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O DESAFIO DAS OPOSIÇÕES


2 Coríntios 1.12 a 2.13

"Toda unanimidade é burra" - dizia o escritor Nelson Rodrigues. Sem entrar no mérito
da afirmação, podemos pensar na vida cristã como ausência de unanimidade e, sim, a
presença constante de oposições. Não existe vida cristã sem oposições. Elas se
constituem sempre num desafio à prática autêntica do cristianismo.

A vida de Jesus e de seus apóstolos foi marcada pela presença constante de


oposições. O dia a dia da Igreja em Atos, mostra a existência das oposições, que
impuseram à comunidade cristã dolorosas perseguições, muitas chegando à via da
morte, como foi o caso de Estevão (At 7.54-60) e Tiago (At 12.1-3).

Os reformadores João Huss, Lutero, Calvino e outros, registraram sua existência


sempre enfrentando oposições acirradas à sua pessoa e à mensagem do Evangelho.
As oposições são sempre de natureza variada.

Às vezes são externas, às vezes internas, vindo de dentro da própria comunidade,


visando desestruturar a Igreja. No estudo de hoje, estaremos analisando e refletindo
sobre as oposições que sobrevieram a Paulo e seu ministério em Corinto. Tomando
por base o texto de II Coríntios 1.12 a 2.13, veremos o desafio das oposições.

Análise do texto
O relacionamento de Paulo com os cristãos de Corinto aconteceu por um bom período
(provavelmente 50-57 AD), e não foi uma questão tão simples assim. A leitura das
duas cartas que o apóstolo lhes escreveu mostra isso.

Na seção em apreço (II Co 1.12 a 2.13), Paulo está consciente de que havia certas
críticas a seu caráter e forma de atuar. Depois de uma palavra inicial, dando graças
pelo conforto divino (II Co 1.3-11), ele defende sua integridade pessoal (1.12-14) e
depois, justifica-se quanto à mudança de planos sobre sua viagem a Corinto (1.15 a
2.4). Finalmente, oferece e ensina o perdão ao seu ofensor (2.5-11).

O apóstolo começa a ser desafiado pela oposição dentro da própria Igreja. Ao visitar
Corinto, torna-se alvo de maldoso ataque pessoal disparado por um indivíduo que,
segundo ele, "causou tristeza não apenas a ele" (2.5).

Segundo nota de rodapé da Bíblia Vida Nova, "duas falhas eram atribuídas a Paulo: a)
leviandade ou inconstância; b) Inconsistência.”

As acusações teriam por base a mudança em seus planos de viagem. Em I Coríntios


16.5, ele havia prometido visitá-los depois de haver passado pela Macedônia. Mas,
conforme ele explica no texto, fez uma mudança em seu itinerário, de modo que foi
visitá-los antes de partir para a Macedônia.

Diz Paulo: "Resolvi ir primeiro encontrar-me convosco..." (v. 15).

Seria tempestade em copo d'água? Pode ser! Algumas oposições na comunidade


cristã sempre nascem de picuinhas. Paulo afirma enfaticamente que não é homem de
duas palavras e toma Deus por testemunha, pois parece que ele achava que se a
autenticidade de sua palavra concernente a planos de viagem estava sendo
questionada, também seria de questionar-se a veracidade da mensagem de seu
evangelho.

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Diz ele: "Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi por nosso intermédio anunciado
entre vós... não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim " (II Co 1.19).

Nisso tudo, o desejo de Paulo é a paz da Igreja. Ele quer ver a reconciliação
restaurando a vida da comunidade e exorta os coríntios a reafirmarem seu amor pelo
ofensor, anulando assim qualquer possibilidade de ataque de Satanás sobre a
congregação, por meio desta questão (v. 11).

Como o apóstolo enfrentou o desafio das oposições? Podemos dizer que este desafio
é enfrentado das seguintes maneiras:

1 - AS OPOSIÇÕES DEVEM SER ENFRENTADAS COM UMA


CONSCIÊNCIA LIMPA (1.12-14).
Paulo tinha sua consciência limpa. Estava tranquilo, pois em nada fora leviano. Para
enfrentarmos o desafio das oposições, dentro ou fora da Igreja, é preciso estar com
uma consciência limpa.

Devemos enfrentar o desafio das oposições com confiança nesta consciência. Num
viver santo e sincero diante de Deus, Paulo estava consciente que não estava
enganando ninguém; ele sempre procurava comportar-se de modo exemplar. Mais
tarde se defenderia, dizendo: "Porque nós não estamos, como tantos outros,
mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de
Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus" (II Co 2.17).

O apóstolo se "recomendava à consciência de todo homem" (II Co 4.2). O mesmo fez


Samuel quando resignou o seu cargo diante do povo. Sua consciência estava tranquila
e Israel nada pode dizer contra sua pessoa, pois ele era um homem íntegro e de
consciência limpa (I Sm 12.1-5).

A mesma integridade podemos ver na vida do profeta Daniel. Quando seus


adversários procuraram alguma coisa de que o acusar, não acharam nada "porque ele
era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa" (Dn 6.4).

Essa integridade pessoal, essa consciência limpa foi usada por Paulo na luta contra
seus opositores e esta é uma arma, sem dúvida, eficaz ao enfrentarmos o desafio das
oposições. Este desafio nos leva a buscar uma consciência cristã, limpa e pura. É
preciso ter uma consciência tranquila diante de Deus, dos homens e de si mesmo.

2 - AS OPOSIÇÕES DEVEM SER ENFRENTADAS COM UM


PALAVREADO COERENTE (1.15-20).
O opositor de Paulo em Corinto começou a questionar a veracidade das palavras do
apóstolo. A mudança nos seus planos de viagem originou esta desconfiança.

O apóstolo se defende e enfrenta este desafio afirmando que suas palavras e sua
mensagem sempre foram coerentes. Ele não era inconsistente, pelo contrário, o seu
sim era sim e o seu não era não.

Segundo alguns eruditos, Paulo chega a afirmar isto sob juramento: "Antes, como
Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não é sim e não" (v. 18).

Além de sua palavra pessoal, que foi questionada, a mensagem proclamada também
poderia ser, e o apóstolo sai em defesa da própria mensagem anunciada de um Cristo
que sempre manteve o seu sim, cumprindo suas promessas (v.19,20).

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Palavra de cristão é coisa séria. O opositor, ou os adversários, são mestres em


distorcer ou difamar a pessoa do cristão. É um desafio a ser enfrentado na própria
existência da vida cristã e é mister que tenhamos um palavreado coerente,
compromissado com a verdade, e emudecendo as oposições (I Pe 2.12,15).

Nosso Senhor Jesus Cristo enfrentou muito bem os seus adversários, com um
palavreado sério, coerente, fazendo calar seus adversários. Quando os principais
sacerdotes e fariseus mandaram guardas para prendê-lo e estes não o fizeram,
perguntaram aos guardas: "por que não o trouxeram?" A resposta foi: "Jamais alguém
falou como este homem" (Jo 7.45,46).

"O peixe morre pela boca", diz o ditado. Nós também poderemos sucumbir diante das
oposições se não observarmos, em nossa prática cristã, um palavreado coerente e em
harmonia com o evangelho de Cristo.

3 - AS OPOSIÇÕES DEVEM SER ENFRENTADAS COM A


CONFIABILIDADE DA OBRA DE DEUS EM NÓS (1.21-24).
A melhor resposta àqueles que se opõem aos cristãos, é mostrar a obra de Deus em
suas vidas. Esta foi a resposta de Paulo aos que lhe atribuíam inconstância, por causa
das mudanças nos planos de viagem: a obra de Deus em sua vida garantia a
confiabilidade de tudo quanto ele dizia.

Nos versículos 21 e 22, há quatro expressões que comprovam a natureza da obra de


Deus em nós.

A primeira expressão é "confirmar" - "mas aquele que nos confirma convosco em


Cristo", indica seu fortalecimento. Deus nos fortalece e nos confirma para que sejamos
dignos de confiança.

A segunda é "ungir" - "e nos ungiu, é Deus... ", que indica aqui um comissionamento
para uma obra específica.

A terceira expressão é "selar" - "que também nos selou"..., significa manter em


segredo, ou marcar com um sinal identificador. "Aqui, com a frase: "que também nos
selou", é quase certo que Paulo tinha em mente que Deus nos dotou do Espírito
Santo, cuja presença é a marca identificadora de todo crente verdadeiro" (Rm 8.9), diz
Colin Kruse.

A quarta expressão é "penhor" - "e nos deu o penhor do Espírito em nossos


corações"; o termo é aplicado de modo figurado, referindo-se ao Espírito Santo que
Deus concede aos cristãos, como garantia de total participação dos mesmos nas
bênçãos do porvir.

A obra do Senhor Deus em nós é completa e é elemento essencial que auxilia nos
desafios que as oposições implementam dia a dia. É o Espírito de Deus que confirma
e unge aqueles que nele creem, e é a presença do Espírito que autentica e sela a
missão e a mensagem de cada um.

É a obra de Deus em nós que autentica nossas palavras, nosso procedimento, nossa
vida, e também garante nossa defesa perante qualquer adversário.

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4 - AS OPOSIÇÕES DEVEM SER ENFRENTADAS COM AMOR E


PERDÃO(2.1 -13)
Paulo enfrenta o desafio das oposições com amor e perdão ao ofensor, e reforça este
ensinamento profundamente evangélico, tão bem ministrado por nosso Senhor Jesus
Cristo (Mt 5.38-48).

A Igreja aplicou a disciplina ao opositor, mas transbordaram de alegria por praticarem


o perdão e, consequentemente, a readmissão daquele à comunhão da Igreja (v.7,8).

Em outra ocasião, escrevendo aos cristãos de Roma, Paulo dá o mesmo antídoto


perante o desafio das oposições: "Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de
comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas
sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem" (Rm
12.20,21).

A comunidade cristã precisa praticar, sempre, o amor e o perdão ensinados pelo


Mestre, entendendo que a melhor maneira de enfrentar o desafio dos inimigos, é
torná-los amigos pela prática do amor e do perdão.

AUTOR: REV. AÍLTON GONÇALVES DIAS FILHO

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