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GESTÃO PATRIMONIAL ESTRATÉGICA


PARTE 1: IMIGRAÇÃO PARA OS EUA
(ASPECTOS PATRIMONIAIS E FISCAIS)

O fluxo de imigração e investimentos de brasileiros em direção aos Estados Unidos


da América (EUA) é crescente, em face da crise financeira e política que estamos
vivenciando no Brasil. Os processos de transferência da residência fiscal – imigração
– e a realização de investimentos diretos ou indiretos – nos quais se inclui
investimentos financeiros, aquisição de imóveis e estruturação de negócios –
revelam o flagrante deslocamento brasileiro de capital e pessoas em direção ao
sonho americano.
Em busca de segurança para a família e novas oportunidades de investimentos,
brasileiros passam a destinar sua residência definitiva e seu patrimônio familiar para
os EUA. Contudo, em muitos casos, esta decisão não é antecedida de um
planejamento exaustivo capaz de identificar, examinar e determinar a extensão dos
seus efeitos fiscais, societários e financeiros.
A falta de planejamento tem ocasionado problemas, prejuízos e muitas dores de
cabeça aos brasileiros. A realidade da tributação americana e a cogência das regras
de residência fiscal nos EUA demonstram a relevância do papel do planejador
financeiro e do assessor legal na discussão e condução estratégica do planejamento
fiscal, patrimonial e familiar, especialmente pela relação de confiança estabelecida
com o cliente.
Aspectos patrimoniais e fiscais relevantes para os brasileiros interessados em
investir nos EUA em caráter definitivo (imigração) ou temporário (investimentos)
serão tratados em uma série de dois artigos que se inaugura aqui. Esse primeiro
artigo concentra-se em questões fundamentais para nortear a decisão de imigração
para os EUA, sob o prisma do residente fiscal brasileiro.
Residência Fiscal
A Instrução Normativa/SRF n. 208/2002, de forma geral e independente da
nacionalidade, reputa residente fiscal na República Federativa do Brasil todo
indivíduo que (i) resida permanentemente no Brasil; (ii) possua visto de
permanência no Brasil ou (iii) permaneça em território brasileiro por mais de 184
(cento e oitenta e quatro) dias dentro de um período de até 12 (doze) meses.
A pessoa natural que se enquadrar em qualquer um dos requisitos citados
anteriormente tem o dever legal de prestar informações fiscais e patrimoniais às
autoridades fiscais brasileiras (Receita Federal do Brasil) e recolher, no Brasil, os
valores devidos a título de imposto sobre a renda (IR).
O Brasil aplica, para o IR, o regime da universalidade da renda, por meio do qual a
tributação incide sobre o total das rendas auferidas pelo residente fiscal brasileiro,
seja essa renda obtida no Brasil ou no Exterior.
Nos EUA, em relação aos cidadãos não-americanos, a residência fiscal (IRC § 7701
b-1-A) é determinada através do tipo de visto concedido (green card holder or other
lawful permanent resident) ou em razão do tempo de permanência em território
americano (substantial presence test). Assim como ocorre no Brasil, os EUA também
aplicam, como princípio basilar do seu sistema de tributação sobre a renda, o
princípio da universalidade (worldwide system), ou seja, o residente deve pagar
impostos nos EUA sobre a sua renda mundial (inclusive rendas auferidas no Brasil).
Nesse caso, os portadores de vistos de permanência temporária (L1/executivo,
E2/investidor com tratado etc.) e vistos permanentes (EB5/investidor,
EB1/executivo ou habilidade extraordinária etc) são, para todos os efeitos,
reconhecidos como residentes fiscais nos EUA e sujeitos à prestação anual de
informações fiscais (tax return) e à tributação da sua renda (income tax) pelo
Internal Revenue Service - IRS.
Também serão considerados residentes fiscais nos EUA aqueles indivíduos que,
munidos de outros tipos de vistos (B1/Negócios, B2/Turista etc.), permanecerem
em território americano por mais de 183 dias por ano, num período de 3 anos. Trata-
se do substantial presence test, ou seja, a imposição da residência fiscal americana
em face da permanência de longo prazo em território americano. Em tal realidade,
qualquer cidadão estrangeiro (NRA - non resident alien) que permaneça em
território americano por certo período de tempo adquire compulsoriamente a
residência fiscal americana, sendo obrigado ao pagamento de impostos ao Tio Sam.
O “substantial presence test” consiste na contagem de dias em território americano
nos seguintes termos: (a) ano em curso: considera-se a integralidade dos dias em
território americano; (b) ano anterior: contam-se 1/3 dos dias em território
americano; e, (c) ano anterior ao anterior: contam-se 1/6 dos dias em território
americano. Com isso, se a soma dos dias nos 3 anos for igual ou superior a 183
dias, o cidadão estrangeiro é obrigado ao recolhimento de tributos nos EUA como
residente americano.
As únicas exceções a essa regra são concedidas aos portadores de visto diplomático
e aos portadores de visto de estudante (F1). Em ambos os casos, portanto, não há
a imposição do substantial presence test e não há o risco de imposição da tributação
baseada na residência fiscal americana.
Mas quais são, então, as principais consequências práticas da imposição da
residência fiscal aos brasileiros nos EUA e como proceder?
A primeira consequência prática é a de que a sujeição voluntária ou coercitiva às
regras da residência fiscal nos EUA não impacta ou altera de forma imediata a
submissão do indivíduo à residência fiscal no Brasil.
Por isso, imediatamente à obtenção do visto permanente ou temporário e a
consequente obtenção do status de residente fiscal nos EUA, deve-se iniciar o
procedimento de saída definitiva do Brasil e a alteração no status (para não-
residente) do registro no Cadastro de Pessoas Físicas, nos termos do artigo 9º. da
Instrução Normativa/SRF n. 208/2002.
Mediante a “Comunicação de Saída” e posterior “Declaração de Saída”, com o
recolhimento dos tributos devidos, o indivíduo passa a assumir o caráter de não-
residente no Brasil, sujeitando-se às regras aplicáveis a esses, mesmo que
possuidor da nacionalidade brasileira.
Tal procedimento de saída definitiva é fundamental, pois, em caso de não-
cumprimento de tais regras, a residência fiscal brasileira permanecerá vigente e
todas as rendas auferidas dentro e fora do Brasil continuarão sujeitas à tributação
pelo imposto sobre a renda no Brasil.
A segunda consequência prática da mudança da residência fiscal do Brasil para os
EUA diz respeito às rendas e rendimentos auferidos no Brasil. O não-residente no
Brasil é autorizado a manter, em território brasileiro, ativos empresariais
(empresas), ativos imobiliários (imóveis), ativos financeiros (aplicações financeiras
exclusivamente em caderneta de poupança, certificados de depósito bancário ou
previdência) ou ativos de qualquer outra espécie.
No Brasil, com exceção dos lucros e dividendos adquiridos através da distribuição
realizada por pessoas jurídicas sediadas em território brasileiro, todas as demais
receitas e rendimentos auferidos por não-residentes no Brasil estarão sujeitos à
tributação do IR, mediante o sistema de tributação na fonte.
Nos EUA, a residência fiscal impõe aos indivíduos que todas as suas rendas ou
rendimentos, independentemente da sua origem, passem a sujeitar-se às regras de
tributação pelo Income Tax, mediante tabela progressiva de alíquotas.
Para os brasileiros que pretendam se tornar residentes fiscais nos EUA, essa
realidade deve ser muito bem planejada, pois todos os valores auferidos no Brasil –
tais como salários, aposentadoria, dividendos, juros sobre capital próprio, receita
de alugueres e aplicações financeiras – serão tributados nos EUA e sujeitos às
seguintes alíquotas federais1:

Fonte: IRS

Considerando a realidade de famílias com patrimônio vultoso no Brasil, seja como


proprietárias de empresas, de imóveis ou detentoras de investimentos financeiros
de monta, o custo fiscal anual nos EUA pode ultrapassar o montante de 39% (trinta
e nove por cento) do montante da renda ou rendimentos.
Por fim, destacam-se também os riscos existentes em relação aos residentes fiscais
brasileiros, especialmente aqueles detentores de vistos das classes B1/Negócios e
B2/Turista, no caso de permanência de longo prazo em território americano.
Como se vê, o estudo aprofundado da realidade patrimonial e fiscal de cada família
é imprescindível, principalmente antes da decisão de imigração para os EUA.
Possibilidade de compensação de tributos pagos no Brasil
A legislação americana é bastante transparente (“fair”) em relação à autorização e
possibilidade de compensação de tributos pagos no Exterior.
No caso das rendas e rendimentos que serão tributados na fonte pelo Imposto de
Renda no Brasil (em média ao custo de 15%), há possibilidade de compensação
com o Income Tax nos EUA.

1
Algumas unidades federadas americanas, como Califórnia e Nova Iorque, também aplicam Imposto de Renda
Estadual (State Income Tax).
Entretanto, como exposto anteriormente, em relação às famílias com patrimônio e
investimentos no Brasil, parte relevante de suas rendas ou rendimentos é
considerada pela legislação brasileira como isenta ou não-tributadas (v.g.
distribuição de lucros e dividendos).
No Brasil, as empresas são tributadas em suas atividades, seja no sistema do lucro
real, seja nos sistemas do lucro presumido ou arbitrado. Por outro lado, os lucros e
dividendos são distribuídos aos acionistas com alíquota zero de imposto sobre a
renda. Nesses casos, os valores pagos pelas empresas não poderão ser utilizados
na compensação com o imposto devido nos EUA.
Da mesma forma, as receitas de alugueres, caso os imóveis sejam de propriedade
de pessoa jurídica. Mesmo a pessoa jurídica sendo tributada sobre as rendas de
alugueres, os dividendos e lucros são novamente distribuídos aos acionistas sem
custo fiscal. Também aqui não há créditos passíveis de serem opostos à tributação
nos EUA.
Somente as operações tributadas na fonte (receitas financeiras, royalties, juros
sobre capital próprio ou outros) gerarão créditos passíveis de compensação na base
de cálculo do Income Tax nos EUA.
Tributação americana em caso de falecimento ou doação
Outro aspecto fundamental a ser considerado pela família interessada em imigrar
para os EUA é o custo fiscal incidente sobre o patrimônio em caso de falecimento ou
doação.
Enquanto no Brasil incide, em casos de falecimento ou doação, o denominado
Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doações – ITCMD, com alíquotas entre
4% (quatro por cento) e 8% (oito por cento), nos EUA também ocorre tributação
similar através do Estate, Inheritance and Gift Tax (tributo federal).
O Federal Estate, Inheritance and Gift Tax (imposto federal incidente sobre herança
e doação) incide em relação aos indivíduos que tenham residência fiscal nos EUA,
com alíquotas progressivas podendo chegar a 35% (trinta e cinco por cento) do
patrimônio ou dos ativos em questão. Há uma isenção até o montante de USD
5.490.000,00 (exercício 2017) e USD 5.600.000 (exercício 2018) no caso do
Estate/Inheritance Tax (em caso de falecimento) e uma isenção de até USD
13.000,00 (treze mil dólares) para o Gift Tax (em caso de doações).
Além do imposto federal, alguns Estados americanos, também impõem a cobrança
de um Estate, Inheritance and Gift Tax adicional de caráter estadual com alíquotas
entre 1% (um por cento) e 16% (dezesseis por cento).
Para as famílias brasileiras em processo de imigração é, portanto, essencial a
discussão baseada na avaliação técnica sobre as hipóteses de transferência
patrimonial em vida (sucessão patrimonial em vida) e de forma antecipada à
obtenção do visto permanente e residência fiscal americana.
Planejamento Pré-Imigratório
Consoante disposto anteriormente, a residência fiscal americana apresenta uma
realidade fiscal totalmente nova para os indivíduos e famílias brasileiros em processo
de imigração para os EUA.
Caso o planejamento patrimonial e sucessório não seja implementado de forma
preliminar à obtenção do visto e consequente residência fiscal nos EUA, certamente
a carga fiscal incidente sobre o patrimônio existente no Brasil e também no exterior
será bastante alto.
Acima de aproximadamente USD 400.000,00 (quatrocentos mil dólares) anuais de
renda ou rendimentos (essa base de cálculo inclui TODOS os tipos de rendas ou
rendimentos, tais como dividendos, lucros, receitas financeiras, alugueres etc.), a
alíquota do Income Tax é de 39.6% (trinta e nove vírgula seis por cento).
O alto custo fiscal incidente nos EUA pode ser atestado em comparação com a
realidade brasileira. No Brasil, a tributação sobre os lucros e dividendos é isenta; a
tributação de rendimentos da pessoa natural se submete à alíquota de até 27,5%
(vinte e sete vírgula cinco por cento); a tributação de rendas decorrentes de aluguéis
em pessoa jurídica é de 11.33% (onze vírgula trinta e três por cento) no lucro
presumido; e, os investimentos financeiros, em sua maioria, estão sujeitos à tabela
regressiva (entre 22,5% e 15%).
Da mesma forma, enquanto no Brasil a tributação em casos de herança e doação
tem um custo fiscal entre 4% (quatro por cento) e 8% (oito por cento) sobre o valor
do patrimônio, nos EUA esse custo fiscal pode atingir patamares próximos de 65%
(sessenta e cinco por cento) nas hipóteses de incidência dos tributos federais e
estaduais.
Por isso, a utilização de sociedades holdings como veículo legal na propriedade de
ativos, a estruturação de fundos de investimento exclusivo para não-residentes
(Resolução CMN n. 4.373/2015), a estruturação de sociedades holdings em países
com acordos de bitributação com os EUA, a estruturação de trusts e foundations, a
transferência e/ou doação de ativos para herdeiros e sucessores, bem como a
remessa de capitais de forma antecipada aos EUA são algumas das ferramentas e
estratégias geralmente utilizadas nos projetos de planejamento patrimonial e fiscal
pré-imigratórios.
Por outro lado, cada família interessada na permanência temporária ou definitiva
nos EUA tem peculiaridades e objetivos próprios, exigindo análise pormenorizada da
realidade da família e de seus integrantes, tornando singular a solução técnica a ser
implementada em cada caso. Através do pre-immigration planning (planejamento
pré-imigratório), são estudadas alternativas e estruturas legais viáveis para que as
rendas de dividendos, alugueres, rendimentos financeiros e outros não sejam
sujeitos à bitributação.
Sendo assim, novamente é importante destacar que a mudança do Brasil para os
EUA tem consequências fiscais importantes e relevantes que precisam ser
analisadas e estudadas com a assessoria de profissionais habilitados tanto no Brasil
como nos EUA.

Sandro W. Pereira dos Santos, é advogado-sócio de PSQA


ADVOGADOS (www.psqa.com.br), com escritórios em São
Paulo, Curitiba e Orlando-EUA. Possui mais de 20 anos de
experiência em Wealth Management, Tributação Internacional
e Mercado de Capitais, assessorando famílias de alta renda e
instituições ligadas à gestão de patrimônio. É membro da
International Fiscal Association, International Bar Association-
IBA, Academia Brasileira de Direito Financeiro e da Associação
Brasileira de Planejadores Financeiros - Planejar.
E-mail: sandro@psqa.com.br