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CAPELANIA PRISIONAL

Pr. Manoel Peres Sobrinho

INTRODUÇÃO
Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757, a pedir perdão
publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris aonde devia ser
levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma
tocha de cera acesa de duas libras; em seguida, na dita carroça, na praça
de Grève, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos,
braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca
com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às
partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo
fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a
seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus
membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas
lançadas ao vento.
Finalmente foi esquartejado. Essa última operação foi muito longa,
porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que,

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em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi
necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e
retalhar as juntas...
Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador,
nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas
faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: “Meu Deus, tende
piedade de mim; Jesus, socorrei-me”.

Para Damiens, era tarde demais!


Seus rogos a Deus não encontraram eco que pudessem livrar-lhe
daquele martírio. Por mais que gritasse, em meio às suas horríveis dores,
nada poderia ser feito, mesmo que ele pedisse para Jesus. Seu tempo havia
passado. Lamentavelmente estava perdido para sempre!
Sua vida e horrível morte serviram, emblematicamente, no entanto, para
demonstrar o quanto o homem precisa de Deus. O quanto o sociedade,
como um todo, precisa ser invadida e envolvida com as Boas-Novas. E, o
quanto há para ser feito pela Igreja, como Agência de Salvação.
Quem foi Damiens? Quem eram seus pais? Quais as oportunidades que
teve para se educar, trabalhar e constituir família? Quais foram as
oportunidades que teve para saber de uma vida melhor com Deus e seu
Reino? Como chegou a permitir que o reino das trevas pudesse fazê-lo tão
violento que chegasse a tirar a vida do próprio pai? Não o sabemos.
Hoje os tempos são outros.
Nada de tortura, esquartejamento, exposição em praça pública para
vexame, opróbrio e vergonha. Nada de forca, de guilhotina, ou de fogueira.
Mas, de alguma forma, o tempo presente guarda, com o antigo, alguma
semelhança. A de que muitos prisioneiros, criminosos ou elementos de
baixa periculosidade são pessoas desconhecidas, limitadas econômica e
culturalmente e, o que é pior, seriamente comprometidas com as forças do
mal, determinando já o futuro de suas almas imortais. Nunca tiveram um
sério encontro com Jesus, nem foram evangelizadas de forma eficiente,
eficaz e prática para terem uma oportunidade para sua pessoal decisão por
Cristo.
Os presídios são lugares pouco freqüentados pelo movimento
evangelístico das igrejas.
A filosofia missionária de muitas comunidades, em seu plano anual, não
contempla esse tipo de trabalho e, de alguma maneira nem se interessa em
alcançar esse tipo de pecador. É custoso, perigoso e de pouca expectativa
de bons resultados.
Muitos crentes até se horrorizam quando são instados a esse ministério.
Outros, quando convidados, peremptoriamente rejeitam e se esquivam, por
não quererem se comprometer. Não os condenamos por isso. Nem os
censuramos. É uma questão de ministérios e dons espirituais. De uma

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chamado específico do Senhor da Igreja.
A prisão é, sem dúvida, um lugar sinistro onde tudo ali nos agride e
incomoda, desde a nossa sensibilidade visual até mesmo nossos mais
profundos sentimentos, por sabermos que ali as pessoas estão contra a sua
vontade, de uma maneira opressiva e limitadora, por motivos, que quem
sabe, hoje detestariam lembrar-se disso.
Mas, por outro lado, pode ser uma grande oportunidade que Deus está
nos dando em concentrar um grande número de pessoas carentes e sem
Jesus para ser abençoado com o Evangelho do Senhor. Coisa que, em
outras circunstâncias seria impossível. Isso se constitui num grande
paradoxo: eles são presos por um tempo, para depois se verem livres para
sempre, e agora de corpo e alma.
É a maior oportunidade que a Igreja já recebeu. Um campo
absolutamente à disposição e pronto para ser ceifado.

I – POR QUE UMA CAPELANIA CRISTÃ PRISIONAL?

1. Porque é uma recomendação bíblica

Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos


com eles – Hebreus 13:3.
O Senhor liberta os encarcerados – Salmo
146:7c.
Porque não somente compadecestes dos
encarcerados – Hebreus 10:34.
Estava nu, e me vestistes; enfermo, e me
visitastes; preso, e fostes ver-me – Mateus 25:36.

A tônica de todos estes textos é a pessoa do encarcerado, sem dúvida


alguma. E, pelo fato, obviamente de estar preso. Certo! Mas podemos ir um
pouco mais além, na compreensão destes versículos. É que podemos
aprender que eles apresentam razões cristãs para que isso seja feito.
Quando estamos engajados na obra do Senhor de maneira séria e sem
reservas, nenhum assunto haverá de ser esquecido de ser tratado, colocado
de lado ou negligenciado. Nem mesmo aqueles que nos trazem um certo
temor. Como é o caso dos encarcerados.
No texto de Hebreus 13:3, podemos ser remetidos aquela belíssima
síntese que o Senhor Jesus faz da Lei, ao reduzi-la a tão somente dois
mandamentos:
Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de todo o teu
entendimento... Amarás o teu próximo como a ti
mesmo – Mateus 22:37-39.

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Se eu amo o meu próximo como a mim mesmo, então, tudo aquilo que
ele sofre deve ser parte também do meu sofrimento. Se há alegria, eu me
regozijo com ele; se há tristeza e pesar, então, eu sofro com ele. Faço da
sua vida uma preferência nas minhas atitudes. E empaticamente participo
da sua existência.
Ninguém mais precisa de atenção, afeto e socorro do que aquele que
está preso. Sua vida foi modificada, transtornada, submetida a uma
investigação de estranhos. E o que é pior: convive também com estranhos,
em quem não pode confiar, obviamente.
Somente o amor de Deus derramado, em profusão, em nossos corações
pode mudar a rota de nossas atenções quanto às nossas prioridades
evangelísticas e missiológicas. Como disse alguém: Pessoas precisam de
Deus, mas pessoas também, precisam de pessoas. É imprescindível a
presença da Igreja nas prisões com ardor missionário, com amor fraternal e
com poder no Espírito Santo para realizar a obra. Neste caso não é uma
questão de escolha, nem de preferência, mas, sem dúvida alguma de
urgência. Sabe Deus quantas pessoas estão sendo vitimadas pelo nosso
inimigo em todas as prisões do Brasil. Mas pensemos naquelas que estão
em nosso território. Próximas de nós e ao nosso alcance e ao alcance da
Igreja.
No Salmo 146:7c, podemos, entender, além, da atuação miraculosa do
Senhor, como o fez com Pedro, quando preso (Atos 12), também o Senhor
usa os seus para fazer a obra nos presídios. Ao dizer que o Senhor liberta,
também está se referindo ao uso dos seus servos para este serviço. Não é
por acaso que muitos são os irmãos que sentem chamados pelo Espírito
Santo para este ministério. E se sentem aprovados pelo Senhor em seu
trabalho.
Hebreus 10:34, nos recorda o sentimento que deve nortear nossas ações
nesse ministério: compadecimento. Mateus usa também esse vocábulo
para descrever o sentimento que tem o Senhor Jesus quando percebe uma
multidão desorientada: Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas,
porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor –
Mateus 9:36.
A explicação que se dá para essa palavra é que “quem se compadece do
outro” sente-se no coração uma dor como se fosse atravessado por uma
flecha. Uma dor inconsolável. Precisamos ligar os olhos ao coração, o
coração às pernas e às mãos. Muito são as coisas que olhamos, mas poucas
nos trazem tanto sofrimento a ponto de nos incomodarmos com elas. Isso
não é nada bom para o Reino do Senhor.
Mateus 25:36, nos leva a pensar que fazendo às pessoas, é como se
fizéssemos ao próprio Senhor. Alguns querem ver neste texto a prisão dos
santos do Senhor, e por isso o cuidado com eles. É possível que sim, mas

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não creio que seja só isso.
O amor de Jesus, em seu ministério, estendia-se a todos aqueles que dele
se aproximavam e que muito careciam de sua ação libertadora. E a Palavra
nos ensina também, que Deus manda chuva para bons e maus. Logo, se
uma pessoa sofre atrás das grades, esse assunto deve mover a misericórdia
com que a igreja deve ver o mundo e transformar esse sentimento e ações
concretas, salvadoras e remidoras.

2. Porque os santos e eleitos podem estar encarcerados

E o senhor de José o tomou e o lançou no


cárcere, no lugar onde os presos do rei estavam
encarcerados; ali ficou ele na prisão – Gênesis
39:29.
Veio a palavra do Senhor a Jeremias, segunda
vez, estando ele ainda encarcerado no pátio da
guarda... – Jeremias 33:1.
Porque Herodes, havendo prendido e atado a
João, o metera no cárcere... – Mateus 14:3.
Não te envergonhes, portanto, do testemunho de
nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou
eu... – 2 Timóteo 1:8.

Este é um assunto bastante melindroso para muitos cristãos. Alguns


chegando até a duvidar do caráter e mesmo da conversão de quem vai
preso, sendo ele ou não um cristão professo. No entanto, precisamos ter
muito cuidado na análise deste assunto. E devemos, fazê-lo, sem paixões,
sem partidarismos ou sectarismo de ortodoxia. É preciso deixar a Bíblia
falar sobre isso.
Antes, porém, é bom saber que ser preso não significa necessariamente
estar errado, contra a lei ou se tornar um criminoso ou um bandido. As
pessoas são presas pelos mais variados motivos.
Há aqueles que são presos por motivos políticos. O governo desconfia
que ele seja uma ameaça para o sistema e assim põe essa pessoa na cadeia
para que “refresque sua cabeça”.
Muitas são as pessoas que morrem vítimas de torturas, só porque ousam
discordar do sistema vigente. O ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010
é um professor chinês que está preso, com uma pena de 14 anos, só porque
prega a democracia no seu país. Graciliano Ramos, escritor brasileiro foi
preso por um tempo porque teve problemas com o governo. Deste episódio
escreveu o romance Memórias do Cárcere, contando seu sofrimento e
tortura.
Há aqueles que são presos por causa das más companhias. Ele mesmo

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não chega a ser um marginal, mas tem o péssimo hábito de alimentar
amizades e companheirismo com marginais. Se esquece totalmente da
recomendação do salmo 1. Quando a polícia encontra uma situação assim,
o mais comum é enquadrar todo mundo. Esse tipo de atitude é perigoso e
geralmente acaba em tragédia para o descuidado.
Uma pessoa convertida, com problemas de comunhão e até mesmo de
temporário afastamento das celebrações pode ser induzida pelas forças do
mal, porque Satanás a faz a acreditar, pelo menos, em duas mentiras que
farão grandes estragos em sua existência.
A primeira é quando ele “oculta as reais conseqüências do pecado”.
Tomei conhecimento, em meu trabalho como capelão no Centro de
Detenção Provisória, da Penitenciária de Sorocaba no Bairro da
Aparecidinha, de um jovem que atraído pelo desejo de comprar uma arma,
conseguiu uma com seu amigo, porém, não estava registrada e ainda era
produto de furto. Ele foi convencido de que tudo sairia muito bem. Não
esperava que um dia a polícia estivesse à sua porta. Parecia-me uma pessoa
séria e assentada. Confessou a mim a sua falta de sabedoria. Nunca duvidei
que fosse um bom jovem, porém, caiu na armadilha do inimigo.
Outra situação é quando “o inimigo faz o pecado parecer uma coisa
normal da vida”. Nossa sociedade não respeita nada. Está mergulhada no
cinismo e na lei do mais forte. Tudo o que pode gerar ganho é permitido.
Não é difícil, mesmo para o crente, começar a deslizar em sua atitude
quando absorve vagarosamente o padrão do mundo para as suas ações. Aí,
então, é um passo.
Mas também podemos pensar que pessoas são presas por causa da sua
fé. A Bíblia está cheia de textos onde vemos os santos sofrendo pressão por
parte das forças do mal, levando muitas delas até a prisão.
No entanto, sabemos que hoje é difícil que uma pessoa venha a ser presa
porque testifica do Senhor Jesus. Porém, pode vir o tempo, se algumas leis
forem aprovadas que determinarão ao crente respeitar certas situações que
a Palavra de Deus reprova.
Acredito sim, que de alguma forma, é possível ao crente se encontrar
atrás das grades. Seja como for, e se isso ocorrer, é preciso que a Igreja
esteja lá para dar apoio aqueles que precisam. Faz parte do seu ministério.

3. Porque no cárcere também ocorre a salvação

Então, o carcereiro, tendo pedido uma luz, entrou


precipitadamente e, trêmulo, prostrou-se diante
de Paulo e Silas. Depois, trazendo-os para fora,
disse: Senhores, que devo fazer para que seja
salvo? Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e
serás salvo, tu e tua casa. E lhe pregaram a

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palavra de Deus e a todos de sua casa –
Atos 16:29-32.
Prefiro, todavia, solicitar em nome do amor,
sendo o que sou Paulo, o velho e, agora, até
prisioneiro de Cristo Jesus; sim, solicito-te em
favor de meu filho Onésimo, que gerei entre
algemas – Filemom 9-10.

Não é preciso fazer uma exaustiva pesquisa para logo perceber que o
assunto salvação no cárcere é recorrente em toda a Bíblia. Isto porque, a
mensagem do Senhor Jesus, que é de salvação, libertação e graça não
conhece barreiras e nem empecilhos. O Senhor faz o que quer, como quer e
onde quer. E neste caso específico usa seus servos para atingir quem quer
salvar.
Tomamos dois textos somente para a amostragem.
O primeiro, Atos 16:29-32, nos reporta ao incidente ocorrido com Paulo
e Silas e o carcereiro de Filipos e sua família. Este texto é uma mostra de
como Deus age em qualquer lugar segundo a sua muita misericórdia.
Precisamos estar preparados para todo e qualquer momento, pois não
sabemos quando isso ocorrerá. O cenário é que Por volta da meia-noite,
Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais
companheiros de prisão escutavam – Atos 16:25.
O Senhor visitou aquele lugar de sofrimento, de dor, de pesar, e de
remoer de consciência. O Senhor queria operar salvação ali. E, então, usou
da prisão de Paulo e Silas, seus servos, para chegar até o carcereiro e sua
família. O Senhor poderia fazer de outra forma, usar de outro artifício, mas
usou este. Ele é soberano e faz o quer como quer e quando quer. Naquele
lugar seus servos foram dóceis em suas mãos, por isso houve salvação.
Paulo e Silas usaram a cadeia e seu sofrimento, como lugar e motivo para
louvar e adorar e celebrar o Senhorio de Jesus.
O outro texto é não menos conhecido, nesse assunto, livro ou Epístola
de Paulo a Filemom.
Alguém já a definiu como “O Bilhete de Amor” com total razão e
justiça. Eu, porém, a chamaria de “A Flor do Presídio”.
Em meio a tanta desgraça, sofrimento, pecado e horror do reino das
trevas, num lamaçal tremendo de pecados, Deus realiza o milagre da fé Ed
assim nasce a mais pura fragrância da graça, cuja beleza e raro perfume nos
evoca a atmosfera do céu, onde os santos habitarão para sempre com o
Senhor.
Uma libertação plena de corpo e alma. Como diria Paulo, na própria
Carta, pois acredito que ele veio a ser afastado de ti temporariamente, a
fim de que o recebas para sempre – v. 15. Lembrar que por misericórdia do
Senhor “onde abundou o pecado, superabundou a graça”.

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4. Porque faz parte da Ação Social Misericordiosa da Igreja

E percorria Jesus todas as cidades e povoados,


ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho
do reino e curando toda sorte de doenças e
enfermidades. Vendo ele as multidões,
compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e
exaustas como ovelhas que não têm pastor. E,
então, se dirigiu a seus discípulos: A seara, na
verdade, é grande, mas os trabalhadores são
poucos. Rogai, pois, ao senhor da seara que
mande trabalhadores para a sua ceara – Mateus
9:35-38.

O Ministério do Senhor Jesus que por fundamento, prática e verdade é o


grande protótipo de qualquer ministério cristão que queira embrenhar-se na
aventurosa senda da pregação da Palavra, tem algumas características que
lhe são únicos e peculiares.
Em primeiro lugar havia em Jesus um desejo intenso de estar onde as
pessoas necessitadas estavam. Mateus nos diz que “percorria Jesus todas
as cidades e povoados”. Isto é um dado de muita importância que nos leva
a crer que Jesus não media esforços para ir até aquele que desejava curar,
salvar e abençoar. Assim, não podemos esperar que o egresso prisional,
depois que cumprir sua pena, procure por vontade própria, uma igreja. Isto
pode acontecer e seria muito bom. Porém é melhor ainda se formos até eles
quando estão lá, à nossa disposição, para ouvir o que quisermos dizer.
Em segundo lugar Jesus “ensinava nas sinagogas”. Jesus ensinava
religião numa escola de religião para religiosos. E ninguém acha isso
estranho. Porque é comum fazer isso. Assim, como o fazemos em nossa
Escola Dominical, em estudos de meio de semana e em outras atividades
comunitárias devocionais. Se isso é bom para aqueles que já “sabem”,
quanto mais não seria excelente para aqueles que estão em prejuízo tanto
quanto para com as coisas do Reino de Deus, quanto para as leis dos
homens? Mas curiosamente isto olhamos com certa desconfiança. E
raramente encontramos alguém que queira fazê-lo. É preciso entender que
se os da igreja precisam, os da prisão, talvez muito mais.
Em terceiro lugar Jesus andava “pregando o evangelho do reino”.
Quando ensinamos alguém sobre alguma coisa, esclarecemos mais ainda
algo que já é conhecido. Quando pregamos fazemos conhecer algo
desconhecido. Por isso Jesus ensinava e pregava. Porque são coisas
diferentes com diferentes objetivos. Quanto aquelas pessoas do presídio
conhecem de Jesus, de verdade? O quanto lhes foi ensinado de maneira
verdadeira, correta e abençoada? Não sei! O fato é que é preciso fazer isso

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e com urgência!
Em quarto lugar Jesus vivia “curando toda sorte de doenças e
enfermidades”. Lucas vai lembrar, em Atos dos Apóstolos, de como Deus
ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou
por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo,
porque Deus era com ele – 10:38.
Jesus não somente pregava e ensinava a lei do reino de Deus, mas
também investia na vida física dos seus ouvintes. Cuidava deles como um
bom médico, como um pai amoroso, como um irmão preocupado com suas
vidas na totalidade. Não fazia do seu ministério somente um exercício
mental e abstrato com uma série de teorias bonitas, mas pouco práticas.
Jesus encarnava o sofrimento do seu ouvinte, irmão e próximo.
Como poderemos curar as pessoas que estão na prisão? Se as amarmos
de verdade encontraremos um caminho. E Jesus nos assistirá em nossa
impotência. Revestindo-nos de poder e graça.
Em quinto lugar Jesus olhava para elas e procurava vê-las, percebê-las
sem temor, preconceito ou indiferença: “Vendo ele as multidões”, diz o
texto de Mateus.
Uma maneira da igreja não ver os presos é viver como se eles não
existissem. Riscá-los de seus projetos. Descartá-los de suas preocupações
missionárias. Esquecê-los de seus movimentos sociais. Ou, por outra, viver
como se não fosse da sua alçada. Ou ainda, uma situação que não lhe diz
respeito. É mesmo verdade um ditado popular em nossa terra: “o que os
olhos não vêem o coração não sente”. Porém, pior do que isso é a recusa de
aceitar uma realidade que brota aos olhos.
Em sexto lugar Jesus “compadeceu-se delas” porque havia um terrível
mal que as oprimia fazendo-as “aflitas e exaustas como ovelhas que não
têm pastor”.
Há um dado extremamente importante neste texto que passa sempre
despercebido quando procuramos lê-lo. Jesus não era indiferente ao que
via. Jesus não se isentava de preocupação daquilo que percebia. Jesus não
se esquivava daquilo que era imediato na busca de solução. Jesus não
transferia para outros a responsabilidade daquilo que tomava
conhecimento. Seu ensino persistia no “amar ao próximo como a ti
mesmo”. E isto era inalienável de sua conduta. Ao olhar para aquelas
humildes e desgraçadas pessoas, á margem da religião, do Estado e da
sociedade seu rosto se comprimia com uma dor lancinante e permanente.
Todo o seu der se comovia, não se fazendo indiferente. Assim, Jesus
percebia claramente os medos, os temores e as aflições daquela gente.
Na busca incessante para alcançar os presos aprendemos de Jesus
algumas características das quais devemos nos revestir, para que
alcancemos sucesso em nossa empreitada: 1. Transparência de sentimentos
– as pessoas já estão enojadas com tanta falsidade, com tanta dissimilação e

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simulação. É preciso ser mais autêntico e verdadeiro. Precisamos resgatar
na sua plenitude a palavra SINCERIDADE. 2. Visibilidade nas intenções –
Não mascarar os desejos, nem agir com falsidade. Tudo fazer de forma
limpa, autêntica, sem segundas intenções. 3. Correção nas atitudes –
segundo os ensinos da Palavra de Deus. Fazer com a mais clara consciência
de que Deus tudo vê, Deus tudo ouve, Deus está em todo lugar. Ter um só
procedimento e todo e qualquer lugar. 4. Credibilidade nas promessas –
palavra ponderada, pesada, calculada. E quando dada cumprida à risca. Por
isso é melhor não prometer, do que prometendo não cumprir.
Em sétimo lugar Jesus dimensiona o projeto e redimensiona a atitude ao
tocar nos pontos fundamentais da obra a ser feita. 1. Jesus se dirige àqueles
que já estão na obra. Não lhes deixa ignorantes da realidade. Jesus conta
com eles como eles são. Afinal são eles que estão seguindo a Jesus. 2. Jesus
mostra que o trabalho a ser feito não é coisa simples e nem para alguns
dias, ou, mais ainda, não tem a dimensão de algo efêmero e sem
importância. 3. Jesus também não lhes esconde a contingência do efetivo
para a execução da obra. Diz que não há elementos suficientes. É o início
da demonstração da fragilidade dos seus seguidores em referência àquilo
que se propusera a fazer. Não tem esta atitude de Jesus o intuito de
desanimar seus seguidores, pelo contrário, ele só quer que eles saibam em
que estão investindo suas vidas e que percebam o quanto precisam ser
pacientes e constantes naquilo que irão fazer.
Por último Jesus faz uma surpreendente declaração imperativa que retira
de vez o comando da obra das mãos dos discípulos: “Rogai, pois, ao
senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”. v. 38. Era
de se esperar que Jesus dissesse para os seus seguidores saírem à busca de
pessoas que quisessem fazer a sua obra. Mas, não, pelo contrário. Há aqui
algumas lições que precisamos aprender para sermos eficientes na obra do
Senhor. 1. A obra é do senhor da obra. Nada mais óbvio. Mas nem tanto
assim. Só o Senhor tem autoridade na obra. Dele emana todo poder, direito
e autoridade. Às vezes nos esquecemos disso, e começamos a fazer como
se fôssemos os donos da obra. 2. O Senhor da obra contrata quem ele quer,
e não quem nós queremos. Ficamos à mercê de aceitar aqueles que o
senhor da obra manda. 3. Rogar é uma atitude de humildade, declaração
firme de incompetência e necessidade. Jesus quer ensinar aqui nossa total
dependência de Deus. Aquele que o senhor manda para a sua obra é da sua
responsabilidade o sustento, o treinamento e a aprovação. Sendo que o
resultado de tudo deve ser para o regozijo do senhor da obra. 4. Há aqui
também embutido um ensinamento que para Jesus era de suma
importância: a necessidade de uma inteira comunhão e aproximação do
senhor da obra. Quando conhecemos melhor para quem trabalhamos fica
mais fácil saber os seus gostos, preferência, desejos e jeitos de ser e fazer
as coisas. A comunhão com o dono da obra é imprescindível para acertar

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no trabalho a ser feito.
Esta não é uma obra de um trabalhador só. Mas, sim, de toda a
comunidade. Há muito que fazer em termos de presídio e muito mais com
suas famílias.

Postura ética pessoal

Nossa postura junto ao ambiente prisional, seus funcionários e os


internos deve ser o de maior respeito possível, sempre respeitando as
normas e diretrizes das regras estabelecidas e exigidas.
Com respeito aos internos, procura-se ser discretos na abordagem dos
assuntos ventilados em nossas palestras. Nunca perguntando sobre os
motivos que os levaram a estar ali. Procuramos ficar absolutamente de fora
daquilo que tange aos regulamentos internos.

Apresentação pessoal e anotação dos nomes

É importante mencionar que todas as vezes que estivermos ali para o


trabalho, inicialmente, tomamos os nomes dos novos internos, para oração
por eles e suas famílias, e depois nos apresentamos, buscando criar um
ambiente de confiança e familiaridade.
Palestra sobre valores universais

O ser humano só se humaniza plenamente quando sustenta os valores


essenciais, inegociáveis e universais. Fora disso embrutece e torna-se um
perigo para quem estiver à sua volta, e, também, por consequência, para si
mesmo.
Chamo de valores universais aqueles elementos constitutivos de nossa
comunidade familiar e fraterna que nos fazem queridos, amados e
respeitados, sendo que ao sustentá-los desenvolvemos melhor nossa auto-
estima, além de promover a segurança de todos e a harmonia entre todos.
Dos sentimentos, refiro-me sempre ao Amor, como fundamento
verdadeiro e essencial de toda relação humana; à Confiança atributo pelo
qual somos respeitados e visto como pessoas de bem e construtores da paz;
e Liderança que é aquela distinção que nos faz dignos de sermos seguidos
voluntariamente.
Dos elementos visíveis, considero um valor inestimável, e em

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primeiríssimo lugar a Família, reduto seguro onde descansamos nossas
fraquezas e aconchegamos nossos sonhos. Não dá pra ser durão toda hora.
Em algum momento queremos depor nossas armas e simplesmente
descansar. No fundo somos só umas crianças assustadas buscando refúgio
em algum lugar. O segundo valor é o Trabalho. Fonte de nosso sustento.
Como queria Rui Barbosa, quando trabalhamos construímos o mundo com
Deus. Com o trabalho nos tornamos úteis, e assim nos sentimos também.
Mesmo que o ganho seja pouco e o cansaço muito. E por último os
Amigos. Verdadeiros amigos. Como queriam os romanos, amizade é uma
dádiva dos deuses. Um homem sem família, trabalho e amigos é um
homem sem história. Ele não viveu só passou por aqui.

Leitura bíblica e exposição

Como cristão reafirmamos a nossa crença na Bíblia que é a Palavra de


Deus, nossa regra de fé e prática, de onde tiramos todos os ensinamentos
para nossa vida agora; onde, também, ficamos sabendo como será nossa
existência depois da morte. Baseamos nossa crença, além de outros textos
bíblicos, em Isaías 55:11, quando diz assim será a palavra que sair da
minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e
prosperará naquilo para que a designei.

Reflexão sobre um texto de nossa autoria

Quando uma data importante requer uma reflexão à parte, como o Dia
das Mães, Natal, etc. escreva um texto alusivo e com eles, leia e procure
refletir sobre a importância desse assunto. Deixa a cópia com eles, para
que depois, se quiserem, poderão ainda pensar melhor no assunto. É
mais uma maneira de como podemos trabalhar assuntos importantes e
necessários.
Geralmente eles participam da discussão dando suas opiniões.

Oração por todos os internos

Quando chegar ao fim das atividades, busca-se a presença de Deus, mais


uma vez em oração para que ele abençoe a todos os internos.

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Orar também por seus familiares. Igualmente para orar pelos funcionários,
pois sabemos que o sucesso desse trabalho depende em muito de como os
funcionários atuam em seu desempenho.

Oração individual

Orar para que Deus envie seu Anjo antecipadamente, preparando o


ambiente, para que quando chegarem, a obra seja facilitada por seu poder
e graça.

Orientação pessoal

Confinados como eles estão muitos são os conflitos pessoais, os


sentimentos confusos, adversos e ciclotímicos. Portanto, quando expor a
Palavra e o Senhor direcionar a reflexão, alguns são encorajados a
conversar sobre o que estavam sentindo: seja durante a semana, seja durante
a exposição da Palavra, seja durante a oração final. Geralmente, estão
ansiosos para sair dali. Pedem que eu ore para que quando sua audiência
chegar eles sejam soltos.

Literatura distribuída

Por acreditar na força da palavra escrita, ter por costume, mensalmente


entregar aos internos, um exemplar de Devocionais.

Comemorações

Considerando o valor das celebrações dos símbolos religiosos, é por


bem comemorar, com eles, a Páscoa e o Natal.

Resultados possíveis

É difícil falar sobre resultados. Por várias razões, aliás. Mas, daquilo
que tem-se percebido com demonstrações voluntárias, poder citar alguns
fatos, que atestam que o trabalho espiritual está obtendo êxito, pela
misericórdia divina e sua atuação miraculosa:
a) o fato de que alguns internos visitaram depois a Igreja;
b) pessoas se descobrem o dom missionário;
c) muitos, em lágrimas, solicitam oração por eles e família em geral;
d) disposição de mudança de ideia e comportamento;
e) um desejo ardente de valorizar a família;
f) o reatamento com a esposa e uma aproximação maior com a família.

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A família e o interno

Presa com o interno está a sua família. Se não pelo espaço, porém pelo
coração e a mente. O sofrimento é de ambos.
Mas podemos considerar que de alguma maneira, dependendo das
circunstâncias, é a família que sofre mais. Sofre a ausência. Sofre a
vergonha moral. Sofre pelo coração e a mente a amargura e a tortura de ter
alguém nessas condições vexatórias.
Um trabalho de aproximação do Capelão do seu filho com a família,
trará, de certa forma, um alívio, por saberá a família que alguém está
“cuidando” dele. É uma maneira de amenizar a dor dos pais, mães, avós,
filhos, esposas, etc.

Acompanhamento do egresso

Toda pessoa que sai do presídio busca reorganizar sua vida em termos
de possibilidades sociais, econômicas, psicológicas e espirituais. Nesse
momento é da maior importância ter um suporte adequado para vencer os
primeiros momentos dessa “nova” vida.
É evidente que a família é a maior alavanca para essa ascensão. Mas
podem existir outras que em muito poderão ajudar.
O trabalho pastoral de Capelania poderá ser um elemento importante, já
que existe um elo de ligação entre ambos, resultado do trabalho anterior no
presídio.

O egresso e a família

Buscando reatar sua vida social anteriormente deixada por causa do


claustro, o egresso precisa tomar consciência de que alguma coisa mudou
em tudo o que ele deixou no passado. A realidade não é a mesma.
Agora precisa ter paciência para reconquistar o que se perdeu com a sua
ausência. É fundamental um apoio nesse momento.

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Temas para estudos

Algumas sugestões de temas para estudos com os internos na hora do


encontro semanal. Poderão ser adaptados, desenvolvidos ou mesmo
suprimidos. Outros poderão ser penados. São só sugestões:
a. Prisão e a reinvenção do cotidiano;
b. Aprendendo a viver num mínimo de espaço;
c. Prisão uma oportunidade para Deus?
d. A lei a serviço de Deus;
e. A graça vaza pelas grades;
f. Interrompendo o cativeiro;
g. Esperança: a moeda do futuro;
h. Não era para ser assim;
i. Liberdade: seu nome é Jesus;
j. A igreja bagunça o inferno;
k. Da escravidão à prisão; da prisão à liberdade;
l. O quê saiu errado?
m. Filemom: a flor do presídio;
n. Presídio e cidadania;
o. Presídio e educação;
p. Presídio e sociedade;
q. Presídio e temperamento;
r. Presídio e valores;
s. Quem sou eu?
t. A visão do homem enquanto homem;
u. A reinvenção do cotidiano a partir da fé;
v. O interno e seus conflitos – visões de mundo;
w. O egresso e seus conflitos – visões de mundo;
x. Fui esquecido por Deus?
y. O quê esperar do mundo lá fora?

Expandindo a obra

Podemos considerar o Capelania Prisional como um pequeno reduto


privilegiado onde o trabalho de capelania está sendo feito. Porém, olhando
todo o complexo prisional, percebe-se quão grande obra está para ser
realizada ainda. Não é um trabalho para um só homem, ou mesmo para
uma só igreja.
Quanto àqueles que precisam ser alcançados, vem à mente um texto de
Atos, onde Lucas relata o seguinte: Teve Paulo durante a noite uma
visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te
cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois

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tenho muito povo nesta cidade – 18:10.
Além dos internos, há seus familiares, mas há também os funcionários,
os advogados, etc. Muito povo mesmo!

UMA CONCLUSÃO PROVISÓRIA


Hudson Taylor, o pai das missões no interior da China, ao descrever a
natureza missionária do propósito de Deus ao mundo, assim se expressou:
A obra de Deus, feita do jeito de Deus, com os recursos de Deus. Nada
mais apropriado. O que está no coração de Deus será feito com os homens,
apesar dos homens, ou contra os homens. Assim é toda obra que tem a
aprovação do Senhor.
Este projeto está sendo submetido ao Senhor. Se ele quiser a obra será
feita, mas se não, nada nos conduzirá ao êxito. Então, nossa esperança é a
de que tudo seja feito para sua glória.
Esperemos para ver o que acontecerá.

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