certa ambivalencia marcada, como assinalam Bowles e
pelo Estado como forma de representac;:ao política e como aparelho de Gintis, pelo fato de pertencer a urna esfera e estar ao servic;o de outra com
produc;ao ou a constituída pelo poder legislativo e pelo poder executivo lógicas internas dominantes distintas e contrapostas.
(Fernández Enguita, 1985b, 1988c). As escolas sao ruins, mas as fábricas e os escritórios sao muito piores:
Esclarecido isto pode-se aceitar que a economia é sobretudo autoritária e numerosos direitos que podem ser exercidos no local de estudo nao podem se-
o Estado liberal é sobretudo democrático, isto é, que cada urna dessas lógicas -lo no local de trabalho; as relac;óes de um aluno com seu professor costumam
respectivas domina a outra no interior da esfera correspondente. Na economia, ser bastante mais livres que as de um operário com seu capataz ou de
porque a produc;ao predomina sobre a circulac;ao e a troca e a produc;ao empregado de escritório com seu chefe; a distribuic;ao de recompensas é rnais
capitalista constituí a maior parte da produc;ao - e a burocrática ou do setor justa e objetiva nas escolas que nas empresas; as sanc;oes sao rnais graves e

226 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 227


se dao com mais freqüéncia no trabalho que no ensino; o trabalho produtivo da (... ) A rela¡;:ao entre a educa¡;:ao e o trabalho é dialética: é composta
maioria das pessoas é mais duro e menos atrativo do que o foi seu trabalho de urna perpétua tensao entre duas dinamicas, os imperativos do
escolar; no capitalismo avanc;:ado, todo mundo tem um pasto escolar, mas nem capitalismo e os da democracia em todas as suas formas. Como produto
todo mundo tem um pasto de trabalho, e assim sucessivamente. Esta e fator conformados, por sua vez, da discórdia social, a escala está
dessemelhan¡;:a entre escalas e centros de trabalho nao pode ser considerada necessariamente envolvida nos grandes conflitos inerentes a urna
como senda indubitavelmente disfuncional em termos de socializa¡;:ao para o economía capitalista e a um Estado capitalista liberal. Estes conflitos
trabalho; ao fim e ao cabo, se as escalas fossem iguais as fábricas e aos residem na contradi¡;:ao entre a rela¡;:ao desigual subjacente a produ¡;:ao
escritórios seriam simplesmente fábricas e escritórios; se devem ser locais de capitalista e a base democrática do Estado capitalista liberal. A escala é
aprendizagem, devem situar-se em algum lugar intermediário entre o tipo de essencial para a acumula¡;:ao do capital e para a reprodu¡;:ao das rela¡;:óes de
estrutura de rela¡;:óes sociais das quais os alunos procedem e o tipo de produ¡;:ao capitalistas dominantes, e é considerada pelos pais e pelos
estrutura de rela¡;:óes sociais a que se supóem estejam destinados. jovens como um meio para urna maior participa¡;:ao na vida económica e
Nao é tanto urna questao de especular sobre os efeitos intemporais dessa política (Carnoy e Levin, 1985: 4).
ambigüidade das escalas quanto de identificar a dire¡;:ao das transforma¡;:óes em
seu funcionamento e, por conseguinte, em seus efeitos sobre os alunos em Embora seja de difícil demonstra¡;:ao, podemos aventurar a hipótese de que
termos de socializa¡;:ao para o trabalho. Embora a escala conserve boa parte do descontentamento em torno das condi¡;:óes de trabalho, da
essencialmente as características que lhe foram atribuídas para fazer dela um reivindica¡;:ao de tarefas mais significativas, da demanda por diferentes formas
celeiro de assalariados domesticados, atomizados e reconciliados com sua de enriquecimento de tarefas, da exigencia de participa¡;:ao nas empresas e da
sorte, o tempo nao passou inteiramente em vao. A gestao dos centros temática da ''qualidade do trabalho' ', que atravessou de um extremo a outro o
escolares conheceu urna certa democratiza¡;:ao que alcan¡;:ou os alunos; os mundo do trabalho durante a década de sessenta e os primeiros anos da de
direitos destes em seu interior se multiplicaram e se tornaram mais efetivos; setenta - até que a recessao económica e a apari<;ao de um desemprego
a pedagogía evoluiu no sentido de urna aproxima<;ao de conteúdos e métodos maci¡;:o colocaram o desejo de conservar o emprego acima de qualquer
aos interesses e processos dos alunos; em, em último lugar, mas nao por sua considera¡;:ao sobre suas características intrínsecas - teve um de seus
importancia, o discurso escolar viu-se inundado por termos chaves tais como impulsos, senao o principal, na evolu¡;:ao da escala. Afma!, o pós-guerra
''atividade' ', ''criatividade' ', ''centros de interesse' ', ''liberdade' ', imediato e os anos cinqüenta foram o período da amplia¡;:ao da escolariza¡;:ao
"desenvolvimento pessoal", etc. universal para além do ensino básico nos países industrializados, e os sessenta
Esta evolu¡;:ao nao teve paralelo na do processo de trabalho. A foram o da revolta estudantil e da contesta<;ao macic;:a da pedagogía e da escala
conseqüencia disso é que, apesar dos pesares, as escalas geram nos jovens tradicionais.
expectativas que o trabalho, com sua estrutura atual, nao pode satisfazer. Deve- A evolu¡;:ao da escala nao pode tampouco deixar de produzir efeitos sobre
-se ter especialmente em canta, além disso, que o acesso generalizado ao outra esfera da sociedade e sobre outras rela¡;:oes de produ¡;:ao: a familia
ensino chegou a níveis que antes estavam reservados aos grupos privilegiados patriarcal. Todas as acusa¡;:oes, sem dúvida justas, que se podem fazer contra
e, por conseguinte, ofereciam um tipo de socializa¡;:ao nao pensada em fun¡;:ao a educa¡;:ao formal no sentido de que contribuí para reproduzir o sexismo e a
dos imperativos do trabalho assalariado, o que, embora tais níveis tenham sido domina<;ao patriarcal - através do conteúdo do ensino, dos estereótipos
degradados para seu novo público, significa urna organiza<;ao do ensino menos presentes na intera¡;:ao informal, da orienta¡;:ao escolar e profissional marcada
estreitamente associada aqueles. por preconceitos de genero, etc. - nao deve ocultar o fato de que, ao menos
Nisto desempenharam um papel importante os professores, que passaram desde que se generalizou a educa<;ao, as salas de aula sao provavelmente o
da situa¡;:ao de serem trabalhadores assalariados plenamente subordinados e cenário cotidiano em que menos se discriminam as pessoas por seu sexo ou
sem capacidade de resposta a situa¡;:ao de se constituirem em um carpo género. Se existe alguma dúvida sobre isto, basta campará-las com as
qualificado e com um estatuto semiprofissional que luta com certo éxito por empresas ou com a própria fatn11ia. As experiencias vivenciadas pelas alunas
ganhar espa¡;:os de autonomía e estimula e serve de veículo para concep¡;:óes mulheres, da igualdade formal frente aos alunos homens, de obterem com
humanistas e liberais da educa¡;:ao em certa sintonia com a evolu¡;:ao já citada freqüencia melhores resultados escolares que eles e outras similares, fazem
do discurso pedagógico. ver a falta de legitimidade das discrimina¡;:oes no local de trabalho e na família
De forma algo esquemática, a contradi¡;:ao geral apontada poderla assim e as convertem necessariamente em mais insuportáveis. Talvez isto contribua
ser expressada: para explicar por que, no período recente, a posi¡;:ao das mulheres frente aos

228 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola 229


homens evoluiu mais favoravelmente que a dos trabalhadores assalariados os processos químicos e outros procedimentos, revoluciona
frente a seus empregadores. constantemente, com o fundamento técnico da prodw;ao, as fun<;:6es dos
operários e as combina<;:6es sociais do processo de trabalho. Com elas,
revoluciona constantemente, além disso, a divisao do trabalho no interior
Desqualifica~ao do trabalho e sobre-educa~ao do trabalhador da sociedade e joga de forma incessante massas de capital e de operários
de um ramo da produ¡;:ao a outro. A natureza da grande indústria, portanto,
Sem necessidade inclusive de que intervenha a escala, o processo de implica na traca de trabalho, na fluidez da fun<;:ao, na mobilidade
produ<;:ao capitalista apresenta perspectivas contraditórias no que conceme a multifacetada do operário (Marx, 1975: I, 592-3).
qualifica<;ao da for<;a de trabalho. Por um lado tende a sua desqualifica<;ao, já
que esta diminui seu custo e assenta as bases de seu melhor controle; por O que acorre é que o capital se relaciona de duas maneiras com o trabalho,
outro, requer urna forma<;ao multilateral que permita ao trabalhador trocar de ou em dois momentos diferentes. Com respeito ao trabalhador já incorporado
tarefas e de pasto de trabalho sem custos adicionais ou minimizando-os. ao processo de produ<;ao, seu interesse aponta para a qualifica<;:ao mínima que,
Hoje é moeda corrente o discurso sobre a necessária versatilidade no como já se indicou, significa o mínimo salário e os máximos controle e
trabalho. A inova<;ao tem sofrido urna importante acelera<;ao que conduz a possibilidade de substitui<;ao. Com respeito ao trabalhador a incorpor~r, s:u
mudan<;as freqüentes nas características dos pastos de trabalho e a interesse está em encontrar com a maior facilidade a pessoa com a qual1fica<;ao
substitui<;ao de uns por outros. O pasto de trabalho nao é já algo que se ocupa, adequada. Na fábrica quer lidar com um trabalhador especializado - no pior
salvo imprevistos, por toda urna vida. Nao o é, em primeiro lugar, pelo sentido do termo -; no mercado de mao de obra - externo ou interno, com
aumento do desemprego, pelas abundantes quebras de empresas e pelo um trabalhador versátil. Desta forma manifesta-se a contradi<;ao entre a
desenvolvimento da contrata<;ao temporária, que confluem em urna espécie de crescente universalidade da produ<;ao social e a unilateralidade dos processos
dosifica<;ao dos períodos de ocupa<;ao e desocupa<;ao para setores importantes de trabalho individuais.
dos trabalhadores. Mas nao o é, também, porque dadas a acelera<;ao da Para a escala, isto significa urna notável ambigüidade quanto aoque se espera
inova<;ao tecnológica e o aumento da mobilidade ocupacional, a maioria dos dela no que concerne a qualifica¡;:ao. Por um lado, a maioria de seu público
trabalhadores está chamada a trocar várias vezes de emprego ao longo de sua incorporar-se-á a pastos de trabalho especializados, escassamente ou. nada
vida. Esta traca pode tomar diversas formas: trocas de empresa - incluindo qualificados, etc. Mas, por outro, nao existindo um mecanismo compuls1vo de
tracas de ramo e de setor -, trocas de pasto de trabalho dentro da mesma orienta<;ao profissional, nao existe tampouco forma de saber qual será esse posta
empresa e tracas nas características de um mesmo pasto de trabalho. de trabalho preciso, pois isso depende do mercado de trabalho e outra série de
Entretanto, há razoes para pensar que, em parte, nao se trata de um fatores incontroláveis e imprevisíveis. Durantes alguns poucos anos, a educa<;ao
fenómeno novo., A acelera <;a o da inova<;ao tecnológica conduz a um aumento formal deve qualificar os futuros trabalhadores para toda sua vida ativa. Entao,
da mobilidade ocupacional, mas a importancia que atribuúnos a este efeito está como nos negócios, a melhor formad~ nao perder tuda é dispersar o risco ou, o
condicionada pelo fato de que alterou as coordenadas de algumas rela<;oes de que dá no mesmo, diversificar as invers6es, o que no caso da educa<;ao significa
trabalho nas quais a instabilidade no emprego e a regulamenta<;ao estrita das que é menos arriscado ensinar um pouco de tuda que tuda de um pouco. Este é
condi<;6es de acesso, promo<;ao e demissao haviam passado ao primeiro plano. o sentido da poli valencia que a escala, em princípio, oferece: nao o domínio de um
Mas, antes de que isto ocorresse por causa do desenvolvimento do Estado do conjunto de ofícios qualificados, nem qualquer coisa que se pare<;a com isso, mas
Bem-Estar e de sua legisla<;ao trabalhista, os grandes acordos entre a simples capacidade de incorporar-se a urna gama de pastos de trabalho de baixa
organiza<;oes patronais e sindicais e as negocia<;oes coletivas setor a setor ou qualifica<;ao.
empresa a empresa, é provável que a mobilidade ocupacional fosse tao intensa Mas o capitalismo e a escala tem urna história. Nem a organiza<;ao do
ou mais pelo simples efeito do funcionamento do mercado. Em todo caso, trabalho nem o acesso ao ensino tem se mantido invariantes no processo de
Marx nao teve que esperar a terceira revolu<;ao industrial, as novas tecnologias desenvolvimento da sociedade capitalista. A questao agora é saber se
nem a recente literatura sobre emprego e forma<;ao para tra<;ar um panorama evoluíram em consonancia ou, pelo contrário, tal evolu<;ao abriu um fosso entre
bastante similar ao que hoje parece urna surpresa. a educa<;ao e o trabalho. Este parece ser o caso no que conceme as fun<;:6es
cognitivas da escala, a instru<;ao propriamente dita: a brecha abriu-se ao
A indústria moderna nunca considera nem trata como definitiva a evoluir em sentido diferente a qualifica<;ao dos pastos de trabalho e a
forma existente de um processo de produ<;ao. (... ) Mediante a maquinaria, qualifica<;ao dos trabalhadores.

230 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escala 231


"Qualifica¡;ao" é um termo que, aplicado aos postos de trabalho, pretende quando nos anos cinqüenta se universalizou o acesso a primeira etapa
significar seu nível de complexidade. Nao pode ser medida com a mesma secundária.
precisao que o salário ou a jornada de trabalho, mas, nao obstante, é suscetível O caso da Espanha, que é o de um desenvolvimento económico e
de estima<;ao. Qualitativamente, pode ser estimada a partir da simples educacional algo tardio, pode dar-nos urna idéia a respeito. A Lei Moyano de
descri¡;ao dos postos de trabalho (todos estamos de acordo em concluir em 1857 universalizou a escoJa primária no papel, mas acompanhou esta medida de
que dirigir um onibus é mais difícil que dirigir um automóvel, o que é a mesma alguns mecanismos de financiamento, a cargo dos municipios, que a faziam
coisa que dizer que exige urna maior qualifica<;ao) ou da hierarquiza¡;ao ordinal realizável na prática. O país nao conseguiu aproximar-se da escolariza¡;ao total
da complexidade de suas tarefas desmembradas analíticamente em até o período da II República, produzindo-se urna nova queda no após-guerra.
componentes mensuráveis (classificar alguns dados, por exemplo, é mais difícil Em meados dos anos quarenta, a propor<;ao de matrícula oscilava entre dois
que copiá-los, mas mais fácil que analisá-los). Quantitativamente pode-se fa- quintos em províncias como Córdoba e a quase totalidade em outras .como
ze-lo, de forma em princípio muito simples, através da medi<;ao do tempo Barcelona. A escolariza¡;ao real era muito inferior, posto que a freqüencia se
necessário para aprender a exercer um posto de trabalho. Mas a simplicidade situava em torno dos dois ter¡;os da matrícula. Aos fmais da década dos
é apenas aparente, pois quando queremos estimar o que tarda um trabalhador sessenta, o déficit de vagas escolares no ensino obrigatório era estimado ainda
médio a aprender urna série de tarefas em seguida descobrimos que sua entre cerca de meio e u m milhao (Bozal et aL, 1975). Apenas com a
capacita<;ao nao se reduz a urna aprendizagem ad hoc, mas que compreende progressiva implanta<;ao da Lei Geral de Educa<;ao chegou-se a alcan<;ar a
muitos outros elementos de difícil avalia<;ao (por exemplo, destrezas e universaliza<;ao prática do ensino obrigatório, já bem entrada a década dos
capacidades gerais relevantes para este posto de trabalho adquiridas na setenta.
educa<;ao formal juntamente com muitas outras claramente irrelevantes, mas A mesma pauta de crescimento acelerado aparece ao nos fixarmos
todas em um mesmo saco, o que impede sua estima<;ao separada). simp!esmente na regulamenta<;ao legal da freqüencia obrigatória a escoJa. A Le~
Apesar destas dificuldades existe já urna notável abundancia de pesquisas Moyano havia fixado o período obrigatório dos seis aos nove anos, a Le1
de todo genero cujo denominador comum é ter mostrado que, contrariamente Romanones prolongou-o em 1902 até os doze (na prática, seis anos no total. ..
acren<;a comum, se houve de fato urna tendencia geral ao longo do século esta para os escolarizados), e em 1964 ampliou-se de nove, sempre no papel, até
foi a degrada<;ao do trabalho (Bright, 1958; Braverman, 1974; Freyssenet, 1977; os quatorze. A Lei Villar consagrou este mesmo prazo, mas o tornou efetivo ao
urna ampla revisa o é feíta por Spenner, 1985). ]á assinalamos as causas dessa unificar os oito primeiros anos de escolaridade no Ensino Geral Básico, e as
evolu¡;ao e os caminhos por ela percorridos, de forma que nao voltaremos a reformas realizadas durante o recente ministério Maravall ampliam-no até os
falar sobre isso. É preciso acrescentar, entretanto, que a irrup<;ao das dezesseis, isto é, até um período de dez anos. Na prática, a maior parte dos
chamadas novas tecnologías nao só transformqu o panorama, mas parece ter jovens continua na escoJa além desse limite. Na maioria dos países
propiciado urna intensifica¡;ao da tendencia, dada sua capacidade para manejar industrializados, a escolariza¡;ao obrigatória alcan¡;ou já o nível dos dezesseis e
e processar informa<;ao, tornando assim desnecessário que o fa<;am os até mesmo dezoito anos de idade, o que representa dez ou doze de
trabalhadores (Carey, 1981; Silvestri, Lucasiewicz e Einstein, 1983; Leontief e escolariadade. Em alguns deles, a maioria dos jovens mantém-se escolarizada
Duchin, 1986; Levin e Rumberger, 1988). Sem necessidade de entrar aquí de fato para além desse limite, cursando estudos superiores ou pós-secun-
neste debate, é suficiente sublinhar que mesmo as vis6es mais otimistas nao dários de diversos tipos.
vao além da hipótese de que vao aparecer novos empregos qualificados ou do Embora paralelamente tenham desaparecido outras vias de qualifica<;ao,
argumento de que alguns empregos tornam-se desqualificados mas outros em particular a aprendizagem, esta constante expansao da escola, por mais
sobrequalificados (coisa de que ninguém duvida, mas a questao é em que que possamos duvidar do aproveitamento do tempo neJa ou da eficácia de seu
propor<;6es se combinam os dois subtipos de evolu¡;ao e nao há muitas dúvidas funcionamento, representa um aumento espetacular da informa¡;ao, dos
de que a primeira domina sobre a segunda). conhecimentos, das capacidades e das destrezas adquiridas pelos jovens. A
A evolu<;ao da qualifica¡;ao dos trabalhadores, pelo contrário, é inequívoca. maior parte das pessoas segue agora estudos que antes eram cursados apenas
Salvo alguns casos de escolariza<;ao universal precoce (como Escócia, por urna exígua minoria e que se associavam habitualmente ao desempenho
Alemanha ou Fran¡;a), a maioria dos países que hoje denominamos avanyados dos melhores empregos.
nao estenderam a escolariza<;ao primária a toda a popula<;ao até a última troca Em conseqüencia, vemos correr em paralelo, mas com sentidos opostos,
de século. Desde entao, entretanto, a escoJa nao deixou de crescer em a desqualifica<;ao do trabalho e urna crescente qualifica<;ao dos trabalhadores.
amplitude e dura¡;ao, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, Jovens que saem da escola com urna forma<;ao cada vez mais elevada veem-se
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232 Mariano Fernández Enguita A Face Oculta da Escola
abrigados a ocupar empregos escassamente desafiantes, se nao simplesmente tempo passado foi melhor. Diante do graduado aferrado ao suposto valor de
embrutecedores. As capacidades adquiridas na educac,:ao formal - por outros seu título, ao valor que um dia teve, apresentam-se tres possibilidades: a
meios - nao podem ser aplicadas nos postos de trabalho que foram divididos, primeira, é claro, é conseguir um emprego do nível desejado, mas, dada a
fragmentados, rotinizados e desprovidos de autonornia. As esperanc;as escassez destes, sua viabilidade sempre depende de outros fatores; quando a
traduzem-se em frustrac;oes. primeira está vedada, a segunda consiste em aceitar um emprego abaixo da
Isto é o que em linguagem da sociologia e da econornia da educac;ao qualificac;ao ou da titulac;ao adquirida, ou seja, aceitar o subemprego; a terceira
costuma denominar-se ou simplesmente considerar-se como consiste em negar-se a aceitar a segunda e decidir-se a esperar tempos
"sobreeducac,:ao" (Freeman, 1976; Rumberger, 1981; Dore, 1976; Bergk 1971). melhores, e esta é a origem do desemprego.
Supoe-se que a demanda de educac;ao como um bem público desejável, a Na realidade, o que ocorre com os graduados ocorre igualmente com
ideología credencialista, a legitirnidade dos títulos escolares como instrumento outros níveis de educac,:ao. Os que tem nível secundário devem aceitar
na competic;ao pelos empregos e a inclinac;ao dos governos a oferecer reformas empregos a que antes acorriam os que tinham nível primário porque aqueles
escolares antes que de qualquer outro tipo confluíram para empurrar a oferta que acreditavam serem seus foram ocupados por graduados em situac;ao de
de educac;ao e seu consumo para além das necessidades do sistema produtivo. sub-emprego, e assim sucessivamente; os que obtiveram algum tipo de
Colocada assim a questao, a soluc;ao parece óbvia: deve-se educar menos as especializac;ao na formac;ao profissional devem conformar-se com empregos
pessoas. Mas o problema pode ser colocado também em outros termos, a nos quais aquela nao lhes serve muito, etc. Mas, como estes nao sao f!lhos de
saber: infra-utilizac;ao dos recursos humanos existentes. Se rnilhoes de sociólogos, jornalistas ou de outras pessoas influentes, ninguém faz nenhum
pessoas desenvolvem na escola capacidades que depois nao podem aplicar no escandalo por causa de sua sorte.
local de trabalho, a responsabilidade pode estar também, ou tao-somente, do Outra manifestac;ao do problema sao as periódicas revoltas estudantis, que
lado da organizac,:ao da produc,:ao. A soluc;ao, entao, seria reorganizar esta de podem ser interpretadas como um protesto contra a ameac;a de proletarizac;ao
forma tal que as capacidades humanas existentes pudessem ser aproveitadas que se abre sobre os que acreditavam ter escapado a ela. Outra é a rejeic;ao
de forma otirnizada. crescente do trabalho entre os jovens, explicável em parte como produto da
De qualquer forma, aqui encontramos um exemplo claro de como a escola, defasagem entre suas expectativas a respeito e suas oportunidades reais.
em vez de suprimir as contradic;oes sociais, as desloca. Ao prometer Mesmo fenómenos como o desenvolvimento da guerrilha urbana nos países
mobilidade social através de um mecanismo formalmente acessível para todos, latino-americanos ou do terrorismo na ltália tem sido interpretados, ao menos
desativa os conflitos potenciais em torno da distribuic;ao da propriedade, da parcialmente, como efeito da existencia de amplas camadas urbanas de
organizac;ao da produc,:ao, etc. Mas por isso mesmo estimula urna demanda e titulados de ensino secundário e superior para os quais o trabalho nao oferece
ve-se abrigada a apresentar urna oferta de educac;ao que supera o que, nos urna perspectiva atraente.
termos da correspondencia existente ou imaginada entre níveis de educac;ao e
posic,:oes na hierarquia do emprego, pode realmente oferecer a produc;ao em
sua forma histórica presente. A escola gera expectativas que a produc,:ao nao A rejei~ao dos valores e da sub-cultura escolares
satisfaz.
Este desajuste - para empregar um termo suave - traduz-se em As exigencias que a instituic,:ao escolar faz a seu público nem sempre sao
manifestac;oes diversas de descontentamento. A mais habitual é a grita bem recebidas. O éxito escolar requer um alto grau de adesao aos fms, aos
organizada a dois por tres na imprensa - e na sociologia - em torno do meios a aos valores da instituic,:ao que nem todos os estudantes apresentam.
desemprego e do sub-emprego dos graduados. Estes lamentos refletem urna Embora nao faltem os que aceitam incondicionalmente o projeto de vida que
sensibilidade para com os problemas da classe média que com freqüencia nao lhes oferece a instituic;ao, um setor importante rejeita-o plena e solenemente
se tem diante dos da classe trabalhadora, mas esta nao é a questao aquí. A e outro, talvez o mais substancial, só se identifica com o mesmo de forma
questao aqui é que o chamado ''desemprego dos graduados'' nao é o resultado circunstancial. Aceitam, por exempo, a promessa de mobilidade social e
da impossibilidade de encontrar um posto de trabalho, mas da dificuldade de querem servir-se da escola para alcanc;á-la, mas n_ao se identiflc~m ~or:n _a
encontrar o tipo de posto de trabalho que consideram estar de acordo com a cultura e os valores escolares, razao pela qual mantem para com a mstitmc;ao
qualificac;ao ou título que possuem, geralmente de acordo com critérios de urna atitude meramente instrumental, de acomodac,:ao, consistente em
equivalencia associados a períodos anteriores: do ponto de vista da utilidade transitar por ela aplicando tao-somente o esforc;o suficiente. Ou entao
para o trabalho dos títulos escolares sempre se pode afirmar que qualquer encontram-se dentro da escola em seu meio cultural natural mas nao creem ou

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nao necessitam crer em suas promessas, porque decidiram renunciar ao que Parte ao menos do mundo do trabalho, em particular do trabalho manual,
se lhes oferece ou o tem assegurado de qualquer forma por sua condi<;ao gera e reproduz outro tipo de valores. Entre eles, por exemplo o elogio do
social, e entao procuram dissociar-se de suas exigencias (Femández Enguita, trabalho manual frente ao intelectual, a preferencia pela for<;a física frente as
1988a). sutilezas mentais, o culto a rudeza frente as boas maneiras, a indiferen<;a para
Na realidade, o fato de que a escola esteja adequadamente organizada para com o conteúdo do trabalho e a dissocia<;ao interior frente ao comprornisso
a socializa¡;:ao dos alunos para o trabalho nao quer dizer que estes nao podem pessoal para com o mesmo, a sensualidade manifesta frente a sua sublima<;ao
fazer atritar suas engrenagens ou, como os deuses de Epicuro, sobreviver em galante, a primazia indiscutida do varao frente a igualdade formal entre os
seus intersticios. Na escola nao se aprende apenas a trabalhar, mas também a géneros, etc. Em conjunto, estes valores, que contradizem os d_a ~stitui<;ao
evitar o trabalho. Aprende-se a olhar o livro como se se o lesse com grande escolar, formam um todo coerente e articulado que pode se consbturr na base
aten¡;:ao, quando, na verdade, se está fazendo castelos no ar - ou algo mais de para a rejei<;ao desta e, as vezes, o faz.
acordo com a adolescencia -, a fazer cara de santo no instante preciso em que
o professor busca algum sinal de desassossego que lhe indique a quem A escola tem favorecido urna certa resistencia ao trabalho mental e
perguntar, a apresentar um leve resfriado como urna forte gripe que só pode urna inclina<;ao em favor do trabalho manual. O trabalho manual, ao menos,
ser curada em casa, a pedir com um gesto alarmante para ir ao banheiro em está fora do domínio da escola e traz consigo - embora nao
cada aula, etc. A opera¡;:ao tartaruga, o trabalhar estritamente de acordo com extrínsecamente - a aura do mundo adulto real. O trabalho mental exige
as instru¡;:oes e outras formas de resistencia passiva habituais no trabalho muito e invade - tal como a escola - com demasiada profundidade áreas
adulto sao precocemente aprendidas, tal como a aceita<;ao do trabalho, na que 'sao crescentemente adotadas como suas, como privadas e
escola. independentes. (. .. ) A resistencia ao trabalho mental converte-se na
Existem mil e urna maneiras a disposi<;ao dos alunos para obstaculizar os resistencia a autoridade tal e como se aprendeu na escola. A específica
objetivos da institui¡;:ao. Nao há professor que nao tenha enfrentado conjun<;ao no capitalismo contemporaneo entre o antagonismo de classe e
repetidamente o alvoro¡;:o súbito e inexplicável que interrompe a aula durante o paradigma educacional converte a educa<;ao em controle, a resistencia de
vários minutos, o grupo de alunos que nao trouxe o livro de ingles ou os classe (social), em rejei<;ao educacional e a diferen<;a humana em divisao
instrumentos de desenho e nao pode por isso acompanhar a aula, os que de classes (Willis, 1988: 123).
pedem que repita a explica<;ao de coisas que provavelmente já entenderam
perfeitamente, os que proclamam que qualquer tarefa que se lhes solicita está O que isto sup6e é que a rejei<;ao da escola pode deixar de ser urna atitude
fora de seu alcance. Entre o que o professor quer fazer e o que realmente individual, sem mais efeitos que a san<;ao negativa por parte da institui<;ao para
chega a fazer interp6em-se urna dezena de pessoinhas que talvez tenham outra quem a adote, para converter-se em urna atitude coletiva, elevada ao grau de
idéia a respeito, e o mesmo vale para a institui<;ao em seu conjunto. O que resistencia sistemática embora informal, gra<;as a pré-existencia de urna cultura
sucede ao final será o resultado de urna negocia¡;:ao entre as partes, embora de classe a que os alunos nao identificados coma cultura escolar podem aferrar-
informal. Entretanto, seria um erro supor que se trata de urna negocia<;ao entre -se facilmente. Apoiando-se nessa subcultura de classe excluem-se a si
iguais, pois o poder está do lado de apenas urna das partes, a institui¡;:ao e seus mesmos do mundo da escola e se apegam ao trabalho manual, com o que a
agentes, embora para lograr seus fins necessite certo grau de colabora¡;:ao de institui¡;:ao encontra ajuda em sua fun<;ao de reprodu<;ao da divisao social do
parte de seu público. trabalho e da estrutura de classes sociais. Mas, ao mesmo tempo, negam
O tipo de rejei<;ao na qual queremos nos deter aqui é mais específica, a legitirnidade a escola como mecanismo justo de sele¡;:ao e paraíso da igualdade
saber: a que surge de outra considera¡;:ao da própria rela<;iio entre escola e de oportunidades, com o que impedem que desempenhe sua fun<;ao de
trabalho, distinta e oposta a que a primeira oferece como a única válida. A escola reprodu<;ao ideológica, de legitima<;ao da ordem social existente.
educa seu público em rela<;6es isomorfas as do processo de produ¡;:ao capitalista, A rejei<;ao da escola baseia-se aqui na involucra<;ao em (e na ado<;ao de)
mas só pode faze-lo através dos meios e mecanismos a seu alcance. Nao pode urna subcultura do trabalho manual que se apresenta como a irnagem invertida
pagar salários, nem organizar de forma sistemática urna experiencia prática do da cultura da escola, de forma que aderir a urna é necessariamente rejeitar a
que ensina de forma teórica, nem provocar em quem nao tenha voca¡;:ao outra. A escola, curiosamente, degrada tanto o trabalho manual quanto o
intelectual o sentimento de que está fazendo algo útil por si mesmo, nem evitar trabalho intelectual. Degrada o manual porque, a partir de sua suposta
que a permanencia nela se associe a condi<;ao de nao adulto, nem deixar de dimensao intelectual e a partir da associa<;ao da promessa de mobilidade a fuga
chatear a maioria, nem evitar ser vista como urna institui<;iio autoritária. das tarefas físicas, apresenta-o como algo carente de inteligencia e, portanto,

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de valor: aquilo que fazem os que nao valem, que por acaso veem a ser aqueles tradicional atribuído a mulher em nossa sociedade patriarcal, ainda
de quem a escola diz que nao valem. Degrada o intelectual porque apresenta amplamente vigente, nem sempre se ajusta bem ao que a escala prop6e as
como tal urna triste caricatura do mesmo, um conjunto de tarefas rotineiras, jovens. Os saberes práticos que parece exigir da dona-de-casa o trabalho
escassas de sentido e distanciadas da realidade extra-escolar e as quais o lápis, doméstico sao mais ou menos o inverso do saber teórico que administra e
o giz, as exibiy6es de memória e os conceitos superpostos nao bastam para estimula a escala. Por conseguinte, é difícil que a jovem que identifica seu
converter em intelectuais. futuro com a condi<;:ao de dona-de-casa considere sua presenya nas salas de
Entao, para o jovem em contato com a cultura operária tradicional toma-se aula e sua acomodayao as exigencias da instituic;:ao escolar como urna adequada
relativamente fácil aferrar-se a esta para encontrar urna série de valores preparayaO para a vida; nao, de qualquer forma, para a que presumivelmente
coerentes entre si e alternativos aos da escola. A alternativa entre rejeitar ou será sua vida.
aderir a escola apresenta-se assim como opyao entre esta e a cultura de A ética do progresso e a inversao para o futuro que propugna a escola
origem, entre o que solicita o professor e o que solicita o grupo de iguais. tampouco está muito de acordo com a perspectiva de vida da potencial dona-
Neste caso - mas nao se se aplica indiscriminadamente a qualquer grupo de -de-casa. Um homem pode facilmente imaginar sua vida profissional em
estudante com qualquer origem social -, pode-se considerar válido o critério termos de futuro e de progresso, isto é, como carreira. Urna mulher que
de Parsons: espera ser dona-de-casa nao pode fazer o mesm? c~m urr:a funyao q~e sa~e
consistir em tarefas reprodutivas repetidamente Iguais a SI mesmas d1a apos
Na medida em que a classe escolar tende a dividir-se em duas - dia e ano após ano; a sua nao será urna carreira, mas urna condic;:ao, algo quase
embora esta dicotomia esteja longe, é claro, de ser absoluta -, tende a perene. O aqui e agora das tarefas domésticas, encaminhadas quase s~mpre
faze-lo em geral, por um lado, na base de urna identificayao com o para a satisfayao imediata das necessidades, ~om:gura um umverso
professor ou sobre o reconhecimento de seu papel como modelo, e por diametralmente distinto do das tarefas escolares, JUStificadas sempre em
outro lado, sobre urna identificayao com o grupo de iguais do aluno. Esta virtude do ainda por vir.
divisao da classe escolar, em funyao de urna identificayao com o professor Em acréscimo, outras expectativas tradicionais com relayao a mulher, fora
ou com o grupo de iguais, corresponde de urna forma tao impressionante do trabalho doméstico, podem-se apresentar também em urna rela7ao nao
a distribuiyao dos alunos destinados a universidade e os que nao o sao, que pacífica com os valores escolares. Por exemplo, as características de
nao se pode evitar de enunciar a hipótese de que esta dicotomia estrutural afetividade, ternura, sensualidade, etc. que a ideologia patriarcal deseja de
a nível do sistema escolar é a primeira fonte da dicotomia seletiva toda mulher nao se enquadram bem com a atitude competitiva que a escola
(Parsons, 1976: 55). requer, nem com o éxito intelectual manifesto. Já se sabe qu~ ~s hom.ens
devem ser duros, agressivos e inteligentes, mas as mulheres doce1s, afetivas
O jovem da classe operária - ou o pertencente a urna subcultura étnica e nao demasiadamente ligeiras. Já dizia Kant: ''a inteligencia masculina deve
portadora de urna cultura que inclua valores opostos aos da escola - pode ser sublime, a feminina bel