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Areruya: religião sem fronteiras

Dilson Ingaricó
Secretário do Índio de Roraima e Assessor do Conselho do Povo Indígena Ingaricó

Virgínia Amaral
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social
do Museu Nacional - UFRJ

Na I Conferência da Cultura Ingarikó, povos kapon e pemon celebram sua religião e


debatem possibilidades de livre acesso territorial e intercâmbio cultural

Entre os dias 23 e 28 de março de 2016, os Ingarikó realizaram sua I Conferê


ncia da Cultura na comunidade Manalai, situada no extremo norte do território Wîi Tî
pî da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que faz a fronteira do Brasil com a Guiana
e a Venezuela.
O evento foi organizado pelo Conselho do Povo Indígena Ingarikó (COPING),
que estima a participação de mais de 700 pessoas: uma dúzia de parceiros karaiwa (nã
o indígenas); alguns convidados de etnias pemon; e uma grande maioria kapon. Das
25 comunidades indígenas que estiveram representadas, 4 são pemon e 21 kapon –
muitas delas localizadas nos países vizinhos e afastadas, por caminhadas de apenas 1
ou 2 dias, das 11 comunidades habitadas pela população ingarikó, de 1429 pessoas
(Fonte: DSEI Leste - Roraima).
A programação proposta pelo COPING teve o objetivo de evidenciar aos
participantes a riqueza de seu próprio universo cultural para, assim, fortalecê-lo. A
começar pelas refeições coletivas, que foram predominantemente constituídas de
iguarias da culinária kapon e pemon: damorida, beiju e caxiri. Houve também uma
feira de sementes, artesanatos e alimentos produzidos na região. E, paralelamente às
negociações da feira, contação de estórias e competições de remo e natação no rio
Panari.
Durante toda a conferência, nas madrugadas, e em períodos diurnos
intermitentes, os participantes celebraram, com danças e cantos, a religião Areruya,
que consideram ser o principal elo cultural entre os povos kapon e pemon habitantes
da região da tríplice fronteira Brasil-Guiana-Venezuela. Assim, as lideranças políticas
e religiosas presentes reservaram um dos dias do evento para debater os aspectos
problemáticos da intervenção dos Estados nacionais em seu modo de vida, avaliando
em que medida as fronteiras têm dificultado a união entre os habitantes locais, em
conflito com os princípios da religião Areruya.

Povos de fronteira?

A região circum-Roraima, assim designada em função da circunvizinhança ao


monte homônimo, situa-se na porção ocidental do maciço das Guianas. É habitada,
desde tempos imemoriais, por etnias karib que se autodenominam Kapon (os
Akawaio, Ingarikó e Patamona) e Pemon (os Macuxi, Taurepang, Arekuna e
Kamarakoto). Etnias que, além de participar dos mesmos sistemas de trocas
matrimoniais e comerciais, compartilham as mesmas narrativas cosmogônicas,
protagonizadas por Makunaimë e seu irmão mais novo, de nome variável; a mesma
tradição material, com ênfase no processamento da mandioca e na confecção de
cestarias, redes de algodão e panelas de barro; e os mesmos ritos – ainda que a
assiduidade de sua prática varie bastante de um subgrupo para outro. Em suma, os
Kapon e Pemon, apesar das especificidades linguísticas e históricas, participam de um
mesmo complexo sociocultural que não se deixa limitar pelas fronteiras nacionais
agregadas ao território circum-Roraima, justamente porque as precede historicamente
e as transpõe metafisicamente, sobretudo, no plano espiritual tratado pela religião
Areruya.

Areruya: o coração do mundo

Nas cerimônias religiosas, o sosi epuru (líder da igreja) conduz cantos e um


bailado em roda, às vezes interrompido por prédicas. Depois de horas, os dançarinos
se dirigem ao pátio exterior à igreja, onde recitam a ladainha final, seguida de uma
refeição. Eis a imutável sequência litúrgica da religião Areruya. Já os cantos entoados
variam de um epuru para outro, apesar de sempre exprimirem a mesma ética e a
mesma cosmologia.
Chamados de pîrata, “dinheiro” nas línguas kapon e pemon, os cantos e as
rezas são retribuições, ou pagamentos, a Paapai (Deus), que concede aos humanos o
ar, a água, as caças, os demais alimentos, enfim, a vida. Não são orações restritas ao
espaço cerimonial da igreja. As pessoas cantam em casa, deitadas em sua rede, antes
das refeições coletivas ou, por exemplo, quando abrem uma nova roça. Nestas ocasiõ
es, podem entoar cantos dedicados à entidade pîreri paasi, a irmã das manivas, em
troca de seu auxílio na abundância das roças e dos alimentos constituídos à base de
mandioca.
Muitos cantos versam sobre a condição provisória deste mundo, que será
destruído por paraw (um cataclismo), anunciado pelo advento de Sisosikîrai (Jesus
Cristo). A destruição da terra é inevitável, mas ela não precisa ser súbita. Deus pode
mantê-la no eixo caso seja agraciado com as orações da religião Areruya – daí
dizerem que ela é pata ewan (o coração do mundo).
Os religiosos não estão, entretanto, apenas preocupados com a manutenção do
equilíbrio terrestre. Mediante as orações faladas, cantadas e dançadas, procuram se
transformar à imagem de Jesus Cristo, pois sabem que, no momento do cataclismo,
somente os pukkenak (os sábios ou profetas) subirão ao céu junto dele e de Deus. Já
os descompromissados com a ética religiosa, morrerão e terão seu espírito fadado à
escuridão.

Uma religião indígena

Sabe-se que, a partir do século XVII, missionários de diversas ordens cristãs


estiveram na região circum-Roraima, e que houve uma brecha de quase 100 anos
desde a expulsão dos capuchinhos do território venezuelano, no início do século XIX,
até o retorno de missões permanentes, com a instalação dos anglicanos no rio Pirara,
em 1908. Até então, estes lançaram mão de métodos heterodoxos de pregação junto às
populações ameríndias locais: catequese itinerante; distribuição de folhetos com
temas bíblicos traduzidos para as línguas maternas; e visitas aos assentamentos de
madeireiras que empregavam jovens indígenas.
Especula-se que a heterodoxia e a maleabilidade de tais métodos de pregação
fomentaram a eclosão dos diversos movimentos proféticos noticiados no mesmo perí
odo. Movimentos conduzidos por Kapon ou Pemon cujo contato com os religiosos
brancos teria inspirado sua busca pela condição divina no paraíso celestial. Sugere-se
ainda que tais profetismos, mais tarde, se cristalizariam em cultos como os de
Areruya.
Esta versão sobre a origem da religião é predominante na bibliografia
antropológica e histórica. Os Akawaio a corroboram. Dizem que seu fundador foi
Iisiwon, um Macuxi das montanhas Kanuku, que estudava as palavras de Deus com
homens brancos. Um dia, os instrutores levaram-no à Inglaterra, onde ele sentiu que
estava sendo enganado. Tanto desejou que logrou conversar com Deus, que o
informou sobre a mentira dos homens brancos e lhe deu condições para que
transmitisse um conhecimento verdadeiro aos parentes. Quando voltou para casa,
Iisiwon passou a difundir as novas ideias.
Conforme a história oral ingarikó, a saga de Iisiwon é relativamente recente.
Os rituais de Areruya datariam da época do profeta indígena Pîraikoman, irmão de
Nua (Noé). Seriam, portanto, mais antigos que o próprio Cristo. Os Ingarikó não
endossam, nesse sentido, a versão mais difundida sobre a origem de sua religião. E,
quando confrontados com as hipóteses acadêmicas a respeito da influência missioná
ria sobre os profetas precursores, afirmam tratar-se de uma religião indígena. Mas não
apenas: fazem questão de que ela seja a única praticada em seu território, onde é
proibida a entrada de missões proselitistas.

Três Estados. Uma religião

Na manhã do dia 26, o quarto dia de conferência, um monomotor aterrissou na


pista de pouso da Manalai. Trazia a governadora de Roraima, que foi recebida com
cantos religiosos e uma enorme roda de Areruya. Ela estava ali por conta da feira de
artesanatos e sementes. E, como é de praxe, escutou algumas das reivindicações das
comunidades ingarikó, mediante a leitura de um documento que lhe foi entregue. A ú
nica liderança que lhe dirigiu a palavra diretamente foi uma senhora akawaio,
representante da igreja de Amokokupai, localizada na Guiana.
Em 1977, os líderes religiosos de Amokokupai lograram que sua religião
integrasse o Conselho de Igrejas daquele país. Na prática, isso significa que os
batismos e os casamentos oficiados por esta igreja são reconhecidos pelo governo e,
conforme a legislação local, os últimos possuem efeitos civis. Em função deste
reconhecimento oficial, as lideranças locais pleiteiam a prerrogativa de oficiar
casamentos e batismos, inclusive, nas comunidades kapon e pemon de alhures. Estas,
por sua vez, não se opõem ao status de headquarter que a igreja de Amokokupai
reivindica para si e entendem que os preceitos básicos de sua religião estão de acordo
com as leis presentes em um regimento escrito e registrado pelos religiosos Akawaio.
Conforme a líder akawaio dizia à governadora, são essas leis que, há muito
tempo, orientam o convívio dos povos Kapon e Pemon e o manejo de seu território.
Quando os três estados nacionais intervêm na região, sem contemplar o conhecimento
indígena que a mantém tal como ela é, estão desrespeitando a política interna e a pró
pria religião Areruya. Desrespeitam-na, também, quando impedem a livre circulação
de seus praticantes, cuja moralidade repercute as noções religiosas de meruntë – uma
força geralmente associada à coletividade, à união entre as pessoas – e ekkaisarë – a
igualdade que elas atingem mediante um convívio bem orquestrado, à maneira da
sintonia que a dança de Areruya cria entre os dançarinos.
É verdade que os indígenas não são proibidos de cruzar as fronteiras, mas têm
sua livre circulação impedida quando, por exemplo, desistem de residir em
comunidades de países vizinhos – onde possuem parentes ou até mesmo onde
cresceram – por conta de diversos constrangimentos burocráticos que, senão
impossibilitam, dificultam seu acesso à documentação e aos direitos locais.

Hidrelétricas e mineração

Nos últimos anos, o governo guianês tem negociado com multinacionais a


construção de duas hidrelétricas inter-relacionadas, nas regiões do alto Mazaruni e do
alto Potaro. A energia gerada pelas duas hidrelétricas serviria ao consumo interno, à
venda para o Brasil e, também, ao desenvolvimento da mineração, com a exploração
de bauxita e a instalação de um complexo metalúrgico. O ambicioso projeto exigiria a
construção de uma estrada de acesso à região do alto Potaro, tornando-a ainda mais
vulnerável ao desmatamento, ao garimpo e ao assédio das mineradoras. Se tais
empreendimentos forem concretizados, é provável que as comunidades patamona,
localizadas na região onde foram identificadas as reservas de bauxita, testemunhem a
degradação e o aumento da insegurança em seus territórios. Estima-se também que
grande parte do território habitado pelos Akawaio e Arekuna seja alagada, inclusive,
algumas de suas comunidades mais populosas. Tratar-se-ia, enfim, de um grande
desastre socioambiental (para informações detalhadas, veja o relatório da antropóloga
Audrey Butt Colson na página da ONG Survival
http://www.survivalinternational.org/news/9568).
No segundo dia de conferência, enquanto discutiam os limites para a
concretização de seus ideais de equilíbrio social e também cósmico, as lideranças
presentes apontaram como principais obstáculos as relações com os Estados
nacionais. Um líder patamona, de Kankarumë, mencionou as hidrelétricas impostas e
manifestou seu descontentamento com intervenções governamentais dessa natureza.
Além de degradarem o meio-ambiente, elas criam desagregação social, até mesmo
conflitos internos, quando algumas comunidades não são beneficiadas com as
medidas compensatórias destinadas às outras.
Para os Kapon e Pemon, os três Estados também se fazem notar pela omissão
diante do garimpo ilegal. A atividade traz diversos problemas às comunidades da
Guiana e, nos últimos anos, tem crescido também na Venezuela. Seus impactos
ambientais e sanitários já se fazem sentir até mesmo entre os Pemon que vivem no
Parque Nacional Canaima, eleito Patrimônio da Humanidade, pela Unesco, em função
da impressionante beleza natural e da grande relevância ecológica. O Monte Roraima
e os demais tepuis que o compõem são algumas das formações geológicas mais
antigas da terra, que abrigam diversas espécies endêmicas e onde nascem importantes
rios que irrigam a circunvizinhança.
Além de não combater a invasão garimpeira, o próprio governo venezuelano
ameaça degradar a região, que é um dos principais destinos turísticos da Venezuela.
Este ano, o presidente Maduro anunciou a criação do Arco Minero del Orinoco, uma
zona de exploração mineral de mais de 111 mil quilômetros quadrados, que afetará
territórios habitados por diversas etnias indígenas, inclusive, a bacia do rio Caroní,
que nasce no majestoso tepui Kukenan.

Outras artimanhas do Estado

Sarik puk era pajé e pukkenak. No início do século XX, fundou a igreja do rio
Panari, para onde atraiu diversas famílias. Esta seria a origem da atual Manalai.
Enquanto viveu e liderou a comunidade ingarikó, Sarik puk opunha-se ao contato de
seu povo com os karaiwa (não indígenas). Entretanto, sabia que no futuro
construiriam ali, na Manalai, uma pista de pouso e uma escola. E dizia que, neste dia,
os Ingarikó começariam a perder sua cultura, pois, através da escola, o Estado os
transformaria em anzóis. Isto é, os instrumentalizaria a serviço de seus próprios
interesses.
Nos debates da conferência, um morador da Manalai resgatou o caso de Sarik
puk, do qual extraiu uma observação interessante: o mundo de Sarik puk já está em
extinção e os Ingarikó devem, agora, saber operar as armas deste novo mundo em que
adentraram. Não tem mais volta. É verdade que a escola pode enfraquecer a cultura
local, mas ela pode ser útil. O que o povo, com o auxílio dos professores, deve
perseguir é uma inversão dos papéis: fazer da escola um local onde os jovens
aprenderão a usar o Estado como seu anzol.