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1989/09.0TVPRT.P2.

S1

Nº Convencional: 7ª SECÇÃO

Relator: MARIA DOS PRAZERES PIZARRO BELEZA

Descritores: TERRAÇOS

PARTES COMUNS

INFILTRAÇÕES

DEFEITO DE CONSERVAÇÃO

TÍTULO CONSTITUTIVO

NULIDADE

DEVER DE VIGILÂNCIA

CONDOMÍNIO

DESPESAS DE CONSERVAÇÃO DAS PARTES COMUNS

EDIFICIO

PROPRIEDADE HORIZONTAL

INVERSÃO DO ÓNUS DA PROVA

LITISCONSÓRCIO NECESSÁRIO

BAIXA DO PROCESSO AO TRIBUNAL RECORRIDO

Sumário:

I - A interdependência existente entre as partes comuns e as fracções


autónomas num prédio em propriedade horizontal – que tem de ser entendida
à luz da função instrumental que aquelas desempenham –, repercute-se no
regime jurídico aplicável a umas e a outras.

II - Num contexto em que apenas o autor tem possibilidade de constatar a


existência de infiltrações, humidades e quedas de água (porque as mesmas
ocorrem na fracção autónoma de que é proprietário), seria contrário à razão de
ser da inversão do ónus da prova a aplicação do disposto no n.º 1 do art. 493.º
do CC, sem prejuízo de impender sobre os réus, proprietários de fracção
autónoma adjacente, o dever de vigilância sobre a sua fracção e sobre as
partes comuns afectas ao seu uso exclusivo.

III - A inclusão dos terraços de cobertura no elenco das partes comuns


justifica-se por os mesmos integrarem a estrutura do edificado, sendo,
consequentemente, do interesse de todos os condóminos que a conservação
daqueles não fique dependente da diligência de apenas alguns deles e que
nesses espaços não sejam introduzidas inovações à revelia dos condóminos.
IV - Na medida em que os terraços intermédios servem de cobertura, ainda
que parcial, a fracções de pisos inferiores ao último pavimento e integram,
também eles, o núcleo estrutural do edifício, é de sufragar a doutrina mais
recente deste STJ, segundo a qual tais terraços integram a previsão da al. b) do
n.º 1 do art. 1421.º do CC (em qualquer uma das suas versões),
independentemente do piso em que se situam e de o seu uso estar, em
exclusivo, afecto a algum dos condóminos.

V - A conclusão de que um terraço intermédio é parte imperativamente


comum do edifício não impõe a necessidade de declarar a nulidade parcial do
título constitutivo que o incluiu numa fracção autónoma.

VI - A previsão do n.º 3 do art. 1424.º do CC apenas abarca as despesas que se


relacionem com a afectação exclusiva da parte comum, pelo que aquelas que
não derivem da sua utilização privativa (como seja, vg. a sua
impermeabilização) devem ser pagas segundo a regra do n.º 1 do mesmo
preceito.

VII - Incumbindo a todos os condóminos o dever de conservação da partes


comuns, recai sobre todos eles o dever de suportar as despesas
correspondentes à correcção de vícios de manutenção, bem como, verificados
que estejam os pressupostos gerais da responsabilidade civil extracontratual, a
obrigação de indemnizar os prejuízos que advenham da falta de reparação.

VIII - Porque não se trata de um caso de litisconsórcio necessário (cfr. n.º 1 do


art. 32.º do CPC e 2.ª parte do n.º 1 do art. 1405.º do CC), pode condenar-se os
condóminos proprietários da fracção em questão a facultar o acesso ao terraço,
para que o autor possa por si proceder à reparação e ainda no pagamento da
parte que lhes caiba suportar, quer dos encargos com a reparação, quer da
indemnização pelos prejuízos sofridos.

IX - Tendo as instâncias julgado prejudicado o apuramento do valor da


reparação e, bem assim, a apreciação dos pressupostos da responsabilidade
civil e a proporção que cabe aos recorridos suportar, impõe-se ordenar a baixa
dos autos ao tribunal recorrido.

Acordam, no Supremo Tribunal de Justiça:

1. Em Setembro de 2009, AA instaurou uma acção contra BB e CC (1ºs réus),


o Condomínio do Prédio Urbano sito na Rua … …, nº 1…3/2…5, no P…,
representado pela administradora, DD - Administração de Condomínios, Lda.
(2º réu) e EE - Tecnologias e Produtos para a Construção Civil, Lda. (3ª ré),
pedindo a sua condenação solidária a:

“a) Reconhecer o direito de propriedade do autor relativamente à fracção


urbana” designada pela letra M, correspondente ao 3º andar direito do prédio
situado na Rua M… S…, 1…3 a 2…5, P…;

“b) Reconhecer, e eliminar, com carácter definitivo, todos os defeitos e vícios


respeitantes ao terraço integrante do 4º andar direito do prédio (…), com
carácter de urgência, em prazo a fixar pelo tribunal nunca superior a 30
dias; ou, em alternativa,

c) Caso não procedam a tal reparação, que seja reconhecido ao próprio


autor o direito a ele próprio eliminar o respectivo defeito, a expensas
exclusivas dos réus;

d) A pagarem ao autor adequada indemnização por todos os prejuízos por


este sofridos, ou a sofrer, quanto à parte já liquidada, no valor de 30.333,80
euros, acrescidos do valor de 375,00 euros por mês a contar de Setembro de
2009 até efectiva reparação do terraço do 4º andar do sempre aludido prédio
e definitiva reparação da fracção do A., nos termos expostos;

e)A pagarem ao autor todos os demais prejuízos, ainda não quantificáveis, a


liquidar em execução de sentença;

f) A pagarem a título de sanção pecuniária compulsória a quantia de € 150


diários por cada dia de atraso no cumprimento da obrigação prevista na
alínea b) deste pedido;

g) A pagarem juros ao autor a contar da citação, até integral pagamento,


sobre todas as quantias em que vierem a ser condenados e bem assim o
acréscimo previsto no art. 829-A do Código Civil;

h) Tudo com custas e demais encargos pelos réus.”

Para o efeito, e em síntese, AA alegou que é proprietário desde Fevereiro de


1984 e que reside na fracção M com o seu agregado familiar; que os 1ºs réus
são proprietários da fracção P do mesmo prédio, localizada por cima da
fracção M, desde Fevereiro de 1989; que, segundo o título constitutivo da
propriedade horizontal, é parte integrante da fracção P um terraço que é
simultaneamente “cobertura da zona de quartos da fracção” M; que, uns
anos antes da propositura da acção, na sequência de obras que os 1ºs réus
efectuaram na sua fracção, “começaram a surgir humidades, cada vez mais
frequentes, nos tectos e paredes da zona de quartos da fracção/habitação do
A (…) e até queda de água” nos quartos cujo tecto corresponde ao referido
terraço; que, por contrato de empreitada celebrado entre o condomínio e a 3ª
ré em 24 de Julho de 2004, esta empresa obrigou-se a realizar trabalhos
destinados à “impermeabilização de todos os terraços e fachadas do prédio
(pondo fim aos problemas circunstanciais de humidades e infiltrações de
água que se vinham a notar)”, trabalhos que não eliminaram os problemas
verificados na fracção M; que a 3ª ré se obrigou, ainda, a reparar o interior da
fracção M, o que fez indevidamente, porque os problemas reapareceram
repetidamente, como notificaram a ré.

Em resumo: os problemas mantêm-se, sem que os réus assumam as


correspondentes responsabilidades e sem que o autor os possa resolver
definitivamente, desde logo por não ter acesso ao andar de cima, limitando-se
a repetidas reparações na sua fracção e continuando a sofrer prejuízos.

Justificando a demanda de todos os réus, o autor afirmou, a concluir a petição


inicial, que “por defeito/avaria de impermeabilização do (…) terraço,
resultante de obra nova ou falta de conservação, verificaram-se e verificam-
se infiltrações de águas na zona de quartos (…)”, com graves prejuízos. Ora
os 2ºs réus, como proprietários da fracção P, “estão obrigados à sua
conservação e a utilizá-la por forma a não causar prejuízos nas habitações
terceiras”, e a indemnizar quem sofre prejuízos; como, segundo o título
constitutivo, o referido terraço integra a fracção P, são responsáveis pelos
prejuízos, em primeiro lugar, os seus proprietários mas, em segundo lugar,
também o condomínio, porque tal terraço é “terraço de cobertura” e,
portanto, considerado por lei como zona comum e, em terceiro lugar, a ré EE,
por ter assumido contratualmente a obrigação de reparação dos vícios. A
responsabilidade é solidária e corresponde aos montantes acima indicados.

Todos os réus contestaram, separadamente.

O condomínio e a ré EE defenderam-se por impugnação e sustentaram ser


partes ilegítimas: o condomínio, por estar em causa uma parte integrante de
uma fracção do prédio; a ré EE, por não ter celebrado, nem qualquer contrato
com o autor, nem qualquer contrato que incluísse a reparação do interior da
sua fracção.

Também CC impugnou e sustentou não ter legitimidade, por se tratar de uma


parte comum e porque os condóminos apenas respondem “em proporção do
valor das suas fracções” pelas “despesas necessárias à conservação das
partes comuns do edifício”. Por entre o mais, disse não ter acesso à fracção P
por estar divorciado da ré BB e nunca ter tido conhecimento dos problemas
relatados pelo autor, bem como ser excessiva a indemnização pretendida.

BB considerou-se igualmente parte ilegítima, por se tratar de parte


imperativamente comum e que não está exclusivamente afecta à sua fracção,
pois também serve de cobertura da fracção de baixo. Invocou a prescrição do
direito de indemnização – as obras a que o autor se refere tiveram lugar em
1989 e a acção foi proposta em 9 de Setembro de 2009 – e contestou por
impugnação, afirmando, nomeadamente, que “a origem dos alegados danos e
prejuízos nada tem a ver com a actuação da 1ª ré contestante”, antes resulta
de deficientes trabalhos de impermeabilização que foram desenvolvidos por
empresas contratadas pelo condomínio. Disse ainda que, desde que detém a
posse efectiva da fracção P, “sempre procedeu à conservação que lhe era
exigível”; e requereu a intervenção acessória provocada de FF e de GG,
arrendatários da fracção entre Janeiro de 2006 e Outubro de 2009, por
hipotético direito de regresso.

O autor replicou e requereu a intervenção principal provocada dos “eventuais


proprietários do prédio que foi construído contiguamente ao prédio do
autor”, HH - Empreendimentos Imobiliários, S.A. e do “proprietário
correspondente ao 3º andar esquerdo do prédio (…), onde alegadamente se
realizaram obras”, II (fls. 319).

Pelo despacho de fls. 360 foi admitida a intervenção de FF, de GG, de HH -


Empreendimentos Imobiliários, S.A. e de II; todos vieram ao processo
pronunciar-se.

Pelo despacho de fls. 586, proferido nos termos do artigo 31º-A, nº 1, do


Código de Processo Civil anterior, o autor foi convidado “para vir dizer
contra qual dos réus pretende fazer seguir a acção, sob pena de a mesma se
vir a extinguir por absolvição de todos os réus da instância”, por não ser
admissível a coligação, nos termos formulados.

O autor veio indicar os réus BB e CC, manifestando embora a sua


discordância com o despacho.

No despacho de fls. 614, os réus Condomínio do Prédio Urbano sito na Rua


M…. S…, nº 1…3/2…5 e EE - Tecnologias e Produtos para a Construção
Civil, Lda. e os intervenientes principais II e HH – Empreendimentos
Imobiliários, SA foram absolvidos da instância, com fundamento em
coligação ilegal.

O autor recorreu; mas o recurso não veio a ser admitido na Relação, por
inadmissibilidade de recurso autónomo.

No saneador, julgou-se improcedente a excepção de ilegitimidade oposta por


BB e CC e remeteu-se para final o conhecimento da prescrição.

Pela decisão de fls. 1024, foram habilitados CC, JJ e KK como sucessores de


BB, entretanto falecida.
2. A acção foi julgada improcedente pela sentença de fls. 1457. Em síntese, e
recordando que a questão a decidir era a de saber se os réus BB (substituída
pelos sucessores, como se viu) e CC “estão constituídos no dever de proceder
à reparação dos danos patrimoniais e não patrimoniais alegadamente
sofridos pelo autor em resultado e infiltrações que se registam no interior da
fracção autónoma de que é proprietário”, o tribunal entendeu:

– que se trata de uma acção destinada a efectivar a responsabilidade civil


extracontratual, na qual a causa de pedir formulada contra estes réus
assenta “num duplo fundamento: por um lado, no facto de estes terem levado
a cabo obras no terraço da fracção autónoma de que são proprietários
(terraço esse que, nos termos do respectivo título constitutivo, integra essa
fracção), obras essas que vieram a originar humidades e quedas de água nos
quartos da fracção autónoma de que aquele é igualmente proprietário; por
outro lado, no facto de tais demandados não terem procedido à devida
conservação e utilização do referido terraço, o que igualmente contribuiu
para os danos cuja reparação reclama”;

– que o autor não fez prova de que “as infiltrações registadas no interior da
sua fracção (…) tenham tido na sua génese qualquer acção ou omissão” dos
réus;

– que não se provou que “essas patologias se tenham verificado a partir do


momento em que os réus levaram a cabo obras na sua fracção”;

– que a lei em vigor à data da outorga do título constitutivo da propriedade


horizontal, 26 de Abril de 1983, – isto é, a redacção originária da al. b) do nº 1
do artigo 1421º do Código Civil, “1. São comuns as seguintes partes do
edifício: (…) b) O telhado ou os terraços de cobertura, ainda que destinados
ao uso do último pavimento” –, originando embora divergências de
interpretação, devia ser interpretada com o sentido que literalmente veio a ser
introduzido na referida alínea pelo Decreto-Lei nº 267/94, de 25 de Outubro,
ou seja, como considerando imperativamente comuns “os terraços de
cobertura, ainda que destinados ao uso de qualquer fracção”;

– que essa interpretação implica, no caso, que, não obstante figurar no título
constitutivo da propriedade horizontal como integrando a fracção autónoma P,
o terraço é imperativamente parte comum: “o ajuizado terraço, ainda que de
uso exclusivo da fracção dos réus, constitui uma parte imperativamente
comum do edifício, dado que desempenha também a função de cobertura
deste”;

– que, no entanto, importa saber “sobre quem impende o dever de suportar os


encargos referentes a esse terraço de cobertura”, sobretudo no que
respeita “ao custeio das obras necessárias para a sua impermeabilização e
isolamento” – cfr. nºs 1 e 3 do artigo 1421º do Código Civil;

– que o terraço dos autos destina-se ao uso exclusivo da fracção P, mas que
esse facto “não retira ao condomínio o direito e a obrigação de proceder à
sua conservação e manutenção”, porque também “serve de cobertura ao
edifício”, sendo “um elemento estrutural do edifício, em proveito de todos”;

– que, portanto, como resulta do nº 1 do artigo 1424º do Código Civil, a


reparação do terraço e dos demais danos reclamados pelo autor é da
responsabilidade do condomínio.

O autor recorreu para o Tribunal da Relação do Porto; pelo acórdão de fls.


1753, substituído pelo acórdão de fls. 1891 por ter procedido uma nulidade
das que foram arguidas no recurso, concedeu-se provimento parcial à
apelação, declarando-se expressamente que o autor era proprietário da fracção
M do prédio e julgando favoravelmente alguns pontos da impugnação da
decisão de facto; quanto ao mais, a acção foi julgada novamente
improcedente.

Tal como a 1ª instância, a Relação entendeu que o terraço deve ser


considerado parte comum, acentuando o carácter interpretativo da nova lei –
já aflorado em 1ª instância – e a sua aplicabilidade ao caso, de acordo com o
artigo 13º do Código Civil, da qual resulta que os “terraços que servem ao
mesmo tempo de cobertura” são “sempre comuns, independentemente do piso
em que se situam”, sendo que “o terraço em questão é um terraço de
cobertura”.

Igualmente entendeu que “a norma do artigo 1421º é imperativa e não pode,


por isso, ser derrogada pelas declarações exaradas pelos condóminos no
título constitutivo da propriedade horizontal”, não sendo necessário “obter
previamente a declaração judicial de nulidade (…) para considerar que o
terraço em questão integra as partes comuns do edifício”.

Afastou a hipótese de abuso de direito por parte dos réus, suscitada pelo autor,
desde logo por não resultar provada matéria de facto que a sustentasse e,
finalmente, negou a aplicabilidade ao caso do regime de responsabilidade
previsto nos artigos 492º e 493º do Código Civil. Salienta-se a seguinte
passagem do acórdão:

“Sem dúvida que todo o condómino, por pertencer ao universo dos


condóminos que formam o condomínio, tem um dever geral de vigilância
relativo às partes comuns, pois é comproprietário delas.
Mas este dever geral de vigilância é um dever diverso do previsto no n.º 1 do
artigo 493.º do Código Civil, pois, aquele dever não tem acoplado, como se
referiu, o «dever de fazer as obras de conservação necessárias» a evitar
danos.

Este é um dever que deriva da qualidade de condómino e não da de pessoa


que «… tiver em seu poder coisa móvel ou imóvel, com o dever de a vigiar…»

Concluiu-se, por conseguinte, que os Réus não podem ser responsabilizados à


luz das normas dos artigos 492.º e 493.º do Código Civil. (…). Tendo-se
concluído que o terraço é parte comum e que não há responsabilidade
imputável aos Réus à luz das normas dos artigos 492.º e 493.º do Código
Civil, cumpre absolver os Réus do pedido (sem contudo deixar de lamentar
que os tribunais não tenham conseguido solucionar a questão colocada pelos
Autores, pois é evidente que os Autores têm direito a ser indemnizados por
alguém”.

3. O autor interpôs recurso de revista excepcional para o Supremo Tribunal de


Justiça, invocando “relevância social e (…) jurídica”, bem como “oposição
com o decidido noutros acórdãos de tribunais superiores”, em particular “no
acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 08.04.1997 com o número
96A756”.

O recurso foi admitido pelo acórdão de fls. 1990, por ser conveniente a
conferir “ao cidadão comum aquela segurança interpretativa que é
pressuposto da melhor aplicação do direito”.

Nas alegações que apresentou, o recorrente formulou as conclusões seguintes:

«I - O Acórdão recorrido, no entender do recorrente, decide questões de


Direito que assumem especial relevância social e cuja apreciação pela sua
relevância jurídica é necessária para a melhor clarificação e até
uniformização Jurisprudencial, tudo com vista à melhor aplicação do Direito.

II - O Acórdão recorrido, por outro lado, no entender do Recorrente, decide


sobre as mesmas questões de facto no âmbito de vigência da mesma
legislação, em oposição com o decidido noutros Acórdãos de Tribunais
Superiores, inclusive do Supremo Tribunal de Justiça, transitados em julgado.

III - Em particular o Acórdão recorrido decide diversas questões de facto, no


âmbito do mesmo quadro legislativo, em oposição com o decidido sobre
idênticas questões no Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 08.04.1997
com o número 96A756 do Exmo. Senhor Dr. Juiz Conselheiro Machado
Soares.

IV - Verificando-se, pois, também oposição de julgados entre o decidido pelo


tribunal a quo e aquele Acórdão aqui invocado como acórdão fundamento.

V - Pelo que se verifica oposição/ fundamento para o presente recurso de


Revista Extraordinária, nos termos do art° 672, n° 1, als a), b) e c) do CPC.

VI - As questões decididas no acórdão recorrido que estão em oposição com


outros arestos, são as seguintes:

A) - A questão de saber se o Decreto-Lei 267/94 de 25 de Outubro deve ser


qualificado como Lei Interpretativa para efeitos de aplicação do artigo 13°
do Código Civil;

B) - A questão de se qualificar o terraço intermédio com as características do


dos Réus (proprietários da fracção "P" do prédio sito à Rua M… S…, 205 no
P…) como terraço de cobertura, para efeitos de aplicação do artigo 1421° do
Código Civil, sendo a sua manutenção da responsabilidade do Condomínio
do referido prédio e não dos Réus.

C) - A caracterização de terraços qualificados como partes privadas


integrantes de fracção autónoma por título constitutivo de propriedade
horizontal constituída antes de tal novidade legal ou sua qualificação como
partes comuns.

VII - O recorrente, no que concerne a tais posições concretas perfilha os


entendimentos do Acórdão que indica como fundamento, considerando que o
Acórdão recorrido errou na apreciação destas questões, devendo pois no seu
entender a decisão recorrida ser revogada, com todas as consequências
legais, nomeadamente a acção intentada pelo Recorrente julgada procedente
por provada.

VIII - Ora, ao contrário do pretendido do Acórdão recorrido, a alteração do


art° 1421 do Cod. Civil, salvo o devido respeito, representa, no melhor
entendimento, não ter carácter interpretativo (não havia nada a interpretar)
(admitindo-se no entanto poderem existir decisões judiciais diversas).

IX - O Legislador decidiu apenas tomar uma solução diferente - tout court.

X - No entender do A., recorrente, é claro que o caso dos autos não integra os
requisitos indispensáveis a conceder à LN caracter interpretativo e/ou efeito
retroactivo (a polémica, aliás continua ...) trata-se no caso de uma solução
nova, tão somente.
XI - No caso, nunca seria de aplicação retroactiva, pois que a própria Lei
art° 13 do CC ressalva da sua aplicação os efeitos já produzidos por
sentença, ainda que por decisão não transitada, ou por actos de análoga
natureza.

XII - Se é assim, como é, é claro que tal norma jamais se poderia considerar
aplicável de negócios jurídicos consolidados há décadas, nos termos da lei

XIII - Pois pensar de outra maneira seria lançar a maior confusão no


comércio jurídico em geral.

XIV - Em qualquer caso, nunca poderia considerar-se a alteração do título


constitutivo.

XV - Salvo o devido respeito é pacífica a Jurisprudência no sentido de


considerar que a propriedade horizontal se determina pelo respectivo estatuto
regulador.

XVI - Ou seja, pelo respectivo título constitutivo em conformidade com o


projecto aprovado pela entidade administrativa competente.

XVII - Sendo certo que os Tribunais tem entendido que há nulidade de título
quando contraria o que foi aprovado pela Câmara Municipal – veja-se
Acórdão do Tribunal Constitucional de 7.12.1993.

XVIII - A modificabilidade do título só pode ser conseguida por


unanimidade de todos os condóminos, ou por decisão judicial, mas para isso
é necessário que se reúnam todos os pressupostos legais, nomeadamente a
desconformidade com o projecto aprovado – vejam-se art°s 1419 e 1422 do
Cod. Civil

XIX - Ora, no caso concreto, ninguém colocou a Juízo o pedido de declaração


de nulidade, ainda que parcial, ou redução, do título constitutivo de
propriedade horizontal do prédio em questão nos autos, nos termos expostos.

XX - E dai que só se possa concluir pela inadequação da fundamentação


constante da decisão recorrida e, por maioria de razão, da inadequada
decisão proferida.

XXI - Aliás, a solução do Acórdão recorrido viola a lei não só quanto ao


objecto, como quanto ao meio utilizado.

XXII - Tal solução consubstancia uma afectação/ extinção do direito de


propriedade constitucionalmente consagrado.
XXIII - Os direitos constitucionalmente consagrados só podem ser alterados
pelo poder legislativo ou por autorização deste, nos termos estritos da Lei.

XXIV - A nova Lei, Decreto-Lei 267/94 de 25 de Outubro, é um mero decreto-


lei sem prévia autorização legislativa.

XXV - Considerar-se a possibilidade das normas do D.L. alterarem o regime


de direito de propriedade ferem-nas de verdadeira inconstitucionalidade, que
se deixa à cautela invocada.

XXVI - Acresce que a solução do Acórdão recorrido representa um confisco a


favor de particular que a Constituição não só não contempla, mas proíbe, nos
termos expostos.

Por outro lado,

XXVII - Os terraços intermédios não devem considerar-se terraços de


cobertura.

XXVIII - "Os terraços de cobertura são coberturas que excluem o telhado, ou


melhor telhados sui generis, feitos geralmente de pedra, cimento ou outra
matéria impermeável, sendo acessíveis por baixo. Podem cobrir todo o
edifício ou apenas parte dele. Não há que confundir terraços de cobertura com
os terraços existentes nos planos dos vários pisos com acesso pelos mesmos e
que deles fazem parte. A esta última espécie de terraços, que não são comuns,
dão os italianos o nome de "terrazo a livello" - José António de França Pitão,
Propriedade Horizontal, anotações aos artigos 1414 a 1438-A do Código
Civil, Almedina, pag.110.

XXIX - É que estes terraços são mais varandas fechadas do que terraços de
cobertura – é o caso dos autos

XXX - Note-se que se trata de terraços que constituem verdadeiras utilidades


integradas na fracção, que podem simplesmente a céu aberto constituírem
verdadeiros jardins, espaços de convívio ou lazer, perfeitamente integrados
nas fracções, sendo que se acede a eles apenas por estas e sem acesso às
partes comuns – é o caso dos autos.

XXXI - A sua caracterização e a sua funcionalidade é, essencialmente,


respeitante à fracção e é completamente diferente dos terraços de cobertura.

XXXII - Os terraços de cobertura têm acesso a partes comuns do prédio,


normalmente através de alçapão ou de escada que constitui o último lanço e
tem características de construção que privilegiam a segurança e
estanquicidade em detrimento da estética e/ou de outras utilidades.
XXXIII - Os terraços/ varanda, como o dos autos, estão perfeitamente
integrados na fracção, não têm acesso por zonas comuns e são dotados de
equipamentos e elementos construtivos de acordo com a estética da fracção e
de acordo com as suas utilidades privadas, as mais das vezes ao gosto dos
respectivos proprietários, nomeadamente no que respeita aos pavimentos
cerâmicos e/ou outros equipamentos.

XXIV - Assim, não obstante se reconheça que esta questão é uma questão
polémica, o A. perfilha entendimento diverso ao do Acórdão recorrido – o do
Acórdão fundamento.

XXXV - Todas estas questões deverão ser reapreciadas como objecto da


Revista Extraordinária.

XXXVI - Isto esclarecido, deve, em qualquer caso, anotar-se que, para o caso
de a revista ora requerida ser considerada inadmissível a título excepcional,
deve entender-se que caberá ainda ajuizar da sua admissibilidade como
revista normal, conforme se afirma, entre outros, no Acórdão do Supremo
Tribunal de 21 de Setembro de 2010, processo n° 358/08.3TBTCS.C1.S1.

XXXVII - Ao decidir como decidiu o Dig. Tribunal recorrido violou por erro
de aplicação e/ou interpretação nomeadamente o disposto nos artigos 13,
1419, 1421 e 1422 do Código Civil, Decreto-Lei 267/94 de 25 de Outubro e
artigos 12, 13, 18, 62, 150 e 165 da CRP.

TERMOS EM QUE

Se deve:

A) admitir o presente recurso de Revista Extraordinária, verificados que


sejam os invocados fundamentos e requisitos tal como a Lei prescreve, com
todas as
consequências legais

B) Mais deve julgar-se procedente o presente recurso, apreciando-se todas


as matérias sujeitas ao Supremo Tribunal de Justiça, com todas as
consequências, revogando-se o Acórdão recorrido e substituindo-o por outro
julgue sempre procedente a acção, e, se verificados os requisitos legais,
proceda à uniformização de Jurisprudência quanto às matérias sujeitas à
apreciação desse Supremo Tribunal de Justiça

C) Em qualquer caso, ainda que se considerasse a Revista Extraordinária


inadmissível, o que não se concebe, o recurso deveria ser julgado como
Revista Ordinária, nos termos expostos, pois assim se fará JUSTIÇA.
MAIS REQUER, que o Supremo Tribunal de Justiça, nos termos expostos,
julgue a presente revista excepcional de forma ampliada, por forma a
assegurar uniformização de jurisprudência».

Em contra-alegações, os réus sustentaram a manutenção do decidido,


concluindo nestes termos:

I. O Recorrente não cumpre o ónus de indicação das razões pelas quais


entende serem as questões que pretende ver apreciadas por este Supremo
Tribunal de inequívoca relevância social;

II. O acórdão fundamento invocado pelo Recorrente não representa a linha


jurisprudencial seguida pelos tribunais superiores;

III. Nos termos do disposto no artigo 1421° do CC, quer na sua versão actual,
quer na versão anterior à entrada em vigor do DL 267/94, de 25 de Outubro,
todos os terraços de cobertura, ainda que intermédios, constituem parte
comum do prédio;

IV. O comando deste artigo, em qualquer uma das suas versões, tem natureza
imperativa, não podendo ser derrogado pelas declarações dos proprietários
constantes do título constitutivo da propriedade horizontal;

V. Que, in casu, nem dispõe que o terraço em causa constitui parte privada da
fracção da Ré;

VI. O Recorrente esgrime uma série de questões novas, que não constam do
acórdão fundamento e que não foram por este apreciados, não podendo,
assim, tais questões ser apreciadas nesta sede;

VII. O terraço em causa nos presentes autos serve de cobertura a uma parte
da fracção do Recorrente, assim funcionando como telhado desta zona;

VIII. Não se vislumbrando, assim, quaisquer razões para que este telhado não
seja considerado como terraço de cobertura, nos termos e para os efeitos do
disposto no artigo 1421° do CC, seja qual for a versão que se defenda ser
aplicável à hipótese dos autos;

IX. Já que em ambas as versões o terraço de cobertura, ainda que intermédio,


é considerado, imperativamente, como parte comum do prédio.
X. Por onde se verifica nenhum fundamento existir para alterar a decisão
recorrida, que representa, assim, uma decisão equilibrada e justa e que,
ademais, acolhe a linha jurisprudencial mais recente e seguida de forma
quase unânime pelos tribunais superiores, designadamente por este Supremo
Tribunal;

XI. Deve, assim, o acórdão proferido ser mantido na íntegra,

Assim se fazendo, como sempre, inteira JUSTIÇA!»

4. A fls. 1954, a relatora expôs a Sua Excelência o Presidente do Supremo


Tribunal de Justiça a pretensão do recorrente de que o recurso fosse julgado
como revista ampliada, exprimindo a opinião de que “se encontra
suficientemente estabilizada a interpretação que foi adoptada em ambas as
instâncias, no sentido de que o terraço dos autos é imperativamente comum, à
luz da al. b) do nº 1 do artigo 1421º do Código Civil, quer na redacção
primitiva, quer na que resultou do Decreto-Lei nº 267/94”.

A fls. 1959, o Senhor Presidente proferiu despacho no sentido de não existir


fundamento para deferir tal pretensão, por não estarem reunidas “as condições
normativas que aconselham o julgamento ampliado da revista”, não existindo
pois “fundamento para determinar, nos termos do artigo 686º, nº 1, do CPC,
o julgamento ampliado da revista”.

Transcreve-se o núcleo da fundamentação do despacho:

“6. A competência prevista no artigo 686º, nº 1, do CPC, tem pressupostos


vinculados a garantir a segurança, a certeza e a estabilidade da
jurisprudência, prevenindo ou fazendo terminar situações de divergências
jurisprudenciais consistentes no STJ, ou prevenindo riscos de mutações
jurisprudenciais que perturbem inesperadamente o valor da previsibilidade.

Os pressupostos enunciados na lei («necessidade» e «conveniência» para


assegurar a uniformização da jurisprudência)que devem sustentar a decisão,
previstos no artigo 686º, nº 1, do CPC, são vinculados à realização das
finalidades de segurança, certeza e estabilidade da jurisprudência, e logo
pelo sentido comum das noções têm diferentes graus de intensidade.

A «necessidade» constitui um pressuposto de vinculação de maior


intensidade, deixando, consequentemente, menos espaço para a ponderação
prudencial; a «conveniência» supõe menor intensidade vinculativa,
determinada por juízos de mais ampla apreciação, que permitem e
aconselham maior latitude de ponderação.
A «necessidade» remete para a probabilidade de verificação de situações que
constituam imediatamente, se efectivamente ocorressem, uma séria
perturbação da estabilidade jurisprudencial; o caso mais saliente será a
previsibilidade (ou a probabilidade) de julgamento em sentido contrário a
jurisprudência uniformizada.

A «conveniência» deve ser verificada, por seu lado, pela análise e


ponderação de variáveis de diversa natureza. Há conveniência, com efeito,
em evitar ou superar situações de discrepância interpretativa; mas o
procedimento previsto no artigo 686º do CPC não deve ser usado de modo
que não permita o desenvolvimento jurisprudencial, nomeadamente quando
as questões não estejam ainda suficientemente trabalhadas na doutrina e na
jurisprudência.

Não basta, por isso, a existência de interpretações divergentes sobre


determinada questão; sendo indesejável a consumação de jurisprudência
contraditória ou a persistência de divergências, deve ser razoavelmente
previsível que a complexidade da questão ou a formação de correntes
jurisprudenciais com alguma consistência impeçam a prevalência de uma das
teses ou soluções em confronto.

7. Nas circunstâncias do caso, e aplicando os critérios da lei, não


ocorre necessidade ou conveniência em determinar que o julgamento se faça
com intervenção do Pleno das Secções Cíveis.

No tema central que o recurso convoca, a jurisprudência do Supremo


Tribunal de Justiça tem percorrido um caminho de consolidação
interpretativa que permite configurar, sem desvio perceptível, uma tendência
jurisprudencial dominante, ao menos nas decisões da última década e meia.

Como sublinha a Senhora Relatora, o STJ vem julgando com estabilidade que
os terraços intermédios com funções de cobertura, ainda que afectos ao uso
de uma fracção autónoma, constituem imperativamente partes comuns do
edifício, à luz de qualquer uma das redacções do artigo 1421º do Código
Civil (acórdãos de 19 de Setembro de 2002, procº nº 02B2062, de 16 de
Outubro de 2003, procº nº 03B2567, de 31 de Maio de 2012, procº nº
678/10.7TVLSB.L1.S1 ou de 9 de Junho de 2016, procº nº
211/12.6TVLSB.L2.S1).

Deste modo, na jurisprudência do Supremo não se encontram divergências


contemporâneas a que seja adequado pôr cobro, assim como não parece
existir risco atendível de mutação jurisprudencial inesperada que possa
operar em prejuízo das desejáveis estabilidade e segurança. Além de tudo
isso, não há também precedente decisão uniformizadora sobre o assunto, que
possa vir a ser contrariada”.
5. Vem provado o seguinte:

1 - O Autor é, desde Fevereiro de 1984 e até ao presente, o único e exclusivo


dono de uma fracção destinada a habitação designada pela letra «M»,
correspondente ao 3.º andar direito com entrada pelo n.º 205 do prédio
urbano constituído em propriedade horizontal sito na Rua M… S…, 1...3 a
2...5, .... P…, descrito na 2.ª Conservatória do Registo Predial do P… sob a
ficha n.º 1…5/20…27, com inscrição da propriedade horizontal n.º 15…3 a
fls. 104-v do Livro F-24 e inscrito na matriz predial urbana da freguesia de
Foz do Douro sob o art. 2…6, fracção essa correspondente a uma habitação
tipo T4 + 1 (alínea A) da matéria de facto assente).

2 - Os Réus são, desde Fevereiro de 1989, e até ao presente, os proprietários


de uma fracção destinada a habitação designada pela letra «P»,
correspondente ao 4.º andar direito com entrada pelo n.º 205 do referido e
mesmo prédio urbano (alínea B) da matéria de facto assente).

3 - O prédio sito na Rua M… S…, 1...3/2...5, no P…, encontra-se, desde 1983,


constituído em propriedade horizontal, conforme escritura lavrada no 2.º
Cartório Notarial do P…, no dia 26 de Abril de 1983, a fls. 74 Vº a 76 do
Livro D-65, devidamente registada na Conservatória do Registo Predial do
P… sob o n.º 15…3 a fls. 104-v do Livro F-24 (alínea C) da matéria de facto
assente).

4 - A fracção dos Réus corresponde à habitação localizada por cima da


fracção do Autor (alínea D) da matéria de facto assente).

5 - Nos termos do título constitutivo da propriedade horizontal, a fracção


propriedade dos Réus, é constituído, para além do mais, por um terraço, do
lado Nascente, ao nível do 4.º andar, conforme sua descrição na
Conservatória do Registo Predial (alínea E) da matéria de facto assente).

6 - O referido terraço corresponde, por outro lado, à «cobertura» da zona de


quartos da fracção do A. (alínea F) da matéria de facto assente).

7 - Há alguns anos atrás, os Réus levaram a efeito obras na sua fracção


(alínea G) da matéria de facto assente).

8 - O Autor comunicava aos Réus o aparecimento de humidades e infiltrações


na parte da zona dos quartos da sua fracção (alínea H) da matéria de facto
assente).
9 - Em Março de 2006, foi o problema comunicado à Ré Aurora Pereira, que
nada referiu (alínea I) da matéria de facto assente).

10 - O Autor deu conhecimento à Ré Aurora Pereira do reaparecimento da


humidade e de ter insistido com a «EE» para a respectiva reparação (alínea
J) da matéria de facto assente).

11 - Em Abril de 2008, o Autor deu conhecimento à Ré BB de que


reapareceram, de novo, humidades nos tectos dos quartos e, no que concerne
ao quarto suite, pelo lado Norte, pingava mesmo água do tecto (chovia no
quarto) (alínea L) da matéria de facto assente).

12 - O Autor deu conhecimento à Ré BB da carta datada de 2 de Abril de


2008, que faz fls. 92 a 94 (alínea M) da matéria de facto assente).

13 - Nem os Réus, nem ninguém por eles, se deslocaram ao local para


proceder à vistoria, a efectuar por um representante do Autor e por um da
«EE» (alínea N) da matéria de facto assente).

14 - O Autor enviou à Ré BB a carta que faz fls. 109 dos autos (alínea O) da
matéria de facto assente).

15 - O Autor não tem acesso ao 4.º andar (alínea P) da matéria de facto


assente).

16 - O tecto de cobertura da fracção do Autor, na parte Este (junto à Rua


M… S…), a que corresponde à zona de quartos é composto pela placa de
pavimento do 4.º andar contíguo (por cima) à habitação do A. (alínea Q) da
matéria de facto assente).

17 - Os Réus encontram-se divorciados, por sentença datada de 12 de Março


de 2007, já transitada em julgado, proferida no âmbito do processo n.º
376/06.6TMPRT, o qual correu termos na 2.ª secção do 2.º juízo do Tribunal
de Família e Menores do P… (alínea R) da matéria de facto assente).

18 - O terraço que se situa ao nível da fracção autónoma da Ré e que serve de


cobertura à zona dos quartos no interior da fracção autónoma do Autor é de
uso exclusivo dos proprietários da referida fracção «P» e a ele apenas se
acede pelo interior dessa fracção (alínea S) da matéria de facto assente).

19 - Situa-se o terraço em apreço ao nível do piso da fracção «P»,


constituindo um seu prolongamento e servindo, ao mesmo tempo, de
cobertura parcial à fracção autónoma propriedade do Autor (alínea T) da
matéria de facto assente).
20 - Em Março de 1997, foi celebrado entre o Condomínio do prédio e uma
sociedade denominada por «LL - Renovação de Edifícios e Estruturas, Lda.»
um contrato de empreitada, o qual teve por objecto o edifício descrito nos
autos, e, concretamente, a impermeabilização dos terraços e coberturas
adjacentes à fracção autónoma do Autor e dos Réus (alínea U) da matéria de
facto assente).

21 - Por terem sido deficientemente executadas as obras por si contratadas, o


Condomínio protagonizou uma iniciativa judicial contra a identificada «LL,
Lda.», a qual correu termos na 5.ª Vara Cível do Porto, 1.ª Secção, sob o n.º
638/99 (alínea V) da matéria de facto assente).

22 - Nessa acção judicial pediu a 2.ª Ré a resolução do contrato de


empreitada celebrado com a dita «LL» e a sua condenação no pagamento de
indemnização de cerca de € 60.000,00 (alínea X) da matéria de facto
assente).

23 - A decisão judicial da referida acção judicial declarou resolvido o


referido contrato de empreitada e condenou a falada «LL» no pagamento à
aqui 2.ª Ré do montante de €49.879,79, valor a que acresciam juros à taxa
legal então em vigor (alínea Y) da matéria de facto assente).

24 - Determinou ainda a decisão judicial proferida que seria relegada para


execução de sentença a liquidação do valor de outros danos sofridos no
interior das fracções após a sua impermeabilização pela dita «LL», até ao
limite de €9.975,96 (alínea Z) da matéria de facto assente).

25 - Em Julho de 2004, o Condomínio adjudicou à «EE, Tecnologias e


Produtos para a Construção Civil, Lda.» a empreitada cuja cópia faz fls. 45 a
83 dos autos.

Através de circular datada de 2 de Agosto de 2004, o Condomínio comunicou


a todos os condóminos do edifício a adjudicação dessa empreitada (alínea AA
da matéria de facto assente).

26 - Através de circular datada de 16 de Novembro de 2004, o Condomínio


deu nota a todos os condóminos que a obra contratada à «EE» havia
terminado e solicitou a todos os condóminos que apresentassem «…por
escrito, no prazo de dez dias, todas as reclamações ou vícios quanto à obra
realizada» (alínea BB) da matéria de facto assente).

27 - O Autor é casado com MM, sendo que o seu agregado familiar é


constituído por ambos os cônjuges e seus 2 filhos, NN, com 21 anos de idade
e OO, com 19 anos de idade, ambos estudantes (resposta ao facto
controvertido n.º 1).
28 - Desde que o Autor adquiriu a referida fracção, ela é residência habitual,
no P…, do seu agregado familiar (resposta ao facto controvertido nº 2).

29 - Em Março de 1997 existiam bolores, humidades e até queda de água, nos


4 quartos que compõem a parte Este da fracção do autor e cuja cobertura
corresponde ao terraço ao nível do 4.º andar (resposta ao facto controvertido
nº 3).

30 - Sempre que chovia com mais quantidade, as humidades e infiltrações


vindas do terraço do 4.º andar, continuavam a aparecer na parte da zona de
quartos da fracção do A. (resposta ao facto controvertido nº 4).

31 - Após o verão de 2007 registaram-se humidades e infiltrações na zona de


quartos da fracção do autor (resposta ao facto controvertido nº 6).

32 - O Autor insistiu com a «EE» para que procedesse à reparação do


problema de humidades e infiltrações referido em 31.º (resposta ao facto
controvertido n.º 7).

33 - Em Abril de 2008, tendo chovido com alguma frequência, reapareceram,


de novo, humidades nos tectos dos quartos (resposta ao facto controvertido
n.º 10).

34 - E no que concerne ao quarto suite, pelo lado Norte, pingava mesmo água
do tecto (chovia no quarto) (resposta ao facto controvertido n.º 11).

35 - Em Outubro/Novembro de 2008, a «EE» deslocou técnicos ao terraço do


4.º andar do prédio sito na Rua M… S…, nºs 1...3/2...5, tendo constado que,
por lapso, não haviam impermeabilizado uma caleira ou conduta de águas
(resposta ao facto controvertido n.º 12).

36 - Procederam então aos referidos trabalhos, no final de 2008, ficando o


Autor a aguardar até aos primeiros meses de 2009 – época das chuvas – com
vista a saber se efectivamente a impermeabilização havia sido conseguida
(resposta ao facto controvertido nº13).

37 - E, de facto, no quarto suite da habitação do A., a partir daí deixou de


verificar-se pingos de queda de água do piso superior (terraço do 4.º andar)
(resposta ao facto controvertido n.º 14).

38 - Em 2008, o Autor reparou toda a parte Este da sua habitação – 4


quartos, corredor e duas casas de banho - respectivas paredes, tectos,
caixilharias, madeiras (resposta ao facto controvertido n.º 15).

39 - Ficando com o tecto do seu quarto/suite, a aguardar a solução do


problema para conclusão das obras de reparação, (com uma área sem
estuque nem reboco, com a laje à vista), situação que perdura até hoje
(resposta ao facto controvertido n.º 16).

40 - Em Agosto de 2009, voltou a chover no quarto/ suite do A. (pinga água


no quarto, na cama e mesinhas de cabeceiras) (resposta ao facto
controvertido n.º 17).

41 - No quarto do filho do Autor continuam a surgir humidades (resposta ao


facto controvertido nº 21).

42 – Em 2004 as referidas infiltrações de água continuaram a provocar em


toda a zona de quartos bolores, manchas, apodrecimento de estuques de
paredes (resposta ao facto controvertido n.º 22).

43 - No que toca às paredes e tectos dos 4 quartos, o Autor removeu os


rebocos e estuques apodrecidos, de novo e massa das paredes e tectos e
procedeu-se à pintura dessas áreas, tendo sido reparadas as caixilharias de
madeira deterioradas (resposta ao facto controvertido n.º 23).

44 - Os trabalhos de carpintaria ascenderam ao valor de 2.100,00 Euros


(resposta ao facto controvertido n.º 24).

45 - Os trabalhos de trolha e pintura (massas e pinturas) ascenderam a um


valor de cerca de € 2.000,00 (resposta ao facto controvertido n.º 25).

46 - Por outro lado, sofreram também precoce degradação os estores e as


fitas das persianas (respeitantes a essas 4 dependências de quartos) (resposta
ao facto controvertido nº 26).

47 - A sua reposição, ou substituição, implicou um encargo de pelo menos 1


800,00 Euros (resposta ao facto controvertido nº 27).

48 - Na zona onde se situa a fracção do autor, a renda de um imóvel


destinado a habitação com a área de 200 m2 e com um lugar de garagem,
sem padecer de quaisquer patologias, cifra-se num montante mensal não
inferior a €1.500,00 (resposta ao facto controvertido nº 28).

49 - Frequentemente, tinham as paredes e tectos com bolores e permanentes


infiltrações de água (resposta ao facto controvertido nº 29).

50 - Os estuques do tecto apodreceram e pelo menos em 2 quartos – o quarto


do A. e o quarto do seu filho OO – ameaçaram queda dos respectivos
estuques (resposta ao facto controvertido nº 30).

51- Com frequência, os filhos do A., em especial seu filho OO, que sofre de
asma alérgica, via-se (e vê-se) impedido de dormir no seu quarto, tendo que
pernoitar na habitação de seus avós, que se localiza no mesmo prédio, no 1º
andar (resposta ao facto controvertido nº 31).

52 - Por largos períodos, chovia no quarto principal da habitação do A.


(resposta ao facto controvertido nº 32).

53 - Para a realização das obras de reparação referidas em 43º foram


necessários, pelo menos, quinze dias (resposta ao facto controvertido nº 33).

54 - Para o efeito, o A. e seu agregado familiar tiveram que retirar o


mobiliário desse sector para o outro sector da casa, a qual ficou entregue aos
técnicos da construção civil para realizarem a obra (resposta ao facto
controvertido nº 34).

55 - A verificação de humidades e o aspecto desagradável das paredes e


tectos provocam angústias e padecimentos no A., e seu agregado familiar
(resposta ao facto controvertido nº 35).

56 - Uma das divisões da fracção do autor esteve adaptada a escritório


(resposta ao facto controvertido nº 36).

57 - O aspecto da área e a redução das condições de habitabilidade


dificultavam e dificultam que os filhos do A. recebessem amigos e colegas e
desenvolvessem a sua actividade normalmente (resposta ao facto
controvertido nº 37).

58 - Pelo que tiveram que transferir o seu local de estudo para uma varanda
(marquise) próxima da sala de estar (resposta ao facto controvertido nº 38).

59 - Concluída que seja a reparação, haverá necessidade de proceder à


substituição do parquet do quarto suite da fracção do A. (pelo menos)
(resposta ao facto controvertido nº 39).

60 - E a novas reparações nos tectos, paredes, caixilharia de madeira


(resposta ao facto controvertido nº 40).

61 - E nova pintura da referida área da casa (100 m2) (resposta ao facto


controvertido nº 41).

62- Com a água que pinga no referido pavimento e com o apodrecimento de


estuques o referido parquet da parte Este da casa do A. foi danificado
(resposta ao facto controvertido nº 42).

63 - O Autor teve despesas destinadas a financiar acções judiciais e


extrajudiciais dos efeitos desses comportamentos (resposta ao facto
controvertido nº 43).
64 - Teve de proceder a buscas, deslocações, solicitar serviços de terceiros e
perder tempo (resposta ao facto controvertido n.º 44).

65 - Tem ainda de suportar os custos associados à prestação de serviços por


Advogados e outros mandatários, às acções judiciais, a pagamento de
preparos e custas e à obtenção de outros documentos oficiais (resposta ao
facto controvertido nº 45).

66 - No ano de 1989, os RR realizaram obras de conservação da fracção,


tendo reforçado as telas de revestimento do aludido terraço junto às soleiras
de acesso à sala e ao escritório da fracção (resposta ao facto controvertido nº
46).

67 - Desde 18 de Novembro de 2002, os RR encontravam-se separados de


facto, tendo o Réu marido, desde então, deixado de usar e fruir a fracção sua
propriedade (resposta ao facto controvertido nº 47).

68 - A fracção dos RR, desde 18 de Novembro de 2002, vem sendo ocupada e


administrada em exclusivo pela Ré BB (resposta ao facto controvertido nº
48).

69 - A fracção foi usada pela Ré mulher até Março de 2005 para sua
habitação própria (resposta ao facto controvertido nº 50).

70 - O revestimento dos pavimentos da fracção autónoma propriedade dos


Réus é em madeira (resposta ao facto controvertido nº 52).

71 - Para além da “LL”, deu-se uma outra intervenção técnica posterior, a


qual visou eliminar parte das patologias que o edifício apresentava,
designadamente ao nível da impermeabilização dos terraços de cobertura
(resposta ao facto controvertido nº 53).

72 - A qual ocorreu em 2001 e foi da autoria de uma sociedade denominada


por “PP” (resposta ao facto controvertido nº 54).

73 - Uma vez mais contratada pelo Condomínio do prédio (resposta ao facto


controvertido nº 55).

74 - Pelo Condomínio foi enviada a todos os condóminos do prédio descrito


nos autos, a comunicação que faz fls. 292 dos autos (resposta ao facto
controvertido nº 56).

75 - Na sequência da solicitação aludida em 26º, a Ré BB dirigiu ao


Condomínio, em 21NOV2005, as reclamações constantes do Doc. de fls. 299
(resposta ao facto controvertido nº 57).
76 - Por contrato celebrado em 24NOV2005, a Ré BB deu de arrendamento a
fracção autónoma de que é proprietária a FF e GG (resposta ao facto
controvertido nº 58).

77 - A relação arrendatícia então firmada teve início em 01JAN2006 e


terminou em OUT2009 (resposta ao facto controvertido nº 59).

78 - Durante o período em que durou o arrendamento, os arrendatários


colocaram na laje do terraço de cobertura afecto à sua fracção autónoma, um
conjunto de vasos que continham plantas (resposta ao facto controvertido nº
60).

6. A questão a tratar neste recurso consiste em determinar se os réus são ou


não responsáveis pela reparação dos defeitos e vícios do terraço em causa
nestes autos, ou por suportarem a respectiva reparação pelo autor, e ainda
pelos danos por este sofridos, em consequência de humidades, infiltrações e
quedas de água verificadas na sua fracção (M), vindas do terraço.

Não vem provado que tais humidades, infiltrações e quedas de água tenham
sido consequência de obras que os réus BB e CC tenham realizado, como o
autor alegou inicialmente como parte da causa de pedir; o que torna necessário
determinar se o referido terraço é parte comum ou pertence à fracção de que
os réus são proprietários desde 1989, como aliás consta do título constitutivo
da propriedade horizontal, outorgado em 26 de Abril de 1983; na hipótese de
se concluir que o terraço é parte comum, haverá ainda que saber se as
despesas de conservação (impermeabilização, no caso) são da exclusiva
responsabilidade dos réus, uma vez que o terraço, de qualquer forma, está
afectado em exclusivo à utilização da sua fracção, P, ou se antes correm por
conta de todos os condóminos – o condomínio não é uma entidade
juridicamente autónoma; apenas se autonomiza para certos efeitos, como seja,
em alguns casos, a intervenção em juízo (cfr. al. e) do artigo 12º do Código de
Processo Civil e artigo 1424º, nº 1424º, nºs 1 e 3 do Código Civil).

Igualmente caberá determinar se os réus respondem pelos prejuízos sofridos


pelo autor.

7. Antes de afrontarmos a questão principal dos autos, cumpre todavia


recordar:
– Está transitada em julgado a decisão de absolvição da instância dos réus
Condomínio do Prédio Urbano sito na Rua M… S…, nº 183/205 e EE -
Tecnologias e Produtos para a Construção Civil, Lda., de fls. 614, com
fundamento em coligação ilegal. Na verdade, não se vê que tenha sido
oportunamente impugnada. Assim sendo, a procedência dos pedidos do autor
só pode ser avaliada em relação aos réus que permaneceram em juízo;

– Escreveu-se no acórdão de 19 de Março de 2009, com a mesma


relatora, www.dgsi.pt, proc. nº 07B3607:

«Como todos sabemos, na propriedade horizontal coexistem num mesmo


edifício (ou eventualmente num conjunto de edifícios que obedeça aos
requisitos previstos no artigo 1438º-A do Código Civil, ao qual foi
acrescentado pelo Decreto-Lei nº 267/94, de 25 de Outubro), formando um
conjunto incindível, os direitos de propriedade exclusiva dos condóminos
sobre as respectivas fracções autónomas e os direitos dos mesmos
condóminos sobre as partes comuns, por princípio moldados segundo o
regime da compropriedade (artigo 1420º do Código Civil).

Nas palavras de M. Henrique Mesquita (A propriedade horizontal no Código


Civil Português, in Revista de Direito e de Estudos Sociais, ano XXIII – nºs 1-
2-3-4, pág. 79 e segs., pág.84), “o que caracteriza a propriedade horizontal e
constitui razão de ser do respectivo regime é o facto de as fracções
independentes fazerem parte de um edifício de estrutura unitária – o que,
necessariamente, há-de criar especiais relações de interdependência entre os
condóminos, quer pelo que respeita às partes comuns do edifício, quer mesmo
pelo que respeita às fracções autónomas”.

Essa interdependência – que carece de ser entendida à luz da função


acessória e instrumental que as partes comuns desempenham por relação às
fracções autónomas – repercute-se, naturalmente, no regime jurídico
aplicável, quer a umas, quer a outras.

Assim e por exemplo, no que respeita às fracções autónomas, os respectivos


proprietários estão, não só, sujeitos “às limitações impostas aos proprietários
(…) de coisas imóveis”, como relembra o nº 1 do artigo 1422º do Código
Civil (vejam-se, por exemplo, os artigos 1346º ou 1347º do Código Civil), mas
ainda sofrem, no âmbito dos normais poderes de “uso, fruição e
disposição” que o artigo 1305º atribui ao proprietário, outras restrições
decorrentes da sua inserção no conjunto.

É o que resulta, nomeadamente, do nº 2 do artigo 1422º do Código Civil, que


proíbe ao condómino que prejudique “a segurança, a linha arquitectónica ou o
arranjo estético do edifício” com obras realizadas na sua fracção (ressalvada
a autorização prevista no nº 3) ou “por falta de reparação” de que a mesma
careça, que a destine a “usos ofensivos dos bons costumes” ou lhe dê “uso
diverso do fim a que se destina” ou, ainda, que pratique “actos ou actividades
que tenham sido proibidas no título constitutivo ou, posteriormente, por
deliberação da assembleia de condóminos aprovada sem oposição” (cfr. ainda
o nº 4).

Relativamente às partes comuns – (…) –, o legislador português optou por


remeter para o regime da compropriedade, como se viu já, opção mantida
pelo Decreto-Lei nº 267/94, de 25 de Outubro.

Naturalmente que o regime da compropriedade tem de sofrer as adaptações


decorrentes da apontada ligação funcional (acessória e instrumental, não é
demais observar) entre as partes comuns e as fracções autónomas, em
particular quanto aos poderes que cada condómino sobre elas pode exercer e
quanto à forma como se processa a respectiva administração e eventual
oneração, ou disposição.

Em alguns casos, a lei afasta expressamente pontos do regime em geral


definidos para a compropriedade. Assim sucede com a impossibilidade de
renúncia ao direito sobre as partes comuns, como forma de o
comproprietário se eximir ao pagamento de “despesas necessárias à
conservação ou fruição da coisa comum”, admitido pelo artigo 1411º para a
compropriedade e excluído na propriedade horizontal pelo nº 2 do artigo
1420º; com o direito de pedir a divisão da coisa comum, consequência da
regra segundo a qual nenhum comproprietário é obrigado a permanecer na
indivisão (artigo 1412º do Código Civil), excluído na propriedade horizontal
(artigo 1423º); ou com o direito de preferência (1409º), igualmente excluído
na propriedade horizontal.

Nenhuma novidade decorre destas exclusões: se o conjunto entre a


propriedade singular (sobre as fracções) e comum (sobre as partes comuns) é
incindível, e se nenhuma pode, portanto, ser alienada separadamente, é
inevitável que aquela renúncia seja inadmissível; na compropriedade, cada
comproprietário pode alienar a sua quota (art. 1408º). Se as coisas comuns
(quer necessária, quer presumidamente comuns) são comuns ainda que
estejam afectadas ao uso de uma fracção autónoma (cfr. artigo 1421º) e são
instrumentais em relação à utilização das fracções autónomas, seria
incongruente a possibilidade de divisão. Se é inalienável separadamente a
“parte” de cada condómino nas partes comuns, não faria sentido que os
outros pudessem preferir em eventuais alienações a terceiros. Note-se que
não é comparável com a preferência na compropriedade a não atribuição do
direito de preferência “na alienação de fracções”,expressa no artigo 1423º do
Código Civil; na ausência de disposição expressa, seria necessário fazer
decorrer tal direito de preferência da compropriedade em relação às partes
comuns, o que não teria viabilidade, desde logo porque implicaria a inversão
do nexo de acessoriedade e de instrumentalidade existente entre as partes
comuns e as fracções autónomas. Admite-se, todavia, que o preceito esclareça
dúvidas que poderiam, por exemplo, ser levantadas, tendo em conta o regime
previsto no artigo 417º do Código Civil (aplicável à preferência legal do
comproprietário por remissão do artigo 1409º, nº 2).

Noutros pontos, a lei regula autonomamente questões com relevo específico


no âmbito da propriedade horizontal, como se pode verificar, por exemplo, no
regime previsto pelo artigo 1428º para a hipótese de destruição de todo ou de
parte do edifício.

Outras vezes ainda, disciplina expressamente matérias relativamente às quais


admite que o regime se afaste em maior ou menor medida do que define para
a compropriedade.

É o que sucede, por exemplo, com o direito de uso das partes comuns.

Na compropriedade, cada consorte tem direito de usar a coisa comum, com a


limitação do fim “a que a coisa se destina” e da proibição de privar os
demais “do uso a que igualmente têm direito” (nº 1 do artigo 1406º do Código
Civil). É todavia possível regular o uso, por acordo (mesmo preceito).

Na propriedade horizontal, mais uma vez ocorre que a relação funcional


entre as partes comuns e as fracções autónomas se repercute nas regras
aplicáveis ao uso das partes comuns: é admissível fixá-las no título
constitutivo (cfr., por exemplo, o nº 3 do artigo 1421º) ou no regulamento do
condomínio; mas nunca de forma a prejudicar a utilização e fruição das
fracções autónomas.»

8. Este apelo ao modo de conjugação dos poderes e deveres dos condóminos


releva, desde logo, para averiguar da possibilidade de aplicação do regime
previsto nos artigos 492º e 493º do Código Civil, pretendido pelo autor; sendo
certo que, pela especificidade das previsões normativas correspondentes,
entende-se que, se dúvidas houvesse, apenas se poderiam colocar
relativamente à aplicabilidade do disposto no nº 1 do artigo 493º – note-se que
o recorrente também não explica como se poderia aplicar um regime previsto
para edifícios que ruíram, no todo ou em parte (artigo 492º), ou para os danos
causados “no exercício de uma actividade perigosa”.

Ora, para além das razões apontadas no acórdão recorrido, que se subscrevem,
sempre se reforça que, no caso concreto, seria totalmente contrário à razão de
ser do regime de inversão do ónus da prova constante do nº 1 do artigo 493º a
sua aplicação a uma situação na qual, como a Relação refere, só o autor
poderia detectar as infiltrações, humidades e quedas de água verificadas na
sua fracção. O que naturalmente não significa que sobre os réus não recaia o
dever de vigilância, quer da sua fracção, quer de eventuais partes
comuns afectas ao seu gozo exclusivo, como permite o nº 3 do artigo 1421º do
Código Civil.

Justifica-se o confronto entre esta situação e aquela que foi considerada no


acórdão de 10 de Dezembro de 2013, www.dgsi.pt, proc. nº
68/10.1TBFAG.C1.S1.

9. Mas interessa igualmente para a análise dos demais fundamentos da


pretensão do autor.

Segundo a versão inicial do artigo 1421º do Código Civil, vigente à data, quer
da outorga do título constitutivo da propriedade horizontal, quer da aquisição
da fracção P pelos réus BB e CC, são imperativamente comuns “b) O telhado
ou os terraços de cobertura, ainda que destinados ao uso do último
pavimento”. Esta redacção transitou do artigo 123º do “Anteprojecto para o
futuro Código Civil”, da autoria de Pires de Lima, publicado no Boletim do
Ministério da Justiça nº 123, pág. 225 e segs. pág. 272, com as respectivas
revisões ministeriais, e do posterior Projecto, publicado pelo Ministério da
Justiça em 1966.

Compreende-se facilmente razão da natureza obrigatoriamente comum


destas “partes do edifício”, para utilizar a terminologia do corpo do mesmo nº
1 do artigo 1421º: integram a respectiva estrutura e, portanto, é do interesse
objectivo dos titulares das fracções autónomas que a sua conservação não
fique dependente de algum ou alguns deles, mais ou menos diligentes na
prossecução do interesse comum da preservação geral do prédio, e que
eventuais inovações que o condómino pretenda efectuar estejam sujeitas ao
regime das inovações em partes comuns, como garantia de que se não
prejudica à revelia dos demais a cobertura do prédio.

Recorda-se, a propósito, que Carvalho Fernandes distinguia, dentro dos


elementos necessariamente comuns, quatro categorias fundamentais: o solo,
os elementos estruturais do edifício, as zonas de circulação interna comum e
as instalações correspondentes a serviços comuns: Direitos Reais, 5ªed.,
Lisboa, 2007, pág.369.

Sucede, todavia, que a referência à afectação ao último pavimento levantava


algumas dúvidas quanto a saber se eram necessariamente partes comuns do
prédio em regime de propriedade horizontal os chamados terraços
intermédios com função de cobertura de pisos inferiores, mas afectados ao uso
de pisos intermédios, e não “ao uso do último pavimento”, dúvida essa que,
conjugada com a circunstância de o título constitutivo integrar na fracção P o
terraço dos autos, simultaneamente de cobertura e afecto ao uso exclusivo
dessa fracção (cfr. pontos 5, 6, 16, 18 e 19 dos factos provados), volta a ser
colocada pelo recorrente no presente processo.

Note-se, aliás, que o recorrente, seguindo a orientação perfilhada no acórdão


deste Supremo Tribunal de 8 de Abril de 1997, www.dgsi.pt. Proc. nº
96A756, sustenta que os terraços intermédios, como ninguém discute que é o
terraço a que este litígio respeita, não são terraços de cobertura, para o efeito
de serem incluídos na al. b) do nº 1 do artigo 1421º do Código Civil, como
partes obrigatoriamente comuns, nem na redacção primitiva, nem naquela que
resultou do Decreto-Lei nº 267/94. Apenas seriam terraços de cobertura, para
este acórdão, aqueles que “– tal como o telhado – [dão] cobertura ao prédio
em si, visto na sua globalidade”; “Um terraço intermédio, incrustado num
dos vários andares do prédio, e que dá cobertura apenas a uma parte deste
que, obviamente, se não situa na sua parte superior, ao nível do último
pavimento” não é, para este acórdão, repete-se, um terraço de cobertura. No
sentido de que o Decreto-Lei nº 267/94 alterou a qualificação dos terraços
intermédios que servem de cobertura a pisos intermédios, e que a versão
inicial do artigo 1421º, nº 1, b) se deve aplicar quando a propriedade
horizontal se constituiu antes da entrada em vigor dessa alteração, cfr. o
acórdão deste Supremo Tribunal de 16 de Novembro de 2000, proc. nº
2899/00.

Ora, para além da letra da lei – que põe a par telhados e terraços de cobertura,
salientando por essa forma a função de uns e de outros que justifica a natureza
obrigatoriamente comum –, não tem fundamento material distinguir terraços
que se situam ao nível do telhado e terraços intermédios, que simultaneamente
sirvam de cobertura parcial imediata a uma ou mais fracções, e,
mediatamente, ao prédio, independentemente do piso onde se situem.

Por várias razões: tal como o telhado não dá cobertura apenas ao último
piso, mas faz parte da estrutura do prédio e é parte comum para todos os
condóminos, e não só para os que se encontrem na vertical por baixo desse
telhado, mesmo que não cubra todo o prédio, também se incluem na al. b) do
nº 1 do artigo 1421º do Código Civil, em qualquer das suas versões,
os terraços intermédios, que servem de cobertura (total ou parcial) apenas a
alguma (ou algumas) fracções, pois também integram a estrutura do prédio.
Como se observa no acórdão de 15 de Maio de 2012, revista nº
218/2001.C3.S1, “não obstante não servir de cobertura integral, mas,
apenas, parcial do andar situado no piso inferior, nem se situar ao nível do
telhado do edifício, não sustentando a totalidade da cobertura do respectivo
espaço físico, está funcionalmente afecto, além de outras, a servir a mesma
finalidade de protecção contra os elementos líquidos da atmosfera”. Ou como
escreveu Aragão Seia, Propriedade Horizontal; 2ª. ed., Coimbra, 2002, pág.
74: “Os terraços de cobertura, que tanto se podem situar ao nível do primeiro
andar por servirem de cobertura, por exemplo, a uma garagem ou a um
estabelecimento, como ao nível de qualquer outro ou até do último piso,
cobrindo parte do edifício, mesmo quando estejam afectados ao uso exclusivo
de um condómino, são parte comum”.

10. Diferentemente do que sustenta o recorrente, interpreta-se a doutrina mais


recente do Supremo Tribunal de Justiça no sentido de ter estabilizado a
interpretação de que, quer à luz do texto inicial do Código Civil, quer após a
entrada em vigor do Decreto-Lei nº 267/94, os terraços intermédios que
sirvam de cobertura a alguma ou algumas fracções são necessariamente partes
comuns, independentemente de estarem ou não afectados ao uso de alguma
ou algumas fracções do último piso, ou de qualquer
piso, e independentemente da qualificação que lhes for dada pelo título
constitutivo (assim, vejam-se a título de exemplo os acórdãos de 3 de Julho de
2003, revista nº 1984/03, de 16 de Outubro de 2003, www.dgsi.pt, proc. nº
03B2567, de 27 de Janeiro de 2010, revista nº 635/09.6YFLSB, Sumários de
Acórdãos, www.stj.pt )

Versando somente sobre a redacção introduzida pelo Decreto-Lei nº 267/94,


que interpretam no sentido de considerar comuns os terraços intermédios com
função de cobertura de pisos intermédios, cfr., por ex., o acórdão de 19 de
Setembro de 2002, www.dgsi.pt, proc. nº 02B2062, de 16 de Novembro de
2006, revista nº 3468/06, Sumários de Acórdãos, www.stj.pt, de 5 de Março
de 2009, revista nº 217/09, Sumários de Acórdãos, www.stj.pt, de 31 de Maio
de 2012, revista nº 678/10.7TVLSB.L1.S1, Sumários de
Acórdãos, www.stj.pt. Este último, a título de obiter dictum, porque a
propriedade horizontal a que respeita fora apenas constituída em 2000,
considerou que o Decreto-Lei nº 267/94 alterou a qualificação dos terraços
intermédios, com referência à redacção inicial do Código Civil; e observou
que está consolidada a jurisprudência no sentido de que, para a versão
decorrente do Decreto-Lei nº 267/94, é parte comum “qualquer terraço que
sirva de cobertura ao próprio edifício ou a alguma das fracções prediais,
ainda que destinadas ao uso exclusivo de qualquer condómino”, tal como o
acórdão de 9 de Junho de 2016, www.dgsi.pt, proc.
nº 211/12.6TVLSB.L2.S1, acórdão no qual, dando como exemplo o acórdão
de 1 de Junho de 2010, www.dgsi.pt, proc. nº 95/2000.L2.S1, relativo a um
prédio no qual a propriedade horizontal foi constituída antes da entrada em
vigor do Decreto-Lei nº 267/94, se observou que a jurisprudência tem vindo a
adoptar “o critério acima exposto”.
Entende-se assim que, independentemente do piso em que se situam, são
necessariamente comuns os terraços intermédios que servem de cobertura a
algum ou algum dos pisos, pois exercem a mesma função de cobertura que
exerceriam se se situassem ao nível do último piso, e porque a titularidade do
terraço não se confunde com a sua afectação (com o respectivo uso). A
circunstância de estar afectada ao uso exclusivo de algum ou alguns dos
condóminos não altera a natureza de parte que seja comum. Assim, cfr.
acórdãos de 5 de Março de 2009, revista nº 217/09, e de 13 de Setembro de
2011, proc. nº 2095/07.7TBPHF.P1.S1, ambos in Sumários de
acórdãos, www.stj.pt : “Uma coisa é a propriedade de tal parte comum,
outra, com ela inconfundível, é a afectação, em uso exclusivo, do terraço” ou
Pires de Lima e Antunes Varela, Código Civil Anotado cit, vol. III, pág. 420:
uma coisa é a titularidade, outra “o uso ou afectação prática da coisa, muito
embora haja uma estreita correlação entre esses dois elementos”.

Como se diz em Francisco Rodrigues Pardal e Manuel Baptista Dia da


Fonseca, Da Propriedade Horizontal, Coimbra, 3ª ed., de 1983, pág. 171 –
por referência, portanto, ao texto inicial do Código Civil – “É certo que pode
em certos casos facultar-se, em exclusivo, o uso do terraço a um ou mais
condóminos (…). E é o caso de andares recuados, com terraço privativo: este
continua a ser elemento comum do prédio”.

11. Conclui-se, portanto, que o terraço em causa nos autos, quer à luz da al b)
do nº 1 do artigo 1421º do Código Civil vigente à data da outorga do título
constitutivo da propriedade horizontal e da aquisição da fracção P, quer à luz
do mesmo preceito, tal como foi alterado pelo Decreto-Lei nº 267/94,
é imperativamente parte comum do edifício, não tendo validade a sua inclusão
na fracção P, sem necessidade de declaração judicial da nulidade parcial do
título (arts. 294º e 286º do Código Civil): cfr., a título de exemplo, o já citado
acórdão de 3 de Julho de 2003, revista nº 1984/03, ou o acórdão de 16 de
Outubro de 2003, revista nº 2567/03, Sumários de Acórdãos, www.stj.pt .

12. Não está colocada nos autos a questão da eventual conversão da inclusão
do terraço na fracção P em afectação ao uso exclusivo da mesma fracção. No
entanto, vem provado que o terraço, a que apenas se acede pela fracção P, está
afectado ao seu uso exclusivo; questão que agora não releva, como se verá.

13. Resolvida a questão da propriedade do terraço, coloca-se a questão de


saber quem é responsável pelas despesas da sua conservação (no caso, pela
respectiva impermeabilização), tendo em conta os nºs 1 e 3 do artigo 1424º do
Código Civil (correspondente ao nº 2 da versão primitiva do preceito), dos
quais resultam a regra de que as despesas de conservação das partes comuns
são da responsabilidade dos condóminos, “em proporção do valor das suas
fracções” (nº 1), salvo tratando-se de “partes comuns do prédio que sirvam
exclusivamente algum dos condóminos”, que “ficam a cargo dos que delas se
servem” (nº 3).

Mas este último preceito tem de ser devidamente interpretado, respeitando a


respectiva razão de ser. Se uma parte é comum, compreende-se que a regra
seja a de que todos os condóminos suportem a respectiva manutenção, porque
a natureza comum tem como justificação tratar-se de uma parte de que
beneficia o prédio enquanto tal e, portanto, todos os condóminos, enquanto
seus proprietários em conjunto.

Se uma parte do prédio, apesar de ser comum, está afectada à utilização de um


ou de alguns dos condóminos, então justifica-se que essa afectação
exclusiva se repercuta na responsabilidade pelas despesas correspondentes;
mas apenas na medida em que se relacionem com essa afectação exclusiva.

No caso, trata-se da impermeabilização do terraço e não se provou qualquer


actuação dos réus que a tenha danificado: não pode considerar-se da exclusiva
responsabilidade do proprietário da fracção P, por não se relacionar com a
afectação ao uso exclusivo dessa fracção, isto é, com a
sua utilização individualizada, na expressão utilizada pelo acórdão de 16 de
Novembro de 2006, revista nº 3468/06, Sumários de Acórdãos, www.dgsi.pt .

Não tem assim aplicação o nº 3 do artigo 1424º do Código Civil; vale,


portanto, a regra de que as despesas necessárias à manutenção do terraço, no
que à sua impermeabilização respeita, são da responsabilidade de todos os
condóminos, na proporção “do valor das suas fracções” (nº 1 do artigo 1424º
do Código Civil).

14. Sendo todos os condóminos responsáveis pela conservação do terraço, ou,


mais especificamente, pela sua impermeabilização, recai igualmente sobre os
mesmos a obrigação de indemnizar algum condómino que sofra danos
resultantes de vício de impermeabilização, nos termos gerais do artigo 483º do
Código Civil, também na proporção do valor das respectivas fracções.

Esclarecendo um pouco melhor: é da responsabilidade de todos os


condóminos a conservação das partes comuns; detectado um vício que cumpre
corrigir, recai sobre todos os condóminos o dever de suportar as despesas
correspondentes e de indemnizar o proprietário que tenha sofrido prejuízos em
consequência da falta de reparação.
É claro que essa obrigação de indemnizar pressupõe a verificação dos
pressupostos gerais da responsabilidade civil, para além da ilicitude – já
assente, por resultar da prova que o vício se mantém: que direitos do autor
foram lesados e em que extensão (recorde-se que o autor pede indemnização
por danos patrimoniais e não patrimoniais), se há nexo de causalidade entre o
vício de impermeabilização e os danos alegados e provados e se
houve negligência dos condóminos, no seu conjunto, para além das demais
circunstâncias do caso (cfr. artigo 494º do Código Civil).

No caso concreto, a reparação pode considerar-se urgente, valendo então o


disposto no artigo 1427º do Código Civil. O condómino cuja fracção permite
o acesso à parte comum terá de facultar o acesso ao autor, com o fim de lhe
permitir que proceda à reparação; tal como sempre terá de o permitir ao
administrador, em qualquer caso. A interligação entre as partes próprias e
comuns, na propriedade horizontal, obriga a limitações ao direito de
propriedade exclusiva sobre a fracção, como se recordou já.

15. Não é possível condenar os condóminos proprietários da fracção P, nem


na reparação dos prejuízos sofridos, nem a suportarem por si sós as despesas
de reparação, nem, também por si sós, a indemnizar o autor pelos danos
provados, por não estarem em juízo o condomínio ou os demais condóminos,
por si mesmos; fica portanto prejudicada a condenação referida em f) do
pedido (sanção pecuniária compulsória).

Mas essa falta não impede que se condene os mesmos condóminos


proprietários da fracção P a facultar o acesso ao terraço, para que o autor
possa por si proceder à reparação – o que equivale à procedência do pedido
identificado como c), restrito a estes condóminos; tal como não impede a
condenação dos mesmos na parte que lhes caiba suportar, quer dos encargos
com a reparação, quer da indemnização pelos prejuízos sofridos.

Na verdade, não seria um caso de litisconsórcio necessário, que envolvesse a


presença de todos os condóminos, para que se pudesse conhecer do mérito da
causa – cfr artigo 32º, nº 1 do Código de Processo Civil e artigos 1405º, nº 1,
2ª parte, do Código Civil.

16. Sucede que nesta acção nunca houve decisão, nem sobre o preço da
reparação, nem sobre a verificação dos pressupostos da responsabilidade civil,
ou o montante dos prejuízos sofridos. Trata-se de questões que ficaram por
apreciar nas instâncias, por se ter entendido que a natureza comum do terraço
impedia qualquer procedência da acção.
Não podendo o Supremo Tribunal de Justiça proceder a essa averiguação em
1ª instância, determina-se que o processo seja remetido ao Tribunal da
Relação do Porto, para que se proceda ao cálculo do custo da reparação da
impermeabilização do telhado, bem como à determinação dos pressupostos da
obrigação de indemnizar pelos danos sofridos pelo autor em consequência da
violação dessa obrigação e à determinação da proporção que cumpre suportar
aos proprietários da fracção P.

17. Antes de terminar, cumpre apreciar algumas questões suscitadas pelo


recorrente, que se não consideraram necessárias à resolução do recurso:

– Não tem qualquer relevância, neste recurso, determinar se o Decreto-Lei nº


267/94, na parte em que alterou a redacção da al. b) do nº 1 do artigo 1421º do
Código Civil, é ou não uma lei interpretativa, no sentido do artigo 13º do
Código Civil. Com efeito, entende-se que, à luz da versão inicial do Código
Civil, o terraço dos autos já seria qualificado como parte comum;

– Por essa mesma razão, a nulidade parcial do título constitutivo não resulta
de qualquer aplicação retroactiva de nenhuma disposição legal;

– Ainda que assim não fosse, não pode de forma alguma considerar-se um
título constitutivo de propriedade horizontal como um “acto de natureza
análoga” aos referidos no artigo 13º. Nem o recorrente justifica a afirmação
que faz, o que dispensa maiores explicações;

– Não se vê que argumento se possa retirar do Acórdão do Tribunal


Constitucional de 7 de Dezembro de 1993, citado pelo recorrente;

– Para se considerar nula uma disposição de um título constitutivo de


propriedade horizontal e, portanto, como comum uma parte do prédio que nele
é incluída numa fracção autónoma, não é necessário obter previamente a
declaração judicial de nulidade;

– Não tem consequências, para o caso, a afirmação não densificada de


inconstitucionalidade referida ao Decreto-Lei nº 267/95, razão pela qual se
não analisa a questão;

– Não há qualquer confisco; note-se, aliás, que os proprietários da fracção P


sustentaram, no processo, a natureza comum do terraço.

18. Nestes termos, concede-se provimento parcial à revista, decidindo-se:


a) Condenar os réus CC, JJ e KK a permitirem ao autor o acesso ao telhado
dos autos, para que possa proceder à reparação da respectiva
impermeabilização;

b) Condenar os réus CC, JJ e KK no pagamento de parte do custo dessa


reparação, na proporção do valor da sua fracção;

c) Determinar que o processo seja remetido à Relação para que se apure o


custo da mesma reparação e se aprecie o pedido de indemnização formulado
pelo autor nesta acção, incluindo os juros que forem devidos;

d) Condenar os réus CC, JJ e KK no pagamento de parte da indemnização que


vier a atribuir-se ao autor, na proporção do valor da sua fracção.

Custas segundo o vencimento que vier a apurar-se.

Lisboa, 12 de Outubro de 2017

Maria dos Prazeres Pizarro Beleza (Relatora)

Salazar Casanova

Távora Victor