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OS FLAGELOS
Apocalipse 15

Neste estudo analisa os capítulos 15 e 16 do Apocalipse, trecho que apresenta


semelhança com os capítulos 8 e 9 e 11.15-19 - as trombetas. Há um paralelo entre as
seções das sete trombetas e a dos sete flagelos. As trombetas atacam a terra, o mar,
os rios e fontes de água, o sol, a lua e as estrelas, e a humanidade.

A terça parte do "alvo" de cada trombeta é destruído. As sete taças com os flagelos
atacam a terra, o mar, os rios e fontes de água, o sol e a humanidade. Com a
diferença que não apenas um terço de cada elemento desses é destruído, mas a
totalidade de cada um deles.

Outra diferença significativa é que as trombetas visavam dar uma oportunidade de


arrependimento aos pecadores. Os flagelos, no entanto, demonstram o justo derramar
da ira de Deus contra os que, mesmo castigados, não se arrependem (cf.Ap
16.9,11,21).

Observa-se, ainda, a semelhança dos flagelos (e das trombetas) com os textos de


Êxodo que apresentam as pragas que Deus usou para castigar o Egito.

FLAGELOS DO APOCALIPSE PRAGAS DO EGITO


Úlceras malignas (16.2) Úlceras malignas (Êx 9.10)
Mar e fontes de água transformados em Águas transformadas em sangue
sangue (16.3,4) (Êx 7.17-21)
Trevas (16.10) Trevas (Êx 10.21,22)

O tema do Êxodo é muito importante para a compreensão do Apocalipse: a igreja é


apresentada como o povo de Deus que é injustamente perseguido por um império
poderoso.

Humanamente falando, esse povo é indefeso diante desse império. Mas Deus castiga
o império opressor com flagelos, como no passado castigou o Egito com pragas. Os
paralelos não param por aí. Em Êxodo 15.1-18, encontra-se o cântico de Moisés, em
louvor ao Deus Eterno pela libertação concedida a Israel.

Em Apocalipse 15.3,4 é dito que os vencedores da besta - os fiéis ao testemunho de


Jesus - entoam o cântico de Moisés. Uma palavra especial precisa ser dada com
relação ao sexto flagelo, que fala sobre uma grande guerra contra Deus.

Especialmente o versículo 16, que fala sobre um "lugar" chamado Armagedom - esse
é um dos textos do Apocalipse que mais tem sofrido interpretações sensacionalistas e
fantasiosas, que violentam a intenção original do autor.

Alguns intérpretes entendem que o texto de 16.12-16 é uma profecia de uma futura
guerra mundial que será travada em Israel imediatamente antes do "fim do mundo". A
palavra Armagedom significa "monte de Megido". O problema é que, em Israel, a
região do Megido, lugar de importantes batalhas travadas em sua história (Jz 5.19; II
Rs 23.29,30), é uma planície.

O monte mais próximo é o Carmelo, distante cerca de dez quilômetros.

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A melhor maneira de se entender o Armagedom é interpretá-lo não como um lugar


literal, mas como um símbolo de oposição contra Deus. É lógico que se trata de uma
oposição inútil: Deus destruirá todos os que não o aceitam como Senhor.

1 - OS FLAGELOS SIMBOLIZAM A IRA DE DEUS CONTRA OS


QUE NÃO SE ARREPENDEM
Não há dúvida de que em Apocalipse 15.1 e 16.1 os flagelos têm a ver com a ira de
Deus. Portanto, é necessário estudar um pouco sobre a ira de Deus, para uma melhor
compreensão do texto.

Em geral, o tema da ira de Deus não é apreciado pelas pessoas, cristãs ou não.
Prefere-se falar a respeito do amor, da bondade, da compaixão e da misericórdia de
Deus. De fato, a Bíblia ensina que Deus é amor. Mas também não esconde que Deus
se ira.

Na verdade, porque Deus é perfeito, tem que ter ira e amor, amor e ira. Se Deus
tivesse amor, mas não tivesse ira, não haveria justiça na História. Mas se Deus só
tivesse ira, não existiria amor na História, e todos teriam sido completamente
destruídos há muito tempo. Em Deus, amor e ira existem em perfeito equilíbrio.

O ensino bíblico sobre a ira de Deus deixa claro que o Senhor só manifesta seu furor
contra os que, mesmo advertidos e exortados à conversão, não se arrependem de
seus pecados. Os contemporâneos de Noé foram destruídos pelo dilúvio porque não
atenderam à pregação de justiça que ouviram (II Pe 2.5).

A lei de Moisés advertia quanto ao castigo reservado para os que se afastassem do


Senhor (Dt 28.20). O povo de Judá foi castigado porque não deu ouvidos à mensagem
dos profetas, pregadores do arrependimento (II Cr 36.14-19). O apóstolo Paulo diz que
a ira de Deus cairá sobre todos os que não aceitam o evangelho de Jesus (II Ts 1.6-9).

Em coerência com o ensino do restante das Escrituras, o Apocalipse apresenta, de


modo dramático, o derramamento da ira divina sobre os que não se arrependem de
seus pecados. Em Apocalipse 16.9-11 está escrito que, mesmo com os flagelos,
pessoas não se arrependeram.

E o versículo 21 fala sobre os que, ao invés de reconhecerem seus erros,


blasfemaram contra Deus. É sobre essas pessoas que recai todo o peso da ira divina,
simbolizada nas taças com os flagelos.

Os homens e mulheres sobre os quais a ira de Deus é derramada são os que se


compro-metem com a besta (Ap 13.11-17). São os que, em todos os tempos e
lugares, preferem desfrutar as vantagens de um sistema econômico, político, religioso
e ideológico injusto e mau, contrário aos princípios do Reino de Deus.

São os que só amam a si mesmos, e só querem saber de seus interesses, vantagens


e prazeres. Não importando se, para isso, tenham que ir contra os princípios mais
elementares do projeto de Deus para a humanidade, como amor, verdade e justiça.

São os que servem ao dinheiro e aos bens materiais, ao invés de servirem a Deus.
São os que desperdiçam a oportunidade que têm de receber a salvação pela graça de
Deus.

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2 - OS FLAGELOS SIMBOLIZAM O ACERTO DE CONTAS COM


OS QUE SE RECUSAM A ADORAR A DEUS
Adoração não é algo que se faz apenas durante o tempo em que se está nos cultos.
Também não é algo apenas externo, "da boca prá fora", como se diz (Is 1.10-15).

Adoração a Deus é, na verdade, um estilo de vida, uma atitude que vem do coração,
que deve ser apresentada ao Senhor com sinceridade e amor. Adoração a Deus tem a
ver com a totalidade dos nossos atos (Is 1.16,17).

Quando se entende isso, fica mais fácil entender a seriedade das expressões de
textos como Apocalipse 16.9 - que fala sobre pessoas que sofreram, mas não deram
glória a Deus - e 16.21 - que fala sobre os que, ao invés de darem glória a Deus,
blasfemaram contra Ele.

Nos capítulos 15 e 16 de Apocalipse, o Todo-poderoso acerta as contas com os


rebeldes, que se recusam a aceitá-lo como Senhor de suas vidas e,
conseqüentemente, a adorá-Lo.

Quem não adora a Deus, vai adorar ao dinheiro, ou a si mesmo, ou a uma ideologia
política, ou a uma filosofia, ou a um estilo de vida, ou a qualquer outra coisa. Os
flagelos demonstram a ira de Deus, no decorrer da história, sobre os que não vêem
em Deus a fonte da verdadeira vida e da verdadeira paz.

No texto estudado, os rebeldes sofreram angústias e blasfemaram contra Deus. É a


atitude frontalmente contrária à dos filhos e filhas de Deus que, mesmo em meio a
sofrimentos, não pecam, nem atribuem a Deus qualquer falta (Jó 1.22), pois sabem
que "todas as cousas cooperam para o bem dos que amam a Deus, dos que são
chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28).

Não é de se admirar que o Senhor do universo derrame sua santa ira sobre os que
amam mais a injustiça que a Ele. Pois os rebeldes, não somente recusaram-se a
prestar adoração a Deus, como reuniram-se em conjunto para lutar contra o Senhor
(16.16). Foram completamente derrotados, pois o último flagelo destruiu a cidade,
símbolo de toda oposição contra Deus (16.19; 18.21). E o Senhor Jesus venceu os
seus opositores (19.11-21).

À luz desse texto, a atitude mais sábia que uma pessoa pode ter na vida é abandonar
qualquer postura de rebeldia em relação a Jesus, e tornar-se um dos que o seguem,
amam-no e adoram-no (Ap 7.9-12).

3 - OS FLAGELOS PRODUZEM LOUVOR A DEUS PELA


MANIFESTAÇÃO DE SUA JUSTIÇA
Em Apocalipse 15.2-4, João fala sobre a visão que teve de um mar de vidro, onde
estão os que, com harpas de Deus nas mãos, entoam o cântico de Moisés e do
Cordeiro.

A cena descrita por João é baseada em Êxodo 15, onde se lê que, após a travessia do
Mar Vermelho, Moisés e os filhos de Israel louvaram a Deus pela sua vitória sobre o
exército egípcio.

Pela mesma forma, os que venceram "a besta, a sua imagem, e o número do seu
nome "(15.2), louvam a Deus com gratidão no coração.

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São os que, em todos os tempos e lugares, recusam-se a trocar seu compromisso


com Deus, por seja lá o que for. Mesmo que, para isso, tenham até que perder a vida.
O "mar de vidro" que João viu é, com certeza, símbolo da transparência dos atos
justos de Deus na história, para vindicar seu povo fiel.

Um culto de adoração a Deus - eis o que João vê. Já se disse na introdução desta
série de estudos bíblicos, sobre a importância do culto no Apocalipse de João.

Comentando a respeito, o falecido missiólogo porto-riquenho Orlando Costas dizia que


os textos de Apocalipse que apresentam a celebração a Deus ensinam o seguinte:

Deus está no controle da História - Textos como Apocalipse 15.2-4 e 16.5-7


mostram a esperança cristã de que o bem vencerá o mal, o amor vencerá o ódio,
Cristo vencerá (como já venceu) Satanás e o Reino de Deus prevalecerá sobre todos
os reinos deste mundo.

O culto está relacionado com a ação de Deus na História e a conversão das


nações ao Deus trino e uno - A adoração a Deus é a resposta natural de homens e
mulheres à redenção que receberam do Senhor.

Quando os redimidos compartilham com outras pessoas o que Deus lhes fez em
Cristo, estão cumprindo a missão da igreja. Portanto, não há missão sem culto, nem
culto sem missão. "A prova de um fiel compromisso missional será uma profunda
experiência de culto", afirma Costas.

Além desses pontos, é preciso destacar, mais uma vez, o que está muito claro em
Apocalipse 15.2-4: os flagelos que Deus manda acontecer na História, levam os
rebeldes à blasfêmia, mas produzem efeito contrário nos salvos pelo Cordeiro.

Estes vão adorar a Deus, porque os flagelos representam a justiça de Deus


acontecendo na História.

1. Alguns desastres podem fazer com que algumas pessoas se arrependam de seus
pecados, e se voltem para Deus. Mas os mesmos acontecimentos na vida de outras
pessoas podem torná-las mais insensíveis ao Evangelho. Por que isso acontece?

2. Deve-se buscar a justiça na sociedade, mas não a vingança pessoal contra os


opressores. Na prática, como isso pode acontecer?

AUTOR: REV. CARLOS RIBEIRO CALDAS FILHO

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