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POR QUE É DIFÍCIL TERMINAR UMA RELAÇÃO?

10-05-2007

Neurociência –

Suzana Herculano-Houzel

Por que é difícil terminar uma relação?

Dizem por aí que o amor nos cega. Para a neurociência, isso tem
um fundo de verdade: algumas regiões do cérebro responsáveis por
julgamentos sociais -se uma pessoa é confiável ou não, por
exemplo- ficam menos ativas quando contemplamos o objeto da
nossa paixão, seja filho ou namorado. Talvez por isso eles
costumem parecer mais bacanas aos nossos olhos do que aos dos
outros. Pensando bem, se todos temos defeitos, quantos casais não
deixariam de se formar sem a ajuda de uma cegueirazinha mútua
para pequenos problemas?

A cegueira social amorosa pode até explicar por que, quando as


coisas vão mal, quem não está envolvido consegue enxergar
razões suficientes para terminar um relacionamento mais facilmente
do que as partes interessadas: o cara é um crápula, o ciúme dela é
doentio, ele não pára em casa, ela gosta de outro.

No entanto, mesmo quando a cegueira passa e temos consciência


de querermos alguém que nos maltrata, despreza, ignora e às
vezes até rejeita, a primeira reação do cérebro pode ser... insistir
mais ainda em reconquistar o amor da pessoa em questão. Os
amigos, cujo cérebro não sofreu as influências do(a) Fulano(a),
repetem que ficamos melhor sem ele(a). Sabemos disso, mas... Por
que pode ser tão difícil dizer "basta" a um relacionamento ruim?
Masoquismo? Culpa? Carma?

De certa forma, vício. O amor de uma pessoa é talvez o melhor dos


vícios: algo do qual queremos mais, e sempre, e pelo qual fazemos
tudo o que for preciso. Ele estimula o sistema de recompensa do
cérebro, que nos traz prazer, bem-estar e felicidade -e nos faz
querer mais de tudo isso com aquela pessoa. A expectativa do
prazer de estar com ela é motivação suficiente para a procurarmos.
[...] O amor é o melhor dos vícios: algo do qual queremos mais,
e sempre, e pelo qual fazemos tudo o que for preciso

O problema é que, curiosamente, quando o que causou prazer no


passado deixa de funcionar, ou só funciona às vezes, o sistema de
recompensa responde durante algum tempo a essas lembranças
com uma ativação ainda maior, que motiva o cérebro a insistir
quase obsessivamente no assunto até recobrar o bem-estar de
antes. É exatamente o que nos faz apertar dezenas de vezes
seguidas, e cada vez mais desesperadamente, o botão do controle
remoto cuja pilha acabou. Você vê que não funciona mais – mas e
se, graças à sorte ou ao seu charme, voltar a funcionar?

Se voltar, ótimo – ou não, porque, se a calmaria for apenas


temporária, logo começa tudo de novo. E se não voltar, a receita da
reabilitação é uma só: tempo, abstinência e outros prazeres.
Suzana Herculano-Houzel
Neurocientista, professora da UFRJ e autora dos livros
"O Cérebro Nosso de Cada Dia" e
"Sexo, Drogas, Rock'n'Roll & Chocolate" (ed. Vieira & Lent).

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1005200708.htm

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