Você está na página 1de 29

Uma estrutura mais durável, como?

2.1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS

Em fase de projecto de uma estrutura de betão armado ou pré-esforçado, para além de se


considerar o seu dimensionamento em função das cargas a que estará sujeito, será necessário
definir o ambiente a que a estrutura ficará exposta para ser possível prever as interacções ao longo
do tempo de vida da estrutura, entre esse ambiente e os materiais constituintes da estrutura, o betão
e o aço. Essas interacções entre o ambiente e a estrutura manifestam-se por vários processos de
deterioração do betão e de corrosão das armaduras descritas anteriormente em 1.3.

Sendo possível e fácil conhecer a resistência mecânica potencial σ R (à compressão e à

tracção) do betão de determinada estrutura, o mesmo já não se passa em relação à durabilidade da


estrutura na medida em que depende das várias resistências do betão a cada um dos ataques
físicos e químicos do ambiente a que a estrutura estará sujeita (Figura 2.1) e cuja intensidade vai
variando ao longo da vida da estrutura (Hidsdorf, 1989).

RESISTENTE ÀS CARGAS σ
BETÃO RESISTENTE σ<σ R

resistente à erosão
e/ou
resistente à abrasão
e/ou

BETÃO DURÁVEL resistente à cavitação BAIXA


e/ou PERMEABILIDADE

+
resistente a Cl- RECOBRIMENTO SUFICIENTE
e/ou
+
resistente a CO2 PROTECÇÃO ADICIONAL
e/ou +
- ...
resistente a SO4
e/ou

...
Figura 2.1 - Resistência/durabilidade.

Definido o ambiente de exposição a que a estrutura estará sujeita e portanto, conhecidos os


processos de degradação que poderão eventualmente intervir, a grande questão será:

Em que factores é que os engenheiros e técnicos poderão interferir de modo a que a estrutura
tenha determinada vida útil?

É apresentado, nos Quadros 2.1 a 2.5, um conjunto clássico de soluções, em termos


genéricos, a esta questão.

97
Capítulo 2

Segue-se uma pormenorização dos vários factores que, segundo a abordagem clássica e os
conhecimentos actuais, podem influenciar a durabilidade de uma estrutura de betão armado ou pré-
esforçado:

Permeabilidade (2.2)
Relação água/ligante (2.3)
Colocação e compactação (2.4)
Cura e protecção (2.5)
Dosagem de ligante (2.6)
Tipo de ligante, adições (2.7)
Inertes, tipo de granulometria (2.8)
Pessoal Técnico (2.9)
Exposição ambiental (2.10)
Recobrimento das armaduras (2.11)
Projecto e pormenorização (2.12) e, finalmente,
Protecção adicional (2.13).

Para além da abordagem clássica, é hoje possível contribuir para a melhoria da durabilidade
utilizando um tipo inovador de molde, diferente do habitual - designada por CPF (Controlled
Permeability Formwork) isto é, cofragem de permeabilidade controlada, cuja eficiência se
comprova no trabalho presente, e que é apresentada no capítulo 4.

Quadro 2.1 - Deterioração do betão por processos físicos.

PROCESSOS FÍSICOS

PROCESSOS CAUSA SOLUÇÃO

- introdução de ar
deterioração do betão por aumento de volume da água ao congelar
- permeabilidade suficientemente baixa
ciclos gelo/degelo
tipo de rede de poros - verificação da gelividade dos inertes

- não usar adições

- aumento de recobrimento
deterioração do betão por condições de uso
- permeabilidade suficientemente baixa
abrasão
- maior percentagem de graúdos

- aditivos: cinzas volantes ou sílica de fumo

deterioração do betão por - maior percentagem de finos


condições de uso
cavitação - acabamento mecânico

98
Uma estrutura mais durável, como?

Quadro 2.2 - Deterioração do betão por processos mecânicos.

PROCESSOS MECÂNICOS

PROCESSOS CAUSA SOLUÇÃO

evaporação > exsudação - protecção adequada


Fissuração por
deficiente cura e - (colocação e compactação, adequadas)
retracção plástica
deficiente protecção, colocação e compactação - revibração imediata ao aparecimento

Fissuração por impedimento de assentamento das partículas, pela - cuidados na colocação compactação
assentamento cofragem ou armaduras cura e protecção
plástico - revibração imediata ao aparecimento

Fissuração por deficiente dimensionamento projecto cuidado


sobrecarga

Fissuração por calor de hidratação - escolha do tipo de cimento adequado


diferenças de (grandes massas) - arrefecimento
temperatura em betão
jovem

Fissuração por
ligação de betão jovem a betão antigo - cura adequada
retracção térmica

Fissuração por secagem - cura (e protecção) adequada

retracção

Quadro 2.3 - Deterioração do betão por processos biológicos.

PROCESSOS BIOLÓGICOS

PROCESSOS CAUSA SOLUÇÃO

- evitar cavitação

deterioração do betão por - boa ventilação

ácidos sulfídrico, húmico e Em sistemas de esgotos - aluminatos cálcicos fundidos (Sand,

sulfúrico 1995)

- permeabilidade suficientemente baixa

- protecção adicional

99
Capítulo 2

Quadro 2.4 - Deterioração do betão por processos químicos.

PROCESSOS QUÍMICOS
PROCESSOS CAUSA SOLUÇÃO

Deterioração do betão destruição da pasta de cimento - permeabilidade suficientemente baixa


por ácidos processo ± activo dependente do produto de - protecção adicional
água descarbonante reacção ± passivante
sais de magnésio
sais amoniacais

cimento - cimento pobre em aluminatos


- evitar inertes com alumina (feldspatos
Deterioração do betão reagem com os aluminatos
caulinizados)
por sulfatos
inertes - protecção adicional, eventualmente

podendo-se formar etringite - reacção


expansiva

- permeabilidade muito baixa


- não usar cimento pobre em aluminatos
(diminui resistência aos cloretos que é acção
Deterioração do betão cloretos/sulfatos
preponderante)
por água do mar ( a acção dos sulfatos é inibida pelos cloretos) -
- para evitar penetração Cl se usado
portland, limitar
5% < AC3 < 10%

+
- permeabilidade muitissimo baixa
- betão de alta resistência (fCK ≥ 35 MPa)
- com adições: escórias cinzas etc. (atenção
ciclos gelo/degelo)
- a/c < 0,4 ou menos
- aumentar dosagem cimento
- aumentar recobrimento (40 a 75 mm)
- PROTECÇÃO ADICIONAL

Deterioração do betão silíca reactiva - não usar inertes com sílica reactiva
por álcalis - limitação dos álcalis no cimento (0,6%)
podem reagir com - adições de pozolana ou sílica de fumo
- baixa permeabilidade (baixo A/C)
carbonatos dos
inertes não se conhecem casos na Europa!
(dolomites)

100
Uma estrutura mais durável, como?

Quadro 2.5 - Corrosão das armaduras

PROCESSOS DE DESPASSIVAÇÃO

PROCESSOS CAUSA SOLUÇÃO

Carbonatação - permeabilidade baixa

- protecção adicional

Penetração de cloretos - permeabilidade baixa

- tipos de cimento com escórias, sílica de

fumo, cinzas volantes e pozolanas

Por análise dos quadros anteriores e tudo o que foi dito anteriormente, a durabilidade de uma
estrutura de betão armado ou pré-esforçado poderá ser garantida sobretudo pela permeabilidade
suficientemente baixa do betão de recobrimento e adequada espessura, de acordo com o ambiente
a que a estrutura estará sujeita (CEB, 1992; Eurocódigo 2, 1991).

2.2 - PERMEABILIDADE

Como visto em 1.2.2 relativamente ao mecanismo de transporte no betão, o termo


permeabilidade define-se, de um modo genérico, como a maior ou menor facilidade com que o
material se deixa atravessar por gases e líquidos (sob pressão ou à pressão atmosférica)
eventualmente, com substâncias dissolvidas ou em suspensão. Viu-se também que permeabilidade
de um betão resulta do sistema de poros e fendas formado inicialmente, fruto da escolha dos
componentes e suas quantidades, sobretudo relação água/cimento (vejam-se figuras 1.7 a 1.8) e
cura (vejam-se as figuras 1.7 e 1.9) mas também, tipo e dosagem de cimento, inertes, tipo e
granulometria, das condições de colocação, compactação, e protecção (CEB, 1992; Mills,1987;
Neville, 1995) e da natureza dos moldes. O sistema de poros e fendas continua a evoluir ao longo
da vida da estrutura, não só devido à continuação do processo de hidratação do cimento mas
também às interacções do meio ambiente circundante com a estrutura (lixiviação, carbonatação,
penetração de cloretos etc.).

Assim a permeabilidade determina a capacidade do betão de recobrimento de impedir ou


atrasar o ingresso de líquidos e gases agressivos (Mills, 1987).

Embora nos últimos anos se tenha feito muita investigação no que se refere à permeabilidade
do betão, não existe um método universalmente aceite para quantificar aquela grandeza, embora
existam diversos métodos a partir dos quais se determinam coeficientes de permeabilidade relativos
a determinado fluído e usando técnicas diferentes (LNEC E392; LNEC E393; ISO 7O31; Schonlin e
Hilsdorf, 1987;Hilsdorf,1989; Tanahashi et al, 1987; Bunte e Rostásy, 1989; Cabrera et al, 1989;
Coutinho e Gonçalves, 1994; Gonçalves, 19963). Alguns destes métodos foram referidos em 1.2.2.

101
Capítulo 2

2.3 - RELAÇÃO ÁGUA/LIGANTE

Relativamente às quantidades de água e cimento e portanto à relação água/cimento, a


permeabilidade aumenta vertiginosamente a partir de uma razão A/C = 0,6, em virtude da
proliferação de poros capilares formados pelo excesso de água como já visto a propósito da rede
porosa (1.2.1). Na Figura 2.2 relaciona-se a permeabilidade à água em betões obtidos com várias
relações água/cimento com o volume de poros capilares (CEB, 1992).

14
Permeabil idade à Água

12

10

0
100 0.7
Hidratação %

A/C 0 0
=0 0.5 .60
80 .40 0
0.30
60 0.20
40
0 10 20 25 30 40 %

Volume de poros capilares

Figura 2.2 - Influência de relação A/C na permeabilidade (CEB, 1992).

2.4 - COLOCAÇÃO E COMPACTAÇÃO

As fases de colocação e compactação são, juntamente com a cura, da maior importância em


termos de permeabilidade, ou seja, de qualidade do produto final, sobretudo quando o betão envolve
armaduras - betão de recobrimento.

Para se obter uma permeabilidade suficientemente baixa é fundamental que o projectista


tenha em mente a durabilidade da estrutura e conceba uma obra simples, com pormenores fáceis
de executar, com espaços suficientes para introdução do betão fresco e das agulhas de vibração
garantindo o preenchimento e vibração do espaço entre armaduras. Na fase de execução da obra é
necessário que o engenheiro assegure que a colocação, compactação e cura sejam bem realizadas.

102
Uma estrutura mais durável, como?

Antes da colocação deve ser garantida uma boa fixação das armaduras para evitar o
deslocamento das mesmas, que poderá conduzir a dificuldades de execução e mesmo futura
fissuração (Figura 2.3) imprevista ou redução da espessura de recobrimento.

Figura 2.3 - Deslocamento da armadura durante a colocação do betão (CEB, 1992).

As superfícies interiores das cofragens devem estar livres de substâncias estranhas, a


cofragem deve ser rígida e estar bem vedada para evitar deslocamento ou fugas que podem
conduzir a betão permeável, fendilhado ou inestético, como se exemplifica na Figura 2.4.

Figura 2.4 - Cofragem defeituosa (CEB, 1992).

A compactação tem como funções obter um betão o mais denso possível particularmente em
volta das armaduras, baínhas, amarrações e cantos das cofragens e expelir as bolhas de ar para o
exterior, em particular na zona de recobrimento das armaduras, obtendo uma mistura o mais
homogénea possível (evitando segregação).

Existem vários tipos de aparelhos para compactação do betão por vibração, divididos em dois
grandes grupos, os de vibração externa e de vibração interna sendo este último o grupo de
vibradores mais eficiente. O período e o modo de vibração terá que ser determinado em função do
tipo de aparelho, betão a vibrar, forma do molde, etc. (Adam, 1975; Coutinho, 1988; CEB, 1992; NP
ENV 206)

Na Figura 2.5 pode-se observar consequências de uma vibração inadequada.

103
Capítulo 2

Figura 2.5 - Vibração insuficiente (Adam, 1975).

104
Uma estrutura mais durável, como?

2.5 - CURA E PROTECÇÃO

2.5.1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS

A cura e protecção são cruciais em termos de permeabilidade pois uma boa cura maximiza as
reacções que levam ao endurecimento, impermeabilidade e ausência de fendilhação e portanto em
termos de durabilidade do betão. De facto a cura promove a continuação do processo de hidratação
e a formação de gel que pode vir a bloquear os poros capilares segmentando a rede, como visto em
1.2.1.

Um betão fresco acabado de colocar e compactar pode potencialmente conduzir a um betão


durável mas apenas se bem curado e protegido.

Curar e proteger um betão significa, logo após as fases de colocação e compactação, criar as
condições necessárias para que as reacções de endurecimento se dêem o mais plenamente
possível de modo a minimizar a retracção plástica e assegurar o desenvolvimento das resistências
mecânicas incluindo eventualmente a resistência à abrasão e também da resistência aos agentes
agressivos ambientais.

Assim para se levar a cabo uma boa cura do betão não se pode permitir, por exemplo, que o
betão seque à superfície prematuramente (vento, temperaturas elevadas), nem que se verifiquem
grandes diferenças de temperatura (por exemplo, devido ao calor de hidratação ou temperaturas
muito baixas no exterior).

Se a superfície do betão seca prematuramente durante a cura, as reacções de hidratação do


cimento são impedidas, a segmentação capilar não se dá e a permeabilidade da camada superficial
do betão pode vir a ser até cinco a dez vezes superior ao betão bem curado! Por mais medidas que
se tomem após uma secagem prematura a sua eficácia será nula, na medida em que a cadeia de
reacções de hidratação não será retomada após interrupção (CEB, 1992).

De facto, para evitar a secagem logo após a colocação de betão e que eventualmente
também conduziria a fissuração por retracção plástica, é necessário garantir, sobretudo no caso de
uso de cimento com adições ou certos adjuvantes, que a taxa de evaporação seja inferior à taxa de
exsudação. A evaporação depende principalmente, da temperatura, humidade relativa do ambiente
e do vento e pode ser estimada a partir do gráfico da Figura 2.6.

105
Capítulo 2

Figura 2.6 - Efeito de condições climáticas na evaporação no betão fresco. (Soroka, 1993 - adaptado de ACI
Committee 305, 1990)

Para evitar riscos de secagem prematura deve-se-á humedecer a base e as cofragens,


colocando o betão à temperatura mínima possível, montando pára-ventos e resguardos do sol,
reduzindo o intervalo de tempo entre a colocação e início de cura e sobretudo por aspersão de
água, uso de coberturas e membranas de cura.

Na Figura 2.7 apresentam-se resultados do ensaios no mesmo betão mas em que a cura foi
realizada por métodos diferentes: ausência de cura, molhagem intermitente durante seis dias de
uma a seis vezes por dia e, finalmente, por imersão durante seis dias. Todas as outras condições de
ensaio foram mantidas constantes, tendo-se posteriormente medido a profundidade de
carbonatação, coeficiente de absorção e resistência à compressão (Esteves Ferreira, 1996).

106
Uma estrutura mais durável, como?

CARBONATAÇÃ O

mm
15

Clima
10 temperado
quente/seco

C. ABSORÇÃO

Kg / m x h
3

2 Clima
temperado
quente/seco

RESISTÊNCIA

σ , 28
MPa 30

Clima
20 temperado
quente/seco

10
1 2 3 4 5 6

sem cura Imersão


nº de molhagens intermitentes por dia (6 dias)

Figura 2.7 - Evolução da profundidade de carbonatação, coeficiente de absorção e resistência à


compressão de um betão em função do método de cura. (Esteves Ferreira, 19962).

107
Capítulo 2

2.5.2 - TEMPERATURA E CURA

A velocidade de endurecimento do betão depende em larga escala da temperatura do betão,


como se pode verificar pelo gráfico apresentado na Figura 2.8 (CEB, 1992).

A temperatura de 20 0C é tomada como ponto de referência e pode-se verificar que, por


exemplo, quando a temperatura passa de 20 0C para 40 0C a velocidade de hidratação é cerca de
duas vezes e meia mais rápida e quando diminui para 10 0C então é cerca de metade. Esta relação
é importante em termos de determinação do tempo necessário de cura.

Figura 2.8 - Velocidade de reacção de um processo activado termicamente (CEB, 1992).

Um dos métodos de prever a resistência do betão em função do tempo e temperatura de cura,


o método da Maturidade, permite ao fim de dois ou três dias de fabrico, estimar a resistência que,
por processos tradicionais, é possível apenas ao fim de vinte e oito dias. Este método oferecia
algumas limitações relativamente, sobretudo, à influência na resistência final, da temperatura do
betão até ao início de presa (primeiras horas) mas, muito recentemente, foi preconizado um método
de Maturidade Modificado que permite definir o tempo de início de presa em função da temperatura
inicial, assim como prever a resistência final em função das temperaturas de cura (Jalali, 1995; Jalali
a Abyaneh, 1995; Jalali, 1996; Jalali e Santos, 1997). Este método permite, entre outras aplicações,
decidir da descofragem sem riscos em termos de qualidade do betão e também definir a duração
máxima de transporte, no caso de betão pronto.

108
Uma estrutura mais durável, como?

2.5.3 - MÉTODOS E TEMPOS DE CURA (E PROTECÇÃO)

Quanto mais longo o período de cura e mais eficaz a sua protecção, maior a
impermeabilidade, tensão de rotura, resistência ao desgaste e a ataques químicos, mas na prática é
necessário conciliar os requisitos de qualidade com os de economia.

Os métodos de cura e protecção são vários, entre os quais se destacam:

- manutenção da cofragem no lugar.


- aspersão com água em intervalo frequentes (ver Figura 2.7).
- uso de filmes plásticos, protectores.
- uso de coberturas de várias substâncias que formam membranas protectoras.

Estes métodos podem ser usados separadamente, ou combinados e o tempo de cura deve
ser aumentado em condições rigorosas de exposição ambiental ou por exemplo quando sujeito a
abrasão. Segundo a NP ENV 206 os tempos de cura mínimos variam, entre 1 a 8 dias para
condições ambientais usuais e de acordo com a razão A/C, a classe de resistência do cimento e a
temperatura de cura.

Em suma, em termos de planeamento, deve-se garantir que o betão tenha atingido a


resistência necessária aquando da descofragem, que seja evitada a secagem prematura (regas,
protecções), que se evitem diferenças térmicas exageradas no betão (calor de hidratação,
temperaturas exteriores baixas) e que em situações de temperaturas muito baixas não se permita a
congelação nas primeiras horas (quinze a vinte horas) enquanto não atingir a resistência necessária.

Relativamente à protecção do betão jovem contra a fendilhação de origem térmica, deverá ser
garantido uma temperatura máxima (60 0C segundo a NP ENV 206) e uma diferença máxima
através das secções, durante o arrefecimento, após descofragem (20 0C segundo a NP ENV 206) e
ainda, é recomendável um valor para a diferença máxima através das juntas de construção ou
quando há grandes variações de dimensões nas secções (entre 10 a 15 0C segundo a NP ENV
206).

Em relação à protecção contra baixas temperaturas, uma medida de protecção aconselhável


será aquecer os componentes como os inertes e a água. No caso de temperaturas elevadas
0
(superior a 60 C) haverá que proteger o betão, por arrefecimento dos inertes e água de

109
Capítulo 2

amassadura o que é possível através de protecções adequadas, o uso de água com gelo ou mesmo
de nitrogénio líquido para arrefecimento da massa de betão fresco.
(Coutinho, 1988; Eurocódigo 2, 1991; CEB, 1992; NP ENV 206; Esteves Ferreira, 1996;
Sampaio, 1996).

2.5.4 - MÉTODOS DE ACELERAÇÃO DE CURA

Existem vários métodos de acelerar a cura entre os quais os métodos por vapor à pressão
atmosférica em que se procede ao aquecimento dos moldes antes da colocação ou aquecimento
por ciclos, após a colocação do betão. É sempre necessário garantir que o betão não seque. Na
Figura 2.9 mostra-se a evolução das tensões de rotura por compressão do betão, conforme a
temperatura de tratamento. Existem também métodos de aceleração de cura por vapor sob pressão
como os designados por endurecimento em autoclave.

Nos métodos de aceleração de cura, a vantagem de se conseguir aumento de resistência em


pouco tempo poderá ser anulada ou mesmo, ultrapassada pela desvantagem da resistência em
idades mais avançadas não atingir os valores que corresponderiam à cura normal. De facto o
processo de cristalização como é acelerado não é perfeito nem ordenado, originando cristais
pequenos e mal conformados de modo que o crescimento cristalino posterior não se faz em boas
condições - o betão é envelhecido precocemente e com certeza que em termos de permeabilidade e
durabilidade, acarretará inconvenientes.

Figura 2.9 - Evolução da resistência à compressão do betão tratado a diferentes temperaturas, à pressão
atmosférica (Coutinho, 1988).

110
Uma estrutura mais durável, como?

2.6 - DOSAGEM DE LIGANTE

A capacidade de fixação de CO2 e Cl- pela pasta de cimento aumenta com o aumento da
dosagem de cimento.

No entanto as velocidades de carbonatação e de penetração depende muito mais de relação


água/cimento, de compactação eficaz e cura adequada do que propriamente da dosagem de
cimento.

Apesar de tudo é importante que a dosagem de cimento garanta determinada


trabalhabilidade, para que seja possível compactar convenientemente e assim, garantir uma baixa
permeabilidade.

Em termos gerais para obras correntes, uma dosagem de 300 Kg de cimento (por m3 de
betão) é suficiente para se conseguir uma permeabilidade suficientemente baixa e durabilidade
adequada, se se mantiver a relação água/cimento abaixo dos 0,5 a 0,6, dependendo das condições
ambientais (presença ou não de cloretos) e providenciando no sentido de uma cura satisfatória.

Um modo de garantir qualidade suficiente do betão de acordo com a exposição ambiental


será aumentar as resistências mínimas do betão exigidas em relação a cada classe de exposição
ambiental (Na NP ENV 206 o objectivo das classes de resistência mínima é essa).

2.7 - TIPOS DE LIGANTE

Em geral os cimentos compostos ou resultantes de adições de pozolanas, escórias de alto


forno e cinzas volantes são de endurecimento lento nas primeiras idades.

Por estes motivos os cimentos compostos ou com adições são geralmente mais sensíveis à
cura do que o cimento, portland. Assim se o endurecimento tardio for obtido por uma cura adequada
quando se usam cimentos compostos ou com adições, a permeabilidade é menor do que com o uso
de cimentos portland como se esquematiza na Figura 2.10.

111
Capítulo 2

cimentos compostos

pozolanas naturais escórias cinzas volantes

endurecimento lento

cura mais importante do que para o cimento portland

Permeabilidade

a
cur

boa cu
ra

percentagem
de adições

cimentos compostos

cimento portland

Figura 2.10 - Influência do tipo de cimento na permeabilidade (adaptado de CEB, 1992).

Relativamente à sílica de fumo num trabalho recente de betão confeccionado com essa
adição (5,10,15 e 20% da massa de cimento), conclui-se que estes betões exigem um tempo de
cura menor ou igual ao equivalente fabricado com cimento portland tipo Ι, isto é, o betão com sílica
de fumo tem um comportamento diferente dos betões fabricados com outras adições (Khan e Ayers,
1994), conseguindo-se resistências iniciais elevadas, ao contrário de betões, por exemplo, com
cinzas (Proença, 1996).

A resistência à penetração de cloretos e à maioria dos ataques químicos é mais elevado em


cimentos compostos ou com adições, relativamente ao cimento portland, o mesmo não acontecendo
com a resistência à carbonatação (ver figura 1.58 a 1.60) e resistência a ciclos gelo/degelo,
sobretudo quando o betão é mal curado.

Em relação à resistência aos sulfatos a vulnerabilidade dos betões está directamente


relacionada com a vulnerabilidade do teor em aluminato tricálcico (3CaO. Al2 O3). Os betões
resistem aos sulfatos tanto melhor quanto maior for a impermeabilidade do betão e menor o teor em
aluminato tricálcico do cimento usado, pelo que é a aconselhável o uso de cimentos com baixo teor
daquele composto (Coutinho, 1974; CEB, 1992; Coelho, 1996). Se o ataque é muito severo é
conveniente protecção adicional constituído por um sistema de protecção contra a penetração por
impregnação hidrófuga com revestimento interior dos poros (Rodrigues, 1996). Os revestimentos
são constituídos, por exemplo, por pinturas, tratamento de superfície com betuminosos ou resinas
sintéticas.
112
Uma estrutura mais durável, como?

2.8 - INERTES, TIPO E GRANULOMETRIA

Como visto anteriormente (1.3.1.3) é necessário ter presente a possibilidade de reacção


álcalis/inerte ou álcalis/carbonato ou a sua resistência a ciclos gelo/degelo, na escolha do tipo de
inerte, assim como a reacção de agentes agressivos tais como cloretos, sulfatos, impurezas
orgânicas como o ácido húmido, impurezas inorgânicas como argila ou outras impurezas de grande
finura para além de ser necessário considerar a porosidade dos inertes.

Assim, e de um modo geral, não devem ser usados inertes com sílica sob a forma de opala,
calcedónia ou cristobalite, granitos com feldspatos alterados ou em vias de alteração (caulinizados),
inertes com sulfuretos ou sulfatos (gesso), inertes com minerais argilosos ou óxidos de ferro nem
inertes como os calcários ou grés (rochas geladiças).

Existem vários processos de verificação da qualidade dos inertes para fabrico do betão tendo
em vista o exposto anteriormente, entre os quais:
∗ Ensaios de resistência mecânica - determinação da tensão de rotura, ensaios de
esmagamento, ensaios de desgaste e abrasão(Los Angeles).
∗ Ensaios de desagregação pelo sulfato de sódio e magnésio.

∗ Ensaios relativos à forma das partículas dos inertes, por exemplo, determinação do
índice volumétrico.

∗ Ensaios de absorção de água.

∗ Ensaios relativos às reacções dos álcalis do cimento com o inerte.

∗ Ensaios referentes às impurezas contidas nos inertes tais como impurezas de origem
orgânica, partículas de argilas, partículas finas e matéria solúvel, partículas friáveis,
moles e leves.
∗ Ensaios relativos aos teores de cloretos, sulfuretos, sulfatos e álcalis.

Para o cálculo das quantidades dos componentes, quando se estuda a composição do betão,
é necessário ainda, conhecer a massa volúmica dos inertes, a absorção, a sua humidade, baridade
e granulometria (Coutinho, 1988; LNEC E373).Em relação à granulometria, esta deve conduzir a
uma mistura o mais compacta possível (Durriez Arrambide, 1962; Sampaio, 1978; Coutinho, 1988;
CEB, 1992).

2.9 - PESSOAL TÉCNICO

A responsabilidade dos engenheiros, técnicos e pessoal de construção civil, é fundamental e


decisiva em termos de obtenção de uma estrutura durável.

113
Capítulo 2

De facto, a produção de betão e execução de estruturas segue procedimentos muito simples


comparados com os procedimentos noutras tecnologias estruturais tais como a aeronáutica,
tecnologia nuclear ou electrónica e consequentemente, a influência da qualidade do desempenho do
pessoal técnico envolvido é muito importante em termos de produto final obtido.

Griffiths et al., levaram a cabo um estudo estatístico englobando noventa e cinco edifícios de
cinco a trinta e seis pisos, em Sidney, Austrália, e concluíram que os edifícios com mais pisos
estavam em melhor condições devido ao profissionalismo, isto é, à responsabilidade demonstrada
pelos engenheiros, técnicos e mão de obra, perante as obras de maior envergadura (Griffiths et al,
1987).

Na realidade uma elevada proporção de defeitos estruturais e funcionais podem ser atribuídos
ao não cumprimento de regras de projecto e construção amplamente reconhecidas, à falta de
experiência e especialização insuficiente do pessoal ou, simplesmente, devido à falta de atenção
dos operários.

É importante que se proceda a uma educação contínua e eficiente de todo o pessoal


envolvido nas obras, no que refere a novas teorias, novas tecnologias e que haja transmissão da
experiência adquirida com o objectivo de motivar o pessoal e envolvê-lo no trabalho, reduzindo
assim o risco de falhas e erros por negligência e falta de conhecimentos. Na obra, um dos
processos de manter um controle geral das armaduras e processos necessários na criação de
estruturas complicadas e sobretudo controlar a interdependência das tarefas e momentos de
execução durante a construção é a existência de um manual de manutenção de qualidade.

No entanto nem o mais rigoroso sistema de procedimentos de controle pode compensar a


falta de motivação do pessoal para produzir um produto final de qualidade.
(Griffiths et al, 1987; Rostam, 1989; CEB, 1992)

2.10 - EXPOSIÇÃO AMBIENTAL

A durabilidade de uma estrutura de betão armado ou pré-esforçado depende das interacções


entre o material (betão e aço das armaduras) com o ambiente que rodeia essa estrutura e que leva
à deterioração do betão e corrosão das armaduras.

Assim, é fundamental procurar definir com a maior precisão possível o ambiente que rodeia
as estruturas.

114
Uma estrutura mais durável, como?

A abordagem clássica tem sido definir "classes de exposição ambiental" referentes a cada
tipo de ambiente, englobando os vários agentes agressivos e o seu grau de agressividade, e a partir
daí definir requisitos, em termos de durabilidade, tais como, por exemplo, a relação máxima
água/cimento, a dosagem mínima de cimento etc., que conduzam a um betão suficientemente
impermeável.

Na Europa e aqui em Portugal (NP EN 206) é esta a abordagem utilizada. Uma abordagem
diferente é a de autores japoneses (Kunishima e Okamura, 1989) que propuseram racionalizar o
projecto de uma estrutura em função da durabilidade, considerando que a durabilidade pretendida
para uma estrutura em determinado ambiente pode ser obtida através de várias combinações de
procedimentos construtivos. Para tal sugeriram que, para determinada obra, se definissem dois
índices - um relativo à durabilidade e o outro relativo ao ambiente: o primeiro índice seria calculado
em fase de projecto, em função da avaliação relativa aos métodos construtivos usados, qualidade
dos materiais e pormenorização. O segundo índice - referente ao ambiente, seria calculado de modo
que não fosse necessário proceder a reparações durante o período de vida pretendido para a obra.
O índice de "durabilidade" teria que exceder o índice de "ambiente" para que a obra atingisse a
durabilidade pretendida.

2.11 - RECOBRIMENTO

Para além da permeabilidade do betão de recobrimento que deve ser reduzida de modo a
evitar a penetração dos agentes agressivos (líquidos ou gasosos) deve ser também considerada
determinada espessura de recobrimento sobre as armaduras de modo que estas estejam protegidas
durante o tempo de vida da obra.

A espessura de recobrimento é, na realidade muito importante em termos de durabilidade.


Alías autores australianos (Griffiths et al, 1987) concluíram, a partir de um estudo estatístico das
falhas verificadas em 95 edifícios de cinco a trinta e seis pisos, que uma das causas mais
importantes dessas falhas era o recobrimento insuficiente.

Como visto anteriormente (1.3.2.3 e 1.3.2.4), a carbonatação e a penetração de cloretos na


camada de betão de recobrimento são os principais processos que levam à corrosão das
armaduras. Estes mecanismos, como visto no capítulo 1, variam grosso-modo com a raiz do tempo,
pelo que, se se considerasse determinada espessura de recobrimento que resistisse durante, por
exemplo, cem anos, conduziria a uma resistência de apenas cerca de um quarto do tempo, como se
exemplifica na Figura 2.11 (Concrete Society, 1996).

115
Capítulo 2

Figura 2.11 - Efeito da espessura de recobrimento (Concrete Society, 1996).

Partindo de conhecimentos actuais sobre os mecanismos de carbonatação e penetração de


cloretos que causam corrosão das armaduras e apresentadas em 1.3.2 é possível estabelecer,
como visto em 1.1.3, gráficos do tipo apresentado nas Figuras 2.12 e 2.13, que possibilitam, para
um determinado ambiente de exposição, de acordo com o tipo de betão previsto (classe, tipo de
cimento, adições), estimar o recobrimento necessário de acordo com a vida útil que se pretende
para a estrutura. (Heléne, 19962).

Figura 2.12 - Ábaco para obtenção da espessura de recobrimento das armaduras em função do ambiente (zona
urbana e industrial), do betão (C10 a C50) e da vida útil desejada (1 a 100 anos) (Heléne, 19962).

116
Uma estrutura mais durável, como?

Figura 2.13 - Ábaco para obtenção da espessura de recobrimento das armaduras em função do ambiente (zona
de respingos de maré), do betão (C10 a C50) e da vida útil desejada (Heléne, 19962)

Na Figura 2.14 apresenta-se uma ábaco da mesma índole dos anteriores, em que se confirma
o facto de a impermeabilidade do betão de recobrimento ter uma influência preponderante
comparada com a influência da espessura de recobrimento em termos de durabilidade, pelo que é
preferível a utilização de betões de alta qualidade em vez de aumento das espessuras de
recobrimento que podem até implicar utilização de armaduras de pele (Costa e Appleton, 1996).

Figura 2.14 - Idade relativa ao início da corrosão. (Costa e Applelon, 1996)

117
Capítulo 2

Refere-se ainda que, em termos de corrosão iniciada e portanto, após a fase em que os
agentes agressivos já tenham transposto o betão de recobrimento, a velocidade de corrosão
depende também de diâmetro das armaduras. Assim, com o mesmo recobrimento são as
armaduras de maior diâmetro que corroem mais intensamente, relativamente às de menor diâmetro,
(Ravindrajah, 1987), como se esquematiza na Figura.2.15.

agentes corrosivos

betão carbonatado
R ou R
betão com cloretos

maior corrosão menor corrosão

Figura 2.15 - Corrosão em função do diâmetro das armaduras.

Se o betão de recobrimento for muito permeável, isto é, de má qualidade é provável que o


betão não fissure muito cedo na vida da obra, pois os produtos da corrosão conseguem difundir-se
até à superfície da estrutura notando-se descoloração da superfície do betão (Ravindrarajah e Org,
1987).

2.12 - PROJECTO E PORMENORIZAÇÃO

Em termos de durabilidade devem-se evitar pormenores complicados, isto é, para que uma
estrutura seja durável é importante que seja fácil a sua execução, que se possa construir bem, em
suma, que a obra seja simples (Figura 2.16), o que nem sempre é possível por razões
arquitectónicas.
COMPLEXIDADE = PROBLEMAS

Figura 2.16 - Simplicidade implica durabilidade.

Assim, na fase de projecto e pormenorização é fundamental em termos de durabilidade


atender a diversos aspectos entre os quais:

118
Uma estrutura mais durável, como?

1 - forma dos elementos estruturais deve ser tal que conduza a uma drenagem adequada
evitando a saturação do betão. Será portanto, conveniente evitar a concepção de
superfícies horizontais, por exemplo como na Figura 2.17, ou utilizar sistemas de
protecção adicional, sobretudo em zonas submetidas a ciclos de molhagem/secagem.

Figura 2.17 - Projecto de pormenores.

2 - Em zonas da estrutura correspondentes a pontos fracos, por exemplo juntas, dever-se-á


ter cuidado especial na pormenorização em termos de permitir uma drenagem conveniente
(ver figura 1.53).

3 - As superfícies do betão devem ser lisas e em rebordos ou "esquinas" de elementos


estruturais as espessuras de recobrimento das armaduras devem ser respeitadas em
ambas as direcções pois os agentes agressivos penetrarão por ambos os lados do rebordo
ou esquina.

4 - A pormenorização das armaduras é fundamental no que respeita ao estado de fendilhação


que se instalará na estrutura nas várias fases da vida da obra (ver 1.3.1.1). É necessário
que a pormenorização das armaduras permita a colocação e compactação convenientes
do betão, como se esquematiza um exemplo na Figura - 2.18, e conduza à instalação de
estados de fendilhação toleráveis em termos de distribuição e de aberturas das fissuras.

(CEB, 1992; Poineau, 1989; Geyer, 1989; Blades e Perl, 1989; Salta, 19961)

119
Capítulo 2

espaçamento colocação difíceis


inadequado compactação

colocação fáceis
compactação

Figura 2.18 - Projecto de pormenores

2.13 - PROTECÇÃO ADICIONAL

2.13.1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS

Em situações de elevada agressividade do ambiente pode ser necessário recorrer à


protecção adicional que permita controlar os processos de corrosão das armaduras e deterioração
do betão e assim, prolongar a vida útil das estruturas de betão armado e pré-esforçado.

Foram já feitas várias referências em pontos anteriores a medidas que se podem tomar para
proteger o betão contra o ataque por agentes agressivos que levam à sua deterioração e à corrosão
das armaduras e que se apresentaram, de uma forma resumida nos quadros 2.1 a 2.5.

Resumidamente poder-se-á dizer que, em condições usuais, a durabilidade de uma estrutura


depende:
→ da permeabilidade (relação água/cimento baixa, compactação, cura, etc.) e da
espessura de recobrimento.
→ do tipo de cimento (adições)

No caso de se pretender prolongar a vida útil de uma estrutura será então necessário utilizar
protecção adicional.

À semelhança da classificação feita para os mecanismos de agressividade, a protecção


adicional pode ser conferida em especial ao betão ou em especial às armaduras.

Na Figura 2.19 apresentam-se resumidamente os métodos de protecção usados actualmente, quer


a nível de betão quer a nível de armaduras (CEB, 1995; Salta e Fontinha, 1996).

120
Uma estrutura mais durável, como?

Figura 2.19 - Protecção do betão e do aço contra os agentes agressivos.

2.13.2 - PROTECÇÃO ADICIONAL AO BETÃO

Este tipo de protecção adicional será necessário em condições de elevada agressividade


entre as quais ambientes de elevada acidez, elevada concentração de sais de magnésio,
amoniacais ou com elevado teor em sulfatos (ver 1.3.1.3).

Nestas condições dever-se-á então usar protecção adicional adequada constituída por um
revestimento delgado (espessura até 1mm) que funciona por impregnação hidrófuga com
revestimento interior dos poros ou, então, revestimentos mais espessos (1 - 5 mm) que funcionam
por impregnação com bloqueamento total ou parcial dos poros. Estes sistemas de protecção devem
ser estudados de acordo com o agente agressivo em causa, sua concentração, o ambiente a que
estará sujeito (o próprio sistema de protecção também se pode degradar), o estado de fissuração

121
Capítulo 2

que se prevê para o betão, etc. (Rodrigues, 1996). Os tipos de revestimento podem ser de natureza
diversa como por exemplo silano, silicone, resinas epoxídicas poliuretanos, poliester, acrílicos, vinis
oleoresinosos etc. (Appleton, 1997).

2.13.3 - PROTECÇÃO ADICIONAL AO AÇO

É possível conferir protecção adicional às armaduras, para além da conferida por baixa
permeabilidade do betão de recobrimento, suficiente espessura deste e tipo de cimento apropriado
(adições). A protecção adicional terá como objectivo principal protelar a penetração de cloretos ou a
progressão da carbonatação, até às armaduras (ver 1.3.2.2).

Existem vários tipos de protecção adicional relativamente às armaduras, que actuam a nível
do betão, a nível da armadura ou a nível de ambiente externo.

1. Protecção adicional a nível do betão:

As armaduras podem ser protegidas adicionalmente através do tratamento do betão que as


envolve quer por introdução de inibidores de corrosão durante a produção do betão ou por
impregnação posterior (Fadayomi, 1997), como se esquematiza na Figura 2.20 (Sika, 1996), quer
por protecção das superfícies do betão com revestimentos que dificultam ou impedem a penetração
de dióxido de carbono, cloretos e/ou oxigénio (por exemplo, soluções de silano) até às armaduras.
(Rodrigues, 1996; Salta e Fontinha, 1996; Glauz e Jain, 1994; Nmai, 1995).

Figura 2.20- Protecção adicional das armaduras, através de inibidores introduzidos no betão na produção ou por
impregnação posterior (Sika, 1996).

122
Uma estrutura mais durável, como?

2. Protecção adicional a nível da armadura:

Este tipo de protecção pode ser feito por exemplo pelo uso de aços com maior resistência aos
meios agressivos, como o aço inoxidável, ou então, pelo uso de armaduras com revestimentos
metálicos, com por exemplo o zinco (aço galvanizado) - Figura 2.21, ou com revestimentos de
resinas epoxídicos ou ainda por prevenção catódica. No Quadro 2.6 comparam-se os revestimentos
galvanizados e epoxídicos (Salta e Fontinha, 1996), no entanto refere-se que as desvantagens dos
revestimentos epoxídicos parecem ser devidos sobretudo à danificação do revestimento na
dobragem do aço durante a construção. Os revestimentos com PVC caíram em desuso em virtude
de se ter constatado que o próprio PVC se deteriora. Também é possível prevenir a corrosão das
armaduras, através da prevenção catódica.

Figura 2.21 - Velocidade de corrosão do zinco em função do pH (CEB, 1995; Salta e Fontinha, 1996).

Quadro 2.6 - Comparação entre a galvanização e a aplicação de resinas epoxídicas (Salta e Fontinha, 1996).

Galvanização Resinas epoxídicas

Influência no aço nenhuma nenhuma


0 0 0 0
Temperaturas suporta os 200 C - 300 C sem danos tolera os 200 C mas acima dos 100 C
podem ocorrer problemas de aderência
betão/aço
Ligação ao betão desenvolvimento mais tardio nos redução em média de 15% em relação
tempos iniciais mas no fim é igual à do ao aço não revestido; podem originar
aço não revestido perdas de aderência a cargas inferiores
No betão carbonatado benéfico não há referências de grandes
problemas na sua aplicação
Influência no aço nenhuma nenhuma
cloretos adicionados ao betão redução resistem bem aos cloretos (se não
No betão contaminado com cloretos do tempo de serviço devido à formação estiverem excessivamente danificados);
de picadas há alguns registos de experiências muito
cloretos exterior negativas
teores acima 1% - 1.5% do cimento
podem ser prejudiciais se o betão tiver
períodos cíclicos de humedecimento
No betão fissurado velocidades de corrosão aceleradas redução do perigo de corrosão (se não
em fissuras de estiver danificado)
larguras > 0.3 mm (dependendo da
espessura do recobrimento)

123
Capítulo 2

Em relação à prevenção catódica, este método consiste em aplicar às zonas catódicas o


potencial das regiões anódicas. Existem dois processos de obter este resultado, um primeiro que
consiste em utilizar como ânodo um metal menos nobre do que o metal a ser protegido (Coutinho,
1974), isto é de potencial mais baixo, ou então, aplicar uma corrente directa através do betão e a
partir de um sistema anódico, em geral colocado sobre a superfície do betão, ligado a uma fonte de
baixa voltagem (terminal positivo). A corrente é aplicada através do betão até à armadura que
funciona como cátodo, estando este ligado ao terminal negativo - Figura 2.22.

È possível usar protecção catódica posterior em armaduras revestidas com epoxy se previsto
de início, usando uma técnica especial de revestimento das armaduras depois do corte, dobragem e
montagem dos varões. Conjuntos de armaduras são imersos em tanques com pó de epoxy
fluidizado (Rostam, 1995).

Figura 2.22 - Esquema da protecção catódica de armaduras numa estrutura de betão (Pedeferri, 1996).

Na utilização deste método de prevenção ou protecção adicional, é necessário tomar em


consideração vários aspectos tais como condições de operação, distribuição da corrente, risco de
fragilização por hidrogénio, sistema anódico e monitorização, testes à continuidade catódica,
execução de obras de reparação, manutenção etc. (Consultar CEN/TC262/SC2/WG2 - Cathodic
Protection of Steel in Concrete, Part one: Atmospherically Exposed Concrete, em publicação e
NACE Standard RPO290 - 90 - Cathodic Protection of Reinforcing Steel in Atmospherically Exposed
Structures) (Pedeferri, 1996).

Na Figura 2.23 apresenta-se um esquema dos diferentes métodos de protecção contra a


corrosão das armaduras, incluindo inibidores de nitrito (de sódio e cálcio), em relação ao limite
crítico da concentração de cloretos ( Cr ) no betão para ocorrer corrosão (Salta e Fontinha, 1996).

124
Uma estrutura mais durável, como?

Figura 2.23 - Valores máximos de concentração de cloretos suportados pelos diferentes métodos de protecção
contra a corrosão das armaduras (Salta e Fontinha, 1996).

3. Protecção adicional a nível do ambiente

Por vezes é possível evitar que determinados agentes agressivos invadam o ambiente
circundante da estrutura controlando a sua quantidade ou o seu tipo (sais descongelantes)ou
controlando a humidade e temperatura (ar condicionado).

125

Você também pode gostar