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Morreu Eugénio de Andrade,


ficamos com o Poeta
Morreu Eugénio de Andrade, figura maior da poesia portuguesa no século XX, o
«poeta solar», da palavra luminosa, que teve a sua estreia fulgurante para o
grande público com o celebérrimo livro As Mãos e os Frutos no já longínquo ano
de 1948, tinha o Poeta apenas 25 anos. Fizera há pouco 82 anos, faleceu de doença
prolongada, mas há muito que a sua obra magnífica o lançara para a imortalidade,
fazendo também dele o poeta mais traduzido do século XX, logo a seguir a
Fernando Pessoa. De caminho, ganhara o Prémio Camões, o maior galardão em
língua portuguesa que lhe foi atribuído em 2001, aos 78 anos.

José Fontinhas de seu nome civil, Eugénio de Andrade nasceu a 19 de Janeiro de 1923
na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, Beira Baixa, mudando-se em 1932 para
Lisboa com a mãe, figura crucial na sua vida e na sua poética. É em Lisboa que passa
toda a adolescência, descobre a sua vocação poética e convive com alguns escritores e
poetas. Em 1940 publica Narciso, o seu primeiro volume de poemas ainda assinado
com o nome de baptismo, a que se seguem Pureza (1942) e Adolescente (1945), onde
fixa para sempre o seu pseudónimo «Eugénio de Andrade». Destes três livros, depois de
expurgados pelo autor, foram publicadas diversas composições numa antologia
intitulada Primeiros Poemas, cuja primeira edição data de 1977.
Entre 1943 e 1946 Eugénio de Andrade encontra-se em Coimbra, onde estabelece
relações de amizade com alguns dos maiores vultos da literatura e do pensamento
portugueses da época, como Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Eduardo Lourenço. Em
1947 torna-se funcionário público, exercendo durante os 35 anos que se seguiram as
funções de inspector administrativo do Ministério da Saúde.
Poeta consagrado, o autor não se limitou, contudo, à poesia, escrevendo diversos
ensaios e prefácios, colaborando em numerosas publicações, traduzindo Garcia Lorca,
organizando as Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado, seleccionando
poesia de diversos autores estrangeiros, prefaciando antologias temáticas, etc. etc.
Privou com os grandes nomes da literatura portuguesa, tanto da sua geração como das
seguintes, tendo sido amigo íntimo de poetas de estéticas muito diversas, como Sophia
de Mello Breyner, Mário Cesariny ou Luís Miguel Nava, tal como de críticos
consagrados, como Oscar Lopes, António José Saraiva, João Gaspar Simões ou Arnaldo
Saraiva.
Em 1948 publica As Mãos e os Frutos, a obra que ele próprio considera a sua
verdadeira estreia literária, tinha então apenas 25 anos. Até hoje, este primeiro volume
já mereceu cerca de 20 edições e continua a deslumbrar sucessivas gerações de leitores.
Entretanto, por essa altura já vivera e trabalhara intensamente. Passara alguns anos em
Coimbra, onde conheceu Carlos de Oliveira, Miguel Torga e Eduardo Lourenço, já
traduzira Garcia Lorca, viajara por Espanha e França, encontrara-se com Sophia de
Mello Breyner e começara a trabalhar como inspector dos Serviços Médico-Sociais.
Em 1950, por razões de serviço na sua actividade de funcionário público do Ministério
da Saúde, muda-se para o Porto, cidade que adoptará e que também por ela será
adoptado, aí vivendo até ao fim dos seus dias, primeiro na Rua Duque de Palmela, 111,
depois na «casa da Foz», que se tornará a sua residência até ao final. Esta casa tem uma
história. Em finais de 1993, alguns amigos portuenses do Poeta criaram a Fundação
Eugénio de Andrade, que abriu ao público em Janeiro de 1995. Situada na Foz do
Douro, numa casa recuperada na esquina da Rua do Passeio Alegre com a Calçada de
Serrúbia, a Fundação passou a servir também de residência do poeta, que a habitará até
ao fim dos seus dias. Entretanto a Fundação, que fora instituída para estudar e divulgar a
sua obra, passou a promover encontros regulares de poetas e a editar os Cadernos de
Serrúbia, revista de estudos sobre poesia.

Cinco referências

duma obra maior

Na vasta e diversificada obra que Eugénio de Andrade nos deixa, há cinco volumes que
merecem uma referência especial.
Cronologicamente, em 1948 sai o já citado As Mãos e os Frutos, que o próprio autor
considera o seu «livro de estreia». É o primeiro marco de uma obra rutilante.
Segue-se Ostinato Rigore, em 1964, talvez o livro de poemas que se seguiu com
impacto semelhante ao As Mãos e os Frutos e onde o Poeta dedilha «acordes» mais
nocturnos na sua poesia eminentemente «solar».
Em 1971 surge Obscuro Domínio, onde surge o famoso «poema Ariadne» e é, por
muitos, considerado um dos melhores livros do autor.
Aos 72 anos, prodigiosamente, surge com O Sal da Língua, um livro igualmente maior
na sua obra tão grande, sobretudo em qualidade.
Finalmente, em 2000 edita Poesia, onde Eugénio de Andrade reuniu tudo o que quis
conservar da sua obra poética, à excepção do livro Os Sulcos da Sede (2001), que já
integrará a próxima edição, a sair em breve.