Você está na página 1de 5

ESPACIALIDADE E GESTÃO: O PANÓPTICO ESCOLAR

Gutemberg de Queiros Lima1; José Josberto Montenegro Sousa2;

1
Estudante do Curso de Licenciatura em História do Instituto de Humanidades e Letras;
e-mail:gutembergdequeiros@yahoo.com; 2 Professor (a) do Curso de Licenciatura em
História do Instituto de Humanidades e Letras

Resumo
No presente trabalhou buscou apresentar as vivências e problemáticas no estágio da gestão na
escolar Dr. Brunilo Jacó. Através de observações e livres entrevistas, procuramos destacar a
relação da infraestrutura da escola e a atuação do núcleo gestor, prezando pelos locais em que tais
sujeitos atuam, como a sala de direção, sala dos professores, secretaria e a sala de multimeios,
bem como todo o plano externo da instituição. Partimos para tal problemática ao considerarmos
o plano físico da escolar como importante elemento para o ensino, bem como para as atividades
dos gestores. O que constatamos foi uma postura vigilante dos coordenadores e da direção,
embasada pela lógica estrutural panóptica em que a escola se assenta.

Palavras-chave: Gestão Escolar. Estrutura Escolar. Estágio.

Introdução

O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência de estágio


observacional de gestão realizada na escola Dr. Brunilo Jacó, mediante requisito do Curso
de Licenciatura em História da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia
Afro-Braileira, UNILAB. A atividade teve como objetivo, considerando os anseios do
estágio de gestão, acompanhar os setores administrativos e reguladores da instituição
escolar. Porém, prezamos nesse trabalho especificar a seguinte problemática: a relação
do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e a realidade, no que concerne o espaço
estrutural da instituição. Buscamos evidenciar o plano infraestrutural tendo em vista a
necessidade de perceber e avaliar as ações e as abordagens dos funcionários gestores
mediante o cotidiano escolar. Entender como a configuração espacial da escola influência
nessas práticas. Constatamos que a gestão é o setor fisicamente centralizado na escola,
uma vez que “a direção e a coordenação correspondem a tarefas agrupadas sob o termo
gestão” (LIBÂNEO; OLIVEIRA; TOSCHI; 2012, p. 475) e tanto coordenação como sala
da direção se alocam em setores cêntricos da instituição. E que tal situação abarca fatores
positivo e negativo.

A observação foi cumprida no período compreendido entre: 20 de setembro de


2017 à 10 de novembro. A referida escola está situada na cidade de Redenção, no Av.
Contorno Sul no Conjunto Antônio Bonfim, detendo de 711 alunos, distribuídos em 19
turmas em regime regular, e com alunos entre 13 e 20 anos de idade. A Escola Brunilo
Jacó se encontra na zona urbana de Redenção e pertence à rede estadual, na
Coordenadoria Regional de Desenvolvimento - CREDE 8

Desenvolvimento

Em termos de metodologia, buscou-se neste trabalho registrar no cotidiano as


ações desempenhas pela equipe gestora na escola com o intuito de identificar a
concordância entre o que o Projeto Político Pedagógico com a configuração da estrutura
espacial e a maneira como interfere no desenvolvimento das atividades de ensino e
aprendizagem. O processo de observação desenvolveu se mediante presença majoritária
no período matutino, das 07:00 às 11:00, acompanhando os seguintes setores: pátio,
galerias externas, quadra poliesportiva, multimeios, secretária, sala dos professores e
diretoria. Além disso, foi feita uma análise do PPP, que fora disponibilizado de forma
solícita pela coordenação da Dr. Brunilo Jacó; Em cada referido setor optamos por uma
observação contínua, ficando assim cada dia em um local diferente. Isto se mostrou
necessário por conta da demanda de outros estagiários na dita escola, afim evitar lotação
em um mesmo local. A observação em espaços externos como o pátio, as galerias e a
quadra, se deram de forma descontraída, sem necessidade de autorização dos gestores e
com receptividade favorável dos estudantes à nossa presença. Os âmbitos fechados como
a secretaria, sala dos professores e diretoria eram logicamente solicitados para nos
fazermos presentes, e avaliávamos o espaço e o fluxo dos seus usuários de forma
distanciada, mas com a nossa presença sendo sempre notada. Quando em cada local,
foram feitas entrevistas livres, em busca de entender a perspectiva dos funcionários em
relação às problemáticas enfrentadas, bem como as estratégias adotadas pelos gestores da
instituição. Dessa forma, o trabalho seguiu um caráter etnográfico, sendo as vivências
percebidas devidamente anotados em caderno de campo, com uma observação-
participante, tendo em vista que foram feitos questionamentos acerca da estrutura escolar.
A importância dessa abordagem adotada é apontada por Marli de André:

Esse tipo de pesquisa permite, pois, que se chegue bem perto da escola
para tentar entender como operam no seu dia-a-dia os mecanismos de
dominação e de resistência, de opressão e de contestação ao mesmo
tempo em que são veiculados e reelaborados conhecimentos, atitudes,
valores, crenças, modos de ver e de sentir a realidade e o mundo.
(ANDRÉ, 1995, p. 41)
Dado os objetivos do estágio de gestão, que se funda em vivenciar e compreender
os elementos administrativos e financeiros da escola, se prezou pelo contato com os
funcionários dos já referidos setores. Além disso, foi elaborada uma análise de
documentos disponibilizados como quadro de funcionários, alunos e o próprio PPP. A
necessidade de avaliar o espaço da escola no que se refere a estrutura arquitetônica parte
da ideia de Kowaltowski (ano?) da existência de uma relação entre a pedagogia e
arquitetura, colaborando para o reconhecimento e distinção dos espaços mediante a
utilização da comunidade escolar. Tal noção é expressa na obra Arquitetura Escolar: o
projeto do ambiente de ensino; Sob esta responsabilidade, focamos o trabalho em pautar
os espaços da Escola Dr. Brunilo Jacó, mediante o que é apontado em seu PPP e o que
foi percebido durante o estágio de gestão. Partimos então com o seguinte argumento de
Kowaltowski:

O ambiente físico escolar é, por essência, o local do desenvolvimento


do processo de ensino e aprendizagem. O edifício escolar deve ser
analisado como resultado da expressão cultural de uma comunidade,
por refletir e expressar aspectos que vão além da sua materialidade.
(KOWALTOWSKI, 2011, p. 11)
Há um sucinto histórico relatado no PPP da Escola Dr. Brunilo Jacó (EBJ),
apontado o início da instituição, bem como a criação de seu prédio. A instituição foi criada
em janeiro de 1983, exatamente cem anos após a libertação dos escravizados em
Redenção, funcionando inicialmente no prédio da Escola Saraiva Leão. A escola,
anteriormente detinha o nome de 1º de Janeiro, se alocava no referido prédio, localizado
frente a praça da igreja matriz, sendo assim um espaço centralizado em relação a cidade.
O prédio atual onde se encontra a escola foi construído apenas em 1986, e ativando o
funcionamento apenas ano seguinte, como a denominação de Escola de Segundo Grau
Dr. Brunilo Jacó, mediante decreto nº 17.732, de 27 de janeiro de 1986, em terreno que
fora doado em 1981. Dentre os elementos espaciais relevantes, destacamos a localização
da escola como um todo. O Conjunto Antônio Bonfim é uma área que está separada do
espaço central da cidade de Redenção, nas proximidades de seu limite com o município
de Acarape. A comunidade que por sua vez está próxima a escola é consideravelmente
pequena, deixando assim o prédio escolar em destaque. No que se refere a arquitetura
interna da escola, o espaço se desenha como em H, com quatro duas galerias em paralelo
onde se dispõe salas de aula e do setor administrativo, estando o pátio central em
interseção, e ao fundo uma quadra poliesportiva. O PPP aponta que há cerca de nove salas
de aula, uma sala de multimeios, um laboratório de informática, um laboratório de
ciências, dois banheiros para alunos, dois banheiros para funcionários, uma secretaria,
uma sala de direção, uma sala dos professores, uma sala de orientação educacional, uma
cantina e uma quadra poliesportiva.

Uma problemática recorrente durante a observação fora a alocação de espaços


como a secretaria e diretoria com caixas e materiais de manutenção. Ao questionar o
motivo me foi respondido que se devia justamente a falta de um almoxarifado como
depósito. Disso, se nota uma discordância com o PPP que afirma haver tanto almoxarifado
como um depósito. No entanto, a questão chave que nos guia nessa análise da estrutura é
o formato espacial da escola. Em disposição em H põe em cheque uma perspectiva
conhecida: o pan-optico. Ou seja, uma configuração em que um plano central possui
acesso ao ambiente geral. Cada galeria possui um vão aberto que possibilita uma ampla
visão de que está no patamar central. Não à toa, que os espaços administrativos da gestão
estão alocados neste ponto. Secretaria, Coordenação e Direção se concentram em um
ponto de interseção com toda a estrutura escolar. A acessibilidade a estes espaços se
democratiza, ao mesmo tempo que os mesmos tornam sua vigilância mais eficaz. Em
observação notamos que tanto os coordenadores como o diretor possuem uma autoridade
respeitada pelos alunos, assim como mantem relação amistosa com os mesmos. Isso se
demostrou quando estudantes eram ordenados a voltarem as salas e durante os intervalos
em que diretor e coordenadores dialogavam de forma amigável com os discentes.
Considerações finais

O que observamos e destacamos acerca da espacialidade da escola é que esta


possui uma estrutura adequada para o ensino. Suas salas bem equipadas e climatizadas,
tantos os setores da gestão como as salas de aula, e mecanismos de acessibilidade
adequados, como rampas e corrimão, são pontos positivos que favorecem à prática
educacional da Escola Dr. Brunilo Jacó. O que percebemos como problemático em
relação a sua localização é o deslocamento dos alunos e funcionários, que estão
nitidamente dependentes dos transportes escolares, sendo estes mantidos e controlados
pelo governo do estado e particulares. Dessa forma há um distanciamento físico evidente
da instituição com a comunidade. No plano interno, notamos que seu caráter pan-óptico
é utilizado não apenas como medida disciplinadora e vigilante. A boa relação que é
mantida entre gestores e alunos demonstra que a arquitetura do controle é utilizada
também de forma cordial, aproximando diretor e coordenadores do corpo estudantil.

Referências

ANDRÉ, M. E. D. A. Etnografia da prática escolar. Campinas: Papirus Editora, 1995.

CEARÁ. Escola de Ensino Médio Dr. Brunilo Jacó. Projeto Político Pedagógico.
Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação. Baturité. 2017.

KOWALTOWSKI, Doris C. C. K.. Arquitetura escolar: o projeto do ambiente de ensino.


São Paulo: Oficina de Textos, 2011.

LIBÂNEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira de; TOSCHI, Mirza Seabra. Educação
escolar: políticas, estrutura e organização. 10. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2012. 543
p.

Você também pode gostar