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A Necessidade de um

REPRESENTAÇÃO E COMPLEXIDADE

Pensamento Complexo

Edgar Morin

Enquanto a cultura geral admite a possibilidade de se buscar a


contextualização de toda informação ou de toda idéia, a cultura téc-
nica e científica, em nome do seu caráter disciplinar especializado,
separa e compartimenta os conhecimentos, o que torna cada vez
mais difícil a contextualização destes. Além disso, até a metade do
século XX, a maior parte das ciências tinha a redução como méto-
do de conhecimento (do conhecimento de um todo para o co-
nhecimento das partes que o compõem), e o determinismo como
conceito principal, ou seja, a ocultação do acaso, do novo, das in-
venções, e a aplicação da lógica mecânica da máquina artificial aos
problemas vivos, humanos e sociais.
A especialização abstrai, isto é, retira um objeto do seu contexto
e da sua totalidade, rejeitando suas ligações e intercomunicações
com o seu ambiente, o insere no compartimento da disciplina, cujas
fronteiras destroem arbitrariamente a sistematicidade (a relação de
uma parte com o todo) e a multidimensionalidade dos fenômenos;
ela conduz à abstração matemática que, ao privilegiar tudo que é
calculável e formulável, executa, a partir dela própria, uma cisão
com o concreto.
Desse modo, a economia, que é a ciência social matematicamente
mais avançada, é a ciência social e humanamente mais atrasada, pois
ela se abstraiu das condições sociais, históricas, políticas, psicológi-
cas, ecológicas, inseparáveis das atividades econômicas. Esse é o
motivo pelo qual seus especialistas são cada vez mais incapazes de
prever e de predizer o movimento econômico, mesmo a curto prazo.

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O conhecimento deve, certamente, utilizar a abstração, mas


buscando organizar-se com referência ao contexto. A compreen-
são de dados particulares exige a ativação da inteligência geral e a
mobilização de conhecimentos conjuntos. Marcel Mauss afirmava:
“torna-se necessário recompor o todo”. Acrescentamos: torna-se
necessário mobilizar o todo. Decerto, tanto é impossível conhecer
tudo do mundo, como compreender suas multiformes transforma-
ções. Mas, ainda que seja aleatório e difícil, deve-se tentar o co-
nhecimento dos problemas-chave do mundo sob pena de imbecili-
dade cognitiva. E ainda mais porque o contexto, atualmente, de todo
o conhecimento político, econômico, antropológico, ecológico etc.
é o próprio mundo. Trata-se de um problema universal para todo
cidadão: como adquirir a possibilidade de articular e organizar as
informações sobre o mundo? Mas, para articulá-las e organizá-las,
faz-se necessária uma reforma do pensamento.

A Falsa Racionalidade
A falsa racionalidade, isto é, a racionalização abstrata e
unidimensional, triunfa sobre a Terra. As obras-primas mais monu-
mentais dessa racionalidade tecnoburocrática foram realizadas na
URSS, onde, por exemplo, desviou-se o curso dos rios para irrigar,
mesmo durante as horas mais quentes, hectares sem árvores utili-
zados para a cultura do algodão, causando a salinização do solo
devido à elevação do sal na terra, a volatilização das águas subter-
râneas e a evaporação do Mar de Aral. Infelizmente, após o desmo-
ronamento do império, os novos dirigentes convidaram especialis-
tas liberais do Ocidente que, ignorando deliberadamente que uma
economia de mercado concorrencial tem necessidade de instituições,
de leis e de regras, não elaboraram a indispensável estratégia com-
plexa que, como assinalou Maurice Allaib — todavia, um economista
liberal —, implicava planificar a desplanificação e programar a des-
programação.

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De tudo isso, resultam catástrofes humanas, cujas vítimas e


conseqüências não são nem evidentes, nem contabilizadas, como o
são as vítimas das catástrofes naturais.
A inteligência parcelada, compartimentalizada, mecanicista,
disjuntiva, reducionista, destrói a complexidade do mundo em frag-
mentos distintos, fraciona os problemas, separa o que está unido,
unidimensionaliza o multidimensional. Trata-se de uma inteligência
ao mesmo tempo míope, hipermétrope, daltônica, caolha; ela muito
freqüentemente acaba ficando cega. Ela aborta todas as possibilidades
de compreensão e de reflexão, eliminando, também, todas as pos-
sibilidades de um juízo corretivo ou de uma visão a longo prazo.
Dessa forma, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais,
mais existe incapacidade de se pensar sua multidimensionalidade;
quanto mais progride a crise, mais progride a incapacidade de se
pensar a crise; quanto mais os problemas se tornam planetários,
mais eles se tornam esquecidos. Incapaz de visualizar o contexto e
a complexidade planetária, a inteligência cega se torna inconsciente
e irresponsável.
Por conseqüência, damo-nos conta de que um problema-chave
é o de se completar o pensamento que separa com um pensamento
que une. Complexus significa, originariamente, aquilo que é tecido
junto. O pensamento complexo é um pensamento que busca dis-
tinguir (mas não separar), ao mesmo tempo que busca reunir.
Coloca-se, assim, um outro problema-chave: tratar da incerteza.
Por quê? Porque, em todos os campos das ciências, o dogma de
um determinismo universal desmoronou e porque, ao mesmo tem-
po, a lógica, sustentáculo da certeza do raciocínio, revelou as in-
certezas na indução, as idedutibilidades na dedução, e os limites no
princípio do terceiro incluso.
Portanto, o propósito do pensamento complexo é, ao mesmo
tempo, o de reunir (contextualizar e globalizar) e de ressaltar o de-
safio da incerteza. Como?

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Os Sete Princípios
Podemos adiantar sete princípios-guia para pensar a complexi-
dade, estes são complementares e interdependentes:
1. O princípio sistêmico, ou organizacional, que une o co-
nhecimento das partes com o conhecimento do todo, conforme a
fórmula indicada por Pascal: “eu acredito ser impossível conhecer
o todo sem conhecer suas partes e de conhecer as partes sem co-
nhecer o todo”. A idéia sistêmica, que se opõe à idéia reducionista,
é a de que “o todo é mais do que a soma das partes”. Do átomo à
estrela, da bactéria ao homem e à sociedade, a organização do todo
produz qualidades ou propriedades novas em relação às partes iso-
ladamente: as emergências. Assim, a organização do ser vivo pro-
duz qualidades desconhecidas no nível dos seus componentes
psicoquímicos. Acrescentamos que o todo é igualmente menos que
a soma das partes, cujas qualidades são inibidas pela organização do
conjunto.
2. O princípio “hologramático”* põe em evidência esse aparen-
te paradoxo dos sistemas complexos nos quais a parte não somente
está no todo, como o todo está inscrito na parte. Assim, cada célula
é uma parte de um todo — o organismo global — mas o próprio
todo está na parte: a totalidade do patrimônio genético está presente
em cada célula individual; a sociedade está presente em cada in-
divíduo no que diz respeito ao todo através da sua linguagem, da
sua cultura e de suas normas.
3. O princípio do ciclo retroativo, introduzido por Norbert Wiener,
permite o conhecimento dos processos auto-reguladores. Ele rom-
pe com o princípio da causalidade linear: a causa age sobre o efeito,
e o efeito sobre a causa, como em um sistema de aquecimento no

* Inspirado no holograma, no qual cada ponto contém quase que a totalidade


de informações do objeto que ele representa.

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qual o termostato regula o funcionamento da caldeira. Esse meca-


nismo de regulação permite a autonomia de um sistema, nesse caso
a autonomia térmica de um apartamento em relação ao frio exterior.
De modo mais complexo, a “homeostasia” de um organismo vivo é
um conjunto de processos reguladores fundamentados em múlti-
plas retroações. O ciclo de retroação (ou feedback) permite, sob
sua forma negativa, reduzir o erro e, assim, estabilizar um sistema.
Sob sua forma positiva, o feedback é um mecanismo amplificador
como, por exemplo, a situação de chegada aos extremos em um
conflito: a violência de um protagonista conduz a uma reação ainda
mais violenta. Inflacionadoras ou estabilizadoras, as retroações são
verificadas em grande quantidade nos fenômenos econômicos, so-
ciais, políticos ou psicológicos.
4. O princípio do ciclo recorrente supera a noção de regulação
pela de autoprodução e pela de auto-organização. Trata-se de um
ciclo gerador no qual os produtos e as conseqüências são, eles pró-
prios, produtores e originadores daquilo que produzem. Assim, nós,
indivíduos, somos os produtos de um sistema de reprodução nasci-
do em priscas eras, contudo, esse sistema somente pode se repro-
duzir se nós próprios nos tornarmos os produtores, nos acasalan-
do. Os indivíduos humanos produzem a humanidade de dentro e
por meio de suas interações, mas a sociedade emergindo, produz a
humanidade desses indivíduos, fornecendo-lhes a linguagem e a cul-
tura.
5. O princípio de auto-ecoorganização (autonomia/dependência):
os seres vivos são seres auto-organizadores que se autoproduzem
sem cessar e por isso gastam a energia para salvaguardar sua auto-
nomia. Como eles têm necessidade de retirar a energia, a informa-
ção e a organização do seu ambiente, sua autonomia é inseparável
dessa dependência e, portanto, é necessário concebê-los como sen-
do auto-ecoorganizadores. O princípio da auto-ecoorganização vale,
evidentemente, de maneira específica para os humanos, que desen-

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volvem sua autonomia dependentes da sua cultura, e para as socie-


dades que dependem de um ambiente geoecológico.
Um aspecto-chave da auto-ecoorganização ativa é que esta se
renova permanentemente a partir da morte das suas células, con-
forme a fórmula de Heráclito, “viver de morte, morrer de vida”, e
que as duas idéias antagonistas, da morte e da vida, são comple-
mentares ao mesmo tempo que permanecem antagônicas.
6. O princípio dialógico acaba, justamente, de ser ilustrado pela
fórmula heraclitiana. Ela une dois princípios ou noções em face de
se excluírem um ao outro, mas que são indissociáveis em uma mes-
ma realidade.
Portanto, devemos conceber uma dialógica ordem/desordem/
organização desde o surgimento do universo: a partir de uma
agitação calorífica (de ordem) na qual certas condições (encon-
tros ao acaso) dos princípios de ordem vão permitir a cons-
tituição de núcleos, de tomos, de galáxias e de estrelas. Reen-
contramos, ainda, essa dialógica desde o surgimento da vida,
nos encontros entre macromoléculas no seio de uma espécie de
ciclo autoprodutor que termina tornando-se uma auto-organização
ativa. Sob as mais diversas formas, a dialógica entre a ordem, a
desordem e a organização, por via de inumeráveis inter-retroações,
está constantemente em ação nos mundos físico, biológico e
humano.
A dialógica permite-nos aceitar racionalmente a associação de
noções contraditórias para conceber um mesmo fenômeno comple-
xo. Niels Böhr, por exemplo, constatou a necessidade de se reco-
nhecer as partículas físicas ao mesmo tempo como corpúsculos e
como ondas. Nós mesmos somos seres separados e autônomos, ao
mesmo tempo em que fazemos parte de duas continuidades separa-
das, a espécie e a sociedade. Quando consideramos a espécie ou a
sociedade, o indivíduo desaparece, quando consideramos o in-
divíduo, a espécie e a sociedade desaparecem. O pensamento com-

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plexo aceita dialogicamente os dois termos, que tendem a se excluir


um do outro.
7. O princípio da reintrodução do conhecido em todo o co-
nhecimento. Esse princípio realiza a restauração do tema e revela o
problema cognitivo central: da percepção à teoria científica, todo o
conhecimento é uma reconstrução/tradução por um espírito/inteli-
gência em uma cultura e em um tempo determinados.
Esses são alguns dos princípios que guiam os progressos
cognitivos do pensamento complexo. Não se trata de um pensa-
mento que exclui a certeza pela incerteza, que exclui a separação
pela inseparabilidade, que exclui a lógica para permitir todas as
transgressões. O procedimento consiste, ao contrário, em se fa-
zer uma ida e vinda incessante entre certezas e incertezas, entre o
elementar e o global, entre o separável e o inseparável. De igual
modo, este utiliza a lógica clássica e os princípios de identidade,
de não-contradição, de dedução, de indução, mas conhece os seus
limites, e tem consciência de que, em certos casos, é necessário
transgredi-los. Não se trata, portanto, de se abandonar os princí-
pios de ordem, de separabilidade e de lógica, mas de integrá-los
em uma concepção mais rica. Não se trata de contrapor um holismo
vazio ao reducionismo mutilador; trata-se de reatar as partes à
totalidade. Trata-se de articular os princípios de ordem e de de-
sordem, de separação e de junção, de autonomia e de dependência
que estão em dialógica (complementares, concorrentes e antagô-
nicos), no seio do universo. Em suma, o pensamento complexo
não é o contrário do pensamento simplificador, ele o integra; como
diria Hegel, ele realiza a união da simplicidade com a complexida-
de, e mesmo no metassistema que constitui, ele transparece sua
própria simplicidade. O paradigma da complexidade pode ser enun-
ciado tão simplesmente como aquele da simplificação: este obriga
a separar e reduzir; o paradigma da complexidade ordena reunir e
distinguir.

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O Âmago Filosófico
Encontram-se, de fato, na história da filosofia ocidental e ori-
ental, numerosos elementos e premissas de um pensamento da
complexidade. Desde a Antiguidade, o pensamento chinês fun-
damenta-se na relação dialógica (complementar e antagônica) en-
tre o yin e o yang e, conforme Lao Tsé, a união dos contrários
caracteriza a realidade. No século XVII, Fang Yizhi formula um
verdadeiro princípio da complexidade. No Ocidente, Heráclito afir-
mou a necessidade de se associar termos contraditórios uns com
os outros. Na era clássica, Pascal é o pensador-chave da comple-
xidade. Kant colocou em evidência os limites e “aporias” da razão.
Leibniz formula o princípio da unidade complexa e da unidade do
múltiplo. Spinoza fornece a idéia de autoprodução do mundo por
ele mesmo. Em Hegel, essa autoconstituição torna-se o romance
épico no qual o espírito emerge da natureza para alcançar a sua
realização e sua dialética, continuada por Marx, anuncia a dialógica.
Nietzsche anunciou a crise dos fundamentos e da certeza. No
metamarxismo, encontramos, com Adorno, Horkheimer e o
Luckacs tardio, não apenas numerosos elementos de uma crítica
da razão clássica, mas também elementos de uma concepção da
complexidade.
No século XIX, quando a ciência ignorava o individual, o singu-
lar, o concreto, o histórico, a literatura e especialmente o romance
revelaram a complexidade humana, de Balzac a Dostoievski e Proust.
Na época contemporânea, o pensamento complexo elabora-se
nos interstícios das disciplinas, a partir de pensadores matemáticos
(Wiener, von Neumann, von Foerster), termodinâmicos (Prigogine),
biofísicos (Atlan), filósofos (Castoriadis). As duas revoluções cien-
tíficas do século só podem estimulá-lo. A primeira revolução intro-
duziu a incerteza por meio da termodinâmica, da física quântica e
da cosmofísica, e originou as reflexões epistemológicas de Popper,
Kuhn, Holton, Lakatos, Feyerabend, que demonstraram que a ciên-

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cia não era a certeza, mas a hipótese, que uma teoria comprovada
não era definitiva e permanecia “falsificável”, que havia algo
não-científico (postulados, paradigmas, themata) no seio do pró-
prio cientificismo.
A segunda revolução científica, mais recente, ainda inacabada, é
a revolução sistêmica, que introduz a organização nas ciências da
terra e a ciência ecológica; ela, sem dúvida, se prolongará como
revolução da auto-ecoorganização na biologia e na sociologia.
O pensamento complexo é, portanto, essencialmente, o pensa-
mento que lida com a incerteza e que é capaz de conceber a organi-
zação. Trata-se de um pensamento capaz de reunir, contextualizar,
globalizar, mas ao mesmo tempo de reconhecer o singular, o in-
dividual, o concreto.
O pensamento complexo não se reduz nem à ciência, nem à
filosofia, mas permite a comunicação mútua, fazendo o intercâm-
bio entre uma e outra.
O modo complexo de pensar não é útil apenas para os problemas
organizacionais, sociais e políticos. O pensamento que enfrenta a
incerteza pode ensinar as estratégias para o nosso mundo incerto.
O pensamento que reúne, ensina uma ética da aliança ou da solida-
riedade. O pensamento da complexidade possui, igualmente, seus
prolongamentos existenciais, postulando a compreensão entre os
humanos.
Tradução:
Marcos Demoro

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Referências Bibliográficas

MORIN, Edgar (1981). La Méthode. Vol. 1: La Nature de la Nature.


Paris, Ed. du Seuil.
———— (1985). La Méthode. Vol. 2: La Vie de la Vie. Paris, Ed. du
Seuil.
———— (1990). Introduction à la Pensée Complexe. Paris, ESF.
———— (1992). La Méthode. Vol. 3: La Conaissance de la Conais-
sance. Paris, Ed. du Seuil.
MORIN, Edgar e PIATELLI-PALMARINI, M. (1978). L’Unité de l’Homme.
Paris, Ed. du Seuil.

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