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1º SEMESTRE

Alexandre Rafael Ventura Fernandes

Fundamentos de
Direito
Público. SEBENTA

2011/2012
DIREITO
Regente: Prof. Dr. Maria da Glória Garcia
Professor Aulas Práticas: Prof. Dr. Armando Rocha

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 2


| Índice

1. Sebenta
Parte I - Conceitos introdutórios. Formação e evolução do poder político e do direito público
I. Introdução: O Homem e a sociedade......................................................................................................................4
II. Homem, sociedade e poder político.......................................................................................................................8
III. Homem, sociedade e direito................................................................................................................................10
IV. Sociedade, poder e justiça..................................................................................................................................12
V. Sociedade, poder e soberania.............................................................................................................................13
VI. Liberdade, igualdade e poder..............................................................................................................................15
VII. Segurança, poder e direito.................................................................................................................................19
VIII. Estado, direito e cultura.....................................................................................................................................21

Parte II - O Direito público moderno e sua ligação ao Estado de Direito


I. O conceito de Estado. Os elementos, fins e tarefas do Estado de Direito............................................................22
II. Formas de Estado.................................................................................................................................................29
III. Regimes políticos, Formas de Governo e Sistemas de Governo........................................................................33

Parte III – Princípios Fundamentais do Direito Público dos Regimes Democráticos


1º Princípios estruturantes do Estado de Direito
Princípio da Dignidade da pessoa humana..........................................................................................38
Princípio do Estado de Direito..............................................................................................................41
Princípio do acesso ao direito...............................................................................................................44
Princípio da participação política dos cidadãos....................................................................................47
Princípio da transparência.....................................................................................................................47
Princípio da responsabilidade...............................................................................................................47
Princípio da sustentabilidade do desenvolvimento...............................................................................48
2ºPrincípio do funcionamento do Poder Estadual
Princípio da subsidiariedade.................................................................................................................49
Princípio da cooperação.......................................................................................................................49
3ºPrincípios da organização e poder administrativa
Princípio da descentralização democrática da Administração Pública.................................................50
Princípio da desconcentração de poderes administrativos...................................................................50
Princípio da prossecução do interesse público.....................................................................................51
Princípio da legalidade administrativa...................................................................................................52
Princípio da igualdade...........................................................................................................................53
Princípio da proporcionalidade..............................................................................................................54
Princípio da Justiça...............................................................................................................................54
Princípio da imparcialidade...................................................................................................................54
Princípio da boa-fé................................................................................................................................54

2. Sebenta: Síntese................................................................................................................................................................................55

3. Sebenta: Cronologia..........................................................................................................................................................................60

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| Sebenta
PARTE I: Conceitos introdutórios. Formação e evolução do poder político e do direito público

I - Introdução
1. O homem e a sociedade.
1.1 A vida em sociedade.
Segundo Aristóteles:
Na obra ―A Política‖: «o homem é, naturalmente, um animal político»
O homem foi feito para viver em sociedade
O homem tem uma aptidão natural para viver integrado na sociedade aquele que não vive em sociedade é uma criatura degradada
ou um ente superior ao homem: «Um bruto ou um Deus e não um ser humano»
Polis - para os gregos da Antiguidade Clássica a «cidade» - não era uma qualquer comunidade, mas aquela onde podiam ser
satisfeitos os fins vitais do homem.
Corresponde à sociedade perfeita, organizada, natural. A «polis» é o Estado ou comunidade política por excelência.
Os homens nascem para viver em sociedade e, logo, para exercer o poder.
Esta concepção naturalística da sociedade política e poder político virá, mais tarde, na Idade Média, a ser retomada por S.Tomás De Aquino.
Na actualidade com o fenómeno da tecnologia vemos, em certo ponto, que o homem se isola da sociedade.
Ex: Comprar produtos através da internet, sem sair de casa; conversa através do telemóvel isolamento do homem da sociedade
Fisicamente isolo-me da sociedade relação virtual formação de uma nova identidade pessoal e personalidade
Temos de interpretar a nova sociedade em formação as redes são estruturas abertas mas a pessoa humana é um fim em si
mesmo, com dignidade própria

1.2. Diferentes formas de sociedade


A sociedade política (polis) não é a única sociedade que congrega as pessoas. Estas dão origem a diversos tipos de sociedade. Umas são
racionalmente construídas, de acordo com um conjunto de regras pré-determinadas.
Sociedade anónima: Banco Espírito Santo
Associação pública: Ordem dos Arquitectos
Associação de voluntariado: Banco Alimentar contra a Fome
Formação espontânea ou acidental: grupo que sobe num elevador; conjunto de turistas que sofre um acidente de barco;
Organizações societárias institucionalizadas: Estado
Sociedades inorgânicas: grupo que ocasionalmente se encontra dentro de uma carruagem no comboio de Lisboa para Sintra.
Sociedades simples: família
Sociedades complexas: município; Estado Federal (EUA); Organização das Nações Unidas (ONU).

1.3. A necessidade de poder ou autoridade social.


Ver Sentença de Salomão
A necessidade, no âmbito de um grupo, de tomar decisões que a todos respeitem e a todos afectem (decisões colectivas).
Ex. se um grupo de amigos quer ir ao futebol em conjunto, é necessário deliberar se vão de metro, de carro ou a pé;
Está em causa determinar onde está o poder, localizá-lo, identificá-lo; está em causa a legitimação do poder.
A necessidade de um estatuto organizacional, definidor dos interesses ou fins a realizar através da organização e do âmbito das tarefas e
competências dos órgãos que integram essa organização
Ex: um grupo que acidentalmente se constitui numa ilha cheia de perigos e que precisa de uma organização para sobreviver, precisa
de designar alguém que fique de vigília durante a noite, de designar substitutos para essa tarefa de vigília, de hierarquizar tarefas.
Está em causa a necessidade de fixar regras de actuação.

1.4. A vida em sociedade sem poder ou autoridade social.


Se não existisse poder, o que seria?
Ex: Imagine-se um jogo de hóquei sem árbitro; a utilização de uma auto-estrada que não está sujeita a regras de trânsito, às normas
do Código da Estrada. Como irá proceder cada um dos que utiliza essa auto-estrada ou cada um dos jogadores de hóquei?
O natural será que provoque medo por não existir normas na estrada, uma completa anarquia no jogo de hoquéi.
A capacidade de prever e agir livremente em função da previsão feita decorre da existência de normas, de uma regulação do conjunto.

1.4.1. A vida em «estado de natureza» e a passagem para o «estado de sociedade»


Concepções antropológicas sobre o ser do homem: A distinção entre «estado de natureza» e «estado de sociedade»:
Pessimismo de Thomas Hobbes
Optimismo de Jean Jacques Rousseau
Realismo de John Locke

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Thomas Hobbes
Filósofo inglês do séc. XVII (1588-1679); Escreveu duas obras políticas fundamentais «De Cive» (1642) e «Leviathan» (1647)
As suas concepções fundamentam a teoria moderna do Estado, a passagem da «anarchia» para a «archia» do Estado, do estado de
natureza ao estado civil. Influenciado pelas desordens do tempo em que viveu: «o medo e eu nascemos irmãos gémeos»
Vê o homem como um ser egoísta, egocêntrico, que procura a felicidade a todo o custo;
Nasce o conflito a guerra permanente («homem lobo do homem») «estado de natureza», um estado onde não há poder político.
Como todos são iguais e têm o direito de usar por igual a própria força competição e desconfiança a anarquia é o resultado
Desconfiança permanente – todos desconfiam de todos – e a sensação constante de insegurança «Lei do Mais forte»
Criação de um poder que assegure a paz e a segurança e, por seu intermédio, a justiça acontecerá quando os indivíduos
renunciarem ao direito de usar cada um a própria força e a entregarem a alguém que a usará contra eles.
O poder político é caracterizado pela exclusividade do uso da força
Passagem do estado de natureza ao estado de sociedade contrato ou pacto através do qual os homens alienam (transferem de
forma definitiva e irrevogável) os seus poderes para que surja um único poder na sociedade, o poder político.
O poder fica nas mãos do Estado, um Estado forte, um Estado monstro (Leviathan) no qual não há direitos nem liberdades que se lhe
possam opor (todos lhe foram alienados). O Estado tem o monopólio do poder.
Leviathan é um monstro bíblico caracterizado como uma serpente, hipopótamo, crocodilo, baleia, monstro de várias cabeças).
Concepção sobre o poder político/sociedade faz dele um contratualista (a origem do Estado/sociedade está baseado num contrato)
É um empirista e racionalista põe em prática o empirismo nas suas observaçoes e conclusões sobre a natureza humana («o
homem é um ser naturalmente mau»), mas faz uma análise das palavras e do raciocínio que é dedutiva, racionalista.
John Locke
Autor inglês do séc. XVII (1632-1704); Escreveu «Ensaio sobre a verdadeira origem, extensão e fim do governo civil».
Reconhece também a existência de um estado de natureza e um estado de sociedade
A passagem de um estado para outro estado contrato ou pacto concepção contratualista sobre a sociedade política
No estado de natureza os homens vivem entregues a si próprios, sem poder político que os organize e comande.
O estado de natureza não é nem bom nem mau os homens que o formam não são nem bons nem maus por natureza
O estado de natureza será, por isso, o que os homens dele fizerem.
Os homens nascem livres e iguais, todos exercem livremente e em igualdade de condições, os poderes que possuem
Não há regras institucionalizadas; não há leis formais; não há uma ordem pré-estabelecida cada um age de acordo com a
interpretação que faz das leis da Natureza, uma interpretação subjectiva os homens fazem justiça por suas mãos justiça privada
Nasce injustiças a propriedade privada e a liberdade não são garantidas os homens, sendo racionais, querem pôr-lhe termo
Celebram um contrato Estado de desordem dá transição para a sociedade política nasce o poder político.
A grande diferença de Locke para Rosseau e Hobbes contrato não integra uma alienação de poderes, como em Hobbes (alienação
a uma entidade) ou em Rousseau (alienação a todos os homens que celebram o contrato), antes uma delegação de poderes
Diferencia alienação da delegação: na alienação não há a possibilidade, para quem aliena, de reaver o que alienou; na delegação
quem delega mantém o controlo do bem que delega de tal modo que o pode reaver se entender que o uso que está a ser dado ao bem
não é aquele que o determinou a celebrar o contrato. («direito de apelar aos céus»)
O poder político que nasce de uma delegação de poderes é um poder sujeito permanentemente a controlo; está constantemente a ser
fiscalizado. É a faculdade de os homens, em sociedade política, poderem reaver os bens (poderes) que delegaram
Através do contrato social, os homens não delegarem todos os seus poderes delegam somentes aqueles do bem público, aos
interesses do todo os poderes relacionados com a intimidade privada e com a família ficam fora do contrato social
Defende um poder político moderado que respeite a liberdade e a propriedade privada.
A sua concepção influenciou a Constituição dos Estados Unidos da América o liberalismo político.
Jean Jacques Rousseau
Autor suíço do séc. XVIII (1712-1778); Foi um autodidacta. Escreveu «O contrato social ou princípios de direito político»
Há também um estado de natureza e um estado de sociedade
A passagem de um estado para outro estado contrato ou pacto concepção contratualista sobre a sociedade política
O estado de natureza corresponde, em razão da natureza boa do homem, ao paraíso o homem é livre e feliz; faz o que lhe apetece
e tudo corre bem («bom selvagem»)
Porque o homem não continua no estado de natureza? progresso civilizacional Sedentirização cultivo das terras nasce a
propriedade privada (este instrumento é meu, aquele é teu; esta terra é minha, aquela é tua)
Simultaneamente em virtude do mérito pessoal, de acasos climáticos ou da localização e composição das terras diferenças entre
terras dos homens nasce os conflitos, as paixões, a inveja.
Os homens tornam-se egoístas, ambiciosos e a vida quotidiana em sociedade torna-se difícil do paraíso evolui-se para o inferno
Mas os homens são racionais celebram um contrato ou pacto nasce estado de sociedade.
Este pacto tem um objectivo preservar a liberdade primitiva, isto é, cada um não depender de outrem e sim somente de si próprio.
Como conseguir isso através de um pacto ou contrato? contrato em que todos e cada um alienam por igual a sua liberdade a todos
e cada um dos demais a reciprocidade entre o que se dá e o que se recebe é total o homem que é livre no momento em que
celebra o contrato, mantém-se livre depois do contrato.
Sociedade política o homem obedece ao poder que nela se forma, não obedece a ordens de outrem
A defesa da democracia directa A democracia totalitária.
Lei perfeita a lei exprime a vontade da maioria logo é justa crença na lei

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1.4.2. Sociedade e poder. A construção da «polis».
Autores contratualistas dos séculos XVII e XVIII deixou-nos um legado importante que nos permite:
Diferentes formas de compreender a necessidade de poder na sociedade, a origem desse poder e sobre o modo de ele se exercer
Compreensão da liberdade que subjaz à existência mesma de poder em sociedade
O contrato que dá origem ao poder é celebrado por homens livres e iguais o poder em sociedade exige um fundamento (contrato) e o seu uso
tem de assentar numa justificação objectiva (decorrente do conteúdo do próprio contrato).
A liberdade das pessoas que compõem essa sociedade, porém, não tem de se justificar para ser. Emana da dignidade da pessoa humana.
Segundo Profª Maria Garcia da Glória, com os autores contratualistas deixaram dez ideias fundamentais
Necessidade de poder na sociedade
O poder tem origem na liberdade do homem
O poder tem um fundamento, uma justificação
O poder encontra-se legimitado no contrato
Reconhece a dignidade do homem
O poder não se confunde com a força
O poder tem autoridade
O contrato constitui a sociedade
Constituição transmite poder que tem regras, limites, constrangimentos embora possa ter novos principios – capacidade expansiva
O Estado funciona como um «colete de forças» é o homem que faz a validade e legitimidade do poder político, do Estado

2. Sociedade, poder ou autoridade social e direito.


O homem é um animal gregário, vive em sociedade, e, em sociedade, necessita de poder.
A construção do poder em sociedade é, pois, uma necessidade. O poder em sociedade:
faculdade de mandar, dar ordens ou definir condutas ou comportamentos alheios
capacidade de se fazer obedecer, isto é, de conseguir que essas ordens ou comandos sejam acatadas.
Mas o poder pode confundir-se com a força poder a que se obedece por medo das consequências, se não for acompanhada de autoridade
A autoridade significa que o comando é definido por quem;
tem carisma ou aptidão natural para se fazer obedecer capacidade de liderança
integra uma instituição hierárquica ou cargo aceite pelos membros do grupo social institucionalização do poder no direito
A capacidade de se dar ao respeito resulta, neste caso, de um exercício do poder legitimado no direito.
Na sociedade política ou em qualquer outro grupo social, o exercício do poder exige a junção de três realidades:
constituição do grupo no sentido da sua identificação, em razão dos interesses comuns a satisfazer ou dos fins a prosseguir;
valores que emanam do grupo e que se reflectem em regras que a todos vinculam;
órgãos ou sistema de órgãos que fazem aplicar as supra-referidas regras.
Quando a capacidade de impor comandos aos outros permite criar expectativas de comportamentos futuros essa capacidade se funda e
desenvolve de acordo com regras que todos conhecem não há arbítrio no exercício do poder.
Diz-se que o poder está, na sociedade, legitimada no direito as condições de validade do exercício do poder encontram-se no direito.
O direito é o «colete de forças» do poder, mas é, ao mesmo tempo, a «força expansiva» desse mesmo poder.
A sociedade política «constitui-se» através da institucionalização de um poder, o poder político.
Na Antiguidade Clássica, já se falava em constituição esta era a ordem fundamental de toda e qualquer comunidade política.
Depois do século XVIII, Constituição passa a ter um conteúdo mais rigoroso, juridicizando-se é a lei fundamental de um Estado.
Primeira aproximação a um conceito de direito: Direito como ordem de valores que identifica a sociedade e a sua compreensão da justiça e
confere validade à acção do poder político; como conjunto de regras que legitimam o exercício do poder e traduzem, ao mesmo tempo que
sedimentam, a ordem de valores que identifica a sociedade e a sua compreensão de justiça.

3. Em jeito de conclusão
Sociedade politicamente organizada, dotada de uma constituição: Quando os homens se «constituem» em sociedade e institucionalizam um
poder cujo exercício se funda em normas, se desenvolve em ordem à satisfação dos interesses comuns, isto é, a fins ou valores em que todos se
reflectem, e permite criar, através de normas, expectativas legítimas de comportamentos sociais e assim poderem edificar projectos pessoais
A constituição de uma sociedade política funda o poder político, orienta a sua acção e garante um desenvolvimento social organizado

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Análise de Julgamentos:
Julgamento de Cristo
Julgamento de Sócrates
Julgamento de Salomão

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II - Homem, sociedade e poder político
4. A civilização grega e a invenção da política.
A Grécia Antiga é o berço da reflexão teórica sobre a sociedade política e sobre o poder que nela evolui.
É costume dizer-se que os gregos pensaram a política; os romanos fizeram dela acção.
Quem inventou a pólis? Péricles; Xenofonte; Platão; Aristóteles pensaram a política e o exercício do poder
2 modelos de poder político na Grécia Antiga Ateniense e Espartano

4.1. O «século de Péricles»


Séc..V a.C. (495-429 a.C.)
Governou durante 15 anos (foi sucessivamente eleito) governou dos seus 52 anos aos 66 anos «Século de Péricles»
Estadista sábio e maduro consolidou em Atenas o regime democrático e engrandeceu a cidade a nível artístico, militar e
económico. Não deixou obra escrita mas o seu pensamento é hoje bem conhecido através dos relatos de Tucídedes, um historiador
grego
Tucídes reproduziu uma peça de oratória notável, proferida por Péricles, na cerimónia fúnebre aos mortos na Guerra do Peloponeso
Este tece considerações sobre Atenas e a sua democracia, defendendo a superioridade desta relativamente aos outros regimes,
concretamente ao regime político de Esparta
Péricles realçou a defesa de dois valores fundamentais sobre os quais se «constitui» a sociedade política – a liberdade e a igualdade
Embora defenda estes dois valores, Atenas ainda se estruturava sobre a escravatura, a desigualdade entre o homem e a
mulher e esteja longe de defender o acesso generalizado à cultura
Péricles também defendeu todo o social que os identifica – Atenas e a sua Constituição.
Em democracia governa-se para o interesse de todos e não só de alguns; as leis são iguais para todos e todos podem participar na
«coisa pública», não sendo ninguém afastado pela pobreza ou condição social o poder é para a maioria
A liberdade é a regra do governo e todos podem livremente defender as suas opiniões na ágora virtude humana
A defesa da pátria é entendida como um dever

4.2. XENOFONTE e a defesa da ditadura


Séc.IV a.C (430-355 a.C.) - nasce no ano em que Péricles morre
Deixou o seu pensamento por escrito – «A Retirada dos Dez Mil», «O Príncipe Perfeito», «A República dos Lacedemónios»
Nestas obras elogia a sociedade fechada, disciplinada, com regime ditatorial, que vigora em Esparta
A obediência é um bem de enorme valia para a cidade bem inestimável no exército ou em grupos sociais restritos, como a família
A defesa do «bom chefe» e das qualidades inerentes a uma boa liderança o poder da oratória, a capacidade de persuadir
O dever do chefe é mandar e o dos súbditos obedecer
O poder político deve ser exercido por bons chefes e, se estes estiverem no poder, devem manter-se
Significa que não coloca o problema da legitimidade do acesso ao poder nem o problema do exercício do poder de acordo com valores

4.3. Platão e o rei filósofo.


Sec. IV (428-347 a.C.) - nasce um ano depois da morte de Péricles e, com 29 anos, presencia a morte de Sócrates.
Escreve «A República», «O Político», «As leis» vem de familia culta, aristocrata torna-se discíplo de Sócrates
Objectivo: Justiça
Primeiro pensador político a delinear um projecto de sociedade política um modelo de sociedade onde os homens podem viver com justiça
O diálogo político-filosófico entre Platão e Aristóteles, dois autores de quem já se disse que tinham «esgotado» a inteligência da humanidade
Depois de olhar para a história e analisar as experiências políticas suas contemporâneas, concluiu que nenhuma correspondia ao que se
pretendia de uma boa sociedade política esforçou-se por idealizar, através da reflexão, a boa sociedade política, capaz de concretizar a justiça
Ideia principal tinha a ideia que se chegasse à corte de um tirano poderia ensiná-lo e mudá-lo para um bom rei
Conclui que justiça não coincide com um valor humano nem com uma virtude nem com «dizer a verdade» ou «restituir o que recebeu de outrem»
Justiça é a boa ordem da cidade obtém-se quando cada um dos seus membros só faz aquilo para que está vocacionado, para que tem
aptidão
Justiça é o ideal, o objectivo do poder político
Dá a conhecer a sua cidade através da fábula dos metais Tal como há três metais – ouro, prata e bronze –, há três tipos de homens, em
razão das suas aptidões pessoais predestinadas governantes, guardas e artesãos se tudo se concretizar sociedade perfeita
Alma de ouro governa a cidade
Alma de prata defendem a cidade
Alma de bronze sustentam a cidade
Se os governantes só chefiarem a cidade os guardas só a defenderem e os artesãos e agricultores só trabalharem para o sustento dos membros
da cidade a cidade será una, agirá em uníssono e atingirá a justiça Para isso, é necessário que:
Nem os governantes nem os guardas tenham propriedade privada – só assim cada um se poderá dedicar integralmente à tarefa para
que está predestinado à cidade.
É preciso que o casamento e a família sejam abolidos só assim poderá ser feita a correcta selecção dos jovens para as actividades
que vão desenvolver na cidade, de acordo com as suas aptidões naturais.
A educação das crianças e dos jovens é deixada a cargo da cidade
A igualdade entre os homens e as mulheres deverá ser realizada.
Conteúdo da obra: ―A República‖ A defesa da sofiocracia ou do rei-filósofo.

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A sucessão cíclica das formas de governo: sofiocracia/timocracia/oligarquia/democracia/tirania/sofiocracia, de novo.
Sofiocracia sociedade ideial para Platão (pode evoluir para timocracia)
Timocracia poder dos guardas (pode evoluir para digarquia)
Oligarquia os ricos no poder (pode evoluir para democracia)
Democracia a sociedade assume o poder (pode evoluir para tirania)
Tirania uma pessoa assume o poder (pode evoluir para sofiocracia)
A defesa de uma sociedade fechada e de um regime totalitário, que não conhece a liberdade.

4.4. Aristóteles e a defesa da cidade plural


Sec. IV (384-322 a. C.) - nasce quando Platão tem 43 anos – discíplo de Platão mas discíplo da verdade e Platão não tem a verdade
Escreve «A ética a Nicómaco» e «Política»
Objectivo: felicidade
É um estudioso da realidade analisa-a e classifica os fenómenos que analisa com espírito cientista Foi o primeiro cientista da política
Defende uma sociedade plural e democrática a cidade é uma associação com uma específica finalidade: a realização de uma vida boa para
quem nela vive, a prossecução da felicidade (uma felicidade não entendida como prazer mas como virtude)
Para tal é preciso que o governo da cidade se oriente para o bem e as suas leis sejam boas.
A virtude do bom cidadão atinge-se com o bom governo e as boas leis. É através de leis boas que a virtude do cidadão se alcança.
Mas quais são as boas leis? Para responder a esta questão, Aristóteles analisa a obra de Platão e critica-a:
Não aceita a unicidade da cidade de Platão a cidade é formada por homens diferentes, não pode responder a uma só voz; a cidade
é formada por homens diferentes e deve mostrá-lo defesa do pluralismo político.
Tem de ter propriedade privada e tem de reconhecer a família estas são instituições que fazem os homens felizes
Não aceita a divisão em três classes sociais são antes classes que se diferenciam do ponto de vista económico: classe dos pobres,
classe média e classe dos ricos a melhor cidade do ponto de vista político é aquela que tem uma classe média alargada, porque:
os que pertencem a esta classe são os que se integram mais harmoniosamente na cidade.
Uma cidade com uma classe média alargada não está tão exposta a perturbações sociais maior longevidade
Aristóteles distingue entre regimes sãos (monarquia/aristocracia/república) e regimes degenerados (tirania/oligarquia/democracia)
Regimes sãos caracterizam-se pelo facto de o governo ser exercido para utilidade de toda cidade
Regimes degenerados caracterizam-se pelo facto de o governo ser exercido para utilidade de quem governa
Defende a república mista (de oligarquia e democracia) com predomínio das classes médias
O espírito científico com que Aristóteles analisa o poder da cidade leva-o a distinguir três actividades no exercício desse poder:
A deliberativa, a executiva (organizar as funções públicas) e a judiciária.
Crítica: apesar de ser um defensor da sociedade pluralista e de um governo limitado, de advogar a virtude do bom cidadão e de se mostrar
preocupado com a felicidade do cidadão, que tornam Aristóteles o primeiro humanista da história das ideias políticas, a verdade é que na sua obra
não se põe em causa a escravatura, sobre a qual a cidade da grécia antiga se constrói.
A descoberta da dignidade da pessoa humana, estruturante da ideia da igualdade, só será dado com a mensagem de Cristo de que todos somos
filhos de Deus com esta mensagem começa a desenhar-se o fim do mundo antigo.

5. Em jeito de conclusão
A Grécia Antiga deixou uma inestimável herança à civilização ocidental: a «invenção» da política.
Esta «invenção» da política foi encarada em quatro perspectivas possíveis:
na perspectiva do estadista (político) que vive a política na cidade e exerce o poder político, compreendendo-o profundamente
na perspectiva do pensador que procura reflectir sobre a melhor forma de exercer o poder político,
na perspectiva do filósofo, que idealiza a cidade onde o político vive e exerce o poder político da melhor forma
na perspectiva do cientista, que estuda a realidade que é a política, em especial, a cidade e o poder político que nela se exerce e
classifica, com objectividade, os fenómenos que nela evoluem.
Com a Grécia Antiga, o poder político distingue-se dos outros poderes sociais e é objecto de análise autónoma.

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III - Homem, sociedade e direito
6. A descoberta do direito pelos romanos
6.1. «Ubi societas ibi ius»
A Roma Antiga descobriu o direito e associou-o ao poder político sociedade política.
Antes de descobrir o Direito, a lei baseava-se na biblia origem religiosa
Os romanos descobriram que a existência mesma de uma sociedade política implica a existência do direito («ubi societas ibi ius»).
Os romanos distinguiram o direito de outras regras que também podem existir na sociedade analisaram-no individualmente
A Roma Antiga não se limitou a descobriu a realidade do direito na sociedade Construiu a ideia de Império e consolidou-o através do Direito

6.2. O império romano e o direito


Através das normas emanadas do poder – o poder de Roma e dos seus órgãos institucionalizados – foi construída uma unidade de obediência
A obediência ao mesmo conjunto de normas juntou povos muito diversos e permitiu consolidar a ideia de Império.
O direito, enquanto realidade cultural, ao exigir o seu cumprimento uniforme criou a coesão entre povos com culturas distintas

6.3. A transformação do poder em autoridade através do direito.


A autoridade acresce ao poder e, como a palavra expressa, o «aumenta» (aumentar vem do latim augere)
A autoridade que aumenta o poder pode derivar do direito os destinatários aceitam e obedecem aos comandos emanados do poder porque
esses comandos estão legitimados no direito, o que significa que se pode aferir a validade desses comandos através do direito.
Se aos gregos se deve a ligação necessária entre o homem, a sociedade e o poder que se exerce na sociedade, inventando a política e
estudando o poder político, aos romanos se deve a necessária ligação entre o homem, a sociedade, o poder que nela se exerce e o direito.
Convicção generalizada de que as normas devem ser cumpridas conduz ao uso da coerção o meio de obter a obediência à lei
Os romanos compreenderam que, para garantir a disciplina na sociedade, é, por vezes, necessário usar meios físicos de coacção.
Os romanos compreenderam que a organização jurídica de uma sociedade (ligação na sociedade entre poder e direito) se deve fazer por:
um elemento material: coincidente com os fins a atingir em sociedade (justiça, felicidade) elemento grego (elemento político)
um elemento formal: traduzido no conjunto de normas de todos conhecidas, que indicam, em cada momento, as condutas a tomar
para atingir os fins. Estas, se não forem tomadas voluntariamente pelos seus destinatários, podem dar origem ao uso da coacção
(«ultima ratio») ou constrangimento físico por parte do poder institucionalizado. Este elemento abrange não só as normas que definem
condutas como as que criam o sistema de órgãos de poder que as elabora, bem como o sistema de órgãos que as tutela elemento
romano

6.4. De Roma ao Império Romano. O direito romano.


Segundo a lenda, a cidade de Roma foi fundada em 753 a.C.
Dez séculos mais tarde, nos séculos II e III da era de Cristo, Roma cobria um vasto Império, da Inglaterra à Gália, da Ibéria a África.
No Ocidente, o Império romano desmorona-se no séc. V e a sua queda dá-se no séc. VI (morte do imperador Justiniano)
No Oriente (Império bizantino), vai até ao século XV.
Nos três períodos que caracterizam a história de Roma ligada ao Ocidente (realeza, república e império) interessa a divisão que começa a ser
central na república entre o «ius civile» (direito dos cidadãos romanos) e o «ius gentium» (o direito comum aos estrangeiros)
Prevalecia a ideia, divulgada no império, de que o imperador não está vinculado pela lei, porque está «a legibus solutus» (desligado da lei)

6.5. Cícero e a defesa do direito natural


Sec. II a. C (106-43 a.C.); Foi um jurista (advogado), um político (chegou a ser cônsul), um filósofo.
Desonestidade está na política crise política marcada pela corrupão e interesses pessoas morreu assassinado por defender os seus ideais
Segundo Cícero, o magistrado é a lei que fala e a lei é o magistrado mudo
Numa outra perspectiva, o magistrado deve obediência à lei mas os governados devem-lhe obediência, porque é o magistrado quem os governa.
Defende a existência do direito natural há uma lei natural, eterna e imutável.
Todos os povos em todos os tempos lhe devem obediência
Corresponde a uma ordem superior que rege todos os homens e que é descoberta pela razão.
Os magistrados devem-lhe obediência quando elaboram a lei positiva
A defesa da lei natural implica a defesa de meios de luta contra a tirania. Luta-se contra o tirano por apelo à lei natural.
Actuar de acordo com as leis é viver livre. A inexistência de leis leva-nos ao arbítrio. É só com as leis que se vivem livre.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 10


6.6. As grandes compilações de leis. A autonomização no direito de duas áreas fundamentais: o direito público e o direito privado.
Critérios de distinção.
A dispersão das normas e a dificuldade de conhecer o seu conteúdo leva à organização de grandes compilações de leis.
A primeira, compilada a pedido dos plebeus, deu origem ao Código das XII Tábuas (aprox. 450 a. C.).
Mais tarde, da iniciativa do poder, surge o Código de Teodósio (publicado em 438 d. C)
Objectivo era ambicioso: coligir todo o direito mas ficou-se pela compilação das constituições
A compilação mais importante é, porém, o Código do Imperador Justiniano, conhecido mais tarde como «Corpus Iuris Civiles» (publicado em 534)
A compilação foi elaborada por razões políticas: permitir que todos conheçam as normas e lhes possam, por isso, obedecer
Distinção de 2 grandes áreas de direito distintas pelos romanos: Direito Público e Direito Privado. Estes são os critérios de distinção:
Critério das fontes o direito público é o direito emanado do Estado, porque afecta a «coisa pública» (res publica), o povo como um
todo (ius publicum, populi), enquanto que o direito privado tem a sua fonte na acção dos particulares (contratos, testamentos)
Critério dos interesses quando o interesse é colectivo, público então estamos perante o direito público. Porém se o direito remete
para o interesse do particular, de cada um, então estamos perante o direito privado.
Critério da derrogação direito público só pode ser pode ser derrogado pelo próprio estado, enquanto o direito privado pode ser
derrogado pelos particulares. É imperativo, inderrogável o direito público que não pode ser alterado por pactos entre os particulares.
Interessante verificar que a dualidade público/privado tem um sentido preciso: distingue o que pertence à «coisa pública» (res publica), isto é, ao
Estado, implicando uma intervenção do seu poder e, logo, uma limitação à liberdade das pessoas, e o que pertence à esfera dos particulares, isto é,
a áreas onde cada um pode agir livremente, sem intervenção do poder do Estado.
«Ius» provém de «iustitia» O direito é o bom e equitativo para a sociedade
«iurisprudentia» é a ciência do justo e do injusto.
Ulpianus: «Iustitia est constans et perpetua voluntas ius suum cuique tribuere»
Preceitos do Direito, segundo Ulpianus: «Iuris precepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere».
«Não há crime sem lei» as leis regulam a vida em sociedade
Propagação do cristianismo nascimento de Cristo provoca mudanças políticas e sociais novo conceito de humanidade:
Não há desigualdade («somos todos filhos de Deus, todos irmãos»)
Princípio da Dignidade do Homem (contesta escravatura e desigualdade entre homens e mulheres)
Conceito de caridade, solidariedade e entre-ajuda
Receio dos chefes políticos por estes novos ideais
Perseguições políticas e religiosas
Estas Revoluções políticas e sociais provocaram a Queda do Império Romano

7. Em jeito de conclusão
O percurso que fizemos pela história de Roma até à queda do império permite-nos concluir, num primeiro momento, pela necessidade do direito
na sociedade (onde há sociedade há direito) e, num segundo momento, pela importância do direito na sociedade (o direito consolida o império).
O referido percurso abre caminho à reflexão sobre a fundamental diferença entre direito natural e direito positivo
Permito-nos igualmente a distinção importante entre direito público e direito privado
Mas os romanos não se limitaram a descobrir o direito e a evidenciar a sua importância na sociedade. Tornaram-no objecto de uma ciência
(ciência jurídica), criaram uma técnica específica para o interpretar (técnica jurídica) e alguém com a tarefa de o interpretar e aplicar (pretor, juiz).

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 11


IV - Sociedade, poder e justiça
8. A sociedade de poder disperso. A estratificação da sociedade.
No século V, os povos do Norte da Europa – vândalos, suevos, visigodos...– invadem o Império Romano do Ocidente. Roma cai em 410.
Com a queda de Roma, o poder político dispersa-se e a Europa, até aí unificada pelo império, dá origem a um vasto mosaico de poderes sociais
A vivência social passa a alicerçar-se em especiais relações de poder, globalmente designada relação feudal a sociedade está dividida em
grupos sociais bem determinados, isto é, está ordenada em classes (clero, nobreza e povo) Estado Estamental
A sociedade está fundada numa ideia de conservação e não de mudança. Cada membro da sociedade recebe dos antepassados uma vivência
social que transmite aos vindouros nos seus exactos termos, isto é, sem os alterar.
O poder é compreendido como uma «coisa» ou um bem que pertence a quem o detém e que pode ser doado ou dividido (herança)
É um dado de facto que se recebe e transmite aliado a um património Estado patrimonial O nascimento de Portugal (séc. XII) é disso
prova.

9. A sociedade política medieval.


9.1. A ambivalência régia.
A vivência jurídico-política do período medieval analisa-se a partir de duas linhas de força: raiz germânica; raiz cristã e, mais tarde, a raiz romana
A linha de força romana:
coincidente com a difusão do direito romano nas universidades, que entretanto nascem na Europa
A linha de força germânica:
Correspondente à cultura dos invasores, do Norte da Europa, tem no costume a fonte de revelação por excelência do direito
As normas que disciplinam a sociedade resultam de comportamentos assumidos como coactivos ao longo dos tempos costume
Deste facto resultam:
A proliferação de direitos de âmbito local
Uma grande dificuldade de formação de um direito geral uniforme
A manutenção intacta, no corpo social, do poder de autodeterminação política da sociedade (não há delegação de poderes)
Neste contexto, compreende-se que não haja necessidade de juristas, técnicos do direito, seja para elaborar normas
escritas seja para as interpretar e aplicar aos casos concretos.
O monarca tem de manter o direito e conservá-lo intacto para as gerações seguintes. Não tem o poder de autonomamente o alterar.
A linha de força cristã:
Correspondente à cultura disseminada nos povos conquistados, de origem romana
Parte da ideia da existência de um direito natural de origem divina, assim como o poder tem também origem divina
Deus criou o poder como necessidade social, tendo por fim a pacificação, a ordenação e a conservação da sociedade.
Esta ideia está bem patente no pensamento de S. Tomás de Aquino (1225-1274)
Entende-se que o poder político deve ser exercido para o bem comum. E, ao ser exercido, a acção régia tem de coincidir com o direito.
A coincidência do poder com o direito, traço essencial quer da linha de força germânica quer da linha de força cristã, obtém tradução
no juramento de fidelidade (raiz germânica) e na consagração régia (cerimonial eclesiástico da coroação).
Do juramento de fidelidade resulta um poder limitado, em razão da sua natureza pactuada.
Por isso se entende que, se o rei não cumprir o juramento, há uma quebra da paz e, logo, a obediência do povo ao rei rompe-se.
Da consagração régia, resultante do cerimonial eclesiástico da coroação, decorre também um poder limitado.
O monarca recebe o poder de Deus por mediação papal o seu exercício deve obedecer ao direito natural.
Contudo, o monarca vive e actua sob uma grande indeterminação jurídica e de acordo com uma grande liberdade na prática.
O monarca governa pela graça de Deus com o consenso da comunidade.
A ambivalência do poder régio: limitado pelo direito (vinculação estrita) e independente no exercício do poder de promover o bem comum

9.2. Rex a recte judicando. A importância da função de juiz no exercício do poder. O Estado de Justiça.
O monarca medieval é o terceiro imparcial, o árbitro que traz a paz ao litígio que emerge da sociedade.
É o instrumento de concórdia e paz na sociedade. É sua função dizer o direito e cumpri-lo (não ficando fora dele), sob pena de perder a razão de
reinar (se não cumpre a lei, se não julga bem, deixa de ter o fundamento para continuar a ser rei).
É rei o que julga rectamente (rex a recte judicando). O poder está, por isso, estritamente ligado ao direito e à função de julgar. «Fazer justiça» é a
missão por excelência do monarca (traduz a recusa da vindicta privata). O Estado medieval é, neste quadro, entendido como um Estado de Justiça

9.3. A unidade do direito do direito medieval.


A ordem jurídica medieval está construída sobre as posições jurídicas individuais dos membros da comunidade, sobre os direitos e deveres dos
membros da comunidade. A violação da ordem jurídica corresponde à lesão desses direitos e corresponde a um acto de força, um acto arbitrário.
O monarca não pode unilateralmente (arbitrariamente) afectar direitos adquiridos dos membros da comunidade (direitos do reino), porque, no
juramento de fidelidade, se obrigou a cumpri-los (tradição germânica) e porque, além disso, é contra o direito natural (tradição cristã).
A unidade do direito ausência de distinção entre direito público e privado é consequência da fonte por excelência do direito ser o costume.
Sendo o costume fonte de direito emanando o direito da acção da comunidade como um todo com o sentido de convencimento de que, em
cada situação, há uma específica actuação que deve ser tomada, compreende-se não haja diferenças materiais no âmbito do direito.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 12


10. Em jeito de conclusão
A vivência jurídico-política medieval é extraordinariamente rica e diversificada.
Mostra como se pode agir sob uma permanente ideia de limitação do agir pelo direito (seja o direito natural seja o direito que emana do costume)
sem que se possa elencar, de modo expresso, os concretos limites de cada acção torna um desafio o cumprimento do Direito e responsabiliza
de modo particular cada pessoa pela sua acção, seja o monarca, seja um membro do clero, seja um membro da nobreza, seja um membro do povo.
A ideia de partilha do poder entre o rei e o reino e a contribuição dada por todos para a construção do direito através do costume permite
construir uma ideia de poder e de direito a partir da pessoa humana e da inclusão de todos na comunidade.

V - Sociedade, poder e soberania


11. Do poder disperso ao poder unificado e centralizado.
A partir do século XII o pensamento jurídico-político segue o conhecimento do direito romano, difundido a partir das universidades
Os juristas passam a aconselhar o rei a modificar os «maus costumes» dar mais segurança a uma sociedade dela carente
Tudo através da lei formal, resultante da vontade do monarca (emana dele próprio) e não de uma fonte que lhe é alheia (costume)
Formados em Bolonha, Paris, Heidelberg, Coimbra, os juristas começam a proliferar nas cortes, auxiliando o monarca a elaborar a lei e, depois, a
interpretá-la, aplicando-a aos casos concretos, impondo sanções a quem as incumpre.
A lei, fonte do direito, contribui para a centralização e o fortalecimento do poder.
Por intermédio da lei, o monarca deixa de ser um «primus inter pares» e passa a ser um «imperador do seu reino».
A máxima romana «princeps a legibus solutus» não confere ao monarca um poder pleno («plenitudo potestatis»). É antes um princípio de acção
régia ligado ao direito. Na prática, porém, contribuiu para o fortalecimento do poder régio, a unificação dos poderes dispersos na comunidade.
A partir do século XV, a história da Europa entre numa nova fase Renascimento inicia período da Idade Moderna.
Renascimento símbolo de uma nova mentalidade:
o retorno aos clássicos
a institucionalização do poder político
a atenuação do espírito religioso (fim do vínculo com a Igreja) e a acentuação do profano
a teorização do Estado e da soberania contra o poder disperso
Nascem as grandes monarquias em Inglaterra, em Espanha, em França
As ciências têm um grande incremento, em especial na sequência dos descobrimentos (cartografia, astronomia, ciências naturais...).
Os descobrimentos trazem consigo uma marca de abertura cultural, de confiança no homem, de universalidade primeira ideia de globalização

O conceito de soberania em JEAN BODIN.


Autor francês do séc. XVI (1530-1596) vive numa França dividida por conflitos e guerras
Escreve obras, sendo a sua obra principal «Os seis livros da República»
Desenvolve uma tese permite pôr termo aos conflitos através da concentração do poder no monarca absolutismo régio
A ideia em que se funda é esta todo o poder pertence ao rei e este não o pode partilhar nem com o clero nem nobreza nem povo.
O monarca não está, por isso, sujeito a condições impostas por quem quer que seja.
A ideia força da obra soberania da conceito que teoriza a partir do poder República (actualmente Estado) Nasce Estado soberano
Define República ―o governo recto de diferentes famílias e do que lhes é comum com poder soberano‖ Estado moderno (soberano)
Soberania «é o poder absoluto e perpétua de uma república». O conceito de soberania tem três elementos:
Poder faculdade de se impor aos outros; é um comando que se deve obediência
Poder perpétuo não é limitado no tempo; o poder do Estado tem continuidade, independentemente das mudanças dos governantes
Poder absoluto não recebe ordens nem instruções de ninguém; não é responsável perante o outro
Poder irrevogável traduz uma ideia de estabilidade política; o poder não pode ser retirado pelo povo ao rei
Atributos da soberania:
é una e indivisível não pode ser dividida por dois ou mais órgãos
é própria e não delegada pertence por direito próprio ao rei porque não provém de eleição pelo povo ou por nomeação pelo papa
é supremo na ordem interna, i.e., não admite outro poder com quem tenha de partilhar
é independente na ordem internacional, não depende de poder supranacional
é perpétuo, absoluto e irrevogável
caracteriza-se pelo poder originário
A «soberania é um bloco de mármore que não pode ser fragmentado».
A soberania tinha limites propriedade privada e familia
Que faculdades do poder:
Fazer leis e as revogar
Declarar guerra e fazer a paz
Instituir cargos públicos e provê-los
Julgar em última instância o poder dos juízes é atribuído ao Monarca
Agraciar os condenados
Cunhar moedas e emitir moeda
Criar impostos e taxas.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 13


12. A concentração de poderes no monarca. O Estado e a personificação jurídica do Estado.
Nicolau Maquiavel Séc. XV (1469-1527) 2º cientista da política da História (Aristóteles foi o primeiro)
Maquiavel introduz na terminologia política Estado (stato) comunidade política soberana na ordem interna e na ordem internacional
Aparece quando se começam a formar-se os estados nacionais e o poder régio monopoliza o emprego da força pública e coloca esse poder ao
serviço do bem comum a «razão de estado» ou «salus publica» como justificação para o agir do monarca
O estado começa a personificar o poder político unificado e este é personificado no rei
Thomas Hobbes Séc. XVII (1588-1679)
Para a personificação jurídica do estado contribuiu Hobbes fundando o poder do estado na vontade dos homens e não na vontade divina
É o primeiro autor da idade moderna
Embora seja um contratualista defende que a comunidade não pode reaver o poder abre caminho para o absolutismo do poder
«Não há na terra poder que se compare ao poder político». Caracteriza o poder político (monopólio no monarca) a faculdade de:
Fazer leis
Fazer justiça através dos tribunais
Fazer a guerra e a paz
Atribuir honrarias, escolher conselheiros, etc.
Segundo Hobbes «quando o rei fala, os súbditos obedecem, quando o rei cala, os homens são livres»
O que interessava era a eficácia do príncipe atingir a ordem interna e a segurança não interessa os meios mas sim os fins
Distinção entre:
esfera pública de acção fazer a guerra e garantir a paz
esfera privada ou das liberdades privadas os homens são livres de cultivar ou não cultivar as suas terras, educar os seus filhos
Lutero Séc. XV (1483-1546) culto, intelectual Exclui vínculo entre papa e monarca

12.1. A lei como emanação da vontade régia e os tribunais régios.


A acção régia primária identifica-se com a lei coincide com a vontade do rei sentido principal da acção pública.
Mas a última palavra sobre o sentido da lei, na sua ligação ao caso concreto, fica a cargo dos tribunais, os tribunais régios

12.2. A acção política e administrativa do monarca. O Estado de Polícia.


Os conselheiros políticos do monarca incentivam-no a desenvolver grandes projectos políticos e a concretizá-los através de uma máquina
organizatória hierarquizada, racionalizando esforços, disciplinando tarefas. Os grandes empreendimentos políticos para engrandecimento do Estado
(personificado no monarca) nascem, ligados à «salus publica».
Nasce o Estado de Polícia separação clara entre o interesse público (Estado) e o interesse privado (sociedade)

13. Em jeito de conclusão


Período da Idade Moderna ideias básicas relativas à sociedade política Estado, tal como hoje a conhecemos, se configura e ganha força
Não a polis, não o império, não a sociedade política fragmentada, mas o Estado
São Tomás de Aquino e Santo Agostinho foram os principais filósofos da época
Poder político adquire soberania distingue-se dos demais poderes sociais nenhum outro poder dentro da sociedade política o poderá fazer
Atributos da soberania no plano interno (poder supremo) e no plano internacional (poder independente)
A formação das nacionalidades, ligadas ao poder soberano, dá-se neste período.
Neste período por força do pensamento de Thomas Hobbes a personalidade jurídica do Estado ganha sentido.
A centralização e a concentração do poder régio e consequente eliminação de poderes concorrentes, a utilização da intencionalidade do agir
(salus publica) ao serviço de grandes projectos para os quais a comunidade não era ouvida, a criação de uma máquina administrativa
hierarquizada, que replicava a estrutura de comando militar, tudo contribuiu para a formação de poderes políticos abusivos e arbitrários
absolutismo régio

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 14


VI - Liberdade, igualdade e poder político
14. A conquista política da liberdade e da igualdade. A democracia e o direito.
O absolutismo régio conduziu a sociedade a extremos:
patente no uso arbitrário do poder monarca atribui isenções e privilégios, retira direitos e impõe a sua vontade independente
Ambiente cultural propício à difusão de novas formas de conceber o poder político textos de contratualistas (Locke e Rousseau)
Perante esta situação, foi inevitável o aparecimento das revoluções liberais:
A Glorious Revolution (1688)
A Constituição inglesa é o resultado de documentos políticos decisivos resultantes da evolução histórica inglesa:
Magna Carta (1215)
Petition of Rights (1628)
Habeas Corpus (1679)
Bill of Rights (1689).
Revolução Americana (1776)
aliança entre os 13 Estados independentes e soberanos para fazer face às lutas com Londres
A reunião de Filadélfia e a aprovação da Constituição dos Estados Unidos da América em 1787
A Constituição dos Estados Unidos da América é:
A primeira Constituição republicana
A primeira Constituição escrita
A primeira que institui um Estado Federal
A primeira que institui um sistema de governo presidencialista, fundado na separação de poderes
Revolução Francesa (1789)
A Revolução Francesa foi influenciada pela independência dos Estados Unidos da América, com duas correntes
Liberal defensora da liberdade e aceitando a monarquia (influência de Locke e Montesquieu)
Jacobina privilegiando a igualdade e defendendo a república (influência de Rosseau)
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) grande importância cultural, política e jurídica
A Revolução Liberal em Portugal (1820) Constituição de 1822.
Grito do Ipiranga no Brasil (1822) Constituição Brasileira de 1824 irá influenciar a Carta Constitucional Portuguesa de 1826
Com as revoluções liberais os povos põem fim ao poder absoluto dos monarcas fim de um governo do homens mas um governo de leis
Conquistam a liberdade ex: a liberdade de participar na elaboração e aprovação das leis
Conquistam a igualdade fim aos privilégios e sanções arbitrárias
O Estado Liberal de Direito construído em reacção ao Estado de Polícia, funda-se em três pilares:
reacção em nome da liberdade individual contra o arbítrio, a opressão, o governo do homem sobre o homem
reacção em nome da liberdade social contra o excesso de intervencionismo do monarca absoluto
reacção em nome da democracia contra o poder de um só, o monarca, nasce o poder do povo, da comunidade em geral
Como garantia de que a conquista da liberdade e da igualdade será duradoura povos exigem compromissos escritos Constituição
A Constituição chave da nova vivência jurídico-política
Traduz a instituição do Estado por vontade livre e igual da comunidade democracia
Assume-se como garantia contra abusos do poder direito
O direito deixa de ser compreendido como a expressão da vontade do monarca e meio de engrandecimento do poder deste, como no Estado de
Polícia para ser expressão da vontade da comunidade, uma garantia de liberdade e de igualdade
Os súbditos passam a cidadãos, a sujeitos de direitos, que se podem voltar contra o Estado quando este os lesa.
O direito defende e garante os direitos dos cidadãos a democracia representativa e o direito.
O Estado Liberal de Direito Estado que garante a segurança e a liberdade e a propriedade.

15. O reconhecimento constitucional dos direitos fundamentais. Os direitos pessoais e os direitos políticos.
A Constituição não se limita a ser o documento que funda o Estado, aquele que o institui, fruto da vontade dos cidadãos. A Constituição:
a defesa por excelência dos direitos que esta consagra
protege os cidadãos face ao poder, já que os direitos reconhecidos na Constituição, os direitos fundamentais, são compreendidos
como limites às intervenções do poder, são direitos contra o poder do Estado.
os direitos fundamentais da 1ª geração os direitos pessoais A liberdade e a propriedade
Linha humanista dos direitos humanos com raízes na Antiguidade Clássica e densificada com o Cristianismo os homens estavam sujeitos a
uma ordem natural que impõe deveres aos titulares do poder político e lhes reconhece o direito de resistência aos abusos do poder
Linha constitucionalista dos direitos humanos torna os homens verdadeiros «sujeitos» de direitos o indivíduo passa a ser compreendido
como «o ponto de partida ―autónomo‖ da ordem social e política»
Todos os homens «nascem e permanecem livres e iguais» artigo 1º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789)
A limitação do poder político através dos direitos fundamentais (direitos pessoais) e a consciência de que «o esquecimento ou o desprezo dos
direitos do homem são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção dos governos» (Declaração Universal dos Direitos do Homem)

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 15


16. A separação de poderes e o direito. A garantia da Constituição.
A Constituição consagra o «estatuto jurídico do político» contém um compromisso jurídico de vida em comunidade com poder limitado
assenta sobre o princípio da separação de poderes, baseado no pensamento de Locke e Montesquieu.
A separação de poderes em John Locke (1632-1704):
poder legislativo (Parlamento); poder executivo (monarca e seu governo); poder federativo (monarca e seu governo)
A separação de poderes em Charles de Montesquieu (1689-1755):
poder legislativo (Parlamento); poder executivo (monarca e seu governo); poder judicial (tribunais)
Defende que países mais frios são mais produtivos que os países quentes depende da fibra muscular
Cada poder tem ainda duas faculdades:
faculdade de estatuir (agir desenvolvendo a sua tarefa); faculdade de impedir (travar exercício do poder por parte dos demais poderes)
O poder moderador de Benjamin Constant (1767-1830)
Abade Sièyes (1748-1836):
A distinção entre poder constituinte e poderes constituídos e a distinção entre o poder legislativo e o poder governamental
Poder Constituinte de onde provém a Constituição
Poder Constituido poder que provém desta Constituição
O Estado Liberal de Direito constrói-se a partir da Constituição Estado Constitucional e sobre o princípio da separação de poderes:
Ideia política dividir para enfraquecer
Ideia organizatória aos três poderes correspondem três conjuntos de órgãos distintos
Ideia funcional aos três poderes correspondem três modalidades distintas de funções
A evolução irá conduzir à predominância do poder legislativo por sobre os demais poderes

16.1. A lei como expressão da racionalidade jurídica, como manifestação do poder do povo, representado no Parlamento, e como imagem
da justiça. A importância da função legislativa. O Estado-Legislação. Os direitos políticos.
A sociedade política é organizada de acordo com a Razão une todos os homens e institucionaliza-se na norma legal, geral e abstracta:
factor de racionalização da sociedade norma organiza a sociedade
factor de estabilização da sociedade a norma geral e abstracta não pode ser facilmente alterada, só de acordo com um
procedimento próprio e segundo condições pré-fixadas e, ao repetir-se na execução, mantém comportamentos para o futuro
A norma legal, geral e abstracta:
é a expressão da racionalidade
é a imagem da justiça exprime a ultrapassagem de um governo de homens por um governo de leis
traduz uma auto-definição de interesses é o resultado da vontade do povo representado no Parlamento
Através da lei está afirmada a primazia do homem em relação ao Estado ideia de a lei é a mais importante expressão do poder político
porque:
materialmente se confunde com a justiça
é a expressão mesma da Razão que une todos os homens
é emanada dos representantes do povo
Daí que o poder legislativo passe a adquirir supremacia sobre os demais e se possibilite o «endeusamento» da lei no Estado Liberal de Direito
Estado Liberal, pós-revolucionário Estado Legislação O Estado Liberal nasce como Estado Legislação
Estado Liberal estado que, acreditando embora na igualdade e na liberdade, tinha destes valores uma ideia incipiente pois:
não era reconhecido a todos o direito de votar
nem todos podiam participar politicamente
o voto em eleições era atribuído a quem sabia ler e escrever voto capacitário
ou a quem pagava o censo voto censitário
o voto não era reconhecido às mulheres nem aos que, por exemplo, pertenciam à raça negra
Ao longo do século XIX processo de democratização direitos políticos ou de participação política direitos da 2ª geração
alarga-se o direito de sufrágio, a liberdade de expressão e a liberdade de manifestação são amplamente reconhecidas
Nascem os partidos políticos associações de pessoas que têm por fim elaborar um programa de acção política

16.2. A função administrativa ou de mera execução da lei. O princípio da legalidade.


O poder executivo não pode agir sem ser na base de uma lei votada no Parlamento única forma de legitimar a sua acção conduziu à
criação de um conjunto de normas especiais o princípio da legalidade da Administração ou princípio da subordinação da Administração à lei
Este principio regula a acção do Estado no seu relacionamento com os particulares, na base de um princípio geral de direito
Direito Administrativo origem no Conseil d’État, órgão criado por Napoleão, em França, em 1799
Expansão do Direito Administrativo para os ordenamentos jurídicos que receberam a influência da filosofia da revolução francesa
Os princípios da prossecução do interesse público e da legalidade da Administração os cidadãos sentem-se protegidos contra as autoridades
administrativas só o interesse público e não um qualquer interesse privado faz mover a Administração Pública e só age se uma lei a autorizar
Os particulares confiam em que qualquer agressão aos seus direitos ou interesses legítimos tem de ter por base uma lei votada no Parlamento,
uma lei votada pelos seus representantes eleitos a lei é, para a Administração, o critério, o fundamento e o limite da sua acção.
Estado Mínimo (Estado Guarda-Nocturno ou Estado de Segurança) a lógica do Estado Liberal é a de não intervir ou intervir o mínimo possível
na sociedade uma intervenção circunscrita à administração militar, à administração da polícia de segurança, à administração dos tribunais, à
administração fiscal e à administração dos negócios estrangeiros
As tarefas do Estado Liberal são limitadas pela lei, são materialmente circunscritas e têm por fim garantir a segurança na sociedade

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 16


16.3. A função judicial. Os juízes como «bocas que dizem a lei».
Sendo a lei a expressão da racionalidade da vida social e a imagem mesma da justiça, votada pelos representantes do povo no Parlamento
os juízes, quando chamados a pôr termo aos litígios jurídicos através da aplicação da lei, geral e abstracta, se deviam limitar a ser «as bocas que
dizem as palavras da lei» sem lhes acrescentar o que quer que seja
Tradição francesa: por razões históricas que se prendem com o papel dos antigos tribunais do período do Estado de Polícia que nunca se
colocaram ao lado dos direitos da comunidade contra o monarca tem impedido que os tribunais tenham o prestígio que têm noutros Estados
Nos Estados Unidos da América a partir do caso Marbury versus Madison (1801) o Supreme Court norte-americano, depois de interpretar
a norma que lhe atribui os poderes para julgar, concluiu que podia (devia) também fiscalizar a constitucionalidade das leis.
Supreme Court tornou-se o guardião da Constituição a lei fundamental do Estado, «travando» abusos do poder legislativo
Em Portugal, a Constituição Republicana de 1911 primeira Constituição europeia a prever fiscalização da constitucionalidade das leis (art. 63º)

17. Do Estado Liberal ao Estado Social de Direito.


Revoluções liberais entrada no período contemporâneo introduzem uma linguagem jurídica e política nova Constituição, Estado
Constitucional, poder constituinte, Direito Constitucional, liberdade, igualdade, direitos fundamentais, sujeitos de direitos em face do Estado,
separação de poderes, lei como emanação dos representantes da comunidade, lei geral e abstracta, princípio da legalidade da Administração,
Direito Administrativo, Estado de Direito dão origem e permitem o desenvolvimento do direito público moderno
Estado Constitucional caracteriza-se por ter uma Constituição e um Direito Constitucional
Estado Legislação caracteriza-se por dar origem a um Executivo com uma Administração que tem na lei o fundamento, o critério e a finalidade da
acção Direito Administrativo
Industrialização e explosão demográfica nasce ideias socialistas e democracia cristã agravamento das tensões sociais (1º G.M. 1914-18)
Papel do Estado e do Direito na teoria de Marx e Engels reforço do papel do Estado para a construção do comunismo (Lenine)
Hitler torna-se chanceler em 1933 e Mussolini toma o poder em 1922
O movimento nazi e o movimento fascista nascem em oposição quer ao liberalismo quer ao socialismo e estão na origem da 2ª G.M. (1939-45)
Destruídas social e economicamente sociedades políticas europeias voltam-se para o Estado exige-se a sua intervenção na sociedade:
Auxilia na reconstrução das cidades destruídas, ajuda na doença, promove o ensino, incentiva a iniciativa privada, cria infra-estruturas
Depois dos direitos fundamentais de cariz liberal (direitos pessoais) e de cariz político (direitos políticos), aparecem os de cariz social,
os direitos sociais, económicos e culturais direitos da 3ª geração direitos a prestações, acções positivas do Estado
direito à educação, direito à saúde, direito à segurança social, direito à habitação
Do Estado Liberal de Direito evolui-se para o Estado Social de Direito corresponder às exigências sociais e interesses públicos
Depois da 2ª G.M novas Constituições acentuam a natureza «intocável» da dignidade da pessoa humana (artigo 1º da Constituição Alemã).
CRP de 1976 reconhece, no artigo 1º, ser Portugal: «uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana
Estado desmultiplica-se em tarefas Estado Providência o Estado deixa de estar à margem da sociedade
cria escolas, hospitais, auto-estradas, pontes ampla actividade em obras públicas
organiza a distribuição da água, a distribuição do gás, da electricidade, os correios
O Estado-Legislação passa a Estado-Administração Estado em que o Governo e a sua Administração tem grande dimensão dentro do Estado
Multiplicação de tarefas administrativas Governo passa a legislar
Novas especializações do Direito Administrativo Direito da Segurança Social, Direito da Saúde, Direito da Educação, Direito do Urbanismo.
Direito do Trabalho ramo de direito novo que disciplina as relações entre privados, em defesa dos direitos dos trabalhadores

18. A dimensão internacionalista dos direitos fundamentais.


Depois da 1º G.M. criada a Sociedade das Nações (SDN), em 1919 com o Tratado de Versalhes
SDN É uma Organização Internacional com finalidades políticas gerais cooperação entre Estados; segurança colectiva; defesa do direito
Primeira forma de direito internacional público e o direito das organizações internacionais
Nasce a Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945 papel da ONU na consagração dos direitos fundamentais e cooperação
elaboração da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948)
Pacto Internacional dos Direitos Cívicos e Políticos (1966)
Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966)
muitas outras convenções discriminação racial; protecção das crianças; igualdade das mulheres
Direitos fundamentais deixam de ser só matéria dos Estados tornam-se matéria internacional
CRP de 1976, nº 2 do artigo 16º consagra os direitos fundamentais em harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem
Colocam-se questões: Existe responsabilidade internacional dos Estados? Até que ponto os individuos têm protecção jurídica internacional?

18.1. Em especial, a dimensão europeia dos direitos fundamentais.


Plano europeu Winston Churchill defende a necessidade de criar, na Europa, uma estrutura idêntica à ONU
Assinatura do Estatuto do Conselho da Europa projecto torna-se realidade
Por impulso do Conselho da Europa aprovada a Convenção Europeia de Salvaguarda dos Direitos do Homem e das Liberdades
Fundamentais
garante os direitos civis e políticos com um mecanismo inovador no plano internacional
Criação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem vigiar o respeito pelas partes contratantes dos direitos protegidos pela Convenção,
direitos dos cidadãos, sob pena de responsabilidade internacional pode fixar uma indemnização à vitima a pagar pelo Estado infractor
Convenção Europeia foi completada com a Carta Social Europeia (1961) assegurados os direitos económicos e sociais
Foi, mais tarde, substituída pela Carta Revista de 1996

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18.2. O desenvolvimento do direito internacional.
Com a proliferação de convenções internacionais e para garantia dos direitos humanos:
Convenção Americana dos Direitos do Homem (1969),
Carta Africana dos Direitos dos Homens e dos Povos (1981)
Declaração Universal dos Direitos do Homem adquire valor de costume internacional as suas normas se impõem aos diferentes Estados
Continente asiático não se abre a este movimento de universalização dos direitos fundamentais, em razão das suas concepções próprias
Novas realidades: Princípio da responsabilidade internacional e Juridicidade do Direito Internacional

19. A construção da Europa, a formação do Direito Comunitário e o Direito da União Europeia.


O movimento económico e político europeu inicia-se no final da Segunda Grande Guerra
Parte do Plano Schumann (Robert Schumann, Ministro dos Negócios Estrangeiros francês) em 1950 Carta fundadora da Europa Comunitária
O Plano visava «colocar o conjunto da produção franco-alemã do carvão e do aço sob uma Alta Autoridade comum, numa organização
aberta à participação dos outros Estados Europeus»
Em 1951 assinado o Tratado que instituiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e
Luxemburgo) O Reino Unido opõe-se porque não quer uma organização supra-nacional
Em 1957 assinado o Tratado de Roma, a Comunidade Económica da Energia Atómica e a Convenção relativa a certos órgãos comuns às
comunidades europeias (uma Assembleia, um Comité Económico e Social e um Tribunal).
Em 1973 o Reino Unido, a Dinamarca e a Irlanda aderem às três Comunidades.
Em 1981 a Grécia torna-se o 10º membro
Em 1985 Portugal e Espanha aderem também forma-se a Europa dos 12 com 320 milhões de cidadãos
Em 1985 aprovado o Acto Único Europeu extensão da comunidade às matérias ambientais e de qualidade de vida e um «espaço sem
fronteiras internas», «um Mercado Interno Comunitário», mas a grande revisão dos tratados comunitários vem só
Em 1992 Tratado da União Europeia (Maastricht) Os objectivos da União Europeia deixam de ser só económicos e passam a ser também
sociais e culturais Institui-se a política externa e de segurança comum (PESC)
Em 1995 a Áustria, a Finlândia e a Suécia aderem à União Europeia
Estados do Leste Europeu solicitam adesão à União Europeia com desmoronamento da União Soviética (1991),em processo de democratização
Em 1999 o Tratado de Amesterdão veio criar um «espaço de liberdade, segurança e justiça» e simplificou o modo de funcionamento da
UE
Em 1999 estabelecimento da moeda única (euro)
Em 2000 o Conselho da União Europeia e a Comissão Europeia aprovam a Carta dos Direitos Fundamentais
Em 2001 o Tratado de Nice nova revisão dos tratados comunitários
Em 2003 quinto alargamento e 10 novos Estados entram Europa dos 25
Em 2007 novos dois membros, a Bulgária e a Roménia Europa dos 27
Turquia, Croácia e Macedónia estão em processo de adesão
Em 2007 Tratado de Lisboa Tratado Reformador (não um tratado de natureza constitucional mas um tratado que reforma os já existentes),
definiu os principais órgãos da União Europeia como sendo o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu, o Conselho, a Comissão
Europeia, o Tribunal de Justiça da União Europeia, o Banco Central Europeu e o Tribunal de Contas
A cidadania da União Europeia e o artigo 17º do Tratado da União Europeia O direito de eleger e o direito a ser eleito
Primado do Direito da União sobre o Direito Estadual integra-se nos sistema jurídicos dos Estados membros, impondo-se aos seus tribunais

20. Em jeito de conclusão


A Constituição como lei fundamental do Estado tornou-se um dado adquirido da sociedade política
Com a Constituição, o Estado passa a ser um Estado de Direito um Estado que se pauta pelo Direito e legitima quotidianamente no Direito
Pode ser um Estado Mínimo (Estado Liberal) ou um Estado-Providência (Estado Social) mas em qualquer dos casos é um Estado de Direito
Os direitos fundamentais dignidade da pessoa humana reconhecidos nos textos constitucionais e em Declarações Internacionais
Estreitando dos povos e dos Estados património comum, apesar das diferenças culturais
Garantia de concretização dos direitos existência de um regime democrático maior justiça e bem-estar, solicitações
António Castanheira Neves o Estado Social é cada vez mais um «Estado de Justiça Total» satisfaz os interesses públicos
O Estado resolve os problemas económicos, sociais, de segurança criando uma máquina administrativa pesada e burocratizada
Estado de Direito «entidade sem rosto» que dá abrigo às famílias desalojadas por inundações, incêndios, desmoronamentos e outras
calamidades, apoia os agricultores, auxilia quem nasce com deficiências ou tem doenças incuráveis
A omnipresença do Estado e das suas prestações sociais retiram espaço à acção humana a sociedade torna-se menos solidária
Proliferação dos fenómenos de solipsismo e de exclusão social
Estado tem limites financeiros provém da multiplicarem-se em solicitações e da garantia dos direitos e prestações sociais do Estado
Tais direitos tornam-se «direitos sob reserva do possível» ou «fins políticos de realização gradual»
Estado começa a não ser capaz de dar resposta a todas as solicitações contidas nos direitos a prestações
Questão: Art 65º CRP o direito a «uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade
pessoal e a privacidade familiar» autoriza todos os portugueses a exigir do Estado uma habitação com estas características? Dependerá das
condições económicas e sociais cada vez mais escasos e da teia de prestações que o Estado tem de dar resposta
Dado adquirido: a escassez de meios financeiros e esgotamento de recursos naturais impedem respostas prontas às necessidades sociais,
criando frustrações na sociedade, que continua a confiar no Estado Social e a ter a expectativa de que este tem recursos e estruturas de poder para
resolver as injustiças sociais e dar satisfação às necessidades colectivas tornadas interesses públicos a prosseguir.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 18


VII - Segurança, poder e direito
21. Segurança e sociedade global. Em particular, o fenómeno do terrorismo e a «questão ambiental».
Politicamente, o século XX:
Duas Grandes Guerras Mundiais: com os regimes totalitários
Revolução russa
Guerra fria, termina com a queda do Muro de Berlim (1989) e o desmembramento da União Soviética (1991)
Politicamente, o século XXI:
ataque às Torres Gémeas em 11 de Setembro de 2001
ataques bombistas em Madrid e em Londres
Estes acontecimentos mostram a vulnerabilidade do poder estadual e respectivos sistemas policiais de defesa e segurança
O conceito clássico de guerra, desenvolvida Estado a Estado é abalado a ameaça deixa de ser estadual provém de grupos terroristas
A insegurança das sociedades é agora compreendida em termos globais insegurança global
Resposta dada pelos Estados Unidos doutrina «prevenção pelo ataque»
O terrorismo evidenciou a perda de poder dos Estados soberanos para fazer face aos problemas em que cada um se vê envolvido
Questão da segurança (ou ausência dela) das sociedades políticas pode resultar de outro fenómeno problemas ambientais globais
Chuvas ácidas
Derrames no mar provocados por petroleiros
Rebentamento nuclear em Chernobyl, na antiga União Soviética, em 1986
Estes acontecimentos mostraram, de um lado, a existência de uma «questão ambiental» e, de outro, a ausência de fronteiras do ambiente
«Sociedade de risco» tende a evoluir para uma «sociedade de incerteza» acresce responsabilidade pelo futuro
A protecção ambiental é tarefa de todos os Estados engloba todos os cidadão Conferências sobre problemas ecológicos:
Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, de Estocolmo (1972)
Conferência do Rio de Janeiro (1992) conhecida como a Cimeira da Terra
perda de biodiversidade
alterações climáticas
necessidade de conciliar o desenvolvimento económico com a sustentabilidade ambiental
Princípio do desenvolvimento sustentável Estados conferem dimensão jurídica.
Conferência de Joanesburgo (2002) conhecida como Cimeira Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável
escassez de água
A incerteza quanto ao futuro, agora pela via do ambiente, está na ordem do dia:
diminuição da biodiversidade
destruição de eco-sistemase
estreitamento da camada de ozono
aumento do nível das águas do mar
Estes problemas inquietam a sociedade pela imagem de catástrofe obrigam a alterar comportamentos atitude de precaução
Novo sujeito jurídico: o sujeito geração precaução a fim de proteger as gerações futuras princípio da solidariedade intergeracional
Novo ramo do Direito o Direito do Ambiente disciplina a acção de defesa do ambiente direito global, sem fronteiras
Com o Direito do Ambiente novos direitos fundamentais todos os cidadãos defenderem o ambiente dever fundamental ecológico
Direitos de solidariedade
Direito/dever de protecção ambiental
Direito/dever de protecção do património cultural
Direito/dever da protecção da saúde

22. A globalização económica, as inovações tecnológicas e a sociedade da informação e do conhecimento.


Contactos entre Estados estão completamente alterados as economias fechadas nas fronteiras dos Estados acabam
Os mercados financeiros, onde o dinheiro é virtual, respondem a estímulos e catástrofes em tempo real
Ex: Um discurso do Presidente dos Estados Unidos faz baixar ou subir o preço do petróleo, uma avioneta embate num edifício em Nova Iorque e
há uma reacção imediata no mercado de capitais, alterando a fisionomia económica dos Estados, nomeadamente o peso da sua dívida pública.
Deslocalização de empresas de um Estado para outro Estado cria desemprego no primeiro
Novas tecnologias nas empresas permitem às empresas actuar de forma policentrada, simultaneamente em vários Estados, em função de
mão-de-obra qualificada ou mais barata cria desemprego e introduz alterações no desenvolvimento económico dos Estados.
Movimentos migratórios a nível global originam desequilíbrios no mercado de trabalho em Estados economicamente estáveis e consistentes,
criam problemas de inserção cultural e levantam o problema dos deslocados e da protecção dos refugiados
Fundações milionárias substituem-se aos Estados nas tarefas culturais e sociais (Ex: Fundação Bill Gates)
Fenómenos de comunicação em rede têm mostrado as debilidades do poder estadual e a dificuldade que os Estados têm em lidar com eles
Ex: Consumer’s International (ONG) desenvolve papel a nível global na defesa dos direitos dos consumidores
Sociedade da comunicação dá origem a grandes movimentos internacionais de solidariedade
Ex: movimento de apoio humanitário às vítimas do tsunami em Dezembro de 2004, através dos meios de comunicação social.
Movimentos de solidariedade intrageracional resultados podem ser bem mais eficientes que os produzidos pelos Estados afectados
Influenciam opiniões (ex: sentido de voto das eleições espanholas em 2004)
Não há dúvida de que os Estados já não decidem sozinhos, são influenciados por forças politicamente estranhas.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 19


Aos poucos soberania do poder estadual vai perdendo força ideia de cidadania mundial vai crescendo associada à necessidade de os
Estados se juntarem para resolução de matérias que a todos interessam uniformização da informação veiculada pela sociedade da
comunicação.
Em suma, pela via económica e financeira o poder político dos Estados já não tem, como antes tinha, possibilidade de alterar situações e
influenciar decisivamente o desenvolvimento político e social Confronta-se hoje com inúmeros outros poderes sociais, dentro e fora das suas
fronteiras, que interferem com as suas tarefas e responsabilidades

23. Afloramentos de globalização política.


O Estado Português viu-se obrigado, com a construção da união europeia, (na sequência do Tratado de Maastricht) a editar:
o nº 6 ao artigo 7º e o nº 5 ao artigo 15º da Constituição
a alterar o artigo 102º relativo às funções do Banco de Portugal, que deixa de emitir moeda
os artigos 161, al. n), 163º, al. f), e 197º, al. i), sobre o acompanhamento parlamentar do processo de construção da união europeia
O Tratado Constitutivo do Tribunal Penal Internacional (Tratado de Roma – 1998), ratificado por 120 Estados, criou tribunal com sede em Haia:
Um tribunal de natureza permanente com competência para julgar crimes contra a humanidade, de genocídio e de guerra
Tem jurisdição para o futuro e promove o respeito pelos direitos da pessoa humana, mesmo contra os chefes políticos e militares
A sua constituição limita a soberania dos Estados, na medida em que estes aceitem expressamente a jurisdição deste Tribunal
Novo modo como as universidades hoje se relacionam em rede, a nível nacional, europeu e mundial

24. A policentralidade dos poderes políticos e o poder estadual.


O esboroamento do poder dos Estados não se faz só sentir no plano externo vem-se evidenciando também a nível interno
As comunidades públicas territoriais no caso português as Regiões Autónomas e as autarquias locais, pela força democrática que as
sustenta, têm vindo a ganhar cada vez mais peso no plano político, até pela proximidade às populações, obrigando o Estado e Governo a negociar
As ordens profissionais (associações de direito público) ligadas a profissões liberais, e as associações sindicais de grupos profissionais com
grande poder de mobilização (ex: de professores, de juízes) vêm a ter uma crescente capacidade de influenciar decisões políticas do governo
Criação e organização de associações de voluntariado na sociedade civil defesa de interesses culturais, protecção ambiental, do consumidor
(Ex: Banco Alimentar contra a Fome, QUERCUS, DECO) empreendem tarefas tradicionalmente pertencentes ao Estado Social de Direito
O próprio Estado Social resolve empreender:
um processo de privatização de empresas públicas - caso da GALP, EDP, Portugal Telecom - ou de tarefas públicas - notários -
faz parcerias com os particulares parcerias públicoprivadas
encomenda trabalhos a privados (outsourcing)
encomenda projectos de diplomas a escritórios de advocacia, estudos de mercado a universidades privadas
Udo Di Fabio, juspublicista, juiz do Tribunal Constitucional alemão «despedida do Estado nacional»
W. Reinhard, juspublicista alemão «o Estado soberano, moderno, já não existe»
Peter Saladin, juspublicista alemão «para quê falar ainda de Estados?».
Periodo de reflexão e consciencialização do momento de crise que o Estado e o seu poder estão a atravessar.
Novas expressões políticas: a reinvenção do Estado, a reforma do Estado, a mudança de paradigma ou de modelo de Estado
Contudo, ninguém contesta a necessidade de um poder que, na comunidade política, garanta o direito e nele se legitime
como garantia da realização dos direitos que emanam da dignidade da pessoa humana.
Estado pós-moderno (Estado neo-moderno) não pode prescindir do direito que nele se sustenta.
Novas tarefas incitativas Estado Incitativo ou Estado-Propulsor Estado de garantia da realização de direitos
Todas estas novas realidades obrigam o poder estadual a recentrar-se e a renovar-se na sua interligação ao direito

25. A redobrada importância do direito na sociedade do conhecimento.


Novos problemas sociais, políticos resultantes dos fenómenos do terrorismo e da degradação ambiental, pela sociedade da comunicação em
rede e da informação, fácil e massificada necessidade de aprofundar e alargar conhecimentos para diminuir o espaço de ignorância
Nasce «sociedade do conhecimento» forma de lidar com a crescente incerteza da vida social
Novas acções: o incitamento à formação superior, de qualidade, ao desenvolvimento de aptidões e à excelência da participação social
Pergunta-se: como vai o direito lidar com a incerteza e as consequências imprevisíveis das acções humanas sobre o ambiente, dos fenómenos
do terrorismo, dos fenómenos financeiros globais? apelo aos princípios gerais de direito, mais do que à lei positiva, estadual.
Princípio da cooperação entre os Estados o poder do Estado e a sua acção em conjugação com o poder dos outros Estados
Princípio da cidadania global cidadania mais consciente e responsável que partilha responsabilidades comuns a nível mundial
Princípio da responsabilidade partilhada os cidadãos conhecedores não podem afirmar o desconhecimento de um problema global,
Princípio da coerência maior intervenção dos cidadãos exige uma permanente intervenção do Estado coerência na acção
Princípio da precaução atitude de precaução nos cidadãos e Estado com atenção a prováveis ou potenciais danos resultantes
da acção, com vista a minimizá-los ou a eliminá-los por antecipação better safe than sorry essencial à continuidade da vida
Novo discurso do direito deveres ganham cada vez maior peso responsabilizando todos pela acção
Direito da atenção redobrada atenção aos detalhes e pormenores neles se escondem os sinais de perigo e os sinais de salvação
O pensamento global, a convivência com a incerteza e a acção em rede realidades determinadas por valores que partem do homem e a ele
se reconduzem a defesa da vida e inerente dignidade, a sua continuidade futura, em comunidade
A concretização destes valores exigem a acção conjunta dos Estados, a acção interna de cada Estado e acção dos cidadãos
Não se pode viver num permanente «estado de necessidade» abre espaço a indesejáveis processos ditatoriais de actuação do poder
estadual, em que tudo é permito «em razão da necessidade» não se pode por em restrição ou suspensão os direitos fundamentais

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 20


VIII - Estado, direito e cultura
26. Estado e direito como realidades culturais.
O Estado e o Direito são o resultado da sedimentação de valores ao longo dos séculos
Não são realidades petrificadas no tempo, impassíveis à evolução social são realidades culturais.
Declaração de Herrenchiemsee: «O Estado nasce para a pessoa e não a pessoa para o Estado»
Ora, nascendo para a pessoa, em razão da dignidade que a caracteriza, o Estado tem um momento em que se «constitui».
Constituição é o acto político-jurídico instituidor que lhe dá vida e lhe mantém a vida. Sem direito, o Estado não sobrevive. É o direito que
sustenta o Estado Constituir um Estado significa, assim, dar ao Estado uma constituição.
Traduz a ideia de transformação de uma comunidade em comunidade política, num povo.
Mesmo que nasça de um acto revolucionário, este acto revolucionário é portador de uma ideia originária de juridicidade, de «constituição».
Sob outra perspectiva o Estado não existe por si ou em si; existe para resolver específicos problema: problemas das pessoas em sociedade
Para garantir direitos das pessoas, a paz, a justiça, o bem-estar e a sua continuidade futura, para difundir a confiança possível na incerteza
Daí a comunidade internacional de Estados viver em coordenação com os outros Estados
Celebração de tratados com os outros Estados e integração em organizações internacionais com faculdades normativas (ex: ONU)
O Estado realiza o direito os seus órgãos decidem segundo a Constituição são obrigados a cumprir a Constituição e a lei

27. Quem vela pelo cumprimento do direito que disciplina ou rege o Estado.
Os órgãos do poder político são obrigados a cumprir a Constituição e a lei, por sentença judicial, mas fica uma questão:
E se os órgãos estaduais resistem à execução da sentença? Quem guarda o guarda (Quis custodiet custodes)?
Resposta passa pelo cidadão e pelo controlo que faça do exercício do poder pelos seus representantes
Contudo: os tribunais controlam a acção dos titulares dos órgãos do poder político, mas como se executa uma sanção desfavorável ao Estado?
Como é possível «obrigá-lo» e aos seus órgãos, a prestar acatamento à sentença condenatória?
Como lutar «contra quem tem a espada à cintura» (Maurice Hauriou)?
A questão agora apresentada remete-nos para outras duas:
Problema clássico do conceito de direito: será a coacção física, ou a possibilidade do seu exercício, um elemento essencial ao direito?
Existem duas concepções que lhe respondem: uma estatista e outra pluralista:
Estadista: identifica o direito com o direito estadual, a possibilidade do uso da força física é essencial ao direito
Pluralista recurso à coacção física não pertence ao conceito de direito (no direito internacional a coação inexiste)
Entendemos que o direito não coincide com o direito estadual e o uso da força não integra o conceito de direito (inexiste nos
direitos supraestaduais e infraestaduais) O que é essencial ao direito é a determinação de uma sanção para o caso de
incumprimento. Sem sanção ou a ameaça de sanção não há direito.
Problema da construção do próprio Estado nos estados democráticos, a sanção para o momento último da inobservância do direito
pelos titulares do poder político se expressa no momento das eleições políticas
A resposta à questão: «quem guarda os guardas?» parece só poder ser uma quem guarda os guardas é quem os institui como guardas.

28. Os diferentes desdobramentos do direito público.


Estado Português, o exercício das competências dos órgãos têm um procedimento próprio jurídico, previsto na Constituição:
Presidente da República artigos 133º e seguintes da Constituição
Assembleia da República artigos 161º e seguintes da Constituição
Governo e sua Administração artigos 197º e seguintes; 266º e seguintes da Constituição
Respectivos estatutos orgânicos artigo 267º, nº 5, da Constituição
Definição de impostos e taxas e cobrança pela Administração fiscal (legislação fiscal ou tributária) artigo 103º da Constituição
Os tribunais, nas suas diferentes categorias artigos 209º e seguintes da Constituição
Estruturando-se de acordo com os respectivos estatutos e decidindo seguindo o processo definido nas leis processuais:
Lei Orgânica do Tribunal Constitucional
Código de Processo Penal
Código de Processo Civil
Código do Processo Executivo
Código de Processo de Trabalho
Código do Processo nos Tribunais Administrativos
Código de Processo Tributário
Código de Processo Militar
O Estado português dispõe de duas regiões autónomas: a região autónoma da Madeira e a região autónoma dos Açores.
Estas regiões dispõem de um regime políticoadministrativo próprio artigos 225º e seguintes da Constituição
A organização democrática do Estado português compreende a existência de autarquias locais artigo 235º e seguintes da Constituição
Portugal é um Estado-Membro da União Europeia participa nos seus órgãos e encontra-se vinculado ao ordenamento jurídico europeu
Como membro da sociedade internacional, o Estado português está vinculado aos princípios gerais de direito internacional e aos tratados
internacionais que ratificou, assim como às decisões das organizações internacionais de que faz parte.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 21


PARTE II - Para uma compreensão do Estado de Direito, hoje. Visão panorâmica

I - Os elementos, os fins e as tarefas do Estado de Direito


29. O conceito de Estado.
Estado aparece nas línguas europeias nos séculos XV, XVI antes era polis, civitas, res publica, regnum, communitas perfecta
A palavra Estado cobre hoje diferentes realidades palavra é polissémica, tem vários sentidos:
A Constituição portuguesa define Estado em vários sentidos:
Administrativa entidade de direito interno (artigo 6º, nº 1)
conjunto de órgãos para satisfação de necessidades colectivas ad directa; indirecta; autónoma
Constitucional entidade com personalidade jurídica diferente e independente de toda e qualquer pessoa colectiva de direito público,
territorial ou institucional (artigo 9º e artigo 65º, nº 4)
Engloba três elementos fundamentais:
Povo sujeito e destinatário do poder (artigo 4º)
Território delimitação do poder (artigo 5º) pode ter âmbito positivo e negativo:
Vertente positiva faculdade de exercer a sua jurisdição dentro das suas fronteiras
Vertente negativa não permitir que outros Estados exerçam jurisdição no seu território
Poder Político Originário origem no seu próprio povo e não em origem externa
Internacional entidade de direito (esfera) internacional (artigo 7º e 8º, nº 2)
Para a escola realista francesa Estado é um puro facto
Para a concepção marxista Estado é uma consequência de uma sociedade de classes e expressa o domínio de uma classe sobre outra
Para a concepção hegeliana Estado é a realidade em acto da ideia moral objectiva
Para as concepções contratualistas Estado é o resultado de um contrato social
Para as concepções naturalistas o Estado é um dado natural, decorrente da natureza gregária do homem
Para as concepções organicistas Estado é um organismo, uma específica entidade
Para nós, o Estado é uma realidade situada historicamente, com um conteúdo cultural fruto da sedimentação de valores que emanam do
homem e sua dignidade, traduzido no modo de existência de um povo que se dá a si próprio um sentido de direito pelo qual se rege, um sentido que
se expressa em princípios jurídicos e em normas legais.

29.1. Georg Iellinek e os elementos do Estado: povo, território e poder político


Georg Iellinek «Estado é um fenómeno histórico em que um povo exerce sobre um território um poder próprio»

29.1.1. O povo: conceito de cidadania


O povo é o substrato humano do Estado: é a comunidade de pessoas, de homens e mulheres livres a comunidade política
Sentido activo o sujeito do poder
Sentido passivo destinatário desse poder, das suas normas e actos
Se não existir um povo não pode falar-se em organização política
Conceito de cidadania qualidade de ser cidadão, membro do Estado, sujeito do seu poder e destinatário das suas normas.
Cidadania (ligado ao conceito de povo) traduz a capacidade de participação no poder do Estado (artigo 4º e 12/1º da CRP)
Todos têm todos os direitos e deveres (princípio da universalidade) e todos têm os mesmos direitos e deveres (princípio da igualdade)
Da cidadania decorre:
para os Estados a obrigação de atribuírem a cidadania e não privarem arbitrariamente dela quem com eles tenha ligação efectiva
para a Pessoa o direito de optar por uma cidadania
Critérios de aquisição de cidadania (Lei Orgânica n.º2/2006) Diferença entre cidadania originária e cidadania derivada:
Cidadania originária é aquela que se adquire por efeito do nascimento; reporta sempre o nascimento, retroage
ius sanguini (filiação) e o ius soli (local de nascimento)
Cidadania derivada é aquela que se adquire através de qualquer outro elemento; apenas se refere ao futuro.
vários pressupostos ou factos jurídicos nos termos da lei (Ex: Casamento ou união de facto com um português)
Cidadãos originários e derivados têm «estatutos jurídicos» diferentes (ex: eleição para Presidente da República).
Cidadãos e estrangeiros não têm o mesmo estatuto jurídico ver artigo 15º/3
Cidadãos de Estados de língua portuguesa com residência permanente em Portugal gozam de direitos não conferidos a estrangeiros
Cidadãos dos Estados-membros da UE residentes em Portugal têm o direito de eleger e serem eleitos no Parlamento Europeu (art. 15º/5)
Existência de uma cidadania europeia
Condição jurídica dos estrangeiros e dos apátridas depende do ordenamento jurídico dos Estados referência a direito internacional
A globalização e a mobilidade fácil das pessoas existência de pessoas com mais do que uma cidadania
Existe raras excepções de situações de apatridia um indivíduo não ter pátria
Conceitos de cidadania e nacionalidade são distintos decorre da acentuação da ideia de nação e não tanto de Estado a nacionalidade
Cidadania só pode ser reconhecida a pessoas físicas
Nacionalidade pode ser atribuída a pessoas colectivas e a coisas, como navios ou aeronaves
Porque existe cidadãos? conceito jurídico Não são factores culturais nem factores religiosos parte da ideia de criação de identidade
(criar dois grupos: Nós e os Outros) e do compromisso com um projecto político (projecto de vida em sociedade)
Existência de minorias nacionais, étnicas, linguísticas ou religiosas evitar toda e qualquer discriminação do grupo e a sua
identidade ser respeitada, bem como preservado o seu desenvolvimento em liberdade, como impõe a dignidade da pessoa humana.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 22


29.1. 2. O poder político originário
O poder político originário poder de uma sociedade se auto-instituir com autoridade própria, dando a si própria uma Constituição
O poder político ligado ao conceito de soberania mas distinto da definição de soberania clássica (poder absoluto e perpétuo, supremo – na
ordem interna – e independente – na ordem internacional actualmente sabemos que o poder político não se caracteriza por estes atributos (art 3)
Poder político unidade identificadora de uma sociedade e permite satisfazer exigências colectivas em interesses públicos
No plano internacional, o poder político permite ao Estado ter acesso à comunidade de Estados, em igualdade, assumir perante estes um
poder independente e aceitar as normas reguladoras das relações entre Estados.
Estados não soberanos Estados federados (E.U.A) e Uniões Reais (Reino Unido)
Estados semi-soberanos ou de soberania reduzida Estados exíguos (Mónaco, Andorra, São Marinho)
Estados exíguos Estados de pequenas dimensões – território e população – que não conseguem estabelecer relações internacionais

29.1.3. O território.
O território é o espaço sobre o qual o Estado exerce a sua jurisdição; é o espaço de vigência do ordenamento jurídico do Estado
delimitado por fronteiras terrestres (artigo 5º CRP)
extensão e os limites das águas territoriais, a ZEE e os direitos de Portugal aos fundos marinhos contíguos
espaço aéreo
As normas do Estado português podem aplicar-se fora do território nacional (artigo 14º)
Integram um direito de propriedade internacional o direito que coloca o território, enquanto bem, ao serviço do Estado
Características do território a indivisibilidade, a inalienabilidade e a exclusividade (artigo 5º/3 CRP)
Existe uma distinção entre a titularidade do poder político soberano sobre o território e a efectiva posse do território
Ex: caso das bases militares em território estrangeiro ou embaixadas
Convenção Internacional de Montego Bay (1982):
definiu conceitos como mar territorial, zona econômica exclusiva, plataforma continental e outros
estabeleceu os princípios gerais da exploração dos recursos naturais do mar (recursos vivos do solo e subsolo)
criou o Tribunal Internacional do Direito do Mar

30. A personalidade jurídica do Estado.


O Estado é uma entidade jurídica é uma pessoa colectiva, com direitos e deveres distintos dos direitos e deveres das pessoas físicas que
integram a sociedade política e distintos também dos direitos e deveres dos titulares dos cargos políticos
A personalidade jurídica do Estado permite acentuar a subordinação do Estado ao Direito Projecta-se:
no plano internacional possibilidade de praticar actos jurídicos (contratos) e possibilidade de defender a propriedade dos seus bens
no plano interno prática de actos que vinculam o Estado perante outras entidades, públicas ou privadas ou pessoas físicas, e da
possibilidade de ir a juízo, em defesa dos seus direitos ou para assumir os seus deveres ou obrigações

31. Os fins do Estado.


Os fins do Estado são resultado da sedimentação de valores ao longo dos séculos:
Justiça defendido por John Locke defendia que se deveria passar de uma justiça privada para uma justiça pública
finalidade por excelência da sociedade política da Antiguidade Clássica e na Idade Média
Segurança Na Idade Moderna, eleva-se a segurança defesa contra «inimigo», combate ao terrorismo (interno e externo)
Bem-estar na Idade Contemporânea (séc XX) garantia dos direitos humanos, que emanam da dignidade da pessoa humana
(direitos pessoais, direitos políticos, direitos económicos, sociais e culturais, direitos de qualidade) procura da felicidade
Sustentabilidade Finais do séc. XX a sustentabilidade ambiental do desenvolvimento preocupação com gerações futuras

32. Visão panorâmica da actuação múltipla do Estado de Direito.


O Estado de Direito Desenvolvimento de uma acção com uma intencionalidade política que tem no direito o seu fundamento, limite e critério.

32. 1. O político, a política, as políticas públicas e o direito.


Político individuo, aquele que luta pelo poder ou exerce o poder e quer manter esse poder
Política acto, luta por aceder ao poder e, uma vez obtido, exercê-lo e mantê-lo
Políticas públicas programas de acção ordenados estrategicamente a finalidades e objectivos que se cumprem através do poder
Actividade política de luta pelo poder política eleições dos órgãos (Presidente da República, Assembleia Republica e Parlamento Europeu)
Os titulares do poder político, no exercício do poder desenvolvem uma actividade na qual está presente o desejo de manutenção no poder
Tomam posições, a nível internacional e a nível interno estratégicas (populistas) linhas de rumo para aceitação do povo
A acção política do Estado está presente em actos específicos:
Ex: envio de tropas para o Afeganistão, o recebimento de um chefe de um Estado, num momento político crítico.
Ex: escolha do momento oportuno para anunciar uma descida de impostos, a nacionalização de um banco
Fixação de metas e de linhas de acção estratégicas sujeitas a permanentes correcções pela evolução da realidade social
Apelo à democracia participativa (artigo 2º da Constituição)
Actos (ex: abrir uma maternidade num determinado local, recomendações no sentido de uma alimentação saudável)

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A complexidade que hoje caracteriza a realidade social normas legais não conseguem prever todas as situações que se apresentam
Exigem uma intervenção do Estado não traduz uma acção não jurídica é forma diferente de realizar o direito
realizar o direito não tanto através da aplicação de leis mas do cumprimento de princípios jurídicos
Política ambiental e a política de ordenamento do território devido a natureza escassa do território e escassos recursos naturais
Actualmente devido a escassez de recursos apelo constante ao empenhamento e responsabilidade dos cidadãos
«Sistema de comando e controlo» políticas públicas estão sujeitas à lei e ao direito (Estado de Direito) Estado Incitativo (Estado Propulsor)

32. 2. O direito e a sua definição, desenvolvimento e garantia de cumprimento.


32.2.1. Funções do Estado
Abade de Sieyès defendia uma distinção entre dois tipos de poderes do Estado:
Constituinte o poder que elabora a Constituição
Constituídas o poder que tem o seu fundamento na Constituiçao
Pode fazer-se uma distinção entre duas funções do Estado:
Funções Primárias (poder supremo só está dependente da Constituição):
Funções em que o Estado exerce o seu direito de ditar o projecto comum que existe naquele Estado
Função Política só depende da Constituição e em vista a definição das grandes opções de vida em comunidade
Um acto político é um acto que só produz efeitos na esfera do Estado (ex: demissão do Governo)
Função Legislativa definição das grandes opções de vida em comunidade, vinculando todos os sujeitos
Um acto legislativo é aquele que visa vincular todos os sujeitos jurídicos (ex: lei; lei constitucional)
( Função Governativa Actos Políticos)
Funções Secundárias (poder dependentes, derivada estão dependentes da Constituição e do legislador):
Função Administrativa satisfação de necessidades colectivas previstas pela lei
Função Jurisdicional resolução de litígios; administração da justiça
Distinção entre Funções Primárias e Secundárias:
Funções Primárias têm um dever de conformidade com a Constituição, mas são independentes dentro do seu ordenamento jurídico
Funções Secundárias são dependentes do legislador só podem fazer aquilo que for permitido ou previsto pela lei (Constituição)
A função jurisdicional é também condicionada porque o juiz só aplica o que está previsto em lei
32.2.2. Órgãos do Estado
Órgãos do Estado integram-se em pessoas colectivas entidades puramente jurídicas
Dentro da própria pessoa colectiva existem centros de imputação legal de poder os órgãos que vão ter um determinado titular que vai
promulgar actos em nome dessa pessoa colectiva são centros aos quais a lei admite que possam exercer poder
O Estado é uma pessoa colectiva que precisa de órgãos para funcionar que não se confundem com os seus titulares
O Estado é composto por quatro órgãos de soberania:
Presidente da República
Assembleia da República
Governo
Tribunal
Para além dos órgãos de soberania, existe uma infinidade de órgãos: órgãos legislativos, políticicos, administrativos, judicias
Ex: Director Geral de Finanças, Juiz, Conselho de Estado (órgão consultivo), ect
Os órgãos podem ter várias classificações:
Órgão Colectivo composto por mais que um titular (ex: Assembleia da República, Governo)
Órgão Singular apenas um titular (ex: Presidente da República)
Órgão Simples não complexo
Órgão Complexo órgão é composto por outro órgão (um dos titulares do órgão é um órgão)
Como se designam os titulares dos órgãos, como se chega ao nome de alguém para ser o titular?
1º Eleição método pelo qual um conjunto alargado de pessoas vai designar os seus representantes (ex: Assembleia da República)
2º Nomeação titular de um órgão designa um ser subordinado (ex: Governo)
3º Cooptação parte dos titulares de um órgão colectivo, entre si designam outro titular
4º Inerência um é titular de um órgão pelo simples facto de ser titular de outro órgão (ex: Primeiro-Ministro no Conselho de Estado)
5º Sucessão
6º Sorteio (hoje em dia praticamente não existe)
7º Aquisição Revolucionária (ex: 25 de Abril)
Como se relaciona os órgãos com a sua competência?
Atribuições Fins a que as pessoas colectivas e os órgãos estão vinculados (Estado está vinculado a cumprir um conjunto de
necessidades colectivas; órgãos de saúde, prossecução das necessidades básicas de saúde, Município pretende a defesa do urbanismo)
Competência Tipo de actos que estes órgãos podem praticar (Assembleia da República pode aprovar leis; Município pode aprovar
um plano, um regulamento a definir como se constrói)
Um órgão só pode prosseguir as atribuições concedidas por lei, pelas competências tem para as realizar

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32.2.3. Actos do Estado
Em síntese, existem quatro tipos de actos do Estado:
Actos Políticos podem ter natureza muito diversa: promulgação de um Tratado, promulgação de leis; dissolução da Assembleia da
República; demissão ou admissão de um governo, convocação de um Conselho de Estado; rectificação de uma lei; Presidente da
República que marca a data das eleições; Designação do Provedor de Justiça
Actos Legislativos artigos 112º/2, 166º, 168º, 198º da CRP Lei, Decreto-lei, Decreto Legislativo Regional
Actos Jurisdicionais sentenças/acórdãos; (acórdão é por um tribunal colectivo; sentença é por um só juiz)
Actos Administrativos:
regulamentos administrativos actos normativos normas gerais e abstractas
contractos administrativos actos não normativos acordos de vontade entre entidade pública e outra entidade para
satisfazer necessidades públicas (ex: contrato de prestação de serviços; concepções de serviços e ordens públicas)
actos administrativos prescrição unilateral de autoridade que visa definir uma situação individual e concreta
(ex: subsidio de desemprego)
plano programa de actuação da administração para realização de determinados objectivos (ex: plano urbanístico)

Acção do Estado através de actos jurídicos formais, normativos ou não normativos


Actos jurídicos formais é o acto normativo que institui o Estado
é a Constituição ou lei constitucional, a lei fundamental do Estado, que emana do poder político originário
A Constituição da República Portuguesa foi aprovada por uma Assembleia Constituinte, uma Assembleia eleita para elaborar e
aprovar a Constituição. Depois da entrada em vigor, a Constituição foi alterada 7 vezes, a última das quais em 2005.
Alterações à Constituição foram introduzidas pela Assembleia da República que tem essa competência art. 161º/a), 284º a 289º
Actos normativos de direito internacional O Estado, dotado de poder soberano, passa a poder celebrar tratados no plano internacional
A Convenção de Viena de 1969 define o tratado como «acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito
Internacional quer conste de um instrumento único quer de dois ou vários instrumentos conexos, seja qual seja a sua designação»
Os tratados internacionais têm várias designações: carta, constituição ou estatuto designação de tratados constitutivos de uma
organização internacional ou que regem um órgão internacional;
Pacto é a designação que, em regra, se dá a um tratado de aliança militar ou tratado de grande relevo político
Concordata é a designação dada aos tratados com a Santa Sé;
Protocolo adicional é a designação de um tratado complementar ou modificativo de outro
Convenção técnica é o tratado sobre matérias muito especializadas
Compromisso é a designação regra geral dada à resolução arbitral de um conflito internacional
O Estado pode ainda fazer acordos ou «gentlemen’s agreements» com outros Estados, caracterizados pela informalidade
Competências dos órgãos de actos normativos de direito internacional:
Governo Competência para negociar, ajustar ou aprovar acordos e convenções internacionais art. 197/1º CRP
Assembleia da República Competência para aprovar tratados internacionais artigo 163º, al. i) CRP
Presidente da República Tratados que serão ratificados pelo presidente artigo 135º, b) da CRP
No plano interno, a actividade normativa empreendida pelo Estado - realização do direito através de normas jurídicas (regras gerais e abstractas)
Actividade normativa primária traduz o exercício da função legislativa, directamente enformada pela Constituição, concretiza-se em:
leis da Assembleia da República artigos 164º e 165º da CRP
decretos-lei do Governo artigo 198º da CRP
Actividade normativa secundária traduz o exercício da função administrativa, um exercício que se desenrola no quadro da lei e do
decreto-lei os regulamentos são a forma que tomam os actos normativos emanados desta função. Assumem diferentes designações:
´ decretos-regulamentares da competência do Governo
portarias
despachos normativos
Regulamentos com eficácia interna - designação de regimentos orgânicos, regulamentos internos dos serviços ou
instruções

Contratos acordos de vontades entre sujeitos de direitos. Podem ser disciplinados pelo direito privado ou que podem ser regidos pelo direito
público, administrativo – contratos administrativos (ex: contrato de empreitada de obras públicas, contrato de fornecimento por empresas privadas)
Contratos bilaterais ou multilaterais acordos de vontades entre sujeitos de direitos com outras entidades públicas ou privadas
Contratos de direito privado ex: contrato de compra de um livro, de uma pintura da Vieira da Silva, de um imóvel

Actos jurídicos unilaterais (de conteúdo não normativo) traduzem a manifestação de vontade dos órgãos políticos ou administrativos e definem
juridicamente uma situação individual e concreta actos políticos ou actos administrativos
Actos políticos actividade primária, paralela à legislativa estão directamente regulados na Constituição
Actos administrativos actividade secundária são conformados pela lei administrativa, infra-constitucional, e não directamente
pela Constituição Ex: acto de nomeação de um director geral; o acto que defere uma licença de construção de edifícios; o acto que
recusa a não concessão de um subsídio; o acto que indefere um pedido de bolsa de estudo; o acto que instaura um procedimento de
ilícito de mera ordenação social; o acto que aplica uma sanção disciplinar; o actos que declara a utilidade pública de um imóvel para
efeitos de o expropriar; o acto de concessão de um prémio escolar; os actos de cobrança de impostos.

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Actos unilaterais de direito privado acto de constituição de propriedade horizontal de um edifício que lhe pertence em propriedade privada e
pode ainda o Estado desenvolver actuações unilaterais de direito privado (ex: embargo de obra nova)
Complexidade da realidade social fenómeno das leis-medida fenómeno que traduz a administrativização da função legislativa
Leis-medida caracterizam-se por concretizarem opções políticas fundamentais (por isso decorrem da função legislativa), para terem
efeitos precisos numa situação individual e concreta (por isso se aproximam da actuação administrativa)
Ex: caso de um decreto-lei que transforma uma empresa pública numa sociedade anónima de capitais públicos; o caso de
um decreto-lei que demite um funcionário público
O Estado actua através dos tribunais que administram a justiça em nome do povo artigo 202º da CRP

As decisões dos tribunais são actos jurisdicionais podem ter conteúdo normativo
Ex: caso da declaração de inconstitucionalidade de uma lei pelo Tribunal Constitucional art. 281º/1 e 282º CRP; declaração de
ilegalidade de normas regulamentares, pelos tribunais administrativos
Em regra os actos ou decisões jurisdicionais não têm conteúdo normativo actos ou decisões que põem termo a litígios ou declaram
o direito num caso individual e concreto sentenças e acórdãos

Síntese: Assembleia da República, o Governo e os tribunais podem praticar:


actos normativos a Assembleia da República aprova leis, o Governo aprova decretos-lei ou decretos-regulamentares, o Tribunal
Constitucional declara, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade de normas legais
actos não normativos ao designar o Provedor de Justiça, a Assembleia da República pratica um acto político, não normativo, ao
nomear o director-geral dos impostos, o Ministro das Finanças pratica um acto administrativo, não normativo, e, ao porem termo a litígios
jurídicos, desde logo através de sentenças, os tribunais praticam actos não normativos

Estado de Direito dispõe de mecanismos de defesa do direito e da lei democraticamente aprovada contra quem a incumpre
Em caso de incumprimento Tribunal Constitucional recorre a sua fiscalização preventiva artigo 278º da CPR
Depois de entrarem em vigor leis podem ainda ser objecto de fiscalização sucessiva pelo Tribunal Constitucional
Órgãos que podem solicitar ao Tribunal Constitucional a declaração, com força obrigatória geral, da inconstitucionalidade de normas:
Presidente da República
Presidente da Assembleia da República
Primeiro-Ministro
Provedor de Justiça
Procurador-Geral da República artigo 281º/2 CRP
Contra a acção dos poderes públicos os cidadãos podem queixar-se ao Provedor de Justiça:
Provedor Justiça órgão independente designado pela Assembleia da República que exerce um magistério de autoridade,
não tem poder decisório mas pode dirigir aos órgãos competentes recomendações para prevenir ou reparar injustiças
Os cidadãos têm ainda o direito de apresentar, individual ou colectivamente, aos órgãos de soberania petições,
representações, reclamações ou queixas para defesa dos seus direitos, da Constituição ou das leis art 52º/ 2 CRP

A defesa da legalidade democrática é empreendida pelo Ministério Público artigo 219º, nº 1 CRP «advogados do Estado»
Ministério Público tem legitimidade para impugnar normas regulamentares e actos administrativos junto dos tribunais administrativos
Ministério Público tem o dever de pedir a declaração, com força obrigatória geral, da ilegalidade de uma norma regulamentar
Ministério Público representa o Estado, em sentido amplo, abrangendo as Regiões Autónomas e as autarquias locais
Ministério Público tem ainda um papel importante na descoberta da verdade material, no processo penal (acção penal), e na defesa de
interesses particulares específicos (os interesses dos incapazes, dos incertos) no processo comum
Apesar de actuar estruturalmente ligado aos tribunais, o Ministério Público não integra os tribunais, pertence à Administração Pública

A Administração Pública é desenvolvida por múltiplas entidades públicas, seja no âmbito central (Estado), seja no âmbito das regiões autónomas,
seja das autarquias locais. No âmbito da actividade da Administração Pública:
tarefas administrativas de polícia actividade caracterizada pelo fim de prevenção de danos ilegais e pela restrição da liberdade de
condutas individuais que envolvam o perigo de dar origem a esses danos (controlo de condutas perigosas). Exemplos:
Inspecção-Geral do Ambiente (IGA) na fiscalização do cumprimento das normas ambientais (polícia administrativa especial)
Autoridade da Segurança Alimentar e Económica (ASAE) enquanto autoridade administrativa com poderes policiais em
defesa dos direitos do consumidor (polícia administrativa especial)
Polícia de segurança pública (PSP) enquanto defende a ordem e segurança públicas (polícia administrativa geral)
Guarda Nacional Republicaca (GNR); Polícia Judiciária (PJ), Guarda Fiscal (polícia administrativa geral)
actividade das polícias municipais, desenvolvendo uma tarefa de polícia de proximidade, para defesa dos munícipes (polícia
administrativa sectorial ou de competência territorialmente delimitada) artigo 272º
Funções de polícia a defesa da legalidade democrática e a garantia da segurança interna e dos direitos dos cidadãos
Os actos de polícia caracterizam-se por serem actos de controlo ou fiscalização de condutas perigosas dos cidadãos
Polícia judiciária é definida por lei como o «corpo superior de polícia criminal auxiliar da administração da justiça»
Estas actividades são operações materiais e intercomunicáveis:
acto de controlo alfandegário pode evoluir para operação de polícia de apreensão de droga e detenção do seu portador

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 26


Estado realiza diariamente inúmeras operações materiais diversificadas actividade de prossecução do interesse público art. 266º/1 CRP
actua na área da saúde, realiza cirurgias, trata e assiste doentes crónicos através dos serviços médicos de hospitais públicos
actua na área da educação, lecciona, através de professores, em escolas e universidades públicas
actua na área da cultura, protege, através de guardas, as obras de arte expostas nos museus
actua na área social, constrói bairros económicos
actua na recolha de toneladas de lixo é, em geral, feita nas cidades através de serviços administrativos
Se de tais actividades resultarem danos ou prejuízos há lugar ao pagamento da competente indemnização

32.3. Em especial, o «government by contract».


Desenvolvimentos da acção estadual finais do século XX atractividade da figura jurídica do contrato
Provém dos países anglo-saxónicos afastamento do tradicional sistema de actuação do Estado caracterizado pelo «command and control»
Em vez de impor comportamentos, Estado negoceia soluções com as partes interessadas e actos administrativos («regulação pela negociação»)

32.3.1. Breve excurso histórico.


Direito Administrativo alemão Otto Mayer defende a figura que o contrato é incompatível com a acção soberana do Estado
A soberania do Estado inviabilizava que as partes – Estado e particulares – pudessem ser vistas no mesmo plano de igualdade
a igualdade é característica do contrato, este seria uma figura típica do direito privado mas não do direito público
A admissão da figura do contrato no direito público, administrativo, veio a fazer-se ao longo dos tempos por apelo a várias linhas de força:
Entendia-se que, para além do Estado, havia inúmeras entidades administrativas, públicas, não soberanas
O Estado quando age como Administração Pública, despe-se da sua soberania e interage com os particulares
No âmbito do direito privado, nem todos os contratos colocam as partes no mesmo plano de igualdade (ex: contrato de adesão)
Afirmava-se que a igualdade das partes diz respeito às prestações do contrato e não aos contraentes que o celebram
Em resultado do que se afirma, a figura do contrato começou a ser aceite no âmbito do direito público, administrativo
Em Portugal, o Código Administrativo de 1936-40 já reconhecia um conjunto de contratos administrativos, mas apenas alguns
Marcello Caetano e Diogo Freitas do Amaral novas intepretarações da administração
Esta concepção foi recebida no ordenamento jurídico que começou a aceitar novas modalidades de contratos administrativos
Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais de 1984 posto termo à taxatividade dos contratos administrativos
Mais tarde, o artigo 178º, nº 1, do Código do Procedimento Administrativo consagrou um conceito material de contrato administrativo
Recentemente mercado único da União Europeia foi-se formando um regime jurídico próprio Direito Comunitário da Contratação
Pública O Código dos Contratos Públicos revogou as normas do Código do Procedimento Administrativo nova era da acção pública
Conclusão: a actuação estadual através da negociação e contrato tornou-se hoje normal faceta caracterizante e fundamental do Estado actual
Estado mais controlador da acção de satisfação de interesses públicos por entidades privadas do que empreendedor dessa acção

32.3.2. Amplitude da fórmula contratual.


Promoção de soluções negociadas desdobra-se em múltiplas áreas:
contratação de empresas privadas para fiscalização de obras, realização de inspecções e vistorias
contratação de empresas privadas para tratamento de lixos
contratação entre entidades públicas e particulares
contratação entre entidades públicas, nomeadamente:
entre o Estado e as autarquias contratos de transferência de competências não universais
contratação entre autarquias locais contratos de delegação de competências municipais em freguesias
contratos decisórios (em substituição de actos administrativos)
contratos obrigacionais um órgão de uma entidade pública assume o dever de praticar ou não praticar um acto administrativo

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 27


32.3.3. Em especial as parcerias público-privadas.
Política favorável à negociação parcerias público-privadas:
ex: construção da Ponte Vasco da Gama e auto-estradas do Oeste e Beira Interior, os Hospitais de Loures, de Cascais e de Braga
Órgão responsável pelas negociações das parecerias público-privadas Ministério das Finanças
elaborou um modelo de procedimento para permitir a melhor aferição dos preços, da qualidade da obra a realizar e do serviço a
prestar, bem como da avaliação do risco de funcionamento ou da gestão. (Decreto-Lei nº 141/2006, de 27 de Julho)
As parcerias público-privadas contratuais têm por objectivo integrar os particulares ou empresas privadas no desempenho de tarefas públicas:
seja do Estado Administração Pública Central
seja das regiões autónomas Administração Pública Regional
seja das autarquias locais Administração Pública Autárquica
São uma forma de agir alternativa:
quer à gestão directa acção empreendida pelo próprio Estado, região autónoma ou autarquia
quer à gestão indirecta pública acção empreendida por entidades públicas criadas pelo Estado, região autónoma ou autarquia
Através das parcerias público-privadas:
Procura-se aproveitar a iniciativa ou criatividade dos particulares, colocando-a ao serviço do bem público
Fomenta-se a cooperação entre o Estado e a comunidade, a fim de obter ganhos de eficiência e mais qualidade do serviço
Procura-se ultrapassar as dificuldades financeiras do sector público com uma fórmula que apela ao financiamento privado das obras e
serviços públicos – poupança de recursos financeiros públicos
Os particulares assumem contratualmente uma responsabilidade social sentido de risco de funcionamento do serviço

32.3.4. Princípios jurídicos da contratação pública.


A complexidade que hoje caracteriza a realidade social normas legais não conseguem prever todas as situações que se apresentam
Exigem uma intervenção do Estado não traduz uma acção não jurídica é forma diferente de realizar o direito
Os princípios gerais da contratação pública são os seguintes:
princípio da prossecução do interesse público só o interesse público justifica a elaboração de um contrato
princípio da legalidade todos os contratos têm de possuir base legal
princípio da autonomia contratual as entidades públicas têm poder de conformar os contratos, sem sujeição a um elenco taxativo
princípio da boa fé as partes, públicas e privadas, estão obrigadas a uma conduta ética, seguindo padrões de rectidão
Os princípios relativos à formação dos contratos públicos:
princípio da procedimentalização da actividade administrativa forma de racionalizar a acção administrativa
princípio da igualdade impõe a proibição do arbítrio, a proibição de discriminações infundadas; diferenciar o que é diferente
princípio da proporcionalidade implica uma ideia de adequação, de necessidade e de proporcionalidade em sentido estrito
princípio da imparcialidade implica que não se favoreça nem prejudique um qualquer concorrente
princípio da concorrência implica que, no decurso do procedimento concursal, se não alterem as condições do concurso
princípio da participação determina a abertura do procedimento à colaboração dos particulares
princípio da transparência implica a disponibilização, por parte da Administração Pública, de toda a informação que possui
princípio da economia implica a racionalização dos recursos, em razão da sua escassez
princípio da eficácia implica que os fins sejam atingidos no tempo determinado para os alcançar
princípio da eficiência implica que os fins sejam atingidos usando o mínimo de custos e não dando azo a efeitos prejudiciais
Os princípios relativos à execução dos contratos:
princípio da estabilidade o objecto do contrato deve ser pontualmente mantido; só se tal não for possível
princípio do equilíbrio financeiro a Administração Pública é obrigada a repor o equilíbrio financeiro quando o contrato é alterado
princípio do cumprimento pontual todas as condições do contrato devem cumpridas nos prazos, sob pena de sanção
princípio da responsabilidade a Administração Pública deve fiscalizar a observância do contrato, detectando situações de
ilegalidade e responsabilizando as partes pelo incumprimento

32.2.5. Balanço.
A Administração Pública do Estado tem vindo a abandonar a centralidade dos actos administrativos unilaterais desenvolve cada vez mais
formas de acção negociadas, contratualizadas (Parcerias Público-Privadas) nova centralidade da actuação administrativa
Isto não significa que o Estado se afaste do direito princípio da obediência à lei formal dá lugar à obediência aos princípios gerais de direito

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 28


II - As formas de Estado

II.1 Estados Unitários e Estados Compostos


Formas de Estado Forma de organização dos Estados; como o poder se estrutura e como se distribui nos diversos órgãos:
Estado Unitário Estado que é governado constitucionalmente como uma unidade única; um único ordenamento jurídico constituinte, detentor
de uma só Constituição, única fonte de legitimidade e de autoridade de todos os seus poderes públicos no interior do Estado
Dentro do Estado Unitário, os poderes políticos e legislativos podem ser atribuídos ao próprio Estado ou a outras entidades públicas:
Centralizado poderes políticos stricto sensu e legislativos estão exclusivamente entregues ao Estado;
apenas um centro de poder político
Descentralizado ou Regional No interior do mesmo ordenamento jurídico, a Constituição do Estado atribui poderes
políticos e legislativos a outras entidades públicas territoriais menores
mais do que um centro de poder político
Região autónoma entidade pública territorial que recebe da Constituição estes poderes;
a existência de regiões não põe em causa a natureza unitária do Estado a que pertence
a Constituição pode ser elaborada e modificada sem haver uma participação das regiões
os estatutos destas regiões têm de ser conformes com a Constituição do Estado
Não se prevê qualquer câmara parlamentar de representação das regiões junto do Estado.
No âmbito dos Estados regionais, podemos efectuar determinadas distinções:
Integrais todo o território se divide em regiões autónomas;
Parciais apenas uma parcela do território se divide;
Homogéneos todas as regiões têm o mesmo estatuto;
Heterogéneo há regiões com estatutos especiais;
Com integração regiões fazem parte do território e mesmo povo do Estado;
Sem integração regiões não fazem parte do território nem povo do Estado.
Trata-se de situações excepcionais:
Antigos laços feudais;
Vinculos coloniais ou semicoloniais
Mera associação a outros Estados
Situações internacionais muito específicas
Estado Composto vínculo existente entre dois ou mais estados que se fundem; dois ou mais ordenamentos jurídicos constituintes, fruto da
existência de mais de um momento constituinte na formação, conformação e legitimação dos seus poderes públicos; Podemos encontrar duas
formas típicas:
União Real estrutura de aglutinação ou de fusão; corresponde ao vínculo existente entre dois ou mais estados (sem perderem a
sua autonomia) em que se fundem, na qual se prevê a adopção de uma única Constituição e existência de órgãos comuns, como Chefe
de Estado, Governo e Parlamento; os Estados membros da união mantêm território e povos próprios, mas o poder político soberano é
exercido pela união Exemplos: Reino Unido; Tanzânia
União Pessoal produto de uma coincidência na titularidade de órgãos; corresponde à situação em que o Chefe de
Estado é comum a dois ou mais Estados; os Estados permanecem independentes entre si, não existindo uma verdadeira
união mas antes uma mera associação; A única ligação entre os Estados reside na pessoa do Chefe de Estado e não no
órgão; é comum o titular do órgão e não o próprio órgão
Ex: Relação Reino Unido (Rainha II) com Austrália, Canadá, Jamaica; Portugal e Espanha, na dinastia Filipina
Federação é um Estado composto por diversas entidades territoriais autonomas dotadas de governo próprio; assenta numa
estrutura de sobreposição, isto é, a da estrutura do novo Estado (federal), com Constituição própria, sobre os poderes políticos dos
Estados federados; Na Federação, a soberania é transferida para o estado federal. Exemplos:
Federações de Estados Repúblicanos Estados Unidos; Brasil; Suiça; Argentina
Federações de Estados Monárquicos Canadá, Austrália, Bélgica
Existem vários poderes políticos próprios a interagir:
o poder político soberano do Estado federal;
os poderes políticos dependentes dos Estados federados;
Confederação mera associação de Estados Soberanos para prossecução de fins comuns em regra de defesa e
relações internacionais; sem criar um novo Estado, procede à criação de uma nova entidade, dotada de órgãos próprios; Na
Confederação, os Estados constituintes não abandonam a sua soberania
Ex: Do ponto de vista histórico, a confederação costuma ser uma fase de um processo que leva à federação,
como nos casos dos Estados Unidos e da Suíça.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 29


II.2 Complexidade dos Estados Federados
Formação do Estado Federal forma por excelência do Estado Composto ocorre uma sobreposição de Estados ( fusão)
não existe uma fusão de órgãos nem de Constituição, existe sim uma criação de uma nova estrutura, comum, uma nova Constituição;
Existe uma sobreposição de um ordenamento jurídico (Estado federal) sobre outros ordenamentos jurídicos (dos Estados Federados)
Os Estados Federados não perdem o seu ordenamento jurídico: terão de ser conformar perante o ordenamento jurídico federal
Exige-se que os ordenamentos jurídicos que compõem a federação estejam interligados e harmonizados.
Multiculturalidade Estado Federal surge pela união entre povos de poderes políticos originários
Características:
Estados Federados mantêm a sua constituição e órgãos constituintes, sistema de órgãos políticos, legislativos, administrativos e
jurisdicionais Pluralidade de poderes políticos
Um cidadão fica sujeito ao seu Estado Federado e Estado Federal, sujeitos a duas Constituições, sendo certo que a cidadania federal
prevalece sobre a de cada Estado federado Pluralidade de cidadanias
Estado Federal tem o dever de garantir a existência dos Estados Federados em absoluta igualdade jurídica no seio da Federação e
igualdade de direitos entre os seus cidadãos
Assegurar os direitos e participação dos Estados federados na formação da vontade política e legislativa do Estado federal através da
existência de uma câmara de representantes (Câmara do Senado) onde cada Estado tem igual número de representantes
Os Estados Federados participam na elaboração, aprovação e modificação da Constituição
Estado Federal rege as relações internacionais e definir e executar a política de defesa da federação, já que o Estado Federal é única
entidade com personalidade jurídica internacional
Cabe aos Tribunais federais a tarefa de controlar a conformidade das Constituições e leis federais em relação à Constituição Federal
Não existe o direito ou a possibilidade de desvinculação da federação (ao contrário da confederação)
Estados Federados são semi-soberanos
Limitação nas atribuições federais, onde se podem distinguir (embora a distribuição de competências faz-se sempre pela Constituição federal):
Federalismo Clássico assenta na repartição horizontal ou material de funções — em que o Estado federal e os Estados federados
podem aprovar e executar as leis ex: EUA; Suiça
Federalismo Cooperativo o Estado federal legisla ou aprova as bases gerais dos regimes jurídicos, cabendo aos Estados federados
executar ou desenvolver estes regimes jurídicos ex: Alemanha
Problema: Definir perante x situação quem deve agir – O Estado Federal ou o Estado Federativo, quem decide? (ex: questão do aborto)
Classificação:
Federações Perfeitas com todas as características ex: EUA; Suiça
Federações Imperfeitas não reúnem todas as características ex: Brasil; Rússia
Grau único composto por Estados Unitários; exista apenas um nível de Estados federados
Duplo grau composto por um ou mais estados compostos; entre os Estados federados se encontram também federações
ex: Rússia no tempo de URSS, onde a Rússia era também uma federação
Constituição federal responsáveis pela criação de um sistema jurídico muito complexo supremacia da Constituição federal:
Princípios fundamentais e estruturantes da Constituição federal impõem-se a todos os Estados federados
Constituições e os demais actos legislativos e administrativos dos Estados federados não podem ser desconformes com a
Constituição federal, sob pena de inconstitucionalidade
Leis do Estado federal gozam de efeito directo e invocabilidade em juízo no território dos Estados federados, dispensando qualquer
forma de transformação ou sequer de recepção;
Em caso de conflito de competências entre Estado federal e Estados federais a sua resolução caberá em exclusivo aos órgãos
federais
Ao Estado federal é lícita a adopção de medidas coercivas para impor o seu Direito aos Estados federados
Como contraponto a esta supremacia do poder federal o poder constituinte federal deve respeitar sempre a existência e os direitos dos
Estados federados deve ser assegurado aos Estados federados o exercício de poderes legislativos próprios, a possibilidade de disporem de
tribunais, forças de segurança e órgãos administrativos próprios e a possibilidade de representação nas câmaras parlamentares do Estado federal

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 30


II.3 Estados unitários: Regiões autónomas; Descentralização administrativa
Região autónoma uma pessoa colectiva de direito público, de população e território, dotada pelo Estado (através da Constituição) de
autonomia administrativa, política e legislativa, tendo em vista a prossecução de fins próprios do seu substrato humano, sendo para o efeito dotada
de um estatuto e de órgãos de governo próprio, no direito constitucional português

Estatuto político-administrativo das Regiões Autónomas:


consiste numa lei aprovada pela Assembleia da República Art. 161 CRP
pretende estabelecer a regulação das atribuições regionais, do sistema de órgãos regionais e a sua delimitação em relação às demais
pessoas colectivas públicas reserva de estatuto estas matérias têm de ser necessariamente tratadas pelo estatuto
são elaborados exclusivamente pelas respectivas Assembleias Legislativas Regionais e enviadas à Assembleia da República
é promulgado pelo Presidente da República e carece de referenda ministerial pelo Governo
nenhuma lei ou decreto-lei pode contrariar o estatuto jurídico das regiões autónomas possuem valor jurídico reforçado
Tribunal Constitucional pode fiscalizar a constitucionalidade ou a ilegalidade de qualquer norma que contrarie o estatuto

Poderes das Regiões Autónomas:


Poder Político e Legislativo:
Competência legislativa exercidas exclusivamente pela Assembleia Legislativa Regional art. 232.º CRP
Gozam de Autonomia Legislativa através de Decretos Legislativos Regionais art. 226º, 227º, 228º CRP
Poder Legislativo Originário: através da legiferação
Matéria que a Região Autónoma legisla não pode estar reservada a nenhum órgão de soberania
Art. 164º,165º, 198º CRP
A matéria tem de estar enunciada no estatuto político-administrativo
Âmbito Regional:
condição de validade territorial de uma norma
dimensão territorial e institucional (instituições regionais).
Poder Legislativo Autorizado:
Pede autorização à Assembleia da República para legislar sobre matérias a esta reservadas Art 228º CRP
Poder Legislativo de desenvolvimento de leis de bases
Poderes de Iniciativa Legislativa , podem apresentar propostas de lei e propostas de alteração alínea f, nº1, 227º CRP
Poderes de Participação em matérias internacional com impacto normativo U.E., Tratados Internacionais Art. 227ª
Poder Administrativo:
Gozam de Autonomia Administrativa permite fixar e prosseguir livremente a satisfação dos fins de interesse
colectivo ao seu substrato humano; gozam de poder executivo próprio
Aprovação de regulamentos poder de regulamentar a legislação nacional, ect
Administração do respectivo património
Celebração de contratos, actos tratados

Órgãos das Regiões Autónomas: Art. 231º CRP


Órgãos de governo regional devem cooperar com os órgãos de soberania, tendo em vista o incremento económico e social
Assembleia Legislativa Regional:
Órgão electivo, eleita por sufrágio universal, directo e secreto princípio da representação proporcional (Art. 231º CRP)
Exercicio de Competência legislativa, de participação, apresentação de proposta de referendo e elaboração e aprovação de
regimento;
Apresentação de propostas de lei à Assembleia da República Art 232 CRP
Pode ser dissolvida pelo Presidente da República Art. 234 CRP
Governo Regional:
Órgão composto/colectivo, nomeado pelo Representante da República mediante os resultados eleitorais;
É politicamente responsável perante a Assembleia Legislativa Regional
Poder Executivo;
Representante da República: órgão de governo nacional/não regional; representa a soberania junto da região
Nomeado e exonerado pelo Presidente da República Art. 230º CRP
Nomeia o Presidente do Governo Regional que propõe a composição do seu Governo, aprovando essa composição.
Órgão essencial na compreensão do funcionamento político regional
Poder de assinar e mandar publicar os decretos legislativos regionais e os decretos regulamentares regionais
Poder de veto político de qualquer decreto da Assembleia Legislativa da região Autónoma
Poder de veto jurídico dos decretos legislativos regionais
Em caso de vagatura do cargo, ausências ou impedimentos, Representante da República é substituído pelo Presidente da Assembleia
Legislativa Regional

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 31


Classificação de um órgão quanto à posição estatal:
Órgãos Independentes definidos na Constituição e representativos dos Poderes do Estado; não possuem qualquer subordinação
hierárquica e somente são controlados uns pelos outros Ex: Tribunais e Juízes, Ministério Público, Tribunais de Contas
Órgãos Autónomos subordinados diretamente à cúpula da Administração; têm ampla autonomia administrativa, financeira e
técnica, caracterizando-se como órgãos diretivos, com funções de planejamento, supervisão, coordenação e controle das actividades
que constituem sua área de competência Ex: Ministérios, Secretarias, Procuradorias
Órgãos Superiores detêm poder de direção, controle, decisão e comando dos assuntos de sua competência específica;
representam as primeiras divisões dos órgãos independentes e autônomos Ex: Gabinetes, Coordenadorias, Departamentos, Divisões
Órgãos Subalternos destinam-se à execução dos trabalhos de rotina, cumprindo ordens superiores Ex: portarias, instruções
Classificação de um órgão quanto à estrutura:
Orgão simples (unitários) possuem apenas um único centro de competência; a sua característica fundamental é a ausência de
outro órgão em sua estrutura, para auxiliá-lo no desempenho de suas funções
Orgão Composto um dos titulares é um órgão (ex: Presidente da República); na sua estrutura possuem outros órgãos menores,
seja com desempenho de função principal ou de auxilio nas atividades, as funções são distribuídas em vários centros de competência
Orgão complexo junção de um órgão composto com outro órgão (ex: Primeiro-Ministro e Ministro)
Classificação de um órgão quanto à actuação funcional:
Orgão singular decidem e actuam por meio de um único agente, o chefe; os órgãos singulares possuem vários agentes auxiliares,
mas sua característica de singularidade é expressa pelo desenvolvimento de sua função por um único agente, em geral o titular.
Orgão colectivo decidem pela manifestação de vários membros, de forma conjunta e por maioria, sem a prevalência da vontade do
chefe, a vontade da maioria é imposta de forma legal, regimental ou estatutária.

II.4 Forma de Estado do Estado Português


O Estado Português é um Estado Unitário, regional, parcial, homogéneo, com integração.
Regiões autónomas não participam nem na elaboração nem na modificação da Constituição e não estão representadas no Parlamento porque
fazem parte de um Estado uno o seu poder não é originário mas sim delegado por parte da Constituição Portuguesa.
Historicamente Portugal assumiu a forma de Estado unitário art. 6.º CRP
Estado unitário que respeita ―o regime autonómico insular‖ ART. 6º/2 CRP inexiste momento constituinte nas regiões
autónomas
A soberania nacional é una e indivisível art. 3.º CRP os actos regionais têm de respeitar o teor da Constituição portuguesa
Cada região autónoma possui um estatuto político-administrativo próprio aprovado exclusivamente pela Assembleia da República (não
se prevendo a participação específica de representantes regionais) e sujeita a promulgação pelo Presidente da República
Não existe uma câmara parlamentar própria de representação das regiões autónomas no sistema de órgãos do Estado os
deputados eleitos pelos seus círculos eleitorais representam todo o país e não o círculo por que foram eleitos art. 152.º/2 CRP
Portugal é um Estado unitário:
Regional homogéneo mesmo que as regiões possuam estatutos políticoadministrativos diferentes
Parcial pois apenas os Açores e a Madeira podem ter o estatuto de região autónoma)
Com integração os arquipélagos dos Açores e da Madeira são parte integrante do Estado português Art. 5.º e 6.º CRP

Diferença entre delegação de poderes e alienação de poderes:


Alienação de poderes: ocorre quando um ou um grupo de indivíduos entregam todos os seus poderes de decisão a um ente exterior
(Hobbes) ou cada um a todos os outros que integram uma determinada sociedade (Rousseau), de forma permanente e não revogável
Delegação de poderes: (Locke) as pessoas de uma sociedade emprestam os seus poderes a um ente exterior, no entanto podendo
sempre retirar essa delegação de poder. Esta delegação era tbm só de alguns poderes, aqueles que interessam à esfera do poder
político público. Os poderes referentes à vida intima de cada permanecem intactos.

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III - Regimes políticos e sistemas de governo
Problemática das formas de governo, regimes políticos e sistemas de Governo remonta à Antiguidade Clássica, tendo sido objecto de estudo:
Aristóteles, John Locke, Montesquieu
Forma de governo ou forma política modo como o poder político se estrutura e se exerce no quadro do Estado, tendo especialmente em vista
a disciplina da actividade dos órgãos de soberania e as suas relações recíprocas. Dentro deste âmbito, podemos dividir:
Sistema de Governo titularidade dos órgãos de soberania e do modo como estes se organizam, funcionam e relacionam
Regime Político relação que se estabelece entre os indivíduos e o poder político, o funcionamento do sistema político-constitucional

III.1 Formas de Governo


Montesquieu elaborou a base do pensamento moderno de forma de governo, dividindo-o em três espécies:
Republicano povo, como um todo, possui o poder
Monárquico um só governa, de acordo com as leis estabelecidas
Despótico um só governa, sem obedecer às leis
Até hoje, prevalece a monarquia e a república.
Monarquia Soberania reside no Chefe de Estado (Rei)
Já foi adoptada em todo o mundo, estando hoje restrita a alguns Estados
Com o surgimento do Estado Moderno e a necessidade de poder forte houve o fortalecimento da monarquia absolutista
Com o tempo e ideia de Estado Constitucional surgem as monarquias constitucionais, onde o Rei fica sujeito à Constituição
Actualmente, ainda existe a monarquia mas com limitação do poder, na forma de monarquia parlamentar, em que o Rei
reina, mas não governa.
Características:
Vitaliciedade
Hereditariedade (sucessão)
República Soberania reside no Povo, representado por um órgão do Estado
Apresenta-se como um sistema de participação popular, mais amplo
Coloca-se no lado oposto à monarquia e, por apresentar uma possibilidade maior de participação popular, tem um sentido
muito próximo do significado de democracia
Características:
Temporalidade
Electividade

III.2 Regimes Políticos


Regime Político forma como o sistema político-constitucional funciona; relações estabelecidas entre os indivíduos e o poder político
Caracterização dos regimes políticos deve assentar em vertentes de análise:
a titularidade da soberania
o processo de designação
o estatuto dos titulares dos órgãos de soberania
Actualmente, os regimes políticos que se conhecem são essencialmente dois:
Democracia
Totalitarismo (Autoritarismo)
É importante analisar os regimes políticos tendo por base os seguintes aspectos:
A liberdade dos indivíduos adoptarem uma filosofia de Estado própria ou, por oposição, a imposição de uma ideologia constitucional
ou legalmente consagrada a todos os indivíduos
A possibilidade dos indivíduos acederem aos órgãos de soberania ou, por oposição, a afectação desses órgãos à ideologia política
imposta, com sacrifício dos direitos fundamentais dos indivíduos
A adopção, ou não, de formas autocráticas de designação dos governantes e controlo do exercício do poder político

Estado Democrático:
Um Governo exercido pelo povo não é necessariamente um regime democrático a maioria pode esmagar a minoria regime totalitarismo
Na nossa concepção, este é um Estado em que os representantes são eleitos pelo povo, de forma temporária;
Existe um sistema de separação de poderes ninguém pode ter em si a totalidade do poder público; existe sempre a possibilidade
de uma instituição controlar o poder de outra (ninguém pode exercer pode público sem estar controlado)
Garantia do povo contra o arbítrio da maioria
Estado em que existe uma Constituição que protege direitos, liberdades e garantias de todos os indivíduos;
Não pode existir uma democracia sem constituição - limita o poder e garante os direitos do povo que são sempre protegidas
Ninguém pode exercer um poder público sem deter qualquer forma de legitimidade democrática
Esta legitimidade pode prover de eleição directa ou nomeação pelo Presidente.
Criou-se uma lei ordinária em que não se permite que alguém exerça um mandato mais de 3 vezes consecutiva, tendo de esperar 4 anos até ser
nomeado acontece devido a sentimento de desconfiança em relação ao povo (julgam-no incompetente/pouco iluminado/facilmente influenciável)
Todos podem votar mas é necessário que o Estado assegure uma educação aos seus cidadãos para que possam votar com instrução
Estado Democrático única forma de garantir que o povo está esclarecido em relação às pessoas em quem vão votar é a garantia da verdade.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 33


Num Estado democrático não pode haver desresponsabilização do povo
votar é um dever democrático e quem não o faz (ou faz erradamente) tem de assumir responsabilidades
O povo não pode sancionar o Governo em caso de não cumprimento de promessas o único ―castigo‖ é a não reeleição.
Paradoxo de Karl Popper: «Pode um regime democrático conviver com ideologias que reprimem a liberdade e que têm como pressuposto a
repressão do regime democrático? Pode dar-se projecção a regimes não democráticos de forma a conduzir à sua própria destruição?»
Liberdade dos antigos: liberdade da esfera privada (privacidade) direito que o individuo tem de ter uma esfera de protecção contra a
intervenção do poder público.
Liberdade dos modernos: liberdade e direito de expressão na esfera pública

III.3 Sistemas de Governo


Sistema de Governo organização e funcionamento dos diversos órgãos de soberania e modo como tais se relacionam; modo como as
competências políticas estão dispersas pelos órgãos de soberania e como estes se relacionam entre si; forma interna de estruturação do Estado.
Podemos configurar três grandes sistemas de Governo: o sistema parlamentar, o sistema presidencial e o sistema semipresidencial
Presidencial:
Incremento do poder do Chefe de Estado face ao Parlamento principais poderes de determinação da acção governativa
Eleição do Chefe de Estado por sufrágio universal
Governo formado pelo Chefe de Estado que é, em certos casos, o Chefe do Governo (presidencialismo perfeito)
Governo é exclusivamente responsável perante si, muito embora sob fiscalização do Parlamento
Chefe do Estado é quem define a linha de actuação política
Governo não responde perante o Parlamento ministros não assistem a reuniões do Parlamento nem dão explicações
Chefe de Estado controla a produção normativa:
só ele pode apresentar propostas de lei
o Parlamento pode apresentar projectos de lei, mas o Chefe de Estado goza de direito de veto político
O Chefe de Estado pode livremente modificar, revogar ou suspender as leis aprovadas pelo Parlamento
Como equilíbrio a esta prevalência do Chefe de Estado, não lhe assiste o poder de dissolver o Parlamento.
Figuras de Relevo:
Congresso
Presidente
Presidencialismo perfeito Sistema Americano
O Congresso divide-se em dois órgãos:
Senado mera representação dos estados, presidido pelo vice-presidente dos E.U.A
função de definição da política internacional e ratificação de tratados internacionais
senador tem mandato de seis anos.
Câmara dos representantes representantes do povo dos EUA;
funções legislativas;
presidente com mandato de dois anos;
A figura central é o presidente, o chefe de Estado
Existe um Parlamento que não pode ser dissolvido pelo presidente
Apenas o Congresso pode aprovar leis;
Presidente tem direito de veto quando Congresso aprovar uma lei que não agrade ao presidente
Semipresidencial:
Existência de um terceiro centro autónomo de poder: Governo
Governo formado por nomeação pelo Chefe de Estado e tendo por base os resultados eleitorais parlamentares
Subsistência do Governo depende da confiança parlamentar
Aprovação de moções de confiança
Aprovação do programa do governo
Não aprovação de moções de censura
Dupla responsabilidade do Governo face ao Parlamento e face ao Chefe de Estado
Explica-se pelo facto dos dois órgãos serem eleitos por sufrágio universal e directo, ao invés do Governo
Chefe de Estado dispõe de poderes de dissolução do Parlamento e veto sobre os diplomas aprovados pelos outros órgãos;
Figuras de Relevo:
Presidente
Parlamento
Governo autónomo mas responsabiliza-se perante o Parlamento e Chefe de Estado
Semipresidencial Sistema Francês
Este sistema tem em vista controlar reciprocamente os poderes do presidente e do parlamento
Em França há a particularidade do presidente francês ter um poder mais forte pois:
tem competências para regular as relações internacionais
assume o direito de assistir e quase presidir as reuniões do conselho de governo
Os poderes do primeiro-ministro são os mesmos que em Portugal, Itália ou Alemanha, tal como os do presidente

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 34


Parlamentar:
Prevalência do Parlamento sobre os demais órgãos cabe-lhe conformar a escolha e a acção governativa
Exigência da responsabilidade política do Governo perante o Parlamento
Formação do Governo tem por base indicações formuladas pelo próprio Parlamento
Os membros do Governo devem assistir às sessões parlamentares
Subsistência do Governo dependente da confiança parlamentar
É dissolvido pela aprovação de moção de censura ou pela rejeição de moção de confiança
Cargo de Chefe de Estado tem um valor simbólico e imparcial reduzida dimensão política
traduz-se no facto de não poder dissolver o Governo, apenas o poder fazer em casos muito restritos
Figuras de relevo:
Parlamento
Governo depende politicamente do parlamento e, por isso, por mais que exista uma centralização da vida
política no Governo, o verdadeiro centro é o Parlamento.
Parlamentar Sistema Britânico
Não existe congresso mas sim Parlamento, que se divide em duas grandes câmaras:
Câmara dos Lordes tem aproximadamente 630 membros;
têm a função de funcionar como supremo tribunal de justiça/de apelação;
o presidente da câmara dos lordes não é necessariamente um membro da câmara dos
lordes mas um ministro da justiça e todas as leis relacionadas com a justiça têm de ser
decididas na câmara dos lordes
local onde a rainha faz os seus principais discursos.
Câmara dos Comuns é eleito um speaker que comunica ao rei aquilo que foi discutido na câmara
dos comuns
tem um formato rectangular, com pessoas de cada partido, de cada lado
Tem poder legislativo e responsabilidade política.
No Reino-Unido só há um deputado de cada círculo eleitoral/de cada partido; isto significa
que se acontecer alguma coisa a esta pessoa são feitas novas eleições.
A câmara dos comuns tem um mandato de 5 anos, no máximo, mas não é obrigatório que
tal tempo se concretize; quem define o tempo do mandato é o primeiro-ministro porque a
qualquer momento este pode dizer que quer que se façam eleições: dirige-se ao rei e este
dissolve o parlamento
Neste parlamentarismo a relação que se estabelece entre a câmara dos comuns e o governo é especialmente
importante
A composição do governo é definida de acordo com a maioria parlamentar
Num sistema destes círculos há uma relação directa entre os eleitores e os eleitores
Uma vez perdida a confiança do parlamento no governo, este último tem de cair
Há um modelo perfeito de parlamentarismo pois só pode ser membro do governo quem for membro do
parlamento
No Reino Unido o governo é obrigado a trabalhar dentro do parlamento:
os gabinetes de todos os ministros é obrigatoriamente no mesmo edifício, de modo a
facilitar o contacto
se chamarem um ministro a prestar declarações, telefonam-lhe e o ministro tem de ir logo
ao parlamento
Aqui acentua-se a preponderância do parlamento
Se algum dia algum membro de algum partido mudar de partido, fica obrigado a mudar de
lugar na sala
A rainha da Inglaterra é a representante máxima da Igreja anglicana representa o país
Inicialmente o rei de Inglaterra era o chefe de Estado e do Governo mas perdeu-se quando Isabel I foi
rainha da Inglaterra e não tinha meios para governar, então nomeou-se um homem
A rainha só tem, na prática, três direitos:
direito de ser informada acerca de assuntos importantes
direito de dar as suas opiniões em privado e não em público
direito de promulgar/sancionar as leis. Proibida de fazer ―o que quer que seja‖
Mesmo o discurso mais importante da rainha, anual na câmara dos Lordes, é escrito pelo primeiro-
ministro.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 35


III.4 Estado Português: Sistema de Governo e Regime Político
Regime Político Português é um Regime democrático, expresso no Art. 2º da Constituição
Sistema Governo Português Sistema semipresidencial equilíbrio entre Presidente da República, Assembleia da República e Governo
Órgãos de Soberania em Portugal: Presidente da República, Assembleia da República, Governo, Tribunal
Presidente da República: (Art. 120º CRP)
É o garante político da Constituição (Art. 127 CRP) papel moderador; órgão de soberania acima da luta política
Funções: Poderes Próprios (Art. 133º e 134º CRP) e Podes Partilhados (promulgar leis e decretos-leis)
Representa a República Portuguesa internacionalmente
Declara a guerra ou faz a paz; nomeia embaixadores; ratifica tratados e faz acordos internacionais
Promulgar as leis e decretos-leis e exercer direito de veto; nomear e exonar membros do Governo;
Pode demitir o Governo ou dissolver Assembleia (Art. 133 e 174º CRP)
Figura que procure compreender o estado de espírito do país voz de todos os portugueses (transmitindo-a)
Pode solicitar a fiscalização preventiva ou sucessiva da constitucionalidade de diplomas
Magistratura de influência é alguém que deve pôr termo a conflitos políticos (figura «paternal»)
Eleição (universal, directo e secreto); Mandato( de 5 em 5 anos); Cessação de Mandato ver Constituição
Abandono de funções utiliza-se como caso análogo a saída do território; O que acontece quando está doente ou morre? é
substituído pelo Presidente da Assembleia – Presidente Interino - ou, caso este não possa, será substituído por um deputado
Direito de Veto: pode recusar assinar os decretos da Assembleia para promulgação, quando entender que suscitam dúvidas, o que
implica um pedido de reapreciação, para a Assembleia ou Tribunal (total se for do Governo; suspensivo se for da Assembleia).

Assembleia da República: (Art. 147º CRP)


Tem uma estrutura unicameral; tem entre 180 a 230 deputados: um deputado, uma vez eleito, representa todo o Estado Português
Eleito por um mandato de 4 anos (Art. 150º CRP) Pode ser eleito qualquer cidadão português, através de algum partido
Funções: Política, Legislativa, Fiscalização
Elege o Provedor de Justiça; Elege 10 juízes do Tribunal Constitucional; Elege 5 membros do Conselho de Estado
Função Legislativa:
Revisão Constitucional; Aprovar tratados internacionais
Aprovar leis e conceder autorizações legislativas ao Governo e às Assembleias Legislativas Reginais;
Função Política:
Controlo político do Governo votar moções de censura ou confiança
Fiscalização política (perguntas, visitas)

Governo: (Art. 182º CRP)


Órgão de condução da política geral do país e órgão superior da administração pública
Governo é responsável perante Presidente da República e Assembleia da República
Funções:
Pode aprova decretos-lei após ―autorização legislativa‖ por parte da Assembleia da República, pois trata-se de matéria da
sua exclusiva competencia, reserva relativa
Competências políticas, legislativas e administrativas
Composto pelo Primeiro-ministro (quem dirige politicamente o Governo), ministros, secretários e sub-secretários de Estado

Tribunais: (Art. 202.º CRP)


Funções:
Assegurar a defesa dos direitos e interesses dos cidadãos; diminuir os conflitos de interesses públicos e privados;
Reprimir a violência da legalidade democrática; fiscalização do poder político
Hierarquização dos Tribunais, para efeito de recurso das suas decisões:
Supremo Tribunal de Justiça órgão superior dos tribunais judiciais, sem prejuízo da competência própria do Tribunal
Constitucional. Tem sede em Lisboa e competência em todo o território nacional.
Tribunais da Relação ( Tribunais de 2ª Instância) funcionam por principio na sede do respectivo distrito judicial, tomando
a designação deste e exercendo aí a sua competência (em Lisboa, Coimbra, Porto, Évora, Guimarães e Faro)
Tribunais Judiciais (Tribunais de 1º Instância) são em regra os Tribunais de Comarca e designam-se pelo nome da
circunscrição em que se encontram instalados.
Características:
Inamovibilidade não podem ser transferidos, suspensos ou demitidos senão nos casos previstos na lei
Irresponsabilidade não podem ser responsabilizados pelas suas decisões, respondem apenas à sua consciência
Independência face aos poderes executivo e legislativo
«Separação de poderes» é essencial no assegurar da independência dos Tribunais face aos demais órgãos de soberania
Categorias dos tribunais: Tribunais marítimos; tribunais arbitrais; tribunal de contas; Tribunal Constitucional.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 36


Modelo parlamentarista foi adoptado em Portugal durante a primeira República mas só houve um presidente a completar o seu mandato por
inteiro, houve mais de 50 governos
O Estado Novo teve um governo de presidencialismo de primeiro-ministro e a opção tomada mais tarde foi igual à tomada em França
Em Portugal, a nossa constituição era mais presidencialista do que aquilo que é hoje em dia e os poderes do presidente eram, na versão
originária, superiores àqueles que tem hoje – Presidente da República que faz cada vez menos
A Constituição portuguesa que mais protegia os direitos fundamentais foi a de 33, durante o Estado Novo.
Artigo 288.º da CRP estipula como limite material de revisão constitucional a «forma republicana de governo»
O Presidente da República e a Assembleia da República são eleitos por sufrágio universal directo e o Governo é nomeado pelo Presidente da
República, tendo por base os resultados eleitorais e a composição da Assembleia da República (Art. 187º CRP) soberania democrática directa.
O Governo é politicamente responsável perante o Presidente da República e a Assembleia, estando a sua subsistência dependente destes
Seguiu-se o sistema francês, o que implicou a existência de um chefe de estado que não tivesse em si as funções de chefe de governo, o
Presidente da República embora tenha direito de veto sobre a legislação, não pode ele próprio vir a aprovar uma lei ou decreto-lei.
O Programa de Governo é apresentado logo após este tomar posse e, caso se suspeite que não será aprovado, então este não irá a votação.
Não existe assim obrigatoriedade de votação, apenas de apresentação.
Perante o Presidente da República há a obrigação de o Primeiro-Ministro se apresentar semanalmente (uma vez) ao palácio, explicar ao
Presidente aquilo que se estava a passar
Relativamente à Assembleia da República, há a obrigação de o Governo se apresentar quinzenalmente no Parlamento.

Geração dos Direitos dividem-se/agrupam-se em três gerações, conforme as etapas/épocas históricas em que foram declarados:
Direitos da 1ª Geração direitos fundamentais: liberdade e igualdade; direito à vida; propriedade privada; constituir familia
Direitos dos indivíduos que decorrem da livre actuação dos indivíduos em sociedade, isolada ou colectivamente.
Direitos da 2ª Geração direitos políticos: direito de voto; acesso a cargos públicos; liberdade de manifestação, de expressão
Direitos que atribuem aos cidadãos o poder de cooperarem na vida estadual ou no exercício de funções públicas
Direitos da 3ª Geração direitos económicos, sociais e culturais: direito à saúde, educação, trabalho, habitação
Parte da exigência do Estado em garantir as condições mínimas de vida em sociedade.
Direitos da 4ª Geração direitos de solidariedade, desenvolvimento sustentável, responsabilidade geracional
Direitos da 5ª Geração direitos de acesso à tecnologia e acesso à Internet

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 37


PARTE III - Os princípios fundamentais do Estado de Direito. Em especial, os princípios fundamentais da República Portuguesa
Princípios em três grandes planos:
os princípios estruturantes do Estado de Direito
os princípios da acção do poder estadual
os princípios da organização administrativa e poder administrativo

1º - PRINCÍPIOS ESTRUTURANTES DO ESTADO DE DIREITO

I -A dignidade da pessoa humana como fundamento e critério da acção do Estado.


33. A construção do Estado a partir da dignidade da pessoa humana. O artigo 1º da Constituição.
A dignidade da pessoa humana é a base ou fundamento do Estado português, da sua organização política Art.1º CRP
Prioridade da pessoa relativamente ao Estado a vontade política só existe porque a pessoa existe

33.1.Conceito de dignidade da pessoa humana


Não existe uma definição concreta embora todos os saibam o que significa implica todo o indivíduo, liberdade de consciência, liberdade de
opção, reconhecimento da razão do ser humano «não coisificação da pessoa humana
Günter Dürig desenvolveu fórmula que permite saber quando há violabilidade da dignidade humana definição negativa:
Sempre que a pessoa for degradada à categoria de objecto ou a meio para a realização de um fim
A dignidade da pessoa não é uma realidade é uma realidade que só no concreto é perceptível
Tem uma natureza irredutível, insubstituível e irrepetível cada homem ou mulher
Dignidade da pessoa funciona como critério de acção no concreto (embora seja um direito algo subjectivo)

33.2. Conteúdo.
Dignidade da pessoa humana conceito-chave do sistema político desdobra-se numa multiplicidade de acções:
em redor dos direitos pessoais direito à vida (art. 24º), direito à integridade física (art. 25º)
em redor dos direitos políticos direito de sufrágio (art. 49º), direito de petição (art. 52º)
em redor dos direitos sociais, económicos, culturais direitos dos trabalhadores (art. 59º ), direito à saúde (art. 64º), direito ao ensino
em redor dos direitos de qualidade direito do ambiente (art. 66º), direito à qualidade de vida urbana (art. 65º)
Dignidade humana não é só o fundamento do sistema organizatório do Estado é também a referência, por excelência, da sua acção e da
acção relacional de toda a comunidade, através dos direitos fundamentais de que é alimento

33.3. Concretização
A consagração e salvaguarda da Dignidade da pessoa humana concretiza-se nas normas legais que dão corpo ao projecto constitucional:
prevêem o regime jurídico da segurança social
garantem um rendimento mínimo
garantem a educação básica
estabelecem restrições à construção de edifícios para defesa da memória e da identidade do homem património nacional
defendem a saúde dos consumidores

33.4. Critério de acção.


Na ausência da norma legal a dignidade da pessoa humana é conceito orientador da acção pública, é a referência decisória que:
molda os princípios de intervenção comunitária e permite o aprofundamento de outros
fundamenta opções
estrutura a selecção dos interesses que devem ser satisfeitos
permite o estabelecimento de hierarquias e prioridades de actuação
impõe soluções organizatórias

33.5. Excurso histórico.


Séc. XVIII (primórdios do Estado-Constitucional) as ideias do racionalismo e do contratualismo criaram uma ideia de Constituição em redor de
uma certa concepção de homem, o indivíduo racional este é compreendido como um ser solitário, como ser capaz de construir o seu destino
Séc. XIX (Estado liberal, Estado-Legislação) as ideias do racionalismo acentuam-se em redor do homem como alguém que se assume,
simultaneamente, como proprietário e como agente de progresso para a sua defesa cria-se a lei que garante a regularidade das actuações, a sua
previsibilidade, para além de conferir a ideia de segurança à vida em sociedade
Séc. XX (Duas Grandes-Guerras) O optimismo que, nos períodos anteriores, permitiu a construção de uma imagem abstracta de homem livre
e igual, bem como a imagem de homem proprietário e agente de progresso é profundamente abalado
Após a 2ª Grande Guerra e as respectivas consequências necessidade de compreender a construção do Estado não sobre uma
ideia abstracta de homem mas sobre a dignidade da pessoa, na sua realidade concreta
Sobre esta concepção foi edificada a nossa Constituição de 1976
Séc. XXI desafios da globalidade, solidariedade intergeracional e sustentabilidade ambiental do desenvolvimento novo aprofundamento da
dignidade da pessoa humana preocupação com dignidade das pessoas humanas das próximas gerações

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 38


33.6. Jurisprudência constitucional portuguesa.
Dignidade da pessoa humana qual o seu conteúdo no ordenamento jurídico português? A jurisprudência Constitucional Portuguesa refere
que:
É difícil delimitar os contornos da dignidade da pessoa humana mas pode retirar-se um conteúdo mínimo de homem ou mulher
É um valor a concretizar diariamente e continua a aprofundar-se e ampliar-se no seu conteúdo
É o «valor supremo» no sistema constitucional, o «princípio estruturante» da República Portuguesa
Identifica-a com o «princípio da actuação do Estado de Direito»
corresponde a uma compreensão material da acção do Estado:
no plano das finalidades do Estado
no plano do procedimento
no plano dos meios de actuação, organizatórios e materiais

34. Dignidade da pessoa humana, Constituição e direitos fundamentais


Constituição institui o Estado e nasce como estatuto organizatório deste, como forma de disciplinar o político e conferir previsibilidade à sua
acção Acto fundador do Estado defende a pessoa conta agressões, abusos e arbítrio do poder estadual
Séc. XVIII a Constituição nasce como realidade à margem da comunidade diploma que impõe regras aos órgãos do poder político, os
estrutura internamente e funciona como barreira ou muro para potenciais agressões aos cidadãos
Actualmente, em virtude de ter por fundamento a dignidade da pessoa humana Constituição deixa de ser compreendida só como lei
fundamental do Estado enquanto organização Amplia-se materialmente e assume-se como lei fundamental da própria comunidade política
impõe deveres aos cidadãos, perante o Estado e perante a comunidade deveres de participação política
defende o cidadão de intromissões do Estado defesa da vida privada
disciplina directamente as relações entre os próprios cidadãos (art. 18º CRP)
Densificação do sentido da Constituição através da densificação do conceito de dignidade da pessoa humana, permite encontrar nela:
bases do desenvolvimento económico, social e cultural (organização política do Estado)
catálogo dos direitos fundamentais, os direitos sociais, económicos e culturais (mais direitos pessoais e políticos)
catálogo dos deveres políticos do cidadão (dever de defesa da pátria, defender ambiente, contribuir para boa ordenação do território)

34.1. Dignidade humana, direitos fundamentais e deveres fundamentais.


Dignidade da pessoa humana funciona como fórmula aberta a novos deveres fundamentais ou à intensificação dos existentes (art 65º/ 5
CRP) Abertura a novos direitos e o aprofundamento dos existentes está patente art. 16º CRP
Princípio dos direitos constitucionais e legais deverem ser interpretados e integrados à luz da Declaração Universal dos Direitos do Homem
torna os direitos fundamentais uma dimensão essencial da própria ideia de Direito
Deveres fundamentais podemos distinguir várias modalidades:
Direitos/deveres os direitos ocupam o papel principal caso do direito à protecção de saúde e dever de a defender art. 64º
CRP
Deveres fundamentais autónomos caso do dever de pagar impostos art. 103º, 104º CRP
Deveres como dimensão essencial do exercício de um direito caso do exercício do direito de sufrágio que constitui um dever cívico
Deveres/direitos os deveres ocupam o papel principal caso do dever de defender a pátria e direito à defesa da pátria Art. 276º

34.2. Dignidade humana e estado de sítio e estado de emergência.


Dignidade da pessoa humana ideia agregadora na definição do estado de sítio e do estado de emergência art. 19º CRP
está directamente relacionada com os direitos, liberdades e garantias susceptíveis de serem suspensos
a declaração do estado de sítio, em virtude de agressão iminente ao Estado ou de calamidade pública grave, não pode ter como
consequência a suspensão de determinados direitos direito à vida, à identidade e integridade pessoal, à liberdade de consciência
é a dignidade humana que proíbe aprovação de alteração constitucional durante estado de sítio ou emergência art. 289º CRP
Mesmo em períodos de perturbação da vida comunitária em que se torna necessário adoptar regimes jurídicos de excepção, a dignidade humana
impõe-se como valor limite a tendências totalitárias:
proíbe o retorno a vivências históricas degradantes: como o genocídio étnico ou a escravatura
Valor que impede a pena de morte, a tortura, os maus tratos

34.3. Dignidade humana e perspectivas de análise.


Densificação do conteúdo da dignidade da pessoa humana permite distinguir três dimensões ou perspectivas de análise:
dignidade humana como realidade intrínseca como realidade em si desta dimensão emerge:
direito ao desenvolvimento da personalidade como liberdade de conformação e de orientação de vida art. 26º/1 CRP
princípio fundamental de respeito pelos direitos de personalidade
direito à identidade pessoal (art. 26º/1 CRP) e se exprime na liberdade de consciência (problema da clonagem humana)
promoção constitucional do percurso de realização pessoal
garante o «desenvolvimento integral» das crianças art. 69º/1 CRP
integração e participação activa dos deficientes na vida da comunidade art. 71º CRP
direito à protecção da família para a realização pessoal dos seus membros art. 67º/1 CRP
direito à organização do trabalho em condições socialmente dignificantes art. 59º/1, b) CRP
garante aos pais e mães a realização profissional e de participação na vida cívica do país art. 68º/1

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 39


dignidade humana como realidade relacional ideia de reciprocidade
sentido de dever para com os outros, numa cadeia de responsabilidades ou deveres públicos
O mercado de trabalho deve abrir-se sem entraves
a comunidade que, através dos tribunais, sentenciou a pena de privação da liberdade, deve agora, cumprida a
pena, integrá-lo socialmente, não lhe aplicando segunda pena, a pena de marginalização
direitos dos consumidores Art. 66º CRP
direitos dos trabalhadores no trabalho Art. 59º CRP
“espírito de tolerância e da compreensão mútua” Art. 73º/2 CRP
dignidade humana como realidade aberta a prestações conteúdo dos direitos sociais direito à saúde ou direito à habitação
Conclusão a dignidade humana é da pessoa em relação às demais, daí que a vinculação aos direitos, liberdades e garantias se não dirija
somente ao Estado e demais pessoas colectivas públicas e sim também aos particulares e entidades privadas Art 18º CRP

34.4. Unidade da dignidade humana e pluralidade de direitos a que dá forma.


Enriquecimento cultural que a dignidade humana foi sedimentando permite divisar quatro modalidades de direitos:
direitos pessoais, de liberdade ou de não agressão do Estado
direitos de participação política
direitos a prestações do Estado ou direitos económicos, sociais e culturais
direitos de qualidade

34.5. Dignidade da pessoa humana, direitos de liberdade e princípio da igualdade


Enriquecimento cultural da dignidade da pessoa humana permitiu diferenciar:
direito geral de liberdade dos direitos especiais de liberdade garante o cidadão face a agressões abusivas e arbitrárias do Estado
o princípio da igualdade dos direitos especiais à igualdade liberdade traduzem específico exercício da liberdade:
liberdade de expressão (artigo 37º)
liberdade de reunião (art. 45º)
liberdade de associação (art. 46º e 55º)
liberdade de manifestação (artigo 45º)
Igualdade como princípio garante:
Igualdade perante a lei todos são iguais perante a lei (artigo 13º, nº 1)
proíbe discriminações e impõe o dever de diferenciar obriga que se trate o igual igualmente e o desigual, desigualmente, na exacta
medida da diferença diferenciar o que é diferente «discriminações positivas»
Ex: especial protecção reconhecida constitucionalmente às crianças órfãs ou abandonadas (artigo 69º, nº 2)

34.6. Dignidade humana e direito de propriedade


Aprofundamento cultural da dignidade da pessoa humana patente na diminuição do peso relativo do direito de propriedade, considerado um
direito absoluto e sagrado nas Constituições ao Estado liberal Art. 62º CRP
Aumento do respeito pelo «ser» da pessoa ganhou ênfase, ampliou-se diminuição do respeito pelo «ter»

34.7. Dignidade humana e condições mínimas de existência.


Sedimentação cultural pressupostos mínimos de uma forma digna de estar:
direito à vida e à integridade pessoal, bem como o direito à liberdade e à segurança
impõe mínimos de subsistência para o gozo efectivo destes direitos:
protecção das pessoas com deficiência (artigo 71º, nº 1)
direito das pessoas idosas à segurança económica (artigo 72º)
definição dos impostos adequados aos encargos familiares (artigo 67º, nº 2, f))
garantias especiais dos salários (artigo 59º, nº 2)
direito à habitação (art. 65º, nº 1)

34.8. Dignidade humana, pena de morte e extradição.


Direito à vida proíbe a pena de morte ou qualquer outra lesão irreversível da integridade física art. 24º/2 e art. 33º/6 CRP
proibição de extradição por crimes a que corresponda, segundo a lei do Estado requisitante, pena de morte (artigo 33º, nº 6)
Se a extradição é a transferência de uma pessoa que se encontra no território de um Estado e sob a autoridade deste para
o território de outro Estado, e a pedido deste último, para aí ser julgada pela prática de um crime, se não se proibisse a
extradição nos casos em que o Estado requisitante atribui a pena de morte, estar-se-ia, através da extradição, a
potencialmente entregar uma pessoa à morte.

34.9.Dignidade humana e deveres do Estado no plano internacional.


Dignidade da pessoa humana, «pilar da construção do Estado» formação do direito internacional fundado na Dignidade da Pessoa Humana

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 40


II - O princípio do Estado de Direito
35. A legitimidade da acção estadual e a garantia da realização do direito pelo Estado. O artigo 2º da Constituição.
Princípio do Estado de Direito consagrado no art. 2º da CRP um dos preceitos constitucionais mais invocados pelo Tribunal Constitucional
Exige que toda a acção do Estado tenha no direito o fundamento a acção do Estado encontra no Direito o padrão de aferição da
sua validade, o que significa que o Estado se legitima no Direito Ideia de poder limitado pelo direito
O princípio do Estado de Direito desdobra-se em inúmeros subprincípios:
princípio da proibição do arbítrio;
princípio da separação de poderes;
princípio da tutela da confiança;
princípio da proporcionalidade;
princípio da efectivação dos direitos fundamentais
Expressão no art. 2º CRP, «Estado de direito democrático» afirma-se que é uma expressão pleonástica pois um regime democrático
(democracia representativa plural) corresponde a um Estado de Direito «o Estado de direito é democrático e só sendo-o é Estado de direito»
É uma expressão que pode criar ambiguidades Estado de Direito democrático parece pretender diferenciar-se de Estado Social de Direito
Porquê, então, «Estado de direito democrático»?
A expressão tem raízes históricas (nasce na Assembleia Constituída em 1975) e só no contexto em que foi criada se justifica. Nessa
altura, após o 25 de Abril era importante dar ênfase à democracia política evidenciava a diferença em relação ao período anterior
A referência à democracia permitia consagrar constitucionalmente como ideia-chave a garantia de direitos económicos, sociais e
culturais o que, só por si, a expressão «Estado de Direito» não abarcava
Havia o desejo de afastar do conceito-chave do Estado o adjectivo «social», em virtude das conotações ideológicas

35.1. A proibição do arbítrio como momento integrante do princípio do Estado de Direito. As três matrizes evolutivas do princípio do
Estado de Direito.
Princípio de Estado de Direito proíbe o arbítrio e o abuso do poder é hoje compreendido num quadro de síntese de três matrizes evolutivas:
Histórica raiz anglo-saxónica conhecida como a matriz da «rule of law»
Revolucionária raiz francesa suportada pelo princípio da legalidade
Filosófica raiz alemã no seio da qual a própria expressão foi gerada «Rechtsstaat»

35.1.1. A raiz anglo-saxónica


Expressão «rule of law» é tendencialmente mais ampla que o princípio de Estado de Direito:
quer pela capacidade demonstrada em se adaptar à evolução e às diferentes vicissitudes históricas;
quer por significar não só a necessidade de a acção estadual se legitimar no direito como ainda o meio de acção judicial a utilizar em
caso de transgressão se o Estado não cumpre o direito, a sua acção pode ser levada a um tribunal, como acontece com o cidadão
Princípio da «rule of law» foi forjado ao longo dos tempos, na Inglaterra, percorrendo a Idade Média, a Moderna e a Contemporânea
Ampliou-se depois aos Estados que receberam a sua influência particularmente aos Estados Unidos da América
Encarna uma evolução sem grandes rupturas sociais tem expressão em documentos de respostas a específicos momentos de alargamento
desmesurado do poder régio que o povo soube suster adequadamente, assegurando a sua liberdade com a necessidade de autoridade:
Magna Carta (1215) como resposta à actuação abusiva de João S/ Terra
Bill of Rights (1689) como resposta à actuação abusiva de Carlos I
John Locke autor que melhor soube compreender este princípio tese de base contratualista, assente na separação de poderes e defesa:
«Prerrogativa régia» capaz de permitir ao rei agir em resposta a situações não predeterminadas em lei, em razão do bem comum
Direito do povo «apelar ao céu» para afastar a tirania, sempre que o rei ultrapasse os seus poderes e se torne um tirano
Fórmula inglesa não há distinção entre tribunais judiciais e tribunais administrativos organização única de tribunais

35.1.2.A raiz francesa


Ideais revolucionários franceses encarnados na constituição escrita, formalizada em lei, podem sintetizar-se em duas realidades distintas:
Compreensão da constituição lei como garantia:
garantia contra o arbítrio do poder consagração dos direitos dos cidadãos
garantia de fins limitados do estado administração da justiça e à segurança, interna e externa
garantia da actuação limitada do estado separação de poderes
Endeusamento da lei considerada a imagem da racionalidade e da justiça, e do parlamento, órgão representativo dos cidadãos
Formação do princípio da legalidade da administração pública (Direito Administrativo) nasce no Conseil d’état, criado por napoleão (1799)
Direitos dos cidadãos formalizados na Constituição elementos fundantes de um Estado Estado constitucionalmente limitado
Estado que tem uma constituição escrita é, só por si, um estado garantido contra o arbítrio
Máquina administrativa do estado só pode agir na base da lei Consequências:
Impossibilidade de o estado agir sem a predeterminação da actuação em lei
Possibilidade de os particulares, lesados por acções do poder administrativo dos seus direitos, poderem dirigir-se a tribunais
Tribunais Administrativos aferem a validade das actuações do poder administrativo
No quotidiano da acção administrativa a constituição não pode prever todas as actuações:
Criação de uma legislação infraconstitucional que determine os modos de acção da administração
Princípio da legalidade ideia prossecução do interesse público pelo estado tem de ter sempre fundamento numa lei anterior
Estado de direito edifica-se sobre lei formal leis da actuação do poder estadual (direito público) Lei Fundamental e Lei Administrativa

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 41


35.1.3.A raiz alemã
Alemanha é o berço da expressão «Estado de Direito» (ou «Rechtsstaat»), pela mão de Robert Von Mohl
Expressão «Estado de Direito» nasce ligada a um conjunto de doutrinas políticas para cobrir aquele tipo de Estado que se funda no homem:
Homem é ponto de partida e, simultaneamente, limite da sua acção o Estado é movido e limitado por valores humanos
Estado de Direito nasce como realidade valorativa não nasce ligado a uma instituição (Constituição) nem nasce ligado à forma que reveste
(forma jurídica) nasce ligado a um conteúdo valorativo, aquilo que o faz projectar-se na acção nasce como Estado de Direito Material
Expressão «Rechtsstaat» vê evoluir o seu conteúdo ideia de um Estado Concreto após Revolução Liberal cria raízes quando:
O seu conteúdo passa a aliar três realidades «Homem, Sociedade, Estado»
Estado só intervêm quando a sociedade não consegue desenvolver certas actividades acção subsidiária ou supletiva
Expressão «Rechtsstaat» evolui ligada aos meios que permitem concretizar a harmonização entre homem/sociedade/Estado (poder estadual):
Actividade Administrativa conjunto de normas que definem relações entre Administração estadual e particulares, com fins públicos
Justiça Administrativa ou tribunais órgãos a quem os particulares se dirigem solicitando a defesa dos seus direitos
Estado de Direito Material evolui para Estado de Direito Formal Direito Administrativo torna-se componente essencial do Estado de Direito
Não basta existir uma Constituição para garantir o cidadão contra abusos do poder estadual é necessário um direito de proximidade, que
regula o concreto agir do Estado e sua Administração Direito Administrativo
Fritz Werner: «O Direito Administrativo é Direito Constitucional concretizado» pela subordinação do Direito Administrativo à Constituição

35.2. A separação de poderes como momento integrante do princípio do Estado de Direito. O artigo 111º da Constituição.
Compreensão da separação de poderes (Art. 111º CRP) está subjacente às três matrizes evolutivas enunciadas:
Vinculação do Estado à lei e ao direito
Incumprimento da lei e do direito permite o recurso aos tribunais
Separação orgânica de poderes Parlamento/Governo e sua Administração/Tribunais
Os órgãos de soberania em Portugal são Presidente da República, Assembleia da República, Governo e Tribunais (Art. 133,161,197,202 CRP)
A soberania é definida pela referência orgânica à:
Separação material de poderes Legislativo/Administrativo/Judicial
Diferentes poderes que integram o poder soberano e que, no caso português, são:
Poder político-moderador do Presidente da República
Poder legislativo da Assembleia da República e do Governo
Poder administrativo do Governo e sua Administração
Poder judicial dos tribunais.
Separação funcional de poderes Legislar/Administrar/Julgar
Individualização das funções fundamentais do poder político
Separação institucional de poderes Lei/Acto administrativo/Sentença
Consagração constitucional do princípio organizatório básico do poder político trave mestra do Estado de Direito,
Não interessa evidenciar as ideias de «dividir para enfranquecer» ou enfatizar a fonte única do poder (povo) hoje tem o sentido de:
Separar funções entendidas como diferentes
Ordenar essas funções equilibradamente
Distribuir competências por órgãos distintos para optimizar as tarefas do Estado para alcançar as suas finalidades
Constituição não garante só a separação de poderes consagra também a interdependência de poderes (art. 111º CRP)
A interdependência de poderes está patente em três momentos distintos:
No sistema de governo (semi-presidencialismo) projecta-se através de uma rede de relações recíprocas dos órgãos de soberania
Na distribuição da função legislativa por dois órgãos de soberania distintos Assembleia da República e Governo
Na necessidade de intervenção de vários órgãos de soberania no exercício de certas competências
Ex: declaração do estado de sítio e do estado de emergência e o caso da nomeação e demissão dos titulares de órgãos
A separação e interdependência dos poderes consagrados na Constituição através dos critérios orgânicos e funcional:
Permite a construção da teoria do núcleo essencial:
Nenhum órgão de soberania pode esvaziar as funções que foram atribuídas constitucionalmente aos outros órgãos
Nenhum órgão de soberania pode transferir as competências que foram atribuídas constitucionalmente para outro órgão
Em caso de não se cumprir estes princípios subversão do princípio da separação de poderes violação do princípio do Estado de Direito

35.3. A proporcionalidade como momento integrante do princípio do Estado de Direito


Princípio da proporcionalidade elemento estruturante da ideia de Estado de Direito também designado princípio da proibição do excesso
Dimensão material do princípio da proporcionalidade está estritamente ligada ao regime dos direitos, liberdades e garantias (art. 18º/2 CRP)
Princípio da proporcionalidade pode ser encarado por três vertentes (arts. 165º, 198º, 19º, 134º/d), 138º, 161º/l), 197º/f), 133º, 11º/2 da CRP):
Vertente necessidade ou exigibilidade havendo várias alternativas possíveis para alcançar um fim, deve-se optar por aquela que é
menos gravosa; aquele que restringe menos os direitos, liberdades e garantias; alcançar tais fins por meios menos onerosos
Vertente adequação medida é apta a realizar o fim que se propõe; as limitações aos direitos liberdades ou garantias devem revelar-
se como formas ou meios adequados à prossecução dos fins ou valores constitucionalmente protegidos
Vertente proporcionalidade em sentido estrito aponta para a proporcionalidade entre meios e fins; as medidas da restrição a
direitos, liberdades e garantias não podem ser excessivas à esfera do Estado, mas sim proporcionais; ponderação de interesses
Nenhuma restrição a um direito, liberdade ou garantia pode afectar o respectivo núcleo essencial (Art. 18º/3)

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 42


35.4. A tutela de confiança como momento integrante do princípio do Estado de Direito.
Princípio da Tutela de Confiança elemento essencial do princípio do Estado de Direito
Confiança é o fecho do Estado de Direito sem a garantia da confiança, o Estado de Direito não se cumpre
Estado de Direito é aquele em que o tecido social se entretece na confiança de que todos cumpram o direito – Estado e cidadãos:
Na confiança de que há meios jurídicos capazes de evitar abusos e arbítrios seja da actuação do poder estadual ou de um cidadão
Na confiança de que, se não for possível evitar esses abusos e violações, há meios jurídicos de os combater
Confiança já vêm do passado compromisso medieval no juramento de fidelidade «Só o rei fiel tem súbditos fiéis»
Se se rompe a confiança a consequência é a ruptura da própria Constituição e do Estado de Direito que nela se funda

35. 5. Efectivação dos direitos fundamentais como momento integrante do princípio do Estado de Direito (art. 2, in fine, CRP)
Consagração do Estado de Direito que nasce ligado à garantia de direitos pessoais ampliado aos direitos políticos, aos direitos sociais,
económicos e culturais e, recentemente, aos direitos de qualidade essa ampliação implicou alargamento de finalidades do Estado (art. 2º CRP)
Estado de Direito não visa só direitos pessoais e de participação política visa também a realização da democracia social, económica e cultural
Estado de Direito acentua hoje:
Promoção do desenvolvimento económico, social e cultural, procurando corrigir desigualdades sociais e satisfazer prestações sociais,
bem como permitindo uma melhor qualidade de vida aos cidadãos Estado Social de Direito
Enfatiza a sujeição do poder estadual a princípios e regras jurídicas e a garantia de acesso a tribunal quando tais princípios ou regras
são violadas, transmitindo aos cidadãos a confiança na actuação do poder estadual defende contra o arbítrio, a prepotência, o abuso
Evidencia a soberania popular (art. 2º e 3º/1 CRP) e a vontade popular (art. 1ºCRP) como fonte do poder político
os titulares do poder político são eleitos por sufrágio universal, igual, directo e secreto (art. 10º CRP)
o referendo é uma forma de exercício do poder político (art. 10º, 115º e 240º CRP)
Realização do princípio do Estado de Direito implica a ideia de justiça social alcança-se através da efectivação dos direitos fundamentais

35.5. 1. Em especial, a efectivação dos direitos económicos, sociais e culturais


Estado está sujeito ao cumprimento de inúmeras tarefas art. 9º/d), 58º e ss CRP
Normas Impositivas de legislação Normas que consagram direitos a prestações
Actividade administrativa «prestativa» Responsabilidade política e jurídica de definir o que deve ser feito dever de legislar actividade
legislativa de definição das condutas que traduzem a efectivação dos direitos económicos, sociais e culturais
Constituição prevê várias alternativas de realização possíveis legislador tem liberdade de conformação, dentro de limites constitucionais
Se legislador não concretizar as normas impositivas de legislação:
Omissão legislativa inconstitucional fiscalizado pelo Tribunal Constitucional (art. 283º CRP)
Omissão de actuação administrativa fiscalizado pelos tribunais administrativos
Capacidade de concretização do legislador tem de se adaptar temporalmente às condições humanas, técnicas e financeiras disponíveis
satisfação de cuidados de saúde; definição de estratégias de protecção de desemprego; concretização de programas para invalidez
Têm de se estabelecer prioridades ou hierarquias depende das condições financeiras, recursos humanos e meios técnicos capazes de
responder às solicitações que neles se integram «direitos sob condição do possível» (art. 65º/1 CRP)
Pretende-se satisfazer as necessidades do homem, inserido-o socialmente, como trabalhador (art. 59º CRP), como jovem (art. 70º CRP), como
deficiente (art. 71º CRP), como consumidor (art. 60º CRP) regra geral, os direitos têm natureza universal, mas há casos em que os direitos
apenas se dirigem a certos grupo (deficientes)

35.5.2. A garantia do princípio do Estado de Direito na sua dimensão Social


Garantir um Estado de Direito aberto à «socialidade» significa ter presente:
garantia de liberdade individual patenteada na democracia política e inerente vontade popular
garantia de uma actuação prestacional do poder político em direcção a fins democracia social, económica e cultural
A garantia do princípio do Estado de Direito na sua dimensão social renova-se permanentemente no quotidiano do Estado mas evidencia-se nos
momentos eleitorais, quando os partidos apresentam os seus programas de acção ao voto popular as escolhas políticas, feitas em liberdade,
reconhecem prioridades à acção, às quais os titulares do poder político se devem manter fiéis

35.5.3. O princípio do Estado de Direito, na sua vertente Social, hoje: privatização de funções públicas, crescente apelo a parcerias
público-privadas, autoregulação social e realização do Estado de Direito.
Evolução do Estado Social de Direito transferência para os privados do exercício de funções públicas, até agora empreendidas pelo Estado:
Caso da privatização das funções notariais permissão das prestações sociais poderem ser desenvolvidas por empresas privadas
Caso das escolas e universidades privadas e dos hospitais privados (Ponte Vasco da Gama e autos-estradas) reconhecer aos
privados a capacidade de conceber, desenvolver e financiar projectos de obras públicas parcerias público-privadas
Gigantismo da máquina organizatória administrativa de um Estado Prestador de Serviços (característico da segunda metade do século XX)
tem vindo a ser substituído por um Estado cada vez mais organizatoriamente exíguo
Questão: Saber se a Constituição Social de Direito se está a cumprir ou se se impõe uma renovação da questão constitucional por questão social
Resposta pode estar na reinvenção de um conceito velho, o conceito de «serviço público» reconhecimento ao Estados da responsabilidade
última pela correcta efectivação dos direitos fundamentais na área económica, social e cultural «obrigação de serviço público»
Esta resposta permite compreender o movimento de desestruturação organizacional e funcional do Estado, na sua vertente administrativa, no
sentido da privatização de funções públicas e tarefas de prestação social, económica e social reinterpretação e reinvenção do Estado de Direito:
Aumento das tarefas de controlo, policiais, do Estado sobre a actuação dos privados
Abertura para uma permanente acção de monitorização da própria comunidade sobre a sua acção

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 43


III - O princípio do acesso ao direito.
36. A garantia do acesso ao direito, a tutela jurisdicional efectiva e o apoio judiciário (artigo 20º, nº 1 da Constituição).
Príncipio do acesso ao direito Art. 20º/1 CRP: «A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e
interesses legítimos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos.» Desdobra-se em três vertentes fundamentais:
Garantia de acesso ao direito («direito ao direito» como afirmou a filósofa Hannah Arendt)
Direito de acesso aos tribunais ou tutela jurisdicional efectiva
Apoio judiciário, em caso de a insuficiência de meios económicos poder impedir o acesso aos tribunais

36.1. O direito de aceder ao direito ou à protecção jurídica.


36.1.1. O direito de aceder ao direito. A defesa de direitos subjectivos perante o Estado
A inércia ou a actuação do Estado podem agredir ilegitimamente os direitos de terceiros (ex: Estado interrompe, sem justificação legal, a
atribuição de uma pensão) parte-se para a identificação do direito lesado ou a caracterização da situação como violadora do direito só assim
é possível reagir à lesão ou conformar uma defesa específica do direito, junto das entidades com competência para resolver o problema jurídico
1º Vertente: Conhecimento conhecimento do direito é, assim, uma questão prévia à específica reacção a uma sua eventual lesão
O direito de aceder ao direito não é um direito instrumental em relação ao direito eventualmente lesado; inere a esse direito
2º Vertente: Igualdade Só se todos conhecerem os seus direitos se pode dizer que a igualdade está garantida na ordem jurídica
É um direito que todos devem possuir em igualdade, independentemente da existência ou não da lesão.
3ª Vertente: Liberdade aqueles que conhecem os seus direitos podem usar a sua liberdade, podendo reagir ou não à lesão
O conhecimento do direito de conhecer o direito é uma garantia de igualdade e de liberdade que confere confere segurança

36.1.2. O direito de aceder ao direito. Os interesses legalmente protegidos.


Direito de aceder ao direito ou direito à protecção jurídica (direito ao direito) não abrange somente a esfera dos direitos subjectivos (ex: direito
a uma pensão de reforma) abrange também os interesses objectivamente protegidos por lei em benefício específico de um grupo os
interesses legalmente protegidos normas procedimentais de concurso público têm objectivo de garantir a correcção da escolha do melhor
candidato em que se reconhece a todos os candidatos o direito de exigir, em tribunal, o cumprimento dessas normas legais

36.1.3. O direito de aceder ao direito. Os interesses difusos.


Há bens jurídicos que não têm titulares pré-definidos caso do ambiente e o caso do património cultural
No entanto, a sua defesa é obtida através da definição de inúmeras normas que impõem comportamentos aos seus destinatários
Se normas forem violadas Há autoridades públicas (Ministério Público) que têm por tarefa a defesa da legalidade democrática (art. 219º CRP)
Direito de acção popular (art. 52º/3 CRP) torna cada cidadão garante desses valores jurídicos constitucionais
O conhecimento do direito (acesso ao direito) fortalece a cidadania, cria coesão na comunidade e torna os cidadãos participantes da construção
do Estado fundamental para a defesa da lei e dos interesses difusos e do bem jurídico

36.1.4. O direito de aceder ao direito. A defesa dos direitos subjectivos perante os outros particulares.
Direito de acesso ao direito para protecção dos direitos ou interesses defendidos por lei não se circunscreve à actuação do Estado nas diferentes
modalidades em que o seu poder se desdobra – legislativo, administrativo, judicial abrange ainda a actuação dos outros particulares, sempre que
o relacionamento intersubjectivo é juridicamente fundado relações de vizinhança, relações familiares ou relações sucessórias, relações
comerciais e relações de trabalho são outros onde o direito está presente

36.1.5. O direito de aceder ao direito (conclusão)


O direito de aceder ao direito está constitucionalmente garantido no artigo 20º garante-se a igualdade e liberdade dos cidadãos
Conceito do Direito de acesso ao direito direito a estar informado sobre a existência do direito, o direito de o conhecer e ao ordenamento
jurídico, de modo a permitir que cada um exerça, em liberdade, os seus direitos e possa reagir juridicamente, se assim o entender.
Para que se torne efectivo num plano de igualdade, é necessário promover, junto dos cidadãos, um conjunto de acções traduzidas na facilitação
de informação jurídica e no aconselhamento jurídico por técnicos do direito (serviços de consulta jurídica) só depois de conhecer o direito e saber
da sua existência, se pode falar na existência da liberdade de decidir se pretende fazer valer o direito e da liberdade de escolher a defesa desse
direito entre os meios que o ordenamento jurídico disponibilizar Se não há informação sobre a existência do direito, de pouco vale possui-lo,
porque inexiste a liberdade de decidir sobre a possibilidade de o defender.

36.2. O direito de acesso aos tribunais ou tutela jurisdicional efectiva.


Conhecida a existência do direito ou da norma legal e verificada a violação da norma ou a afectação do direito é garantido o direito de acesso
aos tribunais ou tutela jurisdicional efectiva desdobra-se em outros direitos: o direito de acção, o direito ao processo, o direito a um processo
equitativo, o direito a uma decisão judicial, o direito a providências cautelares, o direito de execução da sentença judicial e o direito de recurso

36.2.1. O direito de acção.


Direito de acção está ligado ao direito subjectivo lesado a todo o direito corresponde uma acção em tribunal
Direito de acção consiste no direito de levar uma pretensão ao conhecimento dos tribunais e determina a abertura de um processo
Acções contra o Estado, o Código de Processo nos Tribunais Administrativos define a acção comum e a acção especial
Ao processo administrativo podem dirigir-se ao tribunal pedidos de declaração de ilegalidade de normas regulamentares, pedidos de declaração
de nulidade de actos administrativos, pedidos de reconhecimento de direitos emergentes de contratos, pagamentos de quantias, ect.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 44


36.2.2. Direito ao processo.
Exercido o direito de acção, este gera o diálogo os tribunais têm o dever de resposta à pretensão que lhes foi dirigida
Não podem invocar o desconhecimento da lei, o excesso de trabalho nem ausência de conhecimentos técnicos para delinear uma resposta
São obrigados a responder, dando por isso origem a um processo quem propõe uma acção em tribunal tem, pois, direito ao processo

36.2.3. Direito a um processo equitativo.


Ter direito ao processo significa ter direito a um processo equitativo obedece a requisitos especiais garantia de acesso ao processo, a
garantia do contraditório, a garantida de igualdade de armas das partes envolvidas tudo com vista à obtenção da decisão justa.

36.2.4. Direito à obtenção de uma decisão judicial dentro de prazos razoáveis.


Direito de acesso aos tribunais determina a obtenção de uma decisão dentro de prazos razoáveis em razão da complexidade do caso uma
justiça que chega tarde não pode considerar-se justa. o tempo justo da decisão judicial integra a materialidade da decisão justiça intrínseca

36.2.5. Direito à definição de providências cautelares.


Existe uma necessidade de solicitar ao tribunal que adopte providências cautelares para assegurar a utilidade da decisão final do processo
Providências cautelares são medidas decretadas pelo juiz para, em regra, regular provisoriamente o litígio presente ao tribunal, permitindo
que a decisão judicial tenha utilidade
Em certas situações, se não forem definidas judicialmente medidas cautelares a garantia do direito que seja obtida no final, de pouco servirá
Ex: Suponha-se que foi ilegalmente recusada a matrícula na universidade a um estudante. Proposta a acção em tribunal com vista à anulação do
acto de recusa, se não se adoptar uma providência cautelar que permita ao aluno frequentar, como ouvinte, as aulas, no final do processo judicial,
se obtiver provimento, esta de pouco lhe servirá porque entretanto perdeu o ano escolar. Daí que o tribunal, a pedido do proponente da acção,
possa proferir uma providência cautelar para garantia do direito em litígio, permitindo a frequência das aulas ao estudante.
Ex2: caso da interrupção ilegal de uma pensão de reforma, único meio de subsistência de quem a recebe. Não basta ao titular do direito à
pensão recorrer ao tribunal e solicitar o reconhecimento do seu direito à pensão. Torna-se também necessário solicitar uma providência cautelar no
sentido de o visado continuar a receber uma pensão que lhe garanta a subsistência, até ser proferida a decisão judicial

36.2.6. Direito à execução da sentença.


Direito de acesso aos tribunais implica que, obtida a sentença, esta seja executada, a fim de concretizar o direito nela definido
Se não for possível forçar o Estado a cumprir a sentença que contra ele foi proferida não se pode falar em direito a tutela jurisdicional efectiva
O exercício do direito à execução da sentença pode, inclusivamente, exigir um novo processo em tribunal, o processo de execução de sentença

36.2.7. Direito a fazer-se acompanhar por advogado perante qualquer autoridade.


Art 20º/2 CRP direito a fazer-se acompanhar por advogado perante um autoridade como garantia de uma melhor defesa dos seus direitos

36.2.8. Em certos caso, o direito ao recurso ou ao duplo grau de jurisdição.


Em certos casos, está garantido o direito de recurso (direito a duplo grau de jurisdição), embora não esteja expressamente consagrado na CRP

36.3. O direito de apoio judiciário ou a impossibilidade de denegação de justiça por insuficiência de meios económicos.
O direito de acesso aos tribunais pode, porém, ser meramente teórico se não estiver garantido um sistema de apoio em caso de insuficiência de
meios económicos é que, ao contrário de outros serviços públicos, a Constituição não garante o acesso gratuito aos tribunais
Daí que, em caso de falta ou insuficiência de meios económicos para defesa dos seus direitos, a Constituição tenha garantido aos cidadãos o
apoio judiciário, a fim de permitir a efectivação do direito de acesso aos tribunais O apoio judiciário tem diferentes modalidades:
Pode traduzir-se na dispensa, total ou parcial, de taxas de justiça e de outros encargos com o processo
Pode consistir no pagamento de honorários do patrono, advogado ou ao defensor oficioso
Conceito de «insuficiência de meios económicos» é considerado um conceito relativo porquanto indissociável do valor das custas e demais
encargos com o processo e, bem assim, do pagamento ao advogado (patrocínio judiciário)
Requerimento de apoio judiciário é apresentado nos serviços da segurança social pessoalmente, por telecópia, via postal ou via electrónica

37. A organização dos tribunais. Os artigos 209º e seguintes da Constituição


Princípio do acesso ao direito, nas diferentes dimensões em que se desdobra, conduz sempre à defesa dos direitos subjectivos ou do
ordenamento jurídico através dos tribunais os tribunais têm por função, constitucionalmente definida, administrar a justiça em nome do povo,
sendo esta função desdobrada na defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, na repressão da violação da legalidade
democrática e na resolução do conflito de interesses, públicos e privados (art. 202º/1 e 22 CRP)
Organização dos tribunais em Portugal (Art. 209º e ss CRP) sistema judicial português não é um sistema unitário, porquanto compreende
várias categorias de ordens de tribunais podem retirar-se destes preceitos três princípios fundamentais:
Princípio da pluralidade de tribunais
Princípio da hierarquia dos tribunais
Princípio da especialização material dos tribunais

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37.1. Princípio da pluralidade de tribunais
Para além dos tribunais judiciais, considerados tribunais comuns, a Constituição prevê tribunais especializados:
Tribunais administrativos e fiscais aplicam o direito administrativo em geral e os direitos administrativos especiais – direito de
urbanismo, direito da segurança social, direito do ambiente – e o direito fiscal
Tribunal de Contas (art. 214º CRP) tem funções híbridas, de tribunal e de órgão de controlo, desde logo das contas do Estado
Tribunal Constitucional nasce com a revisão constitucional de 1982, sucedendo à Comissão Constitucional
Tribunais marítimos (art. 209ª/2) competência em matéria de transporte marítimo e em matéria de acções de responsabilidade por
danos provocados ou sofridos por navios,
Tribunais arbitrais para a resolução de um litígio específico, por vontade expressa das partes, desmembrando-se de seguida,
podendo também constituir-se como tribunais permanentes (caso dos tribunais de pequenos delitos de consumo) e julgados de paz.
Tribunais de julgados de paz competentes para a resolução rápida e a baixo custo de causas de valor reduzido
Durante a vigência de estado de guerra são constituídos tribunais militares com competência para julgar crimes de natureza militar (art 213º CRP)
Tribunais de conflitos (art. 209º/3 CRP) para resolver conflitos de competência:
Negativos (Ex: os tribunais administrativos e tribunais comuns julgam-se incompetentes para decidir um caso
Positivos (Ex: os tribunais administrativos e tribunais comuns julgam-se materialmente competentes para decidir o mesmo caso)

37.2. Princípio da hierarquia dos tribunais


De acordo com este princípio, a organização dos tribunais comuns e dos tribunais administrativos é hierárquica.
Tribunais judiciais (art. 209º e 210º CRP) são constituídos por:
Tribunais de 1ª instância Tribunais da comarca – espalhados pelas comarcas do território nacional
Nestes, juízes de direito decidem por intermédio de sentenças
Tribunais de 2ª instância Tribunais da Relação – Lisboa, Porto, Coimbra, Guimarães e Évora
Nestes, juízes desembargadores decidem os processos através de acórdãos
Supremo Tribunal de Justiça, no topo da hierarquia onde juízes conselheiros decidem os processos através de acórdãos
(art. 209º/1 a) CRP). O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça é eleito pelos respectivos juízes (art. 210º/2 CRP)
Tribunais administrativos e fiscais estão também hierarquizados e em três níveis:
Tribunais administrativos de círculo são 16 os tribunais administrativos de círculo
Tribunais Centrais Administrativos Sul (sede em Lisboa) e Norte (sede no Porto)
Supremo Tribunal Administrativo Presidente do Supremo Tribunal Administrativo é eleito pelos seus juízes (art. 212º/2)

37.3. Princípio da especialização material dos tribunais


Tribunais judiciais tribunais comuns em matéria cível (Direito da Família, das Obrigações, Sucessório) e criminal (art. 211º/1 CRP)
exercem jurisdição em todas as matérias não atribuídas a outras ordens jurisdicionais – daí serem considerados tribunais comuns
Na primeira instância pode haver tribunais com competência específica e tribunais especializados para o julgamento de matérias determinadas
(art. 211º/2 CRP) tribunais de família, tribunais do trabalho. Todos os demais tribunais são especializados em razão da matéria:
Tribunais administrativos e fiscais têm competência para julgar as acções e recursos contenciosos que tenham por objecto dirimir os litígios
emergentes das relações jurídicas administrativas e fiscais (art. 212º CRP)
Tribunal de Contas órgão supremo de fiscalização da legalidade das despesas públicas e de julgamento das contas pareceres sobre
Contas do Estado e contas das Regiões Autónomas, bem como efectivar a responsabilidade por infracções financeiras (art 214º CRP)
Tribunal Constitucional é competente para administrar a justiça em matéria de natureza jurídico-constitucional apreciar a
inconstitucionalidade e a ilegalidade (art. 277º CRP). Compete-lhe ainda verificar a morte e declarar a incapacidade física do Presidente da
República, verificar a perda do cargo deste, julgar, em última instância, a regularidade e a validade dos actos do processo eleitoral
Tribunais militares (em estado de guerra) têm competência para o julgamento de crimes de natureza estritamente militar (art. 213º CRP)

38. Estatuto constitucional dos tribunais


Enquanto órgãos de soberania, os tribunais têm um estatuto próprio, definido na Constituição esse estatuto integra: a independência dos
tribunais, o direito dos tribunais a serem coadjuvados por outras entidades, a obrigatoriedade de fundamentarem as suas decisões que não sejam
de mero expediente, a obrigatoriedade das decisões dos tribunais para todas as entidades, públicas e privadas, a prevalência das decisões dos
tribunais sobre as de quaisquer outras autoridades e o princípio da publicidade.

38.1. A independência dos tribunais


Garantia de independência dos tribunais tribunais gozam de independência e estão apenas sujeitos à lei (art. 203º CRP)
Tem por objectivo defender estes órgãos de soberania da ingerência dos demais órgãos de soberania do Estado e salvaguardar os direitos dos
cidadãos perante actuações abusivas e arbitrárias do próprio Estado uma garantia fundamental de realização do princípio do Estado de Direito
Leis de revisão constitucional têm de respeitar a independência dos tribunais (art. 288º, m) CRP)
Garantia de independência dos tribunais perante relação entre os tribunais, demais poderes do Estado e mesmo a cada tribunal
Os tribunais são independentes entre si, uns dos outros não recebem ordens nem influência de tribunais superiores, sem prejuízo das
relações de hierarquia dos tribunais e da necessária cooperação entre os tribunais cada tribunal é, em si, um órgão de soberania

38.2. Direito dos tribunais à coadjuvação das outras autoridades.


Direito dos tribunais à coadjuvação das outras autoridades (art 202º/3 CRP) implica que os tribunais possam pedir ajuda às outras autoridades
públicas, incluindo outros tribunais, para o exercício das suas funções, como o dever de estas lhes prestarem o apoio que lhes tenha sido solicitado
Dever cívico dever dos cidadãos de colaborarem com os tribunais na sua função de administração da justiça (como testemunhas, peritos)

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 46


38. 3. A fundamentação das decisões dos tribunais.
Fundamentação das decisões dos tribunais, que não sejam de mero expediente é garantia constitucional (art. 205º/1 CRP)
Traduz razão de ponderação da decisão, a sua legitimação intrínseca e garantia do direito ao recurso só conhecendo a motivação da decisão
se avalia a racionalidade da decisão, a sua bondade e se pode ponderar a hipótese de exercício do direito de recurso, quando exista

38.4. A obrigatoriedade das decisões dos tribunais para todas as entidades, públicas ou privadas
Decisões dos tribunais não há autoridades imunes, são obrigatórias para todas as entidades, públicas e privadas (art. 205º/2 CRP)

38.5. A prevalência das decisões dos tribunais sobre as de quaisquer outras entidades
Prevalência das decisões dos tribunais sobre as de quaisquer outras autoridades (art. 205º/2 CRP) resulta dos tribunais serem órgãos de
soberania é mais uma garantia do princípio do acesso ao direito
Nenhum outro poder do Estado (legislativo) pode sobrepor a sua acção à função jurisdicional e, daí, esvaziar de sentido a decisão jurisdicional

38.6.Princípio da publicidade
Princípio da publicidade das audiências dos tribunais e das suas decisões (art. 206º CRP) traduz um reforço de garantias dos cidadãos,
capaz de permitir um acompanhamento da comunidade de administrar a justiça, já que os tribunais administram a justiça em nome do povo
Existe excepções pode haver razões que possa excluir a publicidade (Art. 206º CRP) salvaguarda da dignidade das pessoas e da moral
pública e salvaguarda do normal funcionamento da justiça só essas podem conduzir ao afastamento da publicidade das audiências

IV - Princípio da participação política dos cidadãos


39. Princípio da participação política dos cidadãos
Princípio da participação fundamento da democracia política e a chave do Estado de Direito «Todos os cidadãos têm direito de tomar parte
na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos» (Art 1º, 48º CRP)

V - Princípio da transparência
40. Princípio da transparência
Princípio da transparência directamente relacionado com o princípio da participação dos cidadãos na vida pública, impõe ao Estado e às
demais entidades públicas o esclarecimento objectivo dos actos que pratiquem, para que as escolhas políticas possam ser conscientemente feitas
Obriga o Governo e outras autoridades a prestar as informações acerca da gestão dos assuntos públicos controlo democrático da acção
político-administrativa «Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre os actos do estado e demais entidades
públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos» (Artº 48/2 CRP)

VI - Princípio da responsabilidade
41. Princípio da responsabilidade. Origem.
Período longo de transformação da cultura político-estadual desde vigência do princípio «The king can do no wrong» à assunção ampla do
princípio da responsabilidade civil do Estado (funções político-legislativa e administrativa) séculos de crescente maturidade democrática
Contínuo aprofundamento do sentido do direito o que hoje consideramos «natural» (indemnização do Estado por actuações ilícitas do poder
estadual) foi durante muito tempo considerado uma impossibilidade entendia-se que era ideia de soberania estadual (soberania régia)
Antigamente não era admissível que o rei ou o poder estadual cometesse erros, provocasse danos e tivesse de compensar quem os sofreu
Mesmo depois das revoluções liberais princípio da irresponsabilidade do Estado manteve-se no quadro da acção administrativa
Edouard Lafferière afirmou: «é próprio da soberania impor-se a todos sem compensações»
Evolução na forma de conceber o poder político e o legitimar compreensão teórica que vai desconstruindo um conceito fechado, autocrático,
de poder, numa sociedade hierarquizada para logo o reconstruir num quadro alargado de poder, aberto e partilhado, um poder democrático
fundado na dignidade da pessoa humana reflectir sobre a génese das ideias jurídico-políticas e o seu reflexo na lei é reflectir sobre o homem
Cientista António Damásio desejo do homem em qualidade de vida não depende da sua vontade, antes à sua natureza

41.1. Responsabilidade civil do Estado. Aspecto gerais.


Enquanto instituto jurídico, constitucionalmente garantida, a responsabilidade é passível de vários qualificativos:
Responsabilidade política dos órgãos estaduais procura efectivar o controlo democrático do exercício do poder
Responsabilidade criminal; Responsabilidade contra-ordenacional; Responsabilidade disciplinar procuram alcançar finalidades de
prevenção geral ou especial e de repressão de comportamentos violadores da lei e do direito
Responsabilidade civil procura a reparação de danos causados a outrem no decurso de actividades desenvolvidas
Princípio da responsabilidade civil do Estado no desenvolvimento das suas múltiplas actividades, o Estado se projecta de diferentes modos de
agir (legislar, administrar, julgar) podem decorrer prejuízos para terceiros e todos podem redundar em responsabilidade do Estado

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41.2. Constituição e responsabilidade civil do Estado pelo exercício das suas funções
Construção da República Portuguesa sobre dignidade humana não só fixa o fundamento da acção do Estado como impõe limites a sua acção
Dignidade humana na sua individualidade irredutível, sobrepõe-se à própria vontade popular e determina uma concepção da soberania
Art 22º CRP parte I consagração, em termos amplos, do princípio da responsabilidade civil do Estado e demais entidades públicas
Dele decorre estar toda a acção do Estado (política, legislativa, judicial e administrativa) sujeita ao princípio
Dele decorre estar abrangida pelo princípio não só a acção do Estado como a omissão dessa acção, quando devida
Dele decorre a configuração de um direito do particular lesado à reparação com uma dimensão muito ampla
Responsabilidade civil do Estado não um mero princípio organizatório, mais sim um instituto fundamental à protecção da pessoa pelo Estado
Art. 22º CRP norma directamente aplicável pelos art. 17º e 18º/1 CRP direito de natureza análoga aos direitos, liberdades e garantias
Responsabilidade civil do Estado e demais entidades públicas não se circunscreve à gestão pública, abrange ainda a gestão privada
Controvérsia saber se o normativo constitucional integra a responsabilidade pelo risco e, bem assim, a indemnização de sacrifício
Art. 62º/2 CRP prevê a expropriação por utilidade pública e impõe o «pagamento de uma justa indemnização», uma
responsabilidade objectiva, por actos lícitos
Art. 22º referência ao regime da solidariedade, que a responsabilidade civil objectiva não está abrangida pelo preceito, o que não
significa que o apelo ao princípio da interpretação, em caso de omissão legislativa, perante uma lesão decorrente de lei, invocar a
existência de um direito do particular à reparação traduz uma particular concepção do Estado e sua organização
Apelo ao regime da solidariedade não pretende proteger, de um modo mais efectivo, o direito do particular à indemnização do dano que sofreu
Pretende-se incutir uma maior responsabilidade e apelar à maior diligência aos que exercem a sua actividade no âmbito do Estado
Paralelo entre arts. 22º e 271º/1 CRP
Art. 157º/1 não se deve interpretar o afastamento dos deputados do dever de diligência, tornando-os menos
responsáveis pela isenção de responsabilidade civil pelos votos ou opiniões que emitam
Se o regime da solidariedade da obrigação de indemnizar implica que se procure individualizar quem agiu ilicitamente ou devia ter agido e não
agiu, isso não significa que o normativo constitucional não garanta o direito à indemnização dos danos resultantes do mau funcionamento dos
serviços contudo, a exigência de protecção do particular e a definição do direito à reparação estão suficientemente densificados na Constituição
Foram, porém, necessários mais de 30 anos para que a legislação ordinária o reflectisse e desenvolvesse o conteúdo das normas constitucionais
Interrogação sobre a razão deste longo silêncio duas respostas podem ser dadas:
Resposta 1 reside no facto de a matéria da responsabilidade civil do Estado se encontrar definida num diploma inovador à época
em que entrou em vigor, que, por isso, sobreviveu à ruptura revolucionária do Estado e este vigente, democracia, mais de 30 anos
Resposta 2 decorre da aplicação directa do art. 22º CRP, que permitia aos juízes garantir a tutela do direito fundamental dos
particulares à reparação dos danos causados pela acção do Estado e demais entidades públicas

VII - Princípio da sustentabilidade do desenvolvimento (princípio da responsabilidade pelo futuro)


42. Princípio da sustentabilidade do desenvolvimento (princípio da responsabilidade pelo futuro)
Surge nos anos 80 ligação entre desenvolvimento económico e social e sustentabilidade ambiental consciencialização da necessidade de
incorporar nas decisões presentes as consequências que dessas decisões podem resultar para as gerações futuras
Princípio ético fundado numa ideia de solidariedade entre as gerações presentes, que gozam os benefícios do desenvolvimento civilizacional,
e as gerações futuras, que poderão sofrer com as consequências dessas acções exigência de justiça
Princípio da sustentabilidade do desenvolvimento económico e social foi consagrado em 1997 entrada na revisão de 1997 da CRP
Princípio não só é imposto às tarefas estaduais (art 66º/2 CRP) mas também à acção dos cidadãos na garantia deste direito (art. 66º/2 CRP)
Princípio da sustentabilidade do desenvolvimento entrelaça-se com o princípio da solidariedade entre gerações:
Tarefa estadual de promoção do aproveitamento racional dos recursos naturais, com salvaguarda da sua capacidade de renovação e
a estabilidade ecológica, sempre com o envolvimento dos cidadãos e a sua participação
Apelo à solidariedade intergeracional aproveitamento responsável do uso de recursos naturais, muitos já escassos ou não renováveis
Sustentabilidade ambiental tem valor acrescido risco de perda irreparável do recurso natural, por impossibilidade de regeneração, é uma
realidade, ponde em risco as gerações futuras Art. 81º CRP define incumbências prioritárias do Estado no âmbito da organização económica

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2º - PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO DO PODER ESTADUAL

I - Princípio da subsidiariedade
43. Princípio da subsidiariedade
Princípio da subsidiariedade encontra-se consagrado na Constituição em duas vertentes, uma interna e outra externa

43.1. O princípio da subsidiariedade como princípio interno do Estado: a procura do nível óptimo de decisão (art. 6º, nº 1 da Constituição)
Princípio da subsidiariedade está consagrado na Constituição é um princípio ligado à organização e funcionamento do Estado unitário
Princípio da subsidiariedade implica que a definição jurídica de uma matéria só possa ser empreendida por um órgão da administração central
do Estado se não puder ser empreendida em melhores condições por um órgão mais próximo das pessoas que vai afectar ou que são as
destinatárias da acção (de uma região autónoma ou de uma autarquia) procura-se encontrar o nível óptimo da decisão, em razão da matéria,
privilegiando a entidade pública ou órgão estadual que, por estar mais próximo do problema a decidir, podes obter uma melhor decisão
Princípio da subsidiariedade não determina o esboroamento do poder do Estado nem traduz uma sua demissão tem subjacente a convicção
de que quem está longe dos problemas não os conhece bem e tem dificuldades maiores em encontrar a melhor solução
Princípio da subsidiariedade, como princípio interno do Estado, encontra-se ao serviço da descentralização aplicações práticas do princípio:
Art. 225º/2 CRP enquanto garante que a autonomia das regiões visa «promoção e defesa dos interesses regionais»
Art. 235º/2 CRP enquanto garante às autarquias locais «a prestação dos interesses próprios das populações respectivas»

43.2. Princípio da subsidiariedade como princípio director do exercício dos poderes necessários à construção da UE (art. 7º/6 CRP)
União Europeia determinou uma profunda alteração na compreensão da estadualidade portuguesa
Após integração na União Europeia Estado português tornou-se parte de um projecto mais vasto, o projecto de construção da União Europeia
É neste contexto que o princípio da subsidiariedade, compreendido como princípio externo, deve ser interpretado União Europeia só pode
intervir nos casos em que o Estado português, isoladamente, não consegue obter os mesmos resultados que a União
Princípio da subsidiariedade funciona como uma garantia do Estado português perante a União Europeia funciona como uma limitação da
acção da União Europeia um «travão à europeização» das tarefas nacionais.
Princípio da subsidiariedade medidas destinadas à construção da União Europeia devem ser por esta tomadas quando não possam ser
concretizadas satisfatoriamente pelos Estados-membros e, logo, pelo Estado português limite negativo à competência da União Europeia.
Cláusula-barreira impede que competências constitucionais dos órgãos estaduais sejam afectadas pela actuação de autoridades comunitárias

II - Princípio da cooperação
44. Princípio da cooperação. Em geral.
Princípio da cooperação interinstitucional pode colocar-se em vários planos ou níveis:
plano internacional o princípio da cooperação apela à cooperação entre Estados soberanos
plano europeu apela à cooperação entre os Estados-membros da União
plano das relações transfronteiriças o princípio apela à cooperação entre os Estados com fronteiras comuns.
plano estadual o princípio da cooperação convoca a cooperação entre as diferentes entidades públicas, seja entre o Estado e as
autarquias, seja entre as autarquias, seja entre institutos públicos ou outras entidades públicas, no âmbito das respectivas atribuições
A matéria ambiental tem-se tem revelado mais sensível à necessidade da cooperação, nomeadamente em matéria da segurança

44. 1. Princípio da cooperação entre entidades públicas e privadas.


Princípio da cooperação engloba igualmente cooperação entre entidades públicas e privadas e ainda a colaboração entre entidades
administrativas e particulares (art. 7º do Código do Procedimento Administrativo)

44. 2. Princípio da cooperação interorgânica.


Cooperação interorgânica princípio da cooperação engloba cooperação entre os órgãos da mesma entidade pública

44. 3. Princípio da cooperação. Vertente política e vertente jurídica.


Cooperação interinstitucional e interorgânica tem uma vertente política e uma vertente jurídica.
Cooperação entre Estados com vista à elaboração e concretização de um tratado internacional é cooperação política
Torna-se cooperação jurídica com a aprovação desse tratado
Cooperação entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro ou entre o Governo e a Assembleia da República, traduzida em pedidos de
informação e esclarecimento e na sua prestação é cooperação política
Torna-se cooperação jurídica na declaração do estado de sítio e do estado de emergência (art. 19º/7, 134º/d) e 138º/1 CRP)
Na actualidade acentuação do princípio da cooperação decorre:
do sentido tendencialmente global dos problemas da sociedade problemas ligados ao ambiente, ao consumo, ao terrorismo
da maior complexidade desses problemas obriga a troca permanente de conhecimentos e implica um constante trabalho em rede

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 49


3º - PRINCÍPIOS DA ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA

I -Princípio da descentralização democrática da Administração Pública


45. Princípio da descentralização (artigo 6º, nº 1, da Constituição).
Princípio da descentralização tem assento constitucional depois da afirmação do Estado português como Estado unitário (Art. 288º/n) CRP)
Esta afirmação não pode ser alterada por uma lei de revisão constitucional é um princípio organizatório da Administração Pública, que permite
a repartição do poder de decidir, mas se encontra ligado à garantia do Estado unitário e só a essa luz pode e deve ser compreendido

45.1. Noção.
Princípio da descentralização democrática da Administração Pública significa que, na medida do possível, a Administração Pública portuguesa
se deve organizar através de pessoas colectivas públicas distintas do Estado, e, logo, dotadas de poder de decisão (princípio da descentralização),
pessoas colectivas públicas que, na sua gestão, devem apelar à participação dos cidadãos (princípio democrático da gestão participada)

45.2. Formas de descentralização administrativa


Descentralização administrativa apresenta-se em duas formas ou modalidades distintas, dentro da unidade de acção da Administração Pública:
Descentralização territorial correspondente à existência de autarquias locais, isto é, pessoas colectivas públicas de população e
território, dotadas de órgãos próprios, representativos, que visam a prossecução dos interesses próprios das populações regiões
administrativas, municípios e freguesias (art. 236º/1) existência de autarquias locais, com atribuições próprias e geridas sob sua
responsabilidade, eleitos pelas populações, são uma forma de limitar o poder estadual e concretizar a democracia
Descentralização institucional corresponde à existência de pessoas colectivas públicas diferentes do Estado mas sem base
territorial tais pessoas colectivas públicas tanto podem ser universidades (art. 76º/2 CRP) como ordens profissionais (Ordem dos
Médicos, Ordem dos Advogados, Ordem dos Arquitectos) como empresas públicas ou institutos públicos

45.3. Multiplicidade de pessoas colectivas públicas que integram a Administração Pública.


Criação de entidades distintas do Estado e de outras pessoas colectivas de população e território obedece a múltiplas finalidades
Necessidade de evitar a burocratização, o desejo de aproximar os serviços das populações e o objectivo de proporcionar às
populações uma melhor realização do interesse público (art. 267º CRP)
Criação de pessoas colectivas no Estado ou doutras pessoas colectivas de população e território tem limites constitucionais (art. 267º/2 CRP)

45.3.1. Entidades administrativas de base associativa e entidades administrativas de base fundacional


Em virtude da concretização do princípio da descentralização administrativa, são múltiplas as entidades com personalidade jurídica que integram
a Administração Pública, estadual ou autárquica, umas têm base associativa (Ordens Profissionais) e outras base fundacional (institutos públicos)

45.3.2. Entidades administrativas dependentes, entidades administrativas independentes e entidades autónomas.


Entre as entidades públicas com personalidade jurídica que integram a Administração Pública estadual é ainda usual distinguir:
Entidades administrativas dependentes entidades com personalidade jurídica mas sem autonomia ou com uma autonomia
circunscrita à prática de actos com efeitos externos ex: institutos públicos (Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade)
Entidades administrativas independentes entidades com personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira, em regra
desenvolvendo actividades de regulação ex: Autoridade da Concorrência (art. 267º/3 CRP)
Entidades autónomas entidades que prosseguem interesses públicos próprios das pessoas que as constituem e, por isso, se auto-
dirigem, se autogovernam, definindo as próprias actividades que prosseguem ex: ordens profissionais
O Estado exerce poderes de superintendência e de tutela, mais ou menos ténues, consoante os casos, sobre estas entidades

46. Descentralização democrática da Administração Pública, autarquias locais e poder local.


Descentralização administrativa territorial pode ser acompanhada de poder local
Autonomia das autarquias locais não se confunde com poder local as autarquias podem ter autonomia mas não ter poder local
Para que haja poder local torna-se necessário o poder de auto-governo ou auto-administração as autarquias têm poder local quando decidem
com autonomia o seu destino, sem dependências, seja de natureza humana, financeira ou técnica, relativamente a outras entidades.
Para que as entidades públicas possuam poder local, não basta que os órgãos dessas entidades sejam eleitos pelo povo é necessário que:
tais entidades possuam meios humanos e técnicos, bem como recursos financeiros para desenvolver as suas atribuições
não incida sobre elas da parte do Estado um excessivo controlo a tutela do Estado sobre as autarquias locais restringe-se hoje,
pela Constituição, à fiscalização da legalidade da actuação dos órgãos das entidades tuteladas (art. 242º CRP)
A tutela da legalidade, constitucionalmente consagrada (artigo 242º, nº1) é uma garantia das autarquias locais em relação ao Estado
A tutela surge para garantir a continuidade de relação interadministrativa inerente ao interesse público expressamente definido na lei,
em defesa da unidade do ordenamento jurídico (art. 242º/1 CRP)

II - Princípio da desconcentração de poderes administrativos


47. Princípio da desconcentração
Princípio da desconcentração de poderes administrativos princípio da organização administrativa:
impõe que as entidades administrativas devem estruturar-se de forma desconcentrada (art. 267º/2 CRP)
impõe que os poderes (poder decisório) dentro das pessoas colectivas não se concentrem num só órgão, mas sim sejam repartidos
por múltiplos órgãos (órgãos superiores e órgãos subalternos), segundo escalões hierárquicos
Constituição impõe limites à desconcentração administrativa, decorrentes da exigência de eficácia e unidade da acção administrativa (art. 267º/2)

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 50


4º - PRINCÍPIOS DO PODER ADMINISTRATIVO

I - Princípio da prossecução do interesse público.


48. Princípio da prossecução do interesse público (artigo 266º, nº 1, da Constituição)
Administração Pública desdobra-se num quadro organizatório diversificado e alargado são múltiplas as entidades com personalidade
jurídica que empreendem a actividade administrativa do Estado como o Estado Português é constitucionalmente um Estado Social de Direito, a
administração pública multiplica-se pela área da saúde, da educação, das obras públicas, dos transportes.
Porém, na sua actuação concreta, o que move a Administração Pública? Diferentemente do que acontece com os tribunais, que têm por
finalidade a «administração da justiça em nome do povo» (art. 202º/1CRP), sendo essa a sua única finalidade, o que impulsiona a Administração
Pública para a acção é o interesse público (art. 266º/1 CRP) só o interesse público, enquanto realidade estranha à Administração, pode ser a
finalidade da acção administrativa, porque esta não tem finalidades próprias Administração Pública é forçada a agir para o satisfazer
Princípio da prossecução do interesse público envolve ideia de dupla vinculatividade:
Vincula a Administração Pública a agir só em razão do interesse público
Impõe-lhe que actue sempre que o interesse público se apresente na realidade dos factos

48.1.Noção de interesse público


Conceito de Interesse público elemento teleológico que determina a acção administrativa e, por isso, corresponde à finalidade dessa acção
Coincide com o interesse geral da comunidade, o bem comum de que Aristóteles e, mais tarde, S. Tomás de Aquino falavam caracteriza-se
por não ter conteúdo fixo, variando em função da compreensão cultural da comunidade onde se integra
«Interesse público» expressão que a Constituição utiliza no art. 266º/1 para definir o objectivo do agir da Administrativa Pública e no art.
269º/1 para definir a finalidade da actuação dos trabalhadores da Administração Pública
«Interesse público» equivale a «interesse colectivo» (art. 47º/1), a «interesse geral» (art. 65º/c) ), a «utilidade pública» (art. 62º/2)
Interesse público não emerge de uma realidade contraposta aos direitos dos cidadãos fundado o Estado de Direito na dignidade humana e
estando ao seu serviço, o interesse público que deve nortear o Estado, por intermédio da Administração Pública, tem de emanar desses direitos:
seja num quadro de defesa da lei e da ordem pública (acção policial)
seja num quadro de realização do conteúdo desses direitos
seja num quadro de regulação da acção privada
seja num quadro de garantia do preenchimento dos direitos
seja num quadro de prestação de serviços e informações
Administração Pública não prossegue (não pode prosseguir) interesses próprios opostos aos interesses colectivos, da comunidade nem
prosseguir interesses privados dos titulares dos órgãos só o «interesse público» com o conteúdo que, em cada momento, a Constituição e a lei
fixam pode ser prosseguido pela Administração Pública prossecução obrigatória

48.2. O princípio da prossecução do interesse público e o dever de boa administração.


Prossecução do interesse público para além de ser obrigatória, exige da Administração a adopção das melhores soluções em cada caso:
Dever de boa administração Administração Pública tem o dever de procurar as soluções mais ajustadas ao interesse público, seja na
perspectiva de meios técnicos seja na perspectiva de meios financeiros surge princípio da eficiência os objectivos ou finalidades definidos na
lei (interesses públicos) devem ser concretizados ao menor custo, seja no que respeita aos recursos naturais, seja humanos, seja financeiros
Recentemente assiste-se a abertura do conceito de interesse público deixa de estar integralmente definido na lei e passa a ser construído
a partir da realidade dos factos e participação dos particulares

48.3. O princípio da prossecução do interesse público e o princípio do respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos dos
cidadãos
Prossecução do interesse público pela Administração Pública não pode justificar o sacrifício abusivo ou arbitrário dos direitos e interesses
legalmente protegidos dos cidadãos «travões» impostos à acção administrativa pelos direito
Há posições jurídicas dos particulares decorrentes da lei que são merecedoras de protecção e funcionam como limite à prossecução do interesse
público (art. 266º/1 CRP) princípio da prossecução do interesse público só é integralmente realizado num diálogo necessário com esses direitos
e interesses, um diálogo que significa respeito pelos limites dele decorrentes
Direitos fundamentais (direitos económicos, sociais e culturais) impõem-se como tarefas ou intenções de agir, vertendo-se em inúmeras
manifestações de interesses, que importa qualificar juridicamente (públicos) e ser satisfeitos pelo Estado e sua Administração contudo, esta
satisfação não pode ser feita à custa de direitos subjectivos nem à custa de outros interesses públicos protegidos por lei

44.3. Os direitos e os interesses legalmente protegidos dos cidadãos como limite à acção administrativa
Interesse público não é considerado constitucionalmente como um valor absoluto ou um valor que se sobrepõe a todos os outros o
fundamento último do Estado de Direito é a dignidade da pessoa humana princípio da prossecução do prossecução do interesse público tem de
se harmonizar com o princípio do respeito pelos direitos e interesses legalmente protegidos
Questão quando se está perante um direito subjectivo e quando se está perante um interesse legalmente protegido? Doutrina tradicional:
Direito subjectivo existe quando o seu titular tem um interesse próprio e, para a sua defesa, tem a faculdade de exigir da Administração um ou
vários comportamentos que satisfaçam integralmente esse direito
Interesse legalmente protegido existe quando o seu titular tem um interesse indirecto, protegido por lei, não em seu benefício mas do
interesse público e, para sua defesa, tem faculdade de exigir o cumprimento da lei ou que não prejudique o seu interesse incumprindo a lei
O titular do interesse legalmente protegido não pode exigir à Administração Pública que satisfaça integralmente esse interesse porque a lei não o
protegeu directamente, não o protegeu como um interesse desse titular mas simplesmente como interesse público

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 51


Ex: Pense-se num terreno da propriedade de um particular considerado a localização adequada à construção de um hospital público. Se o
particular não quiser vender o terreno ao Estado, este deve expropriá-lo no âmbito de um procedimento administrativo próprio, constante do Código
das Expropriações, um procedimento que se inicia com a declaração de utilidade pública concreta do terreno. Se tal não acontecer, isto é, se não
houver a prévia declaração de utilidade pública do terreno, e se iniciarem as tarefas de terraplanagem do terreno, o proprietário pode instaurar uma
acção em tribunal exigindo que as máquinas sejam retiradas do seu terreno e este seja colocado na situação em que estava antes. Porquê? Porque
apesar do interesse público da construção do hospital ser premente, a prossecução desse interesse tem de respeitar o direito subjectivo do
proprietário, neste caso, o direito a ser expropriado num procedimento administrativo legal. Até que isso aconteça, o proprietário tem a faculdade de
exigir a reposição integral do terreno como estava antes das máquinas nele terem entrado proprietário do terreno tem um direito subjectivo
Ex: Pense-se, agora, num concurso previsto na lei para preenchimento de uma vaga na Administração Pública. E pense-se que alguém se
apresenta a concurso com um curriculum cheio de qualificações adequadas para o lugar vago. Se o órgão competente prescindir das fases
subsequentes do concurso e nomear esse candidato, os demais candidatos à vaga podem instaurar uma acção em tribunal invocando a ilegalidade
cometida e exigindo que a lei se cumpra. Não têm direito à vaga mas têm um interesse protegido por lei a que o concurso siga suas fases com vista
à demonstração de quem é o melhor candidato para o preenchimento da vaga candidatos ao lugar vago têm um interesse legalmente protegido
Conclusão se, de um lado, os direitos fundamentais dos cidadãos se desdobram em interesses públicos que implicam o agir da Administração
Pública (são fim ou intenção da acção), de outro, tais direitos, bem como os interesses protegidos por lei funcionam como entraves à acção da
Administração Pública (são limite da acção) a Administração Pública não pode desrespeitar o direito subjectivo nem o interesse legalmente
protegido invocando a necessidade que tem em prosseguir o interesse público

48.4. A prossecução do interesse público pelos privados. A eficácia e a eficiência da acção de prossecução do interesse público.
Interesses públicos podem ser prosseguidos por privados tende a generalizar-se através do movimento recente de privatização de
empresas públicas ou da privatização de funções públicas ou ainda as parcerias público-privadas estes movimentos aparecem ligados à defesa
de um maior comprometimento dos privados na acção administrativa, com o objectivo de permitir que:
o interesse público possa usufruir da natural criatividade da gestão económica privada
o mesmo interesse público possa obter ganhos de eficiência sendo maior no sector privado do que no tradicional sector público
Questão potencial promiscuidade entre entidades públicas e privadas, em razão dos titulares dos respectivos órgãos de gestão e à apetência
que decorre de as obras e serviços públicos desenvolverem interesses económicos de vulto, pressionar no sentido de gerar distorções e fugas à lei
nos procedimentos administrativos peso dos interesses económicos é tão grande e a tendência para que os interesses públicos e privados
confluam é tão acentuada, que a pressão no sentido de desvios à lei e ao direito, por parte dos gestores, são muito fortes
Resposta Estado de Direito tem os seus sistemas de controlo:
controlo político da Assembleia da República sobre o Governo (art. 162º/a) )
órgão superior da Administração Pública (art. 182º)
defesa da legalidade democrática empreendida pelo Ministério Público (art. 219º)
fiscalização da legalidade das despesas públicas, empreendida pelo Tribunal de Contas (art. 214º)
acção da polícia administrativa em geral e da polícia judiciária em particular, no detectar de situações de ilegalidade
fiscalização empreendida pelos tribunais nos feitos que lhes são submetidos a julgamento, sancionando as infracções
Na luta pela defesa da lei e do direito, os Estados têm vindo a conferir atenção particular à «transparência dos procedimentos e actuações na
prossecução do interesse público» princípio da transparência adquire, no âmbito da Administração Pública, papel decisivo:
Art. 1º/4 Código dos Contratos Públicos «à contratação pública são especialmente aplicáveis os princípios da transparência, da igualdade e
da concorrência» precedência do princípio da transparência ao princípio da igualdade é sintomático do relevo que se atribui a este princípio

II -O princípio da legalidade administrativa


49. O princípio da legalidade administrativa
Interesse público é o motor da acção administrativa (princípio da prossecução do interesse público), o fundamento dessa acção e os limites a que
está sujeita encontram-se na lei princípio da legalidade administrativa tem assento constitucional Art. 266º/2 CRP

49.1. O princípio da legalidade administrativa. Origem.


Princípio da legalidade administrativa não é de formação recente ele estruturou, desde a origem, o Direito Administrativo.
Num primeiro momento a lei apresentou-se como limite à acção administrativa, impedindo-a de agir, o que significa que, onde há lei, a
Administração deve respeitá-la, não pode violá-la princípio da proibição do agir
Num segundo momento começou a entender-se que, para actuar, a Administração precisava de uma lei que previsse e fundasse o seu
actuar, o que significa que, onde não há lei, não pode a Administração agir princípio da competência
Princípio da legalidade administrativa decorre do princípio da separação de poderes ideia de que a Administração só pode agir com
fundamento na lei tem o sentido de primado do poder legislativo sobre o poder administrativo

49.2. Conteúdo actual do princípio da legalidade administrativa. Em especial, a obediência da Administração Pública à Constituição.
Actualidade princípio da legalidade não abrange só a vinculação à lei formal, emanada do poder legislativo.
A legalidade a que o princípio apela integra toda a normatividade Maurice Hauriou chamou «bloco legal»
Legalidade integra a Constituição, a lei da Assembleia da República e o decreto-lei do Governo, os princípios gerais de direito, os regulamentos,
os direitos emergentes de contratos, de actos administrativos, de decisões judiciais tem o sentido de um princípio de juridicidade
Obediência da Administração pública ao princípio da legalidade com esta amplitude levanta problemas complexos de aplicação
Questão: pode a Administração Pública ajuizar a constitucionalidade da lei e só se sentir a ela vinculada quando conclui que essa lei é
constitucional? Ou o juízo de constitucionalidade de uma lei pertence, em exclusivo, aos tribunais? problema levanta complexas questões

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 52


Sendo a Constituição quem impõe a vinculação da Administração Pública à lei (art. 266º/2), aceitar que o juízo de constitucionalidade feito pela
Administração introduz elementos de instabilidade na acção administrativa (uns órgãos podem concluir que a lei é inconstitucional e não se sujeitam
a ela e outros entenderem que a mesma lei é constitucional, a ela se sujeitando) afastar esse juízo, implica desrespeitar a própria Constituição
Resposta obediência da Administração Pública à Constituição tem o sentido de acréscimo de juridicidade da acção administrativa torna a
acção administrativa mais exigente e, em concreto, implica que a Administração Pública possa recusar, de um lado, a aplicação de normas legais
que contrariem direitos fundamentais directamente aplicáveis (art.18º/1 CRP) isto é, direitos, liberdades e garantias ou direitos de natureza análoga
(art. 17º) e, ainda, normas em que a inconstitucionalidade seja, nas circunstâncias, razoavelmente evidente

49.3. O princípio da legalidade administrativa e os seus subprincípios


É costume autonomizar, no âmbito do princípio da legalidade administrativa dois subprincípios:
Princípio da preferência ou prevalência de lei a Administração está proibida de praticar actos contrários à lei e, se o fizer, os actos
são inválidos (nulos ou anuláveis)
Princípio da precedência de lei ou da reserva de lei a Administração só pode agir se houver uma lei prévia a definir essa actuação;
sem uma lei que defina as atribuições de uma entidade pública e as competências dos seus órgãos, não há acção administrativa válida

49.4. O princípio da legalidade administrativa e a acção administrativa


Toda a acção administrativa deve obediência à lei quer consista da elaboração e aprovação de regulamentos, quer na prática de actos
administrativos, quer na celebração de contratos quer na realização de operações materiais, no âmbito da actividade técnica administrativa
Acontece que a lei não disciplina sempre do mesmo modo a actuação das entidades públicas:
umas vezes lei entra em detalhes, pormenoriza o procedimento e o conteúdo da acção administrativa, deixando ao órgão
administrativo pouca margem para decisão própria vinculação da Administração à lei é grande
outras atribui à Administração poder para esta usar em razão do conhecimento da realidade que só ela detém, realidade que varia
consoante o tempo em que se decide, as circunstâncias ou destinatários da acção vinculação da Administração à lei é menor
A lei atribuiu-lhe um poder discricionário, mais ou menos amplo, para esta exercer em função da realidade concreta
Poder discricionário é atribuído por lei à Administração e corresponde à margem de decisão própria desta, a fim de que a Administração possa
atingir as melhores soluções para as situações concretas que tem de resolver.

49. 5. O princípio da legalidade administrativa. Em especial, a acção administrativa em estado de necessidade.


Há situações (art. 3º/2 Código do Procedimento Administrativo) em que se aceita que a Administração Pública actue com preterição ou
desrespeito de normas procedimentais integram a figura do estado de necessidade.
Art. 3º/2 Código do Procedimento Administrativo: «Os actos administrativos praticados em estado de necessidade, com preterição das regras
estabelecidas neste Código, são válidos, desde que os seus resultados não pudessem ter sido alcançados de outro modo»
Estado de necessidade uma vez configurado no plano dos factos, apela a um superior sentido de juridicidade, que afasta, no concreto, o
cumprimento estrito da lei formal pressupõe a urgência, a natureza imperiosa do interesse a prosseguir e a excepcionalidade da situação

49. 6. O princípio da legalidade administrativa. Em especial, as actuações administrativas informais.


Recentemente «acções administrativas informais» actuações da Administração Pública fundadas em atribuições expressamente previstas
na lei que cria uma entidade pública mas em competências implícitas dos seus órgãos, não expressamente formalizadas em procedimentos
A Administração Pública age invocando competências implicitamente previstas na lei que cria a entidade pública e lhe define as atribuições, mas
não invocando uma específica lei que lhe defina a modalidade ou tipo de acção usado forma de corresponder à imensa variedade de situações
que se colocam hoje à Administração para dela obterem resposta, bem como à rápida evolução a que tais situações estão sujeitas
A aceitação das actuações informais da Administração não significa uma excepção ao princípio da legalidade antes o apelo a um sentido mais
amplo de juridicidade, já que tais actuações devem ser pautadas por rigorosos critérios jurídicos decorrentes de princípios gerais de direito

III - Princípio da igualdade


Administração Pública tem de agir na base da lei, prosseguindo o interesse público no respeito pelos direitos e interesses dos particulares
A lei não disciplina o agir administrativo sempre de forma totalmente vinculada atribui poder discricionário à Administração, em maior ou
menor grau, consoante as situações essa margem de autonomia atribuída por lei à Administração permite-lhe procurar e encontrar as melhores
decisões assim, a Administração Pública actua obedecendo a princípios jurídicos (Art. 266º/2 CRP)

50. Princípio da igualdade.


Igualdade valor fundamental do Estado de Direito (Art. 13º CRP)
Mais do que dissertar o valor igualdade, interessa focar a atenção sobre o modo como a igualdade conforma o princípio que limita a acção da
Administração no seu poder discricionário a Administração deve tratar os particulares igualmente, não podendo privilegiar uns em detrimento de
outros, e, se os particulares estiverem em situação desigual, tratá-los desigualmente, na exacta medida da diferença Importa lembrar que:
É nas suas relações entre a Administração Pública e os particulares que o princípio ganha sentido
O princípio da igualdade impõe à Administração, de um lado, uma proibição de discriminar e, de outro, uma obrigação de diferenciar
Princípio da igualdade funciona como um limite interno da acção administrativa, no exercício do poder de autonomia que lhe é atribuído por
lei, o seu poder discricionário vinculação autónoma da Administração Pública acto administrativo que viole o princípio da igualdade é inválido)

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 53


IV -Princípio da proporcionalidade
51. Princípio da proporcionalidade
Princípio da proporcionalidade outro limite interno da Administração Pública, quando esta age no exercício do poder discricionário
Princípio que norteia a decisão administrativa, interferindo no seu poder de escolha do momento de agir e do quantum desse agir
Tornou-se limite constitucional à acção administrativa na revisão constitucional de 1989
Princípio da proporcionalidade impõe este princípio à Administração, na prossecução do interesse público, que a limitação de bens ou
interesses privados só possa ter lugar se tal for considerado objectivamente necessário, só possa ter lugar através do uso de medidas adequadas
às finalidades a atingir e só possa ter lugar se as medidas forem proporcionais ou equilibradas às finalidades a atingir, tendo presente as
circunstâncias concretas a que a acção administrativa se dirige. As três vertentes em que se decompõe o princípio da proporcionalidade são:
Necessidade (ver ponto 35.3 da Sebenta)
Adequação (ver ponto 35.3 da Sebenta)
Proporcionalidade em sentido estrito (equilíbrio entre meios e fins) (ver ponto 35.3 da Sebenta)
Princípio da proporcionalidade Art. 272º/2 CRP violação do princípio da proporcionalidade determina a invalidade do acto administrativo

V - Princípio da justiça
52. Princípio da justiça.
Diogo Freitas do Amaral o princípio da justiça é um 'princípio compósito' ou um 'princípio de princípios'» duas realidades distintas:
Em primeiro lugar, que o princípio da justiça integra muitos outros princípios ( princípio da igualdade, proporcionalidade, boa-fé)
Em segundo lugar, que o princípio da justiça tem força própria, dele podendo surgir novos princípios, através da evolução comunitária
Mas dizer que a acção administrativa deve obediência ao princípio da justiça (art. 266º/2) o que significa na prática?
Tem o sentido de obrigar a Administração a ponderar o conjunto de valores que, em cada momento, emanam da dignidade humana e
que dão um acréscimo de juridicidade à decisão administrativa, para além dos outros princípios a que a Administração está sujeita
A violação do princípio da justiça acarreta a invalidade do acto administrativo

VI - Princípio da imparcialidade
53. Princípio da imparcialidade.
Princípio da imparcialidade determina que a Administração trate de forma «imparcial todos quantos com ela entrem em relação» (art. 6º do
Código do Procedimento administrativo) impõe aos titulares dos órgãos da Administração Pública o dever de actuar de forma isenta, correcta,
equidistante, acima dos interesses em presença, analisando todos os interesses, tudo vertendo na decisão. O princípio comporta duas vertentes:
Vertente negativa o princípio introduz a ideia de que os titulares de órgãos e agentes da Administração estão impedidos de intervir
em procedimentos administrativos, ou em acto ou contrato de direito público ou privado, em que se discutam interesses pessoais,
familiares ou de pessoas com quem tenham relações de proximidade pretende-se com este impedimento evitar que se suspeite da
correcção ou isenção da sua conduta no procedimento que irá ter lugar (Código do Procedimento Administrativo prevê um conjunto de
garantias de imparcialidade - arts. 44º-51º) O Código distingue situações de:
Impedimento, mais graves titulares dos órgãos ou os agentes administrativos devem considerar-se impedidos verificada
que for a situação de impedimento (art. 44º)
Suspeição, menos graves titulares dos órgãos ou agentes administrativos têm o direito de pedir escusa de intervenção
no procedimento e particulares têm o direito de opor suspeição e pedir substituição do titular do órgão ou agente (art. 48º)
Vertente positiva o princípio impõe aos titulares dos órgãos ou agentes que ponderem exaustivamente todos os interesses em
presença, isto é, procurem detectar todos os interesses com relevo para a decisão e, de seguida, os ponderem, um a um, com o mesmo
grau de rigor comparativo entende-se que um rigor de ponderação de um interesse e menor ponderação de outro introduz factores de
parcialidade na análise procedimental e vicia a decisão administrativa ou o juízo administrativo que seja feito sobre uma situação

VII - Princípio da boa fé


54. Princípio da boa-fé.
Princípio da boa-fé mais recente princípio constitucional da acção administrativa (aditado no art. 266º/2 na revisão constitucional de 1997)
Tem a sua origem no direito privado, que lhe dedica especial atenção, e é, nesse âmbito, alvo de amplo tratamento dogmático
Autonomização do princípio da boa fé e a sua consagração constitucional como princípio da acção administrativa tem um objectivo:
Criar um clima de confiança e previsibilidade nas condutas administrativas, promovendo, ao mesmo tempo, da parte dos particulares,
idêntico comportamento junto da Administração porque o Estado, através da sua Administração, deve agir como «pessoa de bem»
Por força do princípio da boa fé não poderá haver comportamentos inconsequentes da parte da Administração, que ora aceitem uma posição,
fundadamente, e amanhã, aceitem o seu contrário, também fundadamente Administração não pode mudar injustificadamente de critério
Princípio da boa fé tem, no procedimento pré-contratual e contratual, lugar de eleição para se manifestar havendo danos, a acções de
indemnização gera a confiança indispensável quer à correcta selecção do contraente quer à conformação dos termos do contrato a celebrar
Não é, porém, qualquer confiança que implica tutela ou protecção jurídica Para que se verifique uma situação de tutela é necessário que:
o lesado esteja de boa fé (boa fé subjectiva)
a contraparte crie um quadro de plausibilidade da sua actuação futura, quadro esse objectivamente construído
o investimento de confiança, traduzido em actuações desenvolvidas na convicção de que esse quadro se irá cumprir
possa imputar a quebra de confiança a quem a criou

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 54


| Sebenta: Síntese
PARTE I: CONCEITOS INTRODUTÓRIOS. FORMAÇÃO E EVOLUÇÃO DO PODER POLÍTICO E DO DIREITO PÚBLICO

I. Introdução: O Homem e a sociedade. Poder ou autoridade social e Direito


Aristóteles: «os homens nascem para viver em sociedade e, logo, para exercer poder»
Pólis: Estado ou comunidade política por excelência, a sociedade perfeita
Existem diferentes formas de sociedade politica para além da pólis: sociedades anónimas, inorgânicas, simples, complexas, associações públicas
Existe uma necessidade de um estatuto organizacional, definidor de interesses e fins a realizar: legitimação do poder
Se não houvesse poder, haveria anarquia, medo, insegurança, a «Lei do mais forte»
Concepções antropológicas sobre o ser do homem: distinção entre «estado de natureza» e «estado de sociedade»
Concepções contratualistas ( naturalistas): Pessimismo de Thomas Hobbes; Optimismo de Jean Jacques Rousseau; Realismo de John Locke
Hobbes: Estado de Natureza: o homem é um ser egoísta, egocêntrico que procura a felicidade a todo o custo: surge conflito da
desconfiança e insegurança: passagem para estado de sociedade através de um contrato social para assegurar a paz e segurança
Contrato Social: através da alienação de poderes: os homens entregam ou transferem os seus poderes para um único
poder, o poder político, de forma definitiva e irrevogável
Rousseau: Estado de Natureza: é o estado de paraíso, devido à natureza boa do homem: contudo, com progresso civilazional, com
o cultivo de terras: suge conflito da propriedade privada: passagem para estado de sociedade através de um contrato social
Contrato Social: através da alienação de poderes: os homens entregam os seus poderes, cada um a todos os outros
homens, de forma permanente e irrevogável, permanecendo assim livres antes e após o contrato
Locke: Estado de Natureza: não é bom nem mau: contudo, surge problema da justiça privada: nascem injustiças, onde propriedade
privada e liberdade não são asseguradas: passagem para estado de sociedade através de um contrato social
Contrato Social: através da delegação de poderes: homens emprestam os seus poderes a um ente exterior: na delegação o
poder é sujeito a um permanente controlo e os homens podem retirar esse poder sempre que o entenderem; para além disso,
os homens não delegam todos os seus poderes, somentes aqueles do bem público: ficam de fora intimidade e familia
Autores contratualistas: permite-nos compreender a liberdade do homem, a necessidade de poder na sociedade, a origem e modo de se exercer
A Constituição de uma sociedade política funda o poder político, orienta a sua acção e garante um desenvolvimento social organizado
Primeira aproximação a um conceito de direito: Direito como ordem de valores que identifica a sociedade e que se encontra legitimado

II. Homem, sociedade e poder político


Grécia Antiga: é o berço da reflexão teórica sobre a sociedade política: Modelo Ateniense (democrático) e Espartano (ditatorial)
Quem inventou a pólis?: Péricles; Xenofonte; Platão; Aristóteles: pensaram a política e o exercício do poder
Péricles: produziu oratória sobre Atenas e democracia: defesa dos valores fundamentais: liberdade e igualdade
Xenofonte: elogia nas suas obras o regime ditatorial de Esparta: defende «bom chefe» e obdiência; não coloca problema de legitimação ao poder
Platão: primeiro pensador político a delinear um projecto de sociedade política: a sofiocracia, com objectivo de justiça: sociedade perfeita
Sofiocracia: três tipos de homens, em razão das suas aptidões pessoais predestinadas governantes, guardas e artesãos
Abolição da propriedade privada, do casamento, familia e educação das crianças é deixada a cargo da cidade
Aristóteles: primeiro cientista da política: critica sociedade de Platão: defende sociedade plural e democrática, com objectivo da felicidade
Não aceita unicidade da cidade de Platão : defende pluralismo democrático
Defende existência de propriedade privada e família como meios fundamentais para homem atingir felicidade
Critica a existência de três camadas sociais: é desigual diferenciar classes do ponto de vista económico

III. Homem, sociedade e direito


Roma Antiga: Contruiu Império e consolidou-o através do Direito: importância da existência do direito para a existência de uma sociedade política
Convicção generalizada de que as normas devem ser cumpridas: o poder está legitimado no direito: conduz ao uso da coerção para obediência
A organização jurídica de uma sociedade tem um elemento material (fins a atingir) e elemento formal (condutas a tomar para atingir os fins)
Distinção entre «Ius Civile» (direitos dos cidadãos romanos) e «Ius Gentium» (direito comum aos estrangeiros)
Cícero: defende existência do Direito Natural como lei natural, eterna e imutável e todos os povos lhe devem obediência
Compilação do Código das XII Tábuas em aprox. 450 a.C.; Publicação do Código Teodósio (438 d.C) e «Corpus Iuris Civiles» (534 d.C.)
Distinção entre Direito Público e Direito Privado: segundo critérios das fontes; critério dos interesses; critérios da derrogação
Propagação do cristianismo: nascimento de Cristo: provoca mudanças políticas e sociais: novo conceito de humanidade e Dignidade Humana
Queda do Império Romano: origina dispersão do poder político: nova vivência jurídico-político do período medieval

IV. Sociedade, poder e justiça


Vivência jurídico-político do período medieval analisa-se a partir de linhas de força: raiz romana, raiz germânica e raiz romana
Raíz Germânica: costume como fonte de revelação por excelência do direito: proliferação de direitos de âmbito local; grande
dificuldade de formação de um direito geral uniforme: monarca tem de manter o direito e conservá-lo baseado no costume
Raíz cristã: direito natural como fonte de direito: Direito e poder têm origem divina; poder político deve ser exercido para o bem
comum; monarca tem um poder limitado, isto é, deve obedecer ao direito natural: ambivalência do poder régio
Pensamento de S. Tomás de Aquino e Santo Agostinho: existência de um Direito Natural que rege o poder político
Direito está estritamente ligado ao poder: cabe ao monarca medieval a função de julgar e trazer a paz aos litígios: Estado de Justiça
Unidade do direito: ausência de distinção entre direito público e privado: consequência da fonte por excelência do direito ser costume

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 55


V. Sociedade, poder e soberania
Séc. XII: pensamento jurídico-político segue conhecimento do direito romano: juristas passam a aconselhar o rei a modificar os «maus costumes»
A lei, fonte de direito, contribui para a centralização e fortalecimento do poder: monarca deixa de ser um «primus inter pares» (terceiro imparcial)
Séc. XV: Renascimento: nova mentalidade: institucionalização do poder político; atenuação do espírito religioso: nascem grandes monarquias
Jean Bodin: defende absolutismo régio de modo a pôr termos aos conflitos: concentração do poder no monarca: Teorização do Estado
Nasce conceito de «soberania»: «poder absoluto e perpétuo de uma república»; mas tinha limites: propriedade privada e familia
Elementos da soberania: poder; poder perpétuo; poder absoluto; poder irrevogável
Atributos: é una e indivisível; própria e não delegada; supremo; independente;
Faculdades do poder soberano: fazer leis e revogar; declarar guerra e paz; instituir cargos públicos; julgar em última instância; criar impostos, ect
Maquiavel: introduz conceito de «Estado»: comunidade política soberana na ordem interna e internacional: formação das nacionalidades
Hobbes: contribuiu para a personificação jurídica do estado: funda o poder do estado na vontade dos homens e não na vontade divina
Lutero: exclui vínculo entre Religião e Poder: Sentido da lei: identifica-se com vontade do monarca, mas a última palavra cabe a tribunais régios
Nasce Estado de Polícia: separação clara entre interesse público (Estado) e interesse privado (sociedade)

VI. Liberdade, igualdade e poder


Absolutismo régio: conduziu sociedade a extremos: isenções, privilégios; retira direitos; impõe a sua vontade independente
Perante esta situação: aparecimento das revoluções liberais: Glorious Revolution; Revolução Americana; Revolução Francesa (1789)
Após Revolução Francesa: Estado passa a Estado de Direito: Estado que se pauta pelo Direito e legitima quotidianamente no Direito
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789: grande importância cultural, política e jurídica
Com revoluções liberais: fim do poder absoluto dos monarcas: conquistam igualdade e liberdade: surge Estado Liberal de Direito: democracia
Direito deixa de ser compreendido como expressão da vontade do monarca para ser expressão da vontade da comunidade
Estado Liberal de Direito: Estado que garante segurança, liberdade, propriedade privada e igualdade para todos os cidadãos
Constituição é a chave da nova vivência jurídico-político: defesa por excelência dos direitos fundamentais dos cidadãos: «Governo de leis»
Constituição assenta numa separação de poderes (legislativo, executivo e judicial): poder tem duas faculdades: estatuir e impedir
Abade Sièyes: distinção entre poder constituinte e poderes constituidos e distinção entre poder legislativo e poder governamental
Benjamin Constant: surge ideia de poder moderador: surge Estado Legislação: «endeusamento» da lei no Estado Liberal de Direito
Lei encarada como a mais importante expressão do poder político: imagem da justiça, expressão de racionalidade e definidora de interesses
Séc. XIX: processo de democratização: surge direitos de 3ª geração: direitos políticos: liberdade de expressão e de manifestação
Princípio da legalidade da Administração: principio da subordinação da Administração à lei: única forma de legitimar a sua acção
Surge Direito Administrativo: dá origem a Estado Mínimo (Estado Guarda-Nocturno ou Estado de Segurança): lógica de intervir o minimo possível
Função Judicial: Juízos devem-se limitar a ser «as bocas que dizem as palavras da lei» para pôr termo aos litígios
Periodo Contemporâneo: industrialização e explosão demográfica: tensões sociais: mudança: desenvolvimento do direito público moderno
Surge Estado-Providência: Estado desmultiplica-se em tarefas; deixa de estar à margem da sociedade: passa a Estado-Administração
Sociedade das Nações (SDN): primeira forma de direito internacional público: cooperação entre Estado; segurança colectiva; defesa do Direito
Estreitando dos povos e dos Estados património comum: Desenvolvimento do direito: Principio da responsabilidade internacional
Construção da União Europeia desde Tratado de Roma (1957) até dias de hoje: Primado do Direito da União sobre o Direito Estadual
Estado tem limites financeiros provém da multiplicarem-se em solicitações e da garantia dos direitos e prestações sociais do Estado

VII. Segurança, poder e direito


Séc XX e XXI: duas guerras mundiais; guerra fria; ataque às Torres Gémeas: mostram vulnerabilidade do poder estadual: insegurança global
Fenómenos ambientais provocam problemas ambientais globais: surge «sociedade de risco»: sociedade de incerteza
Surge Direitos de 4ª geração: responsabilidade geracional e protecção ambiental, atitude de precaução: Novo ramo do Direito: Direito Ambiental
Contactos entre Estados estão alterados: ausência de fronteiras para resolução de problemas comuns: «sociedade do conhecimento»
Movimentos migratórios a nível global; novas tecnologias: «sociedade de comunicação»: soberania do poder estadual vai perdendo força
Ideia de cidadania global: Estado confronta-se hoje com novas realidades e desafios que interefere nas suas tarefas e responsabilidades
Comunidades públicas territoriais: crescente capacidade de influenciar decisões políticas do governo
Aparecimento do processo de privatização e parcerias público-privadas: «o Estado soberano, moderno, já não existe»
Periodo de reflexão e consciencialização do momento de crise que o Estado e o seu poder estão a atravessar: reinvenção do Estado
Notas tarefas: Estado Incitativo ou Estado-Propulsor: Estado de garantia da realização de direitos
Novos principios: cooperação entre os Estado; cidadania global; responsabilidade partilhada; coerência; precaução: «Direito da atenção»

VIII. Estado, direito e cultura


Estado e Direito: são realidades culturas: ideia de que «O Estado nasce para a pessoa e não a pessoa para o Estado»
Constituição: acto político-jurídico instituidor que lhe dá e mantém a vida: Sem Direito, o Estado não sobrevive: o Direito sustenta o Estado
Estado: existe para resolver específicos problemas: problemas das pessoas em sociedade: garante direitos fundamentais das pessoas
Órgãos do poder político são obrigados a cumprir a Constituição e a lei: Problema: Quem guarda o guarda?: Resposta passa pelo cidadão
Como lutar «contra quem tem a espada à cintura»?: Sanção é expresso nas eleições políticas e fiscalização do Tribunal Constitucional
Problema: será a coecção física elemento essencial ao direito?: existem duas concepções para responder: concepção estadista e pluralista
Concepção Estadista: identifica o direito com o direito estadual; possibilidade do uso da força física é essencial ao direito
Concepção Pluralista: recurso à coacção física não pertence ao conceito de direito (no direito internacional a coação inexiste)
Resposta: Direito não coincide com direito estadual e uso da força não integra no conceito do direito: inexiste nos direitos infraestaduais
Contudo, é essencial ao direito a possibilidade de sanção em caso de incumprimento: Sem sanção não há direito.

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 56


PARTE II: O DIREITO PÚBLICO MODERNO E SUA LIGAÇÃO AO ESTADO DE DIREITO

I. O conceito de Estado. A personalidade jurídica do Estado. Os fins do Estado de Direito


Estado: palavra polissémica: Constituição Portuguesa define Estado em vários sentidos: Administrativa; Constitucional; Internacional
Administrativa: entidade de direito interno; conjunto de órgãos para satisfação de necessidades colectivas
Constitucional: entidade com personalidade jurídica; engloba três elementos fundamentais: povo, território, poder político originário
Internacional: entidade de direito internacional
Estado para Georg Iellinek «Estado é um fenómeno histórico em que um povo exerce sobre um território um poder próprio»
Conceito de Estado: uma realidade situada historicamente, com um conteúdo cultural fruto da sedimentação de valores que emanam do homem
e sua dignidade, traduzido no modo de existência de um povo que se dá a si próprio um sentido de direito pelo qual se rege, um sentido que se
expressa em princípios jurídicos e em normas legais

Povo: substracto humano do Estado: é a comundade de pessoas, homens e mulheres livres: se não existe um povo não há organização política
Cidadania: qualidade de ser cidadão, membro do Estado, sujeito do seu poder e destinatário das suas normas
Critérios de aquisição de cidadania: originária e derivada: cidadãos originários e derivados têm estatutos jurídicos diferentes
Cidadania e Nacionalidade são distintos: Nacionalidade pode ser atribuida a pessoas colectivas e coisas, Cidadania apenas a pessoas físicas
Porque existe cidadãos?: ideia de criação de identidade (criar dois grupos: Nós e os Outros) e compromisso com um projecto político

Poder político: ligado ao conceito de soberania mas distinto da definição de soberania clássica: procura satisfazer exigências colectivas
Poder político originário: poder de uma sociedade se auto-instituir com autoridade própria, dando a si própria uma Constituição

Território: espaço sobre o qual exerce a sua jurisdição; espaço de vigência do ordenamento jurídico do Estado
Território é delimitado por fronteiras terrestes e engloba águas territoriais, a ZEE, fundos marinhos contíguos e espaço aéreo
Características do território: a indivisibilidade, a inalienabilidade e a exclusividade

Estado é uma entidade jurídica: pessoa colectiva, com direitos e deveres: personalidade jurídica acentua a subordinação do Estado ao Direito
Fins do Estado: Justiça; Segurança; Bem-estar e Sustentabilidade
Estado de Direito: desenvolvimento de uma acção com uma intencionalidade política que tem no direito o seu fundamento, limite e critério
Político: individuo, aquele que luta pelo poder ou exerce o poder e quer manter esse poder
Política: acto, luta por aceder ao poder e, uma vez obtido, exercê-lo e mantê-lo
Políticas públicas: programas de acção ordenados estrategicamente a finalidades e objectivos que se cumprem através do poder

Abade de Sieyès defendia uma distinção entre dois tipos de poderes do Estado: Poder Constituinte e Poder Constituido
Constituinte: o poder que elabora a Constituição; Constituídas: o poder que tem o seu fundamento na Constituiçao
Funções do Estado: Funções primárias (poder supremo, só depende da Constituição) e funções secundárias (poder dependente)
Funções Primárias: têm um dever de conformidade com a Constituição, mas são independentes dentro do seu ordenamento jurídico
Função Política (Governativa): acto político é um acto que só produz efeitos na esfera do Estado (ex:demissão do Governo)
Função Legislativa: um acto legislativo visa vincular todos os sujeitos jurídicos (ex: lei; lei constitucional)
Funções Secundárias: são dependentes do legislador, só podem fazer aquilo que for permitido ou previsto pela lei (Constituição)
Função Administrativa: satisfação de necessidades colectivas previstas pela lei
Função Jurisdicional: resolução de litígios; administração da justiça: ex: decisão de um tribunal: sentença

Órgãos do Estado: entidades puramente jurídica; centros aos quais a lei admite que possam exercer poder; integram-se em pessoas colectivas
Estado: pessoa colectiva que precisa de órgãos para funcionar: não se confundam órgãos com os seus titulares
Estado Português é composto por quatro órgãos de soberania: Presidente da República, Assembleia da República, Governo, Tribunal
Para além dos órgãos de soberania, existe uma infinidade de órgãos: órgãos legislativos, políticicos, administrativos, judicias
Classificação dos órgãos: colectivo ou singular, simples ou complexo
Como se designam os titulares dos órgãos: eleição, nomeação, cooptação, inerência, sucessão, sorteio ou aquisição revolucionária

Actos de Estado: existem quatro tipos de actos do Estado: Actos Políticos, Legislativos, Jurisdicionais e Administrativos
Acção do Estado: através de actos jurídicos formais (acto normativo que institui o Estado), normativos ou não normativos
Actividade normativa primária: exercício da função legislativa: ex: leis da Assembleia, decretos-lei do Governo
Actividade normativa secundária: exercício da função administrativa: ex: decretos-regulamentares, portarias, despachos normativos
Actividade normativa de direito internacional: competência para negociar, ajustar ou aprovar acordos ou convenções internacionais
Contratos: acordos de vontades entre sujeitos de direito: podem ser contratos bilaterais (multilaterais) ou contratos de direito privado
Actos jurídicos unilaterais (não normativo): traduzem vontade dos órgãos políticos ou administrativos para situação individual e concreta

Estado de Direito: dispõe de mecanismo de defesa do direito e da lei democraticamente aprovada contra quem a incumpre
Em caso de incumprimento: Tribunal Constitucional recorre a sua fiscalização preventiva
Provedor de justiça: órgão independente que exerce um magistério de autoridade para reparar injustiças contra acção dos poderes públicos
Defesa da legalidade democrática: empreendida pelo Ministério Público: «advogados do Estado»: representa o Estado, em sentido amplo

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Administração Públlica: desenvolvida por múltiplas entidades públicas: tarefas administrativas de polícia (ex: PSP, ASAE, PJ, GNR)
Administração Pública: função de polícia: defesa da legalidade democrática e garantia da segurança interna e dos direitos dos cidadãos
Estado realiza diariamente inúmeras actividades materias diversificadas para interesse público: na área da saúde, educação, cultura, ect

Séx. XX: afastamento do tradicional sistema de actuação do Estado: surge Direito Administrativo: Estado mais controlador do que empreendedor
Nova centralidade de actuação administrativa: parcerias público-privadas (Ministério das Finanças): empresas privadas para obras públicas, ect
Através das parcerais público-privadas: procura-se ultrupassar dificuldades financeiras e fomentar cooperação entre Estado e comunidade
A complexidade que hoje caracteriza a realidade social: normas não conseguem prever todas as situações: surgem príncipios jurídicos
Isto não significa que o Estado se afaste do direito princípio da obediência à lei formal dá lugar à obediência aos princípios gerais de direito
Os princípios gerais da contratação pública são os seguintes:
princípio da prossecução do interesse público: só o interesse público justifica a elaboração de um contrato
princípio da legalidade: todos os contratos têm de possuir base legal
princípio da autonomia contratual: as entidades públicas têm poder de conformar os contratos, sem sujeição a um elenco taxativo
princípio da boa fé: as partes, públicas e privadas, estão obrigadas a uma conduta ética, seguindo padrões de rectidão
Os princípios relativos à formação dos contratos públicos:
princípio da procedimentalização da actividade administrativa forma de racionalizar a acção administrativa
princípio da igualdade: impõe a proibição do arbítrio, a proibição de discriminações infundadas; diferenciar o que é diferente
princípio da proporcionalidade: implica uma ideia de adequação, de necessidade e de proporcionalidade em sentido estrito
princípio da imparcialidade: implica que não se favoreça nem prejudique um qualquer concorrente
princípio da concorrência: implica que, no decurso do procedimento concursal, se não alterem as condições do concurso
princípio da participação: determina a abertura do procedimento à colaboração dos particulares
princípio da transparência: implica a disponibilização, por parte da Administração Pública, de toda a informação que possui
princípio da economia: implica a racionalização dos recursos, em razão da sua escassez
princípio da eficácia: implica que os fins sejam atingidos no tempo determinado para os alcançar
princípio da eficiência: implica que os fins sejam atingidos usando o mínimo de custos e não dando azo a efeitos prejudiciais
Os princípios relativos à execução dos contratos:
princípio da estabilidade: o objecto do contrato deve ser pontualmente mantido; só se tal não for possível
princípio do equilíbrio financeiro: a Administração Pública é obrigada a repor o equilíbrio financeiro quando o contrato é alterado
princípio do cumprimento pontual: todas as condições do contrato devem cumpridas nos prazos, sob pena de sanção
princípio da responsabilidade: a Administração Pública deve fiscalizar a observância do contrato, detectando situações de ilegalidade

II. Formas de Estado


Formas de Estado: forma de organização dos Estados; como o poder se estrutura e como se distribui nos diversos órgãos
Estado Unitário: Estado que é governado constitucionalmente como uma unidade única: único ordenamento jurídico constituinte
Poder Centralizado: apenas um centro político; ou Poder Descentralizado (Regional): mais do que um centro político
Região Autónoma: entidade pública territorial que recebe da Constituição poderes e estatuto jurídico
Distinções: Integrais (todo o território se divide em regiões autónomas) ou Parciais (apenas uma parte do território se divide)
Homogéneos (todas regiões têm mesmo estatudo) ou Heterogéneos (há regiões com estatuto especial)
Com integração (regiões fazem parte do mesmo território e povo) ou Sem integração (não fazem parte)
Estado Composto: vínculu existente entre dois ou mais estados que se fundem: dois ou mais ordenamentos jurídicos constituintes
União Real: aglutinação ou fusão; vínculo entre dois ou mais estados com adopção de uma única Constituição e órgãos comuns
União Pessoal: coincidência na titularidade de órgãos entre os Estados; Estados permanecem independentes
Federação: estrutura de sobreposição de Estados ( fusão): nasce novo Estado (Federal), com Constituição própria, com soberania
Confederação: associação de Estados Soberanos para prossecução de fins comuns em regra de defesa e relações internacionais

Complexidade dos Estados Federados: Características: pluralidade de poderes políticos; pluralidade de cidadanias; dever de garantir a existência
dos Estados Federados em absoluta igualdade jurídica; existência de uma Câmara de Representantes; Estados Federados participam na
elaboração, aprovação e modificação da Constituição; Estado Federal rege relações internacionais; não existe possibilidade de desvinculação da
federação; Estados Federados são semi-soberanos
Limitação nas atribuições federais: federalismo clássico e federalismo cooperativo
Classificação: Federações Perfeitas ou Federações Imperfeitas; Federações de Grau único ou Duplo Grau
Constituição Federal: responsáveis pela criação de um sistema jurídico muito complexo: supremacia da Constituição federal

Conceito de Região Autónoma: pessoa colectiva de direito público, de população e território, dotado pelo Estado (através da Constituição) de
autonomia administrativa, política e legislativa, tendo em vista a prossecução de fins próprios do seu substrato humano, sendo para o efeito dotada
de um estatuto e de órgãos de governo próprio, no direito constitucional português: têm estatuto político-administrativo das Regiões Autónomas
Poderes das Regiões Autónomas: Poder Político e Legislativo; Poder Administrativo
Órgãos das Regiões Autónomas: Assembleia Legislativa Regional; Governo Regional; Representante da República

Estado Português: Estado Unitário, regional, parcial, homogéneo, com integração


Regiões Autónomas não participam na elaboração nem na modificação da Constituição e não estão representadas na Assembleia: Estado Uno

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III. Regimes políticos e sistemas de governo
Forma de governo ou forma política modo como o poder político se estrutura e se exerce no quadro do Estado, tendo especialmente em vista
a disciplina da actividade dos órgãos de soberania e as suas relações recíprocas. Dentro deste âmbito, podemos dividir:
Sistema de Governo titularidade dos órgãos de soberania e do modo como estes se organizam, funcionam e relacionam
Regime Político relação que se estabelece entre os indivíduos e o poder político, o funcionamento do sistema político-constitucional

Formas de Governo Monarquia (soberania reside no Chefe de Estado) e República (soberania reside no povo)

Regimes Políticos Democracia e totalitarismo


Governo exercido pelo povo não é necessariamente um regime democrático democracia totalitária

Sistema de Governo Sistema parlamentar, Sistema presidencial e Sistema semi-presidencial


Presidencial Incremento do poder do Chefe de Estado face ao Parlamento
Parlamentar Prevalência do Parlamento sobre os demais órgãos
Semi-Presidencial Existência de um terceiro centro autónomo de poder: Governo

Regime Político Português é um Regime democrático, expresso no Art. 2º da Constituição


Sistema Governo Português Sistema semipresidencial equilíbrio entre Presidente da República, Assembleia da República e Governo
Órgãos de Soberania em Portugal: Presidente da República, Assembleia da República, Governo, Tribunal

PARTE III: OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO ESTADO DE DIREITO: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA REPÚBLICA PORTUGUESA

1º Princípios estruturantes do Estado de Direito


Princípio da Dignidade da pessoa humana
Princípio do Estado de Direito
Princípio da proibição do arbítrio
Princípio da efectivação dos direitos fundamentais
Princípio da Tutela de confiança
Princípio da Separação de poderes
Princípio da cidadania
Princípio do acesso ao direito
Princípio da pluralidade de tribunais
Princípio da hierarquia dos tribunais
Princípio da especialização material dos tribunais
Princípio da participação política dos cidadãos
Princípio da transparência
Princípio da responsabilidade
Princípio da sustentabilidade do desenvolvimento

2ºPrincípio do funcionamento do Poder Estadual


Princípio da subsidiariedade
Princípio da cooperação

3ºPrincípios da organização e poder administrativa


Princípio da descentralização democrática da Administração Pública
Princípio da desconcentração de poderes administrativos
Princípio da prossecução do interesse público
Princípio da legalidade administrativa
Princípio da igualdade
Princípio da proporcionalidade
Princípio da Justiça
Princípio da imparcialidade
Princípio da boa-fé

Geração dos Direitos dividem-se/agrupam-se em três gerações, conforme as etapas/épocas históricas em que foram declarados:
Direitos da 1ª Geração direitos fundamentais: liberdade e igualdade; direito à vida; propriedade privada; constituir familia.
Direitos da 2ª Geração direitos políticos: direito de voto; acesso a cargos públicos; liberdade de manifestação, de expressão
Direitos da 3ª Geração direitos económicos, sociais e culturais: direito à saúde, educação, trabalho, habitação
Direitos da 4ª Geração direitos de solidariedade, desenvolvimento sustentável, responsabilidade geracional
Direitos da 5ª Geração direitos de acesso à tecnologia e acesso à Internet

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 59


| Sebenta: Cronologia

Antiguidade Clássica 4000 a.C


Conceitos-chave: Homem; Sociedade; Poder Político: Direito
Aristóteles: Ideia de que «Os homens nascem para viver em sociedade e, logo, para exercer o poder»
Origem Natural da sociedade: compreensão da necessidade de um poder político e importância do direito na sociedade
Primeira aproximação ao conceito de Direito: Primeira distinção entre Direito Público e Direito Privado;
Reflexão entre Direito Natural e Direito Positivo: Aparecimento do conceito «Constituição» como lei fundamental do Estado
1100-146 a.C Grécia Antiga: Aparecimento do primeiro tipo de sociedade política: Pólis (Séc. VIII a.C.)
Antiguidade Clássica

743 a.C Fundação da Cidade de Roma


450 a.C aprox. Código das XII Tábuas
495-430 a.C Péricles: discurso sobre igualdade e liberdade: primeira ideia de democracia: Modelo Ateniense
430-355 a.C Xenofonte: defesa de um regime ditatorial: Modelo Espartano
429-347 a.C Platão: Idealiza novo tipo de sociedade «sofiocracia»; Justiça como objectivo do poder político
384-322 a.C Aristóteles: critica «sofiocracia»; defende sociedade plural e democrática: 1º humanista da história
106-43 a.C Cícero: defende existência de um direito natural
Séc. I Mensagem de Cristo: Novo conceito de «dignidade humana»: liberdade e igualdade entre os homens
Séc. II e III a.C Hegemonia do Império Romano: lei como centralização e fortalecimento do poder

Idade Média 476 d.C. Queda do Império Romano do Ocidente


Conceitos-chave: Sociedade; Poder; Justiça
Periodo Medieval: nova vivência jurídico-político: Direito parte do costume (força germânica) e do Direito Natural (força cristã)
Idade Média

Periodo de dispersão do poder político: Ambivalência Régia


Conceito de «Estado Patrimonial»: Poder concentrado no rei ou monarca que o exerce sobre o seu reino
Ausência de distinção entre Direito Público e Direito Privado; Ideia de limitação do agir pelo Direito
1225-1274 d.C Pensamento de S. Tomás de Aquino: Defesa de um Direito Natural

Idade Moderna 1453 d.C Queda do Império Romano do Oriente


Conceitos-chave: Homem; Sociedade; Poder; Soberania
Introdução das teorias contratualistas: Hobbes, Locke e Rousseau: sociedade política como resultado do «contrato social»
Periodo segue conhecimento do direito romano: surge novas formas de compreender o poder na sociedade
Séc XV d. C. Periodo do «Renascimento»: nova mentalidade: Nascem as Monarquias
Idade Moderna

1469-1527 d.C. Nicolau Maquiavel: introduz conceito de «Estado»: comunidade política soberana
1483-1546 d.C. Lutero: Exclui vínculo entre papa e monarca: separação da Religião com o Poder Político
1530-1596 d.C. Jean Bodin: centralização do poder no monarca: introduz conceito de «soberania»
1588-1679 d.C. Thomas Hobbes: introdução da personalidade jurídica do Estado;
1632-1704 d.C. John Locke: Ideia de «Separação de Poderes» (assim como Montesquieu de 1689-1755)
1712-1778 d.C. Jean Jacques Rousseau
Séc. XVIII Periodo do «Iluminismo»: Era da razão

Alexandre Rafel Ventura Fernandes (140111102) | 60


Idade Contemporânea 1789 d.C Revolução Francesa
Conceitos-chave: Liberdade; Igualdade; Poder Político; Segurança; Direito
Estado passa a Estado de Direito (Democracia): «Estado Mínimo» (Estado Liberal) ou «Estado-Providência» (Estado Social)
Estado «Liberal» de Direito: Estado que garante a segurança, liberdade, igualdade e propriedade: «Estado Guarda-Nocturno»
Estado Liberal de Direito é o «Estado-Legislação»: Lei e Parlamento como manifestação do poder do povo
Estado Social de Direito: Estado desmultiplica-se em tarefas e deixa de estar à margem da sociedade: «Estado-Providência»
Estado-Legislação (Estado Liberal de Direito) dá lugar a Estado-Administração (Estado Social de Direito)
1688 d.C. Revolução Inglesa: «Glorious Revolution»
1748-1836 d.C. Abade Sièyes: distinção entre poder constituinte e poder constituido
1767-1830 d.C Benjamim Constant: ideia de «poder moderador» do Estado
1776 d.C. Revolução Americana
Idade Comtemporânea

1789 d.C. Revolução Francesa


1789 d.C. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
Séc. XIII Aparecimento dos direitos de 1ª geração: direitos fundamentais da pessoa humana
Séc. XIII Primórdios do Estado Constitucional: Constituição é a chave da nova vivência jurídico-político
1799 d.C. Conseil d´État, órgão criado por Napoleão em França: deu origem ao Direito Administrativo
Séc. XIX Processo de democratização: aparecimento dos direitos de 2ª geração: direitos políticos e civis
Séc. XIX Após Revolução Industrial: aparecimento dos Direitos de 3ª geração: sociais, económicos e culturais
Séc. XIX Primórdios do Estado Liberal de Direito: «Estado-Legislação
Séc. XX, Anos 60 Aparecimento dos direitos de 4ª Geração: titularidade coletiva; preocupação ambiental
1957 d.C. Tratado de Roma: inicio da União Europeia
Séc. XX Guerras Mundiais: desencadeiam necessidade de intervenção do Estado: «Estado-Providência»
Séc. XX Guerras Mundias: necessidade de compreender a dignidade da pessoa humana como questão central
Séc. XX Introdução dos princípios-jurídicos fundamentais que orientam o Estado de Direito
1903-1993 d.C. Hans Jonas: defende principio da responsabilidade da pessoa humana
1944-hoje Ulrich Beck: Sociedade de Risco; problemas ambientais; globalização; modernização; desigualdades
1975 Aprovação da Constituição da República Portuguesa segundo principio da Dignidade da Pessoa Humana
Séc. XXI Aparecimento dos direitos de 5ª Geração (?): Direito de acesso à tecnologia; acesso à Internet
Séc. XXI Desafios da globalidade; sustentabilidade ambiental e desenvolvimento intergeracional
Séc. XXI Evolução do Estado Social de Direito: transferência para os privados do exercício de funções públicas

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