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O Sistema Terra
O método científico  2
A Geologia como ciência  3
Forma e superfície da Terra  7
Descascando a cebola: a descoberta de uma Terra em camadas  9
A Terra como um sistema de componentes interativos  13
Um panorama do tempo geológico  17

A
Terra é um lugar único, a casa de milhões de organismos, incluindo nós mesmos.
Nenhum outro local que já tenhamos descoberto tem o mesmo delicado equilíbrio
de condições para manter a vida. A Geologia é a ciência que estuda a Terra: como
nasceu, como evoluiu, como funciona e como podemos ajudar a preservar os hábitats
que sustentam a vida. Os geólogos buscam respostas a muitas perguntas básicas. De que
material o planeta é composto? Por que existem continentes e oceanos? Como o Hima-
laia, os Alpes e as Montanhas Rochosas chegam a tamanha altura? Por que algumas regi-
ões estão sujeitas a terremotos e erupções vulcânicas, enquanto outras não estão? Como
o ambiente da superfície terrestre, e a vida contida nele, evoluiu ao longo de bilhões de
anos? Quais são as prováveis mudanças no futuro? Acreditamos que as respostas a essas
perguntas sejam fascinantes. Bem-vindo à ciência da Geologia!
Neste livro, estruturamos os temas da Geologia em torno de três conceitos básicos,
que vão aparecer em quase todos os capítulos, inclusive neste: (1) a Terra como sistema
de componentes interativos; (2) a tectônica de placas como uma teoria unificadora da
Geologia; e (3) as mudanças do sistema Terra ao longo do tempo geológico.
Este capítulo oferecerá uma ampla visão de como os geólogos pensam. Ele começa
com o método científico, ou seja, a abordagem objetiva do universo físico na qual toda
investigação científica é baseada. Com este livro, você verá o método científico em
ação à medida que descobrir como os geólogos obtêm e interpretam as informações
sobre o nosso planeta. No primeiro capítulo, ilustraremos como o método científico
vem sendo aplicado para descobrir algumas das características básicas da Terra – sua
forma e camadas internas.

Primeira imagem de toda a Terra, mostrando parcialmente os continentes Antártida e África, feita pelos
astronautas da Apollo 17 no dia 7 de dezembro de 1972. [NASA]

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Para explicar características que têm milhões e até bilhões de anos, os cientistas
da Terra analisam o que está acontecendo hoje no planeta. Introduziremos o estudo
de nosso complexo mundo natural como um sistema terrestre que envolve muitos
componentes inter-relacionados. Alguns desses componentes, como a atmosfera e
os oceanos, são claramente visíveis acima da superfície sólida da Terra; outros estão
escondidos em regiões profundas de seu interior. Pela observação das maneiras
como esses componentes interagem, os cientistas desenvolveram uma compreen-
são de como o sistema terrestre mudou ao longo do tempo geológico.
Também apresentaremos uma visão do tempo da perspectiva de um geólogo.
Você pode começar a pensar sobre o tempo de forma diferente à medida que passar a
entender a extensão da história geológica. A Terra e os outros planetas em nosso siste-
ma solar tiveram sua formação há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Antes de 3 bi-
lhões de anos atrás, células vivas desenvolveram-se sobre a Terra, e a vida tem evoluído
desde então. Ainda assim, nossa origem humana ocorreu há apenas alguns poucos mi-
lhões de anos – meros centésimos percentuais de toda a existência da Terra. As escalas
que medem as vidas dos indivíduos em décadas e marcam períodos da História huma-
na, escrita em centenas ou milhares de anos, são inadequadas para estudar a Terra.

 Os terremotos são causados pela ruptura de rochas


O método científico ao longo de falhas geológicas.
O termo Geologia (das palavras gregas para “Terra” e “co-  A queima de combustível fóssil causa o aquecimento
nhecimento”) foi criado por filósofos cientistas há mais de global.
200 anos para descrever o estudo de formações rochosas
1
e fósseis. Por meio de observações e raciocínios criterio- A primeira hipótese está de acordo com as idades de
sos, seus sucessores desenvolveram as teorias da evolução milhares de rochas antigas, medidas por técnicas laborato-
biológica, da deriva continental e da tectônica de placas riais precisas, e as próximas duas hipóteses já foram confir-
– tópicos importantes deste livro. Hoje em dia, Geologia madas por muitos observadores independentes. A quarta
identifica o ramo da ciência da Terra que estuda todos os hipótese tem sido mais polêmica, embora existam tantos
aspectos do planeta: sua história, sua composição e estru- dados novos confirmando-a que a maioria dos cientistas
tura interna e suas características de superfície. agora a aceita como verdadeira (veja os Capítulos 15 e 23).
O objetivo da Geologia – e de toda a Ciência – é ex- Um conjunto coerente de hipóteses que explica al-
plicar o universo físico. Os cientistas acreditam que os gum aspecto da natureza constitui uma teoria. Boas teo-
eventos físicos têm explicações físicas, mesmo quando es- rias recebem o suporte de um corpo significativo de dados
tão além da nossa capacidade atual de entendimento. O e sobrevivem a repetidos desafios. Geralmente obedecem
método científico, que todo cientista adota, é um plano às leis físicas, princípios gerais sobre como o universo fun-
geral de pesquisa baseado em observações metodológi- ciona que podem ser aplicados em quase todas as situa-
cas e experimentos. O uso do método científico para fazer ções, como a lei da gravitação de Newton.
novas descobertas e confirmar aquelas antigas é o proces- Algumas hipóteses e teorias foram testadas de for-
so de pesquisa científica (Figura 1.1). ma tão completa que todos os cientistas as aceitam como
Quando os cientistas propõem uma hipótese – uma verdadeiras, pelo menos com uma boa aproximação. Por
tentativa de explicação baseada em dados coletados por exemplo, a teoria de que a Terra é quase esférica, que se-
meio de observação e experimentação –, eles a submetem gue a lei da gravidade de Newton, é sustentada por tan-
à comunidade científica para que seja criticada e repeti- tas experiências e evidências diretas (pergunte a qualquer
damente testada contra novos dados. Uma hipótese é su- astronauta) que a consideramos um fato. Quanto mais
portada se explicar dados novos ou se prever o resultado tempo uma teoria resiste a todas as mudanças científicas,
de novos experimentos. Uma hipótese que é confirmada tanto mais confiável ela será considerada.
por outros cientistas obtém credibilidade. Ainda assim, as teorias nunca podem ser considera-
Aqui estão quatro interessantes hipóteses científicas das definitivamente comprovadas. A essência da Ciência
que encontraremos neste livro: é que nenhuma explicação, não importa se acreditada ou
atraente, está fechada a questionamentos. Se evidências
 A Terra tem bilhões de anos. novas e convincentes indicam que uma teoria está erra-
 O carvão é uma rocha formada a partir de plantas da, os cientistas podem descartá-la ou modificá-la para
mortas. justificar os dados. Uma teoria, como uma hipótese, deve

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 3

FIGURA 1.1  A pesquisa científica é o pro-


cesso de descoberta e confirmação por meio
da observação do mundo real. Estas geólogas
estão pesquisando amostras de solo próximo a
um lago no Estado de Minnesota, Estados Uni-
dos. [U.S. Geological Survey]

sempre ser testável; qualquer proposta sobre o universo no passado. A maioria dos principais conceitos da Ciência,
que não possa ser avaliada pela observação do mundo na- que surgem tanto a partir de um lampejo da imaginação
tural não deve ser chamada de teoria científica. como de uma análise cuidadosa, é fruto de incontáveis in-
Para cientistas que trabalham com pesquisa, as hi- terações dessa natureza. Albert Einstein assim se referiu
póteses mais interessantes geralmente são as mais polê- sobre esta questão: “Na Ciência (...) o trabalho científico
micas, e não aquelas mais aceitas. A hipótese de que a do indivíduo está tão inseparavelmente conectado ao de
queima de combustível fóssil causa aquecimento global seus antecessores e contemporâneos, que parece ser qua-
vem sendo objeto de muito debate. Como as previsões de se um produto impessoal de sua geração”.
longo prazo dessa hipótese são tão importantes, muitos Pelo fato de esse livre intercâmbio intelectual poder
estudiosos das Ciências Terrestres agora a estão testando estar sujeito a abusos, um código de ética foi desenvolvido
de modo enérgico. entre os cientistas. Eles devem reconhecer as contribuições
O conhecimento baseado em muitas hipóteses e teo- de todos os outros cientistas cujos trabalhos consultaram.
rias pode ser utilizado para criar um modelo científico – uma Também não devem fabricar ou falsificar dados, utilizar o
representação precisa de como um processo natural opera trabalho de terceiros sem fazer referências, ou, de outro
ou de como um sistema natural se comporta. Os cientistas modo, ser fraudulentos em seu trabalho. Devem, ainda,
combinam ideias relacionadas em um modelo para testar assumir a responsabilidade de instruir a próxima gera-
a consistência de seu conhecimento e para fazer previsões. ção de pesquisadores e professores. Esses princípios são
À semelhança de uma boa hipótese ou teoria, um bom sustentados pelos valores básicos de cooperação científi-
modelo faz previsões que concordam com as observações. ca. Bruce Alberts, o presidente da Academia Nacional de
Um modelo científico costuma ser formulado em Ciência dos Estados Unidos, apropriadamente descreveu
termos de programas computadorizados, que simulam o esses valores como sendo os de“honestidade, generosida-
comportamento de sistemas naturais por meio de cálculos de, respeito pelas evidências e abertura a todas as ideias
numéricos. A previsão de chuva ou sol mostrada na televi- e opiniões”.
são esta noite vem de um modelo computacional do clima.
Um computador pode ser programado para simular fenô-
menos geológicos grandes demais para replicar em labo- A Geologia como ciência
ratório ou que operam em períodos de tempo extensos de-
mais para serem observados pelos humanos. Por exemplo, Na mídia popular, os cientistas geralmente são descritos
modelos usados para previsão do tempo foram ampliados como pessoas que realizam experimentos com jalecos
para prever mudanças climáticas daqui a décadas. brancos. Esse estereótipo não é inadequado: muitos pro-
Para encorajar a discussão de suas ideias, os cientis- blemas científicos são melhor investigados no laboratório.
tas as compartilham com seus colegas, juntamente com Que forças mantêm os átomos juntos? Como os produtos
os dados em que elas se baseiam. Eles apresentam suas químicos reagem entre si? Os vírus podem causar câncer?
descobertas em encontros profissionais, publicam-nas Os fenômenos que os cientistas observam para respon-
em revistas especializadas e explicam-nas em conversas der a essas perguntas são pequenos o bastante e ocorrem
informais com seus pares. Os cientistas aprendem com os rápido o suficiente para estudo no ambiente controlado
trabalhos dos outros e, também, com as descobertas feitas de laboratório.

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FIGURA 1.2  A Geologia é


basicamente uma ciência de
campo. Aqui, Peter Gray solda
uma das cinco estações de Sis-
tema de Posicionamento Global
(GPS) colocadas sobre os flancos
do Monte Santa Helena. As esta-
ções irão monitorar a mudança
na forma da superfície terrestre
à medida que rochas derretidas
ascendem por dentro do vulcão.
[Lyn Topinka/USGS]

Porém, as grandes questões da Geologia envolvem reta da natureza (Figura 1.2). Eles aprendem como as
processos que operam em escalas muito maiores e mais montanhas se formaram escalando encostas íngremes
longas. As medições controladas em laboratório geram e examinando as rochas expostas e acionam instru-
dados cruciais para testar hipóteses e teorias geológicas – mentos delicados para coletar dados sobre terremotos,
as idades e propriedades de rochas, por exemplo –, mas erupções vulcânicas e outras atividades na Terra sólida.
normalmente são insuficientes para solucionar os princi- Eles descobrem como as bacias oceânicas evoluíram na-
pais problemas geológicos. Quase todas as grandes desco- vegando por mares agitados para mapear o fundo oce-
bertas descritas neste livro foram feitas por meio da obser- ânico (Figura 1.3).
vação dos processos terrestres em seu ambiente natural, A Geologia tem uma relação estreita com outras
não controlado. áreas das Ciências da Terra, inclusive com a Oceanogra-
Por esse motivo, a Geologia é uma ciência de cam- fia, o estudo dos oceanos; a Meteorologia, o estudo da
po, com estilos e concepções próprios e específicos. Os atmosfera; e a Ecologia, que lida com a abundância e a
geólogos “vão a campo” para fazer uma observação di- distribuição da vida. A Geofísica, a Geoquímica e a Geo-

FIGURA 1.3  Os cientistas


marinhos Craig Marquette e Will
Ostrom, da Instituição Oceano-
gráfica Woods Hole, instalam um
ancoradouro para medir tem-
peraturas do navio de pesquisa
Oceanus durante uma tormenta
no Cabo Hatteras. [Chris Linder,
Woods Hole Oceanographic Institution.]

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(a) (b)
FIGURA 1.4  Uma série de subáreas contribui para o estudo
da Geologia. (a) Geofísicos instalam instrumentos para medir a
atividade subterrânea de um vulcão. (b) Um geoquímico prepara
uma amostra de rocha para análise com um espectrômetro de
massa. (c) Geobiólogos investigam a vida subterrânea na Caver-
na Spider, nas Grutas de Carlsbad, Novo México (EUA). [(a) Hawaiian
Volcano Observatory/USGS; (b) John McLean/Photo Researchers; (c) AP Pho-
to/Val Hildreth-Werker]

(c)

biologia são subáreas da Geologia que aplicam os mé-


todos da Física, da Química e da Biologia para resolver
problemas geológicos (Figura 1.4).
A Geologia é uma ciência planetária que usa apare-
lhos de sensoriamento remoto, como instrumentos aco-
plados a espaçonaves em órbita da Terra, para mapear
o globo inteiro (Figura 1.5). Os geólogos desenvolvem
modelos de computador que podem analisar a enorme
quantidade de dados colhidos por satélites para mapear
os continentes, representar os movimentos da atmosfera
e dos oceanos em gráficos e monitorar como o ambiente
está mudando.
Um aspecto especial da Geologia é sua capacidade de
investigar a longa história da Terra, lendo o que foi“escrito
em pedra”. O registro geológico é a informação preser- FIGURA 1.5  Um astronauta verifica a instrumentação para
vada nas rochas originadas em vários tempos da longa monitorar a superfície da Terra. [StockTrek/SuperStock]

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história da Terra (Figura 1.6). Os geólogos decifram o re- gos, o popular escritor John McPhee oferece sua visão de
gistro geológico combinando informações de muitos tipos como os geólogos agrupam observações de campo e de
de trabalho: exame de rochas no campo; mapeamento laboratório para visualizar o quadro global:
detalhado de suas posições em relação a formações ro-
chosas mais antigas e mais novas; coleta de amostras re- Eles veem montanhas na lama, oceanos em montanhas e
presentativas; e determinação de suas idades por meio de futuras montanhas em oceanos. Eles escalam uma rocha e
delicados instrumentos de laboratório. solucionam uma história, outra rocha, outra história, e à
Em Annals of the Former World [“Anais do mundo an- medida que as histórias se acumulam ao longo do tempo,
tigo”], um compêndio de histórias pitorescas sobre geólo- elas se conectam – e histórias longas são construídas e es-
critas a partir de padrões de pistas interpretados. Trata-se
de um trabalho de detetive em uma escala inimaginável
para a maioria dos detetives, com a notável exceção de
Sherlock Holmes.

O registro geológico nos diz que, geralmente, os pro-


cessos que vemos atuantes na Terra hoje funcionaram de
modo muito semelhante ao longo do tempo geológico.
Esse importante conceito é conhecido como o princípio
do uniformitarismo. Ele foi enunciado como hipótese
científica no século XVIII pelo médico e geólogo escocês
James Hutton. Em 1830, o geólogo britânico Charles Lyell
resumiu o conceito em uma frase memorável: “O presen-
te é a chave do passado”.
O princípio do uniformitarismo não significa que
todo fenômeno geológico ocorre de forma lenta. Alguns
dos mais importantes processos ocorrem como eventos
súbitos. Um meteoroide grande que impacta a Terra pode
escavar uma vasta cratera em questão de segundos. Um
vulcão pode explodir seu cume, e uma falha pode romper
o solo muito rapidamente em um terremoto. Outros pro-
cessos ocorrem de maneira mais lenta. Milhões de anos
são necessários para que continentes migrem, montanhas
sejam soerguidas e erodidas e sistemas fluviais depositem
espessas camadas de sedimentos. Os processos geológi-
cos ocorrem em uma extraordinária gama de escalas tanto
no espaço como no tempo (Figura 1.7).
O princípio do uniformitarismo não significa que te-
mos que observar um evento geológico para saber que
ele é importante para o atual sistema Terra. Os humanos
nunca presenciaram o impacto de um grande bólido, mas
sabemos que tais eventos aconteceram muitas vezes no
passado geológico e que certamente acontecerão de novo.
O mesmo pode ser dito de vastos derrames vulcânicos,
2
que cobriram com lavas áreas maiores que o Texas e en-
venenaram a atmosfera global com gases. A longa evolu-
ção do planeta é pontuada por muitos eventos extremos,
ainda que infrequentes, envolvendo mudanças rápidas no
sistema Terra. A Geologia é o estudo de eventos extremos,
bem como de mudanças graduais.
Desde a época de Hutton, os geólogos têm obser-
FIGURA 1.6  O registro geológico preserva evidências da
vado o trabalho da natureza e utilizado o princípio do
longa história da Terra. Essas camadas multicoloridas de areia no uniformitarismo para interpretar feições encontradas em
Monumento Nacional do Colorado foram depositadas há mais formações geológicas. Apesar do sucesso dessa abor-
de 200 milhões de anos, quando esta parte do oeste dos Esta- dagem, esse princípio de Hutton é muito limitado para
dos Unidos era um vasto deserto semelhante ao Saara. Elas fo- mostrar como a Ciência Geológica é praticada atualmen-
ram posteriormente sobrepostas por outras rochas, soldadas por te. A moderna Geologia deve ocupar-se com todo o in-
pressão como arenito, soerguidas por eventos de construção de tervalo da história da Terra, que começou há mais de 4,5
montanhas e erodidas por vento e água para se transformarem bilhões de anos. Como veremos no Capítulo 9, os violen-
na arrebatadora paisagem atual. [Lonely Planet Images / Mark Newman] tos processos que moldaram a primitiva história da Terra

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Durante milhões de anos, camadas de Há cerca de 50 mil anos, o impacto explosivo


sedimentos acumularam-se sobre as rochas de um meteorito (talvez pesando 300 mil
mais antigas. A camada mais nova – toneladas) criou esta cratera de 1,2 km de
o topo – tem cerca de 250 milhões de anos. diâmetro em apenas poucos segundos.

(a) As rochas da base do Grand Canyon têm de


(b)
1,7 a 2,0 bilhões de anos.

FIGURA 1.7  Os fenômenos geológicos podem estender-se durante milhares de séculos ou


ocorrer com velocidades estupendas. (a) O Grand Canyon, no Arizona (EUA). (b) Cratera de Mete-
orito, Arizona (EUA). [(a) John Wang/PhotoDisc/Getty Images; (b) John Sanford/Photo Researchers]

foram substancialmente diferentes daqueles que atuam Medições muito mais precisas demonstraram que a
hoje. Para entender essa história, precisaremos de algu- Terra não é uma esfera perfeita. Por causa de sua rotação,
mas informações sobre a forma e a superfície da Terra, ela é levemente abaulada no equador e um pouco achata-
além de seu interior profundo. da nos polos. Além disso, a curvatura suave da superfície
terrestre é quebrada por montanhas e vales e outros altos
e baixos. Essa topografia é medida com relação ao nível
Forma e superfície da Terra do mar, uma superfície suave determinada no nível médio
da água oceânica, a qual corresponde de perto à forma
O método científico tem suas raízes na geodésia, um ramo esférica e achatada que se espera da Terra em rotação.
antiquíssimo das Ciências Terrestres que estuda a forma e Muitas feições de significância geológica têm destaque na
a superfície da Terra. O conceito de que a Terra é esférica, topografia terrestre (Figura 1.8). Suas duas maiores feições
em vez de plana, foi proposto por filósofos gregos e india- são os continentes, que têm elevações típicas de 0 a 1 km
nos por volta do século VI a.C., sendo a base para a teoria acima do nível do mar, e as bacias oceânicas, que têm pro-
da Terra de Aristóteles, detalhada em seu famoso tratado, fundidades médias de 4 a 5 km abaixo do nível do mar. A
Meteorologica, publicado em torno de 330 a.C. (o primeiro elevação da superfície da Terra varia em aproximadamen-
livro de Ciências da Terra!). No século III a.C., Eratóstenes te 20 km do ponto mais alto (Monte Everest, no Himalaia,
usou um experimento engenhoso para medir o raio da a 8.850 m acima do nível do mar) até o ponto mais baixo
Terra, que foi calculado em 6.370 km (veja a Geologia na (Depressão Challenger, na Fossa das Marianas no Oceano
Prática nas páginas 8 e 9). Pacífico, a 11.030 m abaixo do nível do mar). Embora o

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Monte Everest

A elevação típica da
superfície terrestre
é de 0 a 1 km.

- Elevação (km)
- +1
- +8 0
- +6

-
- +4

-
+

-
Profundidade - 2

-
- 0

-
(km) - -2

N í ma
-
- -4

do
ve r
-
- -6

l
-
-- - 8

-
10

-
Ilhas

-
Marianas

Himalaia Fossa das Depressão


Marianas Challenger

A profundidade
FIGURA 1.8  A topografia da Terra típica do oceano
é de 4 a 5 km.
é medida em relação ao nível do mar.
A escala de elevação no diagrama está
bastante exagerada.

Himalaia possa parecer tão grande para nós, sua elevação Ao meio-dia do primeiro dia de verão no Hemisfério
é uma pequena fração do raio da Terra, apenas em torno Norte (21 de junho), um poço profundo na cidade de
3
de uma parte em mil. É por esse motivo que o globo pare- Siena , cerca de 800 km ao sul de Alexandria, ficava to-
ce-se a uma esfera suave quando visto do espaço. talmente iluminado pela luz solar, porque o Sol estava
em uma posição exatamente sobre a cabeça. Seguindo
um palpite, Eratóstenes realizou um experimento. Ele
fincou uma estaca vertical em sua própria cidade e, ao
meio-dia, no primeiro dia do verão, a estaca produziu
GEOLOGIA NA PRÁTICA uma sombra.
Qual é o tamanho de nosso planeta? Eratóstenes presumiu que o Sol estava muito dis-
tante, de forma que os raios de luz incidentes sobre as
Como sabemos que a Terra é redonda? Ninguém havia duas cidades eram paralelos. Sabendo que o Sol pro-
olhado do espaço para a Terra antes do início da déca- jetava uma sombra em Alexandria, mas estava exata-
da de 1960, mas sua forma já era compreendida mui- mente sobre a cabeça ao mesmo tempo em Siena, Era-
to tempo antes. Em 1492, Colombo definiu um curso a tóstenes conseguiu demonstrar por meio de geometria
oeste para a Índia porque ele acreditava em uma teoria simples que a superfície do solo deveria ser curva. Ele
da geodésia que fora proposta por filósofos gregos: vi- sabia que a superfície curva mais perfeita é a da esfe-
vemos em uma esfera. Porém, ele não era bom em ma- ra, então levantou a hipótese de que a Terra tinha uma
temática, então subestimou em muito a circunferência forma esférica (os gregos admiravam a perfeição geo-
da Terra. Em vez de um atalho, ele fez o caminho mais métrica). Medindo o comprimento da sombra da estaca
longo, encontrando um Novo Mundo em vez das Ilhas em Alexandria, calculou que, se as linhas verticais entre
das Especiarias! Se Colombo tivesse entendido de forma as duas cidades pudessem ser estendidas ao centro da
adequada os gregos antigos, talvez não teria cometido Terra, elas se encontrariam em uma intersecção com
esse erro afortunado, porque eles haviam medido com ângulo em torno de 7°, que é aproximadamente 1/50
precisão o tamanho da Terra mais de 17 séculos antes. de um círculo completo (360°). Ele sabia que a distância
O crédito da determinação do tamanho da Terra entre as duas cidades era cerca de 800 km em medições
vai para Eratóstenes, um grego que dirigia a Grande Bi- atuais. Usando esses dados, Eratóstenes calculou uma
blioteca de Alexandria, no Egito. Por volta de 250 a.C., circunferência para a Terra que é muito próxima ao va-
um viajante contou a ele uma observação interessante. lor moderno:

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LUZ SOLAR

Alexandria 7° Siena
EQUADOR

800 km N

Alexandria Siena

R
DO
UA
Como Eratóstenes mediu
EQ
a circunferência da Terra.

Circunferência da Terra = astrônomos gregos calcular os tamanhos da Lua e do


Sol e as distâncias desses corpos em relação à Terra. Essa
50 ⫻ distância de Siena a Alexandria história explica por que experimentos bem projetados e
⫽ 50 ⫻ 800 km ⫽ 40.000 km boas medições são cruciais para o método científico: eles
nos dão novas informações sobre o mundo natural.
Com esse valor para a circunferência da Terra, era
uma simples questão de calcular o raio. Eratóstenes sa- PROBLEMA EXTRA: O volume de uma esfera é dado por
bia que, para qualquer círculo, a circunferência é igual a
2␲ (pi) vezes o raio, onde ␲ ⫽ 3,14.... Portanto, ele divi-
diu sua estimativa da circunferência da Terra por 2␲ para
Usando essa fórmula, calcule o volume da Terra em
encontrar o raio:
quilômetros cúbicos.

Descascando a cebola:
Com esses cálculos, Eratóstenes chegou a um mo-
delo científico simples e elegante: a Terra é uma esfera
a descoberta de uma
com raio de aproximadamente 6.370 km. Terra em camadas
Em sua poderosa demonstração do método cien-
tífico, Eratóstenes fez observações (o comprimento da Os antigos pensadores, como Eratóstenes, dividiam o
sombra), formulou uma hipótese (forma esférica) e apli- universo em duas partes: o Céu, acima, e o Hades, embai-
cou um pouco de teoria matemática (geometria esférica) xo. O céu era transparente e cheio de luz, e eles poderiam
para propor um modelo incrivelmente preciso da forma enxergar diretamente as estrelas e os planetas vagantes.
física da Terra. Seu modelo previa corretamente outros O interior da Terra era escuro e fechado para os olhos hu-
tipos de medições, como a distância em que o mastro manos. Em alguns lugares, o chão tremia e havia erupção
alto de um navio desapareceria no horizonte. Além dis- de lava quente. Com certeza, algo terrível estava aconte-
so, conhecer o tamanho e a forma da Terra permitia aos cendo lá embaixo!

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Manto (40 a 2.890 km) Ferro líquido no estimar a densidade do planeta inteiro, mas não tan-
67,1% da massa da Terra núcleo externo to. Eratóstenes mostrou como medir o volume da Terra
Crosta (0 a 40 km) (2.890 a 5.150 km)
30,8% da massa da Terra
em 250 a.C. e, em algum momento por volta de 1680,
0,4% da massa
da Terra o grande cientista inglês Isaac Newton descobriu como
Ferro sólido no calcular sua massa a partir da força gravitacional que
núcleo interno atrai objetos à superfície. Os detalhes, que envolviam
(5.150 a 6.370 km) cuidadosos experimentos em laboratório para calibrar a
1,7% da massa
lei da gravitação de Newton, foram desenvolvidos por
da Terra
outro inglês, Henry Cavendish. Em 1798, ele calculou a
3
densidade média da Terra em cerca de 5,5 g/cm , duas
vezes a do granito para jazigos.
Wiechert ficou perplexo. Ele sabia que um planeta
composto inteiramente de rochas comuns não poderia
ter uma densidade tão alta. A maioria das rochas comuns,
como o granito, contém uma alta proporção de sílica (si-
lício mais oxigênio; SiO2) e tem densidades relativamente
3
baixas, abaixo de 3 g/cm . Algumas rochas ricas em ferro,
trazidas à superfície terrestre por vulcões, têm densidades
3
de até 3,5 g/cm , mas nenhuma rocha comum se apro-
ximava do valor de Cavendish. Ele também sabia que,
na direção do interior da Terra, a pressão sobre a rocha
aumenta com o peso da massa sobrejacente. A pressão
comprime a rocha em um volume menor, tornando sua
densidade mais alta. Porém, Wiechert constatou que mes-
FIGURA 1.9  Principais camadas da Terra, mostrando suas
mo o efeito da pressão era pequeno demais para explicar
profundidades e suas massas, expressas como porcentagem da
a densidade calculada por Cavendish.
massa total da Terra.

Essa visão permaneceu até cerca de um século atrás, O manto e o núcleo


quando os geólogos começaram a espiar o interior da Ao refletir sobre o que havia embaixo de seus pés, Wie-
Terra, não com ondas de luz (que não penetram a rocha), chert voltou-se para o sistema solar e, em especial, aos
mas com ondas produzidas por terremotos. Um terremo- meteoritos, que são pedaços do sistema solar caídos na
to ocorre quando forças geológicas fraturam as rochas Terra. Ele sabia que alguns meteoritos são compostos de
frágeis, enviando vibrações que se assemelham ao gelo uma liga (uma mistura) de dois metais pesados, ferro e
3
rachando sobre um rio. Essas ondas sísmicas (da pala- níquel, e, que, portanto, têm densidades de até 8 g/cm
vra grega para terremoto, seismos), quando registradas por (Figura 1.10). Ele também sabia que esses dois elementos
instrumentos sensíveis chamados sismógrafos, permitem são relativamente abundantes em todo o nosso sistema
que os geólogos localizem terremotos e também tirem solar. Então, em 1896, propôs uma hipótese grandiosa:
“fotografias” do funcionamento interno da Terra, assim em algum momento no passado da Terra, a maioria do
como os médicos usam ultrassom e tomografia computa- ferro e do níquel de seu interior havia caído para o centro
dorizada para obter imagens do interior do corpo. Quan- sob a força da gravidade. Esse movimento criou um nú-
do as primeiras redes de sismógrafos foram instaladas em cleo denso, que foi cercado por uma capa de rocha rica
todo o mundo no final do século XIX, os geólogos come- em silicato, a qual chamou de manto (usando a palavra
çaram a descobrir que o interior da Terra era dividido em em alemão para “casaco”). Com essa hipótese, ele con-
camadas concêntricas de diferentes composições, separa- seguiu elaborar um modelo da Terra com duas camadas
das por limites nítidos, quase esféricos (Figura 1.9). que estava de acordo com o valor de Cavendish para a
densidade média da Terra. Ele também conseguiu explicar
a existência de meteoritos de ferro-níquel: eram pedaços
A densidade da Terra do núcleo de um planeta (ou planetas) como a Terra que
A teoria das camadas do interior profundo da Terra foi haviam se quebrado, muito provavelmente pela colisão
proposta pela primeira vez por Emil Wiechert no fim do com outros planetas.
século XIX, antes que muitos dados sísmicos estivessem Wiechert ocupou-se com o teste de sua hipótese
disponíveis. Ele queria entender por que nosso planeta usando ondas sísmicas registradas por sismógrafos loca-
é tão pesado ou, mais precisamente, tão denso. É fácil lizados ao redor do globo (ele próprio projetou um). Os
calcular a densidade de uma substância: basta medir primeiros resultados demonstraram uma massa interna
a massa em uma balança e dividir pelo volume. Uma indistinta que ele presumiu ser o núcleo, mas teve pro-
rocha típica, como o granito usado em lúpides sepul- blemas para identificar algumas das ondas sísmicas. Es-
crais, tem densidade de aproximadamente 2,7 gramas sas ondas são de dois tipos básicos: ondas compressionais,
3
por centímetro cúbico (g/cm ). É um pouco mais difícil que se expandem e comprimem o material que movem

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 11

(a) (b)
FIGURA 1.10  Dois tipos comuns de meteoritos. (a) Este meteorito pétreo, que é semelhante
3
em composição ao manto silicático da Terra, tem densidade em torno de 3 g/cm . (a) Este me-
teorito de ferro-níquel, que é semelhante em composição ao núcleo da Terra, tem densidade de
3
aproximadamente 8 g/cm . [John Grotzinger/Ramón Rivera-Moret/Harvard Mineralogical Museum]

conforme se propagam através de um sólido, líquido ou A crosta


gás; e ondas cisalhantes, que deslocam o material de lado a
lado. As ondas cisalhantes podem propagar-se apenas em Cinco anos antes, um cientista croata detectara outro li-
sólidos, que resistem ao cisalhamento, e não em fluidos mite a uma profundidade relativamente rasa de 40 km
(líquidos ou gases), como o ar e a água, que não têm resis- abaixo do continente europeu. Esse limite, chamado de
tência a esse tipo de movimento. descontinuidade de Mohorovi i (Moho, por simplicidade),
Em 1906, um sismólogo britânico, Robert Oldham, em homenagem ao seu descobridor, separa uma crosta
conseguiu classificar os caminhos percorridos por esses composta de silicatos de baixa densidade, que são ricos em
dois tipos de ondas sísmicas e demonstrar que as ondas alumínio e potássio, dos silicatos de densidade mais alta
cisalhantes não se propagavam no núcleo. O núcleo, pelo encontrados no manto, que contêm mais magnésio e ferro.
menos na parte externa, era líquido! Acontece que essa Assim como o limite núcleo-manto, a Moho é uma
descoberta não é das mais surpreendentes. O ferro funde característica global. Contudo, verificou-se que ela é subs-
a uma temperatura mais baixa do que os silicatos, e é por tancialmente mais rasa sob os oceanos do que sob os con-
isso que os metalúrgicos podem usar recipientes feitos de tinentes. Em média, a espessura da crosta oceânica é de
cerâmica (que são materiais silicáticos) para conter o ferro apenas 7 km, comparada com quase 40 km da crosta con-
fundido. O interior profundo da Terra é quente o bastan- tinental. Além disso, as rochas na crosta oceânica contêm
te para fundir uma liga de ferro-níquel, mas não rocha mais ferro e, portanto, são mais densas do que as rochas
silicática. Beno Gutenberg, um dos alunos de Wiechert, continentais. Como a crosta continental é mais espessa,
confirmou as observações de Oldham e, em 1914, deter- mas menos densa do que a crosta oceânica, os continentes
4
minou que a profundidade do limite núcleo-manto era de flutuam mais ao alto, como se fossem botes sobre o manto
aproximadamente 2.890 km (ver Figura 1.9). mais denso (Figura 1.11), semelhante a como os icebergs

A crosta continental é menos densa e


A crosta continental menos densa mais espessa do que a crosta oceânica
flutua sobre o manto mais denso. e, portanto, flutua mais ao alto.

FIGURA 1.11  Como as rochas


crustais são menos densas do que
0 (km) as rochas do manto, a crosta da Terra
10 Crosta continental Crosta oceânica flutua sobre o manto. A crosta con-
(2,8 g/cm3) (3,0 g/cm3) tinental é mais espessa e tem den-
20
30 Manto Moho sidade menor do que a crosta oce-
40 (3,4 g/cm3) ânica, fazendo com que flutue mais
50
ao alto e explicando a diferença de
elevação entre os continentes e o
Distância horizontal sem escala assoalho oceânico profundo.

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12 PA R A E N T E N D E R A T E R R A

flutuam no oceano. A flutuação continental explica a fei- anos). O manto abaixo de uma profundidade em torno de
ção mais impactante da topografia da superfície da Terra: 100 km tem pouca força e, durante períodos muito longos,
por que as elevações mostradas na Figura 1.8 dividem-se ele flutua à medida que se ajusta para sustentar o peso de
em dois grupos principais, 0 a 1 km acima do nível do mar continentes e montanhas.
para a maior parte da superfície terrestre e 4 a 5 km abaixo
do nível do mar para a maioria do mar profundo.
As ondas cisalhantes propagam-se bem pelo manto O núcleo interno
e pela crosta, então sabemos que ambos são rocha sólida. Uma vez que o manto é sólido e a parte externa do núcleo
Como os continentes podem flutuar sobre a rocha sólida? é liquida, o limite núcleo-manto reflete as ondas sísmicas,
As rochas podem ser sólidas e fortes por um curto espaço assim como um espelho reflete ondas de luz. Em 1936, a
de tempo (segundos a anos), embora continuem sendo sismóloga dinamarquesa Inge Lehmann descobriu outro
fracas por um longo período (milhares até milhões de limite esférico nítido a uma profundidade de 5.150 km,
indicando uma massa central com densidade maior do
que a do núcleo líquido. Estudos conduzidos após sua
14 pesquisa pioneira mostraram que o núcleo interno pode
transmitir ondas cisalhantes e compressionais. Portanto,
o núcleo interno é uma sólida esfera metálica suspensa
12 no núcleo externo líquido – um “planeta dentro de um
planeta”. O raio do núcleo interno é de 1.220 km, cerca de
10
dois terços o tamanho da Lua.
Os geólogos estavam intrigados com a existência
desse núcleo interno “congelado”. Eles sabiam que as
Densidade (g/cm)

8 temperaturas dentro da Terra deveriam aumentar em pro-


porção à profundidade. Segundo as melhores estimativas
atuais, a temperatura da Terra sobe de aproximadamente
6 3.500°C na fronteira núcleo-manto para quase 5.000°C no
centro. Se o núcleo interno é mais quente, como pode ser
sólido enquanto o núcleo externo é fundido? O mistério
4
foi finalmente resolvido por experimentos de laboratório
com ligas de ferro-níquel, que demonstraram que o “con-
2 gelamento” se devia a altas pressões, em vez de a tempe-
raturas menores, no centro da Terra.

0 1000 2000 3000 4000 5000 6000


Profundidade (km)
Ferro (94%)

Núcleo
interno Níquel
(6%)

Núcleo
externo
Ferro (85%)

Oxigênio Enxofre Níquel


(5%) (5%) (5%)
Manto

Oxigênio Magnésio Silício


(44%) (22,8%) (21%)
Crosta
Cálcio Alumínio Ferro
(2,5%) (2,4%) (6,3%)

Oxigênio Silício
FIGURA 1.12  Saltos de densidade entre as principais camadas (46%) (28%)
da Terra, mostrados acima em cores diferentes, são basicamente
causados por diferenças de composição química. As quantias re- Cálcio Magnésio Alumínio Ferro Outros
lativas dos principais elementos são exibidas nas barras à direita. (2,4%) (4%) (8%) (6%) (6%)

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 13

A composição química das Terra e de suas várias camadas. Além dos dados sísmicos,
essa evidência inclui as composições das rochas crustais
principais camadas da Terra e do manto, bem como as de meteoritos, considerados
Em meados do século XIX, os geólogos haviam descober- amostras do material cósmico do qual planetas como a
to todas as principais camadas da Terra – crosta, manto, Terra eram originalmente feitos.
núcleo externo e núcleo interno – e uma série de feições Apenas oito elementos, de mais de uma centena,
mais sutis no interior. Eles verificaram, por exemplo, que compõem 99% da massa da Terra (ver Figura 1.12). De
o próprio manto divide-se em camadas, o manto superior fato, cerca de 90% da Terra consistem em apenas quatro
e o manto inferior, separadas por uma zona de transição elementos: ferro, oxigênio, silício e magnésio. Os dois
em que a densidade da rocha aumenta em uma série de primeiros são os elementos mais abundantes, sendo que
passos. Esses passos de densidade não são causados por cada um representa quase um terço da massa total do pla-
mudanças na composição química da rocha, mas por mu- neta, mas são distribuídos de forma bem distinta. O ferro,
danças na compactação dos minerais constituintes em ra- que é o mais denso desses elementos comuns, concentra-
zão do aumento de pressão proporcional à profundidade. -se no núcleo, ao passo que o oxigênio – o menos den-
Os dois maiores saltos de densidade na zona de transição so – concentra-se na crosta e no manto. A crosta contém
estão localizados a profundidades de aproximadamente mais silício do que o manto. Essas relações mostram que
410 e 660 km, mas são menores do que os aumentos de as diferentes composições das camadas da Terra são ba-
densidade na Moho e no limite núcleo-manto, causados sicamente o trabalho da gravidade. Como se pode ver na
por mudanças na composição química (Figura 1.12). Figura 1.12, as rochas crustais sobre as quais estamos são
Os geólogos também conseguiram demonstrar que o constituídas por quase 50% de oxigênio!
núcleo externo da Terra não pode ser feito de uma liga
pura de ferro-níquel, porque as densidades desses metais
são maiores do que a densidade desse núcleo. Cerca de
10% da massa do núcleo externo deve ser composta de
A Terra como um sistema de
elementos mais leves, como oxigênio e enxofre. Por outro componentes interativos
lado, a densidade do núcleo interno sólido é um pouco
maior do que a do núcleo externo e é consistente com A Terra é um planeta inquieto, mudando continuamente
uma liga de ferro-níquel quase pura. por meio de atividades geológicas como terremotos, vul-
Pela combinação de muitas linhas de evidência, os cões e glaciações. Essas atividades são governadas por
geólogos desenvolveram um modelo da composição da dois mecanismos térmicos: um interno e o outro exter-

O Sol controla o mecanismo A energia solar é responsável por O mecanismo interno da Terra é
externo da Terra. nosso clima e tempo meteorológico. governado pelo calor aprisionado ...e pela radioatividade
durante sua origem... de seu interior.

Sol

O calor irradiado pela Terra Meteoros transportam


FIGURA 1.13  O sistema da Terra é um sistema aberto que equilibra o calor interno e massa do cosmos para Terra.
troca energia e massa com seu entorno. aquele recebido do Sol.

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14 PA R A E N T E N D E R A T E R R A

no (Figura 1.13). Mecanismos de tal tipo – por exemplo, o Todas as partes do nosso planeta e todas suas in-
motor a gasolina de um automóvel – transformam calor terações, tomadas juntas, constituem o sistema Terra.
em movimento mecânico ou trabalho. O mecanismo in- Embora os cientistas da Terra pensem já há algum tempo
terno da Terra é governado pela energia térmica aprisio- em termos de sistemas naturais, foi apenas nas últimas
nada durante a origem cataclísmica do planeta e gera- décadas do século XX que dispuseram de equipamentos
da pela radioatividade em seus níveis mais profundos. adequados para investigar como o sistema Terra realmen-
O calor interior controla os movimentos no manto e no te funciona. Dentre os principais avanços, estão as redes
núcleo, suprindo energia para fundir rochas, mover con- de instrumentos e satélites orbitantes de coleta de infor-
tinentes e soerguer montanhas. O mecanismo externo da mações do sistema Terra em uma escala global e o uso
Terra é controlado pela energia solar – calor da superfície de computadores com potência suficiente para calcular a
terrestre proveniente do Sol. O calor do Sol energiza a massa e a energia transferidas dentro do sistema. Os prin-
atmosfera e os oceanos e é responsável pelo nosso clima cipais componentes do sistema Terra podem ser represen-
e tempo. Chuva, vento e gelo erodem montanhas e mo- tados como um conjunto de domínios ou “esferas”(Figura
delam a paisagem e, por sua vez, a forma da superfície 1.14). Já discorremos sobre alguns deles e definiremos os
influencia o clima. outros a seguir.

SISTEMA DAS PLACAS TECTÔNICAS


envolve interações entre a litosfera,
O SISTEMA DO CLIMA a astenosfera e o manto inferior
envolve interações entre a atmosfera, a hidrosfera,
a biosfera, a criosfera e a litosfera

ATMOSFERA CRIOSFERA LITOSFERA ASTENOSFERA


Envelope gasoso que Calotas de gelo Espessa camada rochosa Camada delgada dúctil do
se estende desde a polar, geleiras e externa da Terra sólida que manto sob a litosfera
superfície terrestre outros gelos compreende a crosta e a que se deforma para
até uma altitude de superficiais parte superior do manto até acomodar os movimentos
cerca de 100 km uma profundidade média horizontais e verticais das
de cerca de 100 km; forma placas tectônicas
as placas tectônicas

MANTO INFERIOR
HIDROSFERA Manto sob a astenosfera,
A esfera da água estendendo-se desde
compreende todos os cerca de 400 km até o
oceanos, lagos, rios e limite núcleo-manto
a água subterrânea (cerca de 2.900 km de
profundidade)

BIOSFERA
Toda matéria orgânica
relacionada à vida
próxima à superfície
terrestre Estes geossistemas são
energizados pelo calor
interno da Terra.

Este geossistema é
energizado pela
radiação solar.
O SISTEMA DO GEODÍNAMO
envolve interações entre os
núcleos interno e externo

NÚCLEO INTERNO NÚCLEO EXTERNO


Esfera mais interna constituída Camada líquida composta
predominantemente de ferro sólido, predominantemente por ferro
estendendo-se desde cerca de liquefeito, estendendo-se desde
5.150 km de profundidade até o cerca de 2.900 km até 5.150 km
centro da Terra, a 6.370 km de de profundidade
FIGURA 1.14  O sistema Terra inclui todas as profundidade
partes do nosso planeta e suas interações.

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 15

Falaremos mais sobre o sistema Terra durante todo te é governado principalmente pelas variações do influxo
o livro. Vamos agora começar a pensar sobre algumas de de energia solar nos ciclos sazonais e diários: verões são
suas feições básicas. O sistema Terra é um sistema aberto, quentes e invernos, frios; dias são quentes e noites, mais
no sentido de que troca massa e energia com o restante frescas. O clima é a descrição desses ciclos de tempo em
do cosmos (ver Figura 1.13). A energia radiante do Sol termos das médias de temperatura e outras variáveis ob-
energiza o intemperismo e a erosão da superfície terres- tidas durante muitos anos de observação. Uma descrição
tre, bem como o crescimento das plantas, as quais servem completa do clima também inclui medidas de quanto tem
de alimento a muitos outros seres vivos. Nosso clima é sido a variação do tempo meteorológico, como as tem-
controlado pelo balanço entre a energia solar que chega peraturas mais altas ou mais baixas já registradas em um
até o sistema Terra e a energia que o planeta irradia de certo dia.
volta para o espaço. Hoje em dia, a troca de massa entre O sistema do clima inclui todos os componentes do
a Terra e o espaço é relativamente pequena: apenas cer- sistema Terra que determinam o clima em uma escala glo-
ca de 40 mil toneladas de meteoritos – equivalente a um bal e como ele muda com o tempo. Em outras palavras, o
cubo com lateral de 24 m – caem na Terra por ano. Porém, sistema do clima não envolve somente o comportamento
essa transferência de massa era muito maior durante os da atmosfera, mas também suas interações com a hidros-
primórdios do sistema solar. fera, a criosfera, a biosfera e a litosfera (ver Figura 1.14).
Embora a Terra seja considerada um único sistema, é Quando o Sol aquece a superfície da Terra, parte do
um desafio estudá-la como uma coisa só. Em vez disso, calor é aprisionada por vapor d’água, dióxido de carbono
voltaremos nossa atenção aos componentes específicos e outros gases na atmosfera, semelhante a como o calor é
6
do sistema Terra (subsistemas) que estamos tentando aprisionado por vidro fosco em uma estufa . Esse efeito es-
compreender. Por exemplo, em nossa discussão sobre tufa explica por que a Terra tem um clima que possibilita a
mudança climática global, vamos considerar basica- vida. Se a atmosfera não contivesse gases do efeito estufa,
mente as interações entre a atmosfera e diversos outros a superfície terrestre seria sólida e congelada! Portanto, os
componentes que são governados pela energia solar: a gases do efeito estufa, sobretudo o dióxido de carbono,
hidrosfera (águas da superfície terrestre e água subter- exercem uma função crucial na regulação do clima. Como
rânea), a criosfera (calotas de gelo, geleiras e campos de aprenderemos nos capítulos posteriores, a concentração
neve) e a biosfera (organismos vivos). Nossa discussão de dióxido de carbono na atmosfera é um balanço entre a
sobre como os continentes são deformados para soer- quantidade expelida do interior da Terra por erupções vul-
guer montanhas se concentrará nas interações entre a cânicas e a quantidade retirada durante o intemperismo
crosta e o manto, que são controladas pelo mecanismo de rochas silicáticas. Dessa forma, o comportamento da
interno da Terra. Os subsistemas especializados que pro- atmosfera é regulado por interações com a litosfera.
duzem tipos específicos de atividade, como mudança cli- Para entender essas interações, os cientistas elaboram
mática ou construção de montanhas, são chamados de modelos numéricos – sistemas climáticos virtuais – em
5
geossistemas . O sistema Terra pode ser pensado como supercomputadores e comparam os resultados de suas
uma coleção desses geossistemas abertos e interativos (e simulações com os dados observados. Assim, esperam
geralmente sobrepondo-se). aperfeiçoar continuamente os modelos para que possam
Nesta seção, apresentaremos três geossistemas im- fazer predições acuradas sobre como o clima mudará no
portantes que operam em uma escala global: o sistema futuro. Um problema particularmente urgente ao qual tais
do clima, o sistema das placas tectônicas e o geodínamo. modelos estão sendo aplicados é o aquecimento global,
Posteriormente, teremos a oportunidade de discutir uma que está sendo causado por emissões antropogênicas (ge-
série de geossistemas menores, como vulcões que expelem radas por humanos) de dióxido de carbono e de outros
lava quente (Capítulo 12), sistemas hidrológicos que nos gases do efeito estufa. Parte do debate público sobre o
proporcionam água para consumo (Capítulo 17) e reserva- aquecimento global centra-se sobre a precisão das pre-
tórios de petróleo que fornecem óleo e gás (Capítulo 23). dições computadorizadas. Os céticos argumentam que
mesmo os modelos computadorizados mais sofisticados
não são confiáveis porque desconsideram várias feições
O sistema do clima do sistema Terra real. No Capítulo 15, discutiremos alguns
Tempo é o termo que usamos para descrever a tempera- aspectos de como o sistema do clima funciona e, no Capí-
tura, a precipitação, a nebulosidade e os ventos observa- tulo 23, examinaremos os problemas práticos das mudan-
dos em um ponto da superfície terrestre. Todos sabemos o ças climáticas antropogênicas.
quanto o tempo pode ser variável – quente e chuvoso em
um dia, frio e seco no outro –, dependendo dos movimen-
tos de sistemas de tempestades, frentes frias e quentes O sistema das placas tectônicas
e outras mudanças rápidas dos distúrbios atmosféricos. Alguns dos mais dramáticos eventos geológicos do pla-
Como a atmosfera é muito complexa, mesmo os melhores neta – erupções vulcânicas e terremotos, por exemplo –
meteorologistas têm dificuldades em prever o tempo com também resultam de interações dentro do sistema Terra.
antecedência de mais de quatro ou cinco dias. Entretan- Esses fenômenos são controlados pelo calor interno do
to, podemos inferir como ele será, em termos gerais, em globo, que escapa por meio da circulação de material no
um futuro bem mais distante, pois o tempo predominan- manto sólido.

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16 PA R A E N T E N D E R A T E R R A

1 A convecção move a água 2 ...onde ela se esfria, 1 A materia quente do 2 ...levando as placas a
quente do fundo para o topo... move-se lateralmente, manto ascende... se formar e divergir.
afunda...

3 Onde as placas
convergem, uma placa
resfriada é arrastada
sob a placa vizinha...
Placa Placa

3 ...aquece-se
e, novamente,
sobe.
4 ...mergulha, aquece-se
e, novamente, sobe.

FIGURA 1.15  A convecção no manto da Terra pode ser comparada ao padrão de movimen-
to em uma chaleira de água fervente. Nos dois processos, o calor é carregado para a superfície
pelo movimento da matéria.

De certa forma, a parte externa da Terra sólida com- limites onde as placas convergem. Esse processo geral, no
porta-se como uma bola de cera quente. O resfriamento qual o material aquecido ascende e o resfriado afunda,
da superfície torna frágil a casca mais externa, ou litosfera é chamado de convecção (Figura 1.15). A convecção no
(do grego lithos, “pedra”), a qual envolve uma astenosfe- manto pode ser comparada ao padrão de movimento em
ra (do grego asthenes, “fraqueza”) quente e dúctil. A litos- uma chaleira de água fervente, mas é muito mais lenta
fera inclui a crosta e o topo do manto até uma profundi- porque o fluxo dos sólidos dúcteis é mais lento que o dos
dade média de cerca de 100 km. A astenosfera é a parte do fluidos, pois mesmo os sólidos “frágeis” (como a cera ou o
manto, talvez com 300 km de espessura, imediatamente caramelo) são mais resistentes à deformação que os flui-
abaixo da litosfera. Quando submetida a uma força, a li- dos comuns (como a água ou o azeite de oliva).
tosfera tende a comportar-se como uma casca rígida e frá- O manto em convecção e seu mosaico sobrejacen-
gil, enquanto a astenosfera sotoposta flui como um sólido te de placas litosféricas constituem o sistema de placas
moldável ou dúctil. tectônicas. Assim como no sistema do clima (que envol-
De acordo com a notável teoria da tectônica de placas, ve uma ampla variedade de processos convectivos na at-
a litosfera não é uma casca contínua; ela está quebrada mosfera e nos oceanos), os cientistas estudam as placas
em cerca de 12 grandes placas que se movem sobre a su- tectônicas usando simulações computadorizadas e revi-
perfície terrestre com taxas de alguns centímetros por ano. sam os modelos de forma contínua testando-os contra
Cada placa atua como uma unidade rígida distinta que se os novos dados.
move sobre a astenosfera, a qual também está em mo-
vimento. Ao formar uma placa, a litosfera pode ter uma
espessura de apenas alguns quilômetros nas áreas com O geodínamo
atividade vulcânica e, talvez, de até 200 km ou mais nas O terceiro sistema global envolve interações que produ-
regiões mais antigas e frias dos continentes. A descober- zem um profundo campo magnético dentro da Terra,
ta das placas tectônicas na década de 1960 forneceu aos em seu núcleo externo líquido. Esse campo magnético
cientistas a primeira teoria unificada para explicar a distri- alcança o espaço, fazendo com que as bússolas apontem
buição mundial dos terremotos e dos vulcões, a deriva dos para o norte e protegendo a biosfera contra a radiação
continentes, o soerguimento de montanhas e muitos ou- solar prejudicial. Quando as rochas se formam, elas se
tros fenômenos geológicos. O Capítulo 2 será destinado a tornam levemente magnetizadas por esse campo magné-
descrever detalhadamente a tectônica de placas. tico, por isso os geólogos podem estudar como o campo
Por que as placas se movem na superfície terrestre em se comportava no passado e usá-lo para decifrar o regis-
vez de se fixarem completamente em uma casca rígida? tro geológico.
As forças que empurram e arrastam as placas originam- A Terra gira sobre um eixo que passa pelos polos nor-
-se do manto. Controlado pelo calor interno da Terra, o te e sul. O campo magnético interno da Terra comporta-
material quente do manto sobe onde as placas separam- -se como se uma poderosa barra magnetizada, inclinada
-se, formando nova litosfera. À medida que se move para a 11º do eixo de rotação da Terra, estivesse localizada no
longe desse limite divergente, a litosfera esfria e torna-se centro do globo. A força magnética aponta para dentro
mais rígida. Porém, ela pode eventualmente afundar na do solo no polo norte magnético e para fora no polo sul
astenosfera e arrastar material de volta para o manto, nos magnético (Figura 1.16). Em qualquer local na Terra (ex-

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 17

Polo norte Polo norte


geográfico magnético

corren
te

11°

(a) Barra imantada (b) Eletromagnético (c) Geodínamo

FIGURA 1.16  (a) Uma barra imantada cria um campo dipolar com os polos norte e sul. (b)
Um campo dipolar também pode ser produzido por correntes elétricas que fluem através de
uma bobina de fio metálico, conforme mostrado neste eletroímã movido a bateria. (c) O campo
magnético aproximadamente dipolar da Terra é produzido por correntes elétricas que fluem no
núcleo externo de metal líquido, as quais são movidas por convecção.

ceto nos polos magnéticos), uma agulha de bússola que lógico, uma agulha de bússola teria apontado para o sul!
é livre para girar sob a influência de um campo magnéti- Essas reversões magnéticas ocorrem a intervalos irregulares
co irá rotar para a posição paralela à linha de força local, que variam de dezenas de milhares a milhões de anos.
aproximadamente na direção norte-sul. Os processos que as causam não são inteiramente enten-
Embora um ímã permanente no centro da Terra possa didos, mas modelos computadorizados do geodínamo
explicar a natureza dipolar (dois polos) do campo mag- mostram reversões esporádicas que ocorrem na ausência
nético observado, essa hipótese pode ser facilmente re- de qualquer fator externo, isto é, unicamente por meio de
jeitada. Experimentos de laboratório demonstram que o interações dentro do núcleo da Terra. Como veremos no
campo de um ímã permanente é destruído quando aque- próximo capítulo, as reversões magnéticas, que deixam
cido acima de 500ºC. Sabemos que as temperaturas no sua marca no registro geológico, têm ajudado os geólogos
interior profundo da Terra são muito mais altas do que a entender os movimentos das placas litosféricas.
isso – milhares de graus no seu centro –, de modo que,
caso o magnetismo não seja constantemente regenerado,
ele não poderia ser mantido.
Os cientistas teorizam que a convecção no núcleo
Um panorama do
externo da Terra gera e mantém o campo magnético. Por tempo geológico
que um campo magnético é criado por convecção no nú-
cleo externo, mas não no manto? Em primeiro lugar, por- Até agora, discutimos o tamanho e a forma da Terra, suas
que o núcleo externo é feito principalmente de ferro, que camadas e composição internas e o funcionamento de
é um condutor elétrico muito bom, enquanto as rochas seus três principais geossistemas. Afinal de contas, como
silicáticas do manto são más condutoras elétricas. Em se- a Terra obteve essa estrutura em camadas? Como os ge-
gundo lugar, porque os movimentos convectivos são um ossistemas globais evoluíram ao longo do tempo geoló-
milhão de vezes mais rápidos no núcleo externo do que gico? Para responder a essas questões, iniciaremos com
no manto sólido. Esses movimentos rápidos induzem cor- uma abordagem geral do tempo geológico, desde o nasci-
rentes elétricas na liga líquida de ferro-níquel para criar o mento do planeta até o presente. Os capítulos posteriores
campo magnético. Dessa forma, esse geodínamo é mais apresentarão mais detalhes.
semelhante a um eletroímã do que a uma barra imantada Compreender a imensidão do tempo geológico é um
(ver Figura 1.16). desafio. O escritor John McPhee observou que os geólo-
Por cerca de 400 anos, os cientistas sabem que uma gos olham para o “tempo profundo” do início da história
agulha de bússola aponta para o norte por causa do cam- da Terra (medido em bilhões de anos) da mesma manei-
po magnético da Terra. Imagine a surpresa que tiveram, ra que um astrônomo olha para o “espaço profundo” do
meio século atrás, quando encontraram evidência geoló- universo (medido em bilhões de anos-luz). A Figura 1.17
gica de que a direção da força magnética pode ser rever- apresenta o tempo geológico como uma fita marcada com
tida. Durante aproximadamente metade do tempo geo- alguns dos principais eventos e transições.

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18 PA R A E N T E N D E R A T E R R A

4.560 Ma
Formação da
2.700 Ma
Terra e dos planetas Início da atmosfera
4.000 Ma
3.500 Ma com oxigênio
4.510 Ma Rochas
Registro de campo magnético
Formação continentais
Fósseis de bactérias primitivas
da Lua mais antigas
3.800 Ma
4.470 Ma 2.500 Ma
Evidência de
Rochas lunares Completada a principal fase
erosão pela água
mais antigas de formação dos continentes

4.000 Ma 3.000 Ma
HADEANO ARQUEANO

FIGURA 1.17  Esta fita do tempo geológico mostra alguns dos principais eventos observados
no registro geológico, começando com a formação dos planetas. (Ma = milhões de anos atrás.)

A origem da Terra e de seus de organismos preservados no registro geológico. Fósseis


de bactérias primitivas foram encontrados em rochas da-
geossistemas globais tadas de 3,5 bilhões de anos. Um evento-chave foi a evo-
Usando a evidência de meteoritos, os geólogos consegui- lução de organismos que liberam oxigênio na atmosfera e
ram demonstrar que a Terra e os outros planetas do siste- nos oceanos. O acúmulo de oxigênio na atmosfera já esta-
ma solar se formaram há cerca de 4,56 bilhões de anos por va ocorrendo há 2,7 bilhões de anos. As concentrações de
meio da rápida condensação de uma nuvem de poeira que oxigênio atmosférico provavelmente subiram até os níveis
circulava em torno do jovem Sol. O violento processo, que atuais em uma série de etapas ocorridas em um período
envolveu a agregação e colisão de conglomerados cada de tempo de pelo menos 2 bilhões de anos.
vez maiores de matéria, será descrito com mais detalhe no A vida no início da Terra era simples, consistindo
Capítulo 9. Em apenas 100 milhões de anos (um tempo basicamente em pequenos organismos unicelulares que
relativamente curto, em termos geológicos), a Lua havia se flutuavam próximo à superfície dos oceanos ou viviam
formado e o núcleo da Terra havia se separado do manto. no fundo dos mares. Entre 1 e 2 bilhões de anos atrás,
É difícil saber o que ocorreu nas centenas de milhões de formas de vida mais complexas, como as algas e as algas
anos seguintes. Muito pouco do registro geológico foi ca- marinhas, evoluíram. Os primeiros animais entraram em
paz de sobreviver ao intenso bombardeamento dos gran- cena há cerca de 600 milhões de anos, evoluindo em uma
des meteoritos que atingiam a Terra de modo constante. sequência de ondas. Em um breve período iniciado há 542
Esse período dos primórdios da história da Terra é apro- milhões de anos e, provavelmente, com uma duração me-
priadamente chamado de idade geológica “das trevas”. nor que 10 milhões de anos, oito filos inteiramente novos
As rochas mais antigas encontradas atualmente na do reino animal foram estabelecidos, incluindo os ances-
superfície terrestre têm cerca de 4,3 bilhões de anos. Ro- trais de quase todos os animais que conhecemos hoje. Foi
chas muito antigas, com idade de 3,8 bilhões de anos, durante essa explosão evolutiva, às vezes referida como
mostram evidências de erosão pela água, indicando a “Big Bang” (“grande explosão”) da biologia, que animais
existência da hidrosfera e a operação de um sistema do cujo corpo continha partes duras deixaram pela primeira
clima que não era muito distinto do atual. Rochas apenas vez carcaças fósseis no registro geológico.
um pouco mais novas, com 3,5 bilhões de anos, registram Embora a evolução biológica seja muitas vezes vista
um campo magnético tão forte quanto o que vemos hoje, como um processo muito lento, ela é pontuada por breves
mostrando que o geodínamo já estava em operação na- períodos de mudança rápida. Exemplos espetaculares são
quela época. Há 2,5 bilhões de anos, reuniu-se suficien- as extinções em massa, durante as quais muitos tipos de or-
te crosta de baixa densidade na superfície terrestre para ganismos desapareceram subitamente do registro geoló-
formar grandes massas continentais. Os processos geo- gico. Cinco dessas imensas reviravoltas estão indicadas na
lógicos que subsequentemente modificaram esses con- fita do tempo geológico da Figura 1.17. A última, já discu-
tinentes foram muito similares àqueles que hoje vemos tida neste capítulo, foi causada pelo impacto de um grande
atuando nas placas tectônicas. bólido há 65 milhões de anos. O bólido, não muito maior
do que 10 km de diâmetro, causou a extinção de metade
das espécies da Terra, inclusive todos os dinossauros.
A evolução da vida As causas das outras extinções ainda estão sen-
A vida também começou muito cedo na história da Terra, do debatidas. Além do impacto de bólidos, os cientistas
segundo podemos afirmar pelo estudo dos fósseis, traços têm proposto outros tipos de eventos extremos, como

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 19

0,12 Ma
Primeiro aparecimento
de nossa espécie,
7
Homo sapiens
5 Ma
Primeiros
125 Ma hominídeos
420 Ma Plantas florescentes
Animais terrestres mais antigas
542 Ma mais antigos
“Big Bang” evolutivo Extinções em massa
443 359 251 200 65

FUTURO

2.000 Ma 1.000 Ma 0 Ma
PROTEROZOICO FANEROZOICO

variações climáticas rápidas ocasionadas por glaciações As extinções em massa reduzem o número de espé-
e enormes erupções de material vulcânico. As evidên- cies competindo por espaço na biosfera. Com a “diluição
cias são frequentemente ambíguas ou inconsistentes. Por da multidão”, esses eventos extremos podem promover a
exemplo, o maior evento de extinção de todos os tempos evolução de novas espécies. Após o fim dos dinossauros
ocorreu há cerca de 251 milhões de anos, varrendo 95% há 65 milhões de anos, os mamíferos tornaram-se a classe
de todas as espécies. O impacto de um bólido tem sido dominante de animais. A rápida evolução dos mamíferos
proposto por alguns investigadores, mas o registro geo- em espécies com cérebros maiores e mais destreza levou
lógico mostra que as capas de gelo se expandiram nes- à emergência de espécies humanoides (hominídeos) cer-
sa época e que houve mudança da composição química ca de 5 milhões de anos atrás e à nossa própria espécie,
da água do mar, o que seria consistente com uma grande o Homo sapiens (palavra latina para “homem sábio”), há
crise climática. Simultaneamente, uma enorme erupção aproximadamente 200 mil anos. Sendo recém-chegados
vulcânica cobriu uma área na Sibéria com quase a metade na biosfera, estamos apenas começando a deixar nossa
do tamanho dos Estados Unidos, com 2 ou 3 milhões de marca no registro geológico. De fato, nossa breve histó-
quilômetros cúbicos de lava. Essa extinção em massa foi ria como espécie pode ser avaliada pela percepção de que
8
batizada de “Assassino do Expresso Oriente” , pois exis- ela cobre menos do que a largura de uma linha na fita do
tem muitos suspeitos! tempo geológico (ver Figura 1.17).

Bem-vindo ao Google Earth


O Google Earth (GE) é uma interface de conjuntos de dados espaciais disponível na Internet pela
ferramenta de busca Google, podendo ser baixado de forma gratuita. A interface usa fotografias
aéreas e de satélite em uma variedade de resoluções espaciais sobrepostas em conjuntos de dados
de modelo de elevação digital para dar às imagens uma qualidade tridimensional. Como os dados
são georreferenciados nas três dimensões, podem ser usados para fazer medições de distância com
as ferramentas de medição “linha” e “caminho” do GE. Elevação, latitude e longitude são continua-
mente monitoradas para qualquer localização específica do cursor, sendo exibidas na parte inferior
da tela. O GE também oferece ferramentas de navegação no canto superior direito da tela, as quais
permitem usar o zoom e alterar o azimute e o aspecto da visualização.
Uma das funções mais recentes do GE é a capacidade de voltar no tempo em algumas
localizações, acessando conjuntos de dados espaciais arquivados. No espírito de todas as fer-
ramentas de busca, o Google também fornece uma janela de busca “simulador de voo”, que
pode ser usada para se transportar até determinadas localizações virtuais. É possível adicionar
à lista de favoritos e também associar localizações a imagens digitais georreferenciadas obtidas
nos mesmos lugares. Use algumas ou todas essas ferramentas enquanto se familiariza com a
interface e divirta-se!

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20 PA R A E N T E N D E R A T E R R A

Projeto no Google Earth


A Terra é um sistema complexo e dinâmico de componentes inter-relacionados. Uma grande di-
versidade de fatores opera para dar forma à superfície da Terra e eles estão integrados pela teoria
global da Tectônica de Placas. Em nosso primeiro exercício, usaremos o GE para explorar os pontos
extremos do relevo do planeta. Nos capítulos seguintes, utilizaremos outros exercícios para explo-
rar a origem dessas feições. Vamos começar pelo topo do mundo: o Himalaia.

LOCALIZAÇÃO Exploração do relevo do Himalaia, na Ásia Central, até a Depressão Challenger, na costa sul
de Guam, no Oceano Pacífico.
OBJETIVO Demonstrar a variação do relevo de nosso planeta e introduzir as ferramentas do Google Earth.
REFERÊNCIA Figura 1.8
Mo
nt

nh
a

ad
oH
i m al s
aia na
Monte Everest ria
Foss a a s M a
d

Depressão Challenger

Data SIO, NOAA, U.S. Navy, NGA, GEBCO


Image © 2009 TerraMetrics Data @ MIRC/JHA
Image ©2009 DigitalGlobe

1. Digite9 “Monte Everest” na ferramenta de busca altitude de visão de 4.400 km). Qual das seguintes
do GE e use o cursor para encontrar seu ponto descrições melhor representa o que você vê?
mais alto. Qual é a elevação aproximada acima a. Uma cordilheira triangular composta de um
do nível do mar (acima do nível médio do mar, único pico alto
ou NMM)? Talvez seja útil inclinar a visualização b. Uma cordilheira com orientação leste-oeste
para o norte a fim de selecionar o ponto mais alto. composta de dúzias de picos altos
a. 10.400 m acima do NMM c. Uma cordilheira com orientação norte-sul
b. 7.380 m acima do NMM composta de picos altos e picos menores em
c. 8.850 m acima do NMM torno das bordas
d. 9.230 m acima do NMM d. Uma cordilheira circular fechada em torno de
um amplo domo central
2. Diminua o zoom do Monte Everest e dê uma olhada
na forma do Himalaia como um todo (tente uma

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 21

3. Do Himalaia, vá para um dos locais mais profun- que se inclina quase a leste-oeste nesta locali-
dos da superfície da Terra digitando “Challenger zação.
Deep” no painel de busca. O GE deve levá-lo ime- c. A Depressão Challenger é a porção mais pro-
diatamente para o mar, na costa das Filipinas. Use funda de uma enorme planície, quase plana,
a ferramenta de medição “linha” do GE para deter- próxima à região mediana do Oceano Pacífico.
minar a distância superficial horizontal aproxima- d. A Depressão Challenger está no topo de um
10
da entre as duas localizações. Qual é a distância ? vulcão submarino que se estende bem acima
a. 6.300 km do assoalho do Oceano Pacífico.
b. 2.200 km
c. 185.000 km Pergunta-desafio opcional
d. 75.500 km 5. Usando a resposta da Questão 1 e movendo o
4. Diminua o zoom da Depressão Challenger até uma cursor para observar a profundidade máxima da
altitude de visão de 4.200 km. Observe a superfície Depressão Challenger abaixo do nível médio do
única que conecta a Depressão Challenger até re- mar, calcule a diferença total aproximada de ele-
giões profundas do oceano neste local. Como você vação entre as duas localizações. Qual dos núme-
descreveria essa feição em larga escala? ros abaixo chega mais próximo a essa diferença?
a. A Depressão Challenger é parte de uma ca- a. 14.000 m
deia submarina com uma orientação aproxi- b. 20.000 m
madamente norte-sul. c. 18.000 m
b. A Depressão Challenger é parte de uma trin- d. 26.000 m
cheira arqueada no fundo do Oceano Pacífico

Quais são as principais camadas da Terra? O interior da


RESUMO Terra é dividido em camadas concêntricas de diferentes
O que é Geologia? A Geologia é a ciência que trata da composições, separadas por limites nítidos, quase esféri-
Terra – sua história, sua composição e estrutura interna e cos. A camada externa é a crosta, composta principalmen-
suas feições superficiais. te de rocha silicática, cuja espessura varia de cerca de 40
km no caso da crosta continental até cerca de 7 km para a
Como os geólogos estudam a Terra? Os geólogos, como crosta oceânica. Abaixo da crosta está o manto, uma casca
outros cientistas, utilizam o método científico. Eles elabo- espessa de rocha silicática mais densa que se estende até
ram e testam hipóteses, que são tentativas de explicações o limite núcleo-manto, a uma profundidade de aproxima-
para fenômenos naturais com base em observações e ex- damente 2.890 km. O núcleo, composto basicamente de
perimentos. Eles compartilham os dados que obtiveram ferro e níquel, é dividido em duas camadas: um núcleo
e verificam mutuamente suas hipóteses. Um conjunto externo líquido e um núcleo interno sólido, separados
coerente de hipóteses que sobreviveu a repetidos desa- por um limite a uma profundidade de 5.150 km. Saltos de
fios constitui uma teoria. Hipóteses e teorias podem ser densidade entre essas camadas são essencialmente cau-
combinadas em um modelo científico que representa um sados por diferenças de composição química.
sistema ou processo natural. A credibilidade cresce nas
hipóteses, teorias e modelos que resistem repetidamente Como fazemos para estudar a Terra como um sistema de
aos testes e são capazes de predizer os resultados de no- componentes interativos? Quando tentamos entender
vas observações ou experimentos. um sistema complexo como a Terra, frequentemente con-
sideramos que é mais simples fragmentá-lo em vários
Qual é a forma da Terra? A forma geral da Terra é uma es- subsistemas (chamados de geossistemas). Este livro con-
fera, com raio médio de 6.370 km, que é levemente abau- centra-se nos três principais geossistemas globais: o siste-
lada no equador e um pouco achatada nos polos, devido ma climático, que envolve interações controladas entre a
à rotação do planeta. Sua topografia varia em cerca de atmosfera, a hidrosfera, a criosfera, a biosfera e a litosfera;
20 km do ponto mais alto ao mais baixo da superfície. As o sistema das placas tectônicas, que envolve interações
elevações podem ser divididas em dois grupos: 0 a 1 km entre os componentes sólidos da Terra; e o geodínamo,
acima do nível do mar sobre a maioria dos continentes e 4 que envolve interações dentro do núcleo da Terra. O sis-
a 5 km abaixo do nível do mar em grande parte das bacias tema climático é controlado pelo calor do Sol, ao passo
oceânicas. que o sistema das placas tectônicas e o geodínamo são
controlados pelo motor térmico interno da Terra.

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22 PA R A E N T E N D E R A T E R R A

Quais são os elementos básicos da tectônica de placas? A 3. Dê duas razões de por que a forma da Terra não é
litosfera é fragmentada em cerca de 12 grandes placas. Go- uma esfera perfeita.
vernadas pela convecção do manto, as placas movem-se
4. Se você criasse um modelo da Terra com 10 cm de
ao longo da superfície da Terra com taxas de alguns centí-
raio, que altura teria o Monte Everest acima do nível
metros por ano. Cada placa atua como uma unidade rígida
do mar?
distinta, arrastando-se sobre a astenosfera, a qual também
está em movimento. O material quente do manto ascende 5. Acredita-se que o impacto de um grande bólido há 65
dos limites onde as placas se formam e se separam, res- milhões de anos tenha causado a extinção de metade
friando-se e solidificando-se à medida que se afasta desse das espécies da Terra, inclusive todos os dinossauros.
limite divergente. Por fim, a maior parte dele afunda de Esse evento invalida o princípio do uniformitarianis-
volta ao manto nos limites onde as placas convergem. mo? Explique sua resposta.
6. Como a composição química da crosta terrestre difere
Quais são os principais eventos da história da Terra? A Terra
daquela do manto? E daquela do núcleo?
formou-se como planeta há 4,56 bilhões de anos. Rochas
com até 4,3 bilhões de anos foram preservadas na sua cros- 7. Explique como o núcleo externo da Terra pode ser lí-
ta. A água líquida existia na superfície terrestre há cerca quido se o manto é sólido.
de 3,8 bilhões de anos. Rochas com idade de cerca de 3,5
8. Qual é a diferença entre os termos tempo e clima? Ex-
bilhões de anos são provas de um campo magnético, e a
presse a relação entre clima e tempo usando exem-
evidência mais antiga de vida foi encontrada em rochas de
plos de sua própria experiência.
mesma idade. Há cerca de 2,7 bilhões de anos, a quantidade
de oxigênio na atmosfera estava aumentando devido à pro- 9. O manto da Terra é sólido, mas é submetido à con-
dução de oxigênio por organismos primitivos, e, por volta vecção como parte do sistema das placas tectônicas.
de 2,5 bilhões de anos atrás, grandes massas continentais Explique por que essas afirmações não são contra-
formaram-se. Os animais apareceram repentinamente há ditórias.
cerca de 600 milhões de anos, diversificando-se rapida-
mente em uma grande explosão evolutiva. A subsequente
evolução da vida foi marcada por uma série de extinções em QUESTÕES PARA PENSAR
massa, a última delas causada pelo impacto de um grande
bólido há 65 milhões de anos. Nossa espécie, Homo sapiens, 1. Como a ciência difere da religião como forma de en-
11
apareceu pela primeira vez há cerca de 200 mil anos . tender o mundo?
2. Imagine que você é um guia turístico em uma jornada
da superfície da Terra até seu centro. Como você des-
CONCEITOS E TERMOSCHAVE creveria o material que o grupo de turistas encontra à
medida que desce cada vez mais? Por que a densida-
astenosfera (p. 16) núcleo (p. 10)
de do material está sempre aumentando proporcio-
campo magnético (p. 16) núcleo externo (p. 12) nalmente à profundidade?
clima (p. 15) núcleo interno (p. 12)
3. Como a visão da Terra como um sistema de com-
convecção (p. 16) onda sísmica (p. 10) ponentes interativos ajuda a entender nosso pla-
crosta (p. 11) princípio do neta? Dê um exemplo de interação entre dois ou
fóssil (p. 18) uniformitarismo (p. 6) mais geossistemas que poderiam afetar o registro
registro geológico (p. 5) geológico.
geodínamo (p. 17)
Geologia (p. 2) sistema de placas 4. De que formas gerais o sistema do clima, o sistema
tectônicas (p. 16) das placas tectônicas e o geodínamo são semelhan-
geossistema (p. 15)
sistema do clima (p. 15) tes? Em que eles são diferentes?
litosfera (p. 16)
sistema Terra (p. 14) 5. Nem todos os planetas têm um geodínamo. Por que
manto (p. 10)
topografia (p. 7) não? Se a Terra não tivesse um campo magnético, o
método científico (p. 2) que poderia ser diferente em nosso planeta?
6. Com base no material apresentado neste capítulo,
o que podemos dizer sobre há quanto tempo os
EXERCÍCIOS três principais geossistemas globais começaram a
1. Ilustre as diferenças entre uma hipótese, uma teoria e operar?
um modelo com alguns exemplos deste capítulo.
7. Se nenhuma teoria pode ser comprovada por com-
2. Dê um exemplo de como o modelo da forma esférica pleto, por que quase todos os geólogos acreditam na
da Terra, desenvolvido por Eratóstenes, pode ser tes- teoria da evolução de Darwin?
tado de forma experimental.

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C A P Í T U LO 1  O SISTEMA TERRA 23

6
Embora os autores tenham simplificado para fins didáticos, o
NOTAS DE TRADUÇÃO mecanismo de aquecimento de uma estufa é diferente daquele
1 proporcionado pelos gases de efeito estufa na atmosfera. En-
O termo “geologia” surgiu pela primeira vez na obra do pro-
quanto a estufa aquece pela convecção (o ar próximo à superfície
fessor Ulisse Aldrovandi, da Universidade da Bolonha (Itália),
aquece-se, ascende e fica aprisionado no recinto), a atmosfera
em 1603. Além de introduzir essa nova ciência, ele propôs o
modelo dos modernos museus de História Natural, das viagens é aquecida pelos gases de efeito estufa que absorvem e emitem
naturalistas e do papel da ilustração científica no conhecimento radiação infra-vermelha.
7
do mundo. Os autores referem-se apenas ao Homo sapiens sapiens moder-
2 2
A área do Texas (692.408 km ) equivale, aproximadamente, à no. O Homo habilis, a primeira espécie humana, surgiu há cerca
2
soma das áreas de Minas Gerais (587.172 km ) e de quase a me- de 2,8 milhões de anos, na África.
2 8
tade do Estado de São Paulo, cuja área total é de 247.892 km . Os autores referem-se ao filme Assassinato no Expresso Oriente.
3 9
Siena ou “Siene”, em grego, é a atual cidade de Assuã, situada O Google Earth pode ser instalado em português. Nesse caso,
no Sul do Egito, a 950 km do Cairo. a ferramenta de busca aceita topônimos em português. Porém,
4
Este limite é conhecido como descontinuidade de Gutenberg. para alguns topônimos ou exemplos relacionados neste livro, a
5 busca deverá ser feita em inglês. Neste caso, não haverá a tradu-
O conceito de geossistema foi criado por Sotchava, na década de ção do topônimo. No exercício 3 da página 21, não traduzimos
1960, e posteriormente sistematizado por Bertrand, cujas obras “Challenger Deep” (Depressão Challenger), pois o GE somente
foram traduzidas e introduzidas no meio científico brasileiro na reconhece esse topônimo em inglês.
década seguinte. Ver Sotchava, V. B. 1977. O estudo de geossiste- 10
mas. São Paulo: Instituto de Geografia da USP; Bertrand, G. 1972. Escolha a resposta que mais se aproxima da medida obtida
Paisagem e Geografia Física global: esboço metodológico. São Pau- em seu exercício. É possível haver diferenças devido às escalas
lo: Instituto de Geografia da USP; e, também, Monteiro, C. A. F. distintas utilizadas em sua medição e a dos autores.
11
2000. Geossistemas: a história de uma procura. São Paulo: Contex- Os autores referem-se ao Homo sapiens sapiens moderno. A es-
to/IGEAUSP. pécie humana surgiu há 2,8 Ma.

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