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A vida, o romance e a história.

Vincent De Gaulejac1

Entre um indivíduo e sua vida, o que é produzido? Qual o papel do outro?


Qual o papel das pessoas e do ambiente na vida das pessoas? Esta questão
remete a duas possibilidades irredutíveis: há aqueles que pensam que o homem é
um ator, um sujeito, uma pessoa, capaz de se construir e de agir de uma maneira
relativamente autônoma sobre o mundo que o rodeia, e, há aqueles que o
consideram como um organismo biológico programado socialmente e
determinado por uma caixa preta interna chamada inconsciente.
Entre a posição que celebra a vertente do sujeito e aquela que põe o
acento sobre a multiplicidade de determinismos que limitam a liberdade humana,
não se pode recusar de escolher aquelas que consideram o indivíduo como
produto de uma história na qual ele procura se tornar sujeito.
Nesse aspecto, quando se considera necessário ou ilusório, o sujeito se
afirma como existente e é desta afirmação que pode nascer um relato, uma
narrativa. A história, a narrativa de vida permite introduzir articulações entre os
fenômenos objetivos, as determinações inconscientes e a experiência subjetiva.
Porém a procura dos três componentes confronta o analista com as contradições,
em particular quando examina as relações entre a vida e todas as espessuras
existenciais, é que se entende que o indivíduo pode se construir numa narrativa.
Jean Paul Sartre escreve em “A náusea”....ele faz escolhas: vive ou reconta.
E assim compreende-se que muitas pessoas vivem em se recontar e outras

1Vincent De Gaulejac, Doutor em Sociologia Clinica, Diretor de Laboratorie de Chagement Sociale – Paris VII.
Revista Internacionale de Psicossociologie 2000. Vol. VI, n º 14. p. 135- 143.
Tradução por Sonia Bahia. em abril de 2010.Psicóloga, Doutora em Psicologia Social e Mestre em Sociologia.

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recontam para tentar viver. Existindo um relacionamento estreito entre a vida tal
qual ela se desenrola e a vida tal qual se a reconta, mas esse relacionamento é
ambíguo.
Como assinalou Serge Doubrousky (1989), fala-se em histórias verdadeiras,
como se pudesse e tivesse das histórias verdadeiras um outro lado; dos
acontecimentos se produzem um sentido e nos recontam um sentido inverso. Há
uma inversão entre a história tal qual se a reconta numa narrativa e a história
como uma serie de acontecimentos e de situações. Esta inversão revela uma
diferença essencial entre o tempo social, dominado pela cronologia e o tempo
psíquico que traz a possibilidade de uma recursividade (mudança). O inconsciente
ignora o tempo, nos disse Freud. Certos acontecimentos do passado são vividos no
presente.
Nas atividades fantasmáticas, o presente, o passado e o sonho se
confundem. O tempo imaginário escapa á contingência cronológica. Por outro
lado, o desenvolvimento da existência conduz a se recriar, a se reconstruir, á
elaborar de outra maneira o que foi vivido antes, o que se compreende que dessa
maneira então se pode viver de outra forma. Nesse sentido pode-se dizer que o
presente muda o passado. De fato não é o passado que muda, mas a relação que o
sujeito mantém com sua história.

A narrativa e a historicidade.

A narrativa de vida é uma ferramenta da historicidade. Ela permite ao


sujeito trabalhar sua vida. Recontar sua vida é um meio de jogar com o tempo de

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vida, de reconstruir o passado, de suportar o presente e de tornar melhor (mais
bonito) o futuro.
Os grupos de implicação e pesquisa em torno do tema Romance Familiar e
trajetórias Sociais são reconstruídos para facilitar o trabalho do sujeito sobre sua
história. Neste âmbito, consiste em abordar o “retorno no tempo passado”, pois
remete o sujeito de certa forma á seu lugar, é o presente que determina o passado
em troca de mudança, do recontar. Por exemplo, o sujeito pode render-se, e dar-
se conta que tal ou qual acontecimento vivido como dramático, vergonhoso,
indizível, nem foi, nem pode ser mais importante que o sujeito, pois foi ele próprio
que conferiu o significado.
De fato no romance, como na autobiografia, começa-se sempre pelo fim.
Começa-se a partir de onde o sujeito está. Com efeito, a situação atual é o
elemento estruturante da narrativa. O que se vive “sempre e nunca”, estrutura a
recordação, o que diz respeito, á lembrança, que se tem sobre a própria história. É
o prisma pelo qual se reconstitui a forma de existência. O passado não é accessível
a não ser através do olhar de hoje. Trata-se então de uma reconstrução
impregnada de etnocentrismo e de subjetividade. Recontar sua vida, é sempre ver
o mundo ao contrário, disse elegantemente Doubrousk, a este respeito uma
autobiografia é ainda mais que um romance. Num romance pode-se conceber que
se invente na medida do possível, que o autor ignore o que vai acontecer nos
capítulos posteriores.
A vida será mais próxima do romance que da autobiografia, pois como no
romance ignora-se o que vai se passar depois. Mesmo se a história que precede
fixa possibilidades do que podem advir, os imprevistos e as rupturas podem
acontecer a todo o momento. Um evento pode provocar uma ruptura biográfica. A
vida pode passar a todo instante. E, portanto, isso faz convir que malgrado as
possíveis passagens, a observação atenta das trajetórias mostra regularidades
objetivas fortes. Fora períodos de crises profundas como as guerras e revoluções, a

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vida é relativamente estável e previsível. Elas seguem linhas de forças que se
canalizam numa trama.
Há nisso um paradoxo: cada existência é única, singular, imprevisível, nova
e inimaginável, mas, entretanto, nossa vida parece que estranhamente obedece a
ciclos, á dos poderes paternos, á dos cenários relativamente familiares, cada um
parece passar pelas mesmas provas, as mesmas experiências. Mas nossas vidas
são costumeiras, rotineiras, cotidianas. E não vemos nisso nenhuma conotação
pejorativa. É, aliás, por esta razão que nós somos recheados de vidas
extraordinárias, excepcionais, fora do comum. Isto nos faz pensar que das vidas
saem os objetos de romance. E por isso mesmo é que as vidas são assim tão
apaixonantes...entre as duas mil, cento e cinco narrativas sob as quais tive a
oportunidade de trabalhar após vinte e cinco anos nenhuma me aborreceu
(Gaulejac).
De um lado, a vida é determinada pela herança genética, econômica, social
e cultural, matriz original de toda trama da existência. E de outro lado, a vida é
uma serie de acontecimentos e de escolhas infinitas, aleatórias e largamente
imprevisíveis. Não se pode então reduzir o possível ao provável, pois mais força
que se constate no provável se impondo mais freqüentemente que o possível.

A narrativa entre o real e o imaginário

A Sociologia não é uma ciência exata, nem uma ciência preditiva. Ela
permite tirar das leis, das linhas de força, dos acontecimentos que, malgrado suas
características relativas, revelam as determinações. Ela suscita então desilusões. O
homem deseja pensar que pode mudar sua vida. Ele deseja no imaginário, na

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ilusão, na aventura e na paixão, onde pensa poder transformar o curso das coisas.
Ele tem necessidade de crer que outras existências são sempre possível, que ele
não é condenado a ficar como ele é. A ficção é uma necessidade vital. Inventar
histórias é uma forma de sair de sua condição, de aliviar os pesos da contingência,
de canalizar a libido sobre outras possibilidades, de se criar outros destinos. Nas
suas construções imaginárias, da sua própria existência, cada individuo se procura.
Ele inventa um romance de origem, uma reconstrução de sua vida, dos projetos
mais ou menos fictícios do seu futuro.
Não há entre a vida e o romance, um sentido. Marthe Robert diz...O
romance não procura tanto a reprodução da realidade quanto a remoer a vida
para lhe recriar sem cessar novas condições e em distribuir os elementos. E não é
sem razão que ele reconhece geralmente uma dupla vocação sentimental e social;
sem desmanchar claramente as implicações de suas duas sortes de interesse: com
efeito, há a necessidade de amor como motor das grandes transformações
existenciais, que se transcreve com predileção nos seus pseudos estados civis: e
isto tem feito diretamente com a que a sociedade se repense. Posto que este é o
lugar onde se elaboram concretamente as categorias humanas, todas as posições
que se propõe desfazer, deslocar (Marthe Robert 1977,p.38).
Deslocar... a palavra é pertinente. O romance é o que permite sair das
contingências, de trocar de lugar, de transformar os pesos das determinações, de
se inventar uma vida melhorada, mais elevada.
Recontar sua vida, é remexer, então, transformar...o romance como a vida,
é o tempo medido da obra do trabalho modificado, é expressão de historicidade.
Isto é do trabalho que um individuo efetua sobre sua própria história para tentar
dominar o seu curso...a autobiografia não é um gênero literário, é um remédio
metapsiquíco...Eu escrevo minha vida, então eu sou...recontando sua vida em
verdade se refaz uma existência (Doubrousky, 1989, p.254). Assim recontar a vida
é um meio de se refazer.

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Eu entendo aqui os espíritos críticos a nos dizer: não é possível, não se
pode refazer! Na verdade, não se refaz, mas cada um pode-se imaginar um
“outro” diferente daquilo que se é. Trata-se então de uma vida imaginária? Uma
vida imaginária não é verdadeira nem falsa. Ela existe na imaginação. Se for
conveniente diferenciar o real do imaginário; para “guardar a razão” será feito,
mas não se pode separá-los. O imaginário é também a realidade; no imaginário
tudo é possível, é o “espaço de recriação”. A atividade fantasmática opera sob
uma multiplicidade de sentidos, de significações, de direções e de explicações.

O Romance familiar.

O romance familiar (Freud,1909), é uma expressão de articulações


múltiplas. Ele exprime claramente que a vida é um romance ou no mínimo que o
desejo de fazer a vida um romance é um meio privilegiado para suportar a
contingência. Isto nós temos podido verificar em numerosos seminários. As
crianças, que chegaram a idade de comparar o status social de suas famílias com
as dos outros, se recontaram uma história para suportar a frustração que essa
comparação induz, ainda que em seu desfazer...sonhem em ser outro filho.
A lanchonete de meus pais não é certamente mais verdadeira...eu ia uma
noite adormecer e acordava á beira de uma estrada, em uma casa; uma sineta
soava sonoramente e eu dizia: bom dia papai, à um elegante senhor, servido por
um maitre de um hotel de estilo...não é possível a minha vida á rua Clopart... não
quero mais o contrário (Ernaux,1982).

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O Romance é o inverso da vida, não é a vida concreta e objetiva, é a vida
imaginária e subjetiva, o desejo de outra coisa que se exprime. E é nesta
capacidade de imaginar outra vida, que o individuo vai colocar energia para
construir. Annie Ernaux imaginando-se no futuro romancista. Certamente ela não
morava numa grande casa, mas pode como ela, partir da rua Clopart e contornar o
grande mundo. Como a predição criativa, o romance familiar dado, e a vontade
de realizar o fantasma. Ainda que os homens creiam que qualquer coisa é real as
conseqüências destas crenças são bem reais.
O apelo atual pelas histórias de vida em sociologia suscita interesse e
suspeição. Interesse por um método rico e pulsante, que tem múltiplas facetas,
possibilidade de pesquisa, intervenção, formação e terapia. Mas também a
desconfiança; por se tratar de um método utilizado “de diversas formas - a todos
os molhos”, que mantém a ilusão de que o “falar de si” produz sentido, como se
ele fosse o suficiente. Ao induzir e questionar alguém para que reconte sua vida,
para compreender sua história, estima-se que a vida é apenas uma serie de
contos. Mas a vida não é só isso. Ela não é, nem leva em conta o que é dito á sério.
Sabe-se que o fantasma é realidade, objetividade e subjetividade, lembrança real e
lembrança transformada, essas coisas se misturam continuamente nas narrativas,
e a distinção entre verdadeiro e falso não pode sem dúvida, vir da narrativa em si
mesma. O homem resiste a vê a realidade como ela é. Ele ama travestir o grau de
seus desejos, de seus medos, de seus interesses e de sua ideologia. Além do mais
se o tempo real parece obedecer às leis que permitem mensurar, ordenar,
comparar, imaginar, vê-se submeter ás leis de CHRONOS. O tempo imaginário
escapa a essas leis.
Em sua crítica severa sobre a ilusão biográfica, Pierre Bourdieu, denuncia as
pressuposições da ordem, da linearidade, da finalidade e do sentido que a
expressão “história de vida” comporta em si. Ele convoca que se dissocie... o que é
da ordem da história, como sucessão de acontecimento, que se desenrola segundo
uma cronologia, do que é da ordem da lógica, como se cada acontecimento tivesse

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uma razão de ser, em função do que procede e do que se segue (Bourdieu,1986). O
postulado que a vida trará um sentido, quer social, quer racional ou metapsíquico
revela a crença na sociologia. Por que a vida teria um sentido? Ela pode ter vários,
mas não ter nenhum. O sentido é sempre uma reconstrução.O termo vocação
costuma ser utilizado nas biografias para tentar explicar o destino por um
chamado interior do sujeito; chamado este que irá determinar sua conduta, este é
um bom exemplo de como é possível se reconstituir a posteriori.
De fato uma vida não obedece nunca á um processo causal simplesmente
linear. Isso pode reparar quaisquer determinações, as quais são múltiplas e
heterogêneas. Quer dizer, que elas não possuem para todos um mesmo sentido. E
é no ponto de interseção de múltiplas facetas e influências, que se constroem os
sujeitos, os quais tiram suas liberdades do fato de que são multideterminados, de
que estão em permanente confronto com o risco do imprevisto e do
indeterminado, por isso donos da necessidade de fazer escolhas.

Sobre a trajetória Social.

Entre as determinações, aquelas que mantêm e se ligam ao meio familiar,


cultural e social, são as familiares as mais evidentes.
A cultura é uma nova forma de memória, que nasce fora dos indivíduos e de
seu cérebro. Signos e símbolos evoca dores de objetos, são condutos gravados nos
seus substratos, seus neurônios, sinapses, como pedra ou madeira, papel ou fita
magnética.Uma tradição cultural se instaura (Changeux, 1993,p320). Esta
memória confere ao indivíduo sua característica sócio-histórica. Ela representa a
impregnação progressiva no cérebro e em sua psique pelo envolvimento social O
individuo incorpora as maneiras de ser, as formas de pensar, os hábitos que vão
tornar-se uma parte de sua personalidade, como se fossem inatos.

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Então, o interesse alcança a herança que reporta ao nascimento,
compondo-se de elementos heterogêneos (materiais, monetários, sociais,
culturais, ideológicos, afetivos, genéticos) se tornando assim o fundamento da
identidade. “Pierre Bourdieu evoca a esses princípios, o processo de incorporação
da história, a relação original do mundo social ao qual é feito, melhor dizendo para
o qual é feito, é uma relação de possessão, que implica a posse dos possessores por
suas possessões. Quando a herança se apropria do herdeiro. Como dizia Marx, o
herdeiro pode se apropriar da herança (Bourdieu,1980). Assim, a identificação não
é apenas um processo de emulação das pessoas, onde cada um se apropria das
qualidades, das formas de ser, dos hábitos, mas igualmente é um processo sócio-
picológico, na medida em que o indivíduo se identifica e no qual ele passa a
possuir o que é socialmente identificado como suas posses.
Posses econômicas, em primeiro lugar, que inscrevem os destinos sob o
signo da fortuna ou da falta, mas também capital cultural e simbólico que
posiciona cada indivíduo num lugar particular. A análise das trajetórias sociais
permite que se compreenda como a herança é determinante e em que ela
influencia as estratégias sociais, profissionais, amorosas, econômicas de uma
pessoa, que na sua infância projeta o seu futuro, conduzindo-o a colocar-se em
operação para “produzir sua vida”.
A noção de trajetória permite que se preste atenção sobre os percursos
dos indivíduos na sociedade a partir dos indicadores de posicionamentos como
status social, nível de renda, o tipo de moradia e habitação, os diplomas, as
categorias socioprofissionais, etc. Trata-se de reparar as diferentes posições
ocupadas por uma pessoa nos momentos chaves de sua existência e de analisar a
dinâmica de passagem entre a identidade herdada, aquela ocupada em seu
nascimento e a identidade adquirida, aquela ocupada no momento onde ele se
questiona sobre sua história, e a identidade esperada, aquela que decorre do
projeto parental e de suas próprias aspirações.

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Mas a análise das trajetórias não pode permanecer como uma simples
recuperação dos caminhos percorridos por cada um em função do seu grupo de
pertencimento e origem. Ela deve igualmente descrever os mecanismos de
distribuição que conduziram a esses percursos, isto é as regularidades objetivas
que canalizaram os destinos sociais. Toda sociedade, oculta os mecanismos
institucionais complexos para os quais os indivíduos são canalizados nas suas
escolhas, guiados pelas oportunidades, acompanhados em seus desenvolvimentos
sociais. A família, a escola, as organizações de trabalho jogam um papel
predominante. Elas operam como instancias de orientação, locais de referência e
alojamento, seleções e agenciamento (Sorokin,1959), e tem uma dupla função:
assegurar uma certa permanência das estruturas sociais além das orientações
singulares de cada individuo.; operar um ajustamento entre as expectativas, os
projetos, as aspirações individuais e as possibilidades objetivas oferecidas pela
sociedade de serem realizadas. Essas instâncias operam de forma diferenciada
segundo os momentos das histórias individuais.
A analise das posições sociais não devem se contentar com as objetivações
dos lugares ocupados em um momento dado. Ela deve refazer um processo,
compreender um caminho entre a posição inicial, as fases de transição, o
momento da fixação, onde o indivíduo constitui sua própria família. Até a sua
posição final. Uma trajetória não é um processo linear e irreversível que será
determinado de uma só vez por todas, em função dos pontos de partida. Como
uma partida de xadrez, ela joga em varias posições, cada movimento influencia o
conjunto da partida, opera ou abre oportunidades para os movimentos seguintes.
A vida humana se desenvolve na confluência entre influencias de
referencias sociais, aquelas das atividades pulsionais, que teimam em permanecer
e obter a satisfação de um desejo próprio, e a irredutível singularidade de cada ser
que busca existir por si mesmo. O objetivo da abordagem Romance familiar e
Trajetória social é apreender as articulações, as influencias recíprocas entre os
diferentes registros que determinam a história de um individuo, em particular os

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aspectos sociológicos (econômicos, culturais, sociais e ideológicos) e os aspectos
psicológicos (afetivos, sexuais e emocionais).
Entrar na complexidade de uma vida é analisar o conjunto das influencias
mais ou menos contraditórias as quais o sujeito é confrontado no curso da suas
existência. Como se “fabrica” uma identidade própria a partir de sua identidade
familiar e social que lhe assegura um lugar numa ordem dos sexos, das classes, das
gerações, das culturas e nações. Como ele é produzido pelas múltiplas
contradições que atravessam a história de seus grupos de pertencimento, de suas
família, de sua existência. Os processos de construção identitária são assim
marcados pela continuidade e mudança, a permanência e a ruptura, o coletivo e o
singular, a previsibilidade e o aleatório, o acaso e a necessidade. Como escreve
Alain Robbe Grillet, citado por Bourdieu no seu artigo a ilusão biográfica: a
aventura do romance moderno é precisamente ligada á essa descoberta, o real é
descontínuo, formado de elementos justapostos sem razão onde cada um é único
ao mesmo tempo mais difícil de segurar uma vez que ele surge de forma
imprevista, fora de propósito, aleatório(Robbe-Grillet, 1984,p.208).
Isto explica a incapacidade das ciências ditas exatas de compreender as
condutas humanas, tanto aquelas que se situam nos modelos lineares,
deterministas ou aleatórios. Explica igualmente porque a psicanálise é
incontornável. O inconsciente é uma potência determinante do comportamento. A
psicanálise se preocupa mais com a narrativa do paciente que com a realidade da
qual ele reconta. Permite compreender em que o desejo e a angustia são dois
elementos explicativos da conduta humana. O trabalho sobre a história de vida
pode ser um formidável instrumento da historicidade da mesma maneira que a
terapia. . Ela permite renunciar a idéia que a vida tem um sentido preestabelecido,
colocando em jogo o “se dar conta”.
Nas famílias, se estigmatizam aqueles que criam histórias, isto é aqueles
que sentem as coisas, às vezes verdadeiras e falsas, suscitando conflitos,
colocando uns contra os outros, dando uma visão desagradável das pessoas e

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situações. Os fazedores de histórias se opõem àqueles que conservam as
memórias familiares e não cessam de denunciar os laços (nós) de histórias que
repercutem nos filhos. O sociólogo clinico pode ter um papel , ser um lugar
equivalente á uma abertura (recipiente de histórias). Não aceitando nem o papel
de pesquisa refugiada nem de uma neutralidade distante, nem o papel de atores
emergentes na sua operacionalidade, eles podem ser os verdadeiros agentes de
historicidade, ou então de criadores de histórias – fazedores de histórias
(Enriquez,1981) auxiliando aqueles que tentam compreender em que a história é
ampliada para eles.

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