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O on-line nas fronteiras do jornalismo: uma reflexão a

partir do tabloidismo.net de Matt Drudge


Paulo Serra
Universidade da Beira Interior

Índice sim dizer, um jornalismo sem jornalistas, um


jornalismo do pós-jornalismo. Uma tal dis-
1 Introdução 1 cussão compele-nos, desde logo, a uma refle-
2 A filosofia de Matt Drudge 2 xão sobre o conceito de jornalismo, tal como
3 O jornalismo como sociedade de dis- este é entendido, pelo menos desde os finais
curso 4 do século XIX, pela imprensa mainstream:
4 A Internet e a publicação livre e uni- o jornalismo como uma “sociedade de dis-
versal 6 curso” centrada nas “notícias”. Um tal tipo
5 Omnia habentes, nihil possidentes* 8 de jornalismo parece, efectivamente, estar ao
6 Bibliografia 9 alcance de todos e cada um dos cidadãos,
desde que lhe sejam dados os meios de pu-
1 Introdução blicação adequados - o que parece ser, preci-
samente, o caso da Internet. No entanto, a li-
Intentamos, no que segue, discutir a pro- berdade e universalidade de publicação pro-
blemática do jornalismo on-line1 a partir do piciadas pela Internet esbarram, desde logo,
caso daquele que ainda hoje é considerado, com uma dificuldade de monta: a de que, à
por muitos, como o primeiro, o mais conhe- medida que cresce a quantidade dos publica-
cido e o mais bem sucedido dos jornalis- dores e das publicações, decresce a possibi-
tas on-line - Matt Drudge, o criador e edi- lidade de que uns e outros sejam lidos. A
tor do Drudge Report. Mais do que a prá- Internet não anula, assim, o gatekeeping que
tica “jornalística” de Drudge interessa-nos, Drudge vê como a característica e o poder
sobretudo, discutir a sua tese de que a Inter- essenciais do jornalismo “tradicional” – ape-
net permite que todos e cada um dos cida- nas o desloca do momento da produção para
dãos se torne “um repórter”, permite, por as- o momento da recepção. Apesar disso, te-
1
Termo que aparece muitas vezes, na literatura mos de conceder a Drudge o mérito de ter
especializada, como sinónimo de web-jornalismo e mostrado, de forma efectiva, como a Internet
ciber-jornalismo – e que não há que confundir, em conseguiu pôr em causa não só o exclusivo
todo o caso, com o shovelware, isto é, a mera trans- da imprensa mainstream em dar as notícias
posição, aliás cada vez mais rara no sentido estrito,
dos jornais impressos para formato electrónico.
2 Paulo Serra

como também, nalguns casos, o seu exclu- a fontes anónimas, a ausência de verificação
sivo na determinação da agenda mediática. dos factos e o sensacionalismo mais ou me-
nos tablóide, também não considera Drudge
um jornalista, considerando-o mesmo a pró-
2 A filosofia de Matt Drudge
pria antítese do jornalismo.4
É praticamente impossível falar de jorna- Há, no entanto, excepções a esta auto e
lismo on-line sem falar daquele que é ge- hetero-apreciação de Drudge. Assim, por
ralmente considerado como o primeiro, o exemplo Doug Harbrecht, presidente do Na-
mais conhecido e o mais bem sucedido dos tional Press Club à época em que Drudge
seus representantes - Matt Druge, o editor do 4
Em relação às críticas de que é alvo, Drudge
Drudge Report2 . costuma apresentar três argumentos essenciais. O
E, no entanto, Drudge não se considera a primeiro desses argumentos é o de que, sem a uti-
si próprio um “jornalista” – seja porque não lização de fontes anónimas, Bob Woodward e Carl
é pago por ninguém, seja porque pode pu- Bersnstein, do Washington Post, não teriam podido
despoletar, em 1972, o caso Watergate. O segundo
blicar o que quiser.3 A maior parte dos jor-
argumento é o de que as fontes anónimas só são
nalistas americanos, que denuncia no “jor- utilizadas porque as fontes “primárias” ou se recu-
nalismo” de Drudge vícios como o recurso sam a confirmar os factos ou mentem descarada-
2
mente. O terceiro argumento é o de que a imprensa
O Drudge Report (www.drudgereport.com), mainstream está tão sujeita como o Drudge Report
fundado em 1995 por Matt Drudge, era definido, a problemas de selecção das fontes e de verificação
em 1997, por Jonathan Broder, como “uma mistura dos factos - como o mostra, por exemplo, a notí-
de reescrita de serviço de agência, materiais ligados cia dada em 7 de Junho de 1998 pela CNN e pela
por hipertexto e histórias de fontes anónimas que Time, acerca da “Operação Tailwind”, e de acordo
aparecem no próprio sítio Web de Drudge.” (Jonathan com a qual os Estados Unidos "usaram gás dos ner-
Broder, “A smear too far”, Salon.com, Aug. 15, 1997, vos, letal, no decorrer de uma missão destinada a ma-
http://www.salon.com/aug97/news/news970815. tar desertores Americanos no Laos durante a Guerra
html). De entre os vários “furos” do Drudge Report, do Vietname”, uma notícia que se viria a revelar
o mais conhecido e polémico de todos é, sem dúvida, totalmente falsa (Sobre este caso cf. Neil Hickey,
o caso Clinton-Lewinsky - despoletado pela edição de “Ten Mistakes That Lead to the Great Fiasco”, Co-
17 de Janeiro de 1998do Drudge Report, que titulava lumbia Journalism Review, September/October 1998,
que um repórter da Newsweek tinha descoberto a http://www.cjr.org/year/98/5/cnn. asp). Quanto à acu-
história daquele caso mas que a revista se recusava sação de sensacionalismo e de tabloidização da in-
a publicá-la. Em termos de audiências, e apenas a formação, feita a Drudge, diremos que também essas
título de exemplo, o Drudge Report reivindicava, a 6 são características cada vez mais patentes na imprensa
de Junho de 2002, os seguintes números de visitantes: mainstream, como o mostrou a sua cobertura de ca-
4 094 278 nas últimas 24 horas, 102 849 336 nos sos como os da prisão e julgamento de O. J. Simp-
últimos 31 dias e 839 107 502 no último ano. son, da morte da princesa Diana ou do caso Clinton-
3
Cf. Matt Drudge, Anyone With A Modem Can Lewinsky. Compreende-se, a partir daqui, que se ge-
Report On The World, Address Before the National neralize hoje entre os jornalistas americanos a ideia
Press Club, June 2, 1998, Moderator Doug Harbrecht, de que há uma “crise do jornalismo”. Cf, sobre tal
http://www.frontpagemag.com/archives/drudge/drud “crise”, o debate que a Columbia Journalism Review
ge.htm. Com efeito, e como ele próprio confessa, a levou a efeito em 1998, intitulado, “The Erosion of
maior “proximidade” que Drudge teve com o jorna- Values. A debate among journalists over how to
lismo ocorreu quando, nos sete anos que antecederam cope”, in Columbia Journalism Review, March/April
o início do Drudge Report, geriu a loja de lembranças 1998, http://www.cjr.org/ year/98/2/values.asp.
da CBS, em Los Angeles.

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O on-line nas fronteiras do jornalismo 3

foi convidado a proferir um discurso naquela ao mesmo tempo que, até por contraste, reve-
instituição, considera este não só como um lava alguns dos “vícios” capitais da própria
newsmaker mas também como o iniciador imprensa mainstream, nomeadamente a sua
de uma “revolução” no jornalismo, não dei- excessiva proximidade, senão mesmo pro-
xando de acrescentar que, “enquanto muitos miscuidade, com as fontes8 .
dos seus [de Drudge] colegas são relutan- Mais do que discutir estas apreciações
tes em admiti-lo, o Drudge Report tornou- opostas sobre Drudge, ou mesmo os méri-
se uma folha de ponta para os jornalistas” – tos ou deméritos do seu tipo de ”jornalismo”,
como o comprovará, aliás, o facto de a refe- interessa-nos aqui discutir a sua tese essen-
rida imprensa ter vindo a copiar e retomar, cial: a de que, com a/na Internet, se dis-
de Drudge, muitas das notícias que ele tem solve a tradicional distinção entre profissio-
sido o primeiro a dar.5 James K. Glassman nais e não-profissionais do jornalismo, ou, se
refere-se a Drudge como sendo, senão o mais preferirmos, que qualquer um se pode trans-
poderoso, pelo menos “o mais heróico” dos formar em “jornalista”. Assim, no seu dis-
repórteres da América.6 Joe Gelman atribui curso já referido perante o National Press
mesmo, a Drudge, um lugar ímpar na his- Club americano, afirma Drudge: “Entrámos
tória do jornalismo7 , justificando tal atribui- numa era que vibra com o rumor de peque-
ção pela “razão primária” de ter sido o pri- nas vozes. Qualquer cidadão pode ser um re-
meiro a reconhecer e a explorar as potencia- pórter, pode tomar esse poder na sua mão.
lidades do meio emergente que é a Internet – A diferença entre a Internet, por um lado,
5
e a televisão e a rádio, as revistas e os jor-
Cf. Doug Harbrecht, in Matt Drudge, op. cit..
Esta última afirmação é também sublinhada por Jor- nais, por outro, é a comunicação nos dois
dan Raphael, de acordo com o qual “as pessoas que sentidos. A Net dá voz tanto a um viciado
odeiam Drudge são quase tantas como as que o amam em computadores como eu, como a um CEO
– mas todas o lêem.” Jordan Raphael, “The New ou a um orador da House. Tornamo-nos to-
Face of Independent Journalism”, Online Journa-
dos iguais. (...) Antevejo um futuro em que
lism Review, 2002, http://www.ojr.org/ojr/workplace/
1017969538.php. haverá 300 milhões de repórteres, em que
6
James K. Glassman Matt Drudge, E-Journalist, qualquer um, a partir de qualquer lugar, po-
Washington Post, June 9, 1998, http://www.cspc.org/ derá reportar por qualquer razão. É a liber-
drudge/glassman.htm. dade de participação realizada de forma ab-
7
“Num futuro distante, talvez daqui a cem anos,
soluta”.9 De forma algo paradoxal, a tese
as escolas universitárias de jornalismo e os prémios
prestigiados ostentarão o nome do “notório” ciber- de Drudge coincide, aqui, com a tese de al-
jornalista Matt Drudge. Muito tempo depois de Larry guns que, colocando-se na perspectiva do
King e Peter Arnett da CNN estarem mortos, enter- 8
rados e esquecidos, muito tempo depois de Howard Como afirma Drudge numa declaração à
Kurtz do Washington Post e Andrea Mitchell da NBC Penthouse, “Estais demasiado próximos das vossas
se terem tornado minúsculas notas de rodapé nos fontes, bebeis com as vossas fontes. Casam-se uns
anais do Jornalismo Americano, Matt Drudge será es- com os outros, andam envolvidos uns com outros, jan-
tudado e analisado por académicos e estudantes de tam uns com os outros, brindam uns com os outros.”
todo o mundo.” Joe Gelman, An Original Ameri- Matt Drudge, citado em Joe Gelman, op. cit..
9
can Cyber-Hero, July 21, 1998, http://www.frontpage Matt Drudge, op. cit..
mag.com/archives/ drudge/cyberhero.htm.

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4 Paulo Serra

chamado jornalismo “público” ou “cívico”10 lha, organização, e publicação das notícias -,


, vêem também na Internet a possibilidade alguns dos mais importantes jornalistas “tra-
de uma publicação livre e universal, não sub- dicionais” vêem, precisamente, uma das cau-
metida aos mecanismos do gatekeeping, que sas principais da “crise do jornalismo”.12
permitirá ultrapassar um jornalismo cada vez
mais submetido aos ditames do espectáculo e
3 O jornalismo como sociedade
do entretenimento, quanto à forma, do oficial
e do oficioso, quanto às fontes, do sensaci- de discurso
onal e do tablóide, quanto aos conteúdos.11 A tese de Drudge opõe-se, claramente, à
Note-se ainda que, onde Drudge e os seus concepção de jornalismo que consta das en-
pares vêem a transição para um novo e me- ciclopédias e dos dicionários da língua, e a
lhor jornalismo - no facto de a Internet retirar que, para resumir, chamaremos a concepção
das mãos dos jornalistas o controlo da reco- “dominante” do jornalismo – que é, também,
10
Sobre o jornalismo “público” ou “cívico” a concepção do jornalismo contemporâneo
cf.: Peggy Anderson, Esther Thorson Lewis, A. dominante. Com efeito, nas suas entradas
Friedland, Civic Lessons. Report on Four Civic sobre jornalismo, a Enciclopédia Britânica e
Journalism Projects Funded by the Pew Center for a Enciclopédia Colúmbia definem este, res-
Civic Journalism, 1997, The Pew Charitable Trusts,
http://www.cpn.org/cpn/sections/topics/journalism/
pectivamente, como “a recolha, a prepara-
stories-studies/pew_cj_lessons.html; Robert M. Ste- 12
Assim, no debate sobre “a crise do jornalismo”
ele, The Ethics of Civic Journalism: Independence as que a Columbia Journalism Review levou a efeito em
the Guide, The Poynter Institute For Media Studies, 1998, já referido e nota anterior, afirma Tom Rosens-
1996; Jan Schaffer, Edward D. Miller, Staci D. tiel: “Nós tínhamos confiança no jornalismo quando
Kramer, Civic Journalism: Six Case Studies. A Joint controlávamos quem publicava; mas agora, que qual-
Report by The Pew Center for Civic Journalism and quer pessoa com um sítio Web e cinquenta dóla-
The Poynter Institute for Media Studies, 1995, Tides res pode ser um comunicador, não sabemos como
Foundation, http://www.cpn.org/cpn/sections/topics/ nos distinguir dos nosso novos pseudo-competidores.
journalism/stories-studies/pew&poynter- Em vez disso, tristemente, confundimo-nos com eles
contents.html; Mike Hoyt, “Civic Journalism”, demasiadas vezes.” Tom Rosenstiel, in “The Ero-
Columbia Journalism Review, Sept/ Oct 95, sion of Values. A debate among journalists over
http://www.cjr.org/year/95/5/civic.asp; Frank Den- how to cope”, in op. cit.. No mesmo sentido se-
ton, Esther Thorson, Civic Journalism: Does It Work? gue a afirmação de Denise Caruso: "Quando quase
A Special Report for the Pew Center for Civic Jour- toda a gente pode ser editor, o resultado é um mare-
nalism on the "We the People"project, Madison, Wis., moto de “notícias” a partir de fontes que estão longe
http://www.pewcenter.org/doingcj/research/r_doesit. das praias confiáveis e familiares da imprensa mains-
html. tream.” Denise Caruso, “Te Law and the Internet:
11
Como diz Tom Koch,“os jornalistas já não são a Beware”, Columbia Journalism Review, May/June
única conduta que temos para o mundo mais vasto. Os 1998, http://www. cjr.org/year/98/3/ilaw.asp. Como é
dados são oferecidos através de muitas vias, das quais óbvio, a tais posições pode perguntar-se, desde logo,
o velho jornal ou o jornal de notícias é apenas uma se não se confunde aqui “causa” com “efeito”, isto é,
delas. À medida que os instrumentos e recursos do se os que se decidem publicar e consultar informação
medium electrónico crescem em poder e sofisticação, na Internet não o fazem, precisamente, porque não o
novas potencialidades crescem para todos nós.” Tom podem fazer, ou não o podem fazer de forma satisfató-
Koch,The Message is the Medium, Westport, Connec- ria, numa imprensa cada vez mais comercial, oficiosa
ticut, London, Praeger, 1996, p. 32. e sensacionalista.

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O on-line nas fronteiras do jornalismo 5

ção e a distribuição de notícias e comentá- volveu, também, e ao mesmo tempo, a trans-


rio com elas relacionado e materiais seme- formação dos jornalistas numa verdadeira
lhantes através de meios como panfletos, re- “sociedade de discurso” que, centrada numa
latórios informativos, jornais, revistas, rádio, certa técnica de transformação dos “aconte-
cinema, televisão e livros”13 e “a recolha e cimentos” em notícias17 e numa certa ética
a publicação periódica ou a transmissão de da “objectividade”, determina quem pode di-
notícias através de meios como o jornal, o zer, o quê, em que condições, segundo que
periódico, a televisão e a rádio.”14 Já nos di- regras – implicando, simultaneamente, a ex-
cionários da língua, o jornalismo é definido clusão de todos os outros desse privilégio
como a “profissão do jornalista”, sendo o jor- discursivo.18 Um indício disso mesmo, tra-
nalista “aquele que escreve num jornal, ge- zido à colação por Schudson, é o facto de
ralmente por ofício”, e sendo o jornal, por que, enquanto que na imprensa cultural do
sua vez, uma “publicação quotidiana, que in- século XVIII e na imprensa associativa do
forma as notícias políticas, científicas e li- século XIX a distinção entre os que escre-
terárias, os novos trabalhos, e diversos ou- viam e os leitores era mais ou menos ténue,
tros factos da vida pública” e, por exten- de tal maneira que os leitores eram também,
são”, “qualquer periódico (seja ou não diá- muito frequentemente, os que escreviam, na
rio).”15 Conjugando e resumindo estas defi- imprensa metropolitana verifica-se uma se-
nições das enciclopédias e dos dicionários da
la liberté de presse aux Etats-Unis"), II, II, VI ("Du
língua, podemos dizer que o jornalismo é, na rapport des associations et des journaux"). Sobre a
sua concepção dominante, simultaneamente história do jornalismo, cf.: David T. Z., Mindich, Just
uma actividade e uma profissão. the facts. How “objectivity” came to define American
Esta transformação do jornalismo em ac- Journalism, New York, New York University Press,
1998; Michael Schudson, The Power of News, Cam-
tividade profissional, que se dá aí por volta
bridge Mass., Harvard University Press, 2000, nome-
dos finais do século XIX, não envolveu ape- adamente o capítulo 1 (“Three hundred years of the
nas o fim – ou, pelo menos, o decréscimo de American newspaper”).
17
importância - do “velho” jornalismo cultural Referimo-nos, mais especificamente, a procedi-
e político dos séculos XVIII e XIX16 ; ela en- mentos como a selecção dos factos em função dos
valores-notícia, a pirâmide invertida, o lead, etc..
13 18
Encyclopædia Britannica, "Journalism", Sobre o conceito de “sociedade de discurso”,
http://www.britannica.com/eb/article?eu=45046. cf. Cf. Michel Foucault, L’Ordre du Discours, Pa-
14 ris, Gallimard, 1971, pp. 41-43. É significativo, para
The Columbia Encyclopedia, “Journalism”,
http://www.bartleby.com/65/jo/journali. html. o nosso tema, que Foucault veja, nos grupos de rap-
15 sodos do mundo antigo – que, dirigindo-se a um “au-
Cf. José Pedro Machado, Grande Dicionário da
Língua Portuguesa, Volume III, Lisboa, Alfa, 1991, ditório universal”, detinham no entanto o privilégio
pp. 495-6. da recitação das poesias -, um dos primeiros exem-
16 plos das “sociedades do discurso”, sublinhando que
Cf., sobre o jornalismo cultural e político: De-
nis Diderot, “Journaliste”, in Encyclopédie ou Dicti- “a aprendizagem fazia entrar, simultaneamente, num
onnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Mé- grupo e num segredo que a recitação manifestava mas
tiers, Vol. 15 (Tomo 6 do original), Milão, Paris, não divulgava; entre a palavra e a escuta os papéis
Franco Maria Ricci, 1978, p. I, 79 ; Alexis de Toc- não eram intermutáveis.” Ibidem, p. 42. Ora, como
queville, “De la démocratie en Amérique”, in Oeu- não pensar em aplicar, mutatis mutandis, estas obser-
vres, Vol. II, Paris, Gallimard, 1992, I, II, III ("De vações aos jornalistas profissionais que se afirmam a
partir dos finais do século XIX?

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6 Paulo Serra

paração cada vez mais clara entre o campo 4 A Internet e a publicação livre
dos que escrevem e o campo dos leitores, e universal
passando o jornalismo a ser, cada vez mais,
o exclusivo dos “jornalistas”, dos “profissio- Aquilo que Drudge contesta é, de forma
nais”.19 clara, o privilégio discursivo sobre as “no-
Apesar da crítica que tem vindo a ser feita tícias” que a concepção dominante do jor-
a tal conceito20 , as “notícias” têm, nas nos- nalismo – que é também, como dissemos,
sas sociedades, uma importância fundamen- a do jornalismo dominante – concebe como
tal: elas constituem aquilo a que Michael exclusivo da “sociedade de discurso” jorna-
Schudson chama “conhecimento público”.21 lística. Mas, poder-se-á objectar a Drudge,
O facto de algo ou alguém aparecer nas notí- o facto de há muito o jornalismo se ter tor-
cias, de “ser notícia”, como se diz, confere- nado uma “sociedade de discurso”, com as
lhe não só relevância como, a um nível mais suas exigências, as suas técnicas, as suas re-
primário, existência – no sentido em que é gras, só acessíveis a alguns – os iniciados nos
qualquer coisa ou alguém a que todos de- mistérios do gatekeeping, da pirâmide inver-
vem dar atenção, que todos devem ter em tida, do lead e da “objectividade” – não im-
conta.22 Dessa forma, as notícias são, simul- pede, precisamente, que se realizem a liber-
taneamente, dispositivos de produção de vi- dade e universalidade de publicação prome-
sibilidade e de inclusão, num mesmo mundo tidas pela Internet? A tese de Drudge contra-
simbólico, dos membros de uma determi- põe a essa objecção, de forma mais ou me-
nada sociedade.23 E, ao transformarem-se nos implícita, que o jornalismo dominante,
numa “sociedade de discurso” detentora do pelo facto de se centrar nas “notícias” – nos
privilégio discursivo sobre as “notícias”, os “factos actuais de interesse geral”25 -, é uma
jornalistas tornam-se os detentores dessa ca- “sociedade de discurso” diferente das outras.
pacidade de tornar visível e de incluir na qual tenham tornado, nas sociedades em que vivemos, “o
reside, verdadeiramente, o “quarto poder” do campo por excelência da mediação ou da articulação
jornalismo.24 dos campos autónomos, alimentando a solidariedade
colectiva, fazendo com que as contradições entre os
19 interesses muitas vezes divergentes sejam geridos de
Cf. Michael Schudson, op. cit., p. 51.
20 uma maneira conforme aos interesses dos campos do-
Nomeadamente a insistência na simplificação,
no estereótipo, no sensacional, no passional, no fait- minantes que se apropriam do topo da hierarquia so-
divers, etc., em detrimento da análise, do comentário, cial”. Adriano Duarte Rodrigues, “A instituição dos
da opinião mais ou menos reflectida e comprometida. media” (or. 1981), in O Campo dos Media, Lisboa,
21 Vega, s/d, p. 32.
Cf. Michael Schudson, op. cit., p. 3 e passim.
22 25
Ibidem, pp. 20-21. Sobre esta definição de notícia cf. Ricardo Car-
23 det, Manual de Jornalismo, Lisboa, Caminho, 1988,
Ibidem, pp. 24-25, 33. Uma ideia também su-
blinhada por Hannah Arendt, quando afirma que “a p. 38; Anabela Gradim, Manual de Jornalismo, Covi-
verdade de facto (...) existe apenas na medida em que lhã, Universidade da Beira Interior, Série Estudos em
dela se fala, mesmo se ocorrer no domínio do privado. Comunicação, 2000, p. 17. No entanto, e como ob-
Ela é política por natureza.” Hannah Arendt, “Truth serva Miquel Alsina, talvez fosse mais correcto dizer-
and Politics”, in Between Past and Future, London, se que “a notícia não é um facto, mas mais propria-
Penguin Books, 1993, p. 238. mente a narração de um facto”. Miquel Rodrigo Al-
24 sina, La Construcción de la Noticia, Barcelona, Pai-
Não admira por isso que, como observa Adriano
Duarte Rodrigues, os meios de comunicação social se dós, 1996, p. 182.

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Assim, e para recorrermos a uma compara- tos aspectos mais “ilustrada”, noutros segu-
ção, enquanto que numa “sociedade de dis- ramente mais pobre – do senso comum.27
curso” como a medicina o discurso médico Aceitando como válidos estes pressupos-
se distingue claramente do não-médico tanto tos, compreende-se que a questão essencial
em termos de forma como de conteúdo – para determinar se todos podem ou não ser
uma e outro altamente especializados e abs- “jornalistas” se torne a questão da publica-
tractos -, o discurso jornalístico distingue- ção, a possibilidade de tornar conhecido pu-
se do não-jornalístico apenas em termos de blicamente algo ou alguém: em última aná-
forma. Ora, esta última não difere, no essen- lise, é jornalista todo aquele que pode pu-
cial, das narrativas que, no dia a dia, o ho- blicar as suas “notícias” num jornal ou, por
mem comum vai construindo para si e para extensão, num meio de informação notici-
os outros - e que incluem, como todas as oso. Ora a Internet, ao permitir que todos pu-
narrativas, os seus acontecimentos, as suas bliquem28 , permite que “qualquer cidadão”
personagens, as suas acções, os seus nexos se torne “um repórter”. Como também diz
causais. Não indo tão longe como Walter Drudge, não sem ironia, a propósito do novo
Benjamin – que, no seu famoso ensaio “O medium, “mais uma vez, a liberdade de im-
narrador”, vê a informação jornalística como prensa pertence a quem possuir uma.”29
uma forma de comunicação muito empobre- 27
Cf. Eduardo Meditsch, O Jornalismo é uma
cida quando comparada com a narrativa tra- Forma de Conhecimento?, Conferência feita nos Cur-
dicional26 -, defenderemos aqui que há pelo sos da Arrábida – Universidade de Verão, Setembro
menos uma continuidade entre uma e outra, de 1997, http://www.bocc. ubi.pt; Journalism as a
assente precisamente na existência de uma way of knowledge, http://www.bocc.ubi.pt.
28
Em termos de direito, que não de facto. Com
estrutura narrativa comum, de tal forma que
efeito, e como mostra Marcos Palacios a propósito
podemos dizer que se a narrativa tradicional da presença lusófona na Internet, a universalidade
nos traz “notícias” de outros tempos, de ou- do acesso ao novo meio está muito longe de estar
tros lugares e, quiçá, de outros seres que não garantida, mesmo nos países e regiões mais desen-
nós, a informação noticiosa é uma narrativa volvidos do espaço lusófono. Cf. Marcos Palacios,
Por Mares Doravante Navegados: Panorama e Pers-
construída de modo a captar apenas os as-
pectivas da Presença Lusófona na Internet, 2001,
pectos essenciais e elementares de qualquer http://www.bocc.ubi.pt.
narrativa (o quem, o quê, o quando, o onde 29
Matt Drudge, op. cit.. O uso intensivo de
e o porquê das escolas de jornalismo ame- weblogs, de páginas pessoais, de fóruns e de mailing
ricanas); uma hipótese que é perfeitamente lists que, logo a seguir ao 11 de Setembro de 2001,
foi feito para publicação de relatos, fotos, opiniões,
compatível com a tese, defendida por Edu- tributos, etc. representou, segundo alguns, uma
ardo Meditsch, e que achamos perfeitamente das melhores e mais recentes afirmações de um
fundamentada, segundo a qual o jornalismo “jornalismo” ao alcance de todos. Cf. Andrews, Paul,
pode ser considerado, em termos epistemo- “The future of news. News by the People, for the
lógicos, como uma modalidade – em cer- People”, Online Journalism Review, 2002 (2002),
http://www.ojr.org/ojr/future/1021586109.php;
26
Cf. Walter Benjamin, "O narrador", in Sobre Amy Langfield, “Democratizing Journa-
Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio lism”, Online Journalism Review, 2002
d’Água, 1992, pp. 34-37. http://www.ojr.org/ojr/technology/ 1017872659.php.

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8 Paulo Serra

5 Omnia habentes, nihil entrada na Internet, transportando para aí um


possidentes* “nome de marca” que já existia.30 A segunda
tendência diz respeito ao carácter cada vez
A tomada desse “quarto poder” que é o jor- mais tecnológico do gatekeeping: enquanto
nalismo pelos cidadãos em geral, perspecti- que, no jornalismo “tradicional”, a selecção
vada/proposta por Drudge, esbarra, contudo, é feita por um gatekeeper humano, na Inter-
numa dificuldade imprevista. Referimo-nos, net ela é feita, cada vez mais, em função dos
mais concretamente, à dificuldade que se co- critérios de relevância de determinados pro-
loca quando, e para glosarmos a máxima gramas informáticos, nomeadamente os cra-
dos Franciscanos posta em voga por Sim- wlers e os motores de busca.31 Podemos di-
mel, ter tudo se torna equivalente a ter nada. zer, desta forma, que a publicação na Internet
Com efeito, a liberdade e a universalidade se caracteriza por dois movimentos de sen-
de publicação que são propiciadas pela In- tido contrário: quanto maior a liberdade e a
ternet são contrariadas, de forma dialéctica, universalidade, do lado da produção, maior
pela impossibilidade de aqueles que nave- a restrição e a particularização, do lado da
gam ou pesquisam na Internet acederem a recepção.
toda a informação disponível, de tal modo Apesar disso, não podemos deixar de cre-
que, também aqui, “muitos são os chama- ditar a Drudge – e reside aí, precisamente, o
dos mas poucos os escolhidos”. Isto é: se seu carácter “revolucionário” - a percepção
é certo que todos têm o “direito” de publicar, de que a Internet mudou definitivamente o
não é menos certo que só alguns, muito pou- jornalismo, ao retirar à imprensa mainstream
cos, terão o “direito” de ser lidos - a Internet não só o exclusivo da publicação das “no-
é, neste aspecto, comparável a uma televi-
30
são com milhões de diferentes canais, tantos Assim, e com algumas raras excepções, os ór-
gãos noticiosos mais consultados na Internet são ór-
quantas as páginas web. O mesmo é dizer gãos pertencentes à tradicional imprensa mainstream
que, e ao contrário do que afirma Drudge, a como a MSNBC, a CNN, a ABCNews, a BBC, o Wall
Internet não elimina o mecanismo de gate- Street Journal, o New York Times, o Washington Post,
keeping – antes se limita a deslocá-lo do mo- etc.. Aliás, é interessante observar a este respeito,
mento da produção para o momento da re- como o faz Doug Harbrecht, que o Drudge Report, tão
atacado pela imprensa mainstream - um ataque plena-
cepção. mente correspondido por parte de Drudge -, contém
Na forma como se exerce o gatekeeping na hiperligações para a maior parte dos principais me-
Internet destacam-se, desde logo, duas ten- dia noticiosos americanos e estrangeiros. Ora, como
dências. A primeira refere-se à transferência sabemos, e como o próprio Drudge reconhece, essas
hiperligações são uma forma de o Drudge Report in-
de prestígio do “mundo real” para o on-line:
dicar, aos seus leitores, o que vale e o que não vale a
tendem a ser lidos, na Internet, os que forem pena ler, a informação que é e a que não é relevante.
portadores de um prestígio, uma autoridade Mas o que é isto senão uma forma de gatekeeping –
e uma qualidade - em geral inacessíveis ao precisamente o pecado maior que Drudge denuncia no
cidadão comum, mas apenas a instituições jornalismo mainstream?
31
Para um aprofundamento desta questão cf. J.
ou organizações, nomeadamente noticiosas,
Paulo Serra, A Internet e o Mito da Visibilidade
dotadas dos recursos humanos, técnicos e fi- Universal, 2002, http://www.labcom.ubi.pt/ agora-
nanceiros apropriados - granjeados antes da net/ensaios/ensaios_1_pauloserra.html.

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O on-line nas fronteiras do jornalismo 9

tícias” como também, nalguns casos, o ex- lado, a afirmação de um jornalismo menos
clusivo da determinação da própria agenda monocórdico e menos monótono – quanto
mediática, como o mostra o caso do pró- a assuntos, a fontes, a perspectivas - que
prio Drudge Report.32 E quem diz perda de o actual jornalismo “noticioso” da imprensa
exclusividade diz perda de poder; de facto, mainstream; por outro lado, a atribuição de
como já Tocqueville observara a propósito um espaço cada vez maior à análise, à opi-
da imprensa americana das primeiras déca- nião, ao comentário, protagonizados quer
das do século XIX, a multiplicação dos jor- por jornalistas quer por não jornalistas – con-
nais acaba por fragmentar e disseminar o po- figurando, assim, uma espécie de regresso
der individual de cada um deles.33 Essa frag- ao “velho” jornalismo cultural e político dos
mentação e disseminação significam, neces- séculos XVIII e XIX. Esta última tendên-
sariamente, um melhor jornalismo? Em rela- cia assenta, nitidamente, no pressuposto de
ção a isso, o exemplo de Drudge fornece-nos que o que os indivíduos procuram nos me-
uma resposta claramente negativa – já que dia é, cada vez mais, não a notícia – que os
se há alguma coisa que a sua prática “jorna- media mainstream oferecem profusamente e
lística” demonstra é que o chamado “jorna- de forma redundante, até à exaustão - mas a
lismo on-line” pode ser pelo menos tão mau perspectiva sobre a notícia, a interpretação, a
como o jornalismo mainstream, isto é, que o contextualização.34 É precisamente essa dis-
rumor, o sensacionalismo e a tabloidização tinção entre a notícia e o sentido da notícia –
podem ser, também na Internet, o caminho entendendo aqui sentido quer na sua dimen-
escolhido para atrair audiências. são semântica quer na sua dimensão pragmá-
Mas a fragmentação e a disseminação – tica - que permite distinguir entre o cidadão
ou, se preferirmos, o “excesso” informativo que sabe que e o cidadão que sabe porquê, o
- para as quais a Internet contribui de forma “cidadão informacional” e o “cidadão infor-
decisiva podem, também, levar ao reforço de mado”35 .
duas tendências que reputamos fundamen-
tais no jornalismo contemporâneo: por um
6 Bibliografia
32
Como afirma J. D. Lasica, “o papel do gate-
keeper mudou. (. . . ) As tradicionais organizações Anderson, Peggy, Lewis, Esther Thor-
noticiosas deixaram de ter a competência exclusiva son, Friedland, A., Civic Lessons.
para decidir que informação entra na arena pública. Report on Four Civic Journalism
E isso, a longo prazo, é um desenvolvimento enri- Projects Funded by the Pew Cen-
quecedor.” J. D. Lasica, “News media’s Matt Drudge
syndrome”, The American Journalism Review, April 34
Um processo que, como observa Schudson – que
1998, http://www.well.com/user/jd/colapr98.html. atribui o início de tal processo ao caso Watergate -, até
33
“Os Americanos mais esclarecidos atribuem, a acaba por introduzir um paradoxo: sendo que a teoria
esta incrível disseminação das forças da imprensa, o canónica do jornalismo diz que o mais importante é
seu pouco poder: é um axioma da ciência política nos a notícia, devendo o jornalista apagar-se perante ela,
Estados Unidos que o único meio de neutralizar os o que actual situação mostra é que o jornalista – ou,
efeitos dos jornais é multiplicar o seu número”. Ale- pelo menos, um certo tipo de jornalista, profissional
xis de Tocqueville, De La Démocratie en Amérique, ou não – acaba por se tornar mais importante do que
I, II, III, in Oeuvres, Vol. II, Paris, Gallimard, 1992, a notícia. Cf. Michael Schudson, op. cit., p. 152.
p. 207. 35
Cf. ibidem, pp.169 ss.

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* “Se tens tudo, não terás nada”. Retomo, no que


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