Você está na página 1de 6

Resenha: O que é Educação?

Capítulo 1: Educação? Educações: Aprender com o índio

“(...) aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações tem concepções
diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a
vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa.
...Muitos dos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda
a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eram maus corredores, ignorantes
da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o
veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal.
Eles eram portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros ou como
conselheiros. (...)”

O autor do livro “O que é Educação”, Carlos Rodrigues Brandão, inicia o trabalho com
uma carta escrita por índios para governantes norte-americanos que desejavam que os
índios tivessem a mesma educação que os brancos. Sabiamente, os índios mostram que
não existe um tipo ou modelo de educação. A carta da tribo mostra o que acontece
também em nossa sociedade: às vezes temos um tipo de educação que não prepara para
a vida. Inseridos em uma luta de classes, somos educados para mandar ou obedecer,
sem levar em consideração que todos podem e devem contribuir paa o bem coletivo e
não só de um grupo específico. Assim, preparamo-nos para o vestibular e a faculdade,
que nos garantirá empregos melhores ou para o trabalho técnico que garantirá mão-de-
obra barata à sociedade.
No mesmo capítulo, o autor ressalta que a educação não está presa à escola e começa
antes dela: em casa, na igreja, na comunidade, com grupos de amigos, mas não retira
sua importância, que é dar continuidade à educação que está em construção desde o
nascimento.
O autor lembra que a educação é “uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a
criam e recriam, entre outras invenções de sua cultura, em sua sociedade”, mostrando
que ela faz parte da construção coletiva da sociedade, que também se reinventa, de
acordo com suas necessidades. Para Brandão, a educação mostra sua força quando se
coloca como meio para preparar a sociedade com o que acham certo e benéfico a ela.
Por outro lado, lembra que sua fraqueza está justamente na forma como ela pode ser
usada para manipular, tornando-os, como no caso dos índios citados, “totalmente
inúteis”.

Capítulo 2: Quando a Escola é a Aldeia


“A educação existe onde não há escola e por toda parte podem haver redes e estruturas
sociais de transferência de saber de uma geração a outra, onde ainda não foi sequer
criada a sombra de algum modelo de ensino formal e centralizado.”

Brandão (1981) fala sobre a supervalorização do ensino em bancos escolares em


detrimentos a outras situações de troca de saberes. Nas tribos indígenas e comunidades
camponesas o saber construído difere do saber das grandes cidades, e nem por isto deve
ser discriminado. Ele lembra que a “educação existe sob tantas formas e é praticada em
situações tão diferentes, que algumas vezes parece ser invisível, a não ser nos lugares
onde perdura alguma placa na porta com seu nome”. E assim como o espaço para
aprendizagem não pode ser definido, a hora, o momento, o período de aprender também
não. A hora de aprender não se limita a quatro, cinco ou oito horas, entre segunda-feira
e sexta-feira, mas é uma ação contínua, a qualquer momento.
Outra questão que o autor levanta é que a educação acontece quando há troca entre as
pessoas, no meio em que vivem, e que as crianças são agentes de sua própria
aprendizagem. Elas buscam, pesquisam e constroem seus saberes, e não são meros
receptores, como muitos ainda acreditam. Brandão ainda ressalta que a aprendizagem
não acontece por imposição, e tem melhores resultados quando está atrelada ao
cotidiano, seja em momentos de trabalho, lazer ou amor.

Capítulo 3: Então, Surge a Escola

Já neste capítulo, Brandão procura questionar a “evolução” da educação, que passa a ser
usada para reforçar as diferenças sociais criadas pela própria sociedade. Esta educação,
que vai além da adquirida na família, igreja e comunidade, mas que é moldada com
teorias, conceitos e métodos, é utilizada para que a manutenção das hierarquias sociais.
Neste momento, segundo o autor, “a educação vira ensino”.
Ele explana que esta concepção de educação forma e reforça as diferenças, valorizando
um grupo em detrimento a outros: homens e mulheres, ricos e pobres, negros e brancos,
chefe e empregado, criança e adulto, professor e aluno. Ele explica que esta “divisão
social do saber”, como coloca, não acontece somente em sociedades complexas, mas em
tribos e comunidades muito simples, quando dividem o trabalho das mulheres e dos
homens, por exemplo.
Brandão defende, no entanto, que a sociedade, mesmo que divida e hierarquize o saber,
não abandona por inteiro as formas livres, familiares e comunitárias de educação.
Segundo ele, “em todos os cantos do mundo, primeiro a educação existe como um
inventário amplo de relações interpessoais diretas no âmbito familiar”. A isto ele chama
de “rede de trocas de saber universal”, a forma mais “persistente na sociedade humana”.
E assim, mesmo onde há o ensino formal, dividido e hierarquizado, o espaço
educacional, ou seja, onde se aprende e ensina realmente para a vida, não é o escolar.
O autor chama a atenção para os educadores, que muitas vezes participam consciente ou
inconscientemente desta divisão e hierarquização do saber, uma vez que se preocupam
em passar alguns saberes e reservar para si outros, reforçando a ideia de que “saber é
poder”. O problema é que isto pode ser um “tiro pela culatra”, pois à medida que não
proporcionamos aos alunos a possibilidade de buscar a liberdade, reforçamos os
interesses de classes que não querem esta libertação para que a desigualdade continue.

Capítulo 4: Pedagogos, mestres-escolas e sofistas

Brandão continua a explanar sobre a luta de classes e a relação com a educação, Quando
a sociedade é dividida em classes, consequentemente a educação passa a ser dirigida,
limitada e diferenciada entre os cidadãos. Para isto, explana sobre a educação grega,
com seus mestres-escola e artesões-professores de um lado, e os escravos pedagogos e
educadores nobres de outro. A educação que antes era livre e surgia dos exercícios
coletivos da vida, é dividida à medida que a polis grega se divide entre nobres e plebeus,
livres e escravos. Mesmo muitos séculos depois das “lojas de ensinar” atenienses, em
que mestres-escolas, “reduzidos pela miséria a ensinar”, lecionavam as primeiras letras
e contas aos meninos pobres, que paravam nela e não tinham oportunidades de ir além,
a situação ainda é parecida. Pobres saem das escolas técnicas prontos para o mercado de
trabalho, com um ofício que terão pelo resto de suas vidas, enquanto ricos têm a
oportunidade de desenvolver suas habilidades e capacidades para lidar com as diversas
situações da vida, além das qualidades para comandar grandes empresas e utilizar a
mão-de-obra barata, criada na sociedade desigual e injusta em que vivemos.
O autor enfatiza o papel do pedagogo, ou escravo pedagogo – condutor de crianças-,
que na Grécia, era o responsável pela educação inicial das crianças nobres, por conviver
com elas, mais até do que os pais. O pedagogo “era o educador por cujas mãos a criança
grega atravessava os anos a caminho da escola, por caminhos da vida”.
Brandão ainda fala sobre o papel do Poder Público, que interessado na manutenção da
desigualdade por fazer parte da elite, utiliza seus aparelhos ideológicos, inclusive a
escola, como defende Althusser (1998).
Por último, ele pondera que embora a educação grega não tenha levado em conta as
características da criança, pois pensava no que ela se tornaria, no modelo que viria a ser,
ressalta que os gregos nos ensinam que “a educação existe por toda a parte e é resultado
da ação de todo o meio sociocultural sobre os seus participantes”. É o exercício de
conviver, como faziam os escravos-pedagogos com as crianças, que produz o saber.
Capítulo 5: A educação que Roma fez e o que ela ensina
Já neste capítulo, Brandão ressalta a diferença entre a educação grega e a romana, que
acreditava que a educação da criança era uma tarefa doméstica. A criança aprendia em
casa, com os mais velhos, principalmente os valores do mundo dos “mais velhos”, dos
seus antepassados, independente da classe social: cabia aos pais educar as crianças,
fossem ricas ou pobres. Mas da mesma forma, com o passar do tempo, a educação
também é dividida entre ricos e pobres, senhores e servos. Em Roma é criado a schola
publica, mantida pelos cofres dos municípios. Até hoje, a divisão por idade, bem como
a educação antes dos sete feita pelos pais, é mantida em nossa sociedade.
Brandão ressalta que o educador, neste período, serviu como instrumento para a
expansão do império, pois onde a espada não chegava para conquistar, a vida e a cultura
dos romanos cumpria esta função. É o que vemos hoje na relação Brasil-Estados
Unidos, por exemplo. Embora tenhamos uma relação amistosa, a cultura norte-
americana está tão impregnada em nossa sociedade, pela linguagem e excessivo uso de
palavras estrangeiras, pela roupa, estilo musical e tantos outros meios, que preferimos o
hambúrguer e batata-frita ao arroz e feijão, ou o Black, em detrimento ao Baião.

Capítulo 6: Educação: Isto e aquilo, e o contrário de tudo

Brandão busca na definição da palavra “educação” as origens para mais


questionamentos neste capítulo, além de pensar sobre o que tal palavra significa para
legisladores, pedagogos, professores, estudantes e outros sujeitos. Ele reconhece que
tanto os dicionários como as leis que envolvem a educação não condizem com a
realidade brasileira. Ele levanta a hipótese de que a falta de definições claras, sejam nas
leis ou dicionários, mostra que não é de interesse da elite e de quem tem o poder mostrar
que a educação é de “todos, para todos”. Mas também lembra que mesmo entre
educadores há diferenças sobre o que seja educação, pois afinal, esta definição parte do
questionamento do que é ensinar também. Se para o professor, ensinar é transmitir
conhecimento, a educação será algo, e para aquele que acredita que é construção, a ideia
sobre educação será outra, e implicará outras atitudes.

Capítulo 7: Pessoas “versus” sociedade: um dilema que oculta outros

Neste capítulo, Brandão questiona não o que é educação, como nos outros, mas para
quem ela existe. Ele levanta a dúvida se a educação serve para o indivíduo ou a
sociedade e afirma que a educação é vista como um processo de interiorização, quando
o saber é de fora para dentro ou de exteriorização, de dentro para fora. Ele leva a
discussão para a parte mais prática da educação: a ação, o real. Mais que definir
filosófica ou socialmente, Brandão lembra-nos que a educação é uma prática social,
como a saúde, a comunicação, o serviço militar, por exemplo. Defini-la desta maneira
não é inventar um novo conceito, nem relembrar filósofos do passado, mas reconhecer o
que é natural. Assim como os índios e camponeses são educados para viver em
sociedade e aprendem o que precisam saber para viver nela, nós também. Segundo ele,
por meio dela, a sociedade reproduz seus sujeitos sociais. Ela, portanto, não tem um fim
social, pois seu fim é manter a sociedade como ela está. Ele critica que nas sociedades
“desenvolvidas”, a ideia de educação para um determinado fim, ou para um
determinado grupo, desvinculada da ideia de sociedade, é uma maneira de “esquecer”
ou “ocultar” o que ela realmente significa.

Capítulo 8: Sociedade contra Estado: classe e educação

Brandão explica que vários aspectos determinam o tipo de educação que determinada
sociedade terá, entre eles, suas posições sociais, a maneira como a sociedade se organiza
e o que pretende manter nela. Ele defende, baseados nas ideias de Durkheim, que assim
como não existe um tipo de sociedade, a educação não será feita de uma só maneira,
nem tampouco haverá uma perfeita. Ele lembra ainda que mesmo em uma sociedade, a
educação muda, pois a sociedade está em constante mudança. A educação, neste ponto,
deixa de ser vista como algo que mantém as estruturas, mas que também as modificam.
O autor afirma que educação e mudança sempre andam juntas, mas ter a ideia de que a
educação é o único ou principal meio para transformações na sociedade, já que ela
também é uma prática desta mesma sociedade, é estar diante de um “utopismo
pedagógico”.
Mais uma vez, o autor lembra que a desigualdade faz com que ideias como “o direito de
todos à educação”, fique no papel, e fala sobre a falsa ideia de democracia por meio da
educação. Uma vez que a educação serve para manter a desigualdade, nem a educação
de ricos, nem a de pobres, é democrática. O pobre é intimado a matricular seu filho na
escola e aceitar a educação imposta pelos livros e sistemas de ensino. Os ricos, da
mesma forma, são induzidos a crer que a educação excludente é a única forma de
garantir a seus filhos, um futuro melhor, que o dos outros.

Capítulo 9: A esperança na educação

No último capítulo do livro, Brandão escreve que “se em um ela serve à reprodução da
desigualdade e à difusão de ideias que legitimam a opressão, em outro pode servir á
criação da igualdade entre os homens e à pregação da liberdade”, e conclui sua ideia
sobre educação. Para isto, esta precisa ser “reinventada”, feita de maneira diferente e até
mesmo oposta do que é hoje.
Ele lembra que esta reinvenção precisa da colaboração de todo, e não só do professor. A
sociedade não pode tratar a educação como assistencialismo ou como transmissão de
conhecimentos, mas como a prática social que pode ajudar a construir uma sociedade
mais justa e melhor. Sem hipocrisias, precisa realmente dar prioridade a ela, não só em
palavras em época de eleições, mas sempre, e acompanhar sua evolução, resultado do
desenvolvimento da própria sociedade.
Por último, lembra que a educação é acima de tudo, um ato político, não somente
pedagógico. Lembra que a educação também se faz na rua, nas manifestações, na luta
por melhores condições de vida, e acima de tudo, na participação política de qualquer
cidadão.

CONCLUSÃO

Passa longe de um texto vazio. Simplesmente esclarecedor. Profundamente provocante.


Definitivamente essencial. O livro “O que é Educação”, de Carlos Rodrigues Brandão,
nos mostra o quão distantes estamos do que realmente esta pequena palavra significa.
Mais que definir com dicionários, busca na História, na Filosofia e na Política não só
significar, mas “ressignificar” educação, de modo claro e inquietante.
Brandão instiga o leitor a pensar sobre seu papel na construção desta prática social tão
difundida, mas pouco valorizada verdadeiramente.
Não só para professores, mas principalmente para estes, o livro mostra a importância de
sempre pensar sobre rumos, concepções e ideologias que muitas vezes são levadas à
diante e que só interessa aos poderosos e “donos do país”. Deixa claro que não podemos
ser reprodutores de uma sociedade injusta e desigual, mas agentes de nossa própria
história e construtores de novas realidades, para todos.
Brandão é corajoso e não se mostra pessimista, atitude mais fácil nos dias de hoje.
Defende que com garra, conhecimento, criticidade e novas práticas, podemos mudar a
realidade de nosso país.

Referência

BRANDÃO, C. R. O Que é Educação. 1.ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.