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FELICIDADE FORA DE HORA

07-06-2007

neurociência

Suzana Herculano-Houzel

Felicidade fora de hora

A felicidade é uma das sensações divinas que o cérebro nos


proporciona. Mas a felicidade em excesso, quem diria, pode ser um
problema tão grave quanto a tristeza maligna da depressão – ou
até pior. A tristeza em si não é ruim. É muito importante ficar triste
quando isso é o que as circunstâncias pedem: a morte de uma
pessoa querida, a perda do emprego, a mágoa causada sem querer
em alguém. Por ser um estado desagradável, a tristeza sinaliza ao
cérebro eventos ruins e faz com que busquemos evitá-los no futuro.

A tristeza só se torna um problema quando acontece apesar das


circunstâncias: quando tudo vai bem, mas o cérebro, deprimido,
enxerga infelicidade por onde passa. Tristeza não é doença, mas a
tristeza injustificada é.

Assim como é possível ficar triste fora de hora, a felicidade


inadequada, exagerada para as circunstâncias, também existe: é a
mania, distúrbio que não deve ser confundido com a compulsão de
lavar as mãos ou trancar a porta e que não necessariamente se
alterna com depressão como no transtorno bipolar.

A mania é um estado constante de euforia em que o cérebro, com o


sistema de recompensa excessivamente ativo, considera suas
idéias maravilhosas e encontra motivação para fazer qualquer
coisa. A necessidade de sono é reduzida; o maníaco é cheio de
energia e de idéias, expansivo, falante e engraçado. À primeira
vista, soa ótimo – mas é um problema e tanto. Se a felicidade
justificada de terminar um trabalho ou de encontrar uma pessoa
querida é uma benção, prêmio conquistado e merecido, a felicidade
infundada é uma maldição.

Impelido pelo sistema de recompensa hiperativo, o cérebro perde o


freio e toma decisões insensatas que lhe parecem fantásticas, como
comprar dez sapatos e três carros sem ter dinheiro para isso. Como
sua auto-satisfação é enorme, o maníaco age conforme suas idéias
grandiosas e despreza quem não concorda com ele. A mania faz
com que a pessoa destrua sua vida pessoal e profissional -mas
ache que tudo vai bem. Para o maníaco, o problema está nos
outros, que discordam de suas "idéias maravilhosas", "invejam sua
alegria" e querem "curá-lo da sua felicidade". Quem sofre de mania
dificilmente quer tratamento e várias vezes só chega ao médico
forçado pela família, exausta. Afinal, como convencer uma pessoa
eufórica de que felicidade tem hora?

A mania é um estado constante de euforia em que o cérebro


considera suas idéias maravilhosas
SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da
UFRJ e autora de "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (ed. Vieira &
Lent) e de "O Cérebro em Transformação" (ed. Objetiva)
suzanahh@folhasp.com.br

FONTE:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0706200708.htm