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O “BARATO DA MÚSICA”

30-08-2007

NEUROCIÊNCIA

O "barato da música"

[...] A boa música é aquela que dá trabalho ao cérebro na dose


certa e ativa o sistema de recompensa

Suzana Herculano-Houzel,
neurocientista, é professora da UFRJ e autora de "O Cérebro
Nosso de Cada Dia" (ed. Vieira & Lent) e de "O Cérebro em
Transformação" (ed. Objetiva)

Tem site para tudo na internet, e outro dia descobri um que vendia
músicas que supostamente induziam "estados cerebrais"
semelhantes aos produzidos por drogas. Por alguns módicos
dólares, o site oferecia a experiência de uma viagem lisérgica,
cocaínica ou canabinóide produzida por seu cérebro em resposta a
músicas que você poderia baixar para seu computador ou ouvir lá
mesmo. Um aviso discreto esclarecia, no entanto, que o efeito,
inclusive o da "amostra grátis" disponível para download, só era
garantido se você comprasse os fones de ouvido especiais
vendidos exclusivamente por eles...

É claro que se tratava de mais um esquema para pegar crédulos


incautos com cartões de crédito ávidos por experimentar "efeitos
seguros" de drogas. Sim, boas músicas dão "barato" ao cérebro
(não era o caso das músicas disponíveis no site, não para o meu
cérebro -mas, certo, eu não tinha os fones especiais). Por definição,
a boa música é aquela que dá trabalho ao cérebro na dose certa e
leva à ativação do sistema de recompensa: quanto mais intensa
essa ativação, mais intensa a sensação de prazer.

Cada cérebro tem suas preferências pessoais para o que será


considerado boa música, mas alguns critérios são comuns aos mais
variados cérebros. Músicas que chamam nossa atenção possuem
uma estrutura melódica e temporal complexa o suficiente para que
os processos automáticos de análise de padrões que o cérebro faz
desde a primeira nota tenham um certo trabalho para criar
expectativas sobre como a melodia deve prosseguir. Esse processo
(não consciente) de tentar adivinhar as próximas notas e,
eventualmente, acertar é um estímulo ao sistema de recompensa,
que mantém o cérebro interessado em continuar a brincadeira e faz
com que ele goste da música.

Por um lado, melodias simples demais, como o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-


dó de uma escala, têm uma estrutura tão trivial que rapidamente
deixam de servir de estímulo ao sistema de recompensa. No outro
extremo, seqüências que seguem padrões complexos demais para
serem descobertos pelo cérebro, ou que não seguem padrão
nenhum, são frustrantes para o sistema de recompensa -e logo são
abandonadas, por não oferecerem prazer algum.

Quanto mais músicas ouve, mais o cérebro aprende a encontrar e


antecipar padrões em melodias e ritmos cada vez mais complexos
e, assim, mais músicas complexas quer ouvir. O "barato" da música
vem do trabalho que ela dá ao cérebro.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da
UFRJ e autora de "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (ed. Vieira &
Lent) e de "O Cérebro em Transformação" (ed. Objetiva)
suzanahh@folhasp.com.br

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq3008200712.htm

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