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Formulação Teórica e seus Objetivos

Há muitas psicologias, surgidas das mais diferentes escolas e países. Não resta dúvida que, nos últimos 100 anos, o avanço da
produção de conhecimentos sobre o mundo psicológico foi extraordinário. Científicos como Wundt, Freud, Pavlov, Piaget,
Vygotsky e outros deixaram contribuições fundamentais à Humanidade, nesse campo do saber.

Se as diferentes psicologias descreveram, mediram e teorizaram sobre as capacidades e habilidades intelectuais e emocionais
das crianças, jovens e adultos, certamente a Teoria Psicodinâmica, através dos estudos de Sigmund Freud, foi a abordagem
que melhor explicou os subterrâneos da mente, aos quais denominou "instância inconsciente", onde quase tudo é nebuloso e
difícil de ser compreendido, mas que segue suas leis.

O grande problema das citadas psicologias é que pouco, ou quase nada, produziram de conhecimento sobre sua prima
ignorada, a chamada ideologia.

Quanto aos poucos filósofos que se empenharam em seu estudo, preferiram colocá-la em oposição à Ciência e tudo foi
aparentemente resolvido. Outros acusaram a ideologia dos adversários de ilusão e desenvolveram suas produções, no sentido
da Consciência Social, tornando-a, se não científica, pelo menos como uma visão filosófica, ou melhor, como uma teoria da
praxis.

Mas, muitos científicos temiam e temem um estudo aprofundado ou análise consistente da ideologia, porque, assim como na
sexualidade (que todos, por a exercerem, pensam conhecê-la profundamente), na ideologia também há o substrato
inconsciente e suas paixões escusas reprimidas, que muitos receiam sejam reveladas. Na verdade, a ideologia possui
conteúdos tão reprimidos que podemos até conjeturar a existência de um inconsciente ideológico.

Permitam-me apresentar, rapidamente, algumas definições de ideologia para prosseguir na exposição. Para Marx, "trata-se,
inicialmente, de um sistema de idéias e representações que domina o espírito de um homem e/ou grupo social". Depois
aprimorou sua definição: "é a visão de mundo de um indivíduo, atrelada às condições das relações de produção dos bens de
um sistema social".

Devemos entender que Marx não dispunha, ainda, dos conhecimentos da Psicologia Profunda, por isso não poderia entender
que essa visão de mundo é também influenciada por conteúdos e mecanismos psíquicos, só compreendidos devidamente por
uma ciência própria, que deve explicar outra realidade que a Filosofia e o Materialismo Histórico não alcançam, por
necessitar de uma diferente delimitação epistemológica.

Vamos examinar a opinião de outro pensador sobre ideologia, o filósofo Louis Althusser. Para ele, "Ideologia é a
representação das relações imaginárias dos indivíduos com as condições reais da existência".

Em outra época e dispondo de novos conhecimentos, junto a Lacan, ele, Althusser captou como o social entra na mente do
indivíduo, mas não compreendeu como atuam os mecanismos psicológicos de defesa, cientificamente detectados por Freud,
os quais alteram a percepção da realidade e se articulam com desejos e fantasias (mesmo infantis), perfeitamente humanos.
Essas incorreções epistemológicas levaram a muitos equívocos, talvez desnecessários.

A Psicologia da Ideologia que formulamos aborda essa complexidade, agregando à ideologia os sentimentos e o que os
impulsiona, muitas vezes de maneira inconsciente. Explicitando: a ideologia é para a Psicologia da Ideologia o modo como a
pessoa ou grupos humanos vêem e sentem o mundo, fortemente influenciados pelas relações de produção nos sistemas
sociais. Os sentimentos são sempre conscientes, ou seja, as pessoas sabem o que sentem. Elas geralmente não compreendem
o que está por trás deles. Sua visão de mundo é também adulterada pelos complexos inconscientes que teimam em ocupar
espaços no conjunto de acontecimentos psíquicos.

É por isso que, se a ideologia não estiver alinhada, em termos do que a pessoa pensa, sente e faz concretamente, sua coerência
estará irremediavelmente comprometida.

Vejam como o peso das idéias preconceituosas e discriminações contra as mulheres, os empobrecidos, os negros, os
indígenas, as pessoas que necessitam de cuidados especiais etc., assessoradas pelos Aparelhos Ideológicos, perfaz uma
predominância ideológica que, se não resolvida, não permite aos simples libertarem-se, nem aos intelectuais serem
concretamente avançados. Por isso, Lenin já desconfiava destes, ao dizer que "poucos podem ser revolucionários, pois, em
seu conjunto, permanecem incorrigivelmente pequeno-burgueses pela ideologia".
Há especial citação sobre os intelectuais, porque são os transmissores do conhecimento tecnológico da sociedade. Por
dominarem questões científicas e a linguagem da elite, muitos exercem o papel de ideólogos nos conflitos de classes, em sua
maioria, atuando em direção a interesses individualistas e de grupos dominantes.

Além disso, muitos intelectuais dizem-se progressistas, ou mesmo revolucionários, quando (na verdade) têm o discurso
voltado para a esquerda e as atitudes para a direita. Esta falácia, atualmente, tem sido mascarada pelo que chamam de posição
politicamente correta. É a maneira como se excluem da responsabilidade de adotarem ações politicamente corretas. No
mundo acadêmico, formam poderosas castas de dominação.

Gramsci também apontou que "para se tornarem avançados, os intelectuais precisam fazer uma revolução radical em suas
idéias: uma longa reeducação. Uma luta sem fim, interna e externamente".

Por outra parte, longe de serem enfraquecidas, as ideologias atrasadas (qual erva daninha) estão mais fortes do que nunca.
Enquanto ideologias dominantes, querem impor uma visão única de mundo. Além de penetrarem nas teorias científicas,
certamente dominarão as técnicas e seu direcionamento, favorecendo sempre, de diferentes formas, as minorias privilegiadas.

Há uma distância tão grande na distribuição da tecnologia e verdadeiro acesso das populações à efetiva cidadania que, uma
psicologia que queira influir nas mudanças desse combalido cenário precisa exercer a cientificidade, incluir a teorização dos
Direitos Humanos, desvendar a idéias retrógradas e produzir conhecimentos novos para uma praxis transformadora. É o que
estamos fazendo!

Criamos um novo estilo de relacionamento com pessoas, grupos e assumimos uma postura firme em relação à análise dos
Aparelhos Ideológicos que os aprisionam. Tudo isso em busca não só da saúde mental preventiva, como também de uma
Educação Social Transformadora que visa a movimentação em direção aos Direitos Humanos Fundamentais para todos.

É por isso que a Psicologia da Ideologia procura desvendar, junto aos grupos humanos, os mecanismos sociais que foram
introjetados pelas pessoas e que conseguem nortear o seu modo de ver o mundo e transpassar grande parte de seus
sentimentos. Para fazer essa leitura a Psicologia da Ideologia recorre à ajuda da Teoria Psicodinâmica e do Materialismo
Dialético.

Outro aspecto fundamental, constatado pela Psicologia da Ideologia, é o fato de que, sem a análise correta da ideologia, os
especialistas e a população têm limitadas chances de manter atividades transformadoras, pois o substrato inconsciente leva
movimentos e pessoas a uma normatização e adequação crescentes, em relação ao que o sistema alienante espera deles. É por
isso que grupos e propostas boas se perdem com tanta freqüência, em meio aos conflitos, onipotências e narcisismos de
membros importantes, líderes ou técnicos.

Assim, a Psicologia da Ideologia propõe à população e especialistas postura ativa em busca das mudanças, através da
Educação Social Transformadora, auxiliada pela análise da ideologia, pontuando detidamente o que se encontra no
inconsciente ideológico que, afinal, é o que dá rumo à vida das pessoas.

É por isso que formulamos, não só um novo estilo de trabalho, formulamos também uma nova psicologia.