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Desenvolvimento e Sustentabilidade

Sebastiao Imbiriba, setembro, 2007

Resumo

Reflexões sobre questões relativas a desenvolvimento sustentável,


sobre opiniões a esse respeito sem fundamento científico, sobre as
consequências do desmatamento da Amazônia, e sobre as causas do
atual aquecimento terrestre.
Reflections on issues related to sustainable development on
opinions in this regard without scientific basis, on the Amazon
deforestation consequences, and the causes of the current Earth's
warming.

Parte I - Lógica versus Emoção

Ao término de quase um ano dedicado ao estudo e à reflexão sobre


a sustentabilidade da civilização ocidental e seu papel como paradigma
do desenvolvimento mundial, preocupado com as ameaças que pesam
sobre a Amazônia, inclino-me a discorrer sobre tema de tanta relevância
para nosso futuro, para a definição do tipo e qualidade de vida que
desejamos e o que seria realizável, para obtê-los, sem prejudicar a
sobrevida de nossa espécie.
Na série de artigos que agora início, começarei por apresentar um
pequeno rol de leis fundamentais que regem o Universo, a Cosmologia, a
Física, a Química, as Ciências Naturais, de forma geral, pois que estas
regulam o funcionamento da própria vida e, por consequência, da
produção de todo tipo de bens, essenciais ou não a ela. As ciências
exatas, como o nome diz, buscam descrever o Universo com a melhor
precisão possível e são muito mais confiáveis do que as Ciências
Humanas.
Arthur Koestler, in The Act of Creation (Arkana, London, 1984, pg.
332), posiciona diversas áreas do conhecimento segundo os respectivos
graus de objetividade. O autor discorre sobre o tema com grande precisão
lógica, profundidade científica e beleza literária.
Quanto maior a objetividade de uma matéria, maior sua
verificabilidade, isto é, melhor pode ela ser comprovada por métodos
matemáticos e, portanto, maior a certeza. Por outro lado, quanto menor
a objetividade, maior a componente emocional, maior a dificuldade em
exprimi-la por meio de equações e, portanto, maior a incerteza. As
ciências denominadas exatas possuem maior grau de objetividade,
verificabilidade e certeza, em contraposição ás ciências humanas, sempre
submetidas a alto grau de subjetividade.
Quanto mais estatísticos sejam os procedimentos matemáticos que
definem as leis de um determinado ramo da ciência, mais este apontará
tendências, em lugar de fatos. É por isto que as Leis de Newton são tão
precisas e as predições da Meteorologia tão aproximativas. Esta
inexatidão nos aconselha a duvidar da certeza nas profecias apocalípticas
que apregoam o próximo fim da humanidade pelo aquecimento global.
Por outro lado, não podemos ignorar que as probabilidades de que muitos
cataclismos aconteçam é realmente muito alto.
No entanto, não seria possível entender os fenômenos da civilização
ocidental e, mesmo, as das demais civilizações, as atuais e as do passado,
apenas com base nas Leis Naturais, sem analisar a evolução histórica
dos fatos sociais e econômicos, sem considerar ciências associadas a
fenômenos culturais e psicológicos.
É o conjunto do conhecimento humano, disciplinado pela
metodologia científica, que nos permite prosseguir na busca das possíveis
soluções para a estagnação, ignorância e pobreza dos povos da Amazônia,
dos caminhos que nos conduzam ao conhecimento e à informação
específicos da região, à prosperidade e a abundância.
Um dos benefícios de uma sociedade se encontrar atrasada em
relação a outras, como o Brasil em ralação às sete maiores potencias
econômicas mundiais, é poder observar os bons e maus métodos
adotados por estas, selecionar o que possa ser útil e evitar os erros, assim
como, dar saltos tecnológicos, posicionando nossos sistemas produtivos
em posição de competitividade perante indústrias a caminho da
obsolescência dos países mais desenvolvidos.
Observar o comportamento das nações mais desenvolvidas nos
ajudará a evitar desperdícios e otimizar a eficiência ecológica, além de
permitir encontrar procedimentos metodológicos e tecnológicos capazes
de aumentar nossa eficiência econômica. Neste aspecto, é de extrema
importância o exame acurado da história sob a ótica ecológica. É por isso
que, aos fundamentos científicos, associo alguns aspectos da História, da
Sociologia e das tendências evolutivas da Humanidade. Alguns dos
fenômenos mais importantes a serem estudados encontram-se na área
da Ecologia e, para ressaltá-los, formulo o conceito da "Síndrome de Rapa
Nui", que descreve o uso indiscriminado dos recursos naturais até que,
exauridos, não mais pudessem sustentar a população de Ilha de Páscoa.
Japão, América do Norte, Europa constituem sociedades afluentes,
com altos índices de qualidade de vida. Não é justo e não há porque
acreditar que amazônidas devam ser condenados à miséria, à condição
de meros mantenedores de sorvedouros do carbono que outros fazem
jorrar na atmosfera. Certamente, há barreiras a serem vencidas,
caminhos a serem trilhados, métodos e processos produtivos que nos
conduzam à felicidade.

Parte II - Síndrome de Rapa Nui

Rapa Nui, nome nativo da ilha de Páscoa, é caso emblemático do


destino dos desatinados que usam a Natureza de modo inconsequente.
Não há dúvidas quanto à existência, nessa ilha, de árvores e palmeiras
que serviram como trenós, trilhos, roletes e alavancas necessários ao
transporte e levantamento de portentosas estátuas, os gigantescos Moais
de pedra.
A população dessa pequena ilha isolada do resto do Mundo, no
centro do Pacífico do Sul, a meio caminho entre o Chile e a Polinésia e a
mais de dois mil quilômetros da população mais próxima, cresceu e
exauriu seus recursos naturais além da capacidade de auto sustentação.
O resultado foi a devastação da floresta até a última arvore e o
esgotamento da terra desnuda pela erosão dos ventos e da chuva.
A luta pela sobrevivência, num ambiente exaurido, derivou para a
mortandade. A população, que alguns pesquisadores estimam ter
alcançado dez mil habitantes, foi quase totalmente dizimada. Quando o
navegador holandês, almirante Roggeveen, a encontrou no dia da Páscoa
de 1722, não havia mais do que uma ou duas centenas de pessoas na
ilha.
Era uma população isolada na vastidão do Pacífico. Embora seus
ancestrais fossem navegadores, bons o suficiente para encontrar e povoar
aquela ilha remota, a população remanescente não podia navegar mais
do que uns poucos metros além da praia com seus botes construídos com
desconjuntados pedaços de madeira antiga e desgastada, amarrados com
fibras e sem calafeto. Não havia, naquela ilha, os materiais necessários à
construção de barcos de longo curso.
Sem terra agricultável e sem barcos pesqueiros, não havia como
alimentar os habitantes. As consequências da Síndrome de Rapa Nui nos
fazem temer a exaustão dos recursos naturais da Terra, nos aconselha
parcimônia e prudência no uso deles, além de muito esforço de pesquisa
científica para que possamos julgar e agir com objetividade e
conhecimento de causa, para encontrar substitutos às matérias primas
esgotadas e alternativas aos atuais modos de viver e consumir. Uma
excelente reconstituição de fatos pré-históricos na ilha de Páscoa é
desenvolvida por Jarred Diamond in Colapso, Editora Record, 2005.
Em nossa vida como indivíduos, nações ou a própria espécie
humana temos, a cada momento, de priorizar valores em decisões, por
vezes, muito difíceis. Como a do cirurgião ao decidir se salva a mulher
em complicado trabalho de parto ou a criança por nascer. A Humanidade
tem de tomar o mesmo tipo de decisão com relação às florestas e outros
recursos naturais, diante do risco de perder valores tão importantes
quanto elas.
Uma dessas decisões é a que hoje (2007) se discute: a proposta do
Presidente dos Estados Unidos da América de permitir que a indústria
madeireira abra grandes aceiros nas florestas públicas daquele país, com
dois objetivos: evitar a propagação de grandes incêndios, o que seria útil
para as próprias florestas e aumentar a produção madeireira o que seria
benéfico para os desempregados e para os consumidores, além de
diminuir a poluição do ar e propagação dos incêndios para áreas
urbanas.
Diante da imensidão das queimadas em todo o Brasil, em especial
na Amazônia, decorrente da pequena umidade do inverso setentrional,
cabe perguntar se não seria o caso de adotar, pelo menos
experimentalmente, tal medida em nossas florestas.
A discussão, amplificada pela mídia, no entanto, se processa muito
mais no plano emocional. Isto se deve ao profundo sentimento de perda
que todos sentimos por tão grande destruição. O debate deveria estar em
plano científico, objetivo, para que possamos mensurar prós e contras e
avaliar até que ponto essa medida seria útil e eficaz, ou se, por outro lado,
não seria um passo adiante a caminho da manifestação global da
Síndrome de Rapa Nui.
Pode a Humanidade sobreviver sem a floresta? Não somente é
provável que possa, como é certo que a vida na Terra tenha existido
alguns milhares de anos sem elas. Nos dias de hoje, em algumas regiões
do Ártico e do Saara, existem populações sem florestas. Durante os
milhares de anos dos Períodos Glaciais, grande parte do Mundo todo
esteve privado de florestas, pelo menos as do tipo que encontramos na
Amazônia.
A floresta é bem de alto valor para a Humanidade, mas talvez não
seja necessidade absoluta imediata como é, por exemplo, o ar que
respiramos. A destruição do ar pela poluição provoca imediata sufocação,
graves doenças respiratórias, desconforto insuportável. O mesmo não
ocorre ao se derrubar uma árvore ou destruir a floresta inteira cujo efeito
só será sentido muito depois. É essa falta de resposta imediata da
Natureza, ou de percepção instantânea de seus efeitos pelo Homem que
permite a este continuar a se ariscar a provocar a grande e global
Síndrome de Rapa Nui.
Podemos, portanto, concluir que embora sejam de extrema
utilidade, não só pelo que representam e produzem por elas mesmas, mas
pela biodiversidade que suportam, a Humanidade poderia sobreviver sem
florestas. O que não sabemos é por quanto tempo.

Parte III - Mamutes congelados

Mastodontes, mamíferos pré-históricos, com altura de três metros


e peso de sete toneladas, aproximadamente, muito semelhantes, porém
distintos dos mamutes, viveram nas Américas e se extinguiram há cerca
de dez mil anos, possivelmente, por oferecerem carne abundante e de boa
qualidade aos caçadores primitivos que habitavam estes continentes.
Os mamutes viveram mais, desapareceram da América do Norte,
Europa e Ásia por volta de quatro mil anos atrás. A extinção desta espécie
pode ter acontecido pelo extremo frio da era glacial cujos últimos anos
vivemos hoje. Alguns espécimes foram encontrados contendo comida na
boca, a maioria em pé, afundada no permafrost, mistura de neve, terra,
lama e vegetação de estepe, ransformada em densa camada degelo.
O fato de estarem em pé denota a possibilidade de terem sido
surpreendidos por tempestades de neve na qual afundaram e
congelaram. Tais tempestades podem ter baixado a temperatura de forma
tão repentina que os animais foram paralizados quando ainda
mastigavam o alimento.
O congelamento em pé de mamutes e outros animais comprova a
severidade do clima glacial, o que nos leva a cogitar sobre o que seja uma
era glacial e quais suas causas.
O planeta Terra viaja pela Via Lactea, acompanhando o Sol,
descrevendo quatro movimentos principais: Rotação, Translação,
Precessão e Revolução.
Rotação é o giro de vinte e quatro horas da Terra em torno de seu
próprio eixo, que origina a sucessão de dias e noites;
Translação é o percurso de 365 dias e 6 horas em torno do Sol,
numa órbita levemente elíptica. Devido à inclinação de vinte e três graus
e meio do eixo interpolar em ralação à perpendicular ao plano dessa
órbita, a incidência da radiação solar sobre os hemisférios Norte e Sul
varia dando origem às estações do ano;
Revolução é a viagem redor do centro da Via Láctea em companhia
do astro Rei.
Precessão é o movimento resultante das forças gravitacionais
diferenciais da Lua e do Sol, perpendiculares ao eixo de rotação da Terra,
que fazem os polos Norte e Sul descreverem círculos completos a cada
25.868 anos, responsáveis pelas eras astronômicas, de 2.240 anos em
cada signo zodiacal, fazendo com que a extensão do eixo polar Norte
aponte sucessivamente para diversas estrelas referenciais, atualmente,
para a Estrela Polar.
Se o movimento de translação provoca as diferentes estações do
anos, o de precessão provoca as eras glaciais. A cada meio cíclo, de
12.934 anos, ora um, ora outro, os hemisférios Norte e Sul recebam mais
intensamente a radiação solar, aquecendo um enquanto esfria o outro.
Desta forma, quando o emisfério Norte esfria, América do Norte e Eurásia
se cobrem de gelo enquanto a Antártica descongela, seguindo-se o
congelamento da Antártica e dos oceanos que a circundam, enquanto a
calota do polo Ártico se trans forma em mar aberto e as estepes
canadenses, nórdicas e siberianas verdejam e florescem.
Após cada desgelo ocorrem o florescimento e decaimento da
vegetação e, concomitantemente, os ciclos de maior e menor presença de
gases de efeito estufa na atmosfera, sendo tal fenômeno mais intenso no
hemisfério Norte devido á sua maior extensão territorial.
Assim, durante milhões de anos, têm ocorrido tais ciclos de
esfriamento e aquecimento, de surgimento e desaparecimento de
vegetação, de concentrção de gases carbônico e metano, de expansão e
limitação do desenvolvimento de espécies vegetais e animais, inclusive de
hominídeos.
Àqueles que desejam aprofundar o conhecimento sobre a precessão
e seus efeitos no clima recomendo a leitura dos trabalhos de William F.
Ruddiman: "A mão do Homem", in Scientific American Brasil, Edição
Especial nº 12 Aquecimento, 2005, bem como, "The anthropogenic
greenhouse era began thousands of years ago", Department of
Environmental Sciences, University of Virginia, 2002.
A Terra encontr-se a meio caminho de completar meio ciclo de
precessão. Consequentemente, o hemisfério Norte deveria estar
congelado e coberto de neve enquanto o Sul deveria derreter e arder. No
entanto, o Norte, tanto quanto o Sul estão aquecidos. A precessão falhou?
Ocorre que aproximadamente no início deste meio cíclo, o ser
humano aprendeu a arte da agricultura e começou a utilizar a aluvião
dos rios egípcios, mesopotâmicos e chineses para produzir alimento rico
e abundante, o que permitiu a esses povos, e outros que os imitaram, a
crecer e desenvolver suas tecnologias e artes, passando da idade da pedra
para as do bronze e do ferro, a cronstruirem cidades, religiões e sistemas
de governo.
O agricultor precisa de chão para plantar, tanto quanto de madeira
para seus utencílios e energia para aquecer e cozinhar. Assim, as
florestas da Eurásia foram devastadas e a escaces de madeira e outros
recursos naturais originou guerras sem conta.
À medida que mais e mais florestas foram derrubadas e queimadas,
dando lugar a campos agrícolas, juntamente com o desenvolvimento das
culturas úmidas, como a do arroz, e a criação de gado, quantidades
crescentes de gas carbônico e metano foram liberadas dando início ao
efeito estufa provocando o aquecimento do clima que evitou o
congelamento do hemisfério Norte.
Se este aquecimento não houvesse ocorrido, não teria havido
condições para o crescimento da população humana nem o
desenvolvimento da civilização. A Humanidade estaria ainda na pré-
história, abrigada em cavernas, mal alimentada e correndo o risco de
extinção.
Este aquecimento pré-industrial permitiu que a Humanidade
chegasse ao início do século dezenove apta e ávida por maior
desenvolvimento e mais riqueza, iniciando o uso intensivo de materiais
não renováveis, tanto os minerais não carbônicos, como o ferro, cobre e
chumbo, quanto os combustíveis fósseis: carvão e petróleo.
Começou um novo cíclo de produção acelerada de lixo e toda sorte
de poluentes, contaminadores de mananciais, que colocam em risco a
vida e, de fato, tem ceifado muitas pessoas, além, é claro, dos gases de
efeito estufa, que acelera o aquecimento do clima.
Até o presente momento, em termos de crescimento populacional,
de aumento da longevidade, da diminuição de doenças, da ignorãncia e
da fome, os resultados têm sido positivos, apesar dos grandes males que
ainda pesam sobre grande parte da Humanidade. Portanto, o
aquecimento tem sido benéfico. O Homem não teria atingido o estágio
atual sem este importantíssimo fator. A grande dúvida é se esse
aquecimento pode progredir sem reversão das expectativas benéficas.
Aqui está o desafio para a ciência. Mas tal resposta ainda não foi
apresentada.