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Fernanda Eugenio Machado

Hedonismo Competente. Antropologia de urbanos afetos

PPGAS - UFRJ

2006

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Fernanda Eugenio Machado

Hedonismo Competente. Antropologia de urbanos afetos

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PÛs-GraduaÁ„o em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientaÁ„o do Prof. Dr. Eduardo Viveiros de Castro.

Rio de Janeiro

2006

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Ficha Catalogr·fica

Eugenio, Fernanda. Hedonismo Competente. Antropologia de urbanos afetos. Rio de Janeiro: UFRJ/PPGAS/MN, 2006

Tese - Universidade Federal do Rio de Janeiro, PPGAS 1. Antropologia Urbana 2. Subjetividade 3. Sexualidade 4. Juventude 5. Sensibilidades de Vanguarda I. TÌtulo

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Hedonismo Competente. Antropologia de urbanos afetos

Fernanda Eugenio Machado

Tese submetida ‡ banca examinadora e ao corpo docente do Programa de PÛs-GraduaÁ„o em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necess·rios ‡ obtenÁ„o do grau de doutor. Aprovada por:

Prof. Dr. Eduardo Viveiros de Castro (orientador)

Prof. Dr. Gilberto Velho (PPGAS/MN/UFRJ)

Prof. Dr. Ot·vio Velho (PPGAS/MN/UFRJ)

Profa. Dra. Maria Isabel Mendes de Almeida (PUC-Rio)

Prof. Dr. Amir Geiger (UERJ)

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Para o pai da minha m„e, em doce e ador·vel memÛria. E para o filho dela, em doce e ador·vel presenÁa; o irm„o atribuÌdo e o amigo escolhido. Para as trÍs mulheres mais incrÌveis, fortes e generosas com que a vida me brindou: minha m„e, sua irm„ e sua m„e. Agradecimento (nunca tanto) por um amor in-termin·vel.

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Agradecimentos

8

Resumo

15

Abstract

16

! Sum·rio !

VOLUME I

Depois Notas sobre o processo de escrita

18

 

PARTE I

 

Instant‚neo DionisÌaco

 
 

22

Escritura

Acrob·tica.

Sobre

antropologia,

amizade

e

propostas

de

trabalho

 
 

38

1.

A cidade e as gentes: por uma antropologia ìdeîÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

39

2.

Onde,

 

quem

e

comoÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

 

69

3.

Carne

e

sangueÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

 

83

Abismar-se

 

Miradas. Ao hedonismo competente

 
 

105

1.

Contempor‚neo noctambulismo. Cartografias em perspectiva.

 

143

2.

Links

241

O

bar

O

ingresso

na

zona

de

freq¸Íncia

da

cenaÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

A reuni„o A voltagem intensiva e fragmentos sobre dor e solid„oÖÖ 266

variabilidade dos

engajamentosÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ.299

243

A

noite

ultra-glam

A

3. Multiplicidades, o ìeî como estilo de vida. EtnopoÈtica das sÌnteses disjuntivas

7

 

VOLUME II

 

PARTE II

Diagrama

de

arbitrariedades

(ou,

para

tentar

desdobrar

um evento

abdutivo)

341

Cultivar-se

Sujeitos e Predicados. Do repertÛrio rom‚ntico ‡ individualizaÁ„o radical

361

1.

individualismoÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

Puls„o

rom‚ntica

366

e

2.

Cristianismo, ascetismo e mundanizaÁ„o do indivÌduo dualÖÖÖÖÖÖÖ373

3.

Sexo

e

verdade

ÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

 

377

4.

Amores

ocidentaisÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

 

383

5. AfetaÁıes diferenciadas. Homens e mulheresÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

399

6. DeclÌnio do prazer, ascens„o do prazer racionalizadoÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ.403

7. Culturas homossexuais e pragmatizaÁ„o do afetoÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ.408

8. IndividualizaÁ„o da sexualidade, interiorizaÁ„o do controleÖÖÖÖÖÖ

416

Perverter-se

Sensibilidades de Vanguarda e CompetÍncia. Dos contradiscursos ao enquadramento

422

1.

artÌsticasÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

2.

decadÍnciaÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ

3. …tica rom‚ntica e estetizaÁ„o da existÍncia. Fl‚nerie e dandismoÖÖÖ.450

da

vanguardas

Vanguardas

Boemia

polÌticas

424

fin-de-siËcle

431

e

o

A

e

elogio

4. Amor boÍmio e homoerotismo. AfetaÁ„o, transgress„o e apropriaÁıes

contempor‚neasÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ 46

7

5.

Dos anos loucos ‡ contracultura, e depois. Do valor-ruptura ao valor-

mediaÁ„oÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖÖ 4

85

6.

CompetÍncia e biossociabilidade. As sociedades de controleÖÖÖÖÖÖ.531

ANEXOS

CD-Anexo Sortimento (fotografias, m˙sicas, flyers & e-flyers)

542

Anexo Clipping (seleÁ„o de material jornalÌstico 2003/2006)

8

ReferÍncias Bibliogr·ficas

544

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! Agradecimentos !

Que, passados pouco mais de quatro anos, aqui esteja eu com uma tese em m„os, eis um fenÙmeno da ordem da sobrevivÍncia. Acostumamo-nos com a idÈia de que sobreviver quer dizer mal e mal, ou a duras penas, arrastar uma vida pelos cabelos, quase na marra. Vida minguante. Acostumamo-nos, pois, a entender sobrevivÍncia como subvivÍncia. N„o È disso que falo aqui. Ao contr·rio, o fenÙmeno que dou conta de ter experimentado È sobrevivÍncia na medida em que È adensamento de vida. Ac˙mulo, sim. Mas n„o apenas. Ac˙mulo posto seguidamente em aÁ„o, aprendizado, espiralamento. Vida crescente. SupervivÍncia, se quisermos. E muitas pessoas tornaram-na possÌvel. Ofereceram-me generosamente m˙ltiplos de vida, sob a forma de disponibilidade, presenÁa, andanÁas, fala e escuta. Compartilharam olhares e janelas para o mundo, abriram-se para a troca. AgradeÁo todos os dias pelo entorno de queridos com os quais conjugo sobre-vida - vida alÈm da conta. Esta tese, em muitos nÌveis, È uma celebraÁ„o da amizade e uma crenÁa na comunicaÁ„o. Eu a incorporei como aprendizado deste tamanho muito recentemente, no engajamento simult‚neo com livros e pessoas. N„o poderia tÍ-lo feito sem a escola que foi, para mim, o Museu Nacional. AgradeÁo ao Professor Eduardo Viveiros de Castro, sobretudo, por ter me acolhido como orientanda com este trabalho j· em agravado estado de ìdesorientaÁ„oî - e por tudo o que veio no pacote: pela disposiÁ„o e pela generosidade; pelos bocados desse admir·vel brilhantismo que n„o se deixa capturar em cinza; pelas mais estimulantes e fant·sticas conversas. Se as contingÍncias 1 fizeram breve nosso tempo como orientador e orientanda, elas no entanto fizeram acontecer um encontro - tardio ou curto que possa ter sido - intenso no tanto que me proporcionou, e portanto alargado na mÈtrica que importa. A inspiraÁ„o, porÈm, certamente

1 Aqui È preciso cometer um breve escape e, por antecipaÁ„o, mencionar algumas pessoas cujo apoio imediato foi fundamental no enfrentamento de tais contingÍncias. De pronto, a transformaÁ„o n„o teria acontecido sem o arguto aconselhamento dos gÍnios-da-l‚mpada Helena e LuÌs. Tampouco teria sido possÌvel atravessar aquelas que foram sangrentas semanas de trabalho sem a ìbolha-do-bemî com que me envolveram minha famÌlia e todos os amigos - Jo„o e seus emails transbordantes de carinho; Fred e suas prontas respostas apesar da dist‚ncia pelo doutorado-sanduÌche; a ponderaÁ„o amorosa de Tati e Octavio; os ìamuletosî de Carol; os abraÁos ìfagocitantesî da RÍ; a leitura-urgente de Bebel. Nada

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ultrapassa em muito o que pude (ir)responsavelmente converter em tese - e devo registr·-lo, para fins de ìjustiÁa seja feitaî. Meus sinceros agradecimentos endereÁam-se tambÈm ao Professor Luiz Fernando Dias Duarte, que me acompanhou por longo tempo, por ter me confrontado com a dist‚ncia entre tema e quest„o, t„o fundamental para esta escrita. Estendem-se em desmedida aos irm„os Velho. Ao Professor Gilberto, por tudo que li e ouvi, pela receptividade com que acolheu meus questionamentos e me ofereceu contrapontos em pÌlulas agudas e precisas (ou em ì·urea medidaî, para usar as palavras dele). Ao Professor Ot·vio, pelos cursos de ìindisciplinada antropologiaî com que fui brindada ainda no mestrado, cujas resson‚ncias ainda est„o por ser de todo digeridas, e pela charada que me lanÁou na primeira qualificaÁ„o, com a qual esta tese tentativamente conversa. Permitam-me ainda, j· que se trata, aqui, tambÈm de uma despedida do Programa que me acolheu por mais de seis anos - do mestrado ao doutorado - agradecer a todos os outros professores de quem fui aluna. Em especial ‡ Professora Aparecida VilaÁa, pela lembranÁa afetiva que carrego dos famigerados fichamentos de Teoria AntropolÛgica I, que me revelaram a graÁa da escrita sintÈtica, e talvez tenham sido uma das muitas vias tortas pelas quais cheguei ‡ poesia. Finalmente, todo um recolhimento mon·stico sÛ foi possÌvel porque contei, durante os quatro anos do doutorado, com a bolsa de estudos concedida pelo CNPq. Os imponder·veis da vida me levaram a uma parceria de pesquisa com a Professora Maria Isabel Mendes de Almeida, no Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes (CESAP/UCAM), e foi ali que primeiro se descortinou para mim o universo desta tese. Meu processo de adultizaÁ„o intelectual deve mais do que eu seria capaz de exprimir em palavras a este espaÁo de interlocuÁ„o. AgradeÁo ‡ t„o imensamente querida Professora K·tia de Almeida Tracy por ter apostado em mim, ainda na graduaÁ„o da PUC-Rio, e ter-me proporcionado esta ponte, me apresentando ‡ Bebel. E ‡ Bebel, pessoa de uma generosidade que n„o se encontra em qualquer esquina, agradeÁo a acolhida, a confianÁa, a preciosa oportunidade da convivÍncia em equipe, a permanente troca e discuss„o, e as tantas pequenas/grandes experiÍncias de vida - presentes de um valor

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incalcul·vel - sem as quais n„o seria o que agora sou. O CESAP trouxe-me ainda um entorno de parceiros e amigos que certamente vieram para ficar a vida inteira. Helena Gomes e Jo„o Francisco de Lemos, muito mais do que assistentes de pesquisa que me adotaram como ìchefe babyî, compıem uma liga forte para todas as horas. Carrego sob a pele a mistura de amor e inteligÍncia que estes dois - que conquistaram um latif˙ndio no meu coraÁ„o - me oferecem cotidianamente. Ao Jo„o, agradeÁo por ter me escolhido para integrar o time; para compartilhar de um mundo visto com os mais arredios olhos interessados. ¿ Helena, agradeÁo (tanto-mas-tanto) por ter me ensinado com palavras encantadas a merecer. Muitas camadas desta tese existem nos brilhantes que, os trÍs, fizemos e fazemos aparecer em passagem secreta. Na sala ao lado, o CESAP me proporcionou a proximidade com a delicada sensibilidade da Professora Santuza Cambraia Naves, que admiro pela musical conjugaÁ„o entre densidade e leveza, na qual sou ainda uma aprendiz, e com os queridos Tatiana Bacal e Fred Coelho. ¿ Tati, colega no mestrado e amiga de coraÁ„o tamanho famÌlia, agradeÁo pelo saboroso compartilhamento de idÈias e por ter-me envolvido com um carinho intermin·vel, com as palavras mais doces e a risada mais bonita. Ao Fred, agradeÁo por uma amizade delirante, t„o intelectual como humana; por ter- me aberto as comportas de sua mente irrequieta e inesgot·vel, pelo compartilhamento na paix„o pelas letras e livros, pelas conversas internÈticas na lÌngua dos troÁos. Da minha graduaÁ„o em ComunicaÁ„o Social, na PUC-Rio, ficaram os Professores (e amigos) Everardo Rocha e JosÈ Carlos Rodrigues, que primeiro me converteram ‡ antropologia. Ficaram tambÈm, guardados com carinho e reencontrados com menos freq¸Íncia do que eu gostaria, os Professores Ronaldo e K·tia, das mais arrebatadoras eletivas em CiÍncias Sociais. De Adriana Vianna, agora incorporada ao PPGAS, n„o me esqueÁo como incentivadora que foi nos idos tempos da PUC. Durante todo este meu percurso intelectual que sempre apenas se inicia, pessoas imprescindÌveis vestiram a camisa ìapoioî tambÈm na vida fora do universo acadÍmico. RÍ cruzou meu caminho um dia, l· se v„o dez anos, e por sorte minha decidiu ficar. Entre generosas doses de indulgÍncia e adequados

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puxıes de orelha que sÛ um ìmelhor amigoî È autorizado a dar, montamos um castelo de cartas que j· se provou resistente a qualquer tempestade. Vivemos juntas, e na estrada, as mais incrÌveis bonanÁas. EsforÁo-me por incorporar seu olhar amoroso sobre o mundo e as pessoas, seu voluntarismo por ìfazer acontecerî que tanto encontrou resistÍncias nesta cÈtica que, contraditoriamente, continuo sendo. Carol Pucu e LuÌs Granato (tambÈm colegas de Museu, mas definitivamente n„o apenas) foram e s„o os vizinhos perfeitos, a escolta de socorro-e-bom-senso que sÛ dois virginianos legÌtimos podem oferecer. Os mais inesquecÌveis jantares, as mais intensas conversas, todas as festas, todos os perrengues e todo um tecido de idÈias-para-uso-imediato sem o qual seria impossÌvel atravessar esta permanente idade da raz„o. Com Carol acumulo uma amizade em muitos atos, uma amizade que dispensa palavras (embora n„o conheÁa ninguÈm que fale mais do que nÛs duas juntas!). Esta tese n„o teria sido escrita sem o compromisso religiosamente profano de nossas ìmissasî noturnas e de nossas pr·ticas em ìfeitiÁariaî vegetariana, durante as quais as melhores falas para as melhores peÁas ainda a serem escritas foram proferidas. AgradeÁo, sempre e tanto, pelo colo, pelo ìorelh„oî eterno e por ìconjurarî para mim o mais forte e fulgurante ìpatronoî. Resistiremos! Ao LuÌs, o mais querido dos ìsÛrdidosî, agradeÁo a escuta e a psicologia informal de todos os dias, a amizade idiossincr·tica que soubemos construir, a companhia cambiante, a cumplicidade em cambalhotas para fazer o improv·vel e tudo aquilo que nossos abraÁos apertados e o silÍncio ruidoso de nossas derivas podem dizer melhor. Bel, a falsa virginiana a quem confiei um folhetinesco desespero, disponibilizou-me generosamente suas orelhas e a pÈrola zen-urbana que carrego nos bolsos todos os dias: ìproblemas posteriores ser„o resolvidos posteriormenteî. AgradeÁo por ter, uma vez e ent„o sempre, confiado em mim tambÈm. Muito amado, meu irm„o Alexandre, concedeu-me a alegria permanente da sua amizade e a mais plena serenidade de acesso rel‚mpago - basta dar-lhe as m„os. DanÁar ao lado deste menino que fala baixo e ouve m˙sica nas alturas È privilÈgio sem-mÈtrica. Andrea apareceu sem aviso e trazendo bagunÁa-do-bem. Deu-me

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notÌcia de ‚ngulos dantes inexplorados a partir dos quais olhar ìl· foraî, e assim seguir perseguindo este lugar geomÈtrico do eu de que fala Õtalo Calvino. Mais do que com qualquer outra pessoa, aprendi com essa ìolhudaî o quanto variam as geometrias, no silÍncio harmonioso e distraÌdo do mundo tomado como gradaÁ„o de luz. AngÈlica, com sua agenda de executiva, chegou mesmo sÛ agora, trazendo a reboque uma imensa e persistente toler‚ncia para com a roda viva mundana (pela qual n„o consigo conter a admiraÁ„o), e um sensÌvel inquietar-se com o ìcontempor‚neoî que j· rendeu belas conversas. ConjugaÁ„o curiosa; torÁo para que fique por perto. Joana e Camila, lindas e ador·veis, me apresentaram a ìfrase m·gicaî e decalcaram em mim seus largos sorrisos. JÙ serenamente j· sabia que as coisas aconteceriam, e soube transmitir, quietinha, as melhores vibraÁıes. As conversas magnÈticas com Lulis mostraram a nÛs duas como s„o fortes os flexÌveis. E agradeÁo tambÈm ‡ Lulis-veterin·ria, pelos cuidados dispensados aos meus gatinhos. Fernanda Avellar, minha serelepe professora de acrobacia aÈrea que ìtinha certezaî (e estava mesmo certa!), tem tambÈm ìparcela de culpaî consider·vel no redespertar da danÁa. Um obrigada tambÈm aos colegas- de-turma que torcem, ajudam e comemoram a cada peripÈcia incorporada, Eduardo, Ipojucan e a sempre CarolCarol. E tambÈm ao Fernando, nosso encantador professor substituto. Muitas outras pessoas incrÌveis compıem a paisagem colorida tanto da minha vida quanto desta tese. A ìlistaî abaixo n„o d· conta nem de todas nem do tanto que representam. E como decerto esquece (memÛria ingrata!) de alguÈm(ns) precioso(s), digo de antem„o que os eventualmente n„o mencionados s„o tambÈm muito queridos. Vamos l·. Ainda pela via do Museu Nacional, Paulo GuÈrios (brilhante e t„o fofo; e AndrÈa, com quem forma o casal mais ador·vel), Luiza Leite (compartilhamento mesmo ‡ dist‚ncia de viva poesia), Octavio Bonet (sempre solÌcito) e Guilherme S· (com um beijo na pimpolha Luiza). Ainda pela via do CESAP, Kate Lyra, a mais doce e am·vel; e Fernanda DÈborah, forte e alegre de modo t„o contagiante. Ainda pela via da PUC-Rio, Aline e Irene, queridas na diferenÁa. Ainda vizinhas do ìCondado 33î, Ines e

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B·rbara, pelas muitas (e muitas vezes figuradas) ìxÌcaras de aÁ˙carî. A famÌlia ThÍ, Gui e Dan-Dan (a mais linda afilhada). Minha ìalunaî Tatiana Siciliano (a mais aplicada). Em Portugal, Sandra, Jorge, Joana, Ana e toda a trupe; e tambÈm AndrÈ, de quem tenho saudades apertadas. Meus gatos amados, Simmel e ZoÈ, tÛpico de discord‚ncia com Deleuze, para o qual, felizmente, È possÌvel contar com ìadvogados de defesaî do calibre de Baudelaire, Cocteau ou Cort·zar, notÛrios apreciadores de felinos. E mais: os incrÌveis, poderosos e insuperavelmente charmosos Bruno, Rossine, AntÙnio, Allan, Marquinhos, Chiquinho, Duca, Isra e Flavia_C; as talentosas e sensÌveis Gab, Maria e Laura; as divertidÌssimas Rita, Raquel, Simone, Carols, Ericas, Carla e Jackie; os primos eletivos Sacha, William e Cami; a mais marrenta …rica; a ìjapaî mais fofa …rika Kiks; a querida Camille; o ìbar„oî mais ador·vel Fl·vio (com sua bela baronesa LucÌa); os lindos e inteligentes Katarina, Silvia, Maria e Victor; o showman Marcelo; o moÁo que leva a vida ìmais maneira do mundoî M·rcio e muitos outros. A seleÁ„o de m˙sicas contidas no CD-Anexo Sortimento contou com as dicas experts e com os prÈstimos de coleta na internet de Alexandre, Joana e Marquinhos (dj Stefan). Renata e Isaura, respectivamente minha m„e e minha avÛ, encararam o quebra-cabeÁas de reduÁıes-e-xerox que tornou possÌvel apresentar o Anexo Clipping, com seleÁ„o de material jornalÌstico. Luiza Leite cuidou com toda a urgÍncia e competÍncia da traduÁ„o do resumo, em associaÁ„o com Tati Bacal. Tati, Fred, Bebel, Helena, Jo„o e Carol leram trechos deste trabalho e contribuÌram com valiosas sugestıes. Meu muitÌssimo obrigada pela presteza e pelo carinho de todas essas ajudas. AgradeÁo, ainda, a todos os amigos, amigos dos amigos, conhecidos e desconhecidos que se dispuseram a falar sobre suas vidas e/ou suas memÛrias da cena em entrevistas formais ou informais. O trabalho sobre este material t„o rico inevitavelmente esmaga muitas sutilezas, e È ingrato tentar produzir ìdessubjetivaÁ„oî a partir da contingÍncia da dor e da alegria alheias. Espero ter conseguido imprimir ao resultado, que se sabe parcial e assume neste sentido sua despretens„o, o respeito mais do que merecido. Retomo, por fim, a dedicatÛria desta tese para dizer o indizÌvel ‡

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minha famÌlia: o quanto e o qu„o profundamente sou grata por um t„o intenso-extenso amor. Minha avÛ Isaura È, para ser sucinta, a melhor avÛ do mundo - e n„o

preciso de dados comparativos para esta afirmaÁ„o categÛrica. AlÈm disso,

È a melhor farejadora de preciosidades esgotadas em sebos de que se tem

notÌcias, e a melhor intermedi·ria com o ìalÈmî - encomendando seu pedido ‡s oraÁıes dela, o retorno È garantido; praticamente como ser a amiga do rei. Minha m„e Renata vale por toda uma torcida organizada, alÈm de ter as palavras mais confortantes, o abraÁo mais acolhedor, a confianÁa mais encorajadora, a indulgÍncia mais generosa, o desprendimento mais admir·vel, a disposiÁ„o mais resistente. Paula, amiga desde crianÁa a ponto de n„o ser sequer possÌvel cham·-la de tia, È tambÈm fonte preciosa (e sempre t„o prÛxima mesmo a 500 quilÙmetros de dist‚ncia) da mais carinhosa sensatez, da mais saborosa cumplicidade, da mais atenta escuta e do mais amoroso e prestativo dos cuidados, dos quais a menor parcela (mas n„o menos fundamental) se exprimiu na ajuda financeira sem a qual n„o teria havido vida digna pÛs-bolsa, e n„o teria sido possÌvel terminar de pagar o computador no qual esta tese foi escrita. Ao meu irm„o Alexandre, agradeÁo pela bela amizade que se

consolidou e floresceu na maior das preciosidades da vida depois que nosso avÙ DÈcio - por demais amado - nos deixou. Ao meu avÙ DÈcio, n„o h· como agradecer por uma vida inteira de doaÁ„o; por ter me proporcionado

a educaÁ„o que tive.

*

Derradeiro alerta, que n„o È mera formalidade: o que fiz neste trabalho com tanta sobre-vida, se contou em muitos patamares com a

contribuiÁ„o de todas essas pessoas, È no entanto - em tudo o que inevitavelmente ìfalhaî - de ìminha culpa, minha m·xima culpaî.

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! Resumo !

O campo de trabalho desta tese diagrama-se a partir dos

perme·veis e imprecisos limites-tens„o do circuito de lazer jovem

que poderÌamos chamar, tomando de emprÈstimo a nomenclatura ìnativaî, de cena carioca. EspaÁo-tempo caracteristicamente urbano, marcado pelo desenraizamento cosmopolita como valor, a cena conecta lugares, eventos e pessoas n„o-contÌguos, acontecendo contingentemente nas vizinhanÁas das musicalidades eletrÙnicas, das ìsubst‚nciasî sintÈticas, da experimentaÁ„o erÛtico-afetiva com ìambos os sexosî e de uma moda empenhada no borrar das fronteiras de gÍnero. Esta tese dedica-se, por um lado, a mapear a cena

enquanto zona de intensidade, propondo-se a investigar antes territorialidades do que identidades, e, por outro, a descrever e analisar o funcionamento acionado pelos freq¸entadores do circuito, ao qual chamei hedonismo competente. Argumento que o hedonismo competente, enquanto agenciamento, perfaz uma ìtendÍnciaî contempor‚nea, relevante e observ·vel para alÈm da prÛpria cena carioca. TendÍncia a um remapear das ìprescriÁıesî, que por um lado se privatizam e, por outro, deixam de recair sobre conte˙dos especÌficos para vir a se apresentar, antes, como um maquinismo - este, orientado para a produÁ„o

de simultaneidade e conciliaÁ„o entre as ìesferas da vidaî, vem a

substituir visivelmente um regime de altern‚ncias. Operando por sÌntese disjuntiva, o hedonismo competente se cumpre ‡ medida da contaminaÁ„o recÌproca entre as ìesferas da vidaî, que deixam neste movimento de caracterizar domÌnios estanques, definidos por oposiÁ„o excludente (espÈcies), para vir a diferenciar-se por gradaÁ„o, local e contingentemente.

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! Abstract !

The field of work that generated this thesis is diagramed around the permeable and imprecise ìtension-limitsî of youth leisure circuit that we

could call, borrowing a ìnativeî term, cena carioca (Rio de Janeiroís scene).

A typically urban space-time, marked by the value of ìcosmopolitan

unrootingî, the scene connects places, events and people that are not normally in contact, happening contingently in the vicinities of electronic

sounds, synthetic "substances" (especially ecstasy), erotic-affective

experimentation with ìboth sexesî and fashion geared towards the blurring

of gender frontiers. This thesis intends, on one side, to map this scene as

an intensity zone, proposing to investigate territorialities instead of identities, and, on the other side, to describe and make an analysis of the functioning that is initiated by those who frequent the circuit, which I call competent hedonism. My argument is that competent hedonism, as a product of agencying, follows a contemporary ìtrendî, relevant and observable beyond Rio de Janeiroís scene itself. A tendency to recreate the maps of ìprescriptionsî that, on one side, are privatized, and, on the other, cease depending on specific contents, presenting themselves instead as a machinism ñ itself oriented towards the production of simultaneity and conciliation of ìspheres of lifeî, visibly substituting a regime of alternations. Operating as a disjunctive synthesis, competent hedonism thrives on the reciprocal contamination between ìspheres of lifeî, that through this movement cease being characterized as self-contained domains, defined by excludent oppositions (species), in order to differentiate themselves through gradation, place and contingency.

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N„o h· diferenÁa entre aquilo de que um livro fala e a maneira como È feito. Gilles Deleuze & FÈlix Guattari, Mil PlatÙs

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! Depois ! Notas sobre o processo de escrita

Por forma que a nossa tarefa principal era a de aumentar o que n„o acontecia. (NÛs era um rebanho de guris.) A gente era bem-dotado para aquele serviÁo de aumentar o que n„o acontecia. A gente operava a domicÌlio e para fora. E aquele colega que tinha ganho um olhar de p·ssaro era o campe„o de aumentar os desacontecimentos. Uma tarde ele falou para nÛs que enxergara um lagarto espichado na areia a beber um copo de sol. Apareceu um homem que era adepto da raz„o e disse:

Lagarto n„o bebe sol no copo! Isso È uma estultÌcia. Ele falou de sÈrio. Ficamos instruÌdos. Manoel de Barros, Poemas Rupestres

Falemos de magia negra. Em um trabalho deste tamanho, n„o sei vocÍ que est· lendo - que comeÁa a ler agora, sen„o desavisado, pelo menos descansado -, mas eu tenho a sensaÁ„o de que grande parte dessas p·ginas que se avolumam transbordantes È de rascunho. Tenho tambÈm a urgÍncia inebriante de dizer; morder desapego, verificar destacamento. Grande parte do que aqui est· - ou tudo? - È de uma tese que se fez por descarte, por excreÁ„o, por expuls„o. Ele registra, esse monte de papel e letras, um percurso, uma distens„o, um estiramento. … ao mesmo tempo o que foi possÌvel e o que foi preciso, È movimento ao mesmo tempo antientrÛpico e entrÛpico; È o que foi investido e tambÈm o que foi dispensado. Talvez penda mais ao que foi dispensado para cavar ‡ superfÌcie a viabilidade de investir, flerte com a loucura lampejante que È o agravamento do pensamento. N„o estou certa de que chega a algum lugar, n„o estou certa sequer de que desejou isso - o que independe de que eu mesma tenha desejado (desejo pretÈrito), ingenuidade indispens·vel para se lanÁar em uma viagem desse tipo, necessariamente insensata. N„o porque aqui n„o se chegue a afirmar coisas, mas porque a tese mesma est· fora. E tambÈm porque ela È, por fim, sabidamente contingente. Que ela ache muita coisa,

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daÌ n„o decorre que eu ache tambÈm - possivelmente ela acha o que eu perdi; eventualmente registra camadas de achados e muito mofo, sucateamento que assinala a presenÁa, ladra das certezas. Talvez a narrativa de um desencontro preciso, indiscretamente vivo. N„o sei se pertence a alguma escola, se presta contas a quem devia ou a quem n„o devia, se dialoga com outros ditos com o devido respeito ou com o respeito indevido, se e o quÍ propıe. N„o, n„o È leviandade, desengajamento, descaso. N„o poderia ser mais comprometimento. Simplesmente, e disso È tudo que posso falar com propriedade, porque me pertence ìvisceralmenteî (palavra comprometida, sei, mas È mesmo de comprometimento que se trata), a tese se fez mais do que eu a ela, e o que se ler· aqui È mais da ordem de minha relaÁ„o com ela, a tese, com ele, o ìobjetoî, com elas, ìas questıesî; tudo isso mais do que uma fala minha. Muitos patamares de relaÁ„o, e patamares oscilantes:

‡s vezes afago, sussurro; ‡s vezes tabefe, exaltaÁ„o. Longa conversa, na qual o ìmim mesmoî foi muitos. N„o sei se o que eu penso dela È o que ela se pensa; n„o sei se o que gostaria de ter feito dela foi o que ela se fez. ì… por ser inaugural, no sentido jovem deste termo, que a escritura È perigosa e angustiante. N„o sabe aonde vai, nenhuma sabedoria a protege dessa precipitaÁ„o essencial para o sentido que ela constitui e que È em primeiro lugar o seu futuroî (Derrida, 1971: 24). Admito humildemente que a tese, enquanto sintoma, diz mais do que eu sei - e este n„o È um problema: È mesmo o problema em pauta aqui. Ela È infiel a mim, porque de princÌpio nunca pude ser fiel a ela - ou o contr·rio, fomos ambas mais fiÈis do que supunha, e ‡ minha revelia. Sei, contudo, que ela se cumpriu, no improviso inevit·vel que caracteriza as aprendizagens. E n„o poderia ter feito isso de outro modo, devorando ofegante o que havia ao meu redor, convertendo em bÛias ocasionais o que apareceu por seu caminho espiralado. Um assalto do si ao consigo, no qual enquanto n„o me dispus a entregar tudo o que me pediam - sem saber sequer se eu tinha - simplesmente nada aconteceu. E uma vez que assenti, n„o h· mais saÌdas, sÛ entradas. N„o tenho d˙vidas de que se trata de um ente vivo, e tampouco tenho d˙vidas de que se alimentou de minha ìcarne e sangueî ao longo de pelo menos quatro anos, tendo se fartado com particular intensidade nos

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˙ltimos meses antes que isso que vocÍ tem em m„os pudesse ser dado por concluÌdo. Magia negra, eu disse: bochechas rosadas em sacrifÌcio, ossos roÌdos pelo mais reluzente e insano pensar. Ela n„o arrancou pedaÁos, carregou o corpo inteiro, revoltoso - ou o inteiro do corpo. Talvez (ventura que ainda est· por se conferir) tenha deixado algum pedaÁo. ìA obra È a m·scara mortu·ria da concepÁ„oî, disse Benjamin (1995:31); isto que aqui est· - chamem-na de tese ou resma suja - È aquilo que n„o mais me pertence, mas, mais que isso, È o que foi preciso expelir para seguir vivendo, em relaÁ„o contingente com tudo aquilo - aquilos de muitas ordens - de que eu dispunha a cada momento de sua duraÁ„o. A escrita de um volume desses se estende no tempo, abismal: n„o h· unidade possÌvel, porque muitos eus-mesmos foram recrutados e falaram nas muitas p·ginas, porque ela È sucessivo de velocidades vari·veis, tomadas inquietas, pausas, ausÍncias e presenÁas. O resultado È qualquer coisa profana, maculada pela mais incestuosa das relaÁıes, na qual talvez (mas n„o seguramente) alguma fecundaÁ„o tenha acontecido. Ou ainda: n„o se trata h· tempos de filiaÁ„o, mas de generalizada contaminaÁ„o.

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Uma observaÁ„o geral sobre o uso das palavras e das categorias nesta tese:

Elas n„o querem dizer sempre o mesmo a cada vez que aparecem, como decorrÍncia, quiÁ·, de um mal crÙnico de que sofre esta que as empregou - aquele que Manoel de Barros (2004:19) disse certa vez como um ìgostar de atrelar palavras de rebanhos diferentesî ou como um ìfalar desemendadoî (2001:32). Esforcei-me para que as vizinhanÁas nas quais elas aparecem a

cada vez pudesse informar mal ou bem de que sentido ocasional se

revestem - e para que esta oscilaÁ„o pudesse ser, ela mesma, produtiva.

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PARTE I

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! Instant‚neo DionisÌaco !

Love in the 90ís is paranoid On sunny beaches Take your chances looking for Girls who are boys Who like boys to be girls Who do girls like theyíre boys Always should be someone you really love Blur, Girls and Boys

O relato de quem olha atravÈs de uma fresta, se esgueirando impressionisticamente atravÈs dela: eis um convite e uma proposta. A idÈia, aqui, È dar a conhecer em relance o universo de lazer noturno e jovem com o qual se relacionar· esta tese, atravÈs da apresentaÁ„o retrospectiva de minha primeira ida a campo. Como se trata de falar de impressıes, de fazÍ-las texto, assume-se desde logo toda a precariedade inevit·vel que acompanhar· a tarefa, e as muitas camadas mesmo em que esta precariedade atuar·. Primeiro, em funÁ„o do lapso de tempo - mais de trÍs anos - entre estas primeiras impressıes e o momento da escrita. Claro que ela se baseia n„o apenas em uma memÛria de instant‚neos, mas tambÈm no filtro de uma atualizaÁ„o incontorn·vel atravÈs da qual agora a resgato - e o que direi possivelmente ser· mais da ordem desta relaÁ„o entre registro-retenÁ„o, por um lado, e ficÁ„o-analÌtica, por outro. Para isso n„o posso oferecer mais, como fidelidade tentativa ao momento retratado, do que basear-me tambÈm nas anotaÁıes corridas de um caderno de campo montado ‡s escuras em um canto do clube, ou nos garranchos que cristalizaram as curvas do t·xi de volta para casa. Um caderno de campo que È uma bricolagem de guardanapos amassados, folhas soltas, idÈias escritas ‡s pressas nas costas de um flyer promocional de uma prÛxima festa e cartıes de visita com amareladas marcas de copo. Uma segunda camada de precariedade È decorrÍncia inevit·vel da convers„o de formatos. Sem aderir ao car·ter pejorativo do termo (muito ao contr·rio atÈ), falo aqui da deformaÁ„o que se processa ao transpor vivÍncia em texto, ou da natureza totalmente diversa dos ìdadosî, do plano processual dos eventos por um lado, e, por outro, do que condensamos - nÛs os antropÛlogos - naquilo a que chamamos de etnografia. Aqui entra o

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ìpux„o de orelhaî de Clifford (1998), em um esforÁo nem sempre apreciado pelos seus pares de fixar-se como ìmeta-etnÛgrafoî, ao alertar sobre a proximidade inevit·vel da escrita etnogr·fica e das escritas ìliter·riasî 2 . Como diz O. Velho (1997: 135), ìos antropÛlogos preferem fazer prosa sem declar·-lo (o que È diferente de n„o sabÍ-lo)î. Resulta daÌ um ìmÈtodoî indisciplin·vel, bem de acordo com a ìindisciplinada disciplinaî que seria a antropologia, nos termos de Geertz (apud O. Velho, op.cit.: 136). Um empreendimento ìhÌbridoî, que se processa simultaneamente no texto e fora dele, podendo converter-se - dependendo, talvez, de que tipo de ìautoridadeî reclama o etnÛgrafo em quest„o -, em ìcolecionamentoî e ìcolagemî (o approach modernista), em ìescritaî (para os ìpÛs-modernosî) ou ìtextoî (para os interpretativistas) e, em tempos que j· se foram, em ìpoder imperialî ou ìcrÌtica subversivaî (GonÁalves, 1998: 10). Mover-se neste campo minado de ingenuidades analÌticas diversas, prontas a serem detonadas por um passo em falso, requer um malabarismo delicado ou, quiÁ·, o pique arriscado de uma corrida. De um modo ou de outro, n„o se atravessa este terreno perigoso sem o herÛico ou o ridÌculo de uma exposiÁ„o radical. Possivelmente, incorre-se em ambos. Assim, tomo meu bocado de risco nas linhas que se seguem, e apresento uma primeira exposiÁ„o de um campo que acompanhei ao longo de pouco mais de trÍs anos (que observaram alguns meses aqui e ali de resguardo para novo ìfÙlegoî, e que nunca chegou a ìencerrar-seî por completo, incorporado ‡ minha vida que foi) de ìobservaÁ„o participanteî na cena carioca de lazer jovem noturno, de entrevistas gravadas com muitos de seus freq¸entadores, de conversas informais com outros tantos, de recortes de jornais, revistas e zines e de comunicaÁıes ìvirtuaisî diversas. Decidi-me a ìcomeÁar pelo comeÁoî, pelo relato de minha primeira ida a campo. Seria um ranÁo pegajoso de linearidade, ou uma estratÈgia declarada de montar minha ìautoridade etnogr·ficaî em um solid·rio ìnÛsî, convidando os leitores a refazerem comigo meu trajeto?

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Estamos em janeiro de 2003 e h· alguns meses um dos jornais mais

2 O esforÁo de reflex„o auto-antropolÛgica de Clifford sublinha as implicaÁıes do fato de que o discurso antropolÛgico consiste ìliteralmenteî em um texto. Como nos diz Viveiros de Castro (2002b: 141), soma-se a esta problem·tica ìo fato do discurso do nativo n„o ser, geralmente, um texto, e o fato de ele ser freq¸entemente tratado como se o fosseî.

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lidos pelas camadas mÈdias cariocas, O Globo, passou a incluir em sua grade informativa da programaÁ„o de lazer, dentro do tÛpico ìPistaî (que sai todos os dias no Segundo Caderno e somente ‡s sextas-feiras no suplemento Rio Show), clubes e festas que faziam parte de um circuito dito ìGLS 3 î ou ìmodernoî, e que atÈ pouco tempo ou n„o figuravam na listagem de alternativas elencadas pelo jornal, ou apareciam indiscriminados dentro dos seguros e politicamente corretos limites do tÛpico ìGayî. Assistiremos, a partir daÌ, a uma ìtomadaî gradativa da coluna ìPistaî por estes clubes e festas, que em 2006 figuram lado a lado, e sem nenhum alerta particular a leitores ìdesavisadosî, com outras sugestıes de lazer que os sujeitos aqui em pauta catalogariam de ìcaretaî ou ìmainstreamî. Deu-se aÌ um movimento interessante de reproduÁ„o simÈtrica e inversa do que acontecia quando estes mesmos clubes e festas figuravam no tÛpico ìGayî: mudou apenas ìo mesmo sacoî em que s„o postos. Se n„o tenho d˙vidas de que esta ìÍnfase diferencialî - todos juntos listados entre os ìdiferentesî ou todos juntos listados entre os ìiguaisî (ou ìnormaisî?) - seja indicativa de uma mudanÁa social em curso, tampouco creio que espelhe, como talvez queiram pleitos militantes, mais um degrau rumo a uma almejada ìinclus„o socialî, ou mais uma volta na tampa de rosca que por fim (fim ideal) nos vedaria a todos em uma assepsia igualit·ria, isolando-nos de vez de ìsujeirasî hier·rquicas t„o persistentes

3 A sigla para Gays, LÈsbicas e Simpatizantes, vers„o brasileira e j· marcada pelo acento local no meio, na ponte, no e - acento sobre o qual se debruÁa notoriamente o trabalho de DaMatta (1997). Como comenta Palomino (1999: 150), ìse os anos 90 foram chamados pela mÌdia internacional de ëGay 90sí, no Brasil uma simples sigla ajudou a derrubar (ou afrouxar barreiras): GLSî. A jornalista nos d· conta da genealogia da express„o: teria sido criada em 1994 pelo publicit·rio AndrÈ Fischer para nomear o p˙blico do festival de cinema experimental Mix Brasil, ìent„o uma pequena ramificaÁ„o do New York Lesbian and Gay Experimental Film Festivalî, mas j· dotado de uma peculiaridade em relaÁ„o a seu ìmodeloî. AlÈm de reunir, sob o conceito de ìMundo Mixî (que depois veio a nomear a loja que funcionou durante o evento, que na seq¸Íncia se autonomizou no Mercado Mundo Mix, uma grande feira itinerante de moda), n„o apenas gays e lÈsbicas, mas tambÈm ìskinheads gays, roqueiras punks, tatuadores, clubbersî - uma ìprogramaÁ„o mais hypeî, enfim -, o festival tinha, ainda, um p˙blico heterÛclito e diversificado, que n„o se deixava dizer sob a idÈia de uma homogÍnea ìcomunidade gayî. ìSabÌamos que, diferentemente dos festivais gays americanos, tÌnhamos um p˙blico mais misto, muito menos radicalî, disse Fischer em entrevista a Palomino (ibidem). A sigla acabou sendo gerada na tentativa de nomear esta diversidade. Fischer prossegue: ìColocamos a sigla no folheto de lanÁamento do 2o. Mix Brasil, com sua explicaÁ„o. O povo adorou e comeÁou a usar imediatamente, atÈ pela relaÁ„o com a sigla dos automÛveis vers„o luxo. Decidimos n„o registrar a marca, como fiz com Mix Brasil e Mundo Mix, justamente para que fosse usada por todos. Depois disso a coisa virou um monstro e atÈ no interior de Pernambuco tem bares gls. Hoje, prefiro usar a sigla em letras min˙sculas para gritar menosÖî (ibidem).

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no cen·rio brasileiro (Cf. Fry, 1982) 4 . Se podemos colocar na conta destes investimentos igualit·rios a ìinclus„oî do tÛpico ìGayî na programaÁ„o de lazer divulgada naquele que È um dos veÌculos de comunicaÁ„o de maior circulaÁ„o na cidade, creio que a ìmigraÁ„oî que descrevo aponta para uma direÁ„o diferente. Aponta, digamos, para uma tendÍncia de ìapagamentoî dos contornos nÌtidos com os quais se pretendeu assinalar os programas ìgaysî (ainda que, no caso destes ˙ltimos, n„o com o objetivo hier·rquico de segreg·-los, mas com a coloraÁ„o politicamente correta de incluÌ-los). Configura-se, portanto, como oposta a uma inclus„o enquanto ato polÌtico, aquela que pede a equalizaÁ„o do diferente, e se processa forjando para si uma categoria de ìdiferentesî para a qual se pleiteia que, ìde direitoî, figure como equivalente ‡s demais (que, por sua vez, permaneceriam intocadas). Ao invÈs disso, temos aqui uma sorte de hibridizaÁ„o dessas categorias: entre 2003 e 2006, assistimos ‡ consecutiva ìinfiltraÁ„oî das categorias de programas ìnormaisî vigentes pelas categorias de ìdiferentesî, o que seguidamente tem resultado no borrar das fronteiras distintivas de ambas. Atravessadas umas nas outras, elas mostram-se cada vez menos eficazes como marcadores de oposiÁıes excludentes. Algo que, como fenÙmeno, parece-me afastar-se de uma reivindicaÁ„o de ìdireito ‡ igualdade da diferenÁaî (ìque os diferentes possam ser iguaisî), uma vez que tal pedido sÛ pode dar-se sob a condiÁ„o de sublinhar esta diferenÁa, e o que vemos aqui, justamente, È um investimento em sua diluiÁ„o, o exercÌcio de um discurso de indistinÁ„o (que cabe, claro, averiguar atÈ que ponto È eficaz, ou atÈ que ponto coincide com as pr·ticas dos sujeitos, mas em si mesmo j· significa). Tratar-se ia, se fosse uma reivindicaÁ„o (mas ao que me parece sequer coloca-se como tal) de ìdireito ‡ diferencialidade da diferenÁaî - que, no limite, constituir-se-ia mais propriamente como um desmentimento ‡ ìigualdadeî, ou mesmo da igualdade em sua vers„o politicamente correta, esta que n„o faz mais do que declarar todos iguais sob a condiÁ„o de aceitarem as ìregras do jogoî j· vigente, jogo que supıe

4 A imagem estranha vem bem a calhar para remeter a pleitos igualit·rios cuja fala, por assim dizer, partilha do ìtortoî recobrimento que esta ìmet·fora mistaî pode oferecer. O pedido de uma igualdade generalizada (ou de que todos possam adentrar em um mesmo e assÈptico frasco) passa ao largo de que o ìtodosî que pleiteia ingresso no frasco È ìparteî (j· que as outras partes do ìtodosî j· estariam l· dentro, como ìnormaisî). Ademais, este ìtodosî que È ìparteî n„o deixaria de sÍ-lo caso o projeto se cumprisse tal como proposto, uma vez que este n„o est· para questionar os contornos que fazem das partes, partes.

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que existem iguais mais iguais do que outros. 5 Parece-me que este ìapagamentoî das distinÁıes entre os programas de lazer disponÌveis para as juventudes de camadas mÈdias urbanas - apagamento em cadeia, primeiro do marcador ìgayî, depois do ìGLSî e seguidamente do ìmodernoî - tem, para usar a express„o de Ot·vio Velho (com. pessoal), ìalgo de icÙnicoî. Diz alguma coisa sobre aquilo que o mesmo Velho (1997), na falta de um termo melhor, chama de ìespÌrito de Èpocaî: È esta, segundo ele, a ìcostura possÌvel de ser imaginada por um observadorî (op.cit.: 147) entre, por exemplo, a mudanÁa de orientaÁ„o de um jornal, aquilo que vim a identificar depois como a escolha, da parte e um segmento social, por construir ìsuaî identidade definindo-se pela indefiniÁ„o, e os alegados tempos ìfluidosî que estarÌamos contemporaneamente vivendo , tempos ìglobalizadosî ou ìpÛs-modernosî, termos que causam alergia (e aÌ me incluo) a uma ciÍncia rom‚ntica, a antropologia, que ìespecializou-se em contradiscursosî (op.cit.: 133) e que por isto mesmo tenderia a oferecer ìgrande resistÍnciaî em considerar tais fenÙmenos como objetos dignos de investigaÁ„o ou em reconhecer neles qualquer car·ter de novidade ou ruptura, refugiando-se perigosamente em ìfundamentalismos disciplinares reativosî (op.cit.: 137). Este ìapagamentoî de marcadores, seja ele apenas ou principalmente discursivo e mesmo, freq¸entemente, antes ìrepresentaÁ„oî do que ìpr·ticaî, quase me fez crer que meu prÛprio objeto de estudo se ìapagavaî e que n„o haveria tese sobre um trabalho de campo t„o movediÁo. Primeiro eu estava pesquisando um aspecto da cena de lazer ìgayî, depois o circuito ìGLSî (mais ìSî do que ìGî ou ìLî 6 ) carioca, em seguida eram os ìmodernosî meu objeto de estudo, e por fim estes

5 O impasse do qual as ìlutas de minoriasî se mostram cativas pode ser sintetizado por este trecho de Goldman (1999b: 72): ì[Tais] lutas de minorias, paradoxalmente, reivindicavam ao mesmo tempo suas especificidades enquanto minorias (homossexuais, mulheres, minorias ÈtnicasÖ) e recusavam ser tratados de forma discriminatÛria. Ou seja, e nos termos de Foucault, tratava-se aÌ tanto de recusar a individualizaÁ„o a que os poderes procuravam submeter essas minorias quanto de resistir a sua dissoluÁ„o em algum tipo de globalidade mal definida. Essas lutas enfrentavam dessa maneira uma dificuldade enraizada em seu prÛprio car·ter paradoxal: a que modelo recorrer para conduzir e organizar esses combates? Existiriam, eventualmente, formas de auto-reconhecimento e de subjetivaÁ„o desvinculadas dos mecanismos de poder? A tendÍncia a utilizar modelos cientÌficos ou pseudocientÌficos (especialmente psicanalÌticos) mostrou-se rapidamente uma arma ambÌgua, na medida em que se voltava contra os prÛprios movimentosî.

6 Neste curto intervalo de tempo, que talvez n„o tenha sido maior do que dois ou trÍs meses, corria a ìpiada internaî de que, por conta de uma sorte de alastramento ou contaminaÁ„o, o ìSî j· n„o queria dizer ìsimpatizanteî, mas sim ìsuspeitoî.

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mesmos ìmodernosî estavam diluÌdos e sem nome, figurando indistintos como jovens apenas. A desolaÁ„o da pesquisadora encontrou alento em Duarte (com. pessoal), que me falava sempre, talvez n„o exatamente com estas palavras, que o trabalho antropolÛgico ìnunca d· erradoî, ou ìmesmo quando d· errado, d· certoî 7 : isto se soubermos converter em significativo aquilo que parece incontorn·vel. No meu caso, tematizar justamente a montagem deste desmonte, tentando pensar o que ele carregaria de ìicÙnicoî. Mas deixo esta tarefa para ser cumprida ou n„o no decorrer desta multid„o de p·ginas que se seguem; abandono por enquanto este tÛpico ou n„o haver· o prometido: o relato impressionista de minha primeira ida a campo.

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Estamos em janeiro de 2003, dizia. O clube Dama de Ferro, em Ipanema, comeÁa a chamar-me a atenÁ„o 8 . Primeiro nos jornais, eu como a

eventual leitora desavisada que imaginei acima. Depois È mencionado em cÌrculos de amigos, um lugar de decoraÁ„o arrojada, que transformou os banheiros em pista de danÁa e que recebe a cada noite um dj diferente de m˙sica eletrÙnica, ao som do qual danÁam corpos embalados por eclÈticas combinaÁıes de subst‚ncias, nas quais podem figurar da maconha ao ·lcool, dos sintÈticos diversos (ecstasy, ketamina, GHB, cristal etc) ‡ cocaÌna. Um lugar onde ìtodos ficam com todosî e, se quisermos, ìem todas as combinaÁıes possÌveisî - homem com homem, homem com mulher, mulher com mulher; e isto para mencionar apenas os arranjos que preservariam o par como formato relacional. PeÁo a um amigo ìiniciadoî que me proporcione vislumbrar o local. ¿

7 Ou ainda, como comenta Viveiros de Castro (com. pessoal, 2006) em torÁ„o adicional, ìsÛ d· certo se der erradoî.

8 O clube, entretanto, j· existia ent„o h· quase um ano. Foi aberto em 8 de maio de 2002 pela mulher de um ent„o casal bastante caracterÌstico da ëcena cariocaí, ambos tendo uma trajetÛria de mais de dez anos de envolvimento com o lazer noturno da cidade, como freq¸entadores e/ou como donos/promoters de outros estabelecimentos ìsimpatizantesî ou ìfriendlyî. A mulher (que havia sido dona do Galeria e do RestÙ), diz-se, embora nunca tivesse tido relaÁıes sexuais com outras mulheres, afirmaria abertamente que gosta de beij·-las na noite, como parte da fruiÁ„o da festa; o marido considerar-se-ia gay e teria tido diversos relacionamentos com homens antes de se casar - ou mesmo depois, segundo outros ìpersonagensî que conheciam o ent„o casal. Atualmente os dois est„o separados e convertidos em amigos. O ex-marido casou-se novamente, com um ator de cinema e televis„o. O clube passou a ser comandado apenas pela ex-mulher (antes, o marido fazia as vezes de promoter, tendo saÌdo da mesma funÁ„o na Bunker para vir a ocup·-la no Dama) e o ex-marido abriu uma nova casa, em Copacabana, a Fosfobox.

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incurs„o se juntam dois amigos dele - um rapaz que, como ele, define-se como gay, e uma moÁa, cuja orientaÁ„o sexual, definitiva ou transitÛria, desconhecia e continuo a desconhecer -, alÈm de um casal curioso (ìheterossexualî) de amigos nossos. Temos todos entre 25 e 30 anos. Apenas eu e o casal nunca estivemos l·. Sexta-feira, passa da meia-noite, nos reunimos a um pequeno grupo que faz fila para entrar na casa de dois andares que mais parece uma caixa de concreto: cinzenta e sem letreiros indicativos do que se passa l· dentro. Na porta, a recepcionista - que recebe, como de costume em casas noturnas em geral, a nomenclatura de door - trabalha preenchendo com o nome de cada um que entra uma cartela na qual ser· anotado o que for consumido no bar. Sua pele muito branca È coberta de tatuagens, e a blusa preta com generoso decote deixa ver que no peito ela carrega um grande desenho de um coraÁ„o apunhalado do qual, entretanto, jorram dados coloridos e labaredas eletrizantes, ao invÈs de sangue. Os cabelos pretos em corte geomÈtrico-assimÈtrico, carregados de pomada modeladora, emolduram um rosto fortemente maquiado, com destaque para os olhos. Ela usa ainda pesados coturnos atÈ os joelhos, que contrastam com a leveza da saia e da blusa, e carrega em seu colo um gato quase imÛvel. Muitos piercings adornam seu rosto e as orelhas; munhequeiras com tachas pontiagudas envolvem seus pulsos. Na fila, o visual dos presentes seguia uma direÁ„o semelhante. O menino ‡ minha frente usava jeans e tÍnis Puma, mas na cintura carregava uma inacredit·vel pochete de lantejoulas, e sobre ela deixava casualmente cair uma ìcamiseta -outdoorî na qual se lia: ìvocÍ pra mim È problema seuî. A menina que o acompanhava tinha o cabelo desfiado a navalha tingido de vermelho intenso e usava um vestido de malha cor de rosa- chiclete com a estampa de um tigre rugindo. Embaixo, em letras n„o alinhadas, o ferino dizer: ìtoma cuidado com a canelaî. Na parte de tr·s das duas panturrilhas, estrelas coloridas tatuadas em linha vertical apontavam para as sand·lias de borracha com saltos semelhantes a marshmallows. Os outros dois amigos que os acompanhavam, sem camisa, exibiam m˙sculos bem trabalhados e usavam Ûculos escuros. Eu ainda n„o sabia, mas estavam aÌ dois ìindicadoresî freq¸entemente lidos pelos demais presentes da seguinte maneira: o torso nu apontava para uma ìquase

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certezaî de que eram gays; os Ûculos escuros declaravam que tinham tomado ou tomariam ìbalaî (ou ecstasy). Meu amigo ìtinha contatosî, o que significava: ele conhecia o dono do lugar, ou o dj daquela noite, e talvez tivÈssemos nossa entrada ìliberadaî; n„o precisarÌamos pagar para entrar, apenas gastarÌamos o valor do que consumÌssemos no bar. Ele trocou algumas palavras com a door, ìestamos na lista de X.î, e fomos aprovados, talvez n„o sem uma ligeira estranheza da moÁa acerca do meu traje, que embora tivesse sido motivo de cuidado da minha parte, n„o se adequava totalmente ao formato da ìmontaÁ„oî em vigor por ali. Sobre a entrada ìliberadaî, ela era apenas uma primeira manifestaÁ„o da forte din‚mica relacional que ligava em ìredeî os freq¸entadores mais assÌduos daquele tipo de ìnoiteî: eles se conheciam e se reconheciam como rostos familiares que povoavam os sensual landscapes (Jackson, 2004) do circuito de clubes e festas, que configura o que È por eles denominado de cena carioca. Eram, como se diz entre eles, ìamigos de noiteî, n„o obrigatoriamente pessoas que se encontravam em outros contextos ou que trocavam mais do que a fruiÁ„o conjunta das horas passadas no clube ou na festa. Nos termos de Jackson (op.cit.: 6, traduÁ„o minha), que alguns talvez considerem excessivamente apimentados pela ìantropologia nativaî, trata-se aÌ das ìfluidas amizades sensuais que s„o forjadas na noite quando vocÍ encontra pessoas determinadas a viver at their bestî. O ìnome na listaî È t„o caracterÌstico da organizaÁ„o em rede da cena que, cerca de trÍs anos mais tarde, o ent„o recÈm-surgido Cows donít fly, um grupo brasileiro que canta composiÁıes prÛprias de electro (um dos estilos de m˙sica eletrÙnica) em ìperformancesî periÛdicas nos clubes cariocas - chamadas Live P.A., espÈcies de pocket shows alimentados pela estÈtica do ìtoscoî 9 - tem no hit ìLibera a minha cartela!î seu maior sucesso 10 . Era uma noite de house 11 , e as batidas cresceram em nossos ouvidos

9 O kitsch, ou o sujo, tudo aquilo que È eleito como interessante justamente por ser ìde gosto duvidosoî e dar margem para ìbrincadeiras de duplo sentidoî.

10 ìEletro em banda: O CDF (Cows donít Fly) muda a noite eletrÙnica injetando irreverÍncia e ousadia com shows perform·ticos ao vivoî. Revista O Globo, 27 de fevereiro de 2005.

11 Estilo de m˙sica eletrÙnica com vocais, que teria a preferÍncia dos gays. Segundo um de meus entrevistados neste comeÁo de 2003: ìquando vocÍ diz que um lugar toca house, È como se fosse uma senha pra dizer que È um lugar gayî (veremos que este atrelamento

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mal empurramos a grossa porta tipo industrial, revestida por uma chapa laminada. A impress„o de um ambiente gelado - o ar condicionado muito forte para o n˙mero ainda reduzido de presentes - È reforÁada pelo aspecto met·lico da decoraÁ„o. Um bar ocupa o lado esquerdo, e nele trabalha diligente uma barwoman, que prepara drinks um atr·s do outro, envergando uma calÁa de vinil preta e uma camiseta branca quase transparente; os seios pequenos se confundem com os m˙sculos bem trabalhados, e demoro alguns segundos para perceber que se trata de uma mulher. Os cabelos parecem compridos vistos de perfil, mas quando ela se vira percebo que toda uma metade da cabeÁa est· raspada. Alguns presentes bebem e conversam apoiados no balc„o do bar, outros se esticam em poltronas e div„s de ferro, de aparÍncia pouco confort·vel. H· ainda uma cama, tambÈm de ferro, cujo colch„o È forrado com pele de vaca malhada - um mÛvel considerado t„o hype que, sob encomenda, È possÌvel comprar um semelhante (igual n„o, porque, de modo condizente, trata-se de ìpeÁa ˙nicaî). O primeiro andar È um exemplar do que se convencionou chamar de lounge, um espaÁo para a conversa ou para o ìdescansoî - sob um som nada repousante, entretanto - dos corpos que danÁaram demais. O ch„o È de cimento e, como ainda n„o est· coberto por pÈs em demasia, tenho a oportunidade de notar que È decorado por placas metalizadas em formato de espermatozÛides. Imagens de pÍnis recortadas em metal adornam as paredes, e lustres de cristal enfeitados com rosas tambÈm met·licas pendem do teto, alguns deles com luz vermelha. Ao pÈ da escada, uma imagem de S„o Jorge, iluminada de vermelho, assinala o caminho para o segundo andar: a pista, ou um grande banheiro p˙blico - abrindo-se espaÁo para a brincadeira de que ali estariam todos a tornar p˙blica a intimidade, a performatizar na presenÁa de interlocutores aquele que seria, segundo Goffman (1975), o ì˙ltimo dos bastidoresî. 12

compulsÛrio entre um tipo de p˙blico e um tipo de som se diluiu ao longo dos anos da pesquisa). H·, entretanto, muitas variantes de house: deep house, m˙sica boa para chill- out (final de festa, os amigos fazem chill-out na casa de alguÈm); tech-house e hard house, mais intensos e sem associaÁ„o imediata com o universo gay. Vale dizer que nenhum clube toca apenas um estilo musical; o mais comum, ao contr·rio, È cada uma das noites ser dedicada a um estilo diferente, ou combinatÛrias de dois estilos. Assim, o p˙blico tambÈm È bastante diverso: a ìfaunaî de cada noite dependeria em grande parte de que som est· sendo levado na casa. No clube em quest„o, as noites de s·bado costumam ser dedicadas ao house. Entretanto, nos after-hours (que a esta Època comeÁavam ‡s 5 horas da manh„, e hoje comeÁam ‡s 7 ou mesmo 8) usualmente toca-se electro.

12 Muito recentemente, tambÈm o primeiro andar foi convertido em pista de danÁa, e nele

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O dj toca dentro de uma banheira estilizada, e logo ao lado de sua mesa de som h· um outro bar. Neste, entretanto, os bancos s„o vasos sanit·rios. No centro da pista enfumaÁada, v·rias pias para lavar as m„os est„o dispostas em cÌrculo. 13 A coisa toda permanece uma brincadeira, porÈm, porque ao fundo enfileiram-se as portas de v·rios reservados, que podem ser usados indistintamente por homens ou mulheres. Ao longo da noite, ficar· claro que eles n„o servem apenas como banheiros: a cena de casais ou grupos demorando-se dentro das cabines se repetiria algumas vezes. Funcionavam como um espaÁo para ìpegaÁıesî ainda mais intensas

do que as que se desenrolavam na pista, e tambÈm recebiam grupos de

amigos que cheiravam cocaÌna sobre o tampo abaixado do vaso sanit·rio. Nosso grupo se misturou aos demais danÁantes na pista enfumaÁada

pelos muitos cigarros, e impregnada pelo cheiro misto de maconha e suor.

O lugar foi aos poucos ficando mais apertado, massa de corpos em

movimento. Muitos rapazes sem camisa danÁam juntos ou se beijam. Sorrisos escancarados, pupilas dilatadas ou Ûculos escuros distribuÌdos pela

pista informam que o ecstasy tambÈm est· presente, assim como os maxilares trincados e o ritmo frenÈtico do movimento dos corpos. Por toda a parte, casais de homens, de mulheres ou ambos - embora os rapazes fossem expressiva maioria. Eventualmente, ìalmÙndegasî 14 se formavam

foi instalada outra cabine de dj, para alÈm da que se mantÍm em funcionamento no segundo andar, ‡ qual foi dada um tom mais intimista, tendo sido entregue em muitas noites ao comando de alguns dos prÛprios freq¸entadores, que bancam os djs fazendo uso do estoque de m˙sicas de seus mp3players, os Ipods dos quais ainda falaremos. De modo que, como em outras casas, podemos presenciar o acontecimento de duas festas em simult‚neo.

13 As pias foram retiradas em meados de 2004, a pedido dos freq¸entadores. Eram, segundo eles, pouquÌssimo utilizadas para lavar as m„os, j· que as pessoas usavam as cubas para apoiar as bebidas enquanto danÁavam, e tambÈm era bastante difÌcil mover-se atÈ elas em meio ‡ massa de corpos danÁantes. Um outro argumento seria o de que a pista, j· pequena, ficava ainda mais atravancada com a presenÁa delas. Muitos, entretanto, consideraram a retirada das pias uma descaracterizaÁ„o do clube.

14 O termo teria sido cunhado por uma conhecida personagem da noite clubber paulistana, Johnny Luxo, nos idos tempos do clube Massivo. Palomino (op.cit.: 39) registra com precis„o: na noite de 15 de fevereiro de 1992. Eis a narrativa de um agravamento. Os ìbeijos de trÍs ou de quatroî j· ent„o eram rotina desde o clube Nation, ìsempre ao ritmo da m˙sica, sempre acompanhando a pulsaÁ„o da danÁaî. ìAtÈ que uma noite, de repente, na pista, juntam-se uns dez, entre homens e mulheres, beijando-se, em carÌcias. Dura algo como trÍs m˙sicas - e ninguÈm atÈ hoje sabe direito como comeÁou. … tanta gente que, visto l· de cima, do mezanino, n„o d· para entender que m„o È de quem, que boca È de quem. Johnny Luxo olha e comenta, diante do bolo de carne misturada: ënossa, parece uma almÙndegaÖí. O nome ficou e tambÈm o procedimento. (Ö) Em novembro de 1992, o assunto vira atÈ capa da ëIlustradaí. ëMais de trÍs j· È almÙndegaí, decreto. A ëdid·tica reportagem explica que essas almÙndegas ëda primeira faseí tÍm car·ter estritamente ëfamiliarí: o n˙cleo b·sico se compıe de amigos e conhecidos; ocasionalmente estranhos entram nas extremidades, mas sempre com o consentimento (informal) do grupo. Em tese,

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t„o rapidamente quanto se dissipavam: corpos embolados em um grande e coletivo abraÁo, dentro do qual beijos e carÌcias eram distribuÌdos indistintamente. Meu amigo cumprimenta com a cabeÁa v·rios dos que passam por nÛs, e p·ra para conversar com alguns. Uma menina loura e muito magra, aparentando menos de vinte anos, segreda algo em seu ouvido, e ele informa em seguida que ela ìest· a fimî de ìficarî com a menina do casal que nos acompanha. A menina ri sem jeito ao receber a notÌcia; nunca esteve ali, mas percebe-se logo que ela contava com essa possibilidade e a proposta lhe soa interessante. Ela manda o recado de que aceita, se a loura ficar com ela e com seu namorado. A proposta de ìficada a trÍsî È a princÌpio rejeitada, mas a loura se aproxima e as duas comeÁam a trocar algumas palavras. Em segundos, est„o se beijando diante de um namorado estupefato. Mas o sujeito n„o demora a reagir, e agarra a namorada pelas costas, deixando-a ìensanduichadaî, entre a loura e ele. O trio troca carÌcias por uns quinze minutos, talvez menos. A loura, um pouco incomodada com a aproximaÁ„o do rapaz, por fim abandona o casal. Nesta mesma noite, pude vÍ-la ìficarî com duas outras meninas, alternadamente. Quando o dia comeÁaria a clarear l· fora, por volta das cinco horas, as janelas de vidro, adornadas por gotas furta-cor, s„o tapadas por uma cobertura deslizante de metal, como que para alongar a noite. Est· comeÁando o after-hours, e ao mesmo tempo em que muitos abandonam a pista, outros tantos acabam de chegar ao clube, a tempo de pegar a troca de dj. Pequeno artifÌcio para ìparalisar as horasî em uma caixa escura, as janelas tapadas permitem jogar com a duraÁ„o do dia e da noite, conferindo-lhes a maleabilidade necess·ria para que os danÁantes sejam autorizados a prosseguir. E, de fato, a energia dos que permanecem danÁando com o dia a espreitar me parece invej·vel: observei inclusive que alguns sequer pararam para um descanso ao longo de toda a noite. S„o os mais ìjogadosî, como vim a saber depois. A express„o ìjogaÁ„oî para nomear o que se desenrola nas pistas que ìfervemî d· a medida da focagem central que È depositada no corpo

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nestes contextos; daÌ ser este um lugar bom para pensar a aporia fundante do eu, entre ìcorpo vivoî e ìcorpo vividoî, ou entre o ìcorpo que eu tenhoî e o ìcorpo que eu souî (Cf. Ortega, 2003). Como argumenta Jackson (op.cit.: 1, traduÁ„o minha), o ìclubbing È um fenÙmeno profundamente visceral e corporalî, no qual ìo incremento sensual nos garante acesso ‡s modalidades suculentas e carnais de encontro socialî. Segundo o autor, configuram-se aÌ conhecimentos ìsÛcio-sensuaisî especÌficos, j· que ìa intensidade sensual dos clubes gera um corpo alternativoî (op.cit.: 5). Os termos ìnativosî do autor podem encontrar convers„o nas recentes investidas dos teÛricos do embodiment (Cf. Csordas, 1994; 2002), ou ainda em Bourdieu (1970; 1986) e seu conceito de habitus. Um conjunto de pr·ticas distintivas È elaborado neste tipo de divers„o: saberes, valores, classificaÁıes e certezas que se expressam em uma postura corporal especÌfica, e cujo poder e efic·cia devem-se justamente ao ìlugarî encarnado em que s„o alojados. Mas este habitus que poderÌamos chamar de ìintensivoî n„o anula nem substitui o habitus do corpo ìsÛbrioî, ìsadioî e ìracionalî que atua nos esforÁos de preservaÁ„o e ìextens„oî da vida, nos cuidados com a sa˙de e nas tentativas de prolongamento da juventude, no cultivo de uma carreira profissional e nos demais engajamentos de ìreproduÁ„o socialî dos ìsujeitosî. 15 Afinal, estes mesmos sujeitos cuja divers„o acompanho agora fazem outras coisas da vida quando n„o est„o ali: trabalham, estudam, cuidam de suas carreiras profissionais, administram relaÁıes familiares por vezes conflitantes, preocupam-se com a alimentaÁ„o e com as taxas de colesterol, freq¸entam exposiÁıes, cinemas e salas de psicanalistas, discutem polÌtica na mesa do bar, constroem e desfazem relacionamentos afetivos, e tematizam, ainda que tortuosamente, seus futuros. De modo que podemos dizer que ambos os habitus (se È que podemos falar apenas de dois) convivem e, como nos mostra Duarte (1999: 28), possivelmente ìsempreî conviveram - em um ìmovimento histÛrico de longa duraÁ„o que jaz no ‚mago da din‚mica da cultura ocidental modernaî -, sob a forma de uma tens„o fundante entre os ìinvestimentos no longo prazo e na duraÁ„oî

15 Em tempo: eventualmente teremos ìaspas demaisî neste trabalho, e se trata de uma estratÈgia deliberada. Como diz Viveiros de Castro (com. pessoal, 2006), se em geral o uso contido de aspas È recomend·vel, pelo que carregam de uma certa ìcovardia intelectualî, o abuso delas, quem sabe, pode recobrir-se de um ìvalor analÌtico surpreendentemente

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e a ìotimizaÁ„o do corpo (atravÈs da concentraÁ„o no prazer)î. A gest„o da adequada altern‚ncia de ambos, ou quiÁ·, como argumentarei mais adiante, a emergÍncia de seu acionamento simult‚neo como valor, dar· a medida da ìhabilidadeî (nos termos de Ingold, 2000) ou (n„o que se trate de um sinÙnimo) da ìcompetÍnciaî (nos termos de Deleuze, 1992) dos sujeitos. Habilidade ou competÍncia, na cena da pista em ìferveÁ„oî que podemos apreciar nesta minha primeira ida a campo, È justamente o que parece governar a montagem, operada conjuntamente pelos corpos em festa, do que È descrito e sentido como vibe. A vibe, referÍncia econÙmica a positive vibrations, È o resultado da combinaÁ„o harmoniosa - que exige a perÌcia de todos os envolvidos - dos diversos elementos que compıem a cena: a m˙sica, a decoraÁ„o dos corpos e do ambiente, a danÁa, o consumo de subst‚ncias diversas, as aproximaÁıes, ìchegadasî e ìpegaÁıesî que caracterizam as abordagens erÛtico-afetivas etc. Ao mesmo tempo em que precisa ser ìfabricadaî, a vibe È tambÈm condiÁ„o para o engajamento dos sujeitos na cena: È ela a respons·vel pela ligaÁ„o simp·tica dos corpos dos danÁantes, uma espÈcie de sintonia fina entre os presentes, que È descrita como energia ou vibraÁ„o positiva. Ao mesmo tempo feito e fato; ao mesmo tempo declarada como produto humano e concebida como fenÙmeno encompassador, a vibe aproxima-se assim do que Latour (2002) chamou de fe(i)tiche (faitiches), ao refletir sobre como aquilo que fazemos e construÌmos, se bem-sucedidos somos na empreitada, sempre nos ultrapassa ligeiramente, e assim, em recÌproca, nos faz e nos constrÛi. A vibe È um daqueles fenÙmenos em que fica patente que somos superados por aquilo que construÌmos. … algo que n„o se hesita em declarar que È e precisa ser fabricado, sendo ao mesmo tempo experienciada como algo vivo, ìanteriorî ou ìalÈmî, que j· È. 16 … algo que,

invertidoî. 16 ìJ· È!î, inclusive, È express„o corrente na cena, usada para referir justamente a uma idÈia de ìprontoî ou ìfeitoî (done), ao momento no qual a orquestra de articulaÁıes e combinaÁıes de programas se precipitam com toda a intensidade em uma sorte de ìarquitetura perfeitaî. Os programas - festas, viagens para ir a uma rave etc - embora sabidamente planejados, e declaradamente dependentes de um planejamento prÈvio, quando chegam a acontecer adquirem toda uma aura de leveza e de espontaneidade, autonomizam-se e desprendem-se dos esforÁos que possam ter custado. Uma vez executados os planos com competÍncia - para uma viagem, por exemplo, È preciso combinar o grupo de pessoas (escolhidas a dedo, pois que compartilhar„o a viagem para a

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como tenta me explicar meu amigo ìiniciadoî, combina de modo curioso propriedades contrastantes: È densa, È material, pode ser sentida e ìquase tocadaî; mas, ao mesmo tempo, È fugaz, invisÌvel, inef·vel, e neste sentido, imaterial. DaÌ os recursos hÌbridos acionados por ele para explicar - ìexplicaÁ„oî, por sinal, que sÛ È dada porque pergunto. E, assim que pergunto, reparo no absurdo da pergunta, reparo que estou a perguntar o impergunt·vel. Meu amigo, em desconcerto, recorre a gestos, risos, sorrisos, palavras vacilantes, a busca de um fundo comum de compreens„o (ìÈ isso aÌ que vocÍ t· captando!î; ìvocÍ t· sentindo isso?î) e, por fim declara: ìcara, n„o d·, precisa sentir pra entenderî. Seria uma espÈcie de mana, me pergunto ent„o, ou talvez uma vers„o - mais profana, menos coercitiva e menos compulsÛria - da hipnose coletiva dos ritos desenhada por Durkheim (1996) níAs Formas Elementares da Vida Religiosa? Seja como for, o que vejo na pista me parece de fato, impressionisticamente, uma espÈcie de vertigem com propriedades muito particulares, que se delineia como calculado movimento de arremesso de si:

ìcomo se fosse possÌvel estar sempre fervendo, mas nunca deixar-se evaporar; como se fosse possÌvel se jogar e n„o cairî (Cf. Almeida & Eugenio, 2004). Um ìequilÌbrio metaest·velî - sempre mexido, continuamente estimulado, constante apenas na inconst‚ncia. E digo isto porque se aciona ali, simultaneamente, muitos e diversos recursos para a sensibilizaÁ„o dos corpos e, no entanto, os sujeitos envolvidos permanecem como que nas ìbordas do excessoî: dificilmente assistimos a colapsos de algum tipo, dificilmente chega-se a um ponto de n„o-retorno ou, para usarmos termos cl·ssicos (Cf. Nietzsche, 1999), dificilmente estes sujeitos deixam de combinar suas vivÍncias dionisÌacas com o gerenciamento apolÌneo da vida. Nosso grupo atravessou as horas da festa sem ìpercebÍ-lasî, e esta sensaÁ„o de desorientaÁ„o temporal, de ìcontÌnuo presenteî, n„o È produto apenas do recurso de tapar as janelas para alongar a noite: o tipo de m˙sica contribui muito. Os sons eletrÙnicos, com os quais ent„o tinha

festa e a viagem dentro da festa, ativada pelas subst‚ncias); guardar dinheiro por meses (‡s vezes submetendo-se a trabalhos tempor·rios considerados menores, como em uma loja de shopping); comprar as ìsubst‚ncias ilÌcitasî; decidir a quantidade exata e a variedade delas a comprar, prevendo o intervalo entre as doses e as combinaÁıes que se deseja fazer; decidir onde transport·-las com seguranÁa; comprar roupas e acessÛrios; decidir trajetos e o rateio de gasolina; calcular o dinheiro para as refeiÁıes etc - estes como

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pouquÌssima familiaridade, talvez nenhuma, podem parecer excessivamente repetitivos aos ouvidos destreinados para apreci·-los. As fronteiras entre o inÌcio e o fim das m˙sicas s„o diluÌdas e sutis e tem-se a impress„o, a princÌpio, de que uma sÛ m˙sica est· tocando sem parar a noite inteira. Isto porque as ìquedasî n„o s„o colocadas ao final, como marcador caracterÌstico de tÈrmino e sucessivo recomeÁo. Ao contr·rio, as seq¸Íncias de batidas se estruturam de modo imprevisÌvel, e as pausas e cortes no ritmo podem ser efetuados onde menos se espera, no meio ou no auge, produzindo uma certa ìsensaÁ„o de montanha-russaî, como descreve uma das entrevistadas de Bacal (2003). AlÈm disso, o tempo do after-hours È marcado por um certo esmaecimento das fronteiras entre os grupos de amigos. Alguns grupos foram desfalcados ou desfeitos porque parte dos componentes j· foi embora, de modo que podemos ver ìsobreviventesî danÁando sozinhos, desgarrados, de olhos fechados, por vezes de braÁos abertos e pulando muito. H· mais liberdade para que estes se aproximem dos grupos que persistem; ìbaseadosî (cigarros de maconha) s„o compartilhados entre os ìamigos de noiteî; rostos desconhecidos sorriem uns para os outros e dividem tacitamente por instantes um trecho de m˙sica, sintonizando os movimentos do corpo. Na memÛria desta minha primeira noite de campo, n„o guardo o intervalo entre este momento e o instant‚neo seguinte, no qual a pista j· estava vazia e o dj prestes a encerrar sua funÁ„o. Surpreendo-me com o que se segue: o silenciar do som È marcado com palmas da platÈia dos ainda presentes. Sim, palmas para o dj que, como demonstra o trabalho cuidadoso de Bacal (idem) foi tornado artista, n„o sendo mais encarado como mero operador de som. A combinaÁ„o de batidas que funcionou ao longo da noite como fio condutor para aquela estranha coisa que ainda seria alvo de muita investigaÁ„o, a vibe, È lida como ìarteî e ingrediente fundamental da cena. ¿s oito horas da manh„, saio para o dia amanhecido com os ouvidos ainda surdos.

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! Escritura Acrob·tica ! Sobre antropologia, amizade e propostas de trabalho

Do rigor na CiÍncia ÖNaquele ImpÈrio, a Arte da Cartografia alcanÁou tal PerfeiÁ„o que o mapa de uma ˙nica ProvÌncia ocupava toda uma Cidade, e o mapa do ImpÈrio, toda uma ProvÌncia. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos n„o foram satisfatÛrios e os ColÈgios de CartÛgrafos levantaram um Mapa do ImpÈrio que tinha o tamanho do ImpÈrio e coincidia pontualmente com ele. Menos Afeitas ao Estudo da Cartografia, as GeraÁıes Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era In˙til e n„o sem Impiedade o entregaram ‡s InclemÍncias do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaÁadas RuÌnas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo o PaÌs n„o h· outra relÌquia das Disciplinas Geogr·ficas. (Su·rez Miranda: Viajes de Varones Prudentes, livro quarto, cap. XLV, LÈrida,

1658)

Jorge Luis Borges, ìMuseuî, O fazedor.

… sobre um territÛrio metropolitano que se inscreve este trabalho, uma antropologia, e aquilo de que ele trata, uns urbanos afetos 17 , a cujo funcionamento nomeei hedonismo competente. Ambos - este trabalho e aquilo de que ele trata - podem ser ditos desejos de mapa; ao mesmo tempo, ambos est„o a jogar ininterruptamente tambÈm com o decalque. 18

17 Afetos estes entendidos tambÈm sob a perspectiva a partir da qual Deleuze & Guattari tematizam o afecto, na qual ìo afecto n„o È um sentimento pessoal, tampouco uma caracterÌstica, ele È a efetuaÁ„o de uma potÍncia de matilha, que subleva e faz vacilar o euî (2002b: 21).

18 Valho-me aqui do contraponto entre decalque e mapa elaborado por Deleuze & Guattari (2002a) na medida em que funciona para pensar tanto o procedimento deste fazer-tese como aquele pelo qual d„o-se as ocupaÁıes da cidade que fazem aparecer a cena carioca. Nesta acepÁ„o, mapa È modo rizom·tico de proceder, por oposiÁ„o ao fazer decalque, arborescente. H·, contudo, um outro jeito de pensar o fazer-tese, ainda enquanto mapa, com o auxÌlio de Bateson (2000 [1972]). Neste caso, o mapa da tese, na relaÁ„o com o territÛrio que busca mapear, h· de operar-se como transferÍncia de diferenÁas. ìQuais s„o as partes do territÛrio que s„o transferidas para o mapa?î, se pergunta Bateson (op.cit.:457). ìSabemos que o mapa n„o È o territÛrio. (Ö) Se o territÛrio fosse uniforme, nada seria transferido para o mapa, a n„o ser suas fronteiras, o limite no qual o territÛrio deixa de ser uniforme contra uma matriz maior. O que realmente È transferido para o mapa È a diferenÁa, seja ela uma diferenÁa de altitude, de vegetaÁ„o, de estrutura demogr·fica, de superfÌcie, enfim, de qualquer tipo. S„o as diferenÁas que s„o produzidas no mapa. Mas o que È diferenÁa? Trata-se de um conceito muito peculiar e obscuro. Certamente n„o È uma coisa ou um evento. (Ö) Se comeÁamos a perguntar sobre a localizaÁ„o das diferenÁas, estamos em maus lenÁÛis. (Ö) Portanto, uma diferenÁa È uma entidade

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Tudo j· h· de ficar mais explÌcito, mas por ora È tempo de se dizer que a vertigem com que a cena carioca estende-se devorante pela cidade, vertigem de apagamento de marcadores 19 È aproxim·vel daquela a que este trabalho tambÈm viu-se entregue. Ele que havia de tentar desenhar um mapa sobre o mapa da cena, este que se alastrava e alastrava, quase a recobrir uma cidade - ou ao menos a ìaldeiaî da zona sul, ‡s vezes um pouco mais (e tambÈm, ao mesmo tempo em que um pouco mais, um pouco menos). … ao campo especÌfico da antropologia urbana que se endereÁa, pois, esta contribuiÁ„o. E por isso È daÌ mesmo gostaria de partir.

1. A cidade e as gentes: por uma antropologia ìdeî Na defesa de uma abordagem que venha a trabalhar antes ìterritorialidadesî que ìidentidadesî, Perlongher (2005: 267) retoma uma ìvelha polÍmicaî - como ele diz, ìmalgrado ëesquecidaí, talvez vigenteî -, a da antropologia da cidade versus a antropologia na cidade. A primeira nos conduz aos pioneiros trabalhos da Escola de Chicago, que focalizavam o ìprocesso de desterritorializaÁ„o das massasî (op.cit.: 268) no confronto com o contexto metropolitano. Tratava-se de fato de confronto na acepÁ„o destes investigadores - de ìluta pelo espaÁoî (nos termos da Ecologia Humana de Park, 1979) no ìempilhamento heterÛclito e esfregante de

abstrataî (op.cit.: 457-458; traduÁ„o minha). Nesta definiÁ„o de Bateson, emerge como irrealiz·vel a pretens„o totalizadora de um mapa que ìcoincida pontualmenteî com o territÛrio: o mapa da cidade n„o È a cidade. Precisamente isto, contudo, È o que permite que a cidade, pensada como informaÁ„o/diferenÁa, apareÁa no mapa. ìOs efeitos s„o produzidos pelas diferenÁasî (op.cit.: 458).

19 Esta que venho de tematizar no Instant‚neo DionisÌaco, mas tambÈm aquela que tem tornado cada vez mais possÌvel que a cena se ìmaterializeî eventualmente nos mais improv·veis lugares, mesmo em alguns ìnotoriamente heterosî, o que È mais not·vel atravÈs da presenÁa aberta de casais de meninas do que de meninos, e retornarei a esta quest„o. Como uma espÈcie de invas„o, da qual mesmo a mÌdia d· conta (vide os diversos seriados norte-americanos, como Will and Grace, L Word e Queer Eye for a Straight Guy; e tambÈm os casais de meninas nas recentes telenovelas brasileiras, alÈm das incont·veis matÈrias sobre a cena publicadas em revistas e jornais com uma freq¸Íncia por vezes semanal). Isto que aparece em fenÙmeno, que explode em uma fala de senso-comum - a que diz que vivemos hoje uma espÈcie de ìmodaî ou ìglamourizaÁ„o da homossexualidadeî, marcadamente a feminina - È algo que j· vem sendo tramado h· tempos. Como diz Caiafa (1985: 11), ìa cidade atingida por esses efeitos, tudo se fez imperceptivelmenteî. J· em minha primeira aproximaÁ„o ao universo da cena (Cf. Eugenio, 2003: 5) este operar por contaminaÁ„o se revelava: na afirmaÁ„o jocosa entre amigos, a de que ìo mundo È gayî (que parecia precisamente clamar pela explos„o do ìgayî como sentido, por transbordamento; se todos s„o, ninguÈm È); ou ainda na ìmoda do moderninhoî que estaria ìabrindo as portas do circuito a possÌveis ëcaretasí descoladosî, ao mesmo tempo em que estaria ìviabilizando a apropriaÁ„o ocasional de espaÁos os mais insuspeitos, convertidos momentaneamente em parte do circuito pela presenÁa ëexplanadaí

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nossas cidadesî (preciosa imagem de Perlongher, op.cit.: 267), a reger as relaÁıes interindividuais e a contribuir ao mesmo tempo para o afrouxamento dos ìlaÁos prim·riosî de sociabilidade e para a absorÁ„o dos ìsecund·riosî na impessoalidade das instituiÁıes burocr·ticas. Os efeitos desta ìperda abruptaî ou deste ìinelut·vel hiatoî - diagnosticados principalmente nas massas de imigrantes - revelavam-se na ìfragmentaÁ„o do sujeito urbanoî (Cf. Wirth, 1979), dada ao mesmo tempo como causa e efeito da ìvida mentalî (Cf. Simmel, 1979) metropolitana, e observ·vel em um ambiente citadino convertido em ìlaboratÛrio socialî. 20

ìO sujeito urbano era fragmentado - digamos sinteticamente - no caleidoscÛpio heterogÍneo do desdobrado leque da urbe, pela sua ades„o (ou aderÍncia) ‡s diversas ocupaÁıes e papÈis que marcavam seu tr‚nsito tresloucado pela metrÛpole vertiginosa. Isso afetava o prÛprio ego - o ego do sujeito como centralizaÁ„o unit·ria, autoconsciente na determinaÁ„o total de seus atos -, j· que o fragmentava, repetimos, na adoÁ„o aos v·rios papÈis situacionais, institucionais, domÈsticos, que perdiam-se, por assim dizer, nos labirintos selvagens da selva de cimento armadoî (op.cit: 269).

A inspiraÁ„o dos trabalhos da Escola de Chicago È algo que gostaria de reter - a retomarei adiante para dizer como. E isto a despeito das crÌticas que podem lhes ser imputadas, a saber, esse desejo ìcorrecionalî (que aparece no objetivo estratÈgico de controle da ìdesordemî urbana, ou na busca pelo equilÌbrio da ìbalanÁa biÛticaî de Park) e o ìsalto epistemolÛgicoî de um fisiologismo na apreens„o da ìurbe como variante autÙnomaî para o traÁar de ìperfis psicossociaisî (op.cit.: 267-268). A segunda abordagem, como demonstra Perlongher, apÛia-se precisamente neste ìcalcanhar de Aquilesî da Escola de Chicago, ìpressupondo que o essencial da abordagem antropolÛgica permanece

(aberta, explÌcita) de ëcasais-fluxoíî (op.cit.: 8-9).

20 Em conferÍncia sobre a Escola de Chicago, Becker (1996) nos d· conta do prodigioso resultado deste esforÁo, ou dos ìMapas Desmedidosî (como diz a epÌgrafe desta seÁ„o) nele gerados, que fizeram de Chicago a ìcidade mais pesquisada do mundoî (:183). Com efeito, as seguidas ediÁıes, atualizadas de dez em dez anos, do Local Community Fact Book, n„o eram outra coisa sen„o uma tentativa de (novamente a epÌgrafe) levantar ìum Mapa do ImpÈrio que tinha o tamanho do ImpÈrio e coincidia pontualmente com eleî. Vale transcrever uma anedota pessoal de Becker: ìNeste livro, que cobria todas as comunidades da cidade de Chicago conforme definidas pelo censo, cada comunidade recebia cerca de duas p·ginas de informaÁıes b·sicas extraÌdas das estatÌsticas censit·rias, incluindo temas como delinq¸Íncia juvenil, criminalidade, estatÌsticas sanit·rias, tudo o que se podia saber a respeito de uma determinada ·rea. De modo que quando se estudava uma ·rea em particular, bastava pegar o livro e, com dados dos ˙ltimos quarenta anos, dispor de uma vis„o histÛrica e estatÌstica de tudo o que se passara naquela regi„o. (Ö) Era um recurso fant·stico, mas nunca me ocorreu que essa informaÁ„o n„o existisse para todas as cidades, apenas para Chicago. Assim, quando me mudei para S„o Francisco para fazer pesquisa e quis comeÁar um trabalho, perguntei, candidamente, onde estava o ëcommunity fact bookí de S„o Francisco: ën„o temos esse livro aqui, sÛ em Chicagoí, me responderamî (op.cit.:

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[quando transposto ao meio urbano], a princÌpio, idÍntico a si mesmoî (op.cit.: 269) e buscando, pois, recortar na cidade grupos de ìpequena escalaî e de alegados contornos definidos, nos quais o ingrediente ìdesestabilizanteî da fragmentaÁ„o n„o viesse a se colocar como impedimento no projeto de compreens„o de ìidentidadesî. Uma quest„o de foco privilegiado pode, pois, dar conta da diferenÁa de perspectivas entre as duas propostas: enquanto as abordagens da cidade, territoriais, tenderiam a focar a desterritorializaÁ„o, as abordagens na cidade, ou de cunho ìcomunit·rio-identit·rioî (op.cit.: 270), tenderiam a focar a reterritorializaÁ„o. Assim procedendo, entretanto, eventualmente reintroduziam por contrabando a ameaÁa de alguma miopia analÌtica - ameaÁa contudo transformada, j· outra. QuiÁ·, contorn·vel por um olhar atento ‡ sutileza e ‡ viva variabilidade dos arranjos identit·rios, como veremos adiante com G.Velho. O coment·rio de Simıes ao texto de Perlongher pode ser ˙til aqui a fim de sintetizar a crÌtica:

ìA objeÁ„o principal [de Perlongher] dizia respeito a uma espÈcie de ëvÌcio de origemí essencialista do conceito de identidade: embora aparentemente pensada em termos contrastivos e situacionais, a identidade tendia a ser retratada como uma imagem coerente que os sujeitos necessariamente deviam construir de si mesmos, como se fossem entidades unificadas, fechadas e excludentesî (2005: 264).

Segundo Perlongher, a partir da dÈcada de 60, pelo menos no Brasil, predominam, por conta da Ínfase na cidade, trabalhos sobre ìbairros de periferia, favelas, grupos familiares ou, no melhor dos casos, grupos de limites mais ou menos definidosî (op.cit.: 270). ìSempre estudar a smallnessî, fÛrmula de Burton Benedict (apud Goldman, 1999c: 103) que se assenta, ela prÛpria, na tomada das sociedades ditas ìprimitivasî como paradigma persistente ao longo da histÛria da disciplina, n„o apenas enquanto ìmodelo reduzidoî, mas tambÈm, como salienta Goldman, ìmodelo no sentido de exemplo de um tipo de investigaÁ„o que poderia ser estendido a sociedades de outra naturezaî (op.cit.: 94). Na confecÁ„o de uma proposta de ìetnologia urbanaî, por conta da adoÁ„o das noÁıes de grupo e de comunidade, ìprocedia-se a um transplante, a uma transferÍncia (de outro lado, assumida na afirmaÁ„o mesmo do na) dos trabalhos sobre comunidades efetuados na ·rea historicamente forte da antropologia indÌgena ou colonialî (Perlongher, op.cit.: 270-271). Os requisitos enfileirados pelos idealizadores de uma ìetnologia urbanaî, tal

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como os dispıe sinteticamente Perlongher, eram contudo os de uma antropologia que pudesse dar conta da ìplurilocalidadeî da pr·tica social urbana, da ìheterogeneidadeî dos estilos de vida, da ìmultiplicidadeî das relaÁıes e dos cÛdigos em jogo, ao passo que, para tanto (e contraditoriamente), havia o pesquisador de se submeter a uma ìexigÍncia de homogeneidadeî: a ìetnologia urbanaî, argumentava-se, ìn„o pode se sujeitar a grupos cuja homogeneidade n„o est· manifestada em inst‚ncias de funcionamento real, mas procurar· apreender ëunidades reais de funcionamentoíî (op.cit.: 271-272). Como, ent„o, ìn„o pode ëinventarí falsas homogeneidadesî (ibidem) - ao menos n„o como intenÁ„o declarada -, entende-se o foco privilegiado que tendeu a adotar. 21 A polÍmica da cidade/na cidade, ìtraduzida em termos de um antagonismo entre interpretaÁıes: local X ëvari·vel explicativaíî, pÙde ser matizada, por exemplo, nos trabalhos de Gilberto Velho, que ìdemonstram um deslocamento da Ínfase primeira na definiÁ„o de cen·rio para a de cenaî, menos atravÈs de uma ìinvers„o substantiva, mas antes do privilegiamento de uma Ûtica mais atenta ‡s sutilezasî (Heilborn, 1986:

320; grifos meus).

ìUm certo tipo de definiÁ„o de antropologia urbana deve preocupar-se em descortinar a complexidade da vida metropolitana. Justamente sobre esse tÛpico desponta um dos seus desdobramentos mais interessantes, que È o da relev‚ncia do espaÁo, do local, como suporte para a constituiÁ„o da identidade dos grupos sociais que habitam na cidade. A antropologia, em geral, tem demonstrado o quanto o espaÁo È um elemento crucial na produÁ„o de identidade. Esta quest„o resulta particularmente central, quando o urbano È eleito como campo preferencial da investigaÁ„o. Tal escolha provoca e comporta uma dupla significaÁ„o, e proponho que ela permite a acoplagem do

21 Como sintetiza Goldman (op.cit.: 95), no enfrentamento deste impasse, aquele entre unidade e fragmentaÁ„o, duas abordagens podem ser discernidas: ìPor um lado, uma perspectiva ëinternalistaí que, fazendo abstraÁ„o da inserÁ„o do grupo estudado em um conjunto mais amplo, busca esgotar o conjunto de suas articulaÁıes interiores. Por outro lado, uma tentativa de explicar o grupo visado como uma espÈcie de efeito de forÁas que o ultrapassariam por todos os ladosî. Enquanto ‡ abordagem ìinternalistaî - a que tenderam os estudos urbanos brit‚nicos - aglutinam-se a idÈia de uma an·lise microscÛpica e a sustentaÁ„o da suposta autonomia do grupo estudado (recortado no tempo e no espaÁo), ‡ abordagem ìexternalistaî - que caracterizaria, por sua vez, a vertente norte-americana - corresponde a an·lise macroscÛpica e a tomada do grupo em quest„o (ìranÁo durkheimianoî) como reflexo da sociedade abrangente. De modo que ìa antropologia parece ter sempre oscilado entre uma ambiÁ„o totalizadora mais ampla do que a das demais ciÍncias sociais e um particularismo cuja min˙cia dificilmente encontra paralelo nas outras investigaÁıes sobre o fenÙmeno humanoî (op.cit.: 96). Pode-se dizer ainda, como observa Bech (1998: 216), que as sociologias urbanas desenvolvidas nos anos 70 e 80 (como por exemplo a de Castells, 1975) tenderam, por sua vez, a resolver o impasse atravÈs do privilegiamento de estudos ìde orientaÁ„o macro, marxista ou weberianaî, que ìrejeitaram firmemente ou ignoraram totalmenteî a cidade como espaÁo de vida: ìno m·ximoî tomaram-na como esfera - nas palavras de Castells citadas por Bech, ìreal, mas relativamente desimportanteî.

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binÙmio acima mencionado loca-unidade tem·ticaî (ibidem; grifos meus).

Talvez por nunca ter abandonado a inspiraÁ„o da Escola de Chicago (sem contudo deixar de lhe fazer as devidas crÌticas), nos trabalhos de G.Velho, perspicazmente, a ìurbe como variante autÙnomaî (Perlongher) - ou a ìrelev‚ncia do espaÁoî (Heilborn) - n„o se deixa eclipsar. Ao mesmo tempo, por ter aliado a inspiraÁ„o desta pioneira escola com outros desdobramentos - notadamente a fenomenologia de Schultz (1979), o interacionismo simbÛlico (Cf. por exemplo, Becker, 1970, 1973; Goffman, 1975, 1988) e um certo olhar existencialista (G.Velho, 1986: 16) -, a especificidade urbana aparece em seus escritos, precisamente, como permanentemente aberta e relacional: os ìgruposî atravessam-se uns nos outros; as ìidentidadesî est„o em constante negociaÁ„o; a convivÍncia do diverso, por fim, d· o tom - seja na divergÍncia do conflito e da contradiÁ„o, seja em arranjos idiossincr·ticos dotados de surpreendente harmonia. Na corda-bamba em que se coloca o investigador dos contextos urbanos, pois, credito com efeito ‡ leitura da obra de G. Velho a percepÁ„o afinada de que o que se passa no nÌvel dos fenÙmenos È multiplicidade que n„o se deixa aprisionar sob o signo de uma identidade pretensamente est·vel e congelada, seja esta ìindividualî ou ìgrupalî. N„o È outra coisa sen„o isto o que se depreende de suas ricas descriÁıes etnogr·ficas nas quais salta aos olhos ìa coexistÍncia de diferentes estilos de vida e visıes de mundoî (1994a: 14; grifo meu). Uma tal ìcoexistÍnciaî n„o È apenas a do compartilhar de um mesmo espaÁo urbano por muitos e diversos ìgruposî, mas d·-se no ‚mbito do prÛprio ìindivÌduoî - que, por assim dizer, revela-se, no nÌvel do vivido, n„o t„o uno e indiviso quanto a categoria o supıe. Como o prÛprio Velho j· sugeriu tantas vezes (Cf. em especial 1986 e, aÌ, destaque para o terceiro capÌtulo), ìo ponto mais relevante para esta discuss„o È a vivÍncia individual da heterogeneidadeî (:53; grifos meus).

ì… ao nÌvel das biografias de indivÌduos especÌficos que encontramos com mais vigor e dramaticidade a coexistÍncia de orientaÁıes e cÛdigos diferenciados. (Ö) Insisto, portanto, que sendo as diferenÁas entre grupos sociais, com fronteiras mais ou menos claras, detect·veis num plano mais tipicamente sociolÛgico, quando chegamos ao nÌvel individual passamos a um terreno forÁosamente inter ou transdisciplinar. (Ö) Percebe-se a complexidade da rede de significados ao nÌvel da biografia, suas contradiÁıes e seus conflitos. (Ö) … importante assinalar que um indivÌduo, em momentos e contextos especÌficos, pode apresentar comportamentos e atitudes classific·veis como

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novos ou modernos e, em outros, apresentar-se ligado a uma vis„o de mundo dita tradicionalî 22 (op.cit.: 53-54).

Como se vÍ, n„o seria exato (ou n„o seria tudo) dizer meramente que os modernos contextos urbanos caracterizam-se por um ìmulticulturalismoî, ou pela convivÍncia em contig¸idade de uma pluralidade de ìgruposî diferentes (cada qual, porÈm, dotado de nÌtidos, seguros e est·veis contornos) pelos quais transitariam os ìindivÌduosî (eles prÛprios tambÈm dotados de nÌtidos, seguros e est·veis contornos). FicarÌamos assim, como bem esclarece o trecho citado, apenas em um nÌvel ìtipicamente sociolÛgicoî. Ademais, o que viabiliza a consistÍncia de uma tal personagem, o ìindivÌduoî - a produzir ìilus„o biogr·ficaî (Cf. Bourdieu, 1986) a partir de um ìsÌsificoî esforÁo de sÌntese coerente da variabilidade do vivido - È menos o que podemos observar como fenÙmeno do que a efic·cia (entre os ìanalistasî e ìinterpretadoresî n„o menos que entre os ìnativosî) de nossa ìestrutura mÌticaî moderna - ou, tal como a nomeia Dumont (1993), a ìideologia do individualismoî, que terei oportunidade de revisar na Parte II (ver Cultivar-se). Este ìindivÌduoî no qual coexistem ìorientaÁıes e cÛdigos diferenciadosî pode ser dito em outros termos: os da multiplicidade tal como formulada por Deleuze & Guattari. 23 Isto se nos dispusermos a tom·-

22 Um significativo exemplo que pode ser dado desde j·, e que por sua ìradicalidadeî na conciliaÁ„o de supostos opostos È suficiente para ilustrar um procedimento que seguidamente se verifica entre aqueles com quem trabalhei, È o de um rapaz ìextremamente cosmopolitaî, que optou por n„o ter residÍncia fixa e mora ìpelo mundoî, trabalhando em empregos tempor·rios diversos e assim juntando dinheiro para seguir em suas andanÁas. Volta com freq¸Íncia ao Brasil, onde È acolhido por amigos ·vidos por suas novidades e prontamente integrado n„o apenas na cena, mas tambÈm na vida que aqui deixou (assim que chega, arranja em ìum passe de m·gicaî emprego, casa, carro e ìnamoricosî). Nunca teve um namoro fixo, e j· abandonou relacionamentos nos quais estava apaixonado por conta da primazia que concede ao ìseguir viagemî. Ao mesmo tempo, contudo, È adepto de uma espÈcie de seita mundial (digo assim porque n„o sei mesmo exatamente do que se trata, por mais que ele tenha tentado me explicar) cuja cartilha prescreve o n„o-uso de subst‚ncias consideradas ìdrogasî, uma rotina regrada e a escolha pela seita do par com que o sujeito deve casar-se, invariavelmente do sexo oposto. O rapaz relaciona-se com homens e mulheres, usa ìdrogasî e n„o pretende se casar. Narro sua histÛria porque, de passagem, ele sintetizou certa vez de modo not·vel como processa sua conciliaÁ„o: ìEu sou as duas pessoas mesmo, ou ent„o n„o sou nenhuma delas, ou ent„o sou v·rias outras tambÈm. … uma coisa, tipo: n„o conto para a pessoa da seita o que eu faÁo na noite e n„o conto para a pessoa da noite o que eu faÁo na seita. Mas, ao mesmo tempo, n„o È sÛ isso. A pessoa da seita tambÈm vai pra noite, est· e n„o est· ali quando a pessoa da noite est· beijando um cara. Elas se viram, eu me viro. Pode parecer estapaf˙rdio, mas funcionaî.

23 Sob esta perspectiva, o que entendemos por ìindivÌduoî aparece como circunst‚ncia ou processo e n„o como termo ou estrutura; como relaÁ„o/ìobjeto realî (relation) e n„o como relaÁ„o/ìobjeto lÛgicoî (rapport). Tomar aquilo que se nos aparece como ìindivÌduoî como atualizaÁ„o contingente ou local de uma virtualidade (que segue influente no horizonte do

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lo n„o como um ìdado irredutÌvelî ou como um ìmodelo implÌcitoî, mas antes como ìo resultado de um processo contingente, vari·vel, incompleto e parcial de individuaÁ„oî (Viveiros de Castro, 2006a: 2). … da ìgeometria vari·velî deste ìindivÌduoî que nos d· conta com agudeza a preocupaÁ„o de G. Velho em sublinhar que valores, visıes de mundo e procedimentos que aparentemente se erigem como distintos e impenetr·veis entre si podem encontrar meios de conciliar-se em simult‚neo, de coexistir em um ìmesmoî agente - o que d· a medida da margem de manobra de que dispıe este ìindivÌduoî conquanto declarado sujeito -, em arranjos que sÛ poder„o ser dados como ìcontraditÛriosî ou ìanÙmicosî de um ponto de vista pretensamente externo (ibidem). TambÈm È desta ìgeometria vari·velî que temos notÌcia no esquema proposto por Duarte (1986) para a apreens„o da ìidentidade socialî, segundo o qual esta se daria a apreender somente em um plano de situacionalidade, ao mesmo tempo distinto e englobante dos outros dois planos que a constituiriam: o da emblematicidade e o da contrastividade. Trabalhar na chave da multiplicidade e n„o na da pluralidade È afinar-se com um processo de ìmudanÁa recente de nossa sensibilidade conceitualî (Viveiros de Castro, ibidem). MudanÁa de ìinstrumentos coletoresî, como a diz Viveiros de Castro:

ìAs chamadas ciÍncias sociais contempor‚neas afastam-se cada vez mais rapidamente, segundo uma trajetÛria tangencial ao velho cÌrculo das representaÁıes macro-sociolÛgicas, das concepÁıes da sociedade como agÍncia transcendente aos indivÌduos, concepÁıes estas que embalaram nosso sono dogm·tico por mais de um sÈculo e meio. A Sociedade como ordem (institintiva ou institucional) dotada de uma objetividade de coisa contraposta a esse outro Grande Personagem que seria o IndivÌduo dissolve-se em favor de noÁıes como socialidade (Wagner, Strathern), que exprimiriam melhor o processo semiÛtico ëfractalí da condiÁ„o sÛcio-pessoal, ou conceitos como dispositivo e agenciamento (Foucault, Deleuze), que oferecem alternativas materialistas radicais ‡s noÁıes idealistas cl·ssicas de ëinstituiÁ„oí e de ërepresentaÁ„oí, ou em favor de construtos como coletivo e rede (Latour, Law), que ignoram deliberadamente a diferenÁa entre os componentes humanos e n„o-humanos de um socius cada vez mais microlÛgico e mais disseminado. Em lugar dos

vivido, enquanto potÍncia) implica, precisamente, em admitir n„o a ìrelatividadeî do ìindivÌduoî, mas sua ìrelacionalidadeî. Como diz Viveiros de Castro (com.pessoal, 2002), ìn„o È tudo que È relativo, mas È o ser que È relaÁ„oî. De modo que pensar o ìindivÌduoî enquanto engajamento moment‚neo È atentar para que a apreens„o da forma-indivÌduo (o eu que È dado pelo que n„o È, por oposiÁ„o ao ìoutroî que institui os limites do ìeuî, limites-contorno) n„o se imponha como algo que diga ìtudoî sobre ele; n„o oblitere sua apreens„o positiva como forÁa din‚mica, cujos limites aparecem em sua ìtendÍnciaî (limites-tens„o); um ìobjetoî aÌ definido por aquilo que ìÈ capaz de serî, e n„o por aquilo que supostamente ìÈî (como se este ìÈî fosse fix·vel, como se os termos preexistissem ‡ relaÁ„o e n„o fossem eles prÛprios relaÁıes). Com isso, n„o se trata absolutamente de negar a ìrealidadeî do ìindivÌduoî, mas de sublinhar o aspecto parcial e permanentemente ìincompletoî desta realidade face ao horizonte do possÌvel.

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velhos objetos discretos (no sentido matem·tico), separados de tudo aquilo que n„o eram (as outras sociedades, o meio n„o-social), internamente estratificados mas ao mesmo tempo ontologicamente homogÍneos, traÁam-se hoje teias sem escala, de geometria vari·vel e contornos indiscernÌveis, formadas por conexıes planas (i.e. n„o-hierarquizadas) que re˙nem (coletam) entidades e processos radicalmente heterogÍneos, isto È, ligados porque heterogÍneos e n„o apesar de o serem. Uma ontologia social rasa, em suma:

todos os entes e agentes que entram na teia entram nela no mesmo plano. Estamos, em suma, falando de multiplicidades, o modo de existÍncia cujo funcionamento corta pelo meio a dialÈtica do Um e do M˙ltiplo que, sob os mais variados avatares (Natureza e Cultura, IndivÌduo e Sociedade), comandavam a Antropologia ocidental atÈ bem poucoî (op.cit.: 1-2).

A chave da pluralidade È acionada tanto pela fala antropolÛgica cl·ssica - a de um ìmulticulturalismoî a cuja detecÁ„o a perspectiva relativista nos daria acesso; a da variedade atravÈs da qual se realizaria o invari·vel humano - quanto pela ìmodernidadeî ela prÛpria - o tempo moderno como aquele que se distingue pela abertura ao plural, que caminha ìdo mundo fechado ao universo infinitoî (como j· diz o tÌtulo da cÈlebre obra de KoyrÈ, 1979). 24 Ela n„o È diferente daquilo que descreve, 25 pois, tanto quanto a chave da multiplicidade aqui acionada n„o È diferente daquilo que pretendo com ela descrever, na retomada (afinada ‡ proposta de Perlongher) de uma j· outra antropologia da cidade: uma que, trabalhando na chave da multiplicidade, faÁa-o tambÈm atravÈs do recurso ao conceito de ìcÛdigo-territÛrioî sinalizado por Deleuze em seus Di·logos (1977) com Parnet. Se ìnossos instrumentos coletores est„o mudandoî (Viveiros de Castro, op.cit.: 1), n„o o fazem decerto gratuitamente, mas em conson‚ncia com transformaÁıes pelas quais est· passando um mundo

24 O manifesto anti-anti-relativista de Geertz (2001) pode nos dar a medida do impasse a

que tanto o relativismo quanto o seu questionamento nos transportam. Como bem sublinha

o autor, uma posiÁ„o anti-anti-relativista n„o seria uma defesa do relativismo, ìpalavra

desgastadaî ou ìgrito de guerra do passadoî (daÌ sua opÁ„o por uma dupla negaÁ„o, no anti-anti), mas uma investida contra os anti-relativismos, uma tentativa de destruir o pavor

do relativismo, ìe n„o a coisa em si, que penso meramente existir, como a Transilv‚niaî, dando-o como infundado na medida em que os males a ele atribuÌdos (como o subjetivismo

e o niilismo) ìna verdade n„o decorrem dele, e as recompensas prometidas a quem escapa

de suas garras, relacionadas sobretudo com um conhecimento pausteurizado, s„o ilusÛriasî (:47). Tanto a perspectiva anti-relativista se apresentaria como ìvers„o aerodin‚mica de um erro antigoî (ibidem) quanto tampouco funcionariam as investidas relativistas (sejam elas naturalistas ou racionalistas). N„o teria sido o relativismo (enquanto decorrÍncia inevit·vel de que n„o ficamos em casa e n„o nos contentamos com verdades caseiras: 67)

o que teria destruÌdo ìnossas certezasî, mas precisamente ìessa atraÁ„o pelo que n„o se

enquadra e n„o se conforma, pela realidade deslocada, que ligou-nos ao tema condutor da histÛria cultural dos ëTempos Modernosí (op.cit.: 65; grifos meus). ìExaminar dragıes, n„o domestic·-los ou abomin·-los, nem afog·-los em barris de teoria, È tudo em que consiste a

antropologia. (Ö) Tranq¸ilizar È tarefa de outros: a nossa È inquietarî, diz-nos Geertz (ibidem).

25 Como argumenta Appadurai (1996: 1), a ìmodernidadeî seria a um sÛ tempo fato e teoria; o Iluminismo, enquanto sua matriz histÛrica, teria pretendido gerar, acima de qualquer outra coisa, pessoas que, after the fact, desejaram tornar-se modernas.

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no qual participam. 26 Posso falar pelo meu trabalho: 27 n„o se trata de um levante caprichoso, mas de extrair as eventuais conseq¸Íncias da contingÍncia especÌfica da minha pesquisa; de levar a sÈrio a ocasi„o com a qual meu campo me confrontou. E de fazÍ-lo, sublinho, na perseguiÁ„o mesmo daquela sorte de fina sensibilidade que confere ‡ antropologia simultaneamente todo o seu charme e um aspecto de irremedi·vel ìciÍncia gaucheî: como se repete (pelo menos) desde os Argonautas do PacÌfico Ocidental (1976) - ou da cristalizaÁ„o do trabalho de campo como metodologia privilegiada da Antropologia -, n„o devemos cometer a deseleg‚ncia de levar as teorias prontas e limitarmo-nos a tentar encaix·- las, ainda que forÁosamente, em nossos ìdadosî. Assim, embora n„o de imediato, n„o demorei muito para dar-me conta de que os pressupostos de que dispunha como ìcartas na mangaî - tais como ìgrupoî e ìidentidadeî - n„o funcionavam em relaÁ„o ao que observava na cena carioca. Que eu n„o estava diante de um ìgrupoî È algo que se explicita desde o Instant‚neo DionisÌaco, com o qual iniciei este trabalho. Desde, portanto, minhas primeiras aproximaÁıes com um ìobjetoî de estudo que n„o se deixava sequer nomear, fugindo pois, ao mesmo tempo, tambÈm da ìidentidadeî - esta que, como nos diz Bourdieu (op.cit.: 70), tem no nome seu elemento encompassador mais constante e dur·vel; o nome como aquilo que informa as fronteiras do ìeuî, no mesmo movimento em que assegura sua ìconst‚ncia atravÈs dos tempos e uma unidade atravÈs do espaÁo socialî. Pois se eu n„o dispunha de um ìgrupoî a pesquisar, de acordo com a j· citada cartilha da ìetnologia urbanaî sintetizada por Perlongher, tampouco estaria autorizada a ìinvent·-loî. De modo que eu poderia mesmo dar os ìmaus lenÁÛisî como certos sen„o tivesse, por assim

26 Como comenta LÈvi-Strauss em entrevista a Viveiros de Castro (1998: 121), ìse me permite uma comparaÁ„o musical, eu diria que a antropologia tal como a conheci, tal como nossos mestres a praticaram, era tonal, e agora ela se tornou serial. Isto quer dizer que as sociedades humanas n„o significam mais nada fora de suas relaÁıes recÌprocas. Porque a nossa se enfraqueceu, porque ela mostrou seus vÌcios, porque as outras comeÁaram a trilhar o mesmo caminho que a nossa - isso È como as notas do sistema dodecafÙnico, elas n„o tÍm mais um fundamento absoluto, elas existem apenas em relaÁ„o ‡s outras. Enfim, È assim que as coisas s„o, teremos uma outra antropologia, como a m˙sica serial È uma outra m˙sica. Uma antropologia que ser· t„o diferente da antropologia cl·ssica como a m˙sica serial È diferente da m˙sica tonalî.

27 Obviamente, muitos outros defrontaram-se e defrontam-se com quest„o semelhante, e posso citar pelos menos dois belos trabalhos - o de Caiafa (1985) e o de Perlongher (1987) -, dos quais o meu dista cerca de duas dÈcadas, em que j· ent„o os autores consideraram

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dizer, convertido um problema no problema. … sintom·tico que meu ìgrupo-que-n„o-È-um-grupoî tampouco ostente uma identidade de ìvivas arestasî - para usar uma express„o de Duarte (com. pessoal). A cena carioca, ao contr·rio, aparece como fenÙmeno precisamente em sua imprecis„o, ou no tensionar de seus prÛprios limites (limites-tens„o), apresentando-se antes em diagrama do que em contorno (Cf. Deleuze & Guattari, 2004a); como ìresultadoî ocasional e contingente do desdobramento em deriva de seus agentes, eles prÛprios dados por suas relaÁıes - ou, mais sinteticamente, eles prÛprios relaÁıes. … sintom·tico, dizia. Isto porque a noÁ„o de ìsociedadeî, com a qual a de ìgrupoî partilha a mesma coluna classificatÛria, decerto n„o agoniza sozinha. Como nos diz Viveiros de Castro,

ìseu par perfeito, o IndivÌduo, o outro Grande Personagem do discurso socioantropolÛgico, n„o vai muito melhor das pernas. Ele deixou de ser um dado irredutÌvel - quando ao mesmo tempo se ëopunhaí ‡ sociedade e a constituÌa como nada mais que uma soma de indivÌduos - e um modelo implÌcito - quando a sociedade era concebida ao mesmo tempo como ëtranscendendoí os indivÌduos e como constituindo um Super-IndivÌduo dotado de consciÍncia, intenÁ„o, vontade e identidade. (Ö) Quanto ‡ idÈia t„o persistente da sociedade como super-indivÌduo, esta foi demolida por um duplo e concertado movimento: de um lado, sua defraÁ„o em m˙ltiplas escalas igualmente ësociet·riasí (a distinÁ„o cl·ssica entre os nÌveis micro - e macro - dos fenÙmenos sociais caminha rapidamente para a desapariÁ„o); de outro, a percepÁ„o de que a sociedade n„o pode ser uma espÈcie de indivÌduo porque o indivÌduo ele prÛprio j· È uma sociedade (aqui, a redescoberta de Gabriel Tarde vem sendo fundamental)î (op.cit.: 2).

Este ìgigantesco deslocamento do eixo estÈtico do Planeta Logos (ou pelo menos de sua antropo-noosfera)î (Viveiros de Castro, ibidem) d·-se afetado por um mesmo incaptur·vel fio sensÌvel 28 que, contemporaneamente, engendra como fenÙmenos agenciamentos que O. Velho (1991: 123) chama de ìnovos sujeitos sociaisî - estes podendo ser t„o aparentemente diversos quanto os freq¸entadores da cena carioca que pesquisei ou, como exemplifica o autor, adeptos de religiıes pentecostais ìem aceleradÌssima expans„oî. Aproximam-se, contudo, quando observamos como funcionam. Os ìnovos sujeitos sociaisî s„o, nos diz

premente, na relaÁ„o com seus ìobjetosî, recorrer a ìferramentas coletorasî alternativas.

28 N„o temos boa express„o para nomear isso que seria ìespÌrito de Èpocaî ou ìsinal dos temposî; que seria, se n„o fosse ao mesmo tempo tambÈm uma outra coisa a mais ou a menos - isso a que voltarei contudo seguidamente a me referir. Como diz Derrida (1971:

12), tratar-se ia de ìum estranho concerto cuja natureza consiste em n„o poder ser apresentado em toda a sua superfÌcie como um espet·culo para o historiador, se por acaso este tentar reconhecer nele a marca de uma Època, a moda de uma estaÁ„o ou o sintoma de uma crise. Qualquer que seja a pobreza do nosso saber a esse respeito, È certo que a pergunta sobre o sinal È ela prÛpria algo mais ou algo menos, em todo caso, diferente, de

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O.Velho, ìexatamente aqueles que para alÈm de nossa v„ ciÍncia juntam as pontas. Ou talvez atÈ duvidem (de novo!) que se trate de duas pontasî (ibidem; grifos meus). 29 E, precisamente por ìjuntarem as pontasî (n pontas, ìjuntasî em rizom·tico e sempre em aberto espalhamento), agem e acontecem antes como multiplicidades do que como pluralidades. Vejamos. A lÛgica do plural admite a combinaÁ„o e o arranjo, mas È ent„o de uma relaÁ„o entre termos/inteiros que se trata. A multiplicidade nomeia, por sua vez, sÌnteses que se d„o por contaminaÁ„o recÌproca de ìelementosî que j· (e de pronto) s„o eles prÛprios contaminaÁıes, as ìdiferenÁasî convertidas em gradaÁıes. S„o as sÌnteses disjuntivas, como as chamaram Deleuze & Guattari - um conceito a serviÁo antes de uma pragm·tica que de uma lÛgica. 30 Ou, como comenta Viveiros de Castro (ibidem), na adoÁ„o da perspectiva da multiplicidade, tratar-se-ia da ìcristalizaÁ„o de uma outra imagem do pensamento: a de um cromatismo generalizado - o gÍnio ou o demÙnio dos pequenos intervalos saiu da garrafaî. Para trabalhar nesta voltagem È que, em sintonia com a mencionada sugest„o de Perlongher, sugiro a retomada de uma certa antropologia da cidade. Uma que, adianto, n„o se define por oposiÁ„o excludente ‡ abordagem na cidade, mas antes segue a pista da conciliaÁ„o entre ambas (tal como praticada, como vimos, por G.Velho), admitindo que tal conciliaÁ„o afeta ambos os ìtermosî: por um lado, a abordagem da cidade

um sinal dos tempos. Sonhar reduzi-la a isso È sonhar com a violÍnciaî. 29 ìDescobrir nesse sentido quem s„o os novos sujeitos sociaisî, prossegue O.Velho, ìÈ matÈria para pesquisa por se fazer. (Ö) [e] È prov·vel que isso recorte a sociedade de maneiras inusitadas se comparadas com os padrıes usuaisî (op.cit.: 125; grifos meus). Com efeito a ìrecortaî - ou, digamos, a fractaliza. No entanto, acredita ele, se ìnada disso est· dadoî mas sim ìse fazendo em ziguezagueî, certo È que ser· preciso seguir duvidando: ìA d˙vida desreificadora, desencantadora, desmistificadora. Ao mesmo tempo instrumento da raz„o e crÌtica de suas pretensıes totalit·rias. Que capta da ciÍncia como paradigma para a modernidade o seu espÌrito vivo e n„o a mitologia cientificista, que embota a imaginaÁ„o e o espÌrito de aventura. Que n„o obriga a crer dogmaticamente para poder agir. Que entende que a transparÍncia e a univocidade dos significados, a Sociedade (com S maÌusculo) que se procura estabelecer para permitir a convivÍncia humana È, ao mesmo tempo, desej·vel e relativa. E que de fato os absolutos n„o s„o deste mundoî (op.cit.: 125-126; grifos meus). 30 Uma outra maneira de dizer a diferenÁa de natureza entre a lÛgica da pluralidade e a pragm·tica da multiplicidade È sublinhar que enquanto a primeira busca destrinchar mecanismos, a segunda descreve ìmaquinismosî, ou agenciamentos maquÌnicos. Enquanto ìa mec‚nica È um sistema de ligaÁıes de perto em perto entre termos dependentesî, a ìm·quina, ao contr·rio, È um conjunto de ëvizinhanÁasí entre termos heterogÍneos independentes. (Ö) A m·quina, em sua exigÍncia de heterogeneidade de vizinhanÁas, transborda as estruturas com suas condiÁıes mÌnimas de homogeneidadeî. O que define um agenciamento, assim, ìÈ o deslocamento de um centro de gravidade sobre uma linha

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cede em suas pretensıes esquadrinhadoras de cuspir ìMapas Desmedidosî; por outro lado, a abordagem na cidade cede em suas pretensıes de recortar um ìmicroî-reflexo, de acreditar t„o de partida na estabilidade dos contornos. Juntas, ambas fogem ou deslizam para um cartografar de tramas. De modo que esta antropologia da cidade retomada seria ìdaî em pelo menos dois patamares - ou pode ser dita de pelo menos duas maneiras. Primeiramente, por seu tom: esta antropologia da cidade se daria a partir mesmo de uma sorte de contaminaÁ„o recÌproca entre ìhistÛriaî e ìgeografiaî. HistÛria ìna acepÁ„o forte do termo tal qual estabelecida por Paul Veyne (1982)î na qual esta ìn„o designa um gÍnero ou parte do conhecimento cientÌfico geral, voltado para a descoberta de algumas leis especÌficas, mas um esforÁo profundo para atingir os processos de ëobjetivaÁ„oí que engendram, a cada Època e em cada sociedade, os ëobjetosí aparentemente naturais que os cientistas sociais costumam tomar como dados a trabalharî (Goldman, op.cit.: 113). Um tal fazer, atento ao ìsublunarî e ao ìvividoî, È, com efeito, na medida em que È invadido por um procedimento ìgeogr·ficoî, dispensando assim ìqualquer referÍncia privilegiada ‡ vari·vel tempo e, portanto, ao modelo diacrÙnicoî, sem tampouco apontar (j· que o geogr·fico È por seu turno invadido pelo histÛrico) ìpara um simples triunfo do modelo sincrÙnicoî: ìao contr·rio, o ëlugarí deixa igualmente de ser a referÍncia determinante de toda investigaÁ„oî (op.cit.: 114). Por um lado, uma atenÁ„o ao especÌfico (e n„o no que possa este ter de perene): enquanto histÛria invadida pela geografia, esta antropologia dedicar-se-ia ìao estudo de tramas em que o tempo e o espaÁo n„o s„o imprescindÌveisî. Por outro lado, uma atenÁ„o a tais tramas tomadas como deslocamentos, j· que ìfoi igualmente necess·rio que o plano histÛrico contaminasse o geogr·fico, fazendo com que este passasse a ser concebido de um modo din‚mico onde a mudanÁa e a transformaÁ„o tomam o lugar das ilusıes de estabilidade e fixidezî (ibidem). De modo que se trata de uma antropologia da cidade (no caso, de urbanos afetos) imediatamente porque, assim concebida, a antropologia sÛ pode mesmo ser uma

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antropologia de - no sentido de local e contingente; molecular. 31 Dito o tom, dizer agora quÍ antropologia da cidade È, pois, proposta aqui: sua estratÈgia de aÁ„o no que tange ao ìobjetoî deste trabalho, a cena carioca. N„o se trata de, como se fixou a imagem da perspectiva da cidade, tomar o urbano como ìcategoria explicativa per seî (mais caracterÌstica de Wirth, segundo O.Velho, 1979: 8). Mas sim de tornar a surpreender-se - e fortemente - com a afirmativa de Park (1979: 26), inspirada em Simmel, de que ìa cidade È um estado de espÌritoî, o urbano per se n„o bastando para revelar o que nele se processa precisamente por ser ele, o urbano, algo mais do que ele mesmo, ìalgo mais do que o amontoado de homens individuais e de conveniÍncias sociais, ruas, edifÌcios, luz elÈtrica, linhas de bonde, telefone etc; algo mais tambÈm do que uma mera constelaÁ„o de instituiÁıes e dispositivos administrativosî: a cidade como aquilo que aparece ìnos processos vitais das pessoas que a compıemî (ibidem). Surpreender-se com isto que parece uma obviedade ìjogada fora por motivo de trasteî. Quanto mais n„o seja porque, como dizem Deleuze & Guattari (2002b: 14), ìas idÈias sempre voltam a servir, porque sempre serviram, mas de modos atuais os mais diferentesî. Ou, como diz Manoel de Barros (2004: 47),

ìAs coisas jogadas fora por motivo de traste s„o alvo de minha estima. Prediletamente latas. Latas s„o pessoas lÈxicas pobres porÈm concretas. Se vocÍ jogar na terra uma lata por motivo de traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar. Por isso eu acho as latas mais suficientes, por exemplo, do que as idÈias. Porque as idÈias, sendo objetos concebidos pelo espÌrito, elas s„o abstratas. E se vocÍ jogar um objeto abstrato na terra por motivo de traste, ninguÈm quer pegar (Ö)î

Para executar uma tal operaÁ„o de resgate (n„o ignorando, decerto, que esta lata È tambÈm uma idÈia, mas concedendo que, dentre as idÈias,

31 ìO ëmacroí n„o È um somatÛrio, nem mesmo um produto simples, de in˙meros ëmicrosí justapostos; o ëmicroí, por sua vez, n„o È um ëmacroí reduzido a dimensıes que imaginamos f·ceis de controlar e esclarecer, o que permite falar em ëreflexoí ou ëmanifestaÁ„oí. Na verdade, a passagem do ëmacroí ao ëmicroí corresponde a uma efetiva mudanÁa de nÌvel, de modo que, como em fÌsica, as vari·veis que operam em um plano n„o s„o as mesmas que funcionam no outro. Mais que isso, o ëmicroí È o plano dos processos de objetivaÁ„o que fazem aparecer e que sustentam os ëobjetosí que encontramos no nÌvel macroscÛpico. (Ö) Trata-se na verdade de um ëprocesso de molecularizaÁ„oí consciente do ato de que se algum tipo de totalidade existe sÛ pode se localizar no plano de objetivaÁ„o, n„o no objetivadoî (op.cit.: 115).

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È daquelas que freq¸entemente foram mais lata do que idÈia, enquanto

outras, como a noÁ„o de identidade, freq¸entemente foram mais idÈias do que latas), lembrar de mais um ingrediente da noÁ„o de Park sobre a

cidade. Diz ele, de passagem: ìa cidade, vale dizer, o lugar e a genteî (op.cit.: 27; grifo meu). Precisamente no e que faz aparecer a cidade entre

o lugar e a gente (sendo, antecipo, que o lugar e a gente s„o tambÈm

relaÁıes) que residiria a proposta em pauta aqui. Precisamente no e revela- se a cidade como ìentidade vivaî (op.cit.: 28). Mais: precisamente no e

revela-se a cidade como fenÙmeno (no sentido empregado por Gell, 1998; 1999) contingente que aponta para uma relaÁ„o - esta que retomarei, logo mais, no (de)compÛsito onde/quem/como. O onde urbano sÛ acontece na contaminaÁ„o pelos quens que ìriscamî (negociaÁıes tracejadas a giz, como na imagem de Cort·zar, 1985, v.2: 95-96) a superfÌcie em seus deslocamentos e assim fazem cidade. O processamento destes quens, por sua vez, sÛ acontece na contaminaÁ„o pelo onde, este que adiante apresentarei, com a ajuda de Cicero (2005), como ìprincÌpio de desenraizamentoî - mas que desde logo pode ser dito de outro modo; j· est·, por exemplo, no ad·gio alem„o citado por Park, ìo ar da cidade liberta os homensî (op.cit.: 36). Toda uma ìtradiÁ„oî que (d)escreve a grande cidade como ìestado de espÌritoî pode aqui ser convocada a ocupar um mesmo plano, pois. Por um lado, o esforÁo de objetivaÁ„o da Escola de Chicago, inspirado em Simmel, no qual a urbe aparece como ìum grande, denso e permanente apinhamento de seres humanos heterogÍneos em circulaÁ„oî. Por outro lado, um certo esforÁo fenomenolÛgico, que encontra em Benjamin (1997) uma de suas mais sublimes expressıes, no qual a cidade aparece como ìuma sempre-mutante multid„o de estranhos variados movendo-se entre siî (Bech, 1998: 216; traduÁ„o minha, esta e seguintes). Sublinho que n„o dizem o mesmo (ou n„o o dizem do mesmo jeito), estas duas tomadas, e no que uma refrata ‡ outra talvez habite a j· mencionada proposta de Perlongher, tal como a minha. No deslizamento de ambas, temos a cidade como ìrotineiro mundo de estranhosî (na express„o de Lofland, 1973, retomada por Bech, ibidem) dotado (aspecto crucial para o argumento aqui) de um ìcomponente de aberturaî (op.cit.: 217) ou, sugiro, de um forte acento na acessibilidade e

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na propagaÁ„o - esta entendida nos termos de Tarde (1992), nos quais vital e social se aproximam no desejo antes de propagar-se que de organizar-se. E isto n„o apenas quando È de ìespaÁo p˙blicoî ou ìirrestritoî que se trata, mas ìna existÍncia simult‚nea e na dialÈtica de tais espaÁos p˙blicos e de mundos de estranhos apenas parcialmente abertosî (Bech, op.cit.; 218; grifo no original) - o que recentemente vem sendo agravado, por assim dizer, no verter desta cidade em uma telecidade (para Bech), ou na ìcidade superexpostaî de Virilio (1993a). A ìsuperfÌcie-limiteî da cidade, como nos diz Virilio, ìn„o parou de sofrer transformaÁıes, perceptÌveis ou n„o, das quais a ˙ltima provavelmente È a interfaceî (op.cit.: 9). Primeiro movimento: da cidade- fortaleza, dada por suas cercas ou muralhas (limites-contorno) ‡ sua reconfiguraÁ„o em cidade ìmetropolexî, na qual o aeroporto passou a encarnar a ì˙ltima porta do Estadoî. Contudo, tratava-se aÌ de um regulador das trocas e das comunicaÁıes ainda notadamente ìfÌsicoî. Virilio acentua que a construÁ„o de aeroportos internacionais teria sido, nas diversas grandes cidades do mundo, um dos imperativos fortes da dÈcada de 70: o aeroporto como ìpÛrtico-magnÈticoî na defesa da soberania nacional contra ìpiratas do arî (op.cit.: 7). ìDesde ent„o, n„o se trata mais, como no passado, de isolar pelo encarceramento o contagioso ou o suspeito, trata-se sobretudo de intercept·-lo em seu trajetoî (op.cit.: 8). Um movimento adicional de reconfiguraÁ„o urbana nos teria conduzido ‡ contempor‚nea cidade superexposta, na qual a incorporaÁ„o da interface da tela como inst‚ncia comunicativa teria operado a transfiguraÁ„o - aqui n„o nas palavras do autor, mas em palavras afins - dos limites-contorno (os da cerca ou ainda os do pÛrtico magnÈtico) em limites-tens„o. O atravessamento do urbano pela interface teria colocado em jogo precisamente a noÁ„o de dimens„o: ìse o espaÁo È aquilo que impede que tudo esteja no mesmo lugar, este confinamento brusco [na ubiq¸idade da interface] faz com que tudo, absolutamente tudo, retorne a este ëlugarí, a esta localizaÁ„o sem localizaÁ„oÖ o esgotamento do relevo natural e das dist‚ncias de tempo achata toda localizaÁ„o e posiÁ„o. Assim como os acontecimentos retransmitidos ao vivo, os locais tornam-se intercambi·veis ‡ vontade. (Ö) A instantaneidade da ubiq¸idade resulta na atopia de uma interface ˙nica. Depois das dist‚ncias de espaÁo e de tempo, a dist‚ncia-

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velocidade abole a noÁ„o de dimens„o fÌsica. A velocidade torna-se subitamente uma grandeza primitiva aquÈm de toda medida, tanto de tempo como de lugarî (op.cit.: 13). ìS˙bita fratura das formas inteirasî na topografia urbana, por conta da qual a ìtransparÍncia toma o lugar das aparÍnciasî (op.cit.: 19) na ascens„o de um ìespaÁo-tempo sintÈticoî (op.cit.: 20).

ìA localizaÁ„o e a axialidade do dispositivo urbano j· perderam h· muito sua evidÍncia. (Ö) Privado de limites objetivos, o elemento arquitetÙnico passa a estar ‡ deriva, a flutuar em um Èter eletrÙnico desprovido das dimensıes espaciais, mas inscrito na temporalidade ˙nica de uma difus„o instant‚nea. (Ö) Esta s˙bita revers„o dos limites introduz, desta vez no espaÁo comum, o que atÈ o momento era da ordem da microscopia: o pleno n„o existe mais, desvenda-se em uma falsa perspectiva que a emiss„o luminosa dos aparelhos ilumina. A partir daÌ o espaÁo construÌdo participa de uma topologia eletrÙnica na qual o enquadramento do ponto de vista e a trama da imagem digital renovam a noÁ„o de setor urbano. ¿ antiga ocultaÁ„o p˙blico/privado e ‡ diferenciaÁ„o da moradia e da circulaÁ„o sucede-se uma superexposiÁ„o onde termina a separaÁ„o entre o ëprÛximoí e o ëdistanteí, da mesma forma que desaparece, na varredura eletrÙnica dos microscÛpios, a separaÁ„o entre ëmicroí e ëmacroí. (Ö) O cinematismo propaga a ˙ltima aparÍncia de urbanismo, a ˙ltima imagem de um urbanismo sem urbanidade em que o tato e o contato cedem lugar ao impacto televisual. (Ö) Da estÈtica da apariÁ„o de uma imagem est·vel, presente por sua prÛpria est·tica, ‡ estÈtica do desaparecimento de uma imagem inst·vel, presente por sua fuga (cinem·tica ou cinematogr·fica), assistimos a uma transmutaÁ„o das representaÁıes. ¿ emergÍncia de formas e volumes destinados a persistir na duraÁ„o de seu suporte material, sucederam- se as imagens cuja ˙nica duraÁ„o È a da persistÍncia retinianaî (op.cit.: 9-19; grifos do autor).

Este È um ponto importante no desenhar em volante circuito da cena carioca: a intensa contaminaÁ„o pelo regime de funcionamento tecnolÛgico a desestruturar a capacidade ìgeodÈsicaî da arquitetura urbana, visÌvel n„o apenas em ambientes (ìp˙blicosî ou ìprivadosî) marcados pela ìco- presenÁa real/virtualî (virtual aÌ entendido restritamente como tecnolÛgico, e real, por oposiÁ„o, como ìfÌsicoî, ìmaterialî, ìconcretoî) de que fala Weissberg (1993), mas no nÌvel mesmo de sua operacionalidade nÙmade - aquela ìque se reterritorializa na prÛpria desterritorializaÁ„oî (Deleuze & Guattari, 2002c: 53) -, dada pela velocidade mais que pelo movimento, na qual ìa chegada suplanta a partida: tudo ëchegaí sem que seja preciso partirî (Virilio, op.cit.: 11; grifos do autor). Embora esta ìsuperexposiÁ„oî n„o seja tudo o que afasta a cena das zonas paulistanas de prostituiÁ„o masculina (das quais se aproxima na operacionalidade nÙmade, porÈm) estudadas por Perlongher - h· ainda uma not·vel reorganizaÁ„o do estigma, com o qual a cena conversa, decerto, mas de modo completamente diverso -, È aspecto fundamental para viabilizar seu

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funcionamento como montagem em ato, conferindo ao circuito em jogo aÌ uma marcante caracterÌstica volante e devorante, a qual retornarei. Vejamos primeiro a proposta de trabalho de Perlongher, para em seguida contemplar o que muda quando se propıe trazer o diagrama do autor para a cena carioca. Perlongher tem um modelo particular, por conta de sua tem·tica de trabalho, ao qual responder. Vale entrar neste assunto porque, atÈ certo ponto, trabalhar com a cena carioca tambÈm È confrontar-se (no plano das ìcartas na mangaî que n„o funcionam) com este mesmo modelo. Trata-se do modelo do gueto tal como foi reapropriado (a partir da noÁ„o formulada por Wirth) pelo, digamos, ìbraÁo acadÍmicoî 32 de um processo mais amplo de gay liberation levado a efeito a partir do fim dos anos 60 - como veremos na Parte II. Sua crÌtica endereÁa-se ‡ tentativa empreendida por Levine (1979) de ìoutorgar um estatuto epistemolÛgico a noÁ„o de gay guettoî (op.cit.: 273). Com efeito, com ìo out of the closets que o gay liberation intensifica com Ínfase, desencadeia-se um processo de desterritorializaÁ„o maciÁa dos homossexuais norte-americanos, que abandonam em massa os bairros straights para se radicar nos gay guettos de S„o Francisco, Chicago, Nova York, Los Angeles e nas grandes urbes americanasî (op.cit.: 274). Mas, como argumenta Perlongher, na confrontaÁ„o do modelo gay norte-americano com a persistÍncia (de geometria vari·vel, decerto) do modelo macho/bicha tropical (Cf. Fry, 1982) j· se dimensiona a validade limitada do gay guetto. A pretens„o de convertÍ-lo de fenÙmeno local em categoria analÌtica ou construto sociolÛgico ìpode implicar etnocentrismo (ou ëgaycentrismoí)î: ìincipiente universalismo, que combina bem com as pretensıes internacionalistas da moda gay e que desnuda sua dimens„o ideolÛgica, quando passamos dos guetos norte-americanos ‡s bocas locaisî (ibidem). 33

32 Um coment·rio de Fry (2000: 11) pode dar a medida de como comeÁavam a condensar- se estes que ora viriam a ser nomeados como ìestudos culturaisî, ora como ìantropologias nativasî: ìVi que a antropologia pÛs-moderna estava rumando para uma espÈcie de solipsismo. A sua origem calcada no encontro entre uns e outros diferentes estaria dando lugar a um novo ethos que privilegiaria encontros entre semelhantes; mulheres escrevendo sobre mulheres; homossexuais sobre homossexuais; negros sobre negros; subalternos sobre subalternos, e assim por diante. Pode ser que estivesse enganado, mas pressentia que essa tendÍncia sinalizava mais uma etapa na concretizaÁ„o e naturalizaÁ„o das identidades sociaisî.

33 Na mesma direÁ„o, comenta Fry (1987: 12-15): ìConfesso que mantenho minha posiÁ„o com a maior dificuldade perante meus opositores, que preferem acreditar que gay È guei

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… neste contexto que Perlongher sugere a retomada da noÁ„o de ìregi„o moralî proposta por Park.

ìAs populaÁıes que nessa regi„o transitavam, lembremos, n„o residiam, mas perambulavam pelo local, reuniam-se, nem tanto de acordo com seus interesses, mas na comunh„o de seus desejos e temperamentos, ou, mais cruamente, de seus vÌcios. Na ëregi„o moralí, heterÛclita na diversidade das fugas que, em seu seio, ‡ maneira de uma v·lvula de escape que liberasse os impulsos íreprimidos pela moral socialí, se refugiam, proceder-se-ia, ao mesmo tempo, a uma canalizaÁ„o/viabilizaÁ„o e a uma íreterritorializaÁ„o relativaí dos impulsos e trajetÛrias desterrados, proscritosî (op.cit.: 273-4).

O gueto paulistano (ou as bocas) n„o compartilha sen„o o nome com

o gay guetto norte-americano. E precisamente porque funciona de modo outro: È ìhiperterritorializaÁ„o em movimentoî (ibidem), aparece no trottoir dos michÍs, na deriva dos vagabundos, no ruÌdo silencioso das negociaÁıes, no ìmovimento brownianoî de uma perambulaÁ„o desejante de agentes que, eles prÛprios, tampouco s„o fix·veis. Trata-se de ìuma territorialidade itinerante que n„o se subscreve a uma fixitude residencialî (ibidem); que aparece, pois, em seus agenciamentos, na inesgotabilidade do desejo. Neste funcionamento temos descrita tambÈm a cena carioca - tambÈm contingente; tambÈm infix·vel; tambÈm territÛrio itinerante. A cena n„o faz contorno - e tampouco o fazem as bocas. naquilo que foge, no que escapa. Perlongher se pergunta, como tambÈm me perguntei, assustada, diante deste ìobjetoî t„o arredio: ìse a territorialidade È itinerante, como cartografar as beiras e a consistÍncia dessa ëtriboí ou do ëbandoí?î (op.cit.:

275). E pondera, na seq¸Íncia:

ìImpıe-se constatar que, a esta altura, n„o È possÌvel continuar pensando o sujeito como sujeito unit·rio, mas como segment·rio, fendido por segmentaÁıes bin·rias e por fluxos moleculares. (Ö) Superficial e empiricamente, o mesmo sujeito ëindividualí participa, ao mesmo tempo, de redes de sociabilidade diferenciadas. Fragmenta-se atÈ tal ponto na diversidade

em todos os lugares e todas as Èpocas. Assim, Alexandre, o Grande, Leonardo da Vinci e Oscar Wilde, sÛ para citar alguns, s„o apenas os mais ilustres de uma espÈcie de linhagem de gays, cada um compartilhando a mesma essÍncia, que seria um dado da natureza. Ou seja, o modelo anglo-sax„o dos homossexuais, bissexuais e heterossexuais teria aplicabilidade universal. De fato, este enfoque tem um grande apelo. Ele permite, por exemplo, entre outras coisas, que o gay de hoje possa se ver como um, numa longa linha de gente, que sofre perseguiÁıes, mas que sobrevive, graÁas ‡ persistÍncia e a uma descomunal e sensibilidade. Assim, ele pode inspirar aqueles que lutam para eliminar a discriminaÁ„o contra o amor homoerÛtico. (Ö) Os michÍs est„o sob o ataque da polÌcia; mas o mundo do qual fazem parte, o mundo dos homens, bichas, sapatıes etc, est· sob o ataque acirrado da modernidade. Uma cultura inteira est· sob a mira n„o sÛ da polÌcia mas de todos aqueles que aderem ao esquema que chamei acima de ëanglo-sax„oí, mas que È, de fato, das camadas dominantes e protagonistas-mores da ideologia individualista de todos os paÌses modernos. (Ö) NÈstor sabe que estes dois desejos [o ësocialmente aceit·velí e o ëmalditoí] (h· mais que dois, e sÛ faÁo caricatura por imperativos expositivos) se constituem um ao outro, na medida em que ambos surgem simultaneamente num mesmo indivÌduo (exceto no modelo individualista-moderno)î.

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de pr·ticas sociais nas quais desempenha - concedamos - um ëpapelí, que a idÈia de uma unificaÁ„o egocÍntrica, como ontologia liberal, autoconsciente, pulveriza-se na multiplicaÁ„o de seus repartes. Nas trajetÛrias marginais, em sua dificuldade ou impossibilidade (Ö) de articular uma identidade, essas tendÍncias ëesquizoí recrudescem, j· que a avers„o ou o relativo estranhamento a respeito das convenÁıes da ordem, da famÌlia ou do trabalho enfraquecem, tornam frouxas, ou, pelo menos, inconstantes, as adesıes ‡s capturas institucionais caras a Park, ou ainda, ‡s domÈstico-bairrais das teorias da comunidade ëprotegidaí, que elide, correlativamente, as fugas dos tr‚nsfugasî (ibidem).

Adiemos apenas por mais alguns par·grafos a tematizaÁ„o de que, na aproximaÁ„o que proponho entre o funcionamento da cena e o das bocas, a diferenÁa produz diferenÁa (Bateson, op.cit.: 459); isto È, de que o diferente crucial do ingrediente marginal È o que catapulta, em grande medida, a diferenciaÁ„o entre essas duas ocupaÁıes-que-fazem-cidade - diferenciaÁ„o que apenas em parte, e um tanto empobrecidamente, aparece no argumento (Cf. Simıes & FranÁa, 2005) de que o ìmercadoî teria invadido e implodido o ìguetoî (h· na cena a fala consensual que declara o gueto uma sorte de ìantepassadoî seu; Cf. Palomino, 1999, por exemplo). De volta: na coleta tentativa destes agenciamentos, a noÁ„o de ìcÛdigo-territÛrioî (Deleuze & Parnet, 1977: 152) pode ser recrutada. Ela opera particularmente bem quando colocada em relaÁ„o com o desejo, justo aquilo que destes agenciamentos busco captar. N„o se trata de fixar o desejo como nascendo de uma falta ou de uma lei, nem como uma realidade espont‚nea e natural, nem em sua consumaÁ„o como prazer - estes que seriam ìos trÍs contra-sensos sobre o desejoî de que nos falam Deleuze & Parnet (op.cit.: 125). Trata-se de tom·-lo em sua dimens„o maquÌnica, de funcionamento ìsobre um plano de imanÍncia ou de composiÁ„o que deve ser ele mesmo construÌdo ao mesmo tempo em que o desejo agencia e maquinaî. Sob este prisma o desejo aparece como ìoperador efetivo, que se confunde a cada vez com as vari·veis de um agenciamentoî (ibidem; traduÁıes minhas). N„o se trata de negaÁ„o, de declarar uma falta - ausÍncia de sujeito, de indivÌduo, de grupo, de identidade ou outros que tais - nos agenciamentos que busco mapear. Antes, talvez, de flagrar uma sorte ìimprecis„oî (perante estas categorias), de verific·-la em sua positividade. ìQue confus„o curiosa, a do vazio com a faltaî, comentam Deleuze & Parnet (op.cit.: 108-109).

ìParecia-nos que o desejo era um processo e que ele descrevia um plano de

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consistÍncia, um campo de imanÍncia, um ëcorpo sem Ûrg„osí, como dizia Artaud, percorrido de partÌculas e de fluxos que escapam tanto dos objetos como dos sujeitosÖ O desejo n„o È, portanto, interior a um sujeito, tampouco tende para um objeto: È, estritamente, imanente a um plano ao qual ele n„o preexiste, a um plano que precisa ser construÌdo, onde partÌculas se emitem, fluxos se conjugam. SÛ h· desejo quando h· desdobramento de determinado campo, propagaÁ„o de determinados fluxos, emiss„o de determinadas partÌculas. Longe de supor um sujeito, o desejo sÛ pode ser atingido no ponto onde alguÈm È privado de poder dizer Eu. Longe de tender para um objeto, o desejo sÛ pode ser atingido no ponto em que alguÈm j· n„o procura ou j· n„o apreende um objeto e tampouco se apreende como sujeito. Objetam, ent„o, que um desejo assim È totalmente indeterminado, e È ainda mais penetrado pela falta. Mas quem È que os faz crer que perdendo as coordenadas de objeto e de sujeito lhes faltar· alguma coisa? Quem È que os leva a crer que os artigos e pronomes indefinidos (um, se), as terceiras pessoas (ele, ela), os verbos infinitivos s„o os menos indeterminados do mundo? O plano de consistÍncia ou de imanÍncia, o corpo sem Ûrg„os comporta vazios e desertos. Estes, porÈm, fazem ëplenamenteí parte do desejo, e n„o abrem nele falta algumaî (op.cit.: 108).

A noÁ„o de um cÛdigo-territÛrio a operar enquanto dispositivo coleta de modo eficaz a variabilidade das geometrias a que chamamos ìsujeitoî (coleta, digamos, a circunst‚ncia do ìsujeitoî), dada pela trajetÛria contingente de m·quinas desejantes que ìescrevemî cÛdigo no ato de seu deslocamento sobre um territÛrio - de tal modo que o territÛrio È somente na medida em que È codificado, assim como o cÛdigo È somente na medida em que È territorializado (e, diga-se, este È n„o È, ele prÛprio, uma sorte de dura cristalizaÁ„o; antes est· sempre sendo, e a cada vez). Adotar uma tal perspectiva para pensar as trajetÛrias praticadas nas bocas ou na cena n„o È ìeliminar o sujeitoî, mas È antes afirmar aquilo que se entende por sujeito como efeito e n„o como causa (Zourabichvili, 1996: 111): o ìsujeitoî como acontecimento; o ìsujeitoî como atualizaÁ„o do cÛdigo- territÛrio. Isto no patamar dos agenciamentos maquÌnicos de desejo, do que acontece no e faz acontecer o plano de consistÍncia ou imanÍncia. Ademais: enquanto dispositivo, o cÛdigo-territÛrio desenha, em funcionamento, um plano de organizaÁ„o ou transcendÍncia, agenciamento coletivo de enunciaÁ„o. Neste patamar, sintetiza Perlongher (op.cit.: 276), seria possÌvel distinguir dois elementos: ìuma sobrecodificaÁ„o - surcodage, cÛdigo de cÛdigos - e uma ëaxiom·ticaí, que regula as relaÁıes, passagens e transduÁıes entre e atravÈs das redes de cÛdigos, que por sua vez ëcapturariamí os corpos que se deslocam, classificando-os segundo uma retÛrica, cuja sintaxe corresponderia ‡ axiomatizaÁ„o dos fluxosî. Ao recorrer a tais termos, Perlongher os coloca como via alternativa para a an·lise de uma tem·tica que, via de regra, vinha sendo abordada

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atravÈs da chave ordem/desordem. Se È possÌvel dizer que a ìtransgress„oî praticada nas bocas, conquanto ìdesordemî, È tambÈm ìordenadaî - È desterritorializaÁ„o da conjugalidade burguesa e da ordem familiar, mas reterritorializa-se em cÛdigos internos ao gueto, todo um outro esquadrinhamento das condutas - isto no entanto n„o È tudo; n„o È suficiente para dizer a positividade do que se passa, j· que ìpensar em desordem implica fazÍ-lo a partir de uma ordem que ao ser negativizada - como incluÌdo/excluÌdo - se impıeî (op.cit.: 278). No entanto, eis que as vivÍncias n„o s„o nunca mera ìrespostaî; para alÈm, ìessas vidas ëdesordenadasí est„o - permita-se a tautologia - a serviÁo da ëdesordemíî (op.cit.: 277).

ìEsse tresloucamento da prostituiÁ„o, do crime, da licenciosidade de busca permanente de sua derruiÁ„o, est· jogado ao desabe, para que, no estrambelho da l˙brica sordidez, esplenda com mais estremecedora reverberaÁ„o a intensidade do desejo, a petite mort do potlach libidinalî (ibidem).

Ou: ìn„o h· menos (moins) sen„o (plus) na idÈia de n„o ser que na de ser; na desordem que na ordemî (op.cit.: 278). De modo que h· uma dimens„o que escapa ‡ chave da ordem/desordem: a do funcionamento irredutÌvel, aquela a que se ascede ao ìtomar os acontecimentos e as pr·ticas sociais a partir da forÁa que eles encarnam em si, de sua prÛpria, especÌfica e intransferÌvel singularidade - que È, simultaneamente, uma multiplicidadeî (op.cit.: 278). A singularidade nomeia a especificidade de um funcionamento, sua diferenÁa que transborda do mero ìpertencimento grupalî ao mesmo tempo em que o viabiliza: ìligados porque heterogÍneos, e n„o apesar de o seremî, repetindo uma j· citada passagem de Viveiros de Castro. A multiplicidade, por sua vez, efetua-se no funcionamento em bando, matilha, n„o se dando a apreender pelos ìindivÌduos isolados nÙmades personalÛgicos, mas como agenciamento coletivo, em que o que conta È o togetherness, o estar junto, o entre deux, na microscopia da derivaî (op.cit.: 279).

ìSob essa perspectiva, pode-se abordar o problema representado pela capacidade, exacerbada nos circuitos marginais, de o mesmo indivÌduo particular participar, alternativa ou erraticamente, de diversas redes, algumas delas ënormaisí. S„o os funcionamentos desejantes do campo social, os fluxos, as linhas de fuga que atravessam o socius, que arrastam os indivÌduos, escandem-nos, drapeiam-nos, envolvem-nos. N„o s„o os indivÌduos - e essa afirmaÁ„o È dura - os que decidem ou optam a partir de um ego autoconsciente, os que constroem, por apelar a um clichÍ, suas identidades e suas representaÁıes. Eles participam de funcionamentos desejantes, sociais, que os desbordam; em todo caso, como diz Paul Veyne (1982: 197), esse

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desejo È o princÌpio de todos os outros afetos; a afetividade, o corpo sabe mais do que a consciÍncia. As fugas marginais (Deleuze: ìnuma sociedade tudo fogeî) s„o, ent„o, fugas desejantesî (op.cit.: 279-280).

… tempo de retomar a cena carioca. H· de se posicionar perante algo semelhante no que toca ‡s possÌveis vias de ìcompreens„oî da cena como ìrespostaî a uma ìsociedade englobanteî: algo como dizer que se ali declara-se que n„o h· ìidentidade sexualî fixa, n„o sÛ isto sÛ È possÌvel por contraste com alguma(s) outra(s) identidade(s) consideradas fixas, como este mesmo contraste impıe quase de imediato que o desejo de n„o- identidade escorra irresistivelmente para alguma identidade. N„o que assim n„o seja - mas, novamente, n„o È tudo. TambÈm a quest„o ordem/desordem atravessa a cena, e tambÈm sob este aspecto È possÌvel dizer - no patamar da singularidade como no da multiplicidade - que conciliaÁıes as mais diversas entre ìpapÈisî pertencentes ‡s colunas opostas do ordenado e do desordenado encontram jeitos de acontecer. … aqui, no entanto, que mais notadamente a cena se distancia das bocas: na medida em que os agenciamentos na cena inscrevem-se simultaneamente na ordem e na desordem, implodindo de pronto a bipartiÁ„o, por contaminaÁ„o recÌproca de ìambasî . Inexato dizer que seriam duas e que ìao fimî da operaÁ„o deixariam de sÍ-lo; a operaÁ„o ela prÛpria procede na sÌntese disjuntiva. DaÌ que a cena n„o se faz como ìterritÛrio marginalî. N„o se trata de um gueto - nem ‡ moda brasileira, nem (ainda menos) ‡ norte-americana. Talvez por isso, no lugar da ìpaix„o pelo cÛdigoî que Perlongher (op.cit.: 281) fareja nas bocas, da proliferaÁ„o barroca de nomenclaturas para uma ìreterritorializaÁ„o perversaî, da hipercodificaÁ„o dos encontros, dos atos, das posiÁıes sexuais, das preferÍncias; a cena acontece atravÈs de uma persistente retirada do nome. 34

34 No entanto, se as vivÍncias erÛtico-afetivas esquivam-se do nomear, a profus„o de

nomes transfere-se para os estilos de m˙sica eletrÙnica, para a instabilidade microscÛpica,

a permanente e preciosista revis„o das nomenclaturas, o discordar sistem·tico. Um

exemplo pode ser dado na prÛpria seleÁ„o de m˙sicas para compor o CD-Anexo Sortimento: eu mesma n„o me sentia suficientemente ìatualizada no debateî para fazer a escolha, e pedi a contribuiÁ„o de duas pessoas, no que fui generosamente atendida. Elas convocaram a ajuda de mais um ìespecialistaî, e juntos os trÍs ìdiscordaramî durante algumas semanas, n„o apenas sobre o que era ìo melhorî de cada estilo, mas tambÈm

sobre o quÍ pertencia a cada estilo. E isto quando as prÛprias categorias sobre as quais fiz

a consulta eram as mais ìsimplesî: house (quando este poderia ser acid, deep, hard,

progressive, french, garage, nu, latin, minimal, techÖ), techno (quando este envolve variantes tais como hardcore, big beat, minimal, breakbeat, jungle, drumënëbassÖ), electro (ebm, nu, electroclashÖ), trance (ambient, goa, hard, progressiveÖ) e ìm˙sica para

chilloutî. Uma espÈcie de ìverdade sobre a m˙sicaî (parafraseando a foucaultiana ìverdade

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Uma outra cidade, pois, aparece atravÈs da ocupaÁ„o ìcena cariocaî. N„o a cidade marginal, o l˙mpen, o lixo, a escÛria, a sujeira, a perversidade - se persistem estes ingredientes na cena, o fazem mesmo na condiÁ„o de ingredientes desterrados, instrumentalizados para a ìbrincadeiraî, em ato estetizante que, no entanto, n„o prescinde de uma Ètica; antes, ao contr·rio, dispıe de Èticas em profus„o (ponto ao qual ainda retornarei). A fixada ìregi„o moralî de Park vem, neste movimento, a dotar-se de itiner‚ncia, e a cena carioca pode, justamente, ser descrita nestes termos:

os de uma regi„o moral volante. Mas tambÈm, acrescente-se, devorante. Pois tanto È capaz de instantanear-se em lugares os mais diversos como tende, nesta sua cartografia volante, a contaminar n„o apenas um ìprevisÌvelî circuito, mas tambÈm ìlugares impossÌveisî - de feiras- hortifrutis a supermercados, de museus a cinemas, de ìpacatosî bares e restaurantes a shopping centers etc; para alÈm dos clubes e festas do ìmundinhoî. No que n„o h·, no limite para o qual tende a cena, ìlugares impossÌveisî. Nisso ela afasta-se das bocas, que a despeito de seu aspecto gasoso, de aparecerem na deriva dos tr‚nsfugas, perfaziam-se de todo modo ìdentroî da mancha da marginalidade e, territorialmente, do centro da cidade de S„o Paulo: com efeito, o termo mancha, cunhado por Magnani (1996), funciona bem como imagem aqui, pois que se trata de um aglomerado dotado de certa estabilidade na paisagem urbana, reconhecida n„o apenas pelos insiders mas tambÈm pelos outsiders, mas cujas fronteiras nem por isso deixam de ser difusas e infix·veis, irregulares e respingantes. Mais: o duplo aspecto volante e devorante destas eventuais ìregiıes moraisî em que se instantaneia a cena n„o deixa intocada a adjetivaÁ„o ìmoralî. Ela tambÈm, a moralidade em jogo, n„o È uma ìcontra-moralî, um ìcÛdigo interno ao guetoî, que se faz por oposiÁ„o a uma suposta moral englobante (burguesa, familiar). Acontece, antes, nos microscÛpicos deslocamentos que promove: varia por gradaÁ„o, ao invÈs de alternar entre espÈcies. A ìinvas„oî. Por vezes, na circunstancial tomada de posse de um ìlugarî, a cena como invas„o aparenta-se ‡ proposta da flash-mob que surgiu recentemente no horizonte contempor‚neo como modalidade de

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manifestaÁ„o ìpacÌficaî, ìl˙dicaî e ìperform·ticaî, cuja instantaneidade fazia-se notar tanto na aglomeraÁ„o quanto na dispers„o de um contingente heterogÍneo, momentaneamente engajado em um ato inusitado (como tirar a roupa em um parque, ou danÁar em frente ‡ sede de um banco, por exemplo) e sem ligaÁ„o ìÛbviaî ou ìimediataî com a suposta reivindicaÁ„o. Sublinhe-se que o paralelo faz-se na operaÁ„o em si, e n„o no compartilhamento de alguma sorte de engajamento ìpolÌticoî nos atos da cena. … assim que, por exemplo, a ìcontaminaÁ„oî de uma filial de supermercado pela cena pode dar-se pela circunst‚ncia ìestapaf˙rdiaî da realizaÁ„o entre as prateleiras de enlatados de um desfile de moda de uma grife cool. Ou que um show, uma festa, uma reuni„o a princÌpio ìcaretasî podem subitamente ser ìtomadosî pela cena no pipocar de beijos explÌcitos entre casais de moÁas (e tambÈm de rapazes, mas menos visivelmente, sobre o que reflito logo abaixo). Contudo, È quase difÌcil fazer as palavras de que disponho dizerem estes movimentos da cena, porque a ìcontaminaÁ„oî de ìlugares heterosî d·-se reciprocamente ‡ ìcontaminaÁ„oî de ìlugares gaysî, e mal faz sentido falar dos dois como tipos diferentes e discretos (pelo menos) enquanto se faz cena. H· mais; tambÈm na contaminaÁ„o das ìfunÁıesî de cada lugar aparece a cena: s„o clubes que vendem roupas e dispıem de um sebo de livros; cabeleireiros que tambÈm s„o cybercafÈs; brechÛs que cedem seus espaÁos para a realizaÁ„o de festas; feiras de hortifrutis nas quais acontecem performances musicais; cinemas nos quais as sessıes acontecem ao mesmo tempo em que uma festa com djs e pista de danÁa se desenrola em ambiente paralelo; exposiÁıes que contam com djs de m˙sica eletrÙnica. Os exemplos proliferam. Por outra: o aspecto de flash-mob aparece ainda nos eventos itinerantes, que ìaportamî em paisagens variadas, tais como festas pagas que s„o realizadas a cada vez em um clube diferente; raves que ocupam um sÌtio em Vargem Grande ou uma praia; o Fashion Rio (evento de moda) ou o Tim Festival (festival de m˙sica) que fazem do Museu de Arte Moderna ou de um dos reformados galpıes do Cais do Porto sua ambiÍncia; o riocenacontemporanea (festival de teatro) que ocupa a EstaÁ„o de Trem Leopoldina etc. Em tudo isso se verifica ocorrÍncia de cena. Mas ela ainda pode acontecer na casa de alguÈm, em um improv·vel

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e contingente restaurante, em uma simples festa de universidade etc. Todas as vezes em que se processa a contaminaÁ„o, eis que se instantaneia, se instancia uma ìregi„o moral volanteî: os ambientes tocados pelo impalp·vel da cena logo ganham um clima caracterÌstico. … a vibe. Para forj·-la, como j· vimos, recruta-se em um mesmo plano pessoas, m˙sicas, vestimentas, decoraÁ„o do ambiente, bebidas e outros aditivos, em composiÁıes vari·veis e de equilÌbrio delicado. … em ocupaÁıes-que-fazem-cidade como essas que Bech (idem) vÍ inscrever-se uma citysex, ou a apariÁ„o de uma ìsexualidade urbanaî como faixa de freq¸Íncia, como patamar sempre aberto ‡ experiÍncia sensÌvel. Note-se que a cena carioca revela-se, assim, particularmente feliz na nomeaÁ„o mesmo de cena - um nome que n„o nomeia, por assim dizer, mas que antes aponta para uma ocupaÁ„o. Retomando a j· citada Heilborn, lembremo-nos de que a proposta de conciliar as abordagens na/da cidade passa pela adoÁ„o de um olhar sobre a urbe que faz dela antes cena do que cen·rio: isto È, privilegia seu aspecto de montagem sempre inacabada, sempre aberta, sempre contingente. A cidade que a cena carioca faz aparecer È, com efeito, uma cena. Ou, se nos È permitida uma outra aproximaÁ„o que se encaixa particularmente bem, o funcionamento da cena carioca pode ser descrito tambÈm nos termos da noÁ„o cinematogr·fica de locaÁ„o. A locaÁ„o n„o È t„o-somente um local; antes se trata de um uso especÌfico, de uma aÁ„o que ocupa e coloca em operaÁ„o um regime de signos: o local aparece como fenÙmeno do uso-locaÁ„o. DaÌ ser virtualmente possÌvel que a cena venha a instalar-se circunstancialmente em qualquer parte, ampliando-se em cÌrculos de resson‚ncia cada vez mais vastos, viajando sem viajar, tanto quanto o nÙmade È aquele que n„o se move, pois que se trata de um funcionamento que se transporta, de uma modulaÁ„o. 35 As reflexıes de Õtalo Calvino cabem bem aqui para dar a

35 Canevacci (1997: 48) j· havia sugerido o potencial de uma aproximaÁ„o entre as cenas urbanas e o modo de operaÁ„o do set cinematogr·fico, no qual bem se revela o nexo ecolÛgico (op.cit.: 105) que È montado na relaÁ„o locaÁ„o-local (ou nas constantes atualizaÁıes do cÛdigo-territÛrio). Para articular sua proposta, o autor propıe uma inusitada combinaÁ„o Benjamin - com seu procedimento alegÛrico posto a serviÁo de uma arqueologia do choque na percepÁ„o urbana - e Bateson - com sua problematizaÁ„o do trabalho antropolÛgico que foca como ponto nevr·lgico do mÈtodo n„o a coleta, mas a organizaÁ„o. Ambos a privilegiar o fragmento, uma escrita ìvisualî, a trabalhar propositalmente no terreno do contraste, das torÁıes tentativas, da soltura. ì… a metrÛpole que ëmetacomunicaí, atravÈs da montagem. A montagem È o pensamento abstrato da metrÛpoleî, diz Canevacci (op.cit.: 109). N„o concordo particularmente com alguns dos

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medida de como se processa esta cartografia: ì(Ö) as propriedades do espaÁo variam conforme as direÁıes em que eu olho relativamente a minha orientaÁ„o. … claro que para descrever a forma do mundo a primeira coisa a fazer È estabelecer em que posiÁ„o me encontro, n„o estou dizendo o lugar, mas o modo em que estou orientado, porque o mundo de que estou falando tem isso de diferente de outros mundos possÌveis (Ö)î (1995:107; grifo meu). E prossegue, em uma sorte de invers„o que privilegia o territÛrio, o mundo, os ìeusî sendo dados pelos mundos que se montam nas vizinhanÁas de seus agenciamentos: ìdo fundo do opaco eu escrevo, reconstituindo o mapa de um soalheiro que nada mais È que um inverific·vel axioma para os c·lculos da memÛria, o lugar geomÈtrico do eu, de um mim mesmo do qual o mim mesmo necessita para se saber mim mesmo, o eu que sÛ serve para que o mundo receba continuamente notÌcias da existÍncia do mundo, um engenho de que o mundo dispıe para saber se existeî (op.cit.: 118). Quando acontece a cena, disse-o h· pouco, logo se vÍem pipocar beijos na boca entre mulheres, e em alguns casos tambÈm entre os homens. Trata-se de invers„o curiosa, que d· a medida do quanto a cena n„o È o gueto: se os gays homens, fala corrente entre os ìnativosî como entre os pesquisadores do assunto (Cf., por exemplo, Portinari, 1989: 41- 50; McRae, 2005: 303), sempre teriam sido os mais ìvisÌveisî, na contaminaÁ„o provocada pela cena, que notadamente investe no abolir de nomenclaturas e categorizaÁıes para os atos (sem contudo deixar de abrigar os que com elas se identificam), as mulheres ao contr·rio È que tenderiam a aparecer mais e mais. Entre os freq¸entadores da cena o fenÙmeno È declarado uma ìmodaî, n„o sem ironia e um toque de desprezo, e isso a despeito da propalada definiÁ„o-pela-indefiniÁ„o, que supostamente se faria acompanhar por uma ìtoler‚ncia generalizadaî (declara-se a toler‚ncia, e com efeito ela d· o tom tambÈm das condutas, o

termos recrutados pelo autor para dar conta de sua proposta: ‡ montagem como ìrepresentaÁ„oî operada pelo analista para ìinterpretarî (op.cit.: 143-144) parece-me mais interessante contrapor a imagem do mapa sobre o mapa, j· que os ìnativosî tampouco deixam de operar montagem e, ademais, nem no patamar da vivÍncia nem no da an·lise (tambÈm vivÍncia, como qualquer um que escreve uma tese o sabe) creio se tratar de ìrepresentaÁ„oî, mas, em ambos os casos, de acontecimento e vida. Ainda assim (como, ali·s, foi e ser· na relaÁ„o com tantos outros autores aqui recrutados), se a atenÁ„o deixar de ater-se tanto ‡s palavras usadas para voltar-se ao modo de operaÁ„o ou ao funcionamento proposto, vemos que h· uma interessante aproximaÁ„o possÌvel.

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que n„o impede, em medidas variadas, a possÌvel profus„o de fofocas, incongruÍncia que È ela prÛpria tematizada pelas pessoas). N„o s„o raros os meus entrevistados que afirmam coisas tais como ìn„o existe isso tudo de lÈsbica no mundoî e que se trataria de um ato em muitos casos ìperform·ticoî. Muitos rapazes reclamam jocosamente, neste tocante, que as mulheres estariam efetivamente tornando os homens ìprescindÌveisî. Como me disse um deles em uma festa, diante de um trio de amigas que se agarrava: ìAs mulheres est„o bombando! Isso È que È a revoluÁ„o femininaÖ acabou pra gente [os homens]î. Fato È que, se È possÌvel hoje ver casais de meninas de m„os dadas ou trocando beijos n„o apenas nas flash-mobs da cena, mas atÈ mesmo entre as bancas de frutas da Cobal do Humait· em um s·bado pela manh„, ou na fila de um dos cinemas do Grupo EstaÁ„o, o mesmo raramente se verifica quando se trata de casais de rapazes, que no entanto ser„o abundantes em um clube ou em uma rave. O que deixa claro que as pretensıes devorantes da cena tÍm de negociar-se, microscÛpicas, enquanto vigem em simult‚neo (entre os circunstanciais outros com quem se tem de lidar na variabilidade das paisagens urbanas, mas tambÈm entre os ìcompanheirosî do bando) molaridades persistentes, que no tocante aos ìpapÈis sexuaisî tendem a ser mais ìimpiedosasî com os homens - o modelo ìmacho/bichaî de que trata Fry (idem) ìsobrevivendoî ‡s investidas igualit·rias do movimento gay e tambÈm aos deslocamentos provocados pelo desejo de apagamento de nomenclaturas da cena - do que com as mulheres - a relaÁ„o entre mulheres contando com uma certa ìindulgÍnciaî, sendo apreendida quase como uma n„o-relaÁ„o, ou, o outro extremo, como um fetiche; ou ainda oscilando, como no esquema proposto por Portinari (op.cit.: 83), entre um ìamor para aquÈm do amorî e um ìamor para alÈm do amorî. Fazer notar a copresenÁa de um inomin·vel que escapa, do desejo mesmo de n„o nomear(-se) e da persistÍncia, em gradaÁıes diversas, do recurso ‡s categorizaÁıes ìhegemÙnicasî de gÍnero e de ìpapÈis sexuaisî n„o se coloca aqui como empresa de flagrar incongruÍncias para em seguida, apoiando-se nelas, apontar a inefic·cia do projeto. Antes se trata de tom·-la, esta copresenÁa, como uma das muitas ocasiıes na qual bem se revela o ìindivÌduoî como atravessado por segmentaÁıes diversas e

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simult‚neas. Em uma primeira tomada, podemos encontrar segmentaÁıes bin·rias, circulares e lineares, que a ìvida modernaî n„o destituiu, embora as tenha ìendurecido singularmenteî (Deleuze & Guattari, 2004b: 86):

ìSomos segmentarizados binariamente, a partir de grandes oposiÁıes duais:

as classes sociais, mas tambÈm os homens e as mulheres, os adultos e as crianÁas etc. Somos segmentarizados circularmente, em cÌrculos cada vez mais vastos, em discos ou coroas cada vez mais amplos, ‡ maneira da ëcartaí de Joyce: minhas ocupaÁıes, as ocupaÁıes de meu bairro, de minha cidade, de meu paÌs, do mundoÖ Somos segmentarizados linearmente, numa linha reta,

em linhas retas, onde cada segmento representa um episÛdio ou um ëprocessoí: mal acabamos um processo e j· estamos comeÁando outro, demandantes ou demandados para sempre, famÌlia, escola, exÈrcito, profiss„o,

e a escola nos diz: ëVocÍ n„o est· mais em famÌliaí, e o exÈrcito diz: ëVocÍ n„o est· mais na escolaíÖ Ora os diferentes segmentos remetem a diferentes indivÌduos ou grupos, ora È o mesmo indivÌduo ou o mesmo grupo que passa de um segmento a outro. Mas sempre estas figuras de segmentaridade, a bin·ria,

a circular e a linear, s„o tomadas umas nas outras, e atÈ passam umas nas

outras, transformando-se de acordo com o ponto de vistaî. (op.cit.: 84).

Estes diversos patamares de segmentaridade: um tecido flexÌvel dado pela comunicabilidade entre heterogÍneos, ìde modo que o ajustamento de um segmento a outro pode se fazer de m˙ltiplas maneirasî,

o que impıe que ìa segmentaridade n„o seja capt·vel independentemente

de uma segmentaÁ„o em ato que opera por impulsos, desprendimentos, junÁıesî (op.cit.: 85). Na apreens„o deste movimento, n„o se trata de opor

o centralizado ao segment·rio, nem tampouco as segmentaridades duras ‡s

flexÌveis, pois que precisamente ìtoda sociedade, mas tambÈm todo indivÌduo, s„o atravessados pelas duas segmentaridades ao mesmo tempo:

uma molar e outra molecularî (op.cit.: 90), de naturezas distintas, porÈm insepar·veis.

ìSe considerarmos os grandes conjuntos bin·rios, como os sexos ou as classes, vemos efetivamente que eles ocorrem tambÈm nos agenciamentos moleculares de outra natureza e que h· uma dupla dependÍncia recÌproca, pois os dois sexos remetem a m˙ltiplas combinaÁıes moleculares, que pıem em jogo n„o sÛ o homem na mulher e a mulher no homem, mas a relaÁ„o de cada um no outro com o animal, a planta etc: mil pequenos-sexosî (op.cit.: 90-91; grifo meu).

As linhas molares de segmentos (que perfazem um campo macropolÌtico de ìrepresentaÁıesî) funcionam como Ìndices para os fluxos moleculares de quanta (que perfazem um campo micropolÌtico de ìcrenÁasî

e ìdesejosî), mas h· sempre algo que escapa, e que perfaz as linhas de

fuga. De modo que conquanto os dois sistemas de referÍncias se complementem e coexistam, nunca se correspondem termo a termo, porque as linhas molares (conjunÁıes, ou operaÁıes de reterritorializaÁ„o e

sobrecodificaÁ„o) n„o chegam a deter os fluxos moleculares (conexıes, ou

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operaÁıes de desterritorializaÁ„o e descodificaÁ„o) sen„o em um plano que j· n„o È mais aquele no qual estes se processam e no qual, ademais, prosseguem em seu impulso ‡ revelia das ìcapturasî (op.cit.: 95-102). Decerto, pois, a despeito das micromovimentaÁıes em torno do desejo de indiscernibilidade, continuam havendo ìos outrosî - playboys e patricinhas; bichas e veados; sapatıes e lÈsbicas; gays; bofes e ìhomens autom·ticosî; ìdesesperadasî ou ìmulheres autom·ticasî; heteros, homo e bissexuais; caretas e ìfreq¸entadores de shopping-centersî etc - no contraste com os quais continua-se a produzir alguma sorte de contorno para o ìeuî. Estes s„o, contudo, antes ìlugares vaziosî, ìfachadasî de que eventualmente podem se revestir os agentes, em oposiÁıes circunstanciais, contingentes. E o recurso a elas n„o È, por assim dizer, ìingÍnuoî: n„o sou eu enquanto analista que o revelo, pois que em torno do uso eventual destes e de tantos outros ìrÛtulosî h· todo um burburinho ìmeta-reflexivoî, todo um trabalho de produÁ„o de matizes de ocasi„o. N„o h· quem seja estavelmente outro e n„o possa adentrar na freq¸Íncia da cena, como n„o h· quem seja eu perene e n„o possa desengajar-se e vir a engajar-se diversamente. AlÈm disso, s„o dois fenÙmenos em patamares diferentes:

um movimento devorante da cena a ampliar o cÌrculo e se espalhar pela paisagem urbana, permitindo que mesmo os ìoutrosî consumam as roupas, as m˙sicas, os lugares, os estilos e os valores praticados na cena; e o movimento que persistentemente encontra ìoutrosî contra os quais aparece o ìeuî. Um pertencimento ìflutuanteî e um engajamento simult‚neo em muitas frentes de contato com o mundo d„o a medida de um indivÌduo tornado dividual, ìportadorî antes de uma senha ou cifra que de uma ìidentidade pessoalî (Cf. Deleuze, 1992), multiplicidade que sÛ se atualiza sob a condiÁ„o de variar ao mesmo tempo em muitas freq¸Íncias, de nunca dar-se como inteira. Duarte (1987: 297) chama a atenÁ„o para esta ìn„o-substancialidade de toda identidadeî, sublinhando que isto n„o equivale a declarar sua ìdesimport‚ncia ou n„o-concretudeî, mas antes ìao fato de que, ao nÌvel analÌtico, n„o h· nada que carregue o fato de identidade alÈm do propriamente simbÛlico, do propriamente culturalî - e, cabe lembrar, um ìsimbÛlicoî e um ìculturalî que n„o s„o menos referidos (quando n„o mais) pelos cientistas sociais que pelos ìnativosî. Se a cena pode ser entendida como regi„o moral instant‚nea, que se

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faz e se desfaz em ato, os indivÌduos que nela tomam parte, por sua vez, n„o acontecem somente enquanto ìsujeitosî (neste ponto, tanto quanto os que circulavam pelas bocas). Parafraseando Viveiros de Castro (2002b), digamos que todo mundo È sujeito, mas ninguÈm È sujeito o tempo todo. E isto n„o apenas porque È possÌvel dizer que estes ìsujeitosî engajam-se simultaneamente em comprometimentos outros que n„o a freq¸entaÁ„o da cena. O vez em quando em que s„o sujeitos n„o coincide nem sempre nem obrigatoriamente com o vez em quando em que freq¸entam a cena - ou seja, n„o se trata de dizer que s„o (ou que n„o s„o) sujeitos quando freq¸entam a cena, mas antes de dizer que as duas vari·veis variam em ritmos e intervalos diferentes que podem (ou n„o) recobrir-se, mas que de todo modo encontram circunst‚ncias de concertar-se. Os diversos patamares de vez em quando que assinalam repetiÁ„o ou regularidade acontecem em intervalos irregulares (ou tudo vira intermezzo?) - que ocupam para acontecer. 36 Os urbanos afetos que emanam do cÛdigo- territÛrio aÌ ìdetonadoî n„o dizem respeito a uma verdade inconteste que, por sua vez, confere contornos a um compÛsito-personalidade. Antes efetuam nos ìindivÌduosî uma potÍncia de matilha.

2. Onde, quem e como Onde, quem e como: È na confluÍncia destes trÍs ìlocalizadoresî que aparecem os agenciamentos em pauta aqui, pensados atravÈs da noÁ„o de cÛdigo-territÛrio. E n„o foi acidental que posicionei o ìondeî em primeiro lugar. … ele (no caso, o onde urbano) a condiÁ„o de possibilidade deste ìquemî (as personagens desta tese) que se furta sistematicamente a dizer- se em definitivo - e, neste movimento, diz-se demais, emite-se em jorro frenÈtico, ininterrupto. CondiÁ„o de possibilidade, n„o causa. Pois que diante da ìcondiÁ„o de possibilidadeî do ìo cosmopolitismo como mais alto grau de desenraizamentoî, como o pronuncia Antonio Cicero (2005), ou do

36 Como argumentam Deleuze & Guattari (2002c) acerca do ìmodelo musicalî, dois tipos de ìcorteî e ìfreq¸Ínciaî podem ser distinguidos: o estriado, definido por um padr„o, que conta a fim de ocupar, gerando um tipo de multiplicidade mÈtrica ou dimensional; e o liso, irregular e n„o-determinado, podendo efetuar-se ìonde se quiserî, pois que ocupa sem contar, gerando multiplicidades n„o-mÈtricas e direcionais. As musicalidades eletrÙnicas, bem como a cena que as abriga, aproximam-se do modelo liso da distribuiÁ„o sem cortes previsÌveis, da variaÁ„o contÌnua, do contÌnuo desenvolvimento da forma, da fus„o da melodia e da harmonia, do traÁado de uma diagonal atravÈs da horizontal (linhas melÛdicas) e da vertical (planos harmÙnicos).

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ìurbanismo como modo de vidaî, como j· o teria dito Louis Wirth (1979), observamos uma multiplicidade virtualmente infinita de efeitos, de modo que pensar em termos de causaÁ„o enfaixa e endurece a apreens„o de um fazer-se que sÛ se d· a apreender como aberto. E isto È ìliÁ„oî que j· nos vÍm desde Boas (1968) e sua simples porÈm genial observaÁ„o de que n„o h· resposta obrigatÛria aos ìmesmosî estÌmulos e que estÌmulos diferentes podem gerar respostas ìiguaisî, na medida em que entre estÌmulo e resposta interpıe-se um ìcontexto situacionalî. Ou: as ìmesmasî causas podem conduzir a ìsoluÁıes culturaisî as mais variadas e ìsoluÁıes culturaisî semelhantes podem advir de causas diversas. Esta m·xima da ìpluralidadeî cultural sÛ precisa ser agravada, por assim dizer. Acrescentaria apenas que as ìmesmasî causas nunca s„o de fato ìmesmasî, uma vez que vÍm a ser o que s„o em relaÁ„o com aqueles em quem È suposto que provoquem efeitos; j· n„o s„o ìmesmasî neste engajamento que as diferencia, j· n„o s„o mesmas se s„o significadas diferentemente, de modo que sÛ dispomos de causas diferentes. 37 DaÌ o terceiro ingrediente de meu enunciado, o ìcomoî. 38

37 Por conta disso, ainda que n„o exatamente com esta apresentaÁ„o (o ìrigor relativistaî de Boas estancava diante de ìtraÁosî e ìcontornosî, e seguia achando possÌvel fixar ìmesmas causasî, inclusive era nelas que via a condiÁ„o para a comparabilidade), Boas insiste na adoÁ„o de um mÈtodo histÛrico capaz de captar n„o uma histÛria necess·ria (sua crÌtica ao evolucionismo social), mas uma histÛria contingente, atravÈs da perspectiva atomista de um micro-difusionismo, justo baseada na forte assertiva do autor acerca da impossibilidade de sustentar um ponto de vista mecanicista na an·lise dos fenÙmenos humanos (uma afinidade improv·vel pode ser apontada aqui, se lembrarmo-nos da j· menciona proposta de Deleuze & Guattari: ao invÈs do mecanismo, o maquinismo). Tal interessante perspectiva atomista (caracterÌstica da sua primeira geraÁ„o de alunos, reunida em torno da Escola de HistÛria da Cultura, e que poderia ser sintetizada em uma palavra de ordem tal como ìinvestigar o tudoî), contudo, segundo a prescriÁ„o do prÛprio Boas, deveria ser complementada pela perspectiva holista de uma ìpsicologia socialî (que seria realizada na Escola de Cultura e Personalidade, a dar o tom da antropologia americana), esta que padeceria agudamente da intenÁ„o de apreender um ìtodoî durkheimiano.

38 … interessante notar como È na conex„o desses trÍs elementos - quem, como, onde - que se ìdizî contingentemente o eu: em geral, nas legendas de fotos postadas nos fotologs ou em outros tipos de escritos (convites para festas, flyers, emails etc), ficamos sabendo de ìquemî se trata ao mesmo tempo em que se nos È informado ìondeî se estava, e a ìjunÁ„oî destes dois elementos (o quem e o onde) È feita pelo uso do ì@î (arroba), que opera precisamente o ìcomoî. A ìfÛrmulaî mimetiza os endereÁos de correio eletrÙnico, sendo que o ìprovedorî È uma locaÁ„o cambiante e, com ele, varia tambÈm a pessoa que se diz: ìfulano@lugarî. … este o formato, no qual o ì@î desempenha a funÁ„o de elo, de operador de ligaÁ„o, mas tambÈm declara como È feita essa ligaÁ„o, declara uma disposiÁ„o sensÌvel ìtecnolÛgicaî, que teremos ocasi„o de explorar quando tratarmos da idÈia de uma ìgeraÁ„o eletrÙnicaî (Ver Abismar-se, item 1). Por exemplo, uma pessoa chamada Renata pode aparecer como ìrenatinha@anivers·riodemummyî; ìvitac@euphoriaî (seu apelido, no contexto de uma festa de trance); ìcaruda@damadeferroî (aludindo ao car„o, ou pose, que se enverga eventualmente nos clubes) etc. A especificidade do nome tambÈm n„o precisa ser ìliteralî; h· ocasiıes em que Renata se dir· renata@damadeferro

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Perguntar ìcomoî È via privilegiada para acessar o ìquemî - talvez sempre, mas seguramente pelo menos no caso deste ìobjeto de estudoî, que se desgarra t„o teimosamente. Pensar como se d„o esses agenciamentos, observar como funcionam - descrevÍ-los e analis·-los, mas n„o explic·-los (Cf. Deleuze, 1992). Explicar estaria no patamar de uma busca de ìporquÍsî. Ou de causas. 39 Ademais, trata-se aqui - posiÁ„o que quero deixar explÌcita - de tomar este que ora apresento como meu ìobjeto de estudoî em sua positividade, ou seja, na vitalidade com que acontece e funciona. A disposiÁ„o de explic·-lo È, de certo modo, tambÈm uma disposiÁ„o de fix·- lo, justific·-lo, encerr·-lo ou declar·-lo resposta a alguma outra coisa fora dele. No trabalho com os punks, Caiafa (1985) tampouco se dispÙs a tomar a via da explicaÁ„o, aquela que poderia d·-los como resultado de uma ìcriseî do sistema capitalista, como fenÙmeno ìmarginalî ‡ lÛgica do dinheiro, como resposta ‡ ìm· distribuiÁ„o de rendaî, ou a uma possÌvel

tanto quanto renata@anivers·riodemummy, mas ainda assim È de gradaÁıes diferentes de Renata que se tratar·. Um outro indicador de que o ìeuî È reterritorializaÁ„o de ocasi„o pode ser dado pelo uso das letras a.k.a. (ìalso known asî), na seq¸Íncia do nome, tambÈm muito freq¸ente em legendas de fotos. Um dos a.k.a. de maior incidÍncia È o nickname que se usa como login nos fotologs, que muitas vezes se difunde e È usado para referÍncia pessoal tambÈm em outros contextos. Isso se passou, por exemplo, comigo mesma - e pode-se dizer que foi um auxÌlio para a pesquisa. No contexto fotolog, utilizo como nick ìalter_aliciaî, tendo criado uma p·gina pessoal a princÌpio sem suspeitar que este poderia ser um dos grandes facilitadores de uma multiplicaÁ„o inimagin·vel de ìconhecidosî no circuito da cena. Muitas vezes, em ocasiıes nas quais eu pedia para ser apresentada a alguÈm que parecia ser um interessante ìentrevistado em potencialî, ou o intermedi·rio usava o nickname ìalter_aliciaî como forma de aproximaÁ„o, ou ainda o prÛprio alguÈm o acionava: de todo modo, eu n„o demorei a perceber a ìpopularidadeî do ìa.k.a. alter_aliciaî, muito mais ìespalhadaî do que eu poderia supor a princÌpio.

39 Segundo Renato Janine Ribeiro (2003: 15-16), a ciÍncia moderna teria se assentado sobre o proclamado esgotamento da especulaÁ„o e da contemplaÁ„o, estabelecendo-se em articulaÁ„o com a tÈcnica e, portanto, baseada na idÈia de aÁ„o sobre o mundo. DaÌ ter a modernidade introduzido a preferÍncia pela causa eficiente em detrimento da causa final, notadamente nas ciÍncias ditas naturais: ìa Ínfase n„o estar· mais no fim, na meta, e sim na relaÁ„o entre causa e efeito. A melhor prova disso È que quando falamos em causa, sem adjetivos, entendemos a antiga causa eficiente, aquela que gera efeitos. Isso permite, em primeiro lugar, descobrir as causas do mundo que temos diante de nÛs. A palavra objeto significa isso: que as coisas sejam colocadas (jeto) ‡ nossa frente (ob). Passamos a vÍ-las, a olh·-las, a trat·-las como decifr·veis. E isso permite, em segundo lugar, uma vez desvendado o mecanismo de causa e efeito, que tambÈm causemos os efeitos que desejarmos. … essa articulaÁ„o que comeÁa com a modernidade. A objetividade no conhecimento È condiÁ„o para a efic·cia na aÁ„o, mas aÁ„o num sentido muito especÌfico, que È o de produÁ„o ou fabricaÁ„oî (op.cit.: 16). A diferenÁa entre estas ciÍncias e as humanas, contudo, È e tem de ser aguda, nos diz o autor. As ciÍncias humanas ìpartem do esc‚ndalo que È o ser humano conhecer a si prÛprio, misturando as posiÁıes de sujeito e objeto. Isso formula sÈrios problemas, tornando quase impossÌvel a objetividadeî (op.cit:

17). Seria premente, pois, que deixassem de lado a pretens„o da explicaÁ„o, da busca pelas causas, posto que sÛ assim lhes seria possÌvel assumir que ìa recusa da separaÁ„o entre sujeito e objeto È o que constitui as ciÍncias humanasî - ìprincÌpio de comunh„oî que estaria ìno cerne de sua epistemologiaî (op.cit.: 18).

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ìfalta de perspectivaî que tocaria algumas juventudes:

ìEu n„o podia, n„o posso crer que aquele exercÌcio sÛ se pudesse definir como uma resposta a outra coisa e que aquilo esgotasse seu funcionamento. (Ö) ‡ afirmaÁ„o de que a ëcriseí gerou os protestos pode-se contrapor, sem alarde, o seu contr·rio, ou seja, a existÍncia de um agravamento dos problemas de uma naÁ„o n„o implica necessariamente em revolta, mas pode gerar abatimento e prostraÁ„o: n„o a violÍncia mas o imobilismo. Ent„o n„o È sÛ isso, ou n„o È bem isso; ou È isso e seu contr·rio possÌvel. Ou enfim È preciso outra coisa, porque se fosse assim seria f·cil demaisî (op.cit.: 20)

Assim, refazendo o percurso de como seguidamente me posicionei na relaÁ„o com este trabalho, posso dizer que primeiro - por interesse inevitavelmente arbitr·rio - escolhi um onde (o espaÁo urbano e, nele, a cena carioca, habitat ou passagem do meu heterÛclito quem). Este onde e este quem s„o, portanto, um outro nome para ìobjeto de estudoî - que n„o È preciso dizer por que coloco entre aspas, com todo o legado de problematizaÁ„o acerca da subjetividade intrÌnseca ‡ pr·tica da antropologia que j· acumulamos. 40 Diante dele - ìobjetoî ou onde/quem - como desconhecido que ainda era naquele j· distante janeiro de 2003, e enquanto antropÛloga que sou, me dispus a convertÍ-lo em campo, dando inÌcio a um trabalho etnogr·fico - ou seja, entrando em relaÁ„o. A prÛpria cartilha mais ìelementarî do trabalho de campo - que prescreve, e tambÈm problematiza, a observaÁ„o participante e a tentativa de se colocar ìno ponto de vista do nativoî (Cf. Geertz, 2000) - conforma uma abordagem que, diante do ìobjetoî, busca o como. Como ele opera e acontece, como se faz cotidianamente - È nisso que est„o interessados os antropÛlogos, e È na confrontaÁ„o sistem·tica de um ac˙mulo de leituras, de uma ìbagagemî intelectual contingente, com esta busca em campo, que nasce por densificaÁ„o (tambÈm no sentido de Geertz, 1989a) um tema. O tema, uma vez acessado ou montado, orienta nossos interesses

40 A despeito do ac˙mulo de debates, contudo, h· de se dizer que permanece vigorando entre nÛs, mais ou menos implÌcita, uma diferenÁa entre o discurso do ìantropÛlogoî e o do ìnativoî, que permite seguidamente alocar o segundo como ìobjetoî de conhecimento do primeiro, de modo que para alÈm de uma igualdade ìde fatoî entre as duas falas, assentada na idÈia de cultura, a antropologia tende a fazer-se negando ao ìnativoî sua igualdade ìde direitoî com o ìantropÛlogoî - isto È, perpetuando-o como objeto (Cf. Viveiros de Castro, 2002b: 114-115). ìO que faz do nativo um nativo È a pressuposiÁ„o, por parte do antropÛlogo, de que a relaÁ„o do primeiro com sua cultura È natural, isto È, intrÌnseca e espont‚nea, e, se possÌvel, n„o reflexiva; melhor ainda se for inconsciente. O nativo exprime sua cultura em seu discurso; o antropÛlogo tambÈm, mas, se ele pretende ser outra coisa que um nativo, deve poder exprimir sua cultura culturalmente, isto È, reflexiva, condicional e conscientemente. Sua cultura se acha contida, nas duas acepÁıes da palavra, na relaÁ„o de sentido que seu discurso estabelece com o discurso do nativo. J· o discurso do nativo, este est· contido univocamente, encerrado em sua prÛpria cultura. O antropÛlogo usa necessariamente sua cultura; o nativo È suficientemente usado pela suaî

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em campo, È via (j· analÌtica) para o processamento do fenÙmeno que observamos e descrevemos. Portanto, depois de certo tempo em campo - cerca de seis meses - comecei a delinear um tema, ainda titubeantemente, e apresentei meus esforÁos sob a forma de um primeiro artigo (Cf. Eugenio, 2003). Havia naquele artigo, claro, mais um olhar impressionista do que um tema discreto, de modo que discordo de mim mesma ao lÍ-lo agora. Suponho que n„o estou sozinha na experimentaÁ„o deste processo ìpor tentativa e erroî atravÈs do qual os pesquisadores diante de e em relaÁ„o com seus ìobjetosî - no jogo de ìestranhar o familiarî, nos termos de G.Velho (1978) ou de fabricar ìolhar distanciadoî, nos de LÈvi-Strauss (1986) - constroem um tema e, por agravamento que talvez se passe, dele venham a derivar uma quest„o. Passado um ano e duas versıes de um novo paper (Cf. Eugenio, junho de 2004 e setembro de 2004), o tema j· quase se adivinhava, mas ainda n„o havia se nomeado como tal. Foi preciso esperar atÈ a escrita do material para minha segunda qualificaÁ„o para que, ìem fagulhaî (que tematizo e desdobro ao final deste trabalho; ver Antes), surgissem-me de uma sÛ vez tema e quest„o. Hedonismo competente foi, assim, como por fim nomeei meu tema:

tratar-se-ia do ìmaquinismoî atravÈs do qual tentativamente procedem e organizam suas condutas os pesquisados: pela via da produÁ„o de ìhÌbridosî (as plurais esferas da vida dando lugar a uma vida vivida como multiplicidade) e, atravÈs dela, de um efeito de simultaneidade. Ou seja, trata-se do como, mas, mais precisamente, trata-se do como tal como processado em analÌtica por alguÈm (no caso eu) que o estudava e refletia sobre ele. Um como que, venho de dizer, tanto È (freq¸entemente) como as pessoas procedem (um comportamento) quanto È como elas gostariam de proceder (um ideal ou modelo de conduta). Separo aqui modelo/ideal, de um lado, e comportamento/real, de outro, para fins de compreens„o ìlÌmpidaî do meu argumento, mas ìna vidaî eles v„o juntos, mesmo quando as pr·ticas ìfalhamî em ser como se representam. Como argumenta Goldman (1999a: 29), se assim n„o fosse, um ìëengodoí do tipo do igualitarismoî n„o teria podido ìse sustentar contra todos os desmentidos da experiÍncia mais cotidianaî. O autor propıe que n„o mais nos utilizemos desta bipartiÁ„o como via analÌtica, em favor de

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um olhar que ìadmita uma materialidade generalizada manifesta seja nas ëidÈiasí, seja nas ëcoisasíî (ibidem). Creio, contudo, que se conservarmos tanta ìlimpidezî quanto a proporcionada por essas categorias em sabÍ-las categorias, n„o h· mal em prosseguir com elas - porque, se assim o fizermos, saberemos tambÈm da ìmaterialidade generalizadaî, e a ìadmitiremosî por princÌpio, mas j· n„o precisamente como ìsoluÁ„oî. A proposta aqui, porÈm, n„o È solucionar nada. Esta parece ser a direÁ„o tomada mesmo pelo prÛprio Goldman (1999c: 69) ao examinar os processos de subjetivaÁ„o no chamado ˙ltimo Foucault, propondo pensar, ao invÈs de ìrepresentaÁıesî e ìpr·ticasî ou de ìteoriaî versus pr·tica, em termos de pr·ticas discursivas ou cÛdigos de comportamento, por um lado, e pr·ticas n„o-discursivas ou comportamentos efetivos, por outro. ì… preciso passar pela experiÍncia de si para compreender o agenciamento complexo entre um cÛdigo de comportamento e um comportamento efetivo. (Ö) Essa relaÁ„o consigo acaba se revelando como uma terceira dimens„o constitutiva de toda e qualquer experiÍncia histÛrica, bem como de qualquer forma de subjetividade, ao lado dos campos de saber e das relaÁıes de poderî, diz Goldman (op.cit.: 74). Na mesma direÁ„o aponta Rabinow (1999a: 79), ao sublinhar que ìrepresentaÁıes s„o fatos sociaisî, n„o cabendo tom·-las nem como ideologias por detr·s das quais se escondesse uma verdade, nem em si mesmas como verdadeiras ou falsas, nem como algo secund·rio, menos real que o real, nem tampouco, e por fim, como algo mais real que o real. Feitos os devidos esclarecimentos, e retomando algum esquematismo, podemos dizer que, enquanto ìcÛdigo de comportamentoî, o hedonismo competente È a tÙnica dos discursos sobre si dos sujeitos em pauta; È ìcomportamento efetivoî porque, na maioria das vezes, È tÙnica tambÈm de suas aÁıes. Nem sempre, contudo, as condutas em aÁ„o s„o modelares, e frustraÁ„o, dor e sensaÁ„o de incoerÍncia s„o ent„o experimentados (tratarei delas, ou do tudo o que dÛi, no Abismar-se; ver especialmente o item 2. Links). DaÌ tÍ-lo identificado, o hedonismo competente, mais como uma tendÍncia do que propriamente como um modelo consumado. Mas n„o apenas daÌ. Identifico-o como uma tendÍncia tambÈm porque, como argumento seguidamente nesta tese, a maneira como esses sujeitos buscam gerenciar suas vidas È informada por (e faz-se

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em relaÁ„o a) uma transformaÁ„o social em curso contemporaneamente, que afeta n„o apenas eles, mas tambÈm outros segmentos sociais urbanos (diferenciadamente, claro). 41 Uma transformaÁ„o que aponta para a transferÍncia de Ínfase de um modelo de conduta orientado por um padr„o de altern‚ncia para um outro - que tem no hedonismo competente praticado no grupo que estudei uma de suas versıes -, orientado por um padr„o de simultaneidade. Haver· momento oportuno para retomar e desdobrar este argumento (ver Abismar-se, especialmente itens 1 e 3), de modo que por ora basta que guardemos que, enquanto couplage de um regime de signos e de um conjunto de relaÁıes materiais (Cf. Deleuze & Parnet, 1977), o hedonismo competente È um dos modos de vida possÌveis a lidar com a afetaÁ„o do capital ìvalor de Èpocaî contempor‚neo: a competÍncia, que elege como recomendaÁ„o a conciliaÁ„o, a mistura e a simultaneidade de engajamentos, fazendo do ìestultoî (aquele que vive a inconciliaÁ„o persistente, o looser ou o inepto) o ìdesvianteî do sistema (Cf.

41 Aqui vale, apoiando-nos na observaÁ„o de Goldman (1999c: 115) de que h· ìëcasos privilegiadosí, ou seja, perÌodos e lugares que oferecem um meio mais adequado para o desenvolvimento, ou ao menos para o esclarecimento, de determinadas tramasî, recrutar

tambÈm a observaÁ„o de Roszak (1972) acerca das dificuldades que enfrentou ao propor-se

a pesquisar, no calor dos acontecimentos em curso, os movimentos contraculturais juvenis

norte-americanos. Que fossem pouco numerosos (comparados a um ìcontingente globalî de jovens) os adeptos da contracultura, daÌ n„o decorria que aquele fosse um movimento perifÈrico em termos dos efeitos que produzia e produziu - muito ao contr·rio, por sinal. O mesmo, penso eu, se passa com o contingente de freq¸entadores da cena e com o modo de vida do hedonismo competente. Creio que vale estud·-los pelo que evocam e vivem, por se fazerem lugar privilegiado para pensar transformaÁıes em curso, aquelas que atendem pelo vago nome de ar dos tempos ou espÌrito de Època. … tarefa ingrata, decerto, posto que ajustando o foco para perto tudo o que vemos s„o pessoas diversas, e diversamente diferindo entre si. E n„o temos como forjar contornos, por ìdever de ofÌcioî e por impossibilidade mesmo: n„o temos como d·-los por existentes l· onde n„o os h·, ou inventar falsas unidades. DaÌ que venha a calhar o desabafo que Roszak oferece logo na abertura de seu livro A contracultura (op.cit.: 7); ficamos com ele para dar a medida da compulsÛria incompletude da tarefa em pauta aqui, mas tambÈm para apontar sua

validade, seu aspecto de ìcaso privilegiadoî: ììComo tema de estudo, o assunto deste livro

- a contracultura - oferece todos os riscos que um senso mÌnimo de cautela intelectual faria uma pessoa evitar a todo transe. Alguns de meus colegas estiveram a ponto de me convencer que coisas como ëO Movimento Rom‚nticoí ou ëA RenascenÁaí jamais existiram - pelo menos se o observador se dispıe a esquadrinhar os fenÙmenos microscÛpios da

histÛria. A esse nÌvel, ele tende apenas a ver muitas pessoas diferentes fazendo e pensando muito diferentes. Qu„o mais vulner·veis se tornam as categorizaÁıes amplas quando se trata de reunir e comentar elementos do tempestuoso cen·rio contempor‚neo! Entretanto, aquela tÍnue concepÁ„o a que se denomina ëo espÌrito de Èpocaí continua a fustigar a mente e a exigir identificaÁ„o, porquanto parece ser esta a ˙nica maneira pela qual se pode dar um sentido pelo menos provisÛrio ao mundo que se vive. Seria muito conveniente, È claro, que esses Zeitgeists perversamente espectrais fossem movimentos que realizassem manifestaÁıes com faixas e cartazes, possuÌssem uma sede, uma junta executiva e publicassem manifestos oficiais. Entretanto, È evidente que isso n„o acontece. Nesse caso,

o observador vÍ-se forÁado a examin·-los de uma forma um tanto desajeitada, permitindo

que pela peneira das generalizaÁıes passe grande quantidade de exceÁıes, mas tendo sempre a esperanÁa de que da ganga sobre algo de sÛlido e valiosoî.

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Costa, 2004). Tal como trabalhada por Deleuze (1992), a competÍncia aparece como tom forte das ìsociedades de controleî, nas quais a modulaÁ„o substitui o molde e o numÈrico substitui o analÛgico; o confinamento e as classificaÁıes rijas cedem lugar ao mandamento do autogerenciar-se e da formaÁ„o permanente; a perpÈtua metaestabilidade

e a conciliaÁ„o de muitos e simult‚neos investimentos constituem a conduta recomend·vel, n„o mais pautada pelo cumprimento de etapas ascendentes e excludentes entre si; impıem-se a curta duraÁ„o, a rotaÁ„o r·pida, o

contÌnuo e o ilimitado, ao passo em que declinam a longa duraÁ„o, o infinito

e o descontÌnuo que caracterizavam as disciplinas. O tema do hedonismo competente, porÈm, lanÁou-me por agravamento a uma quest„o, que, por sua vez, È um novo como, em outro

patamar: como vieram a ser possÌveis estes valores, este ideal de conduta

e este comportamento praticado como tendÍncia. Tal como me surgiu ìem

fagulhaî, ou ìabdutivamenteî, apresento esta quest„o na Parte II (ver Diagrama de Arbitrariedades). Entretanto, a quest„o sobreveio-me como um ìenvelope vazioî, e abri-lo exigiu-me (porque n„o h· como prescindir de todo do decalque em favor do mapa, para usar os termos de Deleuze & Guattari 42 ) tambÈm fabricar-lhe um ìdentroî. … a este aspecto que dedico os desdobramentos da Parte II, na qual procedo a uma longa e declaradamente arbitr·ria (re)composiÁ„o do percurso dessas que tais condiÁıes de possibilidade - as do desenraizamento como valor - sob um duplo ponto de vista, que chamei por esquematismo de Cultivar-se e Perverter-se.

*

Em tempo, e antes de partir aos trÍs grandes movimentos empreendidos neste trabalho - Abismar-se, Cultivar-se e Perverter-se - parece-me adequado explicitar que este È um trabalho sobre processos de subjetivaÁ„o e sua atualizaÁ„o na construÁ„o social da pessoa, trabalho que se inscreve na tradiÁ„o da antropologia urbana; porÈm n„o È um trabalho sobre homossexualidades nem adota fortemente perspectiva dos estudos de gÍnero - embora pudesse ser, e esta È uma escolha que me apresso em

42 ìCultural, o livro È forÁosamente um decalque: decalque de antem„o, decalque dele mesmo, decalque do livro precedente do mesmo autor, decalque de outros livros sejam quais forem as diferenÁas, decalque intermin·vel de conceitos e de palavras bem situados, reproduÁ„o do mundo presente, passado ou por virî (Deleuze & Guattari, 2002a: 36).

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ìconfessarî. Bem entendido, obviamente que n„o h· como tematizar pessoa e sexualidade e ignorar que estes dois entes analÌticos s„o atravessados de modo fundante pelas diferenÁas de gÍnero. Ou seja, que o leitor n„o imagine a minha ingenuidade deste tamanho, embora sem d˙vida ela exista, talvez como motor indispens·vel para qualquer reflex„o. A quest„o È que acredito que o caminho escolhido - pensar ìo que h· de icÙnicoî (eis a charada de O.Velho) nos discursos e pr·ticas dos sujeitos eleitos aqui - aponta para uma outra direÁ„o, desejavelmente mais ampla, que n„o se beneficiar· em ser reduzida (falo de uma operaÁ„o analÌtica, e n„o de modo pejorativo) ‡ ìpedra de toqueî do gÍnero. Digo isto porque dificilmente, abordando estas subjetividades sob o prisma das questıes de gÍnero, ou tratando-as como uma manifestaÁ„o possÌvel das diversas ìhomossexualidadesî, se preservar· com nitidez a linha de fuga que permitir· decolar de um ìestudo de casoî, transformando o segmento analisado em mais que um ìfeudoî cujo funcionado pode ser mapeado e permitindo pens·-lo como um lugar (dentre outros) de mirada, uma perspectiva, a partir da qual apreciar transformaÁıes socioculturais em curso, que afetam, nem sempre da mesma maneira ou com a mesma intensidade, outros segmentos sociais, inclusive a prÛpria academia. MudanÁas que dizem algo sobre o momento, o ìar dos temposî ou o ìespÌrito de Èpocaî que nos atravessa a todos, e que faz com que consideremos compartilhar uma ìcontemporaneidadeî. Sem d˙vida, entretanto, n„o pretendo dar conta da complexidade que se esconde por tr·s deste ìnÛsî que foi sujeito da ˙ltima frase, e isto talvez funcione como boa metonÌmia para as limitaÁıes deste trabalho. Entretanto, afirmar que este n„o pretende ser um estudo de gÍnero n„o equivale a dizer que questıes de gÍnero deixar„o de aparecer ou ser„o ignoradas, ainda que se revelem pertinentes e significativas. Ao contr·rio, elas atravessar„o toda a trama etnogr·fico-analÌtica do Abismar-se, e voltar„o a aparecer na Parte II (Cultivar-se e Perverter-se), dedicada a uma (inevitavelmente parcial) ìrevis„o do mitoî da ìcultura ocidental modernaî. E n„o teria como ser diferente, em se tratando de pensar subjetividade e sexualidade, na medida em que diferenÁas de gÍnero configuram algo fundante da pessoa, que existe ìdesde sempreî - sejam nutridas por um modelo de ìsexo ˙nicoî ou pelo modelo vigente ìdos dois sexosî; sejam,

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pois, organizadas como diferenÁas de grau ou de espÈcie (Cf. Laqueur, 2001). Evidentemente que ser homem ou ser mulher informa e conforma a vida desses sujeitos, assim como outros marcadores sociais o fazem - ser homem ou ser mulher, inclusive, adquire coloraÁıes variadas na vida das pessoas em relaÁ„o com estes outros e diversos marcadores. Assim, mesmo, por exemplo, a tentativa de ìborrarî as fronteiras e distinÁıes de gÍnero que pode ser verificada entre os ìsujeitosî analisados È, ela prÛpria, uma das manifestaÁıes possÌveis da permanÍncia dessas distinÁıes, via sua prÛpria realocaÁ„o. Afinal, como dizem Fry e McRae (1991: 47), ìquebrar uma regra È, fundamentalmente, reconhecÍ-laî. O di·logo com tais distinÁıes e a proposta de aboli-las com discursos e pr·ticas pressupıe sua existÍncia, como interlocutor direto, e configura uma metamorfose significativa, que pode ser compreendida como um dos desdobramentos das ìreivindicaÁıes igualit·riasî (Cf. Fry, 1982 e Heilborn, 2004a). Desdobramento, no sentido de encontrar nelas, em grande medida, sua viabilidade - mas n„o continuidade, uma vez que n„o se constroem como pleito organizado nem se caracterizam como reivindicaÁ„o de igualdade. Poderia, como se vÍ, ser acusada de me recusar a tematizar algo que n„o deixar· de se tematizar jamais, mesmo que por vias tortas. Entretanto, as vias tortas pelas quais este trabalho vir· a tangenciar as questıes de gÍnero me parecem adequadas ‡ proposta aqui, e as assumo como parte caracterÌstica de minha abordagem. Assim, n„o me comprometo a discutir exaustivamente meus ìdadosî sob os termos dos estudos de gÍnero ou a fazer deles um ìn˙cleo duroî metodolÛgico; tampouco, como conseq¸Íncia, me comprometo a revisar a bibliografia acerca do que j· foi discutido, o que n„o quer dizer que n„o virei a recorrer a certas obras e autores inscritos nesta ìtradiÁ„oî. Trato de um estilo de vida urbano, jovem e contempor‚neo no qual viver ou estar aberto a viver experiÍncias erÛtico-afetivas com pessoas do ìmesmo sexoî È algo valorizado positivamente como mais um recurso de prazer disponÌvel dentre muitos, e È no acionamento simult‚neo deste e de outros recursos especÌficos que se desenha a cena carioca. Este estilo de vida ìmodernizanteî envolve, portanto, certos exercÌcios ìhomoerÛticosî (o termo de Costa, 2002, È parte de uma argumentaÁ„o que segue na mesma direÁ„o da adotada aqui), mas est· claro que n„o se resume a tais

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exercÌcios, nem busca neles sua definiÁ„o. 43 Sabemos que entre ìrepresentaÁıesî e ìpr·ticasî existem v·rias camadas de descompassos, neste caso como em muitos outros (talvez em todos?) projetos de vida que pudÈssemos examinar com densidade. Acabamos de tematizar, inclusive, o quanto esta bipartiÁ„o entre ìrepresentaÁıesî e ìpr·ticasî pode ser problem·tica. Como diz Viveiros de Castro,

ìI think itís about time we rethought the notion of practice. Especially since the radical contrast between theory and practice is, in the end, purely theoretical: pure practice exists only in theory; in practice, it always comes heavily mixed with theory. What Iím trying to say is that theory of practice, as classically formulated by Bourdieu, supposes a theoretically obsolete concept of theory, wich sees the latter as a transcendent meta-practice of contemplative or reflexive type, existing above and after practice, as its moment of ëpurificationí (in Latourís sense). In other words, we need a new theory of theory: a generalized theory of theory, one enabling us to think of theoretical activity in radical continuity with practice, that is, as an immanent or constitutive (as opposed to purely regulative) dimension of the intellect embodied in action. This continuity is exactly the same - and this is an important point - as the continuity I identified as obtaining (de jure) in the relation between the discourses of ëanthropologistí and ënativeíî (2003: 10-11).

Quando digo, pois, que este n„o È um trabalho sobre homossexualidades, nem sobre uma homossexualidade especÌfica, n„o È apenas porque nem todos os freq¸entadores da cena tÍm ou tiveram experiÍncias homossexuais. Nem porque estas, quando existiram, ocuparam lugares muito desiguais no dizer-se dos sujeitos, e se caracterizaram, com efeito, por pr·ticas muito diferentes. TambÈm n„o È porque os sujeitos que pesquisei, em sua maioria, mesmo tendo vivido experiÍncias homoerÛticas, n„o se consideram homossexuais. Tampouco porque, os que o fazem, n„o pretendem converter sua ìidentidade gayî em ìidentidade contaminadoraî (Cf. Goodenough, 1957), seja para em seguida ocupar-se de escondÍ-la, de sofrer por ela ou de fazer dela uma bandeira. Por fim, se n„o considero que o tema em pauta aqui seja(m) a(s) homossexualidade(s), tambÈm n„o È por ignorar que todas estas falas dialogam com classificaÁıes vigentes acerca da sexualidade, e negociam sua legitimidade em relaÁ„o a elas, nem sempre sem conflitos. Tudo isso poderia ser encaixado dentro de alguma sorte de ìhomossexualidadeî, e a quest„o dada por encerrada. Isto se n„o me parecesse um caminho mais adequado, mais produtivo em termos reflexivos, alÈm de mais respeitoso

43 Acaba encontrando definiÁ„o, porÈm, justamente na tentativa sistem·tica de cultivar a indefiniÁ„o como forma de apresentaÁ„o de si - ponto ao qual retornarei.

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com os ìnativosî 44 , tomar estes discursos e as possÌveis discrep‚ncias observadas em confrontaÁ„o com suas pr·ticas, como fenÙmenos que apontam para reorganizaÁıes em torno das ìverdades sobre o sexoî e mesmo dos lugares ocupados pela sexualidade no dizer-se dos sujeitos contempor‚neos, bem como para um certo ethos do ìfor funî que exige para sua manutenÁ„o, de modo significativamente paradoxal, um elevado grau de ascetismo na tarefa de gerenciar algo que È ao mesmo tempo experienciado como sobrecarga e dor, e agravado pela urgÍncia de escondimento e de fabricaÁ„o de uma perene disponibilidade. Note-se que este segue sendo um trabalho sobre processos de subjetivaÁ„o, apenas (e por isso mesmo) n„o declara como sua contribuiÁ„o fixar ìidentidadesî ou ìdefinirî as sexualidades estudadas como homossexuais (ou qualquer outra coisa), ocupar-se de enquadr·-las e de daÌ extrair qualquer conclus„o. Isto n„o me caberia, e suspeito que caracterizaria, neste caso em particular, uma violÍncia metodolÛgica. Concordando com Viveiros de Castro (2002a), diria que um tal procedimento poderia sem dificuldade ser entendido como uma das muitas roupagens possÌveis para a manifestaÁ„o de um ìpronunciamento sobre as causasî - quando, de modo muito mais produtivo porque simÈtrico 45 , pensar

44 Sem, no entanto, configurar-se como uma capitulaÁ„o diante do ìperigoî de ìcomprar o discurso do nativoî, motivo da conhecida ìbroncaî aplicada por LÈvi-Strauss (1974: 25) a Mauss, que teria incorrido, em seu Ensaio sobre a D·diva, em ìum desses casos (que n„o s„o t„o raros) em que o etnÛlogo deixa mistificar-se pelo indÌgenaî e n„o teria se dado conta, no ponto alto de sua an·lise, de ter ìrenunciado aos seus princÌpios em favor de uma teoria neozelandesa, que tem imenso valor como documento etnogr·fico, mas n„o È mais do que uma teoriaî. Sem d˙vida, LÈvi-Strauss est· atento ao fato de que qualquer teoria ìindÌgena ou ocidental, n„o È mais do que uma teoriaî (op.cit.: 26), mas condena Mauss por ter se inclinado diante de uma soluÁ„o ìlocalî e ìconscienteî, ao invÈs de tentar, atravÈs de uma ìcrÌtica objetivaî, alcanÁar a ìrealidade subjacenteî, decantado-a de ìestruturas mentais inconscientesî. Nem È preciso dizer o quanto este projeto universalista est· distante da antropologia praticada hoje, mas n„o me arriscaria a afirmar que em favor de soluÁıes melhores ou menos sujeitas a ìprovar do prÛprio venenoî (Cf., por exemplo, O. Velho, 1997 e Goldman, 1999a e 1999c). O alerta de LÈvi-Strauss encontra um nÌvel extra de complexidade nas antropologias ìnativasî contempor‚neas, que certamente discordariam de sua prescriÁ„o de que ìtoda sociedade diferente da nossa È objeto, todo grupo de nossa prÛpria sociedade, desde que n„o seja o de que saÌmos, È objeto, todo costume desse mesmo grupo, ao qual n„o aderimos, È objetoî. (op.cit.: 18) Ou, em outra e pioneira direÁ„o, Gilberto Velho (1978) j· refletira sobre as dificuldades e armadilhas, mas n„o impossibilidades, de observar o familiar. O debate pode ser ainda mais atiÁado a partir das investidas de Clifford (1998), que refletiu sobre a viabilidade, atÈ certo ponto um tanto ideal e ìpoliticamente corretaî, de assumir a existÍncia de m˙ltiplas vozes nos trabalhos etnogr·ficos, alÁando-as ao patamar de m˙ltiplas autorias.

45 O plano das causaÁıes È tambÈm o das gram·ticas das causaÁıes; se me pronuncio sobre as causaÁıes alheias, sÛ posso fazÍ-lo com a minha gram·tica, que sÛ por acidente coincidiria com a deste outro que analiso. Isto, È claro, n„o me impede de refletir sobre as condiÁıes de possibilidade de um determinado fenÙmeno, que, ali·s, È ao que me proponho

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as conseq¸Íncias se revela em tudo mais fascinante. A violÍncia, portanto, que farejo no procedimento que pretendo evitar, È justamente aquela que Viveiros de Castro (op.cit.: 16-17) aponta como um seu incÙmodo: ìsempre que ouÁo um pronunciamento sobre as causas - sob este ou outro nome, e sejam elas da natureza que forem - do comportamento de alguÈm, em especial de um ënativoí, sinto como se estivessem a lhe tentar bater epistemologicamente a carteiraî. … desnecess·rio dizer, evidentemente, que os termos causa e conseq¸Íncia aqui est„o sendo usados de um modo formal, nominalista atÈ, para referir ao que poderiam ser duas ordens distintas de investimento compreensivo, uma que pretendesse ìdescobrirî ou estabelecer a vigÍncia de enquadramentos diversos, outra que pretendesse contemplar o desenrolar de processos. A rigor, n„o seria impossÌvel uma combinatÛria de ambas, mas esta exigiria, sem d˙vida, uma flexibilizaÁ„o no empreendimento de captura das ìcausasî, e talvez uma disposiÁ„o um pouco mais acentuada a conceder validade aos sistemas alheios de causaÁ„o, admitindo que as nossas causas e as alheias, todas elas, estabelecem-se apenas a posteriori, o que, ademais, È o mesmo que admitir que s„o as conseq¸Íncias que significam (no duplo sentido da afirmativa). Pareceu-me, assim, mais l˙cido n„o cristalizar estes comportamentos nem rotul·-los. N„o porque os prÛprios sujeitos desejam n„o ser rotulados e tenham ìme convencidoî de que elaboraram a melhor teoria sobre si mesmos, a ponto de apenas me restar assinar embaixo. Mas para n„o cortar a via de acesso a estes comportamentos enquanto processos que s„o, para n„o fechar a possibilidade de uma analÌtica das conseq¸Íncias, das economias de afetos (alegres ou dolorosos) e prazeres em jogo, trazendo questıes j· decifradas e satisfazendo-me em apenas ìconferi-lasî nos meus dados. Entretanto, o ìusoî deste ìrecurso de prazerî que È feito pelos sujeitos analisados, e mesmo a possibilidade de instrumentalizar tais pr·ticas sexuais desta maneira, encontra ecos em certas representaÁıes

tanto nesta Parte I (ver Abismar-se, item 1) quanto, longamente e de outro modo, na Parte II (ver Cultivar-se e Perverter-se). Mas n„o me sinto autorizada a decretar como ou por que certas condiÁıes de possibilidade se organizaram em causas na biografia de um sujeito especÌfico, menos ainda na conformaÁ„o de um grupo. As conseq¸Íncias, por sua vez, permitiriam, segundo Viveiros de Castro (ibidem), um confrontaÁ„o mais prÛxima de um patamar comum entre dois pensamentos em jogo, o meu como pesquisadora e o dos

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rom‚nticas da homossexualidade, bem como se ìbeneficiaî da instituiÁ„o do modelo igualit·rio para as relaÁıes afetivas como valor entre as camadas mÈdias urbanas psicologizadas (Cf., por exemplo, Heilborn, 2004a). Uma tal instrumentalizaÁ„o, nos termos de Pollak (1985), poderia ser pensada como uma ìhomossexualizaÁ„o das condutasî a que viriam sendo submetidos os regimes relacionais ditos hetero, homo ou bissexuais - todos seduzidos, em seu desejo de pragmatizar o desejo, pelo potencial de ìeconomiaî dos cÛdigos vigentes nos guetos homossexuais masculinos. Ou ainda, em termos deleuzianos, poderia ser pensada como uma sorte de microsexualizaÁ„o das condutas (ìmil pequenos sexosî, como na j· citada passagem de Deleuze & Guattari), uma molecularizaÁ„o da sexualidade na qual perdem sentido os conceitos molares de hetero, homo ou bi. De modo que, apenas por estas breves menÁıes, fica claro que as vivÍncias sexuais dos sujeitos aqui analisados foram tornadas vi·veis atravÈs de (mas, novamente, n„o causadas por) processos que vale a pena examinar - o que ter· lugar em duas ocasiıes, com empresas distintas: no Abismar-se (ver item 1), atravÈs da comparaÁ„o entre funcionamentos, o procedimento alegÛrico instaurado pela Tropic·lia tomado como contraponto; na Parte II, atravÈs do duplo movimento do Cultivar-se e do Perverter-se. Investigarei, assim processos que nutrem o imagin·rio sobre o qual se assentam os comportamentos estudados, envolvendo-os com uma aura rom‚ntica e libertadora que, de modo curioso apenas a princÌpio, convive com uma orientaÁ„o pragm·tica de existÍncia, ocupada em encaixar seguidamente estas e outras intensidades em um projeto extensivo de vida. Assim, se a Parte II ser· dedicada a refletir e (re)traÁar as condiÁıes de possibilidade de meu tema, o hedonismo competente como agenciamento ao qual tende a contempor‚nea cena carioca e seus jovens freq¸entadores, esta Parte I, no Abismar-se que se segue, se dedicar· a compreendÍ-lo em mirada etnografico-analÌtica. Entrar e tornar a entrar, eis o movimento que vem sendo e È o desta escrita. O trajeto proposto para a mirada: primeiro, um amplo passeio descritivo e analÌtico, no qual muitas questıes se precipitam e s„o trabalhadas localmente - eis a abertura do Abismar-se, sobre a qual poderia ser dito (tomando de

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emprÈstimo o epÌteto publicit·rio do festival riocenacontemporanea, um dos tematizados) que escreve tudo junto porque acontece tudo junto. Em seguida (item 1. Contempor‚neo noctambulismo. Cartografias em Perspectiva), a proposta È tentativamente fazer desprender as subjetividades acionadas na cena atravÈs do mapeamento de alguns cÌrculos de amizade e do que seria, sinteticamente, um ìcotidianoî do modo de vida praticado na cena - o hedonismo competente. Ainda na mesma seÁ„o (item 1), segue-se o cartografar das condiÁıes de possibilidade da cena como modo de locaÁ„o a ocupar a cidade do Rio de Janeiro, atravÈs do acompanhamento dos desenhos e redesenhos da noite carioca, notadamente a partir de fins dos anos 70, que È o quando de que partem, em geral, as narrativas ìnativasî sobre as ìorigensî da cultura club, da qual a cena seria a herdeira. Seria pois uma ìhistÛria da cenaî a aparecer na colagem de depoimentos diversos (retirados de livros, entrevistas, depoimentos, cat·logos etc) que, na seq¸Íncia, dar· lugar a uma reflex„o comparativa sobre modos de funcionamento, tendo como contraponto alguns movimentos das dÈcadas de 60 e 70. Por fim, em dois relatos etnogr·ficos (item 2. Links), busco descrever e analisar alguns temas-chave em que aparecem os impasses contra os quais se desenha, como tendÍncia, este hedonismo competente: o ingresso na zona de freq¸Íncia da cena e o tÈrmino de relacionamentos afetivos, cuja dor È tomada pelos envolvidos, em grande medida, como express„o de falÍncia do projeto competente. O terceiro item (3. O ìeî como estilo de vida. EtnopoÈtica das sÌnteses disjuntivas) encerra o movimento etnogr·fico-analÌtico e a prÛpria tese (os desdobramentos da Parte II n„o comportar„o, ao final, outra ìconclus„oî).

3. Carne e Sangue Pois bem, ent„o aqui temos uma proposta de trabalho. Cumpre dar a saber um punhado de informaÁıes formais sem as quais inquietamo-nos diante de um material, mas s„o justamente essas, que parecem as mais simples, as mais difÌceis de sintetizar aqui, e suponho que o percurso que cumpri atÈ agora torna auto-evidente por quÍ. Procedo, contudo, ‡ tentativa desta formalizaÁ„o, como concess„o talvez, antes de apresent·- los mais sob a forma de carne e sangue, a ˙nica de que disponho.

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Os indicadores sociolÛgicos sobre as personagens envolvidas dizem quase nada sobre elas. Sen„o vejamos: a maior parte das pessoas com quem convivi na cena tÍm entre 20 e 35 anos, mora na zona sul da cidade, pertence ‡s classes mÈdias ou mÈdias-altas, tem curso superior completo ou est· se formando, È articulada e auto-reflexiva. N„o È preciso dizer que uma quantidade virtualmente infinita de modos de ser se desprende destas mesmas configuraÁıes. Janice Caiafa (1985: 23), que experimentou uma situaÁ„o sob este aspecto similar entre os punks, comenta que faz pouco uso, em seu trabalho, de ìcategorias mais corriqueiras de an·lise, como classe social, faixa et·ria, situaÁ„o familiarî, e isto ìpor achar mesmo que o essencial n„o se atingiria, por querer mesmo inventar com eles o que usaria para pens·- losî. Ademais, com o bando punk tal como È dito pela autora os sujeitos freq¸entadores da cena, diferentes que s„o, compartilham contudo ìessa atitude de, digamos, ëexagerarí as condiÁıes de uma experiÍncia, reverberando tudo no momento, arte do instanteî (ibidem). De modo que a viabilidade do trabalho se faz a partir da disposiÁ„o n„o apenas de ìestar com elesî, mas de ìestar entre elesî - ou, como comenta Caiafa, ìÈ impossÌvel estar com eles sem estar entre eles, o bando rejeita qualquer ëobservadorí, a ponto de nem ser possÌvel desejar issoî (ibidem). No meu caso - ponto importante para assinalar as condiÁıes de possibilidade da pesquisa - desta situaÁ„o de ìestar entre elesî consolidou- se ou fez-se tambÈm amizade. Muitos destes sujeitos eram ou se tornaram meus amigos, e eu mesma neste sentido tambÈm integro a amostra - amostra que est· mais para sortimento. Embora eu n„o fosse uma freq¸entadora da cena antes de decidir-me a fazer dela meu campo de pesquisa, contava com alguns poucos amigos que a freq¸entavam e recebia deles notÌcias esparsas deste modo de vida - nada parecido com o estado das coisas do agora, contudo. Um amigo em particular fez as vezes, para mim, de ìfenÙmeno de bordaî ou ìanÙmaloî - aquele ìindivÌduo excepcionalî com quem se trava relaÁıes de alianÁa para acessar o devir- animal da matilha (Cf. Deleuze & Guattari, 2002b). Eu n„o o sabia, È certo, mas, como dizem Deleuze & Guattari, n„o È possÌvel aproximar-se da matilha sem contagiar-se; a alianÁa È ela prÛpria um ìpacto-epidemiaî (op.cit.: 29). A tem·tica do cont·gio È tambÈm a da comunicaÁ„o

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transversal, esta que sÛ se processa atravessando, fazendo-se passar ìentreî. A cena, apenas contÌgua que era, arrastou-me com ela em devir. N„o se trata de ter-me tornado um deles, nem de imit·-los, nem de identificar-me com eles 46 , atÈ porque n„o h· identidade unÌvoca no bando - È de multiplicidade que se trata. A assertiva de Viveiros de Castro (2002b: 141) toma aqui uma coloraÁ„o, por falta de melhor palavra, adicional, ao mesmo tempo em que cabe recrut·-la tambÈm para dizer o que j· diz (que desejavelmente n„o estamos em colunas opostas, antropÛlogos e nativos, e que desejavelmente aqueles n„o detÍm ìprerrogativa estratÈgicaî sobre estes): ìsomos todos nativos, mas ninguÈm È nativo o tempo todoî. Que todos soubessem que eu era uma antropÛloga em campo, alÈm de amiga ou personagem conhecida, È algo que me diferenciava, decerto. Mas todos tinham suas singularidades, e esta era a minha, n„o particularmente mais (ou menos) destacada que a daquela mÈdica que tambÈm era dj, ou do m˙sico que tambÈm era hacker, ou da atriz que tambÈm era filÛsofa, ou do produtor de vÌdeos pornÙs que tambÈm era economista. Ali·s, sequer era esta, a persona antropÛloga, minha ˙nica singularidade em jogo, ou a principal. Com efeito, se houve alguma mais proeminente e assinalada pela qual me dei a conhecer ou pela qual converti-me em referÍncia, foi a de ter-me firmado como escritora, primeiro no suporte fotolog (www.fotolog.net/alter_alicia), a partir de setembro de 2003, e depois como adepta da ìliteratura blogueiraî (www.oaltermundodealicia. blogspot.com), cerca de um ano mais tarde. Meus textos de ìprosa-poesiaî, postados sob o nickname ìalter_aliciaî, converteram-me em personagem da cena mais do que qualquer outro ato meu, e este foi um dos imponder·veis da vida que beneficiou a pesquisa, j· que quando principiei esta ìcarreira liter·riaî sequer a imaginava carreira, e menos ainda o fiz com a intenÁ„o de me inserir na cena. Hastrup tematiza (1987:99) as vicissitudes de uma ìantropologia entre amigosî - aquelas que ìcomo n„o podem ser resolvidas, tÍm de ser vividasî. Na sÌntese a que chega a autora, refletindo sobre sua experiÍncia em um campo que ìconcedeu-lhe todos os benefÌcios da amizadeî, esta

46 ìDevir È um verbo tendo toda sua consistÍncia; ele n„o se reduz, ele n„o nos conduz a íparecerí, nem a íserí, nem a íequivalerí, nem a íproduziríî (op.cit.: 19).

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pesquisa que È (a princÌpio) antes parallel-cultural do que cross-cultural coloca-se como um ìespelho de apenas uma faceî. ìVocÍ ver· apenas vocÍ mesmo e os identificar· com sua prÛpria imagem; eles, por sua vez, ver„o atravÈs de vocÍ, e conversar„o com vocÍ como se vocÍ fosse uma pessoa real no mundo deles, absolutamente distinta delesî, diz ela (op.cit.: 104). A idiossincrasia, contudo, reside menos aÌ do que na operaÁ„o que se processa no prÛprio pesquisador-amigo:

ìO que argumento È, com efeito, que apesar do trabalho de campo entre os seus proporcionar-lhe inicialmente um ëcontexto de situaÁ„oí diferente, este contexto ele mesmo eventualmente se tornar· textualizado no contexto geral da antropologia. (Ö) A antropologia n„o È ëaquií ou ël·í. Ela È todo lugar, sendo na verdade uma terceira cultura em qualquer di·logo cross-cultural, na qual a ëilus„o da verdade total È corrigida e emendada pelas discrep‚ncias reveladasí - discrep‚ncias que existem entre os cÛdigos culturais de dois interlocutores. No trabalho de campo, o representante da terceira cultura emerge enquanto uma personagem na terceira pessoa. O etnÛgrafo n„o È nem eu nem tu, mas assume uma estranhamente desconhecida posiÁ„o como ëelaí ou ëeleí. Ela È meu reflexo no espelho, o objeto subjetivado. … desta posiÁ„o que ela pode agir como enunciadora mesmo dos silÍncios do discurso cross-cultural [n„o sei; parece-me mais que È desta certeza que se deve escapar, mantendo contudo a terceira pessoa, como argumentarei logo adiante]. TambÈm em sua prÛpria cultura, ou em uma cultura paralela, a etnÛgrafa - enquanto representante da terceira cultura - ir· inevitavelmente viver e trabalhar na terceira pessoa. … como tal que ela ser· uma amiga dos locais e uma estranha para ela mesmaî (op.cit.: 105; traduÁ„o minha, esta e anteriores).

A proposiÁ„o de fazer uma antropologia È tambÈm aquela, assim me

parece, de assumir e levar a sÈrio um destacamento ìesquizoî do eu no ela;

a proposiÁ„o de, tanto quanto possÌvel, conserv·-lo como participaÁ„o em

simult‚neo, n„o para vir a fazer-se enunciadora privilegiada daquilo que

goes without saying (ou, pior ainda, de tudo aquilo que refrata entre o que

È dito e o que n„o È; È acerca disso mesmo que nos alerta Viveiros de

Castro no ìO nativo relativoî), mas como entidade que trabalha em um

patamar enquanto uma outra (ou muitas outras) acontecem. Este tornar-se

e retornar-se estranho a si mesmo (como que um jogar com a longitude 47

do ìsi mesmoî) È, de certo modo, tambÈm a via adotada por G. Velho (1975) na realizaÁ„o de pesquisas em um meio urbano do qual partilha o prÛprio pesquisador. Talvez mais do que o esforÁo por estranhar um outro t„o prÛximo, o que est· em jogo È um ìautodimensionamentoî

47 ìChama-se longitude de um corpo os conjuntos de partÌculas que lhe pertencem sob essa ou aquela relaÁ„o, sen