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A ÉTICA DA IGREJA
Lucas 10.25-37

De alguns anos para cá, os estudiosos têm chamado a atenção para o impressionante
crescimento numérico da igreja evangélica no Brasil. Pesquisadores competentes, de
diversas áreas do conhecimento, em todo o mundo, têm tentado explicar esse grande
crescimento em número de membros.

Algumas projeções afirmam que,persistindo as atuais taxas de crescimento numérico,


no máximo até à segunda década do século XXI, haverá mais de 50% da população
do país filiada a uma igreja evangélica. Muitos se alegram e se entusiasmam com tais
perspectivas.

Mas, na verdade, talvez haja mais motivos para alarme, que para alegria da parte dos
cristãos conscientes. Antigamente, no Brasil, ser evangélico era sinônimo de ser
honesto.

A figura do pastor era vista como exemplo de integridade. Lamentavelmente, já não é


mais assim. São inúmeros, em todo o Brasil, os escândalos sexuais, financeiros e
políticos envolvendo pastores, líderes e membros de igrejas evangélicas.

Uma das principais razões para este crescimento em número, marcado por declínio
em qualidade, é a ausência de um discipulado sério e radical que inclua a importância
da ética na vida cristã. Ética tem a ver com o que é certo, correto, justo e bom no
comportamento humano na sociedade.

A ética é uma "ilustre desconhecida" da grande maioria dos evangélicos brasileiros.


Quando os cristãos não têm ética, pode acontecer um desastre semelhante ao de
Ruanda. Essa nação era conhecida como "Pérola da África". Na década de 1930, um
avivamento espiritual produziu milhares e milhares de conversões.

Quase toda a população do país era (e/ou ainda é) evangélica ou católica carismática.
No entanto, há bem poucos anos, uma guerra civil aconteceu no país provocando
mais de um milhão de mortes.

Eram, em geral, cristãos matando cristãos. Uma das razões que explica o fracasso
espiritual do Cristianismo em Ruanda, é exatamente a falta de ética em sua vivência
cristã. Pois eles não aprenderam uma ética de amor ao próximo, mesmo que o
próximo pertença a uma outra tribo.

A Igreja evangélica brasileira precisa urgentemente de ética. O presente estudo


pretende compartilhar algumas ideias referentes a tão importante necessidade.

1 - A BASE TEOLÓGICA DA ÉTICA CRISTÃ


A ética cristã é diferente da ética filosófica. A ética cristã tem uma base que a
distingue, e esta base é teológica. Com relação à base teológica da ética cristã,
podem-se fazer as seguintes afirmações:

Ética centralizada em Deus - Desde o Antigo Testamento, e em todo o Novo


Testamento, o fato inicial e central da ética bíblica é o próprio ser de Deus. Não é sem
razão que a primeira frase dos Dez Mandamentos seja: "Eu sou o Senhor teu Deus,
que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx 20.1,2).

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Deus é a fonte de todo o bem e de toda a justiça. Com razão escreveu o Prof. E.
Clinton Gardner em seu livro "Fé Bíblica e Ética Social": "o Deus vivo de Israel é a
fonte unificadora das exigências morais impostas ao homem e o supremo bem, ou
valor, para o homem".

Ética imperativa - Muitas pessoas defendem uma ética sem mandamentos, sem
preocupação com o que é certo ou errado. Quem pensa assim, tem compromisso
apenas com seu prazer.

O nome que se dá a esta postura é hedonismo: a preocupação individualista apenas


com o prazer. A ética bíblica contrasta com a ética hedonista. Para a ética bíblica, a
preocupação primeira é com a justiça.

Por isso, a ética bíblica é imperativa, e não apenas sugestiva. Em outras palavras:
Deus manda e não pede. Suas palavras são mandamentos, não são sugestões ou
conselhos.

Ética voltada para pessoas - Percebe-se que nos últimos anos, com o predomínio da
filosofia econômica do neoliberalismo, tem surgido uma grande preocupação com a
posse, a aquisição e o consumo de bens materiais.

Quem pode consumir, desfruta de respeito da sociedade. Na crítica bem feita do Rev.
Robinson Cavalcanti (na edição de Maio/97 da revista Ultimato), as pessoas passam a
ser vistas como consumidoras, não como cidadãs.

Mas a ética bíblica contrasta fortemente com esta atitude. Pois a ética bíblica
preocupa-se com seres humanos. Por isso há tanta insistência no mandamento de
amar ao próximo: Lv 19.18; Jo 13.34,35; 15.12,17; Rm 13.8-10; Gl 5.14; Tg 2.8; I Jo
3.11; 4.7; II Jo 5,6.

Assim, pode-se entender melhor algumas leis do antigo Israel, como a do Jubileu (Lv
25.10,23-28) e da rebusca (Lv 19.10, cf. Rt 2), que preocupam-se com o ser humano e
sua dignidade, e não com coisas ou posses.

2 - A ABRANGÊNCIA DA ÉTICA DA IGREJA


A Igreja cristã, no terceiro milênio de sua história, ou em qualquer outro período,
precisa ter uma compreensão correta da abrangência de sua ética. É extremamente
comum encontrar pessoas que, no que diz respeito à ética, pensam apenas em termos
de uma ética individual.

Esse tipo de ética tem a ver com a proibição dos diversos tipos de vícios e maus
costumes que o ser humano costuma praticar, e é conhecida tecnicamente como
"microética".

A microética, em si, não é de modo algum errada. Na verdade, convém mesmo que os
cristãos desfrutem da liberdade que Cristo Jesus concede, e não se deixem dominar
por nenhum vício. O grande problema é quando alguém pensa que ética cristã tem a
ver somente com questões individuais.

A ética cristã tem a ver com isso, e com muito mais. Na verdade, a ética bíblica e
cristã é muito mais abrangente. Tem a ver com assuntos que muitos crentes
desprezam, como Economia e Política etc. Esta ética abrangente é conhecida pelo
termo técnico "macroética".

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Há ampla base bíblica para a ética de alcance abrangente. Os profetas do Antigo


Testamento, por exemplo, tinham mensagens da parte do Deus Eterno com conteúdo
político (Is 10.1-4; Am 1.1-2.3), social (Is 5.8; Jr 21.13-23) e econômico (Mq 6.9-13).
Mas também não deixavam de condenar pecados individuais (Is 5.11; Os 4.1,2).

Sendo assim, estão equivocados os que pensam que não é dever da Igreja ter uma
palavra de orientação aos seus membros com relação a assuntos erradamente
considerados não espirituais.

Especialmente no que diz respeito à Política (que é particularmente abominada por


muitos crentes), é necessário que os cristãos se conscientizem da necessidade
tremenda e urgente que a Igreja tem de apresentar ao mundo uma crítica profética
contra toda e qualquer atitude que atropele a justiça.

Uma ética abrangente honra a Deus. É oportuno lembrar a conhecida frase de


Abraham Kuyper, teólogo reformado e líder político holandês, dita por ocasião da
inauguração da Universidade Livre de Amsterdam, da qual foi o fundador: "não há
nem um centímetro em todo o universo a respeito do qual Cristo não possa dizer: isto
é meu".

No que diz respeito à abrangência da ética da Igreja, é preciso dar uma ênfase
especial ao aspecto sociopolítico. Poucas áreas são tão importantes quanto esta para
os cristãos darem seu testemunho de filhos e filhas do Deus justo. No entanto,
lamentavelmente, esta é uma das áreas mais negligenciadas pelos evangélicos em
geral.

O Rev. John Stott apresenta em seu livro "O Cristão em uma Sociedade Não Cristã",
como o movimento evangélico ocidental, em geral, passou por uma reviravolta no que
concerne ao envolvimento com questões políticas e sociais, passando a considerar
este envolvimento pecaminoso.

Evidentemente, esta reviravolta está em total contradição com os salutares princípios


da Reforma Protestante. O mesmo Stott aponta como solução para este grave
problema, a formulação de uma teologia mais abrangente de Deus, da criação, e do
ser humano.

Especialmente na América Latina, é necessário que o povo de Deus assuma


definitivamente uma ética de grande alcance, como sinal do Reino, buscando justiça,
paz, e integridade da criação no mundo, debaixo do senhorio absoluto de Cristo Jesus.

3 - GRANDES DESAFIOS DA ÉTICA DA IGREJA


A ética cristã orienta-se por princípios de valor permanente, que estão na Bíblia,
Palavra de Deus. No entanto, a ética da Igreja é voltada para os desafios que lhe são
apresentados pelo contexto onde se encontra.

Sem a pretensão de esgotara lista, pode-se fazer a apresentação de alguns destes


desafios, que são:

Ética ecológica - Cresce cada vez mais a conscientização quanto à importância do


cuidado com a natureza, criação de Deus. Há necessidade de que os cristãos nâo
apenas formulem uma ética biblicamente orientada com relação à natureza, mas
também que a pratiquem.

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É pena que, como tem acontecido com outras áreas, os cristãos acabem não se
pronunciando com relação a uma ética ecológica, omitindo-se, enquanto não-cristãos
levantam esta bandeira.

Ética da sexualidade - Cresce o número de pessoas que apresentam um liberalismo


completo em tudo que tem a ver com a sexualidade. São defensores de uma ética do
"vale tudo" no sexo, sem qualquer restrição ou impedimento. Uma postura cristã
quanto ao sexo, biblicamente orientada, é mais que necessária, agora, e nos anos
porvir.

Ética da vida - Uma das mais recentes aplicações da ética é a assim chamada
"bioética", a ética da vida. Em um tempo como o que estamos vivendo, quando
assuntos como "engenharia genética", "clonagem", "mães de aluguel", e outros, não
são temas de filmes de ficção científica, mas parte da realidade, é necessário que os
cristãos formulem uma ética embasada em princípios bíblicos, que possibilite uma
abordagem cristã de tais temas.

Ética de relacionamentos - Nosso tempo vê crescer cada vez mais tensões raciais e
étnicas. Não são poucos os desastres nos relacionamentos conflituosos entre
diferentes povos, como o de Ruanda, citado na introdução deste estudo. No Brasil, tais
tensões não são tão fortes.

Mas acontecem em escala reduzida. Um exemplo, é a maneira como nordestinos são


tratados no sul e sudeste do país, quase sempre de maneira preconceituosa. Pessoas
de raça diferente, quase sempre são vistas de maneira negativa.

Uma ética de relacionamentos é tremendamente necessária em nosso mundo, que se


torna menor, devido à velocidade e facilidade dos transportes e da crescente onda de
globalização. É preciso aprender a conviver com quem é diferente.

Que os cristãos saibam produzir e viver uma ética que glorifique o nome de Cristo
Jesus em todas as áreas de atuação humana!

DISCUSSÃO
1 - Por que, em geral, a Igreja concentra sua atenção apenas em questões ligadas à
moral sexual, e despreza questões como agiotagem, maledicência, mentira, orgulho,
falta de misericórdia etc?
2 - Por que, quase sempre, a Igreja tem tanta preocupação com crescimento
numérico, e não com crescimento ético?

AUTOR: REV. CARLOS RIBEIRO CALDAS FILHO

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