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POM Stn Jacques Le Goff PARA UM NOVO CONCEITO | DE IDADE MEDIA _ Tempo, Trabalho e Cultura no Ocidente PARA UM NOVO CONCEITO DEIDADE MEDIA NOVA HISTORIA 5 FICHA TECNICA: Titulo original: Pour un Autre Moyen Age Temps, Travail et Culture en Occident: 18 essats Tradugao: Maria Helena da Costa Dias José Antunes O Més de Outubro (miniatura do Breviirio do cardeal Grimani, século XV) Impressio ¢ Acabamento: Rolo & Filhos — Artes Grificas, Lda. Depdsito Legal n.° 68229/93 ISBN 972-33-091 1-4 i Editions Gallimard, 1977 © Editorial Estampa, Lda,, Lisboa, 1979 para a lingua poruguesa fNDICE PREPACIO. ay 44. Ge: moyenne I. TEMPO E TRABALHO . As Idades Médias de Michelet - Na Idade Média: tempo da Igreja O tempo de trabalho na «crise» do séc, XP ao tempo moderno . Nota sobre sociedade tripa: i m vagiio econémica na Cristandade, do séc. IX ao séc. XII . ProfissGes lfcitas e profissdes ilicitas no Ocidente medieval . Trabalho, técnicas e artesios nos sistemas de valor na All Idade Média (do séc. V ao séc. X) -.. se. ees are oe Os camponeses ¢ 0 mundo rural na literatura da Alta Média (séc. Ve séc. VI) cn. oc. ces ese eee eee one Il. TRABALHO E SISTEMAS DE VALORES ... 2. 165 4. se Despesas universitdrias em Pdédua no séc. XV ses ser cae see ose Monier om profissio segundo os manuais de confessores da Idade Que conscifneia de si prépria teve a Universidade ‘medieval? A Universidade ¢ os poderes piblicos durante a Idade Média € © Renascimento ... 1. ns wee versbeee ary eee ore ee tee tee Il. CULTURA ERUDITA E CULTURA POPULAR ... ... -- Cultura clerical ¢ tradigdes folel6ricas na civilizagao merovingia Cultura eclesidstica ¢ cultura folclérica na Idade Média: S. Mar- celo de Paris e 0 Dragio ae Ee © Ocidente medieval € 0 oceal : h te onirico Qs sonhos na cultura e na psicologia colectiva do Ocidente medieval ... ... ce. eee see eee = 3 Melusina maternal ¢ arroteadora ... IV. PARA UMA ANTROPOLOGIA HISTORICA ... ... 4. 6 © historiador ¢ 6 homem quotidiano ... 0 ritual simbélico de vassalagem ... 101 121 135 137 151 281 289 311 313 325 387 PREFACIO A ideia de que os artigos aqui reunidos possuem uma unidade talvez n@o passe de iluséo retrospectiva. Essa _unidade vird, antes de tudo, da época que escolhi hd um quarto de sécule para campo de refiexdo e investigacdo, sem discernir clara- mente oO que nessa altura me impeliu para ela. Hoje, direi que a Idade Média me atraiu por duas razées. A primeira, por consideragées profis- sionais, pois decidira tornar-me historiador de profissdo. A prdtica da maior parte das ciéncias 6, indubitavelmente, tarefa de profissionais, de especialistas, A citncia histérica néo é tGo exclusiva, Se bem que se fraie, conforme creio, de um problema maior do nosso tempo, em que os media podem ao alcance, seje de quem for, a possibilidade de falar ¢ de escrever a histéria por meio de imagens ou de palavras, n@o abordarei aqui o problema da qualidade da produgdo histdrica. N@o reclame qualquer monopélio para as hisioriadores cientificos, Os diletantes e os divulgadores tém o seu papel e a sua utilidade; e o seu éxito prova a necessidade que 6s homens hoje tém de participar numa meméria colectiva, Desejo que a histéria, mesmo que se torne mais cientifica, possa permanecer uma arte. Alimentar a meméria dos homens requer tanto gosio, tanto estilo, tanta paixdo, como requer rigor e método. A histéria faz-se com documentos e ideias, com fontes ¢ com imaginagéo. Ora o historiador da Antiguidade (eu pecava, claro esid, pelo menos por exagero) parecia-me condenado a uma alterna.iva desen- corajanfe; ou tinha de haver-se com o magro espédlio do legado de um passado mal preparado para se poder perpetuar ou abandonar as se- dugées castradoras da erudigéo pura, ou tinha de entregar-se aos encantos da reconstituigdo vcasional. A histéria das épocas recentes (também aqui os meus pontos de vista eram arrebatados, se nado falsos) inquie- tava-me por diversas razdes. Ou o historiador era oprimido pelo fardo de uma documentagdo que o sujeitavya a uma histéria estatistica e quan- 9 titativa igualmente redutora (porque, se é necessdrio contar com oO que exisie na documentacdo histérica, hd que fazer também a histéria com tudo aquilo que escapa ao nimero e é, muitas vezes, o essencial); ou renunciava ae panorama de conjunto, e entéo seria uma histéria parcial, aqui-e além uma historia lacunar. Entre ambas ficave a Idade Média que os humanistas tinham considerado, menos que uma passagem, um intermédio: um vazio na vaga do tempo, um intervalo da grande histé- ria; ¢ essa mesma Idade Média surgia-me como dominio elective da alianga indispensdvel da erudigéo (pois nao nascera a historia cientifica entre meados do século XVII e os meados da século XIX, do estudo das Cartes e dos escritos medievos?) e duma imaginagéo apoiada em bases que the limitavam o voo, embora sem ihe cortar as asas. O modelo do historiador nao era, para mim, (como o é sempre) Michelet — homem de imaginacdo, de ressurreigio, como se tornou vulgar apodd-lo, mas também (como é de uso esquecer) homem de arquivos que ressuscita, nao fantosmas ou espectros, mas seres reais sepultados nos documentos, como s¢ fossem pensamentos verdadeiros petrificados numa catedral? Um Michelet-historiador que, embora sé se considerasse 4 vontade depois da eclosio da Reforma e do Renascimento, 36 esté em perfeita sintonia com o passado quando trata da Idade Média. Hesitante, Michelet via que o historiador, consciente de ser um produto do seu tempo, deve solidarizar-se tanto com uma sociedade em luta contra as injusticas ¢ as trevas do abscurantismo e da reaccao, como contra as iluses do progresso. Um escritor, militante na sua obra € no seu ensino, talvez um angustiado, na opinido de Roland Barihes (’), porque canta uma palavra imposstvel, a palavra do povo; mas um angustiado que soube procurar néo fugir a essa angitstia confundindo @ palavra do historiador com a palavra do povo, 0 povo em Tutas hist6ricas— confusio que sabemos poderd tevar a pior sujeigao da his- téria e desse povo a quem se pretende conceder a palavra, Bem cedo uma motivagdo me ligou @ Idade Média, sem no entanto me dissuadir de olhar para todos os lados. Pertenco @ uma geragdo de historiadores marcados pela problemdtica da «longue durée», pro- blemdtica essa que sai da tripla influéncia de um marxismo repensado e modernizado, de Fernand Braudel(*) e da etnologia. De todas as ciéncias impropriamente chamadas humanos (e porque ndo simples- mente sociais?), a etnologia é aquela com que a histéria encetou (apesar C) R. Barthes, Michelet par lui-méme, Paris, 1954, p. 161. «Foi talvez o primeiro autor da modernidade a sé poder cantar uma palavra impossivel.» R. Barthes faz alusdo & confissiio de Michelet: «Nasci povo, tinka povo no coracdo... Mas a sua lingua era-me inacessivel. Nao consegui fazer falar 0 povo...» @) F. Braudel, «Histéria_e Ciéncias sociais: a duracdo longa», em Annales E.S.C., 1958, pp. 725-753, retomado nos Escritos sobre a Histéria, Paris, 1969, pp. 41-83. 10 dos mal-entendidos e de certas recusas de um e outro lado) o didlogo mais desenvolyido e mais fecundo. Para a@ minha geragdo, Marcel Mauss é, tardiamente, @ fermento que Durkheim hd cinquenta anor conseguiu ser— também tardiamente — para os melhores historiadores de entre as duas guerras (). Num texto que é apenas uma primeira escala no caminho duma reflexdo e duma prdtica, tentei dizer quanto desejaria aprofundar e precisar as relagdes que a histéria ¢ a etnologia mantiveram no pasiado ¢ renovam hoje (*), Se & verdade que sou daqueles estudiosos e investigadores que, ao termo de etnologia (demasiado preso ao dominio e a época do eolonialismo europeu), preferem o termo antropologia, susceptivel de aplicar-se aos homens de todas as euilturas; & se, por consequéncia, prefiro falar em termos de antropologia histérica do que de eino-histéria, faco notar que se os historiadores —certos historiadores — se deixaram seduzir pela etnologia, pelo facto de ela pér, antes de tudo, a nogdo de diferenca, ao mesmo tempo os etndlogos se orientam para uma concep¢éo unificada das sociedades humanas e até para 0 conceito de homem que a histéria, ontem come hoje, ignora. Tal contradanga &, ao mesmo tempo, inte- ressante ¢ inquietante. Se o historiador, tentado pela antropologia histe- rica, isto é, por uma hisiéria distinta da das camadas dirigentes brancas, e mais lenta e profunda que a hist6ria dos acontecimentos, fosse levado pela antropologia para uma histéria universal € estdtica— eu aconselhd-lo-ia a voltar @ meninice. Mas, por agora, ¢ fecundidade de uma histdria situada na «longue durée» parece-me longe de estar esgotada. De resto, o folelore, embora demasiado afastado da histéria, oferece ao historiador das sociedades europeias (desejoso de recorrer 4 antrapologia) um tesouro de documentacdo, de métodos e de trabathos que ele faria bem em interrogar, antes de volter-se para a etnologia extra-europeia. Folélore demasiado desprezado, etmologia do pobre, é, contudo, fonie essencial para a antropologia histérica das nossas sociedades ditas «histé- ricas». Ora a «longue durée» pertinente da nossa histéria — para nos, projissionais e homens que vivem no fluxo de hisiéria— parece-me ser essa longa Idade Média que durow desde 0 século H ou iI da nossa era até morrer lentamente sob os golpes da Reyolugdo Industrial — das @) Por exemplo o grande artigo de Marcel Mauss sobre «As técnicas do corpo», publicado no Journal de Psychologie, XXXII, 1936, continuado em Sociologie et Anthropologie, Paris, 1950, 5.° ed. 1973, pp. 363-386 nao arece ter tido longa posteridade. E num espirito um pouco diferente que istoriadores ¢ antropdlogos estudam linguagem e imagens do ove num recente niamero especial de Ethnologie francaise, 6, n.* 3/4, 6. Este texto de Marcel Mauss est4 na origem do seminario da Escola dos Altos Estudos das Ciéncias Sociais onde estud4mos, Jean-Claude Schmidtt e eu, desde 1975, os sistemas de gestos no Ocidente medieval. C) Retomado em Mélanges en I'honneur de Fernand Braudel, vy. ML, Methodologie de V'Histoire e¢ des sciences humaines, Toulouse, 1972, pp. 233-243 ¢, aqui, pp. 335-348, dI revolucdes industriais— entre o século XIX e os nostos dias, Esta longa Idade Média é a histéria da sociedade pré-industrial. A montante, é uma historia diferente; a jusante, uma histéria por fazer quanto aos métodos—a_ histéria contemporanea—, ou melhor, uma histéria por inveniar. Esta longa Idade Média é, para mim, o conirdrio do hiata visto pelos humanistas do Renascimento e, salvo raras excepcdes, pelos homens das luzes. E ¢ momento da criagdo da sociedade moderne, de uma civi- lizagGo moribunda ou morta sob as formas camponesas tradicionais, no entanio viva pelo que criou de essencial nas mossas estruturas sociais e mentais, Criou a cidade, @ nagio, o Estado, a universidede, 0 moinho, «@ mdquina, a hora e o relégio, o livro, o garfo, 0 vestudrio, a pessoa, ‘a consciéncia e, finalmente, a revolugéo. Entre 0 neolitico e as revolugdes industriais ¢ politicas dos ultimos dois séculos, ela ¢, pelo menos para as sociedades ocidentais, nfo um vazio ou uma ponte, mas um grande impulso eriador cortado por crises, graduado por deslocacGes no espago € no tempo, segundo as regides, as categorias sociais, os sectores de actividade, diversificada nos seus processos, NGo nos alongaremos nos jogos irrisérios de uma lenda dourada dg Idade Média para substituir a lenda negra dos séculos passados. Nao ¢ isso uma outra Idade Média (’). Uma outra Idade Média é —no esforga do historiador —uma Idade Média total, elaborada tanto a partir das fon- tes literdrias, arqueolégicas, artisticas, juridicas, come @ portir dos unicos documentos outrora concedidos aos medievalistas «puro». E, repito, uma longa Idade Média, em que todos os aspectos se estruturam num sisiema que, no essencial, funciona desde o Baixo império Romano até @ Revolu- ¢do Industrial dos séculos XVHT e XIX. E uma Idade Média profunda que @ recurso aos métodos etnolégicos permite abarcar, nos seus hdbitos quoti- dianos (7), nas suas crengas, nos seus comportamentos, nas suas menia- lidades. E o periodo que melhor nos permite compreender os nossas ralzes, @ nossa modernidade inquieta, a nossa necessidade de compreender a (). Afirmei algures, esforcando-me por ser um historiador de uma outra Idade Média, uma Idade Média das profundidades, que nao aderi nem, i lenda negra tradicional, nem a lenda dourada, pela qual alguns desejavam hoje substituir aquela. (J. le Goff, La civil sation de |’Occident Meg eset, Paris, Arthaud, 1965, Introduciio, pp. 13-24). Tirei esta ex io de Emile Souvestre qve, na introdugao da sua recolha «Le foyer breton» (1844), escreveu como precursor da etno- chistéria: «Se a histéria é a revelagdo completa da existéncia de um povo, como € possivel escrevé-la sem se conhecer o que ela tem de mais caracteristico nesta existéncia? Mostram-me esse povo na sua vida oficial; mas quem mo mostra na sua vida doméstica? Apés haver conhecido os seus actos piiblicos, que representam sempre um numero diminuto, onde poderia saber os scus actos quotidianos, as suas inclinacées, as suas fan- tasias, que sio dominio de todos? Nao é evidente que tais indica- ges sobre a vida intima de uma nacido se encontram principalmente nas tradi¢des populares? (Nova edicdo, Marabout, Biblioteca Excéntrica, Verviers, 1975, p. 10). 2 mudan¢a, @ transformagao que é @ fundo da histéria como cléncia € como experiéncia vivida. E a disténcia da memoria constituinte: o tempo dos antepassados. Creio que 0 dominio do passado, que sb 0 ‘historiador profissional consegue, é tdéo essencial aos nossos contem- pordneos como a dominio da matéria que a fisica Ihes oferece ou o dominio da vide que o biologista lhes propée. E a Idade Média — que eu seria o ultimo a separar da continuidade histérica em que nos inserimos & que precisamos agarrar na sua longa duragdo, que néo implica @ crenga no evolucionismo —é o passado primordial onde a nossa iden- tidade coleetiva, busea angustiada das sociedades actuais, adquiriu deter- minadas caracteristicas essencicis, Guiado por Charles-Edmond Perrin, mestre rigoroso e liberal, grande figura de uma universidade que jd ndo existe, partira eu ao encontro de uma histéria das ideias bastante tradicional, Mas estas ideias id sé me interessavem encarnadas nas instituigdes e nos homens —no seio das sociedades onde umas e outras juncionavam. Entre as criagGes da Idade Média havia universidades, havia universitdrios. Nas sociedades do Ocidente, néo se tem avaliado bem, parece-me, o que hé de novo numa actividade, numa promogde intelectual e social fundada num sistema até entdo delas desconhecido: 0 exame que modestamente abria caminho entre o «dirar @ sortes (que as democracias gregas tinkam usado, em limites bastante estreitos) e o nascimenic. Cedo me apercebi de que estes universitdrios, saidos do movimento urbano, levantavam proble~ mas compardveis aos dos seus contempordneos, os mércadores, Aos olhos dos tradicionalistas, uns e outros vendiam bens que pertenciam a Deus, num caso a ciéncia, no outro 0 tempo, «Vendedores de palavrass— era assim que S. Bernardo flagelava os novos intelectuais, a quem exoriava se reunissem na unica escola vdlida para um monge: a escota do clausiro. O universitdrio, tal como o mer- cador, ndo podia, segundo og clérigos dos séculos XU ¢ XIil, agradar a Deus nem conseguir a sua salvacdo. Contudo, estudando uma fonte ainda pouco explorada, os manuais de confessores, gue apés 0 IV concilio de Latréo, em 1215, se multiplicaram (esta foi uma grande data da histéria medieval, porque, tornando obrigatéria para todos a confissdo auricular, pelo menos uma vez por ano, © concilio abria uma frente pioneira em cada cristao: a do exame de consciéncia(’), eu notara que @ universitario, tal como o mercador, se justificava em referéncia ao trabalho que efeciuava. A novidade dos universitdrios surgia-me defini- tivamente como a de trabalhadores intelectuais. Assim, a minha aiengGo achava-se solicitada para duas nocdes, cujas transformagées ideoldgicas no seio das condigdes concretas em que se desenvolviam eu me esforgava Por seguir: a nogao de trabalho ¢ a nogao de tempo. Conserve dois dossiers __() A importancia desta data nlio escapou a Michel Foucault, Cf. Histoire de la sexualité, 1, La volonté du savoir, Paris, 1976, p. 7! d3 aberios sobre tais problemas, de que certos artigos aqui reunidos sGo pedacos; e continua a pensar que as atitudes em rela¢éo eo trabatho @ a0 tempo sao aspectos essenciais das estruturas e do funcionamento das sociedades ¢ que o seu estudo é um observatério privilegiado para examinarmos a histéria dessas mesmas sociedades. Para simplificar as coisas, direi que, quanto ao trabalho, observei uma evolucgao do trabalho-peniténcia da Biblia e da Alta Idade Média para um trabalho reabilitado que, finalmente, se tornava meio de salvagao. Pordm, esta promogio (que os trabalhadores mondsticos das novas ordens do século XII, os trabalhadores urbanos das cidades desta época, e, por fim, os srabathadores intelectuais das universidades tinkam provocado € justificado) produzia dialecticamente novos desenvolvimentos: a partir do século XIII dava-se a ciséo entre um irabalho manual mais desprezado que nunca e um trabalho intelectual (tanto do comerciante como do universitdrio); enquanto que a valorizagao do trabalho, submetendo melhor © tabalhador a exploragao que se fazia do seu labor, favorecia uma nova alienagdo dos trabelhadores. Quanto ao tempo, eu procurava sobretudo quem (e como), na socie- dade medieval do Ocidente em transformagde, dominava estas nmovas formas. O dominio do tempo e o poder sobre 0 tempo pareciam-me pega essencial do funcionamento das sociedades(). Néo era eu o primeiro —Yves Renouard entre outros escrevera pdginas Iuminosas sobre o tempo dos homens de negécios italianos —a interessar-mne pelo que s€ pode chamar, grosso modo, o tempo burgués, Tentei ligar ao movimento teolégico e intelectual as novas formas de apropriagéo do tempo que os relégios marcavam, a divisto do dia em 24 horas e logo—sob @ sua forma individualizada—o reldgio, Encontrei, em plena erise do sé- culo XIV, 0 trabalho e o tempo estreitamente ligados. O tempo do trabalho afirmava-se uma parada importante no seio desta grande luia dos homens, das categorias sociais, sobre as medidas —assunto de um grande e belo livro de Witold Kula(’). Contudo, ett continuava @ interessar-me pelo que entdo tinha ten- déncia para chamar histéria da cultura, em vez de histéria das ideias. Seguia eu, entretanto, na VI Seccdo da Escola Prdtica dos Altos Estudos, as ligdes de Maurice Lombard, um dos maiores historiadores que id () George Dumézil, grande despertador de ideias, escreve, na obra onde os medievalistas se inspiram cada vez mais: ¢Reservatério dos Leia joel dt poeies e das ates danas lugar de a mi © tem quire particular interesse para quem — deus, her6i ou chefe—dquer reinar, triunfar, fundar: esse, =e quem for, deve tentar apropriar-se do tempo tal como do espago (Temps er Mythes, Recherches Philosofiques, V, 1935-1936) Cf, referencia ao meu artigo Calenddrio, a aparecer na Enciclopédia Einaudi, Turim, 1977. C@) W. Kula, Miary i ludzie (As medidas € os homens), Varsdvia, ie asp tradugdo. francesa deve aparecer brevemente na Bibliothégues les Histoires, 14 conheci, a quem devo o principal choque cientifico e intelectual da minha vida profissional, A Maurice Lombard devo, nado apenas a revelacdo e 0 gosto pelos grandes espacos civilizacionais (ndo separar pois o espaca eo tempo, os grandes horizontes e a longa dura¢io), o necessdrio olhar do medievalista ocidental (mesmo quando ele se fecha prudentemente no seu espaco, pois a especializagdo continua a ser necessdria) dirigido para o@ Oriente forneceder de mercadarias, de téenicas, de mitos e de sonhos, mas também a exigéncia de uma histéria total, onde a civiligagdo maierial e a cultira se interpenetram em plena andlise socioeconémica das sociedades. Eu sentia a grosseria e a inadequagio de uma problemdtica marxista vulgar da injra-estrutura e da superstratura. Sem ignorar @ importéncia da teoria nas ciéncias sociais e, em particular, na histéria (frequentemente, o historiador, por desprezo pela teoria, & joguete inconsciente de teorias implicitas e simplistas), ndo me lancei numa pesquisa tedrica para a qual néo me sinto dotado e para a qual receio deixar-me arrastar por aquilo que, como muitos historiadores, considero o pior inimigo da hisiéria: a filosofia da histéria. Abordei certos aspectos da histéria das mentalidades porque, perante esse conceito em moda (e comportando pois todo o positivismo e também todas os riscos dessa moda), tentei mostrar o interesse de uma nogdo que foz mover a histéria, mas também as ambiguidades de um conceito vago e por isso mesmo fecundo, porque despreza barreiras, mas perigoso, porque escorrega facilmente para o pseudocientifico. Neste inquérito da histéria cultural, necessitava de um fio condutor, de um utenstlio de andlise e de investigagdo. Encontrei a oposicde entre cultura erudita e cultura popular, O seu uso néo é isento de dificuldades. Cultura erudita n&o é téo simples de definir como se julga, e cultura popular participa da ambiguidade deste perigoso epiteto «popularn. Pago meus og recentes reparos pertinentes de Carlo Ginzburg (*"). Mas, apon- tando com cuidado os documentos utilizados, e @ que ordenamos sob tals nogées, creio na eficdcia deste utenstlio, Toda uma série de fenédmenos vém arrumar-se sob esta etiqueta; esboca-se 0 grande didlogo do escrito e do oral, esse grande qusente da histéria que os historiadores fazem, a palavra que se deixa pelo menos captar como eco, rumor au murmiirio, revela-te o conflito das categoria: sociais no campo da cultura, ao mesmo tempo que se esboca toda a complexidade dos empréstimos e dos permutas com forca bastante para sofisticar a andlise das estruturas e dos conflitos, Lancei-me pois, através de textos eruditos, os tinicos que hoje sei ler um pouco, a descoberta do folclore histérice. Partindo dos contos e dos sonhos, nao abandonel @ nocéo de trabalho nem a de tempo. Para tenter compreender como C*) Z. Ginzburg, Jf formaggio e i vermi, Turim, 1976, p. XII-XV. Cf. ICL Schmitt, «Religion populaire et culture folkloriques, in Annales E.S.C., 1976, pp. 941-953. 15 funciona uma sociedade e—tarefa que sempre foi a do historiador — come ¢la muda ¢ se transforma, & necessdrio encarar o aspecto do imagindrio, Gostaria agora de avangar por entre tarefas mais ambiciosas cujos arti- 8058, apresentados aqui, nio passam de escalées, Contribuir para a recons- tituigGo de uma antropologia histérica do Ocidente pre-industrial. Con- tribuir com alguns elementos sdlidos para um estudo do imagindrio medie~ val. E assim definir, a partir da minha formagéo e da minha experiéncia de medievalista, 0: métodos de uma nova erudigao, adaptada aos novos objectos da histéria, fiel a essa dupla natureza da historia, em especial da histéria medieval, que séo o rigor e a imaginagéo, Uma erud!- ¢Go que definia os métodos de critica de uma nova concepgdo do do- cumento—a do documento-monumento('), que lence as bases de uma nova ciéncia cronoldgica, que deixe de ser apenas linear e liberte os condicées cientificas de um legitimo comparatismo, isto € que ndo compare seja o que for, com nao importa o qué, quando, nem onde. Gostaria de terminar com uma frase de Rimbaud, nao para opor, como © fazem demasiados intelectuais, seguindo demasiados intelectuais da Idade Média, trabalho manual e trabalho intelectual, mas, pelo con- trdrio, para o3 unir no seio da solidariedade de todos os trabalhadores: «A mao que pega na caneta é igual a mao que pega na charrua.> LLG, NOTA DO AUTOR Na verso original dos estudos aqui reunidos, quase todas as citagdes foram dadas na lingua original, quer dizer, sobretudo em latim. Para comodidade do leitor, essas citagdes foram traduzidas para francés, no texto. Mas conservou-se o latim nas notas que no sio indispensdveis para a compreensio do texto. () Abordimos recentemente este problema, Pierre Toubert ¢ ¢u, numa comunicacao por nés feita ao 100.* Congresso das Sociedades Eru- ditas (Paris, 1975): Une Histoire totale du Moyen Age est-elle possible? em Actes du 100° Congrés National des Societés Savantes, t. 1, Tendéncias, Perspectivas e Métodos da Histéria Medieval, Paris, 1977, pp. 31-44. 16 I TEMPO E TRABALHO AS IDADES MEDIAS DE MICHELET Junto de muitos medievalistas, Michelet nao tem hoje boa fama. A sua Idade Média surge como a parte mais fora de, moda da Histéria de Franga, Em primeiro lugar, em relagio 4 evolugao da ciéncia histrica. Apesar dos Pirenne, dos Huizinga, dos Marc Bloch ¢ dos que, apés eles, abrem a Idade Média a histéria das mentalidades, a historia das profundidades, & histéria total, a Idade Média continua a ser 0 periodo da historia mais marcado pela erudigao do século XIX (desde a Escola das Cartas até aos Monumerta Germaniae Historica) e pela escola positivista da passagem do século XTX para o século XX. Leiam-e os insubstituiveis volumes da Histéria de Franca de Lavisse, dedicados A Idade Média. Como Michelet esta distante! Aparentemente, a Idade Média de Michelet pertence ao seu lado mais literdrio ¢ menos «cientificor. © af que o romantismo deveria ter feito as maiores devastagdes. Michelet medievalista nfo parece mais sério que o Victor Hugo da Nossa Senhora de Paris ou da Lenda dos Séculos. Sio medievais. A Idade Média tornou-se, ¢ permanece, a cidadela da erudi¢ao. Ora, as relagées de Michelet com a erudigao so ambiguas. B verdade que Michelet, esse grande apetite, esse devorador da hist6ria, manifestou uma fome insacidvel do documento. Ele foi, com paixdo, e sem cessar 0 recorda, um homem de biblioteca, um trabalhador dos Arquivos. No Prefdeio de 1869, sublinhou ele que uma das novidades da sua obra consistia na sua base documental: «Até 1830 (mesmo até 1936) nenhum dos historiadores notaveis desta épaca sentira ainda a necessidade de procurar factos fora dos liyros impressos, logo nas fontes primitivas, a maior parte entéo inédita, isto é, nos manuscritos das nossas bibliotecas, nos documentos dos nossos arquivos». E insiste: «Nenhum _historiador, que eu saiba, antes do meu 3.° volume (coisa facil de verificar) usara pecas inéditas... € a primeira vez que a histéria tem uma base tio séria (1337).» Porém, o documento, e mais particularmente o documento de arquivos, nao &, para Michelet, mais que um trampolim para a imaginagao, © detonador da visio. As paginas célebres sobre os Arquivos nacionais 19 mostram este papel de estimulante poético do documento que comega, antes mesmo que o texto seja lido, pela acco criadora do espaco sagrado do depdsito de arquivos. Exerce-se sobre o historiador um poder que vem da atmosfera desses grandes cemitérios da Histéria, que sao também, e antes de tudo, lugares de ressurrei¢do do passado. A celebridade de tais paginas péde atenuar o seu poder. Blas jorram, contudo, de qualquer coisa de mais profundo em Michelet que um dom literario de evocagao, Michelet € um necromante: «Eu amava a morte...». No entanto, percorre as necrépoles do passado como quem percorre as 4leas do Pére-Lachaise, Para arrancar, em sentido préprio e nao figurado, os mortos A sua morta- Iha, para cs «acordars, para os fazer «revivery. A Idade Média, que yeio até nds nos frescos, nos timpanos das igrejas, no apelo das trombetas do Juizo Final, que so, antes do mais, as do ressuscitar, encontrou em Mi- chelet aquele que melhor soube fazé-lag soar. «Nas galerias solitarias dos Arquivos por onde yagueei durante yinte anos, no siléncio profundo de onde chegam murmvirios aos nossos cuvidas...» E na longa explicacio que fecha o 2." volume da Histévia de Franga: «Tirei este volume, em grande parte, dos Arquivos nacionais. Nao tardei a aperceberme que havia, no aparente siléncio dessas galerias, um movimento, um murmurio que nfo era de morte... Todos viviam e falavam... E a medida que thes sopraya a pocira, via-os erguerem-se. Tirayam do sepulcro, um a mao, outro a cabeca, tal como no Juizo Final de Miguel Angelo ou na Danca Macabra.., Sim, Michelet é muito melhor que um necromante; é, segundo © belo neologismo que para si proprio inventou e¢ que ninguém ousou conservar apés ele, um «ressuscitador» (’). Michelet foi um arquivista consciencioso, apaixonado pelo seu tra- balho.Os que Ihe sucederam sabem-no hoje e podem prova-lo, mostrando os vestigios do seu labor. Ele enriqueceu a Hisidria de Franca ¢, sin- gularmente, a sua Idade Média com nolas e peas justificativas que evi- denciam o seu apego a crudigio, Pertence a essas geragdes romianticas (tal come Victor Hugo) que souberam aliar erudiggo e poesia, Mérimée, pri- meirc-inspector-geral dos monumentes histéricos, € disso um outro exem- plo, se bem que tenha separado da sua obra a sua profisso. A época de Michelet € a 6poca da Sociedade céltica que se tornou Sociedade Nacional dos Antiquarios de Franga, da Escola Nacional dos Cartégrafos, do Tnven- t4rio Monumental da Franca, abortado ent@o e renascendo hoje da arqui- tectura erudita de Viollet-le-Duc (*)... Mas, para Michelet, a erudic&o nfo passa de uma fase inicial © preparatéria. A histéria comega depois, com a (*), Houve entao um estranho didlogo entre eles e eu, entre mim, seu ressuscitador, e€ 0 yelho tempo ressuscitado». Michelet fala da Idade Média no grande texto inédita pubdlicado por Paul Viallancix (L’Are n.* 52, Michelet, 1973, n.* 9). » @) Arquitecto © cscritor francés do séc; XIX, restaurou grande mimero de ediffeiss da Idade Média, entre eles, Notre-Dame. Autor do Diciondrio de Arquitectura Francesa do séc. XI ao sée. XVI @ de um Dieiondrio do Mobilidrio—(N. da T.) 20 escrita. A erudicao nfo passa, ent&o, de um andaime que o artista, o historiador, deverd retirar logo que a obra esteja realizada. Esta ligada a um estado imperfeito da ciéncia ¢ da vulgarizaciio. Tempo vira em que a erudi¢ao, deixando de ser as muletas aparentes da ciéncia histérica, passe a estar incorporada na obra histérica e reconhecida inte- riormente pelo leitor educado neste conhecimento intimo, Uma imagem de construtores de catedrais exprime, no Prefdcio de 1861, esta concepeao de Michelet: «As pegas justificativas, espécie de esteios e de contrafortes do nosso edificio hist6rico, poderiam desaparecer & medida que a educagaéo do piblico se identificasse mais com os progressos da critica ¢ da ciéncia.» Michelet historiador tinha um grande des{gnio: desenvolver no ptiblico e¢ em volta do piblico um instinto da histéria, infalivel, como o instinto dos animais, que ira estudar no fim da sua vida. ‘Qual o medievalista que hoje poderia facilmente renunciar a osten- tagio das notas de rodapé, dos anexos ¢ dos apéndices? Um debate, que iria Jonge na andlise da produgdo social da histéria, poderia opor argu- mentos, @ primeira vista igualmente convincentes. Prolongando, no plano Politico ¢ ideoldgico, a atitude de Michelet, alguns poderiam recusar as priticas de uma ¢rudi¢ao cuja consequéncia, se nao a finalidade, & Perpetuar o dominio de uma casta sacralizada de autoridades. Outros que poderiam também reclamar-se de Michelet alegariam que niio pode shaver ciéncias sem provas verificdveis e que a idade de ouro da historia, sem justificagdo erudita, nfo passa, por enquanto, de utopia. Nao insistamos, os factos falam por si. Hoje, um medievalista nfo pode Sendo recuar ¢ hesitar quanto & concepgio que Michelet tem da erudicao. A Idade Média € ainda assunto de clérigos, Parece nfo ter ainda chegado tempo, para o medievalista, de renunciar a liturgia da epifania erudita ¢ de perder o seu latim. Mesmo que consideremos que Michelet medievalista 6, neste ponto principal, mais profético talvez do que ultra- passado, deveremos admitir que a sua Idade Média nio é a da ciéncia medieval de hoje. Mas a Idade Média de Michelet parece fora de moda em relagio ao Proprio Michelet. Quer se considere Michelet um homem do seu tempo, esse século XIX efervescente, quer se leia como homem da nossa €poca, o conyulsivo do século XX, Michelet parece-nos bem distante da Idade Média. E parece-o ainda mais quando, levados por ele, encaramos & sua obra histérica como uma autobiografia — «biografar a historia como Se se tratasse de um homem, de mim» —Idade Média das permanéncias, século XIX das revolucées; Idade Média das obediéncias, século XX da contestagio. A Idade Média de Michelet? Triste, obscurantista, petri- ficada, estéril. Michelet, homem da festa, da luz, da vida, da exuberAncia. Se Michelet se detém na Idade Média, de 1833 a 1844, & para af passar um pesado Iuto, como se o passaro-Michelet nfo conseguisse fugir a cegucira, ao abafamento de um longo timel. O seu bater de asas esbarra 2r com as paredes de uma catedral em trevas. Nao respira, néio tem fdlega, 86 se abre — passaro-flor—com o Renascimento e a Reforma. Enfim, chega Lutero... E contudo... Se, dentro do que sé chama a escola dos Anais, so os historiadores da historia «moderna», um Lucien Febvre ontem, um Fernand Braudel hoje, que primeiro yirarh em Michelet o pai da historia nova, da historia total que quer abarcar o passado em toda a sua totalidade, desde a cultura material até as mentalidades, hoje ndo sdo os medievalistas quem, mais que quaisquer outros, pedem a Michelet que os esclarega nesta procura —procura que ele realgava no Prefdcio de 1869—de uma hist6ria a um tempo mais «material» e mais «espiritualy? E se um Roland Barthes. revelou Michelet como um dos primeiros representantes da modernidade, tal modernidade nao se manifesta, primeiramente, na sua visio da idad: que € a infancia da nossa sociedade, a Idade Média? Para esclarecer esta aparente contradigdo, teatemos um exame da Idade Média de Michelet que corresponda, ao mesmo tempo, a uma dupla exigéncia: a da ciéncia moderna e¢ a do proprio Michelet. Quer dizer que nos esfor¢aremos por restituir a Idade Média de Michelet, na sua evolugdo, na sua propria vida. De 1833 a 1862, a Idade Média de Michelet nao foi imdvel. Transformou-sc. O estudo das suas transformacoes ¢ indispensavel para a compreensio da Idade Média para Michelet, para os medicvalistas, para os homens de hoje. Tal como Michelet gostow de fazer [com ou sem Vico (+)], tal como a ciéncia histérica o procura hoje, periodizemos a [dade Média de Michelet, mesmo que seja. custa de alguma simplificagio. Q movimento da vida— assim como 0 da historia —é feito mais de imbricagées do que de francas sucessdes. Mas, por se ajustarem umas as vutras, as fases dz evolucao néo deixam de apresentar aspectos sucessivos. Julgo poder distinguir trés ou talvez quatro Idades Médias de Michelet. A chave de tal evolugio € a forma como Michelet, mais que outro qualquer, 1é ¢ escreve a histéria do passado a luz da histéria do presente. A relacio «histérica» entre Michelet e a Idade Média varia se- gundo as relagdes de Michelet com a histéria contemporanea, Esta relag&o processa-se em redor de dois pélos essenciais na evolucio de Michelet: 1830 e 1871, que enquadram a vida adulta do historiador, nascido em 1798 e falecido em 1874. Entre a «alvorada de Julho» e 0 crepisculo da derrota da Franca perante a Prussia, a luta contra o cleri- calismo, as decepgdes da Revolugio abortada de 1848, 0 desgosio ante © negocismo» (**) do segundo Império, as desilusdes nascidas do materia- (*) Giovanni Baptista Vieo (1668-1744), autor dos Princizios da Filésofia da Hisioria, trabalho célebre em que distingue 3 idades na historla de cada poy: a idade divina, a idade heréica, a idade humana. —(N. da T.) (**) Em francés, eaffairismes (N. da 7.) 22 lismo e€ das injustigas da sociedade industrial nascente, faz vacilar a imagem que Michelet teve da Idade Média, De 1833 a 1844, periodo em que se publicaram os seis volumes da sua Histéria de Franga dedicados A Wade Média, a Idade Média de Michelet ¢ uma Idade Média positiva. Ela deteriora-se lentamente, de 1845 a 1855, ao ritmo das novas edigdes, numa Idade Média perturbada, negativa, que culmina numa cortina que é o Prefdcie dos volumes VII e¢ VUI da Histéria de Franga (1855), dedicados ao Renascimento ¢ & Reforma, Ap6s o grande intervalo da Histéria da Revolugdo, surge uma nova Idade Média, a que eu chamo a Idade Média de 1862, data em que aparece La Sorciére (A Feiticeira). & pois a Idade Média da Feiticeira: por um estranho movimento dialéctico ressurge, do fundo do desespero, uma Idade Média satdnica mas, porque saténica, !uciferiana, quer dizer portadora de luz ¢ de esperanca. Desponta, enfim, talvez uma quarta Idade Média, aquela que, por antitese ao mundo contemporaneo, o mundo da «grande revolugio industrialy a que é dedicada a wltima parte — pouco conhecida —da Histéria de Franga, reencontra o fascinio de uma infancia A qual o retorno é agora impossivel, como é impossivel, no hmiar da morte que sempre perseguiu Michelet, o retorno ao abrigo quente do yentre materno, A beia Idade Média, de 1833 a 1844 Conforme Robert Casanova estabeleceu minuciosamente, a parte da Histéria de Franca de Michelet relacionada com a Idade Média conheceu trés edicdes com variantes: a primeira edi¢do (chamada A), cujos seis volumes apareceram de 1833 a 1844 (o primeiro © o segundo em 1833, © terceiro em 1837, 0 quarto em 1840, 0 quinto em 1841, o sexto em 1844), a edigdo Hachette de 1852 (B) ¢ a edigdo definitiva de 1861 (C). Entretanto, apareceram edigdes parciais dos volumes I ¢ Ik em 1835 e do III em 1845 (A’) e para certas partes dos volumes V e VI em 1853, 1856 e 1860 (Joana d’Are no volume Ve parte do volume VI, Luly XI e Carlos o Temerdrio, editados pela Biblioteca dos Caminhos de Ferro i: io A’ dos trés primeiros volumes pouco difere da edigio A. A grande modificagio verifica-se em A-A’ ¢ B, sobretudo nos volumes I ¢ II, enquanto que os volumes V e VI de B reproduzem os de A, De maneira geral, C 6 apenas um reforgo, considerdvel 6 verdade, das tendéacias de B, De 1333 a 1844, Michelet sofre o encanto da Idade Média, de uma Idade Média positiva até nas suas desgracas ¢ nos seus horrores. O que entdo o seduziu na Idade Média foi, antes do mais, poder fazer essa histéria’ total, que exaltaré no Prefdcio de 1869, A Idade Média ¢ matéria para histéria total, pois permite escrever historia simultanea- 23 mente mais material ¢ mais espiritual, com que sonha Michelet, ¢ porque a documentacdo que os arquivos, os monumentos e os textos de perga- minho ou de pedra oferecem alimenta a imaginagdo do historiador o bastante, para que cle possa ressuscitar integralmente essa época. Tdade Média de onde emergem tantas circunstancias «fisicas ¢ fisio- légicass, o solo», o <¢clima», os «alimentoss. Franca medieval fisica, Porque representa o momento em que aparece a nacionalidade fran- cesa com a lingua francesa, mas onde, a0 mesmo tempo, o retalhamento feudal forma uma Franga provincial (para Michelet, Franca feudal e Franga provincial sio o mesmo), «formada, segundo a sua divisio fisica e natural». Daqui a ideia genial de colocar 0 Tableau de la France, essa maravilhosa meditagdo descritiva sobre a geografia francesa, nao & cabega da Histéria de Franca (como uma apresentagio insfpida dos adados» fisicos que desde a eternidade condicionariam a historia, mas na €poca, cerca do Ano Mil, quando a histéria faz dessa finisterra euroasié- tica a um tempo unidade pelftica—a do reino de Hugo Capeto—e um mosaico de principados territoriais. Nasceu a Franca. Michelet péde predizer o destino de cada uma destas provincias a nascer, ¢ dot4-las. uma Histéria climatica, alimentar e fisiolégica. Ei-la em evidéncia mas calamidedes do Ano Mil: «Dir-se-ia que a ordem das estagdes se inverteu, que os elementos seguiam novas leis. Uma peste terrivel desolou a Aquitania; a carne dos doentes dir-se-ia atacada pelo fago, soltava-se dos ossos e cafa de podre...» Sim, esta Idade Média é feita de matérias, de produtos que se per- mutam, de desordens fisicas ¢ desordens mentais. O Prefdcio de 1869 evoca-a de novo: «Como a Inglaterra ¢ a Flandres se uniram pela 13 ¢ © tecido, como a Inglaterra bebeu da Flandres, se impregnou dela, atraindo a tado o custo os tecelées expulsos pelas brutalidades da casa de Borgonha: € 0 grande facton. B mais: «A peste negra, a danca de S. Guido, os flageladores e o sabbat, esses carnavais do desespero impeliram 0 povo abandonado, sem chefe, a agir por si proprio... A desgraga atinge o seu alto paroxismo, a loucura furiosa de Carlos VI.» Mas esta Idade Média é também espiritual e, antes de tudo, naquele sentido em que entio a entende Michelet, quer dizer que é no seu seio que se da «oa grande movimento progressivo, interior, da alma nacional». Michelet chega a encontrar em duas Igrejas, no coragfo de Paris de Carlos VI, a encarnacio do material e do espiritual, os dois pdlos entre o§ quais, segundo ele, a histéria nova deve oscilar: «Saint-Jacques- ~de-la-Boucherie era a pardéquia dos talhantes e dos lombardos, da carne e do dinheiro, Dignamente rodeada de esfoladouros, de tanoarias ¢ de maus lugares, a suja ¢ rica paréquia estendia-se da rua Trousse-Vache até ao cais das Peles ou Pelciro.,. Contra a materialidade de S, Tiago erguia- -se, a dois passos, a espiritualidade de $. Jodo. Dois acontecimentos tragicos haviam feito desta capela uma vasta igreja, uma grande pard- quia: o milagre da rua das Billettes, onde «Deus foi surrado por um 24 judeu» ¢ mais tarde a ruina do Templo que estendeu a este vasto ¢ silencioso bairro a paréquia de S. Jogo...» Porém, essa Idade Média é também o tempo que comeca a encher-se de testemunhos da erudicio e da imaginagdo, onde consegue ouvir-se o que Roland Barthes chamou @ documento como voz: «Entrando nos séculos ricos de actos e pecas auténticas, a histéria torna-se maior...» B entao que se erguem os amurmurios» dos Arquivos, que os pergaminhos tomam vida ¢ as ordenagdes reais falam. Do mesmo modo a pedra vive € fala. Antes, material ¢ inerte, agora, espiritualizada, toma vida. Este hino & pedra viva é 0 essencial do célebre texto sobre 4a Paix&éo como principio de arte na Idade Média», «A arte antiga, adoradora da matéria, classifi- cava-se pelo apoio material do templo, pela coluna... A arte moderna, filha da alma e do espirito, tem como principio, nao a forma mas a fisionomia, 9 olho, néo a coluna mas a cruzaria, nfo o cheio mas o vazio.» E mais: «A pedra anima-se ¢ espiritualiza-se sob a ardente e severa mao do artista. Esta faz saltar da pedra a vida,» «Defini a Historia como uma Ressurreicio. Se isso alguma vez se deu, foi no 4.* volume (Carlos VI), E Michelet quem 0 sublinha. Estes arquivos da Idade Média, de onde podemos fazer reviver os mortos, permitem mesmo fazer ressuscitar aqueles que, mais do que outros, impressionam Michelet, aqueles cuja chamada a vida fazem deste despertador um grande ressuscitador, aqueles que est2o mais mortos que os demais, os pequenos, os fracos, 0 povo. Aqueles a quem assiste o direito de clamar: «Historia, conta connasco, Os teus credores chamam por ti. Accitamos a morte em troca de uma linha tua.» Entao, Michelet pode «mergulhar no povo. Enquanto Olivier de la Marche e Chastellain se pavoneiam nos banquetes do Tostio de Oiro, cu sondava os subterrneos onde fermentou a Flandres, essas massas de misticos e de valentes trabalhadores.» Isto € dizer que a Idade Média de 1833 foi, para Michelet, a época das maravilhosas aparigdes que surgem dos documentos, ante os seus olhos deslumbrados. O primeiro a ressuscitar € 0 Barbaro ¢ o Barbaro é a crianga, a juventude, a natureza, a vida, Ninguém melhor que Michelet exprimiu © mito romantico do bom Barbaro: «Esta palavra agrada-me.., aceito-a: Barbaros, Sim, quer dizer cheios de seiva nova, viva e revigo- rante... Nés, os Barbaros, temos uma vantagem natural; se as classes Superieres possuem a cultura, nds temos muito mais calor vital...» E, mais tarde, a sua Idade Média ser4 ainda atravessada por maravilhosas criangas, que © Prefdcio de 1869 savda: «S. Francisco, uma crianga que niio sabe o que diz ¢ que por isso mesmo fala melhor...» E, claro esté, Joana d’Are: «O espectéculo é divino quando, no cadafalso, a crianga, abandonada e s6, contra o sacerdote-rei ¢ a mortifera Igreja, mantém em plena fogueird a sua Igreja interior e voa dizendo: «As minhas vozes!» Mas a propria Idade Média no 6 toda ela uma crianga? «Triste crianca, arrancada das préprias entranhas do cristianismo, que nasceu em lagrimas, cresceu na oragiio € no sonho, nas angustias do coragio, que morreu sem 25 nada consumar; mas que nos deixou uma tio dolorosa recordag&io que todas as alegrias, todas as grandezas das idades modernas nao chegariia pata consolar-nos!» Préximo do Ano Mil é ainda da terra, das florestas, dos rios, do litoral, que se ergue a mulher bem-amada—a Franga, a Franga fisica, biolégica: «Quando o vento arrasta o vio e uniforme ne- yoeiro alemiio que o Império cobria ¢ cbscurecia, surge o pais...» E a frase famosa: «A Franca é uma pessoa.» E o resto que por vezes esque- ‘cemos: «86 consigo fazer-me compreender melhor, réproduzindo a lingua- gem de uma engenhosa fisiologia.» Isto nao escapou a Roland Barthes: «O retrato da Franca... que habitualmente nos dio como sendo o antepas- sado das geografias, € de facto o relatério de uma experiéncia quimica: a enumeracdo das provincias é, nela, menos descrigaéo do que recensea- mento metédico dos materiais, das substincias necessdrias A elaboragic quimica da generalidade francesa,» ‘ Franea existe, 0 povyo vai ao seu encontro. Ergue-se uma primeira vez ¢ dio-se as Cruzadas, Que oportunidade para Michelet de opor a gene- rosidade, a espontancidade, o impulso dos pequenos, aos cilculos, as tergi- versagdes dos grandes! «O povo partiu sem mada esperar em troca, dei- xando que os principes deliberassem, se armassem, se multiplicassem; homens de pouca fé! os pequenos nfo se preocupavam nada com isso; estavam certos de um milagre.+ Desta vez, devemos notar j4 que a Idade Média de Michelet, que de inicio parece distante da Idade Média «cienti- fica» dos medievalistas do século XX, € ja prentincio da Idade Média que 08 historiadores actuais mais inovadores revelam pouco a pouco, apoiando- -se numa melhor documentagiio. & prova esse grande livro que inaugurou, com mais trés ou quatro outros, o tempo da historia das mentalidades colectivas: A Cristandade e a Idade de Cruzada de Paul Alphandéry & Alphonse Dupront (1954). A dualidade, o contraste das duas cruzadas, foi af provado e explicado: a cruzada dos cavaleiros e a cruzada do povo. Este € mesmo titulo de um capitulo: A cruzada popular, O papa Urba- no Il, em Clermont, pregou aos ricos mas sfo os pobres quem, em todo o caso, partem ¢m primeiro lugar. «Os nobres precisam de tempo para reali- zar bens, ¢ o primeiro grupo, uma balbtrdia infinita de gente, era composto por camponeses e nobres pouco opulentos. Uma outra diferenga, muito mais real, diferenca de espirito, deveria em breve separar os pobres dos senhores. Estes partiam para utilizar, contra o infiel, o écio da Trégua de Deus: tratava-se exactamente de uma expedigao limitada, uma espécie de tempus militiae. Ao contrario, encontrava-se no povo a ideia de perma- néncia na Terra Santa... Os pobres, que tinham tudo a ganhar com a aventura, cram os verdadeiros espirituais da Cruzada, para cumprimento das profecias.» E que poderia Michelet escrever, se tivesse conhecido as investigagdes recentes acerca da cruzada das criangas, em 1212, sc tivesse sabido que o termo criangas, que Alphandéry ¢ Dupront, num ‘outro capitulo (As Cruzadas de criangas), mostrajam que com ela «se revela uma intensidade onde predomina naturalmente o milagre, a vida 26 profunda da prdépria ideia de cruzada», designa, conforme o provaré Pierre Toubert, os pobres, os humildes, tais como os Pastoureaux de 1251 (aos habitantes mais miserdveis dos campos, sobretudo pastores...», ¢s- creveu Michelet)? Bis a infancia ¢ o povo indissoluvelmente ligados, como Michelet gostaria. ‘A segunda aparigo do povo na Idade Média é a que mais agradou a Michelet, mais leitor de crénicas e de arquivos do que de textos literdrios. Ele ignorava, segundo parece, os vildes monstruosos, bestiais, da literatura de 1200 como Aucassin et Nicolette (*), 9 Ivain de Chrétien de Troyes (**). O povo surgiu em massa, colectivo, com as Cruzadas. Bis que, subitamente, em documentos do século XIV, 0 povo surge como individualidade, o Jacques (***), Michelet, parisiense, filho de artesio, homem da era burguesa, encara até ent&éo o povo das cidades e das comunas. «Mas 0 campo? Quem o conhecia antes do século XIV? (Certamente que isto faz sorrir o medievalista de hoje, que dispde de tantos estudos — entre os quais alguns grandes livros como 0 de Georges Duby —acerca dos camponeses anteriores a peste e a Jacquerie. Surge a luz do dia esse vasto universo de trevas, essas imensas massas ignoradas. No terceiro volume (sobretudo de erudi¢&o) eu nao estava preparado, nada esperava, quando a figure de Jacques, erguida no caminho, me cortou a passagem; figura monstruosa ¢ terrivel...» Trata-se da revolta de Caliban (****), previsivel desde o encontro de Aucassin com o jovem camponts, «grande, mons- truosamente feio ¢ horrfvel, com um rosto enorme e mais negro que © carvaio, os olhos afastados de um palmo, faces gordas, um nariz gigan- tesco e achatado, grandes e largas narinas, grossos beicos vermelhos qual bife em sangue, horriveis ¢ compridos dentes amarelos. Usava grevas e botas de pele de boi, que cordas de casca de tilia seguravam ¢m volta das pernas até acima dos joelhos. Vestia um casaco sem avesso nem direito ¢ apoiava-se a uma comprida clava. Aucassin atirou-se a ele. Qual nao foi o seu terror ao vé-lo de perto!» (Tradugiio de Jean Dufournet, 1973), Para finalizar, a terceira aparicfio do povo na Idade Média € Joana d’Are, Para principiar, Michelet aponta a sua caracterfstica essencial: per~ tencer ao povo. «A originalidade da Donzela, o que Ihe confere éxito, nio € tanto a valentia ou as visies, mas sim o bomrsenso, Atrayés do entu- siasmo, esta filha do povo viu o problema e soube resolvé-lo.» Porém Joana d’Arc ¢ mais que uma emanag&o do povo. E a ciipula de toda a Idade (*) Romance em prosa e verso (séc. XIII) que relata os amores do filho do conde Beaucaire ¢ de uma sarracena. — (N. da T.) - P (@*) Pocta francés do séc. XII, autor de romances de cavalaria, como Ivain ‘ou 0 Cayaleira do Letio—(N. da T.) (**) Como se designava outrora o camponés francis. —(N. da T.) (@***) Personagem fantdstica, gnomo monstruoso que personifica a forca bruta obrigada a obedecer a um poder superior, mas sempre em revolta contra cle. —W. da T) 27 ao } Média, a sintese poética de tudo quanto Michelet vé nela de aparigées maravilhosas: a crianga, o povo, a Franca, a Virgem: «Que Ihe toque o espirito romanesco, se se atrever; a poesia nunca o far4, Que lhe poderia acrescentar?... A ideia de que a poesia, durante toda a Idade Média, vinha de Ienda em Ienda acabou por tomar forma humana; atingiu-se o sonho. A Virgem das batalhas, por quem cs cavaleircs clamavam ¢ que julgavam estar no Alto, estava na Terra... E onde? ah, maravilha! Estava naquilo que se desprezava, naquilo que parecia mais humilde, estava numa crianga, na simples rapariga do campo, no pobre povo da Franca... Porque houve um poyo, houve uma Franca... Esta ultima filha do passado, que foi tam- bém a primeira no tempo que comegava. Surgiram nela ao mesmo tempo a Virgem... ¢ a PAtria.» Mas Joana 6, em definitivo ¢ sobretudo, mais do que © povo ou a nacao; € a mulher. «Devemos ver ainda, nela, outra coisa: a Paixfio da Virgem, o martfrio da Pureza.,, O salvador da Franca tinha de ser uma mulher. A propria Franca era mulher...» Uma outra obsessio de Michelet encontrou aqui o seu alimento. No entanto, Joana d’Are marca © fim da Idade Média. Produz-se uma outra aparic¢do mara- vilhosa: a nagfo, a patria. O século XIV é para Michelet a grandeza, o grande século da Idade Média, aquele que ele julgara digno de publicagio & parte. No Prefdcio do volume III, de 1837, Michelet descreve o seu encantamento por este século, em que a Franca se completa, em que de crianga se torna mulher, de pessoa fisica se torna pessoa moral, em que ¢, finalmente, ela propria: «A era nacional da Franca 6 o século XTV. Os Estados Gerais, o Parlamento, todas as. nossas grandes instituigSes come- gam ou se regularizam. A burguesia surge na revolugao de Marcel (*), 0 camponés surge na Jacquerie, a propria Franca surge na guerra com os Ingleses. A expressio um bom Francés data do século XIV, © que quer dizer que, até entio, a Franga era mais cristandade do que Franca.» Além destas personagens queridas, 0 Barbaro-crianga, a Franga- mulher e nagio, 0 povo, Michelet vé surgir, na Idade Média, duas forgas que © entusiasmam: a religifio e a vida. A religifio, porque, nesse momento, Michelet, conforme o demonstrou Jean-Louis Cornuz, considera @ cristianismo como uma forga positiva da histéria. No belo texto que, durante um século, se conservou ignorado e que Paul Viallaneix acaba de revelar com 0 titulo de O*Herofsmo do Esptrito, Michelet explica: «Uma das principais causas que me levaram a dedicar tio piedosos cuidados a estas idades que os nossos esforcos tendem a apagar da terra —deverei diz@-lo? —o espantoso abandono em que os seus admiradores as deixaram, € a incrivel impoténcia dos defensores da Idade Média em evidenciar, em valorizar esta histétia que dizem tanto amar... Quem conhece o cris- (0). Preboste dos mercadores ds Paris, representou considerdvel papel nos Estados Gerais de 1355 e 1357, opds-se vivamente a0 delfim Carlos (Carlos V) © foi durante algum tempo senhor de Paris. Foi morto em 1358. —(N. da T.) 28 tianismo?» © cristianismo é, para ele, um aniquilamento da hierarquia, promogao dos humildes: os wltimos serio os primeiros, Embora ja em parte impotente no campo material, é até um fermento de liberdade, antes de tudo para os mais oprimidos, os mais infelizes; os escravos. Pretende libertar estes ultimos, mesmo que o mio consiga. Na Gélia dos fins do século III, os oprimidos revoltaram-se. «Entio, todos os servos das Galias sob a designagio de Bagaudes (*) pegaram em armas... Nao seria de espantar que esta reclamagao dos direitos naturais do homem tivesse sido em parte inspirada na doutrina da igualdade crista.» Numa €paca em que se confessa mais «escritor ¢ artistay que histo- riador, Michelet vé no cristianismo uma marayilhosa inspiragdio para a arte. E escreve este texto sublime: A Paixdo como Principio de Arte na Idade Média que corrigiré na edicdo de 1852 ¢ mantera na de 1861 entre os Esclarecimentos; «Neste abismo estd o pensamento da Idade Média. Esta Idade esta toda ela contida no cristianismo, o cristianismo na Paixdo... Bis todo o mistério da Idade Média, o segredo das suas lagrimas inesgotaveis ¢ 0 seu génio profundo. Lagrimas preciosas correram em limpidas lendas, em poemas maravilhosos, e amontoando-se no céu, cristalizaram em gigantescas catedrais que desejavam elevar até Deus! Sentado na margem deste grande rio poético da Idade Média distingo duas fontes diferentes pela cor das suas dguas.., duas poesias, duas litera- turas: uma cavaleiresca guerreira, amorosa; cede esta se torna aristo- critica. A outra, religiosa e popular...» E, tomado pela intuigdo, Michelet acrescenta: «A primeira é, de inicio, também popular...» Com certeza que ele acredita na influéncia dos «poemas de origem céltica», na época em que o seu amigo Edgar Quinet escreven 0 belo e ignorado Merlin, 0 Mégico. Ter-se-ia hoje apaixonado pelas investigagdes que evidenciam, para além das cangdes de gesta, os romances corteses, nio somente na literatura oral céltica, mas também na grande corrente popular dos folclores. Esta unio da religiio com o povo & 0 que, na Idade Média, encanta Michelet: «A Igreja era, entio, o domicilio do pov O culto era um terno didlego entre Deus, a Igreja e o povo, expriminda o mesmo pensamento...» Em resumo, Idade Média éa vida. Michelet nfo sente a Antignidade que, para ele, é inerte. Vimos como 4 «arte antiga, adoradora da matéria», ele opde “a arte moderna», quer dizer a da Idade Média, «filha da alma ¢ do espirito». Para ele, como pata os grandes romintices, esta profunda vitalidade da Idade Média, que anima a pedra, culmina no gético. No g6tico, ele ama, no apenas as origeas, o momento em que no século XI1 se abre 0 «olho ogival», o tempo em que nos séculos XII e XII a «cru- zaria mergulhada na profundeza das paredes... sonha ¢ meditay, mas também 4 exuberdncia, as loucuras do acabamento, do flamejants; «O () Camponeses gauleses revoltados, esmagados em 285 por ordem de Diocle- ¢lano, junto da confluéncia do Sena © do Marne. —(N. da T.) 29 século XIV s6 se esgota quando estas rosas sé alteram, se transformam em figuras flamejantes, labaredas, corag6es ou lagrimas...» ‘A festa medieval ¢ a stimula destes impulsos. O ideal da festa que Michelet tanto exaltou —especialmente no Estudante —em época alguma a encontrou téo bem realizada como na Idade Média. E a longa festa da Idade Média, A Idade Média é uma festa. Pressigio do papel — papel hoje iluminado pela sociologia ¢ a etnologia— que a festa representa numa sociedade e numa civilizagio do tipo das da Idade Média. No grande texto de 1833, a Paixdo como Principio de Arte na Idade Média, Michelet atinge enfim as rézdes mais fundas, mais viscerais que o atraem, o fascinam na Idade Média. Bo regresso as origens, ao ventre materno. Claude Mettra (L’Arc, n.° 52) comentou, de maneira inspirada, um texto de Fevereiro de 1845, onde Michelet, tendo acabado a sua historia da Franca medieval, se compara ele proprio & «matriz fecundas, A «mae», & «gravida que tudo subordina ao fruto do seu ventre». A obsessio do Ventre, da sta imagem, do seu reino, encontra alimento na Tdade Média de onde nascemos, de onde viemos. «& preciso que o velho mundo passe, que os tragos da [dade Média acabem por se apagar, que vejamos morrer aquilo que amamos, aquile que nos amamentou quando pequenos, aquilo que foi o nosso pai ea nossa mae, aquilo que nos cantava tio docemente no berco.» Frase mais actual ainda em 1974, quando a civilizacdo tradicional, criada na Idade Média, sofreu um primeiro grande choque no tempo de Michelet, com a revolugao industrial e¢ se apaga definitivamente sob as transformacdes que submergiram € sufocaram «o mundo que perdemos» (Peter Laslett). A sombria Idade Média de 1855 ‘A bela Idade Média de 1833 deteriora-se rapidamente. De 1835 a 1845, nas reedigdes dos trés primeiros volumes, Michelet comecava a afastar-se da Idade Média. A mudanga era nitida na edigdo de 1852. A ruptura consumou-se definitivamente em 1855, nos prefacios e nas intro- ducdes dos volumes VII ¢ VIII da Historia de Franca. A Renascenga ea Reforma atiram a Idade Média para as trevas: 4O estado estranho @ monstruoso, prodigiosamente artificial que foi o da Idade Média...». A ruptura surgiu com Lutero. Mais do que as aparigSes agora obscure- cidas da Idade Média, a verdadeira epifania € Lutero: «Bis-me!». «Foi-me imensamente salutar viver com esse grande coracio que diz ndo a Idade Média.» Michelet, um tanto incomodado por ter amado tanto a Idade Média, procura distanciar-se dela, da su@ Idade Média: «Esse inicio da minha histéria agradou mais ao piblico do que a mim préprio.» Esforga-se por corrigir, sem renegar. Afirma ter revelado a Idade Média. Acreditou no que a Tdade Média queria fazer crer ¢ niio viu a realidade, que era sombria. 30 ¢Nao faz parte da nossa honestidade apagar seja o que for do que esté escrito... O que ent&o escrevemos € auténtico como o ideal que a Idade Média se pds a si mesma. E o que damos aqui é a sua realidade, acusada pela propria Idade Média.» Sim, foi bem a sedugio perversa da arte, nesse tempo ¢m que, para utilizar os seus proprios termos, era mais artista ¢ escritor do que historiador, © que inspirou a Michelet uma indulgéncia culposa para com essa época: «Entdo (em 1833), quando o entusiasmo pela erte da Idade ‘Média nos tornou menos seyero o sistema em geral...». Ora esta mesma atte vé-mo-la nés agora vilipendiada, E ¢a derrota do gético», visivel na comicidade do neogético romantico. Sado trés os culpados: Chateaubriand —«o senhor de Chateaubriand... acusou bem cedo uma imitagdo muito grotesca...»; Victor Hugo —em 1830, Victor Hugo retoma-a com o vigor do génio e deu-the impulso, partindo todavia do fantastico, do estranho e do monstruoso, quer dizer do acidental»; enfim, o préprio Michelet: «Em 1833 tentei apontar a Ici viva desta vegefagao. O meu entusiasmo demasiado grande explica-se numa frase: divinizivamos ¢ tinhamos a febre da divinizagio...» Michelet passou ao lado do que na Idade Média parece grande. Nao reconheceu uma Joana d’Arc: «Véem passar Joana d’Are © perguntam: “Quem ¢ esta rapariga?” O século XIV seria mantido na sua exaltagao? Talvez, apés 0 enfraquecimento do século XIII»; « A data mais sinistra, mais sombria de toda a historia € para mim o ano 1200, o 93 da Igreja.» Porém, o século XIV ¢ © século XV sdo arvastados na danga macabra de uma Idade Média que acaba por perecer: «Acabam no século XIV, quando um laico, apoderando-se dos trés mundos, os fecha na sua Comédia, os humaniza, transfigura ¢ fecha o teino da visio.» Agora Michelet niio pode deixar de éspantar-se com a sua ingenuidade, a sua benevolente xcandura ao querer refazer a Idade Média, retomd-la aséculo apés século», Porque este tempo adorado ¢ imediatamente queimado € agora «a minha inimiga Idade Média (eu, filho'da Revolucao e que o sou do fundo do peito...)» Durante as reedigdes, Michelet retocou, afagou, enegreceu a bela Idade Média de 1833, O que ensina o jogo dos arrependimentos? Os especialistas de Michelet explicarao este afastamento, esta quase revi- avolta. Ele proprio o apresenta como uma revelagio que se seguiu ao choque com o Renascimento ¢ a Reforma. Ao descobrir Lutero, Michelet teve de atirar, como ¢le, a Idade Média para as trevas. Mas podemos supor que a evolugio de Michelet, perante a Igreja e 0 cristianismo, tem muito a yer com esta reviravolta, Nao devemos esquecer a dupla Ieitura que se fez da histéria passada e da histéria contemporinea. O anti- clericalismo de Michelet afirma-se ao longo da monarquia de Julho. Com ela foi atingida a inspirag&o central da Idade Média. Michelet sublinhou que tivera a vantagem de abordar © cristia- nismo sem preconceitos, sem formacao religiosa que tivesse podido 31 | : levé-lo a admirar sem reservas ou a repudiar sem exam¢, apenas por teacgio, Mas os avelhacos» do seu tempo revelam-dthe a nocividade dos seus antepassados: «A minha completa solidado, o meu isolamento, tac Pouco crivel e contudo to verdadciro, no meio dos homens da época, impediam-me de sentir suficientemente quanto as larvas do passado eram mais temiveis ainda que os velhacos que se armam em seus herdeiros naturais.» De correcgies em correcgSes, de variantes em variantes, podemos discernir os. pontes criticos em redor dos quais se prende a reviravolta de Michelet para com a Idade Média. No primeiro volume, o que ele exaltava cu toleraya na religido crist& desapareceu ou esfumase. O monaquismo ocidental era exaltado perante os «cenobitas asidticos»; Michelet suprime esta comparagao favoravel: ¢A liberdade abatera-se no Oriente, na quictacio do misticismo; disciplinou-se no Ocidente, subme- teu-se, para se resgatar, A regra, & lei, a obediéncia, a0 trabalho.» O que, nos Barbaros, podia ser excessivo, foi examinado pelo cristianismo, cuja forga poética era marcada. «Para suavizar, para dominar essa fogosa barbérie, néio era demasiada toda a forga religiosa e poética do cristia- nismo. O mundo romano sentia instintivamente que cedo Ihe seria Recessirio o amplo seio da religiao, para nele se refugiare. Também esta Passagem desapareceu. A conversio dos Francos ¢ saudada como o reconhecimento desta forca poética do cristianismo, oposta 20 raciona- lismo, que nao agrada as épocas primitivas. Michelet, depois de haver Tepetido que «sé eles (os Francos) receberam o cristianismo através da Igreja latina», suprime o que segue: «...quer dizer, na sua forma com- pleta, na sua alta poesia. O racionalismo pode vir apés a civilizagao, mas somente poderia liquidar a barbirie, estancar a sciva, tornd-la impotente». O cristianismo fora apresentado como 0 reftigio de todas as classes sociais. J& nao € pois o caso, porque néo podemos ler dos pequenos € os grandes encontram-se em Jesus Cristo». Michelet mostrara-se cheio de com- Preensio, de indulgéncia para com a insergio complacente da Igreja no século, para com os seus compromissos com o poder e a riqueza: «E assim devia ser como asilo, como escola. A Igreja precisava de ser rica, Os bispos deviam caminhar a par com os poderosos, a fim de serem ouvidos por estes. Era preciso que a Igrejase tornasse material e barbara para elevar até ela os Barbaros, que se fizesse carne para atrair os homens de carne, Tal como o profeta, que se deitava sobre a crianga para a ressuscitar, a Igreja fez-se pequena para dar a luzo jovem mundo». Nada resta de tudo isto, Por vezes, uma leve passagem sublinha bastante bem a frieza de Michelet para com a Idade Média, Pascase Radbert foi quem «primeira ensinou, de forma explicita, essa martavilhosa poesia de um Deus contido num pio». A maravithosa poesia degenera em prodigiosa. A revisio do segundo volume, feita em 1861, foi ainda mais impor- tante: Sao muitos os cortes, longas as citagdes relegadas para o apéndice © passagens complctas para os Esclarecimentos, conforme vimos suceder 32 gom a dissertagdo sobre a Paixdo como Principio da Arte na Idade Média. £ verdade que, em 1845, na sua Monografia da Igreja de Noyon, Ludovic Vinet afirmara que a arquitectura gotica era obra de laicos, E a ideia seduzira Michelet. A religiao € a Igreja séo sempre as principais vitmas destas exclusGes ¢ destes encurtamentos. Um elogio «aos bondosos padres irlandeses» desaparece, tal como o do eetibato eciesidstico & que Michelet chamara primeiramente «esse virginal himeneu do padre com a Igreja». Esta deixa de estar associada as ideias de liberdade, de povo, de poesia: Comentando a histéria de Thomas Becket, afirmara: «As liberdades da Igreja eram entdo as do mundo.» Ja se nao fala dessas liberdades. Desapareceu a ousada comparagao entre $. Bernardo e Byron. Miche- let dizia do cavaleiro: «O cavaleiro faz-se homem, faz-se povo, entrega-se a Igreja. So que entdo a Igreja é a inteligéncia do homem, a sua verdadeira existéncia ¢ 0 seu repouso, a vigia do povo crianga, A Igreja é 0 proprio povo.» Tudo isto € relegado para os Esclarecimentos. Se as Cruzadas se salvaram (wos Cruzados procuraram Jerusalém e encontratam a Lber- dade»), surgem reabilitagdes inesperadas. Na primeira edigao, os adver- sirios da Igreja eram, muitas vezes, criticados por Michelet, pois a Igreja representava uma forga de progresso. A Igreja agora abauda, dase a exaltagdo dos seus inimigos. Dots principais vencedores: Avelardo ¢ os Albigenses. A doutrina de Abelardo sobre a intengdo era classificada de «escorregadia... de perigosa» e anunciadora dos jesuitas! Abelardo, tor- nado precursor do Renuscimento, nfo merece tal ofensa. Os Albigenses niio foram poupados. A sua cultura fora vilipendiada, a literatura occita- nica qualificada como «perfume estéril, flor efémera que crescera na rocha € por si propria se fanara...». Longe de serem portadores de progresso, os Albigenses eram atrasados, aparentados com os Orientais mfsticos que © cristianismo ocidental tivera bem raziio de rejeitar; nao valiam mais que os seus perseguidores: «Supde-se sempre que, na Idade Média, so os heréticos foram perseguidos, o que € um erro. De ambos os lados se julgava Iegitima a violéncia para levar o préxima A verdadeira [é... Os miartires da Idade Média raramente tiveram a complacéncia dos martires dos primeiros séculos que sé sabiam morrer...» Tudo o que embaciava os Albigenses era agora apagado, Adivinhava-se que a Idade Média se tornara, para Michelet, objecio de horror. Ela surge entéo como a antinatureza e, Jonge de produzir as apari¢des maravilhosas que o deslumbravam, j4 sO segrega aquilo a que Roland Barthes chamou «os temas maléficosy, A Idade Média ¢, pois, ‘9 «estado bizarro € monstruoso, prodigiosamente artificials do Prefdcio de 1855: «A natureza proscrita sucedeu a antinatureza, donde esponta- meamente brota o monstro de duas faces, monstro de falsa ciéncia, monstro de perversa ignorincia.» A Idade Média ignora ou combate tudo o que é& espontaneo, bom, fecundo, generoso, a infancia, a familia, a escola: «A Wade Média é impotente para a familia e a educacio como para a ciéncia.» Porque é ae ontinatureza, & antifamilia e antieducacde. Nao conhece a festa que po- deria ter sido, porque a Igreja lho nfo permite, «a bela festa, tio como- yente, da Idade Média que a Igreja condenou, a festa do simples dos simples», Da boceta de Pandora (*) medieval escapam-se agora os miasmas inventariados por Roland Barthes sob a tripla categoria do seco, do vazio e da presuncio, do indeciso, Eis 0 seco: € a aridez dos escolasticos: «Tudo acaba com o século XII; fecha-se o livro; a fecunda florescéncia, que parecia inesgotavel, falece pouco a pouco.» A escolaéstica «acabara com. @ maquina de pensar). Ja nao passa de imitagado, de repeticzo; wa Idade Média torna-se uma civilizagao de copistas» (Roland Barthes). Vivificada por um instante, a arte gética cai; a pedra torna-se inerte, a Idade Média retorna ao estado de minério, Pior ainda, ma pessoa de S. Luis, o seu rei mais simbélico, o mais yenerdvel, a Idade Média no sabe, nfo pode chorar. O adom das lagrimas» éIhe recusado, Dai o juizo do historiador, arrependido da sua primeira interpretagdo: «Atravessei dez séculos da Idade Média, cego pelas lendas, embrutecido pela escolastica, fraco por yezes nas minhas admiragGes juvenis perante a esterilidade desse mundo onde 0. espirito humano jejuou tanto que emagreceu.» Universo do vazio e da presungao: «Da filosofia proscrita nasceu a infinita legiao dos argu- mentadores, a discussio formal, encarnicada, do nada e do vazio... imenso exéreito dos filhos de Bolo, nascidos do vento ¢ inchados de palavras...» Sim, a Idade Média & bem o tempo do inquietante ¢ do detestayel. do indeciso, A propdsito do servo «ser bastardo, equivoco», Michelet gene- raliza: «Tudo € ambfguo, nada € claro.» A Idade Média esta doente, com a doenca dos indecisos, a do sangue instdvel. Esta doenga marca 0 sé- culo XIII —é¢ a lepra, Ela corréi o stculo XIV—é a peste. A Idade Média tornou-se o longo tunel da abstinéncia, da tristeza, do aborrecimento. Reland Barthes, ainda, define-a bem: «A Idade Média enfastia-se, mantida num estado intermédio entre o sono e a vigilia.» Mas a Idade Média existiu de facto? «F nela que esta o fundo das treyas.» No entanto, nestas trevas, apesar da Igreja, surge uma luz, Satanas, e uma mulher mantém a chama, a feiticeira. Para uma outra Idade Média: a feiticeira luciferiana Sim, no fundo desse desespero, ird surgir uma luz, a luz de Satands, a luz da feiticeira. Surge uma outra Idade Média, a que chamo a Hdade (*) Segundo a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher criada por Devs. ‘Atenas dotou-a com todas as gracas e todos os talentos. Deus ofereceu-Ihe uma caixa maida-s a Epimeteu, o primelro homem, que a desposs, Mas abrethe a caixa fatal-de onde se escapam os bens ¢ os males. S6é fica, no fundo, a esperanga. —W. da T.) 3 ‘Média de 1862, ano em que, de Janeiro a Outubro, Michelet escreveu A Feiticeira, Esta Idade Média € positiva, volta a ser um tempo benéfico. ‘Mas, por estranho desvio, é uma espantosa reviravolita. O que na verdade salva a Idade Média é que ela propria condenou, abafou, martirizou. Esta dade Média ao contrério («a grande revolugdo das feiticeiras, 0 maior passo ao contrdria do espirito medieval...»), Michelet, que a deixa nascer de si em 1862, tem a impressdio de ter sempre tido. Revelag4o, ou tardia reconstrugio, Michelet julga té-la reconhecido desde os seus primeiros passos de historiador. No Herofsmo do Espirito faz recuar A sua Intro- ducdo 4 Histéria Universal, de 1831, a concepgao que tem o par anta- gonico Idade Média —Satanis: «O meu ponto de partida critico, a minha independéncia de espirito esto apontados na Introdugdo @ Histdria Universal, onde acuso a Idade Média de haver, sob o nome de Satanas, perseguido a liberdade a que a Idade Moderna restituiu, enfim, o verda- dgiro nome». Porque sao estas as virtudes de Satanas e da sua criatura, a feiticeita. Slo Virtudes benéficas, impuseram, no seio da Idade Média, a liberdade, a fecundidade. Satands—«nome estranho da liberdace ainda jevem, primeiro militante, negativa, depois criadora cada vez mais fe- cunda.» A feiticeira € «realidade quente ¢ fecunda». Espantosamente, Michelet vé a fecundidade, sobretudo no. nascer das ciéncias modernas, dadas A luz pela feiticeira. Enquanto os clérigos © 0s escolisticos se enterravam num mniunde de imitag&o, de vaidade, de esterilidade, de antinatureza, a feiticeira redescobria o corpo, © espirito, a medicina, as ciéncias naturais: «Vejam também a Idade Média —disse Michelet em A Muther (1859)—a época mais fechada de todas. HE A Mulher, sob o nome de Feiticeira, quem manteye a grande corrente das ciéncias benéficas da natureza...» A Idade Média de 1862 satisfaz, enfim, e plenamente, nao apenas as obsessées existenciais mas também as teorias histéricas de Michelet, E uma Idade Média onde se pode desenvolver o corpo, para o melhor € pira 0 pior, Tempo das doencas e das epidemias, tempo do sangue vital, tempo igualmente do amor e do regresso & vida. Jeanne Fayret obseryou-o bem ¢ afirmou: «Falar de Satands era, talvez, a forma de referir um mal- sestar que se situa algures, na consciéncia ou na sociedade e, antes de tudo, no corpo,» Michelet. pressente-o— mais fortemente que os seus sucessores, historiadores:¢ etndgrafos, folcloristas — quando cnuncia que as trés fungées da feiticeira-se ligam ao corpo: «curar, fazer amar, ressus- citar» (Critique, Abril de 1971). Na verdade, a «grande revolucdo das feiticeiras» € «o que poderfamos chamar a reabilitacio do ventre e das funcdes digestivas. Professaram tardiamente: «nada de impuro nem nada de imundo». O estudo da matéria foi, desde logo, ilimitado, franqueado. Tornou-se possivel a medicina». E o amo da feiticeira, Satanas, é bem o Principe do mundo. De Michelet, disse com justeza Paul Viallaneix: «Satanis torna-se o Prometeu da sua velhice.» Volta a encontrar-se o cardcter excepcional, epifanico, do século XIV. Mas em vez de anunciar 35 @ nagdo, o povo, o Jacques, revela Satanis, o Sabbat, a peste: «0 que so Sucede no século XIV». Na trilogia morbida dos trés tiltimos séculos da Idade Média, o século XIV marca o apogeu do desespero fisico que, somado ao desespero espiritual, da origem a temiceira: «Trés terrivess goipes em trés séculos, No primeiro, a tocante metamorfose do exterior, as doencas de pele, a lepra. No segundo, o mal interior, estranha estimulagdo nervosa, as dangas epslepticas. Ludo se acaima, mas o sangue altera-se, a ulceragiio prepara @ stlulis, © flagelo do século XV.» E mais: «O século XIV oscilou entre tres Magelos: a agita¢do epuépuca, a peste, as ulceragdes,,.» His a grande uniao, o né hisiérico onde Micheret vé a encarnagito da sua concepgao da historia, 0 material e o espiritual conjuntos, o corpo fisico e 0 corpo Social de um mesmo movimento, de uma mesma oscilagao. «Um. processo de foulouse, que, em 1353, mencionou pela primeira vez. a Roda do Sab- bat, indicava-me justamente a data certa. Que h4 de mais natural? A peste negra dizima o globo ¢ “mata um tergo das pessoas”. O papa é privado das suas dignidades. Os senhores, batidos, prisioneiros, espoliam o servo e tiram-Ihe até a camisa. A grande cpilepsia do tempo comeca pela guerra servil, a Jacquerie... Esté-se ti0 furioso que se baila.» Enfeitigado por esta nova modernidade do século XIV, a modernidade satinica, Michelet separa a cristandade satanizada das suas ligagdes histd- ricas e geograficas. Nao segue ja a Antiguidade. A feiticcira nio € «a antiga Magica nem a Vidente céltica e germanica». As bacanais, «pequeno sabbat rural», nfo séo a «missa negra do século XIV, 0 grande desafio solene a Jesus». De resto, quando Michelet chega 4 madrugada luciferiana, Parece j4 nao acreditar na Idade Média, Agora que vio desencadear-se as grandes epidemias, ele volta-se para a morbidez mole dos séculos anteriores e identifica-os com a Idade Média: «As doengas da Idade Média... menos precisas, tinham sido sobretudo a fome, o definhamento © a pobreza do sangue...» O mesmo desinteresse dos outros mundos, o 4rabe ou, mais ampla- mente, o oriental. O sabbat é invengo, criagdo do Ocidente cristiic, «As superstic¢Ses sarracenas, vindas de Espanha ou do Oriente, apenas tiveram influéncia secund4ria, assim como © velho culto romano de Hecate (*) ou Dianon. O grande surto de furor, que ¢ o verdadeiro sentido do sabbat, revela-nos outras coisas...» © desespero ¢ o Ocidente. Eis que Michelet nos propde aquilo a que chamariamos, no nosso calio, uma nova periodizagao. Antes e depois da peste. Certamente que os medievalistas de hoje néo caracterizariam da mesma mancira as duas encarnagées da historia que este limtic cata-tréfico define. Primeiro, mais que um mundo de secura e de estag- nag.o, a bela Idade Média do crescimento é, pelo contrario, um universo @) Divindade infernal, com 3 eabegas ou 3 corpos, —(N, da T.) 36 em movimento, um salto dos homens, ume dilatagdio dos espagos cullti- yados, um jorrar das cidades, uma explosio de monuméntos, um fervilhar de ideias. Depois, ¢ 0 inicio de um longo equilibrio abatido, menos poyoado, menos conquistador, menos ousado, se ssquecermos a expansio fora da Europa, Mas, mesmo quando se tem voniade de mudar de signo, grande corte dos meados do século XIV impde-se cada vez mais para distinguir um mundo ainda preso as suas origens antigas, ligado ao continents eurv-asidtico ¢ até ao africano, de um mundo que, através das convulsGes, se encaminha para a modernidade, uma modernidade que comega no tempo das feiticeiras, iluminado pelas fogueiras de uma grande crise fisica ¢ moral. Regresso a uma Idade Média da infancia A Idade Média que Michelet parece ter abarcado em 1862 tornou-se o fundo do abismo, o «fundo do sofrimento moral» atingido no tempo de S. Luis e de Filipe 0 Belo... Mas niio se poder& suspeitar que o Michelet de velhice, aquele de quem Paul Viallaneix mostrou que, longe de ser um velho em declinio, dominado pela segunda esposa e por obsessbes tornadas senis, vai mais fundo ma filosofia do amor, da harmonia & da unidade que sempre o preocupara— nao podémos suspeitar que este ultimo Michelet esteja pronto a «recuperary a Idade Média? No Prefécio de 1869, que nfo é benevolente para com a Idade Média, ele recorda uma anedata passada no tempo da revolucdo de Julho, em que mostra estar pronto a defender a Idade Média contra alguns dos seus detractores que detesta ainda mais, os saint-simonistas (*): «Numa sessio solene para que fdramos convidados, Quinet e¢ eu, observdmos, com admiragao, nesta religido da banca, um regresso estranho ao que se dizia abolido, Vimos um clérigo e um papa... a velha religiko que diziam combater € que renovavam no que ela tinha dé pior; confissao, direc¢ao, nada af faltava. Os Capuchinhos voltavam, banqueiros, industriais... A suprimir-se a Idade Média, que fosse depressa, Mas roubé-la, parece-me forte. Regressando a casa, num impulso cego ¢ generoso, escrevi uma Palavra viva em favor desse moribunds que pilhavam na agonia...» A verdade € que Michelet se afastava cada vez mais do mundo que via evoluir sob os seus olhos. No avanco da revolugio industrial, «nova rainha do mundo», Michelet vé cada vez mais a corrente violenta da matéria que, longe de se unir ao espirito, o aniquila, «subjuga a energia humana». Quando esta edicio das Obras Completas chegar a Histéria do Século XIX (1870-1873), poderemos melhor compreender a Tazao por que Michelet, embora se esforce por permanecer, como no (*) Escola politica © social chefiada por Claude-Henri, conde de Saint-Simon, filisofo francts nascido em Paris (1760-1825). —(W. da 7.) 7 epilogo da feiticeira, o homem da aurora, do progresso, da esperany sempre A espera de maravilhas e de transfiguracdes, se mantém angustiada perante o universo. mecanizado que tudo submergiu. «Nasci em plena revolugdo territorial e vi o despontar da grande reyolugio industrial» Este é o verdadeiro Terror! B possfvel que, em vez de cvadir-se numa fuga em frente, Michelet seja tentado a voltar-se para a Idade Média da sua juventude que evocaya, em 1833, quase como evocaya o ventre materno e para onde sonhava voltar. Mundo de uma infancia a reencontrar mais tarde, quando a) humanidade, em noyo sobressalto satanico, pedisse contas industria- lizag’io desencantada ¢ se virasse contra a opressdo do crescimento. O homem que eserevia jé em A Mulher (1859); «N&o posso passat sem Deus, © moment&neo eclipse da alta Ideia central escureceu o maravilhoso universo moderno das ciéncias ¢ das descobertass e do qual Paul Viallaneix afirmou: «Quanto mais avanga, menos pode passar se Deus.» Como, para terminar, poderia passar sem a Idade Média? A Idade Média de Michelet: Idade Média para hoje e para amanha? Dei muitas vezés a palayra a Michelet, Como dizer melhor, qu ele fala? Apés haver evocado a indiferenga ou o afastamento que a mai parie dos medievalistas de hoje mostram para com a Idade Média Michelet, tentei mostrar a Idade Média, ou melhor, as Idades Médi de Michelet. Enquanto o fazia, evoquei as ressonancias que este ou aqui aspecto dessas Idades Médias podiam despertar num medievalista nosso tempo. Também—e era essa a minha intengdio — podemos suport que o desdém dos medievalistas vem talvez da ignordncia do texto de: Michelet, de uma prevengao positivista, de um preconceito antiliterario. Pelo contrario, nfo creio chegado 0 momento em que o desconhecimento” da historiografia, o desprezo pela imaginacdo e pelo estilo fariant o bom, historiador. Também nado se trata de negar que o curso da Histéria mudou, que Clio (*) tem, um século apés a morte de Michelet, exigéncias legitimas’ que aquele nfo podia satisfazer. H4 um nivel técnics necessério para © historiador, para o medievalista, do qual Michelet j& nfo pode ser modelo, qualquer que tenha sido, para o seu tempo, a paixdo que mostrow: pelos documentos. Mas se nos colocarmos no campo intelectual e cientl: fico, a Idade Média de Michelet parece-me espantosamente de acordo, (@) Musa da poesia épica e da histéria, que 3¢ representa sentada ou de péy com um rolo de papel ou uma caixa de. livros. —(N. da T.) 38 niio direi com as nossas modas —seria irrisério —, mas com as tendéncias melhor fundamentadas, com as necessidades mais profundas do histo- fiador e, singularmente, do medicvalista. Creio até que a sua ligto de método tem, do mesmo modo, fungdo antidota para determinadas modas ¢ ainda para um papel precursor, de guia, no na perspectiva de ontem, mas para hoje e para amanha. A Idade Média que nos falta ainventars, quer dizer descobrir, depois dele e segundo ele, é uma Idade Média total, que sai de todos os documen- tos possiveis, do direito e da arte, das cartas e dos poemas, do solo e das bibliotecas; que utiliza tudo o que este arsenal combinado das ciéncias humanas — que faltou a Michelet, mas que o seu método. reque- tia —poe hoje 4 disposigao dos medievalistas ainda demasiado divididos entre especialistas de uma histéria particular (a do direito, da arte, da literatura, do resto a que sc chama, em resumo, demasiado em resumo, & histéria), que nao ressuscita apenas fantasmas mas também homens de carne ¢ de espirito, ¢ que no ignora o que o socidlogo, 0 etndlogo, © economista, 0 politélogo, o semidlogo podem trazer 4 sua utensi- lagem mental ¢ cientifica, Ah! Restituamos a palavra a Michelet, reto- memos a Idade Média, ¢restituindo-lhe a carne ¢ o sangue, 0 vestudrio e os ornamentos,,. o adorno da beleza que tevey ¢, porque nao? «também da qt nado teve mas que o tempo lhe conferiu pela perspectiva» — pois que através dessa férmula romintica podemos calcular a nova dimensdo da histéria: a histéria da histéria, ow seja, a perspectiva historiogrifica. Hoje, a histéria 6, ¢ deve ser cada vez mais, manipuladora do algarismo, calculadora, mensuradora. A Idade Média resiste — relativa~ mente —a este ataque quantitativo. Durante muito tempo ela ignorou o elculo, considerando o nimero apenas como simbolo ou como tabu. E bom que as estatisticas, as curvas, os graficos se multipliquem nos. trabalhos dos medievalistas ¢ que o monstro ordenador, como o Leviatan dos timpanos géticos, possa alimentar-se, cada yez mais, de uma Idade Média em fichas, em programas, porque, ao‘contrario daquele, viré uma resposta das suas prtofundezas, para que o medievalista tenha & sua disposigaio as bases mais seguras de uma Idade Média mais autéatica. Porém, o medievalista deve saber que, por enquanto, sé tera em mos um cadaver. Ser-Ihe-d sempre preciso um «ressuscitador», O medievalista devera ser ou esforcar-se por ser Michelet, que lembra que o quantitativo nao chega ¢ que, por muito necessfrio que seja, se situa aquém da histéria. Se é conveniente aplicar ao passado os tiltimos aperfeigoamentos da ciéncia, saiba pois o medievalista remover montdes de algarismos ¢ encontrar uma Idade Média «igual a si prépria», aproximativa, maciga, receando ofender a Deus, atribuindo a Caim a diabdlica invensio dos Desos e medidas. A histéria de uma época no se limita & documentagio sobre que se fundamenta. E € um progresso desde Herédoto ¢, mais ainda, desde Michelet, que a documentagiio se enriquega, que a critica se aper- 39 feicoe, que a sua utilizacio honesta seja Cada vez mais imperiosa. Mag devemos resignar-nos a mio saber tudo, a nunca saber tudo acerca da Idade Média, Seria perigoso sem método pretender encher os vazios, falar das lacunas. Mas, entre uma Antiguidade em que os siléncios da histéria deixam talvez a parte mais bela as hipéteses e os Tempos modernos, esmagades sob o fardo dos documentos, a Idade Média pode ser o tempo do feliz equilfbrio, da frutuosa colaboracio de uma 7 documentagio bem utilizada ¢ de uma Imaginagio bem fundamentada, O direito & imaginacio, para o historiador e, especialmente, para o medie- valista, € ainda Michelet quem nolo ensina. E como explicar, como) fazer reviver uma época que pela imaginagio soube erguer sobre ag suas caréncias e fraquezas uma tao grande civilizagdo do sonho, se nao recorrermos as virtudes da imaginagio? As Cruzadas desmoronam-se ao apelo de uma Jerusalém imaginaria. Como torné-las compreenstveis sem as imaginar a partir, mas também para 14 dos textos ¢ dos monumen-_ tos? © homem da Idade Média, os homens da Idade Média, mesmo aqueles que nada tinham de mistico, foram peregrinos, caminhantes— homo viator. Como poderiam os burocratas da erudi¢io, of «mangas de alpacas da «medievalfsticay acompanhar aqueles que estavam sempre a caminho? Apés Michelet, a ardlise das sociedades tornou-se mais metédica, Quer se procure com Marx as classes ¢ 0 mecanismo da sua luta, com os sociédlogos modernos a estrutura e o jogo das categorias socioprofis- Sionais, com certos historiadores um sistema de ordens e de estados, conseguiremos analisar mais eficazmente, recorrendo com facilidade a0 singular colectivo, aqueles que Michelet chamava o nobre, o clero, © servo, o Jacques e, sempre fevado por uma visdo global, misturaya | com-a Cruzada, a comuna ou o Sabbat. Que, sobretudo, misturava com © povo. Palavra vaga, pouco do agrado dos historiadores, mesmo 08” menos eivados de sociologia. E, no entanto, descobrimes hoje a reelidade e © peso histérico de agentes sociais de contornos mal definidos: 93 jovens, as massas, a opiniao piblica, o povo. Aqui, Michelet é filho do. seu século. «Filho do povoy: na verdade, isto € mais nitido no século XIX. Nao o seri também para a Idade Média? Populus € © povo dos fitis, © povo de Deus, o povo simplesmente. Nao renunciamos, pois, & andlise | minuciosa de uma rede sociolégica mais moderna, mais «cientifica®; mas nfo esquecamos que ¢ preciso agarrar nas suas préprias malhas” também as sociedades do passado. Desta feita, Michelet, para quem” © povo conta mais antes de tudo, sentira-se A vontade na Idade Média ajuda-nos pois a encontrar, se no a realidade social, pelo menos &” imagem de uma época desta mesma realidade. Mas Michelet, sondando” © popular, vai mais longe ¢ mais perto. Até esse mundo da cultura” popular, 0 mundo do Outro, para o qual os etndlegos nos ensinam hoje” a estar atentos—as sociedades chamadas «hist6ricasy. Escutemo-lo: «A Idade Média, com os seus escribas. todos eclesidsticas, nao foge a come fessar as mudangas profundas e mudas do espirito popular.» Nas nossas sociedades «quentes», em que época, melhor que a Idade ia, conseguimos agarrar o fenémeno essencial deste didlogo diferente, feito de pressGes ¢ represses, de didivas ¢ de recusas, que a cultura emudita e a cultura popular mantiveram durante dez séculos, tempo em ¢ s¢ defrontaram os santos e os dragées, Jesus e Merlin, Joana d'Are Mclusina (*)? Se Keith Thomas tem razio, o grande éxito do cristia- nismo medieval teria sido a integragdo parcial, mas conseguida, da crenga popular na fé dos religiosos. Quando a simbiose se rompeu, surgiu o sabbat € a Inquisicgao. Mais tarde que no século XIV, como fenémeno de massas, conforme pensava Michelet. Porém a hipétese documentada éa mesma. Ngo o foi até a famosa verificagio do fracasso de Michelet que fez dele um homem, um sdbio, de hoje: «Nasci povo, tinha 6 povo no coracdo... Mas a sua lingua era-me inacessivel. N&o consegui enten- dé-lo.» Confissio gue faz de Michelet, segundo Barthes, «o primeiro autor da modernidade, que sé conseguiu cantar a palavra impossivel». Mas cle que também nos adyerte de que um discurso sobre o povo nio €0 discurso do povo. Aquele que nos convida pois a procurar paciente- mente, inspirando-nos nos etndélogos do Outro, a encontrarmos um método. para fazer falar os siléncios ¢ os silenciosos da histéria. Michelet foi © primeiro historiador dos siléncios da histéria, num fracasso profético mas esclarecedor, Avangando pelos siléncios da historia, Michelet descobriu uma Idade das margens, da periferia, da excentricidade que pode e deve ins- Pirar ainda o medievalista de hoje. «E o facto de a Idade Média pér sempre €m primeiro lugar o muito alto ou o muito baixo» —escreveu. E, ao fazé- lo, encontrou —¢ explicou, mesmo que nao retenhamos as suas explica- sbes — Deus ¢ Satands, a feiticeira e a santa, a ogiva ¢ a lepra. Como um Michel de Certezu que pela teoria dos desvios penetra no amago das ‘Sotiedades através das exclustes, ele encontrowse no centro da Made Média. Nao devemos esquecer que para ele a situagdo em 1862 era inversa e que o mais baixe se revelou mais fecundo que o mais alto. Uma Idade Média as avessas, qual visio fecunda de uma época que ‘ tou a roda da sorte, 0 pais de Cocagne (**), e professou, se néo- aplicou, que «todo o que se levanta cai e o que cai serd levantado»! Mas sobretudo, quantos caminhos tracados aos medievalistas cada vez Mais Humerosos que procuram, para s¢ aproximar da realidade medieval, @s desyios Iuminosos da heresia ¢ da gafaria! Resta uma derradeira relagio entre Michelet ¢ a Idade Média, Me que o aproxima, nio somente dos medieyalistas hodiermos, mas Me muitos homens das nossas sociedades «desenvolvidas». Oque na Idade ee dos romances de cavalaria. — (N. da T.) ? = (N. da 7. P, () Pais onde tudo ¢ abundanciz, onde a vida 6 facil e agraddvel. —(N. da T.) 40 41 Média atraia Michelet era o facto de ele ai encontrar a sua infa a matriz materna; mas, achando-a outra, longinqua, chega a ser por um momento seu inimigo, Ora o interesse que tantos homens m militas vezes se cristaliza num gosto ou numa paixdo pela Idade Médij parece-me provir dessa dupla atraccéo por uma e pela outra. Perant © que se tornou banal chamar a aceleragdo da historia, os homens do nosso tempo habituaram-se a perder o contacto com as suas origens ¢ tornaram-se 6rfaios do passado. Mas o que os atrai para esse passad € tanto a familiaridade melancélica com um mundo conhecido qué esto prestes a perder, como ainda o exotismo, o estranho de um universo qu se afasta demasiado depressa e nos oferece uma infancia de primitivos, Os encantos que a Idade Média exerce em Michelet, ¢ em nés, é um «nds, criangas» e ao mesmo tempo «o outro». Michelet, numa fri célebre, fez da sua Histéria de Franca uma autobiografia: «Met fntimo: simplificar, biografar a historia como se se tratasse de um homem, como se fosse eu. Tacito, em Roma, sd se via a si mesmo ¢ no entanto, era Roma.» Do mesmo modo, Flaubert afirmava: «Madame de Boya sou cu», Michelet poderia dizer: «A Histéria da Franca sou eu», Nesta histéria, em definitivo, através do édio e do amor, o qu foi mais ele prdéprio foi a Idade Média, essa Idade Média com a qi coabitou toda a vida, lutou e viveu. Esta autobiografia tornou-se a no biografia colectiva. Esta [dade Média somos nés ¢ € ele, 42 NA IDADE MEDIA: TEMPO DA IGREJA E TEMPO DO MERCADOR © mercador nao foi tio comummente desprezado na Idade Média como se tem dito, especialmente na sequéncia de Henri Pirenne que, neste aspecto, se fiou em textos, sobretudo tedricos(*). Acontece que, se bem cedo a Igreja protegeu ¢ favoreceu o mercador, & também certo que por muito tempo deixou pesar graves suspeitas sobre a legi- timidade de aspectos essenciais da sua actividade. Alguns destes aspec- tos influfram profundamente na visio que o homem da Idade Média tinha do mundo, melhor dizendo (para nfo sacrificar 0 mito de um individuo colectivo abstracto), que tinham entre os séculos XII e XV no Ocidente certas pessoas que possufam cultura e utensilagem mental suficiente para poderem reflectir nos problemas profissionais € suas ineidéncias sociais, morais e religiosas. No primeiro plano destas acusagdes feitas aos mercadores, figura a de que o seu ganho pressupde uma hipoteca sobre um tempo que 86 % Deus pertence, Vejamos, por exemplo, o que um Ieitor-geral da Ordem franciscana escreveu numa questio disputada nos primeiros anos do século XIV: «Questio: podem os mercadores, pata um mesmo negdcio, fazer pagar mais aquele que nado pagar imediatamente do que aquele que paga logo? A resposta argumentada é¢: nfo, porque assim estava @ vender tempo © cometeria usura, vendendo o que nao the pertence.» () () Cf, nomeadamente H. Pirenne, Histoire économique de I’Occident médiéval (recotha pdstuma, 1951), p. 169. _Ms. Flor. Biblioteca Laurent. $. Croce Plut. VII, sin. 8, £* 351. Cf. Guillaume d’Auxerre (1160-1229), Summa aurea, TIT, 21, £.8 225 Vs «O usurdrio age contra a lei natural universal, porque vende o t¢mpo, que & comum a todas as criaturas. Agostinho diz que toda a criatura € Obrigada a fazer dom de si mesma; o sol € obrigado a fazer dom de si para ar; também a terra & obrigada a fazer dom de tudo o que pode Produzir, assim como a agua. Mas nada é dom de si de mancira mais 43 Antes de clarificar a concepcio do tempo que se oculta por detras deste argumento, conyém sublinhar a importancia do problema. Toda a vida econémica no dealbar do capitalismo comercial € posta em causa. Recusar um beneficio sobre o tempo, ver nisso um dos vicios fundamentais da usura 6, nao s6 atacar o interesse no seu principio, mas ainda arruinar toda a possibilidade de desenvolvimento do crédito. Ao tempo do mercador, que é condicaio primordial do ganho, uma vez que quem tem dinheiro pensa tirar proveito da espera do reembolso de quem 0 nfo tem A sua imediata disposigfio, pois o mercador fundamenta a sua actividade em hipéteses em gue o tempo funciona como a propria trama — armazenamento prevendo fomes, compra ¢ revenda nos momen- tos favordveis, deduzidos do conhecimento da conjuntura econémica, das constantes do mercado dos géneros e do dinheiro, 0 que implica toda uma rede de informacées e de correios (*), a esse tempo opéde-se © tempo da Igreja, tempo que s6 pertence a Deus ¢ nfo pode ser objecto de lucro. Na verdade, € 0 mesmo problema que neste momento de mudanca essencial da histéria do Ocidente se poe de forma tio aguda, a propésito do ensino; pode cle vender a ciéncia que, também, conforme lembrou conforme com a natureza do que o tempo; queiram ou nio, as coisas possuem tempo, Por isso o usurfrio vende o que necessariamente pertence a todas as criaturas, lesa todas as criaturas em geral, até as pedras, de onde se conclui que, mesmo que os homens se calem perante os usurarios, as pedras gritariam, se pudessem; e esta é uma das raz6es por que a Igreja persegue os usurarios. De onde se conclui que € especialmente contra eles que Deus disse: «Quando me reapossar do tempo, isto ¢, quando o tempo estiver na minha mio de mancira que um usurario nao o possa vender, entio julgarei conforme a Justica.» Citado por John T, Nooman Jn, The scolastic Analysis of Usury, 1957, pp. 43-44, que sublinha ser Guillaume d'Auxerre © primeiro a formular este argumento que o papa Inocéncio TV retoma (Aparatus, V, 39, 48; V, 19, 6). Em finais do século XIII, 0 autor da Tabula exemplorum (ed. J. T. Welter, 1926, p. 139) desenvelve: «Como os usurarios s6 vendem a esperanca do dinheiro, quer dizer o tempo, eles yendem o dia e a noite, Mas o dia € o tempo da luz € a noite o tempo do repouso; por isso eles vendem a luz ¢ o repouso. Por isso, nao seria justo que gozassem da luz e do repouso eternos.» Cf. também Duns Scot, em IV libros sententiarum (Op. Oxon), LV, 15; 2, 17. () Encontramos os dados mais preciosos em Giovanni di Antonio da Uzzano, La pratica della mercatura, ed. G. F. Pagnini Della Ventura, t. IV da Della Decima.., 1766, assim como ¢m El Libro di mercantantie e usanze de'paesi, ed. Borlandi, 1936, Nele encontramos, por exemplo: «Em Génova, o dinheiro é caro em Setembro, Janeiro e Abril, por causa da partida dos barcos... em Roma, onde vive 0 papa que faz subir o preco do dinheiro por todo o lado onde se encontra ... em Valenca é caro em Jutho e em Agosto por causa do trigo e do arroz,.., em Montpellier ha trés feiras que provocam grande subida do dinheiro». Citado por J. Le Goff, Marchands ert banquiers du Moyen Age, 1956, p. 30, Para as especulagées a partir da rapidez das informagoes, cf. P. Sardella, Nouvelles et speculations @ Venise au début du XVI" siécle, 1949, 44 §. Bernardo com a sua habitual energia, so pertence a Deus(*)? Poe-se pois, aqui, em causa todo o processo de laicizagio dos dominios humanos capitais, dos préprics fundamentos e quadros da actividade humana: tempo de trabalho, dados da produgio intelectual e econémica, Sem diivida, a Igreja faz um grande esforgo para salvar uma situagdo comprometida. Primeiro aceita, cedo favorece a evolucdo histé- rica das estruturas econdémicas ¢ profissionais, Mas a elaboracdo teérica a nivel canénico ou teolégico desta adaptacio faz-se lentamente, difi- cilmente. O conflito entre o tempo da Igreja e o tempo dos mercadores afir- ma-se pois em plena Idade Média, como um dos acontecimentos maiores da historia mental destes séculos, durante os quais se elabora a ideologia do mundo moderno, sob a pressdo da alteracéo das estruturas ¢ das praticas econdémicas. Gostariamos de definir, aqui, os seus dados mais importantes. 1 Muitas vezes se afirmou que o cristianismo havia fundamentalmente renovado o problema do tempo e da histéria. O clero medieval, instruido nas Sagradas Escrituras, habituado a tomar a Biblia como ponto de partida da sua reflexdo, considerou o tempo ‘a partir dos textos biblicos ¢ da twadigao legada, além do Livro Santo, pelo cristianismo primitive, os Pais @ os exegetas da Alta Idade Média. O tempo da Biblia ¢ do cristianismo primitivo ¢, antes de mais, um tempo teolégico, «Comega com Deus» ¢ € «dominado por Ele», Por consequéncia, a acca divina, na sua totalidade, esta tio naturalmente ligada ao tempo que este nao poderia constituir um problema; é, pelo con- trario, condig¢ao necessdria ¢ natural de todo o acto «divino». Oscar Cull- mann, que citamos, tem sem divida razdo ao afirmar, contra Gerhard De- lling, que o cristianismo primitive esta proximo do judaismo neste aspecto € que nao provocou uma «irrupgao da eternidade no tempo que, assim, teria sido “vencido”»(*). Para os primeiro cristos, a eternidade nao Se opGe ao tempo, nem é, como por exemplo para Plato, a «auséncia de tempo», Para cles, a eternidade nao passa da dilatagio do tempo até ao infinito, a «sucessio infinita dos “aiones*», para retomar um termo (‘) Cfr. G, Post, K. Giocarinis, R. Kay, The medieval heritage of a Humani Ideal: «Scientia donum Dei est, unde vendi non potest, em Traditio, TI (1955), pp. 196-234, ¢ J, Le Goff, Les Intellectuels au Moyen Age, 1957, p. 104 e sgs, () _O: Culmann, Temps et histoire dans le christianisme primitif, 1947, Dp. 35. Gerhard Delling, Das Zeitversitindnis des Neuen Testaments, 1940, cit. ibidem, p. 35, nota 3. 45 do Novo Testamento, tanto «espagos de tempo delimitados com precision como uma duraco ilimitada e incalculavel (*). Voltaremos a esta nogio de tempo quando for necessario opé-la A tradigdéo herdada do helenismo. Nesta perspectiva, entre o tempo € a eternidade hd, pois; uma diferenga quantitativa e nao qualitativa. Q Noyo Testamento traz, ou define, em relapdo 20 pensamento judaico, um novo dado, O aparecimento do Cristo, a realizagdo da promessa ¢ a Encarnagdo dao ao tempo uma dimensio hist6rica, ou melhor, um centro. A partir dai, «desde a criagdo até Cristo, toda a histéria do passado, tal como é relatada no Antigo Testamento, passa a fazer parte da histéria da Salvagio» (’). Hi contudo, aqui, um compromisso ambiguo. Para os cristios, como para os judeus, 0 tempo tem um fim, um «/elos». A Encarnacao € ja um acontecimento decisivo, sob este aspecio. «O Futuro jA nado &, como no judaismo, o “telos’ que confere um sentido a toda a historia.» (*) A escatologia situa-se numa perspectiva nova, em certo sentido é secun- daria, pertence também, paradoxalmente, ao passado, uma vez que Cristo, em certa medida, a aboliu com a certeza que trouxe da salvagio. Mas trata-se de completar o que Cristo, uma yez por todas, principiou. A Parusia nfo 6 foi prefigurada no dia do Pentecostes; jé principiara —e deve ser acabada com o auailio da Igreja, clérigos e laicos, apéstolos, santos e pecadores. O «dever missiondrio da Igreja, a prédica do Evan- gelho, dé ao tempo compreendido entre a ressurreicdo e a parusia © seu sentido na histéria da salyagao»("). Cristo trouxe a certeza da possibilidade da salvagdo, mas resta & histéria colectiva e a histéria individual realizé-la para todos ¢ para cada um. Por tal facto, o cristao deve, a0 mesmo tempo, renunciar ao mundo, que € apenas a sua morada transitéria © optar por ele, aceitd-lo e transform4-lo, ja que € 0 suporte da histéria actual da salvacio. Oscar Cullmann oferece, a este propésito, uma interpretagio muito convincente de uma passagem dificil de S. Paulo (Ll Cor. 7-30 ss.) (), Antes de o voltarmos a encontrar num contexte medieval concreto, sublinhemos que o problema do fim dos tempos ira pér-se como um dos aspectos essenciais da nogio de tempo, nessa grande viragem dos séculos XI e XI, em que se afirma também, em determinados grupos sociais—entre os quais encontramos os mercadores—, 0 renascimento de heresias escatolégicas (*), um crescimento do milenarismo em que s¢ ) O, Cullmann, op. cit., p. 32. (’) Ibidem, p. 93. (°) Tbidem, p. 98, (@) Ibidem, p. 111. Gs Ibidem, p. 152. (") Referentes As lendas e doutrinas respeitantes ao destino do homem, apés 4 sua morte. —(N. da T.) 46 envolyem profundamente, ao mesmo tempo. que o destino individual, jneonscientes reaccOes de classe. Historia a fazer, esclareceré. o joaqui- nismo(*) € tantos outros movimentos reyolucionirios, para a alma como 0 estatuto econémico. Nesta época, o Apocalipse nio é uma brincadeira de grupos ou de individucs desajustados, mas sim a esperanga, o alimento de grupos oprimidos e de gente esfomeada. Os cavaleiros do Apocalipse de S. Joao, como se sabe, sio quatro: trés deles representam as «chagas¥, as calamidades terrestres —fomes, epidemias, guerras— mas o primeiro partiu como vencedor & conquista da vitéria. Se, para S. Jofo, este representa 0 Missiondrio da Palavra, para as massas medievais ele € 0 guia para uma dupla vitéria, na terra como no ctu (“). Aliviado da carga explosiva do milenarismo, este tempo biblico € legado aos ortodoxos, no principio do século XII. Ingtalou-se na eterni- dade, & parte da eternidade. Como se tem dito, «para 0 cristio da Idade Média... sentir que existe € sentir que é ¢ sentir que é equi- yale a sentir que nao mudou, que nao sucedeu a si mesmo, é sentir que subsiste... A sua tendéncia para o nada (habirudo ad nihil) compen- sava-se com a tendéncia oposta, a tendéncia para a causa primeira (habi- tudo ad causam primam)». Este tempo é, por outro lado, linear, tem um sentido, uma direceao, tende para Deus. «O tempo levava, por fim, o cristio para Deus.» (#) (*) Joaquim de Fiore (1130-1202) a quem se atribuem profecias. —(N, da 7.) () Sobre o milenarismo Ray C. Petry, Christian Eschatology and Social Thought. A historical essay on the social implications of some selected aspects in christian eschatology to a. @. 1500, 1956, permanece tedrico, Podemos também consultar E. Waldstein, Die eschatologische Meengruppe: Antechrist, Weltsabbat, Weltende und Weltgeschichte, 1896, mesmo Tommaso Malvenda, De Aniichristo, Roma, 1604, 3." ed., 1647. Gordon Leff opés problemas de historiador («In search of Millenium», Past and Present, 1958, pp. 89-95) ao trabalho abstracto de Norman Cohn, The Pursuite of the Millenium, 1957, trad. france. Les fanatiques de V'Apocalypse, Paris, 1962. —Sobre as relagoes entre heresias medievais © classes sociais divergem os pontos de vista. Os aspectas sociais sio minimi- zados pelo P. Marino da Milano, Le eresie popolari del secolo XI nell Europa occidentale (Studi greg. raccolti da G. B. Borina, U, 1947, pp. 43-101) e A. Borst, Die Katharer, 1953. Em sentido inyerso: G. Volpe, Movimenti religiosi e sette ereticali nella societa medievale italiana, 1922, ¢ as interpretacdes marxistas de N. Sidorova, «Les mouvements hérétiques populaires en France aux XI-XII siécles» (em russo) na Srednie Veka (A dade Média), 1953, e E. Werner, Die gesellschaftlichen Grundlagen der Klosterreform im I. Jahrhundert, 1955. Sintese de R. Morghen em Medievo Cristiano, 1951, pp. 212.ss, ¢ nas Relazioni do X Congresso Internacional das Ciéncias Histéricas, Roma, 1955, t. TI, pp. 333 ss. Sugestivo ensaio de Charles P, Bru, «Sociologie du catharisme occitan», em. qptmalte de i'hdrésie: le Catharisme, 1 vol. sob a direccdo de R. Nelli, 53. () G. Poulet, Etmdes sur le temps humain, 1949. 47 Nio ¢ altura para evocarmos agora, na sua complexidade ¢ nas suas) articulag6es multiplas, esse «grande corte que se deu no século XI, um dos mais profundos que jamais marcatam a evolugao das sociedades europeias» ("*), A aceleragao da economia, capital, serd especificada quando voltarmos ao mercador. Deixemos apenas perceber, a partir de agora, de que forma o desmoronar das estruturas mentais abre fendas nas formas tradicionais do pensamento: por elas se introduzirio e reper cutirio as caréncias espirituais ligadas As novas condigdes econdémicas © sociais. Nao deixa dividas de que o desaparecimento do Império Romano, a barbarizagio do Ocidente ¢, em menor grau, as restauragdes imperiais carolingia e depois otoniana, haviam suscitado uma reflexio sobre a histéria € o cristianismo inserira-se numa evolugdo histérica que, embora dominada, para os scus adeptos, pela Providéncia e ordenada para a Salvacdo, devia apelar, a fim de se esclarecer, para as explicagdes das causes segundas, estruturais ou contingenies. Infelizmente pars a reflexio histérica, as interpretag6es agostinianas haviam-se empobrecido ¢ defor mado no decurso da Alta Idade Média. Para Santo Agostinho, o tempo da historia, para retomarmos um termo feliz de Henri Marrou, conserva uma «ambivalénciay em que, no ambito da eternidade e subordinados & acgio da Providéncia, os homens dominavam o seu proprio destino, assim como o da Humanidade (**). Porém, conforme demonstraram Bern- heim e Arquilliére ("), as grandes ideias do De civitate Dei, onde as anilises histéricas so ecd dos progressos teolégicos, esvaziam-se da histe~ ticidade com o agostinianismo politico, de Gelasio(**) a Gregério, 2 Grande, e a Hincmar(**). A sociedade feudal, na qual se imerge a Tgreja, do século IX até ao século XI, faz deter a reflexio historica e parece até suspender a tempo da histéria ou, pelo menos, assimila-lo A historia da Igreja. No século XII, ainda, Otio de Freising, tio de Frederico Barba-Ruiva, escreve: «A partir de entéo (Constantino), dado que nao s6 todos os homens, como até os imperadores (com poucas excep= ges), foram catélicos, parece-me ter eu escrito a histéria nado de duas ae M. Bloch em Annales d'histoire économique et sociale, 1936, Pp. re 5 () H. 1. Marrou, L’Ambivalence du temps de l'histoire chez saint Augustin, 1950, Sobre o tempo em Santo Agostinho consultar: Augusitinus Magister, Congresso internacional augustiniano. Paris, 21-24 de Setembro de 1954, 3 vol., 1955: J. Chaix-Ruy, La cité de Dieu et la structure du temps chez saint Augustin, pp. 923-931; R. Gillet, O.S.B., Temps et exem- plarisme chez saint Augustin, pp. 933-941; J. Hubaux, Saint Augustin et la erise cyclique, pp. 943-950. (*) E. Bernheim, Mittelalterliche Zeitanschauung in ihrem Einfluss auf Politik und Geschichisschreibung, 1918; H. X. Arquillitre, L'Augusti- nisme politique, 1934. (*). Foi papa de 492 a 496.—(N. da T.) (**) Arcebispo de Reims (806 2 882). Desempenhou papel relevante no tempo de Carlos, 0 Calvo. —(N. dz T.) 48 _ eidades, mas por assim dizer de uma cidade 36, a que chamo Igreja.» Qutra negacdo da histéria, feita pela sociedade feudal, é a epopeia, a cangio de gesta, que apenas utiliza os elementos histéricos para os despojar, no dmbito de um ideal intemporal, de toda a historicidade ('*). M. D. Chenu acaba de demonstrar brilhantemente como, durante 0 século XII, foi fortemente abalado o tradicional panorama do pensamento eristao sobre o tempo e a histdria (”), Sem divida, as escolas urbanas sé representam aqui um papel se- cundario € Chenu nota «que os mestres escoldsticos quase nao utilizam os grandes textos histéricos do De Civitate Dei os quais, pelo cantrario, gervem de meditagdo aos escritores mondsticos», © Antigo Testamento sem divida domina ainda os espiritos e opoe, a uma conceprdo maleavel do tempo, o duplo obstaculo da visio judaica de uma eternidade estatica ¢ de um simbolismo que, sistemztizado em método de investigac¢io e de explicagiio, para 14 do paralelismo Antigo- -Novo Testamento, faz esboroar toda a realidade concreta do tempo da histéria ("'). Porém, a histéria, em bases modestas, ressurge com Hugues de Saint- -Victor que da, no seu Didascalion, grande relevo a «histériay, A sua definigZo «historia est rerum gestarum narratioy nao mais faz do que retomar a definigdo que Isidoro de Sevilha tirou dos grandes gramaticos latinos, comentadores de Virgilio, Mas, expriminda-se numa «series marra- tionis», cla representa «uma sucessio, e sucessio organizada, uma con- tinuidade articulada, cujos ¢los tém um sentido que €, precisamente, () Cfr. P. Rousset, «La conception de Phistoire a l'époque féedale», em Mélanges alphen, pp. 623-633: «Faltava aos homens da época feudal a nogdo de duracao, de precisdo» (p. 629); Ko gosto pelo passado e a necessidade de fixarem as épocas fazem-se acompanhar por uma vontade de ignorar o tempo» (p. 630); «no infcio da Cruzada explode este mesmo sentimento; os cavaleiras desejam, ao suprimirem o tempo e © espaco, Me te ee de Gee (p. 631). O autor faz-se eco de M. Bloch percebeu, na ¢poca feudal, «uma vasta indiferenca pelo tempo» (La Société jéodale, t. I, p. 119). — Sobre Otao de Tocle: cfr. H. M. Klin- kerberg, «Der Sinn der Chronik Ottos yon Freising», em Aus Mittelalter und Neuzeit, Gerhard Kullen zum 70 Geburtstag dargebracht, 1957, 63-76. v7). M.-D. Chenu, «Conscience de !’histoire et théologie», em Archives d'Histoire doctrinale et littéraire du Moyen Age, 1954, pp. 107-133; reto- mado em La Théologie au XII" siécle, 1957, pp. 62-89, Recordemos E, Gil- son, L'Esprit de ia philosophie médiévale, 2* ed., 1948, cap. XIX: «Le Moyen Age et I'Histoiren, pp. 365-382. Sobre dois «historiadores» do séc. XI], cfr. R. Daly, «Peter Comestor, Master of Histories», em Speculum, 1957, pp. 62-72 e H. Wolter, Ordericus Vitalis. Ein Beitrag zur Kluniazensischen Geschichtsschreibung, 1955. ) M.-D. Chenu, obra citada, pp. 210-220: «L'Ancien Testament dans la théologie médiévale». A obra de B. Smalley, The Study of the Bible in the Middle Ages, 1940, 2." ed., 1952, € fundamental. O aspecto simbélico do Pensamento cristéo no século XII foi apresentado por M. M. Davy, Essai sur la Symbolique romane, 1955, que so yaloriza o lado mais tradi- Cional da teologia do século XII, 49 objecto de inteligibilidade da historia; nao sio ideias platénicas, iniciativas de Deus, factos de Salvagio» (**). Esta histéria vai buscar aos Antigos—e A Biblia—a teoria idades, perfodos que reproduzem, para a maioria dos clérigos historiadores,, ‘os seis dias da Criagdio —outro acontecimento sobre que os tedlogos século XII aprofundam a sua reflexio e cujo exame nos Jevaria muito longe. Mas a sexta idade, aquela a que a humanidade chegou, pe j4 oF seus problemas: num paralelismo vulgar com as seis idades da existéncia humana, cla representa a época da velhice. Ora, no século XII, muitoy. homens, muitos clérigos, sentem-se «modernosr, «Como integrar nel © desenrolar moderno que ndo parece prestes a terminar?» (*) Classifi= cacio, instrumento de ordenaglio ¢ possibilidade de articulagbes, yisio da historia € j4 motivo de inquictagiio e de pesquisa. Surge igualmente a ideia de que a histéria € feita de transferéncia Historia das civilizagdes, ela é uma sequéncia de «translagdesy. Desta nogito de «translation conhecem-se bem dois aspectos: na ordem intelect é a teoria segundo a qual a ciéncia passou de Atenas para Roma, depois: pata a Franca e, enfim, para Paris onde das escolas urbanas nascet a mais célebre universidade: «translatio studi» que Alcufno julgara pod j& assinalar na época carolingia(“)—de forma mais generalizada, historiadores pensam assistir a um movimento da civilizacio de | para ceste. Os: nacionalismos nascentes deté-Ja-o em certos palses d eleigfo: Ot&o de Freising, no Império Germanico, Orderic Vital, nos Normandos; ¢, no século XIV, Richard de Bury na Gri-Bretanha (*), Todas estas pseudo-explicagées (0 nosso século conheceu outras, desde Spengler a Toynbee) sio significativas. Em todo o caso, elas garantem a ligagio entre © sentido do tempo e o sentido do espacgo, novidade mais revolucion4ria do que a prinefpio parece ¢ cuja importancia € grandé para © mercador. No Polyeraticus de Joao de Salisbury, afirma-se um esbogo de economia politica positiva: «Faz adivinhar a evolugZo que... proclamara a autonomia das formas da natureza, dos métodos do espirito, das leis da) sociedade... Vai além do moralismo dos wespelhos de principes» para deli- near uma ciéncia do poder, num Bstado concebido como corpo abjectivo, | numa administragio mais a base de funces que de homenagens feudais (*). | Facto significativo: na sua concepgio organicista de Estado confere | (°) M.D. Chenu, obra citada, pp. 66-67. ey foe 76. 5 (@) Cfr, E.’Gilson, Les Idées et les lettres, p. 183 ¢ segs. ¢ P. Renuci L'Aventure de Vhumanisme européen au Moyen Age, p. 128 © seg. «translatio studii» franco-italiana. (@) M.D, Chenu, obra citada, pp. 79-80. () Tbid.. p. 86. 50 geste, como pés que aguentam todo o corpo e lhe permitem caminhar, os trabalhadores. rurais ¢ © mundo dos offcios (*). Big E o mercador? O mercador torna-se uma personagem de operagies complexas & prolongadas no espaco haaseatico e, mais ainda, no espago mediterranico, onde domina 9 mercador italiano, cujas técnicas se aper- feiyoam € cujos tentaculos se estendem desde a China, aonde chega Marco Polo, até Bruges e Londres, onde sz instalam e estabelecem og seus COrretores (**). _Da mesma forma que o camponés, 0 mercador esté submetido, na sua actividade profissional, em primeiro lugar ao tempo meteorologico, ao ciclo das estages, 4 imprevisibilidade das intempéries e dos cataclismos naturais. Neste aspecto, ¢ durante muito tempo, ele sé necessitou de submissdo & ordem da natureza ¢ de Deus ¢ s6 teve, como meio de ac¢’o, a oragdo e as praticas supersticiosas. Mas quando se organiza uma rede comercial, © tempo torna-se objecto de medida. A demora de uma viagem, por mar ou por terra, de um lugar para outro, o problema dos pregos que, no decorrer de uma mesma operagio comercial, ¢ mais ainda quando o Circuito se complica, sobem ou descem, aumeatam ou diminuem os lucros, a duragao do trabalho artesanal ou operdrio (o mercador é também quase sempre um dador de trabalho) — tudo isto se impbe cada vez mais a sua atengdo © se torna objecto de regulamentagdo cada vez mais minuciosa. O recomeco da cunhagem do ouro, a multiplicago dos sinais monetarios. a complicagao das operagSes de troca que resultam tanto desta espécie de bimetalismo como da diversidade das moedas reais‘ e des flutuagdes nascentes, que criam nao apenas a variagio do curso comercial do dinheiro, mas também os primciros «sobressaltos» monetarios, quer dizer, as primeiras medidas inflaccionistas, e mais raramente deflaccionistas— todo este alargamento do dominio menetario exige um tempo mais bem medido (“). O dominio do cambio, no momento em que a aristocracia @) Cfr. H. Liebeschutz, Medieval Humanism i i iti of John of Salisbury, 1950. ene eee 4.) Sobre o mercador medieval, ver em Y. Renouard, Les Hommes @affaires italiens du Moyen Age, 1949; A. Sapori, Le Marchand Italien eu Mores Age, 1952; J. Le Goff, Marehands et banquiers du Moyen Age, __C) Sobre os problemas monetérios na Idade Média, M. Blech, Es quisse d'une histoire monétaire de i’ Europe (péstuma, 1954); C, M. Cipolla, Money, Prices and Civilization in the Mediterranean World, ¥ to X VAI o 1956. T. Zerbi, Moneta effetiva e moneta di conto nelle fonti contabili it storia economica, 1955; R. 8, Lopez, Settecenta anni fa: It riterno all’cro nell’Occidente duecentesco, 1955, 51 dos cambistas sucede & dos moedeiros da Alta dade Média, pref © tempo da Bolsa, onde minutos e segundos fario e desfarao for : Os estatutos das corporagées, bem como os documentos propriamente. comerciais — contabilidade, relagdes de viagens, praticas comerciais (*), ¢ as letras de c&émbio(") que comecam a difundirse nas feiras de} Champagne, tornadas nos séculos XII e XII o «clearing-house» (*) do” comércio internacional (")— tudo, indica que a justa medigdo do tempo” interessa, cada vez mais, ao bom andamento dos negécios. Para o mercador, 0 meio teenoldgico sobrepde um tempo novo mensurdvel, quer dizer, orientado ¢ previsivel, ao tempo eternamente recomecado ¢ perpetuamente imprevisivel do meio natural. Vejamos, entre outros, um texto esclarecedor("). O governador real) de Artois autoriza, em 1355, as pessoas de Aire-sur-la-Lys a construir uma” torre cujos sinos tocassem ds horas das transacgdes comerciais e do trabalho dos operdrios téxteis. A utilizagdo, para fins profissionais, de uma nova medida do tempo ¢ ai fortemente sublinhada, Instrumento uma classe, «pois a dita cidade é governada pela profissdo téxtil», da também ocasifio para se perceber quanta a evolugdo das estruturas mental ¢ das suas expressdes materiais se insere profundamente no mecanismo da luta de classes—o relégio comunal é um instrumento de dominio econémico, social ¢ politico dos mercadores que governam a comuna, E, para os servir, apareceu a necessidade de uma rigorosa meédigio do tempo, porque na industria téxtil «convém que a maioria dos operdrios: jornaleiros —o proletariado téxtil— v4 ¢ venha para o trabalho, a horas” fixas». Primérdios da organizagdo do trabalho, prentincio longinquo do. taylorismo (**), que Georges Friedmann mostrou ter sido também (") um instrumento classista. E ja se esbogam as «cadéncias infernais». Este tempo que comeca a racionalizar-se laiciza-se igualmente. Mais ainda por necessidades praticas do que por razbes teolégicas, que de resto” (@") Cfr. J. Meuvret, «Manuels et traités a l'usage des negociants aux” premiéres époques de lage modeme», em Etudes d'Histoire moderne et contemporaine, t, V. 1953. ‘ *) Cfr. R. de Roover, L’Evelution dé la lettre de change, 1953. (0) Escritério onde os Bancos mzndam liguidar os seus cheques. — (W. da 7.) C)_ Cir. R. H. Bautier, @Les foires de Champagne. Recherches sur une evolution historique», em Recueils de la Société Jean Bodin: La Foire, 1953, pp. 97-147. (") Publicado por J. Rouyer, Apercu historique sur deux cloches du bejfroi d’Aire. La bancloque et le vigneron. P. J, L., pp. 253-254; G. Espi- nas et H. Pirenne, Recueil de documenis relatifs ¢ i'Histoire de l'industrie drapiere en Flandre, t, 1. 1906, p, 5-6. ren ; (@) G. Friedmann. «Frederic Winslow Taylor: Voptimisme d'un ingénieurs em Annales d'Histoire économique et sociale, 1935, pp. 584-602. (**) Frederic Taylor, economista americano (1856-1915) conhecido pela sua dour trina de organizacdo do tabalho.—(N. da 7.) 32: ‘¢siio na sua base, o tempo concreto da Igreja é, adaptado da Antiguidade, 9 tempo dos clérigos, ritmado pelos oficios religiosos, pelos sinos que os anunciam, pelo rigor indicado pelos quadrantes solares, imprecisos € yaridveis, medido por vezes pelas clepsidras grosseiras. Mercadores ¢ artifices substituem este tempo da Igreja pelo tempo mais exactamente medido, utilizivel para as tarefas profanas e laicas, 0 tempo dos relégios. Na ordem do tempo, estes relégios, erguides por toda a parte face aos sinos das igrejas, sfo a grande revolugio do movimento comunal, Tempo urbano mais complexo ¢ refinado que o tempo simples dos campos, medido pelos sinos risticos de que Jean de Garlande nos d4, em princfpios do século XIII, esta etimologia fantasista’ mas reveladora: «Campane dicuntur a rusticis qui habitant in campo, qui nesciant judicare horas nisi per campanas.» (?) Mudanga também importante: 0 mereador descobre o prego do tempo fa mesma altura em que explora o espago, pois para ele a duracdo essencial é a de um trajecto. Ora, para a tradic&o crista, o tempo nao era «uma espécie de avesso do espago, uma condigio formal do pensa- mento», Iremos encontrar esta dificuldade para os tedlogos cristaos,. quando precisamente nessa ¢poca—séculos X11 e XUI—a introdugio do pensamento aristotélico vai submeter-Ihes os problemas das relagdes do espacgo ¢ do tempo, Que o mercador medieval faca a conquista do tempo ¢, simultanea- mente, a do espaco, eis o que mereceria reter mais a atengao dos histo- riadores ¢ dos socidlogos da Arte. Pierre Francastel, num livro ja classico, mostrou as ligacdes da pintura com a sociedade e sob que pressdes técnicas, econémicas € sociais, um «espaco plasticoy pode ser destrufdo(”). Ao (*) Sobre a medic#o do tempo ¢ os reldgios, ideias interessantes po por yezes a reconsiderar com uma informacgdo mais precisa em wis Mumford, Technique et Civilisation, 1934, trad. franc. 1950, p, 22 © segs; Excelente sintese de Y, Renouard, ‘obra citada, p. 190-192. Lembraremos todavia que, neste campo, também s6 se produzirio pro- gressos decisivos a partir do século XVI. A. P. Usher exagera contudo €m sentido inverso, quando declara: «The history of prior the XVI th century is largely a record of essencially empirical achievements» ¢m 4 History oj mechanical inventions, 2." ed., 1954, p. 304. Cfr. A.C. Crombie, Augustine to Galileo. The History of Science. A. D. 400- +1650, 2." ed., 1957, pp. 150-151, 183, 186-187. — De uma vasta literatura, Tecordamos para a documentacdo, F. A. B. Ward, Time Measurement, 1937 e, para recreio, o agradavel trabalho de vulgarizac&io de F. Le Lion- hais, Le temps, 1959. A frase de Jean de Garlande € tirada do seu Dic- fionarius, ed. Géraud p. 590. —Sabe-se que os psicélogos insistiram na aquisicao concomitante das nogdes temporais ¢ espaciais pela crianca G. Piaget, Le Développment de la notion de temps chez l'enfant, 1946, Pp, 181-203; P. Fraisse, Psycologie du temps, 1957, pp. 277-299; Ph. Mal- Tieu, Aspects sociaux de la constrution du temps chez l'enfant, Journal de Psychologie, 1956, pp. 315-332. (*) P. Francastel, Peinture et Société. Naissance et destruction d'un espace plastique. De la Renaissance au Cubisme, 1951. 53