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Freitas, M.F.Q.

Práxis e formação em Psicologia Social Comunitária:


exigências e desafios ético-políticos. Estudos de Psicologia. Campinas.
http://dx.doi.org/10.1590/0103-166X2015000300017
32(3) 521-532 julho - setembro 2015.

Práxis e formação em Psicologia


Social Comunitária: exigências
e desafios ético-políticos

Praxis and formation of Community


Social Psychology: Demands and
ethical-political challenges

Maria de Fatima Quintal de FREITAS1

Resumo

Neste artigo apresenta-se uma breve contextualização a respeito de alguns desafios presentes à formação no campo
da Psicologia e das práticas psicossociais em comunidade. A seguir desenvolve-se uma análise em torno de três
eixos. No primeiro será feita uma exposição sobre o contexto atual e campo das práticas da Psicologia Social
Comunitária, destacando-se preocupações e tensões nessas práticas. No segundo eixo, as dimensões teórico-
-metodológicas relevantes para o processo de formação serão indicadas e estão denominadas como “necessidades de
formação para a práxis” em Psicologia Social Comunitária. No último eixo, apresentam-se o que se denominou de
“delicadezas” ético-políticas presentes no “fazer” psicossocial em comunidade. Finaliza-se com a indicação de princípios
e suas respectivas categorias conceituais, considerados necessários ao processo de formar para a práxis em Psicologia
Social Comunitária.
Palavras-chave: Formação do psicólogo; Psicologia comunitária; Psicologia social.

FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA


Abstract

This article provides a brief contextualization of some challenges present in the formation within the field of
psychology and of community psychosocial practices. An analysis is performed in three axes. The first axis describes
the current context and field practices of Community Social Psychology, highlighting concerns and tensions
found in these practices. The second points out the theoretical-methodological dimensions relevant for the
formation process, which are denominated “formation needs for praxis” in Community Social Psychology. The last
axis introduces the so-called ethical-policies “subtleties” that are part of the community psychosocial “work”. Finally,
principles and their concept categories necessary to the formation process of praxis in Community Social Psychology
are presented.
Keywords: Pshychologist education; Communitty psychology; Social psychology.

▼ ▼ ▼ ▼ ▼
1
Universidade Federal do Paraná, Departamento de Teoria e Fundamentos da Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação.
R. General Carneiro, 460, Edif. Dom Pedro I, 1º andar/PPGE, Centro, 80060-150, Curitiba, PR, Brasil. E-mail:
<fquintal@terra.com.br>. 521

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Paradoxos contemporâneos para a credenciados” (p.17), ao lado do crescimento das
profissão psicologia: tensões na relação produções científicas. Contudo, este caráter de
psicologia-universidade-sociedade consolidação não significa que já foram atingidas,
nos cursos de graduação e pós-graduação em
Meados da segunda década do século XXI e Psicologia, as metas quanto à plenitude da
passados 52 anos da constituição da profissão de formação e preparação dos profissionais para que
psicologia, continuam presentes alguns aspectos, atuem e saibam fazê-lo, em estreita relação e
na relação profissão-universidade-sociedade. Des- compromisso social com a população que tem sido
tacam-se aqui, quatro deles. alvo de seus trabalhos.
Um primeiro aspecto situa-se na relação en- Assim, ao lado desta jovialidade e de uma
tre profissão consolidada e jovem, de um lado, e as profissão já reconhecida e, em parte, consolidada,
repercussões disto para o processo de formação, pode-se dizer que ainda são muitos os desafios,
de outro. Comparando-se com outros campos disci- quais sejam: como formar, preparar e envolver os
plinares, de fato a Psicologia pode ser considerada profissionais de Psicologia para atuarem de maneira
uma profissão relativamente jovem. Entretanto, isto comprometida com a realidade social? Como
não tem impedido que revele amadurecimento, em formá-los de tal modo que ultrapassem os modelos
especial quando, diante dos problemas sociais, tem e paradigmas tradicionais, e possam construir novos
buscado ações e encaminhamentos na perspectiva paradigmas com base na realidade social concreta?
psicólogica e psicossocial para uma melhoria nessas
A cada nova formulação de políticas sociais
condições. Isto tem acontecido, por exemplo, em
e diante da ampliação de campos nos quais a Psico-
ações junto às chamadas políticas sociais, com
logia se insere, este parece ser um desafio perene
intervenções dirigidas a diferentes estratos etários
que tem apresentado questões sérias ao processo
(crianças, jovens, adultos abandonados e/ou velhos),
de formação. Trata-se de um desafio implacável co-
passando por programas junto a setores multipro-
locado a todos(as) aqueles(as) que se preocupam
fissionais na saúde e educação, até a implemen-
com o papel e compromisso sociais da profissão,
tação de propostas comunitárias de fortalecimento
entendendo-a como um fator importante, também,
da redes de cooperação e participação, seja nas
para a superação de formas de exclusão e injustiças
cidades ou no campo (Castro & Correa, 2005; Flores
sociais existentes no mundo e sociedade contem-
Osório, 2011; Guzzo & Lacerda Jr., 2011; Jímenez-
porâneos.
-Domínguez, 2008; Leite & Dimenstein, 2013; Mar-
tinez, 2005; Yamamoto & Gouveia, 2013). Estas Um segundo aspecto liga-se à ampliação de
possibilidades de trabalho em diferenciados con- campos e à diversidade temática quando da inser-
textos comunitários, há 30 anos poderiam ser vistas ção. Isto coloca o debate sobre que conteúdos e
como inimagináveis, ou mesmo como pouco co- que formas a prática profisisonal poderá ter: adotar
muns há 20 anos. Esta variedade de ações da “velhos” ou “novos” paradigmas para a sua ação?
Psicologia tornou-se mais visível, devido também à Surgem, aqui, outras preocupações ligadas ao tipo
intensidade dos acontecimentos político-sociais, nas de formação que os cursos de Psicologia estariam
últimas décadas, que lhe demandaram outras for- promovendo e que poderiam resultar em mudanças
mas de atuar diante das problemáticas sociais. Desta importantes (Bastos & Gondim, 2010; Oliveira &
forma, em consonância a vários autores, pode-se Yamamoto, 2014). Ou seja, questiona-se sobre co-
afirmar que não é esta possível juventude que torna mo contribuir, no processo formativo, para a cons-
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a Psicologia menos forte e/ou menos consolidada. trução de estratégias de ação que se comprometam
Ao contrário, e como apontam Oliveira e Yamamoto com as problemáticas socialmente relevantes e
(2014), quando se referem ao primeiro cinquen- necessárias na perspectiva da população.
tenário da Psicologia, pode-se “concluir que se trata Nos últimos 20 anos, mais especificamente
de uma profissão consolidada”, visto que há hoje quando surgiram propostas de implementação de
522 um “grande número de profissionais graduados e políticas sociais e públicas que estivessem preocu-

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padas com a maioria da população, pode-se dizer uma profissão socialmente relevante e compro-
que dois desafios importantes para a Psicologia metida com a superação dos problemas sociais com
foram colocados. Um deles liga-se ao fato de se os quais trabalha.
ampliarem os cenários de inserção e atuação para Um terceiro aspecto, presente na relação
o profissional de Psicologia, e o outro desafio, em profissão-universidade-sociedade, refere-se ao fato
parte decorrente do primeiro, refere-se à necessida- de que - acompanhando o movimento de ampliação
de e expectativa de que a atuação seja diferente e interiorização de universidades públicas no ter-
dos espaços e paradigmas tradicionais, utilizados ritório nacional, em especial a partir de inícios deste
nos campos mais conhecidos de atuação (como clí- século -, a Psicologia passou a fazer parte de cursos
nica, consultórios, e mesmo parte das escolas) (Mar- desenvolvidos em pequenas cidades, em contextos
tínez, 2005; Sandoval, 2000; Senra & Guzzo, 2012; rurais e distantes dos grandes centros urbanos.
Silva, 1998). Derivado deste deslocamento urbano-rural,
Espera-se que esse profissional, em sua prá- apresenta-se também para a Psicologia o desafio
tica, atenda a três demandas: atue de maneira não de construir aportes teórico-metodológicos que
mais individual e psicologizante; integre equipes de aproximem a profissão aos cenários rurais, até então
trabalho multiprofissional; e incorpore como objeto pouco reconhecidos em seus paradigmas tradi-
de investigação aqueles fenômenos sociais que cionais que sempre dirigiram-se a formar para uma
pareciam pouco relevantes à psicologia tradicional. prática psicológica e psicossocial nos centros
Estas demandas, por si só, apresentam desafios urbanos. No centro desta tensão, surge um outro
intrínsecos ao processo de formação, visto que a paradoxo. De um lado, nesses novos cenários do
Psicologia, ao longo dos anos, trabalhou exata- processo de interiorização, reinstala-se o fortale-
mente ao contrário. Em outras palavras, trabalhou cimento do enfoque individual clínico visto que é
de modo a adotar modelos de psicologização das uma forma de trabalhar consolidada e que traz ao
relações e da vida cotidiana, além de ter se posi- profissional alguma segurança na sua prática diária.
cionado como se fosse um “sujeito único” hege- De outro, apresenta-se a necessidade de serem
mônico na sua prática, seja quando da produção desenvolvidos outros aportes para conhecer a nova
de conhecimentos, seja quando das decisões sobre realidade no contexto rural e/ou das pequenas cida-
o quê fazer com o seu objeto de trabalho e inves- des, e poder atuar junto a essas novas e diferentes
tigação. necessidades, e isto nem sempre foi desenvolvido
Deparamo-nos, então, com um paradoxo. nos cursos de formação.
De um lado, há um cenário rico em diversidades e E, o quarto aspecto que parece também im-
temáticas para a atuação dos profissionais de psi- portante nesta proposição de debate e reflexão,
cologia, o que poderia contribuir para uma maior situa-se na relação tipo de instituição formadora e

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exigência de qualificação em sua formação para qualidade da formação, de um lado, e atualização
lidar com os problemas sociais. De outro, ainda e conhecimentos sobre a realidade concreta, de
presenciamos a manutenção de uma preparação outro. Isto refere-se ao fato de que ainda temos
frágil e compartimentalizada para lidar com esse um predomínio de escolas privadas (82,23% das
tipo de prática, cujas exigências ultrapassam mais instituições de ensino superior) em que o curso de
do que mudanças espaciais e geográficas na Psicologia é fornecido, sendo que dessas 63,44%
atuação. Essas exigências, em verdade, mostram a (229 instituições particulares) situam-se nas regiões
necessidade de que haja mudanças paradigmáticas Sudeste e Sul do Brasil (Baima, 2014). Observa-se que
e ontológicas que levem a apreender e compreender a produção de pesquisas e projetos de extensão/
o objeto, da inserção e atuação dos profissionais intervenção, assim como a atualização e desen-
de psicologia, dentro de uma relação compartilhada, volvimento de estratégias metodológicas, concen-
horizontal, partícipe e histórico-dialética. Com isso tram-se nas universidades públicas e, ainda, nos
estaria sendo garantida a coerência com os pres- centros urbanos maiores e com mais recursos e
supostos epistemológicos ligados à construção de desenvolvimento científico atualizado. Embora, a 523

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ampliação e interiorização dos cursos tenha menos Eixo I: Contexto atual e campo das
de 15 anos, sabe-se que a produção de conhe- práticas da Psicologia (Social)
cimento liga-se fortemente à pós-graduação que, Comunitária
ainda, se concentra nas maiores e mais antigas insti-
tuições de ensino superior, geralmente de caráter No início do século XXI, ainda antes de com-
público e localizadas nos centros urbanos maiores. pletar 40 anos, a Psicologia presenciou um aumento
Assim, o que se presencia é que a maioria dos cursos significativo de suas propostas de trabalho no cam-
de Psicologia, ministrados em instituições privadas po das práticas comunitárias (Alfaro, Sánchez, &
ou em públicas no interior do país, ainda estão dis- Zambrano, 2012; Freitas, 2005; 2007; 2011b; Mon-
tantes dos centros de investigação e dos pólos de tero, 1994; 2003; Montero & Serrano-Garcia, 2011).
produção de conhecimento. Reinstala-se um forte Em decorrência, as publicações no campo da Psi-
desafio: de um lado, ampliaram-se os cursos de cologia (Social) Comunitária passaram a ter mais
Psicologia, a tal ponto que em 2014 existem 449 visibilidade trazendo à tona dois aspectos impor-
cursos no território nacional (Baima, 2014) e, de tantes. O primeiro aspecto refere-se ao aumento
outro, pouca garantia há de que tais cursos estejam de propostas e práticas, em um campo que poderia
sendo diferentes dos paradigmas tradicionais que ser chamado de Psicologia (Social) Comunitária, se
deram origem à profissão no seu início. se levar em conta dois elementos diferenciadores e
interdependentes entre si. Esses elementos mostram
Pode-se, então, perguntar sobre o que exis-
que as ações passaram a ser realizadas fora dos es-
tiria entre a Psicologia e as políticas sociais ou, mais
paços tradicionais (consultórios e empresas, por
especificamente, entre as práticas da Psicologia
exemplo) de uma maneira diferente àquela defen-
Social Comunitária (PSC) e as propostas da socieda-
dida pelos paradigmas hegemônicos dominantes
de civil para o atendimento das necessidades prin-
na Psicologia; e que as ações psicossociais em comu-
cipais da maioria da população? Este ainda é um
nidade revelaram um forte compromisso com os
debate atual localizado na discussão sobre as rela-
setores populares na busca de melhorias para o
ções Profissão e Sociedade, atravessadas pelo
cotidiano desses segmentos. O segundo aspecto
processo de formação (Guzzo & Lacerda Jr., 2011;
Yamamoto & Gouveia, 2013). Quão distantes ou está relacionado ao fato de que existe, hoje, uma
quão próximas ambas estariam e como isto poderia grande diversidade de inserções e práticas psicos-
afetar a vida das pessoas nos espaços sociais em sociais (Alfaro et al., 2012; Almeida Acosta, 2011;
que vivem e atuam? Montero & Serrano-Garcia, 2011; Sarriera, 2000)
que, ao lado de outros campos disciplinares, têm
Após esta breve contextualização a respeito
se mostrado importantes para o enfrentamento das
de alguns desafios à formação, propõe-se, neste
problemáticas vividas pelos diferentes grupos e
artigo, tecer uma análise em torno de três eixos.
comunidades (Freitas, 1998).
No primeiro eixo, far-se-á uma breve exposição a
respeito do contexto atual e campo das práticas da Presencia-se, assim, hoje, uma alta variedade
PSC, destacando-se algumas preocupações e ten- no campo da PSC. Há uma diversidade de práticas,
sões em tais práticas. No segundo eixo, serão indi- fazeres, referenciais teóricos, instrumentais utiliza-
cadas as dimensões teórico-metodológicas consi- dos, temáticas focalizadas e privilegiadas para as
deradas relevantes para o processo de formação, e ações, de proposições distintas mesmo que para
que estão sendo, aqui, denominadas de “necessida- dinâmicas e contextos comuns, recursos empre-
des de formação para a práxis” em PSC. E no último gados para reunir e mobilizar grupos e comuni-
M.F.Q. FREITAS

eixo, apresentar-se-ão o que aqui se chama de “deli- dades, entre tantas outras formas de atuar (Flores
cadezas” ético-políticas presentes no “fazer” psi- Osorio, 2007; 2011; Freitas, 2011a; 2012). Nos últi-
cossocial em comunidade e na relação comunidade- mos anos, começou a ser comum dizer que, podem
-profissionais, finalizando com a indicação de princí- ser vistos como práticas da Psicologia (Social) Comu-
pios considerados necessários ao processo de formar nitária, aqueles trabalhos que tivessem algumas
524 para a práxis em PSC. características como: serem realizados fora dos

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consultórios e gabinetes de trabalho; serem execu- em comunidade, essas diferenças e incoerências
tados nas ruas das cidades ou nas vilas e cenários epistemológicas e ontológicas das práticas. Um
camponeses; envolverem um número maior de pes- terceiro fator refere-se à necessidade da análise
soas e grupos; defenderem relações horizontais e sobre o grau de impacto e importância que essas
não hierárquicas; utilizarem também recursos das práticas têm, no sentido de se são de fato práticas
expressões artístico-musicais e da criatividade huma- imprescindíveis à vida e cotidiano comunitários. Pro-
na, entre outros. Some-se, aqui, também, o fato mover esta discussão, em nosso entendimento,
de que os trabalhos que se refiram a qualquer pro- significa falar dos caminhos da práxis da PSC, o que
blema social concreto, a qualquer dificuldade en- implica necessariamente desvelar os fundamentos
frentada no cotidiano pelas pessoas, e que tenham do processo de politização da consciência que está
alguma proposta de melhoria dirigida aos setores diretamente ligado à participação da própria popu-
lação em torno de suas necessidades concretas,
desfavorecidos, oprimidos e excluidos, também, po-
mediatas e imediatas.
deriam ser vistos como formas de trabalho da Psi-
cologia (Social) Comunitária. Tomando-se como referência isto, algumas
perguntas poderiam ser feitas a respeito das rela-
Entretanto, neste momento, o que se pode,
ções entre práxis e formação questionando-se, tam-
de fato afirmar, é que estas situações e constatações
bém, o tipo de compromisso e ética envolvidos. Ve-
estampam, de maneira clara, uma tensão do ponto
jamos algumas indagações mais urgentes e atuais:
de vista conceitual entre o que é, de fato, essência a) haveria alguma especificidade (seja política,
e o que é aparência neste campo das práticas da instrumental e/ou teórica) para que se pudesse atuar
Psicologia (Social) Comunitária. neste campo? b) qualquer psicólogo(a) poderia
Assim, há um debate necessário sobre o que atuar em PSC? c) outras profissões poderiam atuar
é essencial e singular nesse tipo de práxis (Flores em PSC? e d) que diferenças há, por exemplo, entre
Osorio, 2011; Freitas, 2005; 2012; Gaborit, 2011; o(a) educador(a) popular/comunitário(a), o(a) tra-
Martín-Baró, 1987). E, que elementos aparenciais balhador(a) social, o(a) assistente social, somente
podem estar existindo e contribuindo para que para se falar de alguns? Todas estas questões pare-
fiquem nebulosas as fronteiras entre a práxis da PSC cem levar a duas grandes reflexões e desafios cen-
e a de outras formas de trabalhar em Psicologia, trais que seriam: como formar para a intervenção
(prática) psicossocial em comunidade? E, como for-
mesmo que todas aconteçam em contextos e dinâ-
mar para ter um compromisso com a transformação
micas comunitárias. Três elementos emergem neste
social?
debate, considerando-se esta maior aproximação
entre as práticas psicossociais em comunidade e os Podemos, então, nos perguntar se seria isto
diferentes setores populares. O primeiro é de que possível, ou se isto poderia estar fora do âmbito da

FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA


não há uma base consensual que mostre haver formação e capacitação profissionais. No caminho
igualdades teórico-conceituais entre tais práticas. de intentar refletir a respeito destes grandes desa-
fios, seja para o campo da PSC seja para o próprio
O que se pode afirmar sobre o que é comum e con-
processo de formação, discutir sobre os aportes
sensual nos vários trabalhos situa-se, muito mais,
teórico-metodológicos fundamentais e sobre os
no fato de que as propostas de intervenção comuni-
cuidados ético-políticos da prática parecem impor-
tária dirigem-se a algum problema social, a alguma tantes. Cada um deles estarão sendo desenvolvidos
dificuldade vivida pela população em seu cotidiano nas seções seguintes.
e a alguma proposta de melhoria. Deriva-se daí um
segundo aspecto, ligado à necessidade de serem
Eixo II: Aportes teórico-metodológicos
feitas análises epistemológicas rigorosas que levem
necessários à formação em Psicologia
a um desmonte das pseudo-conciliações entre bases
Social Comunitária
ontológicas e orientações metodológicas presentes
nos vários trabalhos comunitários. Pode-se dizer que Os problemas relativos à injustiça, à pobreza
pouco têm sido analisadas, nos diferentes trabalhos e ao sofrimento humano, assim como seus 525

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determinantes estruturais e conjunturais, po- caso das pessoas velhas “ativas” que, por isso mes-
dem continuar a existir e, infelizmente, têm mo, fogem à regra de serem incapazes e decrépitas,
continuado mesmo em sociedades alta- uma vez que estão a realizar inúmeras atividades
mente democráticas, como bem mostra a como qualquer pessoa de outra faixa etária menor,
nossa história contemporânea (Freitas, 2014, só que chegam a ser desconsideradas para estudos
p.66). ou programas comunitários por não serem “repre-
Indagações relativas ao que fazer para cola- sentativas”. Instaura-se, assim, um desafio impor-
borar com um mundo mais justo e digno continuam tante para o processo de formação no campo da
sendo fortes desafios colocados a qualquer tipo de PSC. Como compreender os diferentes atores so-
prática e ao processo de formação de diferentes ciais, dentro de sua própria realidade, sem se distor-
profissionais no mundo atual (Ferrarini, 2008; cer a concretude histórica de sua vida cotidiana,
Hobsbawn, 2000). Entretanto, há que se evitar uma sem cair no paternalismo ou assistencialismo; e
armadilha interna a esse processo presente, hoje, a mantendo a coerência aos princípios da PSC na dire-
quase todas as áreas envolvidas com os chamados ção do fortalecimento e da construção de redes de
projetos sociais e comunitários. Esta armadilha apa- convivência mais solidárias, justas e dignas no
rece em relação ao que já se denominou, em outra cotidiano das pessoas?
ocasião, de “mito da mão estendida” (Freitas, Isto coloca o desafio conceitual e ontológico
2005), que se refere ao fato de que, hoje, seria ligado a: como conseguir captar a concretude his-
politicamente incorreto não estar fazendo qualquer tórico-social das relações humanas - determinadas
trabalho, social ou voluntário, de ajuda ao próximo. estrutural e conjunturalmente, e vividas em sua
Poder-se-ia perguntar onde estaria essa armadilha. cotidianidade singular e genérica (Heller, 1982;
Com certeza não é no fato de se fazer algo, em Paulo Netto & Carvalho, 1996) -, de tal modo que
prol dos outros. A armadilha estaria na idéia de que: seja fiel à dinâmica e contexto comunitários?
1) fazer algo imbuído de boas intenções seria su- São seis as necessidades consideradas impor-
ficiente para uma possível melhoria social, e 2) que tantes ao processo formativo neste campo e que
a “boa vontade” nesse fazer poderia substituir uma
permitem compreender três aspectos: os compro-
“profissionalização”, séria e comprometida, dessa
missos estabelecidos pelos agentes comunitários
ação. Entenda-se esta “profissionalização” como
(internos e externos), os resultados produzidos pela
os aportes teóricos e metodológicos necessários
intervenção comunitária, e os diferentes níveis de
para uma ação profissional comprometida, que
participação nas atividades realizadas. Estas neces-
possa ter continuidade, história coletiva e memória
sidades permitiriam compreender os diferentes pro-
social para que sejam transmitidos os conhe-
cessos psicossociais de participação e conscien-
cimentos e produções humanas, próprios daquele
tização, seja da comunidade, seja dos profissionais.
fazer profissional, no nosso caso, o fazer psicossocial
em comunidade. Assim, apresentam-se, a seguir como indi-
cado na Figura 1, as denominadas seis necessidades
Quando se pergunta sobre que aportes
teórico-epistemológicos são necessários para a para poder formar para a práxis em Psicologia Social
formação em PSC, surgem preocupações ligadas Comunitária.
a: como captar a vida real dos chamados excluídos Na necessidade 1, da dimensão epistemo-
que muitas vezes tornam-se “invisíveis” sociais para lógica, é importante o conhecimento histórico-
M.F.Q. FREITAS

a investigação, visto que são considerados “pouco -crítico a respeito da construção sócio-política da
significativos” segundo os parâmetros científicos e vida cotidiana dos diferentes grupos e comunidades
estatísticos? Este é o caso, por exemplo, dos jovens com os quais se pretende trabalhar, relacionando-
pobres de periferia que sobrevivem psicossocial- -o às dimensões local, regional e global. Isto con-
mente a despeito de todas as tragédias e adver- tribuirá para uma análise contextualizada e para a
526 sidades cotidianas que enfrentam. É, também, o compreensão histórica sobre os determinantes es-

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Figura 1. Seis necessidades da formação para a práxis em Psicologia Social Comunitária.

truturais e conjunturais da dinâmica e contexto der como se articulam e se comprometem os dife-


comunitários. rentes movimentos sociais, grupos comunitários e
Na segunda necessidade, a do enquadre diversos segmentos da sociedade, em torno de uma
conceitual principal, é imprescindível que os coti- proposta coletiva e voltada a fins coletivos e soli-
dianos de existência das pessoas e as redes de convi- dários.
vência comunitária construídas sejam tomados co- A quarta necessidade, a da desnaturalização
mo matriz principal, nos trabalhos comunitários. Isto

FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA


da vida cotidiana e concepção sobre o que é o fenô-
significa compreender a vida dessas pessoas em meno psicológico na dinâmica comunitária, liga-se
várias dimensões, interligadas e interdependentes: a como fazer com que as pessoas acreditem que
nos seus problemas cotidianos, nas suas possibi- vale a pena, também, participar, nas esferas públicas
lidades de enfrentamento, nos seus projetos de uto- e coletivas, como sendo uma condição importante
pia para a sociedade, e na construção de ações cole- para o fortalecimento das redes e projetos comu-
tivas e comunitárias. Significa, no plano psicossocial, nitários. E, também, refere-se às concepções e com-
realizar uma análise conjuntural e estrutural no pla- preensões que os agentes comunitários têm a res-
no psicossocial, que ultrapasse explicações redu- peito do que é e não é um fenômeno psicológico,
cionistas, psicologizantes e pontuais, e que permi- nas diferentes dinâmicas comunitárias, e como tudo
tam ver o futuro como um projeto político-peda- isso poderia impactar os trabalhos realizados. Isto
gógico de transformação e de utopia a serem bus- pode permitir entender os diferentes caminhos que
cados de maneira coletiva e partícipe. os trabalhos comunitários têm, de avanço ou recuo,
Na terceira necessidade, relativa às alianças remetendo-os também às (in)coerências dos recur-
e aos projetos políticos, faz-se necessário compreen- sos metodológicos empregados. 527

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A compreensão da dinâmica das relações do “delicadeza” ético-política, encontram-se as rela-
trabalho comunitário - quinta necessidade -, refere- ções e parcerias entre profissionais e comunidade
se às ferramentas utilizadas e ao “olhar” construído (Freitas, 1998; 1999; 2011a) e, hoje, mais contem-
para compreender o que se passa na vida cotidiana poraneamente, também com os stakeholders e polí-
de tais práticas envolvendo todos os atores sociais ticas públicas (Freitas, 2014; Guzzo, Mezzalira, &
(Freitas, 2003; 2005; 2009; 2011a). Isto significa Moreira, 2014). Isto aparece em questionamentos
compreender as: a) razões para realização do tra- como: a) que tipo de relação se estabelece entre
balho (para comunidade, profissionais, stakeholders, esses três personagens?, b) que relação de conhe-
agências governamentais, etc.); b) relações entre cimento e de autoridade travam entre si?, e c) quem
agentes internos e tipo de participação construída e como são definidos os objetivos e rumos do tra-
entre eles; e c) características da prática desenvol- balho?
vida e frutos obtidos. A discussão sobre o que se apresenta como
A última necessidade, da avaliação e im- necessário para formar para a práxis em PSC - quan-
pactos das práticas em comunidade, refere-se a to aos aportes teórico-metodológicos e às delica-
construir recursos e ferramentas, colaborativas e dezas ético-políticas -, cada vez mais revela uma
participativas, de avaliação. Eles devem ser especí- preocupação, presente nos cursos de formação nos
ficos a cada contexto e dinâmica, com a finalidade últimos anos, com relação a dois aspectos. Um, se
de saber se o trabalho é, de fato, prioritário e impres- os cursos estão, de fato, formando e capacitando,
cindível; se estaria atendendo a que necessidades cien-tífica e politicamente, os futuros profissionais
e de quem; se traria mudanças relevantes e, se as para desenvolverem intervenções e programas co-
produzisse seria na perspectiva de quem. munitários. Fala-se, aqui, então da dimensão do “sa-
ber fazer”, pertinente a todos os agentes envolvidos
na bipolaridade do processo de aprendizagem e
Eixo III: Dimensões ético-políticas e formação. O segundo aspecto, numa íntima relação
princípios da práxis em Psicologia Social dialética com o primeiro, liga-se a como implemen-
Comunitária tar e colaborar para o surgimento de uma sensibili-
dade histórica e identificação política desses pro-
Neste momento, faz sentido perguntar sobre
fissionais para com a população, sensibilidade essa
o que, aqui, se denomina de “delicadezas” ético-
guiada por um compromisso com a transformação
-políticas que estão presentes no “fazer” psicos-
social.
social em comunidade e na relação comunidade-
-profissionais. O que seria, então, necessário e importante
para poder formar para a práxis em Psicologia Social
Pode-se dizer que essas “delicadezas” se re-
Comunitária? Apresentam-se, na Tabela 1, os prin-
ferem a dois âmbitos. No primeiro, relativo à imple-
cípios e suas respectivas categorias conceituais que
mentação e realização das ações comunitárias (ao
deveriam ser contemplados no processo de forma-
fazer psicossocial em comunidade), pode-se per-
ção, a fim de se constituirem como guias norteado-
guntar sobre os cuidados éticos que devemos ter.
res para a práxis em PSC.
Isto pode ser traduzido em indagações como: a)
posso (ou não) e devo atuar (ou não) de uma dada Um primeiro é o que se denomina aqui de
maneira em situações, por exemplo, de violência, compreensão conjuntural e estrutural dos modos
de preconceito, de exclusão? e b) com quem me de (re)produção da existência humana, compreen-
M.F.Q. FREITAS

comprometo e explicito meu envolvimento político- dida necessariamente como uma construção social
-social? Estas questões remetem a um debate sobre da realidade e vida cotidianas, como desenvolveram
o paradigma da responsabilidade e do quão justa e aprofundaram Berger e Luckmann (1983); Heller
uma ação pode ser, em um dado contexto em que (1982); Lane (1984); Lukács (2012); Martín-Baró
acontece, discussão esta apresentada em trabalhos (1987); Marx (1970). A leitura crítica e compreensão
528 anteriores (Freitas, 2008). No segundo âmbito de dos princípios fundantes da vida societal, ao lado

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Tabela 1
Cinco princípios norteadores e respectivas categorias conceituais para formar para a práxis em Psicologia Social Comunitária

Princípios Categorias conceituais e dimensões envolvidas

1 Análise conjuntural e estrutural sobre a (re)produção da exis- Construção social da vida cotidiana.
tência humana. Fundamentos da vida societal.
Impactos nos processos psicossociais.
Conhecimentos inter e multidisciplinares sobre relações humanas e sociais.
2 Conhecimentos inter e multidisciplinares e trabalho coletivo. Aportes da educação popular (de Paulo Freire).
Aportes da investigação-ação-participante (Orlando Fals Borda).
Processos grupais.
Pressupostos do trabalho comunitario coletivo.
3 Caráter pedagógico da formação e politização no cotidiano. Compromisso social e político com os oprimidos.
Processos de participação e conscientização.
Desnaturalização da vida cotidiana (‘despsicologização’ e ‘despatologização’
da vida cotidiana e das relações sociais).
4 Construção participativa de objetivos a posteriori. Relações horizontais, partícipes e dialógicas.
Conhecimento popular e profisssional com mesmo status social e científico.
Ferramentas e instrumentos colaborativos e participativos.
5 Avaliação da população ao trabalho realizado. Caráter temporário do trabalho.
(Des)continuidade da prática.

de como isso impacta na construção dos processos envolve duas dimensões: a do compromisso com
psicossociais, no plano microssocial e macrossocial, os segmentos populares explorados e oprimidos, e
são condições determinantes para a constituição a do fortalecimento dos processos de participação
dos aportes necessários à práxis em PSC. e conscientização que se materializam na vida coti-
Um segundo princípio, derivado e relaciona- diana, que deve ser compreendida e vivida fora dos
do ao anterior, liga-se a uma práxis baseada em mecanismos e explicações naturalizantes e fragmen-
conhecimentos ampliados, provenientes também de tadores. Isso significa contribuir para análises que
outros campos disciplinares e colaborando para que primem pelas categorias da totalidade e contradição
as produções, teóricas e práticas, sejam inter e multi- históricas, contribuindo para que se faça uma ‘des-
disciplinares. Para isso, alguns aportes são essenciais, psicologização’ ou ‘despatologização’ da vida coti-
como os da educação popular, baseada em Paulo diana e das relações sociais, e eliminando os pro-
Freire (Assumpção, 2009; Barreiro,1985; Freitas, cessos ligados ao fatalismo e à crença na imutabili-
dade e irreversibilidade históricas.

FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA


1999; 2007; 2012) e os da investigação-ação-
-participante, apoiada na perspectiva de Orlando A forma de construção dos objetivos, refe-
Fals Borda (Brandão & Assumpção, 2009; Fals Borda, rentes à prática comunitária, trata do quarto prin-
1986). Agrega-se também o fato de que ter uma cípio importante e definidor dos rumos do trabalho.
práxis assentada nestes conhecimentos e valores Se esses objetivos, de fato, forem discutidos e cons-
exige que o trabalho seja, necessariamente, reali- truídos de maneira participativa e colaborativa entre
zado em equipe e de maneira coletiva e comuni- comunidade e profissional, a sua configuração e o
tária. Deriva, então, a necessidade de se saber tra- processo de construção acontecerá de maneira a
posteriori e participativa (Freitas, 1998; 1999), levan-
balhar em grupo e com os processos psicossociais
do em conta as necessidades básicas, sentidas e
em grupo (Lane, 1984; Martín-Baró,1987), como
vividas, da população. Isto se aproxima àquilo que
agentes internos e externos nas práticas comuni-
Freire (1976) denominou de relação dialógica em
tárias.
que ambos, na relação estabelecida, ocupam, ao
O terceiro princípio, aqui chamado, caráter mesmo tempo, o lugar de sujeitos e objetos do
pedagógico de formação e politização no cotidiano, conhecimento. No caso da PSC, ambos - comuni- 529

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dade e profissionais -, tornam-se, a todo momento, um compromisso político e social para com os
sujeitos e objetos do próprio processo de construção setores e grupos explorados e oprimidos. E, para
dos conhecimentos sobre a vida e dinâmica comu- isso, propõe-se que no processo de formação algu-
nitárias. Derivado disto podem ser construídas meto- mas ações deveriam buscar enfrentar os desafios
dologias participativas e colaborativas, mantendo- relativos a seis condições, quais sejam: a) efetivar
-se a coerência a estes pressupostos, em que o conhe- propostas de trabalhos interdisciplinares; b) elaborar
cimento popular e o conhecimento científico, como e planejar de maneira participativa programas de
defendia Fals Borda (1986), situam-se num mesmo políticas públicas em que a comunidade seja o foco
patamar de status e reconhecimento social e cien- das ações; c) encontrar critérios importantes na
tífico. perspectiva comunitária para que sejam implemen-
Um último princípio liga-se à avaliação da tadas investigações relevantes; d) como trabalhar
população a respeito da prática dos profissionais em grupo e diminuir a fragmentação da realidade;
envolvidos. Aparecem, de maneira forte, as dimen- e) como criar estratégias de avaliação continuada
sões da temporalidade do trabalho e sua conti- das práticas desenvolvidas, e f) como construir pro-
nuidade que ficam na dependência direta dos crivos gramas comunitários que envolvam toda a comu-
e resultados da avaliação que a comunidade faz. nidade.
Ou seja, o trabalho poderá continuar ou não, depen- Em consonância à crença de que é a vida
dendo do grau de importância e impacto sentidos concreta que nos ensina a fazer mudanças nas rela-
e valorizados pela população. Encontra-se aqui um ções, defende-se que algumas condições concretas
dos aspectos que mostram haver (ou não) coerência deveriam contribuir para um aprofundamento na
e, de fato, horizontalidade na relação entre profis- qualidade da formação dos (as) profissionais. Assim,
sionais e comunidade. se de um lado, não é a exigência profissional e
A questão relativa a como se poderia ensinar científica que, por si só, vai produzir mudanças,
e aprender estas dimensões e princípios, para que também a ausência de qualidade e de exigências
se constituissem em diretrizes para a práxis em PSC, formativas pode colaborar para que haja uma pre-
continua sendo um grande desafio e meta colocada carização e distanciamento de compromissos para
a todos(as) os(as) profissionais e cursos que com- com uma vida mais justa para os setores que são
preendem a profissão como devendo ter um íntimo alvo de nossas práticas. Em outras palavras, subes-
compromisso com a mudança e transformação so- timar as exigências de qualificação e precarizar as
cial. condições de formação e capacitação profissionais,
também servem para legitimar e quase naturalizar
Não é o fato de, na prática profissional a ser
que não seria possível mudar e melhorar a formação
realizada, haver um envolvimento, identificação e
profissional em nossa área e, consequentemente,
compromisso com setores precarizados, que essa
contribuir com mudanças sociais.
prática teria a autorização de ser feita, também, de
modo precarizado e “menos”, ou seja, de uma for-
ma subvalorizada, subqualificada e subformada.
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