Você está na página 1de 5

Heráclito e Arquíloco: por Um além do devir1.

Matheus Oliveira Damião

Produzir uma análise comparativa entre um poeta grego arcaico e um filósofo pré-
socrático é uma tarefa difícil. A proximidade histórica nos dificulta traçar claras distinções, e,
além disso, o caráter mito-poético, natural aos pré-socráticos e a qualquer poeta, torna ainda
mais complicada esta separação. Se nos deparamos com dificuldades em tentar separar, o
mesmo ocorrerá se tentarmos unir, isto é, comparar, pois tanto para unir quanto para separar
é preciso, antes, distinguir. Somado a estes problemas que encontramos na zona do século VII
a.c., podemos ainda adicionar um outro, relacionado agora diretamente com ambos autores:
uma direta recriminação presente em um fragmento de Heráclito direcionada ao poeta
Arquíloco para que este, juntamente com Homero, seja condenado a chibatadas e ao exílio.
Como proceder com uma comparação frente a tal injúria? De forma análoga a expulsão dos
poetas da República de Platão, não sejamos tão rápidos e simplistas ao ponto de os opormos
como opostos por haverem apresentado discórdia. Usando como exemplo esta antiga rixa
entre poetas e filósofos, já anunciada como muito antiga por Aristóteles, sejamos mais
cauteloso e deixemos que o eco que provocou a arte de cada um em sua forma específica fale
por si só. Enquanto a problemática de se trabalhar com poucos fragmentos preservados,
partimos do pensamento de que toda obra de arte é fragmentária, quer seja um manuscrito
quer seja uma antologia, ela nunca se apresenta em seu todo. O mostrar-se do Ser é sempre
também o seu retrair-se, como já havia dito Heráclito: é próprio a phýsis retrair-se.

Nosso trabalho trará primeiramente uma análise de cada autor, mostrando como a
ideia de unidade os perpassa, mesmo que de modo distinto. Por fim, compararemos a duas
visões apresentando as características em comum a ambas.

Arquíloco

Como poeta do hic et nunc, Arquíloco, em diversos fragmentos, apresenta o homem


em um estado de constante mudança, inserido em um meio em que o ser humano está
lançado ao esmo. Impotente em relação a estas mudanças, o que lhe resta é admoestar a si
mesmo a não mais ignorar este fato.

Dentro desta concepção que poderíamos chamar de trágica (sem estarmos nos
referindo ao entendimento moderno nem a manifestação artística), bem entendido nas
palavras do professor Emmanuel, “abandono desesperado do homem às forças da natureza, à

1
Texto base utilizado na apresentação de Painel no VI Congresso de Letras Clássicas e Orientais da UERJ
(2013)
vontade dos deuses, à fatalidade do destino”2, encontramos não somente o poeta Arquíloco
como outros, tais como Simônides de Amargo e Anacreonte que apresentam o homem em
estado semelhante.

O que se faz distinto e novo em Arquíloco é o fato de que este “admite ao homem a
possibilidade de conhecer ou reconhecer um ritmo, um padrão em meio às inconstâncias.3”.
No anunciar das inconstâncias dos homens estão inseridos os fragmentos 207, 3 e 7.

Em 207, por exemplo, vemos uma clara atribuição aos deuses da constante mudança a
que o homem esta sujeito:

“Com frequência levantam os homens que jaziam em negra terra, sacudindo-os de


seus infortúnios; e com frequência os derrubam.”

Também em duas passagens endereçadas a Péricles, Arquíloco enfatiza a dependência


divina do homem. Em três:

“A fortuna e o destino dão ao homem todas as coisas, ó Péricles”4

E no fragmento sete:

“Pero los dioses, querido mío, han puesto la esforzada resignación como medicina de
los males sin remedio. Uma vez es uno y otra otro el que los padece: ahora se han vuelto contra
nosotros y lloramos una herida sangrienta; y otra vez irán a casa de otros”5

O fragmento sete, juntamente com o 211, nos traz, além da incerteza do destino dos
homens já enunciada, um componente importante para interpretarmos tais inconstâncias: a
resignação.

Inevitável devir, cabe ao homem, como enuncia o fragmento 7, resignar-se frente a


estas mudanças. Desse modo, este fragmento ao falar da resignação como remédio contra “os
males incuráveis” dá um passo em direção ao reconhecimento do padrão que será
apresentado no fragmento 211:

“Coração, meu coração, tumultuado por trabalhos sem fim, vamos lá, oferece ao
inimigo o peito ousado em tua defesa. Do adversário, o golpe feroz acolhe e fica firme, nem
grites vitória diante do mundo nem, vencido, te dobres em lamentos; mas das coisas alegres
não te alegres em excesso nem te aflijas no infortúnio em demasia. E reconhece o ritmo da
vida.” (SNELL, 2009)

Apresentando as características que surgiram em todos os fragmentos anteriores, tais


como, a apresentação de polos opostos e a resignação frente às mudanças, o fragmento 211
posiciona-se como um somatório das ideias apontadas anteriormente. Mas é também original
por apresentar algo que ainda não havia sido formalmente sugerido pelo poeta: uma unidade.

2
LEÃO, Emmanuel Carneiro. Heráclito. Pg.13
3
CORRÊA, Paula da Cunha. Armas e Varões: A Guerra na Lírica de Arquíloco. Pg. 54.
4
Tradução nossa.
5
Tradução de Adrados.
Após falar da vida por meio de uma imagética guerreira, comparando a suas
inconstâncias com as de uma batalha, o poeta admoesta seu coração, inclusive utilizando o
imperativo presente, que denota um conselho a ser sempre seguido, a se resignar, tal como no
fragmento 7, e a “reconhecer” que um ritmo dirige os homens.

A palavra que grifamos aqui é ritmo. Por ser oriunda do verbo réo que significa “fluir”,
poderíamos associar rapidamente esta palavra com as inconstâncias descritas anteriormente.
Porém, analisando outras ocorrências da palavra, tais como em Heródoto e em Tucídides, e
observando a união morfológica do radical como o sufixo “mós”, que denota a própria ação
expressa pelo verbo, concluímos, juntamente com JAEGER, que o ritmo em Arquíloco é forma
é limite que circunda as possibilidades de seu movimento.

Assim, percebemos que “rhythmós” é um termo que reúne dois aspectos sobre a
mudança da vida presentes na poesia de Arquíloco: o fluir, a mudança, e a percepção de uma
unidade nesta “fluição”.

Heráclito

Apesar de ter sido lido por gerações como o filósofo do devir, por causa da famosa
citação atribuída a ele por seu discípulo Crátilo em que anuncia o “tudo flui”, não passou à
posteridade apenas por assinalar o constante movimento da phýsis.

Os fragmentos que nos restaram de Heráclito apontam para uma visão que vai além do
“devir da phýsis”, apesar de ter sido este o enfoque dado por gerações ao filósofo, levando-
nos a um pensamento que afirma ser inerente ao Ser a presença de forças contrárias. O
apontamento de Uma unidade em Heráclito relaciona-se com o constante devir destas forças
que são reunidas pelo lógos, vocábulo oriundo do verbo légo que tem como sentido primitivo
reunir.

Essencial à manutenção do Ser são suas forças contrárias, tal como o arco e a lira, que
para manterem a harmonia de seus seres precisam estar em constante tensão com seus
componentes. Assim, longe de permanecer no puro apontamento das constantes mudanças,
Heráclito, através do lógos, anuncia uma força que as une, formando a essência de todas as
coisas.

Desse modo, ao mesmo tempo em que o filósofo assinala para o constante devir no
mundo também apresenta o lógos como unidade de todas as coisas:

Po/lemoj pa/ntwn me\n path/r esti

“De todas as coisas a guerra é pai”

Ou0k e0mou~ a0lla\ tou~ lógou a0kou/santaj omologei~n sofo/n


e)stin e#n panta ei]nai.

“Auscultando não a mim mas o Logos, é sábio concordar que tudo é um”
Neste último fragmento, outro elemento interessante em nosso estudo comparativo,
também bem presente em outras passagens, se mostra visível: a necessidade de “auscultar”,
de “ouvir” no frag. 34, de reconhecer e compreender, como aparece nos fragmentos 51,1, 34 e
41, o logos, a unidade que possui todas as coisas.

Esta necessidade do homem compreender o lógos fica evidente de modo claro no


fragmento 1, em que Heráclito afirma que os homens se comportam como quem não
compreendem, e agem como se cada coisa possuísse sua própria natureza, ignorando,
portanto, a unidade.

Assim, o logos, isto é, etimologicamente, “aquele que reúne, que une”, é um termo
capital do pensamento heraclítico, pois carrega a ideia de unidade harmoniosa em que
opostos são postos no mesmo plano.

Comparativo

Vemos, portanto, que tanto em Arquíloco quanto em Heráclito há uma clara


percepção de unidade em meio ao devir. Enquanto no poeta de Paros o devir é apresentado
nos âmbitos que se relacionam a vida do ser humano, em Heráclito vemos a formulação de um
pensamento em que toda a realidade é posta em questão. Porém, o que nos é importante
assinalar, é o fato de que em ambos os autores há uma voz que busca o universal, o comum a
todos.

Dessa forma, os acontecimentos da vida são vistos por ambos como atos que não
podem ser tomados de forma isolada, pois, a verdade, eles são apenas uma manifestação de
algo que as governa. Em Arquíloco dá-se o nome de rhythmós, em Heráclito de logos.

Cabe ao homem “auscultar”, “reconhecer” que em todos os atos, por mais opostos
que sejam, há uma unidade que os reúne. Por isso, os homens em Arquíloco precisam
reconhecer que essa forma governa tanto os acontecimentos bons quanto os ruins, como diz o
fragmento 211. Em Heráclito, por sua vez, os homens precisam reconhecer que “tudo vem a
ser conforme e de acordo com este logos”.

Bibliografia:

ADRADOS, Francisco R. Líricos Griegos Elegiacos y Yambógrafos Arcaicos (siglos VII- V A.C).
Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1990.

BERGE, Damião. O Logos heraclítico, Introdução ao Estudo dos Fragmentos. Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro, 1969.
CORRÊA, Paula Soares. Armas e varões: a guerra na lírica de Arquíloco. São Paulo: Fundação
Editora da UNESP, 1998.

EMMANUEL, Carneiro Leão. Heráclito Fragmentos Origem do pensamento. Rio de Janeiro:


Tempo Brasileiro, 1980.

KIRK, G.S., RAVEN, J.E. & SCHOFIELD, M. Os Filósofos Pré-Socráticos. Trad. Carlos Alberto Louro
Fonseca. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008

LIDDEL & SCOTT. Greek-English Lexcion.

NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na Época Trágica dos Gregos. Trad. Antonio Carlos Braga. São
Paulo: Escala, 2008.

SNELL, Bruno. A Cultura Grega e as Origens do Pensamento Europeu. Trad. Pérola de Carvalho.
São Paulo, Perspectiva, 2009.

Você também pode gostar