Você está na página 1de 27

A Economia Política Brasileira Em Questão (1964-1975)1

Guido Mantega e Maria Moraes


Introdução

Hoje, mais do que nunca, a economia política mostra ser uma disciplina cujo domínio é obrigatório
para quem pretenda apreender a dinâmica geral de nossa sociedade. Questões como “qual a natureza de classe
do regime brasileiro”, ou então, “quais são as classes dominantes no país” não têm resposta sem o recurso ao
estudo sistemático das condições concretas em que se desenvolve a acumulação de capital do Brasil. Mas o
entendimento errôneo da estrutura econômica impede o conhecimento da lógica que preside a transformação
social.
Nosso trabalho tem como principal objetivo a reconstituição dos debates e polêmicas entre as
principais correntes de interpretação da economia brasileira, desde o início da década dos anos 60 até nossos
dias, com o intuito de : a) localizar o que poderíamos chamar de as raízes desse pensamento sócio-econômico,
ou seja, tentar reagrupar as diversas análises segundo algumas matrizes teóricas comuns e; b) estabelecer a
ligação entre “novas” e “velhas” análises pois, muitas vezes, as mais recentes abordagens não passam de
velhas teses revestidas de nova roupagem.
A importância desta tarefa não pode ser menosprezada, principalmente quando ainda vivemos as
conseqüências políticas de avaliações equivocadas (que datam dos fins dos anos 50 e começo dos 60) a
respeito dos interesses concretos das diferentes classes sociais; sobre a relação entre formas específicas de
exercício do poder de Estado e o predomínio da produção capitalista, e outras questões correlatas.
Devido à redução da teoria científica a um rol de receitas prontas, no início dos anos 60 a discussão
girava em torno do papel “revolucionário” da burguesia industrial e dos entraves “feudais” supostamente
existentes na estrutura agrária. Muitos estudiosos partiram da premissa de que toda a burguesia é idêntica e
toda a revolução burguesa tem como modelo a realidade na França, em 1789. Daí a ilusão sobre a
“predestinação” da burguesia brasileira para encabeçar um desenvolvimento capitalista de caráter nacional-
democrático tornar-se um “fato incontestável”, que redundou, na prática, em alianças políticas do tipo, “a
burguesia entra com a boca e o proletariado com a sopa”.
Uma vez consumado o governo militar, pondo abaixo, pelo menos momentaneamente, o projeto
“nacional-democrático”, a problemática deslocou-se para a questão da inviabilidade da retomada do
crescimento capitalista. Derrotados pelos fatos, os teóricos da oposição terminaram por concluir, confundindo
seus desejos subjetivos com a realidade objetiva, que nem tudo estava perdido pois a estagnação econômica
“inevitável” terminaria por vencer automaticamente o novo regime.
Mas, ao invés de sua derrocada, o capitalismo brasileiro apresentou um florescimento inaudito no
período 1968/74, deitando por terra as teses estagnacionistas. Na verdade, a acumulação de capital nesse
período iria demonstrar um fôlego ainda maior do que apresentado nos ciclos anteriores, propiciando uma
revelante ampliação do capital monopolista.
Passada a perplexidade inicial, os críticos do sistema enterram o catastrofismo e passam a empenhar-
se na análise da concentração “desumana” da renda, tendendo a focalizar os problemas sociais do país de uma
perspectiva ética. Porém, enquanto os apologistas do sistema não perdem a oportunidade de entoar loas ao
“milagre brasileiro”, no seio da oposição começam a surgir interpretações mais objetivas da realidade social
brasileira, com a capacidade de colher os frutos da experiência fornecida pelas lutas sociais no país e dar-lhes
novas perspectivas.
Finalmente, cabe ressaltar que, como todo trabalho ex-post, nossa análise beneficia-se de ter sido
escrita depois dos próprios fatos terem realizado seu ajuste de contas com as teorias que pretendiam explicá-
los. Por isso, acreditamos na oportunidade deste balanço crítico num momento em que a experiência das
gerações passadas deve ser apropriada pelas novas gerações sob pena de cometermos os mesmos equívocos
teóricos responsáveis por graves perdas políticas.

A análise “ortodoxa”

1
Publicado como primeiro número dos Cadernos do Presente pela Editora Aparte, São Paulo – SP em 1978.
Uma primeira corrente de interpretação, que chamaremos de “ortodoxa”, influenciou importantes
setores de nossa sociedade durante um largo período e tem entre seus maiores expoentes Nelson Werneck
Sodré (com vasta produção teórica da qual selecionamos um livro mais recente, História da Burguesia
Brasileira, editado pela Civilização Brasileira) e Alberto Passos Guimarães (com Quatro Séculos de
Latifúndio, editado, pela primeira vez, em fins de 1963).
A análise “ortodoxa” típica pode ser resumida da seguinte maneira: a principal contradição que existe
na sociedade brasileira é a que opõe o latifúndio, aliado aos interesses estrangeiros, ao resto da sociedade, isto
é, os trabalhadores da cidade e do campo, a burguesia industrial, etc. Para que o capitalismo possa expandir-se
e cumprir suas “tarefas históricas” é necessário, portanto, romper as amarras que impedem o pleno
estabelecimento das relações capitalistas de produção, vale dizer, a eliminação do latifúndio (e os resquícios
feudais) e a expulsão do imperialismo. Neste sentido, a análise parte da premissa de que “a contradição com o
latifúndio é a mais antiga que a burguesia brasileira conhece” e que “o desenvolvimento da burguesia exige a
liquidação do latifúndio”2. Além disso, “na contradição com o latifúndio, tomada isoladamente, a burguesia
está vinculada ao proletariado (...) e com o campesinato”3.
Os laços do latifúndio com o imperialismo, segundo este tipo de análise, explicam-se pelo fato da
comercialização de nossos produtos de exportação estar nas mãos do capital estrangeiro. Ou, nas palavras do
próprio Werneck Sodré4: “Os vínculos entre o latifúndio e o imperialismo, assim, são muito fortes, e a
burguesia, em sua contradição com o monopólio da terra e com o que ele representa com estreitamento do
mercado e obstáculo à generalização das relações capitalistas, é obrigada a considerar que atrás do latifúndio
está o imperialismo e que, portanto, o latifúndio, débil quando encarado isoladamente, tem poderes que a
razão pode desconhecer”.
Logo, o principal freio ao desenvolvimento industrial do país – à generalização das relações
capitalistas de produção e à expansão do mercado interno – reside no latifúndio que, por sua vinculação com o
capital estrangeiro é também inimigo da Nação. Em outros termos, apesar do “aparelho de Estado, em nosso
país, estar na posse da burguesia”5 o capitalismo nacional não se desenvolve mais porque existe uma camada
social no campo, constituída pelos latifundiários (sustentáculo das relações “coloniais”; “feudais”; “semi-
feudais” etc.) que impede o pleno desenvolvimento das relações capitalistas e o aumento da produtividade do
trabalho. Com isto, bloqueia-se o crescimento do mercado interno para os produtos industriais. O país não se
desenvolve e nem pode afirmar-se plenamente como Nação soberana graças a permanência do latifúndio,
fortalecido por suas ligações com o imperialismo. A burguesia brasileira, portanto, precisa vencer esta aliança
e, ao fazê-lo, estará, concomitantemente, defendendo os interesses nacionais.
Decorre desse raciocínio a concepção de que existem “tarefas peculiares à revolução burguesa” 6, e
que a “burguesia nacional” está “objetivamente interessada na exploração do mercado nacional e,
consequentemente, na eliminação dos monopólios imperialistas sobre este mercado”, e, para cumprir suas
“tarefas históricas”, a burguesia precisa da democracia para poder ampliar sua base política na luta contra os
inimigos da nação (o latifúndio e o imperialismo).

Os equívocos da análise “ortodoxa”

O primeiro equívoco da análise “ortodoxa” diz respeito a uma visão mecanicista da relação entre
produção capitalista e regime político, na medida em que não percebe que o desenvolvimento capitalista está
sujeito a leis e a uma dinâmica para as quais a democracia não corresponde a nenhuma necessidade intrínseca.
É um erro, de conhecidas consequências, supor a existência de uma relação inerente entre burguesia e
democracia, e imaginar que exista algum tipo de compromisso entre dominação burguesa e regime
democrático. Em outras palavras, no sistema capitalista o conceito “democrático” só qualifica o sujeito
“burguês” quando outras classes e camadas, efetivamente interessadas na democracia, conseguem conquistar
uma maior participação dentro do regime político7.

2
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Burguesia Brasileira, pág. 343.
3
Idem, ibidem, pág. 344.
4
Idem, ibidem, pág. 350.
5
Idem, ibidem, pág. 344.
6
SODRÉ, N. W., opus cit. pág. 367.
7
Ver a este respeito o artigo de J. Quartim, “La Nature de Classe de L’Etat Brésilien”, Les Temps Modernes, nºs 304 e
305 (1971).
Um segundo equívoco teórico da corrente “ortodoxa” decorre também de sua concepção estreita das
relações entre camadas sociais e “interesses históricos objetivos”, no caso, a ideia de que a burguesia, em
abstrato, tenha sempre uma vocação nacionalista. Dessa forma, atribui-se à burguesia brasileira um apego pelo
desenvolvimento capitalista nacional. Tudo se passa como se a burguesia industrial (igual a burguesia
nacional) só pudesse sobreviver se esmagasse seus “inimigos” (a aliança latifúndio-imperialismo) que
impedem um mercado interno para seus produtos (ao manterem a população do campo sob uma relação de
exploração pré-capitalista). Nessas condições, o capitalismo brasileiro só viabilizar-se-ia efetivamente através
de um desenvolvimento nacional equilibrado (apesar do caminho da associação com o capital estrangeiro já
então ser um fato visível para quem não estivesse cego por esquemas pré-estabelecidos) e, por isso mesmo, ao
situar a principal contradição do país na oposição Nação versus Imperialismo, exagera-se o real alcance do
nacionalismo burguês em nosso país.

O romantismo econômico

“... o sistema latifundiário mantém até os nossos dias, com a máxima firmeza, o controle de nossa
economia agrária. E não seria exagero asseverar que em suas mãos ainda está, de certo modo, o controle de
nossa economia nacional. (...?) Usando exclusivamente em seu benefício esse duplo monopólio, o da
propriedade e o da renda agrária, o sistema latifundiário transfere para o povo a sobrecarga do processo
espoliativo resultante da pressão baixista, sobre os preços dos produtos primários, exercida pelos trustes
estrangeiros. E torna-se responsável, como intermediário e como fautor, pelo retardo e insuficiente
desenvolvimento do mercado interno, pelo irrisório poder aquisitivo das populações rurais e até mesmo
das populações urbanas”. (grifo nosso)8.
A consideração de que a presença do “latifúndio” continua sendo o principal entrave para o
desenvolvimento econômico do país constitui, como bem demonstra o trecho acima, um dos pilares teóricos
da análise “ortodoxa”. Tanto em Werneck Sodré, como em Passos Guimarães e Maurício Vinhas (outro
expoente de teses “ortodoxas”), a miséria da população rural (consequência da aliança latifúndio-
imperialismo) é o grande entrave para a expansão do mercado interno que é erigido em condição sine qua
non para o desenvolvimento capitalista. Vinhas chega mesmo a identificar capitalismo a desenvolvimento
econômico tout court, como fica claro em sua argumentação na polêmica contra Caio Prado9: “Mas que País
é o Brasil? De acordo com as obras anteriores à Revolução Brasileira do mencionado autor, o Brasil é um País
dependente, subdesenvolvido. Com que agora, então, já o considera País capitalista? Houve alguma revolução
no País que mudasse o caráter da estrutura econômica, social e política, que deslocasse o Brasil do mundo
subdesenvolvido?”10. Com isso, M. Vinhas, em obra que veio a público em 1968, nega a própria existência da
transformação burguesa da sociedade brasileira. A história do Brasil reduz-se à problemática da “estrutura
agrário-camponesa” do país, isto é, o latifúndio e as “relações de produção atrasadas”11. E o estrangulamento
do mercado interno, consequência da “estrutura agrário-camponesa” do país, é o principal entrave para a
expansão do capital.

Refutação do “feudalismo” e da “burguesia nacional”

Em 1966, com a publicação de “A Revolução Brasileira”, Caio Prado Jr. joga lenha na fogueira da
discussão política sobre a natureza da sociedade brasileira e o caráter de suas transformações sociais.
Ampliando a polêmica iniciada com a publicação da “A Marcha da Questão Agrária no Brasil” na Revista
Brasiliense (fev. de 1964) que teria vários desdobramentos em artigos da Revista Civilização Brasileira12 e da
Revista Teoria e Prática13, o autor do clássico História Econômica do Brasil, afirmava ser um grande equívoco
conceber a existência de relações feudais de produção, no campo brasileiro. Essa hipótese, assim como a
hipótese de uma “burguesia nacional”, que, por ser inimiga do imperialismo e do latifúndio feudal a ela
associado, deveria ocupar um lugar de honra na aliança de classes progressista, adviria da mera transposição

8
GUIMARÃES, Passos. Quatro Séculos de Latifúndio, pág. 203.
9
VINHAS, Maurício. Problemas Agrário-Camponeses do Brasil.
10
Idem, ibidem, pág. 7.
11
VINHAS, M., opus cit., pág. 244.
12
Veja em especial “Caio Prado e a Teoria da Revolução Brasileira”, de Assis Tavares, março de 1967.
13
Veja “A Revolução Brasileira de Caio Prado Jr.” de Ruy Fausto, Teoria e Prática nº 2, 1968.
mecânica para o Brasil das fases de desenvolvimento do capitalismo nos países desenvolvidos. Assim, ao
invés de basearem-se nas condições econômicas, sociais e políticas brasileiras, certos analistas procurariam
amarrar o desenvolvimento do país às mesmas etapas percorridas por algumas formações sociais europeias.
Adaptavam, pois, nossa realidade a um modelo abstrato, importado de situações distintas. Caio Prado Jr.
contrapõe a essa abordagem uma minuciosa análise das relações de produção encontradas no campo brasileiro
(a parceria, o cambão, o barracão etc.), tentando demonstrar que todas, ou quase todas, não passam de relações
capitalistas de produção. Desde que, na agricultura brasileira, imperam relações capitalistas (portanto, relações
de trabalho assalariado), nada mais lógico – na ótica de Caio Prado – que o trabalhador rural dirija sua luta em
sentido diverso do camponês (que seria uma espécie em extinção), vale dizer, em direção a uma melhoria de
salários, ao invés de reivindicar a propriedade da terra, como quer a análise “ortodoxa”.
Se não se pode negar a propriedade da crítica de Caio Prado Jr. à análise “ortodoxa” dos estágios
sucessivos, e a riqueza de sua abordagem da agricultura brasileira, parece que ele exagerou em analisá-la
apenas em termos de relações capitalistas. Mesmo demonstrando a contento a inexistência de relações feudais,
Caio Prado Jr. acaba reduzindo as inúmeras relações de produção pré-capitalistas, abundantes na agricultura
brasileira, à relações capitalistas. Na verdade, fica difícil aceitar que relações, por exemplo, de parceria, onde
o trabalhador fica com uma parte de sua produção e, portanto, recebe “in natura”, sejam praticamente a
mesma coisa que o trabalho assalariado.
Por outro lado, essa mesma veemência empregada para criticar a tese feudal repetiu-se na refutação da
“burguesia nacional”. Para Caio Prado Jr., ao invés de contradições entre uma “burguesia nacional” versus a
coligação imperialismo mais latifúndio feudal, haveria uma harmonia de interesses das classes dominantes
como um todo, isto é, a burguesia industrial (seja nativa como estrangeira), comercial e financeira, compor-se-
ia de indivíduos da mesma categoria, sejam suas atividades urbanas ou rurais. “São todos homens de negócios
burgueses e capitalistas – na acepção específica, econômica e social da expressão – que não se diferenciam
entre si senão pelo ramo e vulto dos negócios.”14 E, no lugar de choque de interesses, ocorre a associação
entre a burguesia nativa e as empresas “imperialistas”, entabulando uma interconexão de interesses de toda a
ordem e relegando à segunda importância os esporádicos casos de conflitos entre si. Mais uma vez Caio Prado
Jr. peca pelo oposto da posição “ortodoxa”. Se esta última exagerou nas contradições entre a chamada
“burguesia nacional” e o capital monopolista estrangeiro, por seu lado Caio Prado eliminou de vez essas
contradições. No entanto, não se deve minimizar as chamadas contradições secundárias e os acordos (ou
desacordos) que estas geram no seio das classes dominantes, sob pena de uma avaliação errônea dos regimes
políticos instaurados no país.

Os limites desenvolvimento no subdesenvolvimento

No artigo “Contradições e Conflitos no Brasil Contemporâneo”, publicado no exterior em 1965 e no


Brasil em 196815, Ruy Mauro Marini considera o Brasil um país essencialmente capitalista. Porém, enquanto
para Caio Prado Jr., o país segue sendo um mero fornecedor de produtos primários (agrícolas, minerais etc.) a
“bon marché” para os centros hegemônicos e, portanto, trata-se de um capitalismo na agricultura, para Marini
já prevalece, em meados da década de 60, a acumulação industrial. Desde então, portanto, a expansão
industrial estaria sendo obstaculizada pela estrutura agrícola do país. Isto porque, por um lado, haveria um
suposto esgotamento do mercado interno para os produtos industriais, mercado esse que esbarraria numa
estrutura agrária atrasada, que mantém a maioria dos camponeses numa situação de sub-emprego e miséria,
sem condições de consumirem os produtos industriais, e, por outro lado, a produção agrícola não estaria
atendendo a crescente demanda urbana, provocando uma elevação de preços dos produtos agrícolas e
causando uma transferência de renda do setor urbano para o campo.
Diante disso, para reativar a economia (que no período 1962 a 67 permanecia em crise) seria preciso
ampliar o mercado interno de produtos industriais e melhorar a produtividade e a produção agrícola através de
uma reforma agrária.

O estrangulamento do mercado interno e o “subimperialismo” brasileiro

14
A Revolução Brasileira, op. cit., p. 106.
15
Teoria e Prática nº 2, 1968.
Caso essa reforma agrária não se efetivasse, restaria a alternativa de canalizar a produção industrial
brasileira para países menos desenvolvidos que o Brasil. Nesses termos, o Brasil poderia engajar-se numa
expansão para os vizinhos menos afortunados do continente Sul Americano, nos moldes imperialistas.
No tocante ao estrangulamento do mercado interno, deve-se salientar que, não apenas a totalidade dos
autores mencionados até aqui, como a grande maioria do pensamento de oposição ao “establishment”,
compartilhavam essa tese. Se bem que esse estrangulamento fosse concebido de formas distintas (daí a
diferença nas soluções), essa quase unanimidade deixa de entrever a aceitação geral das teses subconsumistas,
desenvolvidas na virada do século por Rosa de Luxemburgo, bem como por vários reformistas que, de
ângulos variados, procuravam fazer a crítica aos esquemas marxistas de reprodução. A grosso modo, as teses
subconsumistas afirmam que a produção capitalista estaria fadada a enredar-se numa contradição
fundamental: à medida em que se expande às custas da pauperização da classe operária, a produção
capitalista, mesmo tendo lucros crescentes, priva-se do principal mercado consumidor de seus produtos. Para
superar esse entrave à sua expansão, os capitais são obrigados a deixar os seus países ou, as regiões
capitalistas destes últimos, em busca de mercados consumidores em regiões ou países pré-capitalistas. Essa
explicação subconsumista do imperialismo (vide, a respeito, Rosa de Luxemburgo, A Acumulação de Capital
– Estudo sobre a Interpretação do Imperialismo)16 foi criticada por Lenin principalmente em “O
Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia”, que, em sua interpretação do imperialismo (vide principalmente
O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo)17 demonstrou estar o problema centrado muito mais na
elevação da taxa de lucros, que poderia ser obtida pelos países imperialistas no exterior, do que na expansão
do mercado consumidor.
Voltando ao subconsumismo no Brasil, essa tese baseava-se na falsa premissa de que as classes
populares constituíam o grosso do mercado consumidor, quando na verdade este era formado, em grande
parte, pela própria classe capitalista (seja sob a forma de demanda de bens de capital, seja sob a forma de
demanda de bens de consumo duráveis) e pela parcela mais abastada da classe média. No caso brasileiro, foi
justamente a grande concentração de renda, apontada pelas várias interpretações em pauta como o cadafalso
do capitalismo no país, que proporcionou, não apenas invejáveis taxas de lucro, como também as condições
para a criação de um pequeno (em número), porém eficiente (em volume de recursos) mercado consumidor de
bens de consumo duráveis. A dar ouvidos às interpretações subconsumistas, as medidas tomadas pelos
governos pós-64, deveriam ter levado o capitalismo à bancarrota, pois basearam-se fundamentalmente numa
concentração de rendas, por intermédio de uma política de restrição salarial.

O desenvolvimento do subdesenvolvimento

Mesmo sendo um dos precursores da crítica à tese feudal (vide “A Agricultura Brasileira: Capitalismo
e o Mito do Feudalismo” na Revista Brasiliense de fev. 1964), André Gunder Frank notabilizou-se pela sua
análise sobre a relação entre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento. Partindo da premissa de que não
existem nem nunca existiram relações feudais no campo brasileiro, Gunder Frank procurou demonstrar que o
subdesenvolvimento é a consequência inevitável das relações de exploração estabelecidas entre os países
avançados ou metrópoles e os países atrasados ou satélites. Para ele, o desenvolvimento alimenta-se do
subdesenvolvimento, vale dizer, as metrópoles se apropriam sistematicamente do excedente produzido pela
superexploração dos trabalhadores dos satélites, transferindo todo o potencial de acumulação destes últimos
para as metrópoles. Além disso, a metrópole provocaria toda a sorte de distorções no satélite, fazendo com
que se repita, no interior deste, o mesmo esquema metrópole-satélite. Assim, no caso brasileiro, teríamos
polos de desenvolvimento expropriadores (o Centro-Sul, por exemplo), e polos de subdesenvolvimento
expropriados (a região agrícola nordestina, por exemplo). Some-se a isso o fato de que os países que
embarcaram na industrialização substitutiva de importações, especialmente de bens de consumo duráveis, só
aumentam suas necessidades de importação de bens intermediários e bens de capital para a implantação das
novas unidades produtivas.
Dessa forma, a industrialização em países satélites, como o Brasil, nunca conseguirá deixar de
engatinhar (enquanto permanecer integrada ao sistema capitalista), seja pela constante expropriação de seu
excedente, seja pela estreiteza do mercado consumidor, estreiteza esta que constitui o reverso da medalha da
superexploração do trabalho, indispensável para a extração de grandes quantidades de excedentes. Portanto, a

16
Rio de Janeiro, Zahar, 1970.
17
Buenos Aires, Editorial Anteo, 1972.
agricultura brasileira seria subdesenvolvida por ser expropriada não somente pelas metrópoles externas como
também pelas internas. A grande concentração da propriedade da terra obriga à massa de moradores do campo
a submeter-se ao domínio dos proprietários, que podem manter baixos os salários. Daí a tese da
superexploração do trabalho que, se não está explicitada claramente nos trabalhos de Gunder Frank18 foi
detalhada por Marini em “Dialética de la dependência: La economia exportadora”, publicado em 1972.

Subdesenvolvimento e superexploração

Segundo Marini, a oferta mundial de alimentos e matérias primas, as principais mercadorias


produzidas pelos países subdesenvolvidos, apresentou, nos últimos setenta anos, uma grande elevação, ao
mesmo tempo em que ocorria uma queda de seus preços. Enquanto isso, os preços dos produtos industriais,
produzidos pelos países desenvolvidos, mantinham seus preços estáveis ou, quando muito, sofriam ligeira
queda. Isso caracterizava uma deterioração dos termos de troca em prejuízo dos produtos primários.
Então como explicar a elevação da oferta de produtos primários apesar da depressão dos seus preços?
Marini diz que, para compensar a diminuição dos lucros ocasionada nas trocas externas os produtores de bens
primários aumentam o volume das mercadorias exportadas e incrementam a exploração dos trabalhadores de
modo a ampliar a massa de lucros produzida.
Como se pode observar, Marini e Gunder Frank chegam a conclusões semelhantes a respeito da
situação político-econômica do Brasil. Para ambos, as limitações com que se depara o desenvolvimento
nacional não advém de entraves pré-capitalistas, mas são justamente inerentes ao próprio desenvolvimento do
capitalismo em escala mundial. Portanto, não será nenhum capitalismo local ou “burguesia nacional” que vai
oferecer as saídas para o subdesenvolvimento mas, justamente uma transformação radical que elimine o
próprio capitalismo.
Não se pode deixar de notar que, com maior ou menor ênfase, as interpretações abordadas estão ainda
ancoradas nas velhas teses cepalinas, postuladas inicialmente por Raul Prebisch, desde o fim da década de 40.
Trate-se da “deterioração dos termos de intercâmbio” para as mercadorias dos países subdesenvolvidos, que
resultava nas leis do intercâmbio desigual. Essas teses, que tinham algum poder explicativo enquanto a
transferência do excedente para os países desenvolvidos se efetuava por intermédio da troca de mercadorias,
tornaram-se bastante parciais quando redefiniu-se, na divisão internacional do trabalho do mundo capitalista, o
papel de países como o Brasil. Mesmo a partir da década de 50, enquanto as empresas estrangeiras se
instalavam afoitamente em território brasileiro e passavam a produzir para o mercado interno, remetendo para
o exterior os seus lucros e, deixando a transferência de excedente via troca de mercadorias para segundo
plano, boa parte dos analistas anti-establishment insistiam em ver nas leis do intercâmbio desigual a forma
principal de atuação do imperialismo. Este, na verdade, passara da fase de exportação de mercadorias para a
da exportação de capitais, como forma prioritária de expropriar valor.

O desenvolvimento com dependência

Um dos primeiros passos em direção ao rompimento com as teses cepalinas e com as perspectivas
estagnacionistas foi dado com o trabalho de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto: – Dependência e
Desenvolvimento na América Latina19. Esse trabalho que, apesar de ter sido escrito entre 1966 e 67, só foi
publicado no Brasil em 1970, procura criticar as análises que explicam o dinamismo das sociedades
subdesenvolvidas a partir de fatores externos. Assim, ao invés de meros apêndices do imperialismo, esses
países devem ser compreendidos principalmente a partir da dinâmica interna da acumulação de capital, que
reflete a especificidade da luta de classes dentro do país. Segundo esses autores, o conceito de
subdesenvolvimento, do modo como vem sendo usado, está esclerosado, pois, diz respeito a um tipo de
estrutura econômica com predomínio do setor primário, pouca diferenciação do sistema produtivo e,
sobretudo, predomínio do mercado externo sobre o mercado interno. Portanto, esse “subdesenvolvimento”
refere-se à época em que o país era um mero fornecedor de produtos agrícolas, quando o grosso de sua
produção ditava “de fora” a dinâmica do nosso desenvolvimento. Porém, a partir do predomínio da
acumulação industrial, estabelece-se um novo tipo de relação entre a economia interna e os centros

18
Vide do mesmo autor Capitalismo y Subdesarrollo em America Latina. Buenos Aires, Ediciones Signos, 1970 e Le
Dévolpment du Sous – Dévelopment: L’Amerique Latine. Paris, Maspero, 1970;
19
Rio de Janeiro, Zahar, 1970.
hegemônicos do mercado mundial. Agora as empresas imperialistas investem diretamente na produção
industrial do país e para o consumo interno. Dessa forma, ocorre uma gradativa transmutação do ciclo de
acumulação do capital, onde o grosso da produção de mercadorias passa a ser realizada (consumida) no
mercado interno. Assim, a economia brasileira deixa de estar voltada para o mercado externo.
Cardoso e Faletto demonstram ter uma visão mais aguçada do que seus contemporâneos em relação às
transformações que estavam ocorrendo em certos países da América Latina, não somente ao definir o “novo
caráter da dependência”, como também ao ir além das teses subconsumistas. Eles deram conta de que o
capitalismo poderia se desenvolver nas economias latino-americanas mesmo com concentração de renda, pois
a realização ou venda das mercadorias depende, em grande medida, do consumo das próprias empresas.

A agricultura eficiente

Nos Sete Ensaios sobre a Economia Brasileira20 Antonio Barros de Castro refuta a tese feudal e outras
que afirmavam ser a agricultura um obstáculo para a industrialização brasileira. Baseando-se em trabalhos de
Delfim Neto21 e de Ruy Miller Paiva22, Castro examina as principais tarefas convencionalmente atribuídas à
agricultura para possibilitar a industrialização, tais como a geração e ampliação de um excedente de alimentos
e matérias primais, liberação de mão de obra, criação de um mercado para os produtos industriais e
transferência de capitais, concluindo que estas são cumpridas, de acordo com as necessidades locais,
contrariando, portanto, além das correntes de interpretação já mencionadas, a análise de Werner Baer 23, um
autor muito respeitado no “establishment”. Segundo Castro, a crise do comércio internacional a partir de 1929
fez parte da agricultura brasileira de exportação voltar-se para o mercado interno, passando a produzir
alimentos e matérias primais em quantidade suficiente para atender a demanda urbana. Por seu lado as altas
taxas de crescimento demográfico teriam sido de tal monta a atender não somente à crescente demanda de
mão de obra na agricultura, como também a permitir um substancial êxodo rural que, combinado com o
crescimento vegetativo da população urbana, mostrou-se mais do que suficiente para preencher a procura
industrial. Além disso, o surto industrial brasileiro não teria sido propiciado por mercados rurais,
primeiramente graças à transferência para o plano interno da produção importada (substituição de
importações), e, em segundo lugar, devido à própria dinâmica da implantação de um amplo setor industrial,
que provoca a extensão do mercado. Finalmente, Castro afirma que o aporte de capitais da agricultura teria
tido uma importância diminuta em vista do estilo de desenvolvimento industrial brasileiro, baseado em altas
taxas de rentabilidade. As poucas transferências havidas foram realizadas seja pelas taxas de câmbio
desfavoráveis aos produtos agrícolas, seja pelos juros negativos pagos aos depósitos bancários dos
proprietários agrícolas. Diante desse quadro, Castro chega à conclusão que a agricultura vem atendendo,
grosso modo os requisitos da industrialização.
A despeito da riqueza da análise de Castro, que nos fornece um bom panorama das várias teses sobre
agricultura brasileira, ele deixou de examinar se esta vinha cumprindo uma das tarefas primordiais para a
acumulação industrial: o barateamento do custo de reprodução da força de trabalho. É preciso, pois, indagar se
os alimentos que se destinam à classe trabalhadora estão sendo produzidos com maior produtividade, isto é, se
são cada vez mais baratos, o que possibilitaria uma diminuição do tempo socialmente necessário para a
reprodução da força de trabalho e, consequentemente, uma elevação das taxas de lucro. Não se pode esquecer
que na sua fase monopolista o capital se acumula principalmente por meio da mais-valia relativa, e que esta
encontra-se em estreita relação com o barateamento dos custos de reprodução da força de trabalho.

A contribuição da CEPAL

Há aproximadamente 30 anos a Cepal vem fornecendo análises e propostas de solução para os


problemas econômicos da América Latina e influenciando, com maior ou menor força, partidos e correntes
políticas da esquerda latino-americana. O balanço histórico das atividades da Cepal é, desta maneira, tarefa
extremamente complexa, mesmo quando restrita exclusivamente às suas influências no caso brasileiro.

20
Forense, 1969.
21
Agricultura e Desenvolvimento no Brasil. Estudos AMPES nº 5, SP, 1966.
22
Problemas da Agricultura Brasileira e Reflexões sobre as Tendências da Produção, da Produtividade e dos Preços do
Setor Agrícola no Brasil, in Revista Brasileira de Economia, setembro de 1966.
23
A Industrialização e o Desenvolvimento Econômico do Brasil, Fundação Getúlio Vargas, 1966.
Pertenceram às fileiras cepalinas Celso Furtado, Conceição Tavares, Barros de Castro e Carlos Lessa, para
ficar nos mais conhecidos. Porém, na medida em que não existe, nem mesmo entre estes economistas, uma
completa harmonia de pontos de vista no concernente à apreensão teórica do desenvolvimento capitalista
brasileiro (apesar de podermos encontrar um arcabouço teórico similar na grande maioria dos casos), seria
uma pretensão descabida tentar realizar o acerto de contas definitivo com a chamada “teoria cepalina”. Dessa
maneira, limitar-nos-emos a sintetizar aquelas que consideramos as principais teses da Cepal e seus possíveis
equívocos. Para tanto, levamos em conta críticas anteriormente formuladas ao pensamento cepalino e
advertimos para o fato de que muitos de seus ex-seguidores – como é o caso de C. Tavares e C. Furtado – já
fizeram pelo menos em algumas ocasiões a reformulação, parcial, de seus supostos analíticos.

Teses centrais do pensamento cepalino aplicado no caso brasileiro

Primeira tese: A industrialização do país e resultante do “processo de substituição de importações",


ou seja, da produção interna de mercadorias até então importadas, cujo acesso foi dificultado por problemas
relacionados com o “estrangulamento externo”.
“O processo de desenvolvimento recente se deu basicamente sob o impulso das restrições do setor
externo”, diz Conceição Tavares no “Auge e declínio do processo de substituição de importações no
Brasil” escrito em 196324. Este estrangulamento e explicado, no geral, pelas consequências da depressão de
1929 e dos períodos de Guerra sobre as economias latino-americanas, tais como o “déficit do balanço de
pagamentos”; a “queda dos preços dos produtos primários no mercado internacional” e a “contração das
exportações de produtos primários”25. “A perda de dinamismo do setor exportador, em particular a partir da
grande depressão deu lugar a um esforço de reorientação da atividade econômica, consubstanciado, em grande
parte na substituição de importações por produção nacional, assegurada pela reserva de mercado obtida
através da proteção cambial e tarifaria26”
Segunda tese: A medida em que o processo de substituição de importações aprofunda-se, isto e,
quando se passa a produzir internamente uma gama de mercadorias mais sofisticadas, vai também se
modificando a pauta de importações do país e, ao mesmo tempo, vão aparecendo os indícios de que o
processo substitutivo encontrará certas barreiras e não poderá transformar as economias subdesenvolvidas em
economias de desenvolvimento auto-sustentado (em outras palavras, a industrialização tendo como eixo a
própria dinâmica da acumulação interna de capital).
Assim, “a substituição de importações, apesar de ter representado um fator dinâmico fundamental no
desenvolvimento nacional (...) não teve praticamente influência alguma na diversificação das exportações
latino-americanas27. Este fato impossibilitou tais países de resolverem seus problemas de balanço de
pagamentos pois, “de um lado, as exportações sofreram perdas consideráveis pela queda da relação de troca e
o poder de compra externo estancou ou cresceu muito lentamente”. Por outro lado, apesar do processo de
substituição de importações ter modificado a pauta de importações, o volume global das importações
aumentou, dadas as próprias imposições do processo substitutivo, incrementando, concomitantemente, as
necessidades de divisas, tornando a economia nacional ainda mais vulnerável ao problema do desequilíbrio
externo e levando àquilo que a Cepal chamou de “desequilíbrio crônico do balanço de pagamentos”28.
Terceira tese: O desequilíbrio externo – principal barreira para a passagem ao “desenvolvimento
auto-sustentado” – explica-se, em última instância, pela divisão internacional do trabalho (ou melhor, pelo
lugar ocupado pelos países latino-americanos nesta divisão) que desfavorece aos países exportadores de
produtos primários.
A tese da “deterioração dos termos de troca”, subjacente a este raciocínio, constitui o denominador
comum entre a “teoria cepalina” e o grosso das chamadas “teorias da dependência”. Trata-se, em poucas
palavras, do processo de deterioração dos termos de troca dos produtos exportados pelos países latino-
americanos. Consequentemente, como foi assinalado, os primeiros países não podem contar com a massa
necessária de divisas que possibilite o desenvolvimento completo do processo de substituição de importações.

24
Artigo que faz parte da coletânea Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro. Zahar, 1972
25
Vide El Pensamiento de La Cepal, Editorial Universirária 1962, pág. 1965
26
Tavares, Conceição, op. cit., pág. 67.
27
El Pensamiento de La Cepal, op. cit., pág. 168.
28
Idem, pág. 173.
Como forma de superar a essa situação, a Cepal termina por cair numa posição “reformista”, segundo
expressão de Francisco de Oliveira: “Prebisch espera que os países industrializados reformem seu
comportamento, elevando seus pagamentos pelos produtos agropecuários que compram da América Latina e
rebaixando o preço dos bens industriais que vendem, que é, em essência, o espírito das conferências
UNCTAD.”29 Na mesma linha de pensamento é formulada a proposta de “integração regional como
instrumento do desenvolvimento nacional”, ou seja, uma variante terceiro-mundista que propõe a
“comunidade latino-americana” como força de pressão frente aos “países desenvolvidos”. Neste sentido o
Pacto Andino e o Alalc não deixam também de ser filhos da grande ilusão cepalina que, com fórmulas de
cunho ético, pretende reformar o mundo.
Quarta tese: As economias latino-americanas apresentam uma “dualidade estrutural” (ou, uma série
de dualidades) que necessitam ser superadas para que a industrialização se desenvolva de forma completa e
harmoniosa.
Analisando o caso brasileiro, Conceição Tavares, por exemplo, assinala que “o processo de
desenvolvimento econômico foi essencialmente desequilibrado em três níveis convergentes: setorial, regional
e social” (Tavares, opus cit., pág. 108). Em outras palavras, o desequilíbrio setorial concerne às diferenças
existentes nas taxas de crescimento e produtividade entre o setor primário (agricultura) e secundário
(industrial); o regional diz respeito às marcantes diferenças entre o Centro-Sul e o Norte do país, e o
desequilíbrio social à distribuição regressiva da renda nacional.
“O aumento dos desequilíbrios regionais corresponde a uma tendência natural de concentração da
atividade econômica de incentivos à industrialização que na prática correspondia à transferência de renda das
regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas” (Tavares, opus cit., pág. 106).
O desequilíbrio social, segundo a análise de Conceição Tavares (opus cit., pág. 107 e 111) é “uma
nova faceta do desequilíbrio econômico profundo”, ou seja, resulta do desequilíbrio setorial e do regional.
“Aproveitando a imagem da pirâmide que nos parece bastante sugestiva, poderíamos visualizar o agravamento
da dualidade estrutural da economia brasileira através da evolução de sucessivas pirâmides cujas faixas
superiores correspondem ao ‘setor’ capitalista e a base ao ‘setor subdesenvolvido’”.
Quinta tese: O estreitamento do mercado interno impede o desenvolvimento da acumulação do
capital industrial.
A teoria da “pirâmide”, tal como é formulada por Conceição Tavares, desembocará numa
problemática bastante conhecida: o estreitamento do mercado interno como barreira à expansão do
capitalismo. Assim, esta autora, na obra já mencionada, argumenta que o estilo de desenvolvimento seguido
pela economia brasileira “além de traduzir uma desigualdade crescente extremamente desfavorável à
população não-incorporada ao processo, põe em risco o próprio dinamismo do setor capitalista, uma vez que o
crescimento absoluto do mercado interno que eventualmente possa ter lugar dentro do próprio setor é
suficiente para garantir a aceleração e a sustentação industrial recente que se vinha fazendo, em grande parte,
à custa de uma reserva de mercado para substituição de importações” (op. cit., pág. 113).
Enxergando a lógica da produção capitalista pelo viés da demanda efetiva keynesiana (vide crítica ao
subconsumismo), Conceição Tavares reduz o problema da expansão capitalista à mera questão do
subconsumismo, confundindo uma visão ética (“seria bom que todos pudessem desfrutar das vantagens do
desenvolvimento das forças produtivas”) com as verdadeiras barreiras que se antepõe à reprodução
capitalista ampliada (e que dizem respeito, fundamentalmente, à tendência decrescente da taxa de lucro). Em
outras palavras, substitui a análise científica da produção capitalista pela análise “adjetiva” em que os
conceitos, em última instância, acabam sendo o “bom”, o “justo” e o “desejável”.
Conceição Tavares, como outros subconsumistas já apontados anteriormente, localiza na estrutura
agrária o fulcro da questão do mercado interno e, desta maneira, filia-se à corrente dos economistas que
consideram não estar a agricultura cumprindo o seu papel no processo de desenvolvimento capitalista. “A
impossibilidade de incorporar em futuro próximo parcelas crescentes da população ao mercado consumidor
decorre basicamente de ter permanecido inalterada a estrutura produtiva do setor primário que corresponde à
base da pirâmide” (opus cit., pág. 113).
A reforma agrária é, portanto, vista como a mais prioritária das “reformas de base” propugnadas pela
Cepal, desde que dela depende o escoamento da produção do setor industrial. Ou, nas palavras da própria
Conceição Tavares: “é neste sentido que a realização de uma reforma agrária que não libere demasiada mão-
de-obra e aumenta a produtividade por homem via aumento dos rendimentos por hectare encontra justificativa

29
“A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista” in Estudos. São Paulo, CEBRAP, 1971 – nº 2, p. 6.
estritamente econômica para lançar as bases de um futuro consumo de massas, característica básica de uma
sociedade capitalista desenvolvida” (opus cit., pág. 113).
Não deixa de ser interessante observar que, passados oito anos, Conceição Tavares, aproximando-se
mais de uma análise capaz de apreender o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo brasileiro,
diria que: “marginalidade, desemprego estrutural, infraconsumo etc. não constituem em si mesmo, nem
necessariamente, problemas fundamentais para a dinâmica econômica capitalista, ao contrário do que ocorre,
por exemplo, com os problemas relacionados com a absorção de poupanças, oportunidades de investimento
etc. (Além da Estagnação, op. cit., pág. 157).
Sexta tese: A estagnação econômica é o resultado inevitável do estilo de desenvolvimento próprio às
economias latino-americanas.
Esta tese é a decorrência lógica do enfoque analítico cepalino e, em última instância, implica em
defender a concepção da inviabilidade do desenvolvimento capitalista nas economias latino-americanas, caso
não ocorram profundas transformações na estrutura econômica destes países. Estas transformações visam,
principalmente, ampliar o mercado interno para os produtos industriais. Também para Cepal, como vemos,
a problemática da “realização das mercadorias” é colocada como a principal contradição da produção
capitalista, tal como aparece nas teses dos subconsumistas, que tem em Rosa de Luxemburgo um de seus
maiores expoentes.
O defensor mais brilhante do estagnacionismo foi, incontestavelmente, Celso Furtado. Tendo escrito a
“bíblia” da história econômica brasileira, isto é, A Formação Econômica do Brasil, Furtado influenciou
sempre várias correntes de pensamento do país dentre as quais as oposicionistas, o que explica, em grande
medida, a ampla difusão das teses estagnacionistas, mormente no período de 1963 a 1969.
Assim, no seu “Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina”, C. Furtado afirma que “a
análise do processo histórico latino-americano leva à conclusão de que, abandonadas ao Laissez-faire, as
economias da região tendem à estagnação”30 e alerta para a necessidade de “uma efetiva planificação” e de
uma “redefinição das funções do Estado que somente poderá se realizar com o apoio de movimentos políticos
de grande amplitude, capazes de alterar as bases atuais da estrutura de poder”.31
Tão seguro estava Furtado da inevitabilidade da estagnação (se não ocorressem as chamadas
“reformas estruturais”) que, em junho de 1968, realiza duas exposições perante a Comissão de Economia da
Câmara dos Deputados nas quais apresenta “seu projeto para o Brasil” como fórmula salvadora contra a
“paralisia que está transformando o atual decênio em uma das mais prolongadas crises de nossa história
econômica moderna”32. Por ironia, Furtado vaticinava a catástrofe iminente da economia brasileira justamente
no ano que marca o desabrochar do “milagre”.

A implantação do pragmatismo econômico

Até fins de 1968 os críticos ao regime instaurado compartilhavam da mesma crença geral de que o
sistema econômico não sairia da crise, viam a estagnação como inevitável e concluíam que somente profundas
transformações político-econômicas resolveriam o impasse. O capitalismo teria de optar por um estilo de
desenvolvimento democrático-nacional ou então estaria fadado a tornar-se inviável em nosso país. O ciclo
expansivo que se inicia em 1968 provocaria reformulações teóricas dentro da corrente oposicionista, com a
publicação de artigos de Francisco de Oliveira, Conceição Tavares e outros, como veremos mais adiante.

A estagnação não era inevitável

A partir de 1970 – ou, mais precisamente, desde que a economia brasileira deu significativas provas
de que a crise fora superada e a acumulação expandia-se a altas taxas – o eixo da controvérsia entre defensores
e críticos do status quo desloca-se para a questão do preço social que o país pagava pelo estilo de
desenvolvimento capitalista que se impusera. Em outros termos, já não cabia mais prenunciar a estagnação
inevitável e sim levar o debate para o grave aprofundamento das contradições sociais que se seguia à
hegemonia da acumulação monopolista.

30
FURTADO, Celso. Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina, pág. 14.
31
FURTADO, C. – Opus cit., pág. 15
32
FURTADO, C. – Um Projeto para o Brasil, pág. 13.
Para a grande maioria das correntes que compunham a oposição mais consequente ao regime, a
retomada da expansão produtiva veio sepultar algumas teses econômicas que, apreendendo incorretamente a
natureza do regime instaurado em 1964, tinham dado origem a projetos políticos bastante equivocados. Desta
maneira, por exemplo, caía por terra a ilusão difundida pelos seguidores da “análise ortodoxa”, segundo a qual
a queda do governo Goulart significava a vitória das forças mais atrasadas da sociedade, notadamente do
latifúndio. De acordo com esta perspectiva o processo de industrialização do país achar-se-ia gravemente
comprometido, pois as forças que barravam seu avanço tinham sido vitoriosas nos idos de 31 de março.
O tempo veio provar o equívoco desta análise – que não percebia os verdadeiros vencedores – na
medida em que se patenteou a indiscutível supremacia da fração mais “avançada” do capital industrial: o
capital monopolista – nacional e estrangeiro – de forma tal que o regime político instaurado é impensável sem
a manutenção dessa base social. A acumulação monopolista poderá, como em outras partes do mundo,
realizar-se mesmo com regimes políticos mais democráticos mas, inversamente, o atual regime político não
poderá sobreviver sem a presença e o apoio do capital monopolista.
A necessidade de superação dos erros do passado levou a um processo de reformulação teórica que, a
rigor, ainda se encontra inacabado. O pensamento crítico estivera muito tempo tolhido pela camisa de força
dos esquemas teóricos pré-estabelecidos, pela prática político-teórico bastante pobre que consiste em tentar
adaptar para o Brasil análises pertinentes a outras sociedades e outros tempos históricos, enfim, pelo
rebaixamento da teoria científica a uma série de dogmas e modelos. Dentro deste quadro, a importância
assumida pelas “teorias cepalinas”, no cômputo geral dos equívocos teóricos da oposição mais consequente,
fez com que parte do processo de auto-crítica começasse por elas.
Concomitantemente, do lado dos formuladores da política econômica oficial, surgiu a necessidade de
reunir suas teses (até então parciais e dispersas) em um modelo teórico mais completo. Assim, empresários,
banqueiros e outros homens de negócios formaram a Associação Nacional da Programação Econômica e
Social (ANPES), esclarecendo que: “a palavra 'programação', ao invés de planejamento, indica que a
contribuição da iniciativa privada não pode realisticamente ir além de formular uma visão de perspectiva da
economia brasileira (...) sem procurar nenhuma forma de planejamento global que não seja compatível
com a organização política, social e econômica do País” (grifo nosso). Uma serie de economistas, liderados
pelo então professor da Faculdade de Economia da USP, Delfim Netto, encarregaram-se de propor (e, poucos
anos depois, pôr em pratica) uma serie de ajustes a estrutura econômica.
Assim nasce a série "Estudos ANPES" cujo primeiro número e o “Alguns aspectos da inflação
brasileira”, de outubro de 196533. O interesse deste livro está no fato de que, não partilhando in totum das
teses “estruturalistas” nem das teses “monetaristas”, os “pragmáticos” explicam a inflação brasileira por “4
variáveis: os déficits do setor público e sua forma de financiamento; as pressões de custo derivadas das
desvalorizações cambiais; e as pressões derivadas do setor privado da economia”34. Ora, o aumento do preço
dos serviços públicos, a emissão de letras do tesouro para o financiamento do déficit, as mini-desvalorizações
cambiais e, fundamentalmente, a política de achatamento salarial foram as formulas encontradas por esses
tecnocratas para impulsionar o capitalismo no pais. Além disso, quando passaram de conselheiros a
executores, os “pragmáticos” brasileiros impulsionaram ao máximo a abertura da economia aos capitais
estrangeiros, favoreceram o processo de concentração do capital, subsidiaram generosamente as indústrias de
bens de consume duráveis e tomaram factível o “milagre brasileiro” que em 1973, terminado o governo
Médici, havia reduzido o poder de compra do salário mínimo, relativamente a 1959, em quase 60%.

A crítica à razão dualista

Entre os ensaios publicados no Brasil nos primórdios dos anos 70 a “Crítica à Razão Dualista” de
Francisco de Oliveira (Estudos CEBRAP, nº 2) teve grande repercussão. Insistindo na necessidade de uma
completa ruptura com o “modelo Cepal”, F. de Oliveira, alertava para o fato de que: “No plano teórico, o
conceito de subdesenvolvimento como uma formação histórico-econômica singular, constituída polarmente
em torno da oposição formal de um setor ‘atrasado’ e um setor ‘moderno’, não se sustenta como
singularidade: esse tipo de dualidade é encontrável não apenas em quase todos os sistemas, como em quase
todos os períodos. Por outro lado, a oposição na maioria dos casos é tão somente formal: de fato, o processo
real mostra uma simbiose e uma organicidade, uma unidade de contrários, em que o chamado ‘moderno’

33
Os autores são: Delfim Netto, Antonio Celso Pastore, Pedro Cipollari e Eduardo Pereira de Carvalho.
34
Idem, pág. 16/17.
cresce e se alimenta da existência do ‘atrasado’, se se quer manter a terminologia” 35. No plano da prática,
continuava F. de Oliveira, “a ruptura com a teoria do subdesenvolvimento não pode deixar de ser radical.
Curiosa mas não paradoxalmente, foi sua proeminência nos últimos decênios quem contribuiu para a não
formação de uma teoria sobre o capitalismo no Brasil, cumprindo uma importante função ideológica para
marginalizar perguntas do tipo: a quem serve o desenvolvimento econômico capitalista no Brasil” (...) A
teoria do subdesenvolvimento foi, assim, a ideologia própria do chamado período populista; se ela hoje não
cumpre esse papel é porque a hegemonia de uma classe se afirmou de tal modo que a face já não precisa de
máscara”36.
Quando afirma que o “subdesenvolvimento” é precisamente uma “produção da expansão do
capitalismo”, Francisco de Oliveira compartilha uma tese aceita por muito cepalino mas, à diferença desses
últimos, conclui que a predominância da lógica da acumulação é interna ao sistema, ou seja, “diz respeito à
oposição entre classes sociais internas”. Ao defender a primazia da contradição capital-trabalho, o autor está
também refutando a “análise ortodoxa” que privilegia a contradição entre nações (países “neo-coloniais”
versus países imperialistas), mas a partir de uma perspectiva distinta da de outros críticos da “ortodoxia”,
como Gunder Frank, por exemplo (que cai no círculo vicioso do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”).
No entanto, do ponto de vista das consequências políticas, as análises de Francisco de Oliveira e Gunder
Frank guardam analogias significativas em dois aspectos principais: a compreensão incorreta do verdadeiro
sentido do “período populista” e o menoscaso pela “questão nacional” (entendida como a avaliação concreta
das relações entre os países capitalistas hegemônicos e os países capitalistas “atrasados).
Ao afirmar que “a teoria do subdesenvolvimento foi, assim, a ideologia própria do chamado período
populista”, F. de Oliveira quer dizer, nos parece, que as análises da Cepal, ao preconizarem o
“desenvolvimento”, teriam fornecido o substratrum para uma tática política da burguesia: apresentar seus
interesses particulares (a acumulação de capital) como interesse geral da nação, camuflando desta forma a
contradição principal da sociedade. Tudo se passa, em última instância, como se o período populista fosse
apenas a “máscara” por trás da qual a burguesia esconderia seus verdadeiros propósitos. Ora, é óbvio que os
interesses dominantes no “período populista” são os da burguesia industrial. Isto posto, da perspectiva da
classe operária a dominação do capital não é sempre idêntica: o grau de organização dessa classe influirá de
maneira decisiva nas condições de venda de sua força de trabalho, por exemplo. Assim, quando Francisco de
Oliveira, ao analisar a evolução do salário-mínimo de 1944 a 1968, afirma que “difícil é não se tirar a
conclusão de que a característica geral do período é de aumento da taxa de exploração do trabalho, a qual
foi contrarrestada apenas quando o poder político dos trabalhadores pesou decisivamente”37, cabe perguntar
se poderia ter sido diferente. De fato, é o poder político dos trabalhadores que condiciona o poder de barganha
dessa classe e a grande diferença entre o período populista e o regime instaurado em 1964 se resume
justamente neste aspecto; isto é, nas possibilidades concretas do operariado defender suas condições de vida e
de trabalho. Ademais, uma periodização que iguala o comportamento do salário mínimo real de 1958 até 1968
(pois, segundo F. de Oliveira, a “terceira fase” inicia-se em 1958 e “é marcada pela deterioração do salário-
mínimo real, numa tendência que se agrava pós anos 64” – pág. 48) apresenta o grave inconveniente de
confundir dos períodos históricos distintos. Na verdade, de 1958 até 1964, por mais que o salário-real sofresse
uma perda relativa de seu poder aquisitivo, os trabalhadores (como aconteceu em 1961) tinham uma força
muito maior para lutar por sua recuperação, enquanto que, no período pós-anos 64, a tendência à deterioração
do salário-mínimo real se impôs como regra. Não fazer esta distinção implica, portanto, em tirar a conclusão
política de que pouca coisa mudou, do ponto de vista dos trabalhadores, de 1958 a 1968.
A segunda observação que caberia fazer concerne à forma pela qual F. de Oliveira acerta suas contas
com a “teoria da dependência”. Ele tem como “ponto essencial” de sua análise a concepção de que “tomando
como um dado a inserção e a filiação da economia brasileira ao sistema capitalista, na sua transformação
estrutural, nos moldes do processo pós-anos 30, passa a ser, predominantemente, uma possibilidade definida
dentro dela mesma; isto é, as relações de produção vigentes continham em si a possibilidade de reestruturação
global do sistema, aprofundando a estruturação capitalista, ainda quando o esquema de divisão
internacional do trabalho no próprio sistema capitalista mundial fosse adverso. Nisso reside uma
diferenciação da tese básica da dependência, que somente vê essa possibilidade quando há sincronia entre os
movimentos interno e externo”. (p. 33)

35
“A Crítica à Razão Dualista”, op. cit. pág. 8
36
Idem, pág. 9.
37
“Crítica à Razão Dualista”, op. cit. pág. 48.
Assim formulada, a tese de F. de Oliveira tem o mérito de trazer à tona a importância do processo
interno de acumulação de capital que não pode ser entendido como mero resultado de uma “brecha” no
sistema capitalista mundial ou, então, como um reflexo da “nova política” do imperialismo. Não obstante,
privilegia a acumulação interna de tal forma que acaba olvidando as condições históricas concretas em que
esta acumulação se processa. Assim, F. de Oliveira é levado subestimar inserção específica do Brasil no
sistema capitalista internacional, simplificando a problemática do “eixo interno da acumulação” pelo
menoscabo do próprio peso do “externo” (o capital estrangeiro, o imperialismo etc.) na dinâmica da
acumulação do capital em nosso país. Isto é, o modo produção capitalista é, há muito, o dominante no Brasil,
o que não impede que a inserção particular de nosso país no sistema capitalista mundial (com o duplo aspecto
da integração e subordinação) sobredetermine a dinâmica da acumulação interna de capital, ou seja, afete a
própria dinâmica de acumulação. Basta lembrar, neste sentido, a volumosa massa de mais-valia criada
internamente que escapa à reprodução interna do sistema para ir engrossar o capital das matrizes (no caso dos
investimentos diretos) ou o dos grandes grupos financeiros internacionais (no caso dos empréstimos). A
própria crise econômica que o país atravessa atualmente tem nessa “descapitalização relativa” – que afeta a
taxa de lucro social – um dos elementos essenciais da explicação.

Um rápido interregno

Enquanto as críticas ao “modelo brasileiro de desenvolvimento” eram realizadas a partir,


principalmente, do problema do aprofundamento da concentração da renda (mesmo aqueles autores, como
Singer, Francisco de Oliveira, Conceição Tavares etc. que fizeram críticas mais amplas, dão grande ênfase a
esta questão) a apologia do “modelo” realizava-se através do “realismo pragmático”. Em outras palavras, os
defensores do status quo não desconheciam a miséria, o rebaixamento do salário mínimo real etc., só que
justificavam a política econômica oficial pelo argumento de que “os fatos são duros e é preciso saber enfrenta-
los como tal”. Assim, Delfim Netto, em entrevista conhecida, lembrava à miséria da classe operária inglesa no
século passado dizendo que, relativamente, a miséria brasileira era menor. Outros, acentuavam o problema das
“desigualdades educacionais”, ou seja, argumentavam que o problema não está no fato da política salarial
comprimir os níveis dos salários reais e sim no fato de que grande parte dos trabalhadores sofre de
“deficiências educacionais” e por isso recebem pequenos salários. Esqueciam-se, apenas, de que os salários
são fixados institucionalmente, segundo laboriosos cálculos matemáticos que não conseguem esconder a
evidência da perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Carlos Langoni, professor da Fundação Getúlio
Vargas, notabilizou-se nesta linha de raciocínio, em que se toma a consequência pela causa: elude-se a
questão das responsabilidades pelo baixo nível educacional do país, enquanto utiliza-se copiosamente de
exercícios matemáticos para provar que 2 mais 2 são 5. O problema, como já dizia irônico filósofo, é que os
fatos são teimosos e insistem em desmentir tais “teorias”...
Paralelamente, multiplicavam-se os cursos de Economia no país: quem não dominasse o “economês”
não estava com nada, usando da gíria atual. O supra-sumo da realização profissional estava em pertencer aos
quadros da “incubadeira de ministros e secretários”, em outras palavras, do Instituto de Pesquisas Econômicas
(IPE) da Universidade de São Paulo. Levados ao poder pelas mãos do ministro Delfim Netto (que por sua vez,
gozava e continua gozando de toda a confiança de importantes setores do empresariado paulista) os
economistas do IPE (vanguarda da tecnocracia econômica do país) ocuparam rapidamente os mais altos
postos nas secretarias de Estado, Ministérios, empresas estatais etc., sendo disputados a peso de ouro pelas
empresas privadas. Sua produção teórica notabilizou-se pelo estilo de “caixa de ressonância”, isto é, era o
Ministro falar em cima e eles provarem em baixo.
Mas, desde que os “filhotes teóricos do milagre brasileiro” não chegaram a elaborar nenhuma obra
mais completa, como a de seus patronos intelectuais, passemos logo a estes últimos.

“A nova economia brasileira”

Editada em 1974, reúne uma série de artigos de Mário H. Simonsen e Roberto Campos. O título, na
verdade, sugere bem mais do que concretamente contém o livro. A “Nova Economia” não passa da velha
teoria marginalista aplicada à justificativa e ao elogio do chamado “modelo brasileiro de desenvolvimento”,
entrecortados por receitas e conselhos de como se atingir o desenvolvimento econômico: “Fora o binômio
poupança-mercado, há um requisito fundamental para o desenvolvimento de uma economia onde a livre
empresa desempenha papel significativo: a confiança dos investidores. (...) Em parte esse clima de confiança
(sic) é o resultado do crescimento recente do produto real, dos superávits no balanço de pagamentos (sic), da
redução do ritmo inflacionário (...). Em boa parte, porém, ele é o produto de um regime político estável, que
estabeleceu o desenvolvimento como prioridade da política econômica, e que firmou um bom sistema de
convivência entre a empresa privada nacional, a empresa estatal e a empresa estrangeira”38.
“A excelente performance de crescimento da economia brasileira no período 1968-1973, que supera a
de qualquer período anterior, suscita indagações sobre as condicionantes não apenas econômicas mas político-
sociais desse surto”, proclama Mário H. Simonsen no capítulo III da “Nova Economia” (pág. 39). E ele
próprio encarrega-se de esclarecer que “o primeiro dos ingredientes” que faltava nos períodos anteriores de
nossa história era “um satisfatório grau de estabilidade política” que a partir de 1964 foi obtido, “sob um
regime que alguns cientistas políticos descrevem como ‘autoritarismo modernizante’, com subsistemas já
diferenciados – incluindo partidos políticos, grupos de interesse, (...) – porém detentores de grau de autonomia
temporariamente limitados” (pág. 41). É esta estabilidade política que possibilitou a “desintoxicação
ideológica, permitindo maior racionalidade de comportamento e melhores condições de ‘sustentabilidade’ do
modelo brasileiro” (pág. 78). Foi dessa forma que, diante das grandes controvérsias sobre o estilo de política
econômica a ser adotada, o “pragmatismo” impôs sua hegemonia. Em poucas palavras: ressuscitando o mito
da “economia pura”, os “pragmáticos” catalogam qualquer contestação ao modelo econômico das classes
dominantes de “intoxicação ideológica”.
Assim, no tocante à análise “monetarista” ou “estruturalista” do processo inflacionário, o regime pós-
64 deu “importância aos métodos anti-inflacionários tradicionais de controle monetário e fiscal, sem
entretanto perfilhar um tratamento estritamente ortodoxo, de vez que aceitou o gradualismo e se manteve o
controle de preços e salários” (aliás, diga-se de passagem, muito mais dos últimos do que os primeiros).
O mesmo pragmatismo norteou o regime na questão nacional, ou como diz Simonsen, na
“controvérsia entre ‘nacionalistas’ e os partidários da ‘economia aberta’” (pág. 73). Neste sentido, abundam os
exemplos da nova atitude tomada relativamente aos capitais estrangeiros. Assim, Simonsen lembra que
“dentro desta linha, a Petrobrás fez duas aberturas pragmáticas em relação ao setor privado: orientou-se,
recentemente no sentido de associação com empresas estrangeiras para a exploração do petróleo no exterior
(e, depois disto, tivemos os contratos de risco, dando sequência à mesma linha ‘pragmática’ – nota dos
autores); e no interior do país, vem tomando participação minoritária (grifo nosso) em empresas
petroquímicas, em associação com firmas nacionais e estrangeiras, e em alguns casos, com agências
financeiras internacionais” (pág. 74). Além disso, “em agosto de 1964, o dispositivo mais negativo da lei de
remessa de lucro que limitava os lucros transferíveis a uma percentagem do capital original, foi liberalizado
para permitir remessas sobre lucros reinvestidos pela efetiva incorporação ao capital” (pág. 75).
Outra controvérsia diz respeito “a crescente participação das empresas multinacionais na atividade
econômica” e “o receio de que o endividamento e a ênfase dada à exportação como fator dinâmico de
crescimento configurem um ‘modelo de desenvolvimento dependente’”. Ora, retoma Simonsen, “em relação
às empresas multinacionais, a atitude brasileira tem sido mais aberta e descontraída (sic) que a de outros
países em desenvolvimento” e “a preocupação ‘nacionalista’ de que a abertura externa (...) nos condenaria a
um desenvolvimento dependente, parece inteiramente infundada” (pág. 76). Enumera, então, tudo que lhe
parece vantajoso na abertura da economia brasileira aos capitais externos, concluindo que: “Esses resultados
positivos (e o interessante é que Simonsen está falando de divisas, aumento de reservas etc.) tem levado a um
rápido abrandamento da oposição ‘nacionalista’ e à opção pela ‘economia aberta’” (pág. 77). Digamos que
provavelmente não sejam os “resultados positivos” que tem levado ao reforçamento dos laços com o capital
estrangeiro, mesmo porque, como é público e notório, a dívida externa já supera a casa dos 28 bilhões de
dólares (logo, os resultados positivos existem principalmente para o capital estrangeiro).
Finalmente, a última controvérsia, analisada por Simonsen no capítulo em questão, diz respeito ao
“enfoque produtivista” versus “enfoque distributivista”. Simonsen, num método largamente empregado em
toda sua obra, atribui a seus oponentes uma pobreza de raciocínio que torna a contestação muito fácil e
evidente. Isto é, tudo se passa como se os “produtivistas” (entre os quais ele se enquadra, é óbvio) estivessem
preocupados em aumentar a produção nacional enquanto que os “distributivistas” não passassem de um bando
de inconsequentes que advogam a “prodigalidade salarial” (p. 7). Assim, ele deixa de lado, mais uma vez, a
questão de fundo que não é outra senão decidir a melhor maneira de se criar riqueza. Existem aqueles que
desejam fazer do bem estar social a principal alavanca para o desenvolvimento das forças produtivas e, nesta

38
“A Nova Economia Brasileira”. Livraria José Olympio, pág. 20. (O artigo em questão é de autoria de Simonsen)
medida, preconizam a planificação econômica, sob controle dos produtores diretos, como instrumento eficaz
para a realização deste objetivo. Consequentemente, opõem-se ao lucro como principal determinante das
inversões. Para outros, como é o caso de Simonsen, não importa o desperdício dos recursos sociais, a anarquia
da produção e o pesado preço pago pela maioria da população contanto que a acumulação de capital continue
se processando. Portanto, trata-se de duas perspectivas inconciliáveis, tanto do ponto de vista dos meios como
dos objetivos últimos.

As novas interpretações críticas

A retomada da acumulação de capital, superado o período recessivo de 1962/67, foi acompanhado de


uma mudança na problemática sobre a realidade brasileira. O eixo da discussão, que durante principalmente a
primeira metade da década de 60, girava em torno dos limites da acumulação capitalista ou do
desenvolvimento econômico, vai sendo gradativamente deslocado para a questão da distribuição de renda.
Assim, as teses estagnacionistas são substituídas pelas explicações de como o chamado “modelo” brasileiro
teria conseguido superar as aparentemente intransponíveis barreiras para o desenvolvimento. Na verdade,
demorou um certo tempo até que as correntes de interpretação, que juravam que o desenvolvimento brasileiro
tropeçava na estreiteza do mercado interno, recuperassem o fôlego para se aventurar a novas interpretações.
Por isso, somente nos primeiros anos da década de 70, quando o novo ciclo de acumulação já preparava sua
fase descendente, vão surgir vários trabalhos sobre a distribuição da renda no Brasil. Porém, se a problemática
era diferente (passava-se dos problemas da estagnação para os problemas da distribuição de renda), o enfoque
teórico prevalecente na abordagem de ambos os problemas permanecia essencialmente o mesmo
(naturalmente no caso das correntes que criticavam o “status quo”). As hipóteses subconsumistas, que haviam
sustentado por outras mais corretas, foram simplesmente reformuladas, de modo a se adaptarem às novas
circunstâncias. No lugar de admitir que o erro das conclusões estagnacionistas residia justamente numa
indevida dissociação entre o processo de produção, e o consumo (onde este último ao invés de ser
determinado pela produção, aparecia como “variável independente”) certas correntes do pensamento crítico
passaram a se preocupar em explicar como se havia criado a demanda suplementar, que havia auxiliado a
desatolar o “modelo” brasileiro da crise de 62/67. Como é fácil constatar, a “demanda efetiva” continuou
sendo o parâmetro privilegiado na observação das possibilidades e limites da acumulação do capital no Brasil,
porém, agora, as “novas” análises subconsumistas armavam-se com uma argumentação que, se já não era
novidade nos países desenvolvidos, atingia os centros intelectuais da América Latina (principalmente via
Escolatina de Santiago) pela primeira vez somente em fins da década de 60 e meados dos anos 70. Foi assim
que as análises de Kalecki e Steindl foram transplantados para a realidade latino-americana, principalmente
por meio dos trabalhos de Maria da Conceição Tavares.

Celso Furtado e a análise do modelo brasileiro

Indiferente às inovações introduzidas por Kalecki na análise subconsumistas, Celso Furtado realiza,
em vários trabalhos39 escritos na década de 70, uma das mais completas abordagens do “modelo” brasileiro
baseada nos problemas de consumo.
Para Furtado, o subdesenvolvimento ocorre quando países retardatários na corrida capitalista, como o
Brasil, adotam os padrões sofisticados de consumo existentes nos países desenvolvidos, muito além de sua
capacidade ou de seu nível de acumulação de capital. Dessa forma, ocorreria uma desconexão, por um lado,
entre a tecnologia necessária para a produção dos bens sofisticados e o desenvolvimento tecnológico
alcançado pelo país; e, por outro lado, entre a amplitude do mercado requerida pela produção dos produtos de
consumo sofisticado e as restrições do mercado local.
Portanto, o transplante dos padrões de consumo dos países desenvolvidos implica numa sistemática
dependência tecnológica, e só se viabiliza mediante a concentração dos parcos recursos locais nas mãos de um
restrito clube de consumidores privilegiados. Além disso, esse consumo farisaico exige a extração de parcelas
cada vez maiores de excedente, obtidas, via de regra, pelo aumento da taxa de exploração.
Nos termos de Furtado, “o fator básico que governa a distribuição de renda e, portanto, os preços
relativos e a taxa de salários real no setor em que se realiza a acumulação e penetra a técnica moderna, parece

39
Veja principalmente Análise do “Modelo” Brasileiro. Civilização Brasileira, RJ, 1972 e O Mito do Desenvolvimento
Econômico, Paz e Terra, RJ, 1974.
ser a pressão gerada pelo processo de modernização, isto é, pelo esforço que realizam os grupos que se
apropriam do excedente para reproduzir as formas de consumo em permanente mutação, dos países
cêntricos.”40 Some-se a isso a existência de um excedente estrutural de mão de obra que comprime a taxa de
salários do setor moderno, de modo a gerar um fluxo de salários insuficiente para dar conta da expansão da
oferta de bens finais.
Desde que o setor mais dinâmico da estrutura industrial brasileira, constituído justamente pela
produção de bens de consumo durável (ou de luxo), não encontrava, para Furtado, bastante compradores para
seus produtos, a saída para a retomada do processo de industrialização na década de 60, nos moldes em que
vinha se verificando, dependeria da ampliação do mercado consumidor de bens duráveis. Para que isso
ocorresse, era necessário que “o crescimento privilegiasse não apenas a minoria proprietária dos bens de
capital e sim um grupo social mais amplo, capaz de formar um mercado de bens duráveis de consumo de
adequadas dimensões.”41
E assim, ainda segundo Furtado, foram acionados mecanismos de política econômica, fiscal e
creditícia, de modo a redundar numa elevação substancial da renda de um segmento privilegiado da classe
média. Essa suposta transferência de renda dava-se por intermédio de financiamentos “que implicavam em
subsídios ao consumo” ou mediante transferências para essa classe média privilegiada de títulos de
propriedade e de crédito, que lhe asseguravam situação patrimonial mais sólida e a perspectiva de maior renda
futura. “Em outras palavras: criaram-se privilégios para a fração da classe média habilitada a gerar, a curto
prazo, o tipo de demanda que se pretendia dinamizar.”42
Nesse sentido, o aparato governamental teria posto em prática seus consideráveis recursos para
garantir uma melhoria do nível de renda do segmento mais elevado da classe média, dando-lhes a preferência
até mesmo em relação aos próprios capitalistas do setor mais dinâmico da estrutura industrial. Para tanto,
teriam sido implementadas políticas que visassem: a) neutralizar os efeitos da inflação no que respeita à
poupança da classe média (via correção monetária sobre aplicações financeiras etc.); b) orientar o crédito de
forma a premiar os compradores de bens de consumo duráveis e não, preferentemente seus produtores; c)
organizar o mercado financeiro, inclusive forçando a abertura do capital das empresas, de forma a que a
poupança da classe média pudesse ser transformada em títulos financeiros capazes de gerar um fluxo de renda
real, o qual permitiria ampliar a demanda de bens de consumo duráveis”.43
Realmente, a partir de 1968, foi posta em prática uma reestruturação do sistema financeiro nacional,
com vistas a dirigir parte da poupança do país para o financiamento dos bens de consumo duráveis. A par
disso, o governo incentivou a canalização de parte da poupança da classe média alta para a aquisição de títulos
de propriedade e de crédito. Porém, é difícil provar como pretende Furtado, que tais medidas implicavam
numa elevação da renda do segmento mais alto da classe média.
A correção monetária sobre as aplicações financeiras quando muito neutralizava os efeitos da
inflação, não acarretando, pois, nenhuma transferência de renda, enquanto o crédito, abundantemente
oferecido à classe média, “premiava” (para usar um termo de Furtado) os compradores de bens de consumo
duráveis com juros extorsivos, que só enriqueciam o sistema financeiro. Finalmente, a transferência de títulos
de propriedade para a classe média, visava ampliar o capital ou o potencial de acumulação das grandes
empresas pela absorção de mais uma fatia da poupança nacional, e não assegurar a essa classe média “uma
situação patrimonial mais sólida ou uma maior perspectiva de renda futura”. De resto, basta observar os
baixos rendimentos ou melhor, os prejuízos que proporcionam esses títulos, para se localizar a quem eles
beneficiam. Nesse contexto, pode-se concluir que não houve transferência de renda para os estratos
privilegiados da classe média, pelo menos por intermédio dos mecanismos assinalados por Furtado.
Deve-se salientar que não estamos refutando a existência de um processo de concentração de renda no
Brasil, mas negando que ele tenha sido provocado pela transferência de renda à classe média, via mecanismos
de política econômica. Na verdade, a concentração de renda decorreu diretamente da dinâmica da acumulação
de capital, que se beneficiou da grande compressão de salários dos estratos mais baixos da população e elevou
os salários da chamada mão-de-obra qualificada (classe média), em virtude da grande demanda de técnicos de
alto nível (ocasionada pela implantação de grande número de empresas com tecnologia sofisticada).
Entretanto, para Furtado, o próprio processo de acumulação, como se deu no país, não foi capaz de criar uma

40
O Mito do Desenvolvimento Econômico, op. cit. pág. 82.
41
Furtado, Celso. Análise do “Modelo” Brasileiro, op. cit. pág. 41.
42
Idem, pág. 42.
43
Idem, pág. 43.
demanda suficiente para absorver a crescente produção, sendo necessário o Estado criar uma demanda
suplementar a acumulação de capital no país esbarraria em crises de subconsumo. Porém, como na realidade
tal transferência de renda não ocorreu, conclui-se que o próprio processo de acumulação foi capaz de gerar a
demanda de que necessitava.

Conceição Tavares e o consumo capitalista

Mesmo tendo sofisticado sua análise com argumentos kaleckianos, Maria da Conceição Tavares, em
“Distribuição de Renda, Acumulação e Padrões de Industrialização” (in “A Controvérsia sobre
Distribuição de Renda e Desenvolvimento” – Zahar Ed. – RJ., 1975), não conseguiu distanciar-se de seus
primeiros trabalhos estagnacionistas. Após alguns lampejos críticos em relação a estes (vide sua crítica às
teses estagnacionistas de Celso Furtado) Conceição Tavares retorna às teses subconsumistas. Para ela a
acumulação de capital vê-se continuamente às voltas com uma produção de mercadorias maior que a
capacidade de consumo da sociedade44. Porém, a grande expansão da produção de bens de luxo (voltados para
o consumo dos capitalistas e não dos assalariados) tem ajudado a resolver os problemas da realização nos
países desenvolvidos. Mas o mesmo não acontece nos países subdesenvolvidos, onde a expansão da produção
de bens de consumo capitalista, ademais de não resolver o suposto problema de realização, introduz nesses
países “além da tradição geral salários-lucros, uma contradição particular: consumo dos trabalhadores
“versus” consumo dos capitalistas”. (Tavares – op. cit. 39).
Para Conceição Tavares, num modelo econômico com dois setores (D1 que produz bens de capital e
D3 que produz bens de consumo popular)45, estabelece-se uma “interdependência dinâmica” onde não
interessa rebaixar ao mínimo os salários, pois estes constituem a demanda do setor de bens de consumo
popular.
Porém, essa “interdependência dinâmica” entre D1 e D3 pode ser rompida à medida em que se
estabelece e passa a liderar a acumulação de capital um setor produtor de bens de consumo capitalista46 ou
(D2 na concepção de Tavares). “Nesse caso pode produzir-se um antagonismo crescente entre salários e taxa
de acumulação que assume o caráter de oposição entre o consumo dos trabalhadores versus consumo dos
capitalistas”. (Tavares – op. cit. 51, grifos dos autores).
Disso depreende-se que, antes de ser introduzida a produção de bens de consumo capitalista, não
havia um antagonismo, pelo menos crescente, entre salários e taxa de acumulação pois, como os capitalistas
precisassem da demanda dos assalariados para vender sua produção, não estariam interessados em rebaixar os
salários destes últimos. Logo, segundo Tavares, salários mais altos significariam maior demanda e, portanto,
maior taxa de acumulação. Nessas circunstâncias, não existiria propriamente uma contradição entre lucros e
salários do momento em que ambos chegam a ser complementares, isto é, para haver lucros é preciso vender
as mercadorias. E aqui cabe indagar se Conceição Tavares pretendeu fazer uma regressão histórica a algum
período inicial do capitalismo, ao referir-se a um modelo econômico com apenas dois setores (antes da
introdução da produção de bens de consumo duráveis), pois, se essa foi sua intenção, faltou localizar o Éden
onde a complementariedade entre salários e lucros se realizava.
Ao que se sabe, e está fartamente documentado, desde os primórdios do capitalismo, os proprietários
dos meios de produção sempre estiveram empenhados em elevar suas taxas de lucro, tentando prolongar a
jornada de trabalho ou baixar o salário dos trabalhadores. Assim, ou os capitalistas não enxergavam que
agindo dessa maneira estariam se prejudicando, pois ficariam sem compradores para seus produtos, ou a
demanda de mercadorias não dependia da manutenção dos níveis salariais das camadas mais pobres da
população.
Naturalmente, os fatos nos fazem optar pela segunda hipótese, pois a produção capitalista continuou
se expandindo notadamente nos períodos de depressão salarial. Isso se deveu ao fato de que, em primeiro
lugar, a própria expansão da produção incorpora continuamente novos contingentes populacionais de modo a
ampliar o mercado consumidor de bens populares, a despeito das possíveis diminuições salariais; em segundo
lugar, a acumulação de capital tende a depender cada vez menos do consumo popular, enquanto se verifica
uma crescente mecanização da produção (maior quantidade de máquinas e equipamentos – capital constante –

44
Isso dar-se-ia em virtude da produtividade da mão-de-obra tender a crescer mais rapidamente que os salários, fazendo
com que a expansão do mercado consumidor se dê a um ritmo menor que a acumulação interna em cada setor.
45
Estando excluído o D2, produtor de bens de consumo capitalista, isto é, bens de luxo.
46
Que equivale, grosso modo, ao setor de bens de consumo duráveis.
em relação à força de trabalho), isto é, uma crescente demanda de bens de capital, fazendo aumentar a
participação do consumo produtivo capitalista (consumo das próprias empresas) no consumo total dos países
capitalistas.
Os aumentos de salários, quando ocorrem, longe de refletir a preocupação do capital em garantir o
nível de consumo, são o resultado da luta que as classes trabalhadoras travam através de seus sindicatos,
partidos etc., constituindo, portanto, conquistas dessa classe, que são concedidas, como é óbvio, a contragosto
pelos capitalistas.
Com a expansão do setor de bens de consumo capitalista, segundo o raciocínio de Conceição Tavares,
haveria um crescente antagonismo entre lucros e salários porque, agora, a realização passa a depender cada
vez mais do consumo capitalista, podendo prescindir da demanda dos assalariados. Mas aí, a contradição
salários – lucros assumiria o caráter de oposição entre o consumo dos trabalhadores versus o consumo dos
capitalistas pois, o “consumo dos capitalistas para manter a mesma taxa de acumulação” (Tavares – 51). Mais
uma vez, Conceição Tavares corre o risco de negligenciar em favor de uma nova contradição (consumo dos
assalariados versus consumo dos capitalistas) que, ao que parece, expressaria a nova tônica das relações
sociais. Assim, no limite, a luta de classes pode ficar reduzida à luta pelo consumo, e basta elevar
gradativamente o consumo dos trabalhadores, para dissolver os antagonismos de classe. Aliás, no modelo
analítico de Conceição Tavares isso é perfeitamente exequível, notadamente a partir do momento em que o
progresso técnico elevar a produtividade de modo a aumentar o “excedente” sem abaixar ou até mesmo
elevando os salários47.
No caso de a produtividade crescer a ponto de permitir, ao mesmo tempo, uma elevação da taxa de
exploração e dos salários, seguramente teremos um capitalismo mais equipado para a cooptação dos
trabalhadores, uma vez que as melhorias de suas condições de vida camuflam o aumento da exploração.
Porém, essa situação pode ser desmascarada pela dinâmica da luta de classes que, se conduzida de forma
consequente, elevará a consciência dos trabalhadores de modo a redundar numa agudização das contradições
interclasses. Portanto, torna-se perigoso analisar a luta de classes pelas relações de consumo, pois pode-se
chegar à falsa impressão que os antagonismos arrefeceram diante de uma elevação do consumo dos
trabalhadores, quando na realidade estes tenham justamente aumentado, pelo menos potencialmente.48

Paul Singer e uma visão clássica da concentração de renda

Em “Desenvolvimento e Repartição da Renda no Brasil” (in A Controvérsia...” opus cit. – artigo


publicado pela primeira vez em Debate e Crítica, Vol. 1, nº 1, 1973), Paul Singer procura demonstrar a estreita
relação que existe entre concentração de renda, taxa de exploração e acumulação do capital. Para ele, “o motor
do desenvolvimento (capitalista) é a acumulação do capital e esta depende sobretudo da taxa da exploração,
ou seja, da repartição do produto entre necessário e excedente. O produto necessário se destina a assegurar a
reprodução da força de trabalho. O excedente serve ao consumo dos não produtores e à acumulação” (Singer –
75). Vê-se pois, que a chamada “demanda efetiva” de um sistema econômico não se restringe ao consumo dos

47
“... a produção incrementada do excedente por efeito de um progresso técnico redutor dos custos gerais de reprodução
do sistema não repousa mais na contradição antagônica entre crescimento dos salários e o crescimento dos lucros. A
acumulação, nessas condições, não possui mais os seus limites clássicos: produtividade da mão-de-obra, em
contraposição ao poder aquisitivo dos salários. Salários e lucros podem, agora, subir, mantendo-se ou aumentando a taxa
de exploração, sem que o limite da acumulação esteja dado pelas condições de sua realização dinâmica em escala
ampliada.” M. Conceição Tavares, op. cit. pág. 43-44.
48
Desde que a taxa de exploração advém da relação entre o trabalho necessário para a reprodução da força-de-trabalho e
o tempo de trabalho excedente, isto é, o período que estes laboram gratuitamente para os capitalistas, a elevação da
produtividade nos setores econômicos que produzem os bens consumidos pelos trabalhadores vai permitir uma
diminuição desse trabalho necessário, pois, agora, os trabalhadores precisam de menores salários para comprar gêneros
de subsistência. Dessa forma, se, numa jornada de 8 horas, por exemplo, o trabalhador trabalhava 4 horas para reproduzir
sua força-de-trabalho e 4 para o capitalista, com a elevação da produtividade essa relação vai se alterar. Agora poderá
precisar trabalhar apenas 3 horas para se reproduzir e as 5 horas restantes, poderão ficar inteiramente para o capitalista.
Nesse caso a taxa de mais-valia (ou de exploração), passa de 4/4 (onde o numerador é o trabalhador excedente e o
denominador é o trabalho necessário) para 5/3, sem alterar o salário real (que corresponde não a um valor monetário, mas
à quantidade real de produtos que pode ser adquirida). Note-se que, mesmo que o capitalista se aproprie de apenas 4,5
horas de trabalho, permitindo, portando, uma elevação do salário real, a taxa de exploração terá aumentado para 4,5/3,5.
trabalhadores mas conta, sobretudo com o consumo dos “não-produtores” e da própria renovação e ampliação
do processo produtivo.
“A aceleração do desenvolvimento (capitalista), prossegue Singer, está necessariamente condicionada
ao aumento da taxa de exploração, que se traduz inevitavelmente em concentração de renda. Essa é uma
proposição que se aplica genericamente à economia capitalista. Mas, nos países capitalistas industrializados, o
movimento operário tem conseguido resistir ao aumento da taxa de exploração, o que impôs ao sistema a
necessidade de acelerar as inovações tecnológicas” (Singer – 77), inovações essas que exportadas para países
como o Brasil, produzem uma demanda por força de trabalho mais especializada. Como essa força de trabalho
qualificada é escassa no país, cria-se um segmento privilegiado da classe média, formado por técnicos,
administradores e burocratas em geral, que constituem um ótimo mercado para os bens de consumo durável. E
aqui fica clara a diferença em relação às análises de C. Furtado e Conceição Tavares. Enquanto estes
postulavam uma concentração de renda sobretudo exógena, isto é, feita à margem do processo de produção
(uma concentração de renda artificial, posta em prática pelo Estado), para Singer, a concentração de renda que
ocorre no Brasil é uma decorrência direta do processo produtivo. Retomando um argumento explorado em “O
Milagre Brasileiro: causas e consequências” (Cadernos CEBRAP nº 6 SP., 1972), Singer diz que a própria
forma de implantação da acumulação monopolista no Brasil, com a vinda de empresas estrangeiras munidas
de alta sofisticação tecnológica, produz a demanda necessária para realizar a mais-valia.
Essa explicação não exclui, naturalmente, a possibilidade de intervenção do Estado na ampliação e na
contenção da demanda através de políticas creditícias (liberação de créditos, manipulação de juros etc.). Note-
se, porém, que não se trata de transferências de renda (salvo nos raros casos em que a inflação ficar aquém das
taxas de juros), mas sim, fundamentalmente de adiantamentos ou empréstimos compulsórios que deverão ser
restituídos.
Para Paul Singer, a concentração de renda no Brasil é um fato eminentemente político, especialmente
após 1964, quando o enfraquecimento da força política dos trabalhadores levou a uma redistribuição de renda
em favor dos segmentos mais elevados da pirâmide social brasileira. Não que Celso Furtado e, provavelmente,
Conceição Tavares ignorem esse fato, mas, para eles, não se trata da única e, quem sabe, nem mesmo da causa
mais importante da concentração de renda.
Uma visão superficial da análise de Paul Singer sobre a concentração de renda poderia confundi-la
com a abordagem de Carlos G. Langoni em Distribuição de Renda e Desenvolvimento Econômico do
Brasil (Editora Expressão e Cultura – RJ., 1973). Na verdade, por trás da semelhança, existe um profundo
abismo entre as duas interpretações. Para Langoni, uma espécie de eminência parda do “establishment” para
assuntos de concentração de renda, a repartição regressiva da renda é devida a fatores exclusivamente
econômicos, vale dizer, existe no Brasil, um excesso de mão-de-obra pouco qualificada e, portanto, com baixo
nível de escolaridade, diante de um mercado que possui uma grande demanda de mão-de-obra qualificada.
Nessas condições, a maior oferta de mão-de-obra não qualificada em relação à sua procura, redunda em
salários baixos, enquanto a maior procura por mão-de-obra qualificada sobre sua disponibilidade resulta em
salários privilegiados para um segmento da classe média. Assim, à medida em que aumentar o nível de
escolaridade das camadas mais baixas da população, estas terão seus salários automaticamente aumentados
pelas leis do mercado49.
Dessa forma, se Paul Singer concorda com o raciocínio de Langoni no tocante aos salários dos
tecnocratas, administradores e burocratas, cuja escassez no mercado brasileiro lhes teria proporcionado altos
salários, critica as conclusões deste último com respeito à mão-de-obra desqualificada. Para Singer os
elementos políticos e sociais, vale dizer, o grau de organização política dos trabalhadores, o regime político
etc., são essenciais na determinação do preço da força de trabalho. Não se pode esquecer que, em última

49
Langoni procurou comprovar suas hipóteses mostrando a estreita correlação que haveria entre grau de escolaridade e
nível de renda, isto é, quanto mais baixa a escolaridade menor o nível de renda da população. Ora, além de ser patente
que, no Brasil, as oportunidades educacionais ou a estrutura de ensino são essencialmente seletivas, há autores como
Pedro Malan e John Wells que contestam as conclusões de Langoni até mesmo no âmbito puramente estatístico. Numa
resenha ao livro de Langoni (em Pesquisa e Planejamento Econômico de dezembro de 1973) esses autores afirmam que
os próprios dados empíricos do trabalho em pauta deixam dúvidas quanto à estreita correlação que haveria entre
distribuição de renda e nível educacional. “Com efeito, do aumento da variância total da renda entre 1960 e 1970
‘explicado’ pela variável educação, 35% são devidos simplesmente a mudanças nas rendas relativas entre diferentes
níveis de educação e 42% à crescente diferenciação da renda entre indivíduos com o mesmo nível de educação (P. e P. E.
Dezembro de 1973, pág. 1.111).
instância, é o Estado que fixa o padrão de vida da classe operária, ao determinar o salário mínimo e os
reajustamentos salariais.

As novas e velhas teses sobre a economia brasileira

Atualmente já não suscita polêmica afirmar que o capitalismo domina o país, não obstante o fato de
alguns analistas, filiados às correntes críticas, ainda titubearem a esse respeito. Assim, de modo geral, a
problemática da “revolução burguesa”, que dividiu durante decênios as forças oposicionistas mais
consequentes, coloca-se de forma diferente. A própria consolidação das tendências iniciadas duas décadas
atrás na sociedade brasileira, como a implantação da acumulação monopolista, levou não só à redefinição das
velhas controvérsias como ao aparecimento de novas, no que diz respeito ao estilo de desenvolvimento
capitalista adotado no país; às tarefas históricas da burguesia brasileira; à situação da estrutura
agrária; à questão da democracia e à transformação do modo de produção capitalista.
O balanço retrospectivo das correntes teóricas radicais (entendidas como aquelas que procuram chegar
às raízes dos problemas) demonstrar sua incapacidade em absorver corretamente o materialismo histórico e
dialético enquanto método analítico. Ou seja, ao invés de analisar a realidade brasileira a partir do
instrumental fornecido por esta teoria científica, os teóricos radicais brasileiros (incorrendo no mesmo erro
registrado por intelectuais de outros países) limitaram-se a utilizar de forma dogmática e mecânica teses
específicas à outras realidades. Neste sentido, reduziram o estudo das transformações históricas verificadas em
determinadas sociedades a um rol de fórmulas rígidas a ser aplicado de forma generalizada.
Esta incorreta apreensão do materialismo histórico levou a chamada corrente “ortodoxa” a
prognosticar que a evolução da sociedade brasileira deveria trilhar necessariamente o mesmo caminho
percorrido pelo desenvolvimento de alguns países europeus, passando pelas etapas escravista, feudal,
capitalista e finalmente a socialista. E a cada etapa corresponderia uma classe eleita para cumprir os desígnios
históricos e superar a etapa anterior. Como acreditavam que no Brasil ainda não havia ocorrido nenhuma
“revolução burguesa”, afirmavam que esta deveria acontecer para que as forças produtivas do país fossem
desvencilhadas dos entraves feudais. Consequentemente, à burguesia brasileira foi atribuído um papel de
destaque na luta contra o imperialismo e seu aliado interno, o latifúndio feudal. Em síntese, a contradição
Nação versus Imperialismo era considerada como a fundamental, e para sua resolução deveriam empenhar-se
todas as forças progressistas do país.
A burguesia brasileira, no entanto, não atendeu aos apelos e propostas da corrente “ortodoxa”,
ocupada que estava em associar-se ao capital estrangeiro e a levar adiante o “boom” industrial que tomou
conta do país, principalmente após a década de 50. Não tinha tempo, portanto, para exorcizar os fantasmas
feudais e muito menos disposição para combater os “latifundiários feudais” que, afinal de contas, lhes
proporcionavam capitais (através do confisco cambial) e divisas (via exportações) imprescindíveis para a sua
expansão. Na verdade, os “ortodoxos” estavam cegos para a evidência de que a transformação burguesa da
economia brasileira já se realizara, pacificamente, através do arranjo entre a burguesia local, o capital
estrangeiro e os setores agrários (mesmo os mais “atrasados”).
O imperialismo, que durante muitos anos havia atuado no Brasil apenas interessado na obtenção de
produtos primários baratos, modificara suas prioridades e privilegiava, nos anos 1950, a produção de
mercadorias para o mercado interno. Dessa forma, na divisão internacional do trabalho do mundo capitalista,
o Brasil ascendeu de entreposto de matérias-primas e produtos agrícolas a fornecedor de mais-valia sob forma
monetária. Isso implicava em que a dinâmica da acumulação de capital no Brasil criava numeroso contingente
proletário e alinhava cada vez mais a burguesia local aos interesses dos grandes monopólios internacionais.
Deve-se ressaltar que, neste período, a burguesia brasileira chegou a esboçar um tímido projeto
autonomista, favorecido pelo desinteresse do capital estrangeiro e pela incipiência da acumulação de capital
no país. Porém, é arriscado atribuir o adjetivo “nacionalista” a uma burguesia que, não obstante (no período
inicial da industrialização) ter implantado considerável setor de bens de consumo popular (têxteis, alimentos,
etc.), nunca foi visceralmente contra a participação das empresas estrangeiras, situam-se mais no rol das
exceções pois, em geral, o capital estrangeiro criou um novo espaço de atuação – o setor de bens de consumo
duráveis – técnica e financeiramente inatingível pelo incipiente capitalismo local. Portanto, se houve e hoje,
com maior razão, há uma burguesia nacional (cuja fração dominante é constituída por grupos monopolistas),
ela não pode ser considerada “nacionalista” se por este conceito entende-se o compromisso com um projeto de
desenvolvimento capitalista autônomo, desvinculado do capital estrangeiro.
Apesar das dificuldades em se avaliar exatamente a profundidade das revisões teóricas realizadas
pelos seguidores da corrente “ortodoxa”, sabe-se que, atualmente, ela já riscou de seu vocabulário o termo
“feudal”. No entanto, a agricultura continua sendo considerada um obstáculo no caminho da expansão do
mercado interno e, portanto, do capitalismo. E as maiores prejudicadas nesse processo seriam as empresas
nacionais, que produzem para o consumo de massa e esbarram no “modelo” concentracionista, voltado para os
interesses das empresas estrangeiras produtoras de mercadorias para o mercado de altas rendas. Daí a
persistência da contradição “capital nacional versus capital estrangeiro” (ou imperialismo) para os teóricos
ortodoxos. E a conclusão de que haveria uma convergência de interesses, entre essa burguesia nacional e as
classes populares, que as colocaria, pelo menos até certo estágio das transformações da sociedade brasileira,
na mesma trincheira.

“Ortodoxos” e “doutrinários”

A visão estreita dos rumos que poderia tomar a acumulação de capital no Brasil conduziu as duas
principais correntes críticas de interpretação (cujos seguidores foram, respectivamente, apelidados de
“ortodoxos” e “doutrinários”) a equívocos comuns. Enquanto que os “ortodoxos” procuravam, de lanterna na
mão, a burguesia capaz de realizar as “tarefas nacionais” (eliminação da estrutura fundiária retrógrada,
fortalecimento do mercado interno e das empresas nacionais) e democráticas, os “doutrinários” negavam a
possibilidade do surgimento em países coloniais ou ex-colônias, de uma classe burguesa com tais atributos.
Para estes últimos, o capitalismo no Brasil seria sempre subdesenvolvido, vale dizer, não existiria a tal
“burguesia nacional” dada a debilidade da acumulação capitalista. Note-se que não mais se tratava de
resquícios feudais ou quaisquer outros atrasos pré-capitalistas a cortar os passos do capitalismo. Este, na
realidade, já teria sido implantado no Brasil desde a descoberta, mas a própria inserção do país na divisão
internacional do trabalho, sob a égide do imperialismo, a amarração à condição de permanente
subdesenvolvimento. O país é continuamente sangrado pelos monopólios, tendo seu potenciai de acumulação
transferido para as metrópoles. Além disso. o imperialismo estaria interessado em manter uma população no
campo com baixíssimos salários, pois é da superexploração dessa forca-de-trabalho que obteria parte do
excedente.
Diante desse quadro, explicam os “doutrinários”, o capitalismo no país permanece capenga, sem
fôlego para modernizar o campo, realizar a independência nacional e desenvolver a democracia. E os grilhões
que impedem o desenvolvimento das forças produtivas não poderão ser rompidos por nenhuma burguesia
nacional, na medida em que foram criados pelo próprio capitalismo subdesenvolvido. Assim, s6
desaparecerão com a superação do modo de produção capitalista, salvo no caso de alguma solução externa ao
sistema como, por exemplo, a expansão do subimperialismo, sugerida nas análises de Rui Mauro Marini.
Enquanto os “ortodoxos” seguiam à risca as diretrizes teóricas do Komintern50, abdicando de uma
análise própria e repetindo as teses da Terceira Internacional para os países coloniais, os “doutrinários”, por
sua vez, buscavam o essencial de sua concepção na teoria da “revolução permanente”, elaborada por Trotsky.
Este, a partir da generalização do esquema da revolução russa a todo o mundo colonial e ex-colonial, concluiu
que nestes últimos países, a semelhança do que ocorrera na Rússia - um país atrasado -, não se verificaria
nenhuma revolução burguesa e nem qualquer fase estável de desenvolvimento das forças produtivas antes de
uma revolução proletária. Isso porque a burguesia colonial não poderia realizar a independência nacional,
resolver a questão agrária e possibilitar a emergência de uma democracia representativa.
Como bem esclarece Perry Anderson51, pode-se sustentar que nenhuma ex-colônia atingiu a
verdadeira independência, resolveu a questão agrária ou sequer atingiu a democracia, por causa do
imperialismo, da usura e da corrupção. Mas tais exigência, que vão muito além dos feitos ou conquistas de
uma revolução burguesa (logo, são critérios impróprios), tendem a fazer da teoria da “revolução permanente”
uma tautologia. Basta lembrar que quase todos os países capitalistas só chegaram a democracia representativa
após séculos de luta (por parte dos trabalhadores) e que “só o socialismo pode, por definição, subtrair
totalmente um país do mercado mundial ou resolver todos os problemas do campesinato”52.
A teoria da “revolução permanente” adaptada às condições brasileiras não significou, entretanto, que
os “doutrinários” negassem a supremacia do capitalismo como modo de produção dominante. Ao contrário

50
A Terceira Internacional foi fundada em 1919, em Moscou.
51
Sur le marxisme occidental. Petite Collection Maspéro, Paris, 1977, pág. 162.
52
Idem, ibidem.
dos “ortodoxos”, eles defendiam a tese de que o capitalismo desembarcara no pais com as caravelas dos
colonizadores e que a questão agrária e a nacional resultavam da própria dinâmica do capitalismo dependente.
Na verdade, não existiria propriamente uma questão agraria e nacional pois ambas desembocaram na
contradição fundamental entre capital e trabalho. que, evidentemente, só poderia ser resolvida pela revolução
socialista.
As vésperas de abril de 64 os “ortodoxos’ entoavam loas à burguesia nacional capaz de levar a termo
a revolução brasileira, enquanto os “doutrinários” teimavam em negar sua existência, apontando para o
impasse na acumulação de capital no país.
As duas principais correntes radicais brasileiras, pois, não conseguiram avaliar corretamente os
problemas que o capitalismo criava no caminho da transformação da sociedade. O grande equívoco, no caso
dos “doutrinários” reside na resolução rápida e sem mediações da questão: qual a única transformação
possível da economia e sociedade brasileiras? A resposta, se dada a partir da mera constatação das ditas
“condições objetivas”, não poderia ser outra: a transformação socialista (se estamos de acordo em que o modo
de produção capitalista é o dominante). Logo, restaria desenvolver as “condições objetivas (organização do
proletariado, criação do partido revolucionário etc.) de forma a torná-las maduras para a revolução socialista.
Ora, o raciocínio em termos de “condições subjetivas”, realizados sempre em um alto nível de abstração,
terminava por igualar a luta de classes em países tão distintos como o Brasil, a Espanha e a Itália, por
exemplo.
De qualquer maneira, no balanço geral, pode-se atribuir um pouco mais de acerto as teses doutrinárias
em relação as ortodoxas, do momento em que aqueles não perderam tempo em campanhas quixotescas contra
monstros do passado. Mesmo assim, não conseguiram dar conta da especificidade do capitalismo brasileiro
que seguia caminhos próprios, dada a passagem pacífica da supremacia da agricultura para a da indústria: a
ampla penetração do imperialismo nos setores mais avançados do aparato produtivo e outras particularidades
ausentes no caso dos países europeus desenvolvidos.

A questão agraria ou as velhas teses em novas roupagens

Durante a década de 60, principalmente antes do golpe de 64, a questão agrária ocupava um lugar de
destaque na problemática de todas as correntes radicais. Com a afirmação e confirmação do completo
predomínio da acumulação de capital no eixo urbano industrial, a agricultura vem perdendo relevo e, hoje, não
são muitos os que a elegem coma o centro das contradições sociais do país.
Nunca e demais remeter as contradições clássicas, encontradas no limiar do capitalismo, entre a
nascente burguesia industrial e um setor agrário, geralmente vinculado a modos de produção pré-capitalistas.
A final de contas, boa parte dos equívocos nos quais atolam algumas das correntes de interpretação radicais,
devem-se justamente a adoção de teses adequadas a realidades substancialmente distintas das nossas, ou seja,
a incapacidade de se caracterizar, por meio de método dialético, as formas especificas que adquire a luta de
classes e, portanto, a expropriação da mais-valia em países onde, sob o predomínio do capitalismo, misturam-
se formas não exatamente capitalistas de produção (isto é, situações em que a subordinação do trabalho ao
capital ainda é formal).
Para impulsionar o nascente capitalismo nos países europeus, a agricultura deveria sofrer as seguintes
transformações:

1 - separação dos trabalhadores agrícolas de seus laços com a terra de modo a torna-los desprovidos
das condições de sua reprodução material, obrigando-os, pois, a venderem sua forca de trabalho;
2 - eliminação da auto-suficiência da agricultura, de maneira a torná-la carente dos produtos
industriais, aumentando o mercado para estes ultimas;
3 - modernização da agricultura para que esta forneça matérias-primas para as indústrias e produtos
alimentares para os trabalhadores, de forma que os salários possam baixar, mantido o nível de subsistência da
forca de trabalho (elevação da mais-valia relativa).

Além disso, a nova burguesia industrial estava interessada em controlar o poder estatal (sob influência
da agricultura) para eliminar as leis restritivas à expansão da indústria e impedir a manutenção do monopólio
sobre a terra. É a existência desse monopólio que permite o aparecimento da renda fundiária, importância a ser
adicionada ao valor das mercadorias agrícolas em virtude do monopólio da terra, que encarece os alimentos e
as matérias-primas. Os capitalistas ingleses só tinham a perder com as leis restritivas a importação dos
produtos agrícolas mais baratos do exterior, como no caso das “corn laws”. Daí o cheque de interesses
traduzir-se, inúmeras vezes, em confrontos violentos entre a agricultura “retrógada” e a indústria.
A situação acima descrita pode ser precisamente localizada nas primeiras páginas do capitalismo
industrial e, dificilmente, poderia se repetir nos países que se submeteram ao modo de produção capitalista
posteriormente. Mas nem por isto se pode dizer que, no Brasil, a agricultura tenha sido um obstáculo a
formação de um exército de força de trabalho industrial. Ao contrário, pode-se afirmar que a agricultura
sempre foi generosa na liberação de trabalhadores. Some-se a isso as relativamente altas taxas de natalidade
brasileiras e chega-se a uma das explicações do desemprego estrutural que vem acompanhando a
industrialização desde o seu nascedouro. De outro lado, a abundância de terras atenuava ou tornava
inexistente, até recentemente, o problema do monopólio da terra.
Em contraste com a situação do capital industrial inglês, interessado em expandir-se ultramar, era a
frágil indústria nacional que necessitava de barreiras protecionistas para evitar a concorrência externa. Sem
contar que foi justamente a agricultura que forneceu as primeiras divisas para a compra de equipamentos e de
matérias-primas, imprescindíveis para a existência da indústria brasileira, tarefa, aliás, que se tem revelado
cada vez mais necessária na evolução do capitalismo brasileiro. A agricultura brasileira significou, ainda, uma
grande fonte de capitalização industrial, observada nas várias formas de confisco cambial pastas em pratica
principalmente nos anos de consolidação da indústria.
Finalmente, cabe mencionar o papel da agricultura na formação do chamado mercado nacional e,
antes de mais nada, convém indagar se o capitalismo brasileiro precisava do mercado adicional supostamente
representado pela modernização da agricultura. A resposta não e difícil pois o capitalismo, no Brasil, foi tendo
sua dinâmica ditada pela produção de bens de consume duráveis e, portanto, satisfazia-se com um
relativamente restrito mercado de consumidores de altas rendas.
No lugar que ocupou na divisão internacional do trabalho do mundo capitalista, o Brasil deveria, em
um primeiro momento, fornecer produtos primários baratos; em seguida, forca de trabalho com salários
reduzidos para possibilitar grandes margens de sobretrabalho as empresas estrangeiras e aos capitais
nacionais. Portanto, a agricultura nunca precisou modificar-se ou modernizar-se mais do que o efetivamente
ocorrido para atender às necessidades de mercado para a indústria.
Pode-se afirmar, sem riscos, que nas ultimas décadas a agricultura brasileira desenvolve-se
subordinada a acumulação capitalista. Naturalmente, isso é diferente de dizer, como fez Caio Prado Jr., que
em toda a agricultura brasileira predominam relações de produção capitalistas. Se o capitalismo vem
ganhando crescentes fatias do campo brasileiro nos últimos anos, e se a maior parte da produção agrícola
provém já há algum tempo desses setores, não e menos verdade que a pequena propriedade camponesa
(entendida como os pequenos agricultores independentes que não utilizam, em geral, mão de obra assalariada)
continua se expandindo, como tem mostrado os últimos Censos53. Alias, a regra é, justamente, a convivência
de relações de produção pré-capitalistas com as capitalistas, devidamente assimiladas e transformadas pela
penetração do capital. A história do capitalismo europeu e de outras partes do mundo apresenta inúmeros
exemplos nesse sentido54.
Assim, assistimos na agricultura brasileira a combinação de inúmeras formas de relações de produção
onde os trabalhadores não vendem a sua forca de trabalho, seja porque possuem parte (e mesmo a totalidade)
dos meios de reprodução, seja porque estabelecem acordos com os proprietários destes ultimas de modo a
repartir com eles o produto final (meeiros, arrendatários, etc.). Grande parte dessa produção é canalizada para
o circuito capitalista e os seus integrantes (trabalhadores e proprietários) vivem sob a lei do mercado,
submetidos a ideologia dominante.
Diante desse quadro, pode-se concluir que sempre houve pouca motivação para a burguesia industrial
unir-se ao “povo”, em vistas da derrubada dos “entraves feudais” presentes na agricultura. Sintomaticamente,
sempre sucedeu o contrário, isto é, a fraca burguesia brasileira em geral preferiu se unir aos setores agrários,
mesmo os mais “atrasados”, em pactos de dominação onde o povo se colocava do outro lado do muro.
A própria debilidade da burguesia industrial para impor sua hegemonia impelia-a mais para acordos
do que para atos de força em relação aos setores agrários. Com isso não se pode fechar os olhos para as
contradições que permeiam as relações entre esses dois setores; basta lembrar a já citada transferência de
recursos da agricultura para a indústria (via confisco cambial), vigente pelo menos até 1964. Importa ressaltar

53
Vide a este respeito “A Estrutura de Classe da Agricultura Brasileira”, José da Veiga, Paris, 1975, mimeo.
54
Um quadro interessante das relações entre modos de produção e pré-capitalistas pode ser encontrado em “Les
Alliances de Classe”, de Pierre-Philippe Rey, Maspéro, Paris, 1973.
que as eventuais divergências sempre foram resolvidas mais pela via da composição do que pela do confronto.
E as transformações que a agricultura deveria sofrer (aumentar as exportações para contrabalançar os
crescentes problemas de balanço de pagamentos, por exemplo) ocorreram sem traumatismos, usualmente
favorecidas por grandes incentivos e subsídios estatais.
A despeito de tais evidencias, ainda que existem analistas que veem o campo como o “ponto de
estrangulamento” do desenvolvimento brasileiro. Pelo menos e o que se depreende de inúmeros “Ensaios
Populares” do semanário Movimento, como o de 6/1/7555 que diz: “O Brasil não pode mais ser considerado o
país essencialmente agrícola do início do século. Mas também está muito distante dos países industrializados
avançados”. Logo é “um país industrial-agrário subdesenvolvido”, conclui o ensaio, após considerações que
remetem o leitor até o período do neolítico. Mas, o neologismo “industrial-agrário” por si só não define nada,
pois abarca centenas de países dispares entre si como a Austrália, URSS, Franca, etc, todos eles
desempenhando tanto atividades agrícolas, como industriais. Porém, indo mais ao fundo desses textos, chega-
se a conclusão de que o novo conceito tem uma conotação mais ou menos definida, apesar de pouco
formulado teoricamente. Na verdade, o “industrial-agrário subdesenvolvido” refere-se a um capitalismo
precário, voltado para o mercado externo e ainda muito atrelado a uma estrutura agrária não capitalista. Esse
“atraso” da economia reverte em uma estreiteza do mercado interno que se torna um dos principais
empecilhos para o desenvolvimento do próprio capitalismo. No “Ensaio” de 21/6/7656 o articulista diz que “...
no regime capitalista, a piora das condições de vida e de trabalho de contingentes numerosos da população, se
começa sendo um problema social para quem o sofre, acaba se convertendo num problema econômico para
todo o país; pois, como pode a produção crescer indefinidamente se o mercado consumidor não a
acompanha?” E aqui o editorial de Movimento deve estar se referindo não somente a deterioração das
condições de vida dos trabalhadores rurais mas também as massas urbanas, cujas camadas mais pobres
tiveram seus salários diminuídos especialmente no período 1964/73. Mas, não foi justamente essa compressão
salarial que deu tanta energia a expansão do capitalismo durante o “milagre brasileiro” - período no qual a
produção cresceu como nunca dantes havia ocorrido?
Percebe-se pois que a análise de Movimento está perfeitamente identificada com a tradição
“ortodoxa”, podendo ser considerada coma a sua mais legítima sucessora. Dessa forma, os "novos-ortodoxos"
ressuscitam a questão agrária nos seus antigos moldes, tentando. resolver os problemas não só de “todo o
povo”, como também os do capitalismo nacional. que estaria ansioso por aumentar o mercado interno (na
agricultura) para os seus produtos. Daí estarmos a um passo de presenciar uma nova aliança entre as camadas
populares e a burguesia nacional, unidas contra os “entraves” pré-capitalistas e contra o imperialismo.
É bom repetir que não se trata de negar a existência de relações de produção não-capitalistas no
campo brasileiro (como no caso das pequenas propriedades camponesas); mas sim de verificar qual a sua
importância no tocante a luta de classes como um todo e, em particular, em relação a acumulação de capital.
Começando pela última questão, cabe indagar se a agricultura vem fornecendo as divisas externas suficientes
para contrabalançar os constantes desequilíbrios do balanço de pagamentos, típicos de um país dependente
coma o nosso. Em segundo lugar, deve-se averiguar se a agricultura tem desempenhado o papel que lhe toca
na elevação da mais-valia relativa, vale dizer, se os alimentos têm custado cada vez menos, de modo a
diminuir o valor da forca de trabalho sem baixar o nível de vida dos trabalhadores. E as respostas são
respectivamente sim e não, pois, enquanto houve um aumento de produtividade das culturas de exportação,
adubadas com régios incentivos governamentais - fazendo as exportações crescerem a mais de 25% ao ano
durante o “milagre” - a produção de alimentos para o mercado interno permaneceu com a mesma
produtividade, com o agravante de que a comercialização passou a ser monopolizada par grandes empresas
(supermercados, etc.) que passaram a gravar esses produtos com sobrelucros.
Assim, pode-se dizer que os problemas do capitalismo brasileiro em relação a agricultura não diferem
muito de certos parses capitalistas mais adiantados também preocupados com a elevação da mais-valia
relativa.
À medida em que o vasto território brasileiro passa a ser ocupado, as elevações dos preços agrícolas
também já podem ser atribuídos ao monopólio da terra. Mas, esse é um problema que a burguesia tem tido
dificuldades em resolver mesmo nos países mais adiantados. A rigor seria de interesse da burguesia industrial
que se eliminasse qualquer monopólio da terra (por meio da estatização), para que os produtos agrícolas
tivessem preços de mercado não inflacionados pela renda fundiária. Na prática, porém, esse problema vem

55
Vide o artigo “Medindo a industrialização no Brasil”.
56
Vide o artigo “Desenvolvimento, Segurança e Demoracia”.
sendo apenas atenuado por meio da intervenção estatal, taxando as propriedades rurais ou subsidiando os
produtos agrícolas. Isso porque a estatização das áreas rurais mexe com um dos pilares mais sagrados de
sustentação do modo de produção capitalista: a propriedade privada. Daí ser indesejável para a burguesia
propor a eliminação da propriedade rural, pois corre o risco de ficar ideologicamente enfraquecida para a
defesa da propriedade privada dos meios de produção em geral.
Da mesma maneira, a persistência da pequena produção familiar de agricultores independentes (cujos
proprietários não são capitalistas na medida em que não exploram a força-de-trabalho de outros e, ao mesmo
tempo, não buscam, ao produzir, o lucro médio) pode ser explicada, entre outras razões, pela possibilidade de
sobrelucros para os agricultores capitalistas. Ou seja, sempre que a demanda de um determinado produto
permitir a fixação do preço de mercado a partir do preço de produção dos que produzem em piores condições
(o produtor “marginal”), todos aqueles que produzirem a menores preços de produção terão lucros
extraordinários (diferenciais), dados pela diferença entre os preços de mercado e seus próprios preços de
produção.
A verdadeira dimensão da questão agraria não pode, portanto, ser encontrada em resquícios feudais,
pré-capitalistas ou outros que estariam impedindo o desenvolvimento do capitalismo no campo. As distorções
sociais existentes-que incluem até mesmo a aberração do trabalho escravo – são peças constitutivas e
coerentes dentro da expansão capitalista da agricultura. A reforma agraria, neste sentido, não corresponde a
uma condição sine qua non para o desenvolvimento capitalista, mas a aspiração de milhares de mini-
fundiários (semi-proletários que trabalham parte do ano como assalariados pois o que cultivam em seus
pequenos lotes não lhes permite sobreviver), arrendatários e outros, que assim veriam atendida a consigna
democrática “a terra para quem a trabalha”. Esta reivindicação, como todas aquelas que dizem respeito ao
direito as melhores condições de trabalho e de vida para o enorme contingente de assalariados rurais, pode ser
satisfeita mesmo nos quadros da dominação capitalista. Toda a questão reside na força que tenham as classes e
camadas exploradas da agricultura para impor um estilo de desenvolvimento capitalista que fira menos seus
interesses diretos, enquanto acumulam forças para transformações mais radicais.

O imperialismo e a questão nacional

No Brasil, a questão nacional e tradicionalmente vinculada a questão agraria graças a corrente


“ortodoxa” que procurou alinhar, em campos opostos, uma burguesia nativa (e o povo brasileiro), e o setor
agrário-exportador aliado ao imperialismo. Na verdade, se era difícil provar essa dicotomia de interesses no
período agrário-exportador, essa tarefa torna-se praticamente impossível a medida em que a acumulação
industrial assume a supremacia e o imperialismo redefine radicalmente os seus interesses no país. O
imperialismo, já a partir da década de 50, não vê mais o Brasil como um celeiro privilegiado de produtos
primários (minérios a produtos agrícolas), mas passa a encará-lo como um ótimo campo de investimentos,
para transferir seus capitais. Daí em diante, os interesses imperialistas deixam de concentrar-se na agricultura,
voltando-se cada vez mais para a produção de mercadorias destinadas ao mercado interno. Isso significa que,
em caso de haver alguma questão nacional sensibilizando certas frações das classes dominantes brasileiras, ela
não poderia ter o seu eixo principal centrado na questão agrária.
De fato houve: nos primeiros anos da maciça penetração de capitais, estrangeiros na indústria de
transformação, alguns atritos com a já existente burguesia nacional, localizada principalmente no setor de
bens de consumo popular. Mas estes desentendimentos sempre assumiram proporções diminutas apesar de
publicamente terem sido aumentados pelas caixas de ressonância de alguns setores da pequena burguesia
(geralmente, funcionários estatais, militares e intelectuais) que sonhavam com um capitalismo brasileiro mais
autônomo (veia-se, por exemplo, a pregação nacionalista do ISEB). Tao logo as grandes empresas estrangeiras
redefiniram as regras do jogo, impulsionando o capitalismo brasileiro para a produção monopolista, foram
vencidas as últimas resistências dentro do empresariado nacional, criando-se uma sólida constelação de
interesses ao redor dos investimentos estrangeiros. E são estes interesses comuns da fração monopolista do
capital - os dominantes hoje no país, sustentando o regime autoritário e, ao mesmo tempo sendo por este
servido.
É como se, ap6s um ensaio de autonomia posto em pratica mais pelo desinteresse e pela ausência dos
parceiros externos57, a burguesia nacional tivesse se resignado a assumir a dependência tecnológica e aceitado

57
Os capitais estrangeiros passaram a fluir em massa para a indústria de transformação do Brasil após a Guerra da
Coréia.
a “cooperação estrangeira” sem a qual a acumulação provavelmente não teria dado tão grandes saltos
qualitativos. Naturalmente, essa associação teve um alto preço para a Nação, mas não para os capitais locais
que, com raras exceções, puderam engordar no rastro do capital estrangeiro e se confirmaram com a posição
de sócios minoritários.
Neste sentido, se a acumulação monopolista levou o capitalismo brasileiro ao aprofundamento da via
da associação, esvaziando qualquer luta nacionalista que partisse da contradição entre burguesia nacional e
imperialismo, isto não significa, no entanto, que a questão nacional tenha desaparecido. De fato, os interesses
da Nação (entendidos como os da maioria da população) são constantemente feridos pela exploração da mais-
valia, parte da qual escapa a reprodução ampliada interna para ir engrossar os gordos capitais das matrizes
estrangeiras, sob a forma de remessas de lucros, pagamentos de royalties, patentes etc.
A burguesia, monopolista nacional, umbilicalmente atada à sua parceira estrangeira, é pois fiel à
avaliação de Rosa de Luxemburgo que dizia: “...sob a hegemonia do capitalismo não há autodeterminação da
nação na medida em que, em uma sociedade de classes cada classe tende a ‘autodeterminar-se’ diferentemente
e, para as classes burguesas, as considerações sobre a liberdade nacional vêm após aquelas que dizem respeito
à dominação de classe”58. Se for necessário lutar contra empecilhos externos para garantir a reprodução de seu
capital, a burguesia, então, empunhara a bandeira da libertação nacional. Porém, se os seus interesses de classe
passarem justamente pela associação com os capitais estrangeiros, o nacionalismo será relegado as traças.
Naturalmente não se deve esperar uma atitude uniforme, em termos de projetos político-econômicos
da burguesia, na medida em que ela se subdivide em torno de interesses diferenciados. Os acordos (ou
desacordos) ente as várias facções do capital, se bem possuam uma grande delimita ao horizontal que divide
grandes e pequenos capitais, não se pauta necessariamente por critério de nacionalidade. Assim, podemos
encontrar setores monopolistas nacionais tanto perfeitamente afinados com grupos monopolistas estrangeiros,
quanto agrupados em torno de “modelos de desenvolvimento” que privilegiam principalmente o segmento
nacional do capital como é o caso, por exemplo, do setor de bens de produção.
Além disso, existe um atrito em potencial entre as várias frações do capital decorrente do fato destas
últimas terem de partilhar a massa de valor em mãos do aparato estatal. Cabe destacar, ainda, que a
acumulação monopolista impede certos imperativos que limitam as alternativas para o capitalismo no Brasil,
sujeitando os vários setores do capital a certos padrões de acumulação (tecnologia, tipos de produtos etc.) aos
quais convém aderir sob pena de não conseguir valorizar o capital.
Se no campo dos interesses econômicos já é difícil delimitar as áreas de convergência, a coisa torna-se
mais complicada no tocante aos projetos políticos que possuem, em geral, uma relativa autonomia frente aos
interesses econômicos diretos de cada fração do capital. Assim, grandes e pequenos capitais poderão sustentar
regimes políticos semelhantes, deixando para segundo piano suas divergências econômicas como sucedeu, por
exemplo, em marco de 1964.
Desta maneira, se a questão nacional não pode ser resolvida sem que previamente o capital
monopolista seja vencido, não se deve esperar, tão pouco, muita persistência por parte dos pequenos e médios
capitais na luta anti-monopolista. Durante os ciclos ascendentes do processo de acumulação, os pequenos e
medias capitais também encontram seu lugar ao sol, pois a massa da mais-valia social expropriada possibilita
taxas de lucro satisfat6rias para todos, o que os torna solidários com os modelos de desenvolvimento da
grande burguesia. São os períodos de crise - ao acirrarem a concorrência pela mais-valia e ao expelirem do
mercado os capitais mais débeis, ao mesmo tempo em que se aprofunda a luta pelos favores do Estado - os
que permitem a manifestação mais clara das contradições entre o grande capital e os pequenos e médios.
Portanto, no Brasil de hoje, o nacionalismo pode ter um significado distinto para os diversos setores
das classes dominantes. Para uns representa a conquista de novos mercados, expansionismo econômico, maior
poder de barganha frente o grande capital internacional e os países imperialistas e a integração na chamada
comunidade dos países desenvolvidos; em síntese: “Brasil Grande Potencia”. Esse projeto, de agrado de
setores das Forças Armadas e segmentos da burocracia civil, pode ser apoiado especialmente por empresários
que começam a expandir os seus neg6cios para fora do país, como é o caso dos setores de construções,
supermercados etc. implantando-se agora em países africanos. A disputa dos novas campos de investimento e
mercados estrangeiros poderá provocar atritos com o capital monopolista dos países capitalistas hegemônicos.
Mas isso dificilmente levaria a um confronto direto com o capital estrangeiro instalado na estrutura produtiva
brasileira e convivendo harmonicamente com o capital privado nacional. Para outros, o nacionalismo pode

58
“Oeuvres”, Petite Collection Maspéro, Paris. 1969, pág. 71.
representar algumas restrições a atuação do capital estrangeiro, um maior controle de seus lucros, a eliminação
de abusos e a fixação de áreas de atuação.
A questão nacional, pois, redefine-se em função do estágio de desenvolvimento das forces produtivas
atingido em nosso pals. Todos aqueles que consideram sua resolução como tarefa prioritária das forças
progressistas nacionais estão a demonstrar uma concepção irrealista das formas de penetração do imperialismo
no Brasil. Ou seja, este não é um país em que a presença imperialista seja exterior, em que a nação é
explorada por outra, ao estilo das colônias africanas, por exemplo. Aqui, o capital estrangeiro participa, de
dentro, do processo de acumulação, dominando os setores ditos dinâmicos (automobilístico, eletro-eletrônico
etc) de forma monopolística. E é a esta fração monopolista do capital (da qual também participam capitais
nacionais) que a economia e a sociedade brasileiras estão submetidas E são os seus interesses que o regime
autoritário serve prioritariamente.

Balanço do balanço crítico

Este balanço crítico de uma série tão variada de ideias e autores, não poderia deixar de defrontar-se
com inúmeras limitações. Primeiramente, ao sintetizar ao máximo teses que, evidentemente, são expostas
mais longa e profundamente por seus autores, corre-se o risco de algumas generalizações indevidas. O fato de
agrupar os diversos autores em algumas correntes de pensamento pode diminuir ou subestimar as diferenças
entre eles. A própria preocupação em manter um certo equilibro entre o espaço gasto com a apresentação das
teses e aquele dedicado às críticas, levou-nos também a restringir nossos pontos de vista a considerações mais
gerais. É o que justifica o fato de criticarmos o subconsumismo, por exemplo, sem entrarmos nas questões
teóricas de fundo que concernem a natureza das crises econômicas nos países capitalistas.
Mas seguramente maior ausência neste balanço diz respeito ao fato de restringir-se apenas a obras já
editadas e de circulação nacional. Dessa forma, ficou de fora (ausente) um vasto material teórico de difícil
acesso, produzido pelas organizações políticas que passaram a luta armada pincipalmente a partir de 1968, e
cuja ausência nos impede de traçar um quadro completo das várias análises e propostas de transformação da
sociedade brasileira. Cabe ainda chamar a atenção para as eventuais injustiças cometidas devido a
impossibilidade de se considerar as reformulações possivelmente contidas nessas obras fora de alcance.