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IBN KHALDUN (1332-1406)

E O OLHAR MUÇULMANO SOBRE A PENÍNSULA IBÉRICA

Elaine Cristina Senko (História UFPR/NEMED/PIBIC/CNPq)1


Orientadora: Professora Doutora Marcella Lopes Guimarães

Resumo

O historiador muçulmano tardo-medieval Abu Zaid Abd’ul-Rahman Ibn Khaldun


(1332-1406) escreve entre 1374-1378 grande parte de sua Autobiografia. A recorrência
constante à Al-Andaluz pelo historiador muçulmano, local que era um centro cultural e
político autônomo do modelo imposto pelos governos muçulmanos do Oriente na Idade
Média se apresenta de maneira primordial. Nossas pesquisas nos levaram à constatação de
que essa erudição proveniente do sul da Península Ibérica, da qual Ibn Khaldun entrou em
contato através de seus ilustres mestres, era o modo de se legitimar perante o poder. O
percurso intelectual de Ibn Khaldun proporciona uma via de compreensão da política
autônoma estabelecida ao sul da Península Ibérica, corrobora como uma contra-voz ao
período de Reconquista e da mobilidade territorial de um homem de saber na Idade Média.

Um homem em busca do saber:

A fonte Autobiografia de Ibn Khaldun e parte de sua obra Muqaddimah (Introdução


à História Universal) apresenta detalhes históricos e conceitos políticos, eruditos, econômicos
e sociais para o século XIV. O estudo pormenorizado e detalhado da Autobiografia foi
imprescindível para realizar o trabalho tendo por foco a cultura islâmica e seus princípios
inerentes em um momento específico, o período tardo-medieval. A Autobiografia de Ibn
Khaldun e a Muqaddimah foram escritas no exílio do historiador em Calat Ibn Salama (local
atual do país Argélia, no norte de África).
A Autobiografia de Ibn Khaldun nos demonstra que ele possuía uma origem remota
na Península Arábica através da tribo dos Hadramut, o representante na época era Uail Ibn
Hojr que foi, segundo o historiador, um dos Companheiros do Profeta (século VII). Logo após
ocorreu a migração de parte dessa tribo para a Península Ibérica. Nesse momento, dos séculos
XI-XII a família Khaldun se encontrava ao lado da dinastia dos Almorávidas e depois com a
substituição destes passou a compartilhar do poder com os Almôadas. Ibn Khaldun nos

1
Graduanda em História pela Universidade Federal do Paraná. Bolsista PIBIC/CNPq e membro discente do
Núcleo de Estudos Mediterrânicos (NEMED/UFPR). Sob orientação da Professora Doutora Marcella Lopes
Guimarães. Estudo inserido no projeto: Ibn Khaldun (1332-1406) e o olhar muçulmano sobre a Península
Ibérica.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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lembra e legitima seus antepassados relatando conforme a sua Autobiografia que Curaib Ibn
Othman e seu irmão Khalid (neto de Khaldun) foram os detentores do poder em Al-Andaluz.
Os Khaldun se estabeleceram inicialmente em Carmona e depois em Sevilha. Conforme a
descrição de Ibn Khaldun, nos meados do século XIII, o sultão Abu Zacaria se apoderou e
tornou-se soberano de Ifríkya (Túnis), logo depois da morte desse, Al-Andaluz mergulhou na
subversão e o rei cristão Fernando III (1217-1252) aproveitou a ocasião e atacou a região de
Fronteira (formada pela planície que se estende de Córdoba, Sevilha e Jaen). O sultão de
Granada realizou acordos com Fernando III e estabeleceu-se em Granada. Assim a família
Khaldun partiu para Ceuta e após se fixou em Túnis. O historiador nos aproxima de seu tempo
presente quando indica na Autobiografia:

No ano de 737 (1336-37), ao falecer meu avô, meu pai, Abu Bacr Muhammad, deixou a
carreira militar e administrativa para dedicar-se à ciência (a lei) e à devoção. (...) Desde o
dia em que meu avô renunciou aos negócios, passava seu tempo ao lado de Abu Abd Allah,
e meu pai, que tinha sido entregue aos cuidados deste doutor, aplicou-se ao estudo do
Alcorão e da lei. Meu pai cultivou com paixão a língua árabe e era versado em todos os
ramos da arte poética. Filólogos de profissão recorriam a seu critério – fato que testemunhei
– e lhe submetiam seus escritos. Faleceu, arrebatado pela grande epidemia do ano de 7492.

Nessa direção da interpretação da Autobiografia indicamos a autenticidade da


erudição de Ibn Khaldun por sua formação específica com mestres andaluzes e magrebinos na
sua cidade natal de Túnis. A madrasa (escola) de formação de Ibn Khaldun foi a malikita, que
era a escola oficial em Al-Andaluz e tinha por lições: leitura específica do Alcorão, o Tafassi
(sobre tradições escritas no Muwatta que servia de base ao sistema da jurisprudência
malikita), o Tamhid, o Tashil (sobre regras gramaticais), Mukthaçar (resumo de
jurisprudência) e também foram ensinados a Ibn Khaldun as poesias citadas no Kitab Al-
Agani. Deve-se ressaltar que as lições foram propostas a Ibn Khaldun pelos mais famosos
mestres andaluzes, magrebinos e tunisianos da época, pois que o nosso historiador conseguiu
todos os certificados de maneira lisonjeira.
Dessa forma podemos revelar por meio da Autobiografia os movimentos de erudição
presentes em território andaluz no período tardo-medieval, como isso era um paradigma para
Ibn Khaldun e para a cultura e poder dos muçulmanos estendidos em direção ao território
norte-africano.

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KHALDUN, Ibn. Autobiografia de Ibn Khaldun. In: Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). Tradução
integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de
Filosofia, 1958, p.491.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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O escrito khalduniano:

A obra de Ibn Khaldun foi escrita entre 1374-1378 e é dividida em: Autobiografia de
Ibn Khaldun, os Prolegômenos e o Livro dos Berberes. Doutor Franz Rosenthal, pesquisador
que traduziu os manuscritos em língua árabe da Muqaddimah para a língua inglesa (“The
Muqaddimah, an introduction to History”, três tomos, Princeton, 1958-1968)3 se aprofundou
nos conceitos de civilização propostos por Ibn Khaldun. Rosenthal pontua que Ibn Khaldun
pertencia a uma família aristocrática e de líderes políticos na região do sul da Península
Ibérica, e que a partir de 1248 esta passou para o Norte de África. O historiador a partir dos
relatos da Autobiografia de Ibn Khaldun contextualiza os fatos políticos da época e aponta no
sentido do que encontramos em nossa pesquisa: a presença da família Khaldun ao lado do
poder em território do sul da Península, a transferência dela para o Norte de África e a
importância do saber andaluz na vida de Ibn Khaldun:
The love of learning and intellectual pursuits for wich his father and grandfather were noted,
coupled with the political aspirations that had fired a long line of this Moorish forebears,
produced the rare combination of philosopher and statsman that we find in Ibn Khaldun4.

Rosenthal aponta ainda para a educação recebida por Ibn Khaldun por meio de
“linhas tradicionais”:
His early education followed traditional lines. He was tutored in the Qu’rân, the Hadith,
jurisprudence, and the subtleties of Arabic petry and grammar by some of the best-known
scholars of the time, and later applied himself to the study of Arab mysticism and the
philosophy of the Moorish Aristotelians (...)5.

Ibn Khaldun rejeitou a superstição e se aprofundou em uma análise crítica da


sociedade de sua época; para Rosenthal o centro dos estudos de Ibn Khaldun é o homem.
O historiador muçulmano foi influenciado pelos escritos de Ibn Sina (Avicena) e
Ibn Ruchd (Averróis), por isso podemos nos voltar para a afirmação da historiadora inglesa
Karen Armstrong, quando esta afirma em sua obra “O Islã” (2001)6 a necessidade de se rever
a figura de Ibn Khaldun como o último representante da falsafa medieval (a filosofia da
Antigüidade grega resgatada pelos árabes medievais):
Ibn Khaldun queria descobrir as causas subjacentes dessa mudança. Ele foi provavelmente o
último grande faylasufita espanhol. Sua grande inovação foi aplicar os princípios do
racionalismo filosófico ao estudo da história, (...). Ibn Khaldun acreditava que, sob o fluxo
dos incidentes históricos, havia leis universais que governavam os destinos da sociedade
(...)7.

3
ROSENTHAL, Franz. The Muqaddimah – An Introduction to History. Editado por DAWOOD, N.J.; New
Jersey: Princeton, 1981.
4
Idem, p.vii
5
Idem, ibdem.
6
ARMSTRONG, Karen. O Islã. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
7
Idem, p. 154-155.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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Armstrong confirma nossa análise quanto a Ibn Khaldun ser um observador da
decadência do anterior poder dos muçulmanos. O conceito elaborado sobre o movimento
cíclico de ascensão, apogeu e decadência, ao lado da ação da “asibiyyah” e “umram” definem
a perspectiva política de Ibn Khaldun.
Também indicamos para os estudos efetuados por Albert Hourani que sinaliza já no
prólogo e ao longo do seu livro “Uma história dos povos árabes” (1989)8 uma visão da
história dos árabes concomitante a importância histórica dos escritos de Ibn Khaldun. A
influência khalduniana em Hourani é de fácil percepção, pois que o historiador inglês se
utiliza do método de Ibn Khaldun para descrever os diversos momentos de uma história de
conquista do poder pelos árabes. O estudo da Autobiografia de Ibn Khaldun, nesse caso como
de Rosenthal, amplia por meio da ação do indivíduo as concepções políticas, econômicas e
sociais de um recorte histórico. A contra-voz de Ibn Khaldun é de suma importância para se
entender o movimento cultural, da ação da Reconquista cristã, sobre a erudição muçulmana ao
lado do poder e como vestígio de um silêncio. Segundo Hourani:
A vida de Ibn Khaldun, segundo sua própria descrição, nos diz alguma coisa sobre o mundo
a que pertenceu. (...) Sua própria trajetória mostrou como eram instáveis as alianças de
interesses em que se baseavam as dinastias para manter o poder; (...) Mas uma coisa era
estável, ou parecia ser. Um mundo onde uma família se mudava do sul da Arábia para a
Espanha, e seis séculos depois retornava ao lugar de origem e continuava a ver-se num
ambiente familiar, tinha uma unidade que transcendia as divisões de tempo e espaço; (...)9.

Constatamos assim a manutenção dessa unidade, a sabedoria, no caso de Ibn


Khaldun, esta proveniente de Al-Andaluz e estimulada pelos sábios andaluzes em Norte de
África. Tal como Hourani preserva em sua perspectiva sobre a cultura desenvolvida no sul da
Península Ibérica:
A cultura continuou a florescer em torno de algumas cortes dos pequenos reinos nos quais se
dividiu o Califado Omíada, os muluk a-tawa’if, ou ‘reis de partido’. Os almorávidas, que
vinham das margens do deserto do Magreb, trouxeram um austero gênio de estrita aderência
à lei malikita (...). Após os almôadas, o processo de expansão cristã foi extinguindo um
centro de vida muçulmana após outro, até restar apenas o reino de Granada. A tradição que
ela criara foi continuada, porém, de várias formas nas cidades do Magreb, e do Marrocos em
particular, para onde migraram os andaluzes10.

É interessante observar que Hourani demonstra a elaboração das madrasas


andaluzas, suas respectivas lições dadas por ilustres mestres e como isso se expandiu em
direção ao Magreb, região em que a família Khaldun se viu deslocada. A influência da cultura
muçulmana no território da Península Ibérica se mostrou nessa pesquisa fundamental para se
compreender o período tardo-medieval da Reconquista cristã e como a erudição de Ibn
8
HOURANI, Albert. Uma História dos povos árabes. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia
das Letras, 2006.
9
Idem, p.19-20.
10
Idem, p.255.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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Khaldun preservara essa idéia de continuidade da produção do saber medieval islâmico
proveniente de Al-Andaluz.
Conforme nos aponta Miguel Attie Filho em sua obra “Falsafa: a filosofia entre os
árabes” (2002)11 sobre o espetáculo da erudição produzida em Al-Andaluz: “(...) Al-Andaluz,
sempre que pôde, rivalizou com os Abássidas, tanto política como culturalmente”12. Attie
Filho infere sobre Ibn Khaldun que ele nos legou o sentido científico da história13.
Dessa maneira temos que fazer justa reverência aos esforços de José Khoury e
Angelina Bierrenbach Khoury, que publicaram nas décadas de 1950/60 a presente tradução
que utilizamos como fonte para esta pesquisa. No que se refere a trabalhos acadêmicos temos
contato com a tese de doutorado de Aidyl de Carvalho Preis “O sentido da História através
dos Prolegômenos de Ibn Khaldun” (USP, 1972)14. Preis apresenta a importância histórica de
Ibn Khaldun e da sua formação intelectual para indicar um “complexo cultural” entre a
Península Ibérica e Norte de África15. Os cargos da vida pública que Ibn Khaldun assumiu
eram vividos concomitante à sua busca pelo conhecimento. Se faz necessário afirmar que a
Autobiografia de Ibn Khaldun é utilizada da mesma forma como os já mencionados
pesquisadores, serve de base para compreender a obra Muqaddimah. Nossa pesquisa versa
sobre o estudo minucioso da Autobiografia como forma de legitimação das posições de Ibn
Khaldun.
O erudito Ibn Khaldun tem sua autoridade atestada, pois que é por meio de seus
escritos que conhecemos a forma como eram ensinadas as lições, por exemplo, o que nos diz
Jamil Ibrahim Iskandar: “Segundo Ibn Haldun, ‘o Corão enviado do céu em língua árabe e
num estilo adequado à maneira seguida pelos árabes para bem exprimir seus pensamentos’
era inicialmente compreendido por todos (...)”16. A Autobiografia nos aponta os métodos de
aprendizado seguidos por Ibn Khaldun, logo após quando nos remetemos a Muqaddimah
presenciamos um tratado de erudição de cada etapa de transmissão do saber, esta de
procedência andalusi. Ao mesmo tempo em que se produzia essa corrente de estudos
andaluzes podemos atentar para fato da produção das crônicas régias medievais em território

11
ATTIE FILHO, Miguel. Falsafa: a filosofia entre os árabes: uma herança esquecida. São Paulo: Palas
Athena, 2002.
12
Idem, p.302.
13
Idem, p.338.
14
PREIS, Aidyl de Carvalho. O sentido da História através dos Prolegômenos de Ibn Khaldun. Tese de
Doutorado: Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo. São Paulo, 1972.
15
Idem, p.38.
16
ISKANDAR, Jamil Ibrahim. Al-Qur’an: O Corão, o Livro Divino dos Muçulmanos. In: PEREIRA, Rosalie
Helena de Souza, (organização). O Islã clássico: itinerários de uma cultura. São Paulo: Perspectiva, 2007,
pp.97-128.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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recém conquistado pelos cristãos17. Um paralelo pode ser estabelecido com a produção de
crônicas feitas por Fernão Lopes e Gomes Eanes de Zurara, nesse período próximo à vida de
Ibn Khaldun.
Além desses, obtivemos a importante contribuição do pesquisador medievalista
Diego Melo Carrasco, atual membro docente da Universidad Adolfo Ibañez, Chile. Carrasco
defende a idéia do prolongamento político e cultural entre a Península Ibérica e Norte de
África no período tardo-medieval. O qual, em nossa pesquisa se faz transparecer na
Autobiografia. Nesse sentido, Carrasco estabelece o contato entre as ditas regiões:
Coetáneamente, el norte africano se vio afectado por las complicaciones de al-Andalus,
debido a que el primero era um espejo de este último em cuanto a câmbios políticos se
refiere. Lo anterior, tênia su más palmaria manifestación en la política intervencionista de
los Emires andalusíes en la cuestiones del Magreb. Será en este complejo escenario de la
historia islámica, en donde emergerá la figura de Abd-al-Rahman Ibn Jaldun18.

Segundo Carrasco, esse momento político era convivido com a produção cultural,
em que podemos pontuar a singularidade da Autobiografia de Ibn Khaldun em seu período:
“(...) Lo cierto es que el género biográfico no será de los más difundidos dentro del Islam
medieval, en donde se le otorgará mucho más importancia a la recopilación de notícias, así
como las genealogias y las crónicas”19.

Um erudito diplomata:

A carreira intelectual de Ibn Khaldun paralela àquela exercida oficialmente por ele
em diversos sultanatos foi a mola propulsora de suas obras. A política de sua época era
dominada ainda pelos conflitos entre a dinastia dos Hafsidas (1228-1574) e a dinastia dos
Marínidas (1196-1465). Além dessas duas grandes dinastias, as quais Ibn Khaldun serviu,
podemos destacar a importante tribo do norte de África, os Banu Hilal. Na perspectiva
externa, a política estava pressionada pelos turcos seldjúcidas oriundos da Ásia Menor, pelo
avanço frenético dos mongóis e pelos interesses permanentes dos mamelucos do Egito. No
entanto, o homem político Ibn Khaldun soube negociar em prol de seus interesses para manter
sua posição todo tempo próxima do poder, pois isso era o que lhe garantia triunfar com a ação
de sua pena.

17
Sobre o estudo erudito de crônicas na Península Ibérica do período tardo-medieval: GUIMARÃES, Marcella
Lopes. Estudo das Representações de Monarca nas Crônicas de Fernão Lopes (séculos XIV e XV). Tese de
Doutorado, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2004.
18
CARRASCO, Diego Melo. Una aproximación al mundo de Ibn Jaldun: precursor medieval de la Historia de
las civilizaciones. I Jornadas Internacionales de Teoría y Filosofía de la Historia, organizadas por la Facultad de
Humanidades de la Universidad Adolfo Ibañez, Viña del Mar, 2004, p.2-3.
19
Idem, p.3.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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Em 1352, Ibn Khaldun ingressou como escrivão do parafo real (função da pena que
cabia àquele que registrava dados concernentes à administração real) sob a dinastia Hafsida
em Túnis. Em seguida passou a ser o secretário do sultão Abu Inan em Fez, sob a dinastia do
Marínidas, pois uma comitiva de sábios um tempo antes o tinha impressionado, o que o fez
prometer a si mesmo um dia seguir o caminho do Marrocos. Mas seu ofício ao lado do sultão
Abu Inan foi curto e em 1357 Ibn Khaldun foi preso a mando desse mesmo sultão e solto
apenas quando o soberano morreu. O sucessor de Abu Inan, o sultão Abu Salem nomeou Ibn
Khaldun novamente como secretário do governo marínida, somando a esse dois novos cargos:
o de chefe de chancelaria e de madhalim (aquele que repara as injustiças). O governo
marínida se encontrava em posição instável nesse instante e Ibn Khaldun retornou para Túnis
em 1362. Nesse ínterim, Ibn Khaldun realizou uma missão diplomática em 1363, na qual era
necessária a ratificação de um tratado de paz entre o sultão Ibn Al-Ahmar (Muhammad V),
sultão de Granada e Pedro, o Cruel (rei de Castela e Leão): “No ano seguinte mandou-me
(Muhammad V) em missão diplomática à corte de Pedro, filho de Afonso, e rei de Castela.
(...)”20 . Obtido o sucesso nessa negociação, Ibn Khaldun passou a ser professor da mesquita
de Bujaya (norte de África), mas a instabilidade era constante no Magreb Medieval e ele teve
de deixar de lecionar para servir ao senhor de Tlemcen, o sultão Abu Hammu. Nessa posição,
Ibn Khaldun era o responsável por registrar os impostos do reino de Tlemcen (uma das
funções de secretário de parafo), cobrar dos berberes o pagamento efetivo dos impostos
devidos ao sultão e era ainda o hajib. Essa atitude militar no Magreb perturbaria tanto Ibn
Khaldun que ele se retirou para um ribat (parte de uma mesquita ou madrasa que servia de
recolhimento para a meditação religiosa e erudita muçulmana). Tempos depois, encontramos
Ibn Khaldun em Biskra como funcionário do jovem sultão de Fez e soberano do Marrocos,
Abd-al-Aziz. Em 1372, Khaldun se refugia da perseguição de seu antigo protetor, o sultão
Abu Hammu, que não admitia a sua saída do governo de Tlemcen. Em 1374, o sultão Abu’l-
Abbas se torna soberano da dinastia Marínida e passou o controle da cidade de Fez para o
emir Abd’ ur-Rahman, então Ibn Khaldun passa para território hispano: “Foi somente no mês
de Rabia de 776 (agosto-setembro de 1374) que desembarquei neste local, em que tinha
firmado o propósito de fixar residência e de passar o resto de meus dias no retiro e no estudo
(...)”21.
Ibn Khaldun, novamente no Norte de África, voltou a lecionar em Tlemcen, mas se
encontrou mergulhado em conflitos com berberes da região e afirma que era o momento de
por sob a pena a Muqaddimah e grande parte de sua Autobiografia. Logo após optou por uma

20
KHALDUN, Ibn. op. cit.,p. 511-512.
21
Idem, p.530.
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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peregrinação a Meca, mas acabou por se encontrar em 1383 no Cairo. E foi nesse local que
Ibn Khaldun angariou, sob a influência do sultão egípcio Malik Al-Daher, o posto de
professor de jurisprudência malikita na Mesquita de Al-Azhar, ocupou cadeira no Colégio
d’Alcamha e um ano após tornou-se Grande Cádi do Rito Malikita do Cairo. E foi através
desse último cargo de cádi (juiz) que Ibn Khaldun teve uma atitude obstinada contra a
corrupção no Cairo dos adel (testemunhos que tinham as funções de assessor do cádi e de
escrivão), contra a fraqueza dos hakam (oficiais encarregados de fiscalizar a administração
judiciária e de fazer valer as sentenças proferidas pelo cádi) e do modo de proceder pernicioso
dos muftis (legistas consultores) do rito malikita. Nessa ocasião Ibn Khaldun perde toda a sua
família num naufrágio e parte em direção a Meca em 1387 com a solidariedade do sultão
egípcio. A parte final da Autobiografia é completada por outros três historiadores: Makrizi
(1364-1442), Ibn Chohba (c. século XIV) e Ibn Arabchah (c. século XIV). Esses relatam um
mesmo encontro realizado em 1400: o de Ibn Khaldun com o líder mongol Tamerlão em
Damasco. Em 1401, Ibn Khaldun retorna ao Cairo e foi renomeado Grande Cádi, mas foi
substituído diversas vezes, quando retomou esse cargo em 1406, morreu em 25 de março do
referido ano.

Permanência territorial de Ibn Khaldun ao longo Tunis


3% da descrição da "Autobiografia"
Cairo
1%
35%
1% Fez

1% Tlemcem

4% Calat Ibn Salama


31%
4% Sevilha
7% 8%
5%
Al-Batna

Ceuta

Damasco

Bugia

Outros

Gráfico relativo à fixação territorial de Ibn Khaldun conforme relatado na Autobiografia.


Conclusões:
A produção intelectual de Ibn Khaldun se revela através de sua Autobiografia, ao
lado da Muqaddimah, mas na primeira presenciamos a experiência relatada por ele dentro do
espaço agitado pela política, tanto do Norte de África quanto da Península Ibérica. Esse
estudo pormenorizado da Autobiografia nos mostrou fragmentos de escolhas políticas dos
soberanos muçulmanos e cristãos no momento anterior e posterior de Reconquista, nos
Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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permitiu reconstruir o pensamento histórico de Ibn Khaldun, adentrarmos a sabedoria andalusi
e é uma fonte medieval que deve ser valorizada como uma contra-voz de autoridade para o
período tardo-medieval. Portanto, nossa pesquisa contribui para um aprofundamento das
escolhas de Ibn Khaldun através de sua Autobiografia, modo pelo qual encontramos o cerne
dos princípios formulados pelo historiador muçulmano e isso nos confronta com a visão geral
e específica de ações provocadas pela erudição proveniente da Península Ibérica medieval.
O levantamento da forma como o autor se legitima a partir da tradição familiar dele
desde o contato com o Profeta Muhammad nos leva a compreender a posição da família dos
Khaldun ao lado do poder, por meio dessa diferenciação que desembocou no ramo sunita.
Assim, ressaltamos na pesquisa a importância dos cargos ocupados pelos membros dessa
família, posições essas que se tornaram tradicionais em Carmona e em Sevilha (províncias
políticas importantes da Península Ibérica). Essa presença do poder dos muçulmanos na
Península Ibérica sob o controle da dinastia dos Almôadas no século XIII se apresentava já
fragmentada em reinos denominados de taifas (reinos divididos e governados por
emires/sultões).
A migração intensa de andaluzes para o Norte de África (1248) foi provocada
principalmente pela ação do rei cristão Fernando III (1217-1252). Essa migração levou
mestres andaluzes e a família Khaldun para as regiões do Norte de África e foi dessa maneira
que a erudição específica da Península Ibérica e os cargos políticos pertencentes à Al-Andaluz
passaram a constituir a formação decisiva das instituições políticas magrebinas. A partir dessa
situação relatada na Autobiografia e confirmada na obra Muqaddimah por Ibn Khaldun
analisamos a formação intelectual do historiador, pois isso foi o motivo de sua própria
legitimação para alçar cargos de relevância próximos ao poder, tal como de parafo imperial,
defensor dos impostos pagos ao sultão, diplomata de renome e cádi malikita (juiz de
jurisprudência da escola malikita). Essa etapa provou a influência da erudição de Al-Andaluz
no cerne intelectual de Ibn Khaldun.
Ibn Khaldun como um historiador muçulmano da Baixa Idade Média permite uma
visão complementar das ações de Reconquista na Península Ibérica, ou seja, uma contra-voz
desse período histórico, uma personalidade erudita como a dele demonstra uma
movimentação política e territorial que desmistifica a imobilidade no medievo, além de
produzir um conhecimento sobre a história e do ofício de historiador.

Texto integrante dos Anais do XIX Encontro Regional de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP-USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
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Referência Bibliográfica:
Documentos:
KHALDUN, Ibn. Autobiografia. In: Muqaddimah I – Os prolegômenos (tomo I). Tradução
integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo:
Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958.
_____________ . Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo II). Tradução integral e direta do
árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de
Filosofia, 1959.
_____________ . Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo III). Tradução integral e direta do
árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de
Filosofia, 1960.

Estudos:
ARAÚJO, Richard Max de. Ibn Haldun: o estudo de seu método à luz da idéia de decadência
nos Estados do Ocidente muçulmano medieval. Dissertação de mestrado: Universidade
Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, 2004.
ARMSTRONG, Karen. O Islã. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
ATTIE FILHO, Miguel. Falsafa: a filosofia entre os árabes: uma herança esquecida. São
Paulo: Palas Athena, 2002.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2001.
BURKE, Peter. O que é História Cultural? Tradução: Sérgio Goes de Paula. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2005.
CARRASCO, Diego Melo. Una aproximación al mundo de Ibn Jaldun: precursor medieval
de la Historia de las civilizaciones. I Jornadas Internacionales de Teoría y Filosofía de la
Historia, organizadas por la Facultad de Humanidades de la Universidad Adolfo Ibañez, Viña
del Mar, 2004.
GUIMARÃES, Marcella Lopes. Estudo das Representações de Monarca nas Crônicas de
Fernão Lopes (séculos XIV e XV). Tese de Doutorado, Universidade Federal do Paraná,
Curitiba, 2004.
HOURANI, Albert. Uma História dos povos árabes. Tradução de Marcos Santarrita. São
Paulo: Companhia das Letras, 2006.
PEREIRA, Rosalie Helena de Souza, (organização). O Islã clássico: itinerários de uma
cultura. São Paulo: Perspectiva, 2007.
PREIS, Aidyl de Carvalho. O sentido da História através dos Prolegômenos de Ibn Khaldun.
Tese de Doutorado: Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1972.
RODRIGUES, Maria Aparecida. Autobiografias: as formas de escrita do eu. In: Fragmentos
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