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Fertilização

OTIMIZAÇÃO DA NUTRIÇÃO NO MILHO


FÓSFORO E POTÁSSIO

Por: Anabela L. Grifo1,3 e J.R. Marques da Silva2,3,4

INTRODUÇÃO isso, fundamental avaliar as potenciais • no nível de produtividade a partir do


A manutenção do equilíbrio de nutri- perdas de fósforo no solo em diferen- qual se pode gerar rendimento posi-
entes no solo é fundamental para a ex- tes cenários assim como conjugar es- tivo (“break-even” da produtividade);
istência de uma boa saúde do solo em forços com o intuito de reduzir a quan- • no rácio produtividade expectá-
qualquer sistema agrícola. Contudo, tidade de fertilizantes aplicados, por vel/nutriente disponível no solo.
nas últimas décadas, o crescimento da forma a evitar o sobre enriquecimento
população mundial conduziu à neces- do solo e alcançar práticas sustentá-
sidade de aumentar a produção agríc- veis de uso da terra. Por exemplo, um DESCRIÇÃO DO LOCAL
ola, o que se refletiu num aumento da dos objetivos de aplicação de P à taxa DE ESTUDO E METODOLOGIAS
aplicação de nutrientes, originando, variável é conseguir níveis adequados O estudo foi conduzido numa parcela
por vezes, desequilíbrios de nutrien- deste nutriente no solo, melhorando a com 56.5 ha, situada na herdade do
tes no solo. sua eficiência (Serrano et al., 2010). Cego, em Fronteira (Lat:  +39.09307;
O fósforo (P) é um elemento es- A variação espacial do P dentro da Long: -7.611332). Os solos predominan-
sencial para o crescimento das plantas parcela agrícola é uma questão funda- tes são classificados como Luvissolos
sendo, por isso, integrado em todos os mental para a minimização dos custos e Vertissolos (FAO 2014).
planos de fertilização. A adição conse- de fertilização e redução dos riscos de Foram considerados os seguin-
cutiva de fertilizantes fosfatados, mui- eutrofização deste. Este estudo tem tes anos de produtividade de milho:
tas vezes em quantidades superiores como objetivo melhorar a eficiência 2002, 2004 e 2007. O milho foi se-
à sua extração, tem conduzido à acu- económica, agronômica e ambiental meado no final de abril/princípio de
mulação de P no solo, principalmen- da produção da cultura do milho com maio e colhido em setembro/outu-
te na camada superior, devido à sua base: bro. A colheita foi efetuada com uma
reduzida mobilidade (Withers et al., • nas flutuações dos preços do mi- ceifeira-debulhadora CLAAS LEXION
2001). Esta acumulação ocorre princi- lho no mercado internacional; 450 (CLAAS, Harsewinkel, Germany),
palmente sob formas inorgânicas, com
diferentes graus de energia de ligação.
No entanto, a natureza estática do P
pode ser perturbada pelo homem,
causando uma maior biodisponibili-
dade e mobilidade deste nutriente no
solo (Santos, 1995).
As consequências diretas da acu-
mulação de fósforo no solo, como re-
sultado de muitos anos de aplicações
consecutivas são: i) aumento dos cus-
tos de produção; ii) irregular distribui-
ção de P no solo devido às aplicações
regulares deste e às extrações irregu-
lares das plantas; e iii) perdas de P por
escoamento superficial e drenagem,
conduzindo à eutrofização acelerada
dos cursos de água (Santos 1995; Shar-
pley 1995; Withers et al. 2001). É, por

1
Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS) / 2Universidade de Évora /
Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas (ICAAM) / 4Agroinsider, Lda.
3

12 junho / julho / agosto · Agrobótica


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equipada com um GPS diferencial e de fósforo (mg(P2O5)  Kg-1) e potássio e nutriente disponível no solo é o rácio
um sistema de aquisição de dados CE- (mg(K2O)  Kg-1) disponíveis pelo méto- entre a produtividade do ano anterior
BIS que monitorizava a produtividade do de Égner-Riehm. e a concentração do nutriente existen-
instantânea de grão e a sua humidade. A variabilidade espacial da CEa te no solo antes do início da campa-
O peso do grão colhido foi ajustado (Figura 1b), da produtividade do milho nha (e.g., rpp:produtividade/fósforo e
para uma humidade de 140 g kg-1. (Figura 2a) e do fósforo e potássio as- rpk:produtividade/potássio). Este tipo
A Condutividade elétrica aparente similáveis (Figuras 3a e 3b) foi deter- de rácio auxilia a identificar as zonas
(CEa) foi medida através de um sen- minada utilizando métodos de geoes- da parcela que possuem a maior pro-
sor geoelétrico, sistema Veris 2000XA tatística (Isaaks e Srivastava 1989; dutividade expectável por unidade de
(Veris Technol., Salina, KS), a uma pro- Goovaerts 1998; Oliver 2010). A inter- nutriente disponível antes da campa-
fundidade de solo de cerca de 0.40 m polação das variáveis consideradas nha. Como exemplo, foi calculado a
e as medições de CEa foram interpo- foi realizada por Krigagem ordinária, rpp e a rpk considerando a produtivi-
ladas (resolução de 6 m) no software numa grelha com uma resolução de dade de 2007 (Figuras 4a e 4b).
ArcGISTM 9.3 (ESRI 2009). 6 m tendo, os respetivos mapas, sido Os custos de produção de mi-
A elevação (Figura 1a), a CEa (Fi- elaborados no software ArcGISTM: lho (sem amortizações) foram de
gura 1b) e a produtividade de milho Spatial/3D analyst tools (ESRI 2009). 1890  €  ha-1 baseados em preços de
(Figura 2a) constituíram a informação A dependência espacial foi calculada 2015 e na estrutura habitualmente
espacial base para uma estratégia de segundo Cambardella et al. (1994). empregue na exploração. O “break-
amostragem de solo estratificada (lo- O mapa do desvio padrão tem- -even” da produtividade foi calculado
cais de amostragem de solo, Figura poral da produtividade presente na considerando os custos do ano ante-
1a), segundo Hirzel e Guisan (2002). Figura 2b foi elaborado a partir da rior para a mesma cultura e um preço
Antes da cultura de primavera-verão variância temporal da produtividade de milho expectável de 175 € t-1 (preço
foram colhidas 120 amostras compó- dos três anos analisados, calculada de para 2015). O valor do “break-even” da
sitas (1 Kg), de 0-20 cm de profun- acordo com Blackmore et al. (2003) e produtividade foi 10.77 t ha-1, o que indi-
didade, com recurso a uma sonda Marques da Silva e Silva (2006). ca o nível de produção a partir do qual
mecânica e determinados os teores O rácio produtividade expectável se pode gerar rendimento positivo.

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N
A B

Curvas de nível, m Declive, % CEa (mS/m)

195 - 200 0-5 0 -15

200 - 205 5 - 10 15 - 30

205 - 215 10 - 15 30 - 55

215 - 220 15 - 22

220 - 230

Amostragem de solo

Locais de amostragem 0 150 300 600 metros

Figura 1. Parcela de estudo: A modelo digital de terreno (MDT) - curvas de nível,


declive e pontos de amostragem do solo; B condutividade elétrica aparente

N
A B

Produtividade média, t ha-1 Desvio temporal


da produtividade, t ha-1
0-5 0-2

5 - 10 2-4

10 - 15 4-6

15 - 22 6-8

Linhas de fluxo 8 - 10

0 150 300 600 metros

Figura 2. Estatísticas espaciais da produtividade do milho: A produtividade


média; B desvio padrão temporal da produtividade

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N
A B

P2O5, mg Kg-1 K2O, mg Kg-1

0 - 50 0 - 50

50 - 100 50 - 100

100 - 150 100 - 150

> 150 > 150

0 150 300 600 metros

Figura 3. Distribuição espacial do fósforo (A) e do potássio (B) no solo

N
A B

rpp, t ha-1 (mg Kg-1)-1 rpk, t ha-1 (mg Kg-1)-1

0,02 - 0,12 0,02 - 0,12

0,12 - 0,36 0,12 - 0,28

0 150 300 600 metros

Figura 4. Distribuição espacial dos rácios: A rpp: produtividade/fósforo; B rpk: produtividade/potássio

RESULTADOS E DISCUSSÃO te nos três anos considerados (mé- solo, como tal, dever-se-á sempre con-
A distribuição da produtividade média dia»12.5  t  ha-1), (Figura 2a), oscilando siderar uma fertilização diferenciada
da parcela em estudo foi variável no entre um valor mínimo de 0.5  t  ha-1 e dos mesmos.
espaço e no tempo evidenciado pelo um valor máximo de 20 t ha-1. Os teores médios de P e K fo-
desvio padrão temporal que variou A variabilidade espacial e tempo- ram, respetivamente 119  mg  Kg-1 e
entre 0.1 e 9.3  t  ha-1 (Figuras 2a e 2b). ral da produtividade denota uma ex- 135  mg  Kg-1. O P na parcela variou
A produtividade média foi semelhan- tração diferenciada dos nutrientes do de 36  mg  Kg-1 a 266  mg  Kg-1 (desvio

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padrão: σP=32  mg  Kg-1) e o K entre 20


48 mg Kg-1 e 425 mg Kg-1 (desvio padrão: 18 Y+ Y+
Z5

Produtividade, t ha-11 (mg Kg-1)-1


σK=36 mg Kg-1). Esta variabilidade do P 16
P+ P-
Z3
e do K (Figuras 3a e 3b) é, seguramen- 14 Z4
te, devida à extração diferenciada da
12
cultura, não compensada pela prática Break-even
10
de fertilizações uniformes ao longo Z2
8
dos anos. Z1

Através dos rácios rpp e rpk é pois 6

possível perceber como optimizar a 4


Y- Y-
fertilização da parcela de forma a ob- 2 P+ P-
ter maior retorno de produtividade de 0
0,00 0,05 0,10 0,15 0,20 0,25 0,30 0,35 0,40
milho por unidade de nutriente e, des-
rpp t ha-1 (mg Kg-1)-1
se modo, avaliar se a alocação diferen-
ciada de nutrientes pode ser gerida
com maior eficiência, considerando Figura 5. Zonas de rácio rpp (Z1, Z2, Z3, Z4 e Z5) de acordo com a
um determinado objetivo produtivo produtividade do milho que ocorreu no ano de 2007: Y+ maior
e uma determinada concentração de produtividade; Y- menor produtividade; P+ maior concentração de fósforo
nutrientes no solo. Como é exemplifi- no solo; P- menor concentração de fósforo no solo
cado na Figura 5, o mesmo rpp pode
ser alcançado com diferentes produti-
vidades e diferentes níveis de concen- poníveis (média P »125  mg  Kg-1, média “break-even”) resultará numa diminui-
tração de nutrientes no solo. K »129 mg Kg-1), (Figuras 2a, 3a, 3b, 4a, ção da área desta zona ou mesmo na
Tendo em conta as superfícies 4b e 5; Tabelas 1 e 2). Os elevados teo- sua extinção.
de produtividade de milho, o “break- res médios de P e K observados nesta A zona Z3 (Figura 5 - produtividade
-even” da produtividade de 10.77  t  h-1 zona indicam que o fator limitante da acima do “break-even” e rpp< 0.12 t ha-
calculado com base em preços de produtividade parece não estar asso- -1
(mg Kg-1)-1) é caraterizada por valores
2015 e as superfícies dos rácios rpp ciado com a sua disponibilidade mas de produtividade médios a altos (mé-
e rpk (Figuras 4a e 4b), a parcela em antes com outros fatores limitantes, dia »13 t ha-1) e idênticos teores médios
estudo foi dividida em 5 zonas (Z1, Z2, tais como a rega. de P e K disponíveis no solo (aproxi-
Z3, Z4 e Z5 - Figura 5). O valor limite A zona Z2 (Figura 5 - produti- madamente »141  mg  Kg-1), (Figuras  2a,
de 0.12 t ha-1 (mg Kg-1)-1 para o rácio rpp vidade abaixo do “break-even” e 3a, 3b, 4a, 4b e 5; Tabelas  1 e 2). No
foi estimado considerando um objec- rpp>0.12 t ha-1(mg Kg-1)-1) é caracterizada geral, as concentrações destes nu-
tivo produtivo de 15  t  ha-1  e uma con- por baixos valores de produtividade trientes são altas ocasionando rácios
centração de nutrientes no solo de 125 (média »10 t ha-1) e valores relativamen- rpp e rpk baixos.
mg Kg-1. te baixos de P e K disponíveis (média As zonas Z4 e Z5 (Figura 5 - pro-
A zona Z1 (Figura 5 - produtividade P »70  mg  Kg-1, média K »112  mg  Kg-1), dutividade acima do “break-even” e
abaixo do “break-even” e rpp<0.12 t ha- quando comparado com a zona Z1, rpp>0.12 t ha-1(mg Kg-1)-1) são caracteriza-
-1
(mg Kg-1)-1) é caracterizada por bai- (Figuras 2a, 3a, 3b, 4a, 4b e 5; Tabelas 1 das por valores de produtividade rela-
xos valores de produtividade (média e 2). Qualquer alteração positiva no tivamente altos (média (Z4) »14 t ha-1 e
»9 t ha-1) e altos valores de P e K dis- preço do milho (baixando a linha de média (Z5) »17 t ha-1) (Figuras 2a; Tabe-
las 1 e 2). Os teores médios de P não
foram muito diferentes entre as duas
zonas (Z4  »95  mg  Kg-1; Z5  »110  mg  Kg-1,
(Figura 3a; Tabela  1)), mas os valores
dos teores médios de K foram mais
elevados em Z5 (150  mg  Kg-1) do que
em Z4 (129 mg Kg-1), (Figura 3b; Tabela
2). As zonas Z4 e Z5 exibiram rácios
rpp elevados uma vez que a concen-
tração de nutrientes no solo é baixa
quando comparada com a zona Z3 (Fi-
guras 4a, 4b e 5; Tabela 1).
A forma e a dimensão das zonas
presentes na Figura 5 (Z1, Z2, Z3, Z4
e Z5) podem, anualmente, ser alvo
de alteração, devido ao movimento
da linha do “break-even” (paralela ao
eixo dos XX) ou ao movimento da li-

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nha que define um rácio de referência Na situação particular da parcela em média de cada uma destas zonas
determinado pelo empresário agrícola estudo o empresário poderá conside- (Z3 = 13.03 t ha-1, Z4 = 13.63 t ha-1 e
(paralela ao eixo dos YY). O movimen- rar fertilizar as zonas Z3, Z4 e Z5. O Z5 = 17.10 t ha-1);
to da linha de “break-even” é ocasio- empresário poderá ainda considerar • Cenário 4 (C4) – baseado na apli-
nado pelas alterações que ocorrem fertilizar as zonas Z2 e Z1 (por esta or- cação de nutrientes à taxa variável
no preço do milho e/ou nos custos de dem); mas, os fatores que definem o com o fim de minimizar os custos
produção; o valor limite do rácio de rendimento nestas zonas são indepen- (preço baixo do milho) e maximizar
referência pode ser alterado em fun- dentes da riqueza em nutrientes, pelo o retorno, fertilizando as zonas Z4
ção do risco de mercado, incluindo a que, enquanto os mesmos não forem e Z5. A fertilização de P e K teve
contingência económica da empresa controlados não é sustentável a sua como alvo a produtividade média
e as exigências técnicas. Assim, con- fertilização. de cada uma destas zonas (Z4 =
siderando uma estrutura com custos Para perceber o impacto económi- 13.63 t ha-1 e Z5 = 17.10 t ha-1).
fixos, poder-se-á dizer que a linha de co que uma estratégia de fertilização
“break-even” desce quando o preço diferenciada teria nesta parcela foram O cenário 1 evidenciou custos de ferti-
do milho sobe (mais áreas têm rendi- consideradas as seguintes premissas lização altos (15263 €, Tabela 3) reflexo
mento positivo) e vice-versa (Figura 5). (Figura 5; Tabelas 1 e 2): de uma fertilização excessiva, por ter
A linha do rácio de referência mover- 1. fertilizar com P e K; como base de cálculo uma elevada
-se-á para a direita se o risco de mer- 2. não fertilizar a zona Z1 e a zona produtividade média expectável da
cado for maior e a disponibilidade fi- Z2 porque ambas estão abaixo da parcela, acima da sua produtividade
nanceira da empresa for menor, sendo linha de “break-even” e são limita- média real (Tabela 4). A distribuição
o oposto também verdade. Seguida- das por outros fatores controla- dos nutrientes é realizada de uma
mente, na discussão, serão considera- dores da produtividade que não o forma constante e uniforme e, por
das duas situações extremas do preço teor de nutrientes; isso, é agronómica (Z1 e Z3), econó-
do milho no mercado internacional, 3. fertilizar a zona Z3 com o objetivo mica (Z1 e Z2) e ambientalmente (Z1,
alto e baixo. de manter o nível de fertilidade Z2 e Z3) ineficiente (Tabela 4). Estas
Quando o empresário agrícola tem do solo que, nesta zona é relativa- aplicações ineficientes da adubação
necessidade de tomar uma decisão mente elevado, considerando 13 t fosfatada causam a acumulação do P
relativamente às fertilizações potássi- ha-1 como a produtividade média nos solos agrícolas (Motavalli e Miles
ca e fosfatada, numa situação de re- esperada; 2002), promovendo a poluição difusa
dução de custos (i.e., preço do milho 4. fertilizar a zona Z4 e a zona Z5 do mesmo (Sharpley 1995; Withers et
baixo), deverá considerar as seguintes tendo em conta o seu potencial, al. 2001) e conduzindo, em muitas si-
orientações: ao considerar as produtividades tuações, a processos de eutrofização
1. determinar se ambos os nutrientes médias respetivas de 13.6  t ha-1 e (Howarth et al. 2002).
têm rácios (rpp e rpk) com valores 17.0 t ha-1. No cenário 2 os custos de fertili-
semelhantes. Na parcela em estu- zação diminuíram 59% (6218 €, Tabela
do os rácios rpp e rpk são seme- Os seguintes cenários foram também 3), assim como a quantidade de nu-
lhantes, no entanto, se o rácio rpp considerados: trientes aplicados (Tabela 4). Apesar
fosse muito maior, em valor e área, • Cenário 1 (C1) – baseado na estra- da alteração em relação ao cenário 1
do que o rácio rpk, o empresário tégia habitualmente praticada pelo (produtividade média próxima da pro-
agrícola poderá considerar fertili- empresário agrícola na parcela, i.e., dutividade média real da parcela), a
zar apenas com P, numa perspetiva aplicação uniforme e constante da distribuição dos nutrientes continua
de redução de custos; fertilização fosfatada e potássica a ser realizada de forma constante e
2. perante uma situação de redução com base na produtividade média uniforme e por isso agronómica, eco-
de custos, é possível perceber que expectável da parcela de 15.0 t ha-1. nómica e ambientalmente ineficiente
as áreas a fertilizar serão as que Este cenário foi considerado o ce- (Tabela 4).
possuem valores mais elevados de nário de referência; No cenário 3 os custos de fertili-
rpp e que estão acima da linha de • Cenário 2 (C2) – semelhante ao zação diminuíram quando comparado
“break-even”, ou seja as zonas Z4 e cenário 1 em todos os aspetos, com o cenário de referência (C1) em
Z5 (Figura 5). contudo a produtividade média da aproximadamente 61% (5932 €, Tabela
parcela considerada foi de 12.6 t ha- 3), apesar do número de unidades fer-
Quando o empresário agrícola neces- 1
, a produtividade média real mul- tilizantes ter aumentado (Tabela 4) nas
sita de tomar decisões relativamente tianual da parcela; zonas Z3, Z4 e Z5 quando comparado
às fertilizações potássica e fosfatada, • Cenário 3 (C3) – baseado na apli- com as mesmas zonas do cenário 2.
numa situação de preço favorável (i. cação de nutrientes à taxa variável Em suma, o cenário 3 teria aproxima-
é. preço do milho alto), deverá con- com o intuito de maximizar a pro- damente os custos de fertilização do
siderar o mesmo raciocínio mas, em dutividade (preço alto do milho) cenário 2, mas seria agronomicamente
simultâneo, poderá tomar decisões e o retorno, fertilizando as zonas e ambientalmente mais eficiente.
que envolvam riscos adicionais, com Z3, Z4 e Z5. A fertilização de P e No cenário 4, em situação de des-
o objetivo de maximizar o rendimento. K teve como alvo a produtividade cida do preço do milho, apenas as zo-

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ZONA DE PRODUTIVIDADE
ÁREA MÍNIMO P MÁXIMO P MÉDIA P MÍNIMO P MÁXIMO P MÉDIA P
PRODUTIVIDADE MÉDIA
% (ha) mg kg-1 mg kg-1 mg kg-1 rpp * rpp * rpp *
t ha-1 t ha-1
Z1 < 10,77 23,18 (13,10) 9,09 60 266 125 0,020 0,120 0,077
Z2 < 10,77 2,95 (1,67) 10,00 40 89 70 0,120 0,260 0,145
Z3 > 10,77 36,78 (20,79) 13,03 91 251 140 0,044 0,120 0,095
Z4 > 10,77 e < 16 28,35 (16,03) 13,63 36 133 94 0,120 0,360 0,148
Z5 > 16 8,74 ( 4,94) 17,10 63 148 110 0,120 0,266 0,158

r pp - Rácio produtividade/P; *t ha -1 (mg Kg -1) -1

Tabela 1. Teor de P no solo e rpp de acordo com as zonas Z1, Z2, Z3, Z4 e Z5

ZONA DE PRODUTIVIDADE
ÁREA MÍNIMO K MÁXIMO K MÉDIA K MÍNIMO K MÁXIMO K MÉDIA K
PRODUTIVIDADE MÉDIA
% (ha) mg kg-1 mg kg-1 mg kg-1 rpk * rpk * rpk *
t ha-1 t ha-1
Z1 < 10,77 23,18 (13,10) 9,09 48 319 129 0,024 0,218 0,075
Z2 < 10,77 2,95 (1,67) 10,00 49 163 112 0,057 0,206 0,093
Z3 > 10,77 36,78 (20,79) 13,03 51 425 142 0,030 0,224 0,098
Z4 > 10,77 e < 16 28,35 (16,03) 13,63 51 293 129 0,050 0,284 0,113
Z5 > 16 8,74 ( 4,94) 17,10 62 277 150 0,058 0,270 0,119

r pk - Rácio produtividade/K; *t ha -1 (mg Kg -1) -1

Tabela 2. Teor de K no solo e rpk de acordo com as zonas Z1, Z2, Z3, Z4 e Z5

CENÁRIOS C1 C2 C3 C4

PRODUTIVIDADE PRODUTIVIDADE PRODUTIVIDADE


PRODUTIVIDADE
ZONA (ha) MÉDIA MÉDIA MÉDIA
EXPECTÁVEL
(3 anos) t ha-1 (2007) t ha-1 (2007) t ha-1
Z1 (13,10) 15,00 (F) 12,60 (F) 9,09 (NF) 9,09 (NF)
Z2 (1,67) 15,00 (F) 12,60 (F) 10,00 (NF) 10,00 (NF)
Z3 (20,79) 15,00 (F) 12,60 (F) 13,03 (F) 13,03 (NF)
Z4 (16,03) 15,00 (F) 12,60 (F) 13,63 (F) 13,63 (F)
Z5 (4,94) 15,00 (F) 12,60 (F) 17,10 (F) 17,10 (F)
Área fertilizada, ha 56,53 56,53 41,76 20,97
Custos de fertilização totais, € 15263 6218 5932 4051
Custos de fertilizante por ha, € ha-1 270 110 105 72
Redução de custos comparado com C1, % 0 59 61 73

NF - Não fertilizado; F - Fertilizado

Tabela 3. Cenários de fertilização

CENÁRIO 1 CENÁRIO 2 CENÁRIO 3 CENÁRIO 4


ZONA
PFU (Kg ha-1) KFU (Kg ha-1) PFU (Kg ha-1) KFU (Kg ha-1) PFU (Kg ha-1) KFU (Kg ha-1) PFU (Kg ha-1) KFU (Kg ha-1)
Z1 135 90 37,5 55 - - - -
Z2 135 90 37,5 55 - - - -
Z3 135 90 37,5 55 22,5 54,0 - -
Z4 135 90 37,5 55 71,3 77,5 71,3 77,5
Z5 135 90 37,5 55 97,5 107,0 97,5 107,0

P FU - Unidades fertilizantes de fósforo (P 2O 5); K FU - Unidades fertilizantes de potássio (K 2O)

Tabela 4. Unidades de fertilizante aplicadas em cada cenário

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nas Z4 e Z5 são fertilizadas (Tabelas 3 BIBLIOGRAFIA Biosystems Engineering, 94(4),
e 4). Esta estratégia permitiria reduzir Blackmore, S., Godwin, R. J., & Foun- 525–533. doi:10.1016/j.biosystem-
os custos de fertilização da parcela em tas, S. (2003). The analysis of spa- seng.2006.04.011
aproximadamente 73% (4051 €, Tabela tial and temporal trends in yield Motavalli, P. P., & Miles, R. J. (2002).
3), tendo como referência o cenário map data over six years. Biosys- Soil phosphorus fractions after
1 (C1), mas com uma maior eficiência tems Engineering, 84(4), 455–466. 111 years of animal manure and
económica, agronómica e ambiental. doi:10.1016/S1537-5110(03)00038-2 fertilizer applications. Biology
Poder-se-á argumentar que esta Cambardella, C. a., Moorman, T. B., and Fertility of Soils, 36(1), 35–42.
estratégia de fertilização (Tabela 4), Parkin, T. B., Karlen, D. L., Novak, doi:10.1007/s00374-002-0500-6
usada por um período de tempo lon- J. M., Turco, R. F., & Konopka, a. Oliver, M. a. (2010). An overview of
go, iria diminuir o nível de fertilidade E. (1994). Field-Scale Variabili- geostatistics and precision agricul-
da parcela. Contudo, isto não parece ty of Soil Properties in Central ture. In Geostatistical Applications
ser possível porque, uma redução de Iowa Soils. Soil Science Society of for Precision Agriculture. (M. A.
nutrientes do solo num determinado America Journal. doi:10.2136/ss- Oliver, Ed.). Springer Netherlands.
ano, imediatamente promove um au- saj1994.03615995005800050033 doi:10.1007/978-90-481-9133-8
mento dos rácios rpp e rpk, fazendo FAO (2014). World reference base for Santos, J. Q. (1995). Fertilização e po-
com que algumas áreas da zona Z3 soil resources 2014. International luição: reciclagem agro-florestal
migrem para as zonas Z4 ou Z5 (Figura soil classification system for na- de resíduos orgânicos. (Fertiliza-
5), acima da linha de “break-even”. ming soils and creating legends for tion and pollution: agro-forestry
A poupança (»200 € ha-1) apresen- soil maps. World Soil Resources recycling organic waste). (J. Q. dos
tada no cenário 4 apenas considera Reports 106. Food and Agricultu- Santos, Ed.). Lisboa.
os custos associados ao P e K, no en- re Organization of the united na- Serrano, J. M., Peça, J. O., da Silva, J.
tanto, a mesma metodologia pode ser tions. Rome 2014. Available online: R. M., Shahidian, S., & Carvalho, M.
aplicada para melhorar a aplicação de http://www.fao.org/publications/ (2010). Phosphorus dynamics in
azoto o que pode aumentar significa- card/en/c/942e424c-85a9-411d- permanent pastures: Differential
tivamente o valor da poupança. Uma a739-22d5f8b6cc41/, accessed on fertilizing and the animal effect.
poupança de »200  € ha-1 no P e K December 10, 2014. Nutrient Cycling in Agroecosyste-
equivale, aos preços atuais do milho, a Goovaerts, P. (1998). Geostatistical ms, 90(1), 63–74. doi:10.1007/s10705-
mais de 1 t ha-1 de produção de milho, tools for characterizing the spa- 010-9412-2
o que nos moldes atuais é um valor al- tial variability of microbiological Sharpley, A. N. (1995). Soil phospho-
tamente significativo tendo em conta and physico-chemical soil pro- rus dynamics: agronomic and
as margens económicas da cultura. perties. Biology and Fertility of environmental impacts. Ecologi-
Soils, 27(4), 315–334. doi:10.1007/ cal Engineering, 5(2-3), 261–279.
s003740050439 doi:10.1016/0925-8574(95)00027-5
CONCLUSÕES Hirzel, A., & Guisan, A. (2002). Whi- Withers, P. J. a., Edwards, a C., & Foy,
Os resultados deste estudo sugerem ch is the optimal sampling stra- R. H. (2001). Phosphorus cycling
o seguinte: (i) para otimizar os nutrien- tegy for habitat suitability mo- in UK agriculture and implications
tes na fertilização da cultura do milho delling. Ecological Modelling, for phosphorus loss from soil. Soil
e reduzir os riscos económicos, é ne- 157(2-3), 331–341. doi:10.1016/ Ub se and Management, 17(3),
cessária a seguinte informação: mapas S0304-3800(02)00203-X 139–149. doi:10.1111/j.1475-2743.2001.
de produtividade, mapas de nutrien- Howarth, R. W., Sharpley, A., & Walker, tb00020.
tes, os custos associados com a ativi- D. (2002). Sources of nutrient
dade e o preço expectável do milho; pollution to coastal waters in the
(ii) a partir da informação anterior ob- United States: Implications for
têm-se os rácios dos nutrientes (e.g., achieving coastal water quality
rpp e rpk) e o “break-even” da produ- goals. Estuaries, 25(4), 656–676.
tividade permitindo dessa forma con- doi:10.1007/BF02804898
ceber uma estratégia diferenciada de Isaaks, E. H., & Srivastava, R. M. (1989).
fertilização; (iii) o melhor cenário (pou- An Introduction to Applied Geos-
panças de »200  € ha-1) considerou a tatistics. New York, 21(4), 592.
fertilização diferenciada nas áreas de doi:10.1016/0040-1951(74)90006-7
produtividade acima do “break-even” Marques da Silva, J. R., & Silva, L. L.
e um rpp superior a 0,12 t ha-1 (mg kg-1)- (2006). Relationship between
1
; (iv) esta estratégia de fertilização di- Distance to Flow Accumulation
ferenciada alcança a melhor eficiência Lines and Spatial Variability of
económica, agronómica e ambiental Irrigated Maize Grain Yield and
na fertilização do milho. Moisture Content at Harvest.

Agrobótica · junho / julho / agosto 19