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Lúcia de Jesus (1907-2005),

figura histórica singular do catolicismo contemporâneo


Marco Daniel Duarte
Academia Portuguesa da História | Serviço de Estudos e Difusão do Santuário de Fátima
Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20-UC)

São múltiplos os temas do decurso da vivência histórica em que o historiador se


debate com desafios intelectuais de ordem diversa, que o levam a refletir questões tão
profundas como são as da utilidade do estudo, dos limites desse estudo e até o da
instrumentalização desse estudo. E não raramente a História Contemporânea se coloca
interpeladora das balizas cronológicas do objeto estudado, sempre com o omnipresente aviso
de que o tempo de isenção seja garantido, de que as fontes possam ainda não estar disponíveis,
mas também com a responsabilidade de não perder testemunhos e de que estes não venham a
ser destruídos.
A consciência de que a História não deve apenas estudar o coletivo mas
também o singular, percecionando que do passado possam emergir figuras ou eventos que se
destacam pela singularidade das suas ações, das suas escolhas, do seu pensamento, pode levar
à construção de biografias ou, de importância extrema também, à construção de uma paisagem
histórica que se veja entrecruzada com as ações de diversos atores. Entre as figuras que no
século XX português podem ter biografias exclusivas, em múltiplos aspetos diversos do comum
dos que viveram o seu tempo, está Lúcia de Jesus que a maioria dos seus contemporâneos
conhecem por Irmã Lúcia, vidente de Fátima e religiosa carmelita.

Primeira parte
Lúcia vive num tempo e num espaço concretos:
vive no século, retirada do século, mas com ligações estreitas ao século

Nascia em 28 de março de 1907, num lugarejo do País mais ao ocidente da, já


nessa época, Velha Europa, uma criança do sexo feminino que, quase 98 anos mais tarde, havia
de falecer noutras paragens, numa cidade maior, a cerca de 90 km, em Coimbra. A distância
que separa uma e outra data é tão grande como veloz foi o século XX, o já chamado «breve
século XX»1, um século cheio de silêncios e de ruídos a que não foi imune a biografia da figura
histórica que aqui se observa.
Sem pretensão de exaustividade, o século de Lúcia é bem mais que o século XX,
que alguns historiadores, de facto, fazem nascer em 1917 (data da Revolução Russa e data das
chamadas aparições de Fátima) e terminar na década de noventa. em datas que têm relação
estreita à história de Lúcia e ao universo em que Lúcia é protagonista (precisamente o desfecho
do processo político do Leste Europeu com o colapso da União Soviética).
Contudo, sabemos como o século em que nasce Lúcia é ainda o prolongamento
da centúria anterior, do século XIX, pois a vida de Aljustrel — o lugarejo em que vive os seus
primeiros 14 anos —, quando do seu nascimento, era ainda timbrada pela paisagem e
sociabilidade típicas das décadas anteriores: um perímetro de casas de construção artesanal,
segundo os modelos locais; um lugar onde demorou a chegar a eletricidade, o saneamento e,
ainda mais, os meios de comunicação através dos seus transmissores domésticos. Tudo previa
que assim continuasse, não fora, de facto, o papel desta mulher que ali nasce em 1907. É
seguramente graças a ela e aos primos, que a acompanhavam naqueles dias de acontecimentos
que a historiografia não pode conter, que o seu lugar entrará nesse ‘modus vivendi’ do século
XX: por causa deles chegaram as máquinas fotográficas à Cova da Iria; chegaram os automóveis;
os ónibus e os ‘char-a-bancs’; ali chegou, mais cedo do que a outros lugares, a eletricidade, a
água que começa a correr nas canalizações das casas e por causa deles se forma a paisagem de
tantos outros temas que, por causa dos milhares e milhares de fiéis que para ali se veem
atraídos, configuram o lugar conforme a necessidade dos que ali acorrem e que ali vivem.
Este século é também o que acelerou muitas conquistas, que viveu de forma
muito clara os progressos da máquina a vapor que o século anterior tinha feito viajar, que entra
em conflito a uma escala mundial, como nunca havia acontecido na História humana, que se
mostra eufórico na década de 20, que se mostra depressivo na década seguinte, que vai
ensaiando guerras terríveis como a que assolou a Espanha nos finais da década de 30, e que, a
meio da sua cronologia, se mostra em terrível combate novamente mundial, que continua a
estar dividido entre duas formas de pensar, antagónicas, que vê cair um muro separador de
ideologias, que vê o homem chegar à Lua, que encontra caminhos rápidos para fazer chegar a
informação de um lugar para outro. E as máquinas que voam encurtaram distâncias, os meios
de comunicação de massas que revolucionaram a forma de produzir e difundir informação, o
cinema, a rádio e a televisão que alargaram horizontes, o telefone e computador, as redes

1 Eric Hobsbawm, A era dos extremos: breve história do século XX, 1914-1991, Lisboa, Presença, 1996

(tradução da obra de 1994). O autor coloca as datas extremas deste «século entre 1914 e 1991» (p. 15) e refere que
«o mundo que se esfacelou no final dos anos 80 foi o mundo formado pelo impacte da Revolução Russa de 1917» (p.
16).

2
globais de informação que criaram pontes cada vez mais eficazes: todos estes acontecimentos
são pertença desse século XX. Assim foi o século em que a ciência formula a teoria da
relatividade, mas também a bomba atómica e as armas nucleares. Um século que também o
historiador poderia percorrer desde a gripe espanhola à sida, passando pelo antibiótico e por
tantas outras formas de controlar as doenças.
Nesta ladainha de acontecimentos, está ainda esse tempo de violentas formas
de governo, ditadas por regimes musculados e ditatoriais que conduziram ao holocausto e aos
gulags; está o tempo de colonialismo e de descolonização, de prisioneiros políticos e de uma
cortina de ferro que dividia a humanidade e se tornou símbolo da Guerra Fria, tempo em que
acontece também o debate em torno da paz, da solidariedade internacional e da democracia.
Este é o tempo de Lúcia, também pontuado pela ação dos papas, homens tão importantes para
aquela criança, com quem vai, no decorrer da sua longa vida, corresponder-se.
O conhecimento sobre o século XX está cheio de silêncios e de ruídos muito
expressivos, que conferem a este tempo uma fisionomia muito especial, ainda objeto de
múltiplos estudos, porquanto a distância temporal merece ainda prudência nas conclusões que
só podem tomar-se como provisórias, até que os desconhecidos dados que os arquivos
guardam venham a ditar renovados olhares.
O século XX é também responsável por uma nova abordagem do estudo do ser
humano, gerando novas formas de conhecimento: herdeiro da revolução científica do século
anterior, a centúria de Novecentos olhou para o homem e para a mulher como nunca antes
havia acontecido, pois as chamadas Ciências Humanas e Sociais (a Psicologia, a Psicanálise, a
Antropologia, a Filosofia, a Sociologia, a Economia, a História) trouxeram para o universo da
investigação temas nunca antes pensados ou, pelo menos, nunca cientificamente pensados
desta forma. Por exemplo, fazer a História do século XX é, pois, não estudar apenas as guerras,
as geografias, as instituições e as decisões políticas. É também olhar para cada ser humano que
deixou um trilho peculiar que é hoje vestígio muito concreto desse século multicolor, qual
mosaico de pequenas tesselas que compõem um cosmos habitado por acontecimentos de
impacto ao nível político, económico, social, religioso e eclesial, para apenas citarmos alguns.
Aquela personalidade histórica que nascera em Aljustrel e morrera em Coimbra
vive, de forma longa, neste século breve, o mesmo é dizer, se quisermos fazer uso da aceção
religiosa que este termo também comporta: vive no “século”, retirada do “século”, mas com
ligações estreitas ao “século” durante aproximadamente 100 anos (97 anos, 10 meses e 16 dias,
para sermos mais específicos).

3
Segunda parte
O que a historiografia ignora se não estudar a vida da protagonista de Fátima

A geração de historiadores que seguiu à referida revolução epistemológica é,


pois, responsável por deixar sobre o objeto que estuda — o ser humano nas suas múltiplas
formas de pensar e de agir — um olhar atento, firmado na aproximação o mais vizinha possível
a esse objeto histórico. De entre os temas vários que escolhe para análise, garantirá a possível
isenção, mas também a imagem subjacente às suas escolhas, seleções que, outrossim, num
futuro próximo, outros virão a julgar ou, para suavizarmos o discurso, outros virão a analisar.
A multiplicidade de fontes disponíveis para o período a que, comummente,
chamamos de História Contemporânea e que as Ciências Sociais chamam, já há algum tempo,
de pós-contemporaneidade permite a construção desse universo informativo sobre o passado,
muitas vezes, porém, ainda lacunar, consoante a figura ou o cenário histórico que se analisa.
Com efeito, por muito que digamos viver na sociedade da informação, o “Homem total” nunca
será “totalmente” apreendido pelos investigadores que se debruçam sobre o passado,
porquanto existirão sempre dificuldades em aceder à totalidade do seu testemunho e legado.
Não acontecem estes vazios com figuras de exceção (ou pelo menos não se
nota de forma maior), pelas múltiplas razões que poderemos enumerar, desde a sua
importância político-institucional, desde o seu poder económico ou de governação, desde o seu
mediatismo, desde a sua função religiosa, ou desde o seu lugar em determinada comunidade,
de escala mais local ou mais mundial.
Lúcia de Jesus, que nasceu em Aljustrel no dia 28 de março de 1907 e morreu
em Coimbra em 13 de fevereiro de 2005, viveu no século que atrás tentávamos sumariar e a
sua biografia inscreve-se na das figuras perscrutáveis a uma escala maior, porquanto a sua ação
e o seu pensamento fizeram acontecer múltiplas outras ações e formas de pensar,
influenciando, mesmo, a maneira de agir de personalidades importantíssimas do panorama
político-institucional do mundo contemporâneo. Interagiu nesse século, umas vezes como parte
de um cenário por outras figuras históricas traçado, outras vezes como protagonista de uma
história riquíssima, ainda por fazer. Sobre ela se escreveram várias notícias, para onde vivia se
deslocaram homens e mulheres para pedir conselho, como se se estreitasse com figuras
maiores do passado este gesto tão repetido ao longo dos tempos de uma mulher assumir o
papel de conselheira (lembremos, por exemplo, Catarina de Sena ou Teresa de Ávila). Escreveu
muito, vários tipos de textos, alguns de caráter mais pragmático e outros com intencionalidades
muito claras, programaticamente claras, ainda que, na sua maioria, escritos por cumprimento

4
do voto de obediência. Deixou por isso memória viva na comunidade em que viveu, na
sociedade em que agiu.
Cabe, assim, a pergunta que indaga até que ponto Lúcia encarna o papel dos
“heróis coletivos”, que nas palavras de Fernando Catroga são «emanações subjetivas da
consciência de um povo, de uma nação, de uma classe, da própria humanidade» 2. Evocando a
síntese de Hegel, o historiador que agora citamos, ao analisar os problemas que subjazem à
crítica histórica, fixa:

«tais indivíduos não tinham consciência da Ideia geral que desdobravam enquanto perseguiam os
objetivos deles [...]. Mas, ao mesmo tempo, eram homens de pensamento, com apreensão das
necessidades da época [...]. As individualidades histórico-mundiais — os heróis de uma época —
devem portanto ser reconhecidos como seus filhos de mais ampla visão: as suas ações, as suas
palavras, são as melhores desse momento»3.

Assim é considerada por muitos membros da geração que convive com Lúcia e
da geração que lhe segue, dentro e fora da sua comunidade, esta mulher cuja biografia é
manancial de informação. Assim se poderá falar da sua fama ou ‘exempla virtutis’, analisável
aqui não apenas segundo o tema que a Igreja Católica Romana inscreveu na “Sanctorum Mater.
Instrução para a realização dos inquéritos diocesanos ou das eparquias nas causas dos santos”4,
mas também no que respeita à ‘societas’ que vive num específico espectro do tempo5.
O que tentamos demonstrar com este itinerário é o seguinte: se Lúcia tivesse
vivido na Idade Média, o autor de “As Damas do século XII” tê-la-ia incluindo na sua obra,
juntamente com “Heloísa, Leonor, Isolda e algumas outras”6. E se o mesmo Georges Duby
(1919-1996), que quis rasgar horizontes na historiografia sobre a Idade Média, se se dedicasse
ao século de Lúcia e escrevesse um ensaio sobre as mulheres do século XX, teria incluído Lúcia

2 Fernando Catroga, Caminhos do Fim da História, Coimbra, Quarteto, 2003, p. 90.


3 Idem, ibidem, p. 90-91.
4 Congregazione delle Cause dei Santi, Sanctorum Mater: instruzione per lo svolgimento delle inchieste

diocesane o eparchiali nelle cause dei santi, Roma, Tipografia Nova Res, 2007. Veja-se também Vincenzo Criscuolo,
Daniel Ols, Robert J. Sarno, Le Cause dei Santi. Sussidio per lo “Studium”, III edição, Vaticano, Libreria Editrice
Vaticana, 2014.
5 Conscientes de que os estudos sobre a santidade possam ter deixado «há muito de interessar ao

pensamento» (Augusto Joaquim, Estratégia do papado e mutações da santidade: alguns dados e reflexões a partir do
texto hagiográfico, em Georges Daix, Dicionário dos Santos do calendário romano e dos beatos portugueses, Lisboa,
Terramar, 2000, tradução do original francês, de 1996, p. 239-250; veja-se a p. 240), sublinhamos, com Maria de
Lurdes Rosa, que, ao menos o ramo do saber da historiografia, não tem deixado de trabalhar esta temática (veja-se
Maria de Lurdes Rosa, Historiografia da santidade no século XXI: percursos prévios, problemáticas atuais: balanço e
reflexão, em Lusitania Sacra, 2.ª série, n.º 28, julho-dezembro de 2013, p. 215-237). Permitimo-nos apontar para
uma súmula das leituras da santidade ao longo dos séculos: Marco Daniel Duarte, Paradigmas da santidade ao longo
da História: ao som da ladainha, breve história da santidade, em José Eduardo Borges de Pinho, Santificados em
Cristo: Dom de Deus, resposta humana, transformação do mundo, Fátima, Santuário de Fátima, 2016, p. 49-81.
6 Georges Duby, As Damas do Século XII. 1. Heloísa, Leonor, Isolda e algumas outras, Lisboa, Teorema, 1996

(tradução portuguesa da obra original de 1995).

5
entre Jane Addams, Corazon Aquino, Coco Chanel, Hillary Clinton, Marie Curie, Aretha Franklin,
Madonna, Indira Gandhi e Teresa de Calcutá. Servimo-nos da lista que, em novembro de 2010,
a celebrada revista “Time”, a partir das representações do mundo feminino, cujos critérios,
obviamente, aqui não analisaremos, publicou sob o lema das mais importantes mulheres do
século XX7. Por esses dias, de forma cândida, um jornal nacional admirava-se por não se
encontrar um nome português entre as assinaladas8. É óbvio que os critérios passam pelo que a
historiografia já chamou de história da condição feminina (critérios que Lúcia não preencherá),
mas também é óbvio que a historiografia se tem preocupado mais em destruir mitos e se tem
demitido em relevar, necessariamente usando as ferramentas de crítica epistemológica, o que
esses mitos têm de realidade e de importância histórica9. A ciência médica apelidaria este
comportamento de “síndrome”; a ciência da psicologia juntar-lhe-ia um epíteto relacionado
com a identidade negada ou atacada. Assim se tem construído o que poderemos começar a
designar por silêncio epistemológico em torno da figura de Lúcia, desculpável pela proximidade
temporal relativa ao período da sua vida, mas sem desculpa quando lida a História Religiosa do
século XX a uma escala maior, como será a do catolicismo perspetivado em panorama
verdadeiramente mundial. Com efeito, atestar-se-á o impacto mundial desta figura quando o
investigador se der conta de que o registo do arquivo do Carmelo de Santa Teresa de Jesus
assegura que esta religiosa portuguesa recebeu incontáveis cartas oriundas de, pelo menos, 66
países10.
Ainda que Lúcia não preencha todos os requisitos para que os selecionadores
da conhecida da revista coloquem o seu nome entre as mulheres que colaboraram na Medicina,
na Assistência Social, na nova forma de encarar a sexualidade ou a imagem feminina, na
Economia e na Política mundiais, será de perceber se esta figura reúne ou não uma série de
características que a tornam notável no exame a que há pouco aludíamos com as esclarecidas

7 Cf. The 25 Most Powerful Women of the Past Century: Jane Addams (1860-1935), Corazon Aquino (1933-
2009), Rachel Carson (1907-1964), Coco Chanel (1883-1971), Julia Child (1912-2004), Hillary Clinton (1947-Present),
Marie Curie (1867-1934), Aretha Franklin (1942-Present), Indira Gandhi (1917-1984), Estée Lauder (1908-2004),
Madonna (1958-Present), Margaret Mead (1901-1978), Golda Meir (1898-1978), Angela Merkel (1954-Present),
Sandra Day O'Connor (1930-Present), Rosa Parks (1913-2005), Jiang Qing (1914-1991), Eleanor Roosevelt (1884-
1962), Margaret Sanger (1879-1966), Gloria Steinem (1934-Present), Martha Stewart (1941-Present), Mother Teresa
(1910-1997), Margaret Thatcher (1925-Present), Oprah Winfrey (1954-Present), Virginia Woolf (1882-1941).
8 Citamos o jornal “Expresso”: http://expresso.sapo.pt/as-25-mulheres-mais-poderosas-do-seculo-
xx=f616330#ixzz3Q1G3Iar0, consultado em 2016.11.27.
9 Não estaremos à espera que o papa João Paulo II ou que Pio XII, apenas para citarmos alguns, sejam

estudados por historiadores portugueses que não têm acesso facilitado aos arquivos que custodiam a informação
sobre estas personalidades da História.
10 Contem-se: África do Sul, Alemanha, Angola, Argélia, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Brasil,

Bruxelas, Canadá, Checoslováquia, Chile, Colômbia, Croácia, Cuba, Egipto, El Salvador, Equador, Eslováquia, Eslovénia,
Espanha, Estados Unidos da América, Filipinas, França, Gana, Gibraltar, Grécia, Guiné, Havai, Holanda, Hungria, Índia,
Inglaterra, Iraque, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Jugoslávia, Líbano, Malásia, Malta, México, Moçambique, Nigéria, Nova
Zelândia, Palestina, Panamá, Peru, Polónia, Porto Rico, Portugal, Quénia, República Checa, Rússia, São Tomé e
Príncipe, Sibéria, Singapura, Síria, Sri-Lanka, Suíça, Tanzânia, Uruguai, Vaticano, Venezuela, Zimbabué.

6
palavras de Fernando Catroga (1945-) acerca dos heróis de uma comunidade. Entrarão aqui os
problemas relativos à História do Presente ou de um Passado muito próximo e da dificuldade de
discernir o papel do historiador no que respeita a esse tempo tão imediato11, nomeadamente
no que respeita à vigilância sobre a instrumentalização do seu labor.
A distância necessária para a abordagem destas realidades, e bem assim a
dificuldade em “agarrar” temáticas que, de forma preconceituosa, os historiadores, para esta
época, querem ainda votar a outros cientistas sociais12, levam a que o específico olhar desta
particular forma de entender o decurso dos tempos — a forma de olhar do historiador — não
seja chamada a construir a maneira de estruturar o próprio pensamento humano.
Com efeito, os estudiosos de idades históricas mais antigas não têm receios em
perceber quais eram os protagonistas do tempo que analisam, sejam esses protagonistas mais
ligados à sua forma de entender o mundo ou mais afastados das mundividências do
investigador. Isto é, não será necessário termos uma afeição maior ou menor por Filipa de
Lencastre, por Brites de Almeida, por Mariana, de Évora, Joana de Aveiro, Beatriz da Silva, Isabel
de Aragão (ou de Coimbra), ou pelas santas de Lorvão e de Arouca para justificarmos a
existência de estudos sobre estas figuras, as últimas citadas, como sabemos, ligadas à ‘res
religiosae’. Todas elas se apresentam, ao olhar da historiografia atual, como figuras
controversas, vindas de um universo feminino envolto em construções mitográficas, mas sem
que isso afaste biógrafos e historiadores. E assim, na senda do que a história preconizada pelos
grandes estudiosos do século XX defendia, entrecruzando as fontes documentais, se evitarão
vazios históricos, ainda que, inevitavelmente, surjam zonas de dúvida e de lacunas.
Os discípulos desta forma de pensar a construção histórica foram, de facto,
fixando que todos os comportamentos humanos são historiáveis, desde que o conhecimento
esteja alicerçado em fontes criticamente avaliadas. José Mattoso (1933-) di-lo claramente:

«outrora, “factos históricos” eram só as acções dos chefes políticos, dos génios ou dos heróis.
Desde que a História da humanidade se alargou, tudo tem dimensão histórica: desde a forma de
enterrar os mortos até à conceção do corpo, desde a sexualidade até à paisagem, desde o clima
até à demografia»13.

Citando o deslumbramento de Alberto Caeiro sobre a “espantosa realidade das


coisas”, o historiador apela ainda a uma História abrangente, que qualifica de “contemplativa”,

11 São muito pertinentes as reflexões de Rui Bebiano, Temas e problemas da história do presente, em José

d’Encarnação (coord.), A História Tal Qual se Faz, Coimbra, Edições Colibri / Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra, 2002, p. 225-236.
12 Continuamos a seguir as conclusões de Rui Bebiano.
13 José Mattoso, A Escrita da História. Teorias e Métodos, Lisboa, Editorial Estampa, 1997, p. 17.

7
taxonomia que bem pode ser usada no contexto de estudo da figura de Lúcia, justificação que,
mesmo longa, merece ser apreciada:

«[a História opera] uma observação que procura captar todas as suas dimensões: não apenas as
aparentes e imediatas, mas também as ocultas, não apenas as mensuráveis, mas o que as coisas
evocam ou simbolizam, não apenas o que nelas é classificável segundo os parâmetros das
diversas taxonomias científicas, mas também o que só pode ser captado num registo poético. A
apreensão do real em todas as suas facetas implica que se ponham em jogo todas as faculdades
de observação, não apenas as racionais, mas também as volitivas, o que corresponde a dizer que
os sentidos do corpo e do espírito se deverão ‘abrir’ de tal modo ao real, que ele seja como que
interiorizado, absorvido, captado em nós mesmos»14.

Surpreende o historiador quando, sobre o seu específico ofício que


tradicionalmente se pretende distante de sentimentos e próximo de uma assepsia, assume
palavras como a que agora encontramos sobre o exercício da História:

«Este exercício é, por isso, um ato de amor. Um amor na plena aceção da palavra, isto é, que não
é contaminado pela tentação de possuir, dominar ou destruir, mas que mantém intacta a
alteridade, a radical separação do sujeito e do objeto, e que tenta estabelecer a relação com ele
através do verbo interior, em todas as suas dimensões: o cântico de admiração, o diálogo do
gesto, a descoberta do símbolo, o desencadeamento da palavra poética» 15.

Também um dia possa alguém escrever que, graças aos cuidados de


investigadores avisados, conhecemos a biografia de Lúcia (com a surpresa com que Lucien
Febvre (1878-1956) leu algumas biografias de homens e mulheres até aí não-considerados pela
comunidade dos historiadores)16, sabemos das preocupações de uma religiosa que quis mudar
o mundo, que falava de realidades complexas como era a da presença do Deus dos cristãos no
Leste Europeu novecentista e que não cessava de se fazer transportadora de uma mensagem
que dizia ter recebido de alguém que se apresentou como vindo de uma realidade
transcendental. Para isso, terá o historiador de perscrutar as diferentes fontes disponíveis, mas
antes também inquirir se as temáticas fixadas no âmbito da ciência que exerce são lugares que
por Lúcia de Jesus foram habitados.

14 Idem, ibidem, p. 18.


15 Ibidem, p. 18.
16 Lucien Febvre, Olhares sobre a História, Porto, Edições Asa, 1996 (tradução portuguesa da obra editada

em 1992; vejam-se os capítulos, precisamente sublinhadores da importância dos primeiros estudos sobre relevantes
figuras que a historiografia ignorava, mas fundamentais para o pensamento: O homem, a lenda e a obra. Sobre
Rabelais: ignorâncias fundamentais, p. 9-28; Ressurreição de um pintor. Georges de La Tour, p. 83-91.

8
Façamos, de forma rápida, esse exame, firmados na lição de Mattoso que
advoga uma História não contaminada pela «tentação de possuir, dominar ou destruir, mas que
mantém intacta a alteridade, a radical separação do sujeito e do objeto, e que tenta estabelecer
a relação com ele através do verbo interior, em todas as suas dimensões»17.
Se pudermos confiar que as categorias temáticas que o Repertório Bibliográfico
da Historiografia Portuguesa (1974-1994)18 colhe são as que interessam aos historiadores em
Portugal19 — e elas estão fixadas nas que têm interessado à comunidade científica internacional
— divisaremos diversas áreas em que Lúcia pode vir a ser um verdadeiro caudal de informação.
Para já não referir o que possa ser produzido em obras enciclopédicas, dicionarísticas e de
carácter instrumental como são as cronologias (muito úteis e pelas quais todos esperamos),
fixemo-nos nalguns pontos como são, a começar, as “Biografias e genealogias”, temática da
qual, inclusive, a própria Lúcia foi cultora, como se vê nas suas “Memórias”, principalmente na
primeira, em que escreve sobre Jacinta, na quarta, em que biografa Francisco, na quinta e na
sexta dedicadas a fazer a História da Família, concentrando o seu esforço, sobremaneira na
figura do Pai e da Mãe, respetivamente20.
Continuemos a seguir o temário estabelecido pela comunidade dos
historiadores. Não causará estranheza, certamente, se iniciarmos o estudo pela “História
religiosa”, “da Igreja”, das “Ordens, congregações, abadias e conventos”, assim como das
“Hagiografias”. Mas falta então que apareça esse biógrafo informado para que possamos ler o
itinerário de Lúcia, para que possamos, inclusivamente, chegar à sua geografia. Saberemos nós
qual é, efetivamente, a geografia de Lúcia? Será Fátima, e dentro desta a Cova da Iria ou os
Valinhos, Aljustrel ou a sede paroquial, ou será Ourém, Leiria (Cortes, Reixida), Torres Novas,
Lisboa, Santarém, Porto, Tui, Pontevedra, Braga, Coimbra? Ou será também Roma, as cidades
da Rússia e tantos outros lugares onde a figura é conhecida ou onde o seu nome consta dos
arquivos, orais ou institucionais, que dela guardam informações, como Nova Jérsia nos Estados
Unidos da América e Bérgamo em Itália, mas também em Espanha, no Brasil e tantos outros
lugares, de pelo menos 66 países diferentes, onde inspirou homens e mulheres?
E, assim o conseguimos prever, para outras áreas temáticas Lúcia contribuirá
quando na sua documentação se lê, por exemplo, sobre “transportes e comunicações”, outra
zona temática que a historiografia contempla:

17 Como acima, quando citamos esta frase de José Mattoso.


18 Maria Helena da Cruz Coelho, Maria Manuela Tavares Ribeiro, Joaquim Ramos de Carvalho (ed.),
Repertório Bibliográfico da Historiografia Portuguesa (1974-1994), Lisboa/Coimbra, Instituto Camões/Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra, 1995.
19 «O índice de assuntos segue o plano da Bibliografia Anual de História de Portugal, ano de 1990» (citamos

a nota da p. 669).
20 Lúcia de Jesus, Memórias, edição crítica de Cristina Sobral, apresentação de Marco Daniel Duarte, Fátima,

Santuário de Fátima, 2016.

9
«De Espanha oferecem-nos umas imagens para o presépio do Natal se nós conseguimos meio de
elas virem: Nossa Senhora e S. José tamanho de 0.70c., o Menino Jesus, o boi e a burrita de
tamanho proporcionado a Nossa Senhora. Caso V. Ex.cia nos possa fazer mais este favor pedimos
ao Sr. Alcalde de Avilés o favor de entregar tudo na Embaichada [sic]: não é preciso vir tudo junto
nem temos preça, poderá vir uma figura de cada vez e vindo no carro poderá vir sem caixote que
é o que mais avulta, se assim poder ser digo para as entregarem simplesmente bem embrulhadas
e cada figura separada»21.

Aqui se leem as preocupações do Portugal dos anos 50, como igualmente se


veem neste trecho, de uma outra carta:

«Essa Senhora faz-me o favor de os passar na fronteira e remete-los no correio de Valença, assim
chegam cá sem complicações de Aduanas»22.

Ou nestoutro excerto que, inclusivamente, refere as questões dos transportes:

«Desejavamos muito conseguir 2 ou 3 [camas de rede metálica] para as Ir. doentes e cá em


Portugal não se encontravam se as deixassem passar na fronteira ainda que pagassemos alguma
coisa de direitos, se não fosse muito, pagava-se a uma carroça que as troussesse á estação de
Valença para serem despachadas no caminho de ferro e entregues a Domicilio» 23.

A documentação de Lúcia é riquíssima acerca dos pequenos episódios da “Vida


quotidiana”, outra categoria que prende a atenção dos historiadores, tantas vezes chamada de
‘petite histoire’, mas tantas vezes convocada para auxiliar a compreensão dos quadros
históricos compostos pela já apelidada de “História das Coisas Banais”24, para usarmos a
expressão de Daniel Roche; ouçamos Lúcia:

«Precisava umas meadas de seda azul celeste vivo e encarnada, da classe da amostrazinha que
envio, se fosse possivel encontrar-se ai em Lisboa? aqui em Coimbra já mandamos procurar e não
conseguimos encontrar. Caso encontre, podia mandar só uma meada de cada côr, isto é azul e
encarnada a vêr se o tom da côr serve e caso sirva, digo então a quantidade que preciso, é para o
paramento. Desculpe-me mais esta massada sim?»25.

21 Arquivo do Santuário de Fátima [doravante, ASF], fundo António Maria Martins, núcleo 1, cx. 6, pasta 14,

Carta de Lúcia a Camila Carneiro Pacheco (impressão eletrofotográfica), 1952.09.18.


22 ASF, Caixa Marucha, Carta de Lúcia a Marucha Marescot, Coimbra, 11 de maio de 1955.
23 ASF, Caixa Teresa Rodrigues Fonseca, Carta e Cartão de Lúcia a Teresa Rodrigues Fonseca, 1958.01.29.
24 Daniel Roche, História das Coisas Banais. Nascimento do Consumo nas Sociedades Tradicionais (séculos

XVII-XIX), Lisboa, Teorema, 1998 (tradução portuguesa da obra de 1997).


25 ASF, AMM, núcleo 1, caixa 8, pasta 19, doc. 75, Carta de Lúcia para Isabel da Silva Marques Pinto,

1950.07.30.

10
E tantos outros objetos fizeram parte deste universo, como os socos que ao
claustro chegaram acima do tamanho desejado:

«Agradecida pela sua carta e pelos socos que chegaram muito bem, Deus lhe pague. São um nº
maior que nós pedimos, isto é de 39 e desejavamos 38, mas não faz mal, há cá Irmãs que gastam
este numero e bom geito lhe fazem, assim que quando poder manda-nos outros 2 pares nº 38
isto é um numero para mais pequeno, a diferença é pouca mas a calçar sente-se bastante» 26.

Ou como os rebuçados que no Carmelo foram tão apreciados, embora com as


reservas típicas da frugalidade do lugar:

«agradeça por mim [...] todos os mimos com que beneficiaram a Comunidade. Os rebuçados, não
sei dizer quais são melhores, gostei de todos. Sou como os golosos que gostam de tudo o que é
doce: mas é preciso fazer penitência que está o mundo muito precisado... Só em algum dia de
fésta muito grande, nos podemos permitir algum regalito assim. Diga isto a seus bons Pais para
que não estejam a gastar em coisas demasiado bôas para nós»27.

E tantos outros temas poderíamos aqui integrar, com a cautela que teremos de
ter para usar documentação inócua, uma vez que estes testemunhos escritos estão ainda sob a
proteção dos cânones civis e eclesiásticos.
Será importante a perceção que Lúcia teve dos “Movimentos e conflitos sociais”
que pontuaram esse século breve, ficando, assim, demonstrado que essa “etiqueta” ou, como
se diria hoje, essa ‘tag’ “História económica e social” tem cabal pertinência no estudo desta
figura.
Também a “História política e institucional” poderá ser avaliada a partir da
biografia de Lúcia de Jesus, na sua relação com o mundo da política e, inclusivamente, com os
seus agentes, mas também ao nível da chamada “História cultural”, nomeadamente no
respeitante ao mundo da “Imprensa, livro e meios de comunicação social em geral”, assim
como o universo do “Ensino. Instituições culturais e educativas”. A sua carta para um rapaz que
pensa sair do seminário onde estudava é bem elucidativa, por exemplo, do papel
importantíssimo que as instituições de ensino ligadas à Igreja, nomeadamente os seminários,
tiveram na promoção da educação entre as camadas cultural e economicamente mais

26 ASF, Caixa Teresa Rodrigues Fonseca, Carta e Cartão de Lúcia a Teresa Rodrigues Fonseca, 1958.01.29.
27ASF, AMM, núcleo 1, caixa 8, pasta 19, doc. 75, Carta de Lúcia para Isabel da Silva Marques Pinto,
1950.07.30.

11
desfavorecidas da sociedade nos anos meãos do século XX português. Começa assim este
documento:

«[...] escrevo-te esta carta porque chegou-me cá a noticia de que não te estás a portar lá muito
bem! então que é isso?».

Depois de lembrar o interlocutor de que era preferível estar no seminário a


estudar para padre, diz:

«[...] tu pegas numa enchada e vais todo o dia a cavar a terra para junto do teu pai, á chuva e á
torreira do sol ganhar o pão que hás-de comer. Vê lá o que será mais pezado, a enchada ou livro?
cavar ou ler, não penses que vais ficar toda a vida a comer do trabalho dos teus pais, não se fores
para casa has-de trabalhar para ti e para os outros. Queres então ver os teus irmãos todos
sacerdotes só tu aldeão com uma triste enchada ás costas comendo o pão com o pó da terra? —
Olha, todos os que se portaram mal e por isso sairam do Seminario agora arrependidos choram e
pedem para voltar, mas não se lhes concede. Queres também ser um desses? [...]»28.

Continuando a seguir as taxonomias da academia dos historiadores, dos


escritos de Lúcia poder-se-ão ‘entreler’, outrossim, informações relativas à “História das
mentalidades”, nas “Atitudes perante a morte”, nas “Atitudes perante a família, o casamento e
a sexualidade” ou no que são marcas da “Religiosidade popular. Crenças e superstições
populares”. Olhemos, para apenas citarmos um exemplo, a sua demanda pela dignificação da
oração do rosário, já historiável a partir do depoimento que disso fez Tarcísio Bertone (1934-),
mas também a partir da documentação que se encontra na Secretaria de Estado do Vaticano,
em Roma29.
Para além da sua ação que se pode perscrutar adentro do que são as balizas
desta História Religiosa, Lúcia contribui, agora como tema, para engrossar o caudal dos estudos
relacionados com a “História da arte”, nomeadamente com as “artes plásticas”, mas também
com essoutra categoria que é a “Música, teatro, bailado, cinema, etc.”, porquanto é já ‘topos’ e
figura de inspiração para estas representações; assim o afirmou a atriz Maria José Paschoal
(1956-) que a elege, com outras duas mulheres do século XX, para uma trilogia do universo

28 ASF, Coleção Documental Lúcia de Jesus, caixa 1, doc. 32, Carta de Lúcia para o seu sobrinho Manuel,
1957.04.07.
29 Tarcísio Bertone, Giuseppe de Carli, A Última vidente de Fátima, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2007, p. 58-
61; veja-se também Fátima: Uma mensagem para a Igreja, um apelo à comunidade e à humanidade. Tarcisio Bertone
entrevistado por Aura Miguel, em Fátima XXI. Revista Cultural do Santuário de Fátima, n.º 1, maio de 2014, p. 92-103.

12
feminino português30. E facilmente passamos, no caso de Lúcia, de uma microescala para uma
escala universal, da “História local” para a “História do mundo”, não faltando temas,
acontecimentos, episódios e cenários históricos capazes de caracterizar, não apenas uma
específica mulher, mas também, através dela, o próprio século XX ou, com maior justeza, uma
parte desse século tão plural.
A somar a todas estas temáticas, ou, talvez melhor, a antecipá-las, estão
também os estudos ao nível da “Edição de fontes históricas”31, dos “Inventários de arquivos” e
outros catálogos e índices de instituições que custodiam a documentação que esta mulher
produziu32 e dos museus e outros lugares de caracterização museológica que guardam objetos
que lhe pertenceram33.
Poderá a historiografia prescindir de fontes tão ricas para a história do século
XX? Certamente que não, pois na busca incessante que os historiadores hoje levam a cabo, na
procura de fontes documentais que permitam aceder à ação e pensamento humanos, veria em
Lúcia um abundante repositório de informação. Ou estaria este tema inscrito no célebre livro de
Marc Ferro (1924-) intitulado “Os tabus da História”34? Em Portugal, parece ainda haver um

30 Veja-se Não quero vulgarizar Fátima, sabe? quero sentir Fátima. Maria José Paschoal entrevistada por

Carla Abreu Vaz e Cláudia Rocha, em Fátima XXI. Revista Cultural do Santuário de Fátima, n.º 2, outubro de 2014, p.
108-119.
31 António Maria Martins, Memórias e Cartas de Lúcia, Porto, s.n., 1973; Idem, Novos Documentos de

Fátima, Porto, Liv. A. I., [1984]; Lúcia de Jesus, Memórias, supracitado; Documentação Crítica de Fátima. I –
Interrogatórios aos Videntes - 1917, Fátima, Santuário de Fátima, 1992; Documentação Crítica de Fátima. II –
Processo Canónico Diocesano (1922-1930), Fátima, Santuário de Fátima, 1999; Documentação Crítica de Fátima. III –
Das Aparições ao Processo Canónico. 1 (1917-1918), Fátima, Santuário de Fátima, 2002; Documentação Crítica de
Fátima. III – Das Aparições ao Processo Canónico Diocesano. 2 (1918-1920), Fátima, Santuário de Fátima, 2004;
Documentação Crítica de Fátima. III – Das Aparições ao Processo Canónico Diocesano. 3 (1920-1922), Fátima,
Santuário de Fátima, 2005; Documentação Crítica de Fátima. IV – Do início do Processo Canónico Diocesano à criação
da Capelania. 1 (3 Maio. – 12 Out. 1922), Fátima, Santuário de Fátima, 2006; Documentação Crítica de Fátima. IV –
Do início do Processo Canónico Diocesano à criação da Capelania. 2 (13 Out. 1922 – 12 Out. 1924), Fátima, Santuário
de Fátima, 2007; Documentação Crítica de Fátima. IV – Do início do Processo Canónico Diocesano à criação da
Capelania. 3 (13 Out. 1924 – 31 Dez. 1926), Fátima, Santuário de Fátima, 2007; Documentação Crítica de Fátima. IV –
Do início do Processo Canónico Diocesano à criação da Capelania. 4 (1 Jan. 1926 – 12 Jul. 1927), Fátima, Santuário de
Fátima, 2009; Documentação Crítica de Fátima. V – Da criação da Capelania à carta pastoral. 1 (13 Jul. 1927 – 31
Dez. 1928), Fátima, Santuário de Fátima, 2010; Documentação Crítica de Fátima. V – Da criação da Capelania à carta
pastoral. 2 (1 Jan.– 30 Jun. 1929), Fátima, Santuário de Fátima, 2010; Documentação Crítica de Fátima. V – Da criação
da Capelania à carta pastoral. 3 (1 Jul. – 31 Dez. 1929), Fátima, Santuário de Fátima, 2011; Documentação Crítica de
Fátima. V – Da criação da Capelania à carta pastoral. 4 (1 Jan. – 30 Abr. 1930), Fátima, Santuário de Fátima, 2011.
32 Citamos alguns lugares onde se custodiam essas memórias, quase todas por trabalhar: Arquivo do

Carmelo de Santa Teresa (Coimbra), Arquivo da Companhia de Jesus, Arquivo da Congregação da Doutrina da Fé
(Vaticano), Arquivo da Congregação para a Causa dos Santos (Vaticano), Arquivo da Congregação das Irmãs de Santa
Doroteia (Província Portuguesa), Arquivo da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria,
Arquivo Distrital de Santarém, Arquivo Distrital de Leiria, Arquivo Episcopal de Coimbra, Arquivo Episcopal de Leiria,
Arquivo da Fondazione Papa Giovanni XXIII (Bergamo), Arquivo Histórico Municipal de Ourém, Arquivo Nacional da
Torre do Tombo, Arquivo Paroquial de Fátima, Arquivo Particular de Maria de Belém, Arquivo Particular de Maria
Rosa Vieira, Arquivo da Postulação de Jacinta e Francisco Marto, Arquivo das Reparadoras de Nossa Senhora de
Fátima, Arquivo do Santuário de Fátima, Arquivo da Secretaria de Estado (Vaticano).
33 Sónia Vazão, Os testemunhos materiais dos videntes de Fátima: o olhar da Museologia, em Fátima XX.

Revista Cultural do Santuário de Fátima, n.º 2, outubro de 2014, p. 78-92.


34 Marc Ferro, Os tabus da História, Lisboa, Teorema, 2006 (tradução portuguesa da obra de 2002).

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silêncio sobre Lúcia, não apenas o silêncio típico da clausura, mas um enorme silêncio da parte
da comunidade dos estudiosos e das academias.
O seu percurso biográfico, longe de se poder resumir numa conferência,
mostra-se de uma grande riqueza, porquanto se cruzou com milhares de pessoas, abraçou a
vida religiosa em duas ordens distintas, optando pelo silêncio da clausura que, não obstante, se
mostrou, nalguns temas, grito de veemência quando se fez por diversas vezes portadora de
pedidos junto dos maiores protagonistas do mundo católico novecentista.
E desse percurso ficaram testemunhos, escritos e materiais, orais, oficiais e de
informalidade, públicos e privados, marcas lavradas em diversos materiais, sobretudo através
da força da escrita que fixa, “preto no branco”, como dizem os cultores da História da Escrita, as
formas de pensar, de refletir a realidade. Seria estudo do maior interesse perceber que tipo de
relação Lúcia tem com a cultura escrita, com as margens do papel, com as linhas regradoras,
com o importante tema da própria identidade, isto é, de assinar ou não os documentos que
produz35.
Ainda da Lúcia escritora, falta analisar que metonímias usou, que comparações,
que metáforas e de que repetições se serviu para transmitir os conteúdos ligados à experiência
sobrenatural que afirmou ter vivido e que dela fez uma das mulheres mais conhecidas do
mundo católico contemporâneo36. Falta analisar, ainda, o contributo da Lúcia “antropóloga”, a
quem se deve a recolha de muitos costumes da aldeia em que nasceu, designadamente de
alguns cantares da sua terra e a quem se deve o conhecimento de que, naquele lugar, se
cantava a “Salve, nobre padroeira”, a “Virgem Pura” e “[Ó] Anjos cantai comigo”37. Adivinhá-lo-
ia o historiador da música que quisesse transpor o que os cantorais daquele tempo fixaram, mas
a certeza de que aqueles sons ali eram levantados, ainda que o relato seja já dos meados dos
anos 30, vem-nos de Lúcia quando escreve a sua “Primeira Memória”.
Efetivamente, Lúcia, para além de ser protagonista ou figurante de uma
específica narrativa histórica, é lugar de memória, de uma memória tantas vezes interrogada
através da tão importante técnica do questionário, como refere Georges Duby38 nas suas

35 Sem propósito de explanar esta temática, lembramos que Lúcia não assina as cartas que endereça ao

bispo (que, mais tarde, ficariam conhecidas pelas primeiras quatro “Memórias”), não assina a Terceira Parte do
Segredo de Fátima, diz ao bispo que não quererá assinar alguns dos interrogatórios a que é submetida.
36 Maria Luísa Malato Borralho, “O elogio dos lugares. As Memórias de Lúcia”, em Alfredo Teixeira (coord.),

em Quereis oferecer-vos a Deus? Ciclo de conferências 2011-2012, Fátima, Santuário de Fátima, 2013; veja-se
também da mesma Autora, “Isto sim, que a gente nunca pode dizer!”. O Segredo e a Literatura, em Fátima XXI.
Revista Cultural do Santuário de Fátima, n.º 1, maio de 2014, p. 55-63.
37 Lúcia de Jesus, Primeira Memória, p. 14 (124 da edição crítica supracitada); veja-se ainda, Sexta Memória,

p. 127-128 e 172.
38 Georges Duby, Para uma História das Mentalidades, Lisboa, Terramar, 1991, p. 21 (tradução do estudo

de 1971).

14
reflexões sobre as ferramentas da História, e a quem se deve a fixação do que os outros não
viram39.
Poderá o historiador ignorar as fontes que tem disponíveis? E deixar lacunar a
História que constrói sem aquilatar esses especiais informes, sejam eles sobre os primeiros anos
de Lúcia, sejam eles sobre as diferentes etapas da sua vida que termina no Carmelo de Santa
Teresa de Coimbra, onde tem morada por bem mais de meio século?
Como vivia uma postulante da Congregação fundada por Paula Frassinetti
(1809-1882), na primeira metade do século XX? que pensamento tem a noviça doroteia sobre o
seu tempo? e como seria a vida de uma carmelita que recebia inúmeras cartas oriundas de
tantos lugares do mundo? como entendeu, no claustro de um carmelo, o maior acontecimento
eclesial do século XX, o Concílio Ecuménico do Vaticano II? como é que se posicionou no
contexto desta reunião magna, no contexto do ‘aggiornamento’ com que a Igreja lia o mundo
de uma forma nova? como viveu a subida à cadeira de Pedro de Albino Luciani, que a visitara no
ano anterior no seu carmelo, em Coimbra? que reação teve à conjuntura histórica inaugurada
no dia 25 de abril de 1974? como reagiu à notícia de o papa, no dia 13 de maio de 1981, ter
caído perante a bala que o atingiu, nesse preciso dia em que, com toda a segurança, Lúcia há de
ter lembrado a experiência inefável que afirmara ter vivido com seus primos, 64 anos antes?
como terá relacionado esse acontecimento com o que, quatro décadas antes, havia escrito num
papel de carta?40 como apreendeu as guerras, a queda desse muro que dividia dois mundos
com os quais Lúcia estava tão familiarizada através da sua insistência relativa à mensagem de
que se achava depositária?
Serão todos estes aspetos o que a historiografia ignora se não estudar a vida da
protagonista de Fátima, se não estudar a vida da vidente, da doroteia e da carmelita. Abrir esse
tema de estudo é contribuir, também, para a própria historiografia do século XX. E assim
poderíamos ver o tema da escolaridade em meios rurais, da forma de uma mulher que aprende
a escrever muito tardiamente ultrapassar essa limitação ao ponto de não mais cessar de
escrever, ao ponto de manter uma correspondência epistolar com todos os patamares da
sociedade, correspondendo-se com seminaristas, religiosos e religiosas, presbíteros, bispos,
cardeais e, até, com os próprios papas.

39 Maria Luísa Malato Borralho, Realismo e aparição: as memórias da Irmã Lúcia, em Notandum 33,

CEMOrOC-Feusp / IJI-Universidade do Porto, set.-dez. 2013, p. 23-34. Ainda sobre a questão literária dos textos de
Lúcia, veja-se Maria de Lourdes A. Ferraz, A linguagem verbal das aparições. Uma aproximação à Mensagem de
Fátima do ponto de vista da Literatura, em Fenomenologia e Teologia das Aparições. Actas do Congresso
Internacional de Fátima, Fátima, Santuário de Fátima, 1998, p. 439-453.
40 Sobre esta peça leia-se Maria José Azevedo Santos, Por todo o escrito passa o mistério até ser lido: o

Segredo de Fátima, em Fátima XXI. Revista Cultural do Santuário de Fátima, n.º 1, maio de 2014, p. 54; Cristina
Sobral, Terceira Parte do Segredo, em Lúcia de Jesus, Memórias, supracitado, p. 47-49 e 251-252.

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Pode fazer-se a historia da epistolografia portuguesa sem passar por Maria
Lúcia das Dores, por Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado de Maria? pela sua forma de
escrever, analisando as linhas e as entrelinhas, as saudações e os tratamentos de deferência, as
condições materiais da escrita41, o tipo caligráfico que usava ou, melhor explicado, os dois tipos
caligráficos que usava, um mais cursivo e outro, que consideraria solene, mais desenhado para
ser empregado nas citações bíblicas ou nas cartas mais distintas que endereçava aos altos
dignitários da Igreja42.
E que dizer acerca de uma outra temática, relativa ao papel da mulher na
Igreja? não deverá o historiador do papel da mulher e das ordens religiosas no século XX passar
pelos escritos de Lúcia para deles perceber a singularidade de uma personalidade, mas também
o que tem em comum com tantas mulheres que, ao longo de Novecentos, vivem no claustro?
que imagem tem Lúcia da vida religiosa e da vida secular, percecionada através da grade da
clausura? Com efeito, se o investigador se quiser aproximar de uma Lúcia institucional, verá a
sua ligação ao Carmelo e às carmelitas, mas também a verá, sublinhamos a ideia já salientada,
como conselheira de tantos que a ela recorriam; contactará com as famílias com que se
escrevia e verá a relação que teve com os objetos que dela fazem memória, legendando o
espólio que dela falava.
Esta figura foi também verdadeiro motor para a fixação iconográfica do que a
historiografia já começou a apelidar de “subtipos da Virgem de Fátima”, isto é, do modelo
“Virgem Peregrina” e do “Imaculado Coração de Maria”43. A quantos autores respondeu,
oralmente e por escrito, sobre a fisionomia das aparições, nomeadamente sobre a questão
principal de como pode ser apreendida pelas artes plásticas a, nas palavras de Lúcia, «Senhora
mais brilhante que o sol», que apenas deveria ter «somente uma tunica o mais simples e branca
possivel e o manto caindo desde a cabeça até ao fundo da túnica»; e, nesses quadros, Lúcia,
«como não poderia pintar a luz e a beleza que a adornava, suprimia todos os enfeites á
excessão d’um fiinho dourado à volta do manto»44.

41 Maria José Azevedo Santos, De joelhos: rezar e escrever. A Terceira Parte do Segredo de Fátima: análise
paleográfico-diplomática (no prelo).
42 Veja-se a já citada edição crítica das Memórias de Lúcia de Jesus, na qual Cristina Sobral estuda muitos destes

temas.
43 Marco Daniel Duarte, Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconografia – a arte como

cenário e como protagonista de uma específica mensagem, Dissertação de Doutoramento apresentada à Faculdade
de Letras da Universidade de Coimbra, 2013, volume II, p. 11-267. Um resumo desta informação pode consultar-se
em Marco Daniel Duarte, Fátima, lugar da iconografia mariana, em Fátima para o Século XXI. Congresso
Internacional, Fátima, Santuário de Fátima, 2008, p. 611-679, e, do mesmo autor, A iconografia da Senhora de
Fátima: da criação “ex nihilo” às composições plásticas dos artistas, Cultura, 2010, n.º 27, p. 235-270.
44 Arquivo Episcopal de Leiria, Dossiê Fátima, B1-46, 1937.12.05. doc. 2585.1, Carta de Maria Lúcia de

Jesus, r. S. D., para D. José Alves Correia da Silva, 5 de Dezembro de 1937, p. 2-4 (publicámos o fac-símile desta carta
no catálogo Memórias. Sinais. Afectos. Nos 90 anos das Aparições de Fátima, catálogo da exposição com o mesmo
título, Lisboa: Nova Terra, 2007, p. 76).

16
Falta saber que livros leu e que livros fez aparecer a justamente designada
protagonista das aparições de Fátima. Com intuito meramente exemplificativo, a Biblioteca do
Santuário de Fátima tem, sobre Fátima, 5309 títulos45. São feitos a partir das suas palavras e das
palavras que as suas fizeram aparecer46. Falta ainda perceber que reação teve com tantos
ruídos que, à sua volta, se levaram.
Há dez anos atrás, um investigador, num jornal nacional, não deixando cair a
oportunidade noticiosa da morte de Lúcia, apelidava-a de «precioso peão ao serviço de um
ambicioso e permanente movimento de renascimento católico de dimensões nacional e
mundial»47. Perguntará o investigador mais informado se a metáfora para Lúcia não estará
menos relacionada com a imagem do peão e mais com essoutra imagem como é, antes, a de
uma outra peça do xadrez, porventura uma torre, ponderadamente posicionada como baluarte
de uma específica forma de ver o mundo. Confiada de ter sido tocada por uma graça especial,
Lúcia terá sido, de facto, uma torre-sentinela, ao mesmo tempo defensivo baluarte e ao mesmo
tempo custódia guardiã do que entendia ser um tesouro. Com os bispos e restantes peças do
tabuleiro, para continuar a usar a metáfora que queremos remir, foi guardiã do que considerava
ser realidade maior — uma rainha (uma mulher vestida de branco com um coração cercado de
espinhos que entendeu e apregoava como refúgio e caminho para o seu Deus — e de um rei —
qual imagem do Deus por si seguido e por miríades de tantos seres humanos que se dizem
assistidos por um dom de acreditar na sobrenaturalidade que a leitura católica do cristianismo
plasma —; em conclusão, de uma rainha e de um rei portadores de um coração onde Lúcia lia
inscritos os destinos da História.
Terminemos a reflexão voltando ao silêncio. Façamo-lo com um episódio muito
peculiar e vejamos, à luz dos três patamares que nortearam as diferentes formas de fazer
história timbradas, agora, por Fernand Braudel (1902-1985) (micro-história, história conjuntural
e história estrutural), como a diacronia de Lúcia de Jesus é complexamente rica. Fixemo-nos na
Lúcia que pede um pedacito de lacre, que ajoelhada escreve sobre a cama, que sela uma carta e
que envia essa carta para o seu bispo48. Estaremos na micro-história, onde vemos o

45 Este número está em atualização permanente, porquanto, ainda que aproximado, não representa nem a totalidade
dos artigos sobre Fátima que se publicaram no passado nem os que de um modo muito prolífero se continuam a dar
à estampa.
46 Procedemos a uma recente avaliação, a vários títulos experimental, no trabalho Epistemologia de Fátima: ouvir,

narrar, ler e interpretar Fátima ao longo de um século, em O Acontecimento Fátima Cem Anos Depois. História,
Mensagem e Atualidade – 24.º Congresso Mariológico Mariano Internacional (entregue para publicação).
47 Veja-se Luís Filipe Torgal, Os depoimentos contraditórios da irmã Lúcia sobre as "aparições de Fátima", em Público,

ano 15, n.º 5448, 2005.02.21, p. 29; veja-se também a réplica de Bruno Cardoso Reis, Fátima: uma história simples?,
em Público, ano 16, n.º 5459, 2005.03.05, p. 8.
48 Com muito interesse para incitar ao aprofundamento do que, na vida humana, é considerado gesto

quotidiano, é o já citado estudo de Daniel Roche, História das Coisas Banais.

17
comportamento humano nos seus gestos mais simples, mas depressa passamos para uma
História mais lata, porquanto este comportamento deriva da forma de o mundo pensar e, ao
mesmo tempo, influencia a forma de o mundo pensar: depressa falamos de um mundo dividido
em dois blocos, do posicionamento católico sobre essa divisão, dos regimes político-ideológicos
subjacentes a essas cisões e de tantos outros comportamentos que chegam a fazer
protagonistas os mais altos dignitários da Igreja Católica ou que chegam a transformar aquela
carta num objeto cultural que o saudável ‘voyeurismo’ da museologia também já quis tratar49.
Se há elementos da mensagem de Fátima que a historiografia não pode
abarcar, porque são da ordem metafísica e por isso não interessa aos estudos do
acontecimento visível, há outros que, relacionados com estes, tem obrigação de fixar,
designadamente os comportamentos que dali derivam: o sentimento de dificuldade de uma
mulher convicta de uma visão ter receio de escrever que o papa morreria, isto é, a dificuldade
em colocar essa informação por escrito e de a fixar para todo o sempre. Contrasta esta sua
atitude com outras que, na mesma figura histórica, se podem percecionar, como são o levantar
a voz em prol de causas que considerava fundamentais: a importância da oração do rosário, a
importância da moral católica, a aflição de uma mulher, com as chaves de leitura que tem para
a sua vida, que são sobretudo espirituais, que quer tocar o tema da paz no mundo. Lúcia é
ricamente poliédrica, assim o queiram estudar os investigadores.
Termine este excurso com as suas palavras, extraídas do primeiro depoimento
escrito, por mão própria, que sobre as aparições lhe conhecemos; palavras que bem podem
aplicar-se ao historiador:

«Parece-me que já disse quase tudo[;] se me falta alguma coisa [...] para escrever não me lembro.
Peço desculpa de ir tão mal escrito mas não sei melhor. Ainda ando a estudar»50.

Quando esse estudo avançar, será Lúcia uma mulher lida sem preconceitos,
sem tabus e sem mistificações, mas antes usando as metodologias da ciência. O nosso
conhecimento sobre o passado continuará a ser — inexoravelmente o será — fragmentário e
fragmentado. Mas será ainda mais se desperdiçarmos as fontes de informação. Assim se fazem
os tabus e assim a ciência tem obrigação de os desfazer, pois, se é legítimo o silêncio da

49 O Santuário de Fátima levou a cabo uma exposição sobre o Segredo de Fátima, intitulada Segredo e

Revelação. Exposição temporária evocativa da aparição de julho de 1917


(http://segredoerevelacao.fatima.pt/fichatecnica.php), patente ao público entre 30 de novembro de 2013 e 31 de
outubro de 2014, na qual esteve pela primeira vez exposto o manuscrito da Terceira Parte do Segredo de Fátima,
documento 381 do Arquivo Secreto da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano.
50 ASF, AMM, Núcleo 3, pasta C, doc. 1, Primeiro escrito de Lúcia sobre as aparições, 1922.01.05, publicado

em Documentação Crítica de Fátima, III-3, supracitado, doc. 685, p. 265-270 (p. 270).

18
clausura, não é legítimo, no contexto dos avanços epistemológicos, esse outro silêncio que é o
silêncio da historiografia.
Com a delicadeza da análise das fontes e sempre com o cuidado que o rigor
exige, rompa-se esse silêncio, averiguando com toda a atenção e cruzando todas as
informações que ajudem a historiar o acontecido no tempo. Também desse labor e dos perigos
a ele inerentes Lúcia parece estar consciente. Escrevendo a Maria Teresa Pereira da Cunha
(1906-1988), importante promotora da viagem pastoral que em 1947 a imagem peregrina da
Virgem de Fátima inaugura, dizia:

«Querida Maria Teresa


Pax Christi
Escrevo-lhe hoje para não ficar preocupada pensando que as suas cartas se perderam, recebi-as
ontem, foram-nos enviadas pela Madre Prioresa de Fátima, — e sabe como? — A Maria Teresa
poz a direcção muito bem para mim, mas em vez de Coimbra, poz Fátima e foram para esse
Carmelo — isto nas duas, — na primeira que não tráz data nem se lhe conhece a do Carimbo,
apenas o pequeno postal tráz a data do dia 13-7-69, — a segunda, o cartão também não tem
data, mas o carimbo é o do dia 20 do 7-69. Se no futuro, estas cartas vierem a cair nas mãos de
alguns historiadores para os quais tudo o que aparece escrito tem de ser matemáticamente
certo, vão afirmar que nesta data eu estive em Fátima visto que para lá, uma pessoa amiga, que
sabia bem onde me encontrava, endereçou as cartas, e é assim que se escreve a história... mas o
que importa é o Céu!»51.

Academia Portuguesa da História, 23 de novembro de 2016


Marco Daniel Duarte

51Arquivo do Santuário de Fátima, Espólio Maria Teresa Pereira da Cunha, Carta de Lúcia a Maria Teresa
Pereira da Cunha, Coimbra, 28-31de julho 1969. Transcrevemos a carta que já noutro lugar citamos, por nela
encontrarmos sumamente relevante o olhar reflexivo de Lúcia sobre a construção histórica.

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