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OS SENTIDOS E REPRESENTAÇÕES DO ECOFEMINISMO NA

CONTEMPORANEIDADE
Iriê Prado de Souza

(Universidade Estadual de Londrina, Especialização em Ensino de Sociologia)

Martha Celia Ramírez-Gálvez

(Universidade Estadual de Londrina)

Palavras-chave: Ecofeminismo, natureza/cultura e gênero

O objeto deste trabalho é a apreensão dos sentidos atribuídos à mulher e à natureza no


Ecofeminismo, movimento originado na França, por volta da década de 70, com a união entre
temas de ecologia e feminismo, buscando explicar as supostas ligações existentes entre a
contínua destruição da natureza e a opressão das mulheres, contrapondo-se a teoria de gênero que
busca desnaturalizar a associação entre mulher, natureza e procriação.
O objetivo desta pesquisa é a análise de textos e materiais deste segmento do feminismo para
compreender como as categorias mulher e natureza se articulam e produzem sentidos, ao utilizar
como marco teórico as discussões sobre Gênero e Meio Ambiente. A metodologia utilizada será
a análise crítica de textos e revisão bibliográfica dos temas. Como a pesquisa está em andamento,
os resultados obtidos ainda são parciais. No entanto, estes apontam para o questionamento de
uma proximidade entre aquilo que se considera feminino e aquilo que se considera natural. Nesse
sentido, até que ponto esta relação é essencializante? Uma vez que reifica os sentidos comumente
atribuídos aos corpos das mulheres e ao feminino a partir da procriação, da capacidade nutridora
e do cuidado com os filhos.
OS SENTIDOS E REPRESENTAÇÕES DO ECOFEMINISMO NA
CONTEMPORANEIDADE

Iriê Prado de Souza

Introdução

Neste trabalho se abordam dois campos interligados, porém pouco explorados no Brasil.
Em 1960, na Europa e nos EUA, surgiram os primeiros movimentos que interligavam meio-
ambiente e educação ambiental, ambientalismo e feminismo.
Mais especificamente, o Ecofeminismo surgiu na França, em 1974, a partir das
preocupações com o rápido e excessivo crescimento demográfico, com a degradação do meio
ambiente natural e com a dominação sofrida pelas mulheres, consideradas como efeitos da
sociedade patriarcal, e visualizando-se a mulher como o agente privilegiado que possibilitaria a
proteção do ecossistema.
O objetivo desta pesquisa é fazer uma análise crítica de textos e materiais produzidos por
este segmento do feminismo, para melhor compreender como as categorias “mulher” e
“natureza” se articulam e produzem sentido. Utiliza-se como referência teórica as discussões
sobre Gênero e Meio Ambiente, e uma revisão bibliográfica sobre Ecofeminismo.
Ao integrar ecologia e feminismo, o Ecofeminismo tem como objeto abarcar a idéia da
opressão das mulheres e a destruição da natureza como duas questões intimamente ligadas,
contrapondo-se a teoria de gênero que busca desnaturalizar a associação entre mulher, natureza e
procriação. Para este movimento a sobrevivência da espécie humana, de espécies animais e
vegetais estariam comprometidas em função de uma crise mundial, perceptível em relação à
qualidade do meio ambiente, das relações sociais, da saúde, da tecnologia, da economia e das
relações políticas.
Elementos do movimento feminista, do movimento da paz, dos movimentos ambientalista
e verde podem ser identificados no Ecofeminismo, que chegou a ser considerado por Ynestra
King como "a terceira onda do movimento feminista" (CIOMMO, 1999 p.138), como um
movimento que reivindica igualdade política, econômica e social entre mulheres e homens.

Primórdios do Movimeto Sufragista e do Feminismo no Mundo


O Feminismo surgiu no início do século XX, com os movimentos sufragistas numa
“primeira onda” de reivindicações e ações pelos direitos civis para as mulheres como o direito ao
voto, a educação e ao trabalho.
O movimento sufragista teve início com homens da classe operária que possuíam duas
frentes de lutas, uma reivindicava melhores condições trabalhistas como reduções na jornada de
trabalho, salários, repouso semanal e condições de higiene; e a outra lutava por direitos de
cidadania, o direito ao voto ou ser votado, sem critérios censitários e remunerações para os cargos
desempenhados no Parlamento, que até então não eram remunerados e só exercidos por quem
possuísse uma renda alta. Só após um longo processo de lutas, é que obtiveram reformas
legislativas que acabaram com o voto qualificado pela renda.
Os direitos à democracia ainda excluíam a categoria feminina. O sufrágio feminino gerou o
envolvimento de mulheres de distintas classes, se organizando e combatendo durante um
complexo e demorado processo, que durou 7 décadas na Inglaterra e Estados Unidos, já no Brasil
se desenvolveu durante 40 anos, datando da Constituinte de 1891, e conseguiu mobilizar cerca de
2 milhões de mulheres, em momentos de maior destaque das campanhas.
Surgiu em 1848, nos Estados Unidos o sufragismo como movimento, envolto a um momento
de expansão do conceito liberal de cidadania referindo-se a homens negros e sem renda, surgem a
tona discussões sobre a exclusão feminina do âmbito público. Grande parcela de mulheres
lutaram pela abolição da escravatura, ações até o momento inéditas quanto ao envolvimento
político feminino. A conscientização quanto a submissão do negro gerou juntamente uma
percepção referente a sua própria sujeição.
Possui grande relevância a Convenção dos Direitos da Mulher realizada em Seneca Falls,
em 1848, se tornando um dos marcos iniciais do movimento sufragista americano. Neste evento
redigiu-se uma paráfrase da Declaração de Independência dos Estados Unidos que afirmava a
crença nas verdades tidas como evidentes, que homens e mulheres haviam sido criados iguais.
Depois de extensos debates se aprovou também uma moção afirmando ser dever das mulheres
americanas lutarem pelo sufrágio.
Realizaram-se inúmeros abaixo-assinados e petições para o Congresso Nacional e às
Assembléias Estaduais intencionando a reforma das Constituições Federal e Estaduais,
permitindo finalmente o direito ao voto feminino. Após 72 anos combatendo, ocorreu em
setembro de 1920 a ratificação da 19ª Emenda Constitucional, que concedia o voto às mulheres.

Caminhos do sufragismo no Brasil e desenvolvimento do feminismo

No Brasil as lutas sufragistas se iniciaram muito posterior aos outros países. Apenas em
1910, quando ocorre no Rio de janeiro a fundação do Partido Republicano Feminino, pela
professora Deolinda Daltro é que se retomam no Congresso Nacional as discussões sobre o voto
feminino (esquecidas desde a Assembléia Constituinte de 1891).
Bertha Lutz, fundou a Liga pela Emancipação intelectual da Mulher em 1919, no intuito
de lutar pelo sufrágio, depois a liga recebeu o nome de Federação Brasileira pelo Progresso
Feminino, que possuía como estratégia primordial o lobbying, assim exerciam pressão sobre os
membros do Congresso, e utilizavam a imprensa para divulgar atividades e mobilizar a opinião
pública.
O presidente do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine em 1927, incluiu na
Constituição um artigo que liberava às mulheres o direito ao voto, o que só vem agravar os
debates jurídicos. Porém, só após o sufrágio feminino ter sido conquistado em 10 estados, é que o
presidente Getúlio Vargas realizou o decreto-lei dando o sufrágio às mulheres, em 1932.
Em suma, o movimento sufragista pode ser classificado como um movimento feminista,
em prol das denúncias realizadas quanto a restrição da mulher no debate das decisões públicas.
Em 1940, é lançado o livro de Simone de Beavoir, que recebe o título de “O Segundo
Sexo” que recebeu pouco destaque, em decorrência do momento vigente. O livro esclarece o
enraizamento cultural da desigualdade sexual, apresenta a necessidade de entender como a
mulher aprende a sua condição e como vivenciá-la, além do mundo que a circunda.
Beauvoir traz reflexões sobre o desenvolvimento psicológico da mulher e os
condicionamentos sofridos em sua socialização, que a torna alienada a seu sexo. A identificação
do homem com seu sexo, na cultura ocidental, faz com que este se auto afirme como sujeito
rebaixando a mulher a mero objeto. Os estudos realizados por esta autora se tornam marcos
fundamentais para uma futura reflexão feminista, emergente em 1960.
No final dos anos de 1950, se deu a “segunda onda” do feminismo, e emergiram questões
sobre o aprisionamento das mulheres no âmbito doméstico, problematizando o “destino”
biológico como reprodutoras da espécie, identificado como uma das principais causas para
explicar a exclusão das mesmas da vida pública e do poder político. No contexto dessa “segunda
onda”, o Ecofeminismo recupera as críticas feitas por Simone de Beauvoir, sobre a forma que era
caracterizada a mulher: biologicamente inferior e irracional, sofrendo assim uma opressão
naturalizada. (PULEO, 2002 apud SILIPRANDI, 2006, p.1) No entanto, as ecofeministas
trouxeram uma nova valorização para a relação feminino/natureza.

O pensamento Ecofeminista

O pensamento ecofeminista se apresentou pela primeira vez enquanto tal a partir dos
movimentos feministas da década de 1970, (durante a segunda onda do feminismo) que
receberam contribuições de diversos movimentos antimilitaristas, antinucleares e pacifistas que
eclodiram nos Estados Unidos e Europa durante 1960, que originaram os movimentos
ambientalistas atuais. Como uma característica geral a esses movimentos Barbara Holland-Cunz
identifica a “utopia ecofeminista primitiva” (SILIPRANDI, 2000, p.63) que se desenvolve
através de ações especificas: lutando pela superação da dominação patriarcal nas relações entre
os gêneros; procurando por tecnologias que não agridam o meio ambiente; possuindo ideais de
democracia direta, descentralização e o fim das hierarquias; e apoiando economias de
subsistência rural como modelo de desenvolvimento.
Ocorreu a comemoração do Ano Internacional da Mulher realizado em 1975, iniciando a
Década da Mulher que foi propagada pela ONU, época em que se debateu publicamente pela
primeira vez, o denominado movimento “igualitarista” e o “feminismo da diferença”.
Se torna pertinente neste momento entrar na discussão polêmica entre a luta pela
igualdade seja ela de direitos, oportunidades ou salários, ou lutar pela valorização da diferença,
que afirma um ser feminino contido de viés essencialista. Sendo que Joan Scott afirma ser
impossível qualquer escolha em meio à esta dicotomia, pois, a noção de igualdade implica numa
noção política, que pressupõe a diferença já que não se busca a igualdade para sujeitos que sejam
idênticos, ou sejam os mesmos.
O igualitarismo pressupõe um acordo social para considerar indivíduos diferentes como
equivalentes, mas não idênticos, com relação a um propósito comum. É preciso deixar nítido, que
a oposição a igualdade não é a diferença e sim a desigualdade. Não é porque as mulheres não
podem ser iguais aos homens em todos os aspectos, que não podem ser iguais a eles.
O ecofeminismo inicialmente, situa-se dentro do chamado feminismo “da diferença”,
valorizando características consideradas femininas na luta política ao invés de disputar posições
de poder. Tal discussão é retomada com força nos anos 70, com o movimento “pela diferença”
divergindo do feminismo “igualitarista” hegemônico, que lutava pela entrada no mundo público,
expansão dos direitos civis, a autonomia econômica, social e política das mulheres
(SILIPRANDI, 2000:64 e SORJ, 1992:144, apud SILIPRANDI, 2006).
Porém se deram muitas críticas por parte dos movimentos “da diferença” quanto a
entrada das mulheres no âmbito público, afirmando que este reproduziria a essência masculina de
existir, e que as mulheres tidas como dotadas de uma outro modo de ser, possuindo outra cultura
e valores provenientes da maternidade e da condição de reprodutoras da vida, portanto, deveriam
elas influenciar para uma nova estruturação da sociedade, que eliminasse qualquer forma de
depreciação quanto ao universo feminino. Portanto, as mulheres deveriam propor a formação de
um outro tipo de poder, mais horizontalizado.
Esta visão recebe inúmeras críticas fundamentalmente quanto a idéia de que esta
identificação viria da expressão das mulheres com o chamado “princípio feminino” originado nas
tradições hindus, relacionado a Vandana Shiva. O “princípio feminino” seria uma forma
“essencialista” de apresentar essas relações, que remete a uma visão de “essência humana
imutável e irredutível”(GARCIA, 1992:164 apud SILIPRANDI, 2000) ligada as mulheres,
situando-as excluídas de qualquer relação social, política ou econômica, construída
históricamente.
O ecofeminismo contando com distintas significações, compõe uma idéia fundamental,
que é a existência de uma interconexão entre a dominação da natureza pelos seres humanos e a
sujeição feminina aos homens, expressando a predominância de formas patriarcais na
estruturação ocidental, que remete o papel da mulher apenas à reprodução social.
Tal corrente analisa os impactos que a destruição ambiental pode provocar entre as
mulheres, tidas como seres destituídos de meios materiais e simbólicos para interagir com a
sociedade. As limitações às liberdades das mulheres, a quase exclusão do âmbito político, a inter-
relação entre a divisão sexual do trabalho, a desigual distribuição do poder, e meios de produção
também são questões problematizadas.
Segmentos do Ecofeminismo

As correntes ecofeministas foram difundidas e receberam maior visibilidade social no


Brasil e no mundo com a realização da “ECO-92” (CASTRO & ABRAMOVAY, 1997, apud
SILIPRANDI ), que contou com a presença de muitas organizações que fizeram parte da
coordenação do Planeta Fêmea, na propagação de uma visão feminina do mundo. Defenderam os
países do Sul, cuja pobreza teria sido gerada pelos países do norte, destacaram a necessidade de
ações locais para recuperar o meio ambiente, relacionavam problemas de saúde e degradação
ambiental, além de lutar pelos direitos sexuais e reprodutivos femininos.
O pensamento ecofeminista possui basicamente três pressupostos: 1) Um sob o ângulo
econômico, no qual se percebe que a mulher e a natureza são tidas como recursos ilimitados que
proporcionam a acumulação do capital. 2) Sob o enfoque político, que identificaria a mulher com
a natureza e o homem com a cultura, perpetuando a hierarquização dos segundos (homem e
cultura) para legitimar a opressão da mulher e da natureza. 3) Sob as políticas científicas e
tecnológicas do desenvolvimento econômico moderno, não há neutralidade ao gênero, além de
formarem uma visão que exclui o feminino do campo do conhecimento “cientifico”.
Por sua vez, o Ecofeminismo pode ser dividido em três tendências: 1) O ecofeminismo
clássico, no qual a ética feminina de proteção dos seres vivos se opõe à essência agressiva
masculina, pois a mulher possuiria características femininas igualitárias e maternais que a pré-
dispoem ao pacifismo e à conservação da natureza, enquanto que homens seriam naturalmente
predispostos à competição e à destruição.
2) O ecofeminismo espiritualista do Terceiro Mundo, que recebeu influência dos
princípios religiosos de Ghandi, na Ásia, e da Teologia da Libertação, na América Latina.
Vinculado às tendências místicas do ecofeminismo primordial, a teoria feminista de Vandana
Shiva, recorre à cosmologia hindu para resgatar o “principio feminino”, trazida a tona em 1988,
como principio ecológico e de conservação como uma ligação íntima entre os princípios
masculino e feminino, com seus distintos atributos, presentes em todos os seres vivos. Essa
autora, critica o desenvolvimento atual, tendo-o como enraizado no patriarcalismo da
homogeneidade, da centralização e da dominação ocidental, além de ser fonte inesgotável de
violência contra a mulher e a natureza.
Na América Latina, a Teologia da Libertação, inicia a elaboração de um pensamento
teológico ecofeminista. Contudo, o ecofeminismo latino-americano foca-se, especialmente, nas
mulheres pobres e na defesa dos indígenas, ambos considerados as principais vítimas da
destruição da Natureza.
3) O ecofeminismo construtivista, distancia-se das duas tendências anteriores, e defende a
relação da maioria das mulheres com a natureza como sendo dissociada das características
próprias do sexo feminino, mas originária de suas responsabilidades de gênero na economia
familiar, criadas através da divisão social do trabalho, da distribuição do poder e da propriedade,
sua consciência ecológica decorre da interação compulsória com o meio ambiente, que adquire ao
suprir necessidades diárias, independente das características afetivas ou cognitivas próprias de
seu sexo (SILIPRANDI, 2006)

Discussões sobre a questão ecofeminista

Enrique Leff (2003 apud SILIPRANDI, 2006), ressalta o ecofeminismo como uma
política da diferença , revalorizando o feminino sem uma perspectiva instrumental, e sim,
reconhecendo o outro com suas formas de existir, experimentar e saber o poder “diferente” do
poder vigente.
Uma enorme influência que o ecofeminismo pode exercer sobre as lutas sociais, de acordo
com Leff, seria o desestruturamento do poder fundado no inconsciente que possui bases
“machistas” de dominação. Ele espera que a teoria feminista radical implique em inovações no
pensamento, na gramática e no discurso, ou seja, uma estratégia sedutora utilizada como
alternativa para as estratégias dominadoras. Entretanto, o autor não considera tais estratégias
exclusivas às mulheres, já que estão abertos espaços à outros grupos sociais desprovidos de
poder, como os indígenas, que apresentariam distintos aspectos, racionalidades e sensibilidades
com relação à natureza organizações de seu universo.
Val Plumwood (apud Siliprandi 2006) afirma que o paradigma ecofeminista deveria
abranger os mecanismos da rede de opressões que perpassam a classe, o gênero e o mundo
natural, além de discutir as relações entre mulheres e natureza.
A transcendência da lógica dualista que traduz estereótipos femininos e masculinos é uma
necessidade evocada por Robin Eckersley (1992 apud SILIPRANDI, 2006, p.3) assim como a
tendência ao cultivo de características de zelo e afetividade, e uma nova forma de se relacionar
com a natureza, a contribuição das mulheres devido ao fato de serem excluídas do poder
tradicional as direciona para tal, entretanto essa subordinação é compartilhada por outros grupos.
Dentro da lógica binária, de acordo com Joan Scott, cada lado da oposição é apresentado
como um fenômeno unitário, contudo, o processo de descontrução espera que ocorra uma
interdependência entre os pólos, gerando um questionamento da identidade de cada um deles, e o
reconhecimento das diferenças no interior de cada um. Tais diferenças quebram a unidade,
impedindo que se propague a idéia de uma identidade feminina ou uma identidade masculina. O
sujeito feminino ou o sujeito masculino passa a ser pensado como múltiplo, desde que as suas
supostas unidades sejam permeadas por diferenciações como idade, raça, religião, etnia entre
outras.
O patriarcado não é o único a ser culpado no processo decorrente da crise ecológica, pois
este faz parte da perspectiva dualista predominante na história desde a Grécia Clássica. Se torna
básica, a percepção de que as oposições binárias representam a idéia de oposição e de identidade.
Apontando para dois pólos que tanto diferem/se opõem entre si, quanto afirmam que cada um é
idêntico a si mesmo. Como na oposição feminino/masculino, que além das diferenças de gênero
possuem um gênero desviando, suspendendo ou adiando a consumação do outro.
De acordo com Guacira Lopes Louro, o conceito de gênero surge nos anos de 1980,
quando passa a ser utilizado por estudiosas feministas. Podendo ser analisado como referência a
uma construção social do sujeito masculino e feminino, diferentemente de sexo que está ligado à
identidade biológica de um indivíduo. Não foca apenas as mulheres para análise, ao contrário se
aprofunda em todo o processo de feminilidade e masculinidade, ou seja, nos sujeitos femininos e
masculinos. O conceito também aponta para a idéia de relação, por meio da qual os sujeitos se
produzem em relação e na relação.
Não obstante, gênero é uma construção social ou seja, histórica, dotado de pluralidade.
Abrange mulheres e homens em sociedades e concepções diversas, contando com marcadores
distintos como raça, idade, classe, religião entre outros. Todavia, os conceitos de feminilidade e
masculinidade sofrem modificações com o decorrer do tempo.
Combatendo interpretações baseadas em argumentos biologistas, é que se tornou cada vez
mais necessária a separação entre sexo e gênero, e mostrou-se que muitos atributos tidos como
“naturais” nas mulheres ou nos homens, são características socialmente construídas. Todavia, o
gênero possui uma dimensão e uma expressão biológica (o que evitaria a polarização
natural/social) já que a construção do gênero, envolve o corpo, e implica corpos sexuados o que
evidencia que não se pode eliminar a biologia da história e do campo social, é apresentada,
portanto, uma íntima e constante imbricação do social e do biológico.
Discutindo as debilidades teóricas do ecofeminismo clássico e do espiritualista, algumas
autoras apontam um possível risco de se afirmar a utilização de estereótipos femininos na
sociedade. Numa outra perspectiva, Val Plumwood, uma das mais destacadas teóricas do
feminismo ecologista e da crítica construtivista, analisa a legitimação do domínio patriarcalista,
que conduz à civilização destrutiva atual, e afirma : “Não é uma essência, senão um fenômeno
histórico, uma construção.” (PLUMWOOD, 1993 apud SILIPRANDI, 2006)
A questão mais problemática seria mesmo as mulheres como representantes de um
“princípio feminino” devido a maternidade, que as identificaria com a natureza, fertilidade,
criação e portanto teriam um papel privilegiado na luta ecológica. Citadas por SILIPRANDI,
2000 autoras como Bila Sorj (1992), Sandra Mara Garcia (1992) e outras já criticaram essa visão
frente as relações entre natureza e cultura quanto por contar com um implícito essencialismo, e
por apresentar uma perspectiva a-histórica.
A debilidade que mais se destaca na visão de Bila Sorj, se dá porque são ressaltadas as
características que forma construídas social e históricamente como mais pertinentes ao papel
social feminino, como a docilidade ou a afetividade, que ofereceram como resultados à vida da
mulher, limitações a esfera doméstica, dominando e oprimindo-as no âmbito público e privado.
Os estudos de Vandana Shiva são avaliados por Garcia como providos de aspectos
uniformizantes das mulheres do Terceiro Mundo, sem atentar-se a parâmetros como etnia, classe,
raça, religião etc. Culpam pelas violências ambientais e de gênero somente a imposição de um
modelo de desenvolvimento colonialista, deixando de fora as bases preexistentes de
desigualdades econômicas e sociais, incluindo as de gênero.
Em suas reflexões Garcia afirma:

“o debate ecofeminista enfatiza o efeito das construções ideológicas nas


relações de gênero e nas formas de ação em relação ao meio ambiente. No
entanto, precisamos ir mais adiante e examinar criticamente as bases materiais
que são subjacentes a estas construções, ou seja, analisar o trabalho que a
mulher e o homem produzem, a divisão sexual da propriedade e do poder e a
realidade material das mulheres das diferentes classes, raças e castas (no caso da
Índia), pressupondo que essas diferentes inserções sociais devem afetar de forma
diferenciada a vida das mulheres, possibilitando diversas respostas à degradação
do meio ambiente” (GARCIA,1992:165 apud Siliprandi, 2000 p.69).
Referências:

ALVES, Branca M.; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Abril Cultural,
1985. Coleção Primeiros passos. v. 20.

CASTRO, Mary G.; ABRAMOVAY, Miriam. Gênero e Meio Ambiente. São Paulo-Brasília:
Cortez-Unesco-Unicef, 1997.

DI CIOMMO, Regina. Ecofeminismo e Educação Ambiental. São Paulo: UNIUBE/Cone Sul,


1999.

LOURO, Guacira L. Nas redes do conceito de gênero. In: LOPES, Meyer; WALDOW. Gênero e
Saúde, p.7-17, S.1., s. n.(19--)

ORTNER, Sherry. Está a mulher à natureza assim como o homem para a cultura? In:
ROSALDO, Michelle; LAMPHERE, L. (Coord.). A mulher, a cultura e a sociedade. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1979

SILIPRANDI, Emma. Ecofeminismo: contribuições e limites para a abordagem de políticas


ambientais. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, v.1, n.1, p.61-71, jan./mar.
2000, S.1., s.n.

__________________ Ecofeminismos: mulher, natureza e outros tipo de opressão. Encontro


Fazendo Gênero 7 – Simpósio Temático n.31. UFSC-Florianópolis, 2006. s.n.