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TOMÉ: O CÉTICO SINCERO


João 20.24-29

Introdução
Tomé - Palavra grega, derivada do hebraico - taom - que significa gêmeo. É também o
nome de um dos doze apóstolos (Mt 10.3), também chamado Dídimo, cujo sentido na
língua grega é o mesmo que Tomé em hebraico.

"Incrédulo como Tomé!" - é uma frase muito comum nos lábios de muitos que desejam
frisar a atitude de descrença e de incredulidade de alguém. Todavia, o Evangelho não
autoriza, rigorosamente, se conceitue o Apóstolo Tomé com o título de "incrédulo".

Tomé teve atitudes de duvida, de descrença mesmo, mas não chegou à incredulidade,
depois de convertido a discípulo de Jesus. A tradução portuguesa de nossas Bíblias
não é exata no texto de João 20.27, onde Cristo diz a Tomé: "Não sejas incrédulo,
mas crente." O sentido completo do que se acha no texto é: "Não venhas a ser, não
venhas a tornar-te incrédulo, mas sê crente."

Há teológica e filosoficamente grande diferença entre "descrença" e "incredulidade".

O "descrente" é a pessoa que tem dúvidas e dificuldades em aceitar as provas que lhe
dão de um fato ou verdade; acha que tais provas não bastam para convencer; exige
mais luzes e mais evidências para acreditar no que lhe afirmam. É uma atitude mais
mental que moral.

É um comportamento temporário, provisório e ocasional, que desaparece logo que a


pessoa tenha as provas que satisfaçam ao seu temperamento reservado e exigente
em crer numa tese. Não é um ato voluntário de "não querer crer", mas de "não poder
crer" provisoriamente, por julgar escassas as evidências.

A descrença é duvida, inicialmente; é desconfiança, é ter receio de cair num erro, ou


num engano. Mas o descrente, quando sincero, não fica inerte. Busca mais luzes e
mais provas, inquire, procura a verdade, e quando encontra as evidências que lhe dão,
sossega, apega-se então à verdade e segue-a fielmente.

O "incrédulo" é diferente. Dele a atitude moral é a vontade de não crer de modo algum.
O incrédulo não é quem duvida; é quem já chegou ao estado normal de, por vontade
própria, não crer mais, sejam quais forem as evidências. É um ato moral permanente,
obstinado, definitivo.

Tomé não era um incrédulo desse tipo. Ele apenas pôs em duvida as provas do que
lhe diziam. Julgou-as insuficientes para satisfazê-lo. Mas ele estava pronto a crer logo
que tivesse as provas que exigia: "Se eu vir suas mãos... o seu lado... crerei!" Tomé,
portanto, não era incrédulo no sentido de recusar crer, de negar qualquer evidência.

Ele desconfiou do testemunho dos companheiros, e teve a franqueza de declarar que


somente vendo creria. E, de fato, quando Cristo lhe deu caridosamente oportunidade
de "ver para crer", Tomé não teve mais duvidas nem incertezas. Ele creu, e foi além -
confessou o seu Mestre calorosa e publicamente, com entusiasmo e grande
demonstração de fé e grande humildade.

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1 - DIAGNÓSTICO DA DÚVIDA
a) A dúvida nunca aparece nos corações sinceros sem motivos.

Tomé contribuiu para que o testemunho dos colegas fosse rejeitado por ele, e isto
devido ao seu temperamento desconfiado e esquivo.

Ele era tardo em entender as verdades espirituais (Jo 14.4,5); era pessimista (Jo
11.15,16); por mais que os outros apóstolos e as mulheres lhe afirmassem que o
Senhor ressurgira, ele foi conduzido logo, pelo seu gênio reservado, a pôr em dúvida
tão extraordinária noticia.

Diria ele: "Quem sabe se não foi apenas um sonho de vocês? Vocês viram algum
fantasma e pensam ser o Mestre! (Lc 24.37). Vocês viram o Senhor em pessoa? Pois
eu só crerei também quando eu o vir e o apalpar..." (Lc 24.38,39).

A atitude de Tomé, pondo em cheque o testemunho de seus colegas, foi deplorável.


Porém, todos nós caímos nessa mesma fraqueza, uma vez ou outra. Um
temperamento exigente, reservado e de si mesmo melancólico pode causar muitos
males. Evitemos o domínio do gênio em nossos corações.

b) Sua ignorância dos fatos.

Aliás, desse mal participaram os apóstolos todos. Ignoraram até ao fim o sentido das
promessas, avisos e advertências que Jesus lhes dera, tanto de sua morte como de
sua ressurreição. Não esperavam isso. E quando Jesus ressurgiu, foi uma coisa
inesperada, enquanto deviam ter esperado. Pois essa ignorância deu a todos os
apóstolos motivo para dúvidas.

Não foi só Tomé o descrente quanto às novas da ressurreição. Todos descreram do


testemunho de Madalena (Mc 16.11). Descreram da palavra dos dois caminhantes de
Emaús (Mc 16.12,13). Jesus reprovou-lhes a descrença (Mc 16.14). Tomé foi apenas
imitador dos colegas na sua fria desconfiança. A ignorância dos fatos leva à
descrença.

Por isso, muitas almas estão sofrendo, espiritualmente, angústias e incertezas, só


porque ignoram o conteúdo da Escritura ou os fatos todos do Cristianismo.

c) A perda de uma boa oportunidade.

Jesus dera aos apóstolos excelente demonstração de sua ressurreição, aparecendo-


lhes no cenáculo à tarde do primeiro domingo de sua vitória sobre o túmulo (Jo 20.19-
24). Neste dia Tomé se achava ausente. Estaria ele fora da companhia dos apóstolos
por motivos justos, ou não? O Evangelho nada nos diz sobre este ponto. Talvez,
desanimado e pessimista como era, ficasse sozinho em algum canto a meditar na sua
dor, com saudade do seu Mestre morto.

O fato é que Tomé perdera ótima ocasião de tirar as dúvidas de sua alma naquela
noite feliz. Estava ausente. E assim acontece com centenas de pessoas que duvidam,
que chegam à quase destruição, só porque não sabem aproveitar as boas
oportunidades de esclarecimento e de cultivo espiritual, não indo ao templo, não lendo
as Escrituras, não lendo as obras cristãs, ignorando, enfim, os processos de
divulgação da fé.

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d) Seu excesso no julgamento das evidências oferecidas.

Tomé exigia demais. O peso das provas que lhe davam era grande. Cristo fora visto e
encontrado já cinco vezes, cada qual em circunstâncias diferentes: por Madalena; por
um grupo de senhoras piedosas e conhecidas; por Pedro; por dois irmãos no caminho
de Emaús; e por eles, apóstolos, no cenáculo, reunidos. João vira o túmulo de Jesus
vazio. Pedro, também. Eles, igualmente. Tinham-no ouvido. Tocaram-no, fisicamente,
apalpando-o, talvez. Comeram juntos com Ele.

Todavia, Tomé negligenciou tudo isso e ficou agarrado à sua dúvida rigorosa: "Pois eu
exijo mais provas. Exijo que eu tenha o que vocês tiveram. Vocês não o viram? Vocês
não o tocaram? Pois eu só acredito vendo-o e tocando-o também!" Era considerar a
palavra dos outros sem valor, e só aceitável a sua própria opinião. Não é razoável nem
louvável desprezar evidências honestas e dignas.

Por isso, Cristo disse, depois, a Tomé: "Tomé mude de gênio. Se continua assim,
desconfiado e cheio de reservas e exigências, acabará incrédulo de vez. Você só crê
vendo, não é? Pois fé é crer mesmo sem ver primeiro. É crer na palavra e no
testemunho dos que são verdadeiros, dos salvos em Mim."

Quantos corações não chegam à incredulidade impenitente, só porque negligenciam a


Palavra de Deus, o testemunho da História e da experiência cristã e começam a exigir
evidências absurdas, excessivas e até irrazoáveis... Fujamos desse mau hábito.

2 - O TRATAMENTO DA DESCRENÇA
Embora a descrença seja uma atitude perigosíssima, porque pode descambar para a
impenitência, não é mal incurável, graças a Deus.

a) O primeiro passo honesto para a cura da dúvida sincera é fugir dela.

Tomé, com todo o seu temperamento reservado, não permaneceu escravo de sua
descrença. Ele declarou que estava pronto a crer em dadas circunstâncias. E ficou
esperando que estas chegassem. No domingo seguinte, quando Cristo veio de novo
ao grupo apostólico, Tomé lá estava. Se ele pusera em dúvida a palavra dos colegas,
não ficara, todavia, obstinado nisto. Junto com eles esperou mais luzes. Queria
eliminar a sua dúvida. E a eliminou.

b) O segundo passo é não rejeitar as provas evidentes.

Tomé queria ver e apalpar o corpo do Mestre. Ora, isso que seus colegas tinham
obtido não fora bastante para convencê-lo. Ele mesmo queria ver. Mas, não podia ele
mesmo, ao ver Cristo, pensar que delirava? Que sonhava? Que era um fantasma? O
incrédulo dirá tudo isso e mais alguma coisa para escapar à evidência.

Mas, a alma que duvida com desejos de crer não recusa as provas evidentes. Tomé,
ao que parece, nem mesmo teve que tocar a Cristo. Só com vê-lo ficou satisfeito:
"Porque me viste, creste?..." - lhe disse o Mestre. Tomé foi honesto na sua dúvida.
Muito mais honesto na sua confissão!

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c) O passo final é abraçar de coração e de livre escolha a verdade


comprovada.

Tomé se redimiu com a sua linda e tocante confissão: "Senhor meu! Deus meu!"
Satisfeitas as provas, o Apóstolo não teve medo nem receio. Sua confissão foi pública,
inteira, definida, voluntária, permanente e honesta! (Jo 21.2; At 1.13).

SAIBAMOS QUE
1. A religião cristã não aperfeiçoa o crente, de modo completo, na conversão, mas
santifica-o gradualmente, cada dia.

2. Não é pecado ter dúvidas espirituais, se são honestas, sinceras e pesquisadoras. A


dúvida assim sempre conduz à fé e a Cristo.

3. A incredulidade- é a dúvida obstinada, voluntária, que fecha os olhos à luz e à


evidência.

4. A religião cristã satisfaz sempre aos corações que buscam ansiosos a Verdade.

5. Cristo não excomunga uma alma aflita e em dúvidas espirituais, mas trata-a com
paciência e lhe revela os meios de achegar-se à sua Presença.

6. A fé não é crer às cegas e sem ter motivos idôneos de credibilidade, mas é crer na
verdade revelada à luz dos fatos espirituais que a acompanham.

7. "Ver para crer" - é a máxima das religiões falsas, inclusive das que usam ídolos
para "ajudar" os crentes a crerem. "Crer para ver" - é o lema do Cristianismo. Aquele
que crê experimenta depois, na vida e no caráter, as grandes maravilhas da graça, e
na glória a vida eterna.

AUTOR: REV. GALDINO MOREIRA

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