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CRIPTOGRAFIA: UMA APLICAÇÃO DE ÁLGEBRA LINEAR

Solange dos Santos Nieto1, Célia Mendes Carvalho Lopes 2 , Alcides Ferreira da Silva 3

Abstract  The area of cryptography is as old as the


writing. It deals with concepts and techniques to encode
information so that the sender and the receiver are the only CRIPTOGRAFIA
ones that can have access to it. In our work we are going to
give an introductory approach to cryptography in a context
of Linear Algebra and, specifically, in subjects that can be CÓDIGOS CIFRAS
applied to the students who attend this discipline in the
engineering courses, showing them one amongst many
applications of Linear Algebra.

Index Terms  Cryptography, Linear Algebra, Matrixes. SUBSTITUIÇÃO TRANSPOSIÇÃO

HISTÓRICO
Criptologia é a área do conhecimento que reúne os estudos
da criptografia e da criptoanálise. Ela é considerada ciência POLIALFABÉTICAS MONOALFABÉTICAS
há mais ou menos 25 anos. Antes, era tida como “arte”.
Tanto a criptografia como a criptoanálise são ramos da FIGURA 2
criptologia.
Cripto vem do grego kryptos e significa escondido, A criptografia é tão antiga quanto a escrita. Ela já fazia
oculto. Graphos, também do grego , significa escrever. Logos parte da escrita hieroglífica dos egípcios e os romanos
significa estudo, ciência. Analysis significa decomposição. utilizavam-na como códigos (ou cifras) secretos para
Então temos que criptologia é o estudo da escrita cifrada. comunicar planos de guerra.
O conceito de cifra é dado ao par de algoritmos
utilizados para a codificação e decodificação de uma
CRIPTOLOGIA
mensagem. O primeiro código de que se tem notícia foi
utilizado por Caio Júlio César (100 – 44 a.C.), imperador
romano.
O método utilizado por César, também é chamado de
CRIPTOGRAFIA CRIPTOANÁLISE “cifra da troca” ou “cifras de César” é uma das mais simples
técnicas de encriptação. Era baseado na substituição (troca)
FIGURA 1 de letras, seguindo regras.
A técnica utilizada por César, par se comunicar com
A criptoanálise é o conjunto de técnicas e métodos para seus generais era o da substituição de uma letra por outra,
decifrar (descobrir) uma escrita de sistema desconhecido ele usava uma troca de 3 posições no alfabeto (como mostra
sem ter conhecimento do sistema usado para transformá-la, a Tabela 1).
isto é, sem o conhecimento da chave. A chave é o
procedimento do algoritmo utilizado em um dado método. TABELA 1
Para exemplificar de um modo claro e prático, original: A B C D E F G H I J K L M
imaginemos uma festa em que os convidados tenham que cifrado: D E F G H I J K L M N O P
usar máscaras . A necessidade das máscaras é para que não se original: N O P Q R S T U V W X Y Z
identifique a pessoa que a está usando, portanto a chave é a
cifrado: Q R S T U V W X Y Z A B C
máscara.
A criptografia é o conjunto de princípios e técnicas
empregadas para cifrar a escrita, de modo que apenas os que A mensagem que César enviou às suas tropas,
têm acesso às convenções combinadas possam lê-la. "RETORNAR PARA ROMA" foi codificada como
"UHWRUQDU SDUD URPD".

1 Solange dos Santos Nieto, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rua Itambé, 45, 01239-902, São Paulo, SP, Brasil, solangenieto@mackenzie.com.br
2 Célia Mendes Carvalho Lopes , Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rua Itambé, 45, 01239-902, São Paulo, SP, Brasil, celiagiz@ mackenzie.com.br
3 Alcides Ferreira da Silva, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rua Itambé, 45, 01239-902, São Paulo, SP, Brasil,, nagu@terra.com.br
As formas utilizadas para codificar e decodificar um Para melhor exemplificar, sabemos que a matemática
texto devem ser conhecidas somente pel o emissor e pelo trata de objetos não físicos, necessitando, por esta razão, de
receptor envolvidos no processo. representantes para sua compreensão, isto é, necessita de
Até meados do século XX, os criptógrafos eram pessoas representantes para o entendimento do que se quer
que se interessavam em quebra-cabeças e a tecnologia representar (objeto matemático).
empregada na criptografia evoluía pouco. Com a 2ª Guerra Com o objeto matemático escolhido no nosso trabalho,
Mundial, a criptografia, primeiramente, se mecanizou e com aplicação do estudo de matrizes, pretende-se que o aluno
o advento dos computadores, se informatizou, originando a tenha noção da aplicabilidade do item estudado, que seja
ciência da computação moderna. capaz de aplicá-lo em outra situação.
A facilidade com que os “hackers” (especialistas em Concordando com Duval, acredita-se que, desta forma,
tecnologia que, nem sempre dispõem seu conhecimento a os conteúdos apresentados não serão simplesmente fixados
serviço da sociedade) decifram códigos de transações pelos alunos, mas sim que possamos fazer com que este
bancárias, cartões de crédito e mensagens telefônicas faz aluno considere as aulas de matemática mais desafiadoras.
com que seja necessária uma codificação. É importante ressaltar que o tema envolvendo matrizes,
Considerando as informações acima como ponto de utilizado na Álgebra Linear, já é do conhecimento do aluno,
partida e que, aparentemente desprovidas de maior apresentado a ele no Ensino Médio.
comprometimento, estaríamos introduzindo a teoria de Mas muitos alunos ainda se confundem ao efetuar o
matrizes e também estaríamos passando essa teoria em produto entre matrizes. Acreditamos que este aluno deva ter
“código”. aprendido a técnica que envolve produto de matrizes sem
preocupação, por parte dos professores, em desenvolver este
APRENDIZAGEM conceito através de uma investigação, usando apenas
ferramentas que já possuíam.
Quando discutimos sobre educação na engenharia, A construção de um conceito, no âmbito pedagógico,
começamos a falar na velocidade das mudanças tecnológicas considera modelos epistemológicos, tais como de que forma
e que algum novo paradigma deva ser implementado para a se deu a sua descoberta e ligado a que necessidade, quais
formação desse futuro engenheiro. foram os obstáculos científicos encontrados, desta forma
Ao chegar à universidade, este aluno trás conceitos constrói-se o pensamento matemático.
matemáticos adquiridos nos ensinos fundamental e médio. Nas palavras de Montaigne [2] “Melhor uma cabeça
Exemplificaremos um desses tópicos que é a teoria e bem feita que uma cabeça bem cheia”, desse modo a cabeça
aplicação de matrizes. bem feita pode se dedicar a novas atividades, mais
Na universidade, quando trabalhamos com matrizes inventivas.
fazemos invariavelmente uma revisão deste tópico. Nesse único exemplo que estamos trabalhando,
Tanto para o aluno que não tenha visto e para o que não matrizes, percebe-se o quanto os conteúdos são fornecidos
se recorda, a reação é a mesma ao dizermos que é um tópico aos alunos de forma fragme ntada e pulverizada.
do ensino médio – a falta de interesse. É preciso tomar consciência, por parte dos professores,
A criação de um ambiente que possa auxiliar no ensino de se encontrar, a difícil articulação entre a construção dos
aprendizagem e minimizar essa rejeição é, fazer uso de conceitos e sua aplicação, o que acreditamos ser possível
aplicações que possam explorar o que já foi visto. através de um projeto comum.
A aplicação que citaremos e que descrevemos acima é a Edgar Morin [2] cita:
Criptografia.
Nossos currículos são organizados de forma que os Talvez um dos momentos mais importantes ocorridos
conceitos abstratos são apresentados primeiramente para que entre engenheiros e matemáticos, primeiro, em plena
em seguida sejam exibidas suas aplicações na prática. guerra dos anos 40, e depois, nos anos 50; esses
A escolha deste caminho não prepara nosso aluno para encontros fizeram confluir trabalhos de matemática,
as competências exigidas atualmente pelo mercado de inaugurados por Church e Turing, e as pesquisas
trabalho. técnicas para criar máquinas autogovernadas, que
O tema de nosso trabalho nada tem de novo, mas pode levam à formação do que Wiener chamou de
cibernética, integrando a teoria da informação
ser utilizado com aplicação na disciplina Álgebra Linear,
concebida por Shannon e Weaver para a companhia
que tem apresentado alto índice de reprovação devido a sua de telefones Bell. Constituiu-se, então, um verdadeiro
teoria ser abstrata. nó górdio de conhecimentos formais e de
Raymond Duval [1, p.8] é psicólogo francês e conhecimentos práticos, às margens das ciências e no
pesquisador dos processos cognitivos envolvidos na limite entre ciência e engenharia.
aprendizagem matemática, e afirma que o funcionamento
cognitivo é inseparável da existência da diversidade dos
registros.
MATRIZES E CRIPTOGRAFIA B.N =
Muitas técnicas usadas para codificar e decodificar  6 3 22 4 2 4 2 16 28 6 14 28
mensagens secretas utilizam Álgebra Linear. Vamos  6 13 8 6 13 7 2 17 10 2 28 6 
28 19 6 4 13 16 11 16 8 10 2 27 
descrever um método simples e que aproveite a revisão do
tópico “teoria de matrizes”.
O primeiro passo é codificá-la. Vamos passar da forma Observe que este produto é a matriz enviada pelo
alfabética para a forma numérica, utilizando a seguinte remetente, portanto a mensagem codificada é:
correspondência indicada na Tabela 2.
6, 3, 22, 4, 2, 4, 2, 16, 28, 6, 14, 28, 6, 13, 8, 6, 13, 7, 2, 17,
10, 2, 28, 6, 28, 19, 6, 4, 13, 16, 11, 16, 8, 10, 2, 27
TABELA 2
A B C D E F G H I J K L M N Portanto, pela Tabela 2, esta mensagem é
2 1 4 3 6 5 8 7 10 9 12 11 14 13 “EDUCAÇÃO EM ENGENHARIA E TECNOLOGIA.”
O P Q R S T U V W X Y Z # . CONCLUSÃO
16 15 18 17 20 19 22 21 24 23 26 25 28 27
O conceito de matriz é apresentado aos alunos no ensino
Esta correspondência pode ser alterada e poderia, médio. Nesta época existe, por parte das escolas, a
inclusive, servir como um novo exercício a ser sugerido ao preocupação em preparar este aluno para os Concursos
aluno, para que ele verificasse que esta escolha é qualquer. Vestibulares.
Escolhe-se uma matriz quadrada qualquer, que tenha Todas as definições e propriedades apresentadas são
inversa. Escolhemos, por exemplo, a matriz A (chamada fortemente ligadas à técnica, ficando o aluno impossibilitado
1 0 2 de perceber co mo poderíamos aplicar o estudo de matrizes
codificadora) A = 0 − 1 0 . na vida cotidiana.
1 1 3 Desse modo, quando , no ensino da Álgebra Linear,
utilizamos a aplicação da teoria de matrizes na solução de
Trabalha-se, com o aluno, o cálculo da inversa. problemas, o aluno sente dificuldade em fazer a conversão
Chamaremos de B a matriz inversa de A . No exemplo, do que lhe foi apresentado e se sente inseguro na escolha de
 3 − 2 − 2 um bom caminho para resolver o exercício proposto.
A −1 = B =  0 −1 0  Nosso objetivo, ao exemplificar e identificar as
− 1 1 1  dificuldades encontradas pelos alunos foi de procurar
evidenciar, de forma bem resumida, como a Teoria dos
A matriz onde se escreve a mensagem será Registros de Representação Semiótica – elaborada por Duval
denominada M . – da análise do funcionamento cognitivo de um aluno diante
de uma situação de ensino.
 6 3 22 4 2 4 2 16 28 6 14 28
M =  6 13 8 6 13 7 2 17 10 2 28 6 
28 19 6 4 13 16 11 16 8 10 2 27

Assim, a mensagem codificada será encontrada pelo REFERÊNCIAS


produto A.M e chamaremos essa matriz de N . [1] Machado, S. D. A. (Org.). Aprendizagem em matemática: registros de
representação semi-ótica. Campinas: Papirus. 2003.
N = A.M = [2] Morin, E., A cabeça bem-feita: repensar a reforma, repensar o
 62 41 34 12 28 36 24 48 44 26 18 82  pensamento. 12 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2006.
 − 6 − 13 − 8 − 6 − 13 − 7 − 2 − 17 − 10 − 2 − 28 − 6 
 96 73 48 22 54 59 37 81 62 38 48 115

Deste modo, N é a matriz que chega ao seu destinatário


que deverá utilizar a matriz B (matriz decodificadora) para
decifrar a mensagem, já que
B.N = B.AM = I.M = M (mensagem).
No exemplo, tem-se que