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Entre a falta e a saudade

É certamente emblemático de nossa era contemporânea, e talvez do ocidente


positivista e materialista no qual nascemos e crescemos por muitas gerações, que ainda hoje
façamos a dolorosa confusão entre dois irmãos gêmeos, mas bivitelinos: a falta e a saudade.

Posso dizer-te: “senti tua falta”, e também “senti saudades de ti”, e provavelmente me
entenderias da mesma forma. Uma pena. Para que possamos nos expressar melhor (e nos
entender melhor, por que não?), é preciso que resgatemos o universo que vive na pequena
diferença entre as duas afirmações.

A falta que ora sentimos existe no vácuo que restou da ausência inesperada de algo
ou de alguém. Ela nasce na interrupção da naturalidade que nós, seres ligados intimamente ao
Todo Universal, somos capazes de perceber consciente ou inconscientemente. Um amigo
querido que foi subitamente arrebatado pela violência do mundo nos faz falta. Um pai ou uma
mãe que nos tenham abandonado nos farão muita falta. O estudo perdido, o carro roubado, o
parceiro traído, a oportunidade não aproveitada e o perdão outrora negado, todos nos farão
falta.

“Eu sinto falta de ti, pois ainda deverias estar aqui comigo”, poderia dizer-te.

A saudade, como gêmea amorosa e esclarecida, tem em sua natureza a leveza da


eternidade pela qual ansiamos. Ela só existe verdadeiramente como doce memória de coisas,
pessoas ou situações que se concluíram totalmente em nossa vida. O amigo querido que tomou
caminho diferente após anos de convivência nos dá saudades. Um pai ou uma mãe que tenham
partido após uma vida completa de batalhas, dificuldades e alegrias, serão lembrados com
muitas saudades. As viagens aproveitadas, as confidências trocadas, os queridos que partiram,
a verdadeira amizade separada pela distância e a infância verdadeiramente vivida, todos nos
darão saudades.

“Eu sinto saudades de ti, pois os momentos que vivemos foram felizes”, poderia dizer-
te.

Atenta-te que a falta nos encontra a todos, mas a saudade é reservada para aqueles
preparados para compreender que tudo que começou eventualmente se conclui. Lembra-te: o
fim de todas as coisas é importante. A relutância em observar e aceitar os ciclos que compõem
a vida material é força terrível, capaz de transmutar a saudade memorável na falta dolorosa.
Alguém mais sábio do que eu pode ter dito algures: “para os poucos que finalmente
abandonaram a pretensão de conhecer todas as pontas, nada lhes fará falta que tenha findado”.
Mas para nós que ainda nos confundimos, navegando os olhos pelas linhas infindáveis e
convolutas, resta conhecer bem a distinção.

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