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Teorias sobre Estado: Liberalismo, Democracia e Estado

Burguês

"O Estado nasceu direta e fundamentalmente dos antagonismos de


classes que se desenvolveram no seio da sociedade gentílica. (...) O
Estado caracteriza-se, em primeiro lugar, pelo agrupamento de seus
súditos de acordo com a divisão territorial".

O segundo traço característico é a instituição de uma força pública,


que já não mais se identifica com o povo em armas. Como o Estado
nasceu da necessidade de conter o antagonismo de classes, e como,
ao mesmo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra
geral, o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente
dominante, classe que, por intermédio dele, se converte em classe
economicamente dominante e adquire novos meios para repressão e
exploração da classe oprimida."

(BERTELLO, Edélzia. "Minimanual de Pesquisa de Geografia". Coleção


Palavras em Ação, 6a edição, SP, Editora Claranto: 2004).

O conceito de Estado sempre foi fortemente discutido dentro da


ciência política. Conceito este que também será discutido neste texto
embasado em dois cientistas políticos: Norberto Bobbio e Décio Saes.

O primeiro, marxista, defensor da democracia e dos direitos


humanos, viveu sob regimes totalitários, viveu e pensou o século XX;
motivo pelo qual em seu livro "Democracia e Liberalismo", explica a
diferenças de ambos os termos, que a primeira vista expressa-se
como estarem sempre ligados.

Já o segundo teórico também marxista, aborda sobre o conceito e a


construção de Estado Burguês, esclarecendo-os através da obra de
Poulantzas e das obras de Marx, explicitando com uma formulação
mais sistemática, o primeiro justamente por ter sido muito debatido
entre os teóricos marxistas. Em relação à teoria marxista, Saes
enfoca a relação entre o Estado e os modos de produção, que ao ser
ver é inevitável levantar uma discussão sobre Estado deixando de
lado as relações de produção (conceito puramente marxista).

Portando, após a leitura de Bobbio e de Saes, nega-se de que há uma


concepção generalizada sobre Estado, constatando diferenciações
sobre o assunto.

Para tal comprovação, Bobbio explica a diferença que há entre


Liberalismo e Democracia, ou seja, Estado Liberal e Estado
Democrático e seu desenvolvimento. Vejamos:
O Estado Liberal tem como concepção de um Estado com poderes e
funções limitadas, nasce em contraposição ao Estado Absoluto e o
Estado Social. Este se realiza em sociedades as quais a participação
era bastante restrita (por exemplo, em Atenas) limitava-se somente
as classes possuidoras, por esta razão não podem ser democráticas.

Em contraposição, a Democracia, os poderes estão nas mãos de


todos, ou seja, da maioria e não de um só ou de poucos, contrapõe
as oligarquias e monarquias (formas aristocráticas).

A discussão sobre democracia, segundo Bobbio, no verbete


DEMOCRACIA, encontrado no Dicionário de Política, o interesse pela
importância ou desimportância sobre democracia e sua reflexão é tão
antigo assim como a política.

Em Liberalismo e Democracia, o mesmo autor diz que o Governo


Democrático colocou em crise o Estado Liberal, pois democratizou o
sufrágio e até mesmo o sufrágio universal.

Mas em que consiste esta oposição?

O Estado Liberal nasce historicamente da disputa de poder de um


grupo que antes não tinha poder; destrói o poder absoluto. Sua
defesa maior é a liberdade. Esta questão entra no campo puramente
filosófico, porque aborda os Direitos Naturais do Homem
(justanaturalismo), que tem como pressuposto o direito à vida, à
liberdade e à felicidade, ao mesmo tempo em que pressupõe uma
regra de conduta: "direito" e "dever".

Os direitos naturais são leis postas pela vontade humana, porque


deriva-se de ordem natural ou direitos e deveres naturais, ou seja,
está intrínseco ao homem e serve portanto, para fundar limites do
poder a base de uma concepção hipotética, servindo assim, para
limitar o Estado e proteger o que é natural do homem:

"O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos


naturais e não são prescritíveis do homem (artigo 2o da Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789)". (BOBBIO, 1994).

Assim, os Direitos do Homem equaliza à liberdade, mas por outro


lado, esta tem uma troca de relação política e é dever de proteção
por parte do Estado e é dever de obediência por parte dos cidadãos,
como cita Bobbio:

"(...) o Estado Liberal é justificado como resultado de um acordo


entre os indivíduos inicialmente livres que convencionam estabelecer
os vínculos estritamente necessários de uma convivência pacifica e
duradoura". (BOBBIO, 1994).
Esta idéia fora discutida pelos filósofos Locke e Hobbes entre outros
liberais que justificavam que os homens eram naturalmente livres e
que sempre buscavam seus interesses entre si e essa igualdade e
liberdade deveriam ser asseguradas pelo Estado, ou melhor, dizendo,
pela organização política e pela justiça. Torna-se perceptível uma
concepção individualista a partir do momento em que coloca o
homem como um portador de direitos, ao mesmo tempo em que,
este antecede a sociedade que é considerada como um fato que não
é natural.

A concepção individualista passou a ser vista como um poder dos


súditos e não do soberano e que uma se tornasse dependente da
outra, ou seja, "sem individualismo não há democracia". (BOBBIO,
1994) e isso legitima o poder – um manda e outro obedece,
favorecendo assim, uma distinção de classes, passando estabelecer
um contrato social.

A teoria liberal compreende que o poder do Estado limitado tem que


respeitar tanto aos seus poderes quanto as suas funções. Neste ponto
vem de encontro com a formação do Estado Burguês, discutido por
Saes.

O Estado Liberal luta contra o poder absoluto defendendo o Estado de


Direito e contra o Estado Máximo e em defesa do Estado Mínimo.

No Estado de Direito os poderes públicos são regulados por normas


gerais (leis) e devem exercer no âmbito dessas leis para que não
ocorra ou excesso de poder. Esse entendimento se procede
historicamente desde o absolutismo (leis divinas ou naturais). Deve-
se lembrar de quando fala em Estado de Direito: a
constitucionalização dos direitos naturais, ou seja, "a transformação
dos direitos naturais em direitos jurídicos (direitos positivos)".
(BOBBIO, 1994).

O Estado Mínimo tem como funções mínimas – defesas do território,


proteção dos direitos naturais e provimento de algumas obras
públicas. Neste aspecto a doutrina liberal parte do individualismo,
portando o Estado não tem que se responsabilizar por algumas
atitudes, já que todos os homens são seres individuais. Apesar de
não exercer algumas funções o Estado Mínimo é um Estado de
Direito, um Estado Constitucionalista, resume-se como direitos
jurídicos.

O Estado Liberal tem como função essencial a defesa à liberdade, já


que o Estado Mínimo, além de defender a liberdade ele tem menos
função, portanto ele é menor.
Para o liberalismo o Estado Mínimo é um mal necessário, pois ele
mantém mecanismos constitucionais e controla os conflitos.

O proposto do Estado Liberal é extremamente ético, a partir do


momento em que é defensor do direito da liberdade humana e da
propriedade e conforme o progressivo alargamento da liberdade do
individuo e a emancipação da sociedade civil o mesmo Estado vai se
constituindo.

O pensamento liberal contrapõe com as várias formas de


paternalismo, tudo como dizia na teoria kantiana ou contrapõe de
que tudo deveria ser orientado pelo Estado, no aspecto moral.

A função deste Estado não deveria intervir nos negócios privados do


cidadão, mas sim mediar para proteger o Estado de Direito
(liberdade) no âmbito da lei. Sobre este aspecto encontra-se com a
teoria de Décio Saes que também irá ser discutido mais adiante no
texto.

Historicamente o Estado Liberal trouxe para humanidade duas


grandes guerras mundiais com a criação da unidade do povo, com a
criação da nação ou Povo-Nação, momento da coletivização, idéia que
será a partir de agora será explorada neste artigo.

A doutrina liberal além de trabalhar como os direitos naturais,


trabalha com os "elogios das variedades", mas o que se torna mais
interessante neste Estado é o incentivo as diversidades (desejos,
posturas e vontades) e é somente no Estado Mínimo que se realizará
essa diversidade e privilegia, portanto, as diferenças, ao passo que,
no Estado Máximo (totalitário) ele tende a uniformizar os
comportamentos, pois este tem mais funções, assim o Estado
preocupado com o bem estar social "termina por criar uma sociedade
de comportamentos uniformes que sufocam a natural variedade dos
caracteres e das disposições". (BOBBIO, 1994)

Ao privilegiar as diferenças o Estado Liberal fecunda o antagonismo,


segundo Bobbio, esses conflitos levam ao aperfeiçoamento e se torna
importante para o progresso.

O segundo conceito que será abordado a partir de agora é sobre


democracia, para podermos diferenciarmos as coincidências e
semelhanças com o liberalismo.

O tema aqui discutido é um estudo de como se organiza o poder,


antes uma democracia direta e agora representativa.

Como já citado anteriormente no texto a democracia é entendida


como governo do povo em contraposição ao governo de poucos,
apesar de conter um duplo sentido: descritivo (governo do povo) e
valorativo (governo que pode ser preferível ao governo de um ou de
poucos).

Há um longo percurso de estudo sobre democracia, partindo desde a


Tradição Romano Medieval, onde o ponto de partida escrita no
Digesto de Ulpiano que ele afirma "(...) se diz que o príncipe tem
autoridade porque o povo lhe deu (...), onde, a propósito do
costume, como fonte do direito não apenas através do voto, dando
vida às leis, mas também dando vida aos costumes". A partir de
então, Aristóteles conceiptualiza a democracia em sua tipologia como
"Governo de vantagem para o pobre" , contrapondo, desta forma,
com outros tipos de governo. Tal concepção fora aceita pelo menos
até Hegel, perpassando o seu estudo por Marcilio de Pádua, São
Tomás de Aquino, Bodin, Hobbes, Locke, Rousseau e Kant.

A argumentação de Rousseau, um grande defensor da democracia diz


que a liberdade só se realiza quando eles elegem os seus
representantes e que uma verdadeira democracia nunca existiu e
nunca existirá, pois exige para a sua realização um Estado pequeno e
que seja fácil de se reunir. Mas, em contraposição os Federalistas
estavam convencidos de que a única forma de governo adequado
para um povo seria a democracia representativa, ou seja, a
população participando na escolha de seus representantes. Entende-
se: os representantes trabalhariam para o povo. E para alcançar
determinado objetivo era necessário que se efetivasse a democracia
indireta, pois esta, seria a melhor forma de obter o verdadeiro
sentido de soberania e é apresentada como a mais perfeita.

Em suma, a democracia moderna ou representativa o representante


não representaria apenas um departamento, mas a nação inteira e
defensor dos interesses da corporação. Tal concepção nasceu do
Estado Liberal que segundo a doutrina os direitos do homem são
invioláveis e, para isso, a democracia através de seus representantes
teriam como "dever" defender tais direitos.

O ideal democrático é em buscar a igualdade, mas tal questão para


Bobbio torna-se antitéticas, pois para ele, a igualdade e liberdade
seriam valores opostos. Levando em consideração que as origens do
Estado Liberal sob a forma de igualdade estão fundamentas em dois
princípios: igualdade perante a lei e igualdade de direitos, estabelece
neste sentido a igualdade entre os indivíduos perante a lei e esta são
iguais para todos os indivíduos.

Ao contrário de Bobbio, Décio Saes discute sua teoria a partir das


obras de Marx e Poulantzas. Este ultimo suas obras estão inseridas
em um contexto histórico como a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria.
Por outro lado, no século XX havia uma disputa política, militar e
econômica entre duas propostas de Estado: Estado e civilização.
Discussão que gira em torno do progresso, da organização política e
das condições humanas para proporcionar o desenvolvimento. Para
solucionar esses questionamentos os cientistas políticos estudam os
pressupostos políticos. Marx tem uma grande contribuição sobre o
Estado, pos é inevitável discutir sobre política e Estado sem levar em
conta as relações de produção, bem como é impossível ter um
conceito generalizado sobre o que é Estado, mas se possibilitasse tal
conceito utilizaria a descrição de Décio:

"(...) o Estado, em todas as sociedades divididas em classe (...), é a


organização especializada (...) na função de moderar a luta entre as
classes antagônicas, garantindo por esse modo a conservacao da
dominação de classe; ou por outra o conjunto de instituições (...) que
conservam a dominação de uma outra classe". (SAES, 1998).

Mas apesar desta descrição, todas as diferenças políticas estão


ligadas as relações de produção, pois todos os integrantes da
sociedade tem que ter um meio de subsistência.

O Estado Burguês é especifico do capitalismo e tem como função a


mediação das classes antagônicas de uma forma para que as classes
exploradas não se revoltem, para isso Saes propõe em explicar sobre
o que chama de correspondência do Estado Burguês e as relações de
produção capitalista, dizendo que é errôneo ter uma visão
mecanicista e economicista, que encara o Estado Burguês como uma
formação social determinada, sendo este um reflexo da dominação de
relações de produção capitalista. Para ele, ao olhar desta forma
quebra com o movimento dialético ou movimento da humanidade.
Não obstante, do Estado Burguês não ser conseqüência da relação de
produção é este Estado que é capaz de produzir esta relação. Sabe-
se que em uma relação de produção, ao se estabelecer ela é
recíproca.

Na relação de produção capitalista, para esclarecer o que foi citado


acima; somente no capitalismo as relações de produção onde o
trabalhador e os proprietários dos meios de produção, que o segundo
explora o primeiro, chamada por sua vez de relação de propriedade,
é considerada a primeira revolução do capitalismo.

A segunda revolução é a separação do produtor direto dos meios de


produção, fazendo que o trabalhador não exerça mais o controle do
que produz, esse afastamento será absorvida pela sociedade
tornando-a alienada.

Outra característica do sistema capitalista é a extorção da compra e


venda da força de trabalho, através do salário, mas de forma
desigual; transformando assim, em mercadoria e, como toda a
mercadoria necessita-se de circulação e isso faz com que efetive a
produção da mais-valia.

As pessoas não têm a percepção desta troca desigual porque são


iludidas. Essa iusao se fortalece mais no Estado Burguês e faz com
que os trabalhadores não percebam que estão sendo exploradas,
essas medida faz-se fundamental no Estado Burguês.

Marcuse levanta que a fragmentação do trabalho determina o


isolamento (alienação), sendo de extrema importância no trabalho
coletivo, pois os trabalhadores terão uma consciência de classe.

O Estado Burguês vem como contra força desta consciência de classe,


transformando o ser humano em um ser individualizado, jurídico e
possuidores de vontades subjetivas, ou seja, o próprio trabalhador
tem a liberdade de vender a sua força de trabalho.

Para realizar essa finalidade o Estado Burguês é qualificado desta


forma, quando cria condições ideológicas. E este mesmo Estado
neutraliza o produtor direto à uma ação coletiva, oposto da classe
social, protegendo de tal maneira os interesses dos proprietários dos
meios de produção.

É de conhecimento que há interesses antagônicos entre as classes


sociais (produtor direto e proprietários dos meios de produção) e para
amenizar tais interesses e evitar um conflito o Estado os definem
como uma coletividade do mesmo território, assim denominado como
Estado-Nação. Definindo os indivíduos como iguais na sua condição
de habitantes de um mesmo território e o Estado Burguês passa a ter
a representação da unidade. Portanto, a idéia de Povo-Nação dissolve
as classes sociais, através do Direito (sistema de normas), atribuindo
igualdade aos desiguais.

O Direito Burguês apresenta uma ruptura radical com os tipos


anteriores de direito – colocando todos como iguais perante a lei –
convertendo-os de tal forma em sujeitos individuais e capazes de
praticar os atos de vontade.

Mas ao lado do Direito Burguês está o burocratismo, que nada mais é


que um modo de organização de recursos humanos e materiais. Um
depende do outro, ma medida sem a individualização e a igualização
é impossível liquidar a monopolização das tarefas do Estado pelas
classes trabalhadoras. A igualdade aos desiguais regula as relações
sociais, mas para isso tem que haver uma organização disciplinada.

A ação da burocracia consiste em dividir tarefas, impondo aos


funcionários administrativos a divisão do trabalho tanto no ritmo
quanto nos instrumentos.
O Estado Burguês defendido por Hegel que, teoricamente qualquer
pessoa tem o direito de participar do Estado (qualquer pessoa ou
grupo) acaba por transformar as tarefas do Estado em impessoais.

Oficialmente o Estado está aberto a toda e qualquer pessoa, mas


historicamente isso não se realiza, ficando a mercê apenas de um
grupo.

Esse discurso de aparência de representatividade, para Saes, é uma


falsa idéia de representação.

Concluindo, o Estado Liberal, Democrático ou Burguês criado num


contexto histórico, mas sempre com objetivo maior de conter os
conflitos entre as classes, mas por outro ângulo sempre defendendo
os interesses de um grupo dominante, ficando assim a cada vez mais
a classe explorada na dependência do aparelho estatal.

Referência Bibliográfica:

BERETELLO, Edélzia. "Minimanual de Pesquisa de Geografia". 2 a


edicao, Uberlândia; Editora Claranto: 2004.

BOBBIO, Norberto. " Liberalismo e Democracia". 6a edicao, SP;


Editora Brasiliense: 1994 (p.07-44)

________________. "Dicionario de Política" Brasília, UNB: (p.319-


329)

SAES, Décio. "Estado e Democracia: ensaios teóricos". 2 a edicao,


Campinas, UNICAMP, Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas: 1998
(p. 15-70)

NUNES, Antonio Carlos. "Minimanual de Pesquisa de Geografia". 2 a


edicao, Uberlândia; Editora Claranto: 2004.

WEFFORT, Francisco C.(org) "Os clássicos da Política 1". Series


Fundamentos, Editora Ática, SP: 2004.