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DOSSIÊ DO PROFESSOR MACS 10

ATIVIDADES DE INVESTIGAÇÃO

TEORIA MATEMÁTICA DAS ELEIÇÕES A

Por MARIA FILOMENA MÓNICA

Política, filosófica e temperamentalmente, sou centralizadora. Num caso, todavia, o da lei eleitoral,
a minha posição altera-se. Porque diante da urna, ninguém, melhor do que o próprio, sabe o que
lhe convém. Há anos que os grandes partidos, com destaque para o PS, têm vindo a prometer a
reforma da lei eleitoral, mas, chegado o momento, retraem-se. Em 2001, ainda ouvi alguns
socialistas falar destes planos. Foi o que se viu. Hoje, penso que será necessário um maremoto
político para que algo aconteça.
(…)
Não são apenas os jovens que estão zangados. Os pais tão pouco veem interesse em sair de casa,
a fim de escolher entre as centenas de desconhecidos que os líderes incluíram nas listas,
remunerando com um “tacho” os servos que exibiram a sua obediência. O mento, reconheço-o,
excecional, a abstenção foi de oito por cento. Nos anos 1980, mais de quatro quintos dos
portugueses ainda ia votar. Nas últimas eleições, a taxa de abstenção foi já de 39 por cento. Sei
que, por toda a Europa, algo de semelhante se está a passar, mas não a esta velocidade: Portugal
possui o recorde do aumento na taxa de crescimento da abstenção.
Ao falarmos de leis eleitorais, estamos a tocar em duas questões: quem pode votar e como se vota.
A primeira está resolvida desde 1974, o momento em que, pela primeira vez, se pode falar, com
rigor, da instauração do sufrágio universal. O problema central reside hoje na forma como se vota.
Com receio de que o norte se inclinasse para a reação e que o sul ficasse vermelho, os constituintes
optaram por uma lei – baseada em grandes círculos eleitorais e em listas confecionadas pelas
cúpulas partidárias – que retira poder ao eleitor. Quero ter o “meu” deputado, a quem possa
apresentar as minhas queixas e, caso pense que ele nada fez de notável, mandar para casa na
eleição subsequente.
Infelizmente, a maioria dos Professores de Direito Constitucional considera ser este o menos mau
dos sistemas. Há mesmo quem defenda que sempre assim se votou em Portugal. Deixo de lado o
caso do Estado Novo, durante o qual havia eleições, mas não liberdades, e o da I República, em
que as eleições eram de tal forma viciadas que a abstenção acabou, em 1925, por chegar aos 86
por cento. A Monarquia Constitucional, ou seja o regime que surgiu após a Revolução de 1820,
experimentou diversos sistemas eleitorais. Vale a pena relembrar alguns. Durante a primeira
metade de oitocentos, votava-se de forma indireta, ou seja, os eleitores – apenas aqueles que
tinham um certo nível de rendimentos – votavam num senhor, o notável, o qual, em seguida, votava
num deputado. Isto deu lugar a grandes polémicas, as quais só terminaram quando o governo
decretou, em 1851, o chamado “Ato Adicional” à Carta, que consagrou as eleições diretas.
Não é aqui o local para apresentar uma enumeração exaustiva das leis eleitorais da Monarquia.
Quero tão só chamar a atenção para a importância da lei de 1859, que consagrou os chamados
círculos uninominais. Em vez de grandes unidades geográficas, permeáveis à vontade do centro,
passaram a existir pequenos círculos, apenas com um deputado, o que dava algum poder – por
mínimo que fosse – aos camponeses que, por esse país fora, iam votar. Tudo se tornou mais claro
quando, em 1878, Fontes Pereira de Melo – o homem que, em 1859, sob pressão do rei D. Pedro
V, reformara o sistema – resolveu dar o voto a todos os portugueses. É verdade que estes eram

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pobres, analfabetos e rudes, mas, em conjunto, as duas leis deram-lhes mais influência do que a
que tinham tido ou do que a que passariam a ter, quando, em 1884, 1895 e 1901, as leis de novo
foram alteradas. Sei que existem argumentos – enfadonhamente apresentados ao longo dos anos
– contra os chamados “políticos de campanário”, mas não me convencem.

Em Portugal, todas as reformas surgem sempre de cima. Num país em que a primeira Constituição
foi “outorgada”, isto é, oferecida, por um monarca ausente (D. Pedro IV), num país em que a melhor
lei eleitoral, a de 1859, foi imposta por um rei “estrangeirado” (D. Pedro V), num país em que as
mudanças de regime surgiram sempre através de golpes militares, não temos motivo para esperar
que a reforma eleitoral se venha a realizar de forma pacífica. Nem que os futuros governantes sejam
melhores do que os de hoje.
Vigorava ainda o II Reich na Alemanha quando um sociólogo alemão, Max Weber, se dedicou a
refletir sobre a melhor forma de se conseguirem governos eficazes. A democracia não o interessava
particularmente. Segundo ele, a principal vantagem do sufrágio universal consistia na capacidade
de gerar chefes políticos mais eficientes do que as cliques que se reclamavam dos favores do
Kaiser. Hoje, o problema é outro. Só a reforma da lei eleitoral permitirá melhorar a classe dirigente.
É por isso que os políticos atuais resistem à mudança. Ninguém gosta de competição, muito menos
quem sabe que vai perder.
Público, 21 de janeiro de 2005

SUGESTÃO DE ATIVIDADE

Com base neste texto de Maria Filomena Mónica, construa um friso cronológico que contenha 2
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as principais alterações da lei eleitoral nos diferentes países.
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