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ROBERT D.

BRANSON
COMENTÁRIO BÍBLICO

BEACON
JUÍZES
Envolvente, perceptivo e, academicamente, minucioso e completo, o Novo Comentário
Bíblico Beacon expandirá sua compreensão e aprofundará seu apreço pelo significado e pela
mensagem de cada livro da Bíblia.
Indispensável, esse comentário fornece a pastores, estudiosos profissionais, professores e
estudantes da Bíblia uma interpretação crítica, relevante e inspiradora da Palavra de Deus
no século 21.
CADA VOLUME APRESENTA:
■ TEXTO CONTEMPORÂNEO de notáveis especialistas e PhDs.
■ MATERIAL INTRODUTÓRIO PRÁTICO, incluindo informações sobre autoria,
data, história, público, questões sociológicas e culturais, propósito, recursos literários,
temas teológicos e questões hermenêuticas.
■ EXPLICAÇÕES CLARAS, versículo por versículo, que oferecem uma compreensão
contemporânea e derivada do texto bíblico em sua língua original.
■ ANOTAÇÃO ABRANGENTE dividida em três seções, as quais exploram elementos
por trás do texto, sentidos encontrados no texto e significado, importância, intertextualidade
e aplicação a partir do texto.
■ ANOTAÇÕES COMPLEMENTARES que fornecem uma visão mais aprofundada
de questões teológicas, significado das palavras, conexões arqueológicas, relevância
histórica e costumes culturais.
■ BIBLIOGRAFIA EXPANDIDA para um estudo mais abrangente de elementos
históricos, interpretações adicionais e temas teológicos.
COMENTÁRIO BÍBLICO

BEACON
J U IZ E S
COMENTÁRIO BÍBLICO

BEAC0N
J U ÍZ E S

ROBERT D. BRANSON

CENTRAL
GOSPEL
DIRETORA EXECUTIVA Judges New Beacon Bible Commentary / Robert D. Branson / © 2009
Elba Alencar Published by Beacon Hill Press of Kansas City, A division of Nazarene
Publishing House. Kansas City, Missouri, 64109 USA.
This edition published by arrangement with Nazarene Publishing House.
GERÊNCIA EDITORIAL
All rights reserved.
E DE PRODUÇÃO
Copyright © 2017 por Editora Central Gospel.
Gilmar Chaves

GERÊNCIA PROJETOS Dados Internacionais de C atalogação na Publicação (CIP)


ESPECIAIS
Jefferson Magno Costa
Autor: BRANSON, Robert D.
Título em português: Novo Comentário Bíblico Beacon: Juizes
COORDENAÇÃO
Título original: Judges New Beacon Bible Commentary
EDITORIAL
Rio de Janeiro: 2017
Michelle Candida Caetano 216 páginas
ISBN: 978-85-7689-568-8
COORDENAÇÃO 1. Bíblia - Teologia I. Título II.
DE COMUNICAÇÃO
E DESIGN
Regina Coeli

É proibida a reprodução total ou parcial do texto deste livro por quais­


TRADUÇÃO quer meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos, fotográficos etc.),
Fábio Roberto Lucas a não ser em citações breves, com indicação da fonte bibliográfica.
Este livro está de acordo com as mudanças propostas pelo novo
REVISÃO Acordo Ortográfico, que entrou em vigor a partir de janeiro de 2009.
Michelle Candida Caetano
Nota do editor no Brasil: Com o objetivo de facilitar a com preen­
são do com entário original, em alguns casos, a Central Gospel fez
CAPA traduções livres de term os e palavras em inglês que não encon­
E PROJETO GRÁFICO tram equivalência nas versões oficiais do texto bíblico traduzido
Eduardo Souza para o Português. Ressalte-se, todavia, que foram preservadas a
ideia e a estrutura textual idealizadas pelo autor.

DIAGRAMAÇÃO
Luiz Felipe da S. Rolim

1a edição: Julho / 2017


IMPRESSÃO E
ACABAMENTO
Rotaplan
Editora Central Gospel Ltda
Estrada do Guerenguê, 1851 - Taquara
Cep: 22.713-001
Rio de Janeiro - RJ
TEL: (2 1)2187-7000
w w w.editoracentralgospel.com
DEDICATÓRIA

Este livro é dedicado aos nossos netos,


à próxima geração por quem oramos todos os dias:
Brandon, Joshua, Emily, Melissa, Zachery e Rebecca.
EDITORES DO COMENTÁRIO
Editores gerais
Alex Varughese George Lyons
Ph. D. Drew University Ph. D. Emory University
Professor de Literatura Bíblica Professor do Novo Testamento
Mount Vernon Nazarene University Northwest Nazarene University
Mount Vernon, Ohio Nampa, Idaho

Roger Hahn
Ph. D. Duke University
Reitor do Corpo Docente
Professor do Novo Testamento
Nazarene Theological Seminary
Kansas City, Missouri

Editores secionais

Joseph Coleson Kent Brower


Ph. D. Brandeis University Ph. D. The University of Manchester
Professor do Antigo Testamento Vice-reitor
Nazarene Theological Seminary Palestrante Sênior de Estudos Bíblicos
Kansas City, Missouri Nazarene Theological College
Manchester, Inglaterra
Robert Branson
Ph. D. Boston University George Lyons
Pesquisador independente Ph. D. Emory University
Professor do Novo Testamento
Alex Varughese Northwest Nazarene University
Ph. D. Drew University Nampa, Idaho
Professor de Literatura Bíblica
Mount Vernon Nazarene University Jeanne Serrão
Mount Vernon, Ohio Ph. D. Claremont Graduate University
Reitora da Escola de Teologia e Filosofia
Jim Edlin Professora de Literatura Bíblica
Ph. D. Southern Baptist Mount Vernon Nazarene University
Theological Seminary Mount Vernon, Ohio
Professor de Literatura Bíblica e Línguas
Coordenador do Departamento
de Religião e Filosofia
MidAmerica Nazaré University
Olathe, Kansas
SUMÁRIO

Prefácio geral dos editores............................................................................................11


Agradecimentos.............................................................................................................. 13
Abreviações.....................................................................................................................15
Bibliografia..................................................................................................................... 21
INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 27
A. O título................ ............................................................................................ 28
B. O cenário histórico.......................................................................................... 29
C. Cronologia do livro de Juizes......................................................................... 31
D. A história deuteronômica...............................................................................32
1. Teorias modernas......................................................................................... 34
2. Temas............................................................................................................ 37
3. Temas de apoio que emergem da ideia de concerto..................................39
E. Escrita e compilação do livro de Juizes........................................................... 41
F. Juizes e a inspiração das Escrituras..................................................................42
G. Metodologia.................................................................................................... 43
H. Temas teológicos.............................................................................................44
1. Liberdade humana....................................................................................... 44
2. Soberania de Deus....................................................................................... 45
3. O chamado para lealdade total...................................................................46
COMENTÁRIO.......................................................................................................... 49
I. Panorama (1.1—3.6)...........................................................................................49
A. Uma geografia do fracasso (1.1—2.5)........................................................... 51
1. Judá se levanta (1.1-7)..................................................................................52
2. Conquistando Jerusalém e Hebrom (1.8-10)........................................... 54
3. Conquistando D eb ir(l.ll-15)..................................................................55
SUMÁRIO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

4. Os sucessos e as inadequações de Judá (1.16-21)..........................................57


5. Conquistando Betei (1.22-26)..........................................................................58
6. Vivendo entre os cananeus (1.27-36).............................................................. 59
7. O fim da conquista (2.1-5).................................................................................60
B. A provação de Israel (2.6—3 .6 )....................................................................... 63
1. A morte de Josué (2.6-10)..................................................................................64
2. A próxima geração (2.11-19).............................................................................66
3. A decisão do Senhor (2.20-23)..........................................................................68
4. Razões para que as nações permanecessem (3 .1 -6 )..................................... 69
II. Triunfo militar: a degeneração espiritual (3.7— 16.31)....................................73
A. Otoniel, Eúde e Sangar (3.7-31)........................................................................... 74
l.O to n iel (3.7-11)................................................................................................... 74
2. Eúde (3.12-30)...................................................................................................... 77
3. Sangar (3 .3 1 )..........................................................................................................81
B. Débora, Baraque e Jael (4.1—5 .3 1 ).................................................................... 83
1. A história em prosa (4.1-24)............................................................................ 83
a. Sísera, o opressor (4.1-3).................................................................................85
b. Débora e Baraque (4.4-10).............................................................................86
c. Héber, o queneu (4 .1 1)....................................................................................88
d. A batalha contra Sísera (4.12-16)................................................................89
e. Sísera e Jael (4.17-22)....................................................................................... 89
f. Destruição de Jabim (4.23-24)....................................................................... 92
2. O poema (5.1-31)................................................................................................. 96
a. Introdução (5.1-11).......................................................................................... 97
b. A convocação das tribos (5.12-18)............................................................... 99
c. A batalha (5.19-22)........................................................................................... 99
d. A vitória de Jael (5.23-27)............................................................................. 100
e. A mãe de Sísera (5.28-31)................................................................................ 101
C. Gideão, Abimeleque, Tolá e Jair (6.1 — 10.18).................................................102

8
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON SUMÁRIO

1. Gideão, o juiz relutante (6.1—8 .3 5 ).............................................................. 103


a. Opressão dos midianitas (6.1-10)................................................................ 103
b. O chamado de Gideão (6.11-40)................................................................. 105
c. A vitória de Deus (7.1-23)..............................................................................110
d. A vitória e a vingança de Gideão (7.24—8 .2 1 )....................................... 115
e. Gideão e a idolatria de Israel (8.22-35).......................................................119
2. A fracassada monarquia de Abimeleque (9.1-57)....................................... 121
a. Abimeleque como rei (9 .1 -6)....................................................................... 122
b. A parábola das árvores contada por Jotão (9.7-21)................................ 123
c. Planos contra Abimeleque (9.22-33).......................................................... 124
d. As batalhas de Abimeleque (9.34-57)........................................................ 125
3. T o láejair (10.1-5).................................................................................................129
4. Deus rejeita o clamor de Israel (10.6-18).......................................................130
D. Jefté, Ibsã, Elom, Abdom (11.1 — 12.15)............................................................133
1.Jefté e os amonitas (11.1 -40).............................................................................. 134
2. A guerra com Efraim (12.1-7)..........................................................................140
3. Ibsã, Elom e Abdom (12.8-15)........................................................................ 142
E. Sansão (13.1 — 16.31)................................................................................................144
1. O nascimento de Sansão (13.1-25)................................................................. 146
2. O conflito de Sansão com os filisteus (14.1 — 15.20).................................152
3. As últimas proezas de Sansão (16.1-31)........................................................159
III. Fracasso total (17.1—2 1 .2 5).......................................................................................169
A. Realocação de Dã (17.1 — 18.31)........................................................................ 171
1. M icae o levita (17.1-13)..................................................................................... 171
2. Um novo lar para a tribo de Dã (18.1-31).....................................................175
B. Guerra dentro de Israel (19.1—21.25)............................................................... 182
1. O levita e sua concubina (19.1-30)................................................................. 184
2. Guerra entre as tribos (20.1-48)...................................................................... 194
3. Esposas para os homens de Benjamim (21.1-25)........................................ 205

9
PREFÁCIO GERAL DOS EDITORES

O propósito do Novo Comentário Bíblico Beacon é tornar disponível a pas­


tores e alunos um comentário bíblico do século 21 que reflita a melhor cultu­
ra da tradição teológica. O projeto deste comentário visa tornar essa cultura
acessível a um público mais amplo, a fim de auxiliá-lo na compreensão e na
proclamação das Escrituras como Palavra de Deus.
Os escritores dos volumes desta série, além de serem eruditos na tradição
teológica e especialistas em suas áreas de atuação, têm também um interesse es­
pecial nos livros designados a eles. A tarefa é comunicar claramente o consenso
crítico e o amplo alcance de outras vozes confiáveis que já comentaram sobre
as Escrituras. Embora a cultura e a contribuição eruditas para a compreensão
das Escrituras sejam as principais preocupações desta série, esta não tem como
objetivo ser um diálogo acadêmico entre a comunidade erudita. Os comenta­
ristas desta série, constantemente, visam demonstrar em seu trabalho a signi-
ficância da Bíblia como o Livro da Igreja e, também, a relevância e a aplicação
contemporânea da mensagem bíblica. O objetivo geral deste projeto é tornar
disponível à Igreja e ao seu serviço os frutos do trabalho dos eruditos que são
comprometidos com a fé cristã.
A Nova Versão Internacional (NVI) é a versão de referência da Bíblia usa­
da nesta série; entretanto, o foco do estudo exegético e os comentários são o
texto bíblico em sua linguagem original. Quando o comentário usa a NVI, ele
é impresso em negrito. O texto impresso em negrito e itálico é a tradução do
autor. Os comentaristas também se referem a outras traduções em que o texto
possa ser difícil ou ambíguo.
A estrutura e a organização dos comentários nesta série procuram faci­
litar o estudo do texto bíblico de uma forma sistemática e metodológica. O
estudo de cada livro bíblico começa com uma Introdução, que fornece uma
visão panorâmica de autoria, data, proveniência, público-alvo, ocasião, pro­
pósito, questões sociológicas e culturais, história textual, características literá­
rias, questões hermenêuticas e temas teológicos necessários para entender-se o
livro. Essa seção também inclui um breve esboço do livro e uma lista de obras
gerais e comentários padrões.
A seção de comentários para cada livro bíblico segue o esboço do livro
apresentado na introdução. Em alguns volumes, os leitores encontrarão súmu­
PREFÁCIO GERAL DOS EDITORES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

las seccionais de grandes porções da Bíblia, com comentários gerais sobre sua
estrutura literária global e outras características literárias. Uma característica
consistente do comentário é o estudo de parágrafo por parágrafo dos textos
bíblicos. Essa seção possui três partes: Por trás do texto, No texto e A p a rtir
do texto.
O objetivo da seção Por trás do texto é fornecer ao leitor todas as informações
relevantes necessárias para a compreensão do texto. Isso inclui situações históricas
específicas refletidas no texto, no contexto literário do texto, nas questões
sociológicas e culturais e nas características literárias do texto.
No texto explora o que o texto diz, seguindo sua estrutura, versículo por
versículo. Essa seção inclui uma discussão dos detalhes gramaticais, dos estudos
de palavras e da ligação do texto com livros/passagens bíblicas ou outras partes
do livro em estudo (o relacionamento canônico). Além disso, fornece transli-
terações de palavras-chaves em hebraico e grego e seus significados literais. O
objetivo aqui é explicar o que o autor queria dizer e/ou o que o público-alvo
teria entendido como o significado do texto. Essa é a seção mais ampla do co­
mentário.
A seção A p a rtir do texto examina o texto em relação às seguintes áreas:
significância teológica, intertextualidade, história da interpretação, uso das ci­
tações do Antigo Testamento no Novo Testamento, interpretação na história,
na atualização e em aplicações posteriores da Igreja.
O comentário fornece anotações complementares sobre tópicos de inte­
resse que são importantes, mas não necessariamente fazem parte da explanação
do texto bíblico. Esses tópicos são itens informativos e podem conter ques­
tões históricas, literárias, culturais e teológicas que sejam relevantes ao texto
bíblico. Ocasionalmente, discussões mais detalhadas de tópicos especiais são
incluídas como digressões.
Oferecemos esta série com nossa esperança e oração, a fim de que os leito­
res a tenham como um recurso valioso para a compreensão da Palavra de Deus
e como uma ferramenta indispensável para um engajamento crucial com os
textos bíblicos.

Roger Hahn, Editor-geral da Iniciativa Centenária


Alex Varughese, Editor-geral (Antigo Testamento)
George Lyons, Editor-geral (Novo Testamento)

12
AGRADECIMENTOS

Escrever um comentário é uma tarefa cativante, que requer do escritor a in­


vestigação cuidadosa das dinâmicas literárias e teológicas do texto. A esperança
de quem escreve este comentário é a de que ele possibilite ao leitor a melhor
compreensão de tais dinâmicas e um crescimento não apenas intelectual, com
um conhecimento mais desenvolvido das Escrituras, mas também em devoção
ao Senhor e em comprometimento com Ele. O estudo da Bíblia deve ser um
exercício espiritual. Ao examinarmos a Palavra de Deus atentamente, notamos
como ela sonda nossos valores, estilos de vida, pressupostos e entendimentos
da vontade divina para nossa vida. Se o comentário ajudar o leitor a ouvir a
mensagem do livro de Juizes, tanto intelectual como espiritualmente, então ele
terá cumprido o seu propósito.
Escrever um comentário não é algo realizado em isolamento. Beneficiei-
-me dos conhecimentos de outros estudiosos, cujo trabalho tentei cuidado­
samente documentar. Nos últimos 30 anos, o volume de estudos feito sobre
Juizes cresceu consistentemente e, hoje, apresenta ao pesquisador um verdadei­
ro banquete de saberes a respeito desse livro. Um dos trabalhos fundamentais
que deu forma à discussão acadêmica sobre Juizes foi a dissertação de Lawson
Stone, de Yale. Lawson e eu trabalhamos juntos em alguns projetos, nos quais
aprendi a respeitar sua erudição precisa e sua visão espiritual. Seu trabalho foi
citado nesse comentário inúmeras vezes. Além desses pontos específicos, tam­
bém delineou o quadro de minha compreensão a respeito do desenvolvimen­
to do livro. Estou profundamente em débito com ele. Muitos outros tiveram
AGRADECIMENTOS NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

uma influência direta na elaboração desse trabalho. Gostaria de agradecer aos


meus estudantes assistentes Angela Henzman Grupe, Nathan Yearian e Ste-
ven Yearian pelo zeloso trabalho deles na revisão material das provas. Minha
esposa, Esther, além de ser paciente comigo durante as horas em que trabalhei
neste projeto, também revisou os últimos cinco capítulos do livro. As sugestões
que eles deram melhoraram muito a legibilidade do texto. Gostaria também
de agradecer à O livet N azarene U niversity S chool o f T heology a n d C hristian
M inistry por me conceder uma carga de ensino reduzida como professor pes­
quisador nesse período. A generosidade deles me permitiu cumprir os prazos
de escrita estabelecidos pela B eacon H ill Press. O editor, Alex Varughese, foi
particularmente prestativo ao sugerir os trechos nos quais o trabalho podería
ser melhorado.
Robert D. Branson

14
ABREVIAÇÕES

Com raras exceções, estas abreviações seguem as que estão no livro The SBL Handbook of
Style (Alexander, 1999).
Geral
ABD A nchor Bible D ictionary
a.C. antes de Cristo
A.E.C. antes da Era Comum
ANET A ncient N ear E astem Texts R elating to the O ld Testament.
Editado por James B. Pritchard
AOM Antigo Oriente Médio
AT Antigo Testamento
BASOR Bulletin o f th e A merican Schools o f O riental Research
BDB H ebrew a n d English Lexicon o f the O ld Testament
ca. cerca de, tempo aproximado
cap. capítulo / capítulos
cf. confira
d. C. depois de Cristo
E.C. Era Comum
e. g. exempli gratia, por exemplo
esp. Especialmente
etc. et cetera, e o restante
HD História deuteronômica
Dtr Historiador ou historiadores deuteronômicos
IDB In terp reters D ictionary o f the Bible
i.e. id est , isto é
KBL Lexicon in Veteris Testamenti Libros
de Koehler L. e W. Baumgartner
lit. literalmente
LXX Septuaginta
MS Manuscrito
MSS Manuscritos
n. nota
nn. notas
NT Novo Testamento
s.d. sem data
s.e. sem local, sem editora, sem página
ss. e os seguintes
s.v. sub verbo , implícito
TM Texto Massorético (do AT)
V. versículo(s)

Versões bíblicas
ARA Almeida Revista e Atualizada
ARC Almeida Revista e Corrigida
ABREVIAÇÕES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

NRSV New Revised Standard Version


NTLH Nova Tradução na Língua de Hoje
NVI Nova Versão Internacional

Convenções para citação das traduções


Negrito NVI (negrito sem aspas no texto sendo estudado;
nos outros lugares estará com fonte normal e aspas,
em demais identificações)
Negrito e itálico Tradução feita pelo autor (sem aspas)

Por trás do texto: informações do contexto histórico ou literário que o leitor


médio pode não conhecer tendo lido apenas o texto bíblico
No texto: Comentários sobre o texto bíblico, suas palavras, frases,
gramática e assim por diante
A partir do texto: O uso do texto feito por intérpretes posteriores,
relevância contemporânea, implicações éticas e teológicas,
com ênfase particular nas questões wesleyanas.

Antigo Testamento
Gênesis Gn
Êxodo Êx
Levítico Lv
Números Nm
Deuteronômio Dt
Josué Js
Juizes Jz
Rute Rt
1 Samuel 1 Sm
2 Samuel 2 Sm
1 Reis 1 Rs
2 Reis 2 Rs
1 Crônicas 1 Cr
2 Crônicas 2 Cr
Esdras Ed
Neemias Ne
Ester Et
Jó Jó
Salmos SI
Provérbios Pv
Eclesiastes Ec
Cantares Ct
Isaías Is
Jeremias Jr
Lamentações Lm
Ezequiel Ez
Daniel Dn

16
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON ABREVIAÇÕES

Oseias Os
Joel J1
Amós Am
Obadias Ob
Jonas Jn
Miqueias Mq
Naum Na
Habacuque Hc
Sofonias Sf
Ageu Ag
Zacarias Zc
Malaquias Ml

(Nota: a numeração dos capítulos e versículos no TM e na LXX geralmente difere em


comparação com as Bíblias; em inglês/português. Para evitar confusão, todas as referências
bíblicas sugerem a numeração do capítulo e versículo das traduções em português, mesmo
quando o texto do TM ou da LXX está em discussão.)

Novo Testamento
Mateus Mt
Marcos Mc
Lucas Lc
João Jo
Atos dos Apóstolos At
Romanos Rm
1 Coríntios 1 Co
2 Coríntios 2 Co
Gálatas G1
Efésios Ef
Filipenses Fp
Colossenses Cl
1 Tessalonicenses 1 Ts
2 Tessalonicenses 2 Ts
1 Timóteo 1 Tm
2 Timóteo 2 Tm
Tito Tt
Filemon Fm
Hebreus Hb
Tiago Tg
1 Pedro 1 Pe
2 Pedro 2 Pe
1 João IJo
2 João 2 Jo
Judas Jd
Apocalipse Ap

17
ABREVIAÇÕES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Transliteração do grego
Grego Letra Transliteração
a alfa a
P beta b
y ga m a g
y ga m a nasal n (antes de y, k , f)
5 delta d
£ épsilon e
ç zeta z
»] eta ê
0 teta th
t iota i
K capa k
lam bda 1
V- mu/mi m
V nu/ni n
\ xi X
0 ômicron o
7T pi P
P rô r
P rô (em início de palavras) rh
<r/ç sigm a s
T tau t
U ípsilon y
U ípsilon u (em ditongos: au, eu,
4> fi ph
X chi ch
t psi ps
CO ômega õ
respiração elaboradaõ h (antes de vogais inicias ( 1 ditongos)

Transliteração consonantal do hebraico

Hebraico/Aramaico Letra Transliteraçã


N A lef ’
3 bet b
J gu ím el g
T da let d
n he h
vav V ou w
T zain z
n het h
0 tet t
iode y
T/= ca f k
la m ed

18
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON ABREVIAÇÕES

□ /» m em m
1/3 nun n

D sa m eq s
S7 ain
H/ D pê P
S/f tsa d e §
P co f q
1 resh r
tP sin s
SSE> shin s
n tav t

19
BIBLIOGRAFIA

Comentários
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Abingdon.
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25
INTRODUÇÃO

O livro de Juizes atiça a imaginação e arrepia a alma. Grandes vitórias so­


bre os fortes foram conquistadas pelos fracos. Oprimidas e escravizadas, as tri­
bos de Israel lutaram contra forças adversárias equipadas com tecnologia mais
avançada. Os soldados de infantaria de Baraque combateram os batalhões de
carros comandados por Sísera. Os filisteus, que conheciam o segredo do ferro
derretido, proviam seus exércitos com armas modernas, ao passo que os israeli­
tas tinham pouco armamento para lutar. Entretanto, o Deus de Israel batalhava
por Seu povo. Conduzidos por um líder carismático escolhido pelo Senhor, os
exércitos vitoriosos guerreavam para conquistar sua liberdade, arrancando-a
das mãos do opressor. O livro registra não apenas os triunfos da guerra, mas
também as profundezas da depravação humana. Um homem chacinou seus
irmãos para tentar tomar a coroa; uma mulher foi abusada sexualmente e teve
seu corpo desmembrado; a devastação da guerra era infligida não apenas sobre
os inimigos, pois as tribos também lutavam entre si e uma delas foi quase total­
mente destruída. Mulheres eram sequestradas e forçadas a aceitar casamentos
indesejados. O povo de Deus traiu o Senhor ao buscar outros deuses. O leitor
será confrontado com relatos de horror e triunfo, santos e pecadores, deprava­
ção humana e graça divina. Esta é uma história conflituosa da desintegração
espiritual e social de Israel, transcorrida à medida que os israelitas lutavam por
sua sobrevivência, afastando-se do Deus que lhes oferecera segurança física e
integridade espiritual.
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

A. O título
O livro de Juizes ganhou esse nome por causa das ações de seus principais
personagens. O que é estranho a respeito do título é que, à exceção de Débora,
nenhum dos libertadores jamais é realmente chamado de juiz. O substantivo
“juiz” (sepet) aparece seis vezes no trecho de 2.16-19 para descrever aqueles que
o Senhor levantará para libertar Israel das mãos de seus opressores. Talvez essa
seja a origem do título do livro. A passagem faz parte da introdução deutero-
nômica ao livro (2.6—3.6), onde o leitor é informado de que, após a morte de
Josué, os israelitas pecaram repetidamente contra Deus e sofreram muita opres­
são até que o Senhor promoveu um libertador para triunfar sobre o opressor.
A única recorrência desse substantivo aparece no discurso de Jefté, no qual ele
afirma: Que o Senhor, o Juiz, julgue hoje (11.27). O verbo surge quatorze
vezes, em uma, como observado, tendo o Senhor como o sujeito. Nas outras
ocorrências, afirma-se que um libertador irá julgar Israel, por exemplo: “E veio
sobre ele [Otoniel] o Espírito do SENHOR, e julgou a Israel” (3.10 ARC).
Esses libertadores atuavam dentro da sociedade como senhores da guerra,
convocando as milícias das várias tribos para batalhar contra seus inimigos. A
história de Otoniel, oriundo da tribo de Judá e o primeiro a tornar-se juiz (3.7-
11), dá ao leitor o primeiro exemplo de como devia ser o trabalho de alguém na­
quela função. Israel estava subjugada e clamava ao Senhor, que escolheu Otoniel
para libertá-la. Ele foi movido pelo Espírito para julgar/libertar os israelitas e
trazer um tempo de paz. Eúde, da tribo de Benjamim, chamou a tribo de Efraim
para atacar os moabitas (3.15-29). Baraque, por sua vez, comandou as forças de
Zebulom e Naftali enquanto respondia à liderança de Débora (4.4-10). Jefté
já havia transformado um bando de fora da lei em uma força de luta quando
os anciãos de Gileade chamaram-no para ser seu comandante militar (11.3-6).
Os juizes conquistavam seu lugar na sociedade por meios militares. Os anciãos
e profetas também tinham seus papéis distintos, o que negava aos juizes o po­
der absoluto. Quando os israelitas quiseram dar a Gideão esse poder transfor­
mando-o em rei, o juiz recusou, afirmando que o Senhor era o regente de Israel
(8.22,23). Os juizes não cabem no conceito moderno de oficiais da corte que em
vestes solenes presidem a administração da justiça. Apenas a respeito de Débora,
chamada de profetisa, é dito que ela liderava sessões nas quais as pessoas podiam
trazer e discutir suas disputas (4.4,5). Os juizes só eram procurados pelas pessoas
para arbitrar conflitos de justiça após seus feitos no campo de batalha.
Se a palavra “juiz” também pode significar “governante”, a administração
da justiça em Israel também pode nos fornecer outro sentido para a mesma

28
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

palavra. Testemunhas eram chamadas para ajudar a decidir a culpa ou inocên­


cia de quem era acusado de um crime. Se fosse comprovado que o testemunho
era falso, então a testemunha maliciosa era condenada à mesma punição que o
acusado sofreria (Dt 19.16-20). A função do juiz era determinar e punir quem
fosse culpado (o perverso) e libertar quem fosse inocente (o íntegro). Talvez
seja nesse sentido que eram vistos como juizes aqueles que libertavam Israel dos
opressores, que libertavam o povo de Deus das mãos dos perversos.

B. O cenário histórico
Os acontecimentos do livro de Juizes ocorrem após a morte de Josué (1.1;
2.6-10) e antes do nascimento de Samuel (1 Sm 1.20). O primeiro capítulo
traz uma narração da conquista contínua, com Judá assumindo a liderança.
Historicamente, é provável que esse período esteja no fim do que os arque­
ólogos chamam de Idade do Bronze Tardia II (entre 1400 a.C. e 1200 a.C.)
e se estende até a Idade do Ferro I (entre 1200 a.C. e 1000 a.C.). No século
13, a região montanhosa central, a área de Canaã ocupada pelas tribos, tinha
uma população esparsa de aproximadamente 12 mil habitantes. Os dois sécu­
los seguintes viram uma expansão rápida de novos moradores, que construí­
ram pequenos vilarejos dispersos pela região. No século 12, a população havia
crescido e chegado a algo por volta de 55 mil pessoas, chegando a 75 mil no
século seguinte (Dever, 2001, p. 110). Esse crescimento vertiginoso não podia
ser explicado pelas taxas de nascimento normais entre os habitantes originais.
Muitas teorias foram propostas para explicar essa elevação demográfica sú­
bita. Sugeriu-se a possibilidade de ter ocorrido uma infiltração gradual de pas­
tores nômades, que se estabeleceram nas regiões esparsamente habitadas dos
planaltos centrais. Dever, contudo, acredita que tal sugestão não explica um
crescimento tão rápido nos números (2001, p. 110). Outra sugestão conhecida
baseada em certas teorias sociais é a da revolta camponesa. Ao final da Idade do
Bronze Tardia, houve um aumento perceptível na inquietação social, uma vez
que as cidades estavam sendo controladas por hierarquias estrangeiras e opres­
sivas (veja abaixo). Muitos camponeses escaparam de sua servidão fugindo das
cidades, alguns podem até mesmo ter-se revoltado contra seus dominadores e,
nesse processo, destruído algumas delas. Eles esperavam se juntar a um grupo
de tribos que estavam estabelecendo-se nos planaltos centrais e que haviam
desenvolvido um estilo de vida mais igualitário. É bem conhecido o fato de que
as línguas, os materiais culturais e até mesmo as práticas de adoração (muitos
termos de diversos tipos de sacrifício são os mesmos nas diferentes línguas)
dos israelitas e cananeus são muito similares. E muito difícil identificar nesse

29
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

período da história o que arqueologicamente era característico dos israelitas.


Porém, há pouca evidência bíblica ou arqueológica sugerindo que numerosos
camponeses cananeus estivessem juntando-se às tribos israelitas. A narrativa
bíblica a respeito da migração dos israelitas, um povo recém-chegado àquela
região, ainda representa a explicação mais provável para o aumento dramático
da população naqueles planaltos.
Aquela terra vivenciou nesse momento não apenas um influxo de novas
populações, mas também uma grande agitação social. O fim do século 13 teste­
munhou um período de decadência social e instabilidade política. O controle
egípcio sobre aquela área se dissolvia, e outros grupos tomavam o controle de
diferentes locais da região. Os “Povos do M ar”, que no começo do século 12
tentaram invadir o Egito sem sucesso, estabeleceram-se à força ao longo da cos­
ta, de Gaza até Dor.

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30
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

Conhecemos alguns deles, tais como os filisteus, que tomaram controle de


Gaza, Ascalom, Ecrom, Asdode e Gate. Muitas cidades foram destruídas nesse
período, incluindo as maiores, como Láquis, ao leste da Sefelá, e Hazor, mais
ao norte, na Galileia. Foi um tempo tumultuoso, em que ocorreram rápidas
mudanças, à medida que diversos grupos étnicos buscavam exercer controle
sobre populações mais fracas. Trata-se de uma situação bem compatível com a
descrição, encontrada no livro de Josué, dos israelitas estabelecendo-se em pe­
quenos vilarejos no planalto central, bem como com a narrativa feita no livro
de Juizes, em que o povo de Israel enfrenta repetidamente grupos invasores que
desejavam saqueá-lo e escravizá-lo.

C. Cronologia do livro de Juizes


A cronologia de Juizes apresenta diversas dificuldades. A princípio, basta
somar o número dos períodos de opressão e libertação para ter como resultado
a informação de que o livro aparentemente cobre um tempo de 410 anos. O
problema surge quando essa soma é comparada com 1 Rs 6.1, que registra o
fato de Salomão ter começado a construir o templo em seu quarto ano, 480
anos após a fuga do Egito. Somando ao período de juizes os 40 anos no deserto,
os dois anos do reinado de Saul (o texto de 1 Sm 13.1 é difícil), os 40 anos do
reinado de Davi e os quatro anos de Salomão, temos um total de 496. Estão
faltando ainda a duração da conquista de Josué e a duração do ministério de
Samuel. Uma abordagem para ajustar a conta é sugerir que, no momento em
que o editor deuteronômico (veja abaixo) compilou o material, as somas ba­
tiam; foi o trabalho de editores posteriores que prejudicou a cronologia. O re­
médio seria determinar por algum meio as quantidades que foram adicionadas
e corrigir a conta cronológica. Várias propostas arbitrárias foram feitas, mas
nenhuma razão clara pode ser dada para excluir certas somas e manter outras.
Outra abordagem sugere corretamente que os juizes provavelmente não
surgiram em uma sequência histórica, com seus períodos de serviço seguindo-
-se um após o outro. Pelo contrário, alguns podem ter sido contemporâneos,
uma vez que eles vinham de tribos diferentes e, portanto, ocupavam partes dis­
tintas do território. Contudo, o texto tal como está localiza as carreiras dos
juizes em uma série contínua. Quem foi contemporâneo de quem e como po­
demos saber? Apenas afirmar que alguns comandaram ao mesmo tempo que
outros não resolve o problema. Fazer sugestões arbitrárias é uma solução ina­
dequada.

31
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

A fraqueza fundamental desse tipo de sugestão é a pressuposição de que


a cronologia constitui um problema histórico. O uso de números no Antigo
Testamento tinha diversas funções. Fornecer uma ordem cronológica precisa
era apenas uma delas. Os números podiam servir a propósitos ideológicos tam­
bém. É comumente aceito que os 480 anos mencionados em 1 Rs 6.1 repre­
sentam 20 gerações de 40 anos cada uma. Em Juizes, números inteiros apare­
cem com frequência. Nas narrativas de Otoniel, Débora e Gideão, Israel goza,
em cada uma delas, de 40 anos (biblicamente, a duração de uma geração, Nm
14.33) de paz. Na história de Eúde, são 80 anos, o tempo de duas gerações. O
malsucedido juiz Sansão, que só “começou” a libertar Israel dos filisteus (13.5),
julgou Israel por 20 anos, a metade do período de 40 anos de opressão filisteia.
Os cinco juizes “menores” cuja duração de comando é fornecida (Sangar está
faltando) tem um tempo total somado de 70 anos. Esses números arredonda­
dos parecem ter mais relação com a teologia do que com a história. Esse con­
ceito será desenvolvido com mais detalhes no comentário.
Depois de ter feito todos os cálculos com as datas fornecidas no livro, há
outro detalhe que tem de ser considerado. Juizes 20.28 registra que, no período
da guerra entre Benjamim e as demais tribos, o sacerdote que servia junto à arca
do concerto era Fineias, filho de Eleazar, que era filho de Arão. Como sabe­
mos, Arão era um membro da geração que viveu a fuga do Egito, mas morreu
no deserto. Foi a geração fiel de Eleazar que começou a conquista. A geração
de Fineias, a terceira, mostrou-se infiel ao não terminá-la. Portanto, o leitor
é levado de volta ao mesmo período de tempo do começo do livro. Em uma
análise final, o livro em sua forma canônica não pode ser esprimido para dentro
de nenhuma matriz histórica. Ele não é “história” tal como o que entendemos
por essa categoria hoje, mas teologia que usa acontecimentos históricos como
portadores de sentido. É possível que, por trás das narrativas, haja eventos his­
tóricos de fato, mas os escritores e editores do livro de Juizes estavam mais pre­
ocupados com os sentidos teológicos e foi a partir deles que eles deram forma
às narrativas.

D. A história deuteronômica
O livro de Juizes é parte daquilo que veio a ser conhecido como a história
deuteronômica ou deuteronomística (HD). Os primeiros nove livros da Bíblia,
de Gênesis a Reis, apresentam a narrativa reveladora que vai da Criação à des­
truição de Jerusalém e o exílio de Judá na Babilônia. Os primeiros cinco livros

32
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

(Genêsis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) são referidos como o


Livro da Lei (Js 1.8), a Lei de Moisés (Lc 2.22) ou, comumente, nos dias de
hoje, como Pentateuco, um termo grego que significa “os cinco pergaminhos”.
Os quatro últimos (Josué, Juizes, Samuel e Reis) são chamados, na tradição ju­
daica, de “Profetas Anteriores” e, na tradição protestante, de “livros históricos”.
Os livros de Samuel e de Reis são, cada um deles, divididos em dois na LXX
(Septuaginta). Esses livros interpretaram a história do povo de Israel à maneira
de um discurso profético, no qual as ações das pessoas são louvadas ou con­
denadas conforme os padrões estabelecidos no concerto mosaico. E contam
como os israelitas foram continuamente chamados a arrepender-se e a servir
fielmente a Deus, o Senhor, que os havia resgatado da escravidão no Egito e
lhes havia concedido a terra de Canaã.
Deuteronômio funciona como uma obra fundamental, projetando seu
olhar ora para trás, ora para frente. Os primeiros quatro livros apresentam
histórias da Criação, as narrativas dos patriarcas, Israel sendo libertada da es­
cravidão, a dádiva do concerto no Sinai e as peregrinações dos israelitas pelo
deserto. Os quatro últimos descrevem o cumprimento da promessa divina de
dar ao povo de Israel uma terra própria e a história que ele viveu subsequente­
mente naquele lugar. Deuteronômio volta seu olhar tanto para o passado, dos
sermões de Moisés às ações do Senhor ao prover a Lei e à jornada até a terra à
leste do Jordão (cap. 1—4), como para o futuro, para a conquista, com Moisés
exortando Israel a obedecer fielmente às exigências do concerto ao adentrar a
Terra Prometida (cap. 11 —13) e designando Josué como seu sucessor (31.1-8).
A Igreja primitiva atribuía a autoria dos livros históricos aos personagens
principais dos livros (Josué para o livro de Josué) ou os considerava anônimos
(como o de Reis). Nos tempos modernos, o conjunto é considerado como uma
obra teológica extensa, que foi escrita para dar uma razão para a queda de Jeru­
salém e observar para além de sua destruição, em busca de fundamentos para
esperança.
Os livros contêm materiais antigos, alguns foram transmitidos oralmente,
e outros se baseiam em documentos escritos. As histórias dos juizes provavel­
mente tiveram origem nas narrativas dos heróis tribais que eram contadas e
recontadas ao longo das gerações. O loteamento das tribos (Js 13—22) reflete
uma lista de fronteiras feita por escrito. Há um número de coleções de histórias que
foi incluído, tais como as narrativas da arca (1 Sm 4.2—6.21), a história da corte
(2 Sm 9—20; 1 Rs 1—2), a história do reinado de Salomão (1 Rs 3—11) e as nar­
rativas proféticas (1 Rs 17.1—2 Rs 8.15). Os registros palacianos tanto de Israel

33
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

(Livro dos A nais dos R eis de Israel) como de Judá {Livro dos A n ais dos Reis
deJud o ) foram usados para compor os dois livros de Reis.

i. teorias Müüemâs
Em 1981, Martin Noth sugeriu pela primeira vez o que atualmente se tor­
nou comumente aceito, que os quatro livros históricos foram o produto de
um autor / compilador que usou a teologia de Deuteronômio para dar uma
explicação para a horrível destruição de Jerusalém e o exílio subsequente. Noth
chamou essa pessoa de “historiador deuteronômico” (abreviado Dtr) e a obra
de “História Deuteronômica” (HD). Ele observou que discursos e sumários de
variadas extensões, olhando tanto para trás como para frente, interpretavam de
acordo com a teologia do livro de Deuteronômio eventos anteriores e retira­
vam daí “conclusões práticas relevantes a respeito do que as pessoas deveriam
fazer” (Js 1; 23; 1 Sm 12; 1 Rs 8.14 ss.; 2 Rs 17.7 ss.). Tais adições editoriais
apresentam similaridades linguísticas, como vocabulário e estilo de escrita,
bem como perspectivas teológicas (1981, p. 4-6).
Noth propôs que durante o exílio, por volta de 560 a.C., Dtr reuniu os
materiais históricos com o propósito de explicar por que as nações de Israel e
Judá haviam sido destruídas (1981, p. 79). O historiador deuteronômico não
mudou substancialmente os elementos, mas incorporou a maior parte deles
em uma forma original. Entretanto, à medida que eram tecidos em conjun­
to para produzir uma narrativa coerente, adições editoriais foram feitas para
fornecer transições entre as muitas fontes. Essas transições também incluíam
comentários teológicos deuteronômicos, que ajudavam a avançar o contexto
mais amplo da história. Outro editor fez posteriormente adições menores,
mas o trabalho básico de Dtr não foi materialmente alterado (1981, p. 7).
A preocupação central do historiador deuteronômico era explicar por que
as nações de Israel e Judá foram destruídas. O povo foi ordenado a guardar,
com todo o seu coração, a aliança com o Senhor, seu Deus. Como afirma Dt
6.4,5: Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor. Ame o
Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas
as suas forças.
Os israelitas deveriam destruir os locais cananeus de adoração e centrali­
zar a adoração deles, isto é, suas ofertas sacrificiais, em um único lugar que o
Senhor escolhería (Dt 12.2-7). Isso se tornou o teste principal de lealdade ao
concerto e a Deus.

34
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

O historiador deuteronômico descreve a longa história do fracasso de Is­


rael em obedecer ao Senhor e manter o concerto. Ainda que existam alguns
pontos brilhantes de obediência: Josué, Samuel, Davi, Ezequias, Josias; na
maior parte da história, o que se vê é desobediência e busca por outros deuses.
Segundo a sugestão de Noth, o propósito do Dtr era esclarecer à comunidade
exilada que sua história de infidelidade causara o juízo divino e o estado atual
de exílio. O historiador deuteronômico via o fim deles como algo definitivo,
sem esperança de restauração (1981, p. 97).
Foi essa última observação de Noth que atraiu muitas críticas. Gerhard
von Rad aceitara a data pós-exílica da escrita de HD, mas sugerira que as pro­
messas feitas à linhagem de Davi pelos profetas fornecia um vislumbre de espe­
rança. Von Rad compilara uma lista de profecias de destruição, e o cumprimen­
to delas, contidas nos livros de Reis (1966, p. 209-211). Para o Dtr, a palavra de
Deus dada pelos profetas certamente teria a sua realização ao longo da história
das nações. Rad também notara que o Dtr considerava Davi como o modelo de
monarca a partir do qual outros reis foram julgados (1966, p. 216-217).
O segundo livro de Reis termina com a narrativa de Joaquim sendo liber­
tado da prisão e recebendo tratamento preferencial do rei da Babilônia (25.27-
30). Segundo von Rad, trata-se de um sinal messiânico da esperança de que
Deus não teria abandonado os exilados, mas iria, em obra futura, trabalhar
em benefício deles (1966, p. 220). Helga Weippert concorda com von Rad na
afirmação de que a categoria promessa-cumprimento é a chave para entender
a HD. A investigação feita por ela encontrou muitas passagens com promes­
sas, em Juizes e em Samuel, bem como em Reis, promessas que encontram seu
cumprimento em contextos imediatos e outras que se prolongam por maiores
extensões da história. Esse tema teológico é encontrado por Weippert nas pri­
meiras histórias compiladas pelo Dtr, bem como nas seções editoriais escritas
para amarrar as narrativas em um todo coerente (2000, p. 47-61).
Hans Walter Wolff também considerou que a HD tinha uma mensagem
de esperança para os exilados. Ele discordou, contudo, de von Rad, pois não
acreditava que o trecho sobre a restauração de Joaquim fosse base suficiente
para tal esperança. O estudioso observou que em pontos significativos de HD
aparecem chamados para que o povo se arrependa. Em particular, note-se a
oração de Salomão na dedicação do Templo ( l Rs 8.46-50). Aqueles que fu­
turamente poderíam sofrer com o exílio por seus pecados foram encorajados
a arrepender-se, para que Deus pudesse novamente ter compaixão deles. Esses
apelos ao arrependimento forneciam um vislumbre de graça que os exilados

35
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

poderíam compreender com esperança. Mais tarde, um editor já no exílio, in­


tentando dar aos exilados uma esperança clara, adicionou Dt 30.1-10, trecho
com a promessa aos arrependidos de que Deus os reuniría dos confins do mun­
do e lhes recuperaria a terra (1975, p. 90-98).
Frank Moore Cross também concordava com von Rad e acreditava que
o Dtr tinha realmente uma mensagem de esperança. Porém, afirmava que
tal mensagem era mais apropriadamente direcionada ao povo de Judá como
nação antes do exílio. Em vez de ter sido escrito aos judeus exilados como
uma justificativa para a destruição de Jerusalém, a HD, segundo Cross, era
um trabalho pré-exílico feito para reconvocar Judá de volta à lealdade do
concerto, tal como modelada pelo rei Davi (2 Sm 7). O historiador deu-
teronômico desenvolvera os dois temas baseados no concerto e em suas
noções de bênçãos e de maldições. Uma vez que Jeroboão I levou Israel a
pecar, estabelecendo os santuários de adoração alternativos em Betei e Dã,
as maldições se abateram sobre a nação e sua ruína era inevitável. Entre­
tanto, dado que o íntegro Davi se tornara o modelo de monarca para Judá,
sempre haveria esperança de que outro rei íntegro levaria o povo de volta
à pura adoração do Senhor e às Suas bênçãos. O historiador Deuteronô-
mico escreveu a HD como um guia para o rei Josias, que realmente seguiu
fielmente a Lei de Moisés tal como expressa no livro de Deuteronômio,
chegando até mesmo a destruir o santuário ilegítimo construído por Je­
roboão I em Betei. Segundo Cross, outro editor, já no exílio, designado
por ele como D tr2, registrou a queda de Jerusalém e remodelou a história,
de modo a torná-la mais relevante aos exilados e à experiência de frustra­
ção pelas fracassadas reformas de Josias e pela consequente ruína de Judá.
Cross faz, portanto, duas contribuições significativas para a discussão, ao
ligar a mensagem de esperança à ideologia real da Casa de Davi e, o que é
mais importante, ao sugerir que a HD foi primeiro escrita durante o sétimo
século, antes do exílio, tendo depois outro editor, por volta de 550 a.C., a
remodelar seus materiais (1973, p. 278-287).
Rudolf Smend examinou o problema da autoria da HD de um ângulo
diferente do escolhido por Cross, que trabalhara com os temas maiores dos
livros de Reis. Smend preferiu examinar textos individuais e detectou o que
lhe pareceu ser outro autor (ou muitos outros) além do Dtr do exílio, a quem
ele chamou de DtrH. Esse autor ou autores, conjunto que ele designou DtrN,
remodelaram o trabalho original de acordo com seu interesse na Lei (2000, p.
98).

36
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

Depois do estudo de Smend, tornou-se mais comum falar sobre a escola


deuteronômica de escritores ou editores, em vez de supor um único autor. O
trabalho dessa escola se prolongou por vários séculos e as suas atividades de
coleção e edição se estenderam a outros livros também, em particular os livros
dos profetas. Os escritores e editores deuteronômicos contribuíram significati­
vamente para determinar o que mais tarde se tornou o cânone hebraico das Es­
crituras. Estudiosos de hoje ainda se dividem, um grupo, formado geralmente
por pesquisadores americanos, pensa que a primeira edição da HD foi escrita
no sétimo século como um modelo das reformas de Josias; o outro grupo, for­
mado principalmente por pesquisadores europeus, localiza essa primeira edi­
ção já durante o exílio. Entretanto, é algo amplamente aceito que os livros de
Josué, Juizes, Samuel e Reis realmente formam uma obra “histórica-teológica”
coerente, produzida para explicar a destruição das nações de Israel e de Judá e
para dar esperança aos exilados.

2. Temas
Os muitos compiladores, escritores e editores dos livros que vão de Jo­
sué a Reis estavam interessados em adaptar os materiais históricos de acordo
com seus propósitos teológicos e políticos. Não havia preocupação em escre­
ver uma história objetiva “do que aconteceu”. A matéria básica era disposta
de modo a contar uma narrativa, a qual registrava as interações de um Deus
soberano com uma humanidade livre para escolher seu próprio caminho e
destino. O concerto era tema abrangente que unia os elementos dispersos
da HD.

Concerto
No segundo milênio, os hititas, que dominavam a maior parte do ter­
ritório hoje pertencente à Turquia moderna, desenvolveram uma forma de
tratado internacional que permaneceu em uso, sobretudo pelos assírios,
no primeiro milênio. Seu propósito era estabelecer uma aliança bem como
uma relação legal entre o suserano, que concedia o tratado, e o vassalo,
que o recebia. Aqueles que estavam reunidos em concerto se beneficia­
vam de uma relação pacífica, baseada em comprometimento mútuo e
lealdade recíproca. Uma brecha no concerto produziría ira na parte ofendi­
da, e uma resposta legal mais do que uma reação emocional, que levaria
à invocação de maldições e, eventualmente, à guerra ou rebelião.

37
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Ainda que, ao longo do tempo, incidam variações sobre essa forma,


ela geralm ente começa com a identificação do suserano e é sucedida por
uma narrativa que descreve a relação entre as duas partes. Em seguida,
são registradas as estipulações às quais o vassalo deve aderir e, então,
os regulamentos para o depósito e a leitura anual do tratado, a invocação
dos deuses dos dois países como testem unhas e uma série de bênçãos
para a obediência do vassalo, e de m aldições por sua eventual desobedi­
ência. Essa forma política forneceu o modelo para o concerto estabelecido
pelo Senhor com Israel no monte Sinai. Os discursos de Moisés em Deu-
teronômio são uma explicação do que significava essa relação de aliança
entre as duas partes. A ideia de concerto permeia todo o AT (Antigo Testa­
mento). Termos como "amor", "raiva", "ódio", "companheirismo", "paz",
"prosperidade", "am izade", "irmão", bem como outros estão frequente­
mente fundados na ligação política/teológica estabelecida pelo concerto.
Embora este não seja o lugar para discutir a fundo toda a importância da
noção de concerto no texto do AT, o comentário fará constantes referên­
cias a ele como a base para compreender o relacionamento entre o povo
de Israel e seu Deus.

Os discursos de Moisés em Deuteronômio repetidamente chamam os is­


raelitas a permanecerem fiéis ao concerto que fizeram com o Senhor, seu Deus,
no Sinai. O concerto mosaico estava condicionado à observação fiel dos seus
mandamentos e estatutos por parte do povo. O Senhor manteria a aliança e
responderia aos israelitas de acordo com as ações deles. A desobediência tra­
ria maldições sobre a nação. A obediência traria bênçãos. Israel era exortada a
expressar sua lealdade ao Senhor cumprindo cuidadosamente as leis e manda­
mentos do concerto. A fidelidade do povo deveria jorrar do amor que sentiam
em seus corações (Dt 6.5), o centro da existência de cada um, onde a vontade e
o pensamento se aliavam para motivar a ação. Quando disse: Ame o Senhor,
o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas
forças (v. 5), Moisés não estava dizendo que se deve sentir afeição positiva por
Deus. Amar alguém era compreendido como uma ação. Aqueles que cum­
priam o concerto amavam a Deus, aqueles que o desobedeciam e quebravam-
-no desprezavam o Senhor (5.9). Como expressão de seu amor, os israelitas
deveriam ensinar os mandamentos aos seus filhos (6.2,7,20-25), de modo que
as gerações futuras fossem abençoadas. O cumprimento dos mandamentos e
regras (14.1,2) indicava que eles eram um povo santo, escolhido pelo Senhor e
separado dos outros povos.
38
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

3. Temas de apoio que emergem da ideia de conceito


O primeiro mandamento (Dt 5.7), reafirmado em 6.4,5, era de impor­
tância básica e fundamental para todos os outros. Quebrar os outros manda­
mentos era algo sintomático do abandono ou do esquecimento do Senhor.
O povo deveria adorar apenas a Deus e cumprir Seus mandamentos (Jr 7.8-
10). Buscar e adorar outros deuses indicava falta de confiança no Senhor e
na Sua capacidade de satisfazer as necessidades do Seu povo e de protegê-
-lo. Israel era chamada a adorar exclusivamente o único Deus, em um único
lugar, escolhido pelo Senhor (Dt 12.2-19). Na história pregressa de Israel,
muitos locais de adoração foram tolerados (Êx 20.24-26; 1 Rs 3.2), porém,
depois de o templo de Jerusalém ter sido construído, Dtr considerou que a
adoração em outros santuários seria idolatria. Jeroboão I foi fortemente con­
denado por construir altares em Betei e Dã e considerá-los santuários reais (1
Rs 13.33,34), ainda que ambos os locais tivessem sido centros de adoração
em Israel por muitos anos (Gn 28.18-22; Jz 18.30; 20.18). Os reis tanto de
Israel como de Judá foram julgados com base no primeiro mandamento, cuja
interpretação estava concentrada na centralização da adoração em Jerusalém
e em manter-se fiel na adoração exclusiva ao Senhor. Essa regra inflexível le­
vou todos os reis de Israel a serem condenados, e somente alguns monarcas
de Judá foram aprovados.
As bênçãos e maldições da aliança (Dt 27.15—28.68) não eram como
leis independentes da natureza que operavam de forma autônoma. Elas expres­
savam a vontade Deus que agia em resposta à obediência ou desobediência de
Seu povo. As pessoas eram vistas como uma unidade corporativa, de modo que
as bênçãos ou maldições incidiam sobre todos, não sobre os indivíduos. Uma
pessoa perversa podia aproveitar-se das bênçãos recebidas por uma comuni­
dade comprometida em manter o concerto, e uma pessoa íntegra podia sofrer
as maldições infligidas contra uma coletividade infiel. Por isso, era importante
que a comunidade, ou o povo como um todo, reforçasse a observância da Lei
(Dt 13.1-18). O propósito das maldições era corretivo, para trazer as pessoas
de volta à obediência e, consequentemente, às bênçãos. Não era desejo de Deus
punir, mas ser gracioso e perdoar, ouvindo o clamor de arrependimento para
restaurar (Dt 30.1-5). O Senhor restauraria Suas bênçãos sobre a comunidade
quando o pecado fosse removido (Js 7—8), ou quando os israelitas lhe clamas­
sem quando fossem oprimidos (Jz 3.8,15; 4.3; 6.7); ou quando se humilhassem
e instituíssem reformas (2 Rs 22.19,20). Contudo, havia a possibilidade de o
povo entrar profundamente no pecado, de tal modo que o Senhor se recusasse
39
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

a ouvi-lo e, logo, o julgamento viria inexoravelmente (1 Sm 15.23; 28.6; 2 Rs


22.15-17).
A chave para a obediência fiel ao concerto era liderança. A pessoa certa,
geralmente um homem, mas, às vezes, uma mulher (Débora), poderia manter
o compromisso - primeiro das tribos e depois da nação - com a fidelidade ao
Senhor, tornando-se o instrumento das bênçãos de Deus. Entretanto, esse ins­
trumento, repetidas vezes, fracassou, pois Israel se esquecia de que o Senhor era
seu verdadeiro rei e continuava a recair na apostasia e na adoração dos deuses
cananeus. Quando Moisés, o servo do Senhor, morreu, Josué já estava comis­
sionado para sucedê-lo (Dt 31.23). Ele se tornou um modelo de obediência
fiel durante a conquista de Canaã, e Deus abençoou o povo com a vitória so­
bre seus inimigos (Js 11.16-23). Israel continuou a servir ao Senhor durante a
vida de Josué e da geração seguinte de anciãos (Jz 2.6-10). Entretanto, o tempo
dos juizes se transformou em uma espiral decadente de desintegração moral e
espiritual que levou à quase extinção da tribo de Benjamim (cap. 19—21). O
livro de Juizes procura uma liderança estável, com o estabelecimento de uma
monarquia (17.6; 18.1; 19.1; 21.25). O reinado sombrio de Saul precede a era
dourada de Israel, com os reinados de Davi e Salomão. Em resposta à fidelidade
de Davi, o Senhor lhe concede um novo concerto, de duração eterna, que ga­
rante o domínio contínuo à casa davídica (2 Sm 7.1 lb - 16). Contudo, mesmo
esse concerto se submete ao concerto mosaico, e o declínio ininterrupto da
nação israelita na apostasia não tinha como ser interrompido pelos poucos reis
íntegros como Asa, Josafá, Ezequias e Josias. E apenas em um acréscimo tardio
ao livro de Jeremias que o concerto davídico é lembrado como uma mensagem
de esperança aos exilados (33.14-22).
O historiador deuteronômico demonstra um forte interesse na palavra
profética. Aguardava-se um profeta como Moisés, alguém que poderia falar
a Palavra de Deus diretamente (Dt 18.15-18). O historiador registra o surgi­
mento de muitos profetas, alguns deles anônimos (Jz 6.8-10; 1 Rs 13.1-10) e
outros bem conhecidos: Natã, Elias e Eliseu. Boa parte dos escritos é dedicada
às histórias desses profetas, sobretudo as de Elias e de Eliseu (1 Rs 17—2 Rs
9.10). A palavra profética serviu para interpretar o curso da história de Israel,
bem como para chamar o povo ao arrependimento. Os profetas proclamaram
não apenas o julgamento pelo pecado, mas também que o Senhor era um Deus
gracioso, tardio para irar-se e pronto para conceder o perdão e a reconciliação
caso o povo se arrependesse. Mas, a mensagem não foi ouvida, pois ambas as
nações, Israel e Judá, voluntariamente mergulharam de cabeça na destruição.

40
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

E. E s c r it a e c o m p ila ç ã o d o liv r o d e J u iz e s

O Talmude credita ao profeta Samuel a autoria do livro de Juizes, bem


como as dos livros de Rute e Samuel. Mesmo Edward J. Young, um escritor
muito conservador, acredita que essa posição é muito difícil de ser sustentada
e sugere que o livro foi compilado durante o período da monarquia unificada
(1960, p. 180). Entendendo que Juizes é parte de uma obra mais extensa com­
pilada e editada de acordo com a teologia de Deuteronômio, a questão da au­
toria é substituída por uma investigação pelas fontes dos materiais e pelo modo
como o processo de edição combinou-os para produzir o livro. O trabalho che­
ga à sua forma final depois de quatro estágios. Primeiro, as tradições orais acer­
ca dos heróis locais são contadas e transmitidas ao longo de muitas gerações.
Essas histórias descrevem as aventuras de guerreiros específicos, conhecidos
como os “grandes” juizes, que viveram em épocas distintas e vieram de diferen­
tes tribos; Eúde veio de Benjamim, Baraque de Naftali, Gideão de Manasses,
Jeíté veio da metade transjordânica concedida à tribo de Manassés, Sansão era
oriundo de Dã. No segundo estágio, em algum ponto da história de Israel, as
narrativas desses juizes foram reunidas e, então, registradas por escrito. Não se
sabe quando exatamente isso ocorreu, mas provavelmente em algum momento
após a ascensão da monarquia, um momento não muito tardio, já que a canção
de Débora e Baraque (5.2-31) é uma das primeiras poesias da Bíblia.
Na terceira fase, as narrativas que já tinham obtido uma forma fixa foram
incorporadas em um livro maior de HD pelo Dtr, um indivíduo ou talvez um
grupo que trabalhou depois da queda de Samaria (721 a.C.). Algumas edições
menores dessas narrativas se localizam em uma sequência cronológica e estru-
turam-nas em torno do ciclo deuteronômico de pecado, opressão, clamor ao
Senhor e surgimento de um libertador (2.11-19). Uma introdução (2.6—3.6)
fornecia um cenário para as histórias, após a morte de Josué, e explicava por
que a conquista não eliminara todos os habitantes originais (2.22—3.2,4).
O livro tal como lido hoje é o produto de uma quarta e última fase. Algum
tempo depois da escrita do livro de Josué, mas antes da queda de Jerusalém
(586 a.C.), um editor final (ou editores) completou o livro e deu-lhe sua forma
final, com uma interpretação específica do tempo dos juizes. Os acréscimos
incluiríam a atual introdução (1.1—2.5) e as narrativas conclusivas (cap. 17—
21), bem como a magistratura de Otoniel (3.7-11) e de juizes “menores”, os
discursos dos julgamentos (6.7-11; 10.6-16), a narrativa de Abimeleque (cap.
9 com comentários de transição no cap. 8) e da morte de Sansão (cap. 16).
Essa edição final tinha relevância teológica. Se o livro de Josué descreve como

41
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Deus concede triunfo após triunfo a uma nação israelita fiel, o de Juizes registra
como as gerações seguintes sucumbiram às tentações, adoraram os deuses ca-
naneus e sofreram com as derrotas, à medida que o Senhor entregava-lhes nas
mãos de seus inimigos. A falha em cumprir o concerto trouxe-lhes a desinte­
gração espiritual e social, levando as tribos a virarem-se umas contra as outras,
em chacinas de mútuo extermínio.
Quando toda essa atividade literária ocorreu é difícil de precisar. A edição
final é influenciada pelo livro de Josué e forma uma transição em direção ao li­
vro de Samuel, que registra o começo da instituição da monarquia. Basta dizer
que o livro tomou sua forma final em algum momento durante o sétimo século,
possivelmente durante o reino de Josias (640-609 a.C.). (Veja Stone, 1987,
para uma discussão integral dos problemas críticos de redação.)

F. J u iz e s e a in s p ir a ç ã o d a s E s c r it u r a s

Os resultados obtidos pelo exame das questões introdutórias do livro de


Juizes têm consequências para a doutrina teológica acerca da inspiração das
Escrituras. A cronologia interna do livro não é consistente com declarações en­
contradas em outros textos (veja acima). O número de guerreiros mencionado
para as várias excursões militares são muito elevados. De acordo com a Pedra
Moabita (meados do nono século), o rei Mesa atacou e destruiu a cidade isra­
elita de Jaza com apenas 200 guerreiros (Matthews e Benjamin, 1997, p. 158).
Exércitos de 135 mil soldados (8.10), chacinas de 42 mil efraimitas (12.6),
22 mil israelitas (20.21) e 25 mil benjamitas (20.46) parecem inflados para
o contexto dos séculos 12 e 11. As narrativas de Juizes circularam oralmente
por gerações antes de serem coletadas e registradas por escrito. A recontagem
das histórias por parte de narradores profissionais e de diversos membros das
famílias deve ter criado ocasiões para inflar os números e, assim, reforçar o efei­
to das narrativas. Os compiladores provavelmente registraram as histórias tal
como eles encontraram-nas, ao final de um longo período de transmisão oral.
Teológicos wesleyanos têm sustentado uma teoria dinâmica acerca da inspi­
ração, que leva em consideração os contextos culturais do povo e diversas fontes
que os escritores possuíam à sua disposição. Já em 1880, W. B. Pope observava
que os escritores, às vezes, “tinham de registrar fatos, ou supor a existência deles,
extraindo-os dos registros públicos; às vezes, tinham de lembrar tradições, lendas,
opiniões correntes ou predições pouco inspiradas fornecidas pela tradição: nesses
casos, eles eram apenas testemunhas do que encontravam” (1:172).

42
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

Levando em consideração as várias fontes usadas pelos escritores, Pope


seguia e chegava a descrever a autoridade das Sagradas Escrituras como “a au­
toridade absoluta e final, plenamente suficiente como o Padrão supremo de
Fé, Diretório Moral e Carta dos Privilégios da Igreja de Deus” (1:174). De
modo similar, A. M. Hills reconhecia que “apesar de todas as discrepâncias,
desacordos, erros e pequenas imprecisões, a Bíblia continua sendo o livro in­
falível e inspirado por Deus (...). Sua infalibilidade guia todas as almas hones­
tas, dispostas e desejosas em direção a Cristo, à santidade e ao paraíso” (1931,
1:134). Esse conceito de inspiração foi adotado por H. Orton Wiley, que limi­
tou a inerrância das Escrituras à “competente regra da fé e da prática na Igreja”
(1940, 1:171), e por J. Kenneth Grider, que observou: “Evangélicos de santi­
dade wesleyana defendem que a confiança na Escritura é infalível em relação
à doutrina e à prática, mas que ela pode conter erros em temas relacionados à
matemática, às ciências, geografia e similares” (1994, p. 75). Em resumo, não
devemos buscar uma precisão histórica estrita na cronologia e nos números,
pois o que os escritores anotaram com precisão foi o material que eles tinham
disponível naquele tempo. Essa afirmação é consistente com os ensinamentos
wesleyanos históricos sobre a inspiração.

G . M e t o d o lo g ia

O método dominante usado por comentadores do século 20 era baseado


no paradigma histórico crítico (Holladay, 1994, p. 125-149). Os comentadores
procuravam recuperar o sentido original do escrito, abordando-o com crítica
textual, crítica das fontes, literatura comparada, crítica da forma, crítica da re­
dação. A aplicação dessas metodologias tem sido frutífera, mas incompleta. No
último terço do século, pesquisadores exploraram o paradigma literário com
mais métodos, entre os quais, crítica retórica, crítica narrativa, crítica focada
na reação do leitor. Ainda que esses estudos tenham-se mostrado úteis na com­
preensão da estrutura literária das Escrituras, sobretudo de seu valor estético,
eles também são incompletos. A crítica canônica, outro desenvolvimento mais
recente, afirma que, não importa qual tenha sido o processo editorial implicado
na elaboração de um livro, é a sua forma final que foi reconhecida pela sinagoga
e pela Igreja como inspirada por Deus. É a forma completa do livro que se torna
canônica e deve ser levada em consideração ao se estudar as Escrituras.
Uma abordagem encarnacional será desenvolvida nesse estudo. Os comen­
tários serão baseados no texto hebraico com a tradução do autor em negrito e

43
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

itálico. Os métodos extraídos tanto do paradigma histórico como do literário


serão empregados para analisar o processo que produziu o texto, tanto quanto
o texto propriamente dito. O texto registra a reação da humanidade à interação
de Deus com ela e é, como tal, um produto humano. No entanto, o povo de
Deus tem reconhecido e testemunhado, por várias gerações, a dimensão divi­
na, a obra do Espírito Santo que atuou na elaboração e redação do livro. Essa
obra do Espírito Santo faz dele a Palavra de Deus, um registro autêntico e ver­
dadeiro da interação entre Deus e a humanidade. Como observou McCann:
Certamente, tal visão encarnacional da Escritura é escandalosamente par-
ticularista, mas não mais do que as convicções fundamentais judaicas e
cristãs de que Deus escolheu Israel ou de que Deus é inteiramente conhe­
cido finalmente em Jesus de Nazaré, que era “inteiramente humano” — “E
o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14 ARC) (1996, p. 643).

H . T e m a s t e o ló g i c o s

A seção central do livro de Juizes narra o ciclo de pecado, opressão, cla­


mor a Deus e surgimento dos salvadores que libertariam Israel. Os seis ciclos
desenvolvem o padrão de uma espiral cada vez mais decadente, cada vez mais
distante de Deus e próxima da desintegração social. Os primeiros três ciclos
(Otoniel, Eúde e Débora) descrevem Israel buscando outros deuses, mas sendo
libertada e premiada com períodos de paz. O quarto ciclo (Gideão) é essencial
para a história geral, uma vez que começa uma tendência descendente em di­
reção à destruição. No quinto ciclo, os anciãos, e não o Senhor, escolhem Jefté
como líder, e no sexto (Sansão), não há nem clamor nem libertação plena. A
contextualização da seção central é feita pelos capítulos de abertura (1.1 —3.6),
que descrevem o sucesso limitado de Israel em herdar a terra devido à recusa
do Senhor em ajudar o povo, porque Israel se voltou para outros deuses. Em
segundo lugar, as histórias finais descrevem a profundidade da desintegração
moral e social de Israel (cap. 17—21).

1. Liberdade Humana
Israel era livre para escolher seu caminho, seja seguindo o Senhor ou bus­
cando outros deuses. Essa liberdade acarretava grande potencial, tanto para
bênçãos quanto para maldições. Não houve tentativa nenhuma da parte de
Deus de limitar a liberdade de Israel. Embora Ele enviasse mensageiros para

44
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

avisá-los (2.1-5; 6.7-10; 10.10-16) e permitisse que outras nações oprimissem


os israelitas, Ele nunca revogou o poder do povo de decidir qual seria sua pró­
pria linha de comportamento. Foi o povo que escolheu seguir outros deuses
e isso implicou atitudes destrutivas que, por sua vez, trouxeram a opressão de
outros povos (2.14), o fracasso em se apossar da terra (2.3) e a guerra entre os
próprios israelitas (12.1-6), que chegou até mesmo muito próximo de destruir
inteiramente uma de suas próprias tribos (20.36-48). Contudo, mesmo em
seu pecado, o caráter da nação não era fixo. Em meio à servidão, ela clamava
a Deus, que a escutava e respondia graciosamente, levantando um libertador.
Os israelitas tinham liberdade para escolher a quem serviríam, mas servir
era algo que fariam de todo jeito. O conceito de autonomia humana absoluta
é uma ilusão. Os israelitas eram livres para servir ao Deus de Israel e, assim,
tornarem-se Seus servos, obedecendo aos Seus mandamentos e desfrutando
de Suas bênçãos. Ou poderíam servir aos deuses de Canaã, obedecer às exi­
gências deles, recaindo, assim, sob o juízo do Senhor. Paulo descreve corre­
tamente as escolhas da humanidade: tornar-se escrava do pecado, que leva à
morte, ou tornar-se escrava da obediência a Deus, que conduz à justiça e à vida
(Rm 6.15,16). Os ensinamentos de Juizes e do N T (Novo Testamento) são os
mesmos nesse ponto.

2. Soberania de Deus
Enquanto Israel era livre para seguir ou transgredir o concerto, o Senhor
mantinha a aliança com Seu povo abençoando-o nos períodos em que seguia
a liderança de um juiz e trazendo-lhe as maldições do concerto quando ele
seguia outros deuses. Deus também estava livre para agir em benefício de Is­
rael ou para rejeitar o seu clamor (10.10-16). Nenhum acordo ou concerto do
qual Ele fizesse parte poderia forçá-lo a responder, seja com livramento ou com
destruição. Livre em Sua soberania, o Senhor, contudo, comovia-se em Sua
compaixão pelos israelitas e repetidamente escutava o clamor deles, levantando
um juiz para salvá-los.
A soberania de Deus não é, no fim das contas, definida pelo poder, mas
pelo amor. O Criador que possui poder absoluto sobre Sua criação pode e
usará Sua força para julgar o pecado da humanidade (Gn 6—9; 19.1-26; Mt
25.31-46). Entretanto, Ele prefere perdoar ao pecador arrependido e recuperá-
-lo ou recuperá-la de volta à relação estabelecida pelo concerto (Ex 34.6,7; Jo
1.10-13). A crucificação de Jesus demonstra a que extremo o amor de Deus

45
INTRODUÇÃO NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

chegará em prol de uma humanidade rebelde e pecadora, buscando afastá-la


dos falsos deuses que prometem vida, mas só podem levar à morte. Ainda que
os israelitas, na época dos juizes, tenham-se distanciado da obediência a Deus
e tenham buscado aproximar-se dos deuses de Canaã, o Senhor nunca os re­
jeitou. As maldições do concerto vieram como instrumentos de disciplina, na
tentativa de trazê-los de volta ao arrependimento e à redenção reais, para que,
desse modo, Ele pudesse abençoá-los novamente (Dt 30.1-10). Um Deus so­
berano que temperou Seu poder com amor e fidelidade ao concerto escutou o
clamor dos oprimidos e agiu com compaixão para redimi-los.

3. O chamado para lealdade total


O concerto deuteronômico constitui a fundação teológica para o livro
de Juizes. Deus graciosamente libertou Israel das amarras da escravidão no
Egito e conduziu-o para a terra. Israel era Seu povo por causa da redenção. O
concerto com seus mandamentos foi dado para fornecer à comunidade e aos
indivíduos um modo distinto de vida, uma vida em devoção ao único Deus.
Esse modo de vida implicava não adorar outros deuses, manter a santidade
do nome do Senhor, não mentir, roubar ou cometer adultério. Essas exigên­
cias revelavam a própria natureza do Deus de Israel; Aquele que é santo e,
assim, deve ser respeitado e adorado; e que é justo e, portanto, lida fielmente
com o povo de Israel. O indivíduo devia responder sendo totalmente leal ao
Senhor: am arás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tu a
vida eforça (Dt 6.5). Em um mundo com inclinação para a adoração a mui­
tos deuses, esse povo seria diferente, não apenas por suas ações, mas também
pela presença de um único Deus em seu meio (Ex 33.16). A presença divina
o chamaria à santidade, e a tornar-se, em sua existência e ações, um povo tão
santo quanto o Senhor, e, assim, demonstrar ao mundo a possibilidade de um
modo diferente de ser e de viver.
O fracasso do povo em responder a Deus em confiança e lealdade com­
pleta levou à tragédia de sua desintegração social e espiritual. O povo clamava
ao guerreiro divino Yahweh quando precisava de livramento, mas esse mesmo
povo falhava em confiar-lhe a provisão de suas necessidades diárias. Em vez
disso, os israelitas voltaram-se para outros deuses, que falsamente lhes prome­
teram prosperidade e segurança. O povo de Israel não conseguiu confiar in­
teiramente no Senhor para satisfazer suas necessidades espirituais e materiais.
Esse mesmo Deus estende o mesmo convite às pessoas hoje. A todos que

46
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON INTRODUÇÃO

se arrependem de verdade, o Senhor graciosamente oferece o livramento da


servidão ao pecado. Além do ato de perdão, Ele reinvidica as vidas do Seu povo
redimido. Seu Espírito nos chama a confiar no amor e na fidelidade de Deus.
Devemos nos afastar dos ídolos deste mundo e nos comprometer totalmente
com a vontade divina para nossas vidas. Ele é fiel e toma nossa vida consagrada
para selá-la com a graciosa purificação e o poder do Espírito. Somos chamados
a viver a vida do Espírito, sendo transformados todos os dias na pessoa (indiví­
duo) e no povo (comunidade) que refletem a santidade do nosso Deus. Desse
modo, testemunhamos ao mundo um modo de vida melhor, uma vida livre da
servidão aos falsos deuses, que podem apenas escravizar, mas nunca libertar e
salvar.

47
COMENTÁRIO

I. PANORAMA (1.1—3.6)

O livro de Juizes começa com a afirmação introdutória efo i após a morte


deJosué (1.1). Contudo, a morte e o sepultamento do sucessor de Moisés tam­
bém é registrada posteriormente, em 2.6-9, com palavras muito semelhantes a
Js 24.28-30. Há muito tempo se reconhece que Juizes tem duas introduções,
1.1—2.5, adicionada pelo último editor/escritor ao final de um longo processo
editorial, e 2.6—3.6, parte do trabalho do historiador deuteronômico (HD,
veja a Introdução). Não é diferente do começo do livro de Isaías, com suas duas
inscrições introdutórias em 1.1 e 2.1. A passagem registrada primeiro, 2.6—
3.6, é obra da HD, que editou as narrativas dos juizes para refletir a teologia de
Deuteronômio. Ela começa com o relato da morte e do sepultamento de Josué,
e com o surgimento da geração seguinte, que desconhecia as obras do Senhor.
Conclui-se com uma lista das nações que permaneceram na terra. O propósito
de Deus ao deixá-las naqueles lugares era testar Israel para ver se o povo seria fiel
ao concerto. A declaração final, porém, descreve como os israelitas violaram a
aliança com o Senhor por ligarem-se com outros povos por meio do casamento.
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Já o primeiro capítulo descreve o fracasso das tribos em conquistar a


terra. Movendo-se geograficamente do sul para o norte, a história se desloca
do sucesso de Judá às falhas crescentes das tribos do norte. Na seção final
(2.1-5), Deus acusa as tribos de não obedecerem aos mandamentos do con­
certo e recusa-se a expulsar os outros povos. Com isso, a conquista da terra
ficou incompleta.
Essa introdução inicial é obra das mãos do redator final, que também
editou algumas narrativas dos juizes e adicionou as histórias conclusivas
(cap. 17—21, veja a Introdução). Essa edição final conferiu uma unidade ao
livro inteiro por meio do uso de frases e palavras de efeito, ações paralelas
e temas literários mais abrangentes. A tribo de Judá, obediente e bem-su­
cedida, é posta em contraste com as tribos do norte, que lentamente incor­
poram a cultura e as crenças cananeias em uma lenta e decadente espiral de
desobediência ao concerto. A bem-aventurança de Judá também é especi­
ficamente contrastada com o fracasso da tribo de Benjamim. Se a primeira
conquista a cidade de Jerusalém e a incendeia (1.8), a segunda não consegue
manter o controle da cidade, nem desalojar os jebuseus que nela moravam
(1.21). Nesse sentido, é Judá quem toma a liderança não apenas na conquista
(1.1,2), mas também na guerra contra Benjamim (20.18). A ascendência de
Judá sobre Benjamim prefigura o conflito entre Davi e Saul em 1 Sm, no qual
a casa benjamita de Saul é destronada pela casa de Davi (Sweeney, 1997, p.
517-529). Alguns dos outros paralelos incluem as notas do levita que se jun­
tou à migração da tribo de Dã (17.7) e da concubina que foi abusada pelos
homens de Gibeá, ambos vinham da cidade judia de Belém (19.1). Dã não
tinha condições de tomar possa de sua herança (1.34) e teve de se deslocar
para o norte (cap. 18). Duas mulheres no livro de juizes montam jumentos,
Acsa, filha de Calebe, desmonta de um deles (1.14), e o corpo da concubina
presumivelmente morta é carregado em outro (19.28). A palavra hesed, com
forte sentido teológico (lealdade, amor inabalável), aparece apenas em 1.24
e no v. 35 do acréscimo editorial tardio de 8.33-35. Esse tipo de amarra lite­
rária ajuda a dar unidade à obra como um todo, de modo que sua forma fi­
nal, mesmo contendo vozes de diferentes períodos da história, fale de modo
mais harmonioso e integrado.
Cada introdução descreve o movimento da queda israelita, movimento
que põe fim à conquista (2.1-5) e coloca o concerto em perigo (3.1-6). Com a
morte de Josué, a história de Israel deixa de ser marcada pela obediência e pelo
sucesso, e passa a caracterizar-se pela desobediência e pelo fracasso.

50
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

A . U m a g e o g r a f ia d o f r a c a s s o ( 1 .1 — 2 .5 )

POR TRÁS DO TEXTO


Essa passagem contém diversos elementos de exegese intertextual, toman­
do emprestado material de Js 14, 15 e 17, e adaptando-o de modo a imprimir
mudanças sutis na passagem para propósitos teológicos. Essas mudanças ser­
vem ao interesse de destacar os sucessos de Judá e contrastá-los com os fracassos
das “tribos de José”, um termo que aparece nos v. 22 e 35 para contextualizar
a narrativa da conquista pelas tribos do norte. As passagens emprestadas in­
cluem o seguinte:
1. Em Js 14.6,13-15; 15.13-15, Calebe conquista a cidade de Hebrom e
expulsa os filhos de Enaque. Em Jz 1.10, Judá conquista Hebrom e mata Sesai,
Aimã e Talmai. No v. 20, Calebe recebe a cidade de Hebrom e expulsa de lá os
filhos de Enaque.
2. Em Js 15.15-19, Calebe dá sua filha Acsa como esposa a Otoniel, seu
irmão mais novo. Em Jz 1.11-15, Otoniel é identificado como sobrinho de Ca­
lebe, e filho do irmão mais novo dele, Quenaz. Isso torna Otoniel um membro
da geração fiel, que começou a conquista sob a liderança de Josué e continuou
a servir ao Senhor após a morte de Josué (Jz 2.7).
3. De acordo com Js 15.63, Judá não teve condições de expulsar os jebuseus
de Jerusalém, mas, em Jz 1.21, esse fracasso é atribuído à tribo de Benjamim.
4. Em Js 17.16, a tribo de José atribui seu fracasso em tomar as cidades do
vale ao fato de os cananeus terem carros de ferro. Em Jz 1.19, Judá é desculpado
por não conquistar os habitantes do vale, porque eles tinham carros de ferro.
5. O insucesso de Manassés em tomar posse de várias cidades é registrado
em Js 17.11-13, e novamente em Jz 1.27, tendo apenas variações menores.
6. A falha de Efraim em expulsar os cananeus de Gezer é registrada em Js
16.10 e em Jz 1.29.
O escritor precisou retomar a história da conquista para enfatizar os su­
cessos de Judá e de Simeão ao tomar posse de suas heranças, enquanto as tribos
do norte chafurdavam em seus esforços. A medida que a narrativa se desloca
geograficamente do sul para o norte, ela descreve como as tribos se tornam cada
vez menos bem-sucedidas na posse da terra. Manassés, Efraim e Zebulom não
conseguiram expulsar os cananeus, mas deixaram que esses vivessem entre as tri­
bos, chegando a reduzi-los à condição de trabalhadores forçados. Aser e Naftali
também viveram entre os cananeus, porque eles [A ser] não os expulsaram (v.

51
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

32). A falha em livrar a terra de seus antigos habitantes chega a seu clímax com
Dã sendo expulsa da sua herança pelos amorreus, uma situação que permane­
ceu sem solução até o cap. 18 (Stone, 1992, p. 332).
Josué 13.2 observa que o sucessor de Moisés não teve condições de con­
quistar as cidades filisteias, porém, em Jz 1.18, afirma-se que Judá tomou Gaza,
Ascalom e Ecrom, bem como seus territórios circundantes. O verso seguinte
(v. 19) declara que Judá não pôde desalojar os habitantes da planícia. Já o v. 18
da LXX é negativo: Ju d á não conseguiu tom ar Gaza. Essa leitura atenua as
contradições aparentes entre Js 13.2 e Jz 1.18, bem como entre os versículos 18
e 19. Contudo, 1.18 tal como esbelecido é compatível com o contexto no qual
os sucessos de Judá são reforçados em contraste com os fracassos das tribos do
norte.

NO TEXTO

1. Judá se levanta (1.1-7)


H 1-7 Com a morte de Josué, um novo capítulo na história de Israel se ini­
cia. Moisés, sob comando de Deus, designara Josué para ser seu sucessor (Dt
31.7,8,14-23), mas o sucessor do próprio Josué não havia sido escolhido. Ele
pertencia à primeira geração, que testemunhara as ações poderosas de Deus ao
tirar Israel da servidão no Egito. Uma vez que essa geração se recusou a obe­
decer ao Senhor e a invadir a terra pelo sul, ela foi amaldiçoada por Deus para
morrer no deserto; somente Josué e Calebe foram autorizados a entrar na terra
com a próxima geração (Nm 14.26-38). Sob a liderança de Josué, a próxima
geração iniciou a conquista de modo vitorioso. Essa segunda geração perma­
neceu fiel a Deus durante a vida de Josué e a vida de seus anciãos (2.7). Então,
surgiu uma terceira geração. Os primeiros capítulos de Juizes abordam as ques­
tões: quem iria liderá-los?; e permaneceríam fiéis ao concerto dado por Deus?
Osfilhos de Isra e l—ou israelitas —perguntaram ao Senhor (v. 1); ou seja,
eles buscaram por algum meio um oráculo ou uma palavra direta de Deus a
respeito de qual tribo deveria se levan tar contra o Cananeu (singular).

Quem eram os cananeus?


O termo cananeu, presente no AT quase sempre no singular como um
termo coletivo, pode referir-se a um grupo cultural ou étnico específico, di-

52
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

ferente dos outros grupos. Ele também pode fazer referência aos habitan­
tes da área ao longo da costa sudeste do Mediterrâneo, partindo da cida­
de de Tiro e estendendo-se continente adentro até a cidade de Damasco.
Documentos jurídicos e adm inistrativos da Idade do Bronze Tardia (1550
a.C. - 1200 a.C.) oriundos do Egito, Babilônia e outras áreas se referem
aos moradores dessa região como "filhos de Canaã", "hom ens de Canaã",
"filhos da terra de Canaã" ou cananeus (Rainey, 1996, p. 1-15). No livro de
Juizes, o termo indica os habitantes da terra como um todo, mesmo quan­
do ele acompanha outro grupo étnico específico (ex., os ferezeus no v. 4).

O termo cãlãh (“subir”) aparece nos v. 1 ,2 ,3 ,4 ,1 6 ,2 2 e 2.1. Ele dá unidade


ao conjunto. Exceção feita ao seu uso em 2.1, a palavra carrega o sentido de ir à
batalha, à guerra. Em 20.18, as tribos novamente perguntam ao Senhor quem
deveria liderá-las em batalha. A mesma terminologia é empregada e a mesma
resposta é fornecida: Judá. Tanto no capítulo de abertura do livro quanto na
história de encerramento, é essa a tribo que recebe o lugar de proeminência no
esforço de guerra.
A resposta do Senhor à pergunta era de que Judá lideraria a invasão. A
segunda metade do versículo é uma promessa: Eu d ei a terra em suas mãos (v.
2). Essa frase não foi dita como um fato realizado, mas como uma garantia de
que Deus estaria com Judá para abençoar os esforços das tribos.
Judá, então, convidou sua tribo-irmã, Simeão, a formar uma coalizão,
para que uma ajudasse a outra em seus afazeres bélicos. No tempo da mo­
narquia, Simeão seria absorvida por Judá e perdería sua identidade distinta.
O primeiro ataque deles foi contra os cananeus eferezeus que o Senhor en­
tregou nas mãos deles (v. 4). A vitória foi assegurada pela ajuda divina. Os
ferezeus eram um grupo pré-israelita localizado nas colinas arborizadas entre
Jerusalém e a herança de Efraim (Js 11.3; 17.15), uma área originalmente
concedida a Benjamim, não a Judá (Js 18.11). Nada se sabe a respeito dos
ferezeus, exceto o pouco que é mencionado no AT. O nome oferezeu, sempre
um termo coletivo, com um artigo e número no singular, provavelmente é
não semítico, talvez seja hurrita, um grupo étnico cuja terra natal se locali­
zava nas montanhas da Mesopotâmia (Reed, 1997, ABD-CD [Anchor Bible
D ictionary em CD ]). Era um dos povos com quem os israelitas entraram em
matrimônio (Jz 3.5,6), em uma violação dos mandamentos dados por Moisés
(Dt 7.1-3).
Bezeque (Jz 1.4) geralmente é localizada ao norte de Jerusalém, possivel­
mente na área de Manassés. Zertal sugere que Judá e Simeão podem ter tomado
53
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

uma rota mais ao norte, na região montanhosa, enfrentando assim a oposição


do líder e regente de Bezeque, traduzido com o nome Adoni-Bezeque (v. 5)
(Zertal, 1997, ABD-CD). Em Js 10.1, o rei de Jerusalém é identificado como
Adoni-Zedeque. Não há certeza se o nome “Bezeque” é uma corruptela do
original, “Zedeque”, porém, tratava-se de dois reis diferentes. Adoni-Bezeque
foi levado a Jerusalém para morrer (Jz 1.7), ao passo que o rei de Jerusalém,
Adoni-Zedeque, teve um destino diferente, pois foi morto e pendurado em
uma árvore (Js 10.26).
Quando os judeus capturaram Adoni-Bezeque, eles lhe cortaram os pole­
gares das mãos e o dedão dos pés (Jz 1.6). Isso o imobilizaria como guerreiro,
pois o deixaria incapaz de sacar a espada ou correr velozmente. Não há outra
passagem em Juizes na qual os israelitas tenham mutilado um prisioneiro vivo.
Mais tarde, Davi removeria a cabeça de Golias (1 Sm 17.47-51) e, depois de
executar os homens que haviam matado Is-Bosete, faria com eles tivessem seus
pés e mãos cortados, bem como seus corpos pendurados (2 Sm 4.12). Entre­
tanto, episódios de israelitas mutilando seus prisioneiros são raros. Os judeus
inflingiram sobre Adoni-Bezeque a mesma crueldade que esse infligira em ou­
tros. Tal ação produz uma tensão na história. Estariam os judeus se tornan­
do iguais aos cananeus que eles expulsavam? Adoni-Bezeque reconhece que
sua ação contra setenta reis (um número redondo que significa “muitos”) era
justamente empregada por Deus contra ele (Jz 1.7). Contudo, essa confissão
não alivia a tensão na narrativa. Posteriormente, o corpo da concubina que fora
sexualmente abusada seria desmembrado (19.29). Quando Saul chamou os is­
raelitas a se reunirem em Bezeque, para que fossem e erguessem o cerco a Jabes-
-Gileade (1 Sm 11.7-11), ele desmembrou seus bois.para expor às tribos um
símbolo da seriedade da situação. A mutilação de Adoni-Bezeque prenuncia
tanto o dilaceramento da concubina (Jz 19.29) quanto dos bois de Saul (Sch-
neider, 2000, p. 6).
O versículo termina com uma observação sóbria, de que eles o levaram
p ara Jerusalém e lá ele m orreu (1.7). Quem o levou? Os judeus, para que pu­
sessem medo nos habitantes de Jerusalém? Ou o próprio povo de Adoni-Beze­
que, buscando refúgio ? O texto não nos informa.

2. Conquistando Jerusalém e Hebrom (1.8-10)


I 8-10 A descrição do ataque a Jerusalém é rápida, mas detalhada. Os judeus
tomaram a cidade, submeteram seus habitantes à morte pela espada e deixaram
o local em chamas. Desviando do que diz Js 15.63, onde se lê que os judeus não
54
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

conseguiram tomar a cidade, esse trecho serve ao propósito de reforçar os su­


cessos de Judá, dando-lhe mais proeminência entre as tribos. Os judeus então
se mobilizaram contra os cananeus, na serra, no Neguebe e na Sefelá (Jz 1.9).
As serras que se estendem ao sul de Jerusalém se tornam menos acidentadas. O
Neguebe, que significa “seco”, abre-se ao final do trecho de serra, à medida que
o terreno se torna plano e árido. Ele inclui os vales de Arade e de Berseba, uma
região de aproximadamente 40 quilomêtros quadrados. Durante o período de
juizes, era pouquíssimo habitada (Beit-Arieh, 1997, ABD-CD). A Sefelá de
Judá é uma região de colinas mais baixas, que se prolonga do sudoeste ao nor­
deste por 80 quilômetros ao longo do limite ocidental das serras judias. Trata-
-se de uma terra boa para cultivar, com um bom número de grandes cidades,
tais como Láquis, Maressa, Azeca, Bete-Semes, localizadas por lá (Brodsky,
1997, ABD-CD).
No v. 10, é a tribo de Judá, e não a de Calebe, que tem o papel principal
na captura de Hebrom (Js 14.6,13,14) e é creditada tanto com a captura dessa
cidade quanto com a destruição dos três filhos de Enaque (Js 15.13-15). Sesai,
Aimã e Talmai possuem nomes não semíticos, uma indicação de que a família
deles não era nativa da região. Eles podem ter sido filisteus. Calebe não é men­
cionado antes de ser introduzido em Jz 1.12, em conjunção com a destruição
de Quiriate-Sefer. Atribuir a conquista de Hebrom a Judá, e não a Calebe, é
outro traço da tendência de destacar os sucessos de Judá.
Hebrom era uma cidade de importância política e sagrada, localizada na
região montanhosa central, a aproximadamente 32 quilômetros ao sul de Je­
rusalém. Mais tarde, ela se tornou a primeira residência real de Davi (2 Sm
2.1). Josué havia diferenciado Hebrom como uma cidade sagrada, para a qual
podería fugir a pessoa que acidentalmente tivesse matado alguém (Js 20.7). Ela
continuou como centro sagrado durante o reinado de Davi. Absalão, seu filho,
obteve a permissão do rei para ir até lá adorar o Senhor, planejando secreta­
mente iniciar uma revolta a partir de lá (2 Sm 15.7-12).

3. Conquistando Debir (1.11-15)


H 11-15 Debir (v. 11) provavelmente se localizava a sudoeste de Hebrom, na
Sefelá. Seu antigo nome era Quiriate-Sefer ou “cidade do livro”. Em Js 15.49, o lo­
cal é chamado de Quiriate-Sana, ou “cidade do aprendizado”. O nome indica que
o lugar era conhecido como um centro de formação e de trabalho para os escribas.
Uma cidade de educação e cultura, tomada e destruída pelos israelitas. Como ob­
serva Fewell: “Uma cidade educadora foi simplesmente apagada” (1995, p. 132).
55
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Calebe oferece sua filha Acsa em casamento para o guerreiro que tomasse
a cidade. A identificação de Otoniel é ambígua. Seria ele ofilh o de Quenaz,
que é o irm ão m ais novo de Calebe (v. 13) e, portanto, primo de Acsa? Ou
seria ele ofilh o de um quen izita [um queneu], o irm ão m ais novo de Calebe,
e, logo, tio de Acsa? As traduções gregas mais antigas variam, ao passo que a
vulgata traz a última solução. Uma vez que o casamento entre tio e sobrinha
era considerado impróprio, comentaristas mais antigos como Poole (1685) e
Scott (1702) sugeriram que o termo “irmão” fosse lido no sentido expandido
de parente (Gunn, 2005, p. 21-22). Já Stone argumenta que Quenaz deveria ser
tomado como o pai de Otoniel e o irmão mais novo de Calebe, o que faria de
Otoniel um membro da segunda e fiel geração da conquista (1987, p. 204-207).
O começo do v. 14 deve ser lido elefo i até ela, com a leitura do h final do
verbo hebraico como indicação de direção. A terminologia tem uma conota­
ção sexual e indica a consumação do casamento entre Otoniel e Acsa (Schnei-
der, 2000, p. 12). O segundo verbo, süt, também possui essa conotação sexual
de fascinação, incitação (KBL [Lexicon in Veteris Testamenti Libros\, 1985, p.
654) ou sedução. Dado que Acsa posteriormente faz um pedido a seu pai, a
LXX e a Vulgata indicam que “ele insistiu em que ela solicitasse um campo
para seu pai” (Boling, 1975, p. 56-57). Mas, é melhor seguir o TM (Texto
Massorético) e ler que ela o seduziu. Sem seu consentimento, Acsa fora dada
como prêmio de guerra a um lutador. Ela estava sob a autoridade primeiro de
seu pai, depois de seu marido. Seria compatível com sua posição social usar
sua sexualidade para persuadir seu marido a buscar mais vantagens de seu pai.
Esses temas introduzidos no primeiro capítulo serão mais bem desenvolvidos
em partes posteriores do livro. Uma mulher empregando sua sexualidade para
obter vantagens sobre um homem é algo que reaparecerá na história de Sansão,
na qual Dalila busca descobrir o segredo da força dele (16.4-22, Schneider,
2000, p. 13-14).
Na próxima cena, Acsa viaja uma longa distância, montando um jumento
em vez de caminhar, a fim de visitar seu pai, Calebe. Esse percebe que não se
tratava de uma visita casual, ao perguntar, literalmente: "Que é o que tens?”
ou, de modo mais suave, “O que você quer?” (v. 14). Ela solicitou (o verbo
está no imperativo) que Calebe lhe concedesse uma bênção. Acsa fora deixada
em uma terra pobre de águas, uma região seca do Neguebe. O que ela queria
especificamente eram fontes de água. Sua assertividade ao confrontar Calebe
com a pobreza da terra envergonhou o pai, forçando-o a responder e a concordar
com o pedido dela. Acsa não estava disposta a aceitar um papel passivo naquela
sociedade dominada por homens (Matthews, 2004, p. 40) e usou sua sexualidade

56
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

para estimular seu marido a pedir os campos de terra, e depois afrontou o pai
indagando sobre a pobre qualidade da terra que recebera. Ela é a primeira mu­
lher de Juizes a sair do papel tradicional determinado pela sociedade.

4. Os sucessos e as inadequações de Judá (1.16-21)


■ 1 6 -2 1 Essa seção completa a história da parte de Judá na conquista. Ela
também conclui muitas notas a respeito daqueles que se associaram a essa tri­
bo. Os queneus tinham ligação com Moisés por meio de casamentos. Parte
deles acompanhou Judá no caminho de Jerico, a Cidade das Palmeiras, ao Ne-
guebe e viveu no meio do povo (v. 16), um termo ambíguo que pode significar
os nativos da região ou o próprio povo de Judá e Simeão, que também estavam
deslocando-se para aquela região. Os jerameelitas, outra tribo parente de Israel,
também vivia no Neguebe (1 Sm 27.10).
Judá cumpriu seu compromisso de ajudar Simeão a ocupar sua herança (Jz
1.17). Os cananeus de Zefate foram submetidos à destruição total, hãram . Com
isso, a cidade foi chamada Hormá, h ãrm ãh , um jogo entre as duas palavras.
De acordo com o TM , Judá, então, tomou as cidades filisteias de Gaza,
Ascalom e Ecrom (v. 18). Porém, no início desse versículo na LXX, lê-se: e
Ju d á não ad q u iriu Gaza. A versão do TM é provavelmente melhor, dado que
ela dá continuidade ao tema dos sucessos de Judá. Em Js 10.33, Josué mata o
rei de Gezer, que viera ajudar a cidade de Láquis, então sitiada pelos israelitas.
Contudo, as cidades filisteias não foram tomadas por Josué (13.2). Tanto Gaza
quanto Ascalom eram portos marítimos localizados na planície costeira do Me­
diterrâneo. Ecrom se localizava no limite oriental da mesma planície. O versí­
culo seguinte, entretanto, observa que Judá não conquistou as cidades nos vales,
uma vez que seus habitantes tinham carruagens reforçadas com ferro (Jz 1.19).

Uso militar de carruagens


A carruagem servia o mesmo propósito militar do tanque moderno.
O soldado que guiava os cavalos era acom panhado por m ais um ou dois
com arcos ou lanças. A carruagem era facilm ente m anobrada e, com seu
grande poder de fogo, produzia choque e pânico na infantaria inimiga.
Era feita de madeira e tinha ligas e encaixes de ferro, para ser resistente.
Um modelo feito integralm ente de ferro seria, além de muito caro, muito
pesado para manobrar.

57
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

O começo do v. 19 ,E o Senhor estava com Ju d á, delineia uma conclusão,


e, articulando-se com a última metade do v. 2, D arei a terra em suas mãos,
delimita o quadro ou contexto em torno da narrativa.
Calebe ganhou a cidade de Hebrom (v. 20) tal como prometido por M oi­
sés (Js 14.9). Vale lembrar, contudo, que ele está associado a Judá, pois sua
vitória é uma extensão da conquista dessa tribo.
Essa seção termina (Jz 1.21) com a observação de que Benjamim não
tomou posse de Jerusalém porque os jebuseus lá estavam. O que Judá destruira
(v. 8), Benjamim não podia tomar. A comparação entre as duas tribos integra a
última nota dessa narrativa.

5. Conquistando Betei (1.22-26)


■ 2 2 - 2 6 A casa de José (v. 22) pode referir-se especificamente às tribos de
Efraim e Manassés cujo ancestral foi o patriarca José (Gn 48.8-20; Js 17.17).
Também pode indicar as tribos do norte em geral, como nessa passagem. A
cidade de Betei pertencia à tribo de Benjamim (Js 18.22). A frase conclusiva de
Jz 1.22, e o Senhor estava com eles, exprime o fato de o Senhor ter o mesmo
compromisso tanto com Judá (v. 2) quanto com as tribos do norte. Uma vez
que Deus estava disposto a ajudar cada tribo a tomar posse de seu território, o
sucesso ou fracasso dessa empreitada era determinada pela ação delas, não por
uma falha divina.
O versículo 23 começa com o verbo tür (“espiar” ou “investigar”). A pala­
vra liga essa história com a narrativa de Nm 13—14, na qual doze pessoas foram
enviadas para espionar a terra. O mesmo termo aparece naquele trecho onze
vezes. O relatório que os espiões trouxeram de volta não era positivo. Os isra­
elitas se recusaram a confiar em Deus e a entrar na sua herança. Assim, aquela
geração se mostrou infiel e acabou morrendo no deserto (Nm 14.26-35). Mas, a
nova geração seria bem-sucedida na tarefa que a anterior fracassara em realizar.
Quando espiões viram um homem saindo da cidade (Jz 1.24), abor­
daram-no com a proposta de tratá-lo com lealdade (h esed ) e de poupar a
família dele caso lhes mostrasse um meio de entrar. Provavelmente, a cidade
possuía não apenas um portão principal - que estaria fortemente protegido
- mas, também, entradas menores e, portanto, mais vulneráveis. A proposta
de h esed ecoa a história de Jerico, em que Raabe pede e recebe a lealdade dos
homens que havia escondido (Js 2.12,14). A palavra h esed tem forte sentido
teológico, que exprime a íntegra lealdade de um relaciomento. Em versões
modernas da Bíblia, o termo comumente é traduzido por amor infalível ou
58
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

inabalável. No livro de Juizes, ela volta a ocorrer uma única outra vez, em Jz
8.35, em que se afirma o fato de os israelitas não terem tratado lealmente a
família de Gideão após sua morte. O homem concordou em mostrar uma
porta de entrada aos filhos de José; em seguida, os habitantes da cidade fo­
ram mortos, mas ele e sua família tiveram permissão para partir em seguran­
ça. Eles, então, rumaram para o norte do Líbano, para a terra dos hititas
(v. 26), deixando a área de Canaã totalmente para trás. Lá, construíram uma
nova cidade chamada Luz. Se, por um lado, essa narrativa evoca a história de
Raabe e da queda de Jerico, também lembra a conquista de Laís pela tribo de
Dã, na qual um povo pacífico e insuspeito foi chacinado (18.27-29).

6. Vivendo entre os cananeus (1.27-36)


I 27-36 A medida que a narrativa move-se topograficamente em direção
ao norte, o índice de sucesso nas empreitadas das tribos diminui. Manassés,
Efraim e Zebulom não foram capazes de tomar posse integralmente de suas
terras, e permitiram que os cananeus vivessem entre eles. Aser e Naftali tam­
bém. Por fim, Dã fo expulsa de sua própria herança pelos amorreus.
A lista de cidades que Manassés não conseguiu tomar (v. 27) inclui tam­
bém os vilarejos circundantes de cada metrópole. Grandes regiões metropo­
litanas, como Bete-Seã, formavam distritos econômicos junto com vilarejos
menores. O excedente de bens produzidos por tais vilas - sob a forma tanto
de colheitas quanto de bens materiais, como a cerâmica - era tomado como
imposto pelas elites hierárquicas que viviam nas cidades maiores. Não se trata­
va de grandes metrópoles tais como as de hoje. Jerusalém, no tempo de Davi,
pode ter tido uma população de menos de mil habitantes.
Quando os israelitas se tornaram militarmente mais fortes (v. 28),
tornaram-se capazes de submeter os cananeus a trabalho forçado (m as).
Israel vivera a mesma submissão no Egito (Ex 1.11). Mais tarde, Salomão
recrutou até mesmo israelitas nativos para grupos de trabalho forçado (1
Rs 5.13). Pelo visto, os israelitas haviam aprendido com os egípcios a lidar
com povos não israelitas e, sem nenhuma compaixão, tornaram-se iguais
aos seus professores.
Como afirmado acima, nem Efraim ou Zebulom foram capazes de tomar
posse de suas heranças. Eles permitiram que os cananeus vivessem no meio de­
les (Jz 1.29,30).
A tribo de Aser (v. 31,32) passou por um conjunto diferente de circuns­
tâncias. Além de não conseguirem desalojar os antigos habitantes da terra, eles

59
JVÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

habitaram entre os cananeus (v. 32). Temos aqui uma mudança da situação,
não é Aser que deixa os povos de Canaã viverem no meio deles, mas o contrá­
rio. Naftali viveu a mesma situação (v. 33), mas eventualmente conseguiu se
fortalecer e subjugar os cananeus ao trabalho forçado.
Os amorreus expulsaram Dã da terra que herdou (v. 34). E foi assim que o
período de conquista terminou. Inicialmente, as tribos não tiveram condições
de desalojar os antigos habitantes, e, por isso, permitiram que esses permane­
cessem. Então, as tribos tiveram de viver entre os cananeus. Por fim, Dã foi ex­
pulsa das planícies e jogada na direção das colinas, uma inversão do que deveria
ter acontecido na conquista.
Os amorreus são listados entre os primeiros habitantes que deveriam ser
expulsos da terra (Dt 7.1). Os israelitas entraram em contato com eles pela pri­
meira vez na área do transjordão, quando Seom os atacou (Nm 21.21-31). O
ataque dele fracassou, e Israel pôde tomar posse daquela área. O termo “amor-
reu” também foi empregado do mesmo modo que “cananeu”, ou seja, como
uma designação para todos os povos da região, não importa o grupo étnico de
cada um (Gn 15.16). Porém, em Jz 1.34-36, ele indica um grupo específico,
dentro de fronteiras delimitadas. Já o uso da expressão casa deJosé nos versícu­
los 35 e 22 forma o quadro, o contexto literário dessa passagem.

7. O fim da conquista (2.1-5)


I 1-5 Essa passagem traz um oráculo vindo de Deus, transmitido por um
mensageiro conhecido como um anjo/mensageiro do Senhor. Um m al'ak ,
geralmente traduzido por “anjo”, do grego a n g elo s, “um mensageiro”, era um
membro da corte celestial que cumpria as ordens de Deus. O oráculo ini­
cialmente delineia as ações pretéritas de livramento realizadas pelo Senhor,
em benefício de Seu povo, bem como o compromisso que Ele fez com os
patriarcas israelitas (Jz 2.1). Em seguida, ele acusa o povo de não cumprir o
concerto (v. 2). A mensagem conclui com a sentença contra Israel, feita em
conformidade com o que Deus dissera previamente (v. 3). Esse é um estilo
de oráculo profético comumente visto nas obras dos profetas clássicos. Os
últimos dois versículos descrevem a reação do povo, em choros e sacrifícios.
O anjo do Senhor veio de Gilgal (v. 1), o primeiro acampamento feito
pelos israelitas após cruzarem o Jordão (Js 4.19,20) e base de suas operações
nas empreitadas militares subsequentes (Js 10.6,7). Boling sugere que o men­
sageiro era um ser angélico em forma humana (1975, p. 62). Mais tarde, será
um profeta a trazer a mensagem de repreensão (Jz 6.7-10), e, então, o anjo do

60
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Senhor irá predizer o nascimento de Sansão aos seus pais (13.3). Boquim, que
significa “carpideiras”, é identificado pela LXX com Betei. Também o “Carva­
lho da Lamentação” se localizava perto de Betei (Gn 35.8). O nome Boquim
aparece nos versículos 1 e 5, delimitando o contexto literário desse trecho. Mc-
Cann observa que: “O povo ainda está chorando no final do livro de Juizes”
(2002, p. 30), pois ele se levanta diante do Senhor em Betei, e novamente para
chorar a Deus por ter sido derrotado por Benjamim (20.23).
O mensageiro afirmou de modo abrangente: Eu que os tire i do Egito e
os trouxe até a terra (v. 1). A palavra “os” nas duas cláusulas é enfática. Ela
condiz com as expressões deuteronômicas, por abranger as gerações poste­
riores (Dt 5.3). A obrigação de Israel (Jz 2.2) era cumprir o concerto, sobre­
tudo não realizando outros concertos com os povos cananeus e destruindo
os altares erigidos para outros deuses. Os israelitas não foram castigados por
deixar os cananeus viverem, ou por não tê-los expulsado da terra, mas por
entrar em relacionamentos e fazer compromissos com eles, deixando intac­
tos os seus locais de adoração. A violação não está no fato de não terem des­
truído os povos de Canaã, mas no fato de terem se tornado como eles, tanto
nas relações sociais como na adoração.
No versículo 3, o mensageiro relembra a ameaça feita por Deus contra Is­
rael (Êx 23.21,33; Js 23.13): se o povo não obedecesse, o Senhor não expulsaria
os cananeus, mas, em vez disso, deixaria que esses se tornassem espinhos para os
israelitas, barreiras desconfortáveis na tentativa israelita de cumprir a vontade
de Deus para si. Além disso, os deuses cananeus seriam armadilhas aos israeli­
tas, como as arapucas usadas pelos caçadores para capturar os passarinhos, uma
metáfora para o modo como os adoradores eram seduzidos e levados até as
garras da morte. A resposta de Israel foi levantar a voz em clamor e oferecer um
sacrifício ao Senhor. Mas, a sentença fora declarada, e tais ações não a reverte­
ríam. A conquista chegara ao seu final.

A PARTIR DO TEXTO
1. No livro de Juizes, Deus mais reage do que age. Ele escolhera Moisés
e, em seguida, Josué para liderar Israel e lhes dera ordens direta sobre como
proceder. Ainda que, às vezes, o Senhor se coloque no fundo do cenário e deixe
as coisas acontecerem, Ele também é frequentemente visto comunicando-se
diretamente com as pessoas, dando os mandamentos e leis, provendo água e
comida, fazendo os planos de batalha. Juizes se inicia com as tribos perguntan­
do a Deus quem as lideraria em batalha. E Ele responde escolhendo Judá para

61
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

a liderança e assegurando à tribo que estaria com ela (1.2). A narrativa enfatiza
mais duas vezes que o Senhor estava com as tribos (v. 19 e 22), contudo, os
atores principais aqui eram os próprios israelitas. Deus não se intrometeu nas
batalhas para dar orientações ou para garantir vitórias. Ao final, o Senhor man­
dou um mensageiro para avaliar as ações de Seu povo e condená-lo pela falta
de obediência.
A humanidade recebeu uma enorme liberdade para responder aos desafios
da vida. E Deus lhe deu ainda instruções básicas, ocasionalmente surgindo com
orientações específicas. Porém, a maior parte da existência é vivida com o Senhor
nos bastidores, trabalhando por trás das cortinas. Isso tudo coloca uma grande
responsabilidade sobre a humanidade. Deus nos permitiu moldar o futuro, mas
também devemos sofrer as suas consequências e viver com as escolhas que faze­
mos. Se falhamos em pretar atenção aos avisos de Deus sobre a adoração de falsos
deuses, então lidaremos com os efeitos destrutivos de nossa desobediência.
Essa liberdade de escolha existe até mesmo em nossa vida espiritual, na qual
Deus nos confronta chamando-nos a amá-lo com todo nosso corpo, mente e
força. O Espírito do Senhor não nos convoca ao compromisso total sem nos
habilitar a responder. Porém, devemos estar dispostos a derrubar os altares ergui­
dos aos falsos deuses do poder, da riqueza, da sexualidade e do egocentrismo, que
tentam nos seduzir. Deus está com Seu povo (v. 22), e é apenas por meio de Sua
purificação que nossos ídolos interiores podem ser destruídos. Essas duas últimas
afirmações falam de um grande mistério. Se, por um lado, é o Deus soberano que
chama e é Seu Espírito que dá poder, Ele, por Sua graça, permitiu aos humanos
escolher. Portanto, tal como no tempo de Moisés, o Senhor nos colocará diante
de uma escolha: vida e bondade ou morte e m aldade (Dt 30.15). E, ainda que
tal escolha seja nossa, Deus nos encoraja a escolher a obediência e a vida.
2. Ações revelam quem somos melhor do que nossas palavras. Quão di­
ferentes eram os judeus em relação a Adoni-Bezeque? Os primeiros fizeram
com esse último o que ele havia feito contra outros. As tribos viviam em meio
aos cananeus e não destruíram seus lugares de adoração. Os isrealitas haviam
sido escravos no Egito e, quando assumiram o poder, submeteram os cananeus
ao mesmo trabalho forçado que sofreram no passado. Se nossos ideais ajudam a
formar nosso caráter, mais reveladoras ainda são as nossas ações. Ao agir como
cananeus, nós nos transformamos em cananeus? Profissões de fé e recitações
públicas de crença nos ajudam a parecer uma pessoa religiosa, mas são nossas
ações que verdadeiramente definem quem somos e no que acreditamos.
3. Quando os israelitas se tornaram poderosos o suficiente para esmagar
seus vizinhos, usaram-nos como trabalhadores forçados. O que eles haviam
62
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

sido no Egito era agora imposto por eles mesmos aos cananeus. Deus ordenara
a Israel que destruísse os povos daquela terra, que não se misturasse com eles
nem se tornassem como eles. O comando, no entanto, tinha a possibilidade
de ser modificado, e era possível que os israelitas aceitassem outros em sua co­
munidade se, como Raabe (Js 2.8-14), eles estivessem dispostos a reconher o
Senhor como seu Deus e a declarar a paz com os israelitas (Js 11.19) (Stone,
1991, p. 25-36). Porém, em vez de incorporá-los à comunidade do concerto,
Israel os explorou, não conseguiu resistir ao emprego de um recurso tão valioso
em proveito próprio. A vantagem econômica prevaleceu sobre a obediência
a Deus. A exploração de outros povos para ganhos materiais é uma injustiça
recorrente na história, algo comum até mesmo nas sociedades atuais. Somos
conduzidos não apenas pelo desejo de segurança econômica, mas também pela
ganância predatória por mais e mais. Como diz o apóstolo Paulo, isso é idolatria
(Cl 3.5). A produção econômica deve estar sob o juízo de Deus, que exige uma
comunidade capaz de manter a justiça material, sobretudo para quem está em
circunstâncias vulneráveis (Is 1.17; Am 5.11,12; Mq 2.1-3).

B. A provação de Israel (2.6—3.6)

POR TRÁS DO TEXTO


Em 2.6, o leitor é levado de volta ao momento em que Josué despacha
Israel após a convocação em Siquém (Js 24.28). A edição mais antiga do livro,
compilada pelo historiador deuteronômico (Dtr), começa nesse ponto. A pri­
meira seção (2.6-10) funciona como uma transição entre a época de Josué e a
geração seguinte. O trecho de Js 24.28-31 é citado quase exatamente. Uma das
mudanças é o fato do v. 31, o último, ser deslocado para o segundo versículo, Jz
2.7. Esse deslocamento enfatiza a obediência da geração de anciãos e reforça o
contraste com a infidelidade da geração seguinte.
Com a adição posterior de 1.1—2.5, contudo, ocorre uma transformação
no contexto dessa passagem. Em Js 24, os israelitas estão em Siquém. Em Jz
2.1-5, estão em Boquim, ou seja, Betei, o lugar do santuário construído poste­
riormente por Jeroboão (1 Rs 12.29— 13.34). Lendo o texto (Jz 2.1-10) como
estabelecido hoje (ou seja, na versão canônica), somos alertados para a cilada
que Betei se tornou para o reino de Israel ao norte. Se, por um lado, Judá
continuou a ser regida pela casa de Davi, os israelitas ao norte viveram uma
tumultuada sucessão de nove diferentes dinastias, dentre as quais, segundo

63
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

0 Dtr, nenhuma permaneceu fiel a Deus e ao Seu concerto. Sweeney obser­


va que: “A narrativa assim contribui com a polêmica judaica/davídica, pois
Boquim/Betel tornou-se o lugar associado à ‘prova’ ou punição dada por
YHW H ao povo” (1997, p. 522).
Os versículos 10-20 introduzem o ciclo de pecado, opressão, clamor
a Deus e livramento, ciclo esse que estrutura as narrativas dos juizes. As
histórias não são estritamente cíclicas, cada uma delas contém variações,
sobretudo as últimas, que vão se tornando cada vez mais extensas. Também
há uma progressiva decadência. Os israelitas continuam a desobedecer a
Deus, adorando os deuses dos povos vizinhos e, com isso, quebrando o con­
certo firmado no Sinai. O que unia as tribos não eram os laços de família
ou solidariedade cultural, mas o concerto com o Senhor. A medida que os
israelitas se tornavam mais e mais devotados a outros deuses, seus vínculos
comunitários se enfraqueciam, e a comunidade se tornava mais e mais fra­
turada. Não por acaso, ao final do livro, as tribos se voltam umas contra as
outras em guerras fratricidas.
O capítulo termina (v. 21-23) com a decisão divina de não expulsar os
povos vizinhos aos israelitas. Eles se tornariam uma provação, pela qual o Se­
nhor saberia se Israel permaneceria ou não fiel ao caminho que Ele lhe dera. A
última palavra dessa seção é o nome de Josué, a segunda palavra no versículo 6.
As referências ao sucessor de Moisés contextualizam e enquadram a narrativa,
surgindo no começo e no fim.
Essa seção termina com uma declaração sumária a respeito dos propósitos
do Senhor (3.1-6). Ela contém uma lista dupla, explicitando os povos deixados
por Deus na terra e também os objetivos que Ele tinha ao não expulsá-los. Esse
material pode ser oriundo de duas fontes combinadas pelo editor. O Senhor
permitiu aos cananeus permanecerem na região para que a próxima geração
israelita aprendesse a arte da guerra (v. 1,2) e também provasse sua fé nos man­
damentos dados por Moisés (v. 4). O povo de Israel não obedecería ao concer­
to (Ex 34.15,16), mas entraria em matrimônio com os outros povos e adoraria
seus deuses. Tal como Jz 1.1—2.5 conclui com o fracasso em terminar a con­
quista, do mesmo modo 2.6—3.6 termina com a falha em cumprir o concerto.

NO TEXTO

1. A morte de Josué (2.6-10)


1 6-10 Quando Josué despachou os israelitas, eles partiram para ocupar
cada um a sua herança (v. 6). O povo estava comprometido com a conquista, e
64
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

fazia aquilo que o Senhor ordenava. O versículo 7 começa dizendo: e o povo


serviu ao Senhor. O verbo “servir” ( abad) aparece cinco vezes nessa seção
(2.7,11,13,19 e 3.6) com um papel fundamental. Ele traça as afinidades reli­
giosas do povo. Servir a um mestre / deus significa cumprir seus mandamentos.
Nov. 11, eles servem aos baalins, nov. 13, Baal e Astarote, no 19, outros deuses,
em 3.6, os deuses dos povos com quem se casaram. Se a geração dos anciãos que
se estendeu para além da morte de Josué permaneceu fiel, o mesmo não pode
ser dito da geração seguinte.
Outra mudança sutil de 2.7 afirma que os anciãos daquela geração con­
temporânea à morte de Josué tinham visto todos os grandesfeitos do Senhor.
Js 24.31 afirma que eles conheciam todos osfeito s do Senhor. Testemunhar
um acontecimento significa vivê-lo. Conhecer algo ou alguém pode significar
a posse de um conhecimento ou a entrada em um relacionamento, tal como
ocorre em Gn 4.1: Adão conheceu sua esposa Eva e ela concebeu. As duas fra­
ses enfatizam que a geração da conquista estava comprometida com a vontade
de Deus, pois ela tinha vivido a Sua graça, bem como o Seu poder, e estava
inteiramente confiante de que Ele a ajudaria a vencer. A morte e o enterro de
Josué são descritos nos v. 8-10a.
Josué morreu com 110 anos, pouco menos do que os 120 vividos por
Moisés. Ele recebeu o título de servo do Senhor (v. 8), tal como Moisés antes
dele (Js 1.1,2). O título e a idade simbolizam o quanto ele esteve próximo
do seu antecessor, não apenas por ter sido o líder israelita subsequente, mas
também na fé dedicada ao Senhor; próximo, mas não igual. Outros na histó­
ria de Israel (David, Ezequias, Josias, Jeremias e Isaías) foram celebrados por
sua integridade e fé, mas nenhum deles atingiu maior consideração do que
Moisés. Josué foi enterrado (Jz 2.9) dentro dos limites de sua herança, uma
indicação de que ele pessoalmente cumprira satisfatoriamente as ordens de
Deus para a conquista.
O versículo 10 descreve a transição para a geração seguinte. A geração fiel
fo i reunida aos seus p ais (v. 10). Não se trata apenas de um eufemismo para a
morte. E isso, mas também se refere ao costume fúnebre de esculpir em calcá­
rio fino uma câmara funerária onde os membros da família eram sepultados.
Muitas gerações eram frequentemente enterradas na mesma câmara. O final
desse versículo afirma que a geração seguinte não conheceu o Senhor e as obras
que Elefez p or Israel (v. 10). Tal geração não ignorava as obras de livramento
realizadas por Deus, o problema era que, diferentemente de seus pais, ela se re­
cusou a aprender com a geração anterior e a reconhecer a soberania do Senhor
(Stone, 1992, p. 333).
65
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

2. A próxima geração (2.11-19)


H 11-19 Essa seção expõe um prelúdio do ciclo de pecado, opressão, clamor
a Deus e promoção de um libertador, ciclo que ocupa a maior parte do livro.
Nenhum inimigo específico é mencionado, nenhum juiz é nomeado, trata-se
mais de uma explanação teológica do que de uma narrativa histórica. Ela in­
forma ao leitor qual será o padrão dos eventos que se desenrolarão nas páginas
seguintes. Essa não será uma história de fidelidade e vitória, mas de busca por
outros deuses que levam ao fracasso político e espiritual. Contudo, o Senhor
não abandonará Seu povo, Ele graciosamente ouvirá os clamores de Israel e lhe
responderá fazendo surgir os juizes.
A linha de abertura observa que os israelitas fizeram o m al aos olhos do
Senhor (v. 11). Ao final do livro, a frase cada pessoafez o que parecia certo aos
seus próprios olhos aparece duas vezes (17.6; 21.25). Ela indica que os israelitas
rejeitaram os padrões estabelecidos pelo Senhor, determinando o que era certo
ou errado conforme seus próprios desejos (Dt 12.8). O tema da determinação
individual do que é mal ou certo é estabelecido no início do livro. Os próprios is­
raelitas haviam firmado o padrão do que é certo ou errado, não Deus (Schneider,
2000, p. 31). O mal específico mencionado é o de servir aos baalins, as diversas
manifestações locais do deus cananeu da chuva, Baal Hadade.
Os israelitas abandonaram ou se esqueceram do Senhor (Jz 2.12), no sen­
tido de que também passaram a adorar o deus dos povos vizinhos. O polite-
ísmo não é uma religião exclusiva, ela abre espaço para muitas divindades. O
concerto feito entre Israel e o Senhor, contudo, era exclusivo. O politeísmo
permitia a adoração dos vários deuses e do Senhor junto com eles. Mas, Deus
se recusava a ser adorado ao lado de outras divindades. O Senhor era o Deus
de seus p ais [dos israelitas], que os retirara d a terra do Egito (v. 12). Ele ga­
rantira Sua soberania com base no ato da redenção. E entrara em uma relação
exclusiva com o povo por tê-lo libertado da escravidão. Ao adorar outros deu­
ses, Israel enfureceu o Senhor (v. 12). Ele se irou porque os israelitas serviam
B aaleA staro te (forma plural) (v. 13). Baal Hadade era um deus extremamen­
te importante para os cananeus, pois era a divindade da chuva, responsável por
trazê-la no tempo certo do ano e, assim, permitir que eles tivessem colheitas
frutíferas. Astarote, ou melhor dizendo, Aserá, era uma consorte de Baal, pro­
vavelmente idêntica à deusa mesopotâmica Ishtar. A vocalização do nome em
hebraico foi confundida com a palavra que significa vergonha, bõset-, as vogais
sendo inseridas no nome para que o leitor compreenda que se trata de algo
vergonhoso. O nome dela usualmente aparece na forma plural, como nesse
versículo (Day, 1997, ABD-CD).
66
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Por que Israel adorava outros deuses?


Por que os israelitas continuaram a transgredir o concerto e a adorar
outros deuses? O que tornava tais divindades tão atraentes? Para respon­
der a essas perguntas, temos de ver o mundo com os olhos dos povos
antigos. Em primeiro lugar, a noção comum de causa e efeito que conduz
nosso mundo moderno não existia. Quem a declarou pela primeira vez foi
o filósofo grego Aristóteles, no quinto século a.C. Certamente, os aconte­
cimentos se davam naquela época do mesmo modo que agora, m as as
pessoas não os explicavam como nós o fazemos. Em vez disso, os povos
antigos acreditavam que as coisas ocorriam porque um Deus as causara.
O sol nascia porque o deus do sol o fazia nascer. A chuva era causada pelo
deus da chuva, eventos maléficos surgiam porque alguém havia irritado
algum deus, ou um deus / demônio era responsável por eles. Dado que
o mundo exibia muitas forças, as pessoas eram politeístas, adoravam a
muitos deuses. Isso era considerado normal. A questão, então, era: que
tipo de deuses você cultua? Israel identificava o Senhor como o Deus po­
deroso que a libertara do Egito e suprira suas necessidades no deserto.
Ele poderia ser chamado para livrá-la da opressão. Mas, será que Ele po-
deria produzir a chuva e fazer a colheita crescer? Cam poneses dependem
da terra que cultivam para alim entar suas famílias: estiagem , dilúvio, ga­
fanhotos - tudo isso levava à fome. Por isso, a questão do tipo de divinda­
de cultuada era importante. Os vizinhos de Israel acreditavam que Baal
Hadade era responsável pela chuva e que Astarote trazia fertilidade. Era
algo grave não adorar o deus ou os deuses corretos. Se alguém insultasse
algum a divindade, então o deus enfurecido arruinaria a colheita e o povo,
especialm ente as crianças, que morreriam de fome. O desafio de Elias
contra os profetas de Baal no monte Carmelo ocorreu após três anos de
seca (1 Rs 18). O dilema era: quem fazia a chuva, o Senhor ou Baal? Aque­
le que respondeu com fogo (trovão) era o verdadeiro deus. É fácil sentar
confortavelmente em uma decoração moderna e im aginar por que Israel
não confiou no Senhor. É mais difícil quando as vidas da sua família estão
em jogo e os vizinhos nos encorajam a adorar seus deuses e a adotá-los
como aqueles que satisfarão nossas necessidades.

Foi o Senhor quem trouxe a vitória aos israelitas na batalha contra os ca-
naneus. Quando Israel enfureceu o Senhor por adorar outros deuses, Ele então
os entregou nas mãos de seus opressores (...) e vendeu-os p ara as mãos de seus
inim igos (v. 14). A dupla afirmação acrescenta ênfase. A expressão “entregar
nas mãos” significa livrá-los ao poder ou controle de outro. “Vendê-los” refere -
-se à escravidão. As tribos se afastaram do Senhor para servir a outros deuses.
67
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Em resposta, o Deus que os libertou da escravidão no Egito os venderia para es­


cravistas opressores. Quando eles saíram para a guerra, a mão do Senhor estava
contra eles p ara o m al (v. 15). As maldições de Dt 28.15-68 desenham grafica­
mente essas maldades que se abateríam sobre Israel caso ela desobedecesse ao
concerto. Jz 2.15 afirma explicitamente que Deus faria com que os israelitas
perdessem na guerra.
Contudo, o Senhor não abandonou Seu povo. Graciosamente, Ele esco­
lheu juizes para salvá-los (v. 16). A motivação para Deus agir e salvar Israel
era a misericórdia que Ele sentia pela opressão instigada contra eles (v. 18). A
palavra para gemidos (n ãqâ ) também aparece em Êx 2.24 e 6.5, versículos nos
quais Deus ouve o gemido de Seu povo, que, então, sofria no Egito. Jz 2.17 traz,
assim, uma inserção posterior que amplifica o pecado do povo. Mesmo quando
Deus ergueu os juizes, eles não escutaram , poisforam se p ro stitu ir após outros
deuses e adorá-los (v. 17). A palavra “prostituir” (zãn â ) tem forte conotação
sexual, refere-se a relações ilícitas. Novamente, essa geração é comparada des­
favoravelmente aos seus antepassados, a geração fiel que obedeceu aos manda­
mentos de Deus. Em seguida, a seção se encerra com uma enfática descrição da
infidelidade dos israelitas. Depois que o juiz morria, eles avidamente retorna­
vam à adoração dos outros deuses. Não aprendiam nada com as experiências
anteriores de opressão e com os períodos em que o Senhor lhes provia cuidado
e tranquilidade. Em vez disso, em sua obstinação, escolhiam servir a falsas di­
vindades, violando, assim, o concerto.

3. A decisão do Senhor (2.20-23)


I 20-23 Esses versículos resumem a mensagem do capítulo. Josué e os an­
ciões daquela geração são exonerados por terem deixado os cananeus na terra.
A culpa recai sobre a próxima geração, que falha em obedecer ao concerto. O
próprio Senhor declara a sentença (v. 20b,21) e, em seguida, o narrador explica
os motivos de Deus (v. 22). A última palavra do versículo 23 é o nome de Josué,
que liga esse trecho não apenas a 2.6, no qual o sucessor de Moisés despacha os
israelitas da reunião em Boquim, mas também a 1.1, que começa com o anún­
cio de sua morte.
O Senhor estava irado com Israel (2.20) por causa de sua obstinada reso­
lução em servir a outros deuses (v. 19). A expressão “ficar irado” literalmente se
lê: A ira do Senhor tornou-se m ais quente.

68
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Um Deus irado
O ato de irar-se é uma expressão técnica relativa ao concerto, usada
para descrever a reação seja do suserano seja do vassalo quando a outra
parte viola o tratado / concerto. No tratado entre Mursilis e Duppi-Tessub,
o primeiro afirma: "Aziras (pai de Duppi-Tessub) foi leal ao meu pai [que
era o suserano] e não incitou a ira dele; ele não realizou nenhuma ação
injusta contra ele ou incitou a ira de seu país de modo nenhum" (Goetze,
ANET [Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament], 1969, p.
203). Embora o suserano ou vassalo pudesse viver pessoalmente a emo­
ção da ira, esse termo só era usado em um contexto político, para indicar
uma reação objetiva à violação do concerto. Essa reação, a não ser que a
parte culpada parasse de violar o acordo, levaria às m aldições previstas
no concerto e à guerra entre os dois lados. Intérpretes modernos não de­
vem fazer uma avaliação psicológica sobre como o Senhor se sentiu em
relação ao fato de os israelitas terem adorado outros deuses. O ato de se
irar era uma resposta política e teológica à desobediência de Israel. Se
eles não se arrependessem, o Senhor agiria de acordo com o previsto no
concerto e invocaria as maldições. Nesse caso específico, isso significava
permitir que os inimigos dos israelitas os derrotassem e os oprimissem.

Uma vez que os israelitas transgrediram o concerto, Deus não continua­


r ia a expulsar as nações que Josué deixou quando m orreu (v. 21). O que era
uma falha para Israel se tornava uma oportunidade para Deus. Essas nações
seriam um meio de provar a fidelidade de Israel, ver se eles iriam ou não seguir
os mandamentos do Senhor (v. 22). A sentença divina não decidia destruir,
mas assegurar os meios de uma provação mais abrangente, capaz de avaliar se
os israelitas aprenderíam ou não com suas experiências. O último versículo
(v. 23) indica que tal decisão fora tomada antes mesmo de Josué morrer, dado
que Deus não entregara aqueles povos nas mãos do sucessor de Moisés, para
que ele pudesse expulsá-los apressadamente. O sucesso não fora, no fim das
contas, determinado pelo tamanho dos exércitos ou pela superioridade da
tecnologia bélica, mas pela obediência à vontade do Senhor, tal como expres­
sa no concerto.

4. Razões para que as nações permanecessem (3.1-6)


■ 1-6 Essa passagem conclui a dupla introdução ao livro. A situação dos
israelitas é abertamente reconhecida. A conquista não livrou a terra de seus
69
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

antigos habitantes (v. 1), e Israel precisa agora ajustar suas expectativas à re­
alidade de que eles permanecerão. Viver próximo de outros grupos étnicos,
todos competindo pelo controle do espaço limitado e dos recursos dispo­
níveis, implicava ter uma vida atravessada por conflitos contínuos e, para
sobreviver, Israel precisava preparar as gerações futuras na arte da guerra (v.
2). Por meio dessas nações restantes, o Senhor poderia provar (nassôt; tam­
bém 2.22 e 3.4) Israel, fazendo com que Seu povo conhecesse a guerra por
experiência direta.
A primeira lista de povos (v. 3) começa com os cinco regentes filiteus. A
palavra seren é usada apenas nesse caso e pode ser traduzida por “senhores” ou
“tiranos” (BDB [Hebrew and English Lexicon of the Old Testament\, p. 710).
O que ela significa depende da perspectiva adotada. Os filisteus consideravam
seus líderes como senhores que os governavam e protegiam. Os israelitas os
tomavam como tiranos, que os exploravam. A nação filisteia era parte de uma
migração oriunda da região do Egeu, que tomou as cidades de Gaza, Ascalom,
Ecrom, Asdode e Gate no início do século 12. O objetivo dela era o mesmo de
Israel, governar as terras de Canaã. Por isso, foram uma ameaça militar cons­
tante até a época do rei Davi (2 Sm 5.17-25). A expressão todos os cananeus
(Jz 3.3) é, portanto, um termo abrangente, que se refere a todos os povos na
área que vai da Galileia, no norte, ao Neguebe, no sul. Os sidônios e hititas se
localizavam mais ao norte, na região do atual Líbano e além.
Os povos restantes também forneceram ao Senhor uma oportunidade de
testar os israelitas, se obedeceríam aos m andam entos do Senhor (v. 4). A lista
de seis nações (v. 5) varia daquela fornecida em Dt 7.1 apenas pela omissão dos
girgaseus. Em vez de obedecer, os israelitas casaram-se com os outros povos e
adoraram seus deuses (Jz 3.6).

A PARTIR DO TEXTO
1. Ê difícil reconciliar a imagem de um Deus furioso com a de um Pai
celestial amoroso. Um Deus enfurecido não é popular nos dias de hoje. Gosta­
mos de escutar mensagens sobre o amor, a compaixão e a graça do Pai; histórias
sobre um Deus manso nos confortam. Se Ele não nos pede nada, então que
vivamos tal como preferimos, e se, no final de nossa vida, Ele diz “Eu perdoo”,
então Ele merece adoração ? Se Deus é só um velhinho alegre que não significa
nada, então por que se importar com Ele ?
O livro de Juizes não retrata Deus como alguém cruel, mas como al­
guém sensível. De todas as nações do mundo, Ele escolhera Israel para en­

70
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

trar em um relacionamento de aliança. Ele se comprometera a livrá-los da


escravidão, alimentá-los no deserto, e a levá-los até a terra. Os israelitas de­
viam demonstrar fé em Deus, adorando-o de modo exclusivo, e obedecendo
aos Seus mandamentos. Quando se voltaram para outros deuses, eles traí­
ram seu relacionamento com o Senhor. Em resposta, Ele não mais protegeu
Israel, tal como prometera, mas entregou-a nas mãos de seus opressores. As
ações de Deus eram justas e íntegras de acordo com o concerto. Contudo, o
Senhor não poderia dar as costas ao Seu povo sofredor. Ele levantou juizes
para salvá-los. E esse era um ato de misericórdia e graça, o braço estendido
aos desamparados, que não tinham nada para oferecer em troca.
Vemos essa mesma fúria, bem como essa mesma sensibilidade em Jesus,
que pronunciou infortúnios para as cidades que rejeitaram Sua palavra (Mt
11.21) e para os escribas e fariseus (Mt 23.13-36). Em Mc 3.5, Ele fica enfureci­
do e entristecido diante da dureza do coração das pessoas. Jesus, no Apocalipse,
é o Cordeiro que abrirá os selos e liberará devastações horríveis sobre a terra
(Ap 6.1-17). Contudo, Ele é o Cordeiro, aquele que enfrentou o sofrimento e
a morte para prover a salvação.
Deus nos chama a ser parte de Seu povo e graciosamente nos livra de nossa
servidão ao pecado. Em troca, Ele pede nossa obediência fiel e que abandone­
mos todos os deuses antigos e modernos que nos seduzem. Esses nos chamam
não para a liberdade, mas para a escravidão. Ainda que Deus nos previna con­
tra eles, Ele não nos impede de ouvir esses falsos deuses, ou mesmo de esquecê-
-lo em benefício deles. Porém, mesmo quando nos encontramos enredados e
capturados, se clamarmos a Deus, Ele nos ouvirá e terá compaixão. Nenhum
falso deus é tão poderoso a ponto de impedir que o Deus e Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo nos liberte e restaure.
2. E a geração seguinte ? Como uma geração pode transmitir sua fé e suas
práticas à próxima geração ? Os homens e mulheres contemporâneos à conquista
haviam testemunhado os poderosos feitos de Deus, mas seus filhos haviam ape­
nas ouvido falar sobre eles. Os mais velhos haviam aprendido a arte da guerra,
mas os mais novos precisavam de treinamento. A geração de anciãos permane­
cera fiel ao Senhor, mas não os seus descendentes. Como uma geração comunica
aos seus sucessores a realidade de sua fé, aquilo que deu forma a seus valores,
crenças e práticas ? A resposta fácil é: com a fixação de padrões de comportamen­
to, “faça isso, não faça aquilo”. Os rituais de adoração podem ser normalizados,
crenças podem ser escritas. E as ações e respostas podem ser monitoradas, asse­
gurando a conformidade desejada. Entretanto, seguir regras não é o suficiente. A
geração seguinte tinha de ser cativada pela realidade por trás das regras.

71
JUfZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

O que deve ser comunicado não são apenas as formas, mas a verdade da fé,
a escuta do chamado de Deus e a resposta em fé e obediência. Nós nos deba­
temos com essa tarefa, mas ela não é feitio nosso. Precisamos confiar na fideli­
dade do Senhor que chama. Podemos ensinar e testemunhar sobre Deus, mas
apenas quando o Espírito do Senhor confronta, acusa e transforma é que uma
pessoa encontra a essência da fé. Não podemos controlar a resposta da próxima
geração, nossos filhos serão responsáveis por suas próprias decisões. Aqueles
que optam por sair do treinamento da infância para seguir seus próprios dese­
jos caem sob a ira de Deus, a severa misericórdia do Senhor que sempre bus­
ca chamá-los ao arrependimento e à restauração. Talvez, ainda no seu tempo,
Deus levante um “juiz” para trazer-lhes a salvação.

72
II. TRIUNFO MILITAR: A DEGENERAÇÃO ESPIRITUAL
(3.7-16.31)

PANORAMA

A maior parte do livro contém as histórias dos diferentes juizes, começan­


do com a de Otoniel e terminando com a de Sansáo. A medida que a narrati­
va progride, mais detalhes sobre o juiz específico são incluídos. A história de
Otoniel é contada em cinco versículos e traz pouquíssimos detalhes sobre sua
vida familiar e pessoal. A história de Sansáo é contada em quatro capítulos. Co­
meça com seu nascimento, traça suas façanhas nos campos de batalha e conclui
com sua morte. Conforme o livro se desenvolve, também vai ficando patente
a decadente espiral de desintegração social e espiritual na qual os israelitas en­
tram. Otoniel representa o modelo de juiz, pois recebe poder do espírito do
Senhor e lidera Israel à vitória, levando a nação a um período de tranquilidade.
Eúde e, depois dele, Débora e Baraque também trazem vitória com a ajuda de
Deus. Gideão é um ponto de transição, pois evita o conflito com Efraim diplo­
maticamente e, em seguida, refeita a coroa de rei que lhe oferecem. Contudo,
posteriormente, ele manda fazer um éfode que traz Israel de volta à apostasia
religiosa. Jefté vence não apenas os amonitas, mas também a tribo de Efraim,
quando 42 mil foram chacinados durante uma guerra entre tribos. O último
juiz, Sansão, quebra todos os votos nazireus com os quais estava comprome­
tido, apenas “começa” a libertar Israel (13.5) e não leva a nação até um tempo
de paz. Espalhadas entre as narrativas desses juizes “maiores”, leem-se histórias
curtas de juizes menores, nenhum deles sendo responsável por conduzir o povo
de Deus até um tempo de tranquilidade ou de paz.
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

O comentário examinará as breves narrativas (3.7-31) dos três primeiros ju­


izes - Otoniel, Eúde e Sangar - em uma única seção, e depois passará por cada
um dos juizes maiores em sucessão. As narrativas dos outros cinco juizes menores
serão abordadas conforme surgirem, no começo e no fim da narrativa sobre Jefté.

A. Otoniel, Eúde e Sangar (3.7-31)

POR TRÁS DO TEXTO


O primeiro dos juizes foi Otoniel, da tribo de Judá, o segundo foi Eúde, de
Benjamim. Como já observado, o livro dá destaque à tribo de Judá, que liderou
as tribos na conquista (1.2) e na guerra contra os benjamitas (20.18). Judá fora
capaz de tomar e queimar a cidade de Jerusalém (1.8), ao passo que Benjamim
não pudera expulsar os jebuseus que viviam na mesma cidade (1.21). Otoniel é
descrito como o juiz ideal, que recebe o poder do Espirito para libertar Israel. O
segundo juiz, Eúde de Benjamim, também foi bem-sucedido na libertação dos is­
raelitas e na conquista de um extenso período de paz. A narrativa contém mais
detalhes e é marcada por elementos de um humor bem mundano. Uma longa tra­
dição oral formatara a história. Antigos bardos e contadores de história deliciavam
suas audiências com as narrativas de um herói improvável, que furtivamente assas­
sinara um rei malvado e reagrupara diversos guerreiros rumo a uma grande vitória.
Em um único versículo, as façanhas de Sangar, o primeiro dos juizes “menores”,
é contada. Sua história parece deslocada, uma vez que as narrativas mais curtas
contextualizam a passagem dedicada a Jefté. Essa localização é decorrente do fato
de Sangar ser mencionado na canção de Débora (5.6) e, se o nome dele aparece
naquele versículo, faz sentido que sua história seja contada antes das proezas de
Débora e Baraque.

NO TEX TO

1. Otoniel (3.7-11)
H 7 - 1 1 Otoniel já fora introduzido no livro como o sobrinho de Calebe, filho
de seu irmão mais novo, Quenaz (1.12-15). A seção anterior (3.1 -6) se encerrou
com a afirmação de que os israelitas transgrediram o concerto casando-se com
os antigos habitantes da terra. Porém, o leitor sabe que Otoniel casou-se, em
conformidade às regras mosaicas, com Acsa, filha de Calebe. Ele serve como
74
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

modelo para o que um juiz deve ser, inclusive no que diz respeito à sua herança
e vida familiar (Schneider, 2000, p. 37).
Essa seção começa (v. 7) com uma sentença em três partes, que condena os
israelitas por terem feito a coisa m á, esquecendo o Senhor e servindo / adoran­
do os baalins e Astarote (plural de Aserá).

A deusa Aserá
Aserá era adorada em quase todas as regiões do oriente médio, mas
a conexão dela com Israel provavelm ente se deu mesmo pelo contato
com os povos cananeus. Docum entos encontrados na cidade cananeia
de Ugarit nos informam que ela era considerada a mãe dos deuses e a
consorte do deus superior El (Day, 1997, ABD-CD). Na religião israeli­
ta, então corrompida pelas influências cananeias, o Senhor substituía El
como criador e principal divindade do panteão (Js 22.21), o que fazia de
Aserá a sua consorte. No livro de Juizes, ela é m encionada apenas nesse
texto e em 6.25,26,28 e 30; sendo que esses últimos versículos a des­
crevem como um objeto ou poste de madeira próximo do altar de Baal.
Gideão cortou-o para usar a madeira como com bustível para queim ar
o sacrifício feito no altar dedicado ao Senhor. A m aior parte das outras
referências a Aserá no AT a retratam como um ídolo ou poste de m adei­
ra, ou uma árvore. O objeto de m adeira era representativo da deusa,
ou seja, na mente de seus devotos, ele representava a própria deusa
(Binger, 1997, p. 141).

A coisa m á provavelmente se refere às ações dos israelitas descritas no


versículo precedente - o casamento com os outros povos da terra, elemento
que os levava a adorar outros deuses. A reação do Senhor foi impor so­
bre Israel as maldições previstas no concerto. E le os vendeu n as mãos de
C uchã-R isataim d a M esopotâm ia (v. 8). Em outras palavras, Deus os de­
volveu à escravidão, e o mestre dos escravos era agora esse Cuchã-Risataim
ou “Cuchã de dupla maldade”, provavelmente um apelido dado pelos israe­
litas para exprimir seu ódio. Ele não foi identificado com nenhuma pessoa
na história.
Depois de oito anos de servidão, os israelitas clamaram (z ã‘ aq) ao Se­
nhor. E o Senhor levantou um salvad o r p ara osfilhos de Israel, e O toniel os
salvou (v. 9).

75
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Clamando a Deus
O verbo zã‘ aq significa "clam ar", no sentido de invocar ajuda. Ele
aparece no contexto político-militar para realizar o chamado que reúne as
carruagens e tropas para o combate (4.10,13; 6.34,35; 12.2). Na esfera
religiosa, ele denota um pedido desesperado de ajuda a Deus. Na litera­
tura da antiga mesopotâmia, o clam or dos oprimidos despertava o deus
solar, Utu (Sham ash), o guardião da justiça e defensor dos mais pobres.
Tratava-se de um forte apelo ao deus quando não havia mais possibili­
dade de obter justiça das instituições humanas. O clamor desesperado
não continha um tom de arrependimento ou remorso pelo pecado e pela
transgressão; em vez disso, o clam or levava a termo a resposta que o
deus tinha para punir o opressor. A justiça fora negada, e o fundamento
da existência ordenada estava ameaçado. Utu era levado a responder
enviando um libertador a fim de trazer justiça e, desse modo, manter a
ordem da criação.
Quando fora oprimida no Egito, Israel clamou a Deus contra o pesado
jugo da escravidão (Êx 2.23). O Senhor foi levado a se lembrar de Seu con­
certo com os patriarcas e a levantar Moisés para libertá-los. Em Juizes, o
povo clama ao Senhor no terceiro momento do ciclo de pecado, opressão,
clamor e surgimento do salvador / libertador (3.9,15; 6.6,7; 10.10). Exe-
getas mais antigos combinaram um ato de arrependimento com o clamor
que levava o Senhor a responder em piedade e a salvá-los. Mas, isso é in­
correto. Deus respondia promovendo a libertação devido ao desespero do
clamor. Embora possa ser dito que os israelitas mereciam sua punição, já
que haviam quebrado o concerto, ainda assim o Senhor não deixou o cla­
mor deles sem resposta. Como guardião da justiça, Ele estava livre para
responder como quisesse. Ele poderia ou não fazer surgir um salvador. O
clamor não o obrigava a responder. Nesse sentido, Deus era diferente das
divindades m esopotâm icas (Stone, 1987, p. 311-326).

Os israelitas clamaram ao Senhor quando estavam escravizados no


Egito (Êx 2.23), e Ele lhes deu Moisés como seu libertador. A palavra não
diz que Israel se arrependeu de seus pecados, apenas que, em desespero, ela
buscou alívio no Senhor, o Deus poderoso que tinha poder para libertá-la das
mãos de seus opressores. No tempo de Gideão, quando as tribos estavam sendo
esmagadas pelos moabitas, os israelitas também clamaram a Deus por alívio.
Em resposta, o Senhor enviou um profeta para avisá-los de que não haviam se
arrependido, nem se afastado da adoração de outros deuses (6.6-10). A paciên­

76
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

cia de Deus estava exaurindo-se. Quando Israel foi oprimida pelos amonitas,
e novamente clamou ao Senhor, Ele rejeitou esse clamor e respondeu que cla­
massem aos seus outros deuses pela libertação desejada (10.10-16). Nenhum
libertador foi promovido pelo Senhor, os líderes israelitas tiveram de encon­
trar o seu próprio comandamente, Jefté, para que ele lutasse contra os amoni­
tas (10.17—11.11). Deus não havia abandonado Israel, mas Sua paciência se
esgotara. A ordem estável fundada pelo concerto havia sido desfeita.
Otoniel recebeu poder do espírito do Senhor (v. 10). Estudos posterio­
res verão aqui o Espírito Santo, que é mais amplamente revelado no NT. Mas,
o espírito em ação nesse trecho deve ser entendido como o poder de capaci­
tação dado ocasionalmente por Deus aos Seus servos. Seria um erro atribuir
qualquer aspecto redentor à obra desse espírito. Ele também veio sobre Jefté,
que fez e cumpriu um voto tolo e também entrou em uma guerra sangrenta
contra Efraim (11.29—12.6). Mais referências são feitas ao espírito que dá
poder a Sansão do que a qualquer outro juiz. E embora obtenha vitórias com
esse poder, Sansão é aquele que quebra todos os seus votos. Sua força era es­
banjada à medida que ele conduzia uma vida não obediente ao Deus que o
fortalecia.
Como resultado pela vitória de Otoniel, a terra teve descanso (v. 11) ou
se tornou pacífica e estável por quarenta anos, o tempo de uma geração. A nar­
rativa se encerra com a notícia da morte de Otoniel.

2. Eúde (3.12-30)
H 1 2 - 3 0 A história de Eúde e Eglom teve origem como uma narrativa fol­
clórica contada entre os clãs. Ela fala da aventura de um herói improvável que,
usando de astúcias e trapaças, matou um tirano e destronou um regime opres­
sor. Expressões de duplo sentido empregadas tanto para construir tensão quan­
to para deleitar o ouvinte surgem ao longo da história. Se seu registro escrito
foi formatado para se encaixar no contexto deuteronômico, ele ainda assim
reteve seu humor mundano, algo que o diferencia das outras histórias de juizes.
Os principais personagens são Eúde, um benjamita do clã de Gera, e
Eglom, rei de Moabe. O nome do monarca significa “novilho” ou “jovem
touro” e, segundo a descrição fornecida, o rei moabita era muito gordo ou
obeso (v. 17), como um bezerro cevado pronto para o abate. O nome “Ben­
jamim” significa “filho da mão direita”, mas Eúde é descrito como alguém
restrito em sua mão d ireita (v. 15). Em outras palavras, um homem da tribo
da mão direita tinha, de algum modo, a destra afetada. Alguns tomam essa
77
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

frase como uma indicação de que ele era deformado, mas é duvidoso que os
israelitas dessem a uma pessoa com a mão deformada a responsabilidade de
entregar o tributo ao rei. Facções fora da lei poderiam aproveitar a oportuni­
dade para tomar os valiosos itens para si mesmos. A tribo de Benjamim tinha
uma unidade militar feita de guerreiros canhotos ( restritos em suas mãos d i­
reitas') que eram altamente treinados em atirar pedras (20.16). É possível que
alguns homens da tribo benjamita, incluindo o próprio Eúde, amarrassem a
mão direita quando muito jovens para que, assim, desenvolvessem melhor as
habilidades de luta da mão esquerda. Nesse sentido, a LXX estaria correta ao
traduzir o trecho por “ambidestro”. Eúde era um guerreiro habilidoso, capaz
de lutar com as duas mãos.
Há também uma observação sinistra na identificação de Eúde. O modelo
de juiz era Otoniel de Judá e, mantendo a tendência de se deslocar geografica­
mente do sul para o norte, o segundo juiz, Eúde, vinha de Benjamim, especi­
ficamente do clã de Gera. Quando foi forçado ao exílio por seu filho Absalão,
Davi foi amaldiçoado por um membro da casa de Saul, chamado Simei, do clã
de Gera (2 Sm 16.5). Ao identificar Eúde como membro do mesmo clã, o leitor
é novamente lembrado da polêmica entre Davi e Saul, que forma um dos temas
menores do livro.
A história começa afirmando que os Israelitas novamentefizeram o m al
aos olhos do Senhor (3.12). Com a morte de Otoniel, os israelitas novamente
voltaram ao mal de se casarem com os povos nativos que, então, os convenciam
a adorar outros deuses (v. 6). Essa acusação é feita duas vezes nesse versícu­
lo, para enfatizá-la. Israel deveria seguir os padrões de conduta estabelecidos
pelo Senhor, fazer aquilo que é correto aos olhos de Deus. Contudo, a nação
continuou a rejeitar esses padrões até o final do livro, ela firmou as próprias
normas do certo e do errado, fazendo o que achava correto aos seus próprios
olhos (21.25). Eles próprios se tornaram o padrão de certo e errado, no lugar
de Deus. Em resposta, o Senhor endureceu a opressão de Eglom sobre Israel,
as coisas ficaram piores. Tendo estabelecido sua residência na C idade das P al­
m eiras (1.16), Eglom alistou os amonitas e amalequitas para ajudá-lo (3.13).
Geralmente, imagina-se que a Cidade das Palmeiras seja Jericó, mas esse nome
é usado justamente para que ele não seja confundido com a cidade destruída
por Josué (Js 6) e que só seria reconstruída no nono século ( l Rs 16.34). Po­
rém, havia uma cidade naquela mesma região antes, até mesmo Davi sabia de
sua existência (2 Sm 10.5). A região tinha água boa, clima temperado e solo
fértil —condições próprias à construição de uma cidade. E possível que ou­
tro vilarejo existisse na planície fértil ao leste do Jordão. Apenas muito tempo
78
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

depois se veriam novas construções no terreno da antiga Jericó, que ficava em


uma alta colina na fronteira oeste do vale do Jordão, já próxima aos primeiros
montes da região do planalto central.
Sob o comando de Eúde, os israelitas enviaram tributos a Eglom (v.
15), mas Eúde planejava entregar mais do que isso ao rei moabita. Ele fez
uma pequena espada de dois gumes, com aproximadamente um cúbito, ou
45 centímetros de comprimento, e am arro u -a em su a coxa d ire ita , sob
seu m anto (v. 16). Uma pessoa destra colocaria sua espada na coxa esquer­
da e viraria seu corpo para retirá-la da bainha. Por isso, Eúde pôs sua arma
onde a pudesse pegá-la com sua mão esquerda. A localização da espada
também o ajudava a escondê-la dos guardas de Eglom, que certamente se
certificariam de que ele estava desarmado antes de admiti-lo à presença do
rei. Se a espada estivesse na coxa esquerda, os guardas a teriam tomado; é
provável que eles não procurassem sob as vestes do lado direito, onde Eúde
escondera a arma.
Depois de entregar o tributo, Eúde despachou os israelitas que haviam lhe
ajudado a trazer os tribos (v. 18). Em seguida, o juiz voltou dos ídolos que
estavam em G ilgal (v. 19). A palavra muitas vezes traduzida por “pedras”, na
verdade, significa “ídolos”. Ela ocorre novamente no v. 26, formando, assim,
um quadro ou contexto, com um começo e um fim, delimitando essa parte
da história. O que Eúde estava fazendo no lugar onde ficavam tais ídolos ? Sua
desculpa para conversar secretamente com o Eglom era o fato de trazer uma
mensagem de Deus. Talvez ele se aproximara do santuário para dar crédito ao
seu pedido. Ele estivera no lugar sagrado e recebera uma comunicação para o
rei. Como já entregara o tributo, era agora seu dever entregar também a men­
sagem divina.
A história agora dá uma virada obscura (v. 19-25). Quando Eúde volta à
corte, diz a Eglom que tinha uma mensagem secreta para ele (v. 19). A pala­
vra deber pode significar “palavra” ou “coisa”. Eglom esperava que fosse uma
informação secreta, seja de um deus ou talvez de alguma espionagem relativa
a atividades subversivas de Israel. Mas, Eúde tinha algo diferente em mente. O
rei moabita silenciou o israelita e retirou seus auxiliares da sala de audiência,
despachando-os para o pórtico da antessala. Em seguida, ele subiu os degraus
até a sala superior e privativa, onde se sentou no trono. Esse cômodo também
continha uma parte isolada, onde o rei podia aliviar-se. Quando Eúde lhe disse
que sua mensagem era uma p alav ra de Deus (v. 20), o rei moabita se levantou
da cadeira. Rapidamente, Eúde com sua mão esquerda sacou a espada e a cra­
vou na barriga de Eglom, provavelmente furando seu coração. Quão obeso era
79
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

o rei de Moabe ? A narrativa debocha zombeteiramente dele. Ele era tão gordo
que o cabo da espaça afundou na gordura, que a cobriu inteiramente. Em todo
o AT, a última palavra do v. 22 (happarsedonâ) só aparece nesse trecho. Em ge­
ral, ela significa “fezes”. Matthews sugere que o golpe mortal “fez com que seu
esfíncter anal explodisse” e que o cheiro dos dejetos teria feito seus auxiliares
imaginarem que o rei estava aliviando-se (2004, p. 61).
Eúde então saiu. Mas, como? Ele precisaria de tempo para escapar.
O texto usa outra palavra que não tem nenhuma outra ocorrência no AT,
hammisdérônâ. Ela se refere à mencionada área privativa na sala superior,
onde o rei podia fazer suas necessidades. Dado que o lugar era elevado, ele
permitia que os serviçais removessem a sujeira acessando-a por baixo. Eúde
trancou as p o rtas atrá s de si (v. 23) e, em seguida, saiu pelo buraco em di­
reção ao cômodo abaixo. Depois disso, ele caminhou como se nada tivesse
acontecido, e atravessou o pórtico, onde os auxiliares do rei estavam espe­
rando (Halpern, 1988, p. 39). Depois que o israelita saiu, eles encontraram
as portas da sala superior trancadas, e esperaram por achar que o rei estava
ocupado lá dentro (v. 24). A frase diz literalmente que ele estava “cobrindo
seus pés” (A RC). Alguns comentadores mais antigos, como Henry, acredi­
tam que a frase indica o fato de o rei estar descansando e de ter colocado
proteções sobre seus pés. Outros, observando que a mesma expressão é usa­
da a propósito do rei Saul (1 Sm 24.3), compreenderam corretamente que
se trata de um eufemismo para fazer as próprias necessidades (Gunn, 2005,
p. 41). O cheiro das fezes expelidas provavelmente sugeriram aos auxilia­
res que o motivo para as portas trancadas fosse esse. Enquanto esperavam,
Eúde escapava. Depois de um tempo longo e embaraçoso (3.25), eles pega­
ram a chave reserva, abriram a porta e descobriram seu rei morto.
A tarefa estava apenas parcialmente concluída. Com os moabitas sem seu
líder, era o tempo certo para Israel lutar por sua liberdade (v. 27-30). Eúde
convocou as tropas de Efraim (v. 27) tocando uma trombeta de carneiro. Essa
era a primeira de três ocasiões em que os efraimitas iriam à guerra. Além dessa
oportunidade, Gideão e sua diplomacia os aplacaria em seu momento de fúria
e os tornaria aliados em sua causa (8.1-3). Depois disso, eles confrontariam
Jefté e terminariam sendo destruídos (12.1-6). Tomando os vaus ao longo do
Jordão, os israelitas barraram as rotas de fuga dos guerreiros moabitas (v. 28).
Uma última observação bem-humorada é feita: Os israelitas mataram dez m il
homens gordos, cada um deles eraforte, m as nenhum escapou (v. 29). Os ho­
mens das tropas eram como seu rei, obesos. A narrativa termina sem que algo

80
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

seja dito a respeito de Eúde como juiz, apenas com a afirmação de que a terra
teve paz durante oitenta anos (v. 30), ou seja, duas gerações.

3. Sangar (3.31)
I 31 Um único versículo nos conta as façanhas de Sangar. Sozinho, ele foi
capaz de destruir uma unidade militar com 600 filisteus, usando apenas uma
aguilhoada de bois, um longo bastão com uma ponta de metal. O nome dele
não era israelita, talvez hurrita. O epíteto filho de Anate refere-se à deusa
cananeia Anate, a consorte de Baal Hadade, e portanto talvez não seja uma
ligação familiar, mas a designação de uma condição de vida, a vida de um
mercenário (Boling, 1997, ABD-CD). Ele possivelmente era um convertido
à religião israelita, como Urias, o hitita (2 Sm 2.3 ss.). Esse trecho menciona
Sangar como o primeiro dos seis juizes menores, e provavelmente sua história
foi colocada no início por conta de sua menção no canto de Débora (Jz 5.6),
no qual é listado como um contemporâneo de Jael e, assim, também de Bara-
que e de Débora. Era uma época perigosa, em que as caravanas cessavam, e os
viajantes tinham de fazer rotas sinuosas. O versículo termina afirmando que
ele tam bém salvou Israel (v. 31).

A PARTIR DO TEX TO
1. Waldo Beach comenta que as pessoas boje não são menos religiosas do
que os homens e mulheres de épocas passadas, “o que mudou foram os deuses
adorados, seguidos e consultados para dar sentido e direção à vida delas”. Se
nossa religião “oficial” é alguma versão de judaísmo ou variação do cristianis­
mo, o que “comanda a lealdade e a devoção do coração pode ser um dos vários
tipos seculares de fé”. Ele continua e afirma que os “americanos estão pratican­
do o politeísmo, tendo um panteão de muitos deuses” (1979, p. 10). Os deuses
de Israel ganhavam uma forma visível nas imagens que representavam as forças
da natureza que os israelitas desejavam controlar. A oferta de sacrifícios e de
orações era frequentemente tentativa de persuadir os deuses a concederem os
desejos dos adoradores. Nossos deuses podem não ser representados por ma­
deira esculpida ou figuras de pedra, mas ainda temos nossos ídolos de poder,
riqueza e prazer, nos quais confiamos a provisão do sentido para a vida. Esta­
mos presos em uma busca incessante por mais, mais posses, mais dinheiro, mais
poder, mais autoindulgência. No centro dessa busca está o ego, a ordenação de
todas as coisas de modo que eu possa estar no controle. Em análise final, quero
ser meu próprio deus.
81
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

O Senhor exige a lealdade exclusiva de Israel. Ele não toleraria uma fi­
delidade dividida. Jesus não é menos exigente. Ele requer de Seus discípulos
obediência até a morte. O Espírito Santo nos chama a abandonar todas as
outras lealdades, em entrega total a Deus. O caminho para o comprometi­
mento total geralmente não é fácil, pois o Espírito deve mergulhar fundo
dentro de nossa personalidade, buscar e trazer à consciência os ídolos secretos
nos quais nos agarramos. Isso não é algo que se faz com pressa e uns poucos
minutos de oração, trata-se de uma ação que pode tomar dias ou meses de
busca contínua, sondando e reconhecendo. Podemos, entretanto, confiar no
Espírito para realizar essa obra fielmente, pois Ele é um caçador aplicado que
purga os falsos deuses e traz purificação plena. E vontade dele nos trazer ao
ponto em que podemos amar a Deus com todo nosso coração, alma e força.
2. As ações de Eúde ocasionaram um longo debate, afinal, havia justiça
em matar um rei? O poeta John M ilton (1608-1674) usou a história do
juiz israelita para justificar a execução de Charles I. Outros, como Voltaire
(1694-1778) e o nobre escocês George Mackenzie (1636-1691) denuncia­
ram aqueles que apelaram ao exemplo de Eúde para justificar a execução de
soberanos (Gunn, 2005, p. 44). Durante a Segunda Guerra M undial, Die-
trich Bonhoeffer agonizou sobre a questão de saber se um cristão poderia
ou não participar de um tiranicídio. No final, ele se juntou ao plano para
assassinar Hitler.
Que ações um cristão pode tomar contra governantes pérfidos ou sistemas
de opressão? Muitos acreditam que Jesus nos ensina a submeter-nos até mesmo
às autoridades nocivas e a não recorrermos à violência. Vale notar, contudo,
que, quando 40 homens conspiraram para matar Paulo, o apóstolo não teve
reservas em chamar os soldados para protegê-lo (At 23.12-22). Por um lado,
o mal é real e deve ser resistido, por outro, os cristãos devem ter cuidado ao
usar a violência como solução. Pessoas que recorrem à violência geralmente são
consumidas pela violência. Eúde pode ter sido usado por Deus para salvar Seu
povo, mas muito frequentemente na história aqueles que buscam derrubar os
opressores se tornam os novos opressores. Cristãos devem escolher um cami­
nho que promova justiça, harmonia e compaixão dentro da comunidade. Des­
se modo, eles podem tornar real o Reino de Deus em meio à história presente.
Porém, o mal ataca a raiz de uma comunidade pacífica e, quando o povo é opri­
mido por tais forças, concentradas seja em regimes políticos assassinos, seja nas
máfias locais de traficantes de droga, qual deve ser a resposta de um cristão? Se
ele recusar meios violentos, militares ou policiais, pode não haver uma resposta
adequada à opressão. Nossa esperança é a de que, no futuro, Deus estabeleça
82
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUIZES

Seu Reino de paz e justiça, mas, até que esse dia chegue, devemos viver em um
mundo onde o mal é real, e, se não for resistido, destruirá a vida dos inocentes.

B. Débora, Baraque e Jael (4.1—5.31)

PANORAMA

A história de Débora, Baraque e Jael é contada em duas versões, pri­


meiro em uma narrativa em prosa (cap. 4) e depois em um poema (cap.
5). Houve uma discussão contínua para saber qual dessas duas versões é
mais antiga. Porém, a maioria dos estudiosos hoje concorda que o poema,
com suas formas poéticas ancestrais e palavras raras, deve ser uma das mais
antigas peças da literatura no AT. As duas versões se complementam mu­
tuamente com informações omitidas pela outra. Sem o poema ou sem a
narrativa em prosa, estaríamos menos informados sobre os acontecimentos
da história. O capítulo 4 dá mais detalhes do contexto, como a função de
Débora como juíza, mais detalhes geográficos específicos e mais detalhes
em torno dos acontecimentos que levaram à morte de Sísera. O capítulo 5
descreve a tempestade que, por intervenção divina, levou à derrota as forças
do opressor cananeu. Ele também lista as tribos que se juntaram à batalha
e as que não o fizeram, e inclui a cena da mãe de Sísera aguardando impa­
cientemente pelo que pensava ser o retorno vitorioso de seu filho. Mesmo
com as duas narrativas, terminamos em uma ambiguidade. Quem é o juiz
na história? Seria Débora, a profetisa, Baraque, o guerreiro, ou Jael, o assas­
sino? Cada um deles tem uma função, mas nenhum deles é designado como
o libertador de Israel. Por que Baraque hesitou em obedecer às ordens do
Senhor e insistiu em que Débora o acompanhasse? Por que Jael convidou
Sísera para sua tenda? Teria ela violado as regras da hospitalidade ao assas-
siná-lo, será que ela apenas se defendia? O texto não fornece respostas para
essas questões, mas instiga o leitor a ponderar as ambiguidades.

1. A história em prosa (4.1-24)

POR TRÁS DO TEXTO


Jabim era o rei de Hazor e liderou uma coalizão contra os israelitas (Js 11).
Josué derrotou essa coalizão, matou Jabim (v. 10) e queimou a cidade gover­
83
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

nada por ele. A menção de Jabim como rei cananeu de Hazor em Jz 4.2 e 24
contextualiza a história da derrota de Sísera, general de Jabim. O nome “Jabim”
pode ter sido o título do trono, atribuído aos seus sucessivos ocupantes. Qual­
quer que tenha sido a história real por trás dos dois relatos, Jabim funciona
simbolicamente nessa narrativa como o poder de opressão definitivo, apenas
gradualmente derrotado pelos israelitas.
Hazor era uma grande cidade durante a Idade do Bronze Média (1800 a.C
- 1550 a.C) e a Idade do Bronze Tardia (1550 a.C. - 1200 a.C.). Situada 14
quilômetros ao norte do mar da Galileia, localizava-se ao longo de uma das
maiores rotas de comércio entre o Egito e a Mesopotâmia. A cidade era divi­
dida em dois distritos principais. Na parte alta (25 acres), mais fortificada, o
palácio, os prédios administrativos e os muitos templos se erguiam. Na parte
baixa (75 acres), que se estendia até o norte, ficava a maior parte das residências
e comércios. A cidade era inteiramente protegida por um muro (Zuckerman,
2007, p. 753-754). Ela era a maior e mais poderosa da região. Sua primeira esca­
vação foi feita por Yigael Yadin, nos anos 1950. Ele chegou à conclusão de que
ela foi destruída em algum ponto do século 13. Não é sempre evidente quem foi
responsável pela destruição de uma cidade, pois o conquistador raramente dei­
xa algum monumento de pedra celebrando sua vitória. Para celebrar seus feitos,
reis babilônios, assírios e egípcios, que governaram grandes impérios, ergueram
as estátuas de celebração de suas vitórias - chamadas esteias - em seus próprios
países. Yadin afirmou que a destruição de Hazor era consistente com a descrição
bíblica de Js 11.10,11 e que os israelitas liderados por Josué destruíram a cidade.
Outros estudiosos discordaram. Nos anos 1990, Amnon Ben-Tor liderou ou­
tro grupo na continuação das escavações de Hazor. O trabalho dele confirmou
que a cidade fora destruída no século 13 e descobriu que, quando a cidade foi
tomada, boa parte do estatuário do palácio foi deliberadamente destruída. Seis
ou sete estátuas egípcias foram intencionalmente mutiladas, três tiveram seus
braços e cabeças cortados. Uma grande estátua cananeia foi quebrada em quase
cem pedaços. Ben-Tor e Rubiato argumentaram que, caso egípcios tivessem to­
mado a cidade, seria improvável que destruíssem monumentos de seus próprios
reis. Também não era provável que um grupo cananeu, mesmo sendo forte o
suficiente para conquistar Hazor, mutilasse as estátuas de divindades cananeias.
Os filisteus não adentravam a terra tão longe da costa, nem foram encontradas
cerâmicas distintivamente filisteias no local. Ben-Tor, assim, concluiu que os
israelitas pareciam ser “os mais prováveis candidatos para a violenta destruição
da cidade cananeia de Hazor” (Ben-Tor e Rubiato, 1999, online).

84
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

A narrativa do capítulo consiste em seis partes. Em Jz 4.1-3, o escritor des­


creve o apuro dos israelitas. Novamente eles haviam feito males aos olhos de
Deus e estavam sendo oprimidos pelo rei Jabim e pelo general de seu exército,
Sísera. Na segunda seção (v. 4-10), os dois principais personagens israelitas,
Débora e Baraque, são apresentados. Débora ordenou que Baraque reunisse as
tropas e forneceu-lhe o plano de batalha, prometendo-lhe que Deus lhe daria a
vitória. Um interlúdio editorial (v. 11) interrompe a narrativa para introduzir
Héber, o queneu. A batalha é brevemente descrita nos v. 12-16. Na sexta seção
(v. 17-22), Sísera, em fuga, busca refúgio na tenda de Jael, que o mata. O capí­
tulo conclui com uma nota editorial afirmando que os israelitas continuaram a
lutar contra Jabim até que o destruíssem e obtivessem a vitória. Há quatro per­
sonagens principais. Débora, a profetisa, representa Deus; Baraque é o coman­
dante das forças de Israel; Sísera, o general das forças cananeias, surge no início
como vilão e termina como o tolo que se deixa assassinar; o último personagem
é Jael, a esposa de Héber, que ganha a glória ao matar Sísera.

NO TEX TO

a. Sísera, o opressor (4.1-3)

■1-3 O versículo 1 conclui a história de Eúde dando enfaticamente a notícia


de que, com a sua morte, os israelitas retomaram as más ações. O que difere é
a ordem da notícia. A morte de um juiz normalmente precede a descrição do
retorno de Israel ao pecado (3.11; 8.33; 12.7). Nesse caso, duas palavras bastam
para noticiar o falecimento dele. A terra gozara de um período longo de tran­
quilidade, que durou o tempo de duas gerações, ou seja, 80 anos (3.30). Con­
tudo, mesmo antes da morte de Eúde, os israelitas fizeram o m al aos olhos do
Senhor (4.1). Eles rejeitaram a orientação de Deus e retomaram a adoração de
outros deuses, antes que Eúde morresse. A reação divina foi vendê-los (m ãkar)
nas mãos de Jab im (v. 2), ou seja, devolvê-los à escravidão. Se os israelitas não
servissem ao Senhor, então se tornariam escravos do rei cananeu.
A força dos opressores era medida por seu poderio militar, 900 carruagens
(v. 3) reforçadas com ligas e encaixes de ferro, uma tecnologia recente na época.
Essa grande quantidade e a referência ao metal indicam superioridade numéri­
ca e tecnológica. Sísera era o comandante militar (sar ) sob as ordens de Jabim.
Sua morada ou quartel-general ficava em Harosete-Hagoim, ou Floresta dos
Gentios, um lugar não identificado situado na planície de Esdrelão. Ao final da
batalha, Sísera não fugiu para lá, mas correu para o norte, em direção a Quedes,
85
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

no alto da Galileia, que provavelmente tinha uma história antiga como santu­
ário político. Josué a designara como cidade de refúgio (Js 20.7). Os israelitas
clamaram (z a a q ) ao Senhor por livramento, uma palavra que significa pedir
ajuda (Jz 10.12) ou convocar os outros para uma assistência militar (7.23,24;
10.17; 12.1). Por 20 anos, metade de uma geração, eles haviam sofrido sob o
poder militar de Sísera.

Quem era o comandante?


O termo hebraico sa r (plural sãrê, feminino sãrâ) aparece dez vezes
no livro de Juizes. Ele designa uma pessoa que tem autoridade, mas que
ainda responde para outra pessoa com maior autoridade. Em Juizes, a pa­
lavra é geralm ente, mas nem sempre, usada como designação militar do
general. Ela também se refere às mulheres que serviam à mãe de Sísera
(5.29), que era a senhora delas, e elas suas dam as de companhia. Sísera
era o comandante (4.2,7) das forças de Jabim, o rei cananeu da região de
Hazor. Na canção de Débora e Baraque (5.15), os com andantes (sãrê) de
Issacar ajudaram Débora enquanto os soldados da tribo seguiram Bara­
que na batalha. Os guerreiros de Efraim capturaram dois comandantes
(sãrê), Orebe e Zeebe (7.25; 8.3), que serviam ao exército dos reis de
Midiã, Zeba e Zalm una. Os líderes de Sucote também eram cham ados de
sãrê (8.6,14), pois tinham autoridade na cidade, mas não eram os anciãos
que a governavam . Uma vez que eles responderam ao pedido de Gideão
por comida para seus soldados, é possível que fossem líderes civis ou tal­
vez os com andantes das forças de defesa locais. Zebul era o representan­
te (sar) de Abimeleque em Siquém (9.30), mas novamente não sabemos
se isso o colocava na posição de líder de uma pequena força local ou de
líder civil que respondia ao rei, e não aos anciãos da cidade. Quando os
amonitas atacaram Gileade, os comandantes (sãrê, 10.18) ficaram per­
didos para saber quem os lideraria. Foram os anciãos da tribo (11.5) que
foram até Jefté a fim de alistá-lo para liderar as forças em batalha. Em
cada um desses casos, o sar estava subordinado a outra autoridade e, na
maioria dos casos, o homem era um líder militar.

b. Débora e Baraque (4.4-10)

I 4 - 1 0 A identificação de Débora é estranha: Débora, um a m ulher, profeti-


sa, a esposa de Lapidote, ela estava ju lgan d o Israel (v. 4). O óbvio é enfatiza­

86
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

do, ela era uma mulher desempenhando o papel de profeta e juiz, ofícios geral­
mente reservados aos homens. O leitor é imediatamente alertado para o caráter
incomum da situação, incomum, mas não impossível na cultura patriarcal de
Israel. Miriã, irmã de Moisés, era profetisa (Êx 15.20), e Hulda transmitiu um
oráculo de Deus como profetisa (2 Rs 22.14-20). O nome do marido significa
“tocha” ou “lampejo”. Débora foi a única juíza a presidir procedimentos judi­
ciais antes de libertar Israel da opressão. Palmeiras (Jz 4.5 ARC) normalmente
não cresciam nas colinas de Efraim. Os israelitas levavam suas disputas para
que ela as julgasse. A autoridade dela se estendia para além da tribo efraimi-
ta, pois ela convocou Baraque, oriundo de Naftali. Não sabemos se grupos ou
indivíduos de todas as outras tribos a consultavam ou não, tratava-se de uma
mulher incomum que, sentada sob uma árvore incomum, praticava a justiça.
Débora (v. 6) convocou Baraque; um movimento audacioso para uma
mulher. Dado que o nome dele significa “relâmpago”, sentido próximo ao de
“tocha” em Lapidote, comentadores sugeriram que Baraque seria, na verdade, o
esposo de Débora. Não era incomum pessoas diferentes terem nomes parecidos
ou mesmo iguais. Nada mais pode ser comentado sobre tais nomes. O quartel-
-general de Baraque localizava-se em Quedes de Naftali, situada no limite sul
do território dessa tribo, um pouco a sudoeste do mar da Galileia. A missão que
Débora lhe deu começava com uma pergunta retórica, que esperava por uma
resposta positiva: “O Senhor, Deus de Israel, não lhe deu ordem ?” (v. 6). É
assim também que lemos na LXX. Evidentemente, Baraque recebera uma or­
dem anterior de Deus, possivelmente por meio da própria Débora, uma ordem
que ele estava demorando para obedecer. Um comandante relutaria em colocar
sua infantaria em batalha contra uma grande força de carruagens, pois elas se
moviam muito rapidamente pelo campo de batalha, com um ou dois soldados
usando arcos ou lanças para aumentar seu poder de fogo. A infantaria seria
esmagada e entraria em pânico. As instruções de Débora eram específicas. Ba­
raque deveria recrutar dez mil homens das tribos de Naftali, a própria tribo do
comandante, e de Zebulom, seu vizinho. Então, ele deveria prosseguir (masak)
para o monte Tabor, ao norte da planície de Esdrelão. Havia considerável risco
para os soldados, dado que, em terreno plano, um batalhão de carruagens po­
dería facilmente destruir uma infantaria. Junto com a ordem, contudo, havia
a promessa (v. 7) de que Deus iria a tra ir {masak) os batalhões de carruagens
e a infantaria de Sísera até a área do uádi Quisom e entregá-los nas mãos de
Baraque. Um uádi normalmente é um leito de rio seco que tem água fluindo
durante a estação das chuvas.
Baraque hesitou, recusando-se a ir a não ser que Débora fosse com ele (v.
87
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

8). Nenhuma razão é dada para esse pedido. A palavra de Deus normalmente
era garantia suficiente para que um líder agisse. A exigência de Baraque pre­
nuncia Gideão e as inúmeras requisições de garantias que ele fez a Deus (6.36-
40). Tais incidentes contribuem para o tema geral da progressiva decadência
da liderança em Israel. A obediência às ordens divinas começava a mostrar ra-
chaduras.
Débora concordou com o pedido, mas declarou a sentença que ele acar­
retava (4.9). O líder do exército não poderia se gloriar por sua vitória, pois o
Senhor vendería ( m ãkar, veja v. 2) Sísera nas mãos de uma mulher. Quem seria
tal mulher não é dito. Nesse ponto da história, o leitor talvez concluísse que
seria a própria Débora. A hesitação de Baraque diante de uma ordem direta
de Deus tornou-se muito cara dentro de uma cultura baseada na honra e na
vergonha, cultura essa na qual um guerreiro era avaliado pela lista de suas pro­
ezas. Baraque procedeu (v. 10) com a reunião de suas tropas em Quedes e, em
seguida, deslocou-se com Débora até Tabor.

c. Héber, o queneu (4.11)


I 1 1 Esse versículo traz um breve interlúdio, que parece interromper o flu­
xo da história. Ele serve ao propósito de alertar previamente o leitor para um
desenvolvimento posterior. Revela-se uma pista a respeito da identidade da
mulher referida no v. 9. Mas, trata-se de uma pista elusiva. Os queneus tinham
parentesco com Israel por causa do casamento de Moisés com Zípora, filha de
Hobabe.

O nome do sogro de Moisés


O n o m e do sogro d e M oisés te m sido um p ro b le m a há m u ito t e m ­
po. Em Êx 2 .1 8 , d iz -s e q u e é R euel, m as Êx 3 .1 e Êx 1 8 .2 se re fe re m
a ele com o o s a c e rd o te m id ia n ita Jetro. Em Nm 1 0 .2 9 , o sogro é no ­
v a m e n te c h a m a d o d e R euel, e H o b a b e a p a re c e com o o c u n h a d o . Jz
1 .1 6 id e n tific a -o com o H o b a b e , o q u e n e u . Não há s olu ção s a tis fa tó ria
p ro po sta p a ra essa m u d a n ç a d e n o m es (L a u n d e rv ille , 1 9 9 7 , A B D -C D ).
A ú nica linha c o n s is te n te e ra a d e q u e M oisés h av ia se lig a d o e m m a ­
trim ô n io com a trib o d e M idiã e, m ais e s p e c ific a m e n te , com o clã ou
a s u b trib o dos q u e n e u s .

88
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Héber migrara para o norte, em direção ao alto da Galileia, próximo de Que­


des. Ele levantou sua tenda junto ao carvalho de Zaanim, um lugar atualmente
não identificado.

d. A batalha contra Sísera (4.12-16)


■ 1 2 - 1 6 Recebendo a informação de que Baraque levara seus exércitos ao
monte Tabor, Sísera, então, despachou suas forças, tanto as carruagens quanto
a infantaria, em direção ao uádi Quisom, a sudoeste de Tabor (v. 12,13). A
ordem para iniciar a batalha foi dada por Débora. L evanta-te, pois nesse d ia
o Senhor entregou Sísera n a tu a mão. O Senhor vai à sua fren te (v. 14). Essa
última frase indica que as tropas estavam engajadas em guerra santa e que, na
verdade, era Deus quem lhes traria vitória. O sucesso na guerra é, muitas ve­
zes, determinado não pelo tamanho do exército ou pela tecnologia avançada
do equipamento bélico, mas pelas atitudes dos combatentes. As batalhas são
acontecimentos desordenados, e a confiança pode rapidamente ser erodida. De
acordo com Jz 5.20,21, o Senhor fez cair chuva para transformar o campo de
luta em um lamaçal, limitando as possibilidades de manobra das carruagens.
Isso deu vantagem à infantaria de Baraque. Os soldados de Sísera perderam
confiança e fugiram em pânico. A própria carruagem de Sísera também ficou
presa na lama, então ele desceu do seu carro e fugiu a pé (v. 15). Os contado­
res de história antigos adicionaram esse toque de humor à narrativa: o podero­
so comandante de um enorme batalhão de carruagens era visto correndo a pé
em pânico, fugindo da batalha. Enquanto isso, Baraque (v. 16) e seus soldados
perseguiam os fugitivos cananeus e os matavam antes que pudessem alcançar
um lugar seguro, em Harosete-Hagoim.

e. Sísera e Jael (4.17-22)


■ 1 7 - 2 2 A próxima cena no drama começa repetindo: Sísera fu g iu a p é (v.
17). Dessa vez, porém, a direção é explicitada, ele fugia p ara a tenda de Jae l,
m ulher de Héber, o queneu (v. 17). O propósito de introduzir Héber, o que-
neu, no v. 11 agora se esclarece. Héber havia se estabelecido ao longo da estrada
que leva até a cidade sagrada de Quedes, o destino final que Sísera almejava,
em busca de refúgio. Era improvável que o líder militar das forças de Jabim
fosse em direção a Quedes localizada no território da tribo de Naftali, pois era
lá que ficava o quartel-general de Baraque (v. 6,10). Héber tinha a lealdade em
conflito, dividida entre os israelitas - com quem seu clã tinha parentesco pelo

89
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

matrimônio de Moisés - e com Jabim, o rei de Hazor, com quem Heber havia
estabelecido uma relação de paz, talvez, mas não necessariamente, por meio de
um concerto formal. A família do queneu consistia em pastores que moviam
seus rebanhos e manadas por diversas pastagens ao longo das estações do ano.
O rei talvez tivesse permitido que eles erguessem suas tendas em suas terras
durante algum tempo, em troca de outros bens, sobretudo carne de boi e de
cordeiro (Halpern, 1997, ABD -CD). Se Sísera pretendia encontrar refúgio
no acampamento de Héber, ele teria ido diretamente até a tenda do chefe
do clã. Contudo, Jael iniciou o contato convidando Sísera para sua própria
tenda, dando-lhe a promessa de segurança (v. 18). Ela tinha sua própria
tenda provavelmente porque Héber devia ter mais de uma esposa, cada uma
com sua própria tenda. Sísera aceitou rapidamente o convite de Jael, pois
quem pensaria em procurar por um comandante m ilitar na tenda de uma
mulher? Ela o escondeu sob algum tipo de cobertor ou tapete. A palavra
smk ocorre apenas aqui no AT, por isso é difícil saber precisamente o que
ela significa. Sísera, então, fez dois pedidos para ela (v. 19,20): primeiro, que
lhe desse um pouco de água para beber; segundo, que ficasse à entrada da
tenda e mentisse caso um perseguidor lhe perguntasse se havia um homem
ali dentro. Ela respondeu ao primeiro pedido trazendo-lhe leite. Seria parte
do plano de Jael que o leite morno fizesse o exausto Sísera cair no sono? Em
vez de atender ao outro pedido, Jael pegou uma estaca e um martelo (v. 21)
e se aproximou dele em silêncio. O poderoso general, cansado por ter lutado
uma batalha e fugido, bebera o leite e dormira. Ela, então, martelou a estaca
na cabeça dele, atravessando-a até o chão.
As ações de Jael foram objeto de muita discussão ao longo dos séculos.
Seus atos seriam justificados ou ela era uma assassina? Débora a proclamou
como “a mais bendita das mulheres” (5.24), pois ela destruira o opressor de
Israel. Logo no início da Igreja, esse título sugeriu que ela talvez fosse uma
precursora da Virgem Maria. Depois da Reforma, a imagem dela se tornou
mais ambígua. Alguns julgaram sua ação como necessária à vitória, mas não
como algo a ser copiado; mulheres, dizia-se, não devem matar homens. O
filósofo deísta Voltaire considerava as ações dela moralmente horríveis (para
uma pesquisa extensa de opiniões sobre o caso, veja Gunn, 2005, p. 71-92).
O texto não nos diz qual era o motivo para ela matar Sísera. Havia paz en­
tre seu marido e Jabim, o senhor de Sísera. Os queneus, contudo, tinham
ligação com os israelitas pelo casamento da filha de Hobabe com Moisés.
Teria Jael colocado os deveres do parentesco consanguíneo acima da obri­
gação da família para com um rei cananeu? Matthews defende as ações de
90
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Jael sugerindo que Sísera violara as leis de hospitalidade, resumidas em sete


itens, cuja descrição é baseada em exemplos bíblicos e em paralelos com os
costumes dos árabes modernos e dos antigos habitantes do Mediterrâneo
(2004, p. 68-73).

O Protocolo de Hospitalidade, segundo Matthews


Abaixo, listamos o "Protocolo de Hospitalidade" fornecido por Matthews:

1. Vilarejos e indivíduos eram obrigados a dar hospitalidade para


estrangeiros que viajassem pela região.
2. Aceitando a oferta de hospitalidade, o estrangeiro deixava de ser
um potencial inimigo para se tornar um aliado.
3. A oferta de hospitalidade deveria ser feita apenas pelo homem
que era o chefe da casa ou cidadão da comunidade.
4. A hospitalidade era oferecida por um tempo específico e estipu­
lado, que poderia ser estendido pelo anfitrião se am bas as partes
concordassem.
5. A oferta de hospitalidade poderia ser recusada e tal recusa pode­
ria ser considerada pelo anfitrião potencial um insulto contra sua
honra. Recusando, o estrangeiro corria o risco de ser atacado.
6. As regras de conduta para o anfitrião e para o convidado eram
determinadas pelo costume:
a. O convidado não devia fazer solicitações.
b. Não importa qual tivesse sido a oferta inicial de hospitalidade, o
anfitrião deveria fornecer o melhor que pudesse.
c. Era esperado que o convidado compartilhasse as informações
reunidas ao longo de sua viagem , respondesse graciosamente
ao que era oferecido pelo anfitrião e exprim isse bênçãos pelo
futuro.
d. Não era considerado apropriado que o anfitrião perguntasse
coisas pessoais ao convidado.
7. Enquanto o convidado ficasse, o anfitrião era obrigado a dar pro­
teção (2004, p. 68-69).

A análise de Matthews vacila em dois pontos. Primeiro, Jael iniciou o con­


tato com Sísera convidando-o para sua tenda e oferecendo-lhe proteção. Isso
violava a regra que determina ser o marido a fazer a oferta de hospitalidade. O
convite de Jael indica desde o início seu plano para matar Sísera. As ações dela
91
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

eram premeditadas. Em segundo lugar, não é certo que as regras retiradas de


fontes não bíblicas eram seguidas durante o tempo dos juizes. Sísera não viola­
ra tais regras rígidas de conduta, Jael não tinha justificação para matá-lo. Somos
levados de volta ao pronunciamento de Débora. Jael ficara do lado de Israel e
matara um inimigo, a glória era dela, não de Baraque, que só foi procurar por
Sísera no acampamento de Héber tardiamente. J a e l saiu p ara cham á-lo (v.
22), as mesmas palavras usadas no v. 18. Embora não fosse normal uma mu­
lher convidar um homem para sua tenda, as circunstâncias se sobrepuseram às
convenções. Jael ficara do lado de Israel em sua guerra contra Jabim, e matara
Sísera. Ela precisava demonstrar sua lealdade ao comandante israelita, expon­
do-lhe o corpo do inimigo. Dentro da tenda, Baraque encontrou Sísera morto,
com uma estaca em sua cabeça.

f. D estruição de Jabim (4.23-24)

I 23-24 Baraque e suas tropas lutaram, mas a vitória pertenceu a Deus. Foi
Ele quem subjugara Jabim antes dos israelitas. A balança do poder agora favo­
recia Israel, e seus exércitos continuaram a lutar contra o rei cananeu até que
foi destruído. A batalha em Quisom foi uma grande vitória, mas operações
militares contínuas eram necessárias para assegurar o triunfo completo. Era
preciso continuar a fazer sacrifícios até que o inimigo fosse inteiramente des­
truído. Parar antes de ganhar a vitória completa teria permitido ao adversário
se reagrupar e possivelmente retomar o controle sobre Israel. Uma libertação
parcial da opressão não liberta absolutamente nada.

A PARTIR DO TEXTO
1. O louvor é dado a Deus por livrar Israel da opressão. Contudo, o Senhor
também é responsável por submetê-los à servidão (4.2). Os israelitas quebra­
ram o concerto ao adorar outros deuses. Deus, então, aplicou-lhes as maldições
do concerto. Precisamos ser cautelosos ao presumir uma relação direta de causa
e efeito entre desobediência e punição divina. Israel debateu-se com esse pro­
blema (Sl 73) ao observar que os ímpios nem sempre são punidos, nem os ín­
tegros sempre recompensados. Jesus rejeitou o argumento de Seus discípulos,
segundo o qual a cegueira do homem era causada pelo pecado cometido por
alguém antes de ele nascer (Jo 9.1-5). O pecado tem efetivamente efeitos sobre
as pessoas, mas não é sempre fácil observá-los. Uma pessoa que rejeita a Deus
pode ter uma vida longa e saudável, cumprir papéis importantes na sociedade

92
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

e gozar de prosperidade econômica. Paulo observa, entretanto, que, quando


nos entregamos ao pecado, tornamo-nos seu escravo (Rm 6.16). Que essa es­
cravidão produza ou não efeitos observáveis, fato é que ainda somos escravos.
Desse tipo de opressão, apenas a graça de Deus é capaz de libertar-nos. A vida
espiritual de um indivíduo ou comunidade pode dar frutos em outras áreas da
vida, e não podemos separar o que adoramos do que nós nos transformamos.
O que adoramos determina nossa vida espiritual.
2. Depois de as pessoas terem sido libertadas por Eúde (Jz 3.30), a terra
se beneficiou de um período de tranquilidade (sãq at ), sem distúrbios. Foi du­
rante esse tempo (4.1) que o povo passou a adorar outras divindades. A espiri­
tualidade geralmente não é moldada durante tempos de crise. Pontos críticos
como a morte de uma pessoa amada ou a luta contra uma doença podem levar
alguém a reconsiderar seu estilo de vida e, desse modo, tornar-se um momento
de virada espiritual. Em circunstâncias como essas, muitos reexaminam suas
vidas e tomam a decisão de seguir a Deus. Infelizmente, outros poucos são es­
magados por seus problemas e rejeitam a oferta de Sua graça. A maior parte da
vida, entretanto, é vivida no transcorrer das atividades normais. Lidamos com
os pequenos problemas que aparecem de vez em quando, e quase sempre os
superamos com relativa facilidade. Isso leva à tentação de ter uma vida autos-
suficiente, com pouco ou nenhum reconhecimento do chamado de Deus para
nós. E fácil tornar-se mais relapso na fé e ver nossos principais valores sendo
moldados pela cultura à nossa volta. O lento afastar-se da obediência e da ami­
zade a Deus nos toma desprevenidos. Como os israelitas, começamos a seguir
outros deuses, nossos deuses podem não ser aquelas imagens manualmente es­
culpidas, mas outros valores aos quais damos nossa lealdade: dinheiro, poder,
emprego ou família. Mas, isso não precisa ser assim. Tempos de paz também
trazem oportunidades para fortalecer nosso caráter e aprender a confiar em
Deus as nossas necessidades diárias. Quando as crises surgirem, elas serão, en­
tão, momentos que revelam a profundidade de nosso compromisso com Deus.
3. Jael apresenta um caso de lealdades conflitantes. Seu marido, Héber,
acordara a paz com Jabim, porém, o clã também tinha parentesco, por matri­
mônio, com Israel. Em um conflito entre dois, ela tinha de decidir qual rela­
cionamento era mais importante. A vida é feita de uma multidão de relações,
cada uma com suas exigências de graus variados de lealdade. Uma pessoa pode
ser um esposo, um pai, um filho, uma criança, um empregado, o cidadão de
um país, o membro de uma igreja, de uma organização comunitária ou de um
clube social. Adicione a essa lista os muitos amigos com distintos graus de inti­
midade. Normalmente, navegamos pelas exigências dessas várias relações com
93
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

pouca dificuldades, mas ocasionalmente podem existir conflitos. Jael tinha um


problema difícil: a quem ela seria leal, ao rei com quem celebrara a paz ou ao
povo de Deus ? Podemos enfrentar problemas similares. E se o país onde vivo
proclama uma lei que conflita com minha fé? Cristãos em muitas terras en­
frentam a possibilidade de serem perseguidos por sua fé. Jesus nos disse para
darmos ao governante aquilo que pertence ao governante, e a Deus o que per­
tence a Deus (Lc 20.25). Não é sempre fácil decidir o que pertence a quem. Há
uma pressão constante por lealdade, porém, um mandamento se eleva acima de
todos: devemos amar a Deus com todo nosso ser (Dt 6.5). Trabalhar para saber
como equilibrar as obrigações muitas vezes conflitantes não é fácil, mas nossa
lealdade a Deus deve vir em primeiro lugar. Isso não significa que podemos ne­
gligenciar as outras obrigações, pois nosso compromisso com Deus exige que
tomemos seriamente nossas obrigações com os outros também. Nossa fé só
pode ser vivida a partir dos laços de nossos relacionamentos.
4. Débora era uma mulher incomum. Ela desempenhava o papel tanto de
profetisa como de juíza. Na sociedade patriarcal israelita, mulheres geralmente
não assumiam funções públicas. Contudo, M iriã (Ex 15.20) e a esposa de Isa-
ías (Is 8.3) também foram profetisas. Hulda (2 Rs 22.14-20) confirmou que
o pergaminho encontrado no templo durante o reino de Josias era, de fato, a
Palavra de Deus. O Senhor não está limitado por papéis de gênero na escolha
de Seus servos. Ainda que a maior parte dos líderes da sociedade israelita fosse
homem, de vez em quando, uma mulher poderia erguer-se na posição de lide­
rança. Durante o tempo de Macabeus (164-67 a.C.), Salomé Alexandra gover­
nou Judá como rainha por nove anos (76-67 a.C.), “o período mais próspero
e mais pacífico da história de sua nação”. Josefo registra que Salomé ganhou a
afeição de seu povo por assegurar a paz com os vizinhos de Judá. Na tradição
judaica registrada no Talmude, os rabinos possuem alta estima por ela (Atkin-
son, 2008, p. 61-65,72).
Joel previu que Deus derramaria Seu Espírito sobre toda a carne e que tan­
to os filhos quanto as filhas profetizariam (Jl 2.28). Pedro identificou a vinda
do Espírito no dia de Pentecostes como o cumprimento da profecia de Joel
(At 2.16,17). Filipe, um dos sete escolhidos para ajudar os apóstolos (At 6.5),
tinha quatro filhas que eram profetisas (At 21.8,9). Em G1 3.27,28, Paulo afir­
ma o princípio de que todos aqueles batizados em Cristo estão revestidos com
Cristo e que Deus não mais faz distinções baseadas em raça, posição social ou
gênero. As culturas frequentemente identificam diversos papéis com gênero,
porém, não há um padrão consistente ao longo de todas as culturas. Muitas são
patriarcais, mas algumas são matriarcais. O evangelho deve ser apresentado de
94
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

um modo que seja específico à cultura. Por exemplo, o sistema político de uma
cultura pode ser democrático, outro será monárquico, e aquele outro, tribal. O
evangelho não sanciona um sistema político sobre outro. No entanto, ele fala
sobre Cristo ter morrido por todos os povos, libertando-os de seus pecados. As
implicações sociais do evangelho são significativas. Deus claramente valoriza a
vida de cada pessoa, não importa a sua posição social (governante, livre, escra­
vo) ou gênero.
Quanto à liderança da igreja, Deus é soberano em Sua escolha de líderes,
quer eles sejam homens ou mulheres. A igreja deve responder reconhecendo e
habilitando aqueles que são chamados pelo Senhor a cumprirem o propósito
divino em suas vidas. Pode não ser uma tarefa fácil em culturas nas quais os
papéis de liderança estão definido com base em gêneros, tais como nas matriar­
cais, onde homens dificilmente alcançam posições de liderança, ou patriarcais,
nas quais as mulheres raramente lideram. A Igreja deve trabalhar dentro da
cultura de forma a não desacreditar o evangelho e, ao mesmo tempo, ser um
testemunho contracultural para a mensagem plena das boas novas. A tradição
wesleyana tem uma longa história de mulheres em funções de liderança. John
Wcsley, em um tempo no qual a sociedade ao seu redor não olhava favoravel­
mente a possibilidade de líderes femininas, defendeu a educação para as mu­
lheres e nomeou um número delas para liderar as reuniões de classe metodistas.
As igrejas que mantêm sua herança wesleyana há muito tempo têm apoiado a
nomeação e a ordenação de mulheres ao clero.

Status das mulheres


Q uando John W esley escreveu seus com entário s sobre 1 Tm 2 .1 3 em
seu livro E x p la n a to ry N o te s o n th e N e w T e s ta m e n t (1 7 5 4 ), ele assum iu a
posição de q ue as m ulheres d e v e ria m subordinar-se aos hom ens. A tra ­
dição anglicana, na qual ele fora educado, e que ele abraçou m uito cedo,
defend ia que os prim eiros capítulos de Gênesis m o stravam Eva com o um
ser criado e m subordinação a Adão. W esley fez um e x a m e exaustivo de
G ênesis enq uan to p rep arava o livro E x p la n a to ry N o te s o n th e O ld T esta ­
m e n t (1 7 6 5 ) e mudou sua opinião a respeito da ord em hierárquica e s ta ­
belecida na criação. A pesar de fo rte oposição à sua nova posição, W esley,
e m sua m atu rid a d e , defend eu a educação das m ulheres e "p erm itiu -lh es
pregarem e ensinarem com a uto ridad e igual a dos pregadores m etodistas
hom ens" (inform ação dada por Randy M addox). Em 1 8 1 9 , Richard Allen,
fu n d a d o r da igreja Africana M etodista Episcopal, autorizou Jarena Lee a
pregar, a p rim eira m u lh e r a ser reconhecida com o tal (cf. online: h ttp ://

95
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

www.pbs.org/wgbh/aia/part3/ 3hl638.htm l). Desde o início, as mulheres


no exército de salvação (1865) tiveram funções de líder. O exemplo fora
dado por Catherine Booth, que trabalhara junto com seu marido, William.
A igreja Metodista Livre tem ordenado mulheres há 150 anos. Atualmen­
te, 14 por cento do clero de várias ordens são mulheres (cf. online: http://
www.freemethodistchurch.org/ sections/about_us/stats/home.shtml). Já
em 1861, o distrito de Illinois da igreja Wesleyana ordenou a Sra. Mary
A. Will como presbítera (Gonlag, s.d., http://www.wesleyan.org/em/wo-
men_ministry_main). Hoje, cerca de cinco por cento dos presbíteros ati­
vos ordenados na igreja W esleyana são mulheres (informação dada por
Jerry Brecheisen, diretor de Mídia, igreja Wesleyana). A igreja Metodista
Unida, a maior e m ais antiga denom inação da tradição wesleyana, tem
10.378 m ulheres no clero, representando 23,1 por cento desse corpo
(informação dada por Pearl Hann, serviço de informação da Metodista
Unida). Desde os primeiros dias da form ação da Church o f Cod (Ander-
son) (1881), os líderes trabalharam diligentem ente para incluir tanto as
mulheres quanto os afroam ericanos nas posições de liderança. Atual­
mente, 25,6 por cento de seus ministros são mulheres, 1980 de um total
de 7728 (informação dada por David Farlow, chefe da com unicação es­
tratégica, Church of God [Anderson]). Quando a Church o fth e Nazarene
foi fundada em 1908, 17,7 por cento do clero eram mulheres. Por volta
de 1930, 20,7 por cento eram mulheres, mas, em 2003, apenas 10,7 por
cento eram m ulheres (Houseal, 2003, p. 10). Muitas igrejas da tradição
w esleyana tiveram um declínio na porcentagem do clero feminino de­
pois de 1950. Nos anos 1990, o número voltou a crescer. Esses altos e
baixos refletem as m udanças culturais, contudo, mesmo durante as épo­
cas em que poucas m ulheres entravam no clero, nenhuma igreja tomou
a posição de que elas não poderiam ser ordenadas. Todas defenderam
que qualquer pessoa cham ada por Deus, não importa se homem ou mu­
lher, deve ser reconhecida e ordenada.

2. O poema (5.1-31)

POR TRÁS DO TEXTO


A canção de Débora e Baraque é talvez um dos mais antigos poemas do
AT e, como tal, contém alguns dos mais difíceis trechos em hebraico. Muitos
estudiosos trabalharam com a linguagem arcaica, comparando-a com cognatos

96
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

ou linguagens similares, como o ugarítico ou fenício (para uma análise mais


detalhada do hebraico e referências a mais estudos críticos, veja Boling, 1975,
p. 105-116 e Soggin, 198 l,p . 79-92). O leitor pode sentir-se frustrado quando
o sentido preciso de uma palavra não é dado, ou quando compara traduções e
observa como elas diferem significativamente. Porém, isso pode refletir tam­
bém o caráter artístico e poético do texto, que busca palavras com múltiplos
significados, dando, assim, ao poema uma riqueza de percepções.
O poema do cap. 5 e a narrativa do cap. 4 trabalham juntos para re­
tratar os eventos de um modo mais completo do que poderiam fazer lidos
separadamente. O poema traz pouco contexto sobre os personagens princi­
pais ou sobre a relutância de Baraque em responder à instrução de Débora.
Mas, contém uma lista detalhada das tribos que participaram e das tribos
que não participaram da batalha. A cena conclusiva da mãe de Sísera aguar­
dando o retorno vitorioso do filho é totalmente irônica. O leitor sabe que
o atraso não se deve à celebração do vencedor, mas porque ele já está morto.
O poema celebra os feitos das tribos e dos indivíduos, porém, o ator princi­
pal é o Senhor. E a Ele que o poema é dedicado (v. 2,4) e são as Suas ações
que são reconhecidas como principal recurso para o sucesso na batalha.

NO TEX TO

a. Introdução (5.1-11)
■ 1-11 Uma nota editorial (v. 1) atribui o poema a Débora e Baraque, embo­
ra a voz da primeira pareça dominante. O poema propriamente começa (v. 2)
com uma frase difícil (biproa pêraô t) que teria relação ou com os líderes per­
dendo o cabelo, como em um voto para ir à guerra, ou com a rejeição de uma
restrição (imposta pelo opressor) e com o alistamento voluntário (hitãdêb)
para a guerra (BDB, p. 621, 828). No v. 3, a introdução formal do poema, o
poeta fala aos governantes, pedindo-lhes atenção para o que será dito. Esses
versículos iniciam um hino de vitória, um tipo de poesia bem conhecido no
AOM (Antigo Oriente Médio).
Os v. 4,5 são endereçados ao Senhor, Deus de Israel, e descrevem uma te-
ofania, uma revelação divina. Em estilo israelita padrão (veja Hc 3.2-15), o
Senhor é descrito como o guerreiro vindouro do sul, onde o monte Sinai está
localizado. As primeiras duas linhas estão em paralelismo sinonímico. Como
o Senhor vem do sul, Ele passa por Edom, que está localizada ao sul do mar

97
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Morto. Seir é outro nome para Edom. Toda a natureza, incluindo os céus, a
terra e mesmo as montanhas, se estremece. A referência à chuva das nuvens
é a primeira menção da tempestade que fez o Quisom transbordar (Jz 5.21),
prejudicando a manobra das carruagens de Sísera.
Uma descrição da situação anterior à batalha é dada nos v. 6-9. Sangar con­
quistara uma grande vitória (3.31), mas não acabara com a opressão. Era um
tempo ímpio, e os viajantes e caravanas haviam desistido (hãdal) de suas jor­
nadas e tinham de manter-se nas rotas menos usadas e menos guardadas. Aque­
les que habitavam em regiões ab ertas e desprotegidas (pèrãzâ), usualmente
em tendas, e não em cidades protegidas por muros de defesa, também tinham
desistido {hãdal) (KBL, p. 777). Os opressores cananeus haviam perturbado a
vida normal, e os desprotegidos se tornavam vítimas. Mas, isso até que Débora
se lenvatou, levantou-se um a m ãe em Israel (v. 7). O título dela não se refere
ao fato de ter dado à luz uma criança, mas à sua função como libertadora que
traz, como uma mãe, vida à comunidade.
A primeira linha do v. 8 é difícil de entender, e leituras muito diferen­
tes foram propostas. A escolha de novos deuses pode referir-se às práticas
idólatras anteriores feitas pelo povo. Boling sugere que, nessa época de in­
terrupção das viagens, as pessoas poderíam estar assinando novos tratados.
O procedimento padrão exige que os deuses de ambas as partes sejam cha­
mados a testemunhar os contratos (1975, p. 109). Israel convocaria o Se­
nhor, tal como seus vizinhos chamariam seus deuses a testemunhar. Outra
possibilidade é a de que os israelitas que viviam nas várias cidades estivessem
clamando ao Senhor e a outros deuses em busca de auxílio na batalha contra
seus opressores. Dada a sua contínua prática de adoração a outras divinda­
des, isso não seria uma prática incomum. Naquele tempo, contudo, Israel
não possuía armas militares, o que deixava os israelitas em uma situação
desesperada quando se preparavam para a luta. Débora expressou simpatia
pelos comandantes: M eu coração (v ai) aos com andantes entre o povo (v.
9). Eles se ofereceram voluntariamente para a tarefa, que trazia consigo um
risco considerável. A frase conclusiva “bendizei ao Senhor” (ARA) forma
um quadro literário com o final do v. 2.
Os habitantes locais não viajavam muito, uma vez que seu tempo se con­
sumia na luta pela própria sobrevivência, seja pelo plantio ou pelo pastoreio.
Quando os vianjantes chegavam a uma cidade, tornavam-se a fonte de infor­
mação sobre o mundo lá fora. O poeta chama os cantores-poetas da tribo para
compor canções e histórias que contem as proezas do Senhor (v. 10,11), aque­
las vitórias conquistadas especialmente por Seu povo vulnerável (v. 7). Em uma
98
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUIZES

cultura oral, as histórias do povo são transmitidas oralmente de geração em


geração. Entre os israelitas, aquele que tinha habilidade para compor uma nar­
rativa, sobretudo em forma poética, era valorizado. Boa parte do AT foi com­
posto em verso, particularmente os livros de Salmos, Provérbios, a maior parte
de Jó, bem como dos profetas. Em algum ponto na história, não temos certeza
de quando, os escribas começaram a escrever as narrativas e poesias.

b. A convocação das tribos (5.12-18)


■ 12-18 O poema, então, desloca-se em direção a um chamado dramático
para que Débora irrompa em cânticos de vitória e para que Baraque tome seus
prisioneiros (v. 12). Uma terceira voz, nem da primeira, nem do segundo, con­
voca ambos à ação. Convocar alguém a despertar é instigá-lo a agir. Não signifi­
ca que a pessoa esteja dormindo, apenas que ela não está engajada. Veja Sl 44.23
e Is 51.9, onde Deus é chamado a despertar. Os restantes (sãrid, v. 13), não o
povo inteiro, reuniram-se para a batalha. A lista daqueles que responderam ao
chamado para a luta começa com as tribos situadas no planalto central: Efraim,
Benjamim e Maquir, provável clã de Manassés. Essas tribos não são menciona­
das na narrativa em prosa do cap. 4. Zebulom e Issacar situavam-se ao norte
do vale de Jezreel. As tribos de Rúben e Gileade ficavam à leste do rio Jordão e
não responderam. Também ficaram em silêncio as tribos costeiras de Aser, ao
norte, e Dã, que nessa época estava evidentemente ao sul, próximo dos filisteus.
Zebulom, mencionada duas vezes, e Naftali são ambas louvadas por seu heroís­
mo, e fecham a lista de tribos. Judá está manifestamente ausente da lista.

c. A batalha (5.19-22)
H 19-22 A referência aos reis no v. 19 é uma hipérbole poética. O líder dos
cananeus era Sísera, general do rei Jabim, que não participou da batalha. Ta-
anaque e Megido eram grandes cidades daquele vale. As estrelas (v. 20) eram
consideradas pela religião cananeia uma fonte de chuva (Boling, 1975, p. 113).
O poeta é irônico ao descrever em termos cananeus a causa da derrota do ini­
migo. O Quisom (v. 21) tem água corrente apenas durante as estações chuvo­
sas do ano. Ele é conhecido por ficar seco nas manhãs, mas, quando uma chuva
torrencial cai no final do dia, as águas transbordam as margens e transformam
a região em um atoleiro. O poeta usa a repetição da palavra “torrente” (nahal)
para construir na mente de sua audiência a força da água que Deus derramou
contra as carruagens. A última linha brada por coragem: M arche, m inha

99
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

alm a., comfo rç a! (v. 21). A ironia é usada novamente no v. 22, que descreve a
batida trovejante dos cascos dos cavalos puxando as carruagens em direção ao
solo amolecido. Os ouvintes sabem que eles, à medida que se aproximam rapi­
damente da batalha, rumam de modo igualmente apressado para a lama, que
travará suas rodas e tornará impossíveis suas manobras. Então, eles serão presas
fáceis para a infantaria israelita.

d. A vitória d e Ja e l (5 .2 3 -2 7 )

I 23-27 Essa seção começa com uma maldição (v. 23) dada por um anjo
ou mensageiro do Senhor: amaldiçoem Meroz. Os habitantes da vila de
Meroz não ficaram do lado do Senhor na luta contra Sísera. A localização
desse lugar não é conhecida. A ênfase do texto é teológica: a batalha era do
Senhor, e eles não vieram para ajudar. Em sua constituição poético-literá-
ria, esse verso contrasta com o louvor dado a Jael (v. 24). Meroz se recusou
a auxiliar Israel, mas Jael ficou do lado da nação israelita ao matar Sísera.
Abençoada seja você entre as m ulheres, J a e l! (v. 24). Essa fala foi incor­
porada por Isabel em sua saudação à Maria (Lc 1.42) e, com base nisso, escrito­
res medievais viram a esposa de Eléber como uma precursora da mãe de Jesus.
Jael recebeu essa grande honra porque, mesmo casada com um homem que
havia feito paz com Jabim (Jz 4.17), ela escolheu honrar sua ligação com Israel
(v. 11) e destruir seu inimigo.
Jz 5.25,26 descreve a cena dentro da tenda. Sísera pede água (4.19,20),
e Jael lhe traz leite em uma tigela. O general cananeu lhe pede que vigie a
entrada da tenda e que minta para protegê-lo. Jaelr então, crava uma estaca
no crânio dele.
A morte de Sísera é contada em detalhes breves, repetitivos e visuais.
E ntre seus pés, ele se ajoelhou, caiu efico u deitado . E ntre seus pés, ele se
ajoelhou; caiu. A li onde ele se ajoelhou, fo i a li que ele se sen tiu vio len ta­
m ente destruído (v. 27). A expressão entre seus pés tem conotação sexual.
A presença de Sísera na tenda de Jael era uma situação comprometedora,
que poderia tê-la colocado sob o risco de ser estuprada. Porém, Sísera se
ajoelha entre os pés dela, não em ato sexual, mas morto. A descrição de
Sísera caindo parece estar em conflito com a narrativa de 4.21, na qual se
diz que Sísera já estava deitado quando Jael o matou. Um guerreiro, mesmo
cansado, estaria alerta contra alguém que se aproximasse dele com um mar­
telo e uma estaca na mão. Dificilmente Sísera estaria tão distraído a ponto

100
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

de, ainda acordado e de pé, deixar que Jael fincasse uma estaca contra sua
cabeça e a batesse com um martelo. Por outro lado, a descrição poética é
hiperbólica e enfatiza a desgraça de Sísera, que foi morto por uma mulher,
e não por um guerreiro israelita.

e. A m ã e d e S ís e ra (5 .2 8 -3 1 )

I 28-31 Dramaticamente, a cena se desloca e passa a descrever a ansiosa


mãe de Sísera, que espera pelo retorno de seu filho. De modo comovente (v.
28), ela olhara pela janela gradeada, pensando em voz alta por que a carruagem
de seu filho se atrasava. O leitor já sabe o que atrasou Sísera, ele está morto. A
mãe, contudo, interpreta o atraso como um sinal de que os guerreiros estão
ocupando o tempo na divisão dos espólios. A palavra normalmente traduzida
por “mulher” ou “dama” (moça) é raham (v. 30, raham significa “útero”). As
mulheres capturadas eram submetidas à exploração sexual e, como consequên­
cia, elas se tornavam não apenas objetos de prazer para os homens, mas tam­
bém produtoras de outra geração de escravos para seus novos mestres. A ironia
está no fato de que as ações descritas pela mãe de Sísera e suas auxiliares, com
a derrota cananeia, poderiam tornar-se o destino delas mesmas, ou seja, eram
suas roupas finas que seriam espólio de Israel, eram elas que seriam submetidas
à servidão.
O poema encerra com uma bênção para que os inimigos do Senhor pe­
reçam e Seus amigos ( ahab ) ou aqueles que o am am sejam como o sol vindo
em sua fo rça (v. 31). A palavra ahab é geralmente traduzida por amor, com a
conotação de um compromisso de profunda lealdade. E o termo usado em Dt
6.5: Você deverá, am or o Senhor seu Deus, que, por sua vez, é citado por Jesus
como o maior dos mandamentos (Mt 22.37). A última linha encerra com uma
declaração padrão de que a terra ficou em paz por uma geração.

A PARTIR DO TEXTO
A imagem de Deus como Guerreiro Divino atormenta muitas pessoas. Ela
contrasta com a abordagem não violenta de Jesus ao prover a redenção. Cristo
tomou para si a violência da morte cruel, mas não pagou violência com mais
violência. Ele instruiu Seus discípulos a superarem a perseguição respondendo
ao mal com o bem (Lc 6.27-31). Porém, mesmo Jesus cometeu atos violentos,
como quando purificou o templo (Jo 2.13-16). Da mesma forma, quando es­
tava na prisão, Paulo pediu a proteção dos soldados quando sua vida foi amea­

101
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

çada (At 23.12-35). O problema mais abrangente que inquieta o povo de Deus
através dos tempos é: a violência deve ser usada para se opor ao mal? Jesus não
identifica o Reino de Deus com um tipo de governo humano e gentil, seja ele
monárquico ou democrático. Seus discípulos são cidadãos do Reino e também
dos estados políticos em que residem. Tanto Jesus (Lc 20.25) como Paulo (Rm
13.1-7) reconheceram a autoridade do governo, mesmo quando essa autorida­
de poderia usar a violência contra o mal. Esse mal não é um conceito abstrato.
As pessoas são más e planejam más ações contra as outras, particularmente con­
tra os frágeis e pobres (Mq 2.1). A lista de horrores que humanos inflingiram
uns sobre os outros é longa e crescente. A disponibilidade de novas tecnologias
multiplica a capacidade de uma nação ou mesmo de um grupo para destruir
aqueles que julgam ser seus inimigos. Tornou-se possível exterminar popula­
ções inteiras de cidades em poucos minutos. Ficamos diante de um problema,
pois, se a violência não for usada contra as pessoas maléficas, milhões podem
ser mortos, e a população restante pode ficar submetida à opressão contínua.
Se Deus se opõe à injustiça, à exploração dos fracos, ao assassinato dos inocen­
tes, à opressão do povo, ao extermínio de populações, como enfrentaremos essa
crueldade, se não por meio de agentes que usam meios violentos para encerrar
a violência? Essa era a situação com Sísera. Deus usou o conselho de Débora, o
comando de Baraque e suas tropas, bem como as artimanhas de Jael para des­
truir as forças opressoras. Se podemos pedir que Deus destrua Seus inimigos
(Jz 5.31), é por meio de instrumentos humanos que Ele conquista a vitória.

C. Gideão, Abimeleque, Tolá e Jair (6.1—10.18)

PANORAMA

A história de Gideão é ponto de transição para o restante do livro. Os


juizes anteriores foram bem-sucedidos em libertar Israel da opressão, apesar da
tendência contínua do povo à idolatria. A hesitação de Baraque prenunciou a
solicitação de sinais feita por Gideão, com o objetivo de se sentir seguro da aju­
da de Deus. Ele também conseguiu livrar Israel de seus inimigos, mas no final
levou a nação à idolatria. Jefté, que foi usado por Deus para libertar Gileade,
não foi chamado por Ele. Sansão apenas começaria a livrar os israelitas. As his­
tórias, assim, narram a espiral descendente de Israel em direção ao caos social
e espiritual. O livro termina com uma descrição dos desvios e do estado de
guerra entre as tribos, que ilustra bem a confusão moral e espiritual resultada

102
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

da rejeição das leis de Deus em favor da adoração de outros deuses.


Gideão é um personagem ambivalente, que demonstra tanto fraqueza
como força. Chamado por Deus para libertar o povo da opressão dos midia-
nitas, ele ficou inseguro de seu chamado e de suas habilidades. E pediu a Deus
sinais que lhe assegurassem seu sucesso. Tendo certeza, ele bravamente liderou
seu grupo de guerreiros à vitória. Quando os efraimitas (8.1) o acusaram de
negligenciar o chamado à luta, Gideão diplomaticamente neutralizou a situa­
ção. Ele era brutal com seus inimigos e com quem se recusasse a ajudá-lo. Ele se
negou a aceitar a coroa de rei que lhe ofereceram, mas levou o povo à idolatria.
A história de Gideão demora mais tempo para ser contada do que a dos
juizes anteriores e, por isso, permite ao leitor observar as complexidades de
sua personalidade. A vida dele começa obscuramente, atinge o reconhecimen­
to nacional e termina com ele e sua família sendo traídos pelo povo. Depois
disso, as coisas pioram. Abimeleque cobiça a coroa que seu pai recusara e mata
seus irmãos para obtê-la. Seu governo termina em desgraça, com as tribos em
guerra. As sementes do estado bélico entre as tribos haviam sido semeadas e,
então, começavam a brotar.
A seção conclui com uma breve descrição de dois dos juizes menores, Tolá
e Jair. Suas histórias formam uma ponte para a próxima grande figura, Jefté.

1. G ideão, o ju iz relutante (6 .1 — 8.35)

a. Opressão dos midianitas (6.1-10)

POR TRÁS DO TEXTO


A introdução editorial padrão, que mostra Israel praticando iniquidades,
abre a seção. Só que, agora, são os midianitas os opressores, uma tribo maior,
associada ao clã ou à subtribo dos queneus. No capítulo anterior, foi Jael, ca­
sada com o queneu Héber, que fora louvada por matar Sísera e ajudar a livrar
Israel. Agora, a tribo maior ironicamente se torna o instrumento de Deus para
impor sobre Israel o julgamento por seus pecados. Os midianitas, tal como os
israelitas, traçavam também sua ancestralidade até Abraão. M idiã foi o quarto
filho do patriarca hebreu com sua esposa / concubina Quetura (Gn 25.1-6). A
introdução dessa seção também traz uma adição editorial posterior a respeito
da aparição de um projeta (Jz 6.8-10). Com isso, o trecho repete em forma

103
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

deuteronômica a história dos atos graciosos de Deus em favor de Israel - bem


como a história da recusa dos israelitas em escutar o Senhor. A sentença acusa
Israel de não obedecer a Deus e prefigura o anúncio divino que viria no tempo
de Jefté, a declaração de que o Senhor se recusaria a ouvir os clamores de Israel,
uma vez que a nação o abandonara. Portanto, a introdução editorial amarra a
história de Gideão aos eventos do passado e antecipa a ação divina no futuro.

NO TEXTO

H 1 - 1 0 Novamente, os israelitas fizeram o m al aos olhos do Senhor (v. 1),


voltando-se para outros deuses em adoração. A resposta de Deus foi permitir
que Midiã os oprimisse por sete anos. No século 13, os midianitas habitavam o
leste do golfo de Aqaba e eram conhecidos por suas atividades de comércio e de
pastoreio (Mendenhall, 1997, ABD-CD). Seu ancestral era Midiã, o quarto
filho de Abraão e Quetura (Gn 25.1-6). No v. 1, ela é designada como a mulher
/ esposa ( ’issâ) do patriarca. No v. 6, quando Abraão divide sua riqueza entre
os filhos, dá presentes àqueles que teve com suas concubinas (hapilagsim ), Ha-
gar e Quetura, enquanto o restante fica com Isaque. Outro laço familiar entre
Israel e M idiã fora estabelecido quando Moisés se casou com Zípora, a filha de
Reuel, um sacerdote midianita (Êx 2.15-22).
A opressão de M idiã era tão forte (Jz 6.2) que os israelitas eram forçados a
se esconder em cavernas e áreas fortificadas. No v. 3, a referência às plantações
indica que os midianitas, junto com os amalequitas e outros povos, invadiam-
-nas em bandos vindos do leste todos os anos durante a primavera. Eles deviam
deixar seus animais pastarem e devastarem os campos, destruindo, assim, a
colheita. A devastação descrita no v. 4, a destruição da plantação e do reba­
nho, está permeada de linguagem hiperbólica, que não deve ser compreendida
literalmente. A descrição de Gideão preparando um cabrito para refeição (v.
19) e de seu pai possuindo dois bois (v. 25) indica que os israelitas de modo
nenhum ficavam totalmente destituídos. Contudo, os midianitas realmente
traziam sofrimento e fome para muitos. O caminho de destruição deixado por
eles estendia-se até Gaza, em território filisteu. A referência aos camelos (v. 5)
é significativa, pois era esse animal que dava a M idiã a habilidade de se mover
rapidamente, assegurando-lhes, assim, os elementos do choque e da surpresa
na batalha. A resposta de Israel à opressão (v. 6,7) foi clamar {za aq) ao Senhor,
o Deus da libertação, que salvara a nação de sua antiga servidão no Egito.
A resposta imediata do Senhor foi enviar-lhes um homem, um profeta (v.
8); uma frase similiar à identificação de Débora, um a m ulher, um aprofetisa
104
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

(4.4). As palavras iniciais de tal profeta identificam quem o enviou: Assim diz
o Senhor Deus de Israel: Eu vos tire i do Egito e vos tire i d a casa d a servidão
(v. 8). Tais palavras foram adaptadas da declaração inicial dos Dez Mandamen­
tos (Ex 20.2) e formam a sentença que identifica o início do concerto. Juizes
6.9,10 reconta a história dos atos graciosos do Senhor em benefício do Seu
povo, libertando-o do Egito e daqueles que o oprimiam, e depois conduzindo-
-o até a terra dada a Israel. A mensagem do profeta conclui com uma estipu-
lação, o povo não deveria temer, ou seja, reverenciar os deuses dos amorreus
que habitavam a terra. Contudo, os israelitas não escutaram a voz de Deus, ou
seja, não lhe obedeceram. A estrutura dessa afirmação é a de uma ação judicial
baseada no concerto. A parte ofendida é identificada, o Senhor Deus de Israel.
Em seguida, vem uma narrativa das proezas realizadas em favor do povo e um
comando que esse deveria seguir. Em geral, a ação judicial se concluiria com
um indiciamento contra os israelitas e com uma ameaça do julgamento. Mas,
aqui, tal indiciamento fica suspenso no ar. Não há ameaça. O leitor fica livre
para concluir que a opressão de M idiã sobre Israel era tal ameaça de julgamen­
to, a punição que os israelitas já estavam sofrendo.

b. 0 c h a m a d o d e G id e ã o (6 .1 1 -4 0 )

POR TRÁS DO TEXTO


Esta seção tem muitas divisões. A aparição do mensageiro ou anjo do Se­
nhor (v. 11-24), a destruição do altar de Baal (v. 25-32), o chamado de Gideão
às tropas (v. 33-35) e a solicitação adicional de um sinal, feita por esse juiz (v.
36-40). A narrativa parece fragmentada em alguns pontos, sobretudo nas duas
seções finais. Essa é a arte do contador de histórias, que corre à frente com a nar­
ração, voltando depois aos eventos anteriores. O que é mais significativo é o nú­
mero de paralelos que a história tem com as outras narrativas, particularmente
com o chamado de Moisés. Tais paralelos serão estudados posteriormente.

NO TEXTO

■ 1 1 - 2 4 Versículos 11-24 registram o surgimento de um anjo / mensageiro


do Senhor. Ele era um membro da corte celestial enviado para representar a
forma física de Yahweh. A medida que a conversa progride, torna-se aparente
que tal mensageiro poderia ser intercambiável ou idêntico a Yahweh (cf. tam­

105
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

bém Gn 16.7-13; 21.17-19; 22.11,12; Êx 3.2,4) (Soggin, 1981, p. 114). Como


Débora (4.5), o mensageiro se sentou sob uma árvore, neste caso um carvalho
localizado em Ofra, uma cidade da tribo de Manassés localizada a oeste do Jor­
dão. O pai de Gideão era Joás, descendente de Abiezer, da tribo de Manassés
(Js 17.2). Joás aparentemente era uma figura significativa na comunidade, pois
o altar de Baal lhe pertencia (Jz 6.25), e ele teve a capacidade de diluir a raiva
do povo quando se descobriu que Gideão havia destruído o santuário sagrado
(v. 30,31).
Gideão estava batendo , ou seja, malhando o trigo (v. 11), extraindo os
caroços de grão dos talos. O lugar onde ele trabalhava era estranho, uma prensa
de uva. Algumas dessas prensas eram uma série de locais rebaixados em forma
de bacias rasas esculpidas na rocha calcária. Na primeira e menos rebaixada,
as uvas eram esmagadas por pessoas que as pisoteavam. O suco corria por um
canal até a bacia mais baixa, onde ele era coado e, em seguida, por outro ca­
nal, chegava até os jarros que eram colocados para coletar o líquido. Diante da
ameaça dos midianitas, Gideão estava usando a prensa provavelmente porque
trabalhava com quantidades menores de trigo, que poderiam ser escondidas
mais facilmente naquela área, em comparação com as eiras usadas normalmen­
te para a debulha.
O mensageiro saudou Gideão dizendo: O Senhor está com você, pode­
roso guerreiro ou o Senhor estará com você, poderoso guerreiro (v. 12). O
pronome da segunda pessoa está no singular. Gideão respondeu com um ter­
mo de respeito, M eu Senhor, ou Senhor, e, então, tentou retirar da conversa
a menção que era feita a ele diretamente: Se o Senhor está conosco, então p or
que tudo isso nos tem acontecido? Ele finalizou sua declaração com uma acu­
sação contra Deus: mas agora o Senhor nos abandonou e nos entregou nas
mãos de Midiã (v. 13). O Senhor responde pessoalmente no v. 14, retomando
o pronome singular, você. Essa é a narrativa de um chamado, que dá a Gideão
a missão de salv ar Israel das mãos de M id iã (v. 14). Tal como Moisés, o juiz
responde com alegação da própria insignificância. M inha fa m ília ( elep é tra­
duzido normalmente pelo número mil, mas aqui ele reflete o uso mais antigo,
referido a uma família ou clã) é a mais fraca de Manassés e eu sou o menos
significativo na casa de meu pai (v. 15). A resposta de Deus (v. 16) foi: Eu estou
com você. A palavra para Eu estou é êhyeh, o mesmo termo usado por Deus
ao se identificar para Moisés (Êx 3.14). A resposa de Gideão, se agora tenho
achado fav o r / graça aos seus olhos (Jz 6.17), é a mesma de Moisés quando
pede para ver a glória de Deus (Êx 33.18). O juiz, contudo, pede um sinal, uma
prova de que o mensageiro era realmente o Senhor. Hospitaleiro, Gideão ofe­
106
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

rece (Jz 6.18) um presente (minêhâ) ou oferta (Êx 30.9; Lv 7.37) ao enviado e
pede-lhe que espere por seu retorno.
A refeição oferecida por Gideão (Jz 6.19) demoraria muitas horas para
ficar pronta. A quantidade de farinha, um efa ou aproximadamente dez litros
ou nove quartos de medida seca, é muito grande. Quando Gideão trouxe a
carne, o pão sem fermento {massa) e o caldo de carne, o mensageiro o instruiu
a colocar a comida sobre uma pedra. Ele, então, a tocou com seu cajado, o fogo
consumiu o alimento, e o mensageiro desapareceu de sua vista (v. 21) (cf. o pa­
ralelo com Contend a experiência de Manoá, pai de Sansão, em Jz 13.19-21).
Então, Gideão finalmente percebeu quem seu visitante era e clamou em temor
a Deus porque ele havia visto o m ensageiro do Senhorface àface (v. 22, cf. Gn
32.31, Jacó em Peniel), uma experiência do divino que poderia fazer perecer
um mortal (Is 6.5). Contudo, Yahweh ainda estava presente, embora não em
forma corporal, e falou de modo pacífico com Gideão, garantindo-lhe que não
morrería (Jz 6.23). Em resposta, o juiz, tal como Abraão (Gn 12.8), construiu
um altar para Deus.
■ 25-32 A próxima seção descreve como Gideão destruiu o altar de Baal. A
cena muda para a noite (Jz6.25), o Senhor ordena ao juiz que arrase o santuário
dedicado ao deus cananeu, corte o poste sagrado de Aserá e transforme-o em
lenha para a fogueira (v. 26), construa um altar apropriado para o Senhor seu
Deus no topo da área fortificada do santuário e sacrifique o segundo boi de
seu pai, aquele que tinha sete anos de idade. O poste de Aserá se erguia ao
lado do altar de Baal e, como esse representava a função masculina do culto
de fertilidade, a árvore representava a feminina. O primeiro ato de Gideão foi
destruir os símbolos da adoração cananeia que haviam enfeitiçado os israelitas.
O fato de a família de Gideão ter, pelo menos, dez serviçais (v. 27) indica
que ela tinha riqueza e poder. Contudo, o juiz temia a raiva de seus parentes e
das pessoas da cidade, por isso ele cumpriu as ordens divinas à noite. O medo
de Gideão nessa passagem entra em constrate com a ordem que lhe foi dada
pelo Senhor no v. 23, qual seja, a de não temer. Quando os homens do lugar
(v. 28) descobriram que a área de adoração havia sido profanada, começaram
a investigar quem era o responsável (v. 29). Alguma pessoa não identificada
informou-lhes que Gideão era quem tinha feito tudo aquilo. Eles, então, pe­
diram (v. 30) a Joás que lhes entregasse seu filho, para que ele fosse executado.
Na resposta do pai de Gideão (v. 31), lê-se um jogo com a palavra rib, pro­
cessar, fazer uma ação judicial, disputar legalmente (KBL, p. 888-889). Por
que um deus precisaria de alguém para disputar por ele? Se Baal era um deus,
ele deveria ser capaz de processar o violador e executar a sentença. Joás estava
107
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

zombando da inefetividade do deus cananeu e, assim, demonstrando que se


tratava de uma falsa divindade. Olson observa o contraste entre a promessa de
defender Gideão, feita pelo Senhor (v. 16), e a incapacidade de Baal em defen­
der seu próprio altar. Se esse era realmente um deus, então, teria defendido seu
santuário e ferido o juiz israelita. O Senhor, por sua vez, protegeu-o e, desse
modo, demonstrou Seu poder como defensor (1998, p. 797). O nome Gideão
vem da palavra que significa “talhar para baixo” ou “cortar”. Seu novo nome
(v. 32), Jerubaal, deixe que B a a l contenda , brinca com a evidente ineficácia
do deus cananeu.
■ 33-35 A narrativa (v. 33) volta a descrever o ataque dos midianitas, ama-
lequitas e povos do leste. Eles acampavam no vale de Jezreel, que corre em dire­
ção ao leste, do monte Carmelo até o rio Jordão. Trata-se de uma região fértil,
boa para plantação de grãos e vegetais. “O Espírito do SENHOR revestiu a
Gideão” (v. 34a ARC), tomou posse dele, mas não no sentido de sobrepor-se
à consciência do juiz. O Espírito deu-lhe poder para agir, mas as ações eram
iniciadas pelo homem. Anteriormente, o Espírito do Senhor viera sobre Oto-
niel (3.10). Mais tarde, Ele fortalecerá Jefté (11.29) e Sansão (14.6 e 15.14)
com a capacidade de realizar poderosos feitos, porém haverá uma deterioração
contínua na liderança. O poder dado pelo Espírito não tornará consistente a
obediência ou santidade da pessoa. Gideão recrutou (v. 34b,35) o clã de seu
pai, os abiezritas. Também enviou mensageiros para Manassés, Aser, Zebulom
e Naftali, as tribos do norte cujas terras estavam próximas ao vale de Jezreel,
onde seus inimigos acampavam.
I 36-40 Gideão é retratado como um líder fraco e hesitante, inseguro de
que Deus cumprirá Sua palavra. Ele idealizou um teste para o Senhor lhe as­
segurar que as promessas feitas a ele seriam cumpridas, e saber se você salvará
Israelp o r m inha m ão, como disse (v. 36). Ele colocou um velo {gizzâ, palavra
que ocorre apenas nesses versículos) de lã (v. 37) na eira e pediu que, na manhã
seguinte, o orvalho molhasse apenas a porção de lã, mas não o chão. No outro
dia, logo cedo (v. 38), Gideão percebeu que o velo estava molhado com água
suficiente para encher uma tigela. Seria natural que o orvalho estivesse apenas
na lã, mas não no assoalho de pedra da eira. Assim, o juiz cautelosamente pe­
diu que o inverso acontecesse. Tal pedido era similar ao de Abraão, quando
intercedeu por Sodoma (Gn 18.32), Não deixe sua ira ard er contra mim, e eu
fa la re i apenas um a vez (Jz 6.39). Naquela noite (v. 40), Deus inverteu o sinal,
deixando o velo seco e o chão molhado.

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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

A PARTIR DO TEXTO
1. Aqueles que Deus escolhe como líderes não necessariamente refletem
as qualidades culturalmente esperadas para a liderança. Gideão não era audaz
e agressivo, mas tímido, temeroso e sempre carente de garantias. Seus pedidos,
como os de Moisés, refletiam insegurança. Moisés temia que o povo não acre­
ditasse que Deus o escolhera para aquela missão. Em resposta, o Senhor lhe
deu sinais que autenticaram sua liderança: transformou um cajado em cobra,
causou e curou a lepra, transformou água em sangue (Ex 4.1-9). Os sinais di­
vinos podiam ser recusados. Isaías ofereceu a Acaz a chance de ver um sinal de
Deus, mas Acaz recusou. Ele fizera seus planos e não queria obedecer à palavra
de Deus (Is 7.10-12). A graça divina é demonstrada em sua disposição para tra­
balhar gentilmente com aqueles que Ele chama. Para Gideão, Deus não apenas
concordou com os testes da lã e do orvalho, mas, mesmo na véspera da batalha,
enviou-o para espiar o acampamento, onde ele pôde ouvir uma mensagem de
vitória (Jz 7.9-14).
O Evangelho de João registra um número de sinais (sêmeion, frequente­
mente traduzido por “milagre”) que Jesus realizou (Jo 2.11; 6.2,14). Eles de­
monstraram não apenas o poder do Nazareno, mas também Sua identidade
como o Cristo. Muitos acreditaram, mas muitos se recusaram a acreditar que
Jesus era o Messias e rejeitaram-no. Sinais devem sempre ser interpretados pela
fé. Há uma tendência natural do povo pela busca de sinais, pela experiência de
milagres. O miraculoso, contudo, nunca satisfaz totalmente aquele cuja fé tem
de ser escorada pelos sinais. Como um ápice emocional, a intensidade da expe­
riência logo se esvai. A fé deve solidificar-se, fé em Deus e em Suas promessas.
Nossa fé deve residir em um Deus bom e fiel que se importa com Seu povo.
Colocar nossa esperança em outros é o que nos leva à idolatria.
2. Quando o mensageiro do Senhor apareceu a Gideão, a saudação levou-
-o a fazer uma pergunta que muitos hoje fariam: Se o Senhor está conosco,
então p or que tudo isso nos tem acontecido? (Jz 6.13). Como podemos saber
que Deus está conosco? Podemos identificar tempos de prosperidade, sucesso
e triunfo como sinais da presença divina? Estará Ele ausente em momentos de
perda, desespero e derrota? Devemos identificá-lo com o que é bom, e não com
o que é ruim? Como saberemos? Deus assegurou a Gideão: Eu estarei com
você (v. 16), e mais tarde revestiu-o com o Espírito (v. 34). Porém, o juiz ain­
da tinha medo e pediu por mais garantias. A graça divina pode ser observada
na gentileza com a qual Ele ajudou Gideão. Quando Deus nos chama a fazer
parte de Seu povo, Ele não espera que estejamos inteiramente preparados para

109
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

cumprir Suas ordens. É apenas por meio da graça capacitadora e sustentadora


de Deus que nos tornamos capazes de servi-lo.
3. Quando Deus se recusou a liderar os israelitas até a terra, Moisés inter­
cedeu pelo povo. Para ele, a própria identidade de Israel dependia da presença
divina. Era ela que distinguia a nação israelita (Ex 33.16). Contudo, Sua pre­
sença não podia ser identificada com qualquer conjunto de sentimentos ou sé­
rie de eventos. Deus não está necessariamente nos tempos de alegria ou deses­
pero. Muitos cristãos dão testemunho de que passaram por períodos extensos
durante os quais não tiveram nenhuma garantia de que Deus estava com eles.
Tempos assim são chamados de “a noite escura da alma”. Mesmo Jesus se sentiu
abandonado durante a crucificação (Mc 16.34). Porém, ao final, Ele pôde con­
fiantemente entregar-se nas mãos de Seu Pai (Lc 23.46). E em nossa resposta
fiel de obediência que Ele é mais bem conhecido. Se sentimos ou não Sua pre­
sença em devoções pessoais ou em momentos inspiradores de adoração, somos
chamados a continuar vivendo fielmente, independentemente das circunstân­
cias da vida (Hc 3.17-19).

c. A vitória d e D e u s (7 .1 -2 3 )

POR TRÁS DO TEXTO


O texto de Juizes é geralmente muito seguro, pois foi bem preservado. Há,
contudo, duas passagens neste capítulo nas quais surgem problemas. O final do
v. 5 e o começo do v. 6 parecem ter sofrido alguma confusão. A identificação
mais completa de como cada grupo bebia seria esperada no v. 5b. O texto é
reconstruído e, então, traduzido de diferentes modos. Boling usou o texto da
LXX para restabelecer o texto e dispôs as possibilidades em um quadro. Ele
sugere que algum escriba deslocou as palavras com suas mãos em suas bocas do
v. 5b para v. 6a e que, no processo, as palavras com suas lín guas foram omitidas.
A tradução dele, portanto, ficou “(v. 5b) ‘e todos que se ajoelharem para beber
água, com a mão na boca, separados para si.’ (v. 6a) O total daqueles que lam­
beram com suas línguas foi de trezentos homens” (1975, p. 142, 145). Na dis­
cussão do texto, a sugestão de Boling para traduzir esses versículos será seguida.
O outro problema está no v. 8. Qual é o sujeito do verbo e eles tom a­
ram (wãiyqhü )? Trata-se de um verbo na terceira pessoal do plural, que in­
dicaria tanto o povo como os trezentos homens como sujeito. É improvável
que o povo tenha tomado suas provisões e as trombetas, pois tudo isso - ou,

110
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

ao menos, as trombetas - seria necessário para quem ficasse. Foi sugerido que
o verbo deveria estar no singular, implicando, assim, que Gideão teria tomado
as provisões e trombetas do povo, para que ficassem à disposição dos trezentos
homens (Soggin, 1981, p. 137-138). Ainda assim, por que eles precisariam das
provisões dos outros? Uma melhor compreensão é a de que os trezentos ho­
mens tomaram do restante aquilo de que precisavam para a batalha.
O número de soldados indicado para ambos os exércitos parece muito
elevado em comparação com o que dizem os registros arqueológicos daquela
época. M idiã teria 135 mil combatentes, e Israel, 32 mil. Os altos números
mencionados em Juizes são uma fonte de discussão contínua. E possível que,
durante o período de transmissão oral, os números tenham sido inflados e que
os editores tenham simplesmente registrado a tradição tal como eles a encon­
traram. A visão wesleyana sobre a inspiração dinâmica toma procedimentos
como esses em consideração. Como W. B. Pope observou: “As vezes, eles [os
escritores inspirados] tinham de registrar fatos ou supor fatos, os quais eles
coletavam de registros públicos; às vezes, deviam registrar tradições, lendas e
opiniões correntes ou predições não inspiradas fornecidas por tais tradições:
nesses casos, eles eram apenas testemunhas do que encontravam (1880, 1:172)
(cf. a discussão sobre a inspiração na Introdução).

NO TEXTO
H 1-8 Esses versículos registram como o exército de Jerubaal / Gideão foi
reduzido em seu tamanho. Os 32 mil soldados israelitas (v. 1) moveram-se para
o limite sul do vale de Jezreel e acamparam perto de uma fonte chamada Ha-
rode, hoje conhecida como Ain Jalud (Hunt, 1997a, ABD-CD). Acredita-se
que monte Moré, ou “Monde da Visão”, esteja localizado em Nebi Dahi (Hunt,
1997b, ABD-CD).
As localizações gerais dos acontecimentos são conhecidas, mas, com ex­
ceção da fonte e do monte Moré, os outros lugares nomeados não podem
ser identificados com nenhum grau de certeza. Os midianitas e seus aliados
acamparam no vale de Jezreel, ao norte do lugar onde ficaram os soldados de
Gideão. O Senhor aborreceu-se do alto número de guerreiros israelitas (v. 2)
e uma razão específica para isso é fornecida: Ele não queria que Israel pudesse
reivindicar a honra pela vitória e vangloriar-se, dizendo que p o r nossa pró­
p ria mão salvam os a nós mesmos (v. 2). Deus daria o inimigo nas mãos dos
israelitas, mas a glória seria dada a Ele. O primeiro teste (v. 3) seguiu o reque­
rimento de Dt 20.8, que isenta da batalha aqueles que estão com medo. Não

111
JUÍZF.S NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

é declarado exatamente para onde os 22 mil soldados retornaram. Algumas


traduções adicionaram as palavras “para casa”, mas o texto não especifica o
lugar para onde foram.
Os dez mil soldados restantes ainda eram muitos (Jz 7.4), por isso, o Se­
nhor pensou em outro teste para reduzir esse número. Gideão levou-os até um
rio para beber. Poucos baixaram a cabeça até próximo da água e a lamberam
como um cachorro. Outros ajoelharam-se e a tomaram com as mãos, levando-
-as até a boca para beber. Deus então ordenou a Gideão que separasse os tre­
zentos que lamberam a água. O final do v. 5 está faltando no texto hebraico, a
afirmação de que o juiz separou os outros dez mil. O texto original afirma que
o número daqueles que lam beram com a mão em suas bocas era de trezentos
(v. 6). A referência das mãos na boca confunde a identificação, ela seria melhor
lida lam beram com suas lín gu as (cf. Boling, na discussão da seção anterior).
Deus, então, prometeu a Gideão que usaria os soldados restantes para derrotar
os midianitas. Os trezentos (cf. discussão anterior), então, tomaram (v. 8) as
provisões ou suprimentos de comida de que necessitavam. Possivelmente, os
dez mil e os outros 22 mil não voltaram para casa, mas retornaram p ara suas
tendas, talvez uma área de treinamento longe da batalha, mas perto o sufi­
ciente para se juntar à batalha se fosse o momento apropriado (v. 23). Houve
muita especulação sobre no que exatamente esse teste consistia. Seriam os
soldados que lamberam a água mais confiantes na proteção de Deus, enquan­
to os guerreiros que se ajoelharam, trazendo a água para a boca com as suas
mãos, seriam mais vigilantes e temerosos? Ou seriam aqueles que lamberam
descuidados e os outros, sendo guerreiros treinados, estariam diligentemente
prontos para entrar na batalha instantaneamente ? A implicação dessa última
sugestão é a de que Deus queria os mais despreparados, e não quem estivesse
pronto para a guerra. Tal escolha mostraria de modo muito claro que a vitória
era de origem divina. Qualquer que fosse a razão, foi Deus que definiu o teste
para reduzir o contingente de soldados. Nenhum motivo é dado sobre por
que um grupo foi escolhido e o outro foi dispensado. As tropas eram muito
numerosas, e o Senhor queria reduzi-las (v. 2). A vitória deveria pertencer
a Deus, não aos humanos. Levar poucos guerreiros para a batalha e trazer a
vitória demonstraria que Israel deve confiar a provisão de sua segurança ao
Senhor, e não aos deuses cananeus.
M 9-18 Novamente, o medo e a insegurança pessoal de Gideão a respeito da
batalha são retratados. Deus estava pronto e ordenou ao juiz: Levante-se! A ta­
que o acam pam ento, pois L u o entreguei nas suas m ãos! (v. 9). O verboyãrad
basicamente significa “vir / ir” (BDB, p. 432). A palavra ocorrerá muitas vezes
112
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUlZES

nos versículos seguintes, alternando seu sentido entre “vir” (v. 10,11) e “atacar”
(v. 9,10,11). Contudo, Gideão estava com muito medo de atacar (v. 10), então
Deus sugeriu que ele fosse até o acampamento com seujovem {na ar), ou auxi­
liar, Pura. O propósito da visita deles era ouvir o que o inimigo estava dizendo
a respeito de Gideão. Deus lhe disse que, ao ouvi-los, sua mão será reforçada e
atacará o acam pam ento (v. 11).

Quem era esse jovem?


O termo hebraico n a ' ar aparece 28 vezes no livro de Juizes, cada
uma delas referindo-se a uma pessoa mais jovem, que não chegou à ida­
de adulta. Em 7.10,11, Pura é o servo de Gideão, possivelm ente o seu
escudeiro, tal como o jovem que acom panhava Abimeleque (9.54). Foi um
na' ar de Sucote que deu a Gideão a lista dos 77 líderes da cidade (8.14).
Jéter, filho de Gideão (8.20), é descrito como um n a' ar. Por conta de sua
juventude, ele estava com medo de m atar os reis de Midiã. Sansão é mui­
tas vezes chamado de n a ' ar nas histórias que prenunciam seu nascim en­
to (13.5,7,8,12,24). E foi um na' a r que levou Sansão (16.26) até os pilares
que sustentavam o templo. O levita que deixa Belém e faz sua residência
com Mica é referido como um na' a r (17.7,11,12; 18.3,5). Nesses casos,
a palavra provavelmente é usada como um termo depreciativo. Ele era o
sacerdote do santuário de Mica e, portanto, do ilegítimo centro de adora­
ção em Dã. O levita cuja concubina o deixou tinha um servo não nomeado
que é referido como na' ar (19.3,9,11,13,19). Sua concubina também é
cham ada de na' ãrâ, a forma feminina dessa palavra (19.3,4,5,6,8,9). Em­
bora fosse casada com o levita, ela provavelmente não era considerada
uma mulher madura, devido à idade. Finalmente, as 400 jovens mulheres
que foram tomadas de Jabes-Gileade (21.12) eram cham adas de na' ãrâ.
Em cada caso, a pessoa designada por esse termo não era considerada
um adulto completo. Frequentemente, ela era um servo. Na maioria das
vezes, o termo surge como sim ples designação da juventude. Mas, quan­
do foi usado em referência a Jéter, ao levita de Belém e à sua concubina,
o substantivo carregava sentidos mais negativos.

O versículo 12 reforça a impossibilidade da situação. Gideão tinha 300


homens. O inimigo e seus camelos eram como uma infinidade de gafanhotos.
A hipérbole dá razão ao medo de Gideão e também funciona para dar glória
a Deus quando o inimigo for derrotado. O juiz ouve (v. 13) um homem falar
a seu vizinho sobre um sonho, e esse vizinho lhe fornece a sua interpretação.
113
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Nem todos os sonhos, mesmo em culturas antigas, tinham significado. Mas


um pesadelo especialmente angustiante era tomado como uma mensagem de
um deus. Nesse caso, o sonho vinha do Deüs de Israel e previa a destruição
dos midianitas. Ele descrevia uma enorme e redonda fatia de pão de cevada
esmagando e arrasando as tendas de Midiã. O vizinho identificou a fatia como
a espada de Gideão (v. 14) e afirmou que Deus lhe tinha dado a vitória sobre
os midianitas. Quando o juiz ouviu o sonho e sua interpretação (v. 15), sua
primeira reação foi adorar a Deus. Sua confiança fora restaurada, pois ele per­
cebera que o Senhor lhe garantiria o triunfo. Ele retornou ao acampamento
israelita e, com um discurso similar ao enunciado por Débora a Baraque (4.14),
ordenou às suas tropas: Levantem -se, pois o Senhor lhes entregou nas mãos o
acampamento de M id iã ! (v. 15).
Gideão dividiu estrategicamente os 300 soldados em três companhias de
100 guerreiros cada um (v. 16). Liderou uma delas e ordenou que as outras
seguissem suas ações. Cada homem tinha uma trombeta de carneiro e um
jarro de cerâmica, no qual uma tocha (lappid , a palavra usada para se referir
ao marido de Débora, Lapidote, 4.4) foi colocada. Os homens deveriam se­
guir o exemplo de Gideão (v. 17). Quando ele e sua companhia tocassem suas
trombetas, os outros deveriam fazer o mesmo e gritar: Pelo Senhor e por
Gideão (v. 18).
I 19-23 A batalha inicial é brevemente descrita nesses versículos. Gi­
deão e seus homens (v. 19) tomaram posição nos arredores do acampa­
mento. A vigília interm ediária na contagem israelita se dava nas primeiras
horas antes do nascer do sol. Um ataque noturno era muito temido, pois a
incapacidade de ver claramente impedia as tropas de formarem as fileiras
e de, assim, reunirem a força necessária para repelir o inimigo. Quando os
israelitas quebraram os vasos de cerâmica revelando o fogo, tocaram suas
trombetas de carneiro e gritaram : À espada, pelo Senhor e por Gideão (v.
20), o pânico invadiu o acampamento m idianita. Embora os israelitas não
tenham atacado, mas ficado no lugar em que estavam (v. 21), aos soldados
inimigos pareceria que estavam sendo atacados com toda força. No pânico
e no escuro, eles não saberiam distinguir os aliados dos adversários. Conse­
quentemente, o Senhor colocou a espada de cad a um deles contra a de seu
vizinho (v. 22a) (cf. v. 13 para observar o uso irônico do termo “vizinho”
nessa afirmação). Essa referência ao Senhor será a última na qual Ele surge
como participante ativo. Gideão falara sobre Deus em Jz 8.3,7,23, mas Ele
não mais será descrito como alguém que participa ativamente da história.
Isso é muito significativo, já que as ações do juiz israelita começam a tornar-
114
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

-se mais e mais vingativas e brutais. A personalidade dele muda, ele deixa
de ser um líder tímido e transforma-se em um conquistador impiedoso, que
age de modo independente, sem a orientação de Deus. Os sobreviventes do
ataque inicial fugiram para o leste (v. 22b,23). As localizações exatas de Be-
te-Sita, de Zererá, Abel-Meolá e Tabate não foram identificadas. Quando
o tumulto começou, Gideão convocou as tropas reservas de Naftali, Aser e
Manassés para perseguirem os inimigos em fuga.

A PARTIR DO TEX TO
Deus fizera Gideão reduzir o número de suas tropas para que Israel não
pudesse afirmar que, com sua própria força, ganhara a vitória. O Senhor deu
aos israelitas um triunfo, não por permitir-lhes a destruição dos inimigos, mas
por levar os adversários a destruírem-se mutuamente em pânico. Contudo, le­
mos ainda que Gideão cobiçou a glória do sucesso ao ordenar que suas tropas
proclamassem: À espada, pelo Senhor e por Gideão. Posteriormente, o juiz
trataria com extrema crueldade não apenas os midianitas, mas também aqueles
que se recusaram a ajudá-lo (8.10-21). Gideão garantiu para si grande honra
na batalha, mas deixou apenas um pouco para Deus. Mesmo hoje alguns acre­
ditam que estão honrando o Senhor ao matar quem quer que discorde deles. O
mal deve sempre ser combatido, e a violência deve ocasionalmente ser empre­
gada para tanto, mas a brutalidade extrema não dá honra a Deus, não honra o
Senhor Jesus, que morreu para reconciliar os povos não apenas com Deus, mas
também uns com os outros (Ef 3.13-22). A brutalidade de Gideão não é um
exemplo de obediência às ordens de Deus, mas, sim, do desejo da humanida­
de por violência sangrenta. Tanto quanto possível, devemos ter uma vida não
violenta. Aqueles que protegem a sociedade, policiais e militares, são levados
a empregar meios violentos em situações extremas, mas, mesmo nesses casos,
devem usar apenas a força necessária para impedir as pessoas de cometerem
atos maléficos. Essa é uma questão difícil para a sociedade: aqueles que se en­
tregaram para o mal buscam destruir e corromper o que é bom. Quanta força
deve ser usada para impedi-los é um problema contínuo. Não fazer nada seria
permitir que os ímpios destruam os inocentes, ao passo que ceder à brutalidade
seria apenas substituir um mal por outro.

d. A vitória e a v in g a n ç a d e G id e ã o (7 .2 4 — 8 .2 1 )

Essa seção descreve a vitória completa de Gideão sobre os midianitas e


115
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

seus aliados. Ela também injeta alguns temas perturbadores. Efraim reclamou
do papel que desempenhou na luta, mas Gideão diplomaticamente aplacou a
fúria da tribo. Jefté não foi tão diplomático, e uma guerra civil irrompeu (12.1-
6). A desintegração dos laços entre as diferentes tribos de Israel terminou por
levá-las à beira da total destruição de Benjamim (cap. 20). Gideão buscou a
vingança pessoal ao perseguir os reis de M idiã e também foi vingativo com os
líderes de Sucote e com o povo de Peniel, que se recusaram a dar hospitalidade
às tropas do juiz israelita. À medida que a história continua, os líderes tribais
tornam-se mais independentes da orientação divina, mais obstinados em sua
própria vontade, e passam a buscar seus próprios objetivos, em vez de perseguir
os propósitos de Deus.

NO TEXTO

■ 24-25 Gideão enviou mensageiros a Efraim para alistá-la em seu esforço


de barrar a fuga dos midianitas (v. 24). As tropas efraimitas foram instruídas
a tomar o controle das passagens rasas do rio Jordão e, desse modo, bloquear
as principais rotas de escape da força inimiga. A localização de Bete-Bara não
foi identificada. Efraim teve sucesso e capturou dois comandantes (v. 25) (sar ,
o mesmo termo usado para se referir a Sísera, veja 4.2), Orebe (literalmente
“corvo”) e Zeebe (literalmente “lobo”). Ambos foram executados, e seus no­
mes passaram a identificar os lugares de execução: a rocha de Orebe e a prensa,
de uvas de Zeebe (v. 25). Essa referência recorda a cena inicial da história, na
qual Gideão, com medo dos midianitas, secretamente malha grãos em uma
prensa de uvas (6.11). Agora, o juiz israelita atravessava o Jordão perseguindo
os sobreviventes do exército de Midiã.
■ 8.1-3 O próximo problema enfrentado por Gideão era relativo à honra
tribal. Os efraimitas disputaram fortem ente com Gideão (v. 1) porque ele não
os chamou para lutar no começo da batalha. Eúde convocara Efraim em pri­
meiro lugar para conquistar as passagens do rio Jordão na luta contra os moa-
bitas, e, com isso, a tribo ganhara grande honra na batalha (3.27-29). Já Gideão
só os convocou quando a luta principal já havia ocorrido e, aos efraimitas, res­
tou apenas capturar os restos do exército inimigo. Eles se sentiram insultados.
Gideão respondeu diplomaticamente (v. 2), depreciando sua própria partici­
pação na batalha e valorizando o papel desempenhado por Efraim. Eles haviam
capturado os comandantes. O que fora feito em comparação ? Gideão, então,
formulou um provérbio para reforçar seu argumento: Não são os restos das
uvas de Efraim melhores do que a vindim a (a colheita de época) de A biezer?
116
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

(v. 2). O que o próprio Gideão fizera (v. 3) não era nada, em termos de trazer
honra aos guerreiros e em comparação com a captura dos comandantes (sãrê)
do exército midianita. As palavras do juiz puderam satisfazer os efraimitas e
diluir sua revolta. A narrativa, contudo, tem um papel maior no desenvolvi­
mento do livro. O envolvimento de Efraim diminui, de principais combatentes
de Eúde passavam agora a ser tropas secundárias e, depois, sequer serão con­
vocadas por Jefté (12.1-6). Se Gideão ainda pôde aplacar a honra ferida dos
efraimitas, Jefté, mais tarde, falaria duramente com eles, e a guerra irrompería.
No final, Efraim seria humilhada em batalha. Esse é mais um exemplo no livro
de Juizes da já citada espiral de degradação espiritual contínua, que rumava em
direção à desintegração social.
H 4-9 Outro lado da personalidade de Gideão aparece, um lado vingativo
e violento. Ele e seu grupo menor de 300 homens, tendo cruzado o Jordão,
estavam exaustos m as estavam perseguindo o restante do exército m idia­
nita (v. 4). Para a última palavra desse versículo, a LXX traz “famintos”
(p e i n á õ ), que constitui uma leitura melhor (cf. v. 15, onde Gideão afirma
aos anciãos de Sucote que eles se recusaram a dar pão aos seus homens). O
juiz lhes pediu comida (v. 5), declarando que ele e suas tropas estavam em
perseguição aos reis de M idiã. Soggin observa que o nome dos dois reis sim­
boliza o destino deles e faz paralelo com os nomes dos comandantes. Zeba
significa “sacrifício” e Zalmuna é um termo composto que significa “prote­
ção negada” ou “abrigo recusado” (1981, p. 149). Os líderes (sare) de Suco­
te (v. 6) zombaram de Gideão com um jogo de palavras, perguntando-lhe se
ele tinha as mãos deles em suas mãos. O juiz respondeu furiosamente (v. 7),
com uma ameaça: após capturar os reis, ele voltaria e debulharia (d á s) a car­
ne daqueles líderes com espinhos e abrolhos. Ele então seguiu para Peniel
(v. 8), onde Jacó lutara com um homem durante a noite (Gn 32.22-32). Lá,
ele fez o mesmo pedido e recebeu a mesma resposta dada pelos líderes de
Sucote. Gideão os ameaçou (Jz 8.9), afirmando que retornaria em paz, mas
derrubaria a torre do lugar, um prédio bem fortificado. Os líderes das duas
cidades estavam céticos em relação à capacidade de Gideão de derrotar M i­
diã e escolheram esperar pelo resultado final. Se ajudassem o juiz de Israel
e ele acabasse derrotado pelas forças midianitas, as duas cidades poderíam
sofrer uma retaliação.
■ 10-12 Gideão localizou o restante do exército, 15 mil sobreviventes de
uma força total de 135 mil (v. 10). As tropas de Gideão (v. 11) marcharam
por uma rota de caravanas que passava pelos territórios de Gade e Manassés.
Noba, membro dessa tribo, tomara a cidade de Quenate e a renomeara com
117
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

0 seu próprio (Nm 32.42). Jogbeá fora dada por Moisés à tribo de Gade, que
a reconstruiu e a fortificou (Nm 32.33-36). Os midianitas ali evidentemente
se sentiram seguros, pois o acampamento era confiável e insuspeito, ou seja,
betah , a mesma palavra usada para descrever a cidade pacífica de Laís, conquis­
tada por Dã (Jz 18.10,27). O ataque (v. 12) deixou o acampamento em pânico,
e todos fugiram, permitindo que Gideão capturasse os reis.
1 13-17 Tendo capturado os reis, Gideão e seus soldados (v. 13) retorna­
ram pelo caminho da subida de Heres (localização desconhecida) e foram até
Sucote. Lá, eles prenderam um servo {na ar) dos homens de Sucote (v. 14). O au­
xiliar de Gideão, Pura, também era chamado de na‘a r (7.11). Sendo interrogado,
o servo escreveu o nome dos 77 líderes {sãré) e dos anciãos {zéqênim) de Sucote.
O servo conhecia os nomes e sabia escrever, duas indicações prováveis de que ele
trabalhava em alguma função oficial, registrando as ações dos governantes da cida­
de. Gideão, então, seguiu até Sucote (v. 15) e lhes devolveu a mesma zombaria que
recebera anteriormente. Em seguida, ele cumpriu sua ameaça e castigou os anciãos
{zéqênim) com espinhos e abrolhos. O v. 16 termina com uma expressão estra­
nha: ele ensinou {yãda) os homens d a cidade. Por um lado, Soggin acredita que
o TM traz uma leitura aceitável, por outro, ele mesmo e Boling seguem a LXX,
traduzindo kataxaiõ, castigando os homens da cidade (cf. v. 7) (Soggin, 1981,
p. 155; Boling, 1975, p. 157). Em seguida (v. 17), Gideão não apenas derruba a
torre de Peniel, mas também executa os homens da cidade. Ele já não estava mais
sendo orientado por Deus ao buscar vingança contra essas duas cidades. A única
referência ao Senhor nessa passagem está no v. 7, na resposta dada por Gideão aos
homens de Sucote. Vemos, então, não mais o homem tímido e inseguro, mas um
líder forte e autocentrado, que dá vazão a uma terrível vingança contra aqueles
que não o ajudaram.
U 18-21 A próxima seção descreve como Gideão executou os reis de Midiã.
Em algum ponto do passado, eles haviam matado os irmãos do juiz israelita no
monte Tabor, localizado no vale de Jezreel. Os reis os descreveram como pes­
soas parecidas com Gideão, cada um deles com a im agem do filh o de um rei
(v. 18). Seria essa uma resposta sincera ou estariam eles zombando do israelita?
Sabiam que seriam executados, perceberam que não tinham nada a perder, en­
tão podiam ser provocadores. Gideão descreve seus irmãos comofilh o s de m i­
nha m ãe (v. 19), uma expressão inesperada em uma cultura patriarcal. O juiz
sempre fora designado como filho de Joás, seu pai. A cultura também permitia
aos homens ter mais de uma esposa. Embora o laço entre os irmãos nascidos do
mesmo pai e mãe pudesse ser especialmente íntimo, ainda existia um forte laço
entre aqueles nascidos do mesmo pai, mas de diferentes mães. Gideão, então,
118
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

ordenou que seu filho primogênito, Jéter, matasse-os (v. 20). Ele era um naa r,
ainda não era considerado um adulto. Fazendo com que seu filho matasse Zeba
e Zalmuna, Gideão respondia à zombaria que eles fizeram contra ele. Os reis
se envergonhariam por morrerem nas mãos de uma pessoa mais jovem, alguém
que não era um grande guerreiro. Contudo, Jéter, como seu pai nos primeiros
dias, teve medo e não quis sacar a espada. Foi o próprio Gideão (v. 21) que teve
de matá-los. Posteriormente, ele tomou como espólio da guerra os ornamentos
de pescoço dos camelos dos reis midianitas.

e. G id e ã o e a idolatria d e Is ra e l (8 .2 2 -3 5 )

POR TRÁS DO TEXTO


Esta seção é composta de três partes: na primeira, Gideão recusa a oferta
de ser rei (v. 22-28), na segunda, ele morre (v. 29-32) e, na terceira, Israel retor­
na ao pecado (v. 33-35). A primeira menção à monarquia no livro é feita no v.
22, e ela será um tema contínuo. Como a confederação das tribos continuava a
deteriorar-se, a necessidade de um rei se tornava cada vez mais óbvia, lançando,
assim, as bases para o surgimento da monarquia em 1 Samuel. Gideão aqui não
apenas recusou a coroa, mas nunca foi designado como “quem julgou” Israel. É
possível que isso se deva à reação negativa do editor diante do fato de Gideão
ter produzido o éfode, que infelizmente se tornaria um objeto de adoração.

NO TEXTO

■ 2 2 - 2 8 Após a batalha, possivelmente na convocação feita para celebrar


a vitória do Senhor (v. 22), os israelitas pediram a Gideão e à sua família que
reinassem sobre Israel, já que haviam salvado / libertado ( y ã s á ) a nação da
opressão de Midiã. O termo usado para rein ar, no texto, é m ãsal, “reger ou ter
domínio, reinar” (BDB, p. 605), e não a palavra mais usada para “tornar-se rei”,
mãlak. Gideão se recusou, declarando: o Senhor rein ará sobre vocês (v. 23).
Gideão, então, requisitou (v. 24) que cada homem lhe desse um brinco de ouro
tomado como despojo dos ismaelitas chacinados. Ismael era o filho de Abraão
com Hagar (Gn 16.15), e M idiã era filho do patriarca com Quetura (Gn 25.2).
Na história de José, as duas tribos se tornam intercambiáveis (Gn 37.25,28,37).
E possível que M idiã fosse uma confedereção de tribos que incluísse ismaelitas
e queneus.

119
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Eles concordaram (Jz 8.25), e o peso do ouro recolhido (v. 26) foi de algo
próximo dos 20 quilos (quarenta e três libras) (Soggin, 1981, p. 159). Com
eles, Gideão fez um éfode (v. 27), um tipo de veste usado por um sacerdote (Êx
28.6-8) (Meyers, 1997, ABD-CD). Como a serpente de bronze que Moisés
fez no deserto (Nm 21.4-9; 2 Rs 18.4), o traje se tornou objeto de adoração.
A linguagem é bem visual. Toda Israel se p rostituiu diante daquilo, e para a
casa de Gideão, o objeto se tornou um a arapuca (v. 27). A seção fecha com a
observação (v. 28) de que M idiã fora subjugada perante os israelitas e de que a
terra teve tranquilidade por 40 anos, o tempo de uma geração. Há tristeza nessa
nota final, pois israelitas e midianitas deveriam ter uma relação pacífica, basea­
da nos laços familiares estabelecidos pelo casamento de Moisés (Êx 2.15-22; Jz
4.11), mas o laço entre eles degenerou, reduzindo-se à dominação pelo poder e
levando-os à guerra e à destruição.
I 29-32 Jerubaal / Gideão retornou para casa. Ele tinha um grande harém
(v. 30) e se tornou o pai de setenta filhos ou descendentes, um número redondo
que significa simplesmente “muitos” e que talvez inclua os netos também. Um
de seus filhos, Abimeleque (v. 31), é identificado especificamente, pois sua his­
tória será contada no capítulo seguinte. Seu nome significa meu p a i é rei, sua
mãe era uma concubina de Siquém. Não é claro que o termo “pai” em seu nome
se refere ao Senhor ou, como seria mais habitual nesse caso, a Gideão. Se for o
primeiro, então, trata-se de algo consistente com a já comentada recusa do juiz
israelita em governar, já que ele mesmo declarou o Senhor como regente de
Israel (v. 23). Se for o segundo caso, então, ao dar tal nome a seu filho, Gideão
se mostra realmente ambicioso pela coroa israelita. A ambiguidade pode ser
intencional, ter o propósito de levar o leitor a perguntar-se quem realmente
Israel queria ter como monarca, o Senhor ou qualquer outro ? A menção a Abi­
meleque forma uma de várias transições em direção ao próximo capítulo, que
narra sua tentativa frustrada de tornar-se rei.
■ 33-35 A narrativa de Gideão se encerra com uma nota editorial, segundo
a qual depois de sua morte o povo voltou a adorar ídolos (v. 33,34). Como
no v. 27, as ações dos israelitas são caracterizadas como uma prostituição aos
baalins, particularmente a Baal-Berite, ou “senhor do concerto”, cujo templo
se localizava em Siquém (9.4). Duas acusações são feitas. Primeiro, eles não se
lembraram do Senhor (v. 34), uma frase que indica que eles não obedeceram
ao concerto. Segundo (v. 35), eles não demonstraram lealdade (hesed, cf. 1.24
para a única outra ocorrência dessa palavra no livro de Juizes) à casa de Gi­
deão. A menção a Baal-Berite e a falta de lealdade devida à família do juiz que

120
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

libertara Israel de M idiã também são transições para o capítulo seguinte, pois
prenunciam como Abimeleque, ao tentar se erigir como rei em Siquém, teve de
matar seus irmãos, os filhos de Gideão.

A PARTIR DO TEXTO
Gideão começou sua magistratura destruindo um ídolo falso, mas termi­
nou-a construindo outro objeto de falsa adoração. Nosso desejo de adorar o
que vemos, tocamos e controlamos nos afasta do verdadeiro Deus e leva-nos à
escravidão idólatra. Não controlamos nossos deuses, mas aquilo que adoramos
nos controla e nos conduz por um caminho escorregadio em direção à destrui­
ção espiritual e social. Israel sequer se lembrou de permanecer fiel a Gideão e
sua família. O Deus de Israel exigiu lealdade a ele e uns aos outros. A infideli­
dade destroça a vida espiritual e comunitária. Jesus também enfatizou a neces­
sidade de fé quando declarou que os maiores mandamentos são amar a Deus e
amar o próximo (Mt 22.36-40).
Gideão representa a ambiguidade dos juizes. Fortalecido por Deus e co­
missionado para trazer livramento, no final, ele traz escravidão espiritual. A
decadente espiral social e espiritual de Israel ganhara ímpeto.

2. A fra ca ssa d a m onarquia de A b im e le q u e (9.1-57)

POR TRÁS DO TEXTO


A história da tentativa fracassada de Abimeleque em fundar uma monar­
quia está intimamente ligada à história de Gideão. Ela é introduzida no en­
cerramento do capítulo anterior, junto com a dos outros descendentes do juiz
israelita. Abimeleque era o filho de Gideão com sua concubina de Siquém. O
status social de uma concubina não é descrito em detalhes. Ela evidentemente
tinha uma posição social e legal que era aceitável, mas menor do que a de uma
esposa. Os irmãos de Jefté não permitiriam a Abimeleque parte da herança,
pois a mãe dele era uma prostituta (11.2), mas os filhos de Jacó com as cria­
das (não necessariamente concubinas) de suas esposas partilharam de seu le­
gado. O leitor também recebe a informação (8.33) de que os israelitas estavam
adorando Baal-Berite, cujo templo se localizava em Siquém, a cidade natal da
mãe de Abimeleque. Além disso, o leitor sabe que Israel não permaneceu fiel
a Gideão e à sua família (8.35). Como essa deslealdade se manifestou é algo

121
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

que será descrito nesse capítulo. Tais informações formam o contexto para os
próximos acontecimentos na história.
A cidade de Siquém desempenhou um papel importante na história de
Israel. Nos dias de Jacó (Gn 34), o governante da cidade era Hamor. Seu filho
Siquém (como o nome da cidade) violou a filha de Jacó, Diná, mas depois disso
pediu a Jacó e a seus filhos permissão para se casar com ela. Eles concordaram,
estipulando a condição de que os homens da cidade fossem circuncidados. A
cidade concordou. No terceiro dia depois da circuncisão, quando todos ainda
estavam fracos e com dor, Simeão e Levi, filhos de Jacó, atacaram a cidade e
mataram os homens. Já nos dias finais da conquista, Josué reuniu as tribos em
Siquém para renovar os votos do concerto (Js 24.1-28). Estranho é o fato de,
no livro de Josué, não se contar como as tribos conquistaram a cidade. Depois
da morte de Salomão, seu filho Roboão se reuniu com as tribos do norte em
Siquém, para ouvir as queixas que elas traziam. Infelizmente, ele recusou os
pedidos que elas fizeram, levando-as à revolta. Elas, então, proclamaram Jero-
boão como rei, e Siquém foi a primeira residência real escolhida por ele (1 Rs
12.1-25).

NO TEXTO

a. A b im e le q u e co m o re i (9.1-6)

H 1-3 Os versículos de abertura do capítulo descrevem as manobras políticas


de Abimeleque para ganhar a coroa. A passagem não diz nada a respeito de
Deus. Tratava-se de uma busca humana e egoísta pelo poder. Primeiro, o filho
de Gideão foi (v. 1) até os parentes de sua mãe. A palavra hebraica é irmãos
( ahê) de sua mãe, mas “irmãos” aqui deve ser compreendido em seu sentido
lato, ou seja, não eram apenas os seus tios, mas todos os homens poderosos
dentre os muitos familiares. Isso fica claro na última frase do v. 1, p ara todo o
clã da casa do p a i de sua mãe. Evidentemente, Abimeleque não tinha posição
social suficiente, possivelmente por ser o filho de uma concubina, para con­
versar com os senhores (ba‘ ãle) ou líderes de Siquém (v. 2), por isso ele teve
de pedir aos seus parentes que falassem por ele. Ainda que Gideão tenha se
recusado a governar Israel, evidentemente seus descendentes exerciam algum
tipo de domínio. Era comum no AOM e mesmo hoje; um filho tomando o pa­
pel de liderança do pai, tenha ele ou não qualificações para tanto. Abimeleque
contrastou o domínio (m ãsal) dos setenta com o domínio de um, um que fosse
parente deles. Lembrem-se de que eu soufeito de seus ossos e de sua carne (cf.
122
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Gn 2.23; 29.14). Esse discurso foi aceito, e os líderes de Siquém declararam:


Ele é nosso irmão (Jz 9.3). Deve-se notar a ironia de tal observação. Abime-
leque estava prestes a assassinar seus outros irmãos e, mais tarde, ele também
mataria esses, também seus irmãos, e líderes em Siquém (v. 49).
H 4-6 Dinheiro foi tomado do templo de Baal-Berite e entregue a Abimele-
que para que ele pudesse contratar homens inúteis e im prudentes (v. 4) e lhes
ordenar que matassem os descendentes de Gideão. O termo “baal” significa
“senhor” e pode referir-se a um proprietário de terra ou de escravos, um líder
urbano ou mesmo um marido. Ele era usado frequentemente para se referir a
um deus, especialmente Baal Hadade, o deus da chuva. Ele podia até mesmo se
referir ao Deus de Israel. Saul nomeu seu filho Esbaal, “um homem do Senhor”,
que, nesse caso, significa “o Senhor” (1 Cr 9.39). O nome Baal-Berite signifi­
ca “senhor do concerto”. Seu templo em Siquém pode ter sido o lugar em que
Josué celebrou a cerimônia de renovação do concerto (Js 24.1-28).
Os descendentes de Gideão foram executados por Abimeleque em uma
rocha (Jz 9.5). A frase pode ser uma indicação da morte do próprio Abime­
leque, que acontecerá quando seu crânio for esmagado por uma rocha (v. 53).
Contudo, um dos filhos de Gideão, Jotão, o mais novo, escapou. Abimeleque
foi coroado (v. 6) rei por todos os líderes de Siquém e todos os residentes (ho­
mens?) de Bete-Milo, possivelmente uma seção fortificada da cidade, onde vi­
viam os líderes.

b. A p a rá b o la d a s á rv o re s co n ta d a p o r Jo tã o (9 .7 -2 1 )

H 7-15 O versículo 7 forma uma introdução em prosa da parábola poética


de Jotão (v. 8-15). Ele estava no monte Gerizim, que era o lugar de bênçãos
estabelecido por Moisés. O monte para as maldições era Ebal (Dt 27.12,13).
Contudo, o propósito de Jotão era amaldiçoar. Ele retratou dramaticamente
como as ações dos líderes de Siquém haviam revertido a função dos montes. O
que deveria ser uma bênção se tornaria uma maldição. Na parábola, as árvores
oferecem o reinado à oliveira, à figueira e à videira. Cada uma delas recusa a
oferta. Cada uma delas tinha um propósito nobre que era mais significativo
do que reinar. Por fim (Jz 9.14), as árvores se voltaram a um espinheiro, cujo
nome científico é L ycium europaeum (KBL, p. 34). Trata-se de um arbusto que
cresce uma altura entre um e três metros (de três a dez pés) e é encontrado ao
norte do Neguebe (geocities.com). O final da parábola (v. 15) traz uma mal­
dição. O espinheiro aceitaria ser o rei se a oferta fosse feita em verdade ou em
hoa-ft ( ’e m et). Se esse fosse o caso, então as árvores tomariam refúgio em sua

123
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

sombra. A condição era obviamente absurda. Se não fosse o caso, então um


fogo sairia do espinheiro e consumiria os cedros do Líbano, árvores conhecidas
por sua longevidade, altura e utilidade na construção.
■ 16-21 No v. 16, Jotão começa a aplicar a parábolg. Seu discurso direcio­
nado aos líderes de Siquém se inicia com uma cláusula condicional extraída da
narrativa que ele contara até então: se em verdade ( em et) e em integridade
(.tãm im ) vocês agiram (v. 16). Josué exigira que os israelitas demonstrassem
as mesmas qualidades ('em et e tãm im ) em sua adoração ao Senhor (Js 24.14).
Tais qualidades obviamente estavam em falta quando eles ungiram Abimele-
que como rei e deram-lhe dinheiro para contratar os bandidos que mataram os
descendentes de Gideão. E o que diz Jz 9.17,18. Jotão declara, aos regentes de
Siquém, que Gideão arriscou a própria vida para salvá-los de Midiã. Eles, pelo
contrário, assassinaram os setenta filhos do juiz israelita e fizeram de um deles
seu rei. Com o objetivo de insultar, Jotão se refere a Abimeleque como filho
de uma escrava ( ’ã m â ), que não tem sequer o status social de uma concubina.
No AOM, bem como no Oriente Médio atual, é um grande insulto questionar
a legitimidade do nascimento de uma pessoa. Jotão novamente questinou se
eles agiram ou não em verdade (''emet) e em integridade {tãmim) (v. 19) com
relação a Jerubaal / Gideão. No v. 20, a maldição de Jotão é feita. O fogo, me­
táfora para destruição, viria tanto sobre Abimeleque quanto sobre os senhores
de Siquém, e eles devorariam uns aos outros. Depois de amaldiçoá-los, Jotão
fugiu (v. 21).

c. P la n o s co n tra A b im e le q u e (9 .2 2 -3 3 )

■ 22-24 0 reino de Abimeleque durou apenas três anos (v. 22) e foi curto
comparado com a duração da magistratura de um juiz, que geralmente era de
40 anos ou uma geração. As ações do filho de Gideão e dos líderes de Siquém
não passaram despercebidas por Deus. O nome divino usado nesse capítulo é
Eloim, não o nome do concerto, Yahweh. Um ponto de viragem na história é
sinalado no v. 23, com a afirmação Deus enviou um m al espírito. O espírito
era um membro da corte celestial enviado para plantar discórdia entre as partes
dessa aliança. Ele é chamado de mal não porque fosse maléfico em si mesmo,
mas porque suas ações buscavam causar o mal, não o bem. Tal espírito foi en­
viado (v. 24) para impor o juízo divino sobre Abimeleque tanto quanto sobre
os líderes de Siquém, por causa dos males cometidos por eles contra a família
de Gideão.
I 25 Os líderes de Siquém deram o primeiro passo. Um dos deveres de um
124
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BF.ACON JUÍZES

rei era garantir passagem segura aos viajantes. Quando os chefes da cidade en­
viaram homens para emboscar e roubar os peregrinos, eles estavam desafiando
a autoridade de Abimeleque.
■ 26-33 Gaal, filho de Ebede, e seus irmãos ou parentes vieram até Siquém
e receberam a confiança dos líderes da cidade (v. 26). O nome de Gaal vem do
verbo que significa “abominar, repugnar”. O nome de Ebede significa “servo ou
escravo”. Assim, a expressão “abominável filho de um escravo” é provavelmente
simbólico. Os eventos são datados (v. 27) na época da colheita da uva, come­
ço de outono. Fazer uma festa na presença de um deus para celebrar a safra,
que serviria para fazer novos vinhos, era parte do calendário litúrgico dessa
sociedade agrônoma. Israel participava dessa tradição, na festa das cabanas ou
Sucote (Dt 16.13-15). O texto faz uma distinção, o festejo era celebrado na
casa do deus deles (Jz 9.27), não do Deus de Israel. O povo de Siquém junto
com Gaal e sua família podem ter sido cananeus que estavam vivendo entre os
israelitas. Nessa ocasião, o filho de Ebede ridicularizou Abimeleque e sugeriu
que substituí-lo como líder de Siquém seria o melhor. Gaal perguntou retori-
camente quem é Abim eleque, e quem é Siquém p ara que nós o [Abimeleque]
sirvam os? (v. 28). Gaal estava traçando a linhagem do povo da cidade até os
dias de Jacó. Pois Siquém, filho de Hamor, o regente do lugar, havia estuprado
Diná, a filha de Jacó (Gn 34.1-31). Os antepassados de Gaal e de seus parentes,
bem como dos líderes de Siquém, eram cananeus, não israelitas (Boling, 1975,
p. 178). Ele terminou seu discurso (Jz 9.29) exprimindo seu desejo de ser o
governante da cidade e, então, chamou Abimeleque para a luta. Toda aquela
vangloria enfureceu Zebul (cujo nome significa “honrado”), o principal (v.30)
oficial da cidade (sar, cf. comentários sobre Sísera em 4.2), posição evidente­
mente atribuída pelo próprio rei. Ele alertou Abimeleque (9.31-33) para a si­
tuação e aconselhou-o a levantar suas tropas à noite e ficar de tocaia ( arab ),
estratégia que os próprios israelitas usariam mais tarde para derrotar os benja-
mitas (20.29). Ele deveria atacar a cidade logo cedo. Então, Abimeleque posi-
cionou-se em Arumá, localizada a aproximadamente 8 quilômetros a sudeste
de Siquém, uma marcha fácil para suas forças (Thompson, 1997, ABD-CD).

d. /\s b a ta lh a s d e A b im e le q u e (9 .3 4 -5 7 )

Três batalhas de Abimeleque são narradas em rápida sucessão (v. 34-41,


42-45, 50-55). Nas duas primeiras, Abimeleque foi vitorioso, mas muitos de
seus antigos apoiadores foram mortos. Como seu pai, Gideão, ele era capaz de
reprimir cruelmente a oposição, impondo destruição total sobre seus inimigos.

125
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Os versículos 46-49 parecem descrever outra batalha. Contudo, a narrativa


traz uma descrição mais detalhada da tomada do forte de Siquém. Parte da
arte do escritor é recontar um acontecimento a partir de outra perspectiva, fre­
quentemente com mais detalhes. Os dois últimos versículos (v. 56,57) trazem
os comentários resumidos do narrador. Deus puniu Abimeleque e o povo de
Siquém pelo mal que haviam cometido.
■ 34-41 Abimeleque na primeira batalha atacou Siquém e derrotou Gaal.
Ele dividiu suas forças em quatro companhias (v. 34), deslocou-se com força
em direção à cidade e ficou de tocaia ( arab) até a manhã. Quando Gaal viu
as tropas avançando, Zebul sugeriu que ele nada mais via do que as sombras à
medida que o sol nascia (v. 35,36). Esse ardil atrasou a reação de Gaal à ameaça
e permitiu que as tropas chegassem perto da cidade. Gaal fixara dois pontos
de referência (v. 37), Tabbur-erez ou meio da terra, uma pequena colina a su­
deste de Siquém, e Elon-meonenim ou carvalho dos adivinhadores, um lugar
sagrado naquela região. Quando reconheceu as tropas (v. 38), foi escarnecido
por Zebul, que, então, devolveu-lhe as próprias palavras de vangloria ditas por
Gaal anteriormente e desafiou-o a sair e lutar. Gaal conduziu os líderes de Si­
quém na batalha (v. 39), mas depois fugiu. A vitória (v. 40,41) reforçou a au­
toridade de Zebul, que pôde expulsar os parentes de Gaal da cidade. Embora
tenha derrotado as forças desse inimigo, Abimeleque evidentemente não teve
como capturar a cidade. Ainda que a autoridade de Zebul tenha aumentado,
ele era limitado quanto à ajuda que poderia dar ao rei, que recolheu suas forças
e retornou para Arumá.
H 42-45 Depois da primeira batalha, o povo da cidade evidentemente se sen­
tiu seguro o suficiente para voltar ao trabalho nos campos (v. 42). Abimeleque
novamente atacou Siquém, dessa vez com três companhias que se colocaram
para formar uma emboscada ( arab, v. 43). A companhia de Abimeleque (v. 44)
avançou para tomar o portão aberto enquanto as outras duas chacinaram os
camponeses indefesos. Dessa vez, ele conseguira tomar a cidade (v. 45), matar
seus habitantes, arrasar seus prédios e espalhar sal pelos campos, para torná-los
improdutivos (v. 45). O capítulo faz várias referências ao trabalho na terra,
com o povo engajado seja na colheita (v. 27), seja possivelmente na preparação
do solo para a semeadura da próxima safra. Como se tratava de uma sociedade
baseada na agricultura, a produção dos alimentos era de importância primária.
Uma colheita pobre levaria à fome. Por isso, ao espalhar sal pelo solo, Abime­
leque fora especialmente cruel, pois aquilo tiraria dos sobreviventes o meio de
produzir novas colheitas, condenando-os à fome ou à migração.
H 46-49 A destruição de Siquém é narrada de uma perspectiva diferente, o
126
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

assalto à área mais fortificada onde os líderes da cidade viviam. Quando os se­
nhores [ba ãle) da torre (cf. v. 2) souberam que Abimeleque entrara na cidade
(v. 46), eles foram buscar refúgio no templo. Lugares sagrados eram, muitas
vezes, tão fortemente protegidos que poderiam se transformar em santuários
nos períodos de guerra. A torre fortificada era parte do complexo templo de
El-Berite, deus do concerto, um nome alternativo ao de Baal-Berite, senhor
do concerto (v. 4). A estratégia de Abimeleque (v. 47,48) para tomar a torre
construída em pedra seria reunir uma enorme quantidade de madeira e pôr
fogo nela. Isso não destruiría a torre em si, mas poderia enfraquecer suas par­
tes feitas em pedra calcária, conduzindo um calor intenso para seu interior e
espalhando o fogo por todos os materiais inflamáveis que se encontrassem lá
dentro. Não se tratava de uma prática desconhecida, Jericó fora certa vez levada
a tal grau de destruição que uma crosta de quase um metro de cinzas restou em
seu lugar (informação dada por H. Neil Richardson, um dos escavadores). O
resultado final (v. 49) foi a morte de quase mil homens e mulheres, provavel­
mente com seus filhos também.
■ 50-55 A última batalha de Abimeleque (v. 50) foi em Tebes, cuja locali­
zação mais provável coincide com a cidade moderna de Tubas, 21 quilômetros
a nordeste de Siquém (Dyck, 1997, ABD-CD). Nenhuma razão é explicitada
para o ataque. Como a batalha anterior, a cidade é tomada, mas os líderes se
refugiam (v. 51) no forte da torre. Dessa vez, Abimeleque lidera suas tropas até
a entrada (v. 52) em uma tentativa de queimar e derrubar o portão de madeira.
Um dos defensores (v. 53), uma mulher, joga uma pedra de moinho na cabeça
do autodeclarado rei e esmaga seu crânio. De imediato (v. 54), Abimeleque
pede a seu escudeiro, um jovem (na ar), que o mate, para que a morte dele
não viesse pelas mãos de uma mulher. Era considerado vergonhoso para um
guerreiro ser morto por uma mulher, tal como Jael matara Sísera. Contudo,
foi assim que a morte de Abimeleque também foi lembrada. Tanto que, antes
de levar a mensagem da morte de Urias até Davi, foi dito ao mensageiro: Por
que vocês se aproxim aram tanto da cidade p ara lu ta r ? Não sabem que lan ­
çariam flechas do alto do muro ? Quem fo i que m atou Abim eleque, ofilh o de
Jeru b aal? Não fo i um a m ulher que lançou sobre ele um a pedra de moinho,
levando-o à morte em Tebes? (2 Sm 11.20,21). Quando os soldados (v. 55) vi­
ram que seu líder estava morto, não havia mais motivo para continuar o ataque
e, então, eles partiram.
■ 56-57 Um epílogo teológico (v. 56,57) encerra a história de Abimeleque.
O mal que ele fez ao matar os irmãos, bem como os males cometidos pelos ho-

127
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

mens de Siquém foram retribuídos por Deus. A maldição de Jotão tornara-se


o destino deles.
Nessa narrativa, a única ação atribuída a Deus foi a de enviar um mal es­
pírito (v. 23) para causar a discórdia entre os líderes de Siquém e Abimeleque.
Contudo, todos os resultados do conflito são também imputados ao Senhor.
Essa explicação é típica do pensamento do AOM. Todos os acontecimentos
são causados por Deus (ou deuses), porém os humanos são livres para fazer
escolhas e são responsáveis por elas. Os líderes de Siquém foram livres para
apontar Abimeleque como rei e para pagar pela chacina dos filhos de Gideão.
Mas, a justiça de Deus considerou-os culpados e puniu-os com a maldição de
Jotão. O pensamento ocidental deseja ver uma causa única, ou a causa é divina,
ou é humana. Ou Deus é soberano, ou os homens são livres. A Bíblia afirma as
duas coisas: o Senhor é soberano, e os humanos também são livres. O que
podemos ver como uma contradição era visto, nessa antiga cultura, como
as coisas simplesmente eram. Não se tratava de um “ou isso, ou aquilo”, mas
de um “tanto isso quanto aquilo”. Por não reconhecer esse modo de pensa­
mento, muitos foram levados à confusão teológica e a colocar a soberania
de Deus contra a liberdade humana.

A PARTIR DO TEXTO
O texto não explica por que os regentes de Siquém se tornaram hostis a
Abimeleque. Apenas uma explicação teológica é dada. Deus enviou um es­
pírito mal para suscitar problemas entre eles. Se, por um lado, os humanos
têm liberdade para agir como querem, por outro, Deus ainda é o juiz de suas
ações. Abimeleque e os governantes cometeram assassinato ao chacinar os
filhos de Gideão. Gostaríamos de uma descrição dos problemas políticos,
econômicos ou pessoais que deram vazão à hostilidade. Contudo, ela é irre­
levante para a história. Deus se colocou como juiz e, em conformidade com
a parábola de Jotão, decidiu impor-lhes, sobre suas cabecas, o mesmo mal
que haviam feito. Não há uma lei rígida de retribuição segundo a qual todos
recebam nessa vida as recompensas pelo bem e as punições pelo mal que
fazem. Contudo, há um padrão geral de retribuição ao qual Paulo se refere
quando escreve: Deus não é zom bado; tudo que um a pessoa sem eia, isso
ela tam bém colherá (G1 6.7). Não estamos diante de um ditado popular.
Gostamos de pensar que o Senhor é sempre gentil, amoroso e dócil. Porém,
ao aplicar Sua justiça, Ele traz o mal sobre as pessoas. Como escreve ainda o
apóstolo: A ira de Deus é revelad a do céu sobre toda a im piedade e m al­
dade d a hum anidade (Rm 1.18). Deus é bom, não demoníaco. Ele não se
128
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

deleita com o mal. E estende Sua misericórdia aos pecadores, chamando-os


ao arrependimento. Mas, Ele também é justo, e condena os que não se ar­
rependem. Como Senhor de toda a terra, Ele usa a violência dos humanos
para cumprir Sua vontade. O profeta do exílio exprime essa verdade quan­
do afirma abruptamente: Eu sou o Senhor e não h á outro; form ando a
lu z e criando as trevas; fazendo a prosperidade e criando o m al. Eu sou
o Senhor que fa z todas essas coisas (Is 45. 6c,7). Jesus nos ensina que, seja
nesse mundo, seja na eternidade, a justiça será feita, e o mal será julgado por
um Deus íntegro (M t 25.31-46). Na narrativa que nos foi aqui contada, o
espírito de Deus redireciona a impiedade de Abimeleque e a impiedade dos
líderes de Siquém uma contra a outra, e isso como punição por seus próprios
pecados. Enquanto a justiça de Deus é informada por Seu amor, Seu amor
também é informado por Sua justiça.

3. Toláejair (10.1-5)

NO TEXTO

Esta breve narrativa sobre dois juizes menores forma uma transição para
0 magistrado de Jefté. Também provê um interlúdio de paz entre as histórias
do reinado de Abimeleque e do período em que Jefté julgou Israel. A violên­
cia das duas narrativas é horrível. O filho de Jerubaal matou não apenas seus
irmãos, mas também os habitantes de Siquém. Jefté livrou as tribos do transjor-
dão da opressão dos amonitas, mas depois liderou uma guerra intertribal contra
Efraim. O período de Tolá e de Jair foi um tempo tranquilo, sem invasões de
forças externas ou hostilidades entre as tribos israelitas.
1 1-2 A observação sobre Tolá é breve. Ele foi (v. 1) da tribo de Issacar, oriun­
do da cidade de Samir, localizada nas colinas de Efraim. Foi sugerido que Samir
seria o nome antigo de Samaria, que mais tarde se tornaria a capital de Israel,
mas tal sugestão é duvidosa pois se sabe que Onri nomearia a futura capital
com base no nome do antigo proprietário da terra, Sêmer (1 Rs 16.24). Não há
registros de como Tolá salvou / livrou (yãsa “) Israel nem de quem ele a livrou.
Ele julgou Israel (Jz 10.2) por 23 anos e foi enterrado em sua cidade natal,
Samir.
H 3-5 Jair (v. 3) era descendente de Manassés e parente de Maquir, a quem
Gileade foi entregue (Nm 32.39-41; Dt 3.13-15). Tanto Dt 3.13,14 como

129
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Js 13.30 localizam as cidades de Jair em Basã, mas 1 Rs 4.13 a coloca em


Gileade. As duas regiões ficavam próximas uma da outra e, com o tempo,
as fronteiras entre elas podem ter mudado. Ele julgou Israel por 22 anos, o
que dá um total de 45 anos se combinados com Tolá. O total de anos para
os seis juizes considerados menores é 70, um número redondo que suscita a
possibilidade de os editores terem escolhido nomes específicos para obter
a soma compatível com sua cronologia (cf. a discussão da cronologia na
introdução). Jair (Jz 10.4) fixou uma dinastia de regentes composta por
30 filhos, que montavam jumentos e governavam 30 cidades. Ele vinha de
Gileade, na região da Transjordânia. Camom, local onde foi sepultado (v.
5), também deve ficar em algum lugar de Gileade. Sua identificação com a
região nos conduz à história de Jefté, que também era um gileadita.

4. Deus rejeita o clamor de Israel (10.6-18)

NO TEXTO

I 6-9 O ciclo de Jefté começa (v. 6) com a fórmula padrão: os israelitas ha­
viam feito o que era mau aos olhos do Senhor. A diferença é que, dessa vez, o
pecado é ampliado. Eles serviram aos baalins e Astarote, a forma plural para
as muitas manifestações dos deuses da fertilidade Baal e Astarote (cf. comentá­
rios sobre 2.13), e além disso também adoraram aos deuses dos vários povos da
terra. Em sua busca por outras divindades, eles abandonaram o Senhor e não
o serviram (v. 6). O politeísmo permite a adoração de muitos deuses, e Israel
frequentemente dedicou seu culto a outros que não o Senhor. Nesse caso, à
medida que se voltaram para as muitas divindades, esqueceram-se do Deus que
lhes havia retirado da escravidão e dado a terra. Em resposta (10.7), o Senhor
os vendeu novamente como escravos, dessa vez nas mãos dos filisteus e dos
amonitas, literalmente osfilhos de Amom. Os filisteus eram parte de um mo­
vimento populacional que começou na região do mar Egeu ao final do século
13 e se espalhou pela área da Turquia moderna e pela costa ocidental do medi­
terrâneo. Eles foram um problema contínuo para os israelitas até que Davi os
conquistou (2 Sm 5.17-25). O v. 8 começa com um jogo de palavras (os sons
r e i são repetidos) para indicar a dureza da opressão sobre Israel. Elesforam
quebrados/destruídos (rã‘as), palavra que, no AT, aparece somente aqui e em
Ex 15.6 (BDB, p. 950), onde ela surge para afirmar que o Senhor destruira os

130
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

egípcios. O que Deus fizera aos egípcios, os amonitas agora estavam fazendo
contra Israel. E foram esmagados (rãsas, veja 9.53, no qual o crânio de Abi-
meleque é esmagado). A terra de Amom estava ao leste de Gileade. A região da
Transjordânia sentiu a crueldade deles por 18 anos. Amom também cruzou o
rio Jordão (v. 9) e atacou Judá ao sul, a colina central de Benjamim e Efraim.
■ 10-14 O ciclo normal continua (v. 10) com os israelitas clamando {za aq)
ao Senhor. Só que dessa vez eles incluem uma confissão de pecado, reconhecendo
terem abandonado a Deus para servir outros deuses. A resposta divina veio na
forma de uma ação judicial do concerto. Ela começa retomando as graciosas pro­
ezas de livramento praticadas pelo Senhor, desde o êxodo do Egito (v. 11), e lista
as nações que Israel enfrentou durante a conquista e durante os dias dos primeiros
juizes. O último povo nomeado é o maonita (v. 12). Uma leitura mais correta de
acordo com a LXX indica que são os midianitas, os inimigos de Gideão, que são
aqui referidos. O versículo 13 contém tanto a acusação —eles haviam quebrado
o concerto ao adorar outros deuses - quanto a ameaça: Portanto não m ais os
salv arei! { y ã sa cf. v. 1). Deus diz aos israelitas que, então, clamem aos deuses
que escolheram. Israel era do Senhor porque Ele a escolhera. Contudo, a nação
escolhera outras divindades e, desse modo, abandonara-o.
H 15-16 Israel clama a Deus uma segunda vez, confessando seu pecado e dei­
xando as outras divindades para trás, como sinal de arrependimento. O final do
v. 16 é difícil. Ele pode ser traduzido como: Sua alm a estava im paciente com
a tributação de Israel. Duas interpretações opostas são possíveis. Deus esta­
va “cansado” ou “desencorajado” (qãsêr) pela “tribulação” ou “estrago” ( amãl!)
de Israel e determinado a permitir que a nação sofresse as consequências de
seu pecado. Ou o “problema” ( am ãl!) que afligia Israel era mais do que Deus
poderia suportar {qãsêr), e Ele iria ajudar o povo. O texto pode ser proposita-
damente ambíguo, apontando para o mistério dos juízos de Deus, no qual se
misturam justiça e misericórdia de um modo que desafia as categorias humanas
de classificação. Deus rejeita o arrependimento de Israel, mas ainda fica como­
vido com seu sofrimento. Olson observa: “É o sofrim ento de Israel, não seu ar­
rependimento profundo, que motiva qualquer mudança potencial nos planos
do Senhor” (1998, p. 852). Os eventos seguintes também dão evidência de que
a opção não é necessariamente ou / ou, mas tanto / quanto. Deus não promo­
veu um salvador para Israel. Os líderes de Gileade fizeram sua própria escolha.
Contudo, o Senhor deu a Jefté vitória em batalha. Ele não viria resgatá-los da
mesma maneira que no passado, porém, Ele não os havia abandonado.
■ 17-18 Os últimos dois versículos do capítulo descrevem como os amo­
nitas vieram lutar contra Gileade e como os comandantes {sãré) gileaditas se
131
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

confundiram para escolher quem os lideraria. Eles não perguntaram a Deus,


mas, como Calebe (1.12), ofereceram um preço para quem pudesse conduzi­
dos à vitória. Nesse caso, não era uma filha que se oferecia em casamento, mas
o direito de governar, de ser o chefe (v. 18) dos gileaditas.

A PARTIR DO TEXTO
1. A crença popular de que Deus perdoará porque é isso o que Ele faz dificil­
mente se reconcilia com a passagem analisada. Israel se arrepende, mas o Senhor
não perdoa. A superficialidade do arrependimento dos israelitas foi demonstrada
inúmeras vezes no livro. Quando era oprimida, a nação se voltava para o Senhor,
o Deus do livramento. Porém, quando a ameaça passava, ela retornava à adoração
dos deuses da fertilidade. Esse arrependimento superficial foi um padrão contí­
nuo na história de Israel. Olson observa que “Deus parece genuinamente em des­
vantagem quando o assunto é como transformar Israel” (I998,p. 826). Oseias sabia
que a liturgia de arrependimento de Israel registrada em Os 6.1-3 estava vazia de
sentido. Dizer as palavras certas e seguir a liturgia necessária não era suficiente.
O quefarei com você, E jraim ?
O quefarei com você, Ju d á ?
Seu amor maisforte é como a nuvem da m anhã;
Ainda como o orvalho, que vai embora cedo (Os 6.4).
Jeremias condena igualmente o modo desonesto de tratamento dos escravos
quando a Babilônia sitiava Jerusalém. Para ganhar o favor de Deus, o rei e o
povo fizeram um concerto para libertar seus escravos. Contudo, quando os ba­
bilônios desfizeram o cerco para responder à ameaça dos egípcios, os israelitas
tomaram de volta seus antigos escravos (Jr 34.8-22).
O problema do arrependimento insincero não é limitado aos tempos an­
tigos. No filme E o vento levou, Scarlet ficou perturbada quando soube que
Deus a enviaria para o inferno. Rhett zombou dela, pois sabia que ela não esta­
va arrependida do que fez, mas com medo da punição. E comum àqueles que
abusam de seus cônjuges e filhos arrependerem-se depois. Eles pedem, emocio­
nados e em lágrimas, o perdão, prometendo nunca mais cometerem os mesmos
atos. Contudo, quando se enfurecem, novamente fazem as mesmas brutalida-
des contra a família. Outros habituaram-se a mentir, roubar ou trair. Vício em
pornografia é uma preocupação crescente. O verdadeiro arrependimento deve
vir acompanhado da determinação de tranformar-se, mesmo se isso significa
confessar publicamente e buscar a ajuda de conselheiros que possam ajudar
na mudança de padrões e hábitos. A verdade relativa ao comportamento de
132
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

alguém deve ser enfrentada e reconhecida diante de Deus e daqueles que foram
feridos. O arrependimento é uma exigência fundamental para o perdão e para
a reconciliação. Clendenen e Martin afirmam:
O Novo Testamento insiste no fato de o arrependimen­
to genuíno ser um requisito necessário para o perdão. Je­
sus prescreve o perdão para um pecador arrependido (Mt
18.15c), mas a expulsão e a indisponibilidade do perdão para
um transgresor recalcitrante (Mt 18.16,17) (2002, p. 66).
2. Há uma ambiguidade no julgamento de Deus. Tanto a justiça como a
misericórdia devem ser feitas. Elas não são qualidades concorrentes, mas com­
plementares. Justiça sem misericórdia torna-se legalismo. Misericórdia sem
justiça torna-se sentimentalismo. Deus proclamou a Moisés no monte Sinai
que Ele era misericordioso e gracioso, um Deus que manteria Sua lealdade ao
concerto por mil gerações e que perdoaria os pecados. Porém, Ele também se­
ria um Deus que não perdoaria os culpados; a punição viria sobre toda a famí­
lia (Ex 34.6,7). Por todos os pecados que Israel cometera, Oseias anunciou que
Deus estava determinado a enviar a nação para o exílio (Os 11.5-7). Isso signi­
ficava que as cidades seriam capturadas e que muitos seriam assassinados. Os
sobreviventes seriam tratados horrivelmente e teriam de reassentar-se em terra
estrangeira. Contudo, em meio a tal proclamação, Deus recuou ante o horror.
Sua compaixão deu espaço à misericórdia. Aquele não seria o fim de Israel. Por
quê? Porque Eu sou Deus, e não humano, o Santo em seu meio (Os 11.9b).
Deus não se afastaria de Seu povo, indiferente ao sofrimento dele, mesmo se
tal sofrer fosse justificado pelos pecados cometidos. O Senhor sofria com eles.
Tal sofrimento tem sua expressão mais clara na cruz de Jesus. Ele não desejava
a morte, mas era daquele modo que Ele poderia trazer redenção e vida para os
outros. O escândalo da cruz é o fato de Deus, em Jesus, ter experimentado o
sofrimento e, assim, redimir aqueles que realmente se arrepedem.

D. Jefté, Ibsã, Elom, Abdom (11.1—12.15)

PANORAMA

A história do declínio social e espiritual de Israel continua a passos acele­


rados com a narrativa sobre Jefté. A abertura padrão descreve o pecado israelita
e a opressão subsequente. O que é surpreendente é que seu clamor a Deus por
133
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BlBLICO BEACON

livramento foi rejeitado. A paciência do Senhor se esgotara. Sendo repelidos


por Deus, os comandantes agiram por conta própria ao oferecerem a liderança
a Jefté. Porém, o Senhor não anulara o concerto. Ele permitiu que o novo líder
derrotasse os amonitas, como se lê na descrição da batalha em um únivo versí­
culo (11.33). Mas, importante para a história, porém, é o tolo voto de Jefté, que
ele manteve ao sacrificar sua filha. Ele tentou diplomaticamente evitar a guerra
com os amonitas quando contou a história dos dois povos (11.12-28). Mas,
ao ser confrontado pelos furiosos efraimitas, não foi tão diplomático, e, sim,
mais confrontante. No fim, isso levou a uma guerra intertribal que dizimou
Efraim. Os laços que mantinham as tribos unidas foram esticados até o pon­
to de quebrar. Posteriormente, os israelitas quasem desintegrariam Benjamim,
deixando-a próxima da aniquilação (cap. 20—21).

1. Jefté e os amonitas (11.1-40)

PANORAMA

A crise enfrentada por Israel já fora identificada como uma invasão imi­
nente dos amonitas. Os líderes estavam perdidos e não conseguiam saber quem
os lideraria na batalha. Esta seção introduz o próximo juiz, Jefté. Os anciãos de
Gileade ofereceram-lhe a liderança se ele derrotasse os amonitas. Não há indi­
cação de que eles confiaram a Deus a escolha do líder. A batalha em si é descrita
em um único versículo. A história desdobra-se em torno das negociações de
Jefté com os anciãos, com o rei dos amonitas e com Deus. O compromisso tolo
que ele assume se tornará a sua ruína (v. 34-40), e suas habilidades de negocia­
ção irão frustrá-lo e causar uma guerra intertribal (12.1-7).

POR TRÁS DO TEXTO


Amom estava preparando-se para invadir a área concedida às tribos de
Rúben e de Gade por Moisés (Nm 32.33-42). A área em disputa alongava-se
entre o uádi Arnom, que fluía até o mar Morto metade do caminho até a sua
costa leste, e o uádi Jaboque, que fluía até o rio Jordão, aproximadamente 40
quilômetros ao norte do mar Morto.
Jefté narra a conquista israelita da região da Transjordânia, e sua narração
concorda, em geral, com Nm 21.10-35. Faz-se menção a Moabe (v. 17,18) no
lugar de Amom como ameaça imediata contra Israel, e de Camos, o deus dos

134
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

moabitas, como o deus dos amonitas. Isso levanta dúvidas quanto ao contexto
histórico. As tribos de Amom e de Moabe eram intimamente ligadas, pois am­
bas traçavam sua ancestralidade até Ló (Gn 19.30-38). Além disso, a afirmação
de que Israel ocupara o território por 300 anos indica que a passagem é uma
construção posterior feita pelo editor deuteronômico (cf. a discussão sobre a
cronologia de Juizes na Introdução). Amom estava florescendo no tempo do
rei Josias (Dearman, 2006, p. 130-133) e é possível que tivesse declarado sua
soberania sobre Moabe e tomado a liderança na disputa dos moabitas pelo ter­
ritório. O rei moabita Messa reinvidicaria a região no século nono (Boling,
1973, p. 202). O discurso de Jefté forma uma base teológica e histórica, não
apenas em sua defesa do território, mas também para Josias, que posteriormen­
te usaria forças militares para incorporar a região da Transjordânia à área ex­
pandida do reino israelita, proeza realizada quando ele invadiou o território do
antigo reino de Israel (2 Rs 23.15-20). Não há indícios na história contada em
2 Rs de que Josias tenha acampado na área da Transjordânia, mas não seria in-
comum que o escritor omitisse material irrelevante para seu propósito. Porém,
Sofonias, que profetizou no começo do reinado de Josias, condenou Moabe
e Amom (Sf 2.8-10) e, nesse sentido, se a história mostra como as mensagens
de Jefté chegaram ao rei de Amom, é porque provavelmente os leitores iniciais
que ela visava eram a elite educada da corte de Josias. Tais elementos deslocam
o foco da narrativa, que deixa de estar na defesa da ocupação de Israel e passa
a concentrar-se na reinvidicação política de recuperação do controle israelita /
judeu da área da Transjordânia, feita na época de Josias.

NO TEXTO

■1-3 A história volta no tempo para apresentar Jefté, que é identificado como
um g ilead ita, um guerreiro poderoso (v. 1). Suas qualidades como soldado
são enfatizadas, pois elas se tornarão essenciais para sua subida ao poder. A
região de Gileade se estendia do Jaboque ao Arnom, no norte, e do rio Jordão,
no oeste, ao deserto, no leste. Tomou seu nome de Gileade, o filho de Maquir
e neto de Manassés (Nm 26.29). O pai de Jefté também se chamava Gileade
(Klouda, 2007, 2:572). Sua mãe não era a esposa do mencionado pai, ela é des­
crita como uma mulher da zônâ, frequentemente traduzido por “prostituta”,
mas também com o sentido possível de mulher envolvida em um caso sexual,
mas não necessariamente em troca de dinheiro. Ela também é descrita como
outra mulher (Jz 11.2). Ela pode ter sido o que nós chamaríamos de amante,

135
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

0 que lhe daria um status social menor do que a de uma concubina, mas cujos
filhos poderiam ser aceitos pelo pai como seus. Na época de distribuir a heran­
ça, porém, os filhos de Gileade com sua esposa recusaram partilhar com Jefté.
Que ele tenha tido de fugir ( bãrah ) mostra que ele estava em algum perigo (v.
3). Tobe, que significa “bom”, era uma cidade à nordeste da Síria. Como Abi-
meleque (Jz 9.4), ele reuniu os homens descritos como rêq, “vazios, ociosos ou
desprezíveis” (BDB, p. 938). Em essência, Jefté tornou-se um senhor da guerra,
que sobrevivia atacando outros.
1 4-11 A história, então, volta a tratar da ameaça amonita. Os líderes (sã rê ,
a forma plural do mesmo termo usado para Sísera, 4.7) de Gileade foram inca­
pazes de escolher um líder (10.18), então os anciãos (z iq n ê ) do lugar decidiram
oferecer a Jefté o comando das forças. Seu papel seria o de um líder militar, um
q ã sin (Js 10.24). Jefté respondeu abruptamente (Jz 11.7) e acusou os líderes de
odiá-lo e de expulsá-lo (gãra s) da casa de seu pai. A palavra “odiar” (s a n e ) é um
termo do concerto que significa agir de modo a violar um relacionamento (Ex
20.5). Ao deserdar Jefté e afastá-lo, os anciãos expulsaram-no da tribo. Con­
sequentemente, ele não tinha mais nenhuma obrigação em ajudá-los naquele
momento de tribulação. Os anciãos acreditavam que, se ele retornasse e lutasse
contra os amonitas, seria o chefe ( ros) ou governaria sobre todos que vivessem
em Gileade. Sua subida ao poder estava condicionada ao seu sucesso na batalha
(Jz 11.9). Os anciãos invocaram o Senhor como testemunha de suas palavras.
Jefté, então, decidiu voltar e assumir a posição de comandante e de chefe, mas
antes que fosse à guerra ele se dirigiu ao santuário sagrado em Mispá, para que
as palavras fossem repetidas na presença do Senhor. As palavras dos anciãos
e a ida de Jefté ao santuário formalizaram a relação e estabeleceram um novo
concerto entre eles. Muitas cidades se chamavam Mispá, mas a mencionada
nesse trecho provavelmente se refere àquela localizada no território da tribo
de Benjamim. Ela, mais tarde, desempenhará um papel importante na guerra
entre as tribos de Israel e Benjamim (20.1; 21.1). A ruptura no relacionamento
familiar exigia que um novo concerto formal fosse estabelecido, invocando o
Senhor como seu guardião, para que ambas as partes pudessem confiar uma na
outra novamente.
■ 12-28 Jefté tentou negociar com o rei de Amom (que nunca é especifica­
mente nomeado) para evitar a guerra. Mensageiros foram enviados ao monarca
perguntando-lhe por que ele queria a guerra em m inha terra (v. 12). Observe-
-se o uso do pronome em primeira pessoa. O rei acusava os israelitas de, após
virem do Egito, tom arem m inha terra (v. 13). O segundo grupo de mensa­
geiros começa negando que Israel tenha tomado qualquer terra de Moabe ou
136
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

de Amom (v. 15). O que se segue é uma descrição resumida da fuga israelita
do Egito, sua jornada em volta de Edom e de Moabe, uma vez que ambas as
nações haviam negado a Israel passagem por seu território, e a guerra contra
os amorreus que habitavam a terra naquele tempo (v. 16-22; cf. Nm 20.14-21;
21.10-35). Três vezes Jefté repetiu que Israel tomou a terra dos amorreus (v.
21-23). Ele, então, perguntou: um a vez que o Senhor, Deus de Israel, expulsou
os amorreus d a presença de Seu povo Israel, vocês agora querem tom á-la? (v.
23). Implicado em tal afirmação estava o fato de que o Senhor dera a terra aos
israelitas e de que, portanto, o rei estaria lutando não apenas contra Israel, mas
contra o Senhor.
As poucas referências feitas a Deus na narrativa são significativas. A vi­
tória sobre os amorreus é atribuída ao Senhor, Deus de Israel (v. 21). Nos
v. 23,24, Jefté faz uma série de perguntas retóricas. O propósito era mostrar
que o Senhor, o Deus de Israel, ajudara os israelitas a tomar a terra derro­
tando os amorreus, não os amonitas. A conclusão extraída por Jefté era a
de que os amonitas deveriam, então, ficar na terra que haviam recebido de
Camos, o deus deles, e não tentar tomar a terra que o Senhor dera a Israel.
Pouco é sabido sobre o deus Camos, salvo que ele era a divindade nacional
de Moabe, não de Amom. Talvez Amom tivesse usurpado o controle sobre
Moabe e estivesse reinvidicando a terra em nome da nação conquistada. No
século nono, o rei moabita Messa voltaria a reinvidicar aquela região e toma­
ria muitas cidades israelitas.
O argumento se desloca nos v. 25 e 26 em direção a uma defesa histó­
rica. O rei Balaque de Moabe não tentara lutar contra Israel, nem qualquer
outro rei amonita ao longo de mais de trezentos anos. Jefté nega (v. 27) que
pecara, ou seja, que fizera algo errado contra o rei, mas diz também que era
um mal se o rei fosse à guerra contra Jefté. O pedido final para que evitas­
sem a guerra submetia o caso ao Senhor, o Deus que seria o juiz entre eles.
A proposta era cumprir um ritual no qual Deus determinasse qual posição
estava certa. No AOM, tais rituais eram feitos para julgar casos difíceis en­
volvendo indivíduos. Alguns salmos também se referem a esses tribunais ri­
tuais (cf. Sl 7; 26; 43). O rei rejeitou o apelo de Jefté. Matthews sugere que
o discurso do líder israelita lançou as bases para uma “guerra justa”, tendo
0 Senhor como aquele que, pela batalha, decidiría quem tomaria posse da
terra (2004, p. 122). Isso é contrário ao propósito das negociações, que é o
de evitar a guerra, se possível.
1 2 9 - 3 3 Sem nenhuma outra alternativa, Jefté preparou-se para a ba­
talha. O texto afirma que o espírito do Senhor estava sobre Jefté (v. 29)
137
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

(cf. comentário sobre 3.10 e sobre o “espírito” como o poder do Senhor).


Deus não abandonaria Seu povo. Mesmo que não tivesse sido escolhido
pelo Senhor, Jefté seria fortalecido com o dom do Seu espírito. O israelita
viajou por Gileade e Manassés, reunindo seu exército. Teria ele percebido
que Deus lhe dera o espírito? É possível que não, pois, a caminho da bata­
lha (v. 30,31), ele faz um voto para que Deus lhe assegure a vitória. Essa era
uma prática comum, que tomava a forma de “se você fizer algo por mim,
eu farei algo por você”. Nesse caso, Jefté pleiteou que, se Deus lhe assegu­
rasse a vitória sobre Amom, quem quer que saísse de sua casa quando ele
voltasse seria oferecido ao Senhor como sacrifício. Não fica claro se Jefté
pretendia necessariamente sacrificar uma pessoa. A típica casa israelita ti­
nha dois andares e os animais recebiam abrigo à noite em um cômodo no
térreo. Dentre as possibilidades do que poderia sair da casa, estariam tam­
bém animais, como ovelhas, cabras, jumentos ou bois. Olson sustenta que
o voto é feito de modo intencionalmente ambíguo para que o leitor fique
se perguntando o que terminará saindo da casa dele (1998, p. 832). O Se­
nhor termina entregando os amonitas nas mãos de Jefté, e uma grande vitória é
obtida (v. 32,33). Aroer se localizava no uádi Arnom, na fronteira norte de Mo-
abe (Hawk, 2006, p. 273). Abel-Queramim possivelmente ficava logo ao sul de
Amom (Knauf, 2006, p. 7). A vitória de Jefté expulsou os amonitas da região
sul de Gileade e levou-os de volta para seu próprio território no leste. A seção
termina com a notícia de que os amonitas foram subjugados pelos Israelitas
(v. 33). Normalmente, depois de tal afirmação, declarava-se um período de paz
ou de vitória contínua (3.30; 4.23; 8.28). Dessa vez, a história continuou para
incluir dois acontecimentos perturbadores.
■ 3 4 - 4 0 O voto de Jefté teve consequências horríveis. Quando retornava
para sua terra natal, em Mispá de Gileade (Gn 31.43-55), quem primeiro
saiu da porta de sua casa foi sua filha, que era filha única. Isso foi um cho­
que tremendo para ele. Sua primeira resposta (Jz 11.35) foi um ato de luto,
rasgar suas vestes (2 Rs 22.11). Em seguida, ele a culpou por humilhá-lo
(humilhante?). Se, por um lado, Jefté evidentemente acreditava que o voto,
uma vez dado ao Senhor, não poderia ser retomado, por outro, não tomou
para si a culpa por fazer uma promessa tão tola. Sua filha (Jz 11.36), que
jamais é nomeada, também acreditava que, tendo o Senhor dado a seu pai
a vitória sobre os amonitas, nada mais poderia desfazer o voto. A atitude
dos dois reflete a crença de que, feita a promessa, se Deus a aceitou, ela deve
ser cumprida. Caso contrário, a divindade se irritaria e puniria o quebrador
da promessa. A função dessa narrativa é descrever a desintegração espiritual
138
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

contínua de Israel. Os personagens acreditavam que o Senhor era como os


deuses cananeus e que Ele exigiria o cumprimento do voto, mesmo se isso
envolvesse o sacrifício humano.
O voto imprudente de Jefté é similar ao juramento tolo ou imprudente
(lendo-seya a l como “ser tolo”, BDB, p. 383) que Saul fez diante de suas tropas
(1 Sm 14.24). Quando se descobriu que Jônatas transgredira o juramento, o rei
quis levar a cabo sua promessa e executá-lo. As tropas se opuseram e forçaram
Saul a deixá-lo viver (1 Sm 14.43-45). Nos dois incidentes, um filho ficou em
risco. Se a filha de Jefté não tinha ninguém para interceder por ela, seu pai de­
veria saber que o Deus de Israel era diferente dos deuses cananeus e que não se
agradaria da morte dela.
A história se passa no tempo dos juizes, mas ela foi escrita para uma au­
diência do século sétimo, que viu Manassés queimar seu filho em sacrifício
(2 Rs 21.6) e os residentes de Jerusalém irém até Tofete, no vale de Ben-
-Hinom, oferecer seus próprios filhos em holocausto a Moloque, deus dos
amonitas (2 Rs 23.10; Jr 7.31). Lida nesse contexto, a história liga as ações
de Jefté às práticas posteriores de Judá. E se torna, então, uma narrativa
sobre a vergonha de ver um salvador de Israel, que recebera o espírito do
Senhor, fazendo um voto e um sacrifício que o próprio Senhor condenaria.
A filha pediu (Jz 11.37,38), e Jefté concordou que ela vagasse por dois
meses com suas amigas, para que elas pudessem lamentar por sua virgindade,
ou seja, pelo fato de que ela nunca cumpriria seu papel como esposa e mãe. Ao
final dos dois meses (v. 39), ela retornou, e Jefté cumpriu seu voto. A história
termina (v. 40) com uma observação litúrgica de que, por quatro dias, todos os
anos, as mulheres lamentavam o destino da filha de Jefté. Esse é o único lugar
em que tal prática é mencionada.

O que aconteceu com a filha de Jefté?


Antigos debates judaicos sobre Jefté condenaram seu voto tolo e
consideraram aquele sacrifício como algo contrário à Torá. No século
20, o estudioso judaico Ibn Ezra sugeriu que o final do v. 31 deveria
ser lido: será (u m p re s e n te ) p a ra o S e n h o r q u e u o s a c r ific a r e i
e m h o lo c a u s to . Uma vez que o sacrifício de sua filha seria inaceitá­
vel, Ibn Ezra propôs que Jefté, então, construiu uma casa na qual ela
viveu como uma virgem perpetuam ente. A "so b revivê n cia” da filha
apareceu na interpretação cristã quando foi adotada por Nicolas de
Lyra (ca. 1270 d.C. - 1349 d.C.). Como Jefté é listado como um dos

139
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

heróis da fé (Hb 11.32), foi considerado inapropriado que ele com e­


tesse realm ente um sacrifício humano. Essa interpretação que insiste
na sobrevivência enfraqueceu a tensão. Ao longo dos muitos séculos
seguintes, estudiosos debateram as diferentes leituras. Nos séculos
18 e 19, muitos com entadores e pregadores, como John Wesley, Jo-
nathon Edw ards, Adam Clarke e Richard Watson, concordaram que a
filha não foi morta, m as perm aneceu uma virgem . No século 20, com
o surgim ento do criticism o histórico e a com preensão da "revelação
progressiva", segundo a qual Deus revelou Sua vontade ao longo de
um período de tempo que culm inou com a Encarnação, a interpreta­
ção do sacrifício humano novam ente dominou as opiniões acadêm icas
(para uma discussão abrangente da história das leituras do voto e do
sacrifício, cf. Gunn, 2005, p. 133-169).

2. A guerra com Efraim (12.1-7)

POR TRÁS DO TEXTO


Essa é a terceira narrativa de Efraim sendo chamada para a guerra. Ela era
uma tribo importante localizada no planalto a oeste do rio Jordão. No livro de
Juizes, Efraim também serve como termômetro do declínio e da desintegração
social de Israel. Durante a época dos primeiros e mais bem-sucedidos juizes, a
tribo respondera ao chamado de Eúde e tivera grande vitória sobre os moabitas
ao tomar as vaus do rio Jordão e bloquear a fuga deles (3.27-29). Durante a fase
de transição liderada por Gideão, os efraimitas foram chamados a tomar nova­
mente as vaus quando os midianitas tentavam escapar depois da vitória inicial
do juiz israeita (7.24,25). Embora tenham tido sucesso em capturar até mes­
mo os comandantes do exército, os descendentes de Efraim ficaram irritados
porque Gideão não os chamara antes. O juiz acabou conseguindo aplacá-los
diplomaticamente, e a violência foi evitada (8.1-3). Na terceira e mais desastro­
sa fase do livro de Juizes, que começa com Jefté, os efraimitas estavam furiosos
outra vez, porque o novo juiz também não os convocara para a luta. Dessa vez,
entretanto, Jefté não teve condições de acalmá-los, e a guerra entre as tribos
irrompeu. Dessa vez, foram os Gileaditas que tomaram as vaus e bloquearam
a fuga de Efraim. Como resultado, os efraimitas sofreram uma derrota humi­

140
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

lhante e perderam 42 mil homens. A enormidade de tal perda pode ser per­
cebida quando comparada com os registros demográficos dados em Nm 1.33
(40.500) e em Nm 26.37 (32.500). O caos social ocasionado por essa guerra
entre tribos continuaria a piorar até o final do livro, com a quase extinção da
tribo de Benjamim (Olson, 1998, p. 837).

NO TEXTO

I l O v . l começa com uma afirmação brusca: Os homens de Efraim foram


convocados. Quem os chamou não é dito. Tendo cruzado o rio Jordão, a tribo
se dirigiu para Zafom, perto de Sucote e originalmente dada à tribo de Gade
(Js 13.27). Porém, Maanaim era a fronteira sul daquela metade da tribo de Ma-
nassés que se assentou a leste do rio Jordão (Js 13.30), e Zafom ficava ao norte
dali. É provável que as fronteiras entre as tribos mudassem em tempos diversos.
Como Jefté não os chamara para a guerra e, desse modo, insultara a honra deles,
os efraimitas planejavam puni-lo queimando e destruindo sua casa. Sua “casa”
já fora destruída no sentido de que sua única filha fora sacrificada e, por causa
disso, Jefté não poderia dar sequência a uma dinastia. Algo que se mostrava em
contraste com as casas prolíficas dos juizes menores Ibsã e Abdom (v. 9,14).
I 2 - 3 A resposta de Jefté enfatizou o perigo no qual ele e seu povo estavam.
Ele declarou ter convocado os efraimitas, mas que eles não o salvaram (da raiz
yãsa\ “livrar” ou “salvar”) das mãos deles (os amonitas, v. 2). Quando percebeu
(v. 3) que os efraimitas não o salvariam iyãsa'), Jefté tomou sua vida em suas
próprias mãos e lutou contra os amonitas. Foi o Senhor que entregara aqueles
inimigos nas mãos do juiz de Israel. Comparada com a resposta anterior, do
homem que praticara a diplomacia para evitar uma guerra, essas palavras não
são nada diplomáticas. Em primeiro lugar, porque acusa Efraim de recusar-se a
lutar e, em segundo, porque clama aquela vitória para o Senhor e, assim, diz aos
efraimitas que lutar contra ele seria lutar contra o Deus de Israel.
H 4 - 6 Efraim respondeu insultando os gileaditas e acusando-os de serem de­
sertores {pélite) de Efraim e de Manassés (v. 4). A declaração questionava a
legitimidade paterna de Gileade, que se refletia sobre a própria legitimidade de
Jefté (11.1). Na batalha, as chances se viraram contra os efraimitas. Os gileadi­
tas tomaram as vaus, e os efraimitas desertores {pélitê) foram presos em uma ar­
madilha. Para identificar os membros da tribo de Efraim em fuga, os gileaditas
lhes pediam que pronunciassem a palavra “Chibolete” que significa “espiga” ou
“corrente”. Essa narrativa divertiría muito os ouvintes, zombando os efraimitas,

141
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

que eram tão ineptos a ponto de não conseguirem reproduzir um som que ha­
viam acabado de ouvir. A terrível perda de vidas, contudo, foi trágica.
I 7 Jefté julgou por apenas seis breves anos. Não há nota alguma de que Israel
tenha desfrutado de um período de descanso ou paz após sua morte. Ele foi
sepultado em uma das cidades de Gileade, mas não nos é mencionado em qual
delas.

3. Ibsã, Elom e Abdom (12.8-15)

POR TRÁS DO TEXTO


A história violenta de Jefté encontra-se cercada por dois conjuntos de nar­
rativas sobre juizes “menores”. Os tempos de Tolá e Jair fornecem um interlú­
dio de paz depois do governo truculento de Abimeleque e antes das batalhas de
Jefté. Do mesmo modo, os tempos pacíficos de Ibsã, Elom e Abdom contras­
tam com a violência observada antes, na história de Jefté, e depois, com a narra­
tiva sobre Sansão. Nenhum inimigo teve de ser repelido, nenhum batalha teve
de ser ganha. Cada juiz é introduzido com a expressão depois dele. O período
de magistrado dos trêz juizes é menor do que a metade do tempo de Tolá e Jair,
o que se coaduna com a mencionada exposição do contínuo declínio na efeti­
vidade dos juizes. Os cinco juizes governaram durante um total de 70 anos, um
número redondo que, aqui, significa completude. O período do magistrado de
Sangar, o primeiro dos juizes menores, não é mencionado (3.31).

NO TEXTO

■ 8-10 Ibsã era de Belém e, embora houvesse uma Belém localizada no ter­
ritório de Zebulom (Js 19.15), uma vez que essa tribo não é mencionada e que
a Belém de Judá se mostrará importante na história seguinte (cap. 19—21),
a maior probabilidade é que a referência seja, aqui, à cidade judaica. Em con­
traste com a falta de filhos de Jefté, Ibsã tinha 30 filhos e 30 filhas. Ele casou
suas filhas com filhos de fora e tomou filhas de fora como esposas para seus
filhos. O texto não afirma se essas pessoas de fora eram de outras tribos ou clãs
israelitas ou mesmo não israelitas. O leitor é levado a refletir sobre a decadência
social e espiritual que ocorria em Israel e a imaginar se Ibsã contribuía ou não
com tal decadência.
H 11-12 De Elom, cujo nome significa “carvalho”, somos informados ape­
142
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

nas de que ele era de Zebulom, julgou Israel por 10 anos e foi enterrado em
Aijalom, na terra de sua tribo natal.
I 13-15 Abdom era de Piratom, uma cidade nas colinas de Efraim que fora
tomada anteriormente pelos amalequitas. Sua riqueza era evidente, pois con­
seguia prover um jumento para que cada um de seus 40 filhos e 30 netos - um
novo total de setenta - montasse-os.

A PARTIR DO TEXTO
1. Jefté recebera a missáo de livrar os gileaditas não de Deus, mas dos an­
ciãos da tribo. Otoniel e Eúde haviam sido ambos “promovidos” por Deus
(3.9,15), mas não nos é contado como eles receberam essa atribuição. Teriam
eles se irritado com a opressão e aproveitado a oportunidade para lutar? Deus
falou diretamente com eles? Como profeta, Débora transmitia as ordens de
Deus para Baraque (4.6). Somente na história de Gideão há registro de um or­
denamento direto (6.14). O Senhor trabalhava de diversos modos ao escolher
os salvadores. Mas, se Ele se recusara a erguer um juiz para enfrentar os amo-
nitas (10.14), isso significa que a seleção de Jefté era ilegítima. Mesmo assim,
o Senhor terminou fortalecendo o líder escolhido pelos homens e deu-lhe o
poder do espírito (11.29). Deus com Sua graça previdente trabalha por meio
dos seres humanos para realizar Sua vontade. Caifás profetizou a morte de Je­
sus ainda que se opusesse ao ministério do Senhor (Jo 11.49-52). Alguns têm a
habilidade natural, o treinamento ou a situação social que Deus precisa no mo­
mento. Outros parecem carecer de todas as qualificações para a liderança. O
Pai está disposto a trabalhar tanto com as habilidades quanto com as decisões
dos seres humanos. Porém, se o Espírito fortalece as pessoas para a obra divina,
não restringe suas decisões quando, em fúria, ódio ou tolice, elas empregam sua
posição e poder para fazer o mal.
2. Votos feitos a Deus devem ser levados a sério. O Mestre em Eclesias-
tes nos previne contra atrasar o cumprimento de um voto. Melhor não fazê-lo
do que não cumpri-lo (Ec 5.4-6). Porém, o que ocorre quando alguém, como
Jefté, faz um voto tolo ? Levantar essa questão é investigar a própria natureza
do Senhor. O Deus de Israel não era como os deuses cananeus, Ele não acei­
tava sacrifícios humanos. Tanto Jefté quanto sua filha viam o Senhor igual às
divindades cananeias e pensavam que o voto deveria ser cumprido. Eles esta­
vam transformando a religião israelita em uma religião cananeia, adicionando
elementos religiosos de uma cultura incompatível com o caráter do Deus de
Israel. Para que a mensagem do evangelho fale com a cultura do povo, práticas

143
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

de adoração e métodos de comunicação tiveram de ser adaptados para alcançar


um público maior. Contudo, deve-se ter muito cuidado ao selecionar os ele­
mentos da cultura que será incorporada. Aqueles que são incompatíveis com a
mensagem devem ser rejeitados. O evangelho está frequentemente em conflito
com os valores e as práticas religiosas de determinada cultura. Os discípulos de
Jesus muitas vezes se viram em problemas com as autoridades civis e espirituais
em razão dos conflitos existentes entre a pregação que eles traziam e as idéias e
práticas religiosas comumente aceitas. A tarefa da Igreja é comunicar o evange­
lho de modo a tornar possível a crença e a obediência fiel, mas também manter
seu caráter distintivo, que dá à mensagem a força para livrar as pessoas de sua
relação com o pecado.
3. O Espírito de Deus tornou Jefté capaz de obter uma grande vitória sobre
os amonitas. Contudo, o escritor indica que o ofício de juiz entre os israelitas
continuava sua decadência rumo ao desastre. Se, por um lado, Jefté foi bem-
-sucedido em livrar Israel daqueles dezoito anos de opressão, por outro, ele
julgou Israel por apenas seis anos. Nenhuma observação é feita sobre o período
de paz que a nação israelita teria tido com seu magistrado. Sua última ação mi­
litar termina com a chacina dos efraimitas. O carismático guerreiro do início
termina se transformando em uma força destrutiva para Israel. Stone observa
com precisão: “O poder sozinho, mesmo que seja o poder de Deus, sem a graça
auxiliar do caráter, destrói” (1992, p. 341). O Senhor pode até apontar um lí­
der, mas isso não significa que Ele inicia ou mesmo se condói de todas as ações
feitas por tal líder. A pessoa na liderança da igreja deve ser sensível à liderança
do Espírito. Essa orientação raramente surge por meio de uma revelação direta.
Deus usa diversas vozes. Algumas dessas vozes incluem as necessidades de uma
comunidade — como quando um desastre natural ocorre ou ela está soterrada
sob a pobreza, a violência e a corrupção —, o conselho da congregação como
um todo e sobretudo de seus líderes, e a sabedoria de consultores externos. Em
meio a essa escuta cuidadosa, o pastor ou a pastora deve usar sua sabedoria e
bom senso. A liderança egoísta traz consigo sua própria agenda e não se impor­
ta em machucar os outros. Bons líderes escutam com muito cuidado a orien­
tação do Espírito. Buscar a voz que Ele emprega para comunicar Sua vontade
é difícil, mas ela sempre estará de acordo com a proclamação do evangelho e
sempre virá para fortalecer a saúde espiritual da congregação.

E. Sansão (13.1—16.31)

144
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

PANORAMA

O último juiz de Israel foi Sansão, e, com sua história, o fracasso da li­
derança durante esse período chega à sua conclusão. Embora Sansão tivesse
tremenda força e pudesse realizar proezas sobre-humanas, sua vida espiritual e
política era tristemente inadequada. Ele quebrou todos os votos que fez. Não
contente em ter-se casado com uma mulher israelita, ele buscou repetidamente
aliar-se às mulheres dos filisteus incircuncisos. Ele jamais liderou uma campa­
nha militar para libertar as tribos. E, ao final, não conseguiu livrar Israel do
jugo filisteu de opressão. Como resultado, a pressão da nação inimiga forçou
sua tribo natal, Dã, a deslocar-se (Jz 17—18).
Sansão, o último juiz de Israel, contrasta com Otoniel (1.12,13; 3.7-11),
o primeiro. Ambos eram movidos pelo espírito, mas Otoniel estava preparado
para liderar a batalha e libertar os israelitas. Sansão realizou proezas pessoais,
mas apenas começou o trabalho de livramento da nação (13.5). O primeiro
tinha um casamento israelita apropriado com Acsa, a filha de Calebe, mas o
segundo recusou o matrimônio com uma mulher de seu povo e perseguiu uma
mulher filisteia. Otoniel julgou Israel por 40 anos pacíficos, ao passo que o
período de Sansão chegou apenas à metade e jamais conseguiu trazer paz às
tribos. Otoniel representa o ideal do que um juiz deveria ser, ele foi o modelo
diante do qual Sansão mostra-se falho. Conforme trabalharmos com a narrati­
va do último juiz israelita, observaremos os paralelos com os juizes anteriores e
também com outras personalidades bíblicas.
Os conceitos de saber / não saber e de trapaça ajudam a organizar as narra­
tivas díspares sobre Sansão. No cap. 13, o anjo / mensageiro do Senhor revela
à esposa de Manoá que ela conceberia um filho, mas nem ela nem o marido re­
conheceram quem era o mensageiro antes do fim da história. Quando Manoá
lhe perguntou o nome, o enviado recusou-se a contar-lhe. No cap. 14, a pala­
vra nãgad, “revelar” ou “dar a conhecer” (BDB, p. 616-617), ocorre 12 vezes.
Sansão revelou aos seus pais que desejava a mulher de Timna como sua esposa,
mas não lhes contou sobre o leão e o mel. Na história do enigma (v. 12-19),
nãgad aparece nove vezes. No cap. 15, os filisteus queriam saber quem havia
queimado seus campos e, no cap. 16, Dalila importuna Sansão para descobrir
o segredo de sua força. Saber ou não saber é um dos temas que liga as várias
histórias entre si.
Sansão também é retratado como um trapaceador que enganava os outros
e que foi enganado. Com seu enigma, ele trapaceou seus companheiros em um
festejo, mas foi, depois, trapaceado por eles, que, então, passaram a pressionar

145
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

sua esposa para descobrir a resposta. Quando ela foi dada como esposa para
outro, Sansão voltou a “trapacear” os filisteus quando queimou seus campos.
Ele entregou-se pacificamente para seus parentes e, então, chacinou os filisteus.
Dalila o trapaceou revelando o segredo da força dele e, por fim, Sansão trapa­
ceou os filisteus ao derrubar os pilares que sustentavam o templo deles, o que
acarretou na morte de muitos. Quando eram contadas nos tempos da antiga
Israel, essas histórias deveríam ser muito divertidas. O herói de Israel sempre
levou a melhor frente aos inimigos, mesmo quando morreu. Em sua inserção
no contexto do livro como um todo, a história de Sansão funciona como a
história de um anti-herói que quebrou seus votos a Deus, falhou em libertar
Israel e morreu em um ato desesperado de vingança pela perda de sua visão
(16.28). Contudo, o escritor de Hebreus ainda lista Sansão entre os heróis da
fé (Hb 11.32). Ele foi usado por Deus para iniciar a libertação de Israel da
opressão filisteia. Ele foi fortalecido pelo espírito para derrotar os inimigos. O
Senhor, de fato, ouviu suas orações para ajudá-lo em momentos de necessidade
desesperada. Com isso, o herói da história passa a ser esse Deus gracioso, que
capacitou uma pessoa imperfeita para realizar Sua vontade.

1. O nascimento de Sansão (13.1-25)

POR TRÁS DO TEXTO


A história de Sansão é contornada por numerosas observações editoriais.
A primeira, em 13.1, identifica a natureza do pecado de Israel e a opressão que
sofriam. O ciclo padrão de pecado, opressão, clamor a Deus e libertação se
quebra. Aqui, Israel não clama ao Senhor, nem o povo é libertado. Duas obser­
vações finais aparecem, uma em 15.20 e outra em 16.31. O capítulo 15 termina
positivamente. Sansão tivera uma grande vitória sobre os filisteus, e Deus res­
pondera sua oração para satisfazer sua sede. A nota editorial conclui a narrativa
afirmando que Sansão julgou Israel por 20 anos, mas não traz a descrição de um
período de paz. A primeira edição deuteronômica provavelmente terminava
nesse versículo. O capítulo 16, que também é concluído com a informação das
duas décadas do magistrado de Sansão, foi adicionada como parte do último
trabalho editorial. Esse acréscimo transforma a imagem de Sansão, que deixa
de ser um herói local para se tornar uma figura trágica, que foi traído e entregue
nas mãos de seus inimigos. Tal imagem é compatível com o tema geral do livro,
a descrição da decadência israelita em direção à anarquia social e moral, fruto
de seu fracasso em obedecer aos mandamentos de Deus.
146
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

A vida de Sansão em microcosmo reflete essa desintegração nacional. O


capítulo 14 descreve como o juiz quebra seu voto nazireu, que o impedia de to­
car uma carcaça morta (Nm 6.1-8). Durante a festa do casamento, ele bebe vi­
nho (Jz 14.10). A palavra hebraica para “festa” está frequentemente associada
com a embriaguez. No cap. 16, o voto relativo à interdição do corte de cabelo
é violado quando, por ordens de Dalila, suas tranças são aparadas. O narrador
conta ao leitor que, ao acordar, Sansão não sabia que Deus havia se afastado
dele. Contudo, o Senhor ouviu a oração final do juiz israelita e permitiu que ele
morresse em um ato heroico, mas trágico. A história leva o leitor a concluir que
a carismática liderança dos juizes termina em fracasso e que outro tipo de lide­
rança seria necessária para que Israel sobrevivesse (Stone, 1987, p. 369-372).

NO TEXTO

I 1 O capítulo abre com a observação padrão de que os israelitas haviam


novam entefeito o m al aos olhos do Senhor (v. 1). Por isso, Ele os entregou nas
mãos de seus inimigos, que, nessa ocasião, eram os filisteus.

Quem eram os filisteus?


Os filisteus eram parte de um deslocamento demográfico mais abran­
gente que partiu do mar Egeu ao longo do final do século 13. O movimen­
to era composto por diferentes tribos ou grupos que invadiram diversas
partes do Egeu oriental e do Mediterrâneo. Alguns atacaram a área hoje
conhecida como Turquia central e ocidental, destruindo não apenas a ci­
dade de Troia, mas também Hattusa, a capital dos hititas, o que acabou
levando ao fim desse império. Outros atacaram ao longo da costa oriental
do Mediterrâneo, e muitos grupos combinaram suas forças para uma inva­
são conjunta contra o Egito (ca. 1175 a.C.). Um dos grupos mais tardios,
os filisteus, conquistou e ocupou as cidades de Gaza, Ascalom, Ecrom,
Asdode e Gade. Os filisteus rapidamente adotaram boa parte da cultura
cananeia, adorando deuses como Dagom, o deus dos cereais, e Baal, o
deus da tempestade. Contudo, mantiveram também algum as de suas for­
mas culturais mais antigas, em particular o fato de deixarem a população
masculina incircuncisa. Nos livros de Juizes e de Samuel, a incircuncisão
é a referência pejorativa que mais os define. Eles tinham uma vantagem
tecnológica sobre Israel, pois conseguiam manter o monopólio sobre o tra­
balho com o ferro (1 Sm 13.19-21) e empregavam-no nas carruagens de
batalha. Embora cada cidade filisteia fosse governada de modo indepen-

147
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

dente, os filisteus eram capazes de cooperar durante a guerra. Com essas


vantagens, eles se tornaram adversários formidáveis contra os israelitas.

Sangar lutara anteriormente contra os filisteus (3.30), e eles também são


mencionados junto com os amonitas como opressores de Israel durante o tem­
po de Jefté (10.7). O que está faltando nessa observação é o clamor dos israe­
litas a Deus.
■ 2-14 A esposa de Manoá estava estéril, tal como Sara (Gn 11.30), Rebe-
ca (Gn 25.21), Raquel (Gn 29.31) e Ana (1 Sm 2.5). O surgimento de um
mensageiro especial de Deus para anunciar o nascimento de uma criança sig­
nificava que ela seria, de algum modo, especial (cf. Gn 18.10; Lc 1.13, 31). O
anjo / mensageiro do Senhor era um membro da corte celestial e representava
o próprio Deus. O mensageiro informou à esposa de Manoá, cujo nome não
é mencionado, que ela daria à luz um filho e que ela teria de evitar o vinho ou
bebidas fortes (sêkãr) e alimentos impuros (Jz 13.4). A bebida forte (sêkãr)
provavelmente era cerveja, pois, nos tempos antigos, não existiam licores des­
tilados (Boling, 1975, p. 219). Foi apenas na Idade Média que a destilação de
vários grãos, vegetais e frutas na produção de bebidas se difundiu. A criança
seria um nazireu desde o nascimento (v. 7; cf. Nm 6.1-8), deveria abster-se de
qualquer alimento ou bebida derivados de uvas, evitar tocar em cadáveres e não
cortar seu cabelo. Sua tarefa (Jz 13.5) seria começar a libertar Israel dos filis­
teus. Ao contrário de outros juizes, Sansão jamais chegaria a salvar totalmente
os israelitas ou a trazer um tempo de paz e tranquilidade para eles. Samuel
também foi um nazireu durante toda a sua vida ( 1 Sm 1.22) e lutou contra os
filisteus (1 Sm 7.10,11). Nenhum dos dois foi totalmente bem-sucedido, e foi
deixado para o rei Davi a missão de pacificar a ameaça dos filisteus (2 Sm 5.17-
25). A incapacidade de líderes carismáticos como Sansão e Samuel em livrar
Israel dos filisteus retratava as crises de liderança que posteriormente levariam
ao estabelecimento da monarquia.
Há um mistério na identificação do visitante. A esposa diz a seu marido
que ela foi visitada por um homem de Deus cuja aparência era como um anjo
/ mensageiro de Deus (v. 6). Ela, então, relata o propósito da visita dele, qual
seja, informá-la de que ela daria à luz um filho, expondo claramente os reque­
rimentos que ela deveria cumprir. A resposta de Manoá (v. 8) foi orar a Deus
pedindo pelo retorno do homem de Deus. O Senhor ouviu a oração e enviou
novamente o mensageiro até a mulher, que, então, correu e avisou seu marido.

148
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

As duas aparições foram para a mulher. O marido estava ausente. Em relação


ao pedido de Manoá por informações sobre o modo de vida que o garoto {na
ar) deveria levar e sobre o que ele faria, o mensageiro apenas indica o que já
havia dito à sua esposa. Embora ela não seja nomeada, seu papel é central na
história. Nas duas ocasiões, é somente a ela que o mensageiro aparece. O anún­
cio do nascimento de um filho, as condições para o seu período de gravidez
e o status de nazireu do filho a nascer foram revelados para ela, não para seu
marido. Manoá só recebe tais informações por meio de sua esposa.
H 15-23 Manoá, como Abraão (Gn 18.3-5), oferece hospitalidade ao men­
sageiro, um festejo com um cabrito (cf. Jz 15.1). Estranhamente o mensageiro
recusa a oferta, uma violação grave das convenções de hospitalidade, mas suge­
re que Manoá prepare o animal como oferenda para Deus. O narrador, então,
adiciona (13.16) que Manoá, a essa altura da história, não sabia quem o men­
sageiro era. Esse é um dos subtemas desse capítulo. Nem a esposa nem o mari­
do sabiam quem era o mensageiro, embora tivessem alguma noção de que ele
fora enviado por Deus. Manoá já perguntara (v. 12) sobre o estilo de vida e as
futuras proezas do filho, mas o mensageiro apenas repetira o que já havia dito
à esposa. Então, Manoá perguntou o nome do mensageiro (v. 17); o pedido
é recusado (v. 18) com a justificativa de que o nome era “muito maravilhoso”
(NRSV; o adjetivo p il’í formado a partir da raizp/‘ocorre apenas nesse trecho
e no SI 139.6) para Manoá, ou seja, incompreensível. O futuro pai de Sansão
(Jz 13.19), então, colocou a oferta, composta pelo cabrito e por cereais, sobre
uma rocha e dedicou-a ao Senhor quefa z m aravilhas (mapéli\ particípio de
p l) (nesse trecho, seguir a LXX ou o TM é um pouco estranho). Note o jogo
de palavra em torno do termo “maravilhas” (da raiz p l) nos v. 18 e 19. O nome
do mensageiro era maravilhoso demais, pois ele representava o Senhor que faz
maravilhas. Somente quando o mensageiro ascendeu aos céus junto com as
chamas da oferta que tanto o marido como a esposa reconheceram o visitante
como o anjo / mensageiro do Senhor (v. 20, 21).
Manoá ficou aterrorizado e exclamou para sua esposa: Certam ente vamos
m orrer, pois vimos a D eus! (v. 22). Era comum a crença de que contemplar um
ser divino cuja glória não estivesse totalmente camuflada levava à destruição.
Moisés tinha de abrigar-se quando Deus passava por perto (Êx 33.20-23). Isaí-
as temia e acreditava que iria morrer quando teve uma visão de Deus no templo
(Is 6.5). Em toda essa cena, é a esposa sem nome que é mais proeminente. E a
ela que o mensageiro aparece duas vezes e foi ela quem recebeu as instruções.
Foi ela que melhor compreendeu quem era aquele mensageiro, um homem de
Deus cuja aparência era como a do anjo do Senhor (Jz 13.6). Na prática, ela
149
JUlZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

demonstrou mais sensibilidade do que seu marido e tranquilizou-o com a sábia


resposta de que Deus não teria aceitado o sacrifício feito nem lhes informado
os acontecimentos futuros se tivesse a intenção de matá-los (v. 23).
H 24-25 Quando a criança nasceu (v. 24), recebeu o nome de Sansão
(samsõn), que deriva da palavra sol (sem es). A LXX translitera seu nome como
sampsõn. Um nome desses ressoa um acorde ameaçador. Aquele que era “enso­
larado” terminaria seus dias nas trevas (16.21). Não somos informados sobre o
modo como a criança foi abençoada por Deus, com exceção da observação de
que ela crescia. É possível que seja uma referência ao crescimento de sua pro­
porção e poder. E o espírito do Senhor começou a agitá-lo [perturbá-lo] (v.
25) (cf. comentários em 3.10, que trata do “espírito” como poder do Senhor).
A palavrap a a m , traduzida nesse versículo por ag itar, ocorre apenas cinco ve­
zes no AT. Em Gn 41.8, o faraó foi perturbado ou atormentado por um sonho,
como também ocorre a Nabucodonosor em Dn 2.1,3. No Sl 77.4 (v. 5 no he­
braico), o salmista também fica perturbado. De algum modo, o espírito agitava
Sansão. O comentário indica que Deus estava trabalhando nele à medida que
ele crescia. Zorá (v. 25) fica a aproximadamente 15 milhas, 25 quilômetros a
oeste de Jerusalém, e a dois quilômetros ao norte de Bete-Semes. Estaol, por
sua vez, era uma cidade próxima, a leste. Ambas ficavam no vale de Soreque,
uma região fértil ao norte da Sefelá. Sansão e seu pai foram enterrados nessa
área (16.31) e foi de lá que os danitas começaram sua migração para o norte
(18.2).

A PARTIR DO TEXTO
1. A Bíblia retrata Deus usando vários meios e momentos para chamar
as pessoas a fazerem Sua vontade. Abraão já era maduro quando Deus o con­
vocou a deixar sua terra e partir para uma região desconhecida (Gn 12.1-3).
Moisés era um pastor quando viu a sarça flamejante no monte de Deus (Êx
3.1-6). Amós também pastoreava quando o Senhor chamou-o para profetizar
em Israel (Am 7.14,15). Jeremias não fora nem concebido quando Deus o es­
colheu para ser profeta (Jr 1.5). Paulo perseguia a Igreja quando teve sua visão
em Damasco (At 9.1-8). Por que o Senhor escolhe indivíduos específicos para
tarefas específicas é um mistério. Por que o Deus do universo, Criador de tudo,
escolhe para si uma pessoa específica ou mesmo uma nação dentre todas de
Sua criação? Por que Abraão, Jacó, Isaías ou Paulo? Não sabemos, mas Ele es­
colhe. A questão é formulada pelos teólogos nos termos do problema particu­
laridade versus universalidade. Trata-se de uma das três questões que Bernard

150
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Anderson, seguindo Fackenheim, identifica como “contradições dialéticas”. A


segunda seria a transcendência de Deus versus Sua imanência ou proximidade.
Como uma divindade soberana pode criar o universo e, tendo uma existência
diferente de todas as suas criaturas, estar presente na vida de Seu povo ? A ter­
ceira seria relativa à soberania de Deus versus a liberdade humana. Se o Senhor
é o Soberano absoluto do universo, como os homens são livres para escolher
se irão obedecer-lhe ou não (1999, p. 77-78)? Em cada uma dessas tensões, é
muito difícil alcançar o equilíbrio, e os teólogos geralmente acabam enfatizan­
do um lado em detrimento do outro.
Antes mesmo de ser concebido, Sansão foi escolhido por Deus para ser
o juiz que começaria a libertar Israel. O espírito do Senhor veio sobre Sansão
para que ele ficasse preparado para atender ao chamado. Contudo, Sansão não
seria o “servo obediente” que, como Josué, cumpriu totalmente as orientações
divinas. O novo juiz estaria mais para um trapaceiro usado por Deus. O cha­
mado divino não viola o livre-arbítrio de uma pessoa, ela permanece livre para
escolher aceitar ou não a convocação. No mistério da liberdade humana, con­
tudo, essas não são as únicas escolhas. Muitas vezes, tal como ocorreu a Sansão,
a pessoa responde a Deus, mas depois perverte o chamado em favor de seus
próprios interesses. Hananias (Jr 28.1-17) fora divinamente escolhido para ser
um profeta, mas ele se ajoelhava diante da opinião pública e pregava o que fos­
se popular, não o que Deus desejava. A tentação para perverter um chamado,
mesmo por razões supostamente boas, pressiona constantemente aqueles que
são chamados por Deus ao ministério. Na igreja, os leigos corretamente exigem
que o clero viva conforme o mais alto padrão moral e ético, mas eles também
deveriam ajudar seus líderes, cultivando uma atmosfera de aceitação e obedi­
ência à proclamada Palavra de Deus. Deve haver liberdade para proclamar fiel­
mente a mensagem de Deus, mas não com dureza. O verdadeiro pastor sempre
tem o coração cheio de compaixão por aqueles que estão sob seu cuidado.
2. Manoá e sua esposa responderam com alegria ao anúncio do nascimento
de seu filho, entregue pelo visitante. E com temor perceberam que ele era um
anjo do Senhor. Desde o começo estavam cientes de que ele fora enviado por
Deus. Não há resistência à sua mensagem, apenas o desejo de esclarecer o estilo
de vida que a criança deveria seguir. Manoá ofereceu hospitalidade, confor­
me o costume do tempo. O visitante escolheu usar a oferta como um meio de
adorar diretamente a Deus. São raras, atualmente, as ocasiões em que respon­
demos com temor quando frequentamos um culto de adoração. Ouvimos cor­
retamente a mensagem de perdão de Jesus, estendida por um Pai amoroso. In-
felizmente, muitas vezes nossa familiaridade com os rituais da igreja terminam
151
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

deixando-nos complacentes diante da adoração. Em contraste, quando temos


a oportunidade de encontrar um alto oficial público, como um governador,
um deputado ou o presidente, provavelmente demonstramos mais respeito e
entusiasmo. A atitude casual do povo no tempo de Malaquias levou-o a desejar
que as portas do templo fossem fechadas para que as pessoas não pudessem
mais continuar indiferentes (Ml 1.10). Deus não espera que nos aproximemos
dele em temor e prantos, mas com respeito e reverência, esses são os elementos
que deveríam caracterizar nossos momentos de adoração.

2. O conflito de Sansão com os filisteus (14.1—15.20)

POR TRÁS DO TEXTO


O começo do cap. 14 pula para vários anos depois, quando Sansão já tem
idade para se casar. Ele fica atraído por uma mulher filisteia em Timna (v. 1),
uma cidade no vale de Soreque, aproximadamente 5 milhas (9 quilômetros) a
oeste de Bete-Semes. Sua localização, Tell el-Batashi, foi escavada, e uma gran­
de cidade filisteia da Idade do Ferro I foi descoberta (Kotter, 1997, ABD-CD).
As evidências arqueológicas também indicam que Timna não foi destruída
pelos filisteus, como ocorreu com Ecrom, não muito longe dali. A cidade foi
habitada por uma classe dominante de filisteus junto com uma mistura de ca-
naneus e, possivelmente, de israelitas. Essa diversidade da população explica,
talvez, por que Sansão pôde entrar tão facilmente na cidade e negociar uma
esposa filisteia (Shanks, 2008, p. 84).
Muitos temas abrangentes são ou prolongados ou introduzidos nesse capí­
tulo. O tema da “revelação / tornar conhecido” (nãgad) é um que se desenvolve
mais. Sansão partilha o mel com seus parentes, mas não revela de onde o reti­
rou. Ele também propõe aos convidados de sua festa de casamento um enigma
que eles não conseguem resolver. E revela o segredo para sua esposa, que, então,
entrega-o para os outros. Sansão torna-se um “trapaceiro” nesse capítulo. Ele
trapaceia os convidados com seu enigma, e eles o trapaceiam ao tomar a res­
posta de sua esposa. Em reação, Sansão engana os filisteus matando 30 homens
e recolhendo suas vestes para, posteriormente, pôr fogo em seus campos. Por
fim, Sansão desejou a mulher de Timna porque ela era certa aos seus olhos (v.
3). Esse tema será mais bem desenvolvido até que ele se torne a marca conclusi­
va do livro, cada hom em fazia o que era certo aos seus próprios olhos (21.25).

152
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

NO TEXTO

H 1 - 9 Sansão pediu a seus pais que arranjassem para ele um casamento com
a mulher filisteia. Eles protestaram, perguntando-lhe se ele não poderia encon­
trar uma israelita adequada em vez de uma mulher dos íilisteus incircuncisos.
Sansão respondeu especificamente (v. 3) a seu pai, dizendo-lhe que desejava a
filisteia porque ela era certa aos seus olhos (v. 3). A nota editorial (v. 4) infor­
ma ao leitor que os pais não sabiam que Deus usaria essa situação de modo a
possibilitar as ações de Sansão contra os íilisteus. Ela também afirma que n a­
quele tempo, osfilisteus governavam (m ãsal, a mesma palavra usada quando
ofereceram o reinado para Gideão, 8.22) sobre Israel.
O pedido de Sansão ilustrava a crescente atração de Israel pelo casamen­
to com os outros povos da terra. Tais matrimônios seduziam os israelitas em
direção ao pecado e à adoração de outros deuses (3.6). Desse modo, sempre
que o último juiz de Israel desejava uma mulher, ela sempre era uma filisteia,
nunca uma israelita. Duas razões são dadas para que Sansão desejasse se unir
a uma mulher de Timna. Primeiro, ela era certa aos seus olhos, uma frase que
mais tarde irá descrever a anarquia espiritual e social que se abateu sobre Isra­
el - cada homem fa z ia o que era certo aos seus próprios olhos (21.25; opor a
Dt 12.8). Segundo, Deus estava usando esse incidente em Seus desígnios. O
Senhor não causou em Sansão o desejo por uma mulher de Timna, mas Ele
aproveitou a escolha feita pelo filho de Manoá em Seu propósito próprio, qual
seja, o de começar o trabalho de libertar Israel do opressivo domínio filisteu.
Sansão foi a Timna com sua mãe e pai (v. 5), provavelmente para nego­
ciar um casamento com o pai daquela mulher. Evidentemente, Sansão havia se
separado deles quando se deparou com o jovem leão. O escritor observa que
o incidente ocorreu em uma vinha. O que Sansão, um nazireu, fazia em uma
vinha? O leitor é alertado para o fato de que havia alguma coisa errada.
O juiz estava em um lugar que deveria ter evitado. O espírito do Senhor
avançou (sãlah , aparece aqui e no v.19 e em 15.14) sobre Sansão (v. 6) e deu-
-lhe força para matar o leão facilmente. O escritor enfatiza a facilidade com que
o juiz destroçou o animal feroz, comparando seu ato com o de matar um cabri­
to, ou um bode pequeno, e observando que o homem não tinha nenhuma arma
em suas mãos. Em uma indicação mais sombria, lemos que Sansão não contou
a seus pais o que ocorrera. No v. 7, o verbo muda para o singular, o que sugere
o fato de ter sido Sansão, e não seus pais, a tomar a liderança nas negociações.
O verso termina com o comentário de que ela era certa aos olhos de Sansão ,
enfatizando, assim, como no v. 3, que ele fazia uma escolha voluntária.
153
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Quando voltou p ara tom á-la (a mulher; v. 8), uma frase comumente usa­
da para indicar o casamento, Sansão viu que a carcaça do leão tornara-se uma
colmeia de abelhas. Ele, então, raspou o mèl e comeu-o (v. 9). Com isso, Sansão
violara o juramento nazireu de jamais tocar um corpo morto (Nm 6.1-8). Uma
vez que o mel vinha da carcaça do leão, ele também estava cerimonialmente
impuro. Quando Sansão deu o mel para sua mãe e para seu pai, ele também os
corrompeu (Lv 11.24,25,39,40). Havia, portanto, uma razão para que ele não
lhes contasse onde havia conseguido o mel.
H 1 0 -2 0 O começo do v. 10 faz uma observação à parte, lembrando que o
pai de Sansão desceu até a m ulher, provavelmente para concluir as negocia­
ções do matrimônio. A frase desceu até indica elevação, pois Zorá estava em
posição mais alta que Timna.
Normalmente, a celebração do casamento era feita na casa dos pais do noi­
vo, não da noiva. Contudo, Sansão prolongou sua festa ou festival (mistê) de
casamento por sete dias. A palavra mistê também é usada para indicar ocasiões
em que se bebe vinho, mesmo excessivamente (Is 5.12; 25.6; Jr 51.39). Beber
vinho foi, portanto, a segunda violação do voto nazireu. Há alguns problemas
para compreender Jz 14.11. O primeiro é que, no texto hebraico, lê-se quan­
do eles o viram , mas a LXX traz quando eles o temeram. As palavras hebrai­
cas para “ver” (ra ãh) e “temer” {yãre) são similares e podem ser confundidas.
Além disso, quem são “eles”, o sujeito da frase. Seriam os filisteus? Eles estavam
com medo de Sansão e queriam que um grupo de homens o acompanhasse no
caso de as coisas saírem de controle ? Era a família? Uma vez que Sansão parecia
estar sozinho (nenhum israelita quis comparecer em uma festa que celebrava o
casamento de um homem israelita com uma mulher filisteia?), será que a famí­
lia da noiva decidiu convidar aqueles homens como companheiros do noivo?
O número 30 é um número redondo, que, possivelmente, indica uma posição
honrada. Davi escolheu um grupo de guerreiros chamado os Trinta, composto
na verdade por 37 (2 Sm 23.18-39). Ademais, o número 30 desempenhará um
papel na história.
Durante a festa, Sansão formula (hüd) um enigma (htdâ); ele criou um
enigma para eles (v. 12). O israelita propõe que a aposta seria de 30 vestes de
linho ou 30 capas, e 30 mudas de roupa ou vestes normais (v. 12,13). Era regu­
lar a prática de propor enigmas durante um festival de uma semana. O enigma
de Sansão era tão difícil que os homens não conseguiram resolvê-lo (v. 14). No
“sétimo dia” (TM ), os homens abordaram a esposa de Sansão (v. 15). A LXX
traz aqui “no quarto dia”. Isso parece mais compatível com o v. 17, onde se lê
que a esposa chorou diante dele por sete dias, indicação provável de que ela
154
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

fez isso até o sétimo dia. Essas discrepâncias todas são irrelevantes. Os homens
exigiram que ela o seduzissse [pati, veja também 16.5) até descobrir o enigma;
caso contrário, eles queimariam a casa dela e de seu pai (v. 15). Ela tomou a
ameaça deles a sério e tentou enganar Sansão para obter a informação. A esposa
de Sansão chorou e acusou-o de odiá-la, de não amá-la (v. 16). Em resposta, o
israelita afirmou que não revelara a solução nem para seus pais; então, por que
contaria para ela? A ironia estava no fato de ele não poder contar-lhes, pois isso
o obrigaria a confessar aos pais que ele quebrara seu voto de não tocar em cadá­
veres e que ele havia lhes dado comida impura. Ela continuou a chorar diante
dele, algo pouco apropriado para quem estava se casando. Por fim, no sétimo
dia, Sansão revelou o segredo e, então, ela pôde repassá-lo aos companheiros da
festa. Antes de o sol se pôr no último dia do festival, os homens responderam
a Sansão com outro enigma: o que é m ais doce que o m el e m ais fo rte que um
leão? (v. 18). A solução óbvia desse enigma era o amor, mas, no contexto do
enigma de Sansão, essa era uma resposta reveladora. Sansão fora trapaceado, ele
sabia que sua esposa o havia traído. Ela o acusara de não amá-la, mas foi ela que
amou mais fortemente o seu pai do que o seu marido. Nenhum dos dois estava
disposto a amar o outro mais do que suas famílias respectivas. Laços familiares
no Oriente Médio eram —e hoje ainda são —muito fortes. Contudo, mesmo
naquela cultura, a afirmação de Gn 2.24 deveria ser um princípio orientador:
Por essa razão, o homem deixará seu p a i e sua m ãe e se apegará à sua esposa,
e eles se tornarão um a só carne.
Em fúria, mas também tomado pelo espírito do Senhor, Sansão deixou
o festival e foi até Ascalom, uma cidade filisteia na costa (v. 19). Ele matou
30 homens e tomou suas vestes para pagar a aposta. Seus trinta companhei­
ros filisteus receberam seu pagamento ao custo da morte de outros 30 de seus
conterrâneos. Sansão não ficou na casa do pai de sua esposa, mas partiu furioso
para a casa de seu próprio pai. Como consequência, o pai dela deu a esposa de
Sansão em casamento para o amigo do próprio Sansão (v. 20), ou seja, para
aquele que seria, em um casamento dos dias de hoje, o seu “padrinho”.
■ 15.1-8 Após alguns dias, Sansão dediciu reconciliar-se com sua esposa
e levou para ela um cabrito como presente (v. 1). Era tempo de colheita, en­
tre maio e junho. No costume israelita, normalmente a mulher seria levada
para a casa do noivo, que quase sempre era a casa dos pais dele. Três ou quatro
gerações viviam juntas na mesma casa. Porém, um costume diferente estava
sendo seguido nessa história. O marido visitava a esposa na casa do pai dela.
Quando Sansão chegou para visitá-la, ela ainda estava na casa do pai dela, não
se mudara para a residência de seu novo marido, o padrinho de Sansão. O pai
155
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

da mulher não deixou o israelita entrar no aposento dela e defendeu sua ação
alegando achar que Sansão havia se divorciado dela. A expressão hebraica é: Eu
pensei que certam ente você a odiava (v. 2). A palavra o diar usada em 14.16
descreve a emoção, mas aqui ela funciona como um termo técnico que se refere
ao divórcio. Se ele acreditasse que Sansão estava apenas insatisfeito com sua
esposa e a oferecesse, então, para outro homem, ela seria culpada de adultério.
A explicação do pai, ao menos na opinião dele, mas não na de Sansão, era uma
justificativa plena para sua ação. Em uma tentativa de aplacar a fúria do israeli­
ta, o pai ofereceu sua filha mais nova e mais bonita em casamento, mas Sansão
não ficou interessado nela e lhes disse (a quem?, ao pai e a filha? Aos servos?
Ao outro marido?) que não teria culpa se ferisse os filisteus (v. 3). A raiva dele
se concentrou não contra o pai, mas contra a nação filisteia em geral. Tal ação
evoca o comentário editorial em 14.4, segundo o qual Deus usaria esse tipo de
situação como pretexto para Sansão agir contra os filisteus.
O animal (su ãlim ) que Sansão capturou é frequentemente traduzido por
raposa, mas provavelmente se tratava de um chacal (v. 4). Raposas são animais
solitários e não são tão numerosos naquela região quanto os chacais (Soggin,
1981, p. 246). O número 300 é muito alto, dez vezes a quantidade de “ami­
gos” no casamento. Três e dez são números comuns na Bíblia e multiplicar um
número por dez é levá-lo à perfeição. Outra função dessa quantidade é esta­
belecer uma comparação entre o ato de vingança de Sansão com os chacais e a
vitória de Gideão contra os midianitas, conquistada com um exército de 300
homens (7.8). Sansão espalhou os chacais pelas plantações de grão. Uma vez
que lá havia grãos para serem colhidos e feixes de grãos já colhidos (v. 5), era
evidente o fato de a colheita da tribo estar em processo. Quando os filisteus
indagaram quem havia queimado os campos, “eles” responderam que Sansão o
fizera porque seu sogro dera a esposa do israelita para o melhor amigo dele (v.
6). Esse “eles” anônimo ocorre diversas vezes na história; aqueles que barraram
a entrada de Sansão até a sua esposa (v. 3), aqui são aqueles que informaram os
filisteus, e no v. 8 são os filisteus não identificados que Sansão mata. Ao chamar
a mulher de “esposa de Sansão”, aqueles informantes rejeitavam a justificativa
dada pelo pai para dar a sua filha em casamento a outro homem. O israelita
estava justificado em sua reação, ao menos aos olhos daqueles relatores. Os filis­
teus não tentaram capturar Sansão, mas se vingaram dele atacando sua esposa e
seu sogro, e cumprindo a ameaça feita anteriormente pelos convidados da festa
(14.15), ou seja, queimando tanto ela como seu pai.
Vingança chama vingança e o ciclo se perpetua. Por conta de os filisteus
terem matado sua mulher, Sansão decidiu que ele não carregaria culpa nenhu­
156
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

ma ao vingá-la (v. 7). Ele também acreditou que suas ações eram tão justificadas
que, após terminá-las, o assunto teria um fim. A frase ele os atacou no q u ad ril
e coxa (v. 8) é estranha. Seu sentido é obscuro para nós, provavelmente se tra­
tava de uma expressão comum naquela época para indicar a imposição de uma
derrota devastadora contra os inimigos. A localização da rocha de Etã é des­
conhecida. Aquela região tem um grande número de cavernas nas quais uma
pessoa poderia ficar. Havia duas cidades em Judá cujo nome era Etã, mas elas fi­
cavam muito longe. Porém, o local em questão claramente ficava em Judá, pois
a história seguinte envolve pessoas dessa tribo, e não de Dã, a tribo de Sansão.
■ 9-17 Os filisteus não se contentaram e não deixaram que o ataque de San­
são encerrasse o assunto. Eles deslocaram suas forças contra Judá em Lei (v. 9),
cujo local também não é conhecido. O nome Lei (leh í) significa “bochecha”
ou “queixada” e forma um trocadilho com o episódio do uso da mandíbula do
jumento (lêh í) (v. 15). Os judeus rapidamente obedeceram às ordens filisteias
e levaram três mil homens até a rocha de Etã para capturar Sansão (v. 11). Os
30 que haviam crescido para 300 agora se tornavam três mil. Em vez de seguir
Sansão em sua revolta, os homens da tribo de Judá estavam dispostos a aceitar
o domínio filisteu e a entregar-lhe um juiz rendido. Os judeus, que foram os
primeiros a tomar controle de seu território herdado (1.3-21), estavam, então,
reduzidos à servidão, e rapidamente aceitavam as ordens dos seus senhores fi­
listeus. Sansão pediu e recebeu garantias de que não seriam os judeus a feri-lo
(v. 12). Porém, eles terminaram por amarrá-lo e prendê-lo. O fato de terem
usado cordas novas reforça o milagre de sua escapada. Não se tratava de cordas
velhas que poderiam estar podres ou esfiapadas. Quando os filisteus viram que
Sansão lhes seria entregue amarrado, emitiram um grande grito de triunfo (v.
14). Porém, tal alegria durou pouco, pois, pela segunda vez, o espírito do Se­
nhor se apossou dele (v. 14), e as cordas novas tornaram-se como fibra de linho
queimada, dissolvendo-se nas mãos de Sansão. Usando, então, uma queixada
de jumento em bom estado, não uma queixada velha e quebradiça que poderia
espatifar-se, Sansão destruiu os filisteus (v. 15). O termo elep é frequentemente
traduzido por “mil”. Ele designa uma unidade militar de número menor. Boling
o traduz como “um contingente” (1975, p. 237). Quando a destruição estava
terminando, Sansão recitou um poema curto para vangloriar-se de sua vitória.
Os versos brincam com a palavra hãm ôr, que pode ser traduzida como jumento
ou como montão, pilha (BDB, p. 331).

Com um a queixada d e ju m en to ,
M ontão so b re m on tões;
157
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Com um a queixada d e ju m en to,


M atei m il h om en s, (v. 16)

Sansão vangloriou-se de sua vitória, não da vitória de Deus, cujo espí­


rito o fortalecera. O lugar, então, passou a ser chamado de Ramate-Leí, ou
monte da queixada (v. 17). O juiz israelita conquistara uma vitória compa­
rável a de Sangar, que matara 600 filisteus (3.31). Porém, o escritor observa
que Sangar efetivamente libertara Israel. Apesar de sua grande força, San­
são não obtinha vitórias que pudessem livrar os israelitas das mãos de seus
inimigos.
I 18-20 Sansão estava com muita sede, era tanta sede que ele acreditou
estar à beira da morte (v. 18). Esse episódio nos faz lembrar de Esaú, que temia
morrer de fome e, por um pouco de comida, vendeu a Jacó o direito de primo-
genitura (Gn 25.29-34). Em vez disso, Sansão clamou ao Senhor por ajuda.
O que adiantaria a vitória se ele agora morresse de sede e caísse nas mãos dos
filisteus, dos incircuncisos (v. 18)? Em resposta, Deus abriu um espaço vazio
na rocha em Lei, o mesmo Deus que, para o benefício de Moisés e de toda a
nação israelita, tirara água da pedra no deserto (Ex 17.6). Agora, Ele mais uma
vez provia graciosamente as necessidades de Seu servo. O lugar, então, passou a
chamar-se En-Hacoré ou Fonte daquele que chamou (v. 20). O que falta aqui
é a afirmação de que Sansão, assim, conseguira trazer um tempo de paz, livre
dos inimigos de Israel.

A PARTIR DO TEXTO
1. Vingança é uma palavra feia. Na mente do ofendido, trata-se de uma
questão de justiça; a vítima equilibra a balança ficando quite com o ofensor.
Contudo, a balança nunca está igualmente equilibrada. Vingança chama vin­
gança, na maioria das vezes, em um ciclo crescente e sem fim. Sansão buscou
vingar-se dos filisteus pelo insulto sofrido. Em contrapartida, esses não apenas
mataram sua esposa e sogro, mas também perseguiram o próprio Sansão.
A justiça pode ser alcançada com a mediação de um terceiro elemento. Se
a ofensa envolve uma quebra da lei, a vítima pode recorrer à ajuda e à proteção
da polícia. Se é uma ofensa pessoal entre cristãos, podemos pedir a ajuda de
membros mais velhos e respeitados da igreja, visando obter uma reconciliação.
Qual é a motivação da vingança? Uma questão de justiça? Certo ou erra­
do ? Ou é mais uma questão de dominação e controle ? O que será obtido com
a vingança? Tudo o que conseguimos é confirmar que a outra pessoa é um ini­

158
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

migo. Em assuntos pessoais, devemos considerar as palavras de Paulo, que nos


aconselha a devolver o bem ao mal e a deixar Deus ser Aquele que traz justiça
(Rm 12.19-21). Ao fazer isso, é possível que transformemos um inimigo em
um irmão ou irmã em Cristo.
2. Judá aceitara a opressão dos filisteus. Quando esses lhes ordenaram que
entregassem Sansão, os judeus rapidamente concordaram. Não houve debate
sobre qual seria o curso adequado de ação. Claramente, a resistência era con­
siderada inútil. Mesmo quando um juiz que possuía poderes extraordinários e
sobre quem o espírito se movia estava em seu meio, o povo estava mais interes­
sado em agradar a seus senhores do que em buscar a liberdade. Quando Sansão
matou o contingente de tropas enviadas para capturá-lo, nenhuma ajuda foi
dada pela tribo de Judá. Há tempos em que o mal é tão poderoso que o mais
sábio é manter o silêncio (Am 5.13). Há riscos em opor-se a ele. Traficantes
vizinhos têm armas, gangues locais reagem violentamente contra quem se le­
vanta contra elas. Se as pessoas boas não fizerem nada, como a violência será
parada? É uma decisão difícil opor-se ao mal. O risco é grande. Porém, Deus
não quer que o mal triunfe. Ele dispôs-se a arriscar a vida do próprio Filho na
batalha contra ele. A Igreja é chamada a ser uma força positiva no seio de um
mundo ímpio. Desse modo, ela oferece esperança para os oprimidos. Quan­
do indivíduos são conduzidos por Deus a liderar uma batalha, o conjunto da
corporação deve achar coragem para responder. É difícil e, às vezes, perigoso.
Porém, aceitar o domínio do mal quando ele deve ser combatido é perder não
apenas a própria liberdade, mas também entregar possivelmente a próxima ge­
ração aos poderes maléficos.

3. As últimas proezas de Sansão (16.1-31)

POR TRÁS DO TEXTO


O capítulo final da vida de Sansão descreve seu envolvimento com duas
mulheres, uma prostituta filisteia na cidade de Gaza, e outra mulher chama­
da Dalila. Não se diz explicitamente que essa última fosse uma filisteia, mas o
nome dela não é israelita, e os senhores filisteus foram capazes de suborná-la
para que ela traísse Sansão. E razoável concluir que ela fosse filisteia, ou ao
menos não israelita. A narrativa das proezas de Sansão em Gaza é contada bre­
vemente, em três versículos. O resto do capítulo se desenvolve em torno do en­
volvimento com Dalila e suas consequências, inclusive a morte do juiz israelita.

159
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

A história de Sansão e Dalila foi contada em inúmeros formatos: o poe­


ma de Milton Samson Agonistes (1671), o oratório de Handel Samson (1741),
diversas pinturas e o filme de DeMille chamado Samson and D elilah (1949).
Ao longo da história, Dalila foi retratada como ambiciosa, sensual, traiçoeira,
demoníaca, maléfica, licenciosa, desregrada, desleal, enfim, uma das “mulheres
más da Bíblia” (Gunn, 2005, p. 211-222). Sansão aparece como alguém luxu-
rioso, simplório, corrupto, escravo das paixões e desprovido de bom senso. Essa
história leva as proezas de Sansão, tanto físicas como sexuais, até sua conclusão.
Se, por um lado, ele destruiu muitos inimigos de Israel ao morrer, por outro,
sua história termina com os filisteus ainda no controle. A dominação dos filis-
teus se manteria ainda até que Davi os derrotasse duas vezes no vale de Refaim
(2 Sm 5.17-25).
Embora não tenha conseguido livrar Israel, Sansão não foi abandonado
por Deus. Depois de ser capturado pelos filisteus, seus olhos foram arranca­
dos, e ele foi forçado a girar o moinho, como uma mulher (Jz 16.21). Ele caíra
nas profundezas da servidão e agora era zombado por seus captores. Porém, o
Senhor ainda respondeu às suas orações. Ele fora ordenado por Deus para co­
meçar a libertar Israel (13.5), e as circunstâncias de sua vida foram usadas pelo
Senhor como pretextos para aflingir os filisteus (14.4). Mesmo não tendo tra­
zido um período de paz para Israel, ele foi honrado por sua família no enterro
(16.31) como um juiz que julgou Israel por 20 anos (15.20; 16.31).

NO TEXTO
M 1 - 3 Sansão não teve medo de entrar em Gaza, uma cidade no coração
do território filisteu. Tendo perdido sua esposa, ele buscou o prazer com uma
prostituta filisteia (v. 1). Seus inimigos decidiram esperar até a manhã para ma­
tá-lo (v. 2). Contudo, ele enganou-os, partindo no meio da noite. Os portões
fechados não eram barreiras para ele. Com sua própria força (não há menção
ao espírito nessa história), ele agarrou-os com seus devidos batentes e levou-os
embora (v. 3). Os portões arrancados com suas trancas deixaram para trás ape­
nas as marcas na entrada escavada na pedra. Eles, então, puderam ser erguidos
no ombro e carregados. Sansão carregou-os por 65 quilômetros até Hebrom, a
cidade central da tribo de Judá. Com os portões removidos, a cidade de Gaza
estaria vulnerável a um ataque. Porém, não houve resposta da tribo de Judá,
nenhuma tentativa de romper o domínio opressor dos filisteus. Judá é nova­
mente observada como impotente, uma tribo muito diferente daquela vista em
1.3-19.
160
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

I 4-22 A primeira parte da história com Dalila (v. 4-9) começa de modo
simples, efo i depois disso, frase que a conecta com as façanhas anteriores de
Sansão em Gaza. O juiz se apaixonou por uma mulher do vale de Soreque
chamada Dalila (v. 4). Não nos é dito se ela era filisteia como as mulheres
anteriores de Sansão, ou uma cananeia, e é improvável que ela fosse um
israelita.
O vale de Soreque era parte do sistema fluvial que corria em direção ao oes­
te, vindo da região de Jerusalém até a Sefelá. Tratava-se de uma área fértil, onde
a tribo de Dã se estabelecera, mas também muito desejada pelos filisteus. Por
fim, a tribo de Dã foi forçada a se mudar (cap. 18) (Ferris, 1997, ABD-CD).
Os líderes (seren, um termo usado apenas para descrever os regentes filisteus
e ocasionalmente traduzido por “tiranos”) dosfilisteus abordaram Dalila com
um suborno de valor altíssimo, cada um deles com mil e cem peças de prata
(v. 5). Se todos os cinco senhores participaram da oferta, isso totalizaria 5.500
peças de prata, um valor altamente inflacionado, o que indicava o extremo ao
qual os filisteus estavam dispostos a ir para capturar Sansão. Ela, tal como a
esposa de Sansão, deveria seduzi-lo {patí, cf. também 14.15) e levá-lo a contar-
-lhe o segredo de sua grande força, de modo que eles pudessem dom iná-lo, e
am arrá-lo eprendê-lo /subjugá-lo (v. 5).
Dalila faz uma abordagem direta quando pede a Sansão que lhe conte so­
bre ou faça conhecer (nãgad) sua grande força (v. 6). A primeira resposta do
juiz foi dizer que, se fosse preso por sete tiras de couro novas, ele se tornaria
como outro homem qualquer (v. 7). Então, Dalila fez com que os líderes fi­
listeus lhe enviassem as tiras novas e escondeu alguns homens dentro de um
cômodo interno da casa. Em seguida, ela amarrou Sansão com as tiras (v. 8) e
disse-lhe que os filisteus estavam vindo para prendê-lo. O israelita quebrou as
tiras facilmente e saiu para enfrentar a ameaça (v. 9).
A segunda tentativa de Dalila (v. 10) começa com ela acusando Sansão de
tê-la enganado (tãlal, cf. v. 13,15; Gn 31.7; Êx 8.29; Jr 9.4; Is 44.20; Jó 13.9)
e mentido para ela. Ela pediu novamente que ele a fizesse conhecer {nãgad)
como ele poderia ser amarrado. E Sansão dessa vez respondeu que, se fos­
se amarrado com cordas novas, se tornaria como outro homem qualquer (Jz
16.11). O leitor já sabe que Sansão está enganando Dalila novamente, pois os
judeus já haviam amarrado o israelita em cordas novas quando o entregaram
para os filisteus, mas o juiz facilmente as quebrou (15.13,14). Quando ela lhe
avisou que os filisteus vinham capturá-lo, novamente Sansão quebrou as cordas
como se elas fossem uma linha (v. 12).
161
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Uma vez mais, Dalila acusou Sansão de enganá-la e de mentir para ela (v.
13), e é óbvio que ele havia feito aquilo. Essa acusação, contudo, levou Sansão
a expor algo mais próximo da verdade, pois agora sua resposta disse algo sobre
seu cabelo. Dalila deveria tecer as sete tranças do cabelo de Sansão e amarrá-las
com um alfinete. O hebraico no v. 13 afirma: se você tecer as sete tranças de
m inha cabeça com um a teia. A LXX adiciona: e o prender com um pino na
parede. Para o começo do v. 14, a LXX também adiciona: e ele caiu no sono e
ela teceu as sete tranças de sua cabeça com um a teia. Uma vez que esses acrés­
cimos trazem informações compatíveis com a história e criam uma leitura mais
tranquila, a maioria das traduções segue a LXX e os acolhe.
Dalila continuou pressionando Sansão; ela reclamava afirmando que, ape­
sar de dizer que a amava, seu coração (lêb) não está comigo (v. 15). Por um
período de tempo, ela continou a pressioná-lo (sü q , cf. também 14.17, onde
a mesma palavra é usada para descrever a insistência da esposa de Sansão para
que ele lhe revelasse o segredo de seu enigma). Ela o instigou ( a la s ) até que sua
vida foi consumida (q ã sa r) pela morte. As três palavras hebraicas pontuadas
aqui contêm a consoante s ou sã d ê, pronunciada em geral com um som de ts.
O escritor usou a aliteração para enfatizar o stress que Dalila impunha sobre
Sansão.
O v. 17 começa dizendo e ele tornou conhecido (nãgad ) p ara ela todo seu
coração {lêb). A frase brinca com a palavra “coração” do v. 15 e “fazer conhe­
cer”, que tem sido um tema contínuo ao longo da história de Sansão. O juiz
israelita foi consumido. Ele contou a Dalila que, desde o ventre de sua mãe,
fora consagrado como nazireu e que seu cabelo nunca fora cortado. Se fosse
cortado, então ele se tornaria tão fraco quanto qualquer outro homem. Esse
era o único voto nazireu que ele ainda não havia quebrado. Contudo, naquele
momento, Sansão tolamente colocava sua vida nas mãos de Dalila. Infelizmen-
te, o juiz israelita não sabia o que o leitor já sabia, ou seja, o fato de ela não
estar motivada pelo amor, mas pela ganância. Uma grande recompensa lhe fora
prometida pelos líderes filisteus (v. 5). Ademais, Sansão não havia aprendido
nada com a experiência anterior e com sua esposa de Timna. Ele era um peão
nas mãos das mulheres que ele desejava. A pressão contínua delas levou-o a
contar seus segredos, e elas, por sua vez, revelaram-nos para os inimigos do juiz
israelita. A paixão de Sansão por suas amantes sobrepujou o seu bom senso.
Dalila percebeu que Sansão lhe contara todo seu coração (v. 18), ou seja,
que ele lhe revelara tudo.
162
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Uso bíblico da palavra "coração"


Para as pessoas no AOM, o coração era o centro da personalidade
e, portanto, o local de onde a mente e a vontade emergiam juntas para
tomar decisões. Raramente, elas pensavam no coração como assento das
emoções. Elas não compreendiam a função do cérebro. Quando alguém
era embalsamado no Egito, seu cérebro era jogado fora, m as seu coração
era preservado.

Dalila enviou uma mensagem para os senhores filisteus virem pegar San-
são. O versículo termina com as palavras eles vieram com p rata em suas mãos
(v. 18). Eles estavam preparados para dar dinheiro em troca de Sansão, e Dalila
ambicionava esse dinheiro. Eles ambicionavam Sansão.
Ela fez com que Sansão dormisse sobre seus joelhos e, então, chamou um
homem até ela (v. 19). Por que esse homem é chamado constitui um problema.
No TM, lê-se: e ela cortou as sete tranças de sua cabeça. A maioria das tradu­
ções segue os poucos manuscritos em hebraico (no qual se lê e ele cortou as sete
tranças de sua cabeça). Em seguida, ela começou a afligi-lo (v. 19). De algum
modo, Dalila fez algum teste para ver se a força de Sansão realmente o abando­
nara, mas não é claro o que ela fez exatamente. Ela, então, disse ao juiz israelita
que os filisteus estavam lá (v. 20). Ele se levantou e saiu para encontrá-los, acre­
ditando que iria se ag itar {na a r ) e vencê-los como antes. O escritor, então,
faz uma observação, não a de que o juiz não sabia que sua força o abandonara,
mas a de que ele não sabia que o Senhor o tinha deixado (v. 20). O cabelo dele
era o símbolo de seus votos a Deus, e sua força vinha do próprio Deus. Quando
o último voto nazireu foi quebrado, o Senhor não mais o fortaleceu com um
vigor descomunal.
Os filisteus prenderam Sansão e arrancaram seus olhos (v. 21). Então, leva­
ram-no para Gaza, a cidade da qual ele previamente arrancara os portões (v. 3).
Ele foi posto em grilhões de bronze e, na prisão, foi obrigado a moer os grãos.
Isso era uma humilhação adicional, pois se tratava de um trabalho geralmente
feito por mulheres. Depois de sua captura, Dalila não é mais mencionada na
história. Essa parte da narrativa termina com uma breve observação que pre­
nuncia o futuro: O cabelo de sua cabeça começou a crescer abundantem ente
depois de ter sido cortado (v. 22).
■ 23-31 A cena muda para um festival religioso na cidade de Gaza, mo­
mento em que os filisteus celebrariam a captura de Sansão. A cidade onde os
163
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

homens haviam esperado em vão para mater o juiz israelita seria finalmente o
lugar onde ele morreria. O texto menciona três vezes que os líderes filisteus
estavam presentes (v. 23,27,30), o que enfatiza tanto a importância política do
festival quanto a completude da vingança que Sansão ainda teria. Em uma for­
ma de justiça poética, todos os senhores filisteus que subornaram Dalila (v. 5)
foram mortos. O texto afirma insistentemente que esse festival era grandioso, o
ritual em que os filisteus faziam seus sacrifícios ao seu deus, Dagom. Eles se re-
jubilavam diante de sua divindade porque Sansão fora entregue nas mãos deles.
Nesse ato, implicava-se que, se Dagom fizera do juiz israelita o seu prisioneiro,
logo o deus filisteu era maior do que o Deus de Sansão que o fortalecera para
realizar tão grandes proezas.

O deus Dagom
O deus Dagom era adorado por toda a região cananeia e mesopo-
tâmica. Ele é mencionado em textos muito antigos, do final do terceiro
milênio. Em escritos da cidade cananeia de Ugarit, ele é referido como o
deus pai da chuva Baal Hadade. Um dos dois templos mais proeminentes
da cidade era dedicado a ele; o outro era dedicado a Baal. Não sabemos
sua função exata. Jerônimo (quarto século d.C.) e os primeiros interpreta-
dores rabínicos associaram-no ao peixe, mas essa identificação tem sido
geralmente rejeitada. O nome dessa divindade aparece no texto hebraico
de algum modo associado aos grãos, provavelmente ao trigo. Nessa pas­
sagem, e nas histórias sobre a arca do concerto (1 Sm 5.1-5), Dagom é um
deus nacional dos filisteus (McKenzie, 2007, p. 3-4).

Os senhores (v. 23) e o povo (v. 24) estavam felizes pela prisão de Sansão.
Eles louvavam seu deus cantando: Nosso deus nos deu em nossas mãos nosso
inim igo, o destruidor de nossa terra e aquele que m atou muitos de nós (v. 24).
Em algum ponto do festival (v. 25), quando seus corações estavam alegres,
eles quiseram ter Sansão exposto para entretê-los. É possível que se sentissem
bem não somente pelo júbilo coletivo, mas também pelos efeitos do vinho. Eles
queriam se divertir / fazer esporte (sãhaq) com Sansão, ou seja, humilhá-lo pu­
blicamente ao obrigá-lo a “dançar” diante deles. Essa palavra carrega nuances
sexuais, que indicam “a feminização do herói” (Niditch, 2008, p. 171). Eles o
trouxeram da prisão, e ele os divertiu / fez esporte {sãhaq) diante deles, talvez
cambaleando em círculos por conta de sua cegueira (v. 25).
164
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUIZES

Termos hebraicos para fazer esporte / divertir


Note a pequena diferença ao soletrar as duas palavras, sãhaq e sãhaq.
Elas são sinônimas e variam apenas levemente na pronúncia. Os dois ter­
mos surgiram provavelmente durante o período no qual a história circu­
lava oralmente e refletem a arte do contador de histórias em deslocar os
sons para entreter o público.

Sansão pediu ao jovem [na ar) segurando sua mão que o deixasse tocar os
pilares que sustentavam o teto do templo (v. 26). Esse tipo de construção era
largamente conhecido em Canaã. Escavações na cidade de Láquis e Bete-Seã
encontram templos construídos de modo similar, ou seja, onde duas colunas
centrais no salão principal sustentavam toda a estrutura (Ussiskin, 1987, onli­
ne basarchive.org). A remoção dos pilares provocaria o colapso do edifício. O
templo em Gaza estava ocupado por homens e mulheres proeminentes da cida­
de, bem como pelos líderes dos filisteus (v. 27). Aqueles que haviam subornado
Dalila para que ela traísse Sansão morreríam junto com ele. A afirmação de que
três mil homens e mulheres estavam no telhado observando a humilhação de
Sansão é difícil de compreender. Os templos eram geralmente cobertos e sem
um pátio central aberto. Se as duas colunas centrais sustentavam o telhado,
como os espectadores poderíam ver as atividades dentro do templo ? Isso é um
enigma. O número de três mil (seus trinta “amigos” vezes dez, vezes dez), con­
tudo, funciona para ampliar o escopo da vitória de Sansão sobre os filisteus e
para lhe dar a honra de ser um herói e um juiz notável.
Em meio à sua humilhação, Sansão clamou ao Senhor, o Deus de Israel
(v. 28). Ele pediu por vingança contra os filisteus em retorno à perda de seus
olhos. Então, com cada braço sobre cada um dos pilares, ele fez um pedido
final: que ele morresse junto com seus inimigos. Deus ouviu sua oração, e a
força divina retornou ao corpo de Sansão. O templo foi destruído, e todos den­
tro dele foram mortos, inclusive o juiz israelita. A história termina contando
que os irmãos de Sansão e os patriarcas dentre seus parentes trouxeram o seu
corpo de volta e enterraram-no no túmulo de seu pai (v. 31; cf. 8.32 sobre Gi-
deão). Assim, Sansão recebeu a morte e o funeral de um herói (Niditch, 2008,
p. 172). A narrativa se encerra com a nota de que ele julgara Israel por 20 anos.

A PARTIR DO TEXTO
1. O escritor de Hebreus inclui Sansão junto com Jefté, Baraque e Gideão
na lista de heróis da fé (Hb 11.32). Sansão certamente não é um modelo de de­
165
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

voção e piedade. Ele quebrou os votos narizeus, desejou mulheres filisteias, in­
cluindo uma prostituta. Matou e assassinou muitos dos inimigos de Israel, mas
nunca foi capaz de livrar a nação do domínio filisteu. Ao listá-lo, o escritor de
Hebreus encorajava os primeiros cristãos enfatizando as características positi­
vas dos juizes, como eles haviam realizado a ordem que lhes havia sido dada por
Deus mesmo diante de situações avalassadoras; ele não justificava seus lapsos
morais ou éticos. O escritor não perdoa o caso de Sansão com a prostituta ou a
quebra de seus votos. Ele era um líder movido pelo poder de Deus, poder que o
capacitava a participar dos planos do Senhor para libertar Israel, mas não rece­
beu imunidade à tentação ou à falibilidade humana (Martin, 2008, p. 1-16). A
Igreja enfrenta continuamente o problema de líderes moral ou eticamente fa­
lhos. Às vezes, o pecado deles é deixado de lado e considerado como uma falha
humana normal. Outros são demonizados e expulsos de suas posições de lide­
rança. Batalhamos para encontrar meios de alcançar a redenção, de encorajar
o arrependimento e de descobrir formas de restauração. A tragédia do pecado
não deve ser encoberta, mas também não se deve minimizar o dom do perdão
e da purificação dado por Deus. A falha moral dos líderes afeta toda a congre­
gação, a vida daqueles diretamente envolvidos são profundamente marcadas.
Outros se desiludem. Alguns se desanimam e desistem da fé. A sabedoria deve
ser usada para que o dano não seja maior. Porém, a congregação como um todo
precisa se envolver no processo de cura. O sofrimento das pessoas não é somen­
te psicológico ou emocional, embora esses não possam ser subestimados. No
fim das contas, o sofrimento é teológico e espiritual. Devemos recorrer a Deus
para que Ele traga cura e reconciliação aos indivíduos e à congregação.
2. O espírito de Deus esteve com Sansão mais do que com qualquer outro
juiz. Porém, nenhum desses tinha tantas falhas morais. Será que o Senhor usa
continuamente os pecadores para realizar Sua vontade ? A Bíblia faz uma dis­
tinção entre falhas humanas comuns ou pecados não intencionais e pecados
intencionais ou de atitude desafiadora (Nm 15.27-31). Toda a humanidade
está envolvida em pecados não intencionais, mas, pela graça de Deus, não
somos obrigados a escravizar-nos ao pecado ou a desprezar os mandamen­
tos de Deus (Rm 6.12-14). Sansão era frequentemente movido pelo poder
do Senhor, mesmo tendo quebrado seus votos. Nesse sentido, ele refletia o
padrão da desobediência de Israel ao longo de todo o livro. A nação israelita
praticara o casamento com outros povos da terra e fora levada à idolatria pela
influência de seus cônjuges. Quando eram oprimidos, clamavam ao Senhor
por livramento. Deus, então, promovia um juiz para salvá-la. O espírito não
foi sempre o agente que fortaleceu Sansão (Jz 15.4; 16.1-3,9,12,14). Ele era
166
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

um homem de força excepcional que fora capaz de realizar façanhas incríveis,


mesmo sem o movimento do poder de Deus. Mais importante, ele foi usado
pelo Senhor como o libertador de Israel na luta contra os filisteus (14.19;
15.14). Ele fora capturado pelos filisteus e ainda era escravo deles quando
clamou a Deus, que ouviu sua última oração. Em seu último ato de vingança,
o israelita matou mais filisteus do que durante toda a sua vida (16.30). O
Senhor é livre para usar quem Ele escolher para realizar Sua vontade. Mesmo
Caifás, o sumo sacerdote que aconselhou a morte de Jesus, falou como profe­
ta (Jo 11.49-51). E um mistério por que Deus continua a trabalhar por meio
daqueles que voluntariamente lhe desobedecem. Gostamos de pensar que o
Senhor trabalha apenas com aqueles que estão espiritualmente preparados e
moralmente purificados. Porém, Deus não é limitado por nossas categorias
de justiça ou de retidão moral. Seus instrumentos, mesmo que muitas vezes
falhos, podem, ainda assim, ser fortalecidos por Ele para que realizem Seus
propósitos. Isso não é uma defesa da liderança imoral, a disciplina deve ser
mantida. Mas, não devemos desconsiderar o que foi realizado por Deus ao
trabalhar por meio de agentes humanos. O povo de Deus é chamado a orar e
a dar graças pelas obras de salvação realizadas por Deus, não importa o modo
como Ele as cumpra.
3. Quão trágicas são as palavras ele não sab ia que o Senhor tinha se retira­
do dele (Jz 16.20). Deus é paciente e suporta por muito tempo as falhas de Seu
povo, mas há um ponto em que mesmo Ele diz: “Chega!”. Então, o Senhor se
afasta e permite que o pecador colha as consequências do pecado que plantou.
Sansão foi capturado por seus inimigos, cegado e obrigado a moer o grão como
uma mulher. Deus ouviria a oração de um pecador? Ele ouviu a de Sansão. O
Senhor não deseja que ninguém pereça, e é paciente (2 Pe 3.9). Ele mantém
aberta a porta da reconciliação pelo arrependimento. O pecador não precisa
se desesperar, nem o íntegro deve presumir. Todos nós somos chamados a nos
entregar totalmente à misericórdia de nosso gracioso Senhor e Salvador.

167
III. FRACASSO TOTAL (17.1-21.25)

PANORAMA

Os cinco capítulos finais do livro contêm duas narrativas, sobre a realo-


cação da tribo de Dã (cap. 17—18) e sobre a guerra contra a tribo de Benja­
mim (cap. 19—21). Esses capítulos, bem como a primeira introdução do livro
(1.1—2.5) vieram das mãos dos editores finais (cf. Introdução), que trabalha­
ram entre o final do sétimo e o início do sexto século a.C.. A espiral decadente
de desintegração e falência espiritual israelita se completa com essas narrativas.
A tribo de Dã, a última a receber um território loteado (Js 19.40-48), não con­
seguiu tomar posse de sua herança. De acordo com Jz 1.34, eles foram expulsos
de volta para o planalto central pelos amorreus, um termo coletivo que designa
os diferentes grupos de habitantes da terra. Não tendo força suficiente para se
apossar de sua herança, a tribo de Dã decidiu deslocar-se para o norte. Ela não
recebeu nenhuma autorização de Deus para esse deslocamento, seja por meio
de um profeta, de um anjo ou de um líder. Os povos que eles destruíram no
cumprimento dessa decisão são três vezes descritos como povos pacíficos, que
viviam de modo tranquilo e sereno. Durante a jornada rumo ao norte, um gru­
po de soldados danitas roubou os deuses domésticos de Mica com o intuito de
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

estabelecer um centro de adoração ilegítimo para a tribo. Esse ato prenuncia o


episódio em que Jeroboão funda, em um local eminente de Dã, um centro idó­
latra de culto, com a imagem dourada de um bezerro (1 Rs 12.28-30). A razão
que levou Israel para o cativeiro dos assírios em 722 a.C., de acordo com HD,
foi a idolatria israelita, seu fracasso em adorar exclusivamente o Senhor. O livro
de Juizes traça as raízes da corrupção espiritual da tribo de Dã desde os primór-
dios da cidade de mesmo nome. Os últimos três capítulos registram a crônica
da quase destruição da tribo de Benjamim. Uma concubina levita foi abusada
sexualmente e morta na cidade de Gibeá. Pessoas de outras tribos exigiram que
o homem fosse levado a julgamento, mas os benjamitas se recusaram a entregá-
-lo. As tribos, então, decidiram que, para restaurar a justiça, um exército deveria
ser reunido com o propósito de exterminar toda a tribo de Benjamim. As duas
primeiras batalhas não ocorreram bem para a coalização de tribos. Mas, a maré
virou contra os benjamitas durante a terceira batalha, e apenas 600 homens
sobreviveram. O capítulo final revela como esposas foram garantidas aos so­
breviventes por meio de sequestros e de casamentos forçados. O livro termina
com a observação de que, naquele tempo, nenhum rei governou Israel e de que
o povo fazia o que era certo aos seus próprios olhos. Esse não era o modo como
Deus lhes ordenara viver.
As narrativas podem ter sido um acréscimo editorial posterior, mas elas
contêm diversas referências literárias que as interligam entre si bem como ao
livro como um todo. Sansão era da tribo de Dã, e a história seguinte descreve
o deslocamento dessa mesma tribo. As 1.100 peças de prata que Mica roubou
de sua mãe (17.2) totalizam a mesma quantidade paga por cada um dos líderes
filisteus a Dalila (16.5). Schneider sugere que, com as duas histórias colocadas
uma após a outra e apresentando a mesma quantidade de dinheiro, o leitor
deveria acreditar que a mãe de Mica era Dalila. A prata era parte de seu paga­
mento por trair Sansão. Na história, o pai de Mica nunca recebe um nome, o
que deixa ao leitor espaço para presumir que ele seria filho de Sansão (2000,
p. 232). A frase cada homem fa z ia o que era certo aos seus próprios olhos
(17.6; 21.25) é similar à afirmação de que a mulher filisteia com quem Sansão
queria se casar era certa aos seus olhos (16.12,28). É também uma variação do
refrão Israelfez o m al aos olhos do Senhor (2.11; 3.7,12; 4.1; 6.1; 10.6; 13.1).
A edição deuteronômica do livro pode ser observada nessas frases, pois elas
também aparecem muitas vezes no livro de Deuteronômio. Moisés avisou Is­
rael para que ela não fizesse o certo aos seus próprios olhos (Dt 12.8) ou o que
era mal aos olhos do Senhor (Dt 4.19,25; 17.2; 31.29), e encorajou a nação a
fazer o certo aos olhos de Deus (Dt 6.18; 12.18; 13.19; 21.9). Outra indicação
170
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

de unidade do livro é evidenciada na liderança tomada por Judá. Em Jz 1.2,


quando Israel pergunta a Deus quem deveria liderar a conquista da terra, Deus
responde escolhendo Judá. A tribo também foi escolhida para estar à frente na
guerra contra Benjamim (20.18). Desse modo, tanto no começo quanto no
final, Judá era a tribo líder.
As duas histórias compartilham laços literários. Na primeira história, um
levita se muda de Belém para o planalto de Efraim. Na segunda, um levita
parte do planalto de Efraim buscando sua concubina, que retornara à casa do
pai dela, em Belém. O refrão naqueles d ias não h avia rei em Israel ocorre
apenas nessas histórias (17.6; 18.1; 19.1; 21.25). Ambas as narrativas se con­
centram nas questões abrangentes da adoração e da guerra. Dã confiscara os
ídolos domésticos de Mica para estabelecer seu próprio centro de adoração.
Eles, então, destruíram uma cidade pacífica e rebatizaram-na com o nome de
seu ancestral, Dã. O levita que presidia o santuário de adoração da nova ci­
dade era Jônatas, neto de Moisés. Quando as tribos foram à guerra com Ben­
jamim, buscaram o conselho do Senhor no santuário em Betei, perguntando
a Deus quem deveria liderar o ataque. Após cada derrota, elas retornaram a
Betei e oraram e jejuaram diante do Senhor. Naquele tempo, Fineias, o neto
de Arão, presidia o centro de adoração daquela cidade. Jeroboão I mais tarde
colocaria um bezerro de ouro em cada um desses santuários (1 Rs 12.28-33),
um ato que lhe valeu um julgamento severo pronunciado pelo profeta Aías
(1 Rs 14.6-16).

A. Realocação de Dã (17.1—18.31)

1. Mica e o levita (17.1-13)

POR TRÁS DO TEXTO


Os principais personagens dessa parte da história são Mica e o levita. Mica
é mais proeminente, pois é ele quem rouba a prata, a restaura, faz um ídolo a
partir dela, funda um santuário e contrata o levita. A mãe e o filho de Mica
são personagens menores. A mãe com suas 1.100 peças de prata faz a transição
entre as histórias de Sansão e a narrativa atual. Deus é mencionado, mas não é
um ator em cena.
A história abre com a descrição do roubo das 1.100 peças de prata.
171
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Como acima observado, essa quantidade liga a história com o episódio de


Sansão e Dalila, no qual essa última trai Sansão e, como recompensa, rece­
be o mesmo valor de cada um dos senhores filisteus. O uso de prata para
moldar um ídolo era uma violação clara dos dez mandamentos. Durante
o tempo dos juizes, Israel podia adorar em vários centros religiosos como
se cada um deles fosse o local central, pois o templo ainda não havia sido
escolhido por Deus (Dt 12.5-7). Há uma discussão entre estudiosos sobre
a possibilidade de o segundo mandamento, que proíbe a fabricação de ído­
los, estar ou não em vigência na época dos juizes. A HD (cf. Introdução)
foi escrita a partir do pressuposto de que os termos do concerto feito no
monte Sinai (Ex 19—24) eram integralmente conhecidos desde a época de
Moisés. As narrativas do livro de Juizes, porém, mostram como Israel repe­
tidamente se virou para a adoração de ídolos. Arqueólogos também desco­
briram evidências de que os israelitas desse tempo faziam ídolos (Mazar,
1983, online) e adoravam os deuses cananeus (Lemaire, 1984, online). Essa
é uma questão técnica sobre as reais práticas de adoração de Israel, indepen­
dentemente das exigências que seriam escritas depois. E possível que Mica
e sua mãe acreditassem que fabricar um ídolo era um costume permitido.
Contudo, na época da escrita do livro, o escritor sugere que tais ações eram
impróprias, e seu público as veria como violações claras dos mandamentos
de Deus. Portanto, todo o episódio era, então, visto e deve agora ser lido
como mais um incidente na história da desobediência de Israel ao concerto.
O tempo dessa narrativa é localizado após a morte de Sansão, que era
da tribo de Dã. Mais especificamente, trata-se da época de migração dessa
tribo. Os danitas não foram capazes de assegurar a permanência em sua he­
rança porque os povos nativos eram muito poderosos para eles (1.34-36).
O inimigo de Sansão eram os filisteus, uma população que havia migrado
do mar Egeu e se estabelecido na costa leste do mar Mediterrâneo, no co­
meço do século 12. Embora as histórias dos juizes sejam ordenadas em um
contexto cronológico sequencial, há indicações de possíveis deslocamentos
históricos para frente e para trás (cf. a discussão sobre cronologia na Intro­
dução). Na história da guerra contra Benjamim, Fineias estava servindo em
Betei como sumo sacerdote. Ele era neto de Arão (Ex 6.25) e servia como
sacerdote durante o tempo de Josué (Js 22.13,31,32). A menção a Fineias,
portanto, coloca a história da guerra contra Benjamim em um período an­
terior ao dos juizes. Consequentemente, é difícil fornecer datas exatas para
cada uma das histórias.
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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

NO TEXTO

I 1 - 6 A primeira seção do capítulo descreve a origem do santuário domés­


tico de Mica (v. 1-6). Os quatro primeiros versículos, que explicam o motivo
pelo qual o ídolo foi feito, são contextualizados pela ortografia completa do
nome de Mica. Tanto o v. 1 como o v. 4 terminam com mikãyêhü, que significa
Quem é como o Senhor? A óbvia resposta é negativa, nenhum ídolo de prata é
como o Senhor, eles são, portanto, representações ilegítimas. A seção encerra-
-se com comentários adicionais. O filho de Mica foi promovido a sacerdote
do santuário doméstico (v. 5). Uma nota editorial (v. 6) explica que o povo,
naquele tempo, fazia o que bem entendia, pois não havia rei.
A narrativa começa com uma introdução padrão: e havia um homem (v.
1). Segue-se daí a nomeação desse homem e de seu lugar de residência, as coli­
nas de Efraim localizadas no planalto central ao norte de Jerusalém. Os nomes
de seu pai e de sua tribo não são mencionados. Seria Mica da tribo de Efraim,
ou, como sugere Schneider (cf. acima), seria ele o filho de Sansão e, portanto,
um danita? Mil e cem peças de prata foram roubadas de sua mãe (Dalila?), e ela
havia amaldiçoado o ladrão. Quando Mica confessou e devolveu o dinheiro,
ela o abençoou em nome do Senhor, neutralizando, assim, a maldição. Ela dera
a seu filho um nome relativo ao Senhor e evocou-o para abençoar Mica. Tais
ações indicam que o narrador aceitava o fato de a casa daquela família ser isra­
elita e de que, não importa o quão afastadas aquelas pessoas estivessem da ado­
ração apropriada tal como estabelecida pela Lei, ela era adoradora do Senhor,
não de um deus cananeu. No v. 3, a mãe declarou que a prata era consagrada ao
Deus de Israel, mas deu ao seu filho apenas 200 peças de prata (v. 4) para que
ele fizesse um ídolo {pesei) e uma imagem {masêka) fundida. Essa expressão
pode ser uma hendíadis, dois temos conectados pela conjunção “e” usados para
exprimir apenas um elemento. No v. 4, o verbo usado com eles está no singu­
lar (Boling, 1975, p. 256). Os ídolos eram geralmente feitos esculpindo uma
figura de madeira {peseit) e, então, recobrindo-a com uma camada, uma folha
de metal {masêkâí), bronze, prata ou ouro (Niditch, 2008, p. 181). A imagem
provavelmente não era considerada uma representação física da divindade, nes­
se caso a do Senhor, mas como um pedestal em direção ao Deus invisível e,
portanto, como um auxílio para que o adorador focasse sua devoção. O Senhor
foi entronizado sobre o querubim no templo em Jerusalém. O v. 5 revela que
Mica {mikâ, a ortografia regular usada em todas as outras ocorrências) tinha
um santuário doméstico dedicado a Deus {elõhim), que também continha um
éfode (lembremo-nos de como Gideão desviou Israel em Jz 8.27) e terafins,
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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

ídolos de diversos tamanhos usados na adoração (Gn 31.19,34,35; 2 Rs 23.24).


Ele também instalou (encheu a m ão ) um de seus filhos como sacerdote desse
santuário. A nota editorial no v. 6 faz uma avaliação negativa desse gesto de
Mica. Ele fez o que era certo a seus próprios olhos, uma vez que não havia rei
em Israel. Essa nota pode ter sido adicionada durante o tempo de Josias como
um encorajamento para que o rei estabelecesse a adoração apropriada em Judá,
cumprindo suas reformas e expurgando da terra as práticas de falsa adoração
(2 Rs 23.1-24).
H 7 - 1 3 O v. 7 começa da mesma maneira que o v. 1, e havia um jovem , unin­
do, assim, as duas seções. O termojovem {na‘ar) ocorre cinco vezes na história
(17.7,11,12; 18.3,5) para enfatizar a juventude desse homem.

Termo hebraico para pessoa jovem


Na' a ré usado para referir-se a um servo (19.3,9,11,19), um escudei­
ro (7.10,11; 8.20) ou soldado (8.20), um menino (8.14; 13.24; 16.26), uma
mulher jovem em idade para se casar (19.3,4,5,6) ou mesmo uma criança
não nascida (13.5,7,8,12).

Ele não tinha a sabedoria apropriada para sua idade e aproveitava as


chances conforme elas surgiam, sem considerar minimamente a adequação
delas tal como determinavam os padrões do concerto, algo que ele, como
levita, deveria respeitar. O jovem era de Belém de Judá e estava morando
lá {gãr sãm, um jogo com o nome do pai dele, Gérson [gêrsõm], que só será
revelado em 18.30). O levita deixou Belém em busca de outro lugar para vi­
ver e foi até a casa de Mica no planalto de Efraim. Mica (17.10) ofereceu-lhe
o lugar de sacerdote da família e determinou que o salário dele seria de dez
peças de prata, mais roupa e comida. Mica afirmou que o levita seria seu p a i
e sacerdote, uma frase padrão para indicar a posição espiritual que o jovem
assumiria dentro da vida familiar (cf. 18.19). O levita concordou, e Mica
instalou-o ( encheu a m ão) como sacerdote de sua casa. A relação entre os
dois homens é enfatizada em 17.11; Mica tratava-o como um de seusfilhos.
Ele se considerava afortunado (v. 13), pois acreditava que o Senhor traria
a ele coisas boas, já que possuía um levita como sacerdote. Os levitas eram
considerados pessoas sagradas, mais capazes de trazer as bênçãos de Deus
sobre uma família.
174
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

2. Um novo lar para a tribo de Dã (18.1-31)

POR TRÁS DO TEXTO


Nessa seção, os personagens principais são cinco espiões que nunca são
nomeados e que sempre se comportam como um único agente. A eles, junta-se
o levita cujo nome só será revelado no final da história. Os personagens me­
nores são Mica, que só aparece no final, os danitas, que agem como um grupo
ao contratar os cinco espiões e depois receber o relato deles, os 600 guerreiros
danitas com seus filhos, os homens do vilarejo de Mica e o povo de Laís, que
foi chacinado. A narrativa se move de modo elíptico, indo da região em torno
de Zorá e de Estaol à região de Laís, com a casa de Mica ocupando o meio do
caminho. Os cinco espiões pediram ao levita que interrogasse a Deus a respeito
da missão que tinham e receberam do jovem uma resposta favorável, muito
embora Deus não apareça na história.
Os primeiros capítulos do livro já alertaram o leitor da situação desespe­
rada da tribo de Dã. Ela não conseguira tomar posse do território loteado para
ela, pois os habitantes antigos eram muito fortes. Os danitas foram empurra­
dos para as planícies da Sefelá e depois voltaram ao planalto central (1.34).
Na seção final da introdução (2.1-5), o anjo do Senhor anunciou a Israel que,
por não ter obedecido a Deus, Ele não mais expulsaria os antigos residentes
da terra. A conquista chegava teologicamente ao seu fim. Na canção de Dé­
bora, Dã é descrita como uma tribo que se localizava perto do mar (5.17). Os
filisteus, contra quem Sansão lutara, eram parte de um grupo maior que tinha
iniciado sua migração da área do Egeu em meados do século 13. Depois de
uma tentativa fracassada de invadir o Egito no começo do século 12, os filisteus
estabeleceram-se na costa sudoeste da terra. Gaza e Ascalom eram duas de suas
cidades mais proeminentes, e elas tinham acesso ao mar. Possivelmente, os Da­
nitas encontraram emprego trabalhando nas embarcações filisteias.
A história do realocamento de Dã, junto com outras narrativas conclu­
sivas, é parte da edição final do livro. Porém, o incidente propriamente dito
provavelmente ocorreu em um período anterior do tempo dos juizes. Sua co­
locação no livro é feita de modo a mostrar a deterioração espiritual contínua
da nação israelita. A tribo destruiu povos pacíficos e estabeleceu um centro de
adoração idólatra que permaneceu em operação até que o povo foi levado para
o exílio pelos assírios (721 a.C.). Embora nenhuma condenação explícita seja
feita por Deus ou pelo narrador, a violação frontal do mandamento que inter­
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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

dita levar imagens de deuses para dentro das casas (Dt 7.25,26) traz consigo
uma censura implícita.
Há poucos problemas textuais na narrativa. Há, porém, alguns versículos
com desafios para os tradutores. Expressões idiomáticas, como as que apare­
cem em Jz 18.3,6 e 8, são sempre difíceis de traduzir para outra língua. Além
disso, o conjunto de descrições fragmentadas acerca dos residentes de Laís (v.
7,10,27) também impõe uma dificuldade. Veremos todos esses elementos com
mais detalhe na próxima seção.

NO TEXTO

I 1 -7 A nota de abertura de que naquela época não havia rei (cf. 17.6) liga as
duas histórias. Os danitas, como Mica, faziam o que desejavam. Em Js 19.40-
48, Dã recebe um território a oeste das colinas de Judá, na planície, ou melhor,
na Sefelá. Como os amorreus (1.34) e depois deles os filisteus eram muito for­
tes, a tribo não conseguiu tomar posse de sua herança. Cinco homens valorosos
(18.2) de Dã foram enviados para cam inhar p ela terra e in vestigá-la , com o
intento de encontrar um lugar no qual a tribo poderia realocar-se. A missão de­
les era similar a dos 12 espiões que Moisés, ainda no deserto, enviou para o sul
da terra (Nm 13.17-20). Os cinco danitas ficaram na casa de Mica, no planalto
de Efraim. g u an d o ouviram a voz do jovem levita, eles o reconheceram (Jz
18.3). O sotaque do jovem vindo da região sul de Judá era parecido com o sota­
que dos danitas, um sotaque diferente entre as tribos do norte (Boling, 1975, p.
263). Então, fizeram-lhe uma série de perguntas sobre como ele chegara lá e o
que estava fazendo. As perguntas são feitas com expressões idiomáticas (quem
causou sua vinda até aqui, e o que você está fazendo nisso, o que há p ara você
aq u i?), claras em sua intenção, mas estranhas se traduzidas literalmente.
A resposta do levita (v. 4) não dá detalhes, mas enfatiza o fato de Mica tê-
-lo contratado como seu sacerdote. A brevidade da resposta sublinha o caráter
mercenário do arranjo. O levita considerava seu papel como um trabalho pelo
qual era bem pago, ao passo que Mica o tomava como um de seus próprios
filhos (17.11).
Os danitas pediram-lhe (18.5) que fizesse uma pergunta a Deus ( élõhim,
não Yahweh), para que eles soubessem se Ele iria prosperar a jornada deles.
O levita respondeu-lhes (v. 6) que deveriam ir em paz {sãlôm), pois o Senhor
está à frente de sua jo rn ad a, uma expressão idiomática que indica a presença
de Deus entre eles. Os cinco (v. 7), então, viajaram em direção ao norte, para
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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Laís, atual Tell Dan, perto da nascente do rio Jordão. A região era abundante
em águas, e a terra fértil era boa para a plantação. O versículo está cheio de
termos descritivos. Os habitantes viviam com atitude confiante nos modos ou
costumes (m ispat) dos sidônios, fenícios cuja cidade estava localizada a 32 qui­
lômetros ao norte de Tiro, na costa do mar Mediterrâneo. Eles viviam em paz,
despreocupados e insuspeitos. Soggin observa que a próxima frase é difícil de
entender-se, seja porque se corrompeu, seja porque contém termos técnicos
desconhecidos. Ele a parafraseia como: “Naquela região, com sua rica produ­
ção, não lhes faltava nada” (1981, p. 271-272). Niditch a traduz mais literal­
mente: “Não tramando nada na terra, possuindo restrições” (2008, p. 174).
Boling traz: “Sem ninguém pervertendo nada no território ou usurpando o
poder coercitivo” (1975, p. 260). A cidade ficava longe de Sidom, no oeste.
A frase conclusiva afirma: e não havia negócios com humanos ( ad ã m ). Bo­
ling observa que essa frase é quase ininteligível e que, na LXX, bem como em
antigas versões latinas e siríacas, lê-se a última palavra como arãm ou Síria,
cuja cidade principal era Damasco. O d e o r hebraicos, às vezes, confundem-se
(1975, p. 263). Essa mudança colocaria Sidão no oeste e a Síria / Damasco no
leste, indicando que Laís fica isolada de toda ajuda. O versículo enfatiza que o
povo de Laís se comportava de modo pacífico, sem medo de inimigos e isolada
de seus vizinhos.
■ 8-10 Os cinco espiões voltaram para o meio de sua tribo, em Zorá e Esta-
ol. Sansão e seu pai Manoá estavam enterrados na região entre as duas cidades
(16.31). Os danitas perguntaram: O que vocês?, que significa O que vocês en­
contraram ? Os cinco relataram (18.9) que a terra era muito boa; o mesmo juí­
zo pronunciado por Deus sobre a criação (Gn 1.31). Eles urgiram seus parentes
a não demorar, indo para lá imeditamente tom ar posse d a terra (lãreset ’e t-ha
ãres, a mesma frase que aparece em Jz 2.6 para falar sobre a conquista). Eles
descreveram (18.10) o povo do lugar como um povo despreocupado, e a sua
terra, como uma terra espaçosa e frutífera, fazendo o acréscimo de que Deus a
havia entregado para eles.
■ 1 1 - 2 6 Os 600 homens que, então, equiparam-se para a guerra vinham
todos de um determinado clã, não de toda a tribo de Dã. Não é mencionado se
eles eram os únicos voluntários ou se foi decidido que o número era o suficien­
te para tomar a cidade, ou seja, que não seriam necessários todos os homens
da tribo. Quando as tropas acamparam em Judá (v. 12), o lugar se tornou co­
nhecido como Acampamento de D ã. O próximo lugar registrado no qual as
tropas acamparam foi nas colinas de Efraim, ao norte de Judá, perto da casa
de Mica. Os cinco espiões do começo da história contaram aos outros (v. 14)
177
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

sobre o centro de adoração ali próximo. O versículo termina com uma questão
sombria endereçada aos 600: E agora considerem o que vocês devem fazer?
Primeiro, eles foram até a casa do jovem levita e perguntaram-lhe sobre seu
bem-estar (sãlôm ), uma forma padrão de saudação. Os 600 homens equipados
para a guerra permaneceram nos portões. As casas de pequenos assentamentos
eram construídas em círculos, com as paredes de trás formando um muro de­
fensivo em volta do vilarejo. Isso fornecia uma proteção relativa contra animais
selvagens e pequenos bandos invasores. Havia um portão para dentro do com­
plexo. Durante o dia, os homens trabalhavam nos campos ao redor.
Por meio da repetição, o texto enfatiza muitos pontos. Eram esses os
cinco espiões originais que investigaram a terra e tomaram a liderança nes­
se incidente (v. 14 e 17). Os 600 estão equipados para a guerra, segundo a
descrição (v. 11,16,17), e são, portanto, muito intimidadores. O roubo dos
objetos de adoração é descrito três vezes (v. 17,18 e 20). Nesse último, foi
o próprio levita que juntou o éfode, os terafins e o ídolo. O ato de criar um
centro de adoração ilegítimo para a tribo de Dã foi consciente e deliberado.
Quando o levita reconheceu o que os homens estavam fazendo, ele protes­
tou (v. 18), mas lhe disseram que ficasse quieto e mantivesse a boca fecha­
da; literalmente, ponha sua m ão sobre sua boca. Ele, então, foi convidado
(v. 19) para ir com eles e tornar-se pai e sacerdote (cf. 17.10) para a tribo,
posição que seria melhor do que servir apenas uma casa. O levita indicara
anteriormente (v. 4) que sua motivação para o serviço era estritamente mo­
netária e, portanto, não foi surpresa nenhuma vê-lo aceitar a oferta (v. 20).
Por isso, ele, então, juntou o éfode, os terafins e o ídolo efo i p ara o meio do
povo, buscando proteger-se de seu antigo empregador, Mica.
Os homens colocaram ospequenos (ou crianças), o gado e seus bens à fren­
te da tropa (v. 21), esperando certamente algum tipo de problema de Mica
e de seus vizinhos. Quando esses ouviram o que ocorrera pela boca de algu­
mas mulheres, saíram atrás dos danita s,filh o s de D ã. Quando os alcançaram,
Mica protestou: Vocês tom aram os deuses quefiz e meu sacerdote. Os danitas
alertaram-no para que não deixasse sua voz ser ouvida entre eles, p ara que os
homens am argurados da vida não o atacassem, matando a ele e a seus homens
(v. 25). Os guerreiros são descritos como am argurados d a vid a/ alm a (nepes),
o que indica o fato de eles sentirem-se mal tratados ao longo de suas existências
(a razão pela qual estavam realocando-se) e de não terem nada a perder. Eles,
rapidamente, retaliaram os homens de Mica e não pensariam duas vezes antes
de matá-los. Quando Mica viu (v. 26) que os danitas estavam em um número
que lhe impedia de ganhar a luta, ele e seus homens voltaram para o vilarejo.
178
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

H 2 7 - 3 1 A primeira parte do v. 27 resume os eventos anteriores; os danitas


tomaram o sacerdote de Mica e os objetos que esse havia fabricado. A segun­
da metade conta o que veio a seguir na história. Os homens de Dã chegam a
Laís, e o texto afirma novamente que o povo de lá era pacífico e inocente. Não
eram agressivos em relação aos israelitas nem os oprimiam. Contudo, os dani­
tas chacinaram as pessoas de Laís e queimaram a cidade. O versículo 28 enfa­
tiza o desamparo deles diante dos danitas. Não havia libertador ou juiz para
ajudá-los, pois eles viviam longe tanto de Sidom como de Damasco (v. 7). Os
danitas, então, reconstruíram a cidade e deram-lhe o nome de seu antepassado,
Dã. O vale de Bete-Reobe estendia-se para o norte até a Síria, logo ao sul de
Nebo-hamote. Tratava-se do terreno mais ao norte espionado pelos 12 homens
enviados por Moisés (Nm 13.21) (Luker, 2006, p. 445).
Os danitas fundaram um centro de adoração com o ídolo tomado de Mica
(v. 30). Pela primeira vez, o nome do sacerdote é mencionado, Jônatas, o filho
de Gérson, filho ou de Moisés (m sh) ou de Manassés (m nsh). A diferença na or­
tografia é de uma letra - “n” em hebraico. Gérson era filho de Moisés (Ex 2.22),
não de Manassés. Além disso, a letra “n” no nome está levantada, o que indica
sua inserção posterior. É mais provável que um escriba acreditasse não ser apro­
priado ter um neto de Moisés servindo como sacerdote em um santuário com
um ídolo, e por isso ele mudou a referência. A família sacerdotal de Jônatas
serviu à tribo de Dã até que os assírios conquistaram todas as tribos do norte
e levaram-nas para o cativeiro em 722 a.C.. A observação final (v. 31) declara
que os danitas continuaram a usar o ídolo fabricado por Mica durante os anos
em que o tabernáculo foi levantado em Siló (1 Sm 1.3). Essa menção cumpre a
função de ligar a migração de Dã ao último incidente narrado no livro.
Ao final da história dos juizes, para fornecer esposas aos benjamitas que
sobreviveram à guerra, os anciãos de Israel permitiram que eles sequestrassem
as jovens de Siló que dançavam em celebração à colheita (Jz 21.21). O santu­
ário idólatra em Dã era uma violação dos mandamentos de Deus, e sequestrar
mulheres era outro indício de como os israelitas estavam fazendo o que era
certo aos seus próprios olhos (v. 25b), não aos olhos de Deus.

A PARTIR DO TEXTO
1. Os danitas tomaram os ídolos de Mica porque tinham poder para tanto.
Os 600 guerreiros armados e prontos para uma luta eram uma presença intimi-
dadora. Mica não podia fazer nada senão aceitar sua perda. Será que a força faz
o direito ? O uso do poder, seja ele militar, político, corporativo ou pessoal, está
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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

sempre sujeito a abuso. Quando a intimidação feita por policiais é necessária


para manter a ordem e quando ela é uma ação abusiva designada para aterro­
rizar os cidadãos ? Quando aumentar os impostos é parte legítima do processo
legislativo, feito para cumprir as obrigações sociais necessárias, como estradas
e escolas, e quando isso se torna um fardo esmagador sobre uma sociedade
oprimida? Leis trabalhistas são feitas para melhorar o ambiente profissional,
tornando-o mais seguro e mais aprazível, ou são feitas para manipular os tra­
balhadores em benefício dos lucros da empresa? Mesmo nas igrejas, os líderes,
muitas vezes, manipulam trabalhadores e voluntários para proteger suas pró­
prias posições ou prestígio pessoal. O poder em si mesmo não é algo ruim. Ele
pode ser usado para o bem. Um pai deve disciplinar seu filho e estabelecer li­
mites pelo bem da própria criança, mesmo se ela não o compreender. Um líder
pode usar seu poder para ajudar seus colegas e subordinados. Um político pode
trabalhar por uma sociedade justa. Um cristão é guiado pelos mandamentos
de Jesus: amar a Deus e amar o próximo. Ter poder é uma oportunidade para
demonstrar amor por ambos.
2. Mica fez imagens para seu santuário doméstico. De acordo com o
texto, eles eram dedicados à adoração do Senhor, o Deus de Israel. Embora
não haja nenhuma condenação explícita na história, do ponto de vista te­
ológico sustentado no livro, o ato era uma clara violação do segundo man­
damento (Êx 20.23; Dt 5.8). Os compiladores e editores deuteronômicos
(cf. Introdução) compreendiam desse modo tal mandamento e estavam de­
monstrando aos leitores que a adoração de ídolos violava o concerto que
eles tinham com Deus.
Durante a Idade Média, as igrejas eram, muitas vezes, adornadas com pin­
turas e estátuas religiosas. O povo comum era iletrado, e as representações ar­
tísticas eram usadas para contar as histórias bíblicas e o evangelho. Contudo,
durante a Reforma, um dos pontos de conflito entre os católicos romanos e
os protestantes foi a veneração dos santos, particularmente o uso de estátuas
na igreja para ajudar os frequentadores a focar sua adoração, oração e devo­
ção (cf. a discussão de Gunn, 2005, p. 234-237). Jacob Armínio (1560-1609)
argumentou contra a distinção feita pelo cardeal Belarmino entre um ídolo,
que representaria algo falso, e uma imagem, que representaria algo real e seria,
portanto, um auxílio legítimo à adoração. Armínio refutou o argumento de
Belarmino citando a história de Mica como um exemplo de adoração idólatra,
mesmo que dedicada a Deus (1956, 1:655-656).
Atualmente, criticar outro modelo de adoração é algo condenado como
intolerante. Se alguém se declara fortemente contra a presença de estátuas na
180
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

igreja, é logo rotulado como um demagogo de mente fechada. As igrejas cató­


licas são adornadas com vitrais e estátuas de personagens bíblicos e de santos.
Igrejas de outras denominações também têm vitrais retratando personagens da
Bíblia e pessoas veneráveis. Mesmo em igrejas evangélicas, as pinturas popula­
res de Cristo, muitas vezes de valor artístico duvidável, decoram os santuários.
Poucos mantêm um código estrito de banir toda representação artística de uma
pessoa, seja ela de Cristo ou de um santo, dentro de uma casa de adoração. A
maioria justifica sua inclusão como auxílio para adorar a Deus. Ela ajuda os fre­
quentadores a focarem suas orações e sua devoção na divindade representada.
Em que ponto uma pessoa, ou uma congregação, ou mesmo uma igreja inteira
torna-se idólatra? Um de meus colegas na graduação era uma freira do Canadá.
Sua ordem enviava missionários para a América do Sul. Nas igrejas de lá, surgiu
o costume de comprar e dedicar um cálice em memória de um ente querido
morto. No aniversário da morte dessa pessoa, a família se reunia em torno do
cálice e oferecia orações. Uma das tarefas dos missionários era retomar o cálice
diplomaticamente, para não ofender a família. O uso desse objeto para focar
a adoração ao ancestral era, segundo a opinião dela, uma prática idólatra, e o
cálice deveria ser retirado da igreja. Qual é o uso apropriado da arte na Igreja?
Quando ela se torna, mesmo com a melhor intenção, um ato de idolatria?
3. Nessas histórias, Deus é mencionado, mas nunca age. Os três persona­
gens principais tomam suas decisões e cumprem seus planos sem a participa­
ção divina. A orientação de Deus é buscada em apenas uma oportunidade. No
mais, Ele está ausente da cena. Teologicamente, damos por garantido que Deus
sempre estará presente, mas a vida em sua maior parte é vivida com Ele nos
bastidores, aparentemente ausente. O Senhor tornou-nos capazes de tomar
decisões relativas ao curso de nossas vidas; às vezes, são decisões importantes,
e, regularmente, são menores. De vez em quando, Seu Espírito pode dar ins­
truções específicas, que podem indicar que igreja frequentar, se a proposta de
casamento deve ou não ser aceita, ou qual será o próximo passo na carreira
profissional. Frequentemente, pedimos orientação a Deus ao tomar decisões.
Porém, o Espírito é livre para responder ou não. Não podemos forçá-lo a dizer-
-nos o que fazer. Quando Ele não responde, sentimo-nos confusos e, talvez,
até mesmo enraivecidos. Sentimos como se estivéssemos por conta própria,
abandonados por Deus. Talvez devamos interpretar esses momentos como
ocasiões em que Deus confia que tomaremos a decisão certa nós mesmos; par­
ticularmente, quando temos muitas opções, cada uma delas moral e eticamente
correta. Quando o Senhor nos permite fazer a escolha, Ele está exprimindo
confiança em nosso compromisso com Ele e em nossa habilidade de escolher
181
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

sabiamente. Ele é soberano o suficiente para fazer Sua vontade operar não im­
porta a escolha que fizermos.
Há um equilíbrio delicado aqui, entre a soberania de Deus e a liberdade
humana. A soberania divina é frequentemente identificada com Seu poder. Ele
criou todas as coisas e governa sobre todas as coisas. Porém, em Cristo Jesus,
vemos que Sua soberania é governada por Seu amor. Ele usa Seu poder para
o bem daqueles que chama de Seu povo. Quando escolhemos desafiar Deus,
como Israel fez repetidamente durante o tempo dos juizes, nós nos abrimos
para forças destrutivas. Mas, Deus ainda é soberano e usa essas experiências
para chamar-nos de volta à obediência e à vida. Os irmãos de José venderam-no
como escravo. Quando morreu Jacó, o pai dele, os irmãos vieram pedir-lhe per­
dão, pois, como governante, José tinha o poder para vingar-se horrivelmente.
Em vez disso, ele reconheceu o Senhor como soberano, pois Ele fora capaz de
usar a ação maléfica dos irmãos para preservar a família (Gn 50.19,20).
Gostaríamos que Deus nos dissesse abertamente o que devemos fazer em
cada situação. Nas Escrituras, o Senhor deu instruções para nos guiar na maior
parte de nosso processo de tomada de decisões. Devemos ser honestos em nos­
sas relações com os outros. Falar a verdade com amor. Ser leais aos votos de
nosso casamento. Há momentos, contudo, em que ficamos inseguros, em que
nenhuma resposta direta está dada. O teste de nossa fé ocorre em momentos
como esses, quando Deus parece estar ausente. Podemos confiar que, ao tomar­
mos nossas decisões, o Senhor estará nelas? A liberdade humana é um privilé­
gio e uma responsabilidade poderosa. Devemos usá-la sabiamente para fazer a
vontade de Deus, mesmo em circunstâncias difíceis. Quando somos fiéis nos
tempos problématicos, demonstramos o que significa ser realmente humano;
um povo redimido criado à imagem de Deus.

B. Guerra dentro de Israel (19.1—21.25)

PANORAMA

Os últimos três capítulos do livro de Juizes começam com o assassinato


de uma mulher e terminam com o sequestro e o casamento forçado de 600
mulheres. Ao longo do livro, o tratamento imposto às mulheres tipifica o
estado moral e espiritual da nação. No começo, quando Judá obedeceu a Deus
182
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

e tomou posse de sua herança, Acsa agiu insistentemente para persuadir seu
pai, Calebe, a dar a ela e a seu marido fontes de água (1.14,15). Débora era
reverenciada como juíza e, como representante de Deus, dava ordens a Baraque
(4.4-6). Conforme Israel afastava-se continuamente do caminho traçado por
Deus para a nação, vemos Jefté sacrificar sua filha (11.34-40) e a concubina
levita ser sexualmente abusada até morrer (19.25,26). Israel decai de uma épo­
ca em que honrava suas mulheres a um tempo no qual elas são tratadas como
propriedades.
Há diversas referências que ligam essa seção às primeiras partes do livro.
Na história anterior (cap. 17—19), o levita Jônatas sai de Belém em direção
aos planaltos de Efraim. No cap. 19, um levita que vivia em Efraim toma uma
concubina de Belém de Judá. A única vez em que mulheres são mencionadas
montando um jumento está no episódio em que a concubina foi colocada so­
bre um jumento, depois de ter sido abusada, e no episódio em que Acsa desce
do jumento para fazer um pedido ao seu pai. No cap. 1, quando as tribos per­
guntaram a Deus qual tribo deveria começar a conquista, Judá foi escolhida.
No cap. 20, quando as tribos perguntam ao Senhor qual tribo deveria liderar
o ataque contra Benjamim, novamente Deus escolhe Judá. A história de como
Benjamim foi quase destruída é parte da polêmica entre Davi e Saul no livro.
O primeiro descendia de Judá, que liderou a batalha, o segundo pertencia a
Benjamim. Além disso, o crime contra a concubina do levita foi cometido
em Gibeá, que mais tarde se tornaria a cidade de Saul (1 Sm 11.4; 14.2; 22.6;
23.19; 26.1). O local de um crime horrível foi a residência real do primeiro rei
de Israel, que desobedeceu a Deus e, assim, perdeu sua coroa, sua dinastia e sua
vida. O tema do cumprimento de um voto tolo aparece de novo. Antes, Jefté
tolamente tinha cumprido seu voto e sacrificado sua filha. Agora, o povo faz o
voto de não dar nenhuma de suas filhas em casamento para os homens de Ben­
jamim, mas, depois da guerra, lamentam que uma das tribos seja destruída caso
não se encontrem esposas para os 600 benjamitas sobreviventes. Os homens da
cidade de Jabes-Gileade, situada na região ao leste do rio Jordão e parte da he­
rança de Manassés, não haviam se juntado à luta. Um exército foi enviado para
destruir todos os habitantes da cidade israelita, exceto as 400 jovens mulheres
que seriam, então, dadas aos guerreiros de Benjamim (21.1-12). Em seguida,
a nação israelita como um todo, de modo tolo mais uma vez, cumpre seu voto
e chacina toda uma cidade. Posteriormente, Saul salvaria a mesma cidade da
destruição pelos amonitas (1 Sm 11.1-11).
183
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

1. O levita e sua concubina (19.1-30)

POR TRÁS DO TEXTO


Traduções variam na leitura do v. 2, sua concubina cometeu fornicação
contra ele , segundo o TM , ou sua concubinaficou zangada com ele, segundo
a LXX, Codex Alexandrinus (LXXA). O Codex Vaticanus (LXXB) traz sua
concubina se afastou dele. A vulgata latina segue essa última leitura. O verbo
grego poreuõ (“ir”) é similar ao verbo porneuõ (“fornicar”) (Niditch, 2008,
p. 189). A confusão entre as duas palavras pode ter conduzido a essa última
leitura.
Cada uma das tradições textuais teve seus seguidores nas interpretações
judaicas e cristãs (cf. Gunn, 2005, p. 244-275, para uma discussão mais abran­
gente da história da interpretação desses capítulos). Aqueles que seguiram o
TM sugerem alguns elementos. Primeiro, a mulher estava de algum modo
insatisfeita com o levita, escolheu um amante e, então, os dois partiram para
a casa do pai dela. Outros propõem que ela simplesmente rompeu com seu
marido e voltou para a casa paterna, o ato de fornicação sendo não uma outra
ligação sexual, mas o mero fato de ela retornar para seu antigo lar (Niditch,
2008, p. 191-192). Josefo, segundo LXXA, explica que a raiva dela se devia às
constantes brigas do casal, que a aborreciam. Fontas judaicas antigas critica­
vam o tratamento (supostamente) severo que o marido impunha contra sua
esposa, severidade que teria sido o motivo para a partida dela (Gunn, 2005, p.
244-245). A discussão apresentada seguirá o TM, mais compatível com o tema
do conflito sexual no capítulo.
Os três personagens são o levita, sua esposa / concubina e o homem ido­
so que os convida para ficar em sua casa. Os personagens coadjuvantes são o
jovem servo do levita, o pai da mulher e os homens que a atacaram. Nenhum
deles recebe nome, eles se deslocam anonimamente pelo palco, desempenham
seu papel e saem. Apenas o levita será ouvido no capítulo seguinte, e, então,
ele fica em silêncio. Todos são parte de um drama maior que finalmente levará
à guerra. Embora os personagens não sejam nomeados, muitos deles recebem
títulos ou apelidos duplos (cf 4.4 para o conjunto de títulos dado a Débora). O
v. 1 afirma: E h avia um homem, um lev ita... e ele tomou p ara si mesmo uma
esposa, um a concubina (cf. também v. 27). O pai nos v. 4 e 9 é chamado seu
sogro, o p a i da jovem moça. Em outras passagens, ele é simplesmente o p a i da
jovem moça. O homem de Gibeá que os convida para sua casa é referido como

184
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

um / o homem idoso (v. 16,17,20), exceto no v. 22, no qual os homens falam


ao homem idoso, dono da casa , e no v. 23, no qual ele é o homem, dono da
casa. A atribuição de títulos mais extensos ajuda a clarificar quem faz o quê,
exceto quando, no v. 25, lê-se: e o homem pegou sua concubina. Comentado­
res têm hesitado quanto ao homem realmente indicado aqui, seria o levita ou
o anfitrião ? Porém, esse último sempre recebe uma designação mais longa, “o
homem idoso” ou “o dono da casa”. Apenas o levita é referido simplesmente
por “o homem”.
O cenário da história se desloca, primeiro vai da casa do levita nos planal­
tos de Efraim a Belém, depois de Belém a Gibeá, e, então, de volta para a casa
do levita. Ao longo desses diferentes deslocamentos, o tema da hospitalidade
é tecido. O pai alegre e zelosamente entretém o levita, desejando que esse pro­
longue sua estadia. Em contraste com a calorosa acolhida dada na cidade judia
de Belém, ninguém na cidade benjamita de Gibeá dá hospitalidade aos viajan­
tes. Apenas um homem idoso que originalmente vinha dos planaltos de Efraim
acolheu-os. Em seguida, um bando de criminosos daquela cidade quebrou as
leis de hospitalidade ameaçando o levita e violando sua concubina. A sexuali­
dade é uma questão em diálogo com o problema da hospitalidade. A história
começa com a observação de que a mulher cometera fornicação, seja com um
outro amante, seja retornando à casa do pai dela. Ao final da narrativa, ela é
sexualmente violada pelos homens de Gibeá. Quando as ações desses vieram
ao conhecimento de todos os israelitas, houve uma reação intensa contra o vio­
lento abuso sexual cometido contra a mulher.
Há um debate sobre a localização de Gibeá {gib‘â, que significa “colina”).
Edward Robinson, em 1841, identificou a cidade com a atual Jaba, um mon­
te localizado pouco mais de nove quilômetros (cinco milhas) a nordeste de
Jerusalém. Porém, mais tarde, ele mudou sua avaliação e sugeriu que a cidade
benjamita ficaria em Tell el-Ful, cerca de cinco quilômetros (três milhas) ao
norte de Jerusalém. As escavações de W. F. Albright (1922-1923) em Tell el-
-Ful pareciam confirmar a segunda identificação feita por Robinson. Contudo,
as escavações posteriores de Paul Lapp naquela região (1964) levantaram dú­
vidas sobre essa identificação entre Gibeá e Tell el-Ful. A análise literária de J.
M. Miller (1975) parece confirmar a primeira sugestão de Robinson, segundo
a qual Gibeá ficaria em Jaba (Arnoid, 1997, Gibeah, CD-ROM). A cidade foi
mais tarde a fortaleza militar de Saul, talvez tenha sido também sua residência
(1 Sm 10.26). Jz 19—21 indica que Gibeá era uma cidade menor antes do rei­
nado de Saul. Porém, as escavações tanto de Lapp como de Albright indicam
que Tell el-Ful não era uma grande cidade nos séculos 12 e 11. Isso levou alguns
185
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

estudiosos a sugerirem que, quando a história do levita e sua concubina foi es­
crita, o cenário foi estabelecido em Gideá para desacreditar Saul e sua família.
Por isso, a história faria parte da polêmica entre Davi e seu antecessor no trono
(McMurry, 2007, p. 565-566).
No começo do v. 30, a LXX traz as palavras: E ele comandou os homens a
quem enviou dizendo, assim vocês devem dizer a todos os homens de Israel:
“Terá existido algo assim desde os dias em que os israelitas saíram da terra
do Egito até este d ia?". O texto mostra como o levita queria que os mensagei­
ros inflamassem a paixão do povo com sua pergunta. O TM, por sua vez, traz
os destinatários das partes desmembradas da mulher falando atônitos sobre o
que teria acontecido. O final do versículo no TM é muito difícil, mas o sentido
é claro. Tanto Boling (1975, p. 277) como Soggin (1981, p. 289) seguem a lei­
tura da LXX. Niditch (2008, p. 189) aceita o TM. O sentido do versículo não
é substancialmente mudado não importa qual leitura seja aceita. O comentário
abaixo seguirá o TM.

NO TEXTO

U 1-10 A história começa (v. Ia) e termina (v. 21.25a) com a declaração
de que naqueles d ias não h avia rei em Israel. Tudo ocorre na narrativa sob a
condenação de que faltava um governo estável e de que, consequentemente,
a sociedade escorregava em direção à anarquia, na qual cada homem fa z ia o
que era certo aos seus próprios olhos (21.25b). A busca de Israel por outros
deuses a deixara moralmente à deriva. A adoração de um único Deus con­
duz à fixação de um único código moral, que é reflexo do caráter do Senhor.
Como Deus é justo, então, Seu povo deve ser justo. Os dez mandamentos
demandam que o povo de Deus tenha um alto padrão moral, não minta, não
roube, não cometa adultério, não mate. O politeísmo tem vários deuses com
pontos de referência múltiplos para a determinação do comportamento. A
adoração de Baal-Peor incluía a imoralidade sexual (Nm 25.1-8). O deus sol
babilônio Shamash, como a divindade suméria Utu, era o guardião da justiça.
A deusa babilônia da fertilidade Ishtar tinha pouca moralidade. Conforme os
israelitas serviam aos deuses cananeus, eles se tornavam como os deuses que
adoravam.
O levita (v. lb) estabeleceu-se (gur, residir temporariamente, ou seja, não
se trata do lar original ou de uma residência permanente; o mesmo termo é
usado para descrever o homem idoso, v. 16) em uma parte remota do planalto
186
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

de Efraim, que integrava a região central montanhosa ao norte de Jerusalém.


Sua residência ficava em uma área afastada, e, portanto, separada da casa de
Mica (17.1). O homem levita havia tomado uma mulher de Belém de Judá
como concubina (píleges, não uma zõnã [uma prostituta ou meretriz], a mesma
posição ocupada pela mãe de Jefté, 11.1).

Quem eram as concubinas?


A exata posição social de uma concubina é desconhecida. Ela pode
ter variado de acordo com as diferentes culturas e períodos de tempo. Evi­
dentemente, a posição dela era menor do que a de uma esposa. Porém,
sua relação era reconhecida social e legalmente. A mãe de Abimeleque,
filho de Gideão, era uma píleges (Jz 8.31). Abraão fez uma distinção entre
seu filho Isaque, para quem ele deu a herança, e os filhos de suas concubi­
nas, provavelmente Hagar e sua terceira esposa, Quetura, a quem ele deu
presentes (Gn 25.1-6). Bila, a dama de Raquel e que fora por ela entregue
para Jacó, era uma concubina (Gn 35.22). Os filhos dela Dã e Naftali, po­
rém, tinham posição igual à dos outros filhos de Jacó.

É possível que a jovem estivesse no meio de sua adolescência, pois mais


tarde ela será chamada de na ãrâ (v. 3,4, 8), ou teve um caso com outro homem
(v. 2) ou simplesmente o deixou (cf. discussão acima) e voltou para a casa do
seu pai em Belém. O levita esperou por meses antes de ir atrás dela, deixando
tempo suficiente para saber se ela estaria grávida (Schneider, 2000, p. 253).
Então, ele (v. 3) decidiu ir até sua esposa ef a la r ao coração dela, ou seja,
tentar persuadi-la a voltar para o casamento. A palavra “coração” na Bíblia ra­
ramente se refere às emoções, pois ele era considerado como o centro da perso­
nalidade, onde tanto o intelecto quanto a vontade se coordenavam para tomar
decisões. O levita levou consigo um jovem acompanhante {na ar) como seu
servo, e dois jumentos, um para ele, outro para carregar as provisões e, possivel­
mente, para que a mulher montasse quando eles retornassem. O TM afirma e
ela o levou até a casa do p a i dela (LXX traz e elefoi até a casa do p a i dela, que
atende melhor às expectativas de leitura). Porém, a leitura do TM indica que
a mulher tomou a frente ao apresentá-lo para o pai dela, o que possivelmente
indica a disposição dela em reconciliar-se com seu marido. E provável também
que o pai esperasse a reconciliação, pois ele alegrou-se ao ver seu genro.
Os versículso seguintes (v. 4-10) fornecem a descrição de uma generosa
187
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

acolhida. A passagem funciona como contraste com a quebra da hospitalidade


que ocorreria em Gibeá (v. 22-26). Por três dias, o pai da jovem mulher e o
marido comeram e beberam juntos. No quarto dia (v. 5), o marido preparou-se
para partir, mas o seu sogro persuadiu-o a comer antes de sair. A frase é literal­
mente sustente seu coração com pão, uma expressão com o significado de que
a pessoa deve comer para se sustentar. Abraão fez o mesmo pedido para os três
visitantes (Gn 18.5; cf. também a mesma frase em SI 104.15). Geralmente,
apenas duas refeições eram servidas por dia, uma de manhã e outra no final da
tarde. O pedido do pai da moça implicava que o marido ficasse até a refeição
vespertina. No quinto dia (v. 8), o marido levantou-se cedo e, novamente, o pai
persuadiu-o a ficar até que comessem. Porém, dessa vez, o levita estava deter­
minado a ir embora (v. 9-11). Seu sogro sugeriu, então, que ele passasse a noite
e, depois, se levantasse cedo no dia seguinte e não fosse para sua casa, mas para
sua tenda.. A estranha referência à tenda pode indicar uma nota depreciativa
feita pelo sogro para sugerir que, então, seria realmente o momento para o le­
vita partir. O pai da moça não poderia pedir diretamente que ele fosse embora,
pois isso seria contra as regras da hospitalidade. O levita percebeu a dica. Seu
servo, sua concubina e seus jumentos estavam preparados para ir embora. E
eles foram. Quando anoitecia, chegaram a Jerusalém, aqui chamada de Jebus
(Js 18.28 e 1 Cr 11.4,5), por conta dos jebuseus que os benjamitas não con­
seguiram expulsar (1.21). Jerusalém ficava a aproximadamente 8 quilômetros
(5 milhas) de Belém, mais ou menos uma hora e meia de caminhada. O v. 10
observa que o levita tinha dois jumentos e sua concubina consigo. Como essa
informação aparece no final da sentença, ela está enfatizada. Ele estava com
aquilo que lhe cabia, não apenas os jumentos, mas também a mulher.
I 1 1 - 2 1 O silêncio do servo é quebrado apenas uma vez (v. 11), quando
sugere a seu senhor que passassem a noite em Jerusalém. A resposta do levita é
irônica. Ele não queria ficar em uma cidade de estrangeiros, não pertencentes
à casa de Israel (v. 12). Então, eles apressaram-se até Gibeá, onde esperavam
ter segurança, mas só encontraram o horror. Gibeá (cf. discussão acima) foi
identificada ou com Tell el-Ful, a cinco quilômetros (3 milhas) ao norte de
Jerusalém pela estrada que segue em direção a Ramá, ou com a atual Jaba, nove
quilômetros (5 milhas) a nordeste de Jerusalém. Ramá (v. 13) localizava-se a
aproximadamente sete quilômetros ao norte de Jerusalém, ou seja, dois quilô­
metros a mais de Tell el-Ful pela mesma estrada que saía da futura capital do rei
Davi (Arnold, 1997, Ramah, CD-ROM).
Conforme o sol se punha (v. 14), eles entraram em Gibeá. O texto enfatiza
que a cidade era Gibeá de Benjamim, um local israelita. Logo depois do por­
188
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

tão principal abria-se um pátio ou praça onde os negócios ou os casos judiciais


eram conduzidos (Rt 4.1-12). Estrangeiros poderiam ir até lá e esperar até que
um residente convidasse-os para sua casa (Gn 19.1-3). Ser generoso e estender
hospitalidade aos viajantes e peregrinos era um dever para os israelitas. A Lei
(Êx 22.21; 23.9; Lv 19.33,34; Dt 16.14; 26.12) exigia que eles tomassem conta
daqueles em necessidade, especialmente dos levitas, que não haviam recebido
um loteamento como herança (Olson, 1998, p. 876). Porém, nenhum homem
os levou p ara pousar em sua casa, o que era uma séria violação das leis de hos­
pitalidade.
Um homem idoso (seu nome não é revelado) entra na cidade depois de
trabalhar nos campos (v. 16). O texto identifica-o como um ancião, originário
dos planaltos de Efraim e temporariamente residente em Gibeá. O versícu­
lo termina lembrando que o povo da cidade era benjamita. Essa identificação
tribal é importante na história. As pessoas da tribo de Benjamim não estavam
comportando-se do modo exigido aos israelitas pela Lei do concerto com
Deus. Quando o homem idoso viu o levita (v. 17), ele perguntou: Onde você
está indo e de onde você veio? O levita (v. 18) respondeu que sua casa ficava na
distante região dos planaltos de Efraim e que eles estavam viajando de Belém
de Judá em direção à sua casa. Em seguida, o levita deu a conhecer seu proble­
ma: ninguém lhe demonstrara hospitalidade convidando-o para sua casa. Ele,
então, afirmou que tinha forragem para seus jumentos e comida e vinho o su­
ficiente para os três. Portanto, ele não seria um fardo para o anfitrião. O idoso
respondeu oferecendo-lhe a hospitalidade esperada. Primeiro, ele pronunciou
uma bênção: a p az esteja com você (v. 20). Então, assegurou-lhe que cuidaria
de suas necessidades e, por fim, urgiu-os a não passarem a noite naquele pátio.
O idoso foi um anfitrião gracioso (v. 21), levou-os para sua casa e alimentou os
jumentos. Viajar com sandálias como sapatos, ou mesmo descalço, significava
que os pés estavam sujos e precisavam ser lavados. Limpar os pés os refrescava
e relaxava. Em seguida, eles comeram e beberam juntos. A hospitalidade dada
pelo idoso era completa.
18 2 2 - 2 6 Enquanto estavam divertindo-se ou, literalmente, enquanto esta­
vam fazendo o bem p ara seus corações (v. 22), sua refeição foi interrompida.
A casa foi cercada por homens que, então, bateram à porta. Tais homens rece­
bem uma identificação dupla: homens d a cidade e homens que eram filhos de
B elial (v. 22). O termo “Belial” {béliya‘ ai) significa “desprezível” ou “ímpio”.
No AT, ele designa pessoas más, idólatras ou imorais que se opõem a Deus e
violam o concerto. O termo posteriormente tornou-se sinônimo de Satanás,
como em 2 Co 6.15, sua única ocorrência no NT (Koester, 2006, p. 421). Esses
189
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

indivíduos exigiram que o homem, o dono da casa, o idoso entregasse-lhes o


levita para que eles pudessem conhecê-lo, ou seja, violá-lo homossexualmente
(v. 22). O homem, dono d a casa, saiu até eles (v. 23) para pedir-lhes que não
cometessem essa impiedade {ma*). Ele endereçou-se aos homens chamando-os
de meus irm ãos, o que enfatizava o relacionamento entre eles. Permitir que eles
violassem o levita seria faltar com seus deveres como anfitrião. Ele estendera
sua hospitalidade e, portanto, devia proteger seu convidado. Nesse sentido, a
violação do levita seria uma ofensa não apenas contra o próprio violado, mas
também contra o homem idoso, que falharia em seu compromisso de anfitrião.
O homem idoso chamou a ação daqueles homens de má e ímpia (nèbãlâ).
Para proteger o levita (v. 24), o homem idoso ofereceu aos homens a con­
cubina que viajava com ele e a sua filha não casada (bètülâ, uma jovem, pos­
sivelmente casada, mas não nesse caso, pois ainda vivia na casa de seu pai. A
mulher que fosse virgem seria designada como alguém que nunca conhecera
um homem. Veja Gn 19.8, em que Ló assim descreve suas filhas [conversa par­
ticular com Charles Isbell]). Ele fez a oferta para que eles as humilhassem ( anâ,
“humilhar ou afligir”, BDB, p. 776), ou seja, estuprassem. Eles poderíam fazer
o que fosse bom aos seus olhos (v. 24). Fazer o que era certo ou bom aos pró­
prios olhos era agir por motivos egocêntricos, despreocupados com aquilo que
Deus exige (14.3; 17.6; 21.25). Os homens não ouviram o idoso, e queriam o
levita. A próxima frase é ambígua. O homem tomou sua concubina e a trouxe
p ara fo ra, até eles (v. 25). Seria esse homem o levita ou o idoso? Intérpretes
têm divergido sobre essa pergunta. Porém, uma vez que o anfitrião é sempre
identificado por um título duplo, o homem era provavelmente o levita, que
abandonou sua própria concubina. Só é possível imaginar o terror que a jovem
mulher sofreu naquela noite. O pai dela é mencionado como pai de uma mu­
lher jovem (naarâ no v. 4). Ela provavelmente estava no meio de sua adolescên­
cia. Os homens não apenas a estupraram, mas também abusaram dela durante
toda a noite, até que o sol estava para nascer, na manhã seguinte. Ela conseguiu
voltar até a casa do idoso (v. 26), onde o seu mestre / senhor ( adôn), um termo
poderoso, não o habitual termo para “seu marido”, havia permanecido em segu­
rança a noite inteira. Lá, ela desmaiou na soleira da porta.
A narrativa aqui é similar à história de Ló em Sodoma (Gn 19.1-11). Ló,
que não era um habitante permanente da cidade, mas um residente temporário
(gür), ofereceu hospitalidade a dois anjos. Eles entraram na casa dele e come­
ram. Homens, nesse caso, todos os homens da cidade, vieram até a porta da
casa de 1x3 exigindo que esse os deixasse conhecer os homens / anjos, ou seja,
violá-los homossexualmente. Em vez disso, Ló ofereceu suas duas filhas vir­
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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

gens, mas os homens rejeitaram a oferta e quase quebraram a porta na tentativa


de chegar aos visitantes. Nesse incidente, os anjos protegeram as filhas, mas a
concubina da história do livro de Juizes não tinha nenhuma proteção celestial.
Os paralelos são numerosos, e seriam reconhecidos pelos ouvintes originais. O
que ocorrera antes com Ló e seus convidados agora acontecia dentro de Israel.
■ 27-30 Na manhã seguinte (v. 27), o levita abriu a porta para seguir seu
caminho, e logo encontrou a mulher caída com seu braço sobre a soleira. Não
há indicação na história de que ele estivesse preocupado com o destino da
mulher. Talvez ele já a desse como morta, sem nada que pudesse fazer para
ajudá-la. Ao vê-la caída na entrada (v. 28), deu as ordens levante-se e vamos.
A LXX nesse ponto do texto adiciona: e ela não lhe respondeu, pois esta­
va m orta. Schneider corretamente observa que “esse é outro caso em que a
LXX parece corrigir urria passagem muito difícil para seus leitores aceitarem”
(2000, p. 264). Não há indicação de que ele sentisse alguma compaixão por
ela. Como ela não se levantou, o levita a colocou sobre o jumento e foi para
seu lugar, sua casa. A história é ambígua novamente. Ela estava morta ou ape­
nas desmaiada? O versículo seguinte (v. 29) descreve como o levita fo i até
sua casa, pegou um a fac a, tomou sua concubina e a desmembrou (nãtah ,
termo usado para o desmembramento de animais sacrificiais, Lv 8.20) nas
ju n tas dos ossos. Ela estava morta quando foi encontrada naquela manhã?
Ela teria morrido durante a viagem para casa? Teria o levita a matado quando
desmembrou o corpo dela? A ambiguidade da história deixa ao leitor a possi­
bilidade de imaginar quais eram os motivos do levita. Por que ele foi atrás da
concubina depois de ter sido abandonado por ela? Seria por que seu orgulho
estava ferido, ou ele tinha amor verdadeiro por ela? Certamente ele a jogou
para os bandidos muito rápido, pensando somente em salvar-se. Depois dis­
so, ele não demonstra nenhuma preocupação pela segurança ou pelo bem-
-estar da mulher. Ele viu uma espécie de retribuição perversa no que aconte­
cera a ela? Ela cometera fornicação em busca de uma ligação sexual fora de
seu relacionamento. Será que ele achava apropriado que ela fosse sexualmente
explorada e abusada? Em cada aspecto da história, a mulher foi reduzida a
um pedaço de propriedade desprovido de sua dignidade ou valor. Ao final, as
doze partes de seu corpo foram enviadas para diversas regiões do território de
Israel. Saul posteriormente agiria de modo similar ao levita. A diferença é que
ele espalhou as partes desmembradas de seu gado pelo território israelita. Seu
propósito era reunir as tropas de todas as tribos para levantar o cerco contra
Jabes-Gileade (1 Sm 11.1-8). O propósito do levita era o de unir Israel para
vingar sua honra.
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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Quando todos viram as partes do corpo (v. 30), reagiram atônitos. Re-
toricamente, eles perguntaram se algo assim já havia ocorrido em Israel des­
de os dias que deixaram o Egito. O que lhes deixava tão perplexos, o corpo
desmembrado ou a ação dos homens de Gibeá? Novamente, a história omite
os detalhes e encoraja o leitor a imaginar o que ocorreu. Os israelitas deviam
refletir sobre o problema, buscar algum conselho acerca do que deveríam fazer,
e, depois, declarar a decisão que tomassem.

A PARTIR DO TEXTO
1. A mulher é o foco da história. Ela comete fornicação, deixa seu marido
e retorna para casa do pai. O levita a segue, buscando reconciliação. E ela quem
é dada aos homens de Gibeá. E o corpo dela que é enviado às tribos. Nunca ela
é nomeada. Tal como todos os outros personagens do drama, ela permanece
anônima. Não há indicação de que ela participou das decisões relativas à recon­
ciliação com o levita ou ao local onde passariam a noite. Ela teve a capacidade
de agir por conta própria ao voltar para casa do pai. O modo como as mulheres
eram tratadas serve como termômetro da saúde espiritual de Israel. Ao final
do livro, a sociedade israelita deteriorava-se e cada um fazia o que achava certo
(21.25). Os horrores inflingidos contra a mulher são indícios desse declínio
social. Não era essa a intenção de Deus para a humanidade. Gn 1.27 declara
que tanto homens como mulheres são criados à imagem de Deus. Embora o
pecado tenha corrompido a intenção divina original para o relacionamento
entre homens e mulheres (Gn 3.16), a imagem de Deus nunca se perdeu. A re­
denção em Cristo Jesus permitiu restauração e reconciliação para todos, tanto
homens como mulheres (Jo 1.12; G1 3.28). Há diferenças físicas e funcionais
entre eles que a sociedade deve levar em conta. Porém, sociedades com estru­
turas que inibem seus cidadãos, masculinos ou femininos, de atingir todo o
seu potencial dado por Deus são, nesse sentido, injustas. A igreja em particular
deve dar suporte, por meio de suas estruturas institucionais e educacionais,
para que homens e mulheres possam responder integralmente ao chamado de
Deus para suas vidas. As culturas efetivamente diferem, e o modo como a Igreja
trabalha dentro delas para pregar o evangelho deve ser adaptado para cada uma
delas. Não há um plano mestre sobre como cada sociedade deve ser estrutura­
da. Porém, estruturas sociais saudáveis são capazes de incorporar os princípios
de justiça (pois Deus é justo), equidade (pois Deus dá misericórdia a todos)
e igualdade de oportunidade (pois Deus chama cada um de nós para ser seu
filho) para todos os seus cidadãos.

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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

2. A hospitalidade desempenhava um papel significante nas culturas bí­


blicas, não apenas no AT, mas também no NT (Hb 13.2; 1 Pe 4.9). Viajar
era perigoso, e os lugares públicos de descanso eram poucos, quando existiam.
Em viagens pelo AOM, uma pessoa ou um pequeno grupo acampados em um
espaço aberto tornavam-se um alvo potencial de ladrões. As pessoas planeja­
vam passar a noite com parentes ou amigos sempre que possível. Os viajantes
muitas vezes acabavam dependendo da hospitalidade de estranhos para viajar
com segurança. O levita contava com a hospitalidade dos benjamitas na cidade
de Gibeá.
A viagem moderna é muito diferente da viagem na Antiguidade. Nos pa­
íses desenvolvidos, ela é segura e há hotéis em abundância. Não sentimos a ne­
cessidade de incomodar os outros. Em países subdesenvolvidos, a hospitalida­
de é ainda uma característica social. Os viajantes devem confiar à generosidade
de estranhos a provisão de acomodações seguras.
Paulo encorajava os cristãos a praticarem hospitalidade (Rm 12.13) e lista-
va-a entre os traços de um líder da igreja (1 Tm 3.2; Tt 1.8). Embora a mesma
necessidade de hospitalidade não exista nos dias de hoje como existia nos tem­
pos bíblicos, ainda há oportunidades para os cristãos poderem demonstrá-la.
Algumas famílias abrem suas casas para filhos adotivos, provendo um ambien­
te seguro e amoroso para aqueles que não têm mais seus pais ou que, por algum
motivo, foram separados deles. Outros cuidam de estranhos com necessidades
especiais. Uma casa deu abrigo a um casal que visitava um parente na prisão.
Acolher aqueles em necessidade preenche integralmente os ensinamentos de
Jesus, amar o outro e tratá-lo tal como gostaríamos de ser tratados.
3. Quão corrupta a humanidade pode tornar-se? O texto dá um retrato
multifacetado de como o pecado corrompeu o que Deus criou. A mulher foi
infiel ao seu marido. O levita não teve coragem nem compaixão, sacrificou a
própria mulher para proteger-se. Ele permaneceu dentro de casa, protegido da
violência, mas não fez nada para ajudar a mulher. No dia seguinte, ele não de­
monstrou nenhum afeto, mas, encontrando-a caída na porta, ordenou-lhe que
se levantasse e que continuassem a viagem. Os valentões da cidade perverteram
a sexualidade normal, querendo, primeiro, violentar homossexualmente o levi­
ta e, depois, violar e abusar sexualmente da mulher. Quando o povo rejeita as
leis de Deus para ceder aos seus próprios desejos, torna-se escravo do pecado
(Rm 6.15,16). Não sabemos aonde o pecado finalmente nos levará, até que
nível de degradação cairemos. A Bíblia não focaliza o aspecto hediondo do pe­
cado ou as profundezas de depravação na qual indivíduos e sociedades podem
afundar-se. Ela oferece um caminho alternativo que inclui arrependimento,
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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

perdão e reconciliação com Deus, bem como uns com os outros. Por meio do
sacrifício de Cristo Jesus, temos acesso a um novo estilo de vida, uma vida em
conformidade com os mandamentos de Deus e com os ensinamentos de Jesus:
um estilo de vida fortalecido pelo Espírito.

2. Guerra entre a s tribos (20.1-48)

POR TR Á S DO TEXTO

O capítulo começa com todas as tribos de Israel, exceto Benjamim, reuni­


das em Mispá. Lá, o levita dá-lhes sua narração dos acontecimentos de Gibeá.
Concluído o seu discurso, ele não voltará mais a aparecer na história. Os atores
se tornam as próprias tribos. Os antagonistas eram Israel e Benjamim. Deus es­
colhe Judá para liderar a batalha. Essa escolha forma o quadro do livro de Juizes
como um todo, pois, em 1.2, Judá também foi escolhida para conduzir a cam­
panha da conquista. A ação move-se da convocação em Mispá para o santuário
em Betei; vai e volta de Belém a Gibeá, onde as batalhas acontecem; depois,
vai até a rocha de Rimom e, por fim, às cidades benjamitas. A estratégia isra­
elita para as duas primeiras batalhas foi confrontar Benjamim em um ataque
direto. A última batalha lembra o ataque de Josué contra Ai (Js 8.3-23), com o
uso de tropas esperando em uma emboscada até que a batalha tivesse afastado
os defensores da cidade. No final da batalha, o cenário muda para a rocha de
Rimom, onde 600 benjamitas haviam se refugiado. Toda a ação tem lugar no
território da tribo de Benjamim, localizado no planalto central logo ao norte
de Jerusalém. Os atores são as tribos em conjunto. Fora o levita e Fineias, o
sacerdote, nenhum outro indivíduo é nomeado. O capítulo se encerra com a
observação sinistra de que, depois da batalha, os israelitas cumpriram o que
determinava uma guerra santa, pois destruíram todas as pessoas e animais de
cada cidade. A guerra da conquista agora se aplicava contra uma tribo de Israel.
Um dos temas de fundo do livro é a busca por liderança. Quando surgia
uma crise, um líder era chamado por Deus para reunir as tribos e trazer livra­
mento. Nessa narrativa, não há líder, as tribos agem de modo independente.
Elas perguntam a Deus qual tribo deveria liderá-las na guerra contra Benja­
mim, mas não perguntam se deveriam mesmo ir à guerra. Elas pressupõem a
justiça de sua causa e aplicam os princípios da guerra santa contra Benjamim,
visando destruir toda a tribo, sem autorização divina. Embora os israelitas con­
siderassem justa a sua causa, eles agiram independentes de Deus. Apenas de-
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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

pois de duas derrotas, eles perguntam se deveríam ou não continuar a guerra ou


declarar a paz. Dentro do contexto do livro como um todo, a guerra intertribal
que quase destruiu uma das tribos inteiramente foi o resultado da decadência
contínua dos israelitas. Eles não foram fiéis à adoração exclusiva do Senhor,
adoraram os deuses dos outros povos. Eles não seguiram a orientação dada pela
Lei, e perseguiram seus próprios desejos, fazendo o que era certo aos seus pró­
prios olhos. No final, as tribos se viram contra uma delas e quase a destroem
completamente.
Os números registrados para os combatentes e para aqueles que foram
mortos apresentam um problema para a perspectiva histórica. Para os padrões
daquele tempo, tais números parecem muito inflacionados. Eles são mais com­
patíveis com o número de tropas convocadas para as batalhas durante o sétimo
século, quando o império assírio dominava o AOM (cf. discussão sobre esses
números na Introdução). A cultura ocidental, desde o iluminismo (século 18),
tem lidado com os números a partir de uma perspectiva matemática e científica,
em que as quantidades representam uma contagem efetiva. Embora o AOM
também possa fazer isso, sobretudo nos negócios, números também eram usa­
dos para significar outros conceitos. Nessa passagem, eles têm uma função teo­
lógica. Os israelitas reuniram 400 mil, e os benjamitas, 26 mil, mais os soldados
de Gibeá (20.15-17). A chance estava enormemente a favor dos israelitas, que
deveríam ser capazes de esmagar Benjamim. Eles assumiram que sua causa era
justa e não perguntaram a Deus se deviam ou não ir à guerra. A estratégia inicial
de Israel foi mobilizar um ataque frontal contra os benjamitas. Foi um desastre.
Na primeira batalha, os israelitas perderam 22 mil soldados e, na segunda, 18
mil. Porém, nenhuma perda de Benjamim foi registrada. Um total de 40 mil,
dez por cento das tropas de Israel, foi perdido, ao passo que os benjamitas ti­
veram zero de perdas. Benjamim só sofreria perdas durante a terceira batalha,
de todos os 26 mil, sobraram apenas 600. Em contraste com os altos números
dados para a reunião das tropas e para as perdas, o número de israelitas per­
didos na terceira batalha foi de apenas 30 (20.31,39), uma quantidade pouco
significante de perdas, dado os números anteriores que chegavam a dezenas de
milhares. Essa quantidade pequena de mortes indica que o número de solda­
dos historicamente engajados no conflito era muito menor. As histórias orais
que chegaram aos editores e compiladores do livro no final do sétimo século
provavelmente não incluíam o número real de combatentes, exceção feita aos
30 perdidos na batalha final. Os editores usaram os números teologicamente
para afirmar que a superioridade numérica não era o que importava, mas, sim,
a vontade de Deus. Apenas depois que os israelitas aproximaram-se de Deus
195
JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

perguntando se a guerra deveria continuar ou não, Ele deu-lhes a vitória.


Tanto Soggin quanto Matthews (2004, p. 192) revertem a ordem dos v.
22 e 23. Soggin simplesmente afirma que “os comentários têm concordado em
inverter a ordem desses dois versículos” (1981, p. 293). A sequência no TM é
estranha. Depois da derrota das forças de Israel no primeiro dia, os israelitas,
segundo o v. 22, teriam saído novamente para a luta no segundo dia. O v. 23,
então, descreve como o exército derrotado clamou diante do Senhor na noite
do primeiro dia. Embora não seja necessário, reverter a ordem faz sentido. A
NTLH também inverte a ordem, a NVI, por outro lado, a mantém.
Por que os benjamitas protegeram os criminosos de Gibeá? Por que não
os entregaram para julgamento? Poucos comentários levam em consideração
o conceito de solidariedade tribal. Em uma sociedade dividida em tribos, os
membros de cada uma delas protegem uns aos outros. Atacar um deles é ar­
riscar-se a receber a retaliação dos outros. Conflitos de sangue entre as tribos
resultaram em numerosas mortes. Benjamim protegeria seu povo, mesmo que
ele fosse culpado de um crime hediondo. A reação das outras tribos ilustra o
conceito de personalidade corporativa. Família, clãs ou tribos não eram pen­
sadas como grupos de indivíduos, mas como uma única identidade. O indiví­
duo refletia as características do grupo. Uma criança nascida em uma família
de amorreus carregava seu caráter amorreu desde o nascimento. Por isso, uma
guerra contra os amorreus seria imposta contra todos eles, mesmo os recém-
-nascidos. Quando Benjamim protegeu os culpados, demonstrou que toda a
tribo estava marcada pelas características daqueles poucos. E por isso o julga­
mento passou a se aplicar sobre toda a tribo, não apenas sobre os homens en­
volvidos (Robinson, 1935). Mesmo hoje, esses tipos de reação, tanto a solida­
riedade comunitária quanto a personalidade corporativa, são encontrados nas
sociedades tribais. Se um membro da família transgride as normas sociais, a
família reluta em entregá-lo para a punição de “forasterios”. Se a própria famí­
lia não punir a pessoa, então a família inteira pode não apenas ser socialmente
afastada, mas também economicamente isolada, de modo que ninguém faça
negócios com ela. Tais considerações sociais não justificam as ações dos ho­
mens de Gibeá, nem a recusa dos benjamitas em levá-los para a justiça, nem
mesmo a determinação dos israelitas em fazer guerra contra eles. Entretanto,
elas explicam por que as tribos agiram como agiram.

NO TEXTO

H 1-11 Duas qualidades são sublinhas no v. 1, unidade e completude. Toda


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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

a Israel, de D ã a Berseba, as fronteiras tradicionais da nação, mais as tribos da


região transjordânica do Gileade se reuniram em Mispá, no território de Ben­
jamim. As tribos no Gileade incluíam Rúben e Gade (Js 13.15-28). O termo
“Gileade” pode referir-se a toda a região e a todas as tribos que nela habitavam,
com a parte significando o todo. Mispá possuía um antigo santuário dedicado
ao Senhor. Samuel organizou uma convocação lá para escolher um rei para Is­
rael (1 Sm 10.17). Pouco é mencionado sobre tal santuário durante o período
da monarquia, mas ele ainda era considerado sagrado depois da destruição de
Jerusalém em 586 a.C. (Jr 41.5) (Arnold, 1997, Mizpah, CD-ROM). As tribos
se reuniram como uma congregação unida no mesmo propósito, literalmente,
como um homem (v. 1). Os chefes {pinnâ, que significa “apoio” ou “suporte”;
a palavra ocorre com o sentido de “um líder” apenas aqui, em 1 Sm 14.42, Is
19.13 e Zc 10.14 [BDB, p. 819]) de todos os povos de todas as tribos tom a­
ram sua liderança na assem bléia do povo de Deus (v. 2). Eles consideravam-
-se como uma comunidade de adoração reunida diante de Deus no santuário
de Mispá. A congregação propriamente dita consistia de 400 mil soldados a pé
e com espada, ou seja, uma infantaria. Não havia tropas com carruagem ou ar­
queiros. Os números altos indicam uma força esmagadora. O texto observa (v.
3) entre parênteses que Benjamim estava ciente da convocação em Mispá, mas
não tinha representantes lá. O povo, então, pediu uma explicação sobre como
esse m al havia acontecido, mas não é claro se, com isso, estavam referindo-se ao
estupro seguido de morte ou ao desmembramento da mulher.
O levita respondeu à pergunta que fizeram (v. 4). Como Débora (4.4), sua
identificação é específica, nomeia sua tribo e seu relacionamento: o homem, o
levita, o m arido da m ulher que fo ra assassinada. A resposta é breve e traz a
maior parte dos detalhes, mas há muitas mudanças em comparação com o que
o leitor já sabe. O levita identifica Gibeá de Benjamim como o lugar onde ele
e sua concubina foram para pernoitar. Ele, então, afirma (v. 5) que foram os
governadores ( baalê ) de Gibeá, não os “filhos de Belial” (19.22) ou homens
desprezíveis, que cercaram a casa. Ao acusar os líderes da cidade, ele tornava
toda a Gibeá responsável pelo mal cometido, não apenas poucos foras da lei.
Esse detalhe se tornará importante no decorrer da história, quando Israel exige
que os homens responsáveis pelo ultraje sejam punidos. Os benjamitas, entre­
tanto, agindo em solidariedade tribal com o povo de Gibeá, recusam-se. Em
seguida, o levita acusa os mesmos líderes de pretender matá-lo, não de estuprá-
-lo homossexualmente. Em sua acusação de que eles estupraram e mataram sua
concubina, o acusador escondeu o fato de que foi ele quem a jogou para os
criminosos. Seu ato covarde é omitido. Foi apenas depois de a mulher estar
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JUIZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

morta, de acordo com a história do levita (v. 6), que ele a desmembrou e enviou
as partes de seu corpo para todo o território da herança de Israel. Ao se refe­
rir à herança de Israel, o levita evocava as tradições antigas da nação israelita.
A terra lhes fora dada por Deus. O ato ímpio e vergonhoso (nêbãlâ, mesmo
termo em 19.23 e 20.10) que eles cometeram em Israel era uma violação das
leis de Deus. Era responsabilidade de todo o povo israelita investigar e punir
quem fosse culpado por quebrar o concerto (Dt 13.12-18) (Niditch, 2008, p.
202). Se eles não agissem, então Deus os consideraria tão responsáveis quanto
Benjamim. Ele terminou seu discurso (v. 7) chamando a nação a tomar uma
decisão sobre o que fazer.
A resposta imediata (v. 8) foi um voto feito por todos de que ninguém vol­
taria para casa até que questão estivesse resolvida. O texto sublinha a unidade
da decisão: todo o povo como um único homem se levantou e disse. Eles esta­
vam determinados a fazer Gibeá responder pelo que tinha feito. Duas ações
são decididas. Primeiro (v. 9), eles sorteariam quem lideraria a guerra contra
Gibeá. Segundo (v. 10), eles repartiriam um de cada dez homens para que esse
grupo buscasse a alimentação necessária para a tropa. As tribos estavam se pre­
parando para punir os habitantes de Gibeá por sua ação vergonhosa (nêbãlâ,
Jz 19.23; 20.6). A seção termina (v. 11) com a afirmação de que os homens
reunidos contra Gibeá estavam unidos como um único homem. A função des­
sa sentença é enfatizar novamente a unidade de Israel. Antes de as tropas se
moverem em direção a Gibeá, decidiram, primeiro, fazer uma exigência de que
Benjamim entregasse os responsáveis para um julgamento, depois foram até
Betei fazer perguntas a Deus.
I 12-18 Embora Dt 13.12-18 lide especificamente com um caso de idola­
tria, as ações tomadas pelos israelitas eram consistentes com suas exigências.
Primeiro (v. 12), eles enviaram homens até a tribo de Benjamim para perguntar
sobre o que realmente havia acontecido. Segundo (v. 13), eles pediram que
os homens responsáveis fossem entregues para punição, nesse caso, a pena de
morte. A recusa em atender a esse pedido levaria todos da tribo a se colocarem
sob a condenação e sob o risco da destruição total. Os israelitas solicitaram que
os homens, os filhos de Belial (bêlíyaal, 19.22), não os líderes (baalê , v. 5) de
Gibeá, fossem entregues. O escritor fez com que os israelitas solicitassem as
pessoas efetivamente responsáveis pelas ações ímpias, não aqueles que o levita
acusou. Ao executá-las, eles p urgariam (baar , queimar, consumir, cf. Dt 13.5
[texto hebraico, v. 6]) o m al de Israel. Os benjamitas, porém, recusaram -se
a ouvir a voz de seus irm ãos, os israelitas (v. 13). No v. 28, Israel novamente
se refere à tribo de Benjamim como “nossos irmãos”. Mas, os benjamitas esta-
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NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

vam comprometidos com a solidariedade tribal, e defenderíam seus membros


contra agressores de fora. Se eles entregassem os culpados ou os punissem por
conta própria, estariam, por um lado, traindo seus próprios compatriotas. Mas,
por outro lado, assim permaneceríam fiéis ao concerto com Deus. Estavam,
portanto, diante de um teste de lealdade. A quem a lealdade deles pertencia
fundamentalmente, à família ou a Deus ? A história de Israel tal como demons­
trada no livro de Juizes demonstra que a lealdade a Deus, que deveria ser pro­
vada no cumprimento do concerto, sobretudo no mandamento para adorar
apenas o Senhor, não era o valor primário de Israel.
Os benjamitas (v. 14) reuniram os guerreiros de suas cidades, congregando
(v. 15) 26 mil soldados a pé (homens que usavam a espada), mais 700 jovens
(,bãhúr) de Gibeá. Ironicamente, os homens desprezíveis, os filhos de Belial
em Gibeá, cometeram o crime, mas são os seus melhores soldados que são cha­
mados para defendê-los. De um número total de guerreiros (v. 16), 700 jovens
escolhidos que tinham restrições n a mão d ireita (cf. discussão sobre Eúde em
3.15, onde a mesma frase aparece). A expressão indica ou que os jovens eram
canhotos ou, mais provavelmente, ambidestros. Eles não eram soldados de in­
fantaria normais, que apenas usavam uma espada, mas guerreiros capazes de
usar a funda com grande precisão. Eles não erravam {hãta, a palavra geral­
mente é traduzida por “pecar”, mas é usada aqui em seu sentido original de
“errar”). Davi usou a funda para matar Golias (1 Sm 17.48,49). Os assírios ti­
nham unidades compostas de guerreiros que usavam a funda. Ela era uma arma
mortal, que poderia destruir o inimigo a distância. Israel reuniu (v. 17) 400 mil
homens endurecidos pela guerra, uma força esmagadora. Porém, a batalha não
seria ganha pelo tamanho do exército, mas pela vontade de Deus. Os israeli­
tas, primeiro, foram até o santuário em Betei, que ficava a aproximadamente 5
quilômetros (3 milhas) a nordeste dali. Lá, eles perguntariam a Deus que tribo
deveria liderar a batalha. Betei era uma antiga cidade sagrada, associada tanto a
Abraão (Gn 12.8) quanto ajacó (Gn 28.10-22). O Senhor escolheu Judá para
liderar a luta, escolha essa que delimita o contexto do livro como um todo, pois
ele começa com Judá tomando a liderança nas batalhas da conquista (1.1,2) e,
ao final, na guerra contra Benjamim.
■ 19-28 As duas primeiras batalhas foram desastrosas para os israelitas. Eles
alinharam-se em um fronte de batalha diante de Gibeá (v. 20), confiando evi­
dentemente em seu maior número para obter a vitória. Benjamim, contudo,
destruiu (v. 21) 22 mil soldados do exército de Israel. Naquela noite (v. 23,
cf. discussão acima sobre a ordem dos versículos 22,23), os israelitas lamenta­
ram diante do Senhor e perguntaram se deveríam ir novamente à guerra com
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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Benjamim, sua tribo irmã. O Senhor deu-lhes permissão, mas não prometeu
vitória. No segundo dia (v. 22,24), os israelitas tentaram um ataque frontal e
novamente foram derrotados, perdendo 18 mil soldados dessa vez (v. 25). Nas
duas batalhas, Israel perdeu dez por cento de sua força, ao passo que Benjamim
não teve nenhuma baixa.
Após a segunda derrota, todas as tropas israelitas e todo o povo (v. 26), in­
cluindo provavelmente os membros das famílias que estavam acompanhando
os soldados, voltaram para Betei. O resto do dia foi dedicado à lamentação e ao
jejum diante do santuário do Senhor. Evidentemente, as batalhas começaram
no início da manhã, e os adversários interromperam o conflito pela tarde, se
não antes. À noite, os israelitas apresentaram holocaustos, nos quais todo o
animal era consumido, bem como ofertas de comunhão, nas quais parte do
animal é queimado e o restante é comido pelos adoradores. Tudo isso teve lu­
gar no santuário de Betei ou diante dele, e o escritor enfatiza a santidade de
Betei ao observar que, naquele tempo, a arca do concerto estava ali (v. 27-28) e
que o sumo sacerdote Fineias servia por lá.

A arca do concerto
A arca simbolizava a presença do Senhor durante o tempo da pe­
regrinação de Israel pelo deserto. Era o objeto ritual mais sagrado dos
israelitas, que, mais tarde, seria levado a Jerusalém por Davi e colocado
no templo lá construído por Salomão. O que aconteceu com ela posterior­
mente não se sabe. Três sugestões têm mais peso, todas relacionadas à
conquista de Jerusalém e sua posterior destruição pelas mãos de Nabuco-
donosor em 586 a.C. (1) A arca foi enterrada pelos sacerdotes debaixo do
monte do templo para protegê-la. (2) Uma vez que a arca era coberta de
ouro, os soldados a pilharam e destruíram. (3) Ela foi levada como troféu
de guerra para a Babilônia e nunca voltou.

Fineias era um contemporâneo de Josué (Êx 6.25; Nm 25.7). Isso indica


que a guerra contra Benjamim teve lugar no começo do período dos juizes e
que a sequência do livro não é estritamente histórica. A função da narrativa
é ilustrar a desintegração social e espiritual de Israel vivida por conta de sua
recusa em obedecer a Deus.
Depois de oferecer os sacrifícios, os israelitas novamente perguntaram a
Deus se deveríam ir à luta contra seus irmãos benjamitas ou se deveríam ter­

200
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

minar a guerra. Eles haviam saído das últimas duas batalhas intensamente
derrotados e perceberam que, se o Senhor não lhes desse a vitória, então seus
esforços, malgrado sua superioridade numérica esmagadora, seriam em vão.
Como se esperava que o Senhor se comunicasse com eles, nós não sabemos,
possivelmente por meio de um profeta ou de um sacerdote. A resposta que eles
receberam foi uma ordem, a de se levantar contra os benjamitas novamente,
agora junto com a promessa de que os inimigos seriam entregues em suas mãos.
I 2 9 - 3 6 a Essa é a primeira das duas narrativas acerca da batalha final. So-
ggin sugere que a segunda, v. 36b-45, vem de outra fonte, que suplementa a
primeira (1981, p. 293-294). Matthews observa corretamente que “o editor
está, com efeito, empregando uma técnica literária conhecida como repetição
resumptiva para explicar a aparente duplicação das frases”. A narrativa incorpo­
ra as duas perspectivas para dar uma visão mais completa dos acontecimentos.
No processo, o cenário muda de uma perspectiva para a outra, mas para isso
precisa às vezes de uma “duplicação de frases”, de modo que o leitor possa se­
guir a ação (2004, p. 197).
A descrição da batalha começa com uma nota editorial (v. 29) segundo a
qual os israelitas puseram alguns soldados de emboscada em volta de Gibeá.
Trata-se de uma repetição da tática de Josué na segunda batalha de Ai (Js 8.2-
8). As tropas de Israel, então, ocuparam o campo de batalha, como fizeram nos
dois dias anteriores.
Então, começa a descrição mais detalhada dentre todas as lutas registradas
no livro. Os benjamitas saíram da cidade de Gibeá (v. 31) e bateram-se contra
Israel nos campos de batalha ao longo das estradas que iam em direção a Be­
tei. Foram mortos 30 israelitas. Quando viram as forças de Israel recuando, os
soldados de Benjamim pensaram que estavam prestes a ganhar outra vitória.
Porém, esse recuo era um deslocamento tático para atrair os benjamitas para
longe da cidade. A perda de 30 soldados reflete uma contagem mais precisa
das baixas do que os altos números dados para as perdas dos primeiros dois
dias (cf. discussão acima). Os israelitas recuaram (v. 33) até um lugar chama­
do Baal-Tamar (localização desconhecida, mas obviamente perto de Gibeá)
e reorganizaram suas linhas. Conforme os benjamitas os perseguiam, a cidade
que defendiam ficava apenas com uma força simbólica para protegê-la. Nesse
momento, aqueles que ficaram de emboscada saíram de seu esconderijo em
M aareh-G eba. O termo pode indicar o nome de lugar, cuja localização é des­
conhecida. Ele também é traduzido por oeste de Gibeá, “um lugar a oeste de
Geba” (Boling, 1975, p. 282), ou “na planície de Gibeá” (tradução alternativa,
NTLH), “das vizinhanças de Geba” [ARA] (Soggin, 1981, p. 296). Geba fi­
201
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

cava logo ao norte de Gibeá. A força israelita (v. 34) entrou em combate feroz
contra os defensores remanescentes. O principal corpo das tropas de Benja­
mim, contudo, estava longe e não tinha ciência do desastre que estava para
ocorrer contra elas.
A maré da batalha virou (v. 35) quando o Senhor derrotou os benjam itas
na presença dos israelitas. O instrumento da luta foi o exército de Israel, mas
o escritor observa teologicamente que o Guerreiro Divino foi quem efetiva­
mente obteve a vitória. 25 mil e 100 benjamitas foram mortos. Essa contagem
termina (v. 36a) com a triste observação de que, dessa vez, os benjamitas perce­
beram que estavam derrotados.
■ 36b-48 A segunda narrativa nos dá mais detalhes sobre a emboscada e
sobre a tomada da cidade de Gibeá. Os israelitas recuaram (v. 36b) para atrair
o exército defensor, e o texto agora dá um sentido de urgência. Os homens da
emboscada se apressaram e correram até a cidade. Uma vez lá dentro, eles
assassinaram os residentes do local, literalmente puniram toda a cidade com a
lâm ina de sua espada. O sinal combinado entre a principal unidade de com­
bate e a unidade que ficou em emboscada (v. 38) era o de, após terem tomado a
cidade com sucesso, pôr fogo nela. As colunas de fumaça produzidas pelo fogo
apareceriam a distância. Nesse meio tempo, enquanto os israelitas recuavam,
os benjamitas mataram 30 soldados inimigos (v. 39). A reação inicial das forças
de defesa de Gibeá foi imaginar que novamente seriam vitoriosos. O versículo
repete a maior parte dos elementos dos v. 31 e 32.
As tropas benjamitas viram a coluna de fumaça vindo da cidade (v. 40).
Mounce observa que “nos tempos antigos, a fumaça de uma cidade em chamas
sinalizava o seu colapso”. Uma vez que o fogo começasse a correr pela cidade,
nada o pararia antes que o lugar todo estivesse em ruínas flamejantes (1997, p.
329). Quando as tropas israelitas viram a fumaça, elas se viraram e passaram
a defender sua posição. Os benjamitas ficaram aterrorizados, pois sabiam que
estavam diante da derrota e da destruição total. Eles, então, fugiram (v. 41)
pela estrada em direção ao deserto, que passaria pelo leste, em direção ao vale
do rio Jordão. Porém, eles não conseguiram escapar, pois as forças de Israel os
perseguiram. Não está claro quem se juntou à perseguição, se foram aqueles
que estavam em Gibeá ao oeste, ou possivelmente unidades reservas que espe­
ravam em uma cidade próxima. Eles mergulharam em meio aos soldados em
fuga e mataram-nos.
Essa batalha é descrita em termos amplos, sem detalhes precisos. O versí­
culo 43 começa dizendo que os benjam itas foram cercados, e, então, observa
que eles foram perseguidos desde Noá (um lugar desconhecido, próximo de
202
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Gibeá) e que elesforam pisoteados no leste (literalmente, “ao nascer do sol”)


de Gibeá. A princípio, parece evidente que eles foram cercados e, embora pu­
dessem romper as linhas, eles não conseguiríam livrar-se da luta. As perdas (v.
44) foram extremas: 18 m il, todos homens valiosos. Alguns (v. 45) conseguiram
livrar-se e fugir até a rocha de Rimom, mas, no caminho, outros cinco milforam
derrubados ( alal, “lidar com algo pela segunda vez”, “tratar duramente” [KBL,
1985, p. 708]; outra forma da palavra é usada para descrever como os homens
maltrataram a concubina do levita). Eles foram perseguidos até Gidom (localida­
de desconhecida), onde outros dois mil foram mortos. Um total (v. 46) de baixas
é dado novamente (cf. v. 35), 25 mil. Um epitáfio de tristeza e honra descreve os
caídos, todos eles eram homens valiosos. Um restante de 600 (v. 47) benjamitas
refugiou-se em Rimom por quatro meses. A região a leste de Gibeá, que desce
abruptamente do vale do rio Jordão, tinha numerosas formações rochosas e ca­
vernas para as quais os refugiados poderíam fugir. Os israelitas interromperam
sua perseguição aos sobreviventes (v. 48) e voltaram para a cidade, ou seja, Gibeá.
Todos os seus habitantes, incluindo seus rebanhos, foram mortos. O povo e os
rebanhos de outras cidades de Benjamim também foram destruídos, suas cidades
foram queimadas. A guerra de destruição elaborada contra os antigos habitantes
da terra (Dt 7.1,2) agora era inflingida contra Benjamim.

A PARTIR DO TEXTO
1. Ao longo do livro de Juizes, as tribos tiveram de lutar para sobreviver.
Aparentemente, Israel esteve continuamente em guerra contra os povos na­
tivos ou contra aqueles que invadiam sua terra. As questões éticas e morais
que a guerra acarreta para um cristão são das mais difíceis que se possa querer
analisar. O que constitui o problema de uma perspectiva bíblica é o fato de que
a conquista da terra por meio do extermínio das populações nativas era algo or­
denado por Deus. O ponto de partida da discussão em torno desses elementos
deve ser a percepção de que não existem guerras “boas”. Todas as guerras são
más. A destruição das vidas e da propriedade é inerentemente má. A questão
mais abrangente, então, surge: há males piores do que a própria guerra? Alguns
cristãos respondem negativamente a essa pergunta e tomam a posição de que
um cristão jamais deve envolver-se direta ou indiretamente no assassinato de
outros. Outros cristãos reconhecem que há males mais terríveis do que a guerra
propriamente dita, como o extermínio sistemático de um povo, tal como ocor­
rido no século passado, ou a escravização de diferentes populações, que tem
sido a história da humanidade por milhares de anos.

203
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

Essa passagem foi usada por Joseph Fletcher, um amigo próximo de John
Wesley, para denunciar a Revolução Americana. Ele descreveu aqueles que par­
ticiparam do afundamento dos navios de chá no porto de Boston como “os
filhos de Belial”. As pessoas que se uniram para defender-se em vez de dar os
homens para as autoridades e para a justiça estavam agindo como os benjami-
tas. Fletcher aprovava a proclamação real que pedia a Deus que libertasse os
cidadãos leais das colônias, muitos dos quais “foram enganados por discursos
plausíveis, mas mentirosos de alguns de seus líderes” ou “tomados pela febre
epidêmica de um patriotismo selvagem”. Ele esperava que os colonos se arre­
pendessem da guerra e interrompessem o conflito, que ele julgava ser uma alta
traição. Por certo, Fletcher acreditava que as ações da Inglaterra eram justifica­
das (citações e materiais retirados de Gunn, 2005, p. 263-264).
No AT, o povo de Deus era identificado a uma entidade política específica,
Israel. Sua liderança ficava a cargo do Senhor, não apenas nos deveres religiosos,
mas também na manutenção da justiça civil e criminal, bem como na proteção
do povo como um todo. A guerra era muitas vezes algo imposto pela situação,
quando outros grupos invadiam a terra. Com a chegada do dia de Pentecostes
(At 2), a Igreja não mais se tornou exclusiva de um grupo étnico, mas passou a
incluir povos de todo o mundo, pessoas de grupos étnicos diversos e de diferentes
unidades políticas. Teoricamente, a Igreja transcende as fronteiras nacionais e não
deve ser identificada exclusivamente com um governo específico. Na prática, a
Igreja opera dentro de contextos culturais e políticos específicos. Seus membros
devem lealdade tanto a Deus quanto à sua nação. E fácil para os idealistas pro­
clamar um padrão absoluto de não violência. Também deve ser reconhecido que
infelizmente defensores do pacifismo têm injustamente sofrido discriminações
sociais e dificuldades pessoais por suas crenças. Porém, é mais complicado enfren­
tar as questões práticas que surgem da avareza humana, sua cobiça e luxúria pelo
poder. As comunidades mantêm forças policiais para prevenir o crime, elas são
chamadas a usar a violência quando necessário para proteger os outros. Exércitos
são uma extensão dos poderes policiais de um estado. Eles protegem os cidadãos
de ameaças exteriores de violência. Qual deve ser a resposta de um cristão quando
um mal é perpetrado pelas nações ? O que devemos fazer quando nosso próprio
país é atacado? Somos fraternos em um sentido amplo quando vemos outros po­
vos sendo escravizados ou exterminados ? Se abrimos mão do uso da violência,
como podemos proteger os oprimidos ?
2. Os cristãos se rejubilam pelo fato de Deus nos ter trazido a redenção
por meio do sacrifício de Cristo. Crescemos acostumados a pensar em Deus
atuando nas áreas espirituais e individuais. E ficamos desconfortáveis quando
204
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

pensamos que Ele pode envolver-se também nos problemas e na bagunça da


vida política. Deus é soberano sobre toda a humanidade? Ele está envolvido
com as guerras, fomes, pragas e desastres naturais que constituem grande parte
da existência humana? A vitória foi dada aos israelitas por Deus apenas depois
de eles terem ousado perguntar-lhe se deveriam ou não estar lutando contra
seus irmãos. A batalha foi ganha apenas quando o próprio Deus lutou contra
Benjamim (v. 35).
O Senhor está envolvido nas guerras de hoje? Em dezembro de 1944, du­
rante a batalha de Bulge, o capelão do Terceiro Exército estava passando infor­
mações ao comandante, o general G. S. Patton Jr., sobre o estado espiritual das
tropas, quando Patton lhe perguntou se os soldados estavam orando. O cape­
lão respondeu que eles oravam durante os cultos. O general, então, respondeu
que desejava saber se eles estavam orando. E continuou dizendo que, numa
guerra, os preparativos para as batalhas incluem treinamento e planejamento.
Mas, quando elas começam, há sempre um fator intangível que não pode ser
calculado. “Alguns o chamam de sorte”, ele disse, “eu o chamo de Deus”. O
capelão retornou para seu alojamento e escreveu a famosa “oração do tempo”.
Ela foi impressa em cartões de 3x5, com o outro lado trazendo as felicitações de
natal de Patton para suas tropas. Com a permissão do general, cópias do cartão
foram distribuídas para todo o contingente do Terceiro Exército. Alguns dias
depois, com o tempo mais ameno, a força aérea pôde reabastecer as tropas, e o
cerco de Bastogne foi levantado.
As respostas para as nossas orações nem sempre são tão rápidas. Os alemães
sofreram doze anos sob o domínio de Hitler. Outros ditadores, como Stalin, Mao
e Saddan Hussein, continuaram no poder por muitos anos, inflingindo cruelda­
des indizíveis contra seu próprio povo. Os cristãos acreditam que o universo não
é apenas uma existência vasta, fria e vazia. Além de toda a criação, há um Criador
que leva todos os povos a julgamento. Elá uma estrutura moral no universo e,
no final, o bem sairá vitorioso sobre o mal. Essa vitória, contudo, é muitas vezes
obtida por Deus por meio das forças militares das nações.

3. Esposas para os homens de Benjamim (21.1-25)

POR TRÁS DO TEXTO


Essa seção é contextualizada pelas afirmações de que não havia rei em Is­
rael naquele tempo (19.1 e 21.25). O problema da liderança é um tema contí-

205
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

nuo do livro. Esperar por um líder carismático capaz de vir à frente e liderar as
tribos se mostrara um instrumento inadequado para completar a conquista da
terra e para manter os compromissos do concerto com Deus. Nesse capítulo,
a congregação como um todo, liderada por seus anciãos (v. 16), entra em ação.
Nenhum indivíduo fala ou age, nenhum salvador /juiz é promovido por Deus.
Os anciãos não perguntam a Deus o que deveriam fazer. Os planos são feitos e
cumpridos independentemente de Deus.
O problema enfrentado tardiamente pela congregação relacionava-se à
ameaça de extermínio que pairava sobre a tribo de Benjamim. A ação preci­
pitada de Israel em ir à guerra eliminou quase todos os benjamitas, deixando
apenas 600 homens. Em sua indignação diante da morte da concubina e da
recusa de Benjamim em entregar os culpados, a congregação como um todo
fez dois juramentos: primeiro, que todos que não tivessem se juntado à bata­
lha sofreriam a pena de morte; segundo, que nenhum homem daria sua filha
em casamento aos benjamitas. O problema em fazer votos precipitados e tolos
evoca o episódio do voto de Jefté (11.29-40). Eles pensaram que Deus exigia
obediência estrita, não importa a situação. Embora o povo lamentasse diante
do Senhor, ninguém considerou a possibilidade de a congregação arrepender-
-se do voto feito anteriormente, pedindo a um Deus gracioso que a desobri­
gasse de tal compromisso tolo. A pobre noção que eles tinham de Deus não
lhes permitia buscarem o perdão como meio de retificar uma situação. Em vez
disso, eles buscaram outras formas de encontrar esposas para os benjamitas.
Primeiro, eles foram à guerra novamente e destruíram outra cidade israelita,
preservando apenas 400 jovens mulheres, que foram dadas aos guerreiros so­
breviventes de Benjamim. O levita deixara sua concubina com os criminosos
de Gibeá para salvar a si mesmo. Agora, toda a Israel decide tomar jovens mu­
lheres à força e entregá-las aos benjamitas. Como as 400 mulheres não eram
o suficiente para todos os sobreviventes, os anciãos tiveram de formular um
esquema para contornar seu juramento. 200 benjamitas foram informados de
que poderíam tomar as jovens que celebravam um festival em Siló. O capítulo
deve ser lido com um sentido irônico. Não há declaração de que tais ações da
congregação tenham sido permitidas ou ordenadas por Deus. Não há exem­
plos de como agir em obediência à vontade do Senhor, mas demonstrações do
nível de anarquia social ao qual a comunidade havia sucumbido.

NO TEXTO

B 1 -7 A primeira seção do capítulo descreve o dilema enfrentado por Israel;

206
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

como eles poderíam assegurar a continuação da tribo de Benjamim? Os sete


versículos formam uma estrutura quiasmática:
v. 1. O juramento de não dar nenhuma filha aos benjamitas é declarado,
v. 2. O povo chora e lamenta a condição de Benjamim,
v. 3. O povo pergunta a Deus como isso pôde acontecer.
v. 4. O povo oferece sacrifícios,
v. 5. O povo pergunta quem não compareceu à assembléia.
O segundo juramento é descrito
v. 6. O povo tem compaixão de Benjamim,
v. 7. O juramento de não dar nenhuma filha a Benjamim é reafirmado.
Em Mispá (v. 1), tinham jurado não entregar suas filhas aos homens de
Benjamim. E possível que o juramento incluísse também não tomar nenhu­
ma filha dos benjamitas como esposa para seus filhos, mas como eles mataram
todas as mulheres de Benjamim, essa parte tornou-se irrelevante. Depois de a
luta ter terminado (v. 2), o povo reuniu-se em Betei e levantou sua voz e cho­
rou am argam ente diante de Deus sobre o que havia acontecido. Em Boquim
(2.1-5), o povo também levantara a voz e chorara diante de Deus. As pessoas
estavam desanimadas porque o anjo / mensageiro do Senhor lhes dissera que
Deus não mais expulsaria os habitantes da terra e que a conquista havia termi­
nado. Esses dois episódios de clamor ao Senhor fornecem outro contexto para
o livro. O povo retoricamente perguntou a Deus (v. 3) por que aqueles acon­
tecimentos haviam ocorrido, levando Israel a perder uma tribo. Os israelitas
não reconhecem que fizeram algo precipitado e sem autorização divina. Eles
se recusam a admitir sua responsabilidade na tragédia e buscam, em vez disso,
colocar a culpa em Deus (v. 15).
No dia seguinte (v. 4), eles se levantaram cedo, construíram um altar e
queimaram oferendas inteiras e ofertas de comunhão ou de bem-estar. Eram os
mesmos sacrifícios feitos depois da segunda derrota (20.26). No v. 5, revela-se
ao leitor qual foi o segundo juramento. O levita enviara as partes desmembra­
das de sua concubina para as tribos, e elas responderam reunindo-se diante de
Deus em Mispá. Guerreiros de todas as tribos, exceto Benjamim, eram aguar­
dados. Os israelitas haviam feito um juramento solene de que aqueles que não
foram à assembléia deveríam ser mortos. O escritor observa (v. 6) que eles es­
tavam arrependidos de chacinar seus conterrâneos benjamitas. Porém, estavam
inclinados a compensar sua culpa destruindo outra cidade israelita. O dilema é
reafirmado no v. 7. Eles haviam jurado não dar suas filhas em casamento para os
sobreviventes, mas precisavam, de algum modo, prover esposas para eles. A de­
claração do juramento tanto no v. 1 quanto no v. 7 delimitam o contexto dessa
207
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

seção. O problema enfrentado pelos vencedores é exposto, o resto do capítulo


descreve a solução que encontraram.
I 8 - 1 4 O versículo 8a recoloca a questão do v. 5, quem não respondeu à con­
vocação em Mispá? A resposta (v. 8b-9) afirma que ninguém de Jabes-Gileade
viera. Trata-se de uma cidade localizada a leste do rio Jordão, em algum lugar
no uádi el-Yabis, que corre em direção ao Jordão a aproximadamente 32 qui­
lômetros (20 milhas) ao sul do mar da Galileia (Edelman, 1997, CD-ROM).
A congregação como um todo (v. 10) escolheu doze mil guerreiros valorosos e
ordenou-lhes que matassem todos os habitantes dessa cidade, incluindo as mu­
lheres e crianças. A ordem é repetida no v. 11; a cidade foi colocada sob pres­
crição ( hêrem, “totalmente devotada à destruição”). Todos os homens e todas
as mulheres que conheceram, ou seja, dorm iram com um homem devem ser
mortos. Os soldados cumpriram a ordem. E também capturaram 400jovens
mulheres {naara) em idade p ara casar ( bètülâ), que não haviam conhecido
um homem p ara dorm ir com um homem (v. 12). Elas levaram as mulheres
para Siló, não para Mispá. Siló ficava no planalto central, na estrada que ia
de Betei para Siquém, no meio do caminho entre as duas cidades. Lá, Josué
convocou as tribos para dividir a terra. Foi lá também que se ergueu o taberná-
culo com o espaço para a arca do concerto (Js 18.1-10) (Eíalpern, 1997, CD-
-ROM). A menção à cidade faz a conexão com a próxima história, que fala da
captura das mulheres de Siló. Ela também cria uma transição com as primeiras
narrativas de 1 Sm 1—4, também ocorridas nessa cidade. A observação de que
Siló se localizava na terra de Canaã liga essa passagem com os primeiros capítu­
los do livro. Boling nota que Canaã é mencionada 17 vezes em 1.1—3.6. “No
restante do livro, Canaã é mencionada apenas nos capítulos sobre Débora e
Baraque, onde a oposição é especificamente aos ‘reis de Canãa’ (5.19)” (1975,
p. 292). A congregação, então, envia uma mensagem de paz aos guerreiros ben-
jamitas refugiados na rocha de Rimom. Eles aceitam as mulheres (v. 14) como
suas esposas, porém, ainda haviam 200 guerreiros sem esposas.
Mais tarde, Jabes-Gileade seria reconstruída. Em tempos de guerra, os
moradores de uma cidade muitas vezes se refugiavam nas muitas cavernas exis­
tentes nas colinas circundantes. Talvez alguns desses sobreviventes tenham re­
construído o lugar. Durante os dias de Samuel, ela voltou a ser atacada, agora
pelos amonitas (1 Sm 11.1-11). O rei Saul, então, recentemente eleito, res­
pondeu rapidamente para quebrar o cerco contra a cidade. Depois da batalha
com os filisteus no monte Gilboa, na qual os israelitas foram derrotados, os
homens de Jabes-Gileade fizeram uma incursão ousada para retomar os corpos
de Saul e de Jônatas das muralhas de Bete-Seã (1 Sm 31.11-13). E possível que
208
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

Saul tenha agido tão rápida e decisivamente porque ele descendia de uma das
mulheres de Jabes-Gileade dadas aos benjamitas. Por isso, ele devia sentir-se
ligado em parentesco com os moradores da cidade em seu tempo (Matthews,
2004, p. 199). O povo de Jabes-Gileade também sentia uma profunda lealdade
em relação a Saul, possivelmente não apenas porque ele o salvara dos amonitas,
mas também por conta desse laço de sangue.
■ 15-25 0 povo lamentou tardiamente a guerra (v. 15). Em seus lamentos,
porém, ele colocava a culpa em Deus pelo que acontecera. No AOM, Deus
ou os deuses eram a causa primária dos acontecimentos. O sol se erguia cada
dia porque o Senhor (Israel) ou Shamash (Mesopotâmia) ou Rá (Egito) lhe
ordenava que se erguesse. Se desastres como pragas ou períodos de seca se aba-
tassem sobre as pessoas, elas buscavam descobrir que divindade as causava, para
que pudessem acalmar a sua fúria. Porém, o povo podia agir por si só, indepen­
dente dos deuses. Parece contraditório para a mentalidade ocidental que os
deuses ou mesmo Deus determinassem todas as coisas e, mesmo assim, os hu­
manos tivessem livre-arbítrio. Porém, essa era a forma mais comum de pensar
sobre o mundo no AOM. Portanto, os anciãos do povo (v. 16) imaginavam o
que poderiam fazer para suprir os benjamitas sobreviventes com esposas. Es­
tavam diante de um dilema. Eles precisavam de mulheres que se casassem com
os últimos guerreiros de Benjamim, para que Israel não ficasse sem uma tribo.
Contudo, eles não podiam lhes dar suas filhas em casamento (v. 18) porque
haviam amaldiçoado o homem que fizesse isso.
Os anciãos elaboraram um plano para contornar seus juramentos. Clara­
mente, eles estavam reunindo-se em segredo, e não em sessões abertas com o
povo. Como eles estavam aconselhando-se em Siló (v. 12, 14), se seus planos
fossem públicos, o povo daquela cidade teria consciência deles. O festival anu­
al dedicado ao Senhor (v. 19) para celebrar a colheita da uva, provavelmente
o Sucote ou a Festa dos Tabernáculos, estava prestes a acontecer em Siló. Era
para esse festival que Elcana todos os anos levava sua família, inclusive Ana,
para fazer sacrifícios ao Senhor (1 Sm 1.1-3). A localização exata onde as jo­
vens estavam dançando é dada com detalhes: nas vinhas ao norte de Betei, a
leste da, estrada que corre de B etei até Siquém , m as ao su l de Lebona (a única
referência no AT a essa cidade, que devia ficar próximo de Siló, ao norte). Os
anciãos ordenaram (v. 20) que os benjamitas se escondessem e armassem uma
emboscada ( arab, a mesma palavra usada em 20.20 quando os israelitas fica­
ram de tocaia nas vizinhanças de Gibeá) nas vinhas. Quando as filh as de Siló
saíssem para dançar por ali (v. 21), cada um deles deveria tomar (hãtap , ocorre
somente aqui e em SI 10.9, onde os opressores se apossam dos desamparados
209
JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

[BDB, p. 310]) sua esposa dentre asfilh as de Siló e ir (fugir ?) para a terra de
Benjamim. Os anciãos garantiram aos benjamitas que, se os pais ou irmãos das
mulheres fizessem alguma reclamação, eles convenceriam-nos a abrirem mão
voluntariamente e não irem à guerra. Eles diriam que as jovens não foram to­
madas em batalha como prêmios de guerra para serem resgatadas ou recupera­
das, nem foram dadas voluntariamente. Desse modo, eles não seriam culpados
de quebrar o juramento que fizeram.
Não há registro de que alguém tenha falado em nome das mulheres nessas
deliberações. Mesmo o protesto de seus pais ou irmãos não seriam aceitos. Elas
foram vítimas do mesmo modo que a concubina do levita. Foram levadas à
força e obrigadas a casar-se. No curso normal de suas vidas, as mulheres não
tinham voz sobre quem seriam os seus maridos. As famílias arranjavam os ca­
samentos. Porém, nesse caso, elas também foram privadas da pouca dignidade
e honra que teriam ao longo das negociações anteriores ao matrimônio e dos
festivais que marcariam a entrada delas na casa de seus maridos.
Os benjamitas obedeceram às ordens dos anciãos (v. 23). Quando as mu­
lheres saíram para dançar, cada um dos guerreiros tomou [gãzal, “pegar vio­
lentamente”, “arrancar”, “roubar”[BDB, p. 139]) uma delas. Em seguida, cada
um deles voltou com uma mulher para a terra de seus ancestrais, sua herança,
e reconstruiu as cidades que haviam sido destruídas durante a guerra. Então,
todos os israelitas partiram de Siló (v. 24), retornaram para sua tribo e família,
para suas terras ancestrais, sua herança.
Essas histórias devem ser lidas ironicamente. Os israelitas estavam em um
dilema no qual eles mesmos colocaram-se, e mesmo assim colocavam a culpa
em Deus (v. 3,15). Como Jefté, eles haviam feito votos de modo tolo. Dife­
rentemente de Jeíté, eles tentaram encontrar brechas pelas quais contornassem
tais votos. Os resultados foram horrorosos. A primeira consequência do es­
quema que elaboraram foi a destruição de outra cidade israelita. Exceção feita
às 400 mulheres que seriam dadas aos benjamitas como esposas, todos os ha­
bitantes de Jabes-Gileade foram mortos. Como a quantidade de mulheres de
Jabes-Gileade não foi suficiente, outro esquema foi elaborado pelos anciãos.
As palavras violentas usadas para descrever as ações têm um efeito de choque.
Os benjamitas sobreviventes receberam ordens para esconder-se em uma em­
boscada ( arab ) de modo que cada um deles tomasse uma mulher como um
opressor faz com o desamparado (hãtap ). Eles obedeceram, e cada um violen­
tamente arrancou uma mulher [gãzal) do grupo e, então, fugiu para sua casa,
antes que o pai ou irmão dela pudessem reagir. Embora os israelitas tenham
se virado para Deus em choro e constrição, oferecendo sacrifícios, ninguém
210
NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON JUÍZES

perguntou ao Senhor sobre a situação. Deus não é um ator nesse drama. As


pessoas tomaram suas próprias decisões. Assim, a história e o livro terminam
com uma declaração reveladora (v. 25): naqueles dias, não havia rei em Israel
e cada homem fa z ia o que era certo aos seus próprios olhos. A anarquia social
e espiritual foi o resultado final da experiência de Israel com o autogoverno.
Também há ironia no versículo final, pois ele ressoa em dois níveis. Não havia
rei em Israel? Com certeza, não havia nenhum humano que governasse sobre
o povo. Essa instituição só foi estabelecida posteriormente, quando os anciãos
foram até Samuel para pedir um rei. Deus falou a Samuel, dizendo: Ouça à voz
do povo em tudo o que ele lhe diz. Pois ele não o rejeitou, m as ele me rejeitou
como rei p ara governar sobre eles (1 Sm 8.7). Com certeza, eles tinham um
rei, o Deus de Israel. Porém, eles não tinham rei, pois faziam o que era certo aos
seus próprios olhos, e não o que Ele ordenava.

A PARTIR DO TEXTO
1. O livro de Juizes deve ser lido como parte de uma obra maior que inclui
os livros de Josué, Samuel e Reis. Os compiladores e editores (Dtr) escreveram-
-nos para explicar a queda de Jerusalém (586 a.C.), quando o templo foi quei­
mado e os sobreviventes foram levados para a Babilônia. Com a perda da terra,
do templo e do reino, os exilados estavam desmoralizados. Eles se perguntavam
por que Deus permitira essa grande tragédia sobre eles. O Dtr pretendia mos­
trar, a partir da história de Israel, que o povo continuamente quebrou o concer­
to estabelecido com Deus no monte Sinai. Por não seguir o concerto, direcio­
nando sua adoração exclusivamente para o Senhor, Israel sofreria as maldições
previstas por ele. Como um ato final de punição designado para chamar as
pessoas ao arrependimento, a nação foi levada para o exílio. Tendo de passar
por uma experiência horrível, o povo não tinha esperança de que, clamando a
Deus em verdadeiro arrependimento, o Senhor restauraria-os (Dt 30.15; 1 Rs
8.46-51).
O livro de Juizes delineia a decadência espiritual e social contínua de Is­
rael, desde os dias da morte de Josué e dos anciãos da geração que começou a
conquista da terra (2.6-10) até o surgimento da monarquia na época de Sa­
muel. Quando o povo adorava outros deuses, o Senhor lhe trazia as maldições
previstas pelo concerto, sob a forma da opressão de outros povos. Quando o
povo clamava a Deus, Ele, então, graciosamente promovia um juiz para salvá-
-lo. O ciclo repetia-se, e vagarosamente o povo deslizava em direção ao abismo
social e espiritual. As últimas histórias do livro devem ser lidas como um re-

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JUÍZES NOVO COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON

trato dos resultados finais do pecado cometido por Israel. Não há heróis. Não
há juizes salvadores dedicados à vontade de Deus. Na maior parte das cenas,
o Senhor está ausente. O povo frequentemente age sem considerar qual é a
vontade divina e, como consequência de seu pecado, Israel acaba virando-se
contra si mesma, quase aniquilando a tribo de Benjamim e destruindo a cidade
israelita de Jabes-Gileade.
O livro apresenta em detalhes gráficos as consequências do pecado como
um aviso para seus leitores. Deus deseja a lealdade exclusiva de Seu povo. A
adoração de outros deuses conduz à morte espiritual e ao caos social. O leitor
é chamado a refletir não apenas sobre a história de Israel, mas também sobre
sua vida pessoal. Os deuses que seduziram os israelitas eram visualmente retra­
tados em madeira, pedra ou metal. Os deuses modernos do poder, ambição,
sexualidade, apatia espiritual, autoindulgência, e uma legião de outros, todos
eles, ressoam em nossos pensamentos íntimos. Eles cantam uma música sedu­
tora, mas suas promessas são falsas. Ao final delas, não há liberdade e vida, mas
escravidão e morte.
2. Nos últimos capítulos, as mulheres são retratadas como se fossem merca­
dorias que devem ser consumidas para o benefício do homem. Em Israel como
em todo o AOM, as mulheres eram, no máximo, pessoas de segunda classe.
Nessas narrativas, elas são tratadas apenas como objetos sexuais submetidos às
demandas dos homens e ao propósito de dar descendência aos sobreviventes. E
inapropriado olhar a história passada e julgar os outros a partir dos padrões de
outra época. Porém, mesmo com base nos próprios princípios legais e teológi­
cos daquele tempo, as mulheres foram maltratadas. Israel acreditava que tanto
o homem como a mulher haviam sido criados à imagem de Deus (Gn 1.27).
Nas narrativas finais do livro de Juizes, é muito claro que os israelitas estão
longe de tratar as mulheres como pessoas que carregam a imagem de Deus. A
saúde espiritual de uma sociedade pode ser medida, em parte, pelo modo como
ela trata os seus segmentos vulneráveis (Êx 22.21-27; Dt 24.17; 27.19). Cap­
turar mulheres e forçá-las a casar-se é algo que as rebaixa, que as transforma
em mercadorias, não em pessoas. Uma sociedade que busca promover a justiça
protegerá os vulneráveis e criará oportunidades para que todos os cidadãos de­
senvolvam as habilidades e os talentos que Deus lhes deu.

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