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Juventude
e
educação

Dialética das
juventudes modernas
e contemporâneas
Dialectics of modern and
contemporary youths
Luís Antonio Groppo
Professor do Programa de Mestrado em Educação Sócio-comunitária do Centro
Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), Unidade Americana. Doutor em Ciências
Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
É autor do livro Juventude. Ensaios sobre Sociologia e História das juventudes modernas
(Rio de Janeiro: Difel, 2000).
E-mail: luis.groppo@am.unisal.br
R e s u m o
O texto procura esboçar uma concepção sociológica dialética das juventudes, a partir de uma análise crítica de outras
concepções e visões sobre a juventude: a “adolescência” segundo a Psicologia, a “puberdade” segundo a medicina e,
enfim, a concepção funcionalista da juventude, presente na maior parte das pesquisas e reflexões sociológicas sobre
as juventudes. A concepção dialética recupera o caráter social e histórico das juventudes modernas e contemporâneas,
enquanto grupos etários homogêneos, institucionalizados ou informais.
Unitermos: juventude, sociologia da juventude, grupos juvenis, história da juventude, autonomia.

S y n o p s i s
The paper tries to delineate a sociological and dialectic conception of youths, from a critical analysis of other
conceptions and views about youth: “adolescence” according to Psychology, “puberty” according to Medicine and,
finally, the functional conception of youth, occurring in the most part of researches and sociological reflexions about
youths. The dialectic conception recuperates the social and historical character of modern and contemporary youths,
as homogenous, institutionalized or informal age groups.
Terms: youth, sociology of youth, youthful groups, history of youth, autonomy.

Resumen
El texto procura esbozar una concepción sociológica dialéctica de las juventudes, a partir de un análisis crítico de
otras concepciones y visiones sobre la juventud: la “adolescencia” según la Psicología, la “pubertad” según la
medicina y, finalmente, la concepción funcionalista de la juventud, presente en la mayor parte de las investigaciones
y reflexiones sociológicas sobre las juventudes. La concepción dialéctica recupera el carácter social e histórico de las
juventudes modernas y contemporáneas, en cuanto grupos por edad homogéneos, institucionalizados o informales.
Términos: juventud, sociología de la juventud, grupos juveniles, historia de la juventud, autonomía.

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A juventude é uma constante


preocupação das sociedades
para a definição de quando a juven-
tude, afinal, começa e termina, para

modernas e contemporâneas, uma assim orientar a ação do Estado e das



permanente “questão pública”. Na ver- instituições socializadoras. A idade


dade, existem ciclos, fases em que a contada em anos, dado objetivamente
preocupação com a juventude é enfa- determinado, parecia ser o melhor
tizada. Por exemplo, a partir do final do critério para o julgamento das ações
século XVIII e em todo o século XIX, individuais e a atribuição de deveres e
diversos ciclos de preocupação com a direitos, dada sua universalidade e
“delinqüência” e/ou promiscuidade caráter quantitativo. Também, per-
Novas ondas de
juvenil das classes trabalhadoras se mitia às ciências, principalmente no
preocupação pública
deram, conforme a industrialização e com a juventude ponto de vista positivista, elucidar as
a urbanização iam se aprofundando e pretensas determinações “naturais”, de
se estendendo pelos países da Europa caráter bio-psicológico, do desenvol-
e, logo, para todo o mundo. Conforme vimento humano.
os efeitos sociais negativos do capi- Ainda hoje este impulso essencial da
talismo industrial iam avançando, logo sociabilidade moderna em prol da de-
se impunha a questão da “juventude” terminação objetiva – via delimitação de
desregrada, viciada, promíscua, indis- faixas etárias – das “idades da vida” vê-se
ciplinada, delinqüente, formadora de presente, principalmente no Direito. Na
bandos criminosos etc., sem que década de 1980, implantou-se, no Brasil,
ficasse claro para o discurso social e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
até para as ciências qual era a relação No início da atual década, o Estatuto do
entre o avanço do capitalismo indus- Idoso. Promete-se, para breve, o Estatuto
trial, os problemas sociais daí decor- da Juventude. Legalmente, segundo
rentes e a “questão da juventude” (Flin- estes Estatutos, a adolescência começa
ter, 1968; Pinchbeck & Hewitt, s.d.; aos 12 e acaba aos 16 anos. A juventude,
Humphries, 1984). Algo semelhante certamente, começa aos 16, mas ainda
parece dar-se hoje, novamente, confor- A juventude começa não se definiu exatamente quando aca-
aos 16, mas ainda
me avança o capitalismo em uma nova bará, do ponto de vista legal – muitos
não se definiu
modulação, “global”, baseado numa quando acabará falam em 25 anos, alguns até em 29 anos.
“acumulação flexível” geradora de de- Certamente, o Direito interpreta assim
semprego estrutural, decomposição parte das práticas sociais e do ima-
social e destruição ecológica (ver, por ginário coletivo, dividindo a transição da
exemplo, Forrester, 1997). Novas ondas infância à maturidade em adolescência
de preocupação pública para com a e juventude. No entanto, apesar de reco-
juventude surgem, quando novamente nhecer a adolescência e a juventude
se fala tanto em caridade quanto re- como “direitos”, colaborando poten-
pressão, paternalismo e criminali- cialmente para aumentar o grau de
zação da delinqüência juvenil, políticas civilidade e bem-estar de indivíduos e
públicas para a juventude e rebaixa- coletividades, o ponto de vista legal
mento da idade penal. ainda deixa de lado muito da comple-
Desde seu início, o “problema da xidade e diversidade assumidas pela
juventude” mobilizou quadros inte- condição juvenil.
lectuais (cientistas, juristas, políticos, Para a compreensão dos signifi-
pedagogos, psicólogos, médicos etc.) cados sociais das juventudes mo-

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dernas e contemporâneas, o essencial social. Mannheim (1982), por sua vez,


não é delimitar de antemão a faixa contextualiza melhor a realidade social
etária da sua vigência. Esta faixa etá- da juventude. Considera-a como uma
ria não tem caráter absoluto e uni- das fontes primordiais da identidade
versal. É um produto da interpretação social no mundo moderno, ao lado da
das instituições das sociedades sobre a experiência da classe social. Contudo,
sua própria dinâmica. A juventude A juventude é uma acabará também por naturalizar a
trata-se de uma categoria social usada categoria social juventude, considerando a “unidade de
para classificar indivíduos, normatizar geração” como realidade social possível
comportamentos, definir direitos e de- de emergir pelo compartilhar coletivo
veres. É uma categoria que opera de uma experiência “natural”, a
tanto no âmbito do imaginário social, juventude – enquanto a consciência de
quanto é um dos elementos “estru- classe é um possível produto social de
turante” das redes de sociabilidade. De uma experiência igualmente social, a
modo análogo à estruturação da socie- posição na estrutura de classes.
dade em classes, a modernização tam- Discordando de Murdock &
bém criou grupos etários homogêneos , McCron, buscarei demonstrar que a
A modernização
categorias etárias que orientam o criou categorias juventude é uma realidade social, não
comportamento social, entre elas, a etárias que orientam apenas mera mistificação ideológica.
juventude. o comportamento Mas, discordando de Ortega y Gasset
social
e, até certo ponto, de Mannheim, de-
Para uma concepção fendo que a realidade da juventude
sociológica de juventude não é tão somente da ordem da “natu-
reza”, mas principalmente da ordem do
Murdock & McCron (1982) pra- “social” e, portanto, uma criação his-
ticamente negam à juventude o tórica, não um invariante universal.
caráter de realidade social. Para eles, Trata-se de desvencilhar o olhar
trata-se apenas de uma construção sociológico sobre as juventudes do
imaginária, um rótulo gerado com o in- olhar das ciências que procuram “na-
tuito de manipulação ideológica. Um turalizar” a juventude, como a Biologia
produto da Inglaterra vitoriana, tão – que informa a medicina – e a Psicologia.
bem expresso nos ideais do criador do Ambas tendem a considerar a juven-
escotismo, o general Baden Powell, tude, denominada por elas respecti-
que dizia que o sentimento nacional vamente como puberdade e adoles-
deveria estar acima das diferenças de cência, como uma transformação
classe social, que as instituições para os físico-mental universal e compulsória
jovens, como o escotismo, deviam a todo indivíduo (Rezende, 1989).
misturar indivíduos de diversas classes É claro que a puberdade, realmen-
sociais e uni-los em um sentimento te, é algo mais ou menos universal na
patriótico comum. espécie humana. Mas a juventude é,
Para Ortega y Gasset (1987), a sobretudo, uma categoria social e não
juventude é um rebento do curso na- uma característica natural do indi-
tural da vida, um dos suportes naturais víduo. Na modernidade, a juventude
e universais da vida em sociedade. tende a ser uma categoria social deri-
Gênero e curso natural da vida são, vada da interpretação sócio-cultural
para ele, invariantes geradores da vida dos significados da puberdade, este

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sim, um fenômeno natural e universal condicionantes históricos. O que a


que, no entanto, pode adquirir pouca história e a análise sociológica
importância conforme a sociedade em demonstram é que, o que existe
que ocorre. efetivamente, são grupos juvenis múl-
A moderna estrutura das faixas A moderna estrutura tiplos e diversos, não uma única juven-
etárias, incluindo aí a juventude, foi, das faixas etárias foi tude concreta (Rezende, 1989). Ainda
como muitos outros produtos da mo- pensada como uma assim, procurarei demonstrar que
categoria universal
dernidade, pensada como uma cate- existe uma “condição juvenil” mais ou
goria universal, abstrata, generalizan- menos geral, que, dialeticamente, in-
te e mesmo ideal. É mais um dos frutos forma e resulta da criação destes gru-
do pensamento ideológico liberal, pos juvenis, destas juventudes. Trata-se
pensamento este que unia a inter- de algo análogo ao que acontece com
pretação das “leis naturais” com a de- as classes operárias que, mesmo sendo
finição abstrata e genérica dos pa- muito diferenciadas entre si, pela pre-
drões ideais de civilização e sença de fatores como nacionalidade,
humanidade, padrões que estariam religião, costumes, tradições, organi-
sendo atendidos conforme se respei- zação política, gênero e até mesmo as
tavam estas “leis naturais” (Mannheim, categorias etárias, têm em comum uma
1986). Contudo, como praticamente se “condição operária”, a saber, a de serem
deu na aplicação de todos os demais vendedoras da sua força de trabalho.
construtos da modernização “bur- Esta concepção sociológica da ju-
guesa”, como a industrialização, a ventude, que venho defendendo, re-
O que existe
urbanização, a criação dos Estados vela a importância da juventude
efetivamente são
Nacionais e dos mercados capitalistas, grupos juvenis dentro da sociedade moderna como
o impacto desta “naturalização” das múltiplos e diversos “elemento estrutural”, como algo im-
categorias etárias, em destaque, a portante, hoje, no mínimo, como
juventude, não produziu homogenei- herança, caso realmente vivamos a
dade no tecido social. Na verdade, o pós-modernidade.
próprio impacto destes inúmeros Esta concepção principia pela
construtos da modernização “burguesa” consideração de que toda sociedade e
foi gerador de ainda mais desigual- cultura diferenciam seus membros
dade e diversidade, sem que, no pelo gênero (masculino e feminino),
entanto, seja possível dizer que alguém pelo parentesco (mais e menos pa-
tenha escapado ileso das ondas de rentes) e em “fases da vida” (infância,
modernização. maturidade e velhice, geralmente com
Isto significa que, na análise social e rituais de passagem entre as fases).
histórica, é preciso correlacionar a Não são todas as sociedades, po-
juventude com outras categorias so- rém, que criam grupos sociais a partir
ciais, como classe social, nacionalidade, Na maior parte da destas “fases da vida”, ou de categorias
região, etnia, gênero, religião, condição sociedade a etárias. Na maior parte das sociedades
tendência é a mistura
urbana ou rural, momento histórico, de idades
pré-modernas, a tendência é a mistura
grau de “desenvolvimento” econômico de idades dentro de grupos hetero-
etc. Assim, ao analisar as juventudes gêneos (em geral, de parentesco, ou
concretas, é preciso fazer o cruzamento assemelhados), como a sociedade
da juventude – como categoria social – medieval analisada por Phillippe Ariés
com outras categorias sociais e (1981). A criação de grupos etários

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homogêneos corresponde a socie- comportamentos esperados, permi-


dades que criam uma esfera social tidos ou impostos aos jovens .
“pública” mais elaborada, uma parte da Mas Eisenstadt, apesar de toda sua
vida social mais ou menos separada da qualidade na demonstração de que a
família e das relações de parentesco. juventude é uma construção histórica
Nestas sociedades, exige-se uma e social, ainda está preso ao que con-
“segunda socialização”, a socialização sidero como uma visão funcionalista
secundária, para ensinar o indivíduo a da juventude. Nesta visão, que informa
viver também em esferas sociais não ou atravessa, no meu entender, grande
organizadas a partir da família e do parte da produção sociológica sobre a
parentesco (Berger & Luckmann, juventude na primeira metade do sé-
1974, parte III), sociedades em que há culo XX – baseada em teorias sociais
uma relativa ou absoluta autonomi- Qual seria o behavioristas, no interacionismo sim-
zação de esferas sociais como econo- significado dos bólico e no funcionalismo propria-
mia, cultura, religião e política. Estas conflitos de mente dito –, os grupos juvenis (escola,
geração?
são as sociedades que S. N. Eisenstadt grupos controlados por adultos e gru-
(1976) chama de “sociedades univer- pos informais) existem em função da
salistas”. O seu exemplo mais extremo socialização secundária. Da juventude
são as sociedades modernas. espera-se um trabalho de integração à
Segundo Eisenstadt são três os sociedade “adulta”.
tipos de grupos juvenis no mundo mo- Logo se impõe justamente a ques-
derno: primeiro, a escola; segundo, os tão: qual seria então o significado dos
grupos juvenis controlados por adul- conflitos de geração, dos movimentos
tos; terceiro, os grupos juvenis infor- juvenis, dos movimentos estudantis,
mais. Os grupos informais, em sua da delinqüência juvenil etc.? Na visão
maioria, têm importantes funções funcionalista, certamente, são “infun-
socializadoras, em sua minoria são cionalidades”, ou sintomas destas in-
“desviantes”. Na verdade, a especifici- funcionalidades. São “desvios” que
dade das sociedades modernas em devem ser curados, ou que indicam
relação a outras sociedades univer- disfunções sociais.
salistas, que desenvolveram em algum A visão funcionalista Neste sentido, a visão funcionalista
grau grupos juvenis, é a multiplicação absorve parte da absorve parte da concepção natu-
e diversificação deste terceiro tipo de concepção ralista de juventude que permeia a
naturalista de
grupos juvenis, os informais. psicologia e a medicina, justamente no
juventude
Assim, Eisenstadt demonstra que a que se refere à noção de que existem
juventude existe socialmente na forma estados “normais”, saudáveis, estabe-
de grupos juvenis, ou de grupos etários lecidos a partir de “leis sociais” positi-
homogêneos, que reúnem indivíduos vamente inteligíveis. Se há normalidade,
com idades semelhantes – em oposição pode haver anormalidade, doença, ano-
aos grupos etários heterogêneos, dos mia – aquilo que foge do padrão, do espe-
quais a família é o principal exemplo. A rado, que destoa e não faz “funcionar”
juventude se origina destes grupos corretamente o sistema social.
sociais de caráter etariamente ho- No meu entender, deste modo, gran-
mogêneo, reunindo indivíduos que de parte da história das juventudes
passam a ser chamados e considerados modernas e contemporâneas, bem
joven s, que passam a desenvolver como das formas de sociabilidade dos

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grupos juvenis, é jogada para o estado Concebo a dialética das juventudes


caótico da anormalidade, da disfunção. e da condição juvenil, primeiro, como
Na ânsia de sanar males sociais con- a presença de elementos contra-
cebidos, ou pré-concebidos, grande ditórios no interior dos diversos grupos
parte da prática social e dos casos juvenis, elementos que colocam cons-
históricos de juvenilidade são relegados As juventudes tantemente aquilo que é definido ins-
acabam
à esfera do problemático, do doentio. titucional e oficialmente em estado de
incompreendidas e
Novamente, as juventudes acabam impedidas de se superação, pela própria dinâmica inter-
incompreendidas e impedidas de se compreenderem um na das coletividades juvenis e de suas
compreenderem um pouco melhor. pouco melhor relações com a sociedade mais geral.
As sociedades, em processo de
Dialética da juventude “modernização”, engendram, desde o
início deste processo, e em ondas su-
Meu objetivo, aqui, é indicar pistas cessivas que abarcaram cada vez mais
para superar estes limites da con- parcelas das sociedades ocidentais e
cepção funcionalista de juventude. não-ocidentais, inúmeros grupos ju-
Mesmo sendo capaz de levar em conta venis. A primeira modalidade de grupo
o caráter social e histórico das juven- juvenil é justamente aquela organi-
tudes, a concepção funcionalista aca- zada pelas instituições do “mundo
ba decaindo nos defeitos do cientifi- adulto”, a saber, escolas, orfanatos, in-
cismo e do “naturalismo”, que em tudo ternatos, casas de correção, escotismo
buscam padronização e equilíbrio e juventudes de igrejas, partidos e
sistêmico – concebendo a sociedade Estados. Na segunda metade do século
como um “organismo” e as relações XX, num processo que teve os Estados
sociais como fenômenos naturais. Unidos como precursor, as sociedades
Tentarei esboçar o que considero modernas criaram, como novas ins-
como a concepção “dialética” da ju- tâncias desta modalidade, as univer-
ventude. Uma concepção, que espero, sidades massificadas e o mercado de
ajudará a compreender as trajetórias consumo juvenil.
das juventudes na modernidade e con- Tais grupos juvenis e instâncias de
temporaneidade. socialização criam a “realidade” social em
A dialética, no marxismo, busca que indivíduos com idades semelhantes
determinar quais são os elementos vivem próximos, convivem juntos, ou,
constitutivos contraditórios da vida no caso do mercado de consumo, pen-
social e quais são os movimentos Dessa convivência sam e se comportam de modo seme-
desencadeados por tais elementos forçada nasce a
possibilidade de se
lhante mesmo distantes no espaço. Mas
(Mandel, 1978, cap. XVI). Se Marx é justamente desta convivência forçada
criarem
pensava principalmente em explicar, identidades, que nasce a possibilidade destes indiví-
assim, as lutas de classe e a con- comportamentos e duos criarem identidades, comporta-
tradição entre forças produtivas e grupos próprios
mentos e grupos próprios e alternativos
relações de produção, penso que tal ló- às versões oficiais.
gica colabore também na com- O que se tem, portanto, na história
preensão de um elemento funda- das juventudes modernas, é um per-
mental constitutivo das sociedades curso dialético, entre a institucionali-
modernas, as categorias etárias, em zação das juventudes e a possibilidade
destaque a juventude. de sua autonomia. A autonomia juvenil

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(que não deve ser confundida com es- Maçonaria, ou sob sua inspiração, in-
querdismo, nem com revolta prio- clusive vários deles com apelo místico
ritariamente política) pode ser re- e esotérico, como os Rosacruzianistas;
primida pela sociedade, contida ou ter grupos evangélicos anti-institucionais
seus valores e elementos sociais absor- (pietistas, quakers e metodistas); so-
vidos pela estrutura social. Entre os ciedades secretas insurrecionais con-
caso de reabsorção da revolta da ju- tra a Restauração (como os carbo-
ventude, posso citar os grupos juvenis nários); juventudes nacionalistas de
orientados por adultos republicanos Mazzini; grupos juvenis formados por
ou socialistas no século XIX, a apro- seguidores dos socialistas “utópicos”
priação do modelo do Movimento Ju- (como as “Crianças de Saint-Simon”);
venil Alemão por partidos de direita e sociedades ginastas e fraternidades
esquerda na Alemanha dos anos 1920, universitárias na Alemanha; a Boêmia
os grupos juvenis usados para a parisiense etc. Atente-se ao fato de que
tomada do poder pelos fascistas, a não são apenas movimentos políticos,
acomodação dos jovens rebelados em A dialética da
muito menos apenas “progressistas”,
movimentos antioligárquicos da juventude opera mas também religiosos, místicos e
América Latina na estrutura de poder entre períodos de culturais, com tendências ideológicas
e, mais recentemente, inclusive no integração e de diversas como republicanismo, nacio-
mobilização
caso da contracultura, o uso das nalismo, socialismo “utópico” e até con-
contestada
criações culturais juvenis pela servadorismo – mas, invariavelmente,
indústria cultural. em tom inconformista, muitas vezes
A importante obra de John R. Gillis com caráter insurrecional e inter-
(1981) parece indicar que o período pretando as ideologias naquilo que
que observou os principais processos eram favoráveis ao voluntarismo,
de institucionalização das juventudes – valorizando menos a experiência e
que chama de “Era da Adolescência”, mais a “experimentação”.
entre 1900 e 1950 –, está intercalado Os anos 1950 e 60 refletem, nos seus
entre os dois momentos históricos de movimentos juvenis, tanto os pro-
maior agitação das juventudes: o cessos de institucionalização da “Era da
período de 1770 a 1870 e os anos 1950 e Adolescência”, quanto os novos pro-
60. Na sua obra, a dialética da cessos, como a massificação das uni-
juventude opera principalmente em versidades e o crescimento da in-
ciclos históricos, na alternância entre dústria cultural. São movimentos e
períodos de maior integração das manifestações mais conhecidos, como
juventudes e períodos em que pre- os “rebeldes sem-causa”, a mobilização
valece a mobilização contestadora. Às em torno do rock and roll, os hippies e
transformações revolucionárias das as contraculturas, os movimentos
sociedades ocidentais, a partir da estudantis, maio de 68 etc. Avançando
segunda metade do século XVIII, em relação ao período em que Gillis
seguem-se manifestações – em forma de pára, poderia se aventar a hipótese de
revolta ou esboços de organização Os anos 1970 que, a partir dos anos 1970, inicia-se um
autônoma –– de grupos compostos por marcam o novo novo ciclo de integração das juven-
ciclo de integração
jovens, ainda que, em geral, tais grupos tudes, através principalmente da ação
das juventudes
fossem organizados por adultos: das indústrias culturais, do marketing
grupos juvenis formados pela Franco- e mercados de consumo juvenil.

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Mas, voltando à “Era da Adoles- daquela que observará nos movimen-


cência” (1900-1950), mesmo este perío- tos juvenis dos anos 1960. Revelando
do contém amostras importantes da que o lado “inconformista” da dialética
dialética social e histórica das juven- da juventude pode assumir tons não
tudes. O próprio Gillis (1981) indica isto, necessariamente “progressistas”, estas
quando afirma que a Era da Adoles- mobilizações foram bem sucedidas na
cência também foi a “Era da Delin- A “Era da canalização do desejo de autonomia
qüência”, quando continuou muito pre- Adolescência” das juventudes e da sua relação de tipo
também foi a “Era
sente nas análises de diversas ciências da Delinqüência”
“experimental” com a realidade e os
e nos discursos e práticas sócio-po- valores presentes.
líticas a questão da delinqüência juve- Na verdade, outros registros ideo-
nil. Delinqüência que era ao mesmo lógicos da mobilização das juventudes
tempo real e imaginária, contraponto já se deram na primeira metade do
necessário para justificar a institucio- século XX, como os kibutz israelense e
nalização disciplinarizadora da “ado- as organizações de juventude na União
lescência”. Gillis indica também a rea- Soviética. Esta mobilização irá abun-
lidade das resistências dos indivíduos dar, principalmente, na segunda meta-
e coletividades juvenis das classes de do século XX, nos movimentos pela
trabalhadoras a esta instituicionali- libertação nacional, na Revolução
zação forçada – via legislação e esco- Cubana e na Revolução Cultural Chi-
larização. Muito do que foi a delin- nesa. Estes movimentos políticos fo-
qüência nestes tempos, expressava ram também, ou contiveram, bem
também esta resistência (ver também sucedidas mobilizações das juven-
Humphries, 1984). Enfim, é preciso tudes em torno do inconformismo, do
lembrar que a mobilização política da O nazi-facismo não voluntarismo e do impulso à auto-
juventude nestes tempos foi, sobre- deixou de ser uma nomia das vontades.
espécie de
tudo, conservadora e “patriótica” – en- movimento juvenil
Outra maneira de perceber a dia-
saiada desde as jovens companhias de lética das juventudes é analisar o que
cadetes, na Inglaterra da década de parece haver de geral na “condição
1850, passando pelos batalhões esco- juvenil” na modernidade. Karl
lares na França da década de 1880, Mannheim (1982) e Marialice Foracchi
pelas Brigadas Juvenis inglesas e o (1972) indicam que se trata de uma
escotismo –, em geral, ligada a práticas condição em que indivíduos e grupos
esportivas valorizadas em seu caráter vivenciam uma relação experimental
disciplinador e militarista. com valores e estruturas sociais. Ela é
Logo chegaria a hora dos movi- experimental no sentido de significar
mentos fascistas usarem estas táticas um primeiro contato do indivíduo
de mobilização dos jovens para refor- como protagonista destes valores –
çar suas organizações e até tomar o papel que pode ser rejeitado ou sabo-
poder, em destaque o fascismo italiano tado durante tal fase “experimental”.
e o nazismo alemão. O nazi-fascismo Os jovens ainda não têm os valores
não deixou de ser também uma es- e comportamentos esperados como
Os jovens não têm
pécie de movimento juvenil, incon- os valores de
algo introjetado em sua personalidade
formista, voluntarista, idealista e comportamento e no modo de ser. A possibilidade de
ativista – ainda que sua coloração ideo- introjetados em seu que muitos indivíduos nesta mesma
lógica tenha sido muito diversa modo de ser condição – de relação experimental

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com a realidade social – se encontrem Uma juventude “pós-


juntos é dada pela modernidade, que moderna”?1
cria ela mesma as condições da revolta
das juventudes, quando Estado, agên- Como indiquei, as sociedades em
cias oficiais de socialização, direito, processo de modernização procuram,
ciências, saberes disciplinares, parti- pelo menos desde o século XIX, criar
dos, igrejas, indústria cultural, movi- uma rígida cronologização do curso
mentos sociais etc. procuram institu- da vida individual. Os processos que
cionalizar as juventudes que têm ao se construíram as estruturas sociais do
dispor, ou que buscam abarcar. mundo moderno não foram apenas
A condição juvenil, como relação aqueles que deram origem ao
experimental com o presente, tende a capitalismo e suas classes sociais, a
fazer com que as juventudes valo- urbanização em grande escala, a in-
rizem mais as vivências do imediato dustrialização, a mercantilização da
e a espontaneidade, que tendam a vida e a autonomização das esferas de
considerar mais ou menos secundá- ação social. Também deve se consi-
rio, às vezes até inútil, a experiência derar – às vezes, para dar conta das
acumulada, já que esta é um atributo necessidades oriundas dos processos
da maturidade, daqueles que já ex- de modernização citados; outras
perimentaram os valores e as rea- vezes, para tornar possíveis estes
lidades e os introjetaram em sua per- Valorizar a processos, como parte de um movi-
sonalidade básica. Atente-se que experimentação não mento mais geral de “racionalização
valorizar a experimentação não signi- significa que a da vida social” –, a cronologização do
juventude é curso da vida e os eventos conco-
fica dizer que a juventude é neces-
“irresponsável”
sariamente “irresponsável”, no sentido mitantes de institucionalização do
negativo do termo. Significa dizer, curso da vida e formação de grupos
sim, que a condição juvenil tende a etários homogêneos. 2
fazer com que indivíduos e grupos O curso da vida tem na medida em
jovens desvalorizem ou dessacra- “anos” o critério mais objetivo, neutro e
lizem a “sabedoria” acumulada, signi- natural possível. Através desta medida
fica que esta condição tende a fazer e critério, se busca determinar – para a
com que os jovens valorizem ideo- ciência, educação, direito etc. – os
logias que enfatizam a “vivência”, a estágios da vida do ser humano. A idade
espontaneidade, a ação imediata. contada sob o rígido critério do tempo
Deste modo, é possível dizer que a absoluto torna-se a melhor forma de
força e a fraqueza das juventudes reduzir todas as diferenças sociais e
modernas advém desta condição de individuais reais a um denominador
relação experimental com a realidade comum e universal (Fortes, 1992).
presente. Esta condição contém o pe-
1. As idéias deste item se devem, sobretudo, às
rigo da desvalorização de experiên- A força e a fraqueza leituras indicadas pela Profa Dra. Guida Grin Debert,
cias acumuladas e comprovadas da juventude advém bem como suas aulas na disciplina “Antropologia e
racionalmente. Mas, por outro lado, da relação com a Velhice” (Tópicos Avançados em Cultura e Política
realidade II), no Programa de Doutorado em Ciências Sociais
contém a possibilidade de que se con- da Unicamp, Campinas, 2o semestre de 1997.
teste aquilo que parecia imutável ou de 2. Até mesmo Ariés (1981, p. 194) afirma que as
(falso) valor absoluto. classes de idade e as classes sociais são categorias
que emergem em conjunto na história moderna e
são mutuamente necessárias.

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Ao mesmo tempo em que se dá esta vidual, que passa a ser “reprivatizado”


cronologização, ocorre a institucio- (Debert, 1999).
nalização do curso da vida. As ações Nesta pretensa sociedade “pós-mo-
mais visíveis desta institucionalização derna”, a própria juventude teria per-
são, nos séculos XIX e XX, as nor- dido sua razão de ser no seu sentido,
matizações levadas a cabo pelo Estado hegemônico durante a modernidade,
e a escolarização. O processo é ainda de transitoriedade, construção da
mais claro nas crianças levadas à es- individualidade e aquisição de expe-
cola, quando passam a ser ignoradas riências sociais básicas. Parece se
diferenças e competências individuais impor algo que várias vezes antes
na seriação e determinação dos con- havia se anunciado e esboçado: a ju-
teúdos ministrados. No direito, as leis ventude seria, sobretudo, um “estilo de
de proteção ao trabalho, leis eleitorais, vida”, um “modo de ser” – a juventude
penalidades criminais, instauração do “bastaria em si mesma”.
conceito de maioridade criminal e A juventude desaparece para dar
jurídica, sistema de pensões para ido- lugar à “juvenilização”, deixa de ser uma
sos etc. (Kohli & Meyer, 1986). vivência transitória para ser um estilo
Contudo, diversas análises indicam de vida identificado ao bem viver
Diversas análises
que vem acontecendo contempora- indicam a
consumista. O juvenil é “juvenilizado”,
neamente a “desinstitucionalização do “desinstitucionalização desvinculando-se da idade adoles-
curso da vida”, um processo que estaria do curso de vida” cente e tendo retirado de si conteúdos
engendrando, a partir dos anos 1970, mais rebeldes, revolucionários ou me-
uma sociedade na qual as faixas etá- ramente disfuncionais. Enfim, a “juve-
rias não seriam mais essenciais para a nilização” da vida contemporânea tor-
determinação do curso da vida no nou-se a mais desejada aparência dos
aspecto privado (Kohli & Meyer, 1986; clientes da cultura de mercado
Debert, 1999). Esse processo faz com (Santos, 1992).
A juventude
que as intervenções institucionais Desta análise, que indica a desins-
desaparece para
baseadas na cronologização do curso dar lugar à titucionalização e a reprivatização do
da vida, como aquelas feitas pelo Es- “juvenilização” curso da vida, emerge uma concepção
tado, tenham seu peso cada vez menor, relativista da juventude. Concepção
obrigando indivíduos e grupos sociais esta que já existia outrora em algumas
a procurar soluções particulares para análises das ciências sociais, que se
as dificuldades inerentes ao ritmo esboçava na visão de mundo de di-
biológico da vida (como o envelhe- versos movimentos juvenis (do Mo-
cimento). Trata-se da “reprivatização vimento Juvenil Alemão à contra-
do curso da vida”. cultura) e que se tornou o padrão do
Alguns parecem indicar que este é “bom viver” segundo a indústria cultu-
um processo libertador. Outros con- ral. Considera-se aqui a juventude um
seguem perceber sua incidência em “estilo de vida”, como uma “forma de ser”,
conjunto com a flexibilização das rela- como “estado de espírito”, que todos,
ções de trabalho e dos mercados de independente da sua idade, podem – e
consumo, que há um caráter perverso devem – assumir.
neste relativo abandono das políticas Na visão da juventude como “estado
sociais e do Estado em relação ao de espírito” temos uma concepção pós-
cuidado com o curso da vida indi- moderna dos comportamentos sociais,

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ou seja, de que o indivíduo tem relativa Mas o próprio processo de “repri-


margem de manobra para compor sua vatização” tem que ser relativizado. Ele
identidade, comportamentos e valores não é tão geral e absoluto quanto po-
– e transformá-los. É esta mesma con- deria se imaginar. Num primeiro mo-
cepção que irá influenciar muito do mento, tinha levado a sério a hipótese de
que tem sido pensado e praticado que a dialética moderna da condição
como a “Terceira Idade” (alguns já di- A mesma juvenil tinha desaparecido, tanto pela
zem, a “Melhor Idade”). A velhice estaria concepção irá ação “reprivatizadora” e relativizadora da
se transformando nesta terceira ou influenciar o que concepção pós-moderna das categorias
“melhor” idade, na qual os indivíduos são tem sido praticado etárias, quanto pela desestabilização
como a “melhor
responsáveis por manter ou alcançar idade”
sócio-econômica generalizada desde os
uma vida saudável, ativa e “juvenil”. anos 1970 – que fizeram recuar a juven-
Contudo, muitas vezes se esquece que tude como “direito”.
a concepção de uma Terceira Idade É claro que esta superação da dia-
que deve ser “jovem” a qualquer custo, lética da juventude, pela corrosão do
pode levar a uma marginalização da- caráter iniciatório e experienciador da
queles em que o envelhecimento físico fase juvenil, é uma possibilidade, sim.
e mental consumiu as possibilidades de Alguns consideram isto uma positivi-
um estilo de vida mais ativo. dade, uma libertação, em sua con-
No meu entender, na verdade, a cepção “pós-moderna” da juventude,
“reprivatização” do curso da vida indica defendendo a desinstitucionalização
uma regressão dos direitos sociais do curso da vida. A juventude é aí um
relativos à infância, juventude e velhice. estilo de vida associado a compor-
No caso da juventude propriamente tamentos escolhidos pelo indivíduo,
dita, paira, agora sim, uma real ameaça mas nem sempre a defesa desta ju-
de “anomia social”, dada a ausência de ventude “pós-moderna” indica o quanto
um período transitório no qual os tal estilo está ligado a certos padrões
agentes sociais seriam “treinados” para a de consumo. Mais que uma libertação
aquisição de requisitos mínimos de para a autoprogramação do curso da
civilidade, cidadania, consciência social vida, para a maior parte das pessoas o
e criatividade cultural, período outrora fenômeno é antes negativo que posi-
chamado “juventude”. tivo. Trata-se da negação da juventude
São reais os processos que envol- no seu sentido moderno, como mo-
vem a “reprivatização” do curso da vida. mento de socialização secundária que
Em parte, respondem a anseios li- antecipa o ingresso na maturidade e o
bertários de uma geração que fez a mundo público, inclusive como pro-
revolução cultural dos anos 1960, que teção. Negação que se estende cada
ajudou a organizar movimentos sociais vez mais para grupos sociais. Isto signi-
de aposentados e em prol dos direitos O “direito à fica a regressão de certas conquistas
dos idosos. Em parte, porém, a juventude” vem se sociais, de certos direitos sociais e
reprivatização é determinada também, tornando cada vez aspectos positivos da universalização
mais uma
talvez principalmente, pela regressão relativa das juventudes modernas. Um
promessa não
dos direitos sociais observada com a cumprida forte exemplo deste segundo ponto é
intensificação do capitalismo, através a generalização do desemprego, da
do fenômeno da globalização, precarização do trabalho e a piora nas
legitimada pelas ideologias “neoliberais”. condições de vida, gerando insegu-

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rança aos jovens tanto do “mundo identidade juvenil, vêm alimentando


desenvolvido” quanto das partes mais os movimentos sociais e políticos em
“desenvolvidas” dos países pobres. todo mundo, que fazem crítica à glo-
Quanto ao resto do mundo o “direito à balização. Também, eram jovens os
juventude” vem se tornando cada vez rostos e as vozes mais fortes durante
mais uma promessa não cumprida. protestos sociais no Irã em 1999, em
Um outro aspecto relativiza a re- diversas manifestações recentes na
privatização do curso da vida, ao mes- América Latina, durante a crise nos
mo tempo em que denuncia seu A maior parte dos países asiáticos (Coréia do Sul, Indo-
caráter regressivo. Ele se revelou, para manifestantes era nésia) em 1998 etc.
composta de jovens
mim, nas grandes manifestações em No meu entender, estes fenômenos
Seattle, em 1999, contra a Rodada do indicam que é preciso ainda consi-
Milênio da Organização Mundial de derar a capacidade de autonomia das
Comércio (OMC). A maior parte dos juventudes, partindo da sua relação
manifestantes era composta de jovens. experimental com valores, idéias e
Repetia-se um fenômeno semelhante instituições durante sua socialização
aos movimentos estudantis de 1968, secundária. Daí ainda podem emergir
em que, se o caráter juvenil das mo- visões de mundo alternativas e radi-
bilizações não era consciente ou era calmente críticas (mas não neces-
relegado ao segundo plano, apesar sariamente, como prova a história, “de
disto, se tratava fundamentalmente de esquerda”).
um movimento juvenil, fazendo operar
novamente a dialética da juventude. Conclusão
Mas os movimentos de crítica à globa-
lização não são idênticos aos de 1968. Ainda que a dialética de Marx afir-
Lá, se tratava, sobretudo, da demanda me que, segundo as “leis” do movimento
por “libertação” – em relação aos histórico, tudo está fadado a ser supe-
padrões comportamentais, em relação rado, talvez possa se dizer que ainda
à dominação neo-imperialista ou em não chegou o momento da juventude
relação ao poder das burocracias, ser superada como elemento estru-
portanto, uma revolta pela libertação tural da sociabilidade contemporânea.
na era dos “três mundos”. Hoje, se trata Deste elemento, fundado numa rela-
fundamentalmente do repúdio à ção certamente dialética e contra-
regressão dos direitos sociais e a ditória entre a busca de padronização
privatização e mercantilização de e os desejos de autonomia, ainda se
bens outrora considerados como realiza parte importante do processo
“públicos”, regressão levada a efeito pelo de socialização dos indivíduos.
capitalismo global e neoliberal Em primeiro lugar, os grupos ju-
(Denning, 2002). Entre estes direitos venis, institucionalizados ou não, ainda
ameaçados, deve estar presente o exercem importantes tarefas, “funções”,
“direito à juventude”. Entre estes bens de preparação dos indivíduos para o
mercantilizados, está o próprio curso mundo social. Simplesmente, eliminar
da vida, que está sendo “reprivatizado”. a juventude como socialização secun-
As novas mobilizações de indi- dária, poderia significar uma vacuidade
víduos e grupos juvenis, quase sempre nas estruturas sociais (talvez até
não conscientemente em torno desta pudesse ser dito, um estado de anomia).

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Mas, isto ainda não é tudo, pois, conteporâneas sob a égide do capi-
como procurei demonstrar, se a juven- talismo, como os crescentes níveis de
tude – enquanto coletividade reunida violência que vitimam os mais jovens.
em grupos etários homogêneos – é uma Seja para procurar compreender
categoria social com sua própria dia- a violência muitas vezes ensandecida
lética, permeada de contradições, de gangues juvenis, seja para
então ainda devem estar emergindo encontrar esperança nos novos
daí o que a visão funcionalista chama movimentos de crítica aos efeitos
de “disfunções”, e que uma visão dia- negativos da globalização, parece-me
lética da juventude tenta considerar o que a dialética da juventude – presente
seu significado mais profundo – evitan- desde o início da modernização – é
do, porém, idealizar este significado. ainda um importante instrumento de
Trata-se da possibilidade dos indiví- análise sociológica. Este artigo não
duos e grupos jovens desenvolverem, inventou nem a concepção socio-
de modo autônomo, identidades e lógica de juventude, nem mesmo foi o
valores próprios, relativamente ou primeiro a reconhecer seu caráter
muito destoantes dos padrões sociais dialético. Diversos são os autores,
de seu tempo. Trata-se da possibilidade análises e pesquisas que realizaram
de surgirem revoltas, rebeldias, insa- tais intentos, mesmo quando não ver-
tisfações e negações, a partir do que só balizaram com estas mesmas pala-
deveria ser, a princípio, acomodação, vras sua concepção de juventude. O
socialização tranqüila, integração que busquei, aqui, foi explicitar tal
social. As recentes e poderosas mani- dialética das juventudes modernas e
festações políticas das juventudes, em contemporâneas, em prol de estudos
todo mundo, estão aí para provar que sociológicos que investiguem melhor
este caráter das juventudes modernas as juventudes do mundo atual. Afinal,
ainda continua presente, e muito pre- a sociologia sempre teve nas juven-
sente. Talvez, não menos que outras tudes um importante portal para com-
manifestações que indicam também preender a própria sociedade em seu
outras contradições das sociedades todo.
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