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25/12/2017 A fuga interminável de Josef Mengele, o médico de Auschwitz | Cultura | EL PAÍS Brasil

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A fuga interminável de Josef Mengele, o médico de Auschwitz


Livros e ensaios voltam sobre a figura do médico alemão, mais conhecido como “O anjo da
morte”
GUILLERMO ALTARES

Madri - 18 DEZ 2017 - 14:14 BRST

Grupo de oficiais das SS em Auschwitz, na segunda metade de 1944. O segundo a partir da esquerda é Josef Mengele. UNIVERSAL HISTORY ARCHIVE
(GETTY IMAGES)

Para que o Holocausto fosse possível, dezenas de milhares de pessoas precisaram colaborar e
MAIS INFORMAÇÕES
participar do maior crime da história. De todos os perpetradores, um nome continua sendo
sinônimo do mal, o médico de Auschwitz Josef Mengele, conhecido como O anjo da morte por
seus bons modos por trás dos quais escondia seu sadismo. O escritor francês Olivier Guez
levou o prêmio Renaudot, o segundo mais prestigioso de seu país depois do Goncourt, por La
As últimas horas do Disparition de Josef Mengele (O Desaparecimento de Josef Mengele), um romance de
monstro nazista no
pesquisa sobre a fuga à América Latina do médico bávaro, que nunca foi preso e julgado.
Brasil
 
“Sou reticente em qualificá-lo de mal absoluto, o que me aterroriza é sua total normalidade”,
explica Guez. O escritor e jornalista francês já havia escrito sobre a busca de antigos nazistas
por ter sido corroteirista do filme alemão O caso Fritz Bauer (2015), que relata os esforços do
As fotos dos SS que promotor que dá nome ao filme para retomar as perseguições contra os criminosos de guerra
refletem o horror
nos anos cinquenta. Bauer ajudou Israel a localizar Adolf Eichmann, um dos principais
cotidiano de
Auschwitz executores do Holocausto, capturado por Israel, julgado e enforcado. Mengele, por sua vez,
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conseguiu escapar, apesar do promotor ter a informação de que o médico iria realizar uma
visita à casa de sua família na Baviera.

Mengele foi um dos numerosos médicos que trabalharam no campo de extermínio nazista de
Homem que
capturou Anne
Auschwitz e realizou experiências com seres humanos, especialmente com gêmeos. Como
Frank “só cumpria explica o historiador Pawel Sawicki, membro da equipe de imprensa e guia do antigo campo
ordens”
alemão, “os médicos tinham um papel essencial no processo de extermínio”. Eram médicos os
que realizavam a seleção dos deportados judeus assim que chegavam ao campo e os que, em
poucos segundos, decidiam quem vivia e quem morria (por volta de 80% era enviado diretamente à morte).
Também eram os médicos das SS os que supervisionavam as câmaras de gás: o processo de extermínio sempre
era realizado na presença de algum deles. Mas de todos os médicos do mal que passaram por Auschwitz o nome
que ficou para a posteridade como sinônimo daquele horror é Mengele.

“Não vou falar da banalidade do mal, mas Mengele não foi um assassino nato, foi um homem que cometeu
atrocidades, que não sentia nenhuma empatia e piedade a outros seres humanos. Era um homem autorizado a
fazer coisas inomináveis”, diz Guez (Estrasburgo, 1974), também autor do ensaio L’Impossible Retour. Une
histoire des Juifs en Allemagne depuis 1945 (O impossível retorno. Uma história dos judeus na Alemanha partir de
1945). “Depois vem a mitologia, os filmes, as ficções, a ideia do poderoso criminoso impossível de se capturar,
todas essas lendas circulam. Seu nome também é muito particular, produz uma certa ressonância e por isso é o
único que retivemos”.

O historiador britânico Laurence Rees publicou recentemente um ensaio, O Holocausto, em que resume todo seu
trabalho sobre o extermínio dos judeus da Europa. Como documentarista da BBC, Rees realizou numerosas
entrevistas tanto com vítimas como com algozes. E na primeira cena do livro, baseada no depoimento de uma
sobrevivente, Fred Wineman, aparece o doutor Mengele realizando a seleção na estação de Auschwitz-Birkenau.

O momento que descreve demonstra até que ponto o horror vivido ali é impossível de se entender em tempos
normais. Quando os novos deportados chegavam, enquanto esperavam a seleção, os presos obrigados a
colaborar com os nazistas que viam jovens mães com crianças pediam que as entregassem a mulheres mais
velhas. Mas não explicavam o porquê. Se os SS os descobrissem revelando o segredo do que iria acontecer,
seriam imediatamente mortos. O motivo era que uma mulher com uma criança era enviada imediatamente às
câmaras de gás, porque separá-las poderia provocar um tumulto. Por outro lado, uma mulher jovem sozinha tinha
mais possibilidades de sobreviver à seleção. A pessoa que tomava as decisões sobre a vida e a morte nessa cena
era Mengele.

Prioridades da Mosad
O livro de Guez centra-se na fuga do nazista e em sua estadia na América Latina. Mesmo que se trate de um
romance, o que permitiu ao autor recriar os pensamentos do médico e preencher os espaços vazios, é baseado
em uma longa pesquisa. O autor explica que tudo o que conta está sustentado em pelo menos duas fontes e que
viajou aos lugares da fuga do médico: Argentina, Paraguai e Brasil, onde morreu afogado em 1979. Após a captura
de Adolf Eichmann por um comando israelense em 1960, Mengele apagou como foi possível seu rastro, o que
dificultou o trabalho.

Mengele viveu no Brasil como o austríaco Wolfgang Gerhard, 54 anos, um homem viúvo, que trabalhava como
 
técnico mecânico e residia no bairro do Brooklin Novo, em São Paulo. Ele passava férias em Bertioga, no litoral de
São Paulo, com um casal de amigos, Wolfram e Liselotte Bossert, quando se afogou. Liselotte acabaria sendo
processada em 1985 por falsidade ideológica no Brasil, após apresentar o documento falso de identidade de
Mengele no dia do óbito. Wolfram, por sua vez, é apontado como um ex-oficial do Exército nazista que morava no
Brasil desde a década de 1950, e acabou morrendo no dia seguinte após seu esforço para tirar Mengele da água.

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Os ossos do médico do Holocausto foram doados para a Universidade de São Paulo e hoje são utilizados em aulas
de medicina forense.

Mas há pouco tempo foram tornados públicos alguns documentos do Mosad, o serviço secreto israelense, que
demonstravam que desistiram de procurar Mengele porque reuniram todos os seus esforços na ameaça
existencial que os seus vizinhos árabes representavam nesse momento, antes da Guerra do Yom Kippur em 1973.
É algo que já aparece no romance de Guez. “Minha impressão é a de que estiveram prestes a capturá-lo, mas que
a ameaça árabe no começo dos anos setenta foi considerada uma prioridade absoluta para o Mosad”, afirma
Guez. O anjo da morte morreu aos 67 anos sem nunca ter respondido perante à justiça.

O MAIS FAMOSO, MAS NÃO O ÚNICO

Mulheres e crianças judias, na entrada de Auschwitz em 1943. HULTON ARCHIVE (GETTY IMAGES)

Josef Mengele foi o mais famoso dos médicos assassinos das SS, mas não o único. No pavilhão 20 do campo de
Auschwitz, foram realizadas experiências médicas com presos, algo bem comum em todo o sistema de terror nazista.
Esse método de tortura era tão atroz que provocou dúvidas em alguns dirigentes, mas Hitler deu a autorização. Algumas
vezes eram experiências com fins militares – por exemplo, testar a resistência ao frio –, outras era sadismo baseado nas
doentias doutrinas raciais nazistas – as experiências com gêmeos – e outros testes destinavam-se à esterilização.

Dois dos ginecologistas que participaram desse último programa foram Carl Clauberg e Horst Schumann, que
provocaram atrozes sofrimentos em mulheres. Clauberg foi capturado pelas tropas soviéticas, julgado e condenado.
Libertado em 1955, voltou a exercer a medicina na República Federal da Alemanha (antiga Alemanha Ocidental).
Trabalhava na mesma clínica e se gabava publicamente de que havia inventado uma nova técnica de esterilização em
Auschwitz. Foi preso graças aos protestos das vítimas, mas morreu de um ataque do coração antes de ser julgado.
Schumann, um indivíduo especialmente sádico que injetava tifo em presos, conseguiu fugir e, após passar por vários
países, foi extraditado em 1966, condenado em 1970 e libertado por doença em 1972. Mas só morreu em 1983 após
  passar os últimos 11 anos de sua vida em liberdade.

ARQUIVADO EM:

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