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Antropologias do Sul: um olhar sobre o Brasil e a Índia.

Aline Sapiezinskas
sapiezinskas@terra.com.br

O propósito deste artigo é, partindo de uma discussão teórica sobre o que se entende

como “Antropologias do Sul”, analisar comparativamente o caso Brasil-India, tendo como

foco de análise tanto a bibliografia produzida sobre o tema quanto minha experiência

pessoal de participação em seminário Internacional de Cultural Studies naquele país,

durante dez dias, seguida de investigações de campo no estado de Orissa, bem como na

capital cultural, a cidade de Kolkata.

Tal experiência de participação numa área ampla como Cultural Studies traz

contribuições para a análise e reflexão sobre a antropologia indiana como “antropologia do

sul”, não apenas pela presença de um número considerável de antropólogos no encontro,

incluindo o próprio diretor do Centro de Pesquisa em Ciências Sociais que o promoveu, Dr.

Partha Chatterjee, mas também por ter sido organizado pela SEPHIS. Trata-se de uma

organização que tem como objetivo a promoção do intercâmbio entre países ao Sul do

Globo, valorizando a troca e o compartilhamento de formação e informação entre os

profissionais e estudantes dessas regiões.

Neste encontro estiveram presentes, além dos professores do Centro de Estudos em

Ciências Sociais de Kolkata, aproximadamente umas dez pessoas, outros dez especialistas

indianos de áreas correlatas, tais como Sociologia, Ciência Política, Estudos de

Desenvolvimento Internacional e Academia de Arte e Estética de Delhi. Este grupo tinha

como propósito apresentar leituras de autores clássicos como Foucault e Johannes Fabian,

entre outros, e discutir os trabalhos apresentados diariamente pelo outro grupo de


participantes constituído por alunos de cursos de doutorado provenientes de países ao Sul

do globo. Num total de 23 pessoas, este segundo grupo era composto por doutorandos

indianos, provenientes de Delhi (6), Calcutta (2), Hyderabad (3) e Bangalore (3), e por

doutorandos e recém-doutores estrangeiros, provenientes da África do Sul (1), Brasil (1),

Filipinas (1), Indonésia (1), Nigéria (1), Trinidade e Tobago (1), e Uganda (3).

A partir desse contato com pesquisadores de outros países localizados ao sul do

globo, acredito poder trazer novos elementos para a reflexão sobre os possíveis significados

e dimensões de uma antropologia do sul, questionando se é realmente possível falar de uma

antropologia do sul e que diferentes características ela assumiria em países como a Índia e o

Brasil.

A noção de Antropologia do Sul

De acordo com a formulação de Krotz (1997), a parte Sul do mundo tem sido

considerada como campo privilegiado para a pesquisa antropológica, realizada a partir de

uma perspectiva do norte, onde se localizam as raízes científicas da disciplina. Segundo

este autor, se observa um grande silêncio sobre a produção teórica gerada nestes países,

considerando que ela exista, e esse fato estaria relacionado à posição política periférica em

que se encontram tais países do sul.

O autor chama a atenção para a ironia presente no fato de que o surgimento da

antropologia como disciplina científica, dedicada particularmente ao estudo da diversidade

cultural, ocorre lado-a-lado com a forte tendência da missão civilizatória de normalizar essa

diversidade. Obviamente essa meta não foi atingida e as contradições presentes no modelo
Norte Atlântico de civilização criaram novas heterogeneidades tanto ao Norte quanto ao Sul

numa escala mundial.

Hoje as diferenças entre Norte e Sul podem ser profundamente sentidas, tanto no

que se refere a desigualdades tecnológicas quanto econômicas, informacionais e em muitas

outras esferas, bem como em termos teóricos, nos binômios associados à relação Norte-Sul

tais como: civilização e selvageria, desenvolvido e sub-desenvolvido, moderno e

tradicional, dominação e dependência, globalismo e localismo e tantos outros.

Não é necessário estender muito a questão de que há diferenças entre os países, já

que elas são facilmente observáveis, e de que as diferenças são maiores entre os países

considerados como Norte em relação aos países considerados do Sul, do que em relação aos

países vizinhos tanto no Norte quanto no Sul, mantendo-se essa perspectiva de distribuição

dos países no globo, que em todo caso é mais política do que geográfica.

Uribe (1997) destaca essa razão em específico nas suas observações críticas ao texto

de Krotz, sustentando que essa dicotomia Norte/Sul ofusca a percepção das nuances que

estão contidas no cerne da questão das diferenças, lembrando que existem tradições fortes

na disciplina que não se encaixam bem na divisão, tal como as tradições Inglesa e Francesa

em Antropologia.

Portanto observa-se aqui um primeiro inconveniente dessa divisão entre países do

Norte e países do Sul, por não se tratar de uma categoria de localização geográfica, mas sim

de uma categoria política, já que a Índia seria considerada um país ao Norte, ao contrário do

que de fato ocorre.Todavia, é patente que as principais produções teóricas discutidas nos

cursos de pós-graduação e em seminários e encontros de profissionais são teorias

produzidas na Europa, sejam Francesas ou Inglesas, ou nos Estados Unidos, de forma que

independentemente da distribuição geográfica dos países silenciados e da adequação das


categorias de Norte e Sul atribuídas a eles, é ainda válido questionar sobre o silêncio em

torno de teorias produzidas em outras localidades. Ou antes, questionar se existe de fato

uma produção teórica de fôlego paralela a que se realiza nos grandes centros. A pergunta

que motiva essas reflexões, entre outras é: existe apenas uma disciplina antropológica ou

existe uma antropologia do Sul, oposta complementar ou não da antropologia do Norte?

O fato de haver diferenças econômicas e sociais entre os países determina a

existência de uma produção teórica diferenciada e própria daquele local?

Segundo Krotz, (1997) uma das razões que motiva esse tipo de questionamento

sobre a centralidade das produções teóricas e a existência de produções periféricas,

(trazendo a noção de centro e periferia como alternativa à noção de Norte e Sul) seria a

situação conhecida do pesquisador vindo do Norte para realizar sua pesquisa de campo em

um país do Sul, e hoje em dia encontrando ali não apenas nativos, mas nativos com

formação semelhante a sua, portanto colegas-nativos e estudantes.

Essa nova forma de encontro com o “outro” produz uma situação de

questionamento de autoridades, ou no mínimo conduz a uma maior reflexão sobre o tema.

Conforme foi observado na disputa entre Sahlins e Obeyesekere, resumidamente,

temos de um lado a autoridade do pesquisador do Norte, portanto dotado de uma maior

prestígio em relação aos colegas do Sul e dessa forma interlocutor legítimo. Do outro lado,

o seu colega, por sua vez um nativo de um país também do Sul, com a autoridade de

profundo conhecedor da realidade dos países do Sul justamente por ser nativo, além de

antropólogo. Numa grande disputa sobre quem tem a autoridade para falar sobre a viagem

do Capitão Cook ao Hawaii, o resultado prático foi que um antropólogo do Sul, mais

precisamente do Sri Lanka, conseguiu se colocar internacionalmente como interlocutor de

Marshal Sahlins, no que ambos saem ganhando.


A questão principal para os interesses desse trabalho que vejo emergir na disputa

entre Sahlins e Obeyesekere diz respeito à autoridade do antropólogo para falar de seu

próprio país, como nativo, que não é o caso nem de Sahlins nem de Obeyesekere, mas que

surge como questão de reflexão a partir de seu diálogo. O antropólogo que é também nativo

teria mais autoridade para falar sobre o país do que o antropólogo estrangeiro?

Aparentemente, depende de onde vem este estrangeiro em termos do reconhecimento do

prestígio de alguns centros de formação e também depende de quem é este

nativo/antropólogo que fala de seu país, quais são suas credenciais acadêmicas. Portanto o

jogo do reconhecimento da autoridade do pesquisador passa por um conjunto de regras que

são internas ao próprio mundo acadêmico, e que não são regras estabelecidas no norte ou

do sul, mas são internacionais, e facilmente perceptíveis.

Certamente há muito o que ser dito a respeito da disputa entre estes autores, Sahlins

e Obeyesekere, e as questões que esse caso suscitou, mas um aprofundamento em tais

questões fugiria dos limites propostos para este artigo, portanto sou levada a não

desenvolver mais essa questão, me atendo ao caso dos antropólogos do Sul.

Voltando ao argumento de Krotz, o autor observa que na história da disciplina

pouco se fala sobre as teorias ou os pesquisadores originários do Sul: “quando a

antropologia do Sul se faz presente, ou quando há consciência de sua existência, ela é vista

como algo “sub-desenvolvido” tanto quanto o país de terceiro mundo em que se originou.”

Mesmo no Sul, a antropologia produzida localmente só aparece como exemplo de teorias

do Norte, como um reflexo posterior, fortalecendo a imagem de extensão ou adaptação, o

que torna o perfil dessa produção praticamente invisível.

Segundo este autor, um outro aspecto do problema da grande disparidade entre

Norte e Sul reside no relacionamento entre os membros das comunidades acadêmicas, que
em geral se caracteriza por uma relação de paternalismo do Norte em relação ao Sul, ou no

mínimo como uma relação fortemente marcada pelas diferenças entre os países: “A maioria

dos antropólogos do Norte, mesmo estudantes, pensaria em passar uma temporada no Sul,

na melhor das hipóteses, como uma possibilidade de trabalho de campo.” (KROTZ, 1997)

Considerando-se que há realmente diferenças entre os países, é difícil que as

relações entre os membros dessas comunidades não tenha traços dessas diferenças, e que

cada membro individualmente não tenha traços de seu país de origem, entretanto, tal

relação não precisa ser necessariamente marcada pelo paternalismo, e não creio que seja

sempre.

A partir de uma perspectiva Latino-Americana, Krotz formula quatro questões

críticas que caracterizariam as antropologias do Sul: (i) aqueles que pesquisam e aqueles

que são pesquisados são cidadãos do mesmo país, o que possibilita um maior acesso aos

resultados da pesquisa e favorece mesmo a contestação desses resultados; (ii) o conceito

que se tem do conhecimento científico produzido no exterior é tido como superior ao

produzido nos países do Sul, resultando no preconceito da sociedade a respeito de sua

própria produção científica; (iii) a hipótese de que a alteridade sócio-cultural produzida seja

de natureza diferente da pesquisas do Norte bem como a interferência de um engajamento

político com as questões tratadas conduz a resultados bastante diversos; (iv) o próprio

conhecimento de seus antecedentes e de suas origens, chegando a revelar seu próprio perfil

de produção teórica com certa maturidade.

A conclusão de Krotz se refere a criação de uma maior consciência da necessidade

de uma antropologia da antropologia do Sul, não com o intuito de criar uma antropologia

anti-Norte, mas com o propósito de obter uma perspectiva planetária sobre a ciência

antropológica. Nesse sentido, cabe lembrar que este trabalho de antropologia da


antropologia tem sido realizado tanto no Brasil quanto na Índia, o que permite agora lançar

uma reflexão sobre esses dados, e questionar em que medida as características apontadas

por Krotz estão contempladas.

No que diz respeito à antropologia brasileira, se observa uma crescente

internacionalização das pesquisas. De acordo com Trajano e Martins (2004:15)

“Ao longo das últimas três décadas, o Brasil construiu um sistema de pós-graduação

que constitui a parte mais exitosa de seu sistema de ensino, considerado de forma unânime

como o maior e melhor da América Latina. Um crescente número de estudantes

estrangeiros nos programas de pós-graduação em Antropologia no Brasil, que fazendo

pesquisa em seu país de origem, contribuem para o alargamento do campo onde a voz da

antropologia brasileira está sendo ouvida”.

Isso contraria a primeira característica apontada por Krotz, que sugere um certo

provincianismo nas antropologias do Sul, ao realizarem as pesquisas sempre dentro das

fronteiras do país, olhando para si mesmo. Recentemente têm sido realizadas pesquisas de

brasileiros fora dos limites do país, sobre temas estrangeiros, e de estrangeiros em número

crescente nas nossas universidades. Somado a isso, a participação de pesquisadores

brasileiros em eventos de caráter internacional contribui para que a antropologia brasileira

comece a ser conhecida internacionalmente.

A antropologia brasileira localiza seus heróis na antropologia do Norte. De acordo

com Fry (2004: 242) “é como se a antropologia brasileira, tão geograficamente periférica

quanto a do Sri Lanka do ponto de vista do “centro”, legitimasse a antropologia do

establishment tão duramente criticada em outros lugares periféricos.” Esse ponto distingue

fortemente a antropologia brasileira da Indiana. No Brasil há toda uma valorização do que

vem de fora como sendo bom e em geral superior ao nosso. O mesmo não ocorre na Índia,
que constrói sua posição mais em contraposição às teorias importadas do que na

assimilação desse olhar de fora sobre si mesmos.

O engajamento político é considerado como um fator positivo pela comunidade

acadêmica brasileira, embora tendo grandes e competentes autores brasileiros, o

conhecimento vindo do exterior desfruta de um status privilegiado. Se reconhece os nomes

dos grandes autores brasileiros, mas na formulação de um programa de curso sobre autores

clássicos num programa de pós-graduação em antropologia, a bibliografia é geralmente

composta por 100% de autores estrangeiros. O que revela esse paradoxo entre a existência

de grandes autores e teóricos na antropologia brasileira e o reconhecimento pelos seus

próprios pares de que sua produção seja de nível internacional e digna de ser incluída nos

programas dos cursos ao lado dos estrangeiros. Não se trata de uma prioridade aos

estrangeiros em relação aos nacionais?

Da mesma forma, a Índia apresenta grandes autores com elevado rigor teórico e

metodológico, de acordo com Peirano (1992), mas estes autores não são conhecidos fora

das fronteiras do país, exceto aqueles que trabalham em grandes centros de produção de

conhecimento, nos Estados Unidos ou na Europa, tal como Veena Das, por exemplo.

A maioria das pesquisas realizadas na Índia também trata de questões de interesse

interno, próprias do país, como direitos das minorias e a situação das mulheres. A maioria

dos estudantes prefere fazer cursos na Europa revelando grande valorização dos centros

Europeus, em detrimento de suas academias de formação.

Segundo Peirano (1992: 191), “a identidade da antropologia indiana trazia a marca

do diálogo com o Ocidente, quer na afirmação dos valores hindus, na rejeição ou aceitação

de Dumont, quer na reversão dos papéis habituais do “nós” e do “outro”, ou no

questionamento da situação de opressão entre as duas civilizações”. Conforme apontou


Peirano em sua pesquisa sobre os intelectuais indianos, a antropologia indiana é construída

em torno das questões sociais relevantes, de acordo com o momento que o país está

vivendo, mas em intenso diálogo com o Ocidente e com grande conhecimento dessa

produção, que nos limites deste trabalho estaria classificado como produção própria dos

países do Norte.

Um ponto de contraste da antropologia indiana com a antropologia brasileira seria o

tom dos debates com relação aos autores clássicos da disciplina. Enquanto os brasileiros

assumem uma postura de legitimação dessa produção, os indianos demonstram uma postura

mais crítica, se contrapondo fortemente a algumas noções tais como globalização e turismo

como comodificação, apenas para ilustrar com alguns exemplos. Nisso parece que os

indianos estão mais fortemente ligados aos valores da civilização hindu, e embora a

admiração pelo ocidente se faça sentir em todos os momentos, na análise de processos

sociais eles rejeitam a ocidentalização da sua cultura.

Considerando que cada experiência localizada possui as suas próprias

características, permanece o questionamento sobre o sentido de se pensar numa

antropologia do sul como um todo: quais são as dimensões e os significados de se pensar

em uma antropologia do Sul? Qual o propósito deste intercâmbio entre membros de países

do Sul?

A partir de minha experiência no seminário internacional de Cultural Studies e de

investigações junto aos demais participantes, acredito que o intercâmbio entre os

pesquisadores do Sul tem relevância no sentido de se conhecer mais de perto quais são os

interesses de pesquisa dos demais membros e em que sentido existe um compartilhamento

desses interesses de pesquisa.


Os temas apresentados de um modo geral são os mesmo: (i) questões de gênero; (ii)

o papel do estado, governabilidade e políticas públicas (iii) religião e secularização (iv)

imaginário, memória e representação e (v) arte e cultura popular. Da mesma forma, os

autores apontados como referências teóricas e conceituais também remetem diretamente a

produção Estadunidense ou Européia, com alguns nomes de autores indianos, tais como

Rajeswari Rajan, sobre o papel do Estado, Partha Chatterjee, sobre secularismo, Madhava

Prasad, sobre cinema, Tapati Thakurta, sobre arte e gênero, apenas para trazer alguns

exemplos. O contato com estes autores proporciona uma percepção da seriedade da

produção de conhecimento indiana em Ciências Sociais e abre as portas para todo um

conjunto de reflexões teóricas elaboradas no país para pensar seus próprios problemas.

A questão da possibilidade de aplicar tais reflexões teóricas igualmente a

problemáticas brasileiras dependeria de se considerar que as problemáticas sejam as

mesmas. Em linhas gerais até pode-se dizer que compartilhamos das mesmas temáticas,

mas principalmente no caso da antropologia que se debruça caso a caso na investigação dos

problemas, um olhar mais detalhado logo revela que se trata de situações bastante

diferenciadas.

No caso do patrimônio histórico, por exemplo, a abordagem brasileira ao problema,

grosso modo, leva em conta a relevância da preservação, a elaboração da legislação e das

políticas públicas de tombamento e manutenção das propriedades e a participação popular.

Tanto os elaboradores quanto os pesquisadores de políticas públicas comungam de certos

temas e a abordagem é semelhante.

Do ponto de vista indiano, a preservação do Patrimônio, no caso dos Templos, é

também uma questão do Estado, do reconhecimento da relevância da preservação, de uma

reação contra as transformações que ocorrem no país, do perigo da comodificação da


cultura, das ameaças colocadas pelo turismo e da interferência internacional. A abordagem

dos pesquisadores se contrapõe e questiona criticamente as políticas públicas em tom de

desaprovação.

Por outro lado, a leitura e a interpretação que é dada a autores mais centrais como

Fabian, Foucault e Kant, por exemplo, concentra seu foco sobre questões bastante

específicas do caso da Índia, em problemas cotidianos. A forma como estes autores são

empregados para pensar questões relevantes na Índia é enriquecedora da própria leitura que

fazemos como brasileiros desses mesmos autores. Considero este um dos grandes pontos

positivos desse tipo de intercâmbio acadêmico.

Falar sobre uma antropologia do Sul ganha sentido de duas formas: (i) pela

importância de conhecermos o que é produzido e que de forma são tratados temas

semelhantes em países também periféricos e quem são os autores relevantes. (ii) Conhecer

melhor a problemática em que se centram as preocupações dos pesquisadores dessa região

e ver a sua realidade social um pouco mais de perto.

Por outro lado, toda essa proposta de antropologia do Sul não seria o eco de uma

tendência surgida justamente no “Norte” de dar voz aos oprimidos, de dar espaço para

falarem aqueles que nunca são escutados, como as mulheres, as minorias e agora os países

do Sul?

Acredito que a idéia de Antropologia do Sul está muito ligada aos Estudos

Culturais, e o que realmente importa nessa discussão é o fato de se sair do circuito Estados

Unidos, Inglaterra e França e lançar um olhar para outras fontes de produção de

conhecimento e outras formas de lidar com questões atuais, que também nos dizem

respeito, para que possamos retornar ao nosso trabalho com uma visão enriquecida por

outras formas de olhar para o mundo.


A antropologia do Sul não existe de forma independente. A antropologia nos países

periféricos se forma a partir de matrizes centrais, na leitura e assimilação dos autores

clássicos da disciplina, de debate e aplicação dessas teorias. O silêncio apontado por Krotz

é reflexo das diferenças de toda ordem que continuam a existir no mundo. O lado positivo é

que já podemos vislumbrar o surgimento de um perfil próprio das antropologias, tanto no

caso da Índia quanto no caso do Brasil o que nos promete render gradativamente mais

espaço no debate internacional.


Referência Bibliográficas

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