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L. S.Vigotski

que estão para além de seus limites". É fácil dar-se conta de o problema do desenvolvimento na psicologia
que na base dessa concepção monista há uma interpretação estrutural. Estudo crítico*
filosófica do psíquico e do físico muito próxima da doutrina
de Spinoza e com as raízes da qual mantém, de qualquer for-
ma, uma relação.

o objetivo que nos propusemos com este estudo é anali-


sar o problema do desenvolvimento na psicologia estrutural.
Nossa tarefa consiste em diferenciar o que há de verdadeiro e
de falso nessa teoria, e para isso seguiremos uma via que já
percorremos em várias ocasiões: basear nossa argumentação
no que há de verdadeiro nessa teoria e servir-nos dela para
descobrir os pontos falsos que a obscurecem já que, de acordo
com o pensamento de Spinoza, a verdade se ilumina a si mes-
ma e ilumina os erros.
Analisaremos o problema do desenvolvimento tal como é
exposto no livro de K. Koftka, para cuja edição russa este es-
tudo deve servir de introdução crítica.
Analisar criticamente um livro como o de Koftka, que re-
presenta um marco no desenvolvimento do conhecimento
científico nesse campo e que encerra em si uma enorme quan-

* "Probliema razvitia v struktumoi psikhologuü." Este trabalho de L. S.


Vigotski foi publicado como prólogo à versão russa do livro de K. Koffka Funda-
mentos do desenvolvimento psíquico (Moscou, Leningrado, 1934). (Ed. oro aloDie
Grundlagen der Psychischen Entwicklung. Osterwieck am Harz, 1925.)
111:

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tidade de fatos, generalizações e leis, implica penetrar na coe- mo, que nos obriga a renunciar a nossos princípios científicos,
rência interna das idéias que o integram, na própria essência e o Caribde do mecanicismo, com sua carência de vida.
de sua concepção. Supõe também contrastar a teoria com a O objetivo fundamental, ainda não alcançado, que presi-
realidade que esta reflete: por isso esta análise só pode consis- diu a criação e o desenvolvimento da psicologia estrutural em
tir em uma crítica partindo da realidade. geral e do presente livro em particular foi precisamente a
Esse tipo de crítica só é possível quando se tem uma superação do mecanicismo e do vitalismo. Nesse sentido, esta
idéia, ainda que apenas geral, da natureza dos fenômenos da II
II obra constitui o ponto mais alto da psicologia européia, e em
!
realidade refletidos na teoria que é objeto de estudo. Um pon- I função dela (ou seja, baseando-se nela e negando-a ao mesmo
to essencial nesse tipo de análise é constituído pelo experi- I tempo) poderemos extrair pontos de partida que nos sirvam
mento crítico, que transporta a crítica para o campo dos fatos e
/

para desenvolver nossa própria concepção sobre a psicologia


submete a julgamento aqueles pontos centrais de controvérsia li! infantil. Por isso, nosso estudo crítico deve seguir no funda-
que separam dois sistemas teóricos. Infelizmente, não corres- :111
mental o caminho escolhido pelo autor do presente livro.
ponde a nosso presente empreendimento a exposição detalha- Nosso objetivo é comprovar em que medida o novo princípio
da de experimentos críticos. Poderemos apenas nos referir a explicativo que Koffka introduz na psicologia infantil permite
eles de passagem, em relação com a análise teórica do proble- realmente superar nela as concepções mecanicistas e vitalistas
ma. O material empírico fundamental em que nos basearemos do desenvolvimento.
- e que representa os elementos da realidade que a teoria É evidente que não vamos analisar o livro capítulo por
reflete - deverá ser o material empírico recolhido no livro capítulo, mas extrairemos dois princípios fundamentais nos
analisado. quais basearemos a análise crítica. O próprio Koffka diz que
Analisar criticamente o livro de Koffka significaria es- só tinha um caminho para abordar com êxito o objetivo de seu
crever outro sobre o mesmo tema e, em função disto, um estu- trabalho: expor criticamente alguns princípios do desenvolvi-
do como este só pode ser um resumo do que seria esse livro mento psíquico e analisar os fatos particulares na perspectiva
hipotético. desses princípios. Em essência é isto o que tenderemos a
O livro de Koffka é um dos poucos textos sobre psicolo- fazer: analisar os princípios gerais que servem de base para
gia infantil que está escrito do ponto de vista de um único este trabalho à luz de sua relação com os fatos que esses prin-
pressuposto teórico. Neste caso, parte-se do princípio da cípios explicam quando são colocados em jogo.
estrutura ou da forma (Gestalt), que teve sua origem na psico- Os dois princípios fundamentais que constituirão nosso
logia geral. O livro em questão não passa de uma tentativa de objetivo mais imediato são o princípio da estrutura e o princí-
analisar todos os fatos fundamentais da psicologia infantil sob pio do desenvolvimento, que analisaremos em três aspectos
esse ponto de vista. básicos. Em primeiro lugar analisaremos o conceito de estru-
O principal objetivo desta obra é, no fundo, a luta contra tura, princípio central da obra, baseando-nos nos fatos a ele
dois becos sem saída do pensamento científico nos quais relacionados, isto é, do ponto de vista da correspondência
foram parar várias teorias científicas atuais. É indubitável, diz existente entre o princípio teórico e o material empírico que
Koffka, que diante da alternativa entre a explicação mecani- serviu originalmente para formular e demonstrar esse princí-
cista ou psicovitalista nos encontramos entre o Cila do vitalis- pio. Depois passaremos a analisar a aplicação desse princípio
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a fatos pertencentes ao âmbito da psicologia infantil e com- resistência mascarada e reprimida pela aplicação harmoniosa
provaremos sua adequação a eles. Uma vez submetida à prova e conseqüente de um determinado sistema. A análise crítica
a relação entre o princípio teórico e os fatos sob esses dois ân- de qualquer obra representa quase sempre, no mais amplo
gulos, contaremos com os elementos necessários para poder sentido, uma espécie de luta ideológica entre diferentes pon-
avaliar criticamente o conjunto da teoria do desenvolvimento tos de vista básicos.
psicológico da criança, tal como é concebido a partir desse Nesse sentido, o presente livro facilita a tarefa da análise
princípio explicativo. crítica, já que, diferentemente de muitas outras exposições
sistemáticas da psicologia infantil, baseia sua estrutura em
uma investigação teórica. O que caracteriza uma exposição
2 científica, diz Koffka, não é a simples comunicação de conhe-
cimentos. Deve mostrar diretamente a dependência entre
Para começar, portanto, estudaremos o princípio funda- esses conhecimentos e a ciência, revelar sua dinâmica, a in-
mental da psicologia estrutural à luz dos fatos que lhe são vestigação em ação. Por conseguinte, também devem ser
mais próximos. Segundo Koffka, a psicologia infantil não criou expostos os princípios que por fim se mostrarão falsos e esté-
um princípio explicativo próprio e, por isso, se vê obrigada a reis. Para o leitor deve ficar claro por que esses princípios ca-
utilizar por analogia princípios originários da psicologia recem de fundamento, em que consiste seu ponto fraco e em
geral e da psicologia comparada. Não existe um princípio que sentido é preciso modificar a explicação. Através da dis-
psicológico do desenvolvimento, afirma, que seja específico cussão de diferentes opiniões, o leitor poderá entender o curso
da psicologia infantil. Antes de que esta os empregasse, es- evolutivo da psicologia como ciência. Toda ciência cresce
ses princípios já haviam surgido na psicologia geral ou na lutando ativamente em defesa de suas teses fundamentais, e o
dos animais. objetivo deste livro é incorporar-se a essa luta.
Isso nos obriga, seguindo o autor, a começar pela análise Lendo este livro o leitor poderá convencer-se facilmente
de um princípio psicológico que tem um valor mais amplo e de que todo ele está permeado de um espírito de luta contra
geral, sem se restringir à esfera da psicologia infantil. A base teorias opostas e que, portanto, utilizar um enfoque crítico
de todo o trabalho de Koffka consiste precisamente na aplica- para chegar a entender e assimilar seu conteúdo não só não
ção desse princípio geral, que se originou na psicologia geral contradiz o espírito da obra, mas responde diretamente a sua
e comparada, aos fatos do desenvolvimento psicológico da natureza interna. No entanto, a luta teórica no seio de um
criança. determinado campo científico só é fértil quando se apóia na
Por isso, se quisermos, como já dissemos, fazer com que força dos fatos. Em nosso estudo tentaremos nos basear antes
o critériofundamental de nossa análise crítica seja a confron- de mais nada na força dos fatos com que o próprio autor do
tação de fatos e princípios, considerando os fatos à luz dos livro opera.
princípios e contrastando os princípios com os fatos, deve- Partimos da tese de que enfocar a questão teórica da apli-
mos começar pelos fatos à luz dos quais surgiu inicialmente cação do princípio estrutural à construção da psicologia infan-
essa teoria. Esperamos revelar aqui a resistência interna dos til significa enfocar também uma das questões mais complica-
fatos aos princípios universais propostos para sua explicação, das e essenciais da psicologia teórica atual e manter ao mesmo
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tempo em vigor tudo o que de verdadeiro e fértil esse princí- novas formas de comportamento. Cremos plenamente justifi-
pIOencerra. cado que Koffka considere este um problema central, já que
Poderemos compreender melhor o significado desse prin- desenvolvimento significa antes de mais nada surgimento de
cípio fundamental se levarmos em conta a história de seu apa- algo novo. E da resposta que cada teoria dê à pergunta de
recimento. O princípio estrutural surgiu inicialmente como como surgem novas formas dependerá a resolução do próprio
reação contra as tendências atomistas e mecanicistas que im- problema do desenvolvimento a partir de distintas ópticas.
peravam na velha psicologia, segundo as quais os processos A pergunta sobre a origem de novas formas de comporta-
psicológicos eram considerados um conjunto de elementos da mento surge pela primeira vez nas teorias do adestramento
vida psíquica individuais e independentes entre si, que se animal, onde se evidencia o fato de que essas novas formas
uniam através de uma conexão associativa. A principal difi- aparecem no curso da vida individual do animal. Neste caso, o
culdade em que tropeçava esse tipo de teoria era a impossibili- modo pelo qual essas formas se manifestam é verificável ex-
dade de explicar adequadamente como podem surgir na vida perimentalmente: é por isso que, durante muito tempo, as per-
psíquica, por meio de uma ligação associativa casual de ele- guntas essenciais relacionadas com esse problema foram sem-
mentos heterogêneos independentes, sensações conscientes pre respondidas a partir da teoria do condicionamento animal.
integrais, processos de comportamento racionais, orientados Koffka começa seu estudo do desenvolvimento partindo pre-
para um objetivo determinado, tão característicos de nossa cisamente dessas premissas.
consciência.
Mas neste caso, e devido à modificação do princípio psi-
Como observa um de seus críticos, a nova teoria começou cológico orientador da investigação, a psicologia estrutural
transformando, segundo palavras de Goethe, o problema em se coloca a pergunta de uma forma diferente de como vinha
postulado. Converteu em sua hipótese principal a idéia de que sendo colocada na origem. Com efeito, o problema do adestra-
os processos psíquicos constituem desde seus começos confi- mento era formulado em geral do ponto de vista do empirismo
gurações fechadas, organizadas, integrais, com significado in- puro e, portanto, como um problema de aprendizagem, treina-
terno, que determinam o significado e o peso específico das mento, recordação...; em uma palavra, como um problema de
partes que as compõem. Esses processos integrais obtiveram memória. O que encontramos de novidade na formulação da
na nova psicologia a denominação de estruturas ou formas questão por Koffka é que desloca o centro de gravidade do pro-
(Gestalten), contrapostas desde o princípio ao conglomerado blema do adestramento, transportando-o da memória para o
aleatório de átomos psíquicos unidos por simples adição. aparecimento dos denominados atos primários novos.
Não vamos nos deter na evolução do conceito de estrutu- Argumenta que o problema do adestramento não pode
ra na psicologia geral. Preocupa-nos agora a interpretação des- ser formulado com a pergunta: no que um ato depende dos
se princípio do ponto de vista do problema do desenvolvimen- ant~riores? Qual é, na verdade, o problema do adestramento?
to. Como dissemos, inicialmente esse princípio se aplicou ao O problema do adestramento deve perguntar-se fundamental-
problema do desenvolvimento, não no campo da psicologia mente: como se originam essas novas formas iniciais de ati-
infantil, mas no da psicologia animal. vidade?
O primeiro problema com que nos defrontamos ao nos Assim, pois, desde o início de sua análise Koffka se colo-
colocarmos a questão do desenvolvimento é o da criação de ca a pergunta sobre a origem dos novos atos, independente-
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mente do problema de sua recordação, fixação e reprodução. mento, nessa situação ocorre desde o princípio uma desarticu-
Ao fazê-Io, Koffka desenvolve sua própria teoria, por oposi- lação, o que faz com que apareça um ponto central em relação
ção às outras duas que deparamos em psicologia ao discutir ao qual os outros elementos da situação adquirem um valor
essa questão: em primeiro lugar, a teoria da tentativa e erro, subordinado.
que encontra sua máxima expressão nos trabalhos de Thorndi- O conjunto da situação não constitui para o animal algo
ke; e em segundo lugar a dos três níveis, desenvolvida por K. confuso e absurdo. Para o animal, diz Koffka, a situação passa
Bühler. Para refutar essas teorias, Koffka se baseia fundamen- a significar a posição a partir da qual devo chegar ao alimento
talmente no material empírico obtido no processo de experi- que está fora. De alguma maneira, o animal está relacionando
mentação de Kõhler com macacos antropomorfos. Mas, além seus atos com a comida que está no exterior. Por conseguinte,
disso, Koffka recorre a outro material: o material empírico do a teoria do adestramento carente por completo de sentido é
próprio Thorndike, que submete a uma análise crítica. infundada.
É impossível interpretar corretamente o problema do Se observarmos atentamente, passo a passo, como faz
desenvolvimento na psicologia estrutural sem explicar o con- Koffka, o desenvolvimento do experimento que Thorndike ex-
texto ideológico que lhe outorga sentido. Por isso, vamos ex- plica, não poderemos deixar de concordar q~e, no processo da
por brevemente as duas teorias em contraposição às quais atividade (libertar-se da jaula), os elementos isolados da situa-
surge a nova psicologia. ção adquirem para o animal um significado determinado, e
Segundo a teoria da tentativa e erro, a formação de qual- com isso obtemos algo totalmente novo para nossa análise.
quer ato novo se rege pelo princípio dos atos aleatórios. De Poderíamos dizer que em geral, nos experimentos de Thorn-
todos eles, é selecionada uma determinada combinação de dike, o adestramento conduz, como diz Koffka, a novas for-
movimentos, concomitante com a resolução bem-sucedida de mações no campo sensorial. O animal resolve determinadas
uma tarefa, aquela que posteriormente permanece fixada. No tarefas e, portanto, sua atividade não é objeto de tentativas e
entanto, diz Koffka, esse princípio não desata o nó, mas o erros aleatórios.
corta. Segundo ele, não existe um ato inicial, no sentido de ato K. Koffka remete-se aos experimentos de J. Adams, que
novo. chega à conclusão de que não cabe considerar o adestramento
Afora isso, do ponto de vista dessa teoria, só existem for- como a desconexão paulatina de movimentos inúteis. Reme-
mas inatas de atividade; quanto aos atos novos que surgem ao te-se a E. Tolman, que resume nas seguintes palavras sua rica
longo do desenvolvimento individual, nada mais são do que experiência no adestramento de animais: "Qualquer processo
combinações de reações inatas, surgidas por acaso, por meio de adestramento é um processo de resolução de um problema"
de tentativa e erro. (K. Koffka, 1934, p. 117).
K. Koffka analisa passo a passo os fatos concretos que Por conseguinte, Koffka também chega à conclusão de
deram lugar ao aparecimento de tão discutível princípio e que nos experimentos de Thorndike os fatos estão em franco
chega a uma conclusão plenamente convincente: a inconsis- desacordo com a explicação teórica a que se recorre para inter-
tência da teoria de tentativa e erro. Assinala que, nos experi- pretá-los. Os fatos mostram que os animais se comportam inte-
mentos do próprio Thorndike, o animal não só se encontra em ligentemente para resolver determinada tarefa, delimitando a
uma situação de conjunto especial, mas, graças ao adestra- situação que percebem e ligando seus movimentos ao objetivo
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que se encontra fora dos limites da jaula. A teoria explica seus estruturação de todo o campo. O essencial deste último princí-
atos como um conjunto de reações cegas e sem sentido, que se pio é que, segundo os experimentos de Kõhler, nos animais se
fixam ou se desfazem de forma puramente mecânica, graças ao produz um ato fechado, orientado para um fim determinado,
êxito ou fracasso externo e, portanto, dão lugar ao aparecimen- que responde à estrutura do campo percebido.
to da soma de combinações de uma série de reações, que não Esse ato é diametralmente oposto à combinação casual de
apenas não se relacionam internamente entre si, mas também reações, fruto de tentativas e erros cegos. Koffk:achega assim
nada têm em comum com a situação de onde procedem. a um ponto de vista sobre o adestramento totalmente diferente
A importância que Koffka outorga aos atos nos experimen- do que se depreende da teoria de Thorndike. O adestramento,
to de Thorndike pode ser apreciada por seu empenho em anali- diz ele, nunca é absolutamente específico. Quando o organis-
sá-Ios comparativamente com os experimentos de Roodger com mo domina uma determinada tarefa, não só pode aprender a
seres humanos.
resolver uma similar que lhe apareça de novo, mas também
Roodger coloca também o homem em situações que lhe essa aprendizagem o capacita para resolver outros tipos de
são incompreensíveis. Os resultados que Koffk:a expõe dessas tarefas que antes não podia enfrentar, porque, em determina-
investigações se reduzem à formulação de uma tese geral. O dos casos, novos processos se vêem facilitados por outros pro-
experimento, no qual os homens têm de adotar uma resolução,
cessos similares; em outros casos, os novos processos possibi-
assemelha-se com grande freqüência nestes casos ao compor- 1itama criação de novas condições*.
tamento do animal nas provas de Thorndike. Portanto, Koffk:a
Assim, pois, o adestramento é, na verdade, desenvolvi-
formula como primeiro argumento contra a teoria da tentativa
mento e não simples aquisição de formas de comportamento
e erro sua não-conformidade com os fatos em que baseou sua
isoladas. Para o autor só parece congruente uma teoria que
origem.
seja capaz de explicar por que, da infinita quantidade de rela-
Mas o argumento principal de Koffk:a contra essa teoria
ções que uma situação contém, um sujeito repara nas mais
decorre das famosas investigações de W. Kõhler com maca-
importantes, que são precisamente aquelas que determinam o
cos antropomorfos, nas quais, como se sabe, se estabelece
comportamento.
categoricamente a existência nesses animais de atos inteligen- Poderíamos dizer: a consciência da estrutura de um
tes, tais como o emprego de instrumentos para alcançar um
campo surge ao redor de uma meta. A solução não consiste
objetivo ou os movimentos de busca de atalho em direção a
em outra coisa do que na formação dessa estrutura. Esse pro-
um objetivo. Não vamos nos estender na exposição desses
blema não se coloca para nós, porque existem relações que
experimentos, tão magistralmente expostos no livro de Koffká.
Diremos apenas que para ele constituem o argumento central
e básico para refutar a teoria da tentativa e erro. * No essencial, Koffka mantém-se integralmente nas posições de Thorndike,
Poderíamos formular o novo princípio afirmando que os procurando da mesma forma que ele articular uma teoria do desenvolvimento da
criança com base nos dados e leis do adestramento animal. Embora dentro dessas
animais resolvem de verdade as novas tarefas que lhes são posições procure com evidente êxito modificar a idéia subjacente nessas leis, conti-
propostas. Em nosso modo de ver, o essencial da solução da nua aplicando o caminho metodológico da psicologia animal à psicologia infantil.
tarefa não está em que os movimentos possíveis de cada sujei- Nem mesmo se pergunta até que ponto é possível aplicar a palavra "adestramento",
conservando a unidade de significado, quando nos referimos aos animais e quando
to façam parte de uma nova combinação, mas em uma nova nos referimos à criança.
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não criam consciência de estruturas. Koffka argumenta que, contraposto: a teoria dos três níveis [de K. Bühler, R.E.], se-
se excluirmos o sentido e considerarmos que é o acaso que dá gundo a qual o desenvolvimento do comportamento percorre
forma cegamente ao mecanismo das associações, precisaría- três níveis principais.
mos explicar por que captamos apenas as relações com senti- Koffka explica essa teoria nos seguintes termos: o nível
do e não as conexões sem sentido. superior do intelecto, que é a capacidade de realizar descober-
Por conseguinte, K. Koffka chega à conclusão de que é a tas, é precedido pelo nível do adestramento, da memória pura-
formação de novas estruturas o que constitui a essência do mente associativa e, por último, pelo instinto, que é o nível
aparecimento dos atos primários. O notável dessa teoria é que inferior. O instinto e o adestramento têm suas vantagens e
ele aplica o princípio estrutural não apenas aos atos inteligen- seus inconvenientes. As vantagens do instinto são a segurança
tes dos macacos antropomorfos, mas também aos atos dos e a perfeição com que já age desde a primeira vez, instanta-
animais inferiores dos experimentos de Thorndike. Portanto, neamente, e a vantagem do adestramento consiste em sua ca-
Koffka vê nas estruturas um princípio primário, original e pacidade de adaptação em circunstâncias concretas. Em con-
essencialmente primitivo de organização do comportamento. trapartida, os aspectos negativos são a rigidez do instinto e, no
Seria errôneo pensar que esse princípio é próprio apenas das caso do adestramento, a inércia e o fato de que adestrar exige
formas superiores ou intelectuais de atividade. Também está muito tempo. No nível da inteligência unem-se as vantagens
presente nas formas mais elementares e primitivas do desen- dos dois níveis inferiores.
volvimento. Essa linha de raciocínio, diz o autor, corrobora Se a teoria de Thorndike se destinava a demonstrar a alea-
nossa interpretação da natureza primitiva das funções estrutu- toriedade e irracionalidade no aparecimento de novos atos nos
rais. E se estas são realmente tão primitivas deveriam se mani- animais, a de K. Bühler coloca exigências demais para a ativi-
festar no comportamento primitivo que denominamos instin- dade intelectual, separando-a em excesso dos níveis inferiores
to. Vemos assim como a rejeição da teoria da tentativa e erro
e atribuindo apenas a ela os atributos de racionalidade e estru-
leva Koffka à conclusão de que o princípio estrutural é apli- turalidade fechados. Bühler parte do princípio de que a razão
cável de maneira igual tanto aos atos inteligentes superiores
dos macacos antropomorfos quanto ao adestramento dos ma- pressupõe um juízo e que é acompanhada por uma sensação
míferos inferiores dos experimentos de Thorndike, e às rea- de segurança da qual carecem os chimpanzés.
ções instintivas das aranhas e das abelhas. Portanto, se a teoria da tentativa e erro procura explicar o
É por isso que Koffka encontra no princípio estrutural um aparecimento de novos atos nos animais a partir do princípio
mecanicista da união aleatória de reações heterogêneas ele-
princípio geral que lhe permite englobar em um único princí-
pio interpretativo tanto as reações mais primitivas do animal mentares, a teoria dos três níveis procura explicar o desenvol-
(instintivas) quanto aquelas novas que surgem durante o pro- vimento como uma série de degraus que não estão unidos por
cesso de adestramento e da atividade inteligente. Como ve- uma relação intrínseca, que não podem ser incluídos em um
mos, esse princípio se apóia na contraposição de um processo princípio único. "Quais são essas três formas de comporta-
racional, fechado, orientado para uma determinada meta à com- mento?", pergunta Koffka. "Cabe considerar que todas elas
binação casual de elementos-reações isolados. são completamente distintas e que, portanto, o desenvolvi-
Mas apreciaremos melhor o pleno significado desse prin- mento consiste apenas no fato de que se unem entre si de um
cípio se pudermos contrastá-Io à luz de um enfoque teórico modo não explicado" (1934, p. 144).
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A crítica de Koffka a essa teoria dirige-se em primeiro Chegamos, portanto, a uma conclusão extraordinaria-
lugar à afirmação de Bühler de que a razão pressupõe obriga- mente importante e que consiste em que o princípio da estru-
toriamente o juízo. Embora esse tipo de limitação dos atos turalidade é aplicável de maneira igual à gama de fenômenos
pudesse afetar o que no homem adulto se denomina o cons- psíquicos do mundo animal, começando pelos animais infe-
ciente, nas formas mais simples de comportamento inteligente riores e terminando pelos superiores. Em certo sentido, Koffka
a presença desse traço não é obrigatória. Em segundo lugar, realiza o caminho contrário ao estabelecido pelos pesquisado-
Koffka procura eliminar as diferenças mais marcantes entre res precedentes. Se Thorndike procura explicar a partir de fora
os distintos níveis no desenvolvimento da atividade dos ani- as formas de atividade inteligente do animal, reduzindo-as às
mais. Segundo ele, o instinto transforma-se imperceptivel- reações inferiores, inatas, Koffka, em contrapartida, procura
mente em adestramento, havendo pois uma estreita relação seguir o caminho contrário, de cima para baixo, aplicando o
entre a teoria do adestramento associativo e a do instinto. Da princípio da estruturalidade que foi encontrado nos atos inteli-
mesma maneira procura suprimir as diferenças entre o ades- gentes dos animais superiores à explicação dos atos sem senti-
tramento e a inteligência, como vimos anteriormente. do dos animais no adestramento e inclusive à explicação dos
O que Koffka tenta não é aceitar esses três traços como instintos.
totalmente heterogêneos, mas encontrar uma certa dependên- Koffka realiza assim uma generalização de grande enver-
cia entre eles. O leitor atento, diz ele, deve ter podido perceber gadura e de enorme alcance, pois abarca a totalidade das for-
que para nós há um determinado princípio que desempenha mas de atividade psíquica, desde as inferiores até as superio-
um papel de protagonista e que pode ser aplicado de modo res. Mas essa generalização não se limita exclusivamente ao
igual à explicação do instinto, do adestramento e da razão: o campo do adestramento: chega também aos fenômenos fisio-
princípio da estruturalidade. Em todas nossas argumentações lógicos que servem de base para qualquer tipo de atividade
procuramos utilizar o próprio fenômeno, seu caráter fechado psíquica. Koffka remete-se à hipótese de M. Wertheimer so-
interno e sua orientação como o princípio fundamental de bre a estruturalidade dos fenômenos fisiológicos e ao trabalho
qualquer explicação, mas é na atividade inteligente que o prin- de Lashley, que propôs uma teoria dinâmica sobre os proces-
cípio estrutural se manifesta com maior clareza. É por isso sos fisiológicos, que também se manifestam na forma de fenô-
que para explicar as formas inferiores nos servimos de um menos estruturais.
princípio capaz de explicar as formas superiores, em contra- Koffka vê, nessa tentativa de transpor também o princípio
posição ao que até agora vinha sendo feito, e que consiste em da estruturalidade aos processos fisiológicos que servem de
admitir a possibilidade de aplicar às formas superiores de com- base para a atividade psíquica, o meio de salvação do psicovi-
portamento o mesmo princípio válido para explicar o compor- talismo e tenta buscar nas estruturas fisiológicas do sistema
tamento primitivo. A inteligência, o adestramento e o instinto nervoso a explicação das estruturas psicológicas.
baseiam-se, na opinião de Koffka, em funções estruturais que Baseando-se nisso afirma que instinto, adestramento e
se formaram de modo diferente, em distintas condições e com intelecto não são três princípios totalmente distintos mas que
um desenvolvimento diferente. Mas não são aparelhos dife- em todos eles encontramos o mesmo princípio sob uma for-
rentes que se conectam em caso de necessidade, como supõe mulação diferente. A transição de um nível a outro é, por isso,
Bühler (K. Koffka, 1934,p. 145). instável e imprevisível e é impossível determinar onde come-
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ça o comportamento inteligente, no sentido pleno da palavra. se baseia totalmente nos fatos e generalizações expostos pelo
Não podemos dizer, afirma ele, que o intelecto começa onde próprio Koffka. Começaremos por isso.
termina o instinto, porque seria exagerar unilateralmente a
rigidez dos atos instintivos. Afirma mais adiante que "inclusi-
ve poderíamos aplicar nossos critérios de inteligência ao com- 3
portamento instintivo dos insetos, do mesmo modo que o apli-
camos ao comportamento do homem". Nossa análise crítica vai girar em tomo do problema cru-
Por último, devemos assinalar que a nova psicologia tras- cial que consiste em avaliar e explicar o verdadeiro significa-
lada o princípio da estruturalidade não apenas para os fenô- do, a verdadeira natureza psicológica dos fatos em que se
menos fisiológicos que servem de base para a atividade psí- baseia a teoria de Koffka.
quica, mas também para todos os processos e fenômenos bio- Acreditamos que esses fatos confirmam plenamente os
lógicos em sua totalidade e, ainda mais, para as estruturas físi- argumentos refutatórios implícitos na teoria de Koffka, des-
cas. Koffka remete-se neste ponto à conhecida investigação truindo convincentemente a teoria mecanicista da tentativa e
teórica de Kõhler, onde este propunha demonstrar que no erro e a semivitalista dos três níveis e evidenciando a incon-
mundo dos fenômenos físicos nos encontramos em' presença sistência tanto de uma quanto da outra. Mas, ao mesmo tem-
de sistemas físicos que possuem traços estruturais distintivos po, se ambas forem analisadas com cuidado e comparadas
e que constituem processos integrais fechados, nos quais cada com um círculo mais amplo de fenômenos, à luz dos quais
uma das partes é determinada pelo conjunto a que pertence. adquirem seu verdadeiro valor, evidencia-se claramente que o
Para terminar de expor a teoria de Koffka, resta-nos fazer núcleo explicativo que o autor utiliza contém elementos falsos
referência às próprias considerações sobre o lugar que essa junto com outros verdadeiros. Basicamente, a essência da teo-
teoria ocupa em relação às outras duas. Se compararmos, diz ria de Koffka, que expusemos antes, resume-se na conclusão
ele, a teoria mecanicista do desenvolvimento psíquico com a fundamental a que Kõhler chega como resultado de suas in-
dos três níveis de Bühler, poderíamos chamar a primeira de vestigações. Ele formula essa conclusão dentro de uma tese
unitária e a segunda de pluralista. Como denominaríamos geral na qual afirma que nos chimpanzés encontramos um
nossa teoria? É pluralista, porque reconhece um número ilimi- comportamento inteligente do mesmo tipo do que aparece no
tado de estruturas e múltiplas formas de mudanças estruturais. homem. Os atos inteligentes deles nem sempre apresentam
Mas não o é a partir do momento em que considera limitado o uma semelhança externa com os do homem, mas se fossem
número de faculdades fixas, como os reflexos e os instintos, a estabelecidas condições similares de investigação poderíamos
capacidade de adestramento e o intelecto. É unitária, não no provocar no chimpanzé o mesmo tipo de comportamento.
sentido de atribuir todo o processo ao mecanismo das cone- O mencionado antropóide destaca-se do reino animal e
xões nervosas ou associações, mas porque busca nas leis aproxima-se do homem não só por seus traços morfológicos e
estruturais mais gerais a explicação definitiva para o desen- fisiológicos no sentido estrito da palavra, mas também porque
volvimento, conclui Koffka (ibidem, p. 150). manifesta formas de comportamento especificamente huma-
Podemos passar agora para a análise crítica da teoria que nas. Conhecemos até agora pouco sobre seus vizinhos situa-
acabamos de expor. Assinalamos de antemão que essa crítica dos em degraus inferiores da escala evolutiva, mas o pouco
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L.S.Vigotski o desenvolvimento psicológico na infânda

que sabemos, assim como os dados que este livro oferece, não que ele mesmo havia detectado de forma incipiente, embora
excluem a possibilidade de que em nosso âmbito de investiga- considerasse que não alteravam a essência da questão e que
ção os antropóides estejam mais próximos do homem quanto constituíam, na verdade, momentos colaterais e secundários
à inteligência do que de muitas espécies inferiores de maca- em relação ao núcleo central do conjunto do problema. A seu
cos, tal como pensava Kõhler (1930, pp. 103-104). ver, essas duas tendências, de que falaremos mais adiante, não
Com essa tese, a totalidade da teoria de Koffka cai sob podiam fazer vacilar a tese fundamental, segundo a qual a in-
seu próprio peso. Por isso, a primeira pergunta que devemos teligência dos chimpanzés apresenta traços idênticos à do ho-
responder é até que ponto essa tese é autônoma à luz das mem e nela aparecem atos especificamente humanos.
investigações levadas a cabo depois de Kõhler, até que ponto A primeira dessas tendências consiste na tentativa de ex-
existe analogia entre o comportamento do macaco e o com- trapolar para baixo os resultados positivos dos trabalhos de
portamento do homem e até que ponto a inteligência dos Kõhler. A segunda procura extrapolá-los para cima.
chimpanzés está mais próxima da do homem do que da de es- A tese de Kõhler de que, em oposição à suposição de
pécies inferiores de macacos. Thorndike, os animais não agem de maneira mecânica e cega,
Como já dissemos, é dessa tese que Koftka parte para ela- mas de forma inteligente e estrutural, similar à do homem,
borar o conjunto de sua teoria. Como veremos mais adiante, constituía uma clara tentativa de fechar, pelo menos em parte,
Koftka procura extrapolar esse princípio (formulado a partir o abismo aberto por Thorndike entre o homem e o animal.
das mencionadas investigações e cuja expressão mais concreta Essa tese difundiu-se principalmente por duas vias. Por
se encontra nos atos inteligentes dos chimpanzés) por um lado um lado, alguns pesquisadores se dedicaram a dirigir as te-
para baixo, explicando o adestramento e o instinto dos animais, ses de Kõhler na via descendente, aplicando-as aos animais
e, por outro, para cima, explicando o desenvolvimento da crian- inferiores e encontrando nestes o mesmo ato estrutural inte-
ça. É legítimo extrapolar assim esse princípio? Isto dependerá ligente. Em uma série de trabalhos similares demonstra-se
exclusivamente do grau de proximidade e de afinidade entre a que o critério formulado por Kõhler para os atos inteligentes
natureza psicológica dos fatos que serviram para chegar a esse e que encontrou sua manifestação mais clara nos atos dos
princípio e a dos fatos que se trata de extrapolar. macacos não é, em essência, um critério específico da inteli-
Não seria descabido afirmar que está surgindo ante nos- gência.
sos olhos uma nova época na psicologia atual, que está pas- Como já dissemos, Koffka considera que esse mesmo cri-
sando quase despercebida para os mais notáveis representan- tério pode ser aplicado também aos atos instintivos, e a supo-
tes da psicologia e que poderia ser definida como a época sição de que o instinto, o adestramento e o intelecto não cons-
"depois de Kõhler". A relação em que nos encontramos no tituem três princípios radicalmente distintos, mas três formas
que se refere aos trabalhos de Kõhler é a mesma que têm suas diferentes em que se manifesta o mesmo princípio, constitui
investigações em relação aos trabalhos de E. Thorndike: isto um golpe essencialmente mortal para o princípio descoberto
é, uma negação dialética da teoria kõhleriana, deixando de por Kõhler. O aparecimento da solução como um todo, no
lado suas teses. contexto da estrutura do campo, diz Kõhler, pode ser adotado
Esta época está se moldando com base em duas tendên- como critério de inteligência. Aplicando esse critério ao ades-
cias que se depreendem diretamente dos trabalhos de Kõhler e tramento, como fez Koffka, ou aos atos instintivos dos ani-
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L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

mais, como fizeram outros investigadores, os adeptos de Kõh- Por conseguinte, a tese de Kõhler sobre o caráter antropo-
ler lhe prestaram um mau serviço. morfo dos atos dos chimpanzés deu lugar, em posteriores de-
Desenvolvendo o fio das idéias de Kõhler segundo uma senvolvimentos dessa idéia, à pretensão, por um lado, de de-
leitura superficial, seus seguidores mostraram que os atos ins- monstrar também o caráter antropomorfo dos próprios atos
tintivos e aprendidos estão subordinados ao mesmo critério instintivos primitivos dos animais, subordinando-os ao mes-
que os atos inteligentes. Por conseguinte, o critério escolhido mo princípio que a inteligência, e, por outro, à pretensão de
não é propriamente um critério específico da inteligência. apagar definitivamente os limites que separam os antropóides
Todos os comportamentos dos animais revelaram-se igual- superiores do homem.
mente inteligentes e estruturais.
O que na verdade está acontecendo é que essas deriva-
Em suas manifestações extremas, esse movimento levou
ções diretas dos trabalhos de Kõhler levam até o fim, até o
ao restabelecimento do postulado dos animais pensantes e à limite de suas conseqüências lógicas, a tese fundamental do
tentativa de demonstrar que no cachorro existe a faculdade de
criador da teoria sobre a inteligência e a estruturalidade do
aprender a linguagem humana.
comportamento dos animais. Esse princípio foi aplicado até
Portanto, a extrapolação ilimitada para baixo, nos atos
nos mínimos detalhes, eliminando todos os componentes de
dos animais, da idéia da racionalidade generalizada e da estru-
irracionalidade e aleatoriedade que procediam do campo da
turalidade fez com que esses traços deixassem de distinguir
psicologia animal e descobrindo a racionalidade da situação e
ainda que minimamente o comportamento inteligente enquan-
a estruturalidade em qualquer ato de comportamento.
to tal. No crepúsculo dessa estruturalidade geral, todos os
gatos ficaram pardos e os atos instintivos da abelha acabaram O resultado de ambas as tendências - que, em um princí-
equiparados aos atos inteligentes do chimpanzé. Em todos pio, e é importante assinalá-Io, só procuraram defender, forta-
opera o mesmo princípio universal sob distintas manifesta- lecer e aprofundar a idéia de Kõhler, sem suspeitar de forma
ções. Apesar de ter assinalado com razão a conexão entre as alguma que conduziam para o contrário - foi, de fato, como já
três etapas de desenvolvimento da psique, essa teoria se mos- dissemos, a negação da doutrina a que devem sua origem. A
trou impotente para descobrir a diferença entre elas. Não é evolução dessas tendências levou, apesar de seguir aparente-
difícil compreender que, em sua formulação extrema, essa mente um caminho lógico direto, a um ziguezague histórico
tendência conduziu precisamente àquilo que Koffka procura- análogo aos ziguezagues que já observamos (e de que trata-
va evitar: o psicovitalismo encoberto, fazendo-nos retroceder mos em outro lugar) na passagem dos antropomorfistas a
à tese dos animais que pensam e raciocinam. Thorndike e deste a Kõhler.
A segunda tendência, seguida por outros investigadores, O mais significativo consiste em que, se fosse analisado
foi humanizando cada vez mais os animais superiores, aproxi- até as últimas conseqüências o fato objetivo descoberto por
mando cada vez mais o macaco e o homem, como fez, por Kõhler, revelar-se-ia a importância desse fato e se evidencia-
exemplo, R. Yerkes, que raciocinava aproximadamente da ria que, por trás da aparente semelhança entre as operações
seguinte forma: já que está ao alcance do macaco o emprego dos macacos e o emprego humano de instrumentos, oculta-se
de instrumentos, por que teria de fracassar a tentativa de in- uma diferença básica: a inteligência do macaco, ainda que
culcar-lhe a linguagem humana? apresente traços externos similares aos que aparecem nos atos
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L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

humanos, não possui em absoluto natureza e características O próprio Koffka coloca-se o mesmo problema em outro
genéricas idênticas às humanas. trabalho e, seguindo a argumentação que expõe nesse livro,
Koffka traz com seu trabalho uma argumentação funda- resolve-o na mesma linha que nós, ou seja, contra a conclusão
mental a favor dessa tese e, embora não apareça explicitamen- fundamental de Kohler; no entanto, não suspeita que ao mes-
te nesta obra, é precisamente esse princípio, como já disse- mo tempo está corroendo as raízes de sua própria teoria.
mos, que lhe serve de base para construir toda a sua teoria. Mas, Quando analisa os atos inteligentes dos chimpanzés, Koffka
como também é fácil demonstrar, o desenvolvimento de seus se faz a seguinte pergunta: como podemos explicar o apareci-
raciocínios corta o galho em que se mantém sua teoria. O argu- mento desses atos inteligentes?
mento central, o quid de a questão, a conclusão fundamental Os experimentos de Kohler estavam pensados para que o
que se extrai do conjunto de suas reflexões, é que, já que tam- fruto estivesse em um lugar inacessível ao animal e este ten-
bém o ato instintivo é útil, racional e fechado em sua estrutu- tasse se apoderar dele; dizendo-o com nossas palavras, o
ra, o critério de inteligência exposto por Kohler é igualmente chimpanzé está aqui e o fruto visível está ali, isto é, surge uma
adequado para os atos instintivos. Assim, portanto, o surgi- situação em que se altera o equilíbrio, um sistema instável que
mento da solução da tarefa como um todo, de acordo com a induz o animal a restabelecer seu equilíbrio. Mas o fato de que
estrutura do campo, revela-se um critério aplicável não tanto o fruto incite o animal a agir ainda não implica em absoluto
ao ato racional especificamente humano quanto ao ato instin- um ato inteligente.
tivo mais primitivo do animal. Vimos anteriormente que essa é uma característica do
O critério de inteligência proposto por Kohler é, portanto, instinto, que cria no organismo um conjunto de condições con-
cretas que alteram o equilíbrio. Portanto, devemos qualificar o
francamente errôneo. O ato estrutural ainda não é inteligente,
também pode ser instintivo, como mostrou Koffka. Por conse- aparecimentodesses atos como instintivo,como qualificaríamos
de instintivo todo o processo que se desenvolveria se o fruto
guinte, esse traço não é válido para explicar as diferenças en-
pudesse ser obtido pelo caminho direto. A diferença entre os
tre inteligências enquanto tal. Esse critério adequa-se plena- atos instintivos e os atos inteligentes não consiste obrigatoria-
mente a qualquer ato instintivo, como, por exemplo, à cons- mente na presença de situaçõesque alterem o equilíbrio,mas na
trução de um ninho de andorinhas. Como mostra Koffka, tam-
maneira como se restabeleceo equilíbrio.
bém nesse caso a solução da tarefa instintiva surge como um Isto leva-nos a outro extremo, que em geral se contrapõe
todo, de acordo com a estrutura do campo. ao ato instintivo: o ato volitivo. É cada ato instintivo (e pseu-
E, se isso for assim, a dúvida pode fazer-nos pensar que do-instintivo, automático) um ato volitivo? Tem sentido cha-
tampouco os atos que os macacos antropomorfos executam mar de volitivos os atos dos chimpanzés? Coloco essa pergun-
nos experimentos de Kohler vão mais além dos atos estrita- ta antes de mais nada para mostrar as precauções que é preciso
mente instintivos e que, por sua natureza psicológica, estão tomar na hora de aplicar em psicologia vocábulos correntes.
muito mais próximos dos atos instintivos dos animais do que O que o animal quer? Naturalmente, conseguir o fruto;
dos atos inteligentes do homem, ainda que, repetimos, sua apa- mas esse desejo não surge com base em uma decisão volitiva,
rência faça lembrar extraordinariamente a utilização de ins- mas instintiva. Naturalmente, não tenta conseguir o pau. Di-
trumentos em seu sentido genuíno. . zer que o animal quer conseguir o pau como meio, ao mesmo
266 267
L. S.Vigotski o desenvolvimento
psicológico na infância

tempo que procura conseguir o fruto como meta, seria uma para agrupar processos tão essencialmente distintos, como só
interpretação intelectualista: não obstante, o pau lhe dá sim- podem ser os processos psíquicos do animal e os processos
plesmente a satisfação de seu desejo, porque antes de com- psíquicos do homem. A independência em relação ao impulso
preender como utilizar o pau não pode tentar conseguir o fruto instintivo, que se manifesta no homem mais primitivo quando
de maneira alguma. Por conseguinte, existem atos que não são se serve de instrumentos e sua autonomia em relação à situa-
nem instintivos nem volitivos, mas tipicamente inteligentes. ção visual imediata são características diametralmente opos-
tas aos traços essenciais nas operações dos chimpanzés.
O instrumento continua sendo para o homem um instru-
4 mento, independentemente de encontrar-se ou não em uma si-
tuação que exija sua utilização. No caso do animal, o objeto
o que Koffka diz nessas linhas é mais do que suficiente perde seu valor funcional fora da situação e um pau deixa de
para perceber o enorme abismo que existe entre os atos pura- ser visto como instrumento se não estiver no mesmo campo
mente instintivos dos macacos e o processo inteligente e voli- visual da meta. A caixa (e nisto o próprio Koffka se detém
tivo que supõe a utilização de instrumentos. Como vimos an- detalhadamente) sobre a qual outro macaco está sentado logo
teriormente, Koffka tenta incluir em um único princípio os deixa de servir de instrumento para conseguir a meta e na
processos instintivos e os processos inteligentes, de forma nova situação o animal começa a percebê-Ia como uma caixa
que a diferença básica entre eles desaparece. O ato instintivo para descansar.
do chimpanzé assemelha-se extraordinariamente, em sua Assim, portanto, o instrumento não emerge aos olhos do
aparência formal, ao emprego de um instrumento, aparecen- animal de uma situação visual, mas constitui uma parte de-
do para nós como comportamento inteligente de idêntica pendente de uma estrutura mais geral e seu significado se
natureza à do humano, ao passo que nada tem em comum modifica em função da situação de que faz parte. Por isso, um
com ele. objeto que apresente uma semelhança visual com o pau, como
Ninguém melhor do que o próprio Kohler expressou essa uma palha, pode facilmente servir para o macaco de instru-
diferença entre a atividade do animal e a do homem. Em um mento ilusório. Todos os fatos analisados tão detalhadamente
de seus trabalhos posteriores, ele se pergunta por que a utiliza- por Koffka no presente livro apontam para essa contraposição
ção de instrumentos por parte do macaco não é acompanhada entre os atos instintivos dos macacos e a mais primitiva utili-
pelos mais ínfimos rudimentos de cultura. Kohler relaciona zação de instrumentos pelo homem.
em parte a resposta a essa pergunta com o fato de que até o Em geral, todas as investigações posteriores extrapola-
homem mais primitivo prepara um pau para cavar, mesmo que ram de tal maneira todos os traços diferenciadores entre o
não vá cavar imediatamente, mesmo que não haja condições comportamento do chimpanzé e o do homem que, segundo o
objetivas mais ou menos claras para o emprego do instrumen- próprio Kohler, modificaram também o significado de sua
to. Essa circunstância mantém, na opinião de Kohler, uma afirmação fundamental. Kohler já dizia que os macacos não
relação indubitável com o começo da cultura. compreendem a concatenação mecânica; que em uma situa-
É evidente que o princípio estrutural é em si mesmo insu- ção dada só podem dirigir seu comportamento no seio do
ficiente se quisermos utilizá-Io como denominador comum campo visual; que o conteúdo de suas representações nãopo-
, I

268 269
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância
III!

de constituir um traço decisivo em certos atos cuja vida não 1

!i Como vimos na referência de Kohler [sobre as caracterís-


,li< ticas do uso de instrumentos pelo homem, R.E.] anteriormen-
chega sequer ao futuro mais próximo. 1.

As investigações ulteriores mostraram que não estamos illll te citada, o instrumento exige uma maneira de imaginar uma
diante de diferenças de grau, mas de traços tão fundamentais e situação futura. Exige uma certa independência do papel
básicos que transformam a diferença quantitativa assinalada desempenhado pelo instrumento na situação atual ou, o que é
por Kohler em uma diferença qualitativa essencial na natureza o mesmo, da estrutura percebida no momento presente: exige
de cada um dos processos. Alguns estudos vigentes enquadra- uma generalização. Esse instrumento é tal instrumento so-
dos na tendência a extrapolar o princípio kohleriano em senti- mente quando se aplica a uma série de situações distintas vi-
do descendente - por meio da comparação das operações inte- sualmente. Exige, finalmente, que o homem subordine suas
ligentes do chimpanzé com processos mais simples em ani- operações a um plano previsto de antemão.
mais inferiores - permitiram estabelecer a presença desse Não nos compete levar a cabo um exame mais ou menos
princípio nos atos inferiores, minando a confiança de que esse detalhado da psicologia do uso de instrumentos. Cremos que o
princípio possa servir como critério objetivo de inteligência. que acabamos de mencionar é suficiente para apreciar as dife-
O próprio Koffka assinala que esse princípio já é aplicável ao renças radicais e estruturais existentes entre a organização
comportamento que os animais exibem nos experimentos de psicológica do verdadeiro uso de instrumentos e as operações
Thorndike durante o adestramento. dos chimpanzés.
Como já vimos, os principais argumentos de Koffka con- Como já indicamos anteriormente, a tendência oposta - a
tra a teoria dos três níveis, que separa radicalmente instinto e de aproximar o macaco do homem - também conduziu a
inteligência, consistem em que o princípio estrutural é aplicá- resultados negativos. Em uma série de experimentos, demons-
vel de maneira igual aos atos instintivos e aos atos inteligen- trou-se que a presença nos chimpanzés de rudimentos de uma
tes, e isso faz com que renuncie a estabelecer uma clara dife- inteligência similar à humana não só é totalmente insuficiente
renciação essencial entre as estruturas intelectivas e as instin- na hora de tentar inculcar nesses animais uma linguagem pare-
tivas. O princípio kohleriano dilui-se, portanto, no conjunto cida com a do homem, mas também na hora de tentar desper-
dos atos estruturais. tar neles uma atividade que se aproxime da do homem.
Essa fusão das reações instintivas e intelectuais sob o Por conseguinte, os resultados obtidos nessas investiga-
manto comum do princípio estrutural aparece claramente ma- ções tanto em sentido positivo quanto no negativo levaram à
nifesta nas palavras de Koffka citadas anteriormente, quando negação dialética dos princípios de Kohler sobre a identidade
fica estabelecido de modo inequívoco que os atos dos chim- entre a inteligência dos macacos e a do homem.
panzés não podem de modo algum ser considerados atos O empenho em levar a hipótese kohleriana até seus limi-
volitivos e que pela maneira como aparecem não estão em tes lógicos serviu para revelar que o que Kohler considerava
absoluto acima dos atos instintivos. A atitude que o animal o ponto forte do intelecto dos macacos, ou seja, sua racionali-
manifesta quando age frente a uma situação é idêntica à que dade estrutural global, a presença de um sentido de situação
se pode observar nas andorinhas quando constroem um nas operações, mostrou ser um ponto fraco. Segundo a opi-
ninho. O instrumento não supõe uma mudança essencial nes- nião expressa por Kohler em outro trabalho, são escravos de
sa atitude. seu campo visual. O que distingue o homem do animal, de
270
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância
271

acordo com a correta observação de K. Lewin, é o livre-arbí- chimpanzé e as do homem, isso não é aplicável ao caso de
trio, componente totalmente necessário no autêntico uso de pessoas sadias, normais, mas ao caso daquelas cujo cérebro
instrumentos.
está doente e padecem de afasia, isto é, perderam a linguagem
Como Kühler pôde observar várias vezes, entre seus ma- e todas as características próprias da inteligência a ela relacio-
cacos havia animais incapazes de modificar a organização nadas. Ao caracterizar o comportamento desses doentes, A.
sensorial do esforço volitivo em questão. São escravos de seu Gelb chama atenção para o fato de que, junto com a lingua-
campo sensorial em uma medida muito maior do que o gem, perdem muito freqüentemente a atitude de liberdade
homem. Na verdade, como mostra o livro de Koffka, todo o ante uma situação, a possibilidade de gerar intencionalidade
comportamento dos macacos demonstra que os animais se que é própria do homem, revelando-se tão escravos do seu
encontram numa dependência servil da estrutura do campo campo sensorial como os chimpanzés das investigações de
visual, manifestando apenas aquelas intenções que lhe são Kühler.
provocadas por tais ou quais momentos estruturais da própria Segundo a magnífica expressão de Gelb, somente o ho-
situação.
mem pode realizar algo absurdo, ou seja, algo que não decor-
Como diz Lewin, o que se pode destacar é o próprio fato re diretamente da situação que percebe e que é irrelevante do
de que o homem possua a singular liberdade de criar intenções ponto de vista de uma determinada situação atual, como, por
frente a qualquer atividade, mesmo que esta seja absurda. Es- exemplo, a preparação de um pau para cavar quando não
sa liberdade, que é característica das pessoas que já entraram existem nem condições objetivas para utilizar o instrumento,
na cultura e está muito menos presente em crianças e em pri- nem condições subjetivas em forma de fome. Mas as investi-
matas, é um traço diferenciador mais evidente entre o homem gações revelaram o contrário quanto aos animais: o chimpan-
e o animal mais próximo dele do que um nível mais alto de zé não abstrai o instrumento da situação global concreta, não
inteligência.
lhe confere a categoria de ferramenta, e em função disso a
É fácil perceber que todos os autores citados - Kühler, ao racionalidade do comportamento do chimpanzé, afora o pró-
se referir a que os animais são escravos do campo visual; prio termo, nada tem em comum com o comportamento ra-
Koffka, ao assinalar a natureza instintiva e não-volitiva das cional do homem mais primitivo quando se serve realmente
operações dos chimpanzés; Lewin, ao destacar a liberdade de instrumentos.
intencional como o traço diferenciador mais manifesto entre o Somente isto toma compreensível o extraordinário fato
homem e o animal - estão falando de um mesmo fato essen- que o próprio Kühler também percebe: o intelecto antropóide,
cial. Todos eles conhecem esse fato perfeitamente, mas não que se converteu em patrimônio dos chimpanzés, não introduz
valorizaram suficientemente suas implicações conceituais, na nenhuma variação na estrutura da consciência dos macacos.
medida em que conhecê-Io não os leva à evidente conclusão Em termos da psicologia animal, foi produto da evolução
de que é impossível poder formular essa distinção básica entre segundo uma linha pura, mas não mista (Y. A. Vágner, 1923),
as operações do homem e as do animal se as submetermos a o que significa que sem dúvida se trata de uma formação
um princípio único. Investigações posteriores, como por exem- recente, mas que não reestruturou a totalidade do sistema da
plo as de H. Meerson e A. Guillaume, demonstraram que, em- consciência e da atitude para com a realidade, caracterfsticns
bora seja possível falar de semelhanças entre as operações do I dos animais. Em outras palavras, nos experimentos de KI)hlt~l'
I

I
272
L. S. Vigotski
273
o desenvolvimento psicológico na infância

encontramo-nos diante de operações intelectivas que se pro- Porque no caso do reflexo condicionado, que segundo Bühler
duzem em um sistema instintivo de consciência. seria um representante do segundo nível, tratar-se-ia do mes-
'11111
Como conclusão principal e fundamental, que constitui o mo instinto, mas individualizado, adaptado a condições espe-
quid da questão, poderíamos dizer que, se nos mantivermos ciais. O próprio caráter da atividade continua estando tão inti-
integralmente dentro dos limites do princípio estrutural como mamente condicionado como no reflexo não-condicionado.
tal, sem introduzir critérios complementares que permitam Como já vimos, isto também pode ser aplicado por inteiro ao
distinguir o superior do inferior, os traços fundamentais das comportamento dos macacos, comportamento que, assim como
operações intelectivas dos chimpanzés - que Koffka conside- o reflexo condicionado, constitui algo novo pela estrutura do
rava a base objetiva para aplicar seu único princípio explicati- mecanismo de execução e pelas condições em que aparece,
vo a toda a psicologia infantil- em nada se diferenciam basi- embora no conjunto se mantenha integralmente no plano da
camente de qualquer reação instintiva. consciência instintiva.
Nesse sentido, podemos dirigir contra os estruturalistas A própria tentativa de Bühler de abarcar a totalidade do
sua própria arma. Baseando-nos no princípio da dependência desenvolvimento dos animais e do homem com sua teoria dos
das partes em relação ao todo, poderíamos dizer que a nature- três níveis é tão pouco convincente quanto a tentativa dos
za do intelecto, que pertence a outra estrutura da consciência, estruturalistas de eliminar a barreira conceitual de princípio
não pode ser outra senão a de um intelecto que surge como entre instinto e intelecto*.
sistema completamente novo, como é a consciência humana. Vemos, portanto, que o produto superior do desenvolvi-
Essa aproximação parcial a uma zona restrita da ativida- mento animal, ou seja, o intelecto dos chimpanzés, não é idên-
de, independente do conjunto, contradiz essencial e radical- tico, nem estrutural nem tipologicamente, ao do homem. Esta é
mente o princípio estrutural em que se baseia o próprio Koffka. uma nova conclusão, não sem importância. Não obstante, é
Na verdade, qualquer ato instintivo tem sentido de um ponto suficiente para nos obrigar a revisar radicalmente a legitimida-
de vista estrutural dentro de uma situação dada, mas não o tem de de aplicar o princípio estrutural de Koffka à explicação do
fora de seus limites. O macaco - e isso tem de ser considerado desenvolvimento psicológico da criança. Se o produto superior
como plenamente demonstrado - age de forma inteligente do desenvolvimento animal não é assimilável ao humano tere-
exclusivamente dentro dos limites do campo e de sua estrutu- mos de chegar à conclusão de que também o desenvolvimento
ra. Fora dele age cegamente. Portanto, a verdadeira argumen- que origina seu aparecimento é por princípio distinto do que
tação do principio estrutural acha-se por completo dentro do serve de base ao aperfeiçoamento do intelecto humano.
reino do instinto. .
Isto por si só já é suficiente para reconhecer que toda psi-
Não é à toa que Koffka alega exatamente isso, e com todo cologia naturalista que considere a consciência humana ex-
o fundamento, como argumento principal contra a teoria dos clusivamente como produto da natureza e não da história, e
três níveis de K. Bühler. Não obstante, seria errôneo pensar
que estar contra esse princípio supõe retomar à teoria de * As teorias de Koffka e de Bühler não se contrapõem de forma tão radical
Bühler. Koffka tem toda a razão quando demonstra que esta é como o primeiro faz parecer. Representam, na verdade, duas variantes de um mesmo
produto de um profundo equívoco. Os três níveis estão, em es- esquema, que procura abarcar todo o desenvolvimento psíquico dos animais e do
homem em um princípio único. Nesse sentido as posições dos autores coincidem. Já
sência, incluídos em um, concretamente dentro do instinto. assinalamos que é também isto que une a teoria de Koffka com a de Thorndike.
275
274 odesenvolvimentopsicológiconainfância
L.S.Vigotski

tente com isso abarcar sob um único conceito a totalidade da níveis, assinala a afinidade interna que rege esses três níveis
estrutura da psicologia dos animais e do homem sempre care- da psique animal.
cerá de fundamento diante dos fatos. Tratar-se-á forçosamente Portanto, consideremos que o intelecto dos chimpanzés é
de metafísica e não de dialética. mais um produto do comportamento no reino animal do que
Sabe-se que o trabalho de Koffka se confronta de forma um degrau inferior do pensamento humano. É mais o último e
polêmica com os critérios mecanicistas de Thorndike impe- definitivo degrau da evolução animal do que o mais confuso
rantes anteriormente. Neste ponto, a obra conserva sua impor- começo da história da consciência humana.
tância básica. Kõhler demonstrou que os chimpanzés não são Como já dissemos, quando se apresentam no homem uma
autômatos, que agem compreendendo, que as operações inte- série de doenças do córtex cerebral, fundamentalmente de
ligentes dos animais não surgem casualmente por tentativa e suas zonas especificamente humanas, observamos um com-
erro nem como um conglomerado mecânico de elementos iso- portamento em certa medida análogo ao dos macacos. Esta-
lados. Trata-se de uma conquista firme da psicologia teórica à mos dispostos a insistir que somente aqui é legítimo e admis-
qual não se pode renunciar quando se tenta resolver qualquer sível o paralelismo entre o comportamento do chimpanzé e o
do homem, somente aqui (e somente quanto a traços isola-
problema do desenvolvimento.
dos) encontramos uma analogia real e não imaginária, uma
Por isso, se considerarmos seus postulados desse ponto
identidade real de dois processos intelectuais.
de vista, ou seja, de baixo, em comparação com os atos cegos
Quando vemos que um doente afetado por esse tipo de
e irracionais dos animais, eles conservam toda a sua força. Mas
doença é capaz de despejar água de uma jarra em um copo, se
se o fizermos a partir de outro ponto, de cima, se os comparar-
quiser beber, mas que em outra situação é incapaz de realizar
mos com a verdadeira utilização de instrumentos pelo ho- arbitrariamente a mesma operação, estamos de fato diante de
mem, e nos perguntarmos se as características do intelecto dos uma situação análoga à que vemos no macaco quando deixa
chimpanzés estão mais próximas do homem ou dos macacos de reconhecer na caixa sobre a qual descansa outro animal a
inferiores, teremos de dar uma resposta totalmente contrária à mesma coisa, o mesmo instrumento que utilizou em outra oca-
que encontramos em Kõhler. sião de forma aparentemente análoga à do homem.
A diferença que pode existir entre os atos do macaco , I
Reiteremos, pois, que as operações dos animais com o de-
nos experimentos de Kõhler e o comportamento dos animais nominado emprego de instrumentos se encontram em uma
nos de Thorndike, ou seja, a diferença entre os atos cons- vizinhança e em um parentesco muito mais próximos da cons-
cientes e os atos cegos dos animais, tem muito menos impor- trução de um ninho pelas andorinhas do que do mais primitivo
tância teórica do que a diferença entre as operações dos chim- emprego de instrumentos pelo homem.
panzés e o uso verdadeiro de instrumentos. Essas operações Por isso nos detemos de forma tão minuciosa na crítica do
apresentam algumas características diferenciais mais impor- princípio básico de Koffka, porque somente a crítica do prin-
tantes em relação ao emprego de instrumentos pelo homem cípio fundamental de toda a sua teoria pode constituir a crítica
em um sentido lato do que em relação à atividade instintiva e fundamental de sua teoria sobre a psicologia infantil.
reflexa condicionada dos animais. Precisamente por isso,
Koffka tem razão quando, ao contrapor-se à teoria dos três

-
276
I

277
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

5 Também estamos em uma situação similar na hora de


estudar o problema da imitação. E, de novo, Koffka parte da
Nestas páginas chegamos à mais crucial e essencial fron- analogia quando se propõe a pensar a imitação nos animais e
teira, aquela onde começam os problemas especificamente na criança, subordinando ambas a leis estruturais. Esse autor
humanos da psicologia e os problemas do desenvolvimento considera que não existem diferenças essenciais entre as for-
psicológico da criança: aquela que, em seu conjunto, distin- mas inferiores e superiores de imitação, e acrescenta que o
gue o homem do animal, tanto na estrutura global da cons- problema da imitação se transformou para ele em um proble-
ciência quanto na atitude para com a realidade, frente a analo- ma estrutural geral similar ao problema da origem da estrutura
gias parciais em tal ou qual função. do movimento a partir da estrutura da percepção.
Revelamos, portanto, a tese fundamental de nossa análi- Não obstante, quando analisamos o papel da imitação no
desenvolvimento voltamos a tropeçar na mesma diferença que
se crítica. O principal defeito subjacente a toda a teoria de
indicamos anteriormente. Kõhler escreve que, inclusive nos
Koffka está em sua tentativa de reduzir os principais fenôme-
chimpanzés, a imitação só é observada muito raramente e
nos da evolução psíquica da criança às teses dominantes na
sempre naqueles casos nos quais tanto a situação que lhes é
psicologia dos animais. Procura situar no mesmo nível o de-
apresentada quanto a solução se aproximam daquelas em que
senvolvimento psicológico do animal e o da criança, preten- o animal age espontaneamente.
!I!
dendo incluir sob o mesmo princípio o animal e o homem. Por conseguinte o animal, inclusive o mais inteligente, só
Naturalmente, nessa tentativa tropeça com a encarniçada é capaz de imitar o que está em maior ou menor grau perto de
resistência dos fatos. Examinaremos apenas dois exemplos suas próprias possibilidades. Ao contrário, para a criança a
fundamentais em uma série de fatos diferentes conseguidos ,111 imitação constitui fundamentalmente o caminho para adquirir
em experimentos com animais, que evidenciam essa resistên- i
aquelas atividades que estão muito longe de suas próprias
cia dos fatos a ser categorizados. possibilidades, o meio para adquirir funções como a lingua-
Começaremos pela inteligência prática. Do nosso ponto gem e as funções psicológicas superiores. Nesse sentido, diz
de vista, é surpreendente a circunstância de que as operações Koffka, a imitação é um potente fator de desenvolvimento.
intelectivas que Kõhler estabelece nos animais não sejam sus- Limitando-nos ainda aos dois exemplos assinalados, po-
cetíveis de desenvolvimento. Como diz Koffka, Kõhler, neste demos formular com clareza a pergunta essencial cuja respos-
caso, valoriza muito pouco as possibilidades de desenvolvi- ta buscaremos inutilmente no trabalho de Koffka: se é verdade
mento.
que podemos entender a inteligência prática e a imitação da
Em outro lugar, Koffka expressa-se com mais clareza, criança recorrendo às mesmas leis que regem a atuação dessas
comparando o comportamento das crianças e dos animais em duas funções nos chimpanzés, como explicar que as duas fun-
operações que exigem inteligência prática. Detém-se nos da- ções desempenhem na evolução da criança um papel tão dife-
dos obtidos por Alpert, que demonstrava que essas faculdades rente do que ocorre no comportamento dos macacos? Com
se desenvolvem rapidamente durante os primeiros anos de efeito, é do ponto de vista evolutivo que se vê que existem
vida humana, ao passo que os macacos pouco progridem nes- mais diferenças do que semelhanças. Por isso o princípio es-
se sentido, apesar de uma exercitação contínua.> trutural resulta aos nossos olhos insuficiente para explicar o
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L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

que constitui o núcleo central de todo o problema, e que é pre- tegorias distintas de inteligência devido a sua natureza psico-
cisamente o desenvolvimento. lógica.
Não nos deteremos em mais exemplos, que abundam nas Ninguém discutirá a idéia básica de que o estudo do de-
páginas dos livros e evidenciam o que já expressamos antes senvolvimento psíquico deverá desvendar o aparecimento da
em termos gerais. O leitor encontrará com facilidade vários abordagem compreensiva da realidade, ou seja, a origem da
lugares que mostrem, com muito mais clareza do que se pode- sensação consciente, mas o "quid" da questão é ver se a com-
ria fazer em uma rápida introdução, o quão intimamente liga- preensão, característica da consciência humana, é igualou
dos estão os atos dos chimpanzés com a motivação instintiva, diferente da do animal.
o quão limitados estão os animais em sua percepção do instru- K. Koffka afirma que um traço essencial daquelas opera-
mento como objeto e em sua atitude para com ele; o quanto ções em que ele considera que o princípio estrutural está sem
são escravos da situação que vêem. ill

dúvida objetivamente assentado é o surgimento da percepção


À luz do que foi dito antes, o leitor será incapaz de seguir consciente da situação. Afirma que um ato terá caráter racio-
sem estranhamento a linha de argumentos de Koffka, que gira nal se o significado da situação for percebido de forma cons-
o tempo todo em tomo de uma idéia: a idéia de igualdade, de ciente. Do mesmo modo, a transferência - ou seja, a aplicação
identidade essencial entre o comportamento do animal e o do correta de um procedimento, que foi aprendido em determina-
homem. Basta observar os traços característicos da correspon- :111
das condições, a outras novas situações, modificadas - consti-
dência entre as operações dos chimpanzés e a situação física II
tui sempre uma transferência consciente que pressupõe com-
objetiva para encontrar mais provas fidedignas que corrobo-
preensão. Uma vez assimilado um significado, este se estende
ram nossa idéia de que não é legítimo extrapolar o princípio a todos os outros objetos que têm propriedades comuns com o
estrutural para a totalidade do desenvolvimento psicológico da
criança. objeto em questão. Por conseguinte, diz ele, a transferência é
Resta ainda uma última observação antes de terminar de uma aplicação consciente do princípio estrutural.
Essa idéia da compreensão está tão onipresente em todas
expor nosso pensamento. Como assinalamos antes, o pathos
as análises e descrições de Koffka que ocupa sem dúvida um
de toda a psicologia estrutural está constituído pela idéia do
caráter inteligente dos processos psíquicos frente à aleatorie- lugar proeminente em sua teoria.
dade mecânica, cega, que lhes era atribuída em teorias ante- Ilustraremos isto mediante um único exemplo. Koffka re-
riores. Mas, depois do que foi dito anteriormente, é difícil ain- fere-se a certos experimentos com crianças em que estas da-
da haver dúvidas quanto ao fato de que a nova psicologia con- vam soluções erradas, experimentos que podem ter implica-
sidera que essa inteligência é basicamente idêntica nos ani- ções mais amplas do que as que lhe atribui o autor. Assim, em
mais e no homem. Tudo isso obriga-nos a situar aí a principal uma das provas, a criança era incapaz de resolver uma tarefa
falha do princípio estrutural. que exigia a utilização de um pau. A explicação disto é sim-
I' ples: a criança tinha um pau que vinha utilizando como cavalo
Falta ainda demonstrar que a inteligência a que se refere
Koffka em relação aos atos dos animais e a inteligência a que
II
até que isso lhe foi rigorosamente proibido. O pau que apare-
nos referimos na evolução psicológica da criança, embora
I

i cia na situação experimental era muito parecido com o que


sejam - ambas - fenômenos estruturais, constituem duas ca- i tinha sido usado antes para brincar; em função disso, a criança

"
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L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

conferiu-lhe o mesmo caráter de proibido e não pôde recorrer deira ou Opau para que resolva a tarefa de imediato. Esses ex-
a ele para a solução da tarefa. perimentos colocam em evidência até que ponto para a crian-
Um fenômeno análogo foi observado por T. Hart em ça a situação visível faz parte, por assim dizer, de um campo
experimentos realizados em um quarto no qual algumas gave- semasiológico mais complexo dentro do qual as coisas só po-
tas estavam situadas em frente a uma série de cadeiras. Quase dem agir entre si segundo determinadas relações.
todas as crianças foram incapazes de resolver a tarefa, pois Vemos nestes casos exemplos de algo que aparece clara-
havia sido rigorosamente proibido que subissem nas cadeiras. mente em todos os outros experimentos com crianças, de cujos
Quando se repetiu o mesmo experimento no campo de jogo, resultados cabe destacar um muito importante: quando uma
foram obtidos resultados positivos. criança resolve uma tarefa surgem em primeiro plano as leis
Esse exemplo mostra com clareza a que queremos nos do campo semasiológico, ou seja, as que se referem a como a
referir. Evidentemente, o pau que adquiriu o significado de criança percebe a situação e sua posição nela*. Aqui entra em
algo proibido ou o ato de subir na cadeira, tampouco permiti- jogo algo que será objeto de nossa análise em outro de nossos
III1I1

do, são muito diferentes da caixa que o chimpanzé não reco- escritos, concretamente o problema da linguagem e do pensa-
mento. **
nhece como suporte para alcançar o fruto porque outro animal
Como diz Koffka, talvez a maioria dos problemas remeta
está deitado sobre ela. Fica claro que nesses experimentos os
a essa questão, porque é muito difícil responder à pergunta de
objetos adquiriram para as crianças um significado que ultra-
passa os limites do campo visual. como o homem se liberta da percepção direta através do pen-
samento e chega com isso a dominar o mundo. Essa libertação
A dificuldade de utilizar a cadeira como suporte ou o pau da percepção direta por meio do pensamento - com base na
como instrumento não decorre de que a criança tenha deixado
prática - é o resultado mais importante que deriva da análise
de perceber esses objetos, nessa situação, quanto à utilidade 1111 dos experimentos com crianças. E, como nossos próprios ex-
para alcançar o objetivo. A causa deve ser atribuída a que, na perimentos evidenciaram, a palavra desempenha o papel mais
verdade, os objetos adquiriram um significado para a criança, determinante nessa questão. O próprio Koffka faz referência
neste caso o da cadeira ou do pau com os quais não se deve ao fato de que em determinado período da evolução infantil a
brincar: em outras palavras, para a criança existem regras palavra perde sua conexão com o desejo e com os afetos para
sociais envolvidas na solução da tarefa. Acreditamos que es- II11 passar a estabelecê-Ia com os objetos.
ses exemplos nos apresentam situações que não são de modo Como mostram os experimentos, a palavra liberta a crian-
algum exceção à regra geral que rege o comportamento da ça da servil dependência da situação observada por Kõhler
criança em circunstâncias similares. nos animais. Liberta os atos da criança. Além disso, ao confe-
Nós mesmos nos encontramos várias vezes em situações
parecidas em nossos experimentos quando ao começar a re-
nos fundamentalmente a uma pergunta formulada pelo próprio
solver uma tarefa a criança, surpreendentemente, não utiliza Kõhler: até que ponto poder-se-ia definir um chimpanzé por sua atitude diante de
objetos que estão de forma ostensiva dentro do seu campo de uma situação e por seu comportamento mediante instrumentos não disponíveis nem
visão. Fica evidente que a criança está admitindo, sem dizer presentes mas "só imagináveis"; mediante representações, isto é, tudo aquilo que tem
maior significado no pensamento humano. É isso que denominamos convencional-
uma palavra, que nessa situação deve agir de acordo com uma mente campo da razão, por analogia com o campo visual de Kõhler.
regra predeterminada, porque basta autorizá-Ia a utilizar a ca- ** Cf. Pensamento e linguagem, São Paulo, Martins Fontes, 1995.
282
L. S. Vigotski 283
o desenvolvimento psicológico na infância

rir sentido e generalizar os elementos visíveis da situação, a 6


palavra faz emergir o caráter instrumental do objeto, caráter
que permanece invariável seja qual for a estrutura de que faça Já podemos concluir nossa análise do primeiro princípio
parte o objeto.
que serve de base para o livro de Koffka e fazer um resumo
O fato de que a criança costuma falar consigo mesma dos resultados obtidos. Depois do que foi dito, não resta dúvi-
enquanto resolve uma tarefa não é novidade: muitos pesquisa- da de que a teoria de Koffka constitui uma tentativa extraordi-
dores também o observaram antes de nós. Não existem nem nariamente audaz e ambiciosa de reduzir as formas superiores
mesmo protocolos publicados até agora sobre pesquisas simi- de atividade na criança humana às inferiores que se observam
lares nas quais não se confirme esse fato. Mas a imensa maio- nos animais.
ria dos pesquisadores não se detém nisso, sem compreender a Tampouco é difícil concluir que essa redução de qualquer
importância de seu valor, sem observar que a palavra e o sig- forma superior de racionalidade dos atos e da percepção hu-
nificado a ela relacionado situam a criança em uma posição manos à racionalidade dos atos instintivos dos animais supõe,
radicalmente nova frente à situação, alterando radicalmente o de fato, um preço muito elevado que o autor se vê obrigado a
ato da percepção e criando a possibilidade do livre-arbítrio a pagar para superar o vitalismo. Supera-o cedendo diante do
que se refere K. Lewin como o traço diferenciador mais im- mecanicismo, já que não só são mecanicistas as teorias que
portante entr:eo homem e o animal*. reduzem o comportamento do homem ao funcionamento das
Não nos deteremos detalhadamente nesses experimentos, máquinas, mas também as que o reduzem à atividade dos ani-
aos quais nos referimos em outro lugar. Diremos apenas que mais. Nisso consiste a divergência radical entre nossa maneira
pretender considerar a linguagem que acompanha as ações de de interpretar o mecanicismo e a de Koffka.
manipulação da criança uma simples justaposição a sua ativi- Como facilmente se entende do informe que Koffka (1923)
dade contradiz o princípio estrutural que o próprio Koffka pro- dedicou a esse problema, o perigo fundamental do mecanicis-
põe. Considerar que o fato de que na atividade da criança, mo consiste unicamente, segundo ele, no fato de reduzir o vivo,
frente a determinadas situações, apareça a linguagem e com o consciente, a algo morto, automático, inorgânico.Interpreta o
ela o campo semântico seja um fato que deixa invariável a es- mecanicismono sentido literal da palavra, como redução ao me-
trutura da própria operação, significa adotar um ponto de vista cânico, e pensa, portanto, que para superar a redução basta que,
antiestrutural e entrar em franca contradição com aquilo em para interpretar a natureza morta, não se utilize o princípio de
que se baseia o próprio autor. um mecanicismo, mas o dos sistemas físicos, como faz Kõhler
Por conseguinte, a partir de suas próprias idéias, Koffka em suas investigações; ou, o que dá na mesma, admitir na pró-
deveria reconhecer que as operações da criança são essencial- pria natureza inorgânica a presença de processos estruturais de
mente distintas daquelas operações do animal, aparentemente conjunto que determinam o papel e o significado dos elementos
análogas. que os compõem.
Mas superar o vitalismo, que tenta reduzir o comporta-
mento do homem às regularidades que são observadas no dos
* Nesse sentido, é representativo o trabalho de Liprnan u. Bogen, Naive Physik, animais, supõe apenas ficar na metade do caminho. É claro
1926. dedicado a investigar a inteligência prática da criança.
que isto já vai além da tentativa de Thorndike de interpretar de
284 285
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

forma puramente automática a atividade relacionada com os Na verdade, se tudo fosse inteligente, desapareceria a fron-
processos superiores, mas continua a se tratar de puro mecani- teira entre o inteligente e o irracional, como se tudo fosse irra-
cismo no sentido estrito da palavra. cional. Há uma completa redução, como em Thorndike, a uma
Por conseguinte, se a tentativa de incluir o comportamen- categorização de sinal positivo ou negativo. Ali, mais ou me-
to dos animais em um princípio estrutural único leva Koffka a nos irracional, aqui, mais ou menos inteligente. Não se estabe-
superar o vitalismo às custas de ceder diante do mecanicismo lece distinção entre o desenvolvimento infantil e a evolução
e faz com que se detenha a meio caminho, também o conduzi- do animal. Segundo sua própria expressão, Koffka procura
rá ao resultado contrário, justamente a superar o mecanicismo fundir ambos, ou, o que dá na mesma, iguala o problema cen-
fazendo concessões ao vitalismo, o que novamente o obriga a tral da psicologia comparativa e o problema central da psico-
se deter no meio do caminho entre o mecanicismo e o vitalis- logia infantil.
mo. Essa postura - a meio caminho entre os becos sem saída Afirma que, para que a explicação da evolução psicológi-
do pensamento científico atual- é mais característica da psi- ca da criança tenha uma base ampla, é necessário incluir na
cologia estrutural contemporânea e, mais concretamente, do argumentação outros ramos da psicologia comparativa. E, já
livro de Koffka. que ambos os objetivos mantêm uma estreita relação entre si,
Reafirmando essa posição intermediária, os psicólogos procura fundi-Ios em um só, criando uma gestalt homogênea e
estruturalistas consideram a si mesmos eqüidistantes do me- não se limitando a apresentaruma exposição fragmentadade to-
canicismo e do vitalismo. Na verdade, estão se movendo in- dos os problemas paralelos. Mas é precisamente nisto que
teiramente pela trilha marcada por essas duas posições e in- consiste o tendão de Aquiles de todo o trabalho. A tentativa
cluem em suas teorias, sem se darem conta, elementos dos de unir a evolução da criança e o desenvolvimento animal, de
dois pólos extremos dos quais procuram se separar. De fato, a criar uma estrutura única, indivisa, na qual ambos se incorpo-
tentativa de Koffka de aplicar à atividade instintiva o princí- rem como partes não independentes, significa criar a mais pri-
pio estrutural com seu conceito de inteligência conduz irre- mitiva (utilizando palavras do próprio Koffka) Gestalt, que é
versivelmente a intelectualizar os instintos; ou, o que dá na própria das fases primordiais, primitivas do desenvolvimento
mesma, que o mais importante não surge no desenvolvimento, do conhecimento científico, como argumenta perfeitamente o
mas já está dado desde o início. autor do livro que analisamos.
A estrutura acaba sendo um fenômeno inicial, que está O que Koffka diz a propósito de sua caracterização das
presente desde o começo em todo desenvolvimento. Depois, primeiras estruturas da consciência infantil é também total-
tudo transcorre de acordo com uma pauta lógica, mediante su- mente aplicável no plano teórico a sua própria estruturação
cessivas multiplicações das estruturas. Não é à toa que Koffka simplista do desenvolvimento infantil e animal. Sublinha que
evita outro problema ao estudar os instintos: sua irracionalida- as estruturas que percebemos pela primeira vez são também
de, sua cegueira, sua inconsciência. E, ao admitir a inteligência as construídas de forma mais singela, que ocorrem em situa-
como fenômeno inicial, anterior ao próprio processo de de- ções muito simples. Determinada qualidade sobre um fundo
senvolvimento, facilita muito o mais difícil de todos os traba- uniforme. Com estas mesmas palavras poderíamos resumir
lhos a que os psicólogos pesquisadores já se propuseram - o de também nossa impressão da estrutura apresentada na teoria de
explicar a origem e o aparecimento da inteligência. Koffka: uma determinada qualidade sobre um fundo unifor-
286 287
L.S.Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

me. Essa qualidade é a estruturalidade, a compreensão ainda sistemada consciênciado homem,difere da estruturaglobal
indiferenciada, indivisa. da consciência do animal, é impossível identificar um ele-
Encontramo-nos, portanto, diante de uma teoria natura- mento parcial qualquer de uma ou outra estrutura (operação
lista conseqüenteda evolução psicológica da criança, que une intelectiva), já que o significado desse elemento só poderá ser
deliberadamente o animal e o humano ignorando a natureza esclarecido à luz de todo o conjunto de que faz parte.
histórica da consciência humana, uma teoria na qual os pro- Assim, pois, o próprio princípio da estruturalidade indica
blemas especificamente humanos só aparecem na qualidade o principal erro em toda a argumentação teórica de Koffka. Os
de material empírico e não como fundamento explicativo da acertos de sua teoria ilustram seus erros.
própria teoria. Não é de estranhar, pois, que esses problemas A conclusão a que nos levou a análise da teoria de Koffka
especificamente humanos surgidos da evolução psicológica realizada em páginas anteriores nos conduz inesperadamente
da criança, quando se manifestam através da linguagem dos a resultados paradoxais. Lembremos que o próprio autor ca-
fatos, ofereçam uma encamiçada resistência à tentativa natu- racterizao caminho de suainvestigaçãocomo de cimapara
ralista de interpretá-Ios e procurem romper o invólucro dessa baixo, diferente do habitual caminho de baixo para cima.
única e indiferenciada gestalt. Koffka explica essa via como uma tentativa de recorrer aos
Por isso, quando Koffka lembra a admirável expressão de princípios encontrados nas formas superiores de conduta para
W. Kõhler de que o comportamento racional e as faculdades explicar as inferiores, em contraposição à via tradicional que
intelectivas se opõem per se às explicações mentalistas, que o consiste em aplicar os princípios encontrados nas formas infe-
mentalismo nunca se mostra tão infundado quanto no domínio riores para explicar as superiores.
dos problemas da inteligência, apresenta justamente argumen- Não obstante, também o caminho seguido por Koffka
tos contra si mesmo, já que é precisamente ele quem tenta acaba sendo de baixo para cima, já que procura ilustrar a par-
explicar de forma mentalista - ou seja, partindo da natureza tir de baixoa evoluçãopsicológicada criançaatravésdo prin-
das operações intelectivas dos chimpanzés - o princípio fun- cípio que encontrou no comportamento dos animais.
damental do desenvolvimento. Mas, o que significa o menta- A tese de Koffka sobre a utilização do princípio estrutural
lismo senão uma tentativa de considerar o desenvolvimento para explicar a totalidade do rico conteúdo da psicologia
uma analogia da operação intelectual? infantil lembra muito uma situação análoga descrita com
É verdade que Koffka procura suavizar semelhante afirma- muita pertinência por W. James quando chegou pela primeira
ção ao diluir, como vimos, os processos intelectivos na ativida- vez a formular o famoso princípio da natureza limitada das
de instintiva. Mas com isso obtém um resultado pior ainda, já emoções. Acreditou a tal ponto que o princípio era importan-
que o que de fato faz é explicar também as formas mais primiti- te, tão válido para resolver todos os problemas, e que consti-
vas de comportamento sob o mesmo ponto de vista. tuía a chave para abrir todas as fechaduras, que relegou a se-
O conjunto da teoria de Koffka infringe um princípio gundo plano a análise real dos fenômenos para cuja explica-
decisivo, ao qual seu autor confere a categoria de fundamento. ção havia criado esse princípio.
Sabe-se que esse princípio consiste em reconhecer a primazia W. James diz, referindo-se a seu princípio, que, se possuí-
do todo sobre as partes. Manter-se fiel a esse princípio supõe mos uma galinha que põe ovos de ouro, descrever separada-
reconhecer que, visto que a estrutura global, a totalidade do mente cada um dos ovos não é de primordial importância. Seu
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L. S. Vigotski o desenvolvimento
psicológico na infância

princípio aparecia a seus olhos como a galinha que punha os Não obstante, a resistência dos dados de que falamos o
ovos de ouro. Não é estranho, portanto, que relegasse a segun- tempo todo se deixa notar sobretudo quando passamos do âm-
do plano a análise de emoções isoladas. No entanto, foi preci- bito dos fatos da psicologia animal ao do conteúdo real da psi-
samente a estrutura dos fatos com os quais sua teoria foi posta cologia infantil.
à prova mais tarde que mostrou o caráter equivocado de suas
hipóteses iniciais.
Em certo sentido, isso também pode ser aplicado ao prin- 7
cípio estrutural, que também foi considerado a galinha dos
ovos de ouro, e no qual a descrição e a análise de cada um dos Nesta parte queremos submeter a uma análise crítica o
ovos são concebidas como algo secundário. Não se deve es- princípio estrutural na perspectiva de sua correspondência
tranhar, neste caso, que a explicação dos mais diversos fatos com os dados da psicologia infantil, de modo que possamos
da psicologia infantil seja espantosamente parecida com dois estabelecer qual a parte do resultado obtido ao aplicar-se esse
ovos procedentes da mesma galinha. princípio, que se baseia na simples analogia, qual a parte
K. Koffka estabelece que o próprio ponto de partida da demonstrada e, sobretudo, qual é o valor explicativo dessas
evolução psíquica infantil é estrutural. Na criança já estão pre- analogias e dessas demonstrações. O que Koffkadenomina "a
sentes percepções racionais. O mundo já aparece em certa me- criança e seu mundo" constitui o tema principal deste capítu-
dida "gestaltizado" na forma em que é representado pela me- lo, e nossa análise ficará centrada em uma série de problemas
nor das crianças. Por isso a estruturalidade já aparece desde o como o ensino conceptual, o pensamento e a linguagem e o
começo da evolução infantil. jogo.
Naturalmente, surge a pergunta: em que se diferenciam a Começaremos por um caso concreto, que, no entanto, tem
estruturação posterior do mundo e a inicial? Neste livro, é para nós um valor geral e pode, pois, servir de introdução a
apresentada em detalhe uma descrição real dessas estruturas toda a análise posterior. Além disso, está diretamente relacio-
mais complexas que aparecem no processo evolutivo da crian- nado com o final do capítulo precedente. Ao discutir o proble-
ça. Mas, apesar de nossos desejos, não encontramos nele a ma do desenvolvimento da memória Koffka afirma, entre
resposta à pergunta de qual é a diferença explicativa e não só outras coisas, que a criança no princípio adota uma atitude
empírica entre essas estruturas que surgem durante o processo passiva ante suas lembranças e que só paulatinamente começa
evolutivo da criança e as que estão dadas de partida. Tem-se, a se apropriardelas, começa a retomar espontaneamentea deter-
na verdade, a impressão de que para o autor a diferença é ex- minados acontecimentos. Em outro lugar, ao referir-se à rela-
c1usivamente empírica e não conceptual. A galinha que põe ção entre as estruturas e o intelecto, assinala que a função deste
desde o primeiro momento ovos de ouro permanece invariá- último é justamente a formação de estruturas cada vez mais
vel ao longo de toda a evolução infantil. Nisto consiste o nú- perfeitas e mais compreensivas e que as demais estruturas não
cleo de toda a discussão. Se for adotado esse enfoque, é preci- surgem, por conseguinte, ali onde o fazem as estruturas racio-
so concordar que no processo da evolução infantil nada surge nais, mas residem fundamentalmente em outros centros.
de novo, nada que não figurassejá na psicologia do chimpanzé Esses dois exemplos encerram problemas de enorme im-
ou na consciência da criança. portância teórica. Com isso, queremos dizer que o mais im-
I'
ill:

290 291
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

portante para a história da evolução da memória infantil é mento do conceito de número na criança, considerando que
precisamente a transição, desde a lembrança passiva até o "o número é o modelo mais perfeito de nosso pensamento"
domínio voluntário e autônomo da lembrança. E, evidente- , (1934, p. 220).
mente, não é um momento concreto, casual e acessório aquele Parece que, na análise do modelo mais perfeito de nosso
que determina essa transição, mas tudo o que há de especifi- illll pensamento, a atenção do investigador deveria centrar-se nos
ii!
camente humano no desenvolvimento da memória da criança traços específicos que distinguem o pensamento como tal. O
se concentra, como em umfoco, nesse problema da transição que caracteriza nosso pensamento, diz Koffka, é que podemos
da memória passiva para ativa, já que essa transição repre- realizar nossas operações mentais com qualquer material, in-
senta uma mudança no próprio princípio de organização dessa dependentemente das relações naturais dos objetos. Em ou-
função, dessa atividade, ligada à reprodução do passado na tros níveis de desenvolvimento, a questão é outra: os próprios
consciência.
objetos determinam os processos mentais possíveis para eles.
Perguntamo-nos: em que medida o princípio estrutural de
E, na seqüência, todo o capítulo está dedicado a esses "outros
racionalidade geral basta para explicar o aparecimento de níveis de desenvolvimento".
voluntariedade na vida psíquica da criança?
No entanto, esse capítulo não está dedicado ao que trans-
Do mesmo modo, quando nos dizem que as outras estru-
forma o número no modelo mais perfeito de nosso pensamen-
turas não surgem onde o fazem as estruturas racionais, colo-
to, mas sim ao que o número representa de um ponto de vista
camo-nos naturalmente a pergunta: o que distingue as estrutu-
ras racionais das irracionais? Perguntamo-nos: será que o
negativo nos níveis primordiais de desenvolvimento, do ponto
aparecimento de estruturas racionais nada introduz de basica- de vista de sua carência dos traços mais importantes do pensa-
mento humano.
mente novo em comparação com o aparecimento e o aperfei-
'''11
çoamento das estruturas irracionais? Em outras palavras: li,l
questionamos a validade efundamentação do princípio da eS-
truturalidade para explicar não apenas os problemas da es-
8
pontaneidade. mas também os da racionalidade na vida pri-
vada da criança *. Cremos que nos três exemplos anteriores ficou patente o
Aqui não se trata de exemplos casuais, mas de algo de que constitui a característica mais comum e predominante no
essencial importância, e isso pode ser apreciado em um ter- problema que estamos analisando. O princípio estrutural mos-
ceiro exemplo, escolhido ao acaso, que nos revela que, seja tra sua validade na hora de explicar os pontos de partida, os
qual for o aspecto da evolução psicológica da criança de que momentos iniciais do desenvolvimento. Assim, por exemplo,
nos ocupemos, tropeçaremos inevitavelmente com as mes- mostra-nos o que é o número antes de se transformar no mo-
mas perguntas. Koffka submete à discussão o desenvolvi- delo perfeito de pensamento. Evita, no entanto, mostrar como,
a partir dessa primitiva estrutura, o número se converte em um
IIII conceito abstrato que servirá de protótipo para todos os con-
* Trata-se, em essência, do problema geral das funções psíquicas superiores na
psicologia estrutural; a voluntariedade e a racionalidade são somente alguns traços I!il ceitos abstratos. O princípio estrutural deixa fora de sua expli-
'I
isolados, característicos dessas formas superiores de atividade psicológica. li. cação esse processo posterior e, ao chegar a ele, o caráter ex-
292
L. S. Vigotski
293
o desenvolvimento psicológico na infância

plicativo que se mantinha no princípio cede lugar à simples conhecida tese de W. Stem: o começo do desenvolvimento da
descrição fatual de uma determinada seqüência, à constatação linguagem racional é marcado pela extraordinária descoberta
dos fatos.
feita pela criança de que cada coisa tem um nome. Koffka
Com a mesma exatidão e perfeição o princípio estrutural também aceita a analogia estabelecida por K. Bühler entre
explica as fontes do desenvolvimento da memória, mas tam- essa "extraordinária descoberta na vida da criança" e o empre-
bém deixa sem explicação como essas primeiras estruturas da go de instrumentos por parte do macaco e afirma, também
memória passam a operar de forma ativa com as lembranças. seguindo Bühler, que a palavra faz parte da estrutura da coisa,
Ao chegar aí o discurso se limita, mais uma vez, a constatar
da mesma maneira que para o chimpanzé o pau faz parte da
simplesmente a substituição da recordação passiva pela ativa. situação de alcançar o fruto.
O mesmo ocorre no caso das estruturas irracionais e ra-
Com a mesma minúcia Koffka também explica a primeira
cionais. Para o princípio estrutural, a transformação de umas
nas outras continua sendo um enigma insolúvel. generalização da criança, que se manifesta no fato de aplicar a
palavra que conseguiu aprender a novos objetos. "Como se
Esse modo de proceder faz com que se estabeleça uma
relação muito curiosa entre o princípio explicativo e o mate- deve interpretar essas transposições?", pergunta. Bühler com-
rial empírico a que se aplica. O modo de explicação adotado para legitimamente essas transposições observadas na criança
(de baixo para cima) leva necessariamente o autor a ilustrar durante o período da denominação às que realiza, por exem-
de forma adequada e convincente os estágios primordiais, ini- plo, o chimpanzé, quando utiliza como pau as abas de um cha-
ciais, pré-históricos da evolução infantil. Mas o próprio curso péu, indicando assim em que direção se deve orientar a busca
da evolução em andamento - o que equivale a dizer o proces- da explicação desse problema.
so de negação desses estágios iniciais e sua transformação em Se essa analogia entre a aprendizagem da linguagem e o
estágios do pensamento desenvolvido - fica sem explicação. emprego do pau pelo macaco fosse legítima, nada se poderia
E isto não é casual. O conjunto de todos esses dados apóia- dizer contra toda a teoria posterior de Koffka. Mas ao analisá-
se em um único ponto, sem a explicação do qual será impossí- Ia de perto vemos que é absolutamente falsa e a partir dela se
vel alcançar resultados adequados. Esse ponto diz respeito ao tergiversa toda uma série de problemas a ela relacionados. Sua
problema do significado. Como já vimos, a psicologia estrutu- falsidade consiste em que se ignora, nesse caso, o mais impor-
ral inicia o caminho histórico partindo do problema da racio- tante da palavra: seu aspecto psicológico, aquele que determi-
nalidade. Mas neste problema vê apenas a racionalidade pri- na sua natureza psicológica. Ignora-se, precisamente, o signi-
mitiva, remota, que caracterizaria tanto as formas instintivas ficado da palavra, sem o qual esta deixa de ser palavra.
quanto as intelectuais, tanto as inferiores quanto as superiores, É verdade que Koffka, ao aplicar o princípio estrutural
as animais e as humanas, as históricas e as pré-históricas, da para explicar a origem da linguagem na idade infantil, assina-
vida psicológica. Servindo-se do mesmo princípio encontrado la o caráter racional dessas primeiras operações da criança no
no comportamento semi-instintivo do macaco, a psicologia manejo da linguagem. Mas coloca um sinal de igualdade entre
estrutural passa a explicar os processos de desenvolvim"ento o significado que adquire o pau na situação imediata do maca-
da linguagem e do pensamento na criança. E assim, diante do co e o significado da palavra. E isto nos parece totalmente ir-
problema do surgimento da linguagem, Koffka reproduz a regular.
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L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

Porque é com a ajuda do significado da palavra que pela partes de um conjunto que tem determinado significado. Os
primeira vez se torna possível o pensamento abstrato e o uso de experimentos de Ch. Bühler mostraram que na percepção da
conceitos. A palavra possibilita a atividade especificamente criança a estrutura e o significado procedem de duas raízes to-
humana, que é impossível no macaco, e cuja essência consiste talmente distintas.
em que o homem começa a organizar sua conduta, não em fun- É verdade que Koffka não considera esses experimentos
ção da percepção direta desta, nem dependendo da estrutura do que acabamos de citar suficientemente consistentes. Não obs-
campo visual, mas somente através do pensamento. tante, os fatos revelam, como diz Bühler, que todas as crianças
Koffka não percebeu nesse problema o salto dialético que que tinham sido capazes de compreender o significado do
'I

realiza o desenvolvimento quando passa das sensações ao desenho dominavam, sem exceção, a função nominativa da
pensamento. Não é portanto casual que o problema do pensa- "
!I!
linguagem e que, entre todas elas, somente uma, que já com-
mento em sua totalidade esteja menos estudado na psicologia ,I preendia a linguagem, ainda não havia assinalado o desenho.
estrutural e que se baseie quase por completo em uma analo- jill Disso se pode deduzir, diz o autor, que o sentido da palavra e
gia formal com as estruturas visuais. Não podemos senão con- a estrutura se desenvolvem a partir de duas raízes completa-
cordar com a opinião defendida com especial energia por E. mente distintas. Os recentes experimentos de Hetzer e Wige-
Brunswik, para quem o problema mais difícil para a psicolo- meyer também mostraram que somente quando a criança do-
gia estrutural é precisamente o do significado. Essa psicologia mina a função significativa da linguagem surge nela a percep-
dilui o problema do significado específico da palavra dentro ção do sentido do desenho.
do problema geral da racionalidade inespecífica de todo o Não podemos deixar de manifestar nossa concordância
comportamento. É lógico, portanto, que não se leve em conta com Brunswik em que os significados podem determinar em
a diferença, tão clara e evidente, entre a conduta limitada do alto grau os processos estruturais e entrelaçar-se tão estreita-
macaco e a livre do homem que pensa. I", mente com eles, que se transformam finalmente em partes or-
Repetimos mais uma vez que o paradoxal da questão con- gânicas de uma percepção racional única. Aqui, diz Brunswik
siste em que Koffka não descarta os fatos e que, embora con- com muita propriedade, as possibilidades explicativas da teo-
temple toda aquela variedade de fenômenos que não cabe nos ria estrutural tropeçam em sua própria limitação.
limites da explicação estrutural, opta no entanto, em todos os Parece-nos significativo que, em um de seus recentes tra-
casos, por não dar uma importância substancial a esse estado balhos, o próprio Kohler estabeleça uma distinção tão estrita
de coisas e, devido a isso, os próprios fatos desaparecem do entre objetivo e significado. Kohler considera que este último
eixo de sua explicação e sua análise do desenvolvimento fica surge empiricamente, deixando por enquanto em aberto a
limitada a uma simples explicação fatual da situação. questão de se nesse processo de aparecimento dos significa-
Os experimentos de Michotte fizeram ver que a percep- dos intervêm, ou não, os princípios funcionais da teoria estru-
ção estrutural é mais pobre per se do que a percepção racional tural e como atuam nele. Essa colocação extremamente pru-
de qualquer conjunto imediato. Os experimentos de Sander dente da questão deixa em essência sem resolução o problema
evidenciaram que, quando as partes de uma imagem óptica principal da história do desenvolvimento dos conceitos, do
qualquer vão crescendo paulatinamente e alcançam de repente pensamento abstrato, da abstração, ou seja, dos processos cen-
o nível semântico mínimo, começam a ser percebidas como trais em todo o desenvolvimento psicológico da criança. Tam-
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L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

bém é verdade que consideramos mais prudente uma tal for- Nossa opinião é que, ao longo de toda a sua análise desse
mulação do problema do que recorrer sem mais nem menos a problema (análise que segue uma linha idealista), apenas em
uma analogia que reduza os processos do pensamento abstrato uma coisa Kõhler tem sem dúvida razão, e devemos reconhe-
às mesmas estruturas que conhecemos no nível do pensamen- cê-Io logo de saída. Tem razão em discrepar da teoria que pro-
to visual. Esta última solução do problema não explica de cura apresentar o significado como algo primário em relação à
forma satisfatória o fato de que processos estruturais basica- organização sensorial das estruturas percebidas. Kõhler de-
mente iguais nos macacos e no homem conduzam de fato a monstra de modo plenamente convincente que os significados
diferentes formas básicas de aproximação da realidade, assi- , não constituem tal momento primário, mas surgem, no pro-
naladas pelo próprio Kõhler, e que são a tal ponto importantes cesso de desenvolvimento individual, muito depois; que a
que foram relacionados com a própria possibilidade de desen- percepção estrutural é uma formação primária, independente
volvimento cultural, isto é, do desenvolvimento especifica- e mais primitiva que o significado. Nisso Kõhler tem absoluta
mente humano da psique. razão.
Deter-nos-emos um pouco mais nesse problema do signi- Por outro lado, não é difícil mostrar em que consistem
ficado, pois constitui a chave dos problemas de que tratare- seus principais erros. Inclusive, mesmo que carecêssemos do
mos depois. significado dos objetos que percebemos, afirma Kõhler, conti-
Como já vimos, Koffka dilui o problema do significado nuaríamos percebendo-os como determinadas unidades orga-
na estruturalidade e racionalidade geral de todo o processo nizadas e isoladas. Quando vejo um objeto verde, posso dizer
psíquico. Na verdade [o significado, Red.] é um elemento que imediatamente o nome dessa cor. Depois poderei ficar saben-
faz parte da estrutura e, portanto, não pode ser separado do do que essa cor é utilizada para a sinalização do tráfego ferro-
corpo geral dos processos constituídos estruturalmente. viário e como símbolo da esperança. Mas não seria lícito que
Kõhler aborda diretamente esse problema em seu último eu explicasse a cor verde, em si, mediante esses significados.
trabalho sistemático. Neste, parte do correto princípio de que A cor verde existe independentemente de sua origem e so-
na experiência direta operamos sempre sobre uma percepção mente mais tarde adquire determinadas propriedades secun-
consciente. Como diz corretamente, quando afirmamos que dárias, que a ela se incorporam. Todas as unidades sensoriais
vemos diante de nós um livro, cabe objetar que ninguém pode organizadas existem antes dos significados. É essa precisa-
ver um livro, propondo diferenciar rigorosamente a sensação mente a concepção defendida pela psicologia estrutural.
da percepção. Segundo suas palavras, não podemos ver o li- Mas basta recordarmos os experimentos do próprio Kõhler
vro, porque esta palavra implica o conhecimento de uma de- sobre a percepção de matizes da cor cinza, que Koffka realiza-
terminada classe de objetos na qual se inclui aquele a que nos ria por sua vez com animais amestrados, para comprovar que
referimos. Para Kõhler, a tarefa do psicólogo é deslindar tal a própria percepção não é, em absoluto, totalmente indepen-
significado do material diretamente percebido. Falando em dente do significado. Na verdade, pareceria que somente
termos gerais, os processos sensoriais enquanto tal não podem quando este faz ato de presença a criança começa a perceber a
nos apresentar nenhum objeto. Um objeto não pode emergir qualidade absoluta da cor, percebendo-a com independência
sem que a experiência sensorial se integre diretamente com o de seu fundo. Por conseguinte, a fusão dos significados com
significado. as estruturas sensoriais a que se refere Kõhler não pode deixar
298 o desenvolvimento psicológico na infância
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L. S. Vigotski

de modificar também a própria organização sensorial dos ob- nificados como um processo de reprodução, ou seja, um pro-
jetos que percebemos. cesso essencialmente educativo.
Para K6hler é evidente que nosso conhecimento do ma- É curioso que a psicologia estrutural tenha começado
nejo prático das coisas não determina a existência destas criticando os experimentos com sílabas desprovidas de senti-
como entidades independentes. Mas basta recordarmos seus do para chegar, nofinal, à teoria de uma percepção desprovi-
próprios experimentos, nos quais o macaco deixa de reconhe- da de sentido. Começou combatendo o associacionismo para
cer a caixa em uma situação distinta, para concluir que tal terminar com o triunfo desse princípio, já que procura expli-
existência independente das coisas é impossível fora de um car, com ajuda do princípio da associação, todo o especifica-
determinado significado dessas coisas como objetos. É preci- mente humano da vida psíquica. Deve-se levar em conta que o
samente graças ao aparecimento da estrutura semântica que próprio Kõhler reconhece que é precisamente a existência do
surge a constância do objeto, que diferencia de forma tão os- significado que distingue a percepção do homem da do ani-
tensiva a atitude do animal e a do homem frente à realidade. mal. Mas, se deve sua origem a processos associativos, estes
constituirão indubitavelmente a base de todas as formas de
Ao adotar esse ponto de vista, o próprio Kõhler se vê
obrigado a entrar em franca contradição com o princípio es- atividade especificamente humanas. O significado é simples-
trutural, quando assinala que a existência independente das mente lembrado, repetido, reproduzido de forma associativa.
O próprio Kõhler trai aqui o princípio estrutural e retoma
estruturas sensoriais não depende do significado. Assim como
por completo à teoria do significado que no princípio comba-
em física, diz, onde a molécula pode ser distinguida como uni-
tia. É assim que estão as coisas, diz ele, quando as enfocamos
dade funcional, determinadas unidades estão dinamicamente
de um ponto de vista teórico. Mas, na verdade, nossas percep-
isoladas no campo sensorial.
ções e significados estão indissoluvelmente unidos. Por con-
Como sabemos, a psicologia estrutural começou tentando seguinte, o princípio e a realidade divergem. A psicologia es-
rebater a teoria do atomismo em psicologia. Evidentemente,
trutural adquire um caráter analítico abstrato, que nos afasta
se o fez foi somente para colocar a molécula no lugar do das sensações diretas, vitais, ingênuas e racionais com que real-
átomo, já que, para adotar o ponto de vista de Kõhler, seria ne- mente deparamos na experiência direta.
cessário admitir que a realidade que se percebe consta de uma No entanto, o próprio K6hler sabe que na pessoa adulta
série de moléculas independentes, que não dependem de seu normal nada pode escapar dessa união com o significado.
significado. Sabe também o que realmente encerra a fórmula idealista de I.
Em outro lugar, K6hler diz claramente que, se as formas Kries - claramente idealista -, que afirma que os significados
existem desde os tempos mais remotos, é muito plausível que transformam as sensações em coisas, que, portanto, o apare-
adquiram significado. O conjunto, com todas as suas proprie- cimento da consciência do objeto mantém relação direta com
dades formais, é dado de antemão e neste caso pareceria que o os significados. Sabe também que o significado, ao estarrela-
significado faz parte dele. Por conseguinte, o significado nada cionado com a situação imediata, parece estar localizado no
encerra de novo. Nada traz consigo que não estivesse contido campo visual. E, ao mesmo tempo, adota a mesma posição de
na forma primitiva em questão. Depois disto não é de estra- Koffka, isto é, ao demonstrar o caráter primário, inicial e pri-
nhar que K6hler considere, no fundamental, a origem dos sig- mitivo da estrutura em comparação com os significados, su-
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põe com isso confirmar sua supremacia, seu caráter predomi- Algo semelhante também ocorre no processo de desen-
nante sobre eles. volvimento das percepções da criança. O significado dá lugar
Mas o problema tem de ser formulado ao inverso. Por ser ao surgimento de um quadro racional do mundo. E com a
justamente a estrutura algo primitivo e original, não pode mesma exatidão com que um dos enxadristas estudados por
constituir um ponto determinante na explicação das formas de Bizé lhe comunicou que percebia a torre como uma força reta
atividade especificamente humanas. Quando Kohler diz que e o bispo como uma oblíqua, a criança começa a perceber as
qualquer percepção visual se organiza em determinada estru- coisas somente na medida em que as compreende, introduzin-
tura, tem toda a razão. Cita como exemplo a estrutura das do elementos do pensamento em suas percepções diretas.
constelações. Mas cremos que esse exemplo depõe contra ele. Comparando isto com o que lemos no livro de Koffka a
Cassiopéia poderia servir de exemplo dessa estrutura. No respeito das percepções,.não podemos deixar de perceber com
entanto, o céu para o astrônomo, que une diretamente o que que força tenta defender o ponto de vista oposto, puramente
percebe com os significados, e o céu para quem desconhece a naturalista, sobre a história do desenvolvimento da percepção
astronomia constituem, é evidente, estruturas de ordem total- infantil. De sua perspectiva, tal história constitui uma seqüên-
mente diferente. cia perfeita, que começa com a percepção das cores e termina
Já que nos ocupamos de uma questão crucial, não pode- com as categorias mediante as quais percebemos e nos damos
mos deixar de expor um ponto de vista geral relativo à histó- conta da realidade.
ria do desenvolvimento da percepção infantil, a fim de con- Estudaremos somente os pontos extremos para termos
trapô-Io ao de Koffka. Consideramos que a melhor maneira uma idéia da via seguida por Koffka e localizarmos em que
de expressar esse ponto de vista é com a ajuda de uma sim- ponto esta se desvia dos fatos.
ples comparação. Comparemos como diferentes indivíduos Embora K. Koffka tenha manifestado sua oposição aos
experimentos de E. Peters sobre o papel determinante que
percebem um tabuleiro de xadrez com as peças colocadas
desempenha o surgimento do conceito de cor na estrutura da
nele: aquele que não sabe jogar xadrez, aquele que acaba de
começar a jogar e dois enxadristas, um normal e outro notá- percepção das cores, viu-se obrigado, não obstante, na última
edição, a tratar novamente dessa questão e a revisá-Ia. Com
vel. Pode-se dizer com segurança que esses quatro indivíduos
base em seus experimentos, Peters formula uma pergunta sem
vêem o tabuleiro de xadrez de modos completamente distin-
dúvida correta e mostra que o desenvolvimento da percepção
tos. O que não sabe jogar perceberá a estrutura das figuras do das cores nas crianças de mais idade não se reduz simples-
ponto de vista de seus traços externos. Seu valor, a disposição mente à evolução de funções sensitivas inatas ou de seu subs-
de umas em relação às outras e a relação entre elas desapare- trato morfológico. Segundo suas palavras, esse desenvolvi-
cerão por completo de seu campo de visão. Esse mesmo tabu- mento fundamenta-se na formação, no nível sensorial, dos de-
leiro aparecerá como uma estrutura totalmente distinta para o nominados processos psicológicos superiores de percepção,
indivíduo que conhece o significado das figuras e seus movi- reprodução, pensamento. A percepção está pouco determina-
mentos. Para ele, certas partes do tabuleiro constituirão o da pela sensação sensitiva. O conhecimento do nome da cor
fundo e outras se destacarão como figuras. De modo diferen- pesa com força maior do que os componentes sensoriais. De-
te verá o jogador normal e de maneira ainda mais distinta o nominações iguais obrigam a criança a incluir cores diferentes
enxadrista notável. em uma mesma categoria.
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K. Koffka, que, comojá dissemos,se colocavainicial- Ao analisar as categorias que emergem na percepção e no
mente contra essateoria do desenvolvimento perceptivo-ver- pensamento (a relação com o objeto, a qualidade, a ação),
bal dapercepçãodascores,reconhecequePeterspõeefetiva- Koffka chega à conclusão de que essas categorias também
menteem evidênciaa influência da denominaçãona percep- emergem como estruturas simples que basicamente em nada
ção e na comparaçãodascores,mas nota que não devemos se diferenciam das estruturas primitivas. No entanto, nossos
tomarcomopercepçãoe comocomparaçãotais ou quaispro- experimentos mostraram que os estágios de percepção do
cessos de ordem superior que vêm se unir aos sensitivos infe- desenho pela criança variam muito se ela se servir da lingua:..
riores, que permanecem invariáveis, mas somente os proces- gem para transmitir o conteúdo do desenho ou expressar de
sos estruturais, que são os que de fato determinam a qualidade maneira dramatizada o que o desenho representa. Enquanto
das partes que os integram e de suas sensações. no primeiro caso aparecem claros sintomas do estágio da rela-
Contudo, depois da publicação do trabalho de A. Gelb e ção com o objeto, como sugere a enumeração que a criança
K. Goldstein sobre a amnésia dos nomes das cores, Koffka faz dos objetos independentes representados no desenho, no
considera insuficiente essa sua interpretação, que acabamos de segundo o conteúdo é transmitido em seu conjunto, isto é, a
expor, dos experimentos de Peters. Segundo Gelb e Goldstein, criança descobre o acontecimento refletido nele. Cremos que
a linguagem influi de modo específico na percepção, influên- esse fato não pode deixar de ser considerado como uma de-
cia que esses autores tipificam como comportamento catego- monstração direta da influência específica da fala na percep-
ria!. Nesse comportamento categorial, uma cor, por exemplo, ção, influência que, segundo todas as evidências, também se
ao libertar-se de seus vínculos concretos imediatos, é percebi- reflete no desenvolvimento histórico do desenho infantil a que
da unicamente como representante de uma determinada cate- se refere o próprio Koffka.
goria de cores, por exemplo, do vermelho, do amarelo, do azul, E mais, se já Ch. Bühler mostra que a criança percebe de
ete. Aqui não se trata da simples união da cor e do nome. maneiradistintaumaestruturanaturale umdesenhoquecom-
Somente em algumas partes do livro - como a que aca- preende, H. Volkeltconsegue mostrar, além disso, que a crian-
bamos de citar - Koffkaconcordaem reconhecera influên- ça também pinta de maneira totalmente distinta uma forma
cia específica da linguagem na percepção. Na verdade, carente de sentido e um objeto que compreende, e representa
quando admite que a linguagem surge como um tipo especial este último esquematicamente, transpondo para o desenho o
de estrutura junto com outras estruturas, sem modificar em conteúdo das palavras. Entre a coisa representada e a própria
nada os processos da própria percepção, está se mantendo representação se intercala uma palavra que suporta um deter-
continuamente no terreno da ausência de estruturalidade. minado significado próprio do objeto. Em contrapartida, quan-
Assim, é partidário - com K. Bühler - de aceitar que a cons- do se trata de uma forma carente de sentido, captada ou perce-
tância estrutural da percepção forma um paralelismo com bida diretamente, a criança recorre a um procedimento total-
nossos conceitos. Por conseguinte, situa-se dentro do ponto mente distinto com o qual procura, assim, transmitir sua sen-
de vista de quea constânciado objeto,da qual, comovimos, sação direta.
carecem os animais, e a constância de percepção das formas, Cremos que todos esses fatos, analisados conjuntamente,
que estes últimos de fato possuem, podem basicamente ser não são casuais. Utilizando as palavras de Gelb, revelam que,
equiparadas. ao passo que no animal existe somente a sensação (Umwelt),
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no homem surge a imagem do mundo (Welt). A história desse como é, é preciso ter a idéia de que poderia ser diferente. O
aparecimento da imagem do mundo tem sua origem na práxis animal - para o qual é inconcebível reduzir a realidade à pos-
humana e nos significados e conceitos que surgem nela, livres sibilidade e abstrair na imaginação o fato real a partir de suas
da percepção direta do objeto. conseqüências fáticas habituais - jamais poderá formar em
Por isso, a correta percepção do problema do significado sua mente esse conceito. O animal aceita o mundo simples-
determina, por sua vez, qualquer solução posterior. Como a mente como algo dado e nunca adota frente a ele uma atitude
zoopsicologia atual deixa claro, para os animais não existe de estranheza, conclui James. O que Koffka leva a cabo em
realmente o mundo. As excitações do meio que os rodeia um nível teórico, quando aplica o princípio encontrado por ele
constituem um sólido muro que os separa do mundo e que os no comportamento dos macacos a toda a evolução da criança,
encerra, poder-se-ia dizer, entre as paredes de sua própria não é algo diferente desse experimento mental proposto por
casa, que ocultam deles o resto do mundo que permanece es- James de se trasladar para a alma de um cachorro. Não é de
tranho. É radicalmente diferente o que acontece na criança. estranhar, portanto, que a própria essência do ensino concep-
Como afirma corretamente Koffka, a primeira denomina- tual que, segundo suas palavras, consiste em nossa libertação
ção já constitui para a criança uma propriedade da coisa no- do poder direto da realidade, e que põe em nossas mãos o
meada. Mas é difícil que o surgimento dessa nova propriedade poder sobre essa realidade, contradiga a tese fundamental do
do objeto possa deixar invariável a própria estrutura do objeto próprio Koffka.
tal qual existia antes de que surgisse essa nova propriedade. A
primeira denominação já encerra um processo totalmente
novo, o da generalização, e, como sabemos, a mais simples 9
generalização implica o ziguezagueante processo da abstra-
ção, um afastamento da realidade, uma "certa partícula de Superar o caráter unilateral do ponto de visita estrutural
fantasia" (V.I. Lênin, Obras completas, t. 29, p. 330). não supõe, em nosso caso, retroceder à concatenação sem
W. James diz com razão que uma das diferenças psicoló- estruturas, atomística, caótica, de elementos isolados. O prin-
gicas entre o homem e o animal é a falta de imaginação deste cípio estrutural mantém-se para nós como uma enorme con-
último. O animal permanece escravizado para sempre pela quista, como um avanço indiscutível do pensamento teórico, e
rotina - afirma James -, acorrentado por uma forma de pensar quando criticamos sua aplicação à explicação do desenvolvi-
que quase não se eleva acima dos fatos concretos. Se o ser mento infantil não sugerimos com isto que a verdade esteja no
humano mais prosaico pudesse se trasladar para a alma de um princípio oposto, de cuja negação Koffka parte. Não retroce-
cachorro, horrorizar-se-ia com a total ausência de imaginação deremos até o princípio carente de estrutura, mas avançare-
ali reinante. Os pensamentos que este ser teria em sua mente mos a partir do princípio estrutural baseando-nos nele.
não existiriam em função da analogia, mas por motivos secun- Não que o princípio estrutural seja errôneo quando se
dários, por razões de simples contigüidade. O pôr-do-sol não aplica aos fatos da evolução infantil, mas é insuficiente e limi-
o faria lembrar da morte dos heróis, mas da hora do jantar. É tado, já que descobre nela unicamente o que não é específico
por isso que o homem é o único animal capaz de especulações do homem, o que é comum a este e ao animal. O principal erro
metafísicas. Para admirar-se com o fato de que o universo seja metodológico na aplicação desse princípio à psicologia infan-
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til não está, portanto, no fato de ser errôneo, mas no de ser ex- E, diante dessa tarefa, será justamente o que de verda-
cessivamente universal e, portanto, insuficiente para desven- deiro existe no princípio estrutural que deverá nos ajudar, mais
dar as características diferenciais e específicas da evolução uma vez, a superar seus erros.
especificamente humana.
Como tentamos demonstrar inúmeras vezes, sempre que
o autor se sente impotente entra em contradição com a aplica- 10
ção conseqüente de suas próprias teses. A própria essência do
princípio estrutural obriga-nos a admitir que as novas estrutu- Só nos resta estabelecer algumas conclusões gerais e arti-
ras que surgem no processo de evolução da criança não flu- cular de maneira conjunta as observações feitas até aqui. Para
tuam na superfície das formações primitivas, ancestrais, exis- isso recorreremos ao exame das definições gerais do proble-
tentes antes da evolução e tampouco estão misturadas com ma do desenvolvimento que encontramos em Koffka.
elas ou são independentes delas. Como se pode deduzir do exposto até agora, o defeito
Observamos na aplicação do princípio estrutural uma metodológico fundamental na resolução desse problema está na
contradição de enormes conseqüências, posto que tal aplica- insatisfatória resposta que o princípio estrutural de Koffka dá à
ção não tenta outra coisa senão buscar um novo princípio, não pergunta principal com que iniciamos nossa análise crítica.
fora da estruturalidade, mas dentro desta. Com efeito, se tan- Lembremos que Koffka começa por se perguntar como
to a percepção da galinha quanto as ações do matemático, que podem surgir formações novas ao longo da evolução psicoló-
constituem um exemplo perfeito do pensamento humano, são gica. Esta é, com efeito, a pedra angular de qualquer teoria
igualmente estruturais, é evidente que o próprio princípio, na que tente explicar o desenvolvimento. E o resultado mais
medida em que não nos permite extrair essas diferenças, é in- importante de nossa análise é a tese segundo a qual, a partir da
suficientemente discriminador, insuficientemente dinâmico perspectiva adotada pelo autor, se tomam impossíveis preci-
para colocar em evidência as novas formações que vão emer- samente as formações novas. Tentamos demonstrar - e não
gindo ao longo de todo o processo da evolução. cremos que seja necessário desenvolver de novo a argumenta-
Já dissemos também que o princípio estrutural se mostra ção - que a utilização do princípio estrutural significa reduzir
igualmente inativo ao longo de toda a evolução infantil. A ta- a psicologia infantil e animal a um denominador comum, apa-
refa de nossa análise crítica não consiste em rejeitá-Io ou gando as fronteiras entre o histórico e o biológico, e supõe
substituí-Io por um oposto, mas em rejeitar sua aplicação uni- essencialmente, portanto, renunciar a detectar essas novas for-
versal e pouco discriminadora. Seu caráter não-específico e mações.
anti-histórico deve-se precisamente ao fato de que se aplica da Se a estrutura já está na consciência da criança desde suas
mesma maneira ao instinto e ao pensamento matemático. É origens, se todos os fatos que vão surgindo ao longo da evolu-
preciso procurar o que situa a evolução psicológica da criança ção são apenas novas variações pontuais do suposto estrutural
para além do princípio estrutural. É preciso remeter-se à psi- original, isto quer dizer que ao longo dessa evolução não apa-
cologia do desenvolvimento histórico das funções psicológi- rece essencialmente nada de novo e que desde o próprio co-
cas superiores específicas do homem. meço o princípio estrutural dá lugar a estruturas distintas ape-
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nas por sua aparência fática, mas idênticas quanto a sua natu- rias vezes Koffka afirma que somente poderemos estabelecer
reza psicológica. a importância do desenvolvimento quando nos ocuparmos
Como é que Koffka formula então o problema do desen- dele em suas manifestações mais primitivas. Mas essa tentati-
volvimento? va de explicar o superior partindo do primitivo nada mais é do
Como o leitor deve ter podido observar facilmente, Koffka que o caminho de baixo para cima a que nos referíamos ante-
distingue duas formas fundamentais no desenvolvimento, riormente como um dos defeitos centrais de toda a teoria de
diferenciando o desenvolvimento como maturação e o desen- Koffka.
volvimento como adestramento. É verdade que se detém vá- Segundo o autor, no livro "trata-se fundamentalmente da
rias vezes na influência mútua e na interdependência existente criança em idade pré-escolar". Embora à primeira vista possa
entre ambos os fatores. No entanto, essa relação mútua entre parecer pouco interessante para o professor, Koffka pretende
maturação e adestramento aparece em Koffka apenas como demonstrar que o problema do desenvolvimento do qual se
uma constatação empírica da situação das coisas, sem que ocupará o professor na escola surge na psique do homem já no
encontremos em lugar algum uma formulação teórica sobre a começo de sua vida, e ele se propõe a investigar detalhadamen-
interpretação desses dois fatores no processo geral de desen- te esse começo. Se, apoiando-se nos principais fatos, fosse pos-
volvimento ao longo da evolução da criança. sível explicar cientificamente em que consiste o processo de
Na verdade, e de acordo com essas premissas, assistimos instrução de crianças muito pequenas, o professor poderia apli-
a uma dicotomização do processo geral de desenvolvimento, car esse conhecimento à interpretação e organização do pro-
o que, em termos teóricos, significa que Koffka mantém um cesso de ensino em idades posteriores. "Em muitos casos, re-
enfoque dualista da evolução infantil. Nessa influência recí- correr às formas mais primitivas e analisar suas manifestações
proca da maturação e do adestramento nenhum predomina, iniciais nos permitirá determinar mais facilmente os aspectos
nenhum é organizador ou determinante. Ambos os processos essenciais da instrução" (1934, pp. 3-4).
participam da mesma forma e ostentam os mesmos direitos na O fato de que Koffka se proponha a tarefa de analisar o
história do aparecimento da consciência infantil. É verdade começo do desenvolvimento em suas formas mais primitivas
que Koffka assinala várias vezes que, no nível empírico, sem- não é casual. Vimos que, segundo a própria natureza metodo-
pre têm mais importância as formações procedentes do ades- lógica de seu princípio explicativo, somente o começo do de-
tramento. Mas, como em outras ocasiões, essa descrição senvolvimento, somente seus momentos iniciais podem ser
empírica dos fatos não chega a se transformar em uma inter- apresentados de forma adequada à luz de sua idéia principal.
pretação teórica deles. Por isso, tampouco é casual que a psicologia estrutural não
Que o princípio da maturação seja central na teoria natu- tenha elaborado até agora uma teoria do pensamento (e difi-
ralista do desenvolvimento infantil é algo que não exige cilmente poderá fazê-lo sem modificar radicalmente suas
demonstração. Por isto, ocupar-nos-emos do segundo aspecto principais diretrizes). Como tampouco é casual que o melhor
da questão, ou seja, do problema da instrução. Vale a pena capítulo de todo o trabalho de Koffka seja aquele dedicado à
assinalar que, apesar de ter dedicado seu livro aos professores, consciência da criança. É somente aí que o princípio estrutural
Koffka analisa a instrução somente nos estágios iniciais da alcança sua maior vitória e triunfa para além de seus êxitos
evolução infantil, isto é, tal como ocorre antes da escola. Vá- teóricos.
310 311
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

Estamos muito longe de pretender negar a importância discussões políticas ou de se orientar na escolha de uma reli-
dos estágios iniciais de desenvolvimento. Inclinamo-nos, pelo gião ou, inclusive, na solução correta do problema de casar-se
contrário, a considerar que a importância primordial do traba- ou não?
lho de Koffka reside no fato de apagar a exagerada separação A própria forma anedótica de tal formulação da pergunta
que costuma haver entre o ensino escolar e a instrução que toma evidente a solução negativa que Thorndike dá para o
ocorre na idade pré-escolar. Tampouco podemos deixar de problema. Frente à resposta habitual que consiste em reconhe-
ver, além disso, que a concepção de Koffka a respeito da co- cer que a aquisição parcial de cada forma específica de desen-
nexão entre a instrução e o desenvolvimento formula de uma volvimento aperfeiçoa direta e uniformemente a capacidade
maneira nova - revolucionária - a própria concepção do de- geral, Thorndike dá uma resposta totalmente oposta. Assinala
senvolvimento. que as capacidades mentais se desenvolvem somente na medi-
De fato, já comentamos acima o confronto entre as teses da em que são submetidas a uma instrução específica em uma
da psicologia estrutural e as de E. Thorndike no terreno da psi- determinada matéria. Referindo-se a uma série de experimen-
cologia animal. Para compreender corretamente a importância tos realizados sobre as funções mais elementares e primitivas,
do trabalho de Koffka e seus defeitos é necessário trasladar Thorndike mostra que a especialização das faculdades é maior
agora esse confronto para o plano da psicologia pedagógica, a ainda do que parece em um exame superficial. Considera que
fim de que possamos estabelecer as novidades propostas pela o adestramento exerce uma ação específica e que só pode
psicologia estrutural. influir no desenvolvimento geral na medida em que no pro-
Sabe-se que Thorndike, em um desenvolvimento lógico cesso intervenham elementos idênticos, material idêntico e
das idéias que serviam de base para seus experimentos com em que a própria operação tenha caráter idêntico.
animais, chegou a uma teoria da instrução completamente Thorndike opõe-se à crença segundo a qual as próprias
definida, teoria que o livro de Koffka desmonta de forma deci- matérias do ensino desenvolvem, mediante um processo enig-
siva libertando-nos com isso do domínio de idéias falsas e mático, o fato geral da consciência. Cada tarefa contribui com
preconcebidas. O tema central desse debate é a velha questão seu grãozinho de areia para o resultado geral. A inteligência e
das "disciplinas formais". Thorndike afirma que a maneira o caráter não se fortalecem por meio de uma leve e delicada
como as respostas específicas em que os alunos se adestram metamorfose qualquer, mas através da elaboração de idéias e
diariamente se transferem para o desenvolvimento geral das de atos parciais determinados, sob a influência da lei do hábi-
habilidades mentais depende do valor educativo total das ma- to. Não existe outro procedimento para aprender a se autodo-
térias ensinadas ou, resumindo, o problema se reduz às discipli- minar como o de se reprimir hoje, amanhã e todos os dias em
nas formais. Até que ponto, por exemplo, pergunta Thorndi- qualquer conflito, por mais insignificante que seja. Ninguém
ke, o hábito de realizar cálculos precisos pode influir no ato de se toma sincero a não ser dizendo a verdade, nem conscien-
pesar e medir, na faculdade de contar piadas, na apreciação do cioso a não ser cumprindo cada uma das obrigações contraí-
caráter dos amigos? Até que ponto o costume de demonstrar das. O valor da inteligência disciplinada e da vontade está em
de forma racional um teorema geométrico, em vez de resolvê- vigiar constantemente a formação do hábito.
10por intuição ou de aprendê-lo de memória, pode influir na Segundo o pensamento de Thorndike, o hábito impera em
capacidade de adotar uma atitude lógica e conseqüente nas todos nós. Desenvolver a consciência significa desenvolver
312 313
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infOncia

uma multidão de faculdades específicas parciais, independen- 11


tes umas das outras, formar multidões de costumes parciais, já
que a atividade de cada faculdade depende do material com Existem dois problemas que podem nos servir de modelo
que esta opera. O aperfeiçoamento de uma das funções da para avaliar adequadamente as teses de Koffka. O primeiro é o
consciência ou de um aspecto de sua atividade pode influir no jogo e o segundo, relacionado com este, o do mundo peculiar
desenvolvimento de outro somente na medida em que existam em que a criança vive.
elementos comuns a ambas as funções ou atividades. O jogo é a pedra angular da teoria estrutural, porque o que
A teoria de Koffka liberta-nos desse ponto de vista meca- caracteriza precisamente o jogo é que nele se dá o início do
nicista sobre os processos da instrução e põe em evidência que comportamento conceptual ou guiado pelas idéias. A ativida-
a instrução nunca é específica, que a formação de uma estru- de da criança durante o jogo transcorre fora da percepção dire-
tura em qualquer âmbito facilita também e inevitavelmente o ta, é uma situação imaginária. Nesse sentido, Koffka tem toda
desenvolvimento das funções estruturais em outras áreas. Ape-
a razão quando exige que se revise a teoria de K. Groos a res-
sar disso, Koffka respalda por completo a tese de Thorndike
peito do significado do jogo, e quando afirma que nem no ani-
de que o desenvolvimento é instrução. A única diferença entre
ambos neste ponto é que, ao passo que Thorndike limita a ins- mal nem na criança pequena existe o jogo no sentido estrito
II do termo. Sua intuição psicológica permite-lhe, aqui, ver cor-
trução à formação do hábito, Koffka a limita à formação da I
.estrutura. retamente os fatos e a autêntica distância entre eles. Mas, mais
Mas a tese segundo a qual os processos de instrução em uma vez, quando Koffka rejeita a teoria de Groos, o faz sem
geral mantêm com os do desenvolvimento uma relação dife- fundamentar sua rejeição com considerações teóricas. Não
rente de qualquer uma dessas duas e muito mais complicada, a nega a teoria de Groos por seu caráter naturalista, mas procura
idéia de que o desenvolvimento tem caráter interno, de que se substituí-Ia por outra igualmente naturalista.
trata de um processo único no qual se fundem as influências Não surpreende, portanto, que Koffka chegue, no fim das
da maturação e da instrução, a convicção de que esse processo contas, a estranhas e inesperadas conclusões, que contradizem
dispõe de leis internas com sua própria dinâmica, estas idéias claramente suas posições iniciais. Koffka também rejeita cor-
estão tão distantes de uma quanto da outra teoria. retamente a tese de J. Piaget sobre o caráter místico das expli-
Não é estranho portanto que, ao falar de instrução, Koffka cações infantis e coloca em evidência a tendência da criança à
evite todas as questões relacionadas com a emergência das explicação naturalista, diretamente relacionada com seu rea-
propriedades especificamente humanas da consciência. O fato
lismo. Koffka argumenta de forma pertinente que o egocen-
de libertar-nos da realidade, diz ele, é uma conquista específi- trismo infantil tem caráter funcional e não fenomênico. Mas,
ca de nossa cultura, já que se libertar da realidade é algo possí-
vel para o nosso pensamento e está ao alcance dele. ao mesmo tempo - e em franca contradição com a idéia ante-
Mas o esforço do princípio estrutural não se volta para rior -, estabelece que a tese de L. Levy-Bruhl sobre o caráter
mostrar-nos essa via de superação da percepção imediata da místico da percepção primitiva também pode ser aplicada às
realidade, mas simplesmente para mostrar o caminho que per- percepções da criança, e se inclina a crer que também os senti-
mita ver a dependência existente entre cada um de nossos pas- mentos religiosos se mostram intrinsecamente próximos da
sos e as estruturas visuais em que se percebe a realidade. estrutura do mundo infantil.
314 315
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

Existe algo que a criança adota do adulto e que, ao mes- agora, a considerar o que essa teoria de Koftka implica de ime-
mo tempo, é internamente próximo do mundo infantil: Koffka diato em sua concepção geral do desenvolvimento.
refere-se à religião. Nossa impressão é que, por essa concepção, o processo
Sabe-se que a tese fundamental de Koffka consiste em de evolução da criança representa para Koffka apenas um
que para a criança existem dois mundos, o dos adultos e o pro- simples deslocamento mecânico do mundo infantil por parte
priamente seu. O que a criança adota do mundo dos adultos do dos adultos. E essa interpretação leva irremediavelmente a
deve manter uma afinidade interna com seu próprio mundo. A concluir que a criança chega ao mundo dos adultos sendo hos-
religião e as sensações relacionadas com ela são precisamente til a ele, depois de ter se formado em seu próprio mundo, e que
os elementos do mundo dos mais velhos que a criança adota as estruturas do mundo dos adultos simplesmente deslocam as
no seu.
infantis e passam a substituí-Ias. O desenvolvimento transfor-
Koftka procura trasladar essa mesma teoria ao jogo ma-se assim, para Koffka, em um processo de deslocamento e
infantil, em sua explicação do comportamento da criança com substituição, um processo que já é bem conhecido através da
os brinquedos. O fato de que a criança seja capaz de brincar teoria de Piaget.
com um pedaço de madeira, dirigindo-se a ele como se fosse
um objeto dotado de vida, para depois de um certo tempo,
quando é interrompida ou se distrai, passar a quebrá-Io ou 12
atirá-Io ao fogo, tem sua explicação, para Koffka, em que esse
pedaço de madeira tem o caráter de objeto animado, enquanto Em conseqüência de todas essas suposições que passa-
no mundo dos adultos é um simples pedaço de madeira. Os mos em revista, o caráter da evolução infantil foi adquirindo
dois diferentes modos de comportar-se com um mesmo objeto em Koftka traços extraordinariamente peculiares, nos quais
ocorrem porque este faz parte de duas estruturas distintas. nos deteremos em nossa conclusão.
É difícil conceber uma simplificação maior dos fatos do Em primeiro lugar, a criança conta com estruturas de di-
que a que Koffka apresenta nessa teoria do jogo infantil. Na mensões muito limitadas. Koffka pensa que compreendere-
verdade, a própria essência do jogo consiste na criação de mos muito melhor o jogo de um ponto de vista psicológico se
uma situação imaginária, isto é, de um determinado campo considerarmos os atos da criança pela perspectiva da magnitu-
semântico que altera todo o comportamento da criança, obri- de da estrutura dos fenôm~nos implicados. Estabelece-se
gando-a a definir-se em seus atos e em seu proceder através de assim um período inicial no qual a criança não pode, em geral,
uma situação exclusivamente imaginária, unicamente possí- criar grandes estruturas temporais capazes de superar o âmbi-
vel, mas não visível. O conteúdo dessas situações imaginárias to da ação direta.
sempre indica claramente sua procedência do mundo dos Por conseguinte, segundo afirma Koffka, todos os con-
adultos.
juntos de atos isolados são independentes entre si, gozam dos
Já tivemos ocasião de nos determos em detalhe nessa tese mesmos direitos e têm um valor igual. Contudo, a criança
dos dois mundos - o infantil e o dos adultos - e na teoria, que começa paulatinamente a criar também estruturas temporais,
dela decorre, da existência de duas almas coexistindo simulta- embora o que seja característico é que essas diferentes estrutu-
neamente na consciência da criança. Limitar-nos-emos pois, ras se mantêm isoladas, sem exercer especial influência umas
316 317
L. S.Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

sobre asoutras.A relativaindependênciadasdiferentesestru- inicial do desenvolvimento. O começo do desenvolvimento


turasentresi nãosedá só nessesdois grandesconjuntosque impõe-se assim sobre a trajetória posterior e com isso as for-
sãoo mundoinfantil e o mundodos adultos,mastambémé mas superiores do desenvolvimento continuam sendo um li-
válida paradomíniosespecíficosdentrodecadaumdeles. vro fechado para essa psicologia.
Basta essa descrição para ver até que ponto Koffka atribui Por isso não deverá nos surpreender a principal conclusão
ao processo da evolução infantil uma carência de estrutura- de nossa análise.
ção. No princípio existem estruturas-moléculas isoladas, in- Vimos que Koffka consegue superar o mecanicismo in-
dependentes entre si, que existem justapostas. O desenvolvi- troduzindo o princípio mentalista. Supera assim o mecanicis-
mento consiste na alteração das dimensões ou do tamanho mo fazendo concessões ao vitalismo, ao reconhecer que a es-
dessas estruturas. Por conseguinte, no começo do desenvolvi- trutura remonta às próprias origens. Mas o vitalismo represen-
mento infantil existe também um caos de moléculas desorde-
ta concessões ao mecanicismo, já que, como pudemos obser-
nadas, de cuja união surgirá mais tarde a atitude integral ou var, mecanicismo não é só reduzir o homem à máquina, mas
estrutural para com a realidade. também reduzir o homem ao animal. Em nome de Belzebu
Isto é realmente espantoso. Vimos anteriormente como W.
expulsa o diabo e em nome deste expulsa Belzebu.
Kõhler dribla o atomismo substituindo o átomo por uma molé-
Na concepçãode Koffka, o desenvolvimentonão atua
cula independente e isolada. E esse processo repete-se aqui. A
como processo autônomo, mas como substituição e desloca-
idéia de Koffka é que os dois momentos determinantes que
mento; não atua como processo único, mas como um processo
caracterizam o processo de desenvolvimento da criança são
dados pelo estado de fragmentação das estruturas iniciais e duplo,constituídopela maturaçãoe pela instrução.A própria
pelo aumento das dimensões dessas estruturas. Mas com isto, a instrução, que provoca o desenvolvimento, é explicada de
única coisa que se diz é que, no lugar dos atos elementares modo puramente intelectualista. Se para os empíricos a instru-
independentes de que se ocupava Thorndike, o que temos é o ção consiste na recordação e na formação de hábitos, para
aparecimento de complexos de sensações ou estruturas mais Koffka, como não se cansa de repetir, significa a resolução de
complicadas. Ou seja, o que muda ou se amplia é a unidade, de um problema, um ato intelectivo. Para ele, no ato inte1ectivo
modo que o lugar do átomo passa a ser ocupado pela molécula, dos chimpanzés está a chave de toda a instrução e do desen-
mas o processo do desenvolvimento é o mesmo. volvimento da criança humana. Koffka considera o desenvolvi-
E de novo vemos que Koffka entra em contradição com o mento como a resolução de uma série de tarefas, uma espécie
princípio estrutural e o trai quando sustenta que os processos de operação mental. Encontramo-nos, pois, diante de um puro
de desenvolvimento apresentam essencialmente um aspecto intelectualismo, que Koffka procura desintelectualizar ao con-
não-estruturado. Porque, se for correto e se foi demonstrado siderar que esse mesmo princípio também se encontra em rea-
de forma irrevogável que tudo surge e cresc.e a partir de estru- ções pré-intelectuais, primitivas, instintivas.
tura, como cresce? Supostamente mediante o aumento das Mas se, como tentamos fazer anteriormente, desemara-
dimensões dessas estruturas e mediante a superação da frag- nharmos esse intelectualismo oculto, veremos que nos leva à
mentação inicialmente existente. Como já havíamos dito an- constatação de que com a luz do intelecto se ilumina o instinto
tes, o maior triunfo da psicologia estrutural situa-se no ponto e com a chave do instinto se abre o intelecto: sem dúvida nos
--

318 319
L. S. Vigotski o desenvolvimento
psicológico na infl1ncia

encontramos diante de uma teoria que é ao mesmo tempo psi- Por isso, o que é preciso estudar é a emergência e o de-
covitalista e mecanicista. senvolvimento das propriedades superiores da consciência, as
Como já dizíamos mais acima, K. Koffka, que conhecia que são específicas do homem, a racionalidade da consciência
bem a falta de fundamento de cada uma dessas teorias, adota humana em primeiro lugar; uma racionalidade que surge junto
um ponto intermediário, a meio caminho entre elas, pensando com a palavra e o conceito, ou graças e através da palavra e do
conceito. Em outras palavras, falta uma concepção histórica
que com isso se livra de ambas. Mas, como vimos, a incon-
da psicologia infantil.
gruência entre as estruturas contradiz no fim das contas a har-
Mas não é difícil ver que por esse caminho não podere-
monia de todo o livro, segundo a qual a essência do desenvol-
mos deixar de passar pela psicologia estrutural, ainda que nela
vimento psicológico não seria concebida como a união de ele-
esteja ausente o desenvolvimento enquanto tal: no livro de
mentos isolados, mas como a formação e o aperfeiçoamento Koffka, toda a descrição da evolução infantil mostra que, con-
das estruturas.
forme o provérbio francês, quanto mais tudo muda, mais fiel
Vimos que a fragmentação das estruturas está presente no permanece a si mesmo, ou seja, que continua sendo a mesma
começo do desenvolvimento e que essas estruturas-moléculas estrutura que existia no princípio. Mas, apesar disso, o princí-
se unem em uma estrutura comum. Essa concepção do desen- pio estrutural é historicamente mais progressista do que os
volvimento reduz-se, no fim das contas, à interpretação deste conceitos que veio substituir, acumulados ao longo do desen-
como a modificação, a realização e a combinação de estrutu- volvimento de nossa ciência. Por isso, nessa via que abre a
ras inatas. A estrutura remonta às origens mais remotas e seu concepção histórica da psicologia infantil, o princípio estrutu-
movimento é explicado por Koffka como o aumento da preci- ral precisa ser negado dialeticamente, o que significa, ao mes-
são, da duração, da divisão das estruturas, ou seja, encerra o mo tempo, conservá-Io e superá-Io.
desenvolvimento na categoria de "mais e menos". Devemos tentar resolver de maneira original o problema
Por isso, nossa análise leva-nos à conclusão de que a per- da consciência racional humana, que só no homem coincide
gunta sobre a validade da estrutura como princípio geral do com a racionalidade com que começa e termina a psicologia
desenvolvimento psicológico só pode ser respondida negati- estrutural, da mesma maneira que, conforme a expressão de
vamente. Mesmo se nos basearmos no princípio estrutural de- Spinoza, a Constelação do Cão [só pelo nome, R.R.] faz lem-
vemos, no entanto, superar seu caráter negativo: é preciso brar o cachorro, animal que ladra.
mostrar que, na medida em que realmente demonstra, suas de-
monstrações abarcam apenas o não-específico, o relegado ao
longo do desenvolvimento a um segundo plano, o pré-históri-
co na criança humana. Ali onde Koffka procura ilustrar com o
princípio estrutural a marcha do desenvolvimento infantil,
recorre a analogias formais, reduzindo tudo ao denominador
comum da estruturalidade e esclarecendo somente, em última
instância e conforme ele mesmo reconhece, o começo do de-
senvolvimento.
Notas

I Conferência 1

il
!i 1. Trata-seda transcriçãotaquigráficadas conferênciaspro-
.llI~
ii nunciadaspor L. S. Vigotski emmarçoe abril de 1932,no Instituto
i
PedagógicoSuperiordeLeningrado.A Conferência4 (As emoções
j
II1
e seu desenvolvimento na infância) foi publicada na revista Proble-
illll' mas de Psicologia (1959, nQ 3). Todas elas foram publicadasno
ilil
I livro O desenvolvimento dasfunções psíquicas superiores (Moscou,
1960). Na presente edição, tomou-se como base a publicação de
1960, cotejada com o texto taquigráfico das conferências, conserva-
do no arquivo do Instituto Pedagógico Estatal de Leningrado "Her-
zen". As conferências, que constituem um curso completo, podem
ser consideradas uma breve exposição dos principais pontos de vista
de Vigotski e dos resultadosobtidospor ele e por seus colaborado-
res dentro do marco da teoria histórico-cultural.
2. Psicologia da Gestalt (gestaltismo, psicologia estrutural). O
termo foi introduzido por Ch. von Ehrenfels. Trata-se de uma esco-
la dentro da psicologia geral, surgida na Alemanha no começo do
século XX. Centrou seu trabalho de análise dos fenômenos psíqui-
cos no conceito de totalidade (Gestalt). Sua origem está relaciona-
da com a análise dos processos da percepção, nos quais se desco-
briu e se explicou, a partir dessas posições, uma série de fenômenos
novos (M. Wertheimer). Posteriormente, tentou-se estender os
esquemas explicativos da psicologia gestaltista aos processos da
T

322 323
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicol6gico na infância

resolução de problemas (K. Dunker), à filogênese (W. Kõhler) e à psicologia do trabalho e da psicotecnia. Metodólogo de psicologia.
ontogênese (K. Koffka) do pensamento, à análise da psicologia da O princípio metodológico de Münsterberg ("A psicologia é chama-
personalidade, à esfera das motivações (K. Lewin), etc. Na década da a confirmar na prática a veracidade do próprio pensamento") foi
de 30, depois da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha, os especialmente importante para Vigotski (vide "O significado histó-
mais destacados representantes dessa escola emigraram. Isso cons- rico da crise da psicologia", em Teoria e método em psicologia). Em
tituiu o impulso externo para a desintegração da mesma no final dos filosofia era idealista objetivo.
anos 30. A psicologia gestaltista foi, ao que tudo indica, a que mais 2. Bliuma Vúlfovna Zeigárnik (1901-?). Psicóloga soviética.
influenciou (junto com a escola francesa) Vigotski. Para ele, o mais Discípula de Lewin e de Vigotski. Na década de 20, quando trabalha-
atrativo era que os estudos dessa escola procuravam enfocar todos va sob a direção de Lewin, descobriu o chamado efeito de Zeigámik,
os fenômenos psíquicos a partir de posições integrais. Mas, dife- fenômeno que consiste em recordar melhor uma ação inacabada do
rentemente dos psicólogos gestaltistas, para Vigotski a totalidade que uma acabada. Posteriormente, especializa-se em psicopatologia.
vinha sempre em combinação (ou, pelo menos, conforme suas idéias, Utilizou nas pesquisas da psicologia da esquizofrenia os princípios
devia se combinar) com o historicismo na análise da mente.
metodológicos de Vigotski e Leontiev.
3. Kurt Gottschald (1902-?). Psicólogo alemão. Especialista 3. Leonid Vladímirovitch Zankov (1901-1977). Psicólogo so-
em psicopatologia infantil.
1I viético, discípulo de Vigotski, acadêmico da Academia de Ciências
4. Hermann Helmholtz (1821-1894). Fisiólogo, anatomista e
psicólogo alemão. Autor de teorias da visão e da audição. 111,1
Pedagógicas da URSS. Especialista em psicologia da memória, de-
5. EwaldHering (1834-1918). Foi um dos fundadores da psico- fectologia e psicologia da instrução.
11::

logia fisiológica experimental. Autor de teorias da visão e da audi-


li I
ção contrárias às de Helmholtz. Descobriu a ilusão óptica ("ilusão
de Hering"). I1 Conferência 3
6. Hermann Rorschach (1884-1922). Psicólogo e psiquiatra
suíço. Autor do conhecido teste, denominado método das manchas 1. Hermann Ebbinghaus (1850-1909). Psicólogo alemão. Par-
I: ~

de tinta ou teste de Rorschach (1921).


11111

tidário do associacionismo. Começou o estudo experimental das


7. Alfred Binet (1857-1911).Psicólogo francês. Foi um dos pio- funções psíquicas superiores. Para estudar a memória "livre de cul-
neiros da pesquisa experimentaldas funções psíquicas superiores,con- 111
tura", introduziu o método das sílabas sem sentido. Descreveu a per-
cretamentedo pensamentoe da memória. Seus últimos trabalhosforam P da da memória como função do tempo ("curva de Ebbinghaus").
I'
de grande importância para Vigotski (veja-se "O problema do desen- 2. Em relação a isto veja-se: K. Bühler: Handbuch der Psycho-
volvimentoculturalda criança",Revista de Paidologia, 1928, 1).Espe- II1
logie. lena, 1922; K. Koffka: The Growth ofthe Mind: an lntroduc-
cialista em testes, particularmente para a avaliação do desenvolvi- tion to Child Psychology. Nova York, 1925. Estes são os livros que
mento mental. L. S. Vigotski provavelmente levou em consideração.
I1

8. Jean Demor (1867-1941). Médico e pedagogo belga. Espe- I'


cialista em educação e no ensino de crianças deficientes mentais.
"1I
Conferência 4
Conferência 2
1. Herbert Spencer (1820-1903). Filósofo e sociólogo inglês,
1. Hugo Münsterberg (1863-1916). Psicólogo alemão, poste- foi um dos fundadores do positivismo. Especialista no estudo das
riormente naturalizado norte-americano. Foi um dos criadores da culturas primitivas.

J
324 325
L. S. Vigotski o desenvolvimento psicológico na infância

2. Théodule Ribot (1839-1916). Psicólogo francês. Especialista psíquicas" (vide L. S. Vigotski: "O problema da consciência", no li-
em psicologia patológica e geral. Trabalhou no campo da psicologia vro Psicologia da gramática, Moscou, 1968).
da memória, da atenção arbitrária, etc. 2. Tamara Dembo (1907-?). Psicóloga alemã, posteriormente
3. Nikolái Nicoláevitch Langue (1858-1921). Psicólogo russo. norte-americana. Sob a direção de K. Lewin realizou, na década de
Ocupou-se de questões de metodologia da psicologia, de psicologia 30, conhecidos experimentos sobre a descoberta da frustração na re-
geral, psicologia da atenção,etc. Próximo de Vigotski por sua orienta- solução de tarefas.
ção antidualista(vide "O significadohistóricoda crise da psicologia").
4. WalterCannon (1871-1945). Fisiólogo norte-americano. Es-
pecialista nos mecanismos do comportamento emocional, afirmou o Prólogo à versão russa do livro de E. Thorndike
princípio da unidade da regulação humoral nervosa. Princípios de ensino baseados na psicologia
5. Borís Mikháilovitch Zavadovski (1895-1951). Biólogo so-
viético, membro da Academia de Ciências Agrônomas V. I. Lênin 1. Os cadetes constituíam o partido constitucional-democrata,
(1935). Especialista em darwinismo, em metodologia da biologia e também denominado "partido da liberdade popular", principal parti-
em fisiologia das glândulas de secreção interna. do da burguesia monárquico-liberal na Rússia no período 1905-
6. Vladímir Leonídovitch Dúrov (1863-1934). Artista de circo, 1917, que durante a Revolução de Outubro de 1917 e depois dela
palhaço e domador de feras russo. Criador da nova escola russa de adotou posições abertamente contra-revolucionárias, sendo final-
adestramento. Especialista prático em zoopsicologia. mente proibido pelo governo soviético. (N.T.E.)
7. Alfred Adler (1870-1937). Médico e psicólogo alemão, cria-
dor do sistema da psicologia individual. Próximo de Freud na inter-
pretação do papel da atração na vida psíquica. O papel central em seu Introdução à versão russa do livro de K. Bühler
sistema psicológico cabe ao problema da compensação, interpretada Ensaio sobre o desenvolvimento espiritual da criança
como o mecanismo universal da atividade psíquica do homem.
8. Paul Broca (1824-1880). Anatomista francês. Foi um dos 1. Estevãozinho, o estabanado. Título de uma coleção de con-
criadores da antropologia contemporânea. Descreveu os transtornos tos humorísticos e edificantes para crianças muito difundida no
da linguagem, relacionados com a lesão de determinada zona do cé- século XIX, e nome do herói de um dos contos. (N.T.E.)
rebro (campo de Broca). 2. No texto diz-se literalmente "cromatina". (N.E.E.)
9. Karl Wernike (1843-1905). Psicólogo, psiquiatra, neuropa-
tólogo e neuroanatomista alemão. Criou a teoria clássica das afasias.
Descreveu a síndrome da alucinação alcoólica. Prólogo à edição russa do livro de W. K6hler
Pesquisas sobre a inteligência dos macacos antropomorfos

Conferência 6 1. A tradução da obra de Kõhler foi realizada por L. V. Zankov


e I. M. Soloviov e supervisionada pelo próprio Vigotski, que foi o
1. Karl Stumpf (1848-1936). Filósofo e musicólogo alemão. principal responsável pela versão russa da obra (Editora da Acade-
Representante da fenomenologia, próximo dos psicólogos gestaltis- mia Comunista, 1930). A tradução corresponde à segunda edição
tas. Vigotski, para demonstrar a interpretação da consciência na psi- alemã do livro de Kõhler, publicada em 1921, com o título de
cologia tradicional, recorreu à carta de Stumpf a James, na qual o Intelligenzprüfungen an Menschenaffen, literalmente Provas de in-
primeiro denomina a consciência de "proprietário geral das funções : teligência aplicadas a macacos antropóides. O livro fora previa-
1

1
'

"
:1

:1 I
326 L. S. Vigotski

mente traduzido para o inglês com o título de The Mentality of Apes


(A mentalidade dos macacos), que é como a maioria das pessoas o
conhece. A tradução espanhola, publicada em Editorial Debate, ado-
ta o título de Experimentos sobre Ia inteligencia de los chimpancés.
Tanto a versão inglesa quanto a espanhola também foram realizadas
sobre a segunda edição alemã, mas, diferentes da edição russa,
incluem um amplo apêndice intitulado "Sobre Ia psicología dei
chimpancé" (Kõhler, 1921b), com observações diversas de Kõhler
sobre a conduta desses animais. O prólogo escrito por Vigotski só se
refere, por conseguinte, a uma parte do texto da edição espanhola
(pp. 39-289). (N.R.E.)
Kõhler, W. (192la). Intelligenzprüfungen an Menschenaffen.
Berlim: Springer Verlag. II11
I
Kõhler, W. (192Ib). "Zur Psychologie des Schimpansen." Psy- I
chologische Forschung I: 2-46. I

Kõhler, W. (1924). The Mentality of Apes. Londres: Kegan


Paul.
Kõhler, W. (1989). Experimentos sobre Ia inteligencia de los
chimpancés. Madri: Debate.
2. Em alemão no original. Einsicht é o termo que Kõhler utiliza
em seu livro para se referir às condutas "inteligentes". Ideation é a
palavra inglesa que Yerkes empregou para se referir ao mesmo fe- :111111

nômeno em suas próprias pesquisas. (N.R.E.)

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